Tag: Poema
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Antonia Pozzi – Morte de uma estação

Choveu toda a noite sobre as memórias do verão. Ao anoitecer saímos no meio de um ribombar lúgubre de pedras e, parados na margem, levantamos as lanternas para explorar o perigo das pontes. Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas ensopadas e pousadas sobre os fios à espreita de indícios secretos de partida – e refletiam-nas…
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Tarso de Melo – Raiz e minério

ainda é possível ouvir (mais fundo, mais fundo,você encontra) o som da lama se arrastando por baixodas portas e aos pés do sofá (o que há é o homem,esse bicho) nos vãos da estante e no meio dos livrosnas gavetas da geladeira (que invade a terra procurandooutro homem) na altura do peito e entre os…
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A. M. Pires Cabral – Folha rubra

É bom sermos como essas folhas verdes que prolongam todo o ano a Primavera. Mas melhor do que isso é sermos como aquela folha rubra que antes das outras pressentiu o Outono e vestiu para ele a sua melhor cor, mesmo sabendo que o Inverno tem um plano para em breve a dissolver no chão.
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Nuno Júdice – Outra Imagem

Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terra Por cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos. Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomes Familiares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros – música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campas ao fim da tarde, com…