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- [Antonio Cicero - Nênia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-nenia/): A morte nada foi para ele, pois enquanto vivia não havia a morte e, agora que há, ele já não vive. Não temer a morte tornava-lhe a vida mais leve e o dispensava de desejar a imortalidade em vão. Sua vida era infinita, não porque se estendesse indefinidamente no tempo mas porque, como um campo visual, não tinha limite. […]
- [Carlos Pena Filho - A Solidão e sua Porta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-pena-filho-a-solidao-e-sua-porta/): Quando mais nada resistir que valhaa pena de viver e a dor de amare quando nada mais interessar,(nem o torpor do sono que se espalha). Quando pelo desuso da navalhaa barba livremente caminhare até Deus em silêncio se afastardeixando-te sozinho na batalha a arquitetar na sombra a despedidado mundo que te foi contraditório,lembra-te que afinal […]
- [Emily Dickinson - Cemitério](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/emily-dickinson-cemiterio/): Este pó foram damas, cavalheiros, Rapazes e meninas; Foi riso, foi espírito e suspiro, Vestidos, tranças finas. Este lugar foram jardins que abelhas E flores alegraram. Findo o verão, findava o seu destino… E como estes, passaram. Trad.: Manuel Bandeira
- [Robinson Jeffers - The Inhumanist (Parte II de "The Double Axe") (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/robinson-jefferson-the-inhumanist-part-ii-of-the-double-axe/): Chegará um tempo, sem dúvida,Em que também o sol morrerá; os planetas congelarãoe o ar sobre eles; gases congelados, com flocos de arSerão a poeira: que nenhum vento jamais bulirá:essa poeira mesma a cintilar à luz baixa dos astrosÉ o vento morto, o corpo branco do vento. Também a galáxia morrerá; o brilho da Via […]
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-poema/): A PANTERA – trad. Augusto de Campos (No Jardin des Plantes, Paris) De tanto olhar as grades seu olharesmoreceu e nada mais aferra.Como se houvesse só grades na terra:grades, apenas grades para olhar. A onda andante e flexível do seu vultoem círculos concêntricos decresce,dança de força em torno a um ponto ocultono qual um grande […]
- [Ian Curtis - 24 Hours](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/ian-curtis-24-hours/): https://youtu.be/3zo4JdTfDw0 24 Horas Então isso é a permanência – o orgulho despedaçado do amor O que uma vez foi inocência perdeu sua vez Uma nuvem paira sobre mim, marca cada movimento Fundo na memória do que uma vez foi amor Oh, como eu compreendi, como eu queria tempo para Colocar em perspectiva. Tentei tanto encontrar […]
- [Augusto de Campos - o pulsar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-pulsar/)
- [Augusto de Campos - o quasar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-quasar/): Conheça outros livros de Augusto de Campos clicando aqui
- [Augusto de Campos - Tudo Está Dito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tudo-esta-dito/)
- [Augusto de Campos - Morituro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-morituro/)
- [Augusto de Campos - Tour](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tour/)
- [Augusto de Campos - Pó do Cosmos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-po-do-cosmos/)
- [Ferreira Gullar - Voltas Para Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ferreira-gullar-voltas-para-casa/): Depois de um dia inteiro de trabalho voltas para casa, cansado. Já é noite em teu bairro e as mocinhas de calças compridas desceram para a porta após o jantar. Os namorados vão ao cinema. As empregadas surgem das entradas de serviço. Caminhas na calçada escura. Consumiste o dia numa sala fechada, lidando com papéis […]
- [Mario Quintana - Amor Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/mario-quintana-amor-eterno/): Dante se enganou: Paolo e Francesca Continuariam bem juntinhos no Inferno, com pecado e tudo Juntinhos e felizes! Mas quem sabe se não seria este mesmo o castigo divino? Um amor que jamais pudesse terminar…
- [Dante Milano - Ao Tempo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/dante-milano-ao-tempo/): Tempo, vais para trás ou para diante? O passado carrega a minha vida Para trás e eu de mim fiquei distante, Ou existir é uma contínua ida E eu me persigo nunca me alcançando? A hora da despedida é a da partida A um tempo aproximando e distanciando… Sem saber de onde vens e aonde […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Carnaval](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-de-carnaval/): Distante o meu amor, se me afigura O amor como um patético tormento Pensar nele é morrer de desventura Não pensar é matar meu pensamento. Seu mais doce desejo se amargura Todo o instante perdido é um sofrimento Cada beijo lembrado uma tortura Um ciúme do próprio ciumento. E vivemos partindo, ela de mim E […]
- [Horácio - Ode XI, I](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/horacio-ode-xi-i-poema/): não me perguntes — é vedado saber — o fim que a mim e a ti darão os deuses Leucônoe nem babilônios números consultes antes o que for recebe quer te atribua Júpiter muitos invernos quer o último que o mar tirreno debilita com abruptas r o c h a s bebe […]
- [Petrarca - Soneto XXXII](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/petrarca-soneto-xxxii/): Quanto mais perto estou do dia extremo Que o sofrimento humano torna breve, Mais vejo o tempo andar veloz e leve E o que dele esperar falaz e menos. E a mim me digo: Pouco ainda andaremos De amor falando, até que como neve Se dissolva este encargo que a alma teve, Duro e pesado, […]
- [Konstantínos Kaváfis - Míris: Alexandria, 340 d. c.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/konstantinus-kavafis-miris-alexandria-340-d-c/): Quando eu soube da tragédia, que Míris estava morto,fui até sua casa, embora eviteentrar nas casas dos cristãos,principalmente em épocas de luto ou de festividades. Fiquei no corredor. Não quisavançar mais para dentro, porque percebique os parentes do morto me olhavamcom evidente surpresa e desagrado. Tinham-no colocado num cômodo amplodo qual, do ponto onde permaneci,eu […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Traduzido de Kleist](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/sophia-de-mello-breyner-andresen/): Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhanteE brilha sobre campos mais floridosMas os olhos que vêem essas maravilhasSão olhos apodrecidos
- [Antonio Cicero - Sair](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-sair/): Largar o cobertor, a cama, o medo, o terço, o quarto, largar toda simbologia e religião; largar o espírito, largar a alma, abrir a porta principal e sair. Esta é a única vida e contém inimaginável beleza e dor. Já o sol, as cores da terra e o ar azul – o céu do dia […]
- [Antonio Cicero - Perplexidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-perplexidade/): Não sei bem onde foi que me perdi; talvez nem tenha me perdido mesmo, mas como é estranho pensar que isto aqui fosse o meu destino desde o começo.
- [Giuseppe Ungaretti - Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-eterno/): Entre uma flor colhida e o dom de outra o nada inexprimível Trad.: Haroldo de Campos Eterno Tra un fiore colto e l’ altro donato l’ inesprimibile nulla.
- [Giuseppe Ungaretti - De uma Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-de-uma-estrela-a-outra/): Daquela estrela à outra A noite se encarcera Em turbinosa vazia desmesura, Daquela solidão de estrela Àquela solidão de estrela Trad: Haroldo de Campos
- [Salvatore Quasimodo - E de repente é noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite/): Cada um está só no coração da terra traspassado por um raio de sol: e de repente é noite. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Jorge Luis Borges - Limites](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/jorge-luis-borges-limites/): Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar, Há uma rua próxima que está vedada a meus passos, Há um espelho que me viu pela última vez, Há uma porta que fechei até o fim do mundo. Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os) Há algum que já nunca abrirei. Este verão […]
- [Antero de Quental - Divina Comédia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antero-de-quental-divina-comedia/): Erguendo os braços para o Céu distante E apostrofando os deuses invisíveis, Os homens clamam: – «Deuses impassíveis, A quem serve o destino triunfante, Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inextinguíveis, Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis, Num turbilhão cruel e delirante… Pois não era melhor na paz clemente Do […]
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-outrora-e-agora/): De manhã era feliz, quando jovem, E à noite chorava; já hoje, mais velho, Começo meu dia em dúvida, porém Seu fim é para mim sagrado e sereno. Trad.: Antonio Cicero Ehmals und jetzt In jüngern Tagen war ich des Morgens froh, Des Abends weint’ich; jetzt, da ich älter bin, Beginn ich zweifelnd meinen Tag, […]
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-a-brevidade/): “Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora, O canto? Quando jovem, não chegavas, Nos dias de esperança, Nunca ao fim, quando cantavas!” Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebol Banhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está fria E o pássaro da noite esvoaça incomodamente aos olhos teus. […]
- [Rainer Maria Rilke - A Morte do Poeta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/rainer-maria-rilke-a-morte-do-poeta-poema/): Jazia. A sua face, antes intensa, pálida negação no leito frio, desde que o mundo, e tudo o que é presença, dos seus sentidos já vazio, se recolheu à Era da Indiferença. Ninguém jamais podia ter suposto que ele e tudo estivessem conjugados e que tudo, essas sombras, esses prados, essa água mesma eram o […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto do Gato Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-do-gato-morto/): Um gato vivo é qualquer coisa linda Nada existe com mais serenidade Mesmo parado ele caminha ainda As selvas sinuosas da saudade De ter sido feroz. À sua vinda Altas correntes de eletricidade Rompem do ar as lâminas em cinza Numa silenciosa tempestade. Por isso ele está sempre a rir de cada Um de nós, […]
- [Wislawa Szymborska - O primeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/wislawa-szymborska-o-primeiro-amor/): Dizem que o primeiro amor é o mais importante. Isso é muito romântico, mas não é o meu caso. Algo entre nós houve e não houve, se deu e se perdeu. Não me tremem as mãos quando encontro as pequenas lembranças e o maço de cartas atadas com barbante se ao menos fosse uma fita. […]
- [Ian Hamilton - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ian-hamilton-epitafio/): O aroma de rosas velhas e tabaco Faz-me regressar. Há quase vinte anos Que não nos vemos E a nossa desapegada paixão continua. Foi isto que me deixaste: A mão, entreaberta, imóvel Sobre uma colcha verde. O bastante para erguer Alguns poemas melancólicos. Se então eu te houvesse tocado Um de nós podia ter sobrevivido. […]
- [Fernando Pessoa - Poema 165 (Cancioneiro)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/fernando-pessoa-poema-165-cancioneiro/): Tenho tanto sentimento Que é freqüente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a […]
- [Pedro Salinas - Não Te Vejo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/pedro-salinas-nao-te-vejo/): Não te vejo. Bem sei que estás aqui, atrás de uma frágil parede de ladrilhos e cal, bem ao alcance da minha voz, se chamasse. Mas não chamarei. Chamarei amanhã, quando, ao não te ver mais imagine que continuas aqui perto, ao meu lado, e que basta hoje a voz que ontem eu não quis […]
- [William Butler Yeats - Viajando para Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-b-yeats-viajando-para-bizancio-poema/): Aquela não é terra para velhos. Gente jovem, de braços dados, pássaros nas ramas — gerações de mortais — cantando alegremente, salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas, peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente. Ao som da música sensual, o mundo esquece […]
- [W. H. Auden - Blues Fúnebre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-h-auden-blues-funebre/): BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone, jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais, que emudeça o piano e que o tambor sancione a vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço, escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu. Que […]
- [Giuseppe Ungaretti - San Martino del Carso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ungaretti-san-martino-del-carso/): Valloncello dell’Albero Isolato, 27 de agosto de 1916 Destas casas nada sobrou senão alguns pedaços de muro De quantos me foram próximos nada sobrou nem tanto No coração porém nenhuma cruz me falta É o meu coração a região mais destroçada Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – San Martino Del Carso Valloncello dell’Albero Isolato […]
- [Vinicius de Moraes - Poema de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-poema-de-natal/): Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos — Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/cassiano-ricardo-a-graca-triste/): Só me resta agora Esta graça triste De te haver esperado Adormecer primeiro. Ouço agora o rumor Das raízes da noite, Também o das formigas Imensas, numerosas, Que estão, todas, corroendo As rosas e as espigas. Sou um ramo seco Onde duas palavras Gorjeiam. Mais nada. E sei que já não ouves Estas vãs palavras. […]
- [Ezra Pound - Canto LXXXI (fragmentos)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/16/ezra-pound-canto-lxxxi-fragmentos/): O que amas de verdade permanece,o resto é escória.O que amas de verdade não te será arrancadoO que amas de verdade é tua herança verdadeiraMundo de quem, meu ou delesOu não é de ninguém?Veio o visível primeiro, depois o palpávelElísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,O que amas de verdade é tua herança verdadeiraO […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Consolo na Praia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-consolo-na-praia/): Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tu? Eu?](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-tu-eu/): Não morres satisfeito. A vida te viveu sem que vivesses nela. E não te convenceu nem deu motivo para haver o ser vivo. A vida te venceu em luta desigual. Era todo o passado presente presidente na polpa do futuro acuando-te no beco. Se morres derrotado, não morres conformado. Nem morres informado dos termos da […]
- [Antonio Cicero - Nihil](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-nihil/): nada sustenta no nada esta terra nada este ser que sou eu nada a beleza que o dia descerra nada a que a noite acendeu nada esse sol que ilumina enquanto erra pelas estradas do breu nada o poema que breve se encerra e que do nada nasceu
- [Algernon Charles Swinburne - Um Amigo Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/algernon-charles-swinburne-um-amigo-morto/): Leia "Um Amigo Morto", de Algernon Charles Swinburne, uma comovente elegia sobre amizade, memória e a permanência do amor após a morte.
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas (último capítulo)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/machado-de-assis-memorias-postumas-ultimo-capitulo/): Talvez o melhor capítulo final da literatura brasileira:Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, […]
- [Pierre Corneille - Estrofes para a bela marquesa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/pierre-corneille-estrofes-para-a-bela-marquesa/): Marquesa, se minha face A ti parece mais velha, Espera que o tempo passe Que verás a que te espelha. O tempo, contra o vigor Das coisas belas, protesta, E há de te fanar a flor Tal qual enrugou-me a testa. Noite e dia tudo flui, Rege-nos a mesma lei, Se veem em ti o […]
- [Alberto Caeiro - Há Metafísica demais em não Pensar em Nada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/alberto-caeiro-ha-metafisica-demais-em-nao-pensar-em-nada/): Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou! (Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as coisas, Não compreende quem fala delas Com o […]
- [Jorge Luis Borges - O Suicida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/jorge-luis-borges-o-suicida/): Não ficará na noite uma estrela. Não ficará a noite. Morrerei e comigo a suma Do intolerável universo. Apagarei as pirâmides, as medalhas, Os continentes e as caras. Apagarei a acumulação do passado. Farei pó a história, pó o pó. Estou olhando o último poente. Ouço o último pássaro. Lego o nada a ninguém. Trad.: […]
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyanedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat-2/): Trad.: Augusto de Campos
- [Mário Quintana - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/mario-quintana-o-morto/): Eu estava dormindo e me acordaram E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco… E quando eu começava a compreendê-lo Um pouco, Já eram horas de dormir de novo!
- [Rodrigo Barata - Cilada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/rodrigo-barata-cilada-3/)
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Antonio Cicero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida-2/)
- [Antonio Cícero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida/): Conheci da humana lida a sorte: o único fim da vida é a morte e não há, depois da morte, mais nada. Eis o que torna esta vida sagrada: ela é tudo e o resto, nada.
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/konstantinos-kavafis-itaca-em-tres-traducoes/): ÍTACA(Trad. José Paulo Paes) Se partires um dia rumo a Ítaca,faz votos de que o caminho seja longo,repleto de aventuras, repleto de saber.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o colérico Posídon te intimidem;eles no teu caminho jamais encontrarásse altivo for teu pensamento, se sutilemoção teu corpo e teu espírito tocar.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o bravio […]
- [Cassiano Ricardo - Os Futuricidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-os-futuricidas/): Sois o Bloco dos Suicidas.Paradoxo pensar que todo suicí- dio será a morte de Deus em nós. Nós não. Vamos salva-l’Oda hecatombe em que, afinal, tudo tombe.Nós O queremos vivo e salvo mesmo escanhoado dequalquer ornamento, pluma ou liturgia. Calvo.Sem nenhum arco-íris na cabeça ou púrpura.Não esquartejado numa vila ricaou atado ao rabo de um […]
- [Cassiano Ricardo - 2ª Aula na Jaula](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-2a-aula-na-jaula/): 1 Ícaro morreu,não por voar junto ao Sol mas de obsoleto pelos robôs levadoem seu caixão preto os mitos de hojeconversam comigo na rua.Convidam-me a assis- tir a Antonioni no cinemaem plena iconosfera. Tudo o que foi ontem é outra era. 2No Jardim Zoológicouma Lua presa numa enorme jaula de vidro. Com todas as crateras […]
- [Algernon Charles Swinburne - O Jardim de Proserpina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/algerno-charles-swinburne-o-jardim-de-proserpina/): Leia "O Jardim de Proserpina", de Algernon Charles Swinburne, um clássico da poesia vitoriana sobre morte, esquecimento e o anseio pelo repouso eterno.
- [Alan Moore - Monólogo de Rorschach](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/alan-moore-monologo-de-rorschach/): “Olhei para o céu, através da fumaça espessa com gordura humana, e Deus não estava lá. A fria, sufocante escuridão persiste para sempre e estamos sozinhos. Vivemos nossas vidas, por falta de algo melhor para fazer. Inventamos um motivo depois. Nascemos do esquecimento; temos filhos, destinados ao inferno como nós, caímos no esquecimento. Não há […]
- [Walter Savage Landor - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/walter-savage-landor-epitafio/)
- [Susan Sontag - De “Sobre Fotografia”](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/susan-sontag-de-sobre-fotografia/): “Todas as fotos são memento mori. Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa). Precisamente por cortar uma fatia deste momento e congelá-lo, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo (…). A fotografia é simultaneamente uma pseudo-presença e um sinal de ausência.” Susan Sontag, em […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte das Casas de Ouro Preto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/carlos-drummond-de-andrade-morte-das-casas-de-ouro-preto/): Sobre o tempo, sobre a taipa, a chuva escorre. As paredes que viram morrer os homens, que viram fugir o ouro, que viram finar-se o reino, que viram, reviram, viram, já não vêem. Também morrem. Assim plantadas no outeiro, menos rudes que orgulhosas na sua pobreza branca, azul e rosa e zarcão, ai, pareciam eternas! […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): East Coker](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-east-cocker/): Em meu princípio está meu fim. Uma após outrasAs casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugarSurgem um campo aberto, uma usina ou um atalho.Velhas pedras para novas construções, velhas lenhas para novas chamas,Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra semeada,Terra agora feita carne, pele e […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): Burnt Norton](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-burnt-norton/): I O tempo presente e o tempo passadoEstão ambos talvez presentes no tempo futuroE o tempo futuro contido no tempo passado.Se todo tempo é eternamente presenteTodo tempo é irredimível.O que poderia ter sido é uma abstraçãoQue permanece, […]
- [Ernest Dowson - Vitae Summa Brevis Spem Nos Vetat Incohare Longan](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ernest-c-dowson-vitae-summa-brevis-spem-nos-vetat-incohare-longan/): Vitae Summa Brevis Spem nos Vetat Incohare Longam (A Brevidade da Vida Impede que Possamos Acalentar Longas Esperanças) – Horácio A alegria, o desejo, o pranto, o amor E a raiva duram pouco. Nada disso, que eu saiba, há de transpor O umbral conosco. Poucos dias de rosas e de vinho: Surge num vago sonho […]
- [Janus Vitalis - Sobre Roma](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/janus-vitalis-sobre-roma/): Recém-chegado que, buscando Roma em Roma, não encontras, em Roma, Roma alguma, olha ao redor, muro e mais muro, pedras rotas, ruínas, que assustam, de um teatro imenso: é Roma isto que vês – cidade tão soberba, que ainda exala ameaças seu cadáver. Vencido o mundo, quis vencer-se e, se vencendo, para que nada mais […]
- [Ferreira Gullar - Anoitecer em Outubro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-anoitecer-em-outubro/): A noite cai, chove manso lá fora meu gato dorme enrodilhado na cadeiraNum dia qualquer não existirá mais nenhum de nós doispara ouvir nesta salaa chuva que eventualmente caia sobre as calçadas da rua Duvivier
- [Ferreira Gullar -Aprendizado](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-aprendizado/): Do mesmo modo que te abriste à alegria abre-te agora ao sofrimento que é fruto dela e seu avesso ardente. Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo e te perdeste nela e te achaste nessa perda deixa que a dor se exerça agora sem mentiras nem desculpas e em tua carne vaporize toda […]
- [Mário Quintana - Pequeno Poema Didático](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/mario-quintana-pequeno-poema-didatico/): O tempo é indivisível. Dize, Qual o sentido do calendário? Tombam as folhas e fica a árvore, Contra o vento incerto e vário. A vida é indivisível. Mesmo A que se julga mais dispersa E pertence a um eterno diálogo A mais inconseqüente conversa. Todos os poemas são um mesmo poema, Todos os porres são […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Carta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-carta/): Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas, as mesmas, triviais, embora estremecessem a um toque de paixão. Perfurando os obscuros canais de argila e sombra, ela iria contando que vou bem, e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente, e espero uma resposta, mas que não tarde; e peço […]
- [Nelson Santander - Pontuação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-pontuacao-poema/): Pontuação, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Beijo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-beijo-poema/): Beijo, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Chuva](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-chuva-poema/): Chuva, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Religio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-religio-poema/): Religio, um poema de Nelson Santander
- [Amadeu Amaral - Névoa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/amadeu-amaral-nevoa/): Tudo isto há de passar, decerto, muito em breve… Branca névoa sutil, ir-se-á quando o sol nasça; branco sonho de amor, passará, como passa pelas ondas em fúria uma garça de neve. Passará dentro em pouco, imitando a fumaça que se evola e se esvai nas curvas que descreve. Fumaça de ilusão, força é que […]
- [Lêdo Ivo - Epitalâmio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/ledo-ivo-epitalamio/): A terra cessa de girar, para que eu te ame. Não há mais Dia e Noite, meu amor. Somos hóspedes do impossível. Tudo é verdade e as horas irrompem como vulcões. O mar não clama, embora ainda exista. Para os que amam, como nós, as rotações foram abolidas, os séculos assumem a forma de um […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Mensagem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-mensagem/): Longe, muito longe, um país nos contempla. Um país de silício e saibro, de água salgada e sol Onde os peixes não chegam, os corvos não assistem. Onde os náufragos se afogam no incêndio do solitário dia eterno. Longe, muito longe, onde a areia reflete as escamas da lua; onde só os mortos vão beijar […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Elegia para os Suicidas do Viaduto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-elegia-para-os-suicidas-do-viaduto/): Eles já estavam mortos no ventre materno. Para eles o deflagrar da aurora era já um túmulo. Fugiam para a morte presos, embora, à corda umbilical. Rondava a lua estéril entre ciprestes E a terra de cardos e açucenas era a alegria, o trigo, a lepra, a tempestade. Já estavam mortos quando nasceram acorrentados ao […]
- [Thiago de Mello - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/thiago-de-mello-o-morto/): Qual a verdade que o morto conheceu, além dos muros, e lhe fez cerrar os lábios estrangulando a palavra porventura essencial? Enfim livre da cegueira, que paisagem contemplou para que o rosto lhe turve tão rude ruga de mágoa? Soube talvez que melhor fora mostrar-se de todo: desvelar inteira a face, seus amores e seus […]
- [Walderez C. Gomes - Eu te amei...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/walderez-c-gomes-eu-te-amei/): Eu te amei Amando-me em ti. E de tanto amor em ti fui convertida sem ser eu mesma sendo tu. Olhando-me assim dividida. Eu me enterrei de amor amando-me mais quanto menos em mim fui conhecida quanto mais em ti fui consumada.
- [Giórgos Seféris - Existe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-existe/): Existe, pelos deuses cruéis predestinada, uma dor universal, e cada um de nós dela pega a sua parte, quanto aguente levar. Julgamos insensatos os que, carregando pressurosamente nos ombros mais do que podiam carregar, aliviam assim a carga comum: os heróis, os mártires, os criminosos. Rogo-lhes que nos perdoem. Recordamos. Trad.: José Paulo Paes
- [Giórgos Seferis - São Assim os Túmulos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-sao-assim-os-tumulos/): São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio, com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura. E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas, a cabeça baixa, a fonte dos lamentos – acompanha as horas pétreas dos que jazem. Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se […]
- [Angela Leite de Souza - Do Lado de Cá Dessas Rosas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/angela-l-de-souza-do-lado-de-ca-dessas-rosas/): Nem percebi quando me cobriram com esta colcha rosa de rosas amorosamente. Dormia meu novo sono sem tranqulizantes, sem relógios: estou serena e não há pressa em acordar. Ser apenas, estar. Não me roem mais tristezas nem desejos, lateja leve leve uma saudade. Meu corpo vai não sendo, sou feliz. Livre do dever de viver e […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Rostos Imóveis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-os-rostos-imoveis/): Pai morto, namorada morta. Tia morta, irmão nascido morto. Primos mortos, amigo morto Avô morto, mãe morta (mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos). Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto. Noiva morta, amigas mortas. Chefe de trem morto, passageiro morto. Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho! Cão morto, passarinho morto. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Palavras no Mar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar/): Escrita nas ondas a palavra Encanto balança os náufragos, embala os suicidas. Lá dentro, os navios são algas e pedras em total olvido. Há também tesouros que se derramaram e cartas de amor circulando frias por entre medusas. Verdes solidões, merencórios prantos, queixumes de outrora, tudo passa rápido e os peixes devoram e a memória […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Noturno Oprimido](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-noturno-oprimido/): A água cai na caixa com uma força, com uma dor! A casa não dorme, estupefata. Os móveis continuam prisioneiros de sua matéria pobre, mas a água parte-se a água protesta. Ela molha toda noite com sua queixa feroz, seu alarido. E sobre nossos corpos se avoluma o lago negro de não sei que infusão. […]
- [Cassiano Ricardo - Vociferação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-vociferacao/): I Homem em Adão. Homem em Cristo. Homem em globo. II como salvar Deus? nós faremos d’Ele novamente o Autor de tudo: do peixe, da ave, da cobra, da maçã, do sapo, do rouxinol do sol. O obrigaremos contudo a suar san- gue conosco, na guerra, na fome na peste na terra suja; a engolir […]
- [Cassiano Ricardo - Gramática Visual de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-gramatica-visual-de-cristo/): 1 “Cristo, terá sido em vão teu sacri- fício? vê, o sangue escorre, acre, no massacre das ruas.” Cristo espalmou a mão cobrindo os olhos horizontalmente pra não ver a destruição do ser 2 “Cristo, vê os pequeninos que tanto amaste agora garotos nos becos como ratos dentro de sapatos rotos.” Cristo escondeu, de novo, […]
- [Cassiano Ricardo - Etc.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-etc-2/): Existe tudo porque existo. Há porque vemos. (Fernando Pessoa) Para que o mundo exista, existimos. Pois seja. Sem os nossos olhos, sem o que somos, que adiantaria haver mundo? Seria a árvore dos dourados pomos, etc. O que é ignorado não existe. O que é eterno também não existe. A eternidade é uma forma […]
- [Jorge Luis Borges - Remorso por qualquer morte](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/jorge-luis-borges-remorso-por-qualquer-morte/): Livre da memória e da esperança,Ilimitado, abstrato, quase futuro,O morto não é um morto: é a morte.Como o Deus dos místicos,A quem se devem negar todos os predicados,O morto, onipresentemente alheio,Não é senão a perdição e a ausência do mundo.Tudo lhe roubamos,Não lhe deixamos nem uma cor, nem uma sílaba:Aqui está o pátio que seus […]
- [John Donne - Em despedida: proibindo o pranto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/john-donne-em-despedida-proibindo-o-pranto/): Como esses santos homens que se apagam Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”, Enquanto alguns dos amigos amargos Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” — Nos dissolvamos sem fazer ruído. Sem tempestades de ais, sem rios de pranto, Fora profanação nossa ao ouvido Dos leigos descerrar todo este encanto. O terremoto traz terror e morte E […]
- [Cassiano Ricardo - Missa de Corpo Presente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-missa-de-corpo-presente/): O seu corpo tão alvo, o seu corpo presente é a coisa mais ausente, é uma ilusão pensar que a rosa ou o fruto já colhidos ainda soluçam desprendidos da haste. O seu corpo é já um fruto neutro e frio. Não obstante jovem, tem a mesma idade de todos os que morreram antes, ou […]
- [Ricardo Reis - Odes: 153 - Como este infante que alourado dorme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-153/): Como este infante que alourado dorme Fui. Hoje sei que há morte, Lídia, há largas taças por encher Nosso amor que nos tarda. Qualquer que seja o amor ou a taça, cedo Cessa. Receia, e apressa.
- [Ricardo Reis - Odes: 144 - Uns, com os olhos postos no passado,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-144/): Uns, com os olhos postos no passado, Vêem o que não vêem; outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, vêem O que não pode ver-se. Porque tão longe ir pôr o que está perto — A segurança nossa? Este é o dia, Esta é a hora, este o momento, isto É quem somos, e é […]
- [Ricardo Reis - Odes: 105 - Quando, Lídia, vier o nosso Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-105/): Quando, Lídia, vier o nosso outono Com o inverno que há nele, reservemos Um pensamento, não para a futura Primavera, que é de outrem, Nem para o estio, de quem somos mortos, Senão para o que fica do que passa – O amarelo atual que as folhas vivem E as torna diferentes.
- [Ricardo Reis - Odes: 80 - A nada imploram tuas mãos já coisas,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-80/): A nada imploram tuas mãos já coisas, Nem convencem teus lábios já parados, No abafo subterrâneo Da húmida imposta terra. Só talvez o sorriso com que amavas Te embalsama remota, e nas memórias Te ergue qual eras, hoje Cortiço apodrecido. E o nome inútil que teu corpo morto Usou, vivo, na terra, como uma alma, […]
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-63/)
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-4/): Tão cedo passa tudo quanto passa! Morre tão jovem ante os deuses quanto Morre! Tudo é tão pouco! Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala. O mais é nada.
- [Ricardo Reis - Odes: 61 - De uma só vez recolhe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-3/): De uma só vez recolhe Quantas flores puderes. Não dura mais que até à morte o dia. Colhe de que recordes. A vida é pouco e cerca-a A sombra e o sem remédio. Não temos regras que compreendamos, Súbditos sem governo. Goza este dia como Se a Vida fosse nele. Homens nem deuses fadam, nem […]
- [Ricardo Reis – Odes: 40 - Não sem lei, mas segundo leis diversas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-2/): Não sem lei, mas segundo leis diversas Entre os homens reparte o fado e os deuses Sem justiça ou injustiça Prazeres, dores, gozos e perigos. Bem ou mal, não terás o que mereces. Querem os deuses a isto obrigar Porque o Fado não tem Leis nossas com que reja a sua lei. Quem é rei […]
- [Ricardo Reis - Odes: 1 - Mestre, são placidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas/): Mestre, são plácidas Todas as horas Que nós perdemos, Se no perdê-las, Qual numa jarra, Nós pomos flores. Não há tristezas Nem alegrias Na nossa vida. Assim saibamos, Sábios incautos, Não a viver, Mas decorrê-la, Tranquilos, plácidos, Tendo as crianças Por nossas mestras, E os olhos cheios De natureza… À beira-fio, À beira-estrada, Conforme calha, […]
- [Ricardo Reis - Odes - Livro I - XIII - Olho os campos, Neera,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-livro-primeiro/): Olho os campos, Neera, Campos, campos e sofro Já o frio da sombra Em que não terei olhos. A caveira antessinto Que serei não sentindo, Ou só quanto o que ignoro Me incógnito ministre. E menos ao instante Choro, que a mim futuro. Súdito ausente e nulo Do universal destino.
