Dana Gioia – Obrigado por se lembrar de nós

As flores enviadas para cá por engano,
assinadas com um nome que ninguém conhece,
estão murchando. O que faremos?
Nossa vizinha diz que não são para ela,
e ninguém está perto de fazer aniversário.
Deveríamos agradecer a alguém pelo equívoco.
Será que um de nós está tendo um caso?
A princípio rimos, depois nos perguntamos.

A íris foi a primeira a morrer,
envolta em seu perfume
adocicado e persistente. As rosas
se desmancharam, pétala por pétala,
e agora as samambaias estão secando.
O quarto cheira a velório,
mas lá estão elas, à vontade demais,
acusando-nos de algum crime menor,
como o de um amor esquecido, e não conseguimos
jogar fora um presente que nunca foi nosso.

Trad.: Nelson Santander

Thanks For Remembering Us

The flowers sent here by mistake,
signed with a name that no one knew,
are turning bad. What shall we do?
Our neighbor says they’re not for her,
and no one has a birthday near.
We should thank someone for the blunder.
Is one of us having an affair?
At first we laugh, and then we wonder.

The iris was the first to die,
enshrouded in its sickly-sweet
and lingering perfume. The roses
fell one petal at a time,
and now the ferns are turning dry.
The room smells like a funeral,
but there they sit, too much at home,
accusing us of some small crime,
like love forgotten, and we can’t
throw out a gift we’ve never owned.

Gonçalo M. Tavares – Do “Diário da Peste”, 27/04/2020

Passados sete anos, duas semanas ou dois meses.
Sairá à rua uma nova espécie humana.
Cheia de vontade de construção; cheia de vontade de destruição.
Humanos 2.0.
Dois médicos beijam-se em Madrid com a máscara posta.
Os amantes, quadro de René Magritte: uma mulher e um homem beijam-se com um pano na cabeça.
A mãe de Magritte suicidou-se quando ele era adolescente.
Foi recolhida do rio com uma camisa à volta da cabeça.
Magritte estava lá, diz-se.
A camisa à volta da cabeça para ficar anónima.
Ou foi ela própria que a pôs – ou alguém para evitar que o filho a visse.
O café feito com o ritual de sempre.
Esqueço-me do final de um longo café como se até o final de uma bebida fosse terrível.
Medo do apocalipse que entra no mais mínimo dos actos.
Evitar o final das coisas.
Não bebo o final do café; falo com um amigo em Nápoles.
Ele diz-me: não bebas o final do café.
Régina, a mãe, matou-se no rio Sambre.
É difícil ter a certeza se seria uma camisa ou o vestido.
Boris Johnson regressa ao escritório na 2ª feira e na Air France dizem que a normalidade vai demorar dois anos a voltar.
Doentes com cancro adiam consultas.
Imagino que alguém interrompe a emissão da Bolsa para rezar o Pai Nosso.
Um hacker crente; exige seis Pais-Nossos e três Ave-Marias do apresentador para libertar a emissão.
O hacker está fora do século.
Não tem os mesmos deuses. Nada de dinheiro.
Exige orações.
Um historiador, Friedrich von Raumer, maravilhado com Paris do início século XX: “quem terá construído a primeira casa, quando ruirá a última”?
Talvez não exista primeira nem última.
Imagino o hacker a interromper a emissão.
A mãe pesa mais do que a força que a água faz.
Uma frase também repetida em tom de oração.
O rio faz tudo o que pode para que alguém não se afogue nele.
Mas não consegue.
O filme do coreano Lee Chang-Dong, “Poesia”.
A avó que está a ficar com Alzheimer quer escrever um poema.
Aprender poesia antes de perder a memória.
Perder memória por outro caminho.
“Para onde estás a olhar?
Para a árvore.”
O que vais fazer hoje?
Olhar para a árvore.
Tarde ocupada, olhar para: buganvília, limoeiro ou laranjeira de laranjas intragáveis.
Na cabeça, o quadro de Magritte.
Guimarães Rosa: “Medo, não, mas perdi a vontade de ter coragem”.
É um escritor russo que conta a história.
Alguém leva uma pedra para espancar o mar porque a filha se afogou ali.
É difícil uma pedra espancar o mar, mas os pais conseguem coisas que os outros humanos não.
Não terminar o dia com uma pedra.
Abro ao acaso Folhas do Jardim de Morya, o oráculo que escolhi.
Mas o sino convocará cada caminhante perdido dentro da floresta.
Gosto do começo: Mas.
Mas o sino convocará cada caminhante perdido dentro da floresta.
Quando de novo sairmos à rua que um sino qualquer exista.
Um sino para cada caminhante.

“Diário da Peste”, 27/04/2020 – Gonçalo M. Tavares

Aqui: https://expresso.pt/opiniao/2020-04-27-Diario-da-Peste.-Saira-a-rua-uma-nova-especie-humana