Tag: Francisco Brines
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Francisco Brines – A Piedade do Tempo

Em que escuro recanto do tempo que morreuvivem ainda,a arder, aquelas coxas? Dão luz aindaa estes olhos tão velhos e enganados,que voltam agora a ser o milagre que foram:desejo de uma carne, e a alegriado que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagemque já nunca saberemos se existiu,pois só pertence…
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Francisco Brines – Aquele verão de minha juventude

E o que restou daquele distante verãonas costas da Grécia?O que resta em mim do único verão de minha vida?Se pudesse escolher, de todos em que vivi,algum lugar, e o tempo que o ata,sua milagrosa companhia me arrasta até lá,onde ser feliz era a razão natural de existir. Perdura a experiência, como um quarto fechado…
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Francisco Brines – Os Verões

A Carmen Marí Foram longos e ardentes os verões!Ficamos nus juntos ao mar,e o mar ainda mais nu. Com os olhos,e em corpos ágeis, praticávamosa mais prazerosa posse do mundo. Éramos tocados por vozes banhadas de lua,e era a vida vulcânica e violenta,ingratos com o sonho, fluíamos.O ritmo sombrio das ondasnos abrasava eternamente, e éramos…
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Francisco Brines – O Triunfo do Amor

Eu te amei em Queroneia. Vivos éramos.Em meio à tristeza derruída,um sopro mortal: éramos vivos.Séculos se passaram, e outros olhoscontemplam as ruínas, ainda intactas.Quem percorreu este lugar? Apenas o vaziofoi o tecido do tempo nesta planície. Eu te amei em Queroneia. Impalpávelera o calor das cinzas humanas,e na manhã solitária jazemsombras de colunas tombadas, corposardentes…
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Francisco Brines – “Collige, virgo, rosas”*

Já estás com quem desejas. Ri e goza. Ama.E inflama-te na noite que agora se inicia,e entre tantos amigos (e comigo)abre os grandes olhos para a vidacom a avidez preciosa dos teus anos.A noite, longa, extinguir-se-á com a aurora,e virão esquadrões de espiões com a luz,apagar-se-ão as estrelas, e também a lembrança,e a alegria findará…
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Francisco Brines – Os Prazeres Inferiores

Não desdenhes as paixões vulgaresTens os anos necessários para saberque elas se correspondem exatamente com a vida.Não reduzas sua ação,pois se do breve tempo em que consistesas retiras,é ainda o existir mais imperfeito.Descobre sua verdade por trás da aparência,e assim não haverá falsidade,não poderás fingir que foi razão de vida o que foi só passagem.Mas…
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Francisco Brines – Esplendor negro

Somente uma vez experimentaste aquele Esplendor negro,e intermitentemente recordas a experiência com imprecisão,aproximações difusas, iminências,e assim, desde a tua juventude, arrastas frioum invisível manto escarlate de cinzas.E não foi necessário cegar os olhos,pois das brancas luzes das estrelaschegou aquele delírio, a possibilidade mais exata e singela:em vez de Deus ou do mundoaquele negro Esplendor,que nem…
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Francisco Brines – A realidade não permanece

Esta tarde rebelde me leva a Bathe a ti, mas não à cidade de ruastranquilas, nem a quem tu deves ser hoje.O quarto fica maior na penumbraenquanto chove suavemente na rua.Há, na lareira, um fogo que aquecenossos corpos nus, e que iluminao vasto espaço de forma insuficiente.És a luz que o fogo de teus cabelose…
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Francisco Brines – Últimos dias

Na herdade ele confina a memóriae o corpo que declina. Tudo morresobre este mundo vivo; e a laranjeira,e o voo do pombo, são traspassadospor um raio outonal de azul.Acompanham-lhe os livros; as caminhadastrazem até ele o odor de rosas abertas,e o suave abatimento dos dias.Ele ardeu na solidão, e agora escutaa primavera viva dos melros.Dias…
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Francisco Brines – Discurso pagão

Achais, por acaso, que por crerdesna imortalidadeela vos deve ser dada?Ela é obra da fé, do egoísmoou da desolação.E, se existe, não importa não haverdes nela acreditado:respostas ignorantes são todas humanasse a morte interroga. Continuai com vossos faustosos ritos, oferendas aos deuses,ou grandes monumentos funerários,as acolhedoras preces, vossa esperança cega.Ou aceitai o vazio que virá,onde…