- [Aldous Huxley - Silêncio/Música](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/384-2/): “Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.” – Aldous Huxley
- [Cassiano Ricardo - O Festim Terrestre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-festim-terrestre/): O olho de Polifemo já depois de arrancado ao gigante bêbado, foi posto, entre rosas carnosas e lírios agudos, sobre a alva mesa. Tinha ainda a pupila acesa. E os doze convivas, — doze fomes irmãs, — todos ao mesmo tempo, simultâneos como figuras de uma orquestra, vieram, graves, comer o olho de Polifemo, em […]
- [Cassiano Ricardo - Evocação dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-evocacao-dos-mortos/): Um dia conversarei com os meus mortos. E todos os que morri (os muitos eus que eu fui) reunidos inquietos sôfregos cada qual com um meu rosto na mão, me contarão (sua) a minha história. Não obstante a tua gélida memória. Ah, os defuntos que ficaram atrás de mim fotograficamente, agora juntos. Não acredito que […]
- [Titãs - O Pulso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/titas-o-pulso/): O PULSO O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Peste bubônica câncer pneumonia Raiva rubéola tuberculose anemia Rancor cisticercose caxumba difteria Encefalite faringite gripe leucemia O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Hepatite escarlatina estupidez paralisia Toxoplasmose sarampo esquizofrenia Úlcera trombose coqueluche hipocondria Sífilis ciúmes asma cleptomania O corpo ainda é pouco O […]
- [Marina Colasanti - Sexta-feira à noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/marina-colasanti-sexta-feira-a-noite/): Sexta-feira à noite Os homens acariciam o clitóris das esposas Com dedos molhados de saliva. O mesmo gesto com que todos os dias Contam dinheiro, papéis, documentos E folheiam nas revistas A vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noite Os homens penetram suas esposas Com tédio e pénis. O mesmo tédio com que todos os […]
- [Waly Salomão - A Fábrica do Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/waly-salomao-a-fabrica-do-poema/): do livro: Algaravias: FÁBRICA DO POEMA in memoriam Donna Lina Bo Bardi sonho o poema de arquitetura idealcuja própria nata de cimento encaixa palavra porpalavra,tornei-me perito em extrair faíscas das britase leite das pedras.acordo.e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.acordo.o prédio, pedra e cal, esvoaçacomo um leve papel solto à mercê do ventoe evola-se, […]
- [Ferreira Gullar - Galo Galo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ferreira-gullar-galo-galo/): O galo no saguão quieto. Galo galo de alarmante crista, guerreiro, medieval. De córneo bico e esporões, armado contra a morte, passeia. Mede os passos. Pára. Inclina a cabeça coroada dentro do silêncio: — que faço entre coisas ? — de que me defendo ? Anda No saguão. O cimento esquece o seu último passo. […]
- [Manuel Bandeira - Profundamente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-profundamente/): Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes, cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o […]
- [Manuel Bandeira - Poema Só Para Jaime Ovalle](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-poema-so-para-jaime-ovalle/): Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando… – Humildemente pensando na vida e nas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Máquina do Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/carlos-drummond-de-andrade-a-maquina-do-mundo/): E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio […]
- [José Paulo Paes - A Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-a-cidade/): Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que […]
- [José Paulo Paes - Revisitação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-revisitacao/): Cidade, por que me persegues? Com os dedos sangrando já não cavei em teu chão os sete palmos regulamentares para enterrar meus mortos? Não ficamos quites desde então? Por que insistes em acender toda noite as luzes de tuas vitrinas com as mercadorias do sonho a tão bom preço? Não é mais tempo de comprar. […]
- [Philip Larkin – Este Seja o Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/philip-larkin-este-seja-o-poema/): Teu pai e mãe fodem contigo. Que não o queiram, tanto faz. Passam-te cada podre antigo, além de uns novos, especiais. Mas de cartola e fraque, outrora, fodera-os já do mesmo modo, gente ora austero-piegas, ora se engalfinhando cega de ódio. Miséria é o que legamos: fossas num mar que só fica mais fundo. Dá […]
- [Jaime Gil de Biedma - Não Voltarei a ser Jovem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jaime-gil-de-biedma-nao-voltarei-a-ser-jovem/): Que é certo a vida passa só se começa a compreender mais tarde — como todos os jovens, decidi levar a minha vida por diante. Deixar marca eu queria e partir entre aplausos — envelhecer, morrer, eram somente as dimensões do teatro. Porém, passou o tempo e a verdade mais amarga assoma: envelhecer, morrer, é […]
- [William Butler Yeats - Quando Velha e Grisalha...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/william-butler-yeats-quando-velha-e-cansada-poema/): Quando velha e grisalha e exausta, ao fim do dia, tu cabeceares junto ao fogo, vem folhear lentamente este livro, e lembra o doce olhar e as sombras densas que nos olhos teus havia. Quantos, com falsidade ou devoção sincera, amaram-te a beleza e graça de menina! Um só, porém, amou tua alma peregrina, e […]
- [Ivan Junqueira - Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-morrer/): Pois morrer é apenas isto: cerrar os olhos vazios e esquecer o que foi visto; é não supor-se infinito, mas antes fáustico e ambíguo, jogral entre a história e o mito; é despedir-se em surdina, sem epitáfio melífluo ou testamento sovina; é talvez como despir o que em vida não vestia e agora é inútil […]
- [Ivan Junqueira - Esse Punhado de Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-esse-punhado-de-ossos/): Esse punhado de ossos que, na areia, alveja e estala à luz do sol a pino moveu-se outrora, esguio e bailarino, como se move o sangue numa veia. Moveu-se em vão, talvez, porque o destino lhe foi hostil e, astuto, em sua teia bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia o que havia de raro […]
- [Ivan Junqueira - A Sagração dos Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-a-sagracao-dos-ossos/): Considerai estes ossos – tíbios, inúteis, apócrifos – que sob a lápide dormem sem prédica que os conforte. Considerai: é o que sobra de quem lhes serviu de invólucro e agora já não se move entre as tábuas do sarcófago. Dormem sem túnica ou toga e, quando muito, um lençol lhes cobre as partes mais […]
- [Ivo Barroso - Poema a meu Pai](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivo-barroso-poema-a-meu-pai/): Meu pai morreu longe de mim (eu é que estava longe dele). Tantos anos se passaram e ainda não lhe vi a sepultura. Continuo longe. Mas sua presença me sacode como um choque elétrico, uma bebida forte que me arde por dentro. Está vivo nos meus dedos, nos cabelos ralos – a nuca dá arrepios […]
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono-2/)
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono/): Senhor, foi um verão imenso: é hora.Estende as tuas sombras nos relógiosde sol e solta os ventos prado afora. Instiga a sazonarem, com dois diasa mais de sul, as frutas que, tardias,conduzes rumo à plenitude, e apura,no vinho denso, a última doçura. Quem não tem lar já não terá; quem morasozinho há de velar e […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Homenagem a Ricardo Reis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/sophia-de-mello-breyner-andresen-homenagem-a-ricardo-reis/): Não creias, Lídia , que nenhum estioPor nós perdido possa regressarOferecemos a florQue adiámos colher. Cada dia te é dado uma só vezE no redondo círculo da noiteNão existe piedadePara aquele que hesita Mais tarde será tarde e já é tardeO tempo apaga tudo menos esseLongo indelével rastoQue o não – vivido deixa. Não creias […]
- [Ricardo Reis - Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ricardo-reis-vem-sentar-te-comigo-lidia-a-beira-do-rio/): Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.) Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, […]
- [John Donne - Elegia: indo para o leito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/john-donne-elegia-indo-para-o-leito/): Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz; Até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, Canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, Céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, Feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor […]
- [Bruno Tolentino - Via Crucis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/bruno-tolentino-via-crucis/): A Via Crucis foi uma selvageria, a Crucifixão uma brutalidade; mas em três, quatro horas, acabou a agonia, baixou a eternidade. Eu vivo aqui, crucificada noite e dia, carrego da manhã à tarde o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia, lenta, fria, covarde. Ah, como eu preferia que me crucificassem de uma […]
- [Catulo - Vivamus, mea Lésbia, ataque amemus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/catulo-vivamus-mea-lesbia-ataque-amemus/): Vivamos minha Lésbia, e amemos, e as graves vozes velhas – todas – valham para nós menos que um vintém. Os sóis podem morrer e renascer: quando se apaga nosso fogo breve dormimos uma noite infinita. Dá-me pois mil beijos, e mais cem, e mil, e cem, e mil, e mil e cem. Quando somarmos […]
- [Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/percy-bysshe-shelley-ozymandias-poema/): Disse o viajante de uma antiga terra: “Duas pernas de pedra, no deserto, Despontam gigantescas, e bem perto Há um rosto destroçado que descerra Os lábios num sorriso de comando Que atesta: o escultor leu com mestria Paixões que na matéria inerte e fria A mão que as entalhou vão perdurando. ‘Meu nome é Ozymândias, […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/giuseppe-ungaretti-natal/): Não me apetece mergulhar em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixe-me assim como uma coisa pousada em um canto e abandonada Aqui não se sente senão o bom calor Estou com as quatro cabriolas de fumo da lareira
- [Jorge Luis Borges - Nuvem (1)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/jorge-luis-borges-nuvem-1/): Não haverá uma só coisa que não seja uma nuvem. São nuvens as catedrais de vasta pedra e bíblicos cristais que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia que muda como o mar. Algo há distinto cada vez que a abrimos. O reflexo de tua cara já é outro no espelho e o dia é […]
- [Olavo Bilac - Nel Mezzo Del Camin...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/olavo-bilac-nel-mezzo-del-camin/): Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigadaE triste, e triste e fatigado eu vinha.Tinhas a alma de sonhos povoada,E a alma de sonhos povoada eu tinha… E paramos de súbito na estradaDa vida: longos anos, presa à minhaA tua mão, a vista deslumbradaTive da luz que teu olhar continha. Hoje, segues de novo… Na partidaNem o pranto teus […]
- [Machado de Assis - A Carolina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/machado-de-assis-a-carolina/): Querida, ao pé do leito derradeiroEm que descansas dessa longa vida,Aqui venho e virei, pobre querida,Trazer-te o coração do companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiroQue, a despeito de toda humana lida,Fez a nossa existência apetecidaE num recanto pôs um mundo inteiro. Trago-te flores, – restos arrancadosDa terra que nos viu passar unidosE ora mortos nos deixa […]
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/konstantinos-kavafis-itaca/): Ítaca, um poema de Konstantinos Kaváfis
- [Vladimir Maiakovski/Caetano Veloso - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-caetano-veloso-o-amor/): Talvez quem sabe um dia Por uma alameda do zoológico Ela também chegará Ela que também amava os animais Entrará sorridente assim como está Na foto sobre a mesa Ela é tão bonita Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão O século trinta vencerá O coração destroçado já Pelas mesquinharias Agora vamos […]
- [Vladimir Maiakovski - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-o-amor/): “O Amor”, um poema de Vladimir Maiakovski que explode a linguagem para fazer do sentimento uma força desmedida, urgente e quase insuportável.
- [Carlos Drummond de Andrade - Destruição](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-drummond-de-andrade-destruicao/): Os amantes se amam cruelmentee com se amarem tanto não se vêem.Um se beija no outro, refletido.Dois amantes que são? Dois inimigos. Amantes são meninos estragadospelo mimo de amar: e não percebemquanto se pulverizam no enlaçar-se,e como o que era mundo volve a nada. Nada, ninguém. Amor, puro fantasmaque os passeia de leve, assim a […]
- [Antonio Cicero - Huis Clos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-huis-clos/): Da vida não se sai pela porta: só pela janela. Não se sai bem da vida como não se sai bem de paixões jogatinas drogas. E é porque sabemos disso e não por temer viver depois da morte em plagas de Dante Goya ou Bosh (essas, doce príncipe, cá estão) que tão raramente nos matamos […]
- [Antonio Cicero - História](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-historia/): A história, que vem a ser? mera lembrança esgarçada algo entre ser e não-ser: noite névoa nuvem nada. Entre as palavras que a gravam e os desacertos dos homens tudo o que há no mundo some: Babilônia Tebas Acra. Que o mais impecável verso breve afunda feito o resto (embora mais lentamente que o bronze, […]
- [Antonio Cicero - Nênia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-nenia/): A morte nada foi para ele, pois enquanto vivia não havia a morte e, agora que há, ele já não vive. Não temer a morte tornava-lhe a vida mais leve e o dispensava de desejar a imortalidade em vão. Sua vida era infinita, não porque se estendesse indefinidamente no tempo mas porque, como um campo visual, não tinha limite. […]
- [Carlos Pena Filho - A Solidão e sua Porta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-pena-filho-a-solidao-e-sua-porta/): Quando mais nada resistir que valhaa pena de viver e a dor de amare quando nada mais interessar,(nem o torpor do sono que se espalha). Quando pelo desuso da navalhaa barba livremente caminhare até Deus em silêncio se afastardeixando-te sozinho na batalha a arquitetar na sombra a despedidado mundo que te foi contraditório,lembra-te que afinal […]
- [Emily Dickinson - Cemitério](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/emily-dickinson-cemiterio/): Este pó foram damas, cavalheiros, Rapazes e meninas; Foi riso, foi espírito e suspiro, Vestidos, tranças finas. Este lugar foram jardins que abelhas E flores alegraram. Findo o verão, findava o seu destino… E como estes, passaram. Trad.: Manuel Bandeira
- [Robinson Jeffers - The Inhumanist (Parte II de "The Double Axe") (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/robinson-jefferson-the-inhumanist-part-ii-of-the-double-axe/): Chegará um tempo, sem dúvida,Em que também o sol morrerá; os planetas congelarãoe o ar sobre eles; gases congelados, com flocos de arSerão a poeira: que nenhum vento jamais bulirá:essa poeira mesma a cintilar à luz baixa dos astrosÉ o vento morto, o corpo branco do vento. Também a galáxia morrerá; o brilho da Via […]
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-poema/): A PANTERA – trad. Augusto de Campos (No Jardin des Plantes, Paris) De tanto olhar as grades seu olharesmoreceu e nada mais aferra.Como se houvesse só grades na terra:grades, apenas grades para olhar. A onda andante e flexível do seu vultoem círculos concêntricos decresce,dança de força em torno a um ponto ocultono qual um grande […]
- [Ian Curtis - 24 Hours](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/ian-curtis-24-hours/): https://youtu.be/3zo4JdTfDw0 24 Horas Então isso é a permanência – o orgulho despedaçado do amor O que uma vez foi inocência perdeu sua vez Uma nuvem paira sobre mim, marca cada movimento Fundo na memória do que uma vez foi amor Oh, como eu compreendi, como eu queria tempo para Colocar em perspectiva. Tentei tanto encontrar […]
- [Augusto de Campos - o pulsar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-pulsar/)
- [Augusto de Campos - o quasar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-quasar/): Conheça outros livros de Augusto de Campos clicando aqui
- [Augusto de Campos - Tudo Está Dito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tudo-esta-dito/)
- [Augusto de Campos - Morituro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-morituro/)
- [Augusto de Campos - Tour](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tour/)
- [Augusto de Campos - Pó do Cosmos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-po-do-cosmos/)
- [Ferreira Gullar - Voltas Para Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ferreira-gullar-voltas-para-casa/): Depois de um dia inteiro de trabalho voltas para casa, cansado. Já é noite em teu bairro e as mocinhas de calças compridas desceram para a porta após o jantar. Os namorados vão ao cinema. As empregadas surgem das entradas de serviço. Caminhas na calçada escura. Consumiste o dia numa sala fechada, lidando com papéis […]
- [Mario Quintana - Amor Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/mario-quintana-amor-eterno/): Dante se enganou: Paolo e Francesca Continuariam bem juntinhos no Inferno, com pecado e tudo Juntinhos e felizes! Mas quem sabe se não seria este mesmo o castigo divino? Um amor que jamais pudesse terminar…
- [Dante Milano - Ao Tempo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/dante-milano-ao-tempo/): Tempo, vais para trás ou para diante? O passado carrega a minha vida Para trás e eu de mim fiquei distante, Ou existir é uma contínua ida E eu me persigo nunca me alcançando? A hora da despedida é a da partida A um tempo aproximando e distanciando… Sem saber de onde vens e aonde […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Carnaval](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-de-carnaval/): Distante o meu amor, se me afigura O amor como um patético tormento Pensar nele é morrer de desventura Não pensar é matar meu pensamento. Seu mais doce desejo se amargura Todo o instante perdido é um sofrimento Cada beijo lembrado uma tortura Um ciúme do próprio ciumento. E vivemos partindo, ela de mim E […]
- [Horácio - Ode XI, I](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/horacio-ode-xi-i-poema/): não me perguntes — é vedado saber — o fim que a mim e a ti darão os deuses Leucônoe nem babilônios números consultes antes o que for recebe quer te atribua Júpiter muitos invernos quer o último que o mar tirreno debilita com abruptas r o c h a s bebe […]
- [Petrarca - Soneto XXXII](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/petrarca-soneto-xxxii/): Quanto mais perto estou do dia extremo Que o sofrimento humano torna breve, Mais vejo o tempo andar veloz e leve E o que dele esperar falaz e menos. E a mim me digo: Pouco ainda andaremos De amor falando, até que como neve Se dissolva este encargo que a alma teve, Duro e pesado, […]
- [Konstantínos Kaváfis - Míris: Alexandria, 340 d. c.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/konstantinus-kavafis-miris-alexandria-340-d-c/): Quando eu soube da tragédia, que Míris estava morto,fui até sua casa, embora eviteentrar nas casas dos cristãos,principalmente em épocas de luto ou de festividades. Fiquei no corredor. Não quisavançar mais para dentro, porque percebique os parentes do morto me olhavamcom evidente surpresa e desagrado. Tinham-no colocado num cômodo amplodo qual, do ponto onde permaneci,eu […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Traduzido de Kleist](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/sophia-de-mello-breyner-andresen/): Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhanteE brilha sobre campos mais floridosMas os olhos que vêem essas maravilhasSão olhos apodrecidos
- [Antonio Cicero - Sair](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-sair/): Largar o cobertor, a cama, o medo, o terço, o quarto, largar toda simbologia e religião; largar o espírito, largar a alma, abrir a porta principal e sair. Esta é a única vida e contém inimaginável beleza e dor. Já o sol, as cores da terra e o ar azul – o céu do dia […]
- [Antonio Cicero - Perplexidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-perplexidade/): Não sei bem onde foi que me perdi; talvez nem tenha me perdido mesmo, mas como é estranho pensar que isto aqui fosse o meu destino desde o começo.
- [Giuseppe Ungaretti - Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-eterno/): Entre uma flor colhida e o dom de outra o nada inexprimível Trad.: Haroldo de Campos Eterno Tra un fiore colto e l’ altro donato l’ inesprimibile nulla.
- [Giuseppe Ungaretti - De uma Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-de-uma-estrela-a-outra/): Daquela estrela à outra A noite se encarcera Em turbinosa vazia desmesura, Daquela solidão de estrela Àquela solidão de estrela Trad: Haroldo de Campos
- [Salvatore Quasimodo - E de repente é noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite/): Cada um está só no coração da terra traspassado por um raio de sol: e de repente é noite. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Jorge Luis Borges - Limites](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/jorge-luis-borges-limites/): Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar, Há uma rua próxima que está vedada a meus passos, Há um espelho que me viu pela última vez, Há uma porta que fechei até o fim do mundo. Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os) Há algum que já nunca abrirei. Este verão […]
- [Antero de Quental - Divina Comédia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antero-de-quental-divina-comedia/): Erguendo os braços para o Céu distante E apostrofando os deuses invisíveis, Os homens clamam: – «Deuses impassíveis, A quem serve o destino triunfante, Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inextinguíveis, Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis, Num turbilhão cruel e delirante… Pois não era melhor na paz clemente Do […]
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-outrora-e-agora/): De manhã era feliz, quando jovem, E à noite chorava; já hoje, mais velho, Começo meu dia em dúvida, porém Seu fim é para mim sagrado e sereno. Trad.: Antonio Cicero Ehmals und jetzt In jüngern Tagen war ich des Morgens froh, Des Abends weint’ich; jetzt, da ich älter bin, Beginn ich zweifelnd meinen Tag, […]
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-a-brevidade/): “Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora, O canto? Quando jovem, não chegavas, Nos dias de esperança, Nunca ao fim, quando cantavas!” Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebol Banhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está fria E o pássaro da noite esvoaça incomodamente aos olhos teus. […]
- [Rainer Maria Rilke - A Morte do Poeta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/rainer-maria-rilke-a-morte-do-poeta-poema/): Jazia. A sua face, antes intensa, pálida negação no leito frio, desde que o mundo, e tudo o que é presença, dos seus sentidos já vazio, se recolheu à Era da Indiferença. Ninguém jamais podia ter suposto que ele e tudo estivessem conjugados e que tudo, essas sombras, esses prados, essa água mesma eram o […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto do Gato Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-do-gato-morto/): Um gato vivo é qualquer coisa linda Nada existe com mais serenidade Mesmo parado ele caminha ainda As selvas sinuosas da saudade De ter sido feroz. À sua vinda Altas correntes de eletricidade Rompem do ar as lâminas em cinza Numa silenciosa tempestade. Por isso ele está sempre a rir de cada Um de nós, […]
- [Wislawa Szymborska - O primeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/wislawa-szymborska-o-primeiro-amor/): Dizem que o primeiro amor é o mais importante. Isso é muito romântico, mas não é o meu caso. Algo entre nós houve e não houve, se deu e se perdeu. Não me tremem as mãos quando encontro as pequenas lembranças e o maço de cartas atadas com barbante se ao menos fosse uma fita. […]
- [Ian Hamilton - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ian-hamilton-epitafio/): O aroma de rosas velhas e tabaco Faz-me regressar. Há quase vinte anos Que não nos vemos E a nossa desapegada paixão continua. Foi isto que me deixaste: A mão, entreaberta, imóvel Sobre uma colcha verde. O bastante para erguer Alguns poemas melancólicos. Se então eu te houvesse tocado Um de nós podia ter sobrevivido. […]
- [Fernando Pessoa - Poema 165 (Cancioneiro)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/fernando-pessoa-poema-165-cancioneiro/): Tenho tanto sentimento Que é freqüente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a […]
- [Pedro Salinas - Não Te Vejo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/pedro-salinas-nao-te-vejo/): Não te vejo. Bem sei que estás aqui, atrás de uma frágil parede de ladrilhos e cal, bem ao alcance da minha voz, se chamasse. Mas não chamarei. Chamarei amanhã, quando, ao não te ver mais imagine que continuas aqui perto, ao meu lado, e que basta hoje a voz que ontem eu não quis […]
- [William Butler Yeats - Viajando para Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-b-yeats-viajando-para-bizancio-poema/): Aquela não é terra para velhos. Gente jovem, de braços dados, pássaros nas ramas — gerações de mortais — cantando alegremente, salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas, peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente. Ao som da música sensual, o mundo esquece […]
- [W. H. Auden - Blues Fúnebre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-h-auden-blues-funebre/): BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone, jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais, que emudeça o piano e que o tambor sancione a vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço, escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu. Que […]
- [Giuseppe Ungaretti - San Martino del Carso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ungaretti-san-martino-del-carso/): Valloncello dell’Albero Isolato, 27 de agosto de 1916 Destas casas nada sobrou senão alguns pedaços de muro De quantos me foram próximos nada sobrou nem tanto No coração porém nenhuma cruz me falta É o meu coração a região mais destroçada Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – San Martino Del Carso Valloncello dell’Albero Isolato […]
- [Vinicius de Moraes - Poema de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-poema-de-natal/): Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos — Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/cassiano-ricardo-a-graca-triste/): Só me resta agora Esta graça triste De te haver esperado Adormecer primeiro. Ouço agora o rumor Das raízes da noite, Também o das formigas Imensas, numerosas, Que estão, todas, corroendo As rosas e as espigas. Sou um ramo seco Onde duas palavras Gorjeiam. Mais nada. E sei que já não ouves Estas vãs palavras. […]
- [Ezra Pound - Canto LXXXI (fragmentos)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/16/ezra-pound-canto-lxxxi-fragmentos/): O que amas de verdade permanece,o resto é escória.O que amas de verdade não te será arrancadoO que amas de verdade é tua herança verdadeiraMundo de quem, meu ou delesOu não é de ninguém?Veio o visível primeiro, depois o palpávelElísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,O que amas de verdade é tua herança verdadeiraO […]
- [Konstantinos Kaváfis - À Espera dos Bárbaros](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-a-espera-dos-barbaros/): O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado? Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje. Que leis hão de fazer os senadores? Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se ergueu tão cedo e de coroa solene se […]
- [Franz Kafka - Pequena Fábula](https://singularidadepoetica.art/2016/03/31/franz-kafka-pequena-fabula/)
- [Konstantinos Kaváfis - O Prazo de Nero](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/konstantinos-kavafis-o-prazo-de-nero/): Não ficou perturbado Nero quando ouviu do Oráculo de Delfos o prenúncio: “Teme ao ano septuagésimo terceiro.” Tinha tempo bastante a desfrutar. Só contava trinta anos. Muito dilatado era o prazo que o Deus lhe concedia para cuidar-se dos riscos do futuro. Agora vai voltar a Roma um tanto fatigado da magnífica fadiga que se […]
- [Ana Martins Marques - Há estes dias em que pressentimos na casa...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/ana-martins-marques-ha-estes-dias-em-que-pressentimos-na-casa/): Há estes dias em que pressentimos na casa a ruína da casa e no corpo a morte do corpo e no amor o fim do amor estes dias em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde não são coisas que se expliquem apenas são dias […]
- [Marco Aurélio - Reflexões, 14](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/marco-aurelio-reflexoes-14/): Ainda que os anos de tua vida sejam três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida senão a que vive agora, nem vive outra senão a que perde. O prazo mais longo e o mais breve são, portanto, iguais. O presente é de todos; morrer é perder o presente, […]
- [Decio Pignatari - Femme](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/decio-pignatari-femme/)
- [Manuel Bandeira - Soneto Inglês n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/manuel-bandeira-soneto-ingles-n-2/): Aceitar o castigo imerecido, Não por fraqueza, mas por altivez. No tormento mais fundo o teu gemido Trocar um grito de ódio a quem o fez. As delicias da carne e pensamento Com que o instinto da espécie nos engana Sobpor ao gênero sentimento De uma afeição mais simplesmente humana. Não tremer de esperança nem […]
- [Moshé Ibn Ezra - São Túmulos de Tempos Antigos, Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos-antigos-velhos/): São túmulos de tempos antigos, velhos. Neles há gente que dorme um sono eterno. Nem ódio, nem inveja há no seu interior, nem amor, nem zangas de vizinhos. Os meus pensamentos não podem, quando os veem, distinguir entre servos e senhores. Versão de Francisco José Viegas, tradução do hebraico de Maria José Cano. Peguei aqui:http://antoniocicero.blogspot.com.br/2015/08/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos.html
- [Erthos Albino de Souza - Sea Nau](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/erthos-albino-de-souza-sea-nau/)
- [Ferreira Gullar - Nova Concepção da Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-nova-concepcao-da-morte/): Como ia morrer, foi-lhe dado o aviso na carne, como sempre ocorre aos seres vivos; um aviso, um sinal, que não lhe veio de fora, mas do fundo do corpo, onde a morte mora, ou, dizendo melhor, onde ela circula como a eletricidade ou o medo, na medula dos ossos e em cada enzima, que […]
- [Ferreira Gullar - Filhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-filhos/): A meu filho Marcos Daqui escutei quando eles chegaram rindo e correndo entraram na sala e logo invadiram também o escritório (onde eu trabalhava) num alvoroço e rindo e correndo se foram com sua alegria se foram Só então me perguntei por que não lhes dera maior atenção se há tantos e tantos anos não […]
- [Ferreira Gullar - Teu Corpo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-teu-corpo/): O teu corpo muda independente de ti. Não te pergunta se deve engordar. É um ser estranho que tem teu rosto ri em teu riso e goza com teu sexo. Lhe dás de comer e ele fica quieto. Penteias-lhe os cabelos como se fossem teus. Num relance, achas que apenas estás nesse corpo. Mas como, […]
- [Ferreira Gullar - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-despedida/): Eu deixarei o mundo com fúria. Não importa o que aparentemente aconteça, se docemente me retiro. De fato, nesse momento estarão de mim se arrebentando raízes tão fundas quanto estes céus brasileiros. Num alarido de gente e ventania olhos que amei rostos amigos tardes e verões vividos estarão gritando a meus ouvidos para que eu […]
- [Ferreira Gullar - Praia do Caju](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-praia-do-caju/): Escuta: o que passou passou e não há força capaz de mudar isto. Nesta tarde de férias, disponível, podes, se quiseres, relembrar. Mas nada acenderá de novo o lume que na carne das horas se perdeu. Ah, se perdeu! Nas águas da piscina se perdeu sob as folhas da tarde nas vozes conversando na varanda […]
- [Ferreira Gullar - O Que Se Foi](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-o-que-se-foi/): O que se foi se foi. Se algo ainda perdura é só a amarga marca na paisagem escura. Se o que foi regressa, traz um erro fatal: falta-lhe simplesmente ser real. Portanto, o que se foi, se volta, é feito morte. Então por que me faz o coração bater tão forte?
