Barbara Crooker – Às vezes, sou arrancada de mim mesma

Às vezes, sou arrancada de mim mesma,

como nesta manhã, quando os gansos selvagens chegaram grasnando,
batendo suas dobradiças enferrujadas, e algo em sua jornada
pelo céu me fez pensar na minha vida, nos lugares
da ruptura, nos da tristeza, e naqueles onde o luto
me consumiu até a última gota. E então os gansos apareceram,
o líder recuando quando cansado, outro assumindo seu posto.
A esperança voa em asas. Veja as árvores. Douram-se
por um breve instante, depois se despem, novembro após novembro.
Nos meses frios, resistem, enfrentando o pior
que o tempo oferece. E ainda assim, em abril, em maio,
lançam folhas verdes, ainda tímidas. Os gansos planam sobre os milharais,
e pousam na lagoa entre caniços e juncos.
Você não precisa ser sábio. Até um ganso sabe onde
se abrigar, onde o milho ainda repousa entre o restolho e os talos secos.
Tudo o que fazemos é passar por aqui, da melhor maneira possível.
Eles costuram o céu, e ele volta a ser inteiro.

Trad.: Nelson Santander

Sometimes, I Am Startled Out of Myself

like this morning, when the wild geese came squawking,
flapping their rusty hinges, and something about their trek
across the sky made me think about my life, the places
of brokenness, the places of sorrow, the places where grief
has strung me out to dry. And then the geese come calling,
the leader falling back when tired, another taking her place.
Hope is borne on wings. Look at the trees. They turn to gold
for a brief while, then lose it all each November.
Through the cold months, they stand, take the worst
weather has to offer. And still, they put out shy green leaves
come April, come May. The geese glide over the cornfields,
land on the pond with its sedges and reeds.
You do not have to be wise. Even a goose knows how to find
shelter, where the corn still lies in the stubble and dried stalks.
All we do is pass through here, the best way we can.
They stitch up the sky, and it is whole again.

Rainer Maria Rilke – A Pantera (em 3 traduções)

A PANTERA – trad. Augusto de Campos

(No Jardim des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

A PANTERA – Trad. Geir Campos

(No Jardin des Plantes, Paris)

Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo:
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído — e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranqüilas
patas, ao coração, para aí ficar.

A PANTERA – Trad. José Paulo Paes

(No Jardin des Plantes, Paris)

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
está fatigado, já nada retém.
É como se existisse uma infinidade
de grades e mundo nenhum mais além.

O seu passo elástico e macio, dentro
do círculo menor, a cada volta urde
como que uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
ergue-se em silêncio. – Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha –
e se apaga quando chega ao coração

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 02/04/2016

Der Panther

Im Jardin des Plantes, Paris

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden,dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille –
und hört im Herzen auf zu sein.

Alan Dugan – Análise marxista do quinto trabalho de Hércules

Os estábulos de Augias estavam tão atolados em bosta de cavalo
que os nobres da cidade vieram zombar de Hércules
quando lhe mandaram limpá-los com as próprias mãos.
Queriam vê-lo de joelhos, imundo,
só cu e cotovelos num vaivém interminável por anos.
Em vez disso, ele arrancou um rio de seu leito a montante
e soltou as águas bravias rugindo pelo lugar
e lavou tudo, tudo,
e digo tudo mesmo –
a bosta, os cavalos,
os estábulos, e também os nobres,
que estavam lá, parados, prontos para fodê-Lo,
Hércules, Domador de Rios. Conclusão:
Condições revoltantes exigem soluções revolucionárias.

Trad.: Nelson Santander

Marxist Analysis of the Fifth Labor of Hercules

The Augean stables were so full of horseshit
that the Augean nobles came to laugh at Hercules
when he was told to muck them out by hand.
They hoped to see him filthy on his knees,
all asshole and elbows going fast for years.
Instead he wrenched a river from its bed upstream
and set wild water roaring through the place
and washed it all away, all
the horseshit, and I mean all
the horseshit – the horseshit, the horses,
the stables, and the nobles too,
standing around ready to bugger Him,
Hercules, Wrestler of Rivers. Conclusion:
Revolting conditions elicit revolutionary solutions.

