Anna Kamieńska – O silêncio de Jó


tu que tinhas a boca
eloquente como as ondulações da chuva
quando discutias com Deus
sobre tua migalha de vida
por que emudeceste
quando tudo te foi restituído
vida saúde riqueza
quase uma segunda felicidade?
Por que não protestas agora?
Tornaste-te dócil como alga marinha
silencioso como uma pedra na areia
Teu olhar é de reprovação,
tuas palavras são murmúrios

Tinham teus lábios um arsenal de argumentos
como uma prostituta lançando insultos
quando exigias o que era teu
Teu eloquente Não ressoava até os céus
teu Sim agora é como o pio de uma coruja
Explica por que a miséria a dor o sofrimento
falam com a fluência dos mestres
enquanto a calma do cotidiano
tateia por palavras
gaguejando como um colegial
Talvez te envolvas no silêncio
como em um manto contra o mundo
contra a tormenta de fatos de amizades de amores
que só trazem desgosto
Talvez finjas humildade por vaidade
talvez penses:

Suportei o que é desumano
fui escolhido na alegria e na dor

Mas cuidado, Jó
qual desses silêncios
é o teu silêncio?
Talvez ele perturbe mais a Deus
do que teus antigos protestos
Julgas ter escapado à sina humana
porque uma vez escapaste?
Tens de novo muito
e muito a perder
Estás tão seguro quanto qualquer outro
como uma mosca presa num punho

Diz-nos,
tu que escapaste da morte,
que fitaste o abismo
quase te tornaste terra,
que te engasgaste com Deus –
diz-nos:
há algo lá?
Teu silêncio é esperança ou desespero?
Teus olhos estão nublados pela consciência da verdade
ou da incerteza?
Semicerrados por ironia ou arrogância?
O que estás murmurando?
São palavras apenas senis,
das quais o sentido já se esvaiu?
Chamas de silêncio o torpor senil do sono
tu, que conheceste o silêncio abissal dos oceanos
em meio à tormenta?

Mas Jó nada disse
apenas sussurrou Senhor Senhor

Trad.: Nelson Santander, tradução do polonês a partir da versão para o inglês feita por Grazyna Drabik and David Curzon

The Silence of Job

Job
you whose mouth was
eloquent as ripples of rain
when you were arguing with God
about your morsel of life
why were you silent
when you got back everything
life health riches
almost a second happiness
Why don’t you protest now
You became as meek as the sea-grass
silent as a stone on sand
You seem to scowl when you look
mutter when you talk

You had a mouth full of arguments
like a harlot hurling insults
when you clamored for your due
Your loud No resounded to the heavens
your Yes is like the peep of a night bird
Explain why misery injury suffering
are fluent as teachers
while an everyday calm
searches for words
stammering like a schoolboy
Perhaps you wrapped yourself in silence
as a cloak against the world
against the storm of events of friendships of loves
from which only trouble comes
Perhaps you pretend to be humble out of conceit
perhaps you think

I have borne the inhuman
I am chosen in happiness and in pain
Be careful Job
which of these silences
is your silence
Perhaps it troubles God
more than your protests
Do you think you’ve eluded human fate
because once you wriggled out
You again have a lot
a lot to lose
You’re as safe as everyone else
as a fly trapped in a fist

Tell us
you who escaped death
glanced into its abyss
almost turned into earth
who choked on God
tell us
does something exist there
does your calm mean despair or hope
is your eye clouded by awareness of truth
or of uncertainty
half-closed by irony or arrogance
What are you whispering
Are those merely senile words
out of which meaning has drained
You call dull senile sleep silence
you who got to know the silence of ocean depths
during a time of storm

But Job said nothing
he only whispered Lord Lord

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