- [Arnaldo Antunes - Só o Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-so-o-sol/)
- [Arnaldo Antunes - Casulo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-casulo/)
- [Arnaldo Antunes - Acaba Acontecendo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-acaba-acontecendo/): o que você mais teme acaba acontecendo o que você mais quer acaba acontecendo o que ninguém espera acaba acontecendo o que ninguém consegue mais conter acaba de acontecer
- [O Segredo dos seus Olhos - Mil Passados](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/o-segredo-dos-seus-olhos-mil-passados/): “Não pense mais nisso! Não pense mais. O que importa? Não fique mais imaginando, não fique pensando no que aconteceu, no que não aconteceu. No que poderia ter acontecido. Senão você terá mil passados e nenhum futuro…” Ricardo Morales para Benjamin Espósito, em “O Segredo dos Seus Olhos”
- [Alfred Tennyson - Ulysses](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/alfred-tennyson-ulysses/): De nada serve a um rei ficar inerte, No lar quieto, em meio à rocha infértil, Unido a esposa idosa, eu doo e imponho Iníquas leis a um bando de selvagens Que soma, e dorme, e engorda, e não me vê. Estou inquieto: Sorverei da vida A última gota: Sempre gozei muito, Sofri muito, com […]
- [Bei Dao - Resposta](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/bei-dao-resposta/): A degradação é o passaporte do vilão, A nobreza é epitáfio do nobre. Olhe: como o céu dourado é inundado do reflexo das sombras torcidas dos mortos. Passada a época do gelo, Por que ainda há gelo em toda a parte? Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança, por que mil velas ainda competem […]
- [Antonio Cicero - Valeu](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/antonio-cicero-valeu/)
- [Óssip Mandelstam - Pedra (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/osip-mandelstam-pedra-excerto/): Não posso tocar, no escuro,Teu vulto vago e sombrio.“Senhor!”, por erro, murmuro,Alheio ao que balbucio. De mim, tal uma ave enorme,O nome de Deus se evola.À frente, um abismo informe,Atrás, vazia, a gaiola. Trad.: Augusto de Campos
- [Jorge Luis Borges - Everness](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-everness/): Só uma coisa há. É o esquecimento. Deus, que salva o metal, salva a escória E cifra na sua profética memória as luas que serão e que hão sido. Já tudo está. Os mil reflexos, Que entre os dois crepúsculos do dia Teu rosto foi deixando nos espelhos e os que irá deixando ainda. E […]
- [Jorge Luis Borges - Cosmogonia](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-cosmogonia/): Nem treva nem caos. A treva Requer olhos que vêem, como o som. E o silêncio requer o ouvido, O espelho, a forma que o povoa. Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer Uma divindade que premedita O silêncio anterior à primeira Noite do tempo, que será infinita. O grande rio de Heráclito o […]
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antonio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre/): —Nos —fios —ten sos —da —pauta —de me- tal —as — an/ do/ ri/ nhas —gri- tam —por —fal/ ta/ —de u- ma —cl’a- ve —de —sol
- [Doroty Parker - Em Suma](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/doroty-parker-em-suma/): Trad.: Nelson Ascher
- [Algernon Charles Swinburne - Uma Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/algernon-charles-swinburne-uma-despedida-poema/): Leia "Uma Despedida", de Algernon Charles Swinburne, um poema lírico sobre amor não correspondido, despedida e a beleza melancólica da renúncia.
- [William Butler Yeats - Quando Estiveres Grisalha e com Sono...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-quando-estiveres-grisalha-e-com-sono-poema/): Quando estiveres grisalha e com sono, Dormitando ante o fogo, lê meu livro Bem lentamente e lembra o sensitivo Olhar que tinhas de suave abandono. Muitos amaram tuas alegrias, Tua beleza; mas só num culmina O amor por tua alma peregrina E a mágoa que teu rosto pressentia. Reclina-te ante as chamas; e ao vê-las […]
- [William Butler Yeats - A Segunda Vinda](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-a-segunda-vinda/): Girando em círculos sempre maiores Já não ouve o falcão ao falcoeiro; Tudo desaba; o próprio centro hesita; Livre, a anarquia reina sobre o mundo, Livre a maré sanguinolenta: em tudo Se afogam os rituais da inocência; Os melhores vacilam e os piores À intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia, […]
- [Cassiano Ricardo - Dedicatória](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-dedicatoria/): I Ao claro tempo, ao tempo das metamorfoses, não havia horizonte na alegria do ser e do acontecer. Havia a graça aérea com que as coisas brincavam de ser e de não ser, no jardim da matéria. Hoje uma coisa passa a ser outra coisa; nascem anjos sem asa dentro do dicionário; um monstro, um […]
- [Cassiano Ricardo - O Hipopótamo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-o-hipopotamo/): Não adianta o rio lhe ofertar um espelho, se ele não sabe de quem é a imagem que o espelho reflete. Se ele pensa que a sua imagem n’água é a de um outro hipopótamo. A paisagem por volta tem algo de bíblico pois é a água da criação, ainda viva, como no primeiro dia. […]
- [Cassiano Ricardo - O Cacto](https://singularidadepoetica.art/2016/03/25/cassiano-ricardo-o-cacto/): This is cactus land. Here the stone images are raised… T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cacto na areia da nossa tristeza. Uma folha sobre outra, em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros, um braço a nascer de outro braço, uma folha sobre outra, formaremos um grande cacto. De cada braço, […]
- [Paul Auster - A Invenção da Solidão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/paul-auster-a-invencao-da-solidao-excerto/)
- [Arnaldo Antunes - Cultura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-cultura/)
- [Arnaldo Antunes - A Casa é Sua](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-a-casa-e-sua/): Não me falta cadeira Não me falta sofá Só falta você sentada na sala Só falta você estar Não me falta parede E nela uma porta pra você entrar Não me falta tapete Só falta o seu pé descalço pra pisar Não me falta cama Só falta você deitar Não me falta o sol da […]
- [Robert Frost - A Estrada não Trilhada](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/robert-frost-a-estrada-nao-trilhada/): Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se, mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria. Assim, por longo tempo eu ali me detive, e um deles observei até um longe declive no qual, dobrando, desaparecia… Porém tomei o outro, igualmente viável, e tendo mesmo um atrativo especial, pois mais ramos possuía e talvez […]
- [Gavin Aung Than e Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/gavin-aung-than-ozymandias/)
- [Carlos Drummond de Andrade - Declaração em Juízo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-declaracao-em-juizo/): Peço desculpas de ser o sobrevivente. Não por longo tempo, é claro. Tranqüilizem-se. Mas devo confessar, reconhecer que sou sobrevivente. Se é triste/cômico ficar sentado na platéia quando o espetáculo acabou e fecha-se o teatro, mais triste/grotesco é permanecer no palco, ator único, sem papel, quando o público já virou as costas e somente baratas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte no Avião](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-morte-no-aviao/): Acordo para a morte.Barbeio-me, visto-me, calço-me.É meu último dia: um diacortado de nenhum pressentimento.Tudo funciona como sempre.Saio para a rua. Vou morrer. Não morrerei agora. Um diainteiro se desata à minha frente.Um dia como é longo. Quantos passosna rua, que atravesso. E quantas coisasno tempo, acumuladas. Sem reparar,sigo meu caminho. Muitas facescomprimem-se no caderno de […]
- [Violeta de Outono - Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/03/20/violeta-de-outono-outono/): No percurso rumo ao prédio oculto Desolado o sol se põe a oeste Lua em gancho, triste, sons do vento Parte o coração o frio do outono Canto do extremo do mundo Espero em silêncio profundo No jardim noturno o esquecimento Velha árvore espera o julgamento Nada explicará meu sentimento Está em meu coração […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Uma Hora e mais Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-uma-hora-e-mais-outra/): Há uma hora triste que tu não conheces. Não é a da tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança; não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol antecipando outro mais gelado pano; e também não é a do nascer do sol enquanto enfastiado assistes […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Coisa Miserável](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-coisa-miseravel/): Coisa miserável, suspiro de angústia enchendo o espaço, vontade de chorar, coisa miserável, miserável. Senhor, piedade de mim, olhos misericordiosos pousando nos meus, braços divinos cingindo meu peito, coisa miserável no pó sem consolo, consolai-me. Mas de nada vele gemer ou chorar, de nada vale erguer as mãos e olhos para um céu tão longe, […]
- [Chico Buarque e Francis Hime - Amor Barato](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-e-francis-hime-amor-barato/): Eu queria serUm tipo de compositorCapaz de cantar nosso amorModesto Um tipo de amorQue é de mendigar cafunéQue é pobre e às vezes nem éHonesto Pechincha de amorMas que eu faço tanta questãoQue se tiver precisãoEu furto Vem cá, meu amorAguenta o teu cantadorMe esquenta porque o cobertor é curto Mas levo esse amorCom […]
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-pedaco-de-mim/): Oh, pedaço de mim Oh, metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior do que o esquecimento É pior do que se entrevar Oh, pedaço de mim Oh, metade exilada de mim Leva os teus sinais Que a saudade dói como um barco Que aos poucos […]
- [Haroldo Barbosa e Luis Reis - Notícia de Jornal](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/haroldo-barbosa-e-luis-reis-noticia-de-jornal1/): “Tentou contra a existência Num humilde barracão Joana de Tal, por causa de um tal João. Depois de medicada, Retirou-se pro seu lar.” Aí a notícia carece de exatidão. O lar não mais existe. Ninguém volta ao que acabou. Joana é mais uma mulata triste que errou. Errou na dose, errou no amor, Joana errou […]
- [Caetano Veloso - Como Dois e Dois](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/caetano-veloso-como-dois-e-dois/): Quando você me ouvir cantar Venha, não creia, eu não corro perigo Digo, não digo, não ligo, deixo no ar Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar… Tudo vai mal, tudo Tudo é igual quando eu canto e sou mudo Mas eu não minto, não minto, estou longe e perto Sinto alegrias, tristezas e […]
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura-2/)
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura/): Sei de uma criatura antiga e formidável, que a si mesma devora os membros e as entranhas, com a sofreguidão da fome insaciável. Habita juntamente os vales e as montanhas; e no mar, que se rasga, à maneira de abismo, espreguiça-se toda em convulsões estranhas. Traz impresso na fronte o obscuro despotismo. cada olhar que […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/caetano-veloso-o-homem-velho/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero - Inverno](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/adriana-calcanhotto-inverno/): No dia em que fui mais feliz Eu vi um avião Se espelhar no seu olhar até sumir De lá pra cá não sei Caminho ao longo do canal Faço longas cartas pra ninguém E o inverno no Leblon é quase glacial Há algo que jamais se esclareceu: Onde foi exatamente que larguei Naquele […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Versos à Boca da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/03/11/carlos-drummond-de-andrade-versos-a-boca-da-noite/): Sinto que o tempo sobre mim abatesua mão pesada. Rugas, dentes, calva.Uma aceitação maior de tudo,e o medo de novas descobertas. Escreverei sonetos de madureza?Darei aos outros a ilusão de calma?Serei sempre louco? Sempre mentiroso?Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? Há muito suspeitei o velho em mim.Ainda criança, já me atormentava.Hoje estou só. Nenhum menino […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Que País é Este?](https://singularidadepoetica.art/2016/03/10/affonso-romano-de-santanna-que-pais-e-este/): Que País é Este?, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, realiza uma vasta investigação poética sobre a formação histórica, cultural e política do Brasil.
- [Giacomo Leopardi - Opúsculos Morais (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-opusculos-morais-excerto/): “Cada parte do universo apressa-se, infatigavelmente, para a morte com solicitude e celeridade admiráveis. Apenas o próprio planeta parece imune à decadência e ao declínio. Contudo, se no outono e no inverno mostra-se quase enfermo e velho, não menos, na nova estação, rejuvenesce sempre. Mas como os mortais no primeiro momento de cada dia readquirem […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito-2-poema/): Sempre me foi cara esta colina erma E esta sebe, que de muitos lados Exclui a visão do último horizonte. Mas sentado, contemplando, infindáveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e a mais profunda calma Eu no pensar imagino; e por pouco Não se amedronta o coração. E o Vento Ouvindo sussurrar entre essas plantas, […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito/): Sempre cara me foi esta colina Erma, e esta sebe, que de tanta parte Do último horizonte, o olhar exclui. Mas sentado a mirar, intermináveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e uma calma profundíssima Eu crio em pensamentos, onde por pouco Não treme o coração. E como o vento Ouço fremir entre essas folhas, […]
- [Adriana Calcanhotto - Estrelas](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-estrelas/): estrelas para mim para mim estrelas são para mim estrelas para mim estrelas estrelas para quê? para quê? para quê? estrelas para mim só para mim. para mim para mim para mim e a treva entre as estrelas só para mim.
- [Adriana Calcanhotto - Jovens e Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-jovens-e-velhos/): Antes de mim vieram os velhos Os jovens vieram depois de mim E estamos todos aqui No meio do caminho dessa vida Vinda antes de nós E estamos todos a sós No meio do caminho dessa vida E estamos todos no meio Quem chegou e quem faz tempo que veio Ninguém no início ou no […]
- [Giuseppe Ungaretti - Daquela Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/giuseppe-ungaretti-daquela-estrela-a-outra/): Trad.: Haroldo de Campos
- [Arnaldo Antunes - O Que](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/arnaldo-antunes-o-que/)
- [Manuel Bandeira - O Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/manuel-bandeira-o-rio/): Ser como o rio que deflui Silencioso dentro da noite. Não temer as trevas da noite. Se há estrelas nos céus, refleti-las. E se os céus se pejam de nuvens, Como o rio as nuvens são água, Refleti-las também sem mágoa Nas profundidades tranquilas.
- [Andrew Marvell - To His Coy Mistress, em 5 traduções](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/andrew-marvell-to-his-coy-mistress-em-5-traducoes/): PARA SUA DAMA RECATADA. trad. Matheus “Mavericco”. Houvesse tempo e espaço e então de fato Não seria um delito este recato. Sentados, nós iríamos pensar Em só pensar no outro, e assim passar. Você, do lado indígena do Ganges, Achando rubis, e eu, pois me confrange A dor, junto ao Humber. Décadas antes Do Dilúvio […]
- [W. H. Auden - Ao Descer a Rua Bristol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/w-h-auden-ao-descer-a-rua-bristol/): Ao descer a rua Bristol uma tarde, eu vi os demais que eram como, antes da ceifa, os já maduros trigais. E ouvi junto ao rio, debaixo da ponte da ferrovia, um namorado cantando como ele sempre amaria: “Vou te amar, meu bem, até que a África se junte à China, que o rio salte […]
- [Jorge Luis Borges - Aqui. Hoje.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-aqui-hoje/): Já somos o esquecimento que seremos. A poeira elementar que nos ignora e que foi o ruivo Adão e que é agora todos os homens e que não veremos. Já somos na tumba as duas datas do princípio e do término, o esquife, a obscena corrupção e a mortalha, os ritos da morte e as […]
- [Jorge Luis Borges - São os Rios](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-sao-os-rios/): Somos o tempo. Somos a famosa parábola de Heráclito o Obscuro. Somos a água, não o diamante duro, a que se perde, não a que repousa. Somos o rio e somos aquele grego que se olha no rio. Seu semblante muda na água do espelho mutante, no cristal que muda como o fogo. Somos o […]
- [Jorge Luis Borges - As Coisas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-as-coisas/): A bengala, as moedas, o chaveiro, a fechadura dócil, as tardias notas que não lerão os poucos dias que me restam, o naipe, o tabuleiro, um livro e dentro dele a emurchecida violeta, monumento de uma tarde por certo inesquecível já esquecida, o rubro espelho ocidental em que arde uma aurora ilusória. Quantas coisas, atlas, […]
- [W. H. Auden - Musée des Beaux-Arts](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/w-h-auden-musee-des-beaux-arts/): Sobre o sofrimento jamais se enganaram os velhos Mestres: eles bem compreenderam a condição humana, viram como certas coisas acontecem enquanto alguém por aí está comendo ou abrindo a janela ou apenas caminhando sem pressa. Sabem que, enquanto os mais velhos es- tão, reverentemente, apaixo- nadamente, à espera do “birth” […]
- [Samuraitiger19 - Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/samuraitiger19-nos-minutos-finais-de-sua-vida-calvin-teve-uma-ultima-conversa-com-haroldo/): “Calvin? Calvin, querido?” No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Corrente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-a-corrente/): Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos, amarelos, e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.
- [Mário Quintana - Os Degraus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mario-quintana-os-degraus/): Não desças os degraus do sonho Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos – onde Os deuses, por trás das suas máscaras, Ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo…
- [Bertolt Brecht - Lista de Preferências](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/bertolt-brecht-lista-de-preferencias/): Alegrias, as desmedidas. Dores, as não curtidas. Casos, os inconcebíveis. Conselhos, os inexequíveis. Meninas, as veras. Mulheres, insinceras. Orgasmos, os múltiplos. Ódios, os mútuos. Domicílios, os passageiros. Adeuses, os bem ligeiros. Artes, as não rentáveis. Professores, os enterráveis. Prazeres, os transparentes. Projetos, os contingentes. Inimigos, os delicados. Amigos, os estouvados. Cores, o rubro. Meses, outubro. […]
- [John Keats - Ode sobre uma Urna Grega](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/john-keats-ode-sobre-uma-urna-grega/): I Inviolada noiva de quietude e paz, Filha do tempo lento e da muda harmonia, Silvestre historiadora que em silêncio dás Uma lição floral mais doce que a poesia: Que lenda flor-franjada envolve tua imagem De homens ou divindades, para sempre errantes. Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo? Que deuses ou mortais? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tarde de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-tarde-de-maio/): Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio, quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra, outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora, surdamente lavrava sob meus traços cômicos, e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes e condenadas, no […]
- [Rogério Nascente - Às Vezes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/rogerio-nascente-as-vezes/)
- [Múcio Góes - A Dor Meço](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mucio-goes-a-dor-meco/)
- [Arthur Schopenhauer - Fisicamente, o andar...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/926-2/)
- [Arthur Schopenhauer - Bolhas de Sabão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-bolhas-de-sabao-excerto/): O homem só vive no presente, que se converte no passado, e afunda-se na morte. Exceto as consequências que podem influir no presente, e que são filhas de sua vontade, ou de seus atos, a sua vida passada já não existe. Devia portanto ser-lhe indiferente que esse passado fosse de prazeres ou tristezas. O presente […]
- [Jorge Luis Borges - Outras Inquisições (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jorge-luis-borges-outras-inquisicoes-excerto/): Negar a sucessão temporal, negar o Eu, negar o universo astronômico, são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino não é assustador por ser irreal; é assustador porque é irreversível e ferrenho. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é […]
- [José Paulo Paes - Auto-Epitáfio n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2/)
- [Jules Laforgue - Mediocridade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jules-laforgue-mediocridade/): No infinito coberto de eternas belezas, Como átomo perdido, incerto, solitário, Um planeta chamado Terra, dias contados, Voa com os seus vermes sobre as profundezas. Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho, Marchando, indiferentes ao grande mistério, E quando um dos seus é enterrado, já sérios, Saúdam-no. Do torpor não são arrancados. Viver, morrer, […]
- [Richard Dawkins - Todos Vamos Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/richard-dawkins-todos-vamos-morrer/): Arte: Gavin Aung – 2012
- [William Shakespeare - do Macbeth (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/william-shakespeare-do-macbeth-excerto/): Amanhã amanhã amanhã amanhã Rasteja em passo parco dia a dia Até a última sílaba do Tempo. E os ontens, todos, só nos alumiam O fim no pó. Apaga, apaga, vela Breve! A vida é só uma sombra movel. Pobre ator Que freme e treme o seu papel no palco E logo sai de cena. […]
- [Edgar Allan Poe - Berenice](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/edgar-allan-poe-berenice/): A DESGRAÇA É VARIADA. O infortúnio da terra é multiforme. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris! Como de um exemplo de beleza, derivei eu uma imagem de desencanto? Da aliança da paz, uma […]
- [Arthur Schopenhauer - A Vida é Dor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-a-vida-e-dor/): Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor. Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre. A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos. A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em […]
- [Décio Pignatari - Cri$to](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/decio-pignatari-crito/)
- [D. H. Lawrence - Bons Maridos Fazem Mulheres Infelizes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/d-h-lawrence-bons-maridos-fazem-mulheres-infelizes/): Bons maridos fazem mulheres infelizes e maus maridos também fazem; mas a infelicidade de uma mulher de marido bom é muito mais arrasadora que a infelicidade de uma mulher de marido ruim. Trad.: Jorge Wanderley
- [Arnaldo Antunes - Sol To](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-sol-to/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Isabel Allende - Ruído](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/isabel-allende-ruido/): A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte.
- [António Lobo Antunes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/antonio-lobo-antunes/): Com os anos a morte vai-se tornando familiar. Quero dizer não a ideia da morte, não o medo da morte: a realidade dela. As pessoas de quem gostamos e partiram amputam-nos cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por dentro. Parece que sobrevivemos não aos outros mas a nós mesmos, […]
- [Anatol Knotek - Bye](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/anatol-knotek-bye/)
- [Arnaldo Antunes - A Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-a-eternidade/)
- [Arnaldo Antunes - faltaratéfartar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-faltaratefartar/)
- [Arnaldo Antunes - Pensa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-pensa/)
- [Arnaldo Antunes - Aquilo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-aquilo/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume-2/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume/): Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia Só vigia um ponto negro: o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Quem nem alegre, nem triste, nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski-2/): Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakósvki. Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem. Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski/)
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/ferreira-gullar-os-mortos/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Jorge de Sena - Conheço o Sal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/jorge-de-sena-conheco-o-sal-poema/): Conheço o sal, um poema de Jorge de Sena
- [Carlos Drummond de Andrade - Consolo na Praia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-consolo-na-praia/): Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tu? Eu?](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-tu-eu/): Não morres satisfeito. A vida te viveu sem que vivesses nela. E não te convenceu nem deu motivo para haver o ser vivo. A vida te venceu em luta desigual. Era todo o passado presente presidente na polpa do futuro acuando-te no beco. Se morres derrotado, não morres conformado. Nem morres informado dos termos da […]
- [Antonio Cicero - Nihil](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-nihil/): nada sustenta no nada esta terra nada este ser que sou eu nada a beleza que o dia descerra nada a que a noite acendeu nada esse sol que ilumina enquanto erra pelas estradas do breu nada o poema que breve se encerra e que do nada nasceu
- [Algernon Charles Swinburne - Um Amigo Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/algernon-charles-swinburne-um-amigo-morto/): Leia "Um Amigo Morto", de Algernon Charles Swinburne, uma comovente elegia sobre amizade, memória e a permanência do amor após a morte.
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas (último capítulo)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/machado-de-assis-memorias-postumas-ultimo-capitulo/): Talvez o melhor capítulo final da literatura brasileira:Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, […]
- [Pierre Corneille - Estrofes para a bela marquesa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/pierre-corneille-estrofes-para-a-bela-marquesa/): Marquesa, se minha face A ti parece mais velha, Espera que o tempo passe Que verás a que te espelha. O tempo, contra o vigor Das coisas belas, protesta, E há de te fanar a flor Tal qual enrugou-me a testa. Noite e dia tudo flui, Rege-nos a mesma lei, Se veem em ti o […]
- [Alberto Caeiro - Há Metafísica demais em não Pensar em Nada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/alberto-caeiro-ha-metafisica-demais-em-nao-pensar-em-nada/): Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou! (Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as coisas, Não compreende quem fala delas Com o […]
- [Jorge Luis Borges - O Suicida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/jorge-luis-borges-o-suicida/): Não ficará na noite uma estrela. Não ficará a noite. Morrerei e comigo a suma Do intolerável universo. Apagarei as pirâmides, as medalhas, Os continentes e as caras. Apagarei a acumulação do passado. Farei pó a história, pó o pó. Estou olhando o último poente. Ouço o último pássaro. Lego o nada a ninguém. Trad.: […]
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyanedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat-2/): Trad.: Augusto de Campos
- [Mário Quintana - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/mario-quintana-o-morto/): Eu estava dormindo e me acordaram E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco… E quando eu começava a compreendê-lo Um pouco, Já eram horas de dormir de novo!
- [Rodrigo Barata - Cilada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/rodrigo-barata-cilada-3/)
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Antonio Cicero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida-2/)
- [Antonio Cícero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida/): Conheci da humana lida a sorte: o único fim da vida é a morte e não há, depois da morte, mais nada. Eis o que torna esta vida sagrada: ela é tudo e o resto, nada.
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/konstantinos-kavafis-itaca-em-tres-traducoes/): ÍTACA(Trad. José Paulo Paes) Se partires um dia rumo a Ítaca,faz votos de que o caminho seja longo,repleto de aventuras, repleto de saber.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o colérico Posídon te intimidem;eles no teu caminho jamais encontrarásse altivo for teu pensamento, se sutilemoção teu corpo e teu espírito tocar.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o bravio […]
- [Cassiano Ricardo - Os Futuricidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-os-futuricidas/): Sois o Bloco dos Suicidas.Paradoxo pensar que todo suicí- dio será a morte de Deus em nós. Nós não. Vamos salva-l’Oda hecatombe em que, afinal, tudo tombe.Nós O queremos vivo e salvo mesmo escanhoado dequalquer ornamento, pluma ou liturgia. Calvo.Sem nenhum arco-íris na cabeça ou púrpura.Não esquartejado numa vila ricaou atado ao rabo de um […]
- [Cassiano Ricardo - 2ª Aula na Jaula](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-2a-aula-na-jaula/): 1 Ícaro morreu,não por voar junto ao Sol mas de obsoleto pelos robôs levadoem seu caixão preto os mitos de hojeconversam comigo na rua.Convidam-me a assis- tir a Antonioni no cinemaem plena iconosfera. Tudo o que foi ontem é outra era. 2No Jardim Zoológicouma Lua presa numa enorme jaula de vidro. Com todas as crateras […]
- [Algernon Charles Swinburne - O Jardim de Proserpina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/algerno-charles-swinburne-o-jardim-de-proserpina/): Leia "O Jardim de Proserpina", de Algernon Charles Swinburne, um clássico da poesia vitoriana sobre morte, esquecimento e o anseio pelo repouso eterno.
- [Alan Moore - Monólogo de Rorschach](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/alan-moore-monologo-de-rorschach/): “Olhei para o céu, através da fumaça espessa com gordura humana, e Deus não estava lá. A fria, sufocante escuridão persiste para sempre e estamos sozinhos. Vivemos nossas vidas, por falta de algo melhor para fazer. Inventamos um motivo depois. Nascemos do esquecimento; temos filhos, destinados ao inferno como nós, caímos no esquecimento. Não há […]
- [Walter Savage Landor - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/walter-savage-landor-epitafio/)
- [Susan Sontag - De “Sobre Fotografia”](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/susan-sontag-de-sobre-fotografia/): “Todas as fotos são memento mori. Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa). Precisamente por cortar uma fatia deste momento e congelá-lo, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo (…). A fotografia é simultaneamente uma pseudo-presença e um sinal de ausência.” Susan Sontag, em […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte das Casas de Ouro Preto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/carlos-drummond-de-andrade-morte-das-casas-de-ouro-preto/): Sobre o tempo, sobre a taipa, a chuva escorre. As paredes que viram morrer os homens, que viram fugir o ouro, que viram finar-se o reino, que viram, reviram, viram, já não vêem. Também morrem. Assim plantadas no outeiro, menos rudes que orgulhosas na sua pobreza branca, azul e rosa e zarcão, ai, pareciam eternas! […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): East Coker](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-east-cocker/): Em meu princípio está meu fim. Uma após outrasAs casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugarSurgem um campo aberto, uma usina ou um atalho.Velhas pedras para novas construções, velhas lenhas para novas chamas,Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra semeada,Terra agora feita carne, pele e […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): Burnt Norton](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-burnt-norton/): I O tempo presente e o tempo passadoEstão ambos talvez presentes no tempo futuroE o tempo futuro contido no tempo passado.Se todo tempo é eternamente presenteTodo tempo é irredimível.O que poderia ter sido é uma abstraçãoQue permanece, […]
- [Ernest Dowson - Vitae Summa Brevis Spem Nos Vetat Incohare Longan](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ernest-c-dowson-vitae-summa-brevis-spem-nos-vetat-incohare-longan/): Vitae Summa Brevis Spem nos Vetat Incohare Longam (A Brevidade da Vida Impede que Possamos Acalentar Longas Esperanças) – Horácio A alegria, o desejo, o pranto, o amor E a raiva duram pouco. Nada disso, que eu saiba, há de transpor O umbral conosco. Poucos dias de rosas e de vinho: Surge num vago sonho […]
- [Janus Vitalis - Sobre Roma](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/janus-vitalis-sobre-roma/): Recém-chegado que, buscando Roma em Roma, não encontras, em Roma, Roma alguma, olha ao redor, muro e mais muro, pedras rotas, ruínas, que assustam, de um teatro imenso: é Roma isto que vês – cidade tão soberba, que ainda exala ameaças seu cadáver. Vencido o mundo, quis vencer-se e, se vencendo, para que nada mais […]
- [Ferreira Gullar - Anoitecer em Outubro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-anoitecer-em-outubro/): A noite cai, chove manso lá fora meu gato dorme enrodilhado na cadeiraNum dia qualquer não existirá mais nenhum de nós doispara ouvir nesta salaa chuva que eventualmente caia sobre as calçadas da rua Duvivier
- [Ferreira Gullar -Aprendizado](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-aprendizado/): Do mesmo modo que te abriste à alegria abre-te agora ao sofrimento que é fruto dela e seu avesso ardente. Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo e te perdeste nela e te achaste nessa perda deixa que a dor se exerça agora sem mentiras nem desculpas e em tua carne vaporize toda […]
- [Mário Quintana - Pequeno Poema Didático](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/mario-quintana-pequeno-poema-didatico/): O tempo é indivisível. Dize, Qual o sentido do calendário? Tombam as folhas e fica a árvore, Contra o vento incerto e vário. A vida é indivisível. Mesmo A que se julga mais dispersa E pertence a um eterno diálogo A mais inconseqüente conversa. Todos os poemas são um mesmo poema, Todos os porres são […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Carta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-carta/): Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas, as mesmas, triviais, embora estremecessem a um toque de paixão. Perfurando os obscuros canais de argila e sombra, ela iria contando que vou bem, e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente, e espero uma resposta, mas que não tarde; e peço […]
- [Nelson Santander - Pontuação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-pontuacao-poema/): Pontuação, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Beijo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-beijo-poema/): Beijo, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Chuva](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-chuva-poema/): Chuva, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Religio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-religio-poema/): Religio, um poema de Nelson Santander
- [Amadeu Amaral - Névoa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/amadeu-amaral-nevoa/): Tudo isto há de passar, decerto, muito em breve… Branca névoa sutil, ir-se-á quando o sol nasça; branco sonho de amor, passará, como passa pelas ondas em fúria uma garça de neve. Passará dentro em pouco, imitando a fumaça que se evola e se esvai nas curvas que descreve. Fumaça de ilusão, força é que […]
- [Lêdo Ivo - Epitalâmio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/ledo-ivo-epitalamio/): A terra cessa de girar, para que eu te ame. Não há mais Dia e Noite, meu amor. Somos hóspedes do impossível. Tudo é verdade e as horas irrompem como vulcões. O mar não clama, embora ainda exista. Para os que amam, como nós, as rotações foram abolidas, os séculos assumem a forma de um […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Mensagem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-mensagem/): Longe, muito longe, um país nos contempla. Um país de silício e saibro, de água salgada e sol Onde os peixes não chegam, os corvos não assistem. Onde os náufragos se afogam no incêndio do solitário dia eterno. Longe, muito longe, onde a areia reflete as escamas da lua; onde só os mortos vão beijar […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Elegia para os Suicidas do Viaduto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-elegia-para-os-suicidas-do-viaduto/): Eles já estavam mortos no ventre materno. Para eles o deflagrar da aurora era já um túmulo. Fugiam para a morte presos, embora, à corda umbilical. Rondava a lua estéril entre ciprestes E a terra de cardos e açucenas era a alegria, o trigo, a lepra, a tempestade. Já estavam mortos quando nasceram acorrentados ao […]
- [Thiago de Mello - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/thiago-de-mello-o-morto/): Qual a verdade que o morto conheceu, além dos muros, e lhe fez cerrar os lábios estrangulando a palavra porventura essencial? Enfim livre da cegueira, que paisagem contemplou para que o rosto lhe turve tão rude ruga de mágoa? Soube talvez que melhor fora mostrar-se de todo: desvelar inteira a face, seus amores e seus […]
- [Walderez C. Gomes - Eu te amei...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/walderez-c-gomes-eu-te-amei/): Eu te amei Amando-me em ti. E de tanto amor em ti fui convertida sem ser eu mesma sendo tu. Olhando-me assim dividida. Eu me enterrei de amor amando-me mais quanto menos em mim fui conhecida quanto mais em ti fui consumada.
