Mary Oliver – Devíamos estar preparados

O modo como as tarambolas choram adeus.
O modo como a raposa morta, com um olho aberto, segue fitando o declive.
O modo como as folhas caem – e então, a longa espera.
O modo como alguém diz que jamais devemos nos reencontrar.
O modo como o bolor macula o bolo,
O modo como o azedume toma a nata.
O modo como a água do rio passa depressa, sem jamais voltar.
O modo como os dias escorrem, sem jamais voltar.
O modo como alguém retorna – mas só num sonho.

Trad.: Nelson Santander

We should be well prepared

The way the plovers cry goodbye.
The way the dead fox keeps on looking down the hill with open eye.
The way the leaves fall, and then there’s the long wait.
The way someone says we must never meet again.
The way mold spots the cake,
The way sourness overtakes the cream.
The way the river water rushes by, never to return.
The way the days go by, never to return.
The way somebody comes back, but only in a dream.

Ferreira Gullar – Nova Concepção da Morte

Como ia morrer, foi-lhe dado o aviso
na carne, como sempre ocorre aos seres vivos;

um aviso, um sinal, que não lhe veio de fora,
mas do fundo do corpo, onde a morte mora,

ou, dizendo melhor, onde ela circula
como a eletricidade ou o medo, na medula

dos ossos e em cada enzima, que veicula,
no processo da vida, esse contrário: a morte

(decidida sem que se saiba de que sorte
nem por quem nem por quê nem por que côrte

de justiça, uma vez que era morte de dentro
não de fora, como as que causa externa engendra).

Ela veio chegando ao ritmo do pulso,
sem pressa nem vagar e sem perder o impulso

que empurra a vida para o desenlace, para
o ponto onde afinal o sistema dispara,

cortando a luz do corpo -e a máquina pára.
Muito antes, porém, que ocorra esse colapso,

chega o aviso da morte, indecifrado, “lapsus
linguae”, sinal errado ou mal pronunciado

no código de sais, ou não compreendido
deliberadamente: a gente faz ouvido

de mercador à voz que a morte noticia
pra não ouvi-la, já que não tem serventia

ouvi-la e assim saber que a hora está marcada.
Só para entristecer-se ante a noite estrelada?

Essa é a morte de dentro, endócrina; a de fora,
a exógena, provém do acaso, se elabora

na natureza ou então no tráfego ou no crime
e implacável chega, e nada nos exime

da injusta sentença, a moral impoluta,
a bondade, o latim, nossa boa conduta,

nada: a pedra que cai ou a bala perdida
sem razão nos atinge e acaba com a vida.

Diz-se que, dessa morte, a notícia também
nos chega, aleatória antecipação,

na pronúncia da brisa e dos búzios, além
do que se lê na carta e nas linhas da mão.

Mas, se vinda de dentro ou fora, não se altera
essencialmente o fato: a morte, por si, gera

um processo que altera as relações de espaço
e tempo e modifica, inverte, em descompasso,

o curso natural da vida: uma vertigem
arrasta tardes, sóis, desperta da fuligem

vozes, risos, manhãs já de há muito apagadas,
e as precipita velozmente, misturadas,

para dentro de si, como fazem as estrelas
ao morrer, cuja massa, ao ser prensada pelas

forças de contração da morte, se reduz
a um buraco voraz de que nem mesmo a luz

escapa, e assim também com as pessoas ocorre.
E é por essa razão que, quando um homem morre,

alguém que esteja perto e que apure o ouvido,
certamente ouvirá, como estranho alarido,

o jorrar ao revés da vida que vivera
até tornar-se treva o que foi primavera.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 28/03/2016

Dan Pagis – Escrito a lápis no vagão lacrado

sou eva
aqui neste vagão
com abel meu filho
se vires meu outro filho
caim filho do homem
diz-lhe que eu

Trad.: Nelson Santander

Nota sobre o poema: O poema de Dan Pagis condensa uma potente narrativa em poucas linhas. Já no título, “Escrito a Lápis no Vagão Selado”, estabelece-se o contexto do Holocausto — os infames vagões de trem lacrados que transportavam prisioneiros aos campos de concentração. Embora Pagis tenha sido um sobrevivente, o conhecimento de sua biografia apenas intensifica uma obra que já carrega força própria. A genialidade do texto está na fusão entre história contemporânea e arquétipos bíblicos. O autor evoca a primeira narrativa de fratricídio da humanidade para estabelecer um paralelo devastador com o genocídio do século XX. Ao referir-se a Caim como “filho do homem”, Pagis localiza a responsabilidade pelos horrores do Holocausto firmemente no âmbito humano, não no divino. O final abrupto do poema funciona como elemento crucial da narrativa. Representa tanto a interrupção brutal de vidas quanto, possivelmente, a impossibilidade de encontrar palavras diante de tamanha transgressão moral — o que fazer quando um filho mata o outro? O que dizer quando a humanidade volta-se contra si mesma? A menção ao lápis no título sugere fragilidade e possível apagamento — remetendo ao risco de esquecimento histórico e à vulnerabilidade da memória coletiva. Com poucas linhas concisas, incluindo o título, Pagis realiza uma façanha literária extraordinária: conecta o primeiro assassinato da história bíblica ao genocídio moderno, criando uma obra que, em sua aparente simplicidade, contém camadas de significado que nos confrontam com o abismo da condição humana.

