Denise Levertov – Conversando com a dor

Ah, dor, eu não deveria trata-la
como um cão vira-latas
que vem à porta dos fundos
por uma migalha, por um osso descarnado.
Eu deveria confiar em você.

Eu deveria persuadi-la
a entrar em casa e dar-lhe
o seu próprio canto,
um tapete usado para se deitar,
sua própria tigela de água.

Você pensa que eu não sei que você está morando
embaixo do meu alpendre.
Você anseia que o seu verdadeiro lugar esteja preparado
antes que chegue o inverno. Você precisa
do seu nome,
da uma coleira e um identificador. Você precisa
do direito de alertar os intrusos,
de considerar minha a sua casa
e a mim sua dona
e você mesma
minha próprio cadela.

Trad.: Nelson Santander

Talking to Grief

Ah, grief, I should not treat you
like a homeless dog
who comes to the back door
for a crust, for a meatless bone.
I should trust you.

I should coax you
into the house and give you
your own corner,
a worn mat to lie on,
your own water dish.

You think I don’t know you’ve been living
under my porch.
You long for your real place to be readied
before winter comes. You need
your name,
your collar and tag. You need
the right to warn off intruders,
to consider my house your own
and me your person
and yourself
my own dog.

Juan Vicente Piqueras – A praga de Tebas

A praga de Tebas

E o que quer que eu faça
se torna para sempre o que eu fiz.
Wisława Szymborska

Quando a tragédia começou
o crime já havia sido cometido.
A tragédia era, agora, descobrir o delito
e o culpado.

Eu teria preferido a ignorância.
Tu optaste por indagar contra ti.

O passado é mais forte
que Deus. Ninguém, nem Deus,
pode muda-lo. Somente a memória.

Vais envelhecendo e recordando
tudo aquilo que nunca aconteceu.

Pior que o medo do que vai acontecer
é o terror consciente
do que pode ter acontecido.

Bem-aventurados os que ignoram! Tudo o
que descobrires será um espinho a mais,
uma papoula a menos.
Espera-te o teu passado
como no fruto espera a semente
e na semente um sol que ninguém conhece.

Queres saber a causa da praga de Tebas?
Queres saber quem és? No dia em que souberes
cegar-te-á sabe-lo. Nada de novo.
Nada de novo acontece. Pouco a pouco
vais chegando ao final, vais descobrindo
o que aconteceu no início, ou talvez não.

Nada mais te separa de tua vida.
Nada mais te reserva
tantas surpresas como o teu passado.

Trad. Nelson Santander

La peste de Tebas

Y haga lo que haga
se convierte para siempre en lo que he hecho.
Wisława Szymborska

Cuando empezó la tragedia
el crimen ya había sido cometido.
La tragedia era, ahora, descubrir el delito
y el culpado.

Yo habría preferido la ignorancia.
Tú habías elegido indagar en tu contra.

El pasado es más fuerte
que Dios. Nadie, ni Dios,
puede cambiarlo. Sólo la memoria.

Vas haciéndote viejo y recordando
todo aquello que no ocurrió jamás.

Peor que el miedo a lo que va a ocurrir
é o terror atento
a lo que puede ser que haya ocurrido.

¡Dichosos los que ignoran! Cada cosa
que descubras será una espina más,
una amapola menos.
Te espera tu pasado
como en el fruto espera la semilla
y en la semilla un sol que nadie sabe.

¿Quieres saber la causa de la peste de Tebas?
¿Quieres saber quién eres? El día que lo sepas
te cegará saberlo. Nada nuevo.
Sem ocurre nada novo. Pouco a pouco
vas llegando al final, vas descubriendo
lo que ocurrió al principio, o tal vez no.

Ya nada te separa de tua vida.
Ya nada te depara
tantas sorpresas como tu pasado.

Joseph Stroud – Nós

Tentando amarrar meus sapatos, desajeitado, incapaz de descobrir
a lógica disso, atrapalhado, enquanto meu pai fica ali,
sua raiva crescendo por um filho que não consegue fazer nem
essa coisa mais simples pela primeira vez, não consegue nem mesmo
dar o nó para manter seus sapatos nos pés — Você acha que alguém
vai amarrar seus sapatos para você pelo resto de sua vida?
Não, respondo, quarenta e cinco anos mais tarde, atando meu sapato,
as mãos tremendo com essa lembrança. Meu pai
e todos aqueles anos da infância sem conseguir descobrir
o quanto ele me amava, um nó tão apertado que levei a minha vida toda
para desatar.

Trad.: Nelson Santander

Knots

Trying to tie my shoes, clumsy, not able to work out
the logic of it, fumbling, as my father stands there,
his anger growing over a son who can’t even do
this simplest thing for the first time, can’t even manage
the knot to keep his shoes on—You think someone’s
going to tie your shoes for you the rest of your life?

No, I answer, forty-five years later, tying my shoe,
hands trembling with this memory. My father
and all those years of childhood not being able to work out
how he loved me, a knot so tight it has taken all my life
to untie.