- [Giórgos Seféris - Existe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-existe/): Existe, pelos deuses cruéis predestinada, uma dor universal, e cada um de nós dela pega a sua parte, quanto aguente levar. Julgamos insensatos os que, carregando pressurosamente nos ombros mais do que podiam carregar, aliviam assim a carga comum: os heróis, os mártires, os criminosos. Rogo-lhes que nos perdoem. Recordamos. Trad.: José Paulo Paes
- [Giórgos Seferis - São Assim os Túmulos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-sao-assim-os-tumulos/): São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio, com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura. E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas, a cabeça baixa, a fonte dos lamentos – acompanha as horas pétreas dos que jazem. Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se […]
- [Angela Leite de Souza - Do Lado de Cá Dessas Rosas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/angela-l-de-souza-do-lado-de-ca-dessas-rosas/): Nem percebi quando me cobriram com esta colcha rosa de rosas amorosamente. Dormia meu novo sono sem tranqulizantes, sem relógios: estou serena e não há pressa em acordar. Ser apenas, estar. Não me roem mais tristezas nem desejos, lateja leve leve uma saudade. Meu corpo vai não sendo, sou feliz. Livre do dever de viver e […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Rostos Imóveis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-os-rostos-imoveis/): Pai morto, namorada morta. Tia morta, irmão nascido morto. Primos mortos, amigo morto Avô morto, mãe morta (mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos). Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto. Noiva morta, amigas mortas. Chefe de trem morto, passageiro morto. Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho! Cão morto, passarinho morto. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Palavras no Mar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar/): Escrita nas ondas a palavra Encanto balança os náufragos, embala os suicidas. Lá dentro, os navios são algas e pedras em total olvido. Há também tesouros que se derramaram e cartas de amor circulando frias por entre medusas. Verdes solidões, merencórios prantos, queixumes de outrora, tudo passa rápido e os peixes devoram e a memória […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Noturno Oprimido](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-noturno-oprimido/): A água cai na caixa com uma força, com uma dor! A casa não dorme, estupefata. Os móveis continuam prisioneiros de sua matéria pobre, mas a água parte-se a água protesta. Ela molha toda noite com sua queixa feroz, seu alarido. E sobre nossos corpos se avoluma o lago negro de não sei que infusão. […]
- [Cassiano Ricardo - Vociferação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-vociferacao/): I Homem em Adão. Homem em Cristo. Homem em globo. II como salvar Deus? nós faremos d’Ele novamente o Autor de tudo: do peixe, da ave, da cobra, da maçã, do sapo, do rouxinol do sol. O obrigaremos contudo a suar san- gue conosco, na guerra, na fome na peste na terra suja; a engolir […]
- [Cassiano Ricardo - Gramática Visual de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-gramatica-visual-de-cristo/): 1 “Cristo, terá sido em vão teu sacri- fício? vê, o sangue escorre, acre, no massacre das ruas.” Cristo espalmou a mão cobrindo os olhos horizontalmente pra não ver a destruição do ser 2 “Cristo, vê os pequeninos que tanto amaste agora garotos nos becos como ratos dentro de sapatos rotos.” Cristo escondeu, de novo, […]
- [Cassiano Ricardo - Etc.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-etc-2/): Existe tudo porque existo. Há porque vemos. (Fernando Pessoa) Para que o mundo exista, existimos. Pois seja. Sem os nossos olhos, sem o que somos, que adiantaria haver mundo? Seria a árvore dos dourados pomos, etc. O que é ignorado não existe. O que é eterno também não existe. A eternidade é uma forma […]
- [Jorge Luis Borges - Remorso por qualquer morte](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/jorge-luis-borges-remorso-por-qualquer-morte/): Livre da memória e da esperança,Ilimitado, abstrato, quase futuro,O morto não é um morto: é a morte.Como o Deus dos místicos,A quem se devem negar todos os predicados,O morto, onipresentemente alheio,Não é senão a perdição e a ausência do mundo.Tudo lhe roubamos,Não lhe deixamos nem uma cor, nem uma sílaba:Aqui está o pátio que seus […]
- [John Donne - Em despedida: proibindo o pranto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/john-donne-em-despedida-proibindo-o-pranto/): Como esses santos homens que se apagam Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”, Enquanto alguns dos amigos amargos Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” — Nos dissolvamos sem fazer ruído. Sem tempestades de ais, sem rios de pranto, Fora profanação nossa ao ouvido Dos leigos descerrar todo este encanto. O terremoto traz terror e morte E […]
- [Cassiano Ricardo - Missa de Corpo Presente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-missa-de-corpo-presente/): O seu corpo tão alvo, o seu corpo presente é a coisa mais ausente, é uma ilusão pensar que a rosa ou o fruto já colhidos ainda soluçam desprendidos da haste. O seu corpo é já um fruto neutro e frio. Não obstante jovem, tem a mesma idade de todos os que morreram antes, ou […]
- [Ricardo Reis - Odes: 153 - Como este infante que alourado dorme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-153/): Como este infante que alourado dorme Fui. Hoje sei que há morte, Lídia, há largas taças por encher Nosso amor que nos tarda. Qualquer que seja o amor ou a taça, cedo Cessa. Receia, e apressa.
- [Ricardo Reis - Odes: 144 - Uns, com os olhos postos no passado,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-144/): Uns, com os olhos postos no passado, Vêem o que não vêem; outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, vêem O que não pode ver-se. Porque tão longe ir pôr o que está perto — A segurança nossa? Este é o dia, Esta é a hora, este o momento, isto É quem somos, e é […]
- [Ricardo Reis - Odes: 105 - Quando, Lídia, vier o nosso Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-105/): Quando, Lídia, vier o nosso outono Com o inverno que há nele, reservemos Um pensamento, não para a futura Primavera, que é de outrem, Nem para o estio, de quem somos mortos, Senão para o que fica do que passa – O amarelo atual que as folhas vivem E as torna diferentes.
- [Ricardo Reis - Odes: 80 - A nada imploram tuas mãos já coisas,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-80/): A nada imploram tuas mãos já coisas, Nem convencem teus lábios já parados, No abafo subterrâneo Da húmida imposta terra. Só talvez o sorriso com que amavas Te embalsama remota, e nas memórias Te ergue qual eras, hoje Cortiço apodrecido. E o nome inútil que teu corpo morto Usou, vivo, na terra, como uma alma, […]
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-63/)
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-4/): Tão cedo passa tudo quanto passa! Morre tão jovem ante os deuses quanto Morre! Tudo é tão pouco! Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala. O mais é nada.
- [Ricardo Reis - Odes: 61 - De uma só vez recolhe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-3/): De uma só vez recolhe Quantas flores puderes. Não dura mais que até à morte o dia. Colhe de que recordes. A vida é pouco e cerca-a A sombra e o sem remédio. Não temos regras que compreendamos, Súbditos sem governo. Goza este dia como Se a Vida fosse nele. Homens nem deuses fadam, nem […]
- [Ricardo Reis – Odes: 40 - Não sem lei, mas segundo leis diversas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-2/): Não sem lei, mas segundo leis diversas Entre os homens reparte o fado e os deuses Sem justiça ou injustiça Prazeres, dores, gozos e perigos. Bem ou mal, não terás o que mereces. Querem os deuses a isto obrigar Porque o Fado não tem Leis nossas com que reja a sua lei. Quem é rei […]
- [Ricardo Reis - Odes: 1 - Mestre, são placidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas/): Mestre, são plácidas Todas as horas Que nós perdemos, Se no perdê-las, Qual numa jarra, Nós pomos flores. Não há tristezas Nem alegrias Na nossa vida. Assim saibamos, Sábios incautos, Não a viver, Mas decorrê-la, Tranquilos, plácidos, Tendo as crianças Por nossas mestras, E os olhos cheios De natureza… À beira-fio, À beira-estrada, Conforme calha, […]
- [Ricardo Reis - Odes - Livro I - XIII - Olho os campos, Neera,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-livro-primeiro/): Olho os campos, Neera, Campos, campos e sofro Já o frio da sombra Em que não terei olhos. A caveira antessinto Que serei não sentindo, Ou só quanto o que ignoro Me incógnito ministre. E menos ao instante Choro, que a mim futuro. Súdito ausente e nulo Do universal destino.
- [Aldous Huxley - Silêncio/Música](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/384-2/): “Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.” – Aldous Huxley
- [Cassiano Ricardo - O Festim Terrestre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-festim-terrestre/): O olho de Polifemo já depois de arrancado ao gigante bêbado, foi posto, entre rosas carnosas e lírios agudos, sobre a alva mesa. Tinha ainda a pupila acesa. E os doze convivas, — doze fomes irmãs, — todos ao mesmo tempo, simultâneos como figuras de uma orquestra, vieram, graves, comer o olho de Polifemo, em […]
- [Cassiano Ricardo - Evocação dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-evocacao-dos-mortos/): Um dia conversarei com os meus mortos. E todos os que morri (os muitos eus que eu fui) reunidos inquietos sôfregos cada qual com um meu rosto na mão, me contarão (sua) a minha história. Não obstante a tua gélida memória. Ah, os defuntos que ficaram atrás de mim fotograficamente, agora juntos. Não acredito que […]
- [Titãs - O Pulso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/titas-o-pulso/): O PULSO O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Peste bubônica câncer pneumonia Raiva rubéola tuberculose anemia Rancor cisticercose caxumba difteria Encefalite faringite gripe leucemia O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Hepatite escarlatina estupidez paralisia Toxoplasmose sarampo esquizofrenia Úlcera trombose coqueluche hipocondria Sífilis ciúmes asma cleptomania O corpo ainda é pouco O […]
- [Marina Colasanti - Sexta-feira à noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/marina-colasanti-sexta-feira-a-noite/): Sexta-feira à noite Os homens acariciam o clitóris das esposas Com dedos molhados de saliva. O mesmo gesto com que todos os dias Contam dinheiro, papéis, documentos E folheiam nas revistas A vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noite Os homens penetram suas esposas Com tédio e pénis. O mesmo tédio com que todos os […]
- [Waly Salomão - A Fábrica do Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/waly-salomao-a-fabrica-do-poema/): do livro: Algaravias: FÁBRICA DO POEMA in memoriam Donna Lina Bo Bardi sonho o poema de arquitetura idealcuja própria nata de cimento encaixa palavra porpalavra,tornei-me perito em extrair faíscas das britase leite das pedras.acordo.e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.acordo.o prédio, pedra e cal, esvoaçacomo um leve papel solto à mercê do ventoe evola-se, […]
- [Ferreira Gullar - Galo Galo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ferreira-gullar-galo-galo/): O galo no saguão quieto. Galo galo de alarmante crista, guerreiro, medieval. De córneo bico e esporões, armado contra a morte, passeia. Mede os passos. Pára. Inclina a cabeça coroada dentro do silêncio: — que faço entre coisas ? — de que me defendo ? Anda No saguão. O cimento esquece o seu último passo. […]
- [Manuel Bandeira - Profundamente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-profundamente/): Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes, cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o […]
- [Manuel Bandeira - Poema Só Para Jaime Ovalle](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-poema-so-para-jaime-ovalle/): Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando… – Humildemente pensando na vida e nas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Máquina do Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/carlos-drummond-de-andrade-a-maquina-do-mundo/): E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio […]
- [José Paulo Paes - A Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-a-cidade/): Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que […]
- [José Paulo Paes - Revisitação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-revisitacao/): Cidade, por que me persegues? Com os dedos sangrando já não cavei em teu chão os sete palmos regulamentares para enterrar meus mortos? Não ficamos quites desde então? Por que insistes em acender toda noite as luzes de tuas vitrinas com as mercadorias do sonho a tão bom preço? Não é mais tempo de comprar. […]
- [Philip Larkin – Este Seja o Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/philip-larkin-este-seja-o-poema/): Teu pai e mãe fodem contigo. Que não o queiram, tanto faz. Passam-te cada podre antigo, além de uns novos, especiais. Mas de cartola e fraque, outrora, fodera-os já do mesmo modo, gente ora austero-piegas, ora se engalfinhando cega de ódio. Miséria é o que legamos: fossas num mar que só fica mais fundo. Dá […]
- [Jaime Gil de Biedma - Não Voltarei a ser Jovem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jaime-gil-de-biedma-nao-voltarei-a-ser-jovem/): Que é certo a vida passa só se começa a compreender mais tarde — como todos os jovens, decidi levar a minha vida por diante. Deixar marca eu queria e partir entre aplausos — envelhecer, morrer, eram somente as dimensões do teatro. Porém, passou o tempo e a verdade mais amarga assoma: envelhecer, morrer, é […]
- [William Butler Yeats - Quando Velha e Grisalha...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/william-butler-yeats-quando-velha-e-cansada-poema/): Quando velha e grisalha e exausta, ao fim do dia, tu cabeceares junto ao fogo, vem folhear lentamente este livro, e lembra o doce olhar e as sombras densas que nos olhos teus havia. Quantos, com falsidade ou devoção sincera, amaram-te a beleza e graça de menina! Um só, porém, amou tua alma peregrina, e […]
- [Ivan Junqueira - Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-morrer/): Pois morrer é apenas isto: cerrar os olhos vazios e esquecer o que foi visto; é não supor-se infinito, mas antes fáustico e ambíguo, jogral entre a história e o mito; é despedir-se em surdina, sem epitáfio melífluo ou testamento sovina; é talvez como despir o que em vida não vestia e agora é inútil […]
- [Ivan Junqueira - Esse Punhado de Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-esse-punhado-de-ossos/): Esse punhado de ossos que, na areia, alveja e estala à luz do sol a pino moveu-se outrora, esguio e bailarino, como se move o sangue numa veia. Moveu-se em vão, talvez, porque o destino lhe foi hostil e, astuto, em sua teia bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia o que havia de raro […]
- [Ivan Junqueira - A Sagração dos Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-a-sagracao-dos-ossos/): Considerai estes ossos – tíbios, inúteis, apócrifos – que sob a lápide dormem sem prédica que os conforte. Considerai: é o que sobra de quem lhes serviu de invólucro e agora já não se move entre as tábuas do sarcófago. Dormem sem túnica ou toga e, quando muito, um lençol lhes cobre as partes mais […]
- [Ivo Barroso - Poema a meu Pai](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivo-barroso-poema-a-meu-pai/): Meu pai morreu longe de mim (eu é que estava longe dele). Tantos anos se passaram e ainda não lhe vi a sepultura. Continuo longe. Mas sua presença me sacode como um choque elétrico, uma bebida forte que me arde por dentro. Está vivo nos meus dedos, nos cabelos ralos – a nuca dá arrepios […]
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono-2/)
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono/): Senhor, foi um verão imenso: é hora.Estende as tuas sombras nos relógiosde sol e solta os ventos prado afora. Instiga a sazonarem, com dois diasa mais de sul, as frutas que, tardias,conduzes rumo à plenitude, e apura,no vinho denso, a última doçura. Quem não tem lar já não terá; quem morasozinho há de velar e […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Homenagem a Ricardo Reis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/sophia-de-mello-breyner-andresen-homenagem-a-ricardo-reis/): Não creias, Lídia , que nenhum estioPor nós perdido possa regressarOferecemos a florQue adiámos colher. Cada dia te é dado uma só vezE no redondo círculo da noiteNão existe piedadePara aquele que hesita Mais tarde será tarde e já é tardeO tempo apaga tudo menos esseLongo indelével rastoQue o não – vivido deixa. Não creias […]
- [Ricardo Reis - Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ricardo-reis-vem-sentar-te-comigo-lidia-a-beira-do-rio/): Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.) Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, […]
- [John Donne - Elegia: indo para o leito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/john-donne-elegia-indo-para-o-leito/): Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz; Até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, Canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, Céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, Feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor […]
- [Bruno Tolentino - Via Crucis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/bruno-tolentino-via-crucis/): A Via Crucis foi uma selvageria, a Crucifixão uma brutalidade; mas em três, quatro horas, acabou a agonia, baixou a eternidade. Eu vivo aqui, crucificada noite e dia, carrego da manhã à tarde o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia, lenta, fria, covarde. Ah, como eu preferia que me crucificassem de uma […]
- [Catulo - Vivamus, mea Lésbia, ataque amemus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/catulo-vivamus-mea-lesbia-ataque-amemus/): Vivamos minha Lésbia, e amemos, e as graves vozes velhas – todas – valham para nós menos que um vintém. Os sóis podem morrer e renascer: quando se apaga nosso fogo breve dormimos uma noite infinita. Dá-me pois mil beijos, e mais cem, e mil, e cem, e mil, e mil e cem. Quando somarmos […]
- [Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/percy-bysshe-shelley-ozymandias-poema/): Disse o viajante de uma antiga terra: “Duas pernas de pedra, no deserto, Despontam gigantescas, e bem perto Há um rosto destroçado que descerra Os lábios num sorriso de comando Que atesta: o escultor leu com mestria Paixões que na matéria inerte e fria A mão que as entalhou vão perdurando. ‘Meu nome é Ozymândias, […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/giuseppe-ungaretti-natal/): Não me apetece mergulhar em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixe-me assim como uma coisa pousada em um canto e abandonada Aqui não se sente senão o bom calor Estou com as quatro cabriolas de fumo da lareira
- [Jorge Luis Borges - Nuvem (1)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/jorge-luis-borges-nuvem-1/): Não haverá uma só coisa que não seja uma nuvem. São nuvens as catedrais de vasta pedra e bíblicos cristais que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia que muda como o mar. Algo há distinto cada vez que a abrimos. O reflexo de tua cara já é outro no espelho e o dia é […]
- [Olavo Bilac - Nel Mezzo Del Camin...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/olavo-bilac-nel-mezzo-del-camin/): Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigadaE triste, e triste e fatigado eu vinha.Tinhas a alma de sonhos povoada,E a alma de sonhos povoada eu tinha… E paramos de súbito na estradaDa vida: longos anos, presa à minhaA tua mão, a vista deslumbradaTive da luz que teu olhar continha. Hoje, segues de novo… Na partidaNem o pranto teus […]
- [Machado de Assis - A Carolina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/machado-de-assis-a-carolina/): Querida, ao pé do leito derradeiroEm que descansas dessa longa vida,Aqui venho e virei, pobre querida,Trazer-te o coração do companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiroQue, a despeito de toda humana lida,Fez a nossa existência apetecidaE num recanto pôs um mundo inteiro. Trago-te flores, – restos arrancadosDa terra que nos viu passar unidosE ora mortos nos deixa […]
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/konstantinos-kavafis-itaca/): Ítaca, um poema de Konstantinos Kaváfis
- [Vladimir Maiakovski/Caetano Veloso - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-caetano-veloso-o-amor/): Talvez quem sabe um dia Por uma alameda do zoológico Ela também chegará Ela que também amava os animais Entrará sorridente assim como está Na foto sobre a mesa Ela é tão bonita Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão O século trinta vencerá O coração destroçado já Pelas mesquinharias Agora vamos […]
- [Vladimir Maiakovski - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-o-amor/): “O Amor”, um poema de Vladimir Maiakovski que explode a linguagem para fazer do sentimento uma força desmedida, urgente e quase insuportável.
- [Carlos Drummond de Andrade - Destruição](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-drummond-de-andrade-destruicao/): Os amantes se amam cruelmentee com se amarem tanto não se vêem.Um se beija no outro, refletido.Dois amantes que são? Dois inimigos. Amantes são meninos estragadospelo mimo de amar: e não percebemquanto se pulverizam no enlaçar-se,e como o que era mundo volve a nada. Nada, ninguém. Amor, puro fantasmaque os passeia de leve, assim a […]
- [Antonio Cicero - Huis Clos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-huis-clos/): Da vida não se sai pela porta: só pela janela. Não se sai bem da vida como não se sai bem de paixões jogatinas drogas. E é porque sabemos disso e não por temer viver depois da morte em plagas de Dante Goya ou Bosh (essas, doce príncipe, cá estão) que tão raramente nos matamos […]
- [Antonio Cicero - História](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-historia/): A história, que vem a ser? mera lembrança esgarçada algo entre ser e não-ser: noite névoa nuvem nada. Entre as palavras que a gravam e os desacertos dos homens tudo o que há no mundo some: Babilônia Tebas Acra. Que o mais impecável verso breve afunda feito o resto (embora mais lentamente que o bronze, […]
- [Jorge Luis Borges - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-arte-poetica/): Fitar o rio feito de tempo e águae recordar que o tempo é outro rio,saber que nos perdemos como o rioE que os rostos passam como a água. Sentir que a vigília é outro sonhoque sonha não sonhar e que a morteque teme nossa carne é essa mortede cada noite, que se chama sonho. No […]
- [Rainer Maria Rilke - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/rainer-maria-rilke-solidao/): A solidão é como uma chuva. Ergue-se do mar ao encontro das noites; de planícies distantes e remotas sobe ao céu, que sempre a guarda. E do céu tomba sobre a cidade. Cai como chuva nas horas ambíguas, quando todas as vielas se voltam para a manhã e quando os corpos, que nada encontraram, desiludidos […]
- [Cassiano Ricardo - Ladainha](https://singularidadepoetica.art/2016/06/25/cassiano-ricardo-ladainha/): Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso. Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- corporal? Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por […]
- [Gil Jorge - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/gil-jorge-so/)
- [Heinrich Heine - “Larga as parábolas sagradas”](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/heinrich-heine-larga-as-parabolas-sagradas/): Larga as parábolas sagradas, Deixa as hipóteses devotas, E põe-te em busca das respostas Para as questões mais complicadas. Por que se arrasta miserável O justo carregando a cruz, Enquanto, impune, em seu cavalo, Desfila o ímpio de arcabuz? De quem é a culpa? Jeová Talvez não seja assim tão forte? Ou será Ele o […]
- [Heinrich Heine - Morfina](https://singularidadepoetica.art/2016/06/15/heinrich-heine-morfina/): É grande a semelhança desses dois jovens e belos vultos, muito embora um pareça mais pálido e severo ou, posso até dizer, bem mais distinto do que o outro, o que, terno, me abraçava. Havia em seu sorriso tanto afeto, carinho e, nos seus olhos,tanta paz! Ornada de papoulas, sua fronte tocava a minha, às […]
- [Friedrich Hölderlin - As Parcas](https://singularidadepoetica.art/2016/06/14/friedrich-holderlin-as-parcas/): Dai-me, Potestades, mais um verão apenas, Apenas um outono de maduro canto, Que de bom grado, o coração já farto Do suave jogo, morrerei então. A alma que em vida nunca desfrutou os seus Direitos divinos nem no Orco acha repouso; Mas se eu lograr o que é sagrado, o que Trago em meu coração, […]
- [William Butler Yeats - Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/06/09/william-butler-yeats-bizancio/): As imagens febris do dia se desfazem; Os guardas imperiais, bêbados, jazem; Noite sem som, sombras noctívagas se alongam Da catedral e do seu gongo; À luz de estrela ou lua um domo desmerece Tudo o que é humanidade, Mera complexidade As veias, fúria e lama, em toda humana espécie. Diante de mim a imagem, […]
- [John Keats - Ode a um Rouxinol](https://singularidadepoetica.art/2016/06/05/john-keats-ode-a-um-rouxinol/): Meu peito dói; um sono insano sobre mim Pesa, como se eu me tivesse intoxicado De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim, Há um só minuto, e após no Letes me abismado: Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte, É do excesso de ser que aspiro em tua paz […]
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento-2/)
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento/)
- [Carlos Nejar - José Mora](https://singularidadepoetica.art/2016/06/03/carlos-nejar-jose-mora/): Eu retornei. A morte imensa, tão imensa que não tocava mais os seus limites, os feudos. E eu, aos poucos, fui vencendo, fui desembaraçando seus cordames, o mortal peso, a superfície desamparada e vasta como se num escafandro viesse lentamente ao som das águas e fosse uma cítara tangida entre duas espigas de penumbra e […]
- [Goethe - Canção Noturna do Andarilho](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/goethe-cancao-noturna-do-andarilho/): No alto das colinas há paz; não se ouve, ali nas frondes, mais que um sopro manso. Nem há no bosque um trino. Aguarda: tampouco tarda o teu descanso. Trad.: Nelson Ascher
- [Carlos Drummond de Andrade - Congresso Internacional do Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-congresso-internacional-do-medo/): Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-o-medo/): Em verdade temos medo. Nascemos escuro. As existências são poucas: Carteiro, ditador, soldado. Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos. Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas, Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor, este […]
- [Edgar Allan Poe - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/edgar-allan-poe-so/): Desde criança nunca fui como outros foram Nem meus olhos nunca viram o que outros viram, Já que minhas paixões não têm a mesma origem Não vêm da mesma fonte as dores que me afligem. Também o prazer era de outra natureza – Tudo que amei ninguém amou, tenho certeza. Lá – no despontar de […]
- [Rainer Maria Rilke - Morgue](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/rainer-maria-rilke-morgue/): Estão prontos, ali, como a esperar que um gesto só, ainda que tardio, possa reconciliar com tanto frio os corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim. Que nome no seu bolso já vazio há por achar? Alguém procura, enfim, enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só […]
- [Ruy Proença - Tiranias](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/ruy-proenca-tiranias/): antigamente diziam: cuidado, as paredes têm ouvidos então falávamos baixo nos policiávamos hoje as coisas mudaram: os ouvidos têm paredes de nada adianta gritar Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui
- [Nelson Santander - Saindo do Armário da Sacristia](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/nelson-santander-saindo-do-armario-da-sacristia/): Saindo do armário da sacristia, por Nelson Santander: ateísmo, humanismo secular e outras questões
- [Gastão Debreix - Por do Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/05/27/gastao-debreix-por-do-sol/)
- [Itamar Assumpção - Noite Torta](https://singularidadepoetica.art/2016/05/21/itamar-assumpcao-noite-torta/): Intérprete: Zeca Baleiro Na sala numa fruteira a natureza está morta laranjas, maçãs e pêras bananas, figos de cera decoram a noite torta Sob a janela do quarto a cama dorme vazia encaro nosso retrato sorrindo sobre o criado no meio da noite fria Está pingando o chuveiro que banho mais apressado molhado caíste fora […]
- [Georg Trakl - De Profundis](https://singularidadepoetica.art/2016/05/20/georg-trakl-de-profundis/): Há um restolhal, onde cai uma chuva negra. Há uma árvore marrom, ali solitária. Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias. Como é triste o entardecer Passando pela aldeia A terra órfã recolhe ainda raras espigas. Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo, E seu colo espera o noivo divino. Na volta Os […]
- [Ovídio - A Morte de Narciso](https://singularidadepoetica.art/2016/05/16/ovidio-a-morte-de-narciso/): Fonte sem limo, pura prata em ondas límpidas, jorrava. Nem pastor se achega, nem pastando seu rebanho montês, ou gado avulso, acode. Nem pássaro, nem fera, nem, tombando, um ramo perturba a úmida grama que o frescor irriga. O bosque impede o sol de aquentar este sítio. Da caça e do calor exausto, aqui vem […]
- [Jorge Luis Borges — Pátio](https://singularidadepoetica.art/2016/05/14/jorge-luis-borges-patio/): Com a tarde Cansaram-se as duas ou três cores do pátio. A grande franqueza da lua cheia Já não entusiasma o seu habitual firmamento. Hoje que o céu está frisado, Dirá a crendice que morreu um anjinho. Pátio, céu canalizado. O pátio é a janela por onde Deus olha as almas. O pátio é o […]
- [Humberto Gessinger - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/humberto-gessinger-novos-horizontes/)
- [Engenheiros do Hawaii - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-novos-horizontes/): Corpos em movimento O universo em expansão E o apartamento que era tão pequeno Não acaba mais “Vamos dar um tempo” Não sei quem deu a sugestão E aquele sentimento que era passageiro Não acaba mais Quero explodir as grades E voar Não tenho pra onde ir Mas não quero ficar Novos horizontes Se não […]
- [Humberto Gessinger - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre-2/)
- [Engenheiros do Hawaii - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre/): http://h.saavncdn.com/737/UMG_00602498011737_01_011.mp3 Nem tudo está perdido Nem sinal de pedra no peito O horóscopo do jornal Arriscou “um belo dia” Liguei o rádio na hora certa Era a canção que eu queria Nem tudo está perdido Tudo em paz no reino da química Ninguém me telefonou Enquanto eu dormia Sonhei com meu pai e ele sorria […]
- [Nelson Santander - Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2016/05/08/nelson-santander-singularidade-2-poema/): Singularidade, um poema de Nelson Santander
- [Augusto de Campos - Desgrafite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/augusto-de-campos-desgrafite/)
- [William Butler Yeats - O Prazer do Difícil](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/william-butler-yeats-o-prazer-do-dificio/): O prazer do difícil tem secado A seiva em minhas veias. A alegria Espontânea se foi. O fogo esfria No coração. Algo mantém cerceado Meu potro, como se o divino passo Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço, Sob o chicote, trêmulo, prostrado, E carregasse pedras. Diabos levem As peças de sucesso que […]
- [André Ladeia - Efêmera](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/andre-ladeia-efemera/): A terra boia no oceano negro E estrelado Ela dança e rodopia; Ah! Como é bela E frágil… A Terra é uma bolha de sabão. http://antoniocicero.blogspot.com.br/2016/05/andre-ladeia-efemera.html
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras-2/)
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras/): https://youtu.be/dg4pbf0kcXk Eu insisto em cantar Diferente do que ouvi Seja como for recomeçar Nada há, mais há de vir Me disseram que sonhar Era ingênuo, e daí? Nossa geração não quer sonhar Pois que sonhe a que há de vir Eu preciso é te provar Que ainda sou o mesmo menino Que não dorme […]
- [Humberto Gessinger - Além da Máscara](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/humberto-gessinger-alem-da-mascara/): https://youtu.be/UclZRlPUyuA Intérprete: Pouca Vogal Agora que a terra é redonda E o centro do universo é outro lugar É hora de rever os planos O mundo não é plano, não pára de girar Agora que tudo é relativo Não há tempo perdido, não há tempo a perder Num piscar de olhos tudo se transforma Tá […]
- [Augusto de Campos - Pulsar (1975)](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/augusto-de-campos-pulsar-1975/): Intérprete: Caetano Veloso
- [José Paulo Paes - Seu Metaléxico](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/jose-paulo-paes-seu-metalexico/): Conheça outros livros de José Paulo Paes clicando aqui
- [Ivan Junqueira - O Aeroplano](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/ivan-junqueira-o-aeroplano/): Quando eu fiz cinco anos, meu pai deu-me de presente um aeroplano que ele próprio construíra com finas hastes de bambu e papel de seda. Tão leve quanto uma libélula, o frágil engenho voou até desaparecer por detrás do muro do quintal e dos últimos reflexos de um poente de verão. Ninguém jamais o encontrou. […]
- [Dante Milano - Princípio da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/dante-milano-principio-da-noite/)
- [Darcy Ribeiro - Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/darcy-ribeiro-mim/)
- [Darcy Ribeiro - A Indesejada](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-a-indesejada/): Aí estão eles, os da terceira idade. Gregários, vivem aos bandos. Sentados, jogando cartas, andando devagar. Conversando pretéritos assuntos. Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos. Hoje, são sogros, os chatos dos sogros. Uns são viúvos, outros largados, poucos. Muitos deles, os mais, ainda casados. As mulheres duram demais. Órfãos de seus […]
- [Darcy Ribeiro - Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-amor-poema/): "Amor", um poema de Darcy Ribeiro Quero um amor alucinado, depravado, tarado. Amor inteiro, de corpo-a-corpo, enlaçados. Amor sem reserva, que a tudo se entrega, lancinante. (...)
