Anna Kamieńska – Avós

Nossos avós estão felizes
na foto, verdes como as folhas.
Nossa jovem avó, apaixonada,
repousa a cabeça no ombro do marido.
O avô ainda não sabe que morreu.
Estufa o peito adornado com a corrente do relógio.
Com ternura, ele envolve com o braço
nossa jovem avó morta.
Ele ainda não sabe que ao lado deles
jazem primos estranhos, e seus filhos mortos,
sob o alpendre onde o café era servido
em manhãs passadas de um aprazível verão.
Nossa avó ignora por completo
que suas mãos seguram um rosário frio.
Na curva do seu pescoço, a felicidade ressoa
como música num instrumento sem vida.1

Trad.: Nelson Santander, tradução do polonês a partir da versão para o inglês feita por Grazyna Drabik and David Curzon

  1. Anna Kamieńska (1920–1986) foi uma das vozes mais singulares da poesia polonesa do século XX. Sua obra atravessa os limites da linguagem, da fé e da dor com uma delicadeza rara, usando uma linguagem enxuta, mas carregada de mundo interior. Seus versos nascem de vivências marcadas por perdas, fé vacilante e uma atenção visceral ao cotidiano — aquele mesmo que, por ser tão comum, costuma passar despercebido.

    Anna nasceu em 12 de abril de 1920, na pequena cidade de Krasnystaw, na então Segunda República da Polônia. Com a morte precoce do pai, foi criada pela mãe, Maria Romana Cękalska, ao lado das irmãs. Ainda menina, revelou vocação literária: aos 14 anos, já publicava seus primeiros poemas na revista infantil Płomyczek, sob a orientação do poeta Józef Czechowicz. Durante a ocupação nazista, viveu em Lublin, onde lecionou em escolas clandestinas — uma experiência de resistência silenciosa, que moldaria a consciência moral de sua poesia. Após a guerra, formou-se em filologia clássica pela Universidade de Łódź, fundindo a disciplina da tradição com a inquietação da criação.

    Em 1948, casou-se com o poeta e tradutor Jan Śpiewak. A parceria foi também literária: traduziram juntos autores russos e editaram diversas obras. Mas a morte repentina de Śpiewak, em 1967, mergulhou Kamieńska num luto avassalador. Essa dor abriu espaço para um reencontro com a fé católica — não como dogma, mas como abrigo para a fragilidade humana. A partir daí, sua poesia tornou-se ainda mais introspectiva, tocando zonas limítrofes entre desespero e redenção.

    Ao longo da vida, Kamieńska publicou cerca de vinte livros de poesia, além de traduções e reflexões bíblicas. Seus poemas não são feitos de grandes gestos, mas de uma escuta atenta ao que é íntimo, frágil e verdadeiro. Fala de morte, de solidão, de fé e de um sentido que se esconde nas pequenas coisas. Há uma espiritualidade silenciosa em sua escrita — não aquela que afirma certezas, mas a que aprende a conviver com o mistério.

    Kamieńska figura entre as grandes vozes da poesia polonesa moderna, ao lado de Wisława Szymborska e Czesław Miłosz. Mas sua voz é diferente: menos irônica, mais vulnerável. Mais do que uma poeta, foi uma buscadora — alguém que ousou olhar o sofrimento de frente e transformá-lo em matéria poética. Em 2007, a coletânea Astonishments: Selected Poems of Anna Kamienska apresentou ao público de língua inglesa um recorte sensível e potente de sua obra.

    Obras selecionadas
    Astonishments: Selected Poems of Anna Kamienska (2007)
    Two Darknesses (1994)
    Notatnik 1965–1972 (1973)
    Księga Koheleta (tradução, 2014)
    Rozalka Olaboga (literatura infantil)

    Kamieńska faleceu em 10 de maio de 1986, em Varsóvia. Sua poesia continua viva — não como um monumento, mas como um sussurro que atravessa o tempo, lembrando que mesmo no meio do caos é possível encontrar beleza, espanto e sentido. ↩︎

Grandparents

Our grandparents are happy
in the photo, green as a leaf.
Our young grandmother in love
lays her head on her husband’s shoulder.
Grandfather doesn’t know yet he has died.
He puffs up his chest garlanded with a fob-chain.
Indulgently he holds his arm around
our young dead grandmother.
He doesn’t know yet that next to them
strange cousins rest, and their dead children,
under the porch where breakfast was served
on past mornings of a pleasant summer.
Our grandmother doesn’t know at all
that her hands clasp a cold rosary.
In the tilt of her neck happiness plays
like music in a dead instrument.

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