Written In Pencil In The Sealed Railway-Car

here in this carload
i am eve
with abel my son
if you see my other son
cain son of man
tell him that i

Bob Hicok – Experiência não mediada

Ela faz isso. Nossa cachorra
de dezessete anos. Quase surda.
Quase morta, estatisticamente
falando. Quando me abaixo.
Quando ponho a boca no ouvido dela
e grito seu nome. Ela se afasta,
caminhando rumo ao nada da fala.
Chega a trotar pela estrada, orelhas em pé,
como se ouvisse minha voz chegando em casa.
É como ver uma criança
que acredita no natal, bem
antes de você queimar a árvore.
Toda vez que faço isso, penso: desta vez
ela vai se virar para mim. Desta vez
ela vai associar a voz ao rosto. Desta vez,
serei absolvido da decadência.
O que é como ser uma criança
que acredita no natal
enquanto a árvore queima, as cortinas pegam fogo,
e o Papai Noel acende um cigarro
com seu maçarico e pergunta: quer um?

Trad.: Nelson Santander

Unmediated experience

She does this thing. Our seventeen-
year-old dog. Our mostly deaf dog.
Our mostly dead dog, statistically
speaking. When I crouch.
When I put my mouth to her ear
and shout her name. She walks away.
Walks toward the nothing of speech.
She even trots down the drive, ears up,
as if my voice is coming home.
It’s like watching a child
believe in Christmas, right
before you burn the tree down.
Every time I do it, I think, this time
she’ll turn to me. This time
she’ll put voice to face. This time,
I’ll be absolved of decay.
Which is like being a child
who believes in Christmas
as the tree burns, as the drapes catch,
as Santa lights a smoke
with his blowtorch and asks, want one?

Stanley Plumly – Jesus chorou

A frase mais curta, creio, no Novo Testamento.
Fala da ressurreição de Lázaro, e não menos,
da crucificação do próprio Jesus, quando os fariseus
compreendem o poder de uma voz que podia invocar os mortos.
Jesus parece ter-se identificado com esse irmão de Marta
e Maria, com toda comunidade em pranto.
Tirai a pedra. Lázaro, vem para fora. E aquele que estava
morto saiu, mãos e os pés atados por faixas;
o rosto envolto num sudário. Desatai-o
e deixai-o ir.


Então por que choro agora sem cessar, eu
que não quero ser chamado para fora, muito menos envolto
em branco? Creio na morte, creio na última árvore que verei,
talvez com vento nela justo no instante em que muda de cor.
Creio no pranto dos meus amigos e na terrível tristeza
de minha mulher – mas por que, deste lado das coisas, com a morte ainda
apenas um pequeno segredo movendo-se dentro de mim, estou tão ferido
de autopiedade, como se, um por um, tudo o que eu tocasse desaparecesse,
como se tudo o que olho com profundidade se tornasse, de repente, invisível?

Será a solidão, o corpo ausente, a mesa, a cadeira
e a tigela onde flutuavam flores indiferentes?
De modo que tudo o que resta seja o que a alma é – uma substituta?
Quando estava vivo, lembro de me sentir às vezes fora
de mim, como se já houvesse partido para outro lugar e,
por um instante, estivesse em dois lugares ao mesmo tempo, lugar nenhum
e um lugar sem mim: um momento, suponho, tão solitário que bastaria
para fazê-lo chorar – não tanto na hora, mas depois,
quando a ausência permaneceu em você e se tornou você.

Trad.: Nelson Santander

Jesus Wept

The shortest sentence, I believe, in the New Testament.
Having to do with the raising of  Lazarus, and no less
the crucifixion of  Jesus himself once the Pharisees
realize the power of a voice that can call forth the dead.
Jesus seems to be identifying with this brother of Martha
and Mary, with in fact the whole weeping community.
Take away the stone, Lazarus come forth, and he that was
dead came forth, bound hand and foot with graveclothes;
and his face was bound about with a napkin. Loose him
and let him go.


Then why am I now weeping all the time,
who does not want to be called forth, let alone wrapped
in white? I believe in death, I believe in the last tree I will
ever see, perhaps with wind in it just as it’s turning color.
I believe in my friends’ weeping and in the terrible sorrow
of my wife, but why, on this side of things, with death still
only a small secret moving inside me, am I so hurt with pity
for myself, as if, one by one, anything I touch will disappear,
whatever I see deeply will suddenly become invisible to me?