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/vinicius-de-moraes-soneto-de-maio/): Suavemente Maio se insinua Por entre os véus de Abril, o mês cruel E lava o ar de anil, alegra a rua Alumbra os astros e aproxima o céu. Até a lua, a casta e branca lua Esquecido o pudor, baixa o dossel E em seu leito de plumas fica nua A destilar seu luminoso […]
- [Jim Holt - Por que o Mundo Existe? (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/jim-holt-por-que-o-mundo-existe-excerto/): Já se disse que a pergunta Por que existe algo e não apenas o nada? é tão profunda que só ocorreria a um metafísico, mas também é tão simples que só ocorreria a uma criança. Na época, eu não tinha idade para ser metafísico. Mas por que a pergunta não me ocorreu na infância? Revendo a questão, […]
- [Manuel Bandeira - O Último Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/manuel-bandeira-o-ultimo-poema/): Assim eu quereria meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
- [Søren Kierkegaard - O Prazer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/soren-kierkegaard-o-prazer/)
- [Blaise Pascal - de Pensamentos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/blaise-pascal-de-pensamentos/)
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-3-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-2-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Pedro Paulo de Sena Madureira - Matsuo Basho, Uma Garça](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/pedro-paulo-de-sena-madureira-matsuo-basho-uma-garca/)
- [Sílvia Rocha - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/silvia-rocha-solidao-2/)
- [Salvatore Quasimodo - E De Repente é Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite-2/)
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antônio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre-2/)
- [James Agee - Sim, Todas as Crianças...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/james-agee-sim-todas-as-criancas/)
- [Cristina Lemos - O Amor Sempre Falha](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cristina-lemos-o-amor-sempre-falha/)
- [Chico Buarque e Francis Hime - Trocando em Miúdos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/chico-buarque-e-francis-homem-trocando-em-miudos/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4-2/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4/): Nada vos oferto além destas mortes de que me alimento Caminhos não há Mas os pés na grama os inventarão Aqui se inicia uma viagem clara para a encantação Fonte, flor em fogo, quem é que nos espera por detrás da noite ? Nada vos sovino: com a minha incerteza vos ilumino
- [Chico Buarque - O Meu Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/22/chico-buarque-o-meu-amor/)
- [Philip Larkin - Por Que Sonhei Contigo a Noite Passada?](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-por-que-sonhei-contigo-a-passada/): Por que sonhei contigo a noite passada? Agora a manhã empurra cabelos para trás [com uma luz grisalha Lembranças batem de volta, como tapas na cara; Apoiado no cotovelo, eu fito o branco nevoeiro Além da janela. Tantas coisas que eu pensava esquecidas Voltam agora à mente numa estranha dor: Como cartas que chegam para […]
- [Philip Larkin - Ignorância](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-ignorancia/): Estranho nada saber, nunca ter a certeza Do que é verdadeiro, certo ou real, Forçado então a dizer pelo menos é o que sinto Ou Bom, é o que parece: Alguém deve saber. Estranho ignorar o modo como as coisas funcionam: A sua capacidade de encontrar o que necessitam, O seu sentido de forma, e […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/caetano-veloso-o-homem-velho-2/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Chico Buarque - Olhos nos Olhos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-olhos-nos-olhos/)
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-pedaco-de-mim-2/)
- [Cassiano Ricardo - O Relógio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/17/cassiano-ricardo-o-relogio/): Diante de coisa tão doída conservemo-nos serenos. Cada minuto de vida nunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma face Do não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nasce já se começa a morrer.
- [José Paulo Paes - Auto-epitáfio n° 2](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2-2/)
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/machado-de-assis-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Veja também: https://nsantand.wordpress.com/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/
- [Silvio Rodriguez e Pablo Milanés - Por Quem Merece Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-e-pablo-milanes-por-quem-merece-amor/): (intérpretes: MPB4) Te perturba esse amor? Amor de juventude Meu amor é amor de virtude Te perturba esse amor? Sem máscaras por trás Meu amor é uma arte de paz Te perturba esse amor? Amor de humanidade Meu amor é amor de verdade Te perturba esse amor? Com todos ao redor Meu amor é uma […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna-2/): (intérprete: Silvio Rodriguez) Vivo en un país libre cual solamente puede ser libre en esta tierra, en este instante yo soy feliz porque soy gigante. Amo a una mujer clara que amo y me ama sin pedir nada o casi nada, que no es lo mismo pero es igual Y si esto fuera poco, tengo […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna/)
- [Chico Buarque e Edu Lobo - Valsa Brasileira](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/chico-buarque-e-edu-lobo-valsa-brasileira/)
- [Eclesiastes (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/eclesiaste-excerto/): “Acumulei também prata e ouro, as riquezas dos reis e das províncias. Escolhi cantores e cantoras e todas as delícias dos homens, toda a abundância dos cofres. Ultrapassei e avantajei-me a todos quantos me precederam em Jerusalém, e a sabedoria permanecia junto a mim. Então examinei todas as obras de minhas mãos e o trabalho […]
- [Chico Buarque e Edu Lobo - A Moça do Sonho (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/chico-buarque-e-edu-lobo-a-moca-do-sonho-excerto/)
- [Nelson Santander - Renata Maria](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/nelson-santander-renata-maria/): Renata Maria, por Nelson Santander: uma análise da letra da canção de Chico Buarque
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/1517-2/)
- [Carlos Drummond de Andrade - A um Ausente](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/carlos-drummond-de-andrade-a-um-ausente/): Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de […]
- [Bertolt Brecht - Tudo Muda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/bertolt-brecht-tudo-muda/): Tudo muda. De novo começar podes, com o último alento. O que acontece, porém, fica acontecido: e a água que pões no vinho, não podes mais separar. O que acontece, fica acontecido: a água que pões no vinho, não podes mais separar. Porém, tudo muda: com o último alento podes de novo começar. Tradução: Geir […]
- [Ferreira Gullar - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/ferreira-gullar-ano-novo/): Meia-noite. Fim de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício. Olho o céu: o abismo vence o olhar. O mesmo espantoso silêncio da Via-Láctea feito um ectoplasma sobre a minha cabeça nada ali indica que um ano novo começa. E não começa nem no céu nem no chão do planeta: começa no […]
- [Jorge de Lima - A Divisão de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/jorge-de-lima-a-divisao-de-cristo/): Dividamos o mundo em duas partes iguais: uma para portugueses, outra para espanhóis. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus: a metade morreu na viagem do oceano. Dividamos o mundo entre as pátrias. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras: a metade morreu nos campos de batalha. Dividamos o mundo entra as máquinas. […]
- [Clarice Lispector - Acredito...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/clarice-lispector-acredito/)
- [Do Remorso Pela Traição](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/do-remorso-pela-traicao/): Não existe sentimento de culpa quando o assunto é traição amorosa. Se vemos alguém se lamentando, arrependido da traição descoberta, isso não é remorso, mas auto-piedade pela súbita constatação de que seus atos trar-lhe-ão consequências indesejáveis. Não se espere daquele que há meia hora delirava nos braços de um amante que experimente algo além de […]
- [Torquato Neto - Cogito](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/torquato-neto-cogito/): eu sou como eu sou pronome pessoal intransferível do homem que iniciei na medida do impossível eu sou como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem novos secretos dentes nesta hora eu sou como eu sou presente desferrolhado indecente feito um pedaço de mim eu sou como eu sou vidente e vivo tranqüilamente todas […]
- [Manuel Bandeira - Versos de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/manuel-bandeira-versos-de-natal/): Espelho, amigo verdadeiro, Tu refletes as minhas rugas, Os meus cabelos brancos, Os meus olhos míopes e cansados. Espelho, amigo verdadeiro, Mestre do realismo exato e minucioso, Obrigado, obrigado! Mas se fosses mágico, Penetrarias até o fundo desse homem triste, Descobririas o menino que sustenta esse homem, O menino que não quer morrer, Que não […]
- [Carlos Rennó - Todas Juntas Num Só Ser](https://singularidadepoetica.art/2016/04/07/carlos-renno-todas-juntas-num-so-ser/): Intérprete: Lenine Não canto mais Bebete nem DomingasNem Xica nem Tereza, de Ben Jor;Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;Nem Ana nem Luiza, do maior;Já não homenageio Januária,Joana, Ana, Bárbara, de Chico;Nem Yoko, a nipônica de Lennon;Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico; Nem a tigresa, nem a vera gata,Nem a camaleoa, de […]
- [Nelson Santander - Sonho Sertanejo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/nelson-santander-sonho-sertanejo/): Sonho Sertanejo, uma crônica de Nelson Santander sobre sonhos, subconsciente e gosto musical
- [Philip Larkin - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-aubade/): De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara. Olho o negror sem som, me levantando às quatro. Em tempo, a borda da cortina vai estar clara. Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato: A morte infatigável, um dia mais perto, Tornando inviável todo pensamento, exceto O de onde, como e […]
- [Philip Larkin - Eu Comecei a Dizer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-eu-comecei-a-dizer/): Eu comecei a dizer “Um quarto de século” Ou “trinta anos atrás” Sobre minha própria vida. Isso me deixa sem fôlego É como despencar e arremeter Acenando em largos giros Através do céu vazio. Tudo o que resta acontecer São algumas mortes (incluindo a minha). Em que ordem, e de que maneira, É o que […]
- [Philip Larkin - As Árvores](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/philip-larkin-as-arvores/): As árvores se põem a enfolhar Como algo quase expresso. Seus brotos, Tenros, estão se estendendo, soltos; Seu verde é uma espécie de pesar. Renascem, ou é a gente que vem a Envelhecer? Não, morrem, por certo. O truque anual de um novo aspecto Está inscrito nos anéis da lenha. E cada castelo móvel, no […]
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda-2/)
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda/): Folheio a vida Num calendário velho. Dias riscados, como contas pagas. Domingos de repouso, Segundas de trabalho Sábados de cansaço, Sem nenhum sentido. No abismo do nada, O nada, apenas. Quem sofreu nestas páginas vazias, Tão frias, Tão serenas?
- [William Carlos Williams - Estas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/william-carlos-williams-estas/): ESTAS são as semanas desoladas, sombrias em que na sua aridez a natureza rivaliza com a estupidez humana. O ano despenha-se na noite e o coração é um abismo mais fundo que a noite nesse vazio varrido pelo vento sem sol, sem lua nem estrelas apenas uma estranha luz do pensamento que lança um tenebroso […]
- [Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto - Paulista](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/eduardo-gudin-e-j-c-costa-netto-paulista/): (intérprete: Leila Pinheiro) Na Paulista os faróis já vão abrir E um milhão de estrelas prontas pra invadir Os jardins onde a gente aqueceu uma paixão Manhãs frias de abril Se a avenida exilou seus casarões Quem reconstruiria nossas ilusões? Me lembrei de contar prá você nessa canção Que o amor conseguiu Você sabe quantas […]
- [Arnaldo Antunes - Saiba](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/arnaldo-antunes-saiba/): (intérprete: Adriana Calcanhoto/Partimpim) Saiba Todo mundo foi neném Einstein, Freud e Platão, também Hitler, Bush e Saddam Hussein Quem tem grana e quem não tem… Saiba Todo mundo teve infância Maomé já foi criança Arquimedes, Buda, Galileu E também você e eu… Saiba Todo mundo teve medo Mesmo que seja segredo Nietzsche e Simone […]
- [Belchior - Velha Roupa Colorida](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/belchior-velha-roupa-colorida/): Você não sente e nem vê Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, Que uma nova mudança em breve vai acontecer E o que há algum tempo era jovem, novo, Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer Nunca mais meu pai falou: “She’s leaving home”, E meteu o pé na estrada “Like a […]
- [Humberto Gessinger - Terceira do Plural](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/humberto-gessinger-terceira-do-plural/): Corrida pra vender cigarro Cigarro pra vender remédio Remédio pra curar a tosse Tossir, cuspir, jogar pra fora Corrida pra vender os carros Pneu, cerveja e gasolina Cabeça pra usar boné E professar a fé de quem patrocina Eles querem te vender… Eles querem te comprar… Querem te matar (a sede) Eles querem te sedar! […]
- [Konstantinos Kaváfis - Desejos (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-desejos-em-3-traducoes/): DESEJOS – Trad. José Paulo Paes Belos corpos de mortos que nunca envelheceram, com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes, jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas – assim são os desejos que um dia feneceram sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes o prazer de uma noite ou a manhã luminosa. DESEJOS – Trad. […]
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-2/): DER PANTHER Rainer Maria Rilke Im Jardin des Plantes, Paris Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe so müd geworden,dass er nichts mehr hält. Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe und hinter tausend Stäben keine Welt. Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte, der sich im allerkleinsten Kreise dreht, ist wie ein Tanz von […]
- [William Blake - O Ti(y)gre (em 4 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/william-blake-o-tiygre-em-4-traducoes/): O TYGRE – Trad. Augusto de Campos Tygre! Tygre! Brilho, brasa que a furna noturna abrasa, que olho ou mão armaria tua feroz symmetrya? Em que céu se foi forjar o fogo do teu olhar? Em que asas veio a chamma? Que mão colheu esta flamma? Que força fez retorcer em nervos todo o teu […]
- [Augusto de Campos - O Vivo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/augusto-de-campos-o-vivo/): Não queiras ser mais vivo do que és morto. As sempre-vivas morrem diariamente Pisadas por teus pés enquanto nasces. Não queiras ser mais morto do que és vivo. As mortas-vivas rompem as mortalhas Miram-se umas nas outras e retornam (Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!) Para amassar o pão da própria carne. Ó vivo-morto […]
- [Antonio Cicero - Nênia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-nenia/): A morte nada foi para ele, pois enquanto vivia não havia a morte e, agora que há, ele já não vive. Não temer a morte tornava-lhe a vida mais leve e o dispensava de desejar a imortalidade em vão. Sua vida era infinita, não porque se estendesse indefinidamente no tempo mas porque, como um campo visual, não tinha limite. […]
- [Carlos Pena Filho - A Solidão e sua Porta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-pena-filho-a-solidao-e-sua-porta/): Quando mais nada resistir que valhaa pena de viver e a dor de amare quando nada mais interessar,(nem o torpor do sono que se espalha). Quando pelo desuso da navalhaa barba livremente caminhare até Deus em silêncio se afastardeixando-te sozinho na batalha a arquitetar na sombra a despedidado mundo que te foi contraditório,lembra-te que afinal […]
- [Emily Dickinson - Cemitério](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/emily-dickinson-cemiterio/): Este pó foram damas, cavalheiros, Rapazes e meninas; Foi riso, foi espírito e suspiro, Vestidos, tranças finas. Este lugar foram jardins que abelhas E flores alegraram. Findo o verão, findava o seu destino… E como estes, passaram. Trad.: Manuel Bandeira
- [Robinson Jeffers - The Inhumanist (Parte II de "The Double Axe") (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/robinson-jefferson-the-inhumanist-part-ii-of-the-double-axe/): Chegará um tempo, sem dúvida,Em que também o sol morrerá; os planetas congelarãoe o ar sobre eles; gases congelados, com flocos de arSerão a poeira: que nenhum vento jamais bulirá:essa poeira mesma a cintilar à luz baixa dos astrosÉ o vento morto, o corpo branco do vento. Também a galáxia morrerá; o brilho da Via […]
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-poema/): A PANTERA – trad. Augusto de Campos (No Jardin des Plantes, Paris) De tanto olhar as grades seu olharesmoreceu e nada mais aferra.Como se houvesse só grades na terra:grades, apenas grades para olhar. A onda andante e flexível do seu vultoem círculos concêntricos decresce,dança de força em torno a um ponto ocultono qual um grande […]
- [Ian Curtis - 24 Hours](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/ian-curtis-24-hours/): https://youtu.be/3zo4JdTfDw0 24 Horas Então isso é a permanência – o orgulho despedaçado do amor O que uma vez foi inocência perdeu sua vez Uma nuvem paira sobre mim, marca cada movimento Fundo na memória do que uma vez foi amor Oh, como eu compreendi, como eu queria tempo para Colocar em perspectiva. Tentei tanto encontrar […]
- [Augusto de Campos - o pulsar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-pulsar/)
- [Augusto de Campos - o quasar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-quasar/): Conheça outros livros de Augusto de Campos clicando aqui
- [Augusto de Campos - Tudo Está Dito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tudo-esta-dito/)
- [Augusto de Campos - Morituro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-morituro/)
- [Augusto de Campos - Tour](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tour/)
- [Augusto de Campos - Pó do Cosmos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-po-do-cosmos/)
- [Ferreira Gullar - Voltas Para Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ferreira-gullar-voltas-para-casa/): Depois de um dia inteiro de trabalho voltas para casa, cansado. Já é noite em teu bairro e as mocinhas de calças compridas desceram para a porta após o jantar. Os namorados vão ao cinema. As empregadas surgem das entradas de serviço. Caminhas na calçada escura. Consumiste o dia numa sala fechada, lidando com papéis […]
- [Mario Quintana - Amor Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/mario-quintana-amor-eterno/): Dante se enganou: Paolo e Francesca Continuariam bem juntinhos no Inferno, com pecado e tudo Juntinhos e felizes! Mas quem sabe se não seria este mesmo o castigo divino? Um amor que jamais pudesse terminar…
- [Dante Milano - Ao Tempo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/dante-milano-ao-tempo/): Tempo, vais para trás ou para diante? O passado carrega a minha vida Para trás e eu de mim fiquei distante, Ou existir é uma contínua ida E eu me persigo nunca me alcançando? A hora da despedida é a da partida A um tempo aproximando e distanciando… Sem saber de onde vens e aonde […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Carnaval](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-de-carnaval/): Distante o meu amor, se me afigura O amor como um patético tormento Pensar nele é morrer de desventura Não pensar é matar meu pensamento. Seu mais doce desejo se amargura Todo o instante perdido é um sofrimento Cada beijo lembrado uma tortura Um ciúme do próprio ciumento. E vivemos partindo, ela de mim E […]
- [Horácio - Ode XI, I](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/horacio-ode-xi-i-poema/): não me perguntes — é vedado saber — o fim que a mim e a ti darão os deuses Leucônoe nem babilônios números consultes antes o que for recebe quer te atribua Júpiter muitos invernos quer o último que o mar tirreno debilita com abruptas r o c h a s bebe […]
- [Petrarca - Soneto XXXII](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/petrarca-soneto-xxxii/): Quanto mais perto estou do dia extremo Que o sofrimento humano torna breve, Mais vejo o tempo andar veloz e leve E o que dele esperar falaz e menos. E a mim me digo: Pouco ainda andaremos De amor falando, até que como neve Se dissolva este encargo que a alma teve, Duro e pesado, […]
- [Konstantínos Kaváfis - Míris: Alexandria, 340 d. c.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/konstantinus-kavafis-miris-alexandria-340-d-c/): Quando eu soube da tragédia, que Míris estava morto,fui até sua casa, embora eviteentrar nas casas dos cristãos,principalmente em épocas de luto ou de festividades. Fiquei no corredor. Não quisavançar mais para dentro, porque percebique os parentes do morto me olhavamcom evidente surpresa e desagrado. Tinham-no colocado num cômodo amplodo qual, do ponto onde permaneci,eu […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Traduzido de Kleist](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/sophia-de-mello-breyner-andresen/): Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhanteE brilha sobre campos mais floridosMas os olhos que vêem essas maravilhasSão olhos apodrecidos
- [Antonio Cicero - Sair](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-sair/): Largar o cobertor, a cama, o medo, o terço, o quarto, largar toda simbologia e religião; largar o espírito, largar a alma, abrir a porta principal e sair. Esta é a única vida e contém inimaginável beleza e dor. Já o sol, as cores da terra e o ar azul – o céu do dia […]
- [Antonio Cicero - Perplexidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-perplexidade/): Não sei bem onde foi que me perdi; talvez nem tenha me perdido mesmo, mas como é estranho pensar que isto aqui fosse o meu destino desde o começo.
- [Giuseppe Ungaretti - Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-eterno/): Entre uma flor colhida e o dom de outra o nada inexprimível Trad.: Haroldo de Campos Eterno Tra un fiore colto e l’ altro donato l’ inesprimibile nulla.
- [Giuseppe Ungaretti - De uma Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-de-uma-estrela-a-outra/): Daquela estrela à outra A noite se encarcera Em turbinosa vazia desmesura, Daquela solidão de estrela Àquela solidão de estrela Trad: Haroldo de Campos
- [Salvatore Quasimodo - E de repente é noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite/): Cada um está só no coração da terra traspassado por um raio de sol: e de repente é noite. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Jorge Luis Borges - Limites](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/jorge-luis-borges-limites/): Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar, Há uma rua próxima que está vedada a meus passos, Há um espelho que me viu pela última vez, Há uma porta que fechei até o fim do mundo. Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os) Há algum que já nunca abrirei. Este verão […]
- [Antero de Quental - Divina Comédia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antero-de-quental-divina-comedia/): Erguendo os braços para o Céu distante E apostrofando os deuses invisíveis, Os homens clamam: – «Deuses impassíveis, A quem serve o destino triunfante, Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inextinguíveis, Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis, Num turbilhão cruel e delirante… Pois não era melhor na paz clemente Do […]
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-outrora-e-agora/): De manhã era feliz, quando jovem, E à noite chorava; já hoje, mais velho, Começo meu dia em dúvida, porém Seu fim é para mim sagrado e sereno. Trad.: Antonio Cicero Ehmals und jetzt In jüngern Tagen war ich des Morgens froh, Des Abends weint’ich; jetzt, da ich älter bin, Beginn ich zweifelnd meinen Tag, […]
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-a-brevidade/): “Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora, O canto? Quando jovem, não chegavas, Nos dias de esperança, Nunca ao fim, quando cantavas!” Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebol Banhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está fria E o pássaro da noite esvoaça incomodamente aos olhos teus. […]
- [Rainer Maria Rilke - A Morte do Poeta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/rainer-maria-rilke-a-morte-do-poeta-poema/): Jazia. A sua face, antes intensa, pálida negação no leito frio, desde que o mundo, e tudo o que é presença, dos seus sentidos já vazio, se recolheu à Era da Indiferença. Ninguém jamais podia ter suposto que ele e tudo estivessem conjugados e que tudo, essas sombras, esses prados, essa água mesma eram o […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto do Gato Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-do-gato-morto/): Um gato vivo é qualquer coisa linda Nada existe com mais serenidade Mesmo parado ele caminha ainda As selvas sinuosas da saudade De ter sido feroz. À sua vinda Altas correntes de eletricidade Rompem do ar as lâminas em cinza Numa silenciosa tempestade. Por isso ele está sempre a rir de cada Um de nós, […]
- [Wislawa Szymborska - O primeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/wislawa-szymborska-o-primeiro-amor/): Dizem que o primeiro amor é o mais importante. Isso é muito romântico, mas não é o meu caso. Algo entre nós houve e não houve, se deu e se perdeu. Não me tremem as mãos quando encontro as pequenas lembranças e o maço de cartas atadas com barbante se ao menos fosse uma fita. […]
- [Ian Hamilton - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ian-hamilton-epitafio/): O aroma de rosas velhas e tabaco Faz-me regressar. Há quase vinte anos Que não nos vemos E a nossa desapegada paixão continua. Foi isto que me deixaste: A mão, entreaberta, imóvel Sobre uma colcha verde. O bastante para erguer Alguns poemas melancólicos. Se então eu te houvesse tocado Um de nós podia ter sobrevivido. […]
- [Fernando Pessoa - Poema 165 (Cancioneiro)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/fernando-pessoa-poema-165-cancioneiro/): Tenho tanto sentimento Que é freqüente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a […]
- [Pedro Salinas - Não Te Vejo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/pedro-salinas-nao-te-vejo/): Não te vejo. Bem sei que estás aqui, atrás de uma frágil parede de ladrilhos e cal, bem ao alcance da minha voz, se chamasse. Mas não chamarei. Chamarei amanhã, quando, ao não te ver mais imagine que continuas aqui perto, ao meu lado, e que basta hoje a voz que ontem eu não quis […]
- [William Butler Yeats - Viajando para Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-b-yeats-viajando-para-bizancio-poema/): Aquela não é terra para velhos. Gente jovem, de braços dados, pássaros nas ramas — gerações de mortais — cantando alegremente, salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas, peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente. Ao som da música sensual, o mundo esquece […]
- [W. H. Auden - Blues Fúnebre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-h-auden-blues-funebre/): BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone, jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais, que emudeça o piano e que o tambor sancione a vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço, escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu. Que […]
- [Giuseppe Ungaretti - San Martino del Carso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ungaretti-san-martino-del-carso/): Valloncello dell’Albero Isolato, 27 de agosto de 1916 Destas casas nada sobrou senão alguns pedaços de muro De quantos me foram próximos nada sobrou nem tanto No coração porém nenhuma cruz me falta É o meu coração a região mais destroçada Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – San Martino Del Carso Valloncello dell’Albero Isolato […]
- [Vinicius de Moraes - Poema de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-poema-de-natal/): Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos — Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/cassiano-ricardo-a-graca-triste/): Só me resta agora Esta graça triste De te haver esperado Adormecer primeiro. Ouço agora o rumor Das raízes da noite, Também o das formigas Imensas, numerosas, Que estão, todas, corroendo As rosas e as espigas. Sou um ramo seco Onde duas palavras Gorjeiam. Mais nada. E sei que já não ouves Estas vãs palavras. […]
- [Ezra Pound - Canto LXXXI (fragmentos)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/16/ezra-pound-canto-lxxxi-fragmentos/): O que amas de verdade permanece,o resto é escória.O que amas de verdade não te será arrancadoO que amas de verdade é tua herança verdadeiraMundo de quem, meu ou delesOu não é de ninguém?Veio o visível primeiro, depois o palpávelElísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,O que amas de verdade é tua herança verdadeiraO […]
- [Konstantinos Kaváfis - À Espera dos Bárbaros](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-a-espera-dos-barbaros/): O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado? Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje. Que leis hão de fazer os senadores? Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se ergueu tão cedo e de coroa solene se […]
- [Franz Kafka - Pequena Fábula](https://singularidadepoetica.art/2016/03/31/franz-kafka-pequena-fabula/)
- [Konstantinos Kaváfis - O Prazo de Nero](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/konstantinos-kavafis-o-prazo-de-nero/): Não ficou perturbado Nero quando ouviu do Oráculo de Delfos o prenúncio: “Teme ao ano septuagésimo terceiro.” Tinha tempo bastante a desfrutar. Só contava trinta anos. Muito dilatado era o prazo que o Deus lhe concedia para cuidar-se dos riscos do futuro. Agora vai voltar a Roma um tanto fatigado da magnífica fadiga que se […]
- [Ana Martins Marques - Há estes dias em que pressentimos na casa...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/ana-martins-marques-ha-estes-dias-em-que-pressentimos-na-casa/): Há estes dias em que pressentimos na casa a ruína da casa e no corpo a morte do corpo e no amor o fim do amor estes dias em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde não são coisas que se expliquem apenas são dias […]
- [Marco Aurélio - Reflexões, 14](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/marco-aurelio-reflexoes-14/): Ainda que os anos de tua vida sejam três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida senão a que vive agora, nem vive outra senão a que perde. O prazo mais longo e o mais breve são, portanto, iguais. O presente é de todos; morrer é perder o presente, […]
- [Decio Pignatari - Femme](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/decio-pignatari-femme/)
- [Manuel Bandeira - Soneto Inglês n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/manuel-bandeira-soneto-ingles-n-2/): Aceitar o castigo imerecido, Não por fraqueza, mas por altivez. No tormento mais fundo o teu gemido Trocar um grito de ódio a quem o fez. As delicias da carne e pensamento Com que o instinto da espécie nos engana Sobpor ao gênero sentimento De uma afeição mais simplesmente humana. Não tremer de esperança nem […]
- [Moshé Ibn Ezra - São Túmulos de Tempos Antigos, Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos-antigos-velhos/): São túmulos de tempos antigos, velhos. Neles há gente que dorme um sono eterno. Nem ódio, nem inveja há no seu interior, nem amor, nem zangas de vizinhos. Os meus pensamentos não podem, quando os veem, distinguir entre servos e senhores. Versão de Francisco José Viegas, tradução do hebraico de Maria José Cano. Peguei aqui:http://antoniocicero.blogspot.com.br/2015/08/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos.html
- [Erthos Albino de Souza - Sea Nau](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/erthos-albino-de-souza-sea-nau/)
- [Ferreira Gullar - Nova Concepção da Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-nova-concepcao-da-morte/): Como ia morrer, foi-lhe dado o aviso na carne, como sempre ocorre aos seres vivos; um aviso, um sinal, que não lhe veio de fora, mas do fundo do corpo, onde a morte mora, ou, dizendo melhor, onde ela circula como a eletricidade ou o medo, na medula dos ossos e em cada enzima, que […]
- [Ferreira Gullar - Filhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-filhos/): A meu filho Marcos Daqui escutei quando eles chegaram rindo e correndo entraram na sala e logo invadiram também o escritório (onde eu trabalhava) num alvoroço e rindo e correndo se foram com sua alegria se foram Só então me perguntei por que não lhes dera maior atenção se há tantos e tantos anos não […]
- [Ferreira Gullar - Teu Corpo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-teu-corpo/): O teu corpo muda independente de ti. Não te pergunta se deve engordar. É um ser estranho que tem teu rosto ri em teu riso e goza com teu sexo. Lhe dás de comer e ele fica quieto. Penteias-lhe os cabelos como se fossem teus. Num relance, achas que apenas estás nesse corpo. Mas como, […]
- [Ferreira Gullar - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-despedida/): Eu deixarei o mundo com fúria. Não importa o que aparentemente aconteça, se docemente me retiro. De fato, nesse momento estarão de mim se arrebentando raízes tão fundas quanto estes céus brasileiros. Num alarido de gente e ventania olhos que amei rostos amigos tardes e verões vividos estarão gritando a meus ouvidos para que eu […]
- [Ferreira Gullar - Praia do Caju](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-praia-do-caju/): Escuta: o que passou passou e não há força capaz de mudar isto. Nesta tarde de férias, disponível, podes, se quiseres, relembrar. Mas nada acenderá de novo o lume que na carne das horas se perdeu. Ah, se perdeu! Nas águas da piscina se perdeu sob as folhas da tarde nas vozes conversando na varanda […]
- [Ferreira Gullar - O Que Se Foi](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-o-que-se-foi/): O que se foi se foi. Se algo ainda perdura é só a amarga marca na paisagem escura. Se o que foi regressa, traz um erro fatal: falta-lhe simplesmente ser real. Portanto, o que se foi, se volta, é feito morte. Então por que me faz o coração bater tão forte?