Konstantinos Kaváfis – O Prazo de Nero

Não ficou perturbado Nero quando ouviu
do Oráculo de Delfos o prenúncio:
“Teme ao ano septuagésimo terceiro.”
Tinha tempo bastante a desfrutar.
Só contava trinta anos. Muito dilatado
era o prazo que o Deus lhe concedia
para cuidar-se dos riscos do futuro.

Agora vai voltar a Roma um tanto fatigado
da magnífica fadiga que se traz de uma viagem
toda feita de dias de prazer –
nos jardins, nos teatros, nos ginásios…
Ah tardes das cidades da Acaia…
Ah a volúpia de corpos desnudos, sobretudo…

Isto com Nero. Na Espanha todavia, Galba
secretamete congrega suas tropas e as exercita,
Galba, um velho: setenta e três anos de idade.

Trad. José Paulo Paes

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 29/03/2016

Carol Ann Duffy – Aliança

Quando a retirei de seu dedo
e a coloquei no meu,
casei-me com sua ausência;
os anos entre sua partida e a minha.
O pequeno o no amor e na dor.

Trad.: Nelson Santander

Wedding Ring

When I eased it from her finger
and onto my own,
I married her absence;
the years between her passing and mine.
The small o in love and loss.

Ana Martins Marques – Há estes dias em que pressentimos na casa…

Há estes dias em que pressentimos na casa
a ruína da casa
e no corpo
a morte do corpo
e no amor
o fim do amor
estes dias
em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo
e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde
não são coisas que se expliquem
apenas são dias em que de repente sabemos
o que sempre soubemos e todos sabem
que a madeira é apenas o que vem logo antes
da cinza
e por mais vidas que tenha
cada gato
é o cadáver de um gato

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 29/03/2016

Anthony Abbott – Luz do entardecer

As árvores se despem devagar, do alto.
Braços nus se arqueiam bronzeados contra o céu. É
o por do sol. Saias alaranjadas giram na terrível luz
que morre. O chão está coberto de ouro.

Capturo a cena com o obturador do olhar —
capturo, prendo, marco — este azul, estes vermelhos
e os verdes que resistem — ferrugens no chão.
Curvo-me, recolho e detenho uma folha seca.

Ela se esfarela na mão, e vejo uma imagem
do jornal matinal ganhar voz como se viva.
Cinco crianças turcas mortas em um terremoto
jazem no chão, como se dormissem.

A mãe grita sobre delas, a boca dilacerada de horror,
enquanto no Kentucky e Ohio outras mães choram
em lenços limpos e brancos, enquanto o Toque do Silêncio
toca e bandeiras são postas em seus colos vazios.

Chapéus não bastam. Nunca é a hora certa.
A beleza está sempre quase partindo. Este vestido,
esta inclinação de cabeça, este toque, este cacho de cabelo,
esta barba grisalha, aquele olhar sobre o ombro.

Somos levados tão de repente que a respiração se vai
num branco espanto. Se eu soubesse não é
o bastante. Diga agora. Diga agora. Diga agora.
Antes que o obturador clique mais uma vez e se feche.

Trad.: Nelson Santander

Evening Light

The trees undress slowly from the top.
Bare arms arc brownly into the sky. It is
sunset. Orange skirts swirl in an awful
dying light. The ground is littered gold.

I stop the scene with the shutter of my eye—
stop and hold and mark—this blue, these reds
and holding greens—those rusts upon the ground.
I stoop and pick and hold this one dry leaf.

It crumbles in my hand, and I see a picture
from the morning paper speak as if alive.
Five Turkish children killed by earthquake
lie upon the ground, seemingly asleep.