Jeannine Hall Gailey – Eu não paro

Eu não paro

De ser alguém que busca o lado escuro.
Que procura as estatísticas criminais da Disneylândia.
Que procura por monstros sob a cama.
Além disso, não paro de tirar fotos de flores
embora tenhamos nove meses de chuva.
Não paro de me perguntar se os colibris daqui
estão condenados, se os gansos-das-neves serão envenenados
em um abandonado lago de mina de cobre em Montana,
se esse vírus chegará até nós antes de desenvolvermos uma vacina.
Então, eu não paro de escrever a história do apocalipse repetidas vezes.
Já imaginei o fim antes mesmo de começar —
Eu escrevi um poema sobre o inverno nuclear quando tinha sete anos.
Havia um garoto com uma simbólica capa verde de chuva.
Eu assisto futebol já pensando nos jogadores com os ossos partidos.
Eu vejo as guerras pensando nas pessoas trazidas de volta
com os membros faltando, pesadelos, tremores.
Não paro de pensar nas águas-vivas se acumulando
em nossas aquecidas costas oceânicas, na orca carregando sua cria morta.
Quando estou no túnel de ressonância, não paro de pensar
em todos os episódios de Arquivo X ou de House em que as pessoas
tiveram convulsões dentro do túnel, por razões inexplicáveis.
Esta noite estou me perguntando se vinte e quatro anos de casamento
são demais. Olho para a minha foto aos dezenove,
meus olhos ainda esperançosos mas também com medo. Eu me pergunto quando
alguém que amo morrerá. Eu me pergunto quantos feriados mais
tenho para celebrar. Eu já lhe disse, não consigo parar de apresenta-lo
às muitas nuvens em meu horizonte. Prefiro falar-lhe
sobre meu incessante amor pelas cerejas Rainier
ou por beijos na chuva. Meu incessante amor até mesmo
por jogos arcades antigos, pelo som deles. Não paro
de pensar no Relógio do Juízo Final, quão próximo estamos
de nos perder, nosso planeta em plena explosão do sol.

Trad.: Nelson Santander

I Can’t Stop

Being a person who looks for the dark side.
Looking up crime statistics at Disneyland.
Looking for monsters under the bed.
Also, I can’t stop taking pictures of flowers
even though mostly we have nine months of rain.
I can’t stop wondering if the hummingbirds here
are doomed, if the snow geese will be poisoned
at an abandoned copper mine lake in Montana,
if that virus will reach us before we develop a vaccine.
So, I can’t stop writing the apocalypse story over and over.
I’ve imagined the end before I’d even begun—
I wrote a nuclear winter poem when I was seven.
There was a boy in a symbolic green raincoat.
I watch football thinking of the boys with broken bones.
I watch wars thinking about people brought home
with missing limbs, nightmares, tremors.
I can’t stop thinking about the jellyfish massing
in our warming ocean coast, the orca carrying her dead calf.
When I’m in the MRI tube, I can’t help but think
of all the episodes of X-Files or House where people
had seizures within the MRI tube, for unexplained reasons.
Tonight I wonder if twenty-four years of marriage
are too many. I look at the picture of me at nineteen,
my eyes still hopeful but also afraid. I wonder when
someone I love will die. I wonder how many more holidays
I will celebrate. I told you, I can’t stop introducing you
to so many clouds on my horizon. I’d rather tell you
about my nonstop love of Rainier cherries
or kissing in the rain. My nonstop love of even
old arcade games, the sound of them. I can’t stop
thinking of the Doomsday Clock, how close we are
to spinning out, our planet into the full blast of the sun.

David Budhill – O lenhador muda de ideia

Quando eu era jovem, cortei as árvores maiores e mais velhas para lenha, aquelas
podres em seu cerne, de galhos mortos e partidos, as mutiladas e deformadas

porque, raciocinei, elas tombariam logo de qualquer forma, e
por isso, eu deveria dar às mais jovens mais luz e espaço para vicejarem.

Agora que estou velho derrubo as árvores mais jovens, fortes e robustas, firmes
e bonitas, e permito que as mais velhas tenham mais alguns anos

de luz e água e folhagem na floresta que elas conhecem há tanto tempo.
Em pouco tempo elas estarão abatidas no chão.

Trad.: Nelson Santander

The Woodcutter Changes His Mind

When I was young, I cut the bigger, older trees for firewood, the ones
with heart rot, dead and broken branches, the crippled and deformed

ones, because, I reasoned, they were going to fall soon anyway, and
therefore, I should give the younger trees more light and room to grow.

Now I’m older and I cut the younger, strong and sturdy, solid
and beautiful trees, and I let the older ones have a few more years

of light and water and leaf in the forest they have known so long.
Soon enough they will be prostrate on the ground.

Ricardo Silvestrin – Sacos

Estamos repletos de inutilidades,
suas, minhas,
inutilidades de família,
de valor inestimável.

Quinquilharias, ninharias,
boiando no pó, atiradas em caixas,
envelopes rasgados, gavetas.

Ninguém se arrisca a botar fora
esses tesouros de um reino perdido
entre os guardados.

Em quantos sacos de lixo,
sacos grandes de cem litros,
vai caber todo o passado?

Adquira outras obras de Ricardo Silvestrin clicando aqui