- [Arnaldo Antunes - Só o Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-so-o-sol/)
- [Arnaldo Antunes - Casulo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-casulo/)
- [Arnaldo Antunes - Acaba Acontecendo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-acaba-acontecendo/): o que você mais teme acaba acontecendo o que você mais quer acaba acontecendo o que ninguém espera acaba acontecendo o que ninguém consegue mais conter acaba de acontecer
- [O Segredo dos seus Olhos - Mil Passados](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/o-segredo-dos-seus-olhos-mil-passados/): “Não pense mais nisso! Não pense mais. O que importa? Não fique mais imaginando, não fique pensando no que aconteceu, no que não aconteceu. No que poderia ter acontecido. Senão você terá mil passados e nenhum futuro…” Ricardo Morales para Benjamin Espósito, em “O Segredo dos Seus Olhos”
- [Alfred Tennyson - Ulysses](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/alfred-tennyson-ulysses/): De nada serve a um rei ficar inerte, No lar quieto, em meio à rocha infértil, Unido a esposa idosa, eu doo e imponho Iníquas leis a um bando de selvagens Que soma, e dorme, e engorda, e não me vê. Estou inquieto: Sorverei da vida A última gota: Sempre gozei muito, Sofri muito, com […]
- [Bei Dao - Resposta](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/bei-dao-resposta/): A degradação é o passaporte do vilão, A nobreza é epitáfio do nobre. Olhe: como o céu dourado é inundado do reflexo das sombras torcidas dos mortos. Passada a época do gelo, Por que ainda há gelo em toda a parte? Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança, por que mil velas ainda competem […]
- [Antonio Cicero - Valeu](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/antonio-cicero-valeu/)
- [Óssip Mandelstam - Pedra (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/osip-mandelstam-pedra-excerto/): Não posso tocar, no escuro,Teu vulto vago e sombrio.“Senhor!”, por erro, murmuro,Alheio ao que balbucio. De mim, tal uma ave enorme,O nome de Deus se evola.À frente, um abismo informe,Atrás, vazia, a gaiola. Trad.: Augusto de Campos
- [Jorge Luis Borges - Everness](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-everness/): Só uma coisa há. É o esquecimento. Deus, que salva o metal, salva a escória E cifra na sua profética memória as luas que serão e que hão sido. Já tudo está. Os mil reflexos, Que entre os dois crepúsculos do dia Teu rosto foi deixando nos espelhos e os que irá deixando ainda. E […]
- [Jorge Luis Borges - Cosmogonia](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-cosmogonia/): Nem treva nem caos. A treva Requer olhos que vêem, como o som. E o silêncio requer o ouvido, O espelho, a forma que o povoa. Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer Uma divindade que premedita O silêncio anterior à primeira Noite do tempo, que será infinita. O grande rio de Heráclito o […]
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antonio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre/): —Nos —fios —ten sos —da —pauta —de me- tal —as — an/ do/ ri/ nhas —gri- tam —por —fal/ ta/ —de u- ma —cl’a- ve —de —sol
- [Doroty Parker - Em Suma](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/doroty-parker-em-suma/): Trad.: Nelson Ascher
- [Algernon Charles Swinburne - Uma Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/algernon-charles-swinburne-uma-despedida-poema/): Leia "Uma Despedida", de Algernon Charles Swinburne, um poema lírico sobre amor não correspondido, despedida e a beleza melancólica da renúncia.
- [William Butler Yeats - Quando Estiveres Grisalha e com Sono...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-quando-estiveres-grisalha-e-com-sono-poema/): Quando estiveres grisalha e com sono, Dormitando ante o fogo, lê meu livro Bem lentamente e lembra o sensitivo Olhar que tinhas de suave abandono. Muitos amaram tuas alegrias, Tua beleza; mas só num culmina O amor por tua alma peregrina E a mágoa que teu rosto pressentia. Reclina-te ante as chamas; e ao vê-las […]
- [William Butler Yeats - A Segunda Vinda](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-a-segunda-vinda/): Girando em círculos sempre maiores Já não ouve o falcão ao falcoeiro; Tudo desaba; o próprio centro hesita; Livre, a anarquia reina sobre o mundo, Livre a maré sanguinolenta: em tudo Se afogam os rituais da inocência; Os melhores vacilam e os piores À intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia, […]
- [Cassiano Ricardo - Dedicatória](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-dedicatoria/): I Ao claro tempo, ao tempo das metamorfoses, não havia horizonte na alegria do ser e do acontecer. Havia a graça aérea com que as coisas brincavam de ser e de não ser, no jardim da matéria. Hoje uma coisa passa a ser outra coisa; nascem anjos sem asa dentro do dicionário; um monstro, um […]
- [Cassiano Ricardo - O Hipopótamo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-o-hipopotamo/): Não adianta o rio lhe ofertar um espelho, se ele não sabe de quem é a imagem que o espelho reflete. Se ele pensa que a sua imagem n’água é a de um outro hipopótamo. A paisagem por volta tem algo de bíblico pois é a água da criação, ainda viva, como no primeiro dia. […]
- [Cassiano Ricardo - O Cacto](https://singularidadepoetica.art/2016/03/25/cassiano-ricardo-o-cacto/): This is cactus land. Here the stone images are raised… T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cacto na areia da nossa tristeza. Uma folha sobre outra, em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros, um braço a nascer de outro braço, uma folha sobre outra, formaremos um grande cacto. De cada braço, […]
- [Paul Auster - A Invenção da Solidão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/paul-auster-a-invencao-da-solidao-excerto/)
- [Arnaldo Antunes - Cultura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-cultura/)
- [Arnaldo Antunes - A Casa é Sua](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-a-casa-e-sua/): Não me falta cadeira Não me falta sofá Só falta você sentada na sala Só falta você estar Não me falta parede E nela uma porta pra você entrar Não me falta tapete Só falta o seu pé descalço pra pisar Não me falta cama Só falta você deitar Não me falta o sol da […]
- [Robert Frost - A Estrada não Trilhada](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/robert-frost-a-estrada-nao-trilhada/): Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se, mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria. Assim, por longo tempo eu ali me detive, e um deles observei até um longe declive no qual, dobrando, desaparecia… Porém tomei o outro, igualmente viável, e tendo mesmo um atrativo especial, pois mais ramos possuía e talvez […]
- [Gavin Aung Than e Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/gavin-aung-than-ozymandias/)
- [Carlos Drummond de Andrade - Declaração em Juízo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-declaracao-em-juizo/): Peço desculpas de ser o sobrevivente. Não por longo tempo, é claro. Tranqüilizem-se. Mas devo confessar, reconhecer que sou sobrevivente. Se é triste/cômico ficar sentado na platéia quando o espetáculo acabou e fecha-se o teatro, mais triste/grotesco é permanecer no palco, ator único, sem papel, quando o público já virou as costas e somente baratas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte no Avião](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-morte-no-aviao/): Acordo para a morte.Barbeio-me, visto-me, calço-me.É meu último dia: um diacortado de nenhum pressentimento.Tudo funciona como sempre.Saio para a rua. Vou morrer. Não morrerei agora. Um diainteiro se desata à minha frente.Um dia como é longo. Quantos passosna rua, que atravesso. E quantas coisasno tempo, acumuladas. Sem reparar,sigo meu caminho. Muitas facescomprimem-se no caderno de […]
- [Violeta de Outono - Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/03/20/violeta-de-outono-outono/): No percurso rumo ao prédio oculto Desolado o sol se põe a oeste Lua em gancho, triste, sons do vento Parte o coração o frio do outono Canto do extremo do mundo Espero em silêncio profundo No jardim noturno o esquecimento Velha árvore espera o julgamento Nada explicará meu sentimento Está em meu coração […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Uma Hora e mais Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-uma-hora-e-mais-outra/): Há uma hora triste que tu não conheces. Não é a da tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança; não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol antecipando outro mais gelado pano; e também não é a do nascer do sol enquanto enfastiado assistes […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Coisa Miserável](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-coisa-miseravel/): Coisa miserável, suspiro de angústia enchendo o espaço, vontade de chorar, coisa miserável, miserável. Senhor, piedade de mim, olhos misericordiosos pousando nos meus, braços divinos cingindo meu peito, coisa miserável no pó sem consolo, consolai-me. Mas de nada vele gemer ou chorar, de nada vale erguer as mãos e olhos para um céu tão longe, […]
- [Chico Buarque e Francis Hime - Amor Barato](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-e-francis-hime-amor-barato/): Eu queria serUm tipo de compositorCapaz de cantar nosso amorModesto Um tipo de amorQue é de mendigar cafunéQue é pobre e às vezes nem éHonesto Pechincha de amorMas que eu faço tanta questãoQue se tiver precisãoEu furto Vem cá, meu amorAguenta o teu cantadorMe esquenta porque o cobertor é curto Mas levo esse amorCom […]
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-pedaco-de-mim/): Oh, pedaço de mim Oh, metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior do que o esquecimento É pior do que se entrevar Oh, pedaço de mim Oh, metade exilada de mim Leva os teus sinais Que a saudade dói como um barco Que aos poucos […]
- [Haroldo Barbosa e Luis Reis - Notícia de Jornal](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/haroldo-barbosa-e-luis-reis-noticia-de-jornal1/): “Tentou contra a existência Num humilde barracão Joana de Tal, por causa de um tal João. Depois de medicada, Retirou-se pro seu lar.” Aí a notícia carece de exatidão. O lar não mais existe. Ninguém volta ao que acabou. Joana é mais uma mulata triste que errou. Errou na dose, errou no amor, Joana errou […]
- [Caetano Veloso - Como Dois e Dois](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/caetano-veloso-como-dois-e-dois/): Quando você me ouvir cantar Venha, não creia, eu não corro perigo Digo, não digo, não ligo, deixo no ar Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar… Tudo vai mal, tudo Tudo é igual quando eu canto e sou mudo Mas eu não minto, não minto, estou longe e perto Sinto alegrias, tristezas e […]
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura-2/)
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura/): Sei de uma criatura antiga e formidável, que a si mesma devora os membros e as entranhas, com a sofreguidão da fome insaciável. Habita juntamente os vales e as montanhas; e no mar, que se rasga, à maneira de abismo, espreguiça-se toda em convulsões estranhas. Traz impresso na fronte o obscuro despotismo. cada olhar que […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/caetano-veloso-o-homem-velho/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero - Inverno](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/adriana-calcanhotto-inverno/): No dia em que fui mais feliz Eu vi um avião Se espelhar no seu olhar até sumir De lá pra cá não sei Caminho ao longo do canal Faço longas cartas pra ninguém E o inverno no Leblon é quase glacial Há algo que jamais se esclareceu: Onde foi exatamente que larguei Naquele […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Versos à Boca da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/03/11/carlos-drummond-de-andrade-versos-a-boca-da-noite/): Sinto que o tempo sobre mim abatesua mão pesada. Rugas, dentes, calva.Uma aceitação maior de tudo,e o medo de novas descobertas. Escreverei sonetos de madureza?Darei aos outros a ilusão de calma?Serei sempre louco? Sempre mentiroso?Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? Há muito suspeitei o velho em mim.Ainda criança, já me atormentava.Hoje estou só. Nenhum menino […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Que País é Este?](https://singularidadepoetica.art/2016/03/10/affonso-romano-de-santanna-que-pais-e-este/): Que País é Este?, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, realiza uma vasta investigação poética sobre a formação histórica, cultural e política do Brasil.
- [Giacomo Leopardi - Opúsculos Morais (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-opusculos-morais-excerto/): “Cada parte do universo apressa-se, infatigavelmente, para a morte com solicitude e celeridade admiráveis. Apenas o próprio planeta parece imune à decadência e ao declínio. Contudo, se no outono e no inverno mostra-se quase enfermo e velho, não menos, na nova estação, rejuvenesce sempre. Mas como os mortais no primeiro momento de cada dia readquirem […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito-2-poema/): Sempre me foi cara esta colina erma E esta sebe, que de muitos lados Exclui a visão do último horizonte. Mas sentado, contemplando, infindáveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e a mais profunda calma Eu no pensar imagino; e por pouco Não se amedronta o coração. E o Vento Ouvindo sussurrar entre essas plantas, […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito/): Sempre cara me foi esta colina Erma, e esta sebe, que de tanta parte Do último horizonte, o olhar exclui. Mas sentado a mirar, intermináveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e uma calma profundíssima Eu crio em pensamentos, onde por pouco Não treme o coração. E como o vento Ouço fremir entre essas folhas, […]
- [Adriana Calcanhotto - Estrelas](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-estrelas/): estrelas para mim para mim estrelas são para mim estrelas para mim estrelas estrelas para quê? para quê? para quê? estrelas para mim só para mim. para mim para mim para mim e a treva entre as estrelas só para mim.
- [Adriana Calcanhotto - Jovens e Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-jovens-e-velhos/): Antes de mim vieram os velhos Os jovens vieram depois de mim E estamos todos aqui No meio do caminho dessa vida Vinda antes de nós E estamos todos a sós No meio do caminho dessa vida E estamos todos no meio Quem chegou e quem faz tempo que veio Ninguém no início ou no […]
- [Giuseppe Ungaretti - Daquela Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/giuseppe-ungaretti-daquela-estrela-a-outra/): Trad.: Haroldo de Campos
- [Arnaldo Antunes - O Que](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/arnaldo-antunes-o-que/)
- [Manuel Bandeira - O Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/manuel-bandeira-o-rio/): Ser como o rio que deflui Silencioso dentro da noite. Não temer as trevas da noite. Se há estrelas nos céus, refleti-las. E se os céus se pejam de nuvens, Como o rio as nuvens são água, Refleti-las também sem mágoa Nas profundidades tranquilas.
- [Andrew Marvell - To His Coy Mistress, em 5 traduções](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/andrew-marvell-to-his-coy-mistress-em-5-traducoes/): PARA SUA DAMA RECATADA. trad. Matheus “Mavericco”. Houvesse tempo e espaço e então de fato Não seria um delito este recato. Sentados, nós iríamos pensar Em só pensar no outro, e assim passar. Você, do lado indígena do Ganges, Achando rubis, e eu, pois me confrange A dor, junto ao Humber. Décadas antes Do Dilúvio […]
- [W. H. Auden - Ao Descer a Rua Bristol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/w-h-auden-ao-descer-a-rua-bristol/): Ao descer a rua Bristol uma tarde, eu vi os demais que eram como, antes da ceifa, os já maduros trigais. E ouvi junto ao rio, debaixo da ponte da ferrovia, um namorado cantando como ele sempre amaria: “Vou te amar, meu bem, até que a África se junte à China, que o rio salte […]
- [Jorge Luis Borges - Aqui. Hoje.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-aqui-hoje/): Já somos o esquecimento que seremos. A poeira elementar que nos ignora e que foi o ruivo Adão e que é agora todos os homens e que não veremos. Já somos na tumba as duas datas do princípio e do término, o esquife, a obscena corrupção e a mortalha, os ritos da morte e as […]
- [Jorge Luis Borges - São os Rios](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-sao-os-rios/): Somos o tempo. Somos a famosa parábola de Heráclito o Obscuro. Somos a água, não o diamante duro, a que se perde, não a que repousa. Somos o rio e somos aquele grego que se olha no rio. Seu semblante muda na água do espelho mutante, no cristal que muda como o fogo. Somos o […]
- [Jorge Luis Borges - As Coisas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-as-coisas/): A bengala, as moedas, o chaveiro, a fechadura dócil, as tardias notas que não lerão os poucos dias que me restam, o naipe, o tabuleiro, um livro e dentro dele a emurchecida violeta, monumento de uma tarde por certo inesquecível já esquecida, o rubro espelho ocidental em que arde uma aurora ilusória. Quantas coisas, atlas, […]
- [W. H. Auden - Musée des Beaux-Arts](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/w-h-auden-musee-des-beaux-arts/): Sobre o sofrimento jamais se enganaram os velhos Mestres: eles bem compreenderam a condição humana, viram como certas coisas acontecem enquanto alguém por aí está comendo ou abrindo a janela ou apenas caminhando sem pressa. Sabem que, enquanto os mais velhos es- tão, reverentemente, apaixo- nadamente, à espera do “birth” […]
- [Samuraitiger19 - Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/samuraitiger19-nos-minutos-finais-de-sua-vida-calvin-teve-uma-ultima-conversa-com-haroldo/): “Calvin? Calvin, querido?” No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Corrente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-a-corrente/): Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos, amarelos, e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.
- [Mário Quintana - Os Degraus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mario-quintana-os-degraus/): Não desças os degraus do sonho Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos – onde Os deuses, por trás das suas máscaras, Ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo…
- [Bertolt Brecht - Lista de Preferências](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/bertolt-brecht-lista-de-preferencias/): Alegrias, as desmedidas. Dores, as não curtidas. Casos, os inconcebíveis. Conselhos, os inexequíveis. Meninas, as veras. Mulheres, insinceras. Orgasmos, os múltiplos. Ódios, os mútuos. Domicílios, os passageiros. Adeuses, os bem ligeiros. Artes, as não rentáveis. Professores, os enterráveis. Prazeres, os transparentes. Projetos, os contingentes. Inimigos, os delicados. Amigos, os estouvados. Cores, o rubro. Meses, outubro. […]
- [John Keats - Ode sobre uma Urna Grega](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/john-keats-ode-sobre-uma-urna-grega/): I Inviolada noiva de quietude e paz, Filha do tempo lento e da muda harmonia, Silvestre historiadora que em silêncio dás Uma lição floral mais doce que a poesia: Que lenda flor-franjada envolve tua imagem De homens ou divindades, para sempre errantes. Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo? Que deuses ou mortais? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tarde de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-tarde-de-maio/): Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio, quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra, outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora, surdamente lavrava sob meus traços cômicos, e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes e condenadas, no […]
- [Rogério Nascente - Às Vezes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/rogerio-nascente-as-vezes/)
- [Múcio Góes - A Dor Meço](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mucio-goes-a-dor-meco/)
- [Arthur Schopenhauer - Fisicamente, o andar...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/926-2/)
- [Arthur Schopenhauer - Bolhas de Sabão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-bolhas-de-sabao-excerto/): O homem só vive no presente, que se converte no passado, e afunda-se na morte. Exceto as consequências que podem influir no presente, e que são filhas de sua vontade, ou de seus atos, a sua vida passada já não existe. Devia portanto ser-lhe indiferente que esse passado fosse de prazeres ou tristezas. O presente […]
- [Jorge Luis Borges - Outras Inquisições (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jorge-luis-borges-outras-inquisicoes-excerto/): Negar a sucessão temporal, negar o Eu, negar o universo astronômico, são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino não é assustador por ser irreal; é assustador porque é irreversível e ferrenho. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é […]
- [José Paulo Paes - Auto-Epitáfio n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2/)
- [Jules Laforgue - Mediocridade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jules-laforgue-mediocridade/): No infinito coberto de eternas belezas, Como átomo perdido, incerto, solitário, Um planeta chamado Terra, dias contados, Voa com os seus vermes sobre as profundezas. Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho, Marchando, indiferentes ao grande mistério, E quando um dos seus é enterrado, já sérios, Saúdam-no. Do torpor não são arrancados. Viver, morrer, […]
- [Richard Dawkins - Todos Vamos Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/richard-dawkins-todos-vamos-morrer/): Arte: Gavin Aung – 2012
- [William Shakespeare - do Macbeth (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/william-shakespeare-do-macbeth-excerto/): Amanhã amanhã amanhã amanhã Rasteja em passo parco dia a dia Até a última sílaba do Tempo. E os ontens, todos, só nos alumiam O fim no pó. Apaga, apaga, vela Breve! A vida é só uma sombra movel. Pobre ator Que freme e treme o seu papel no palco E logo sai de cena. […]
- [Edgar Allan Poe - Berenice](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/edgar-allan-poe-berenice/): A DESGRAÇA É VARIADA. O infortúnio da terra é multiforme. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris! Como de um exemplo de beleza, derivei eu uma imagem de desencanto? Da aliança da paz, uma […]
- [Arthur Schopenhauer - A Vida é Dor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-a-vida-e-dor/): Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor. Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre. A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos. A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em […]
- [Décio Pignatari - Cri$to](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/decio-pignatari-crito/)
- [D. H. Lawrence - Bons Maridos Fazem Mulheres Infelizes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/d-h-lawrence-bons-maridos-fazem-mulheres-infelizes/): Bons maridos fazem mulheres infelizes e maus maridos também fazem; mas a infelicidade de uma mulher de marido bom é muito mais arrasadora que a infelicidade de uma mulher de marido ruim. Trad.: Jorge Wanderley
- [Arnaldo Antunes - Sol To](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-sol-to/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Isabel Allende - Ruído](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/isabel-allende-ruido/): A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte.
- [António Lobo Antunes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/antonio-lobo-antunes/): Com os anos a morte vai-se tornando familiar. Quero dizer não a ideia da morte, não o medo da morte: a realidade dela. As pessoas de quem gostamos e partiram amputam-nos cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por dentro. Parece que sobrevivemos não aos outros mas a nós mesmos, […]
- [Anatol Knotek - Bye](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/anatol-knotek-bye/)
- [Arnaldo Antunes - A Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-a-eternidade/)
- [Arnaldo Antunes - faltaratéfartar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-faltaratefartar/)
- [Arnaldo Antunes - Pensa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-pensa/)
- [Arnaldo Antunes - Aquilo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-aquilo/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume-2/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume/): Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia Só vigia um ponto negro: o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Quem nem alegre, nem triste, nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski-2/): Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakósvki. Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem. Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski/)
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/ferreira-gullar-os-mortos/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Jorge de Sena - Conheço o Sal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/jorge-de-sena-conheco-o-sal-poema/): Conheço o sal, um poema de Jorge de Sena
- [Paulo Henriques Britto - Balanços](https://singularidadepoetica.art/2017/01/10/paulo-henriques-britto-balancos/): II Como saber sem tentar? Como tentar se é tão fácil conformar-se de saída com a ideia de fracasso? Pois fracassar justifica o não se ter nem sequer admitido não querer-se aquilo que mais se quer. É um beco sem saída, mas sempre é melhor que a rua: mais estreito. Acolhedor. Vem, entra. A casa […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Quarta Feira de Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/vinicius-de-moraes-soneto-de-quarta-feira-de-cinzas/): Por seres quem me foste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Malgrado a vida dura e atormentada Por seres mais que a simples aventura E menos que a constante namorada Porque te vi nascer de mim […]
- [Wislawa Szymborska - Discurso do Nobel 1996 (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/wislawa-szymborska-discurso-do-nobel-1996-excerto/)
- [Paulo Henriques Britto - Mínima Poética](https://singularidadepoetica.art/2017/01/08/paulo-henriques-britto-minima-poetica/): Poesia como forma de dizer o que de outras formas é omitido— não de calar o que se vive e vê e sente por vergonha do sentido. Poesia como discurso completo, ao mesmo tempo trama de fonemas, artesanato de éter, e projeto sobre a coisa que transborda o poema (se bem que dele próprio projetada). […]
- [Paulo Henriques Britto - Circular](https://singularidadepoetica.art/2017/01/07/paulo-henriques-britto-circular/): Neste mesmo instante, em algum lugar, alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer. Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar. O que você fizer não muda coisa alguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a […]
- [Paulo Henriques Britto - Biodiversidade](https://singularidadepoetica.art/2017/01/06/paulo-henriques-britto-biodiversidade/): Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, que não requerem prática, oficina, suor. Maneiras mais simpáticas de pagar mico e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, como há quem não se vexe de ler e decifrar essas palavras bestas estrebuchando […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/05/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos/): III Mesmo o mais sólido some sem deixar nenhum vestígio, sem nem se ter (como exige o costume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido — que se dá a posteriori, antes que se deteriore de todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculo ângulo do evento único […]
- [Paulo Henriques Britto - Mosaico](https://singularidadepoetica.art/2017/01/04/paulo-henriques-britto-mosaico/): Os dias a amontoar-se como se rumo a um sentido, algo que se assemelhasse a uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo, claro — o que sabem os dias?) uma estrutura em relevo, espécie de marchetaria, com padrão indecifrável (por não seguir um projeto), mas assim mesmo um resguardo, um remédio […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/03/paulo-henriques-britto-de-biographias-literarias/): V Céu azul. Cores vivas. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo. É talvez domingo. É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagem extremamente, absurdamente nítida. E se fosse menor a claridade, ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Seis Sonetos Soturnos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/02/paulo-henriques-britto-de-seis-sonetos-soturnos/): I A qualquer hora, o que se chama vida pode mudar da água pro vinho. Ou vice- -versa. Cada palavra proferida — uma sentença grave, uma tolice — pode retornar feito um bumerangue capaz de destruir o que encontrar. E nada que se funde em carne e sangue escapa dessas bólides de ar: o amor […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Vai, Ano Velho](https://singularidadepoetica.art/2017/01/01/affonso-romano-de-santanna-vai-ano-velho/): Leia Vai, Ano Velho, de Affonso Romano de Sant'Anna, um poema sobre renovação, esperança e a persistente necessidade humana de sonhar.
- [Paulo Henriques Britto - Madrigal](https://singularidadepoetica.art/2016/12/31/paulo-henriques-britto-madrigal/): Desista: não vai dar certo. O mundo é o mesmo de sempre, desejo é uma coisa cega. Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam, os pés vão aonde não sabem. As cartas estão marcadas: vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo, desejo é uma porta aberta. Desista, […]
- [Paulo Henriques Britto - Cuidado Poeta...](https://singularidadepoetica.art/2016/12/30/paulo-henriques-britto-cuidado-poeta/): Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma. Depois de um certo número de páginas anjos não pousam mais nas entrelinhas. E até a lucidez, essa moderna, também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado, não se resolve com um só lance de dados. Não basta a precisão do gesto […]
- [Paulo Henriques Britto - Soneto Inglês](https://singularidadepoetica.art/2016/12/29/paulo-henriques-britto-soneto-ingles/): A surpresa do amor — quando já não se espera do mundo nada em especial, e a evidência de que os anos vão se acumulando sem nenhum sinal de sentido já não dói nem comove — quando em matéria de felicidade não se deseja mais que uns nove metros quadrados de privacidade para abrigar os […]
- [Paulo Henriques Britto - Crepuscular](https://singularidadepoetica.art/2016/12/28/paulo-henriques-britto-crepuscular/): 1. Chegamos tarde. (Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidade aberta, e uma loucura provisória era a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todo atento, em transe, em trânsito, no assédio a um ou outro flanco do […]
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori II](https://singularidadepoetica.art/2016/12/27/paulo-henriques-britto-memento-mori-ii/): Luz frágil que brota no breu e num rápido relance dá forma e cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que pode às aparências, acredita piamente no sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forças contra o conforto de apagar-se enfim por trás de duas implacáveis pálpebras.
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori I](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-memento-mori-i/): Nenhum sinal da solidão se vê lá onde o amor corrói a carne a fundo. Dentro da pele, no entanto, você é só você contra o mundo. Esta felicidade que abastece seu organismo, feito um combustível, é volátil. Tudo que sobe desce. Tudo que dói é possível.
- [Paulo Henriques Britto - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-acalanto/): Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Três Epifanias Triviais"](https://singularidadepoetica.art/2016/12/25/paulo-henrique-brittos-de-tres-epifanias-triviais/): As coisas que te cercam, até onde alcança tua vista, tão passivas em sua opacidade, que te impedem de enxergar o (inexistente) horizonte, que justamente por não serem vivas se prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção, essas coisas que você usa e esquece assim que larga na primeira mesa — […]
- [Patrícia Pinheiro - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/12/12/patricia-pinheiro-sem-titulo/)
- [Cecília Meireles - De que são feitos os dias?](https://singularidadepoetica.art/2016/12/09/cecilia-meireles-de-que-sao-feitos-os-dias/): De que são feitos os dias? – De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Entre mágoas sombrias, momentâneos lampejos: vagas felicidades, inactuais esperanças. De loucuras, de crimes, de pecados, de glórias – do medo que encadeia todas essas mudanças. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alianças…
- [Nelson Santander - Limiar](https://singularidadepoetica.art/2016/11/21/nelson-santander-limiar-poema/): Limiar, um poema de Nelson Santander
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/ferreira-gullar-os-mortos-2/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Carlos Drummond de Andrade - Retrato de Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/carlos-drummond-de-andrade-retrato-de-familia/): Este retrato de família Está um tanto empoeirado. Já não se vê no rosto do pai Quanto dinheiro ele ganhou. Nas mãos dos tios não se percebem As viagens que ambos fizeram. A avó ficou lisa, amarela, Sem memórias da monarquia. Os meninos, como estão mudados. O rosto de Pedro é tranquilo, Usou os melhores […]
- [Ferreira Gullar - Redundâncias](https://singularidadepoetica.art/2016/11/19/ferreira-gullar-redundancias/): Ter medo da morteé coisa dos vivoso morto está livrede tudo o que é vida Ter apego ao mundoé coisa dos vivospara o morto não há(não houve)raios rios risos E ninguém vive a mortequer morto quer vivomera noção que existesó enquanto existo
- [Ferreira Gullar - Visita](https://singularidadepoetica.art/2016/11/18/ferreira-gullar-visita/): no dia de finados ele foi ao cemitério porque era o único lugar do mundo onde podia estar perto do filho mas diante daquele bloco negro de pedra impenetrável entendeu que nunca mais poderia alcançá-lo Então apanhou do chão um pedaço amarrotado de papel escreveu eu te amo filho pôs em cima do mármore sob […]
- [Ferreira Gullar - A Alegria](https://singularidadepoetica.art/2016/11/17/ferreira-gullar-a-alegria/): O sofrimento não tem nenhum valor. Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança ou a ilusão de uma alegria). Sofres tu, sofre um cachorro ferido, um inseto que o inseticida envenena. Será maior a tua dor que a […]
- [Marcelo Tápia - a pedra volátil](https://singularidadepoetica.art/2016/11/16/marcelo-tapia-a-pedra-volatil-poema/): a pedra volátil, um poema de marcelo tápia
- [Antonio Cicero - Cidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/15/antonio-cicero-cidade/): Para Arthur Nestrovsky Lembro que o futuro era uma cidade nebulosa da qual eu esperava tudo e que, sendo uma cidade, nada esperava de ninguém. Ah, cidade sonhada de avenidas macadâmicas, turbas febris e prédios de granito: o que era que eu perdera e que, perdido e em cacos, buscava nas tuas áridas calçadas e […]
- [Antonio Cicero - Virgem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/14/antonio-cicero-virgem/): Música: Marina Lima As coisas não precisam de você:Quem disse que eu tinha que precisar?As luzes brilham no VidigalE não precisam de você;Os Dois IrmãosTambém não.O Hotel Marina quando acendeNão é por nós doisNem lembra o nosso amor.Os inocentes do Leblon,Esses nem sabem de vocêNem vão querer saberE o farol da Ilha só gira agoraPor […]
- [Jorge Wanderley - Acerto de Contas](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/jorge-wanderlei-acerto-de-contas/): quando a geração de meu pai batia na minha a minha achava que era normal que a geração de cima só podia educar a de baixo batendo quando a minha geração batia na de vocês ainda não sabia que estava errado mas a geração de vocês já sabia e cresceu odiando a geração de cima […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Fragilidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/carlos-drummond-de-andrade-fragilidade/): Este verso, apenas um arabesco em torno do elemento essencial – inatingível. Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas, e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento, ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades de sono se depositam sobre a terra esfacelada. Não mais o desejo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Ontem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/12/carlos-drummond-de-andrade-ontem/): Até hoje perplexo ante o que murchou e não eram pétalas. De como este banco não reteve forma, cor ou lembrança. Nem esta árvore balança o galho que balançava. Tudo foi breve e definitivo. Eis está gravado não no ar, em mim, que por minha vez, escrevo, dissipo.