The mother screams above, mouth horror ravaged,
while in Kentucky and Ohio other mothers weep
into clean white handkerchiefs as taps are played
and flags are placed into their hollow laps.

Hats do not suffice. The time is never right.
Beauty is always almost gone. This dress, this
cock of the head, this touch, this curl of hair,
this graying beard, that look over the shoulder.

We are taken so suddenly, the breath goes
in white astonishment. If I had known is not
enough. Say it now. Say it now. Say it now.
Before the shutter clicks once more and closes.

Moshé Ibn Ezra – São Túmulos de Tempos Antigos, Velhos

São túmulos de tempos antigos, velhos.
Neles há gente que dorme um sono eterno.
Nem ódio, nem inveja há no seu interior,
nem amor, nem zangas de vizinhos.
Os meus pensamentos não podem, quando os veem,
distinguir entre servos e senhores.

Versão de Francisco José Viegas, tradução do hebraico de Maria José Cano.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 28/03/2016

Najwan Darwish – Fobia

serei banido da cidade
antes que a noite caia: alegarão
que não paguei pelo ar
serei banido da cidade
antes que anoiteça: alegarão
que não paguei aluguel pelo sol
nem taxas pelas nuvens
serei banido da cidade
antes que o sol nasça: dirão
que fiz infeliz a noite
e falhei em louvar as estrelas
serei banido da cidade
antes mesmo de deixar o ventre
porque tudo o que fiz por sete meses
foi escrever poemas e esperar para ser
serei banido do ser
porque sou afeito ao vazio
serei banido do vazio
por meus laços suspeitos com o ser
serei banido do ser e do vazio
porque nasci do devir

serei banido

Trad.: Nelson Santander, a partir da versão em inglês traduzida do árabe por Kareem James Abu-Zeid

N. do T.: Najwan Darwish (n. 1978) é um dos principais poetas palestinos contemporâneos. Nascido em Jerusalém, sua obra mistura lirismo, crítica política e reflexão filosófica, explorando temas como exílio, identidade e resistência. Seus poemas, traduzidos para diversas línguas, têm ganhado crescente reconhecimento no cenário literário internacional. Clique aqui para ler outros poemas palestinos já publicados no blog.

Phobia

I’ll be banished from the city
before night falls: They’ll claim
I neglected to pay for the air
I’ll be banished from the city
before the advent of evening: They’ll claim
I paid no rent for the sun
nor any fees for the clouds
I’ll be banished from the city
before the sun rises: They’ll say
I gave night grief
and failed to lift my praises to the stars
I’ll be banished from the city
before I’ve even left the womb
because all I did for seven months
was write poems and wait to be
I’ll be banished from being
because I’m partial to the void
I’ll be banished from the void
for my suspect ties to being
I’ll be banished from both being and the void
because I was born of becoming

I’ll be banished

Sharon Olds – A linha

Quando compreendemos que poderia ser câncer,
deitei-me ao seu lado durante a noite,
a palma da mão repousada no sulco do seu peito,
a nervura de uma folha. Não havia possibilidade
de fazer amor: no fundo do meu corpo, aquele
pequeno nódulo duro. À meia-luz da minha meia-vida,
minha mão na bela
fissura afiada do seu peito, o vale da
sombra da morte,
só existia o momento presente e, enquanto
você dormia no silêncio, eu o observei como quem observa
um recém-nascido, consciente a cada instante do
milagre, da linha que fora cruzada
para fora da escuridão.

Trad.: Nelson Santander

The Line

When we understood it might be cancer,
I lay down beside you in the night,
my palm resting in the groove of your chest,
the rachis of a leaf. There was no question of
making love: deep inside my body that
small hard lump. In the half-light of my half-life,
my hand in the beautiful
sharp cleft of your chest, the valley of the
shadow of death,
there was only the present moment, and as
you slept in the quiet, I watched you as one watches
a newborn child, aware each moment of the
miracle, the line that has been crossed
out of the darkness.