Is it the loneliness, the body gone, the table and the chair
and the bowl that had the heartless flowers floating in it?
So that all that is left is whatever a soul is as your stand-in?
When I was alive I remember feeling myself  beside myself
sometimes, as if I’d already passed to somewhere else and
for that moment was in two places at once, no place and
a place without me: a moment, I suppose, so lonely it was
enough to make you weep, though not so much then but
later when the absence stayed with you and became you.

Stanley Plumly – Lázaro ao amanhecer

Toda a vida somos dois – e um nos é tirado.
O ar e o fogo insuficientes,
a alegria insuficiente, as trevas
do quarto se acumulam na janela
até voarem, asa sobre asa sobre asa aberta
contra a vidraça, abrindo e fechando,
osso, sangue, punho. Mas nada acontece
além da exaustão e do testemunho do olhar,
o romper do dia em nuvens rubro-dourada

com os objetos que flutuavam no escuro
escoando de volta à origem, flutuando de volta
à tensão superficial das coisas, esses objetos
atingidos como a luz que, de súbito, irrompe
– depois desliza em relevo pela sala,
o jardim de sombras da janela regressando uma
última vez, mais uma, das folhas. Despertando agora,
a porta entreaberta, aberta, a cegueira
no vão, um silêncio a ser preenchido.

Um homem adoeceu de uma doença fatal.
Tudo o que queria era deitar-se,
deixar que a luz o desfizesse em poeira.
Envolveu-se, em pensamento, em sua própria
ausência. Não queria ouvir a chuva,
com seu significado, nem o instante após
a chuva, nem o som de Jesus chorando, nem
o sonho, que é memória, ainda que
jazesse há muito, frio, com a cabeça contra a pedra.

Vemos o vento passar de árvore em árvore,
milhares de folhas verdes individuais,
prateadas e fluidas nas superfícies,
a longa narrativa vazia do vento.
O vento é o vazio e a plenitude
num só sopro, e a suspensão desse sopro,
inquietude e quietude do espírito.
Vemos nosso rosto morto no vidro cinzento ao lado,
e vemos que já é tarde demais,

que a nudez ensanguentada da morte, vestida de branco, é fumaça,
o pai parado no vão da porta, branco,
a quem vemos em parte, como a manhã
que se forma, aos poucos, nos degraus
de retidão, um tipo de amanhecer crepuscular.
Nada é dito, embora ele saiba que o amamos.
Nada é dito, embora saibamos que ele nos ama.
O anseio – essa doença do coração – é
invisível, incurável, interminável.

Trad.: Nelson Santander

Lazarus at Dawn

Your whole life you are two with one taken
away. The inadequate air and fire,
the inadequate joy, the darknesses
of the room so gathered at the window
as to fly, wing on wing on wing open
against the glass, opening and closing,
bone, blood and wrist. But nothing happens
but exhaustion and evidence of the eyes,
the red-gold cloud-break morning beginning

with the objects that floated in the dark
draining back to the source, floating back to
the surface tension of things, those objects
struck the way the first light starts suddenly,
then slowly in relief across the room,
the window’s shadow garden come back one
last time once more from the leaves. Waking now,
the door half-open, open, the doorway’s
blindness or blackness silence to be filled.

A man was sick, a sickness unto death.
All he wanted to do was to lie down,
let the light pick him apart like the dust.
He wrapped himself, in his mind, in his own
absence. He did not want to hear the rain,
with its meaning, nor the moment after
rain, nor the sound of Jesus weeping, nor
the dreaming, which is memory, though he
lay a long time cold, head against the stone.

You see the wind passing from tree to tree,
thousands of green individual leaves
silver and fluid at the surfaces,
the long nothing narrative of the wind.
The wind is the emptiness and fullness
in one breath, and the holding of that breath,
restlessness and stillness of the spirit.
You see your dead face in the gray glass close,
and see that it is already too late,

that death’s blood nakedness clothed white is smoke,
the father standing in the doorway white,
whom you see in part, the way the morning
gathering is part in the slow degrees
of rectitude, a kind of twilight dawn.
Nothing is said, though he knows you love him.
Nothing is said, though you know he loves you.
Longing, as a sickness of the heart, is
invisible, incurable, endless.

Ferreira Gullar – Filhos

A meu filho Marcos

Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria
se foram
Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via crianças
já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 28/03/2016

Luís Filipe Parrado – Depois do amor

Depois do amor

De mais nada posso falar:
só deste cheiro a fruta espessa, crua,
que de ti me fica nos dedos,
na polpa, entre a pele e as unhas,
mesmo depois do sabonete e da água corrente.

Arnaldo Antunes – Casulo

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REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 27/03/2016

Garous Abdolmalekian – Molde

Molde

Teu vestido agitando ao vento.
Esta
é a única bandeira que adoro.

Trad.: Nelson Santander, a partir da versão em inglês vertida do persa por Idra Novey and Ahmad Nadalizadeh

Pattern

Your dress waving in the wind.
This
is the only flag I love.

trans. Idra Novey and Ahmad Nadalizadeh