- [Carlos Drummond de Andrade - Viagem na Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/11/carlos-drummond-de-andrade-viagem-na-familia/): A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabira a sombra de meu pai tomou-me pela mão. Tanto tempo perdido. Porém nada dizia. Não era dia nem noite. Suspiro? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Noite Dissolve os Homens](https://singularidadepoetica.art/2016/11/10/carlos-drummond-de-andrade-a-noite-dissolve-os-homens/): A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão. A noite caiu. Tremenda, sem esperança… Os suspiros acusam a presença negra que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/11/09/carlos-drummond-de-andrade-os-ombros-suportam-o-mundo/): Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Inocentes do Leblon](https://singularidadepoetica.art/2016/11/08/carlos-drummond-de-andrade-inocentes-do-leblon/): Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Cassiano Ricardo - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2016/11/07/cassiano-ricardo-testamento/): Deixo os meus olhos ao cego que mora nesta rua. Deixo a minha esperança ao primeiro suicida. Deixo à polícia meu rasto, a Deus o meu último eco. Deixo o meu fogo-fátuo ao mais triste viandante que se perder sem lanterna numa noite de chuva. Deixo o meu suor ao fisco que me cobriu de […]
- [Cassiano Ricardo - Morrer não será dormir](https://singularidadepoetica.art/2016/11/06/cassiano-ricardo-morrer-nao-sera-dormir/): Morrer não será dormir, pois não existe horizonte para poder haver sono. Será ser indiferente. Apenas indiferente. Que tanto faça haver sol como o sol não seja mais do que um simples girassol. Não será, só, o morrer porque se deixou de ser. Será – por indiferença – tanto estar o mundo morto como imundo […]
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa-2/)
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa/): I A cidade chora lágrimas elétricas sobre o corpo anônimo do eletrocutado. As figuras tétricas que residem, mudas, na parede do templo, me cercam, na rua. Como se eu fosse, acaso, o culpado de algum acontecimento na noite confusa. II O deus unicórnio que há no escudo do rei, e que lhe defende a coroa, […]
- [Álvaro de Campos - Lisbon Revisited (1926)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/03/alvaro-de-campos-lisbon-revisited-1926/): Nada me prende a nada. Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. Anseio com uma angústia de fome de carne O que não sei que seja – Definidamente pelo indefinido… Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias. Correram cortinas de todas as […]
- [Thomas Mann - Morte em Veneza (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/thomas-mann-morte-em-veneza-excerto/): “(…) Gustav von Aschenbach era de estatura um pouco abaixo da média, moreno, rosto inteiramente barbeado. A cabeça parecia um pouco grande demais em relação à sua figura quase franzina. O cabelo, penteado para trás, escasso no alto da cabeça, abundante e já bem grisalho nas têmporas, enquadrava uma testa alta, cheia de rugas que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - José](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/carlos-drummond-de-andrade-jose/): E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não […]
- [Mário Chamie - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/mario-chamie-fantasma/): Um fantasma ausente põe tijolo sobre tijolo ao seu redor. Primeiro mede o terreno Divide o espaço. Calca com o pé a planta que não floresce. Mas que cresce sob estacas de cimento. Depois, a ausência se preenche. O fantasma move a cal, a pedra, a pá. O fantasma move o corpo já presente do […]
- [Cecilia Meireles - Cantarão os Galos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/cecilia-meireles-cantarao-os-galos/): Cantarão os galos, quando morrermos, e uma brisa leve, de mãos delicadas, tocará nas franjas, nas sedas mortuárias. E o sono da noite irá transpirando sobre as claras vidraças. E os grilos, ao longe, serrarão silêncios, talos de cristal, frios, longos ermos, e o enorme aroma das árvores. Ah, que doce lua verá nossa calma […]
- [Cecília Meireles - Epigrama nº 7](https://singularidadepoetica.art/2016/10/18/cecilia-meireles-epigrama-no-7/): A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. Conheça outros livros de Cecília Meireles clicando aqui
- [Cecília Meireles - O Jardim](https://singularidadepoetica.art/2016/10/15/cecilia-meireles-o-jardim/): O jardim é verde, encarnado e amarelo.Nas alamedas de cimento,movem-se os arabescos do solque a folhagem recortae o vento abana. A luz revela orvalhos no fundo das flores,nas asas tênues das borboletas,-e ensina a cintilar a mais ignorada areia,perdida nas sombras,submersas nos limos. Ensina a cintilar tambémos insetos mínimos,-alada areia dos ares, que se elevaaté […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Um Bruxo Com Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/carlos-drummond-de-andrade-a-um-bruxo-com-amor/): Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te; e me recebes na sala trastejada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro. Daí esse cansaço nos gestos e, […]
- [Mário de Andrade - Poema da Amiga (VIII)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/mario-de-andrade-poema-da-amiga-viii/): Gosto de estar a teu lado, Sem brilho. Tua presença é uma carne de peixe, De resistência mansa e de um branco Ecoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti. Anoiteço feito um bairro, Sem brilho algum. Estamos no interior duma asa Que fechou. Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/philip-roth-a-marca-humana-excerto/): “Porque não sabemos, não é? Todo mundo sabe… Como é que as coisas acontecem do jeito que acontecem? O que está por trás da anarquia da seqüência de eventos, as incertezas, os infortúnios, a incoerência, as irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. ‘Todo mundo sabe’ é a invocação do clichê e o início da […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Carta aos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/affonso-romano-de-santanna-carta-aos-mortos/): Carta aos Mortos, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, reflete sobre a aparente marcha do progresso e as surpreendentes permanências da experiência humana.
- [Machado de Assis - Bagatela (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/05/machado-de-assis-bagatela-excerto/)
- [Machado de Assis - Epitáfios](https://singularidadepoetica.art/2016/09/30/machado-de-assis-epitafios/)
- [Stephen King - Não pedimos...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/26/stephen-king-nao-pedimos/)
- [José Luís Peixoto - na hora de pôr a mesa...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/jose-luis-peixoto-na-hora-de-por-a-mesa/): na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está […]
- [José Luís Peixoto - Explicação da Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/2263-2/)
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Eu me Perdi](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-eu-me-perdi/): Eu me perdi na sordidez de um mundo Onde era preciso ser Polícia agiota fariseu Ou cocote Eu me perdi na sordidez do mundo Eu me salvei na limpidez da terra Eu me busquei no vento e me encontrei no mar E nunca Um navio da costa se afastou Sem me levar
- [Eugénio de Andrade - Quase Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/eugenio-de-andrade-quase-epitafio/): O outro sabia. Tinha uma certeza. Sou eterno, dizia. Eu não tenho nada. Amei o desejo com o corpo todo. Ah, tapai-me depressa. A terra me basta. Ou o lodo.
- [W. H. Auden - Funeral Blues](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/w-h-auden-funeral-blues/): BLUES FÚNEBRE Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto — um laço no […]
- [Mia Couto - Falta de Reza](https://singularidadepoetica.art/2016/09/10/mia-couto-falta-de-reza/): Por insuficiência de reza, por falsidade de crença meu anjo me culpou e vaticinou eterna penitência. Mas não ajoelho nem peço desculpa. Não quero um deus que vigie os vivos e peça contas aos mortos. Um deus amigo que me chame por tu e que espere por mim para um copo de riso e abraços: […]
- [João Cabral de Melo Neto - A Viagem](https://singularidadepoetica.art/2016/09/09/joao-cabral-de-melo-neto-a-viagem/): Quem é alguém que caminha toda manhã com tristeza dentro de minhas roupas, perdido além do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendo como se levassem nos bolsos doces geografias, pensamentos de além do sonho e da rua? Alguém a cada momento vem morrer no longe horizonte de meu quarto, onde esse alguém […]
- [José Saramago - Demissão](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/mario-quintana-demissao/): Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo demais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos tudo De morder os mais fracos, se mandamos, E de lamber as mãos se dependentes.
- [Lewis Carroll - Jaguadarte](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/lewis-carrol-jaguadarte/): Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo. […]
- [Shirley Jackson - A Assombração na Casa da Colina (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/09/04/shirley-jackson-a-assombracao-na-casa-da-colina-excerto/): “NENHUM ORGANISMO vivo pode existir com sanidade por longo tempo em condições de realidade absoluta; até as cotovias e os gafanhotos, pelo que alguns dizem, sonham. A Casa da Colina nada sã, erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas; existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais outros […]
- [Cassiano Ricardo - Jogo de Xadrez](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/cassiano-ricardo-jogo-de-xadrez/): 1 Não posso, sem remorso, ver uma criatura dormindo. Tão sincera, dá-se tanto (tão f o t o g ê n i c a- m e n t e) que me arrependo de não lhe haver sido mais puro quando falávamos, há pouco. A morte, se igual ao sono, absolvido, já, da luta, deverá ser […]
- [Richard Rorty - O Fogo da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/richard-rorty-o-fogo-da-vida/): Tradução por Igor de C. e S.C. (Publicado originalmente em Poetry Foundation, o pequeno ensaio foi o último publicado durante a vida do filósofo norte americano Richard Rorty (1931 – 2007).) Em um ensaio chamado “Pragmatismo e Romantismo” tentei revalidar o argumento de “Defesa da Poesia”, de Shelley. No coração do romantismo, eu disse, estava a tese de que a […]
- [Roberto e Erasmo Carlos - Detalhes (trecho)](https://singularidadepoetica.art/2016/08/28/roberto-e-erasmo-carlos-detalhes-trecho/)
- [Pedro Abrunhosa - Quem me Leva os meus Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2016/08/26/pedro-abrunhosa-quem-me-leva-os-meus-fantasmas/): https://youtu.be/w4ldfmoMoZk Intérprete: Maria Bethânia “De que serve ter o mapa Se o fim está traçado, De que serve a terra à vista Se o barco está parado, De que serve ter a chave Se a porta está aberta, De que servem as palavras Se a casa está deserta?” Aquele era o tempo em que as […]
- [Emil Cioran - Deus é um desespero...](https://singularidadepoetica.art/2016/08/24/2122-2/)
- [Páladas - Epigrama V, 72](https://singularidadepoetica.art/2016/08/22/paladas-epigrama-v-72/)
- [Arnaldo Antunes - Saudades](https://singularidadepoetica.art/2016/08/21/arnaldo-antunes-saudades/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Livro da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/08/19/livro-da-vida/)
- [Ricardo Silvestrin - Dança](https://singularidadepoetica.art/2016/08/18/ricardo-silvestrin-danca/): Sim, existe a dança: o corpo solto avança e recua leve nos passos matemáticos, um, dois, um, como se fosse mais fácil viver num tempo menor, brincadeira de criança que sabe de cor o roteiro e ri na hora marcada. Fora da dança, o infinito nos convida, nos seduz com passos improváveis, mas temos dois […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2016/08/14/carlos-drummond-de-andrade-a-mesa-2/): E não gostavas de festa. . . Ó velho, que festa grande hoje te faria a gente. E teus filhos que não bebem e o que gosta de beber, em torno da mesa larga, largavam as tristes dietas, esqueciam seus fricotes, e tudo era farra honesta acabando em confidência. Ai, velho, ouvirias coisas de arrepiar […]
- [William Carlos Williams - Entre Muros](https://singularidadepoetica.art/2016/08/11/william-carlos-wiliams-entre-muros/): alas traseiras do hospital onde nada medra jazem cinzas nas quais cacos verdes brilham garrafa Trad.: Haroldo de Campos
- [Robinson Jeffers - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/08/07/robinson-jefferson-sem-titulo/): Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com […]
- [Jules Laforgue - Spleen](https://singularidadepoetica.art/2016/08/03/jules-laforgue-spleen/): Tudo é tédio. Manhã. Olho pela janela. No alto, risca-se o céu no giz da chuva fria. Em baixo, a rua. Sob a cerração sombria Vultos deslizam na água turva de barrela. Olho sem ver (até meu cérebro regela) Maquinalmente sobre o vidro que embacia Meu dedo faz rabiscos de caligrafia. Bah! Saiamos. Quem sabe, […]
- [Guenádi Aigui - Nuvens](https://singularidadepoetica.art/2016/07/28/guenadi-aigui-nuvens/): Trad.: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman
- [William Carlos Williams - Carrinho de Mão Vermelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/22/william-carlos-williams-carrinho-de-mao-vermelho/): tanto depende de um carrinho de mão vermelho vidrado pela água da chuva perto das galinhas brancas. Trad.: Haroldo de Campos
- [William Carlos Williams - As Árvores de Botticelli](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-as-arvores-de-botticelli/): O alfabeto das árvores se esfuma no canto das folhas os entre- laços de finas letras que soletram inverno e o frio são iluminados em apontos de verde por chuva e sol – Os princípios simples estritos de justos ramos são tangidos por beliscões afãs de cor, devotas condições os sorrisos de amor – ……………. […]
- [William Carlos Williams - O Vento Aumenta](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-o-vento-aumenta/): A saqueada terra está varrida As árvores o brilho da tulipa desponta dobram-se e dançam – Desata teu amor para fluir Florir! Bom Cristo o que é um poeta – se algum existe? um homem cujas palavras irão morder sua trilha de retorno – ser atual tendo a forma. do movimento Em cada ramo-em-ponta novo […]
- [E. E. Cummings - “o amor é mais muito que olvido”](https://singularidadepoetica.art/2016/07/11/e-e-cummings-o-amor-e-mais-muito-que-olvido/): o amor é mais muito que olvido mais pouco que memória mais raro que onda ser aguada mais comum que dar foras é mais lunar, demente por menos nem falar que o mar todo somente mais fundo do que o mar é menos sempre que sucesso menos jamais que ao vivo menos maior que um […]
- [Emily Dickinson - Nesta Vida Tão Breve...](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/emily-dickinson-nesta-vida-tao-breve/)
- [Rudyard Kipling - Se](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/rudyard-kipling-se/): Se és capaz de manter a tua calma quando Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa; De crer em ti quando estão todos duvidando, E para esses no entanto achar uma desculpa; Se és capaz de esperar sem te desesperares, Ou, enganado, não mentir ao mentiroso, Ou, sendo odiado, sempre […]
- [William Butler Yeats - Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/william-butler-yeats-morte-poema/): Um bicho à morte ignora ânsia e temor; contudo um homem, quando é hora, anseia e teme tudo; morreu vezes sem conta e ergueu-se redivivo. Um grande homem confronta gente homicida, altivo, escarnecendo o corte do alento. Convivera com a morte a vida inteira: o homem criou a morte. Trad.: Nelson Ascher
- [T. S. Eliot - Morte Pela Água](https://singularidadepoetica.art/2016/07/04/t-s-eliot-morte-pela-agua/): Flibas, o Fenício, há quinze dias morto, Deixou o grito das gaivotas, e a funda onda do mar E o lucro e a perda. Uma corrente submarina Roeu seus ossos em sussurros. Como subiu caiu Varando o palco da velhice e juventude Rompendo os vagalhões. Gentio ou Judeu Ó tu que giras o leme e miras […]
- [Rainer Maria Rilke - Conclusão](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/rainer-maria-rilke-conclusao-poema/): A Morte é grande. Nós, sua presa, vamos sem receio. Quando rimos, indo, em meio à correnteza, chora de surpresa em nosso meio. Trad.: Augusto de Campos
- [Sérgio Sant'Anna - Heavy Metal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/sergio-santanna-heavy-metal/): Escombros. Um odor de carne chamuscada. Porém não se detecta a presença de cadáveres. Aqui e ali, como sombras, algumas paredes e edificações remanescentes. A torre caída de uma catedral gótica sobre fragmentos de vitrais estilhaçados. A reverberação de suas cores projetando castelos abstratos. Um bando de delinquentes juvenis, com as mãos nos bolsos, atravessa […]
- [Cassiano Ricardo - Ode Pastoril](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-ode-pastoril/): A paisagem é minha só porque tenho olhos. O pássaro é meu só porque tenho ouvidos. Amo com a mão as coisas que o estar aqui me deu. No universal verde, sou meu ser, não sou eu. Em meu léxico lírico só existem duas palavras, e uma é irmã da outra: a manhã e o […]
- [Laura Amélia Damous - Brevíssima Canção do Amor Constante](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/laura-amelia-damous-brevissima-cancao-do-amor-constante/): Ferindo o tempo Vestindo eternidade O meu amor tranqüilo e mudo Vive em ti Tão leve e manso Que tu não o sentes Tu
- [Carlos Nejar - Gazel do Universo Começando](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/carlos-nejar-gazel-do-universo-comecando/): "Gazel do Universo Começando", um poema de Carlos Nejar que funde amor e cosmos em imagens circulares de vento, trigo e mar, sugerindo que o universo inteiro começa no encontro amoroso e no movimento compartilhado dos amantes.
- [Cassiano Ricardo - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-o-espelho/): Um meio-dia nu, numa enorme moldura de prata. Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo. Mas não é nada. É apenas um espelho. Um rico espelho. De extraordinário fulgor. Próprio pra ser colocado à parede de um ministério da Fazenda, ou de uma casa de jogo. Toda a cidade cabe dentro dele. Árvores, […]
- [William Blake - Londres](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-londres/): Em cada rua escriturada em que ando, Onde o Tâmisa escriturado passa, Eu nos rostos que encontro vou notando Os sinais da doença e da desgraça. Ouço nos gritos que os adultos dão, E nos gritos de medo do inocente, Em cada voz, em cada interdição, As algemas forjadas pela mente Se o Limpa-Chaminés acaso […]
- [William Blake - London (c.1790)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-london-c-1790/): Perambulo por todas as ruas com barreiras Vizinhas de onde o próprio Tâmisa Entre barreiras flui, e em cada face que encontro Marco marcas de fraqueza, marcas de pesar. Ouço o ruído dos grilhões mentais apostos Em cada alocução de cada homem No grito de temor de cada infante Nas vozes todas, em cada interdição. […]
- [William Blake - A Tirzah](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-a-tirzah/): Tudo que nasceu para morrer Deve-se a terra misturar Para da geração se libertar: Então, que tenho eu a ver contigo? Do orgulho e da vergonha nasce o sexo Pela manhã florido, à tarde morto. Mas a piedade faz da Morte sono E os sexos se levantam para o trabalho e o pranto. Tu, mãe […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/giuseppe-ungaretti-natal-2/): Natal Não tenho vontade de mergulhar-me em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixai-me assim como uma coisa colocada em um canto e esquecida Aqui não se sente outra presença que o calor bom Estou com as quatro cabriolas de fumaça da lareira. Trad.: Luigi Lucchesi
- [João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/01/joao-guimaraes-rosa-grande-sertao-veredas-excerto/)
- [Lêdo Ivo - A Queimada](https://singularidadepoetica.art/2016/06/29/ledo-ivo-a-queimada/): Queime tudo o que puder: as cartas de amor as contas telefônicas o rol de roupas sujas as escrituras e certidões as inconfidências dos confrades ressentidos a confissão interrompida o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose os recortes antigos e as fotografias amareladas. Não deixe aos herdeiros esfaimados nenhuma herança de […]
- [Jorge Luis Borges - Poema dos Dons](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-borges-poema-dos-dons/): Ninguém rebaixe a lágrima ou censura Esta declaração da maestria De Deus, que com magnífica ironia Me deu mil livros e uma noite escura. Desta terra de livros fez senhores A olhos sem luz, que apenas se concedem Sonhar com bibliotecas e com cores De insensatos parágrafos que cedem As manhãs ao seu fim. Em […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Consolo na Praia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-consolo-na-praia/): Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tu? Eu?](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-tu-eu/): Não morres satisfeito. A vida te viveu sem que vivesses nela. E não te convenceu nem deu motivo para haver o ser vivo. A vida te venceu em luta desigual. Era todo o passado presente presidente na polpa do futuro acuando-te no beco. Se morres derrotado, não morres conformado. Nem morres informado dos termos da […]
- [Antonio Cicero - Nihil](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-nihil/): nada sustenta no nada esta terra nada este ser que sou eu nada a beleza que o dia descerra nada a que a noite acendeu nada esse sol que ilumina enquanto erra pelas estradas do breu nada o poema que breve se encerra e que do nada nasceu
- [Algernon Charles Swinburne - Um Amigo Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/algernon-charles-swinburne-um-amigo-morto/): Leia "Um Amigo Morto", de Algernon Charles Swinburne, uma comovente elegia sobre amizade, memória e a permanência do amor após a morte.
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas (último capítulo)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/machado-de-assis-memorias-postumas-ultimo-capitulo/): Talvez o melhor capítulo final da literatura brasileira:Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, […]
- [Pierre Corneille - Estrofes para a bela marquesa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/pierre-corneille-estrofes-para-a-bela-marquesa/): Marquesa, se minha face A ti parece mais velha, Espera que o tempo passe Que verás a que te espelha. O tempo, contra o vigor Das coisas belas, protesta, E há de te fanar a flor Tal qual enrugou-me a testa. Noite e dia tudo flui, Rege-nos a mesma lei, Se veem em ti o […]
- [Alberto Caeiro - Há Metafísica demais em não Pensar em Nada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/alberto-caeiro-ha-metafisica-demais-em-nao-pensar-em-nada/): Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou! (Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as coisas, Não compreende quem fala delas Com o […]
- [Jorge Luis Borges - O Suicida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/jorge-luis-borges-o-suicida/): Não ficará na noite uma estrela. Não ficará a noite. Morrerei e comigo a suma Do intolerável universo. Apagarei as pirâmides, as medalhas, Os continentes e as caras. Apagarei a acumulação do passado. Farei pó a história, pó o pó. Estou olhando o último poente. Ouço o último pássaro. Lego o nada a ninguém. Trad.: […]
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyanedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat-2/): Trad.: Augusto de Campos
- [Mário Quintana - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/mario-quintana-o-morto/): Eu estava dormindo e me acordaram E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco… E quando eu começava a compreendê-lo Um pouco, Já eram horas de dormir de novo!
- [Rodrigo Barata - Cilada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/rodrigo-barata-cilada-3/)
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Antonio Cicero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida-2/)
- [Antonio Cícero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida/): Conheci da humana lida a sorte: o único fim da vida é a morte e não há, depois da morte, mais nada. Eis o que torna esta vida sagrada: ela é tudo e o resto, nada.
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/konstantinos-kavafis-itaca-em-tres-traducoes/): ÍTACA(Trad. José Paulo Paes) Se partires um dia rumo a Ítaca,faz votos de que o caminho seja longo,repleto de aventuras, repleto de saber.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o colérico Posídon te intimidem;eles no teu caminho jamais encontrarásse altivo for teu pensamento, se sutilemoção teu corpo e teu espírito tocar.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o bravio […]
- [Cassiano Ricardo - Os Futuricidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-os-futuricidas/): Sois o Bloco dos Suicidas.Paradoxo pensar que todo suicí- dio será a morte de Deus em nós. Nós não. Vamos salva-l’Oda hecatombe em que, afinal, tudo tombe.Nós O queremos vivo e salvo mesmo escanhoado dequalquer ornamento, pluma ou liturgia. Calvo.Sem nenhum arco-íris na cabeça ou púrpura.Não esquartejado numa vila ricaou atado ao rabo de um […]
- [Cassiano Ricardo - 2ª Aula na Jaula](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-2a-aula-na-jaula/): 1 Ícaro morreu,não por voar junto ao Sol mas de obsoleto pelos robôs levadoem seu caixão preto os mitos de hojeconversam comigo na rua.Convidam-me a assis- tir a Antonioni no cinemaem plena iconosfera. Tudo o que foi ontem é outra era. 2No Jardim Zoológicouma Lua presa numa enorme jaula de vidro. Com todas as crateras […]
- [Algernon Charles Swinburne - O Jardim de Proserpina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/algerno-charles-swinburne-o-jardim-de-proserpina/): Leia "O Jardim de Proserpina", de Algernon Charles Swinburne, um clássico da poesia vitoriana sobre morte, esquecimento e o anseio pelo repouso eterno.
- [Alan Moore - Monólogo de Rorschach](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/alan-moore-monologo-de-rorschach/): “Olhei para o céu, através da fumaça espessa com gordura humana, e Deus não estava lá. A fria, sufocante escuridão persiste para sempre e estamos sozinhos. Vivemos nossas vidas, por falta de algo melhor para fazer. Inventamos um motivo depois. Nascemos do esquecimento; temos filhos, destinados ao inferno como nós, caímos no esquecimento. Não há […]
- [Walter Savage Landor - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/walter-savage-landor-epitafio/)
- [Susan Sontag - De “Sobre Fotografia”](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/susan-sontag-de-sobre-fotografia/): “Todas as fotos são memento mori. Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa). Precisamente por cortar uma fatia deste momento e congelá-lo, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo (…). A fotografia é simultaneamente uma pseudo-presença e um sinal de ausência.” Susan Sontag, em […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte das Casas de Ouro Preto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/carlos-drummond-de-andrade-morte-das-casas-de-ouro-preto/): Sobre o tempo, sobre a taipa, a chuva escorre. As paredes que viram morrer os homens, que viram fugir o ouro, que viram finar-se o reino, que viram, reviram, viram, já não vêem. Também morrem. Assim plantadas no outeiro, menos rudes que orgulhosas na sua pobreza branca, azul e rosa e zarcão, ai, pareciam eternas! […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): East Coker](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-east-cocker/): Em meu princípio está meu fim. Uma após outrasAs casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugarSurgem um campo aberto, uma usina ou um atalho.Velhas pedras para novas construções, velhas lenhas para novas chamas,Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra semeada,Terra agora feita carne, pele e […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): Burnt Norton](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-burnt-norton/): I O tempo presente e o tempo passadoEstão ambos talvez presentes no tempo futuroE o tempo futuro contido no tempo passado.Se todo tempo é eternamente presenteTodo tempo é irredimível.O que poderia ter sido é uma abstraçãoQue permanece, […]
- [Ernest Dowson - Vitae Summa Brevis Spem Nos Vetat Incohare Longan](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ernest-c-dowson-vitae-summa-brevis-spem-nos-vetat-incohare-longan/): Vitae Summa Brevis Spem nos Vetat Incohare Longam (A Brevidade da Vida Impede que Possamos Acalentar Longas Esperanças) – Horácio A alegria, o desejo, o pranto, o amor E a raiva duram pouco. Nada disso, que eu saiba, há de transpor O umbral conosco. Poucos dias de rosas e de vinho: Surge num vago sonho […]
- [Janus Vitalis - Sobre Roma](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/janus-vitalis-sobre-roma/): Recém-chegado que, buscando Roma em Roma, não encontras, em Roma, Roma alguma, olha ao redor, muro e mais muro, pedras rotas, ruínas, que assustam, de um teatro imenso: é Roma isto que vês – cidade tão soberba, que ainda exala ameaças seu cadáver. Vencido o mundo, quis vencer-se e, se vencendo, para que nada mais […]
- [Ferreira Gullar - Anoitecer em Outubro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-anoitecer-em-outubro/): A noite cai, chove manso lá fora meu gato dorme enrodilhado na cadeiraNum dia qualquer não existirá mais nenhum de nós doispara ouvir nesta salaa chuva que eventualmente caia sobre as calçadas da rua Duvivier
- [Ferreira Gullar -Aprendizado](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-aprendizado/): Do mesmo modo que te abriste à alegria abre-te agora ao sofrimento que é fruto dela e seu avesso ardente. Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo e te perdeste nela e te achaste nessa perda deixa que a dor se exerça agora sem mentiras nem desculpas e em tua carne vaporize toda […]
- [Mário Quintana - Pequeno Poema Didático](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/mario-quintana-pequeno-poema-didatico/): O tempo é indivisível. Dize, Qual o sentido do calendário? Tombam as folhas e fica a árvore, Contra o vento incerto e vário. A vida é indivisível. Mesmo A que se julga mais dispersa E pertence a um eterno diálogo A mais inconseqüente conversa. Todos os poemas são um mesmo poema, Todos os porres são […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Carta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-carta/): Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas, as mesmas, triviais, embora estremecessem a um toque de paixão. Perfurando os obscuros canais de argila e sombra, ela iria contando que vou bem, e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente, e espero uma resposta, mas que não tarde; e peço […]
- [Nelson Santander - Pontuação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-pontuacao-poema/): Pontuação, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Beijo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-beijo-poema/): Beijo, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Chuva](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-chuva-poema/): Chuva, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Religio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-religio-poema/): Religio, um poema de Nelson Santander
- [Amadeu Amaral - Névoa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/amadeu-amaral-nevoa/): Tudo isto há de passar, decerto, muito em breve… Branca névoa sutil, ir-se-á quando o sol nasça; branco sonho de amor, passará, como passa pelas ondas em fúria uma garça de neve. Passará dentro em pouco, imitando a fumaça que se evola e se esvai nas curvas que descreve. Fumaça de ilusão, força é que […]
- [Lêdo Ivo - Epitalâmio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/ledo-ivo-epitalamio/): A terra cessa de girar, para que eu te ame. Não há mais Dia e Noite, meu amor. Somos hóspedes do impossível. Tudo é verdade e as horas irrompem como vulcões. O mar não clama, embora ainda exista. Para os que amam, como nós, as rotações foram abolidas, os séculos assumem a forma de um […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Mensagem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-mensagem/): Longe, muito longe, um país nos contempla. Um país de silício e saibro, de água salgada e sol Onde os peixes não chegam, os corvos não assistem. Onde os náufragos se afogam no incêndio do solitário dia eterno. Longe, muito longe, onde a areia reflete as escamas da lua; onde só os mortos vão beijar […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Elegia para os Suicidas do Viaduto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-elegia-para-os-suicidas-do-viaduto/): Eles já estavam mortos no ventre materno. Para eles o deflagrar da aurora era já um túmulo. Fugiam para a morte presos, embora, à corda umbilical. Rondava a lua estéril entre ciprestes E a terra de cardos e açucenas era a alegria, o trigo, a lepra, a tempestade. Já estavam mortos quando nasceram acorrentados ao […]
- [Thiago de Mello - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/thiago-de-mello-o-morto/): Qual a verdade que o morto conheceu, além dos muros, e lhe fez cerrar os lábios estrangulando a palavra porventura essencial? Enfim livre da cegueira, que paisagem contemplou para que o rosto lhe turve tão rude ruga de mágoa? Soube talvez que melhor fora mostrar-se de todo: desvelar inteira a face, seus amores e seus […]
- [Walderez C. Gomes - Eu te amei...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/walderez-c-gomes-eu-te-amei/): Eu te amei Amando-me em ti. E de tanto amor em ti fui convertida sem ser eu mesma sendo tu. Olhando-me assim dividida. Eu me enterrei de amor amando-me mais quanto menos em mim fui conhecida quanto mais em ti fui consumada.
