Mês: agosto 2021
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Denise Levertov – Conversando com a dor

Ah, dor, eu não deveria trata-la como um cão vira-latasque vem à porta dos fundospor uma migalha, por um osso descarnado.Eu deveria confiar em você. Eu deveria persuadi-laa entrar em casa e dar-lheo seu próprio canto,um tapete usado para se deitar,sua própria tigela de água. Você pensa que eu não sei que você está morandoembaixo…
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Juan Vicente Piqueras – A praga de Tebas

A praga de Tebas E o que quer que eu faça se torna para sempre o que eu fiz.Wisława Szymborska Quando a tragédia começouo crime já havia sido cometido.A tragédia era, agora, descobrir o delitoe o culpado. Eu teria preferido a ignorância.Tu optaste por indagar contra ti. O passado é mais forteque Deus. Ninguém, nem…
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Joseph Stroud – Nós

Tentando amarrar meus sapatos, desajeitado, incapaz de descobrira lógica disso, atrapalhado, enquanto meu pai fica ali,sua raiva crescendo por um filho que não consegue fazer nemessa coisa mais simples pela primeira vez, não consegue nem mesmo dar o nó para manter seus sapatos nos pés — Você acha que alguémvai amarrar seus sapatos para você…
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Jeannine Hall Gailey – Eu não paro

Eu não paro De ser alguém que busca o lado escuro.Que procura as estatísticas criminais da Disneylândia.Que procura por monstros sob a cama.Além disso, não paro de tirar fotos de floresembora tenhamos nove meses de chuva.Não paro de me perguntar se os colibris daquiestão condenados, se os gansos-das-neves serão envenenadosem um abandonado lago de mina…
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David Budhill – O lenhador muda de ideia

Quando eu era jovem, cortei as árvores maiores e mais velhas para lenha, aquelaspodres em seu cerne, de galhos mortos e partidos, as mutiladas e deformadas porque, raciocinei, elas tombariam logo de qualquer forma, epor isso, eu deveria dar às mais jovens mais luz e espaço para vicejarem. Agora que estou velho derrubo as árvores…
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Ricardo Silvestrin – Sacos

Estamos repletos de inutilidades,suas, minhas,inutilidades de família,de valor inestimável. Quinquilharias, ninharias,boiando no pó, atiradas em caixas,envelopes rasgados, gavetas. Ninguém se arrisca a botar foraesses tesouros de um reino perdidoentre os guardados. Em quantos sacos de lixo,sacos grandes de cem litros,vai caber todo o passado? Adquira outras obras de Ricardo Silvestrin clicando aqui