Mês: maio 2019
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Manuel António Pina – Sérgio

Onde agora estás não alcançam o clamor dos magistrados nem a faca do assassino. A tua própria morte não te pertence já, é assunto nosso, desprovido e inerte. Que faremos nós com o teu inúmero corpo, como te diremos o que está a acontecer-te? Fechou-se qualquer coisa qualquer porta espessa e desabitada, a faca pôs…
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Andreia C. Faria – As mulheres têm formas mais curiosas

As mulheres têm formas mais curiosas Se eu montasse um circo, em vez de elefantes teria Senhoras com os seus diferentes peitos coxas e rabos, todo o corpo fingimento, adereço Senhoras com os seus diferentes almoços, amantes e diferentes níveis de tonificação da alma, rivais dos tigres desdenhosos, dos leões emparedados Em vez de macacos…
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Adelaide Ivánova – pro meu amante, quando atinge a maioridade

pra Ewout meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja belchior saiba que você chegou no dia que belchior morreu e que eu dei pausa no ‘coração selvagem’ pra te ouvir falar – e deus você fala mais do que o homem da cobra – e que isso se chama amor,…
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A. M. Pires Cabral – Não me mostres nenhum norte

Não me mostres nenhum norte nem estradas para lá: são tudo embustes. Mostra-me antes pedras, folhas mortas de Outono atapetando o chão das matas, voos de libelinha rasando o sol poente, cândidas risadas infantis. Quero eu dizer: mostra-me coisas daquelas que se corrompem sem pressa.
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Ian Hamilton – Lamento

Fiz o que pude. Meus garotos correm soltos agora.Eles buscam oportunidades enquanto a mãe deles apodrece aqui.E rua acima, o homem,Meu único homem, que me tocou em todos os lugares,Desmancha-se sob a terra. Sou triste, obtusa, velha e alienada.À noite, sinto minhas mãos vagando sobre mim,Sondando meus seios, meus joelhos,As dobras do meu ventre,Vez ou…
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Gonçalo M. Tavares – Palavras, Atos

A ironia ensina a sabotar uma frase Como se faz a um motor de automóvel: Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres No verbo ou numa letra do substantivo A frase trágica torna-se divertida, E a divertida, trágica. Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me, Desde novo, daquilo que ainda hoje…
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Manuel de Freitas – Nada de nada

para o José Carlos Soares Um dia, logo de manhã, entraremos num cemitério e perguntarás a Antonia Pozzi se estar morto é mais ou menos triste do que estes dias arduamente sepultados. Receando que saibas a resposta, beberei com Lowry a primeira ou a última tequila, na certeza de que ambos os adjetivos estarão certos…
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José Miguel Silva – Desculpas não faltam

Uma casa junto ao Vouga, rio de água suficiente, onde apenas se mergulha até à cintura, a pequena horta de Virgílio, o amor robustecido por nenhuma esperança e tantos livros para ler — que desculpa vou agora dar para não ser feliz?
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

o António Ramos Rosa estava deitado na cama contra a parede e deu meia volta sobre si mesmo e ficou de cara voltada contra a parede e fechou os olhos e fechou a boca e ficou todo fechado e então morreu todo fundo e completo de uma só vez e apenas ele no tempo e…
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são inteligentes tão subis no súbito entendimento das intenções segundas que temos em relação a eles se lhes dessem a ler bons poemas maior proveito teriam aqueles que os escrevem do que tem com A ou B eu cá por mim estou certo de que nenhum golfinho…