Hoje passei pela casa
que foi nossa no último verão.
Foi só um relance
ao passar de carro –
a porta azul,
o arco de adobe pintado de flores.
Na memória,
sua van empoeirada repousa no cascalho
e você está de pé diante do fogão
enquanto eu me enrosco
no sofá com um livro,
fingindo ler,
mas secretamente
te observando, amando
o jeito como você está –
concentrado na nossa comida,
em fazê-la do jeito certo.
Com que nitidez
posso ver tudo:
os carros passando
na estrada lá fora,
você, sem camisa, inclinado sobre
uma panela de ferro,
e eu, segurando nas mãos
algumas palavras inúteis.
Nada que eu diga
vai te fazer ficar,
nada vai apagar o instante em que você se vira
pra mim, me oferecendo a colher de pau
para que eu me levante,
vá até você, e sinta o gosto
do sal na minha língua.
Trad.: Nelson Santander
Blue Door
Today I passed the house
we rented last summer.
It was only a glimpse
as I drove by-
blue door,
adobe arch painted with flowers.
In memory
your dusty van is parked on the gravel
and you’re standing at the stove
while I curl
on the couch with a book,
pretending to read,
but secretly
watching you, loving
how you look-
intent on our meal,
on getting it right.
How clearly
I can see everything:
cars passing
on the road outside,
you, shirtless, leaning over
a cast-iron pot,
me holding a few useless
words in my hands.
Nothing I’ll say
will make you stay with me,
nothing erase how you’ll turn
toward me, offering the wooden spoon
so that I get up,
and come to you, and taste
that salt on my tongue.

Deixe um comentário