- [Giórgos Seféris - Existe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-existe/): Existe, pelos deuses cruéis predestinada, uma dor universal, e cada um de nós dela pega a sua parte, quanto aguente levar. Julgamos insensatos os que, carregando pressurosamente nos ombros mais do que podiam carregar, aliviam assim a carga comum: os heróis, os mártires, os criminosos. Rogo-lhes que nos perdoem. Recordamos. Trad.: José Paulo Paes
- [Giórgos Seferis - São Assim os Túmulos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-sao-assim-os-tumulos/): São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio, com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura. E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas, a cabeça baixa, a fonte dos lamentos – acompanha as horas pétreas dos que jazem. Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se […]
- [Angela Leite de Souza - Do Lado de Cá Dessas Rosas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/angela-l-de-souza-do-lado-de-ca-dessas-rosas/): Nem percebi quando me cobriram com esta colcha rosa de rosas amorosamente. Dormia meu novo sono sem tranqulizantes, sem relógios: estou serena e não há pressa em acordar. Ser apenas, estar. Não me roem mais tristezas nem desejos, lateja leve leve uma saudade. Meu corpo vai não sendo, sou feliz. Livre do dever de viver e […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Rostos Imóveis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-os-rostos-imoveis/): Pai morto, namorada morta. Tia morta, irmão nascido morto. Primos mortos, amigo morto Avô morto, mãe morta (mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos). Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto. Noiva morta, amigas mortas. Chefe de trem morto, passageiro morto. Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho! Cão morto, passarinho morto. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Palavras no Mar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar/): Escrita nas ondas a palavra Encanto balança os náufragos, embala os suicidas. Lá dentro, os navios são algas e pedras em total olvido. Há também tesouros que se derramaram e cartas de amor circulando frias por entre medusas. Verdes solidões, merencórios prantos, queixumes de outrora, tudo passa rápido e os peixes devoram e a memória […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Noturno Oprimido](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-noturno-oprimido/): A água cai na caixa com uma força, com uma dor! A casa não dorme, estupefata. Os móveis continuam prisioneiros de sua matéria pobre, mas a água parte-se a água protesta. Ela molha toda noite com sua queixa feroz, seu alarido. E sobre nossos corpos se avoluma o lago negro de não sei que infusão. […]
- [Cassiano Ricardo - Vociferação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-vociferacao/): I Homem em Adão. Homem em Cristo. Homem em globo. II como salvar Deus? nós faremos d’Ele novamente o Autor de tudo: do peixe, da ave, da cobra, da maçã, do sapo, do rouxinol do sol. O obrigaremos contudo a suar san- gue conosco, na guerra, na fome na peste na terra suja; a engolir […]
- [Cassiano Ricardo - Gramática Visual de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-gramatica-visual-de-cristo/): 1 “Cristo, terá sido em vão teu sacri- fício? vê, o sangue escorre, acre, no massacre das ruas.” Cristo espalmou a mão cobrindo os olhos horizontalmente pra não ver a destruição do ser 2 “Cristo, vê os pequeninos que tanto amaste agora garotos nos becos como ratos dentro de sapatos rotos.” Cristo escondeu, de novo, […]
- [Cassiano Ricardo - Etc.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-etc-2/): Existe tudo porque existo. Há porque vemos. (Fernando Pessoa) Para que o mundo exista, existimos. Pois seja. Sem os nossos olhos, sem o que somos, que adiantaria haver mundo? Seria a árvore dos dourados pomos, etc. O que é ignorado não existe. O que é eterno também não existe. A eternidade é uma forma […]
- [Jorge Luis Borges - Remorso por qualquer morte](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/jorge-luis-borges-remorso-por-qualquer-morte/): Livre da memória e da esperança,Ilimitado, abstrato, quase futuro,O morto não é um morto: é a morte.Como o Deus dos místicos,A quem se devem negar todos os predicados,O morto, onipresentemente alheio,Não é senão a perdição e a ausência do mundo.Tudo lhe roubamos,Não lhe deixamos nem uma cor, nem uma sílaba:Aqui está o pátio que seus […]
- [John Donne - Em despedida: proibindo o pranto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/john-donne-em-despedida-proibindo-o-pranto/): Como esses santos homens que se apagam Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”, Enquanto alguns dos amigos amargos Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” — Nos dissolvamos sem fazer ruído. Sem tempestades de ais, sem rios de pranto, Fora profanação nossa ao ouvido Dos leigos descerrar todo este encanto. O terremoto traz terror e morte E […]
- [Cassiano Ricardo - Missa de Corpo Presente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-missa-de-corpo-presente/): O seu corpo tão alvo, o seu corpo presente é a coisa mais ausente, é uma ilusão pensar que a rosa ou o fruto já colhidos ainda soluçam desprendidos da haste. O seu corpo é já um fruto neutro e frio. Não obstante jovem, tem a mesma idade de todos os que morreram antes, ou […]
- [Ricardo Reis - Odes: 153 - Como este infante que alourado dorme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-153/): Como este infante que alourado dorme Fui. Hoje sei que há morte, Lídia, há largas taças por encher Nosso amor que nos tarda. Qualquer que seja o amor ou a taça, cedo Cessa. Receia, e apressa.
- [Ricardo Reis - Odes: 144 - Uns, com os olhos postos no passado,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-144/): Uns, com os olhos postos no passado, Vêem o que não vêem; outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, vêem O que não pode ver-se. Porque tão longe ir pôr o que está perto — A segurança nossa? Este é o dia, Esta é a hora, este o momento, isto É quem somos, e é […]
- [Ricardo Reis - Odes: 105 - Quando, Lídia, vier o nosso Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-105/): Quando, Lídia, vier o nosso outono Com o inverno que há nele, reservemos Um pensamento, não para a futura Primavera, que é de outrem, Nem para o estio, de quem somos mortos, Senão para o que fica do que passa – O amarelo atual que as folhas vivem E as torna diferentes.
- [Ricardo Reis - Odes: 80 - A nada imploram tuas mãos já coisas,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-80/): A nada imploram tuas mãos já coisas, Nem convencem teus lábios já parados, No abafo subterrâneo Da húmida imposta terra. Só talvez o sorriso com que amavas Te embalsama remota, e nas memórias Te ergue qual eras, hoje Cortiço apodrecido. E o nome inútil que teu corpo morto Usou, vivo, na terra, como uma alma, […]
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-63/)
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-4/): Tão cedo passa tudo quanto passa! Morre tão jovem ante os deuses quanto Morre! Tudo é tão pouco! Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala. O mais é nada.
- [Ricardo Reis - Odes: 61 - De uma só vez recolhe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-3/): De uma só vez recolhe Quantas flores puderes. Não dura mais que até à morte o dia. Colhe de que recordes. A vida é pouco e cerca-a A sombra e o sem remédio. Não temos regras que compreendamos, Súbditos sem governo. Goza este dia como Se a Vida fosse nele. Homens nem deuses fadam, nem […]
- [Ricardo Reis – Odes: 40 - Não sem lei, mas segundo leis diversas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-2/): Não sem lei, mas segundo leis diversas Entre os homens reparte o fado e os deuses Sem justiça ou injustiça Prazeres, dores, gozos e perigos. Bem ou mal, não terás o que mereces. Querem os deuses a isto obrigar Porque o Fado não tem Leis nossas com que reja a sua lei. Quem é rei […]
- [Ricardo Reis - Odes: 1 - Mestre, são placidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas/): Mestre, são plácidas Todas as horas Que nós perdemos, Se no perdê-las, Qual numa jarra, Nós pomos flores. Não há tristezas Nem alegrias Na nossa vida. Assim saibamos, Sábios incautos, Não a viver, Mas decorrê-la, Tranquilos, plácidos, Tendo as crianças Por nossas mestras, E os olhos cheios De natureza… À beira-fio, À beira-estrada, Conforme calha, […]
- [Ricardo Reis - Odes - Livro I - XIII - Olho os campos, Neera,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-livro-primeiro/): Olho os campos, Neera, Campos, campos e sofro Já o frio da sombra Em que não terei olhos. A caveira antessinto Que serei não sentindo, Ou só quanto o que ignoro Me incógnito ministre. E menos ao instante Choro, que a mim futuro. Súdito ausente e nulo Do universal destino.
- [Aldous Huxley - Silêncio/Música](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/384-2/): “Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.” – Aldous Huxley
- [Cassiano Ricardo - O Festim Terrestre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-festim-terrestre/): O olho de Polifemo já depois de arrancado ao gigante bêbado, foi posto, entre rosas carnosas e lírios agudos, sobre a alva mesa. Tinha ainda a pupila acesa. E os doze convivas, — doze fomes irmãs, — todos ao mesmo tempo, simultâneos como figuras de uma orquestra, vieram, graves, comer o olho de Polifemo, em […]
- [Cassiano Ricardo - Evocação dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-evocacao-dos-mortos/): Um dia conversarei com os meus mortos. E todos os que morri (os muitos eus que eu fui) reunidos inquietos sôfregos cada qual com um meu rosto na mão, me contarão (sua) a minha história. Não obstante a tua gélida memória. Ah, os defuntos que ficaram atrás de mim fotograficamente, agora juntos. Não acredito que […]
- [Titãs - O Pulso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/titas-o-pulso/): O PULSO O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Peste bubônica câncer pneumonia Raiva rubéola tuberculose anemia Rancor cisticercose caxumba difteria Encefalite faringite gripe leucemia O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Hepatite escarlatina estupidez paralisia Toxoplasmose sarampo esquizofrenia Úlcera trombose coqueluche hipocondria Sífilis ciúmes asma cleptomania O corpo ainda é pouco O […]
- [Marina Colasanti - Sexta-feira à noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/marina-colasanti-sexta-feira-a-noite/): Sexta-feira à noite Os homens acariciam o clitóris das esposas Com dedos molhados de saliva. O mesmo gesto com que todos os dias Contam dinheiro, papéis, documentos E folheiam nas revistas A vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noite Os homens penetram suas esposas Com tédio e pénis. O mesmo tédio com que todos os […]
- [Waly Salomão - A Fábrica do Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/waly-salomao-a-fabrica-do-poema/): do livro: Algaravias: FÁBRICA DO POEMA in memoriam Donna Lina Bo Bardi sonho o poema de arquitetura idealcuja própria nata de cimento encaixa palavra porpalavra,tornei-me perito em extrair faíscas das britase leite das pedras.acordo.e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.acordo.o prédio, pedra e cal, esvoaçacomo um leve papel solto à mercê do ventoe evola-se, […]
- [Ferreira Gullar - Galo Galo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ferreira-gullar-galo-galo/): O galo no saguão quieto. Galo galo de alarmante crista, guerreiro, medieval. De córneo bico e esporões, armado contra a morte, passeia. Mede os passos. Pára. Inclina a cabeça coroada dentro do silêncio: — que faço entre coisas ? — de que me defendo ? Anda No saguão. O cimento esquece o seu último passo. […]
- [Manuel Bandeira - Profundamente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-profundamente/): Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes, cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o […]
- [Manuel Bandeira - Poema Só Para Jaime Ovalle](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-poema-so-para-jaime-ovalle/): Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando… – Humildemente pensando na vida e nas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Máquina do Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/carlos-drummond-de-andrade-a-maquina-do-mundo/): E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio […]
- [José Paulo Paes - A Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-a-cidade/): Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que […]
- [José Paulo Paes - Revisitação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-revisitacao/): Cidade, por que me persegues? Com os dedos sangrando já não cavei em teu chão os sete palmos regulamentares para enterrar meus mortos? Não ficamos quites desde então? Por que insistes em acender toda noite as luzes de tuas vitrinas com as mercadorias do sonho a tão bom preço? Não é mais tempo de comprar. […]
- [Philip Larkin – Este Seja o Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/philip-larkin-este-seja-o-poema/): Teu pai e mãe fodem contigo. Que não o queiram, tanto faz. Passam-te cada podre antigo, além de uns novos, especiais. Mas de cartola e fraque, outrora, fodera-os já do mesmo modo, gente ora austero-piegas, ora se engalfinhando cega de ódio. Miséria é o que legamos: fossas num mar que só fica mais fundo. Dá […]
- [Jaime Gil de Biedma - Não Voltarei a ser Jovem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jaime-gil-de-biedma-nao-voltarei-a-ser-jovem/): Que é certo a vida passa só se começa a compreender mais tarde — como todos os jovens, decidi levar a minha vida por diante. Deixar marca eu queria e partir entre aplausos — envelhecer, morrer, eram somente as dimensões do teatro. Porém, passou o tempo e a verdade mais amarga assoma: envelhecer, morrer, é […]
- [William Butler Yeats - Quando Velha e Grisalha...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/william-butler-yeats-quando-velha-e-cansada-poema/): Quando velha e grisalha e exausta, ao fim do dia, tu cabeceares junto ao fogo, vem folhear lentamente este livro, e lembra o doce olhar e as sombras densas que nos olhos teus havia. Quantos, com falsidade ou devoção sincera, amaram-te a beleza e graça de menina! Um só, porém, amou tua alma peregrina, e […]
- [Ivan Junqueira - Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-morrer/): Pois morrer é apenas isto: cerrar os olhos vazios e esquecer o que foi visto; é não supor-se infinito, mas antes fáustico e ambíguo, jogral entre a história e o mito; é despedir-se em surdina, sem epitáfio melífluo ou testamento sovina; é talvez como despir o que em vida não vestia e agora é inútil […]
- [Ivan Junqueira - Esse Punhado de Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-esse-punhado-de-ossos/): Esse punhado de ossos que, na areia, alveja e estala à luz do sol a pino moveu-se outrora, esguio e bailarino, como se move o sangue numa veia. Moveu-se em vão, talvez, porque o destino lhe foi hostil e, astuto, em sua teia bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia o que havia de raro […]
- [Ivan Junqueira - A Sagração dos Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-a-sagracao-dos-ossos/): Considerai estes ossos – tíbios, inúteis, apócrifos – que sob a lápide dormem sem prédica que os conforte. Considerai: é o que sobra de quem lhes serviu de invólucro e agora já não se move entre as tábuas do sarcófago. Dormem sem túnica ou toga e, quando muito, um lençol lhes cobre as partes mais […]
- [Ivo Barroso - Poema a meu Pai](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivo-barroso-poema-a-meu-pai/): Meu pai morreu longe de mim (eu é que estava longe dele). Tantos anos se passaram e ainda não lhe vi a sepultura. Continuo longe. Mas sua presença me sacode como um choque elétrico, uma bebida forte que me arde por dentro. Está vivo nos meus dedos, nos cabelos ralos – a nuca dá arrepios […]
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono-2/)
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono/): Senhor, foi um verão imenso: é hora.Estende as tuas sombras nos relógiosde sol e solta os ventos prado afora. Instiga a sazonarem, com dois diasa mais de sul, as frutas que, tardias,conduzes rumo à plenitude, e apura,no vinho denso, a última doçura. Quem não tem lar já não terá; quem morasozinho há de velar e […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Homenagem a Ricardo Reis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/sophia-de-mello-breyner-andresen-homenagem-a-ricardo-reis/): Não creias, Lídia , que nenhum estioPor nós perdido possa regressarOferecemos a florQue adiámos colher. Cada dia te é dado uma só vezE no redondo círculo da noiteNão existe piedadePara aquele que hesita Mais tarde será tarde e já é tardeO tempo apaga tudo menos esseLongo indelével rastoQue o não – vivido deixa. Não creias […]
- [Ricardo Reis - Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ricardo-reis-vem-sentar-te-comigo-lidia-a-beira-do-rio/): Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.) Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, […]
- [John Donne - Elegia: indo para o leito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/john-donne-elegia-indo-para-o-leito/): Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz; Até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, Canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, Céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, Feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor […]
- [Bruno Tolentino - Via Crucis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/bruno-tolentino-via-crucis/): A Via Crucis foi uma selvageria, a Crucifixão uma brutalidade; mas em três, quatro horas, acabou a agonia, baixou a eternidade. Eu vivo aqui, crucificada noite e dia, carrego da manhã à tarde o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia, lenta, fria, covarde. Ah, como eu preferia que me crucificassem de uma […]
- [Catulo - Vivamus, mea Lésbia, ataque amemus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/catulo-vivamus-mea-lesbia-ataque-amemus/): Vivamos minha Lésbia, e amemos, e as graves vozes velhas – todas – valham para nós menos que um vintém. Os sóis podem morrer e renascer: quando se apaga nosso fogo breve dormimos uma noite infinita. Dá-me pois mil beijos, e mais cem, e mil, e cem, e mil, e mil e cem. Quando somarmos […]
- [Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/percy-bysshe-shelley-ozymandias-poema/): Disse o viajante de uma antiga terra: “Duas pernas de pedra, no deserto, Despontam gigantescas, e bem perto Há um rosto destroçado que descerra Os lábios num sorriso de comando Que atesta: o escultor leu com mestria Paixões que na matéria inerte e fria A mão que as entalhou vão perdurando. ‘Meu nome é Ozymândias, […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/giuseppe-ungaretti-natal/): Não me apetece mergulhar em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixe-me assim como uma coisa pousada em um canto e abandonada Aqui não se sente senão o bom calor Estou com as quatro cabriolas de fumo da lareira
- [Jorge Luis Borges - Nuvem (1)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/jorge-luis-borges-nuvem-1/): Não haverá uma só coisa que não seja uma nuvem. São nuvens as catedrais de vasta pedra e bíblicos cristais que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia que muda como o mar. Algo há distinto cada vez que a abrimos. O reflexo de tua cara já é outro no espelho e o dia é […]
- [Olavo Bilac - Nel Mezzo Del Camin...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/olavo-bilac-nel-mezzo-del-camin/): Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigadaE triste, e triste e fatigado eu vinha.Tinhas a alma de sonhos povoada,E a alma de sonhos povoada eu tinha… E paramos de súbito na estradaDa vida: longos anos, presa à minhaA tua mão, a vista deslumbradaTive da luz que teu olhar continha. Hoje, segues de novo… Na partidaNem o pranto teus […]
- [Machado de Assis - A Carolina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/machado-de-assis-a-carolina/): Querida, ao pé do leito derradeiroEm que descansas dessa longa vida,Aqui venho e virei, pobre querida,Trazer-te o coração do companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiroQue, a despeito de toda humana lida,Fez a nossa existência apetecidaE num recanto pôs um mundo inteiro. Trago-te flores, – restos arrancadosDa terra que nos viu passar unidosE ora mortos nos deixa […]
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/konstantinos-kavafis-itaca/): Ítaca, um poema de Konstantinos Kaváfis
- [Vladimir Maiakovski/Caetano Veloso - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-caetano-veloso-o-amor/): Talvez quem sabe um dia Por uma alameda do zoológico Ela também chegará Ela que também amava os animais Entrará sorridente assim como está Na foto sobre a mesa Ela é tão bonita Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão O século trinta vencerá O coração destroçado já Pelas mesquinharias Agora vamos […]
- [Vladimir Maiakovski - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-o-amor/): “O Amor”, um poema de Vladimir Maiakovski que explode a linguagem para fazer do sentimento uma força desmedida, urgente e quase insuportável.
- [Carlos Drummond de Andrade - Destruição](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-drummond-de-andrade-destruicao/): Os amantes se amam cruelmentee com se amarem tanto não se vêem.Um se beija no outro, refletido.Dois amantes que são? Dois inimigos. Amantes são meninos estragadospelo mimo de amar: e não percebemquanto se pulverizam no enlaçar-se,e como o que era mundo volve a nada. Nada, ninguém. Amor, puro fantasmaque os passeia de leve, assim a […]
- [Antonio Cicero - Huis Clos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-huis-clos/): Da vida não se sai pela porta: só pela janela. Não se sai bem da vida como não se sai bem de paixões jogatinas drogas. E é porque sabemos disso e não por temer viver depois da morte em plagas de Dante Goya ou Bosh (essas, doce príncipe, cá estão) que tão raramente nos matamos […]
- [Antonio Cicero - História](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-historia/): A história, que vem a ser? mera lembrança esgarçada algo entre ser e não-ser: noite névoa nuvem nada. Entre as palavras que a gravam e os desacertos dos homens tudo o que há no mundo some: Babilônia Tebas Acra. Que o mais impecável verso breve afunda feito o resto (embora mais lentamente que o bronze, […]
- [Jorge Luis Borges - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-arte-poetica/): Fitar o rio feito de tempo e águae recordar que o tempo é outro rio,saber que nos perdemos como o rioE que os rostos passam como a água. Sentir que a vigília é outro sonhoque sonha não sonhar e que a morteque teme nossa carne é essa mortede cada noite, que se chama sonho. No […]
- [Rainer Maria Rilke - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/rainer-maria-rilke-solidao/): A solidão é como uma chuva. Ergue-se do mar ao encontro das noites; de planícies distantes e remotas sobe ao céu, que sempre a guarda. E do céu tomba sobre a cidade. Cai como chuva nas horas ambíguas, quando todas as vielas se voltam para a manhã e quando os corpos, que nada encontraram, desiludidos […]
- [Cassiano Ricardo - Ladainha](https://singularidadepoetica.art/2016/06/25/cassiano-ricardo-ladainha/): Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso. Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- corporal? Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por […]
- [Gil Jorge - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/gil-jorge-so/)
- [Heinrich Heine - “Larga as parábolas sagradas”](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/heinrich-heine-larga-as-parabolas-sagradas/): Larga as parábolas sagradas, Deixa as hipóteses devotas, E põe-te em busca das respostas Para as questões mais complicadas. Por que se arrasta miserável O justo carregando a cruz, Enquanto, impune, em seu cavalo, Desfila o ímpio de arcabuz? De quem é a culpa? Jeová Talvez não seja assim tão forte? Ou será Ele o […]
- [Heinrich Heine - Morfina](https://singularidadepoetica.art/2016/06/15/heinrich-heine-morfina/): É grande a semelhança desses dois jovens e belos vultos, muito embora um pareça mais pálido e severo ou, posso até dizer, bem mais distinto do que o outro, o que, terno, me abraçava. Havia em seu sorriso tanto afeto, carinho e, nos seus olhos,tanta paz! Ornada de papoulas, sua fronte tocava a minha, às […]
- [Friedrich Hölderlin - As Parcas](https://singularidadepoetica.art/2016/06/14/friedrich-holderlin-as-parcas/): Dai-me, Potestades, mais um verão apenas, Apenas um outono de maduro canto, Que de bom grado, o coração já farto Do suave jogo, morrerei então. A alma que em vida nunca desfrutou os seus Direitos divinos nem no Orco acha repouso; Mas se eu lograr o que é sagrado, o que Trago em meu coração, […]
- [William Butler Yeats - Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/06/09/william-butler-yeats-bizancio/): As imagens febris do dia se desfazem; Os guardas imperiais, bêbados, jazem; Noite sem som, sombras noctívagas se alongam Da catedral e do seu gongo; À luz de estrela ou lua um domo desmerece Tudo o que é humanidade, Mera complexidade As veias, fúria e lama, em toda humana espécie. Diante de mim a imagem, […]
- [John Keats - Ode a um Rouxinol](https://singularidadepoetica.art/2016/06/05/john-keats-ode-a-um-rouxinol/): Meu peito dói; um sono insano sobre mim Pesa, como se eu me tivesse intoxicado De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim, Há um só minuto, e após no Letes me abismado: Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte, É do excesso de ser que aspiro em tua paz […]
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento-2/)
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento/)
- [Carlos Nejar - José Mora](https://singularidadepoetica.art/2016/06/03/carlos-nejar-jose-mora/): Eu retornei. A morte imensa, tão imensa que não tocava mais os seus limites, os feudos. E eu, aos poucos, fui vencendo, fui desembaraçando seus cordames, o mortal peso, a superfície desamparada e vasta como se num escafandro viesse lentamente ao som das águas e fosse uma cítara tangida entre duas espigas de penumbra e […]
- [Goethe - Canção Noturna do Andarilho](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/goethe-cancao-noturna-do-andarilho/): No alto das colinas há paz; não se ouve, ali nas frondes, mais que um sopro manso. Nem há no bosque um trino. Aguarda: tampouco tarda o teu descanso. Trad.: Nelson Ascher
- [Carlos Drummond de Andrade - Congresso Internacional do Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-congresso-internacional-do-medo/): Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-o-medo/): Em verdade temos medo. Nascemos escuro. As existências são poucas: Carteiro, ditador, soldado. Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos. Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas, Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor, este […]
- [Edgar Allan Poe - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/edgar-allan-poe-so/): Desde criança nunca fui como outros foram Nem meus olhos nunca viram o que outros viram, Já que minhas paixões não têm a mesma origem Não vêm da mesma fonte as dores que me afligem. Também o prazer era de outra natureza – Tudo que amei ninguém amou, tenho certeza. Lá – no despontar de […]
- [Rainer Maria Rilke - Morgue](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/rainer-maria-rilke-morgue/): Estão prontos, ali, como a esperar que um gesto só, ainda que tardio, possa reconciliar com tanto frio os corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim. Que nome no seu bolso já vazio há por achar? Alguém procura, enfim, enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só […]
- [Ruy Proença - Tiranias](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/ruy-proenca-tiranias/): antigamente diziam: cuidado, as paredes têm ouvidos então falávamos baixo nos policiávamos hoje as coisas mudaram: os ouvidos têm paredes de nada adianta gritar Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui
- [Nelson Santander - Saindo do Armário da Sacristia](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/nelson-santander-saindo-do-armario-da-sacristia/): Saindo do armário da sacristia, por Nelson Santander: ateísmo, humanismo secular e outras questões
- [Gastão Debreix - Por do Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/05/27/gastao-debreix-por-do-sol/)
- [Itamar Assumpção - Noite Torta](https://singularidadepoetica.art/2016/05/21/itamar-assumpcao-noite-torta/): Intérprete: Zeca Baleiro Na sala numa fruteira a natureza está morta laranjas, maçãs e pêras bananas, figos de cera decoram a noite torta Sob a janela do quarto a cama dorme vazia encaro nosso retrato sorrindo sobre o criado no meio da noite fria Está pingando o chuveiro que banho mais apressado molhado caíste fora […]
- [Georg Trakl - De Profundis](https://singularidadepoetica.art/2016/05/20/georg-trakl-de-profundis/): Há um restolhal, onde cai uma chuva negra. Há uma árvore marrom, ali solitária. Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias. Como é triste o entardecer Passando pela aldeia A terra órfã recolhe ainda raras espigas. Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo, E seu colo espera o noivo divino. Na volta Os […]
- [Ovídio - A Morte de Narciso](https://singularidadepoetica.art/2016/05/16/ovidio-a-morte-de-narciso/): Fonte sem limo, pura prata em ondas límpidas, jorrava. Nem pastor se achega, nem pastando seu rebanho montês, ou gado avulso, acode. Nem pássaro, nem fera, nem, tombando, um ramo perturba a úmida grama que o frescor irriga. O bosque impede o sol de aquentar este sítio. Da caça e do calor exausto, aqui vem […]
- [Jorge Luis Borges — Pátio](https://singularidadepoetica.art/2016/05/14/jorge-luis-borges-patio/): Com a tarde Cansaram-se as duas ou três cores do pátio. A grande franqueza da lua cheia Já não entusiasma o seu habitual firmamento. Hoje que o céu está frisado, Dirá a crendice que morreu um anjinho. Pátio, céu canalizado. O pátio é a janela por onde Deus olha as almas. O pátio é o […]
- [Humberto Gessinger - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/humberto-gessinger-novos-horizontes/)
- [Engenheiros do Hawaii - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-novos-horizontes/): Corpos em movimento O universo em expansão E o apartamento que era tão pequeno Não acaba mais “Vamos dar um tempo” Não sei quem deu a sugestão E aquele sentimento que era passageiro Não acaba mais Quero explodir as grades E voar Não tenho pra onde ir Mas não quero ficar Novos horizontes Se não […]
- [Humberto Gessinger - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre-2/)
- [Engenheiros do Hawaii - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre/): http://h.saavncdn.com/737/UMG_00602498011737_01_011.mp3 Nem tudo está perdido Nem sinal de pedra no peito O horóscopo do jornal Arriscou “um belo dia” Liguei o rádio na hora certa Era a canção que eu queria Nem tudo está perdido Tudo em paz no reino da química Ninguém me telefonou Enquanto eu dormia Sonhei com meu pai e ele sorria […]
- [Nelson Santander - Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2016/05/08/nelson-santander-singularidade-2-poema/): Singularidade, um poema de Nelson Santander
- [Augusto de Campos - Desgrafite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/augusto-de-campos-desgrafite/)
- [William Butler Yeats - O Prazer do Difícil](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/william-butler-yeats-o-prazer-do-dificio/): O prazer do difícil tem secado A seiva em minhas veias. A alegria Espontânea se foi. O fogo esfria No coração. Algo mantém cerceado Meu potro, como se o divino passo Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço, Sob o chicote, trêmulo, prostrado, E carregasse pedras. Diabos levem As peças de sucesso que […]
- [André Ladeia - Efêmera](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/andre-ladeia-efemera/): A terra boia no oceano negro E estrelado Ela dança e rodopia; Ah! Como é bela E frágil… A Terra é uma bolha de sabão. http://antoniocicero.blogspot.com.br/2016/05/andre-ladeia-efemera.html
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras-2/)
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras/): https://youtu.be/dg4pbf0kcXk Eu insisto em cantar Diferente do que ouvi Seja como for recomeçar Nada há, mais há de vir Me disseram que sonhar Era ingênuo, e daí? Nossa geração não quer sonhar Pois que sonhe a que há de vir Eu preciso é te provar Que ainda sou o mesmo menino Que não dorme […]
- [Humberto Gessinger - Além da Máscara](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/humberto-gessinger-alem-da-mascara/): https://youtu.be/UclZRlPUyuA Intérprete: Pouca Vogal Agora que a terra é redonda E o centro do universo é outro lugar É hora de rever os planos O mundo não é plano, não pára de girar Agora que tudo é relativo Não há tempo perdido, não há tempo a perder Num piscar de olhos tudo se transforma Tá […]
- [Augusto de Campos - Pulsar (1975)](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/augusto-de-campos-pulsar-1975/): Intérprete: Caetano Veloso
- [José Paulo Paes - Seu Metaléxico](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/jose-paulo-paes-seu-metalexico/): Conheça outros livros de José Paulo Paes clicando aqui
- [Ivan Junqueira - O Aeroplano](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/ivan-junqueira-o-aeroplano/): Quando eu fiz cinco anos, meu pai deu-me de presente um aeroplano que ele próprio construíra com finas hastes de bambu e papel de seda. Tão leve quanto uma libélula, o frágil engenho voou até desaparecer por detrás do muro do quintal e dos últimos reflexos de um poente de verão. Ninguém jamais o encontrou. […]
- [Dante Milano - Princípio da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/dante-milano-principio-da-noite/)
- [Darcy Ribeiro - Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/darcy-ribeiro-mim/)
- [Darcy Ribeiro - A Indesejada](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-a-indesejada/): Aí estão eles, os da terceira idade. Gregários, vivem aos bandos. Sentados, jogando cartas, andando devagar. Conversando pretéritos assuntos. Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos. Hoje, são sogros, os chatos dos sogros. Uns são viúvos, outros largados, poucos. Muitos deles, os mais, ainda casados. As mulheres duram demais. Órfãos de seus […]
- [Darcy Ribeiro - Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-amor-poema/): "Amor", um poema de Darcy Ribeiro Quero um amor alucinado, depravado, tarado. Amor inteiro, de corpo-a-corpo, enlaçados. Amor sem reserva, que a tudo se entrega, lancinante. (...)
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/vinicius-de-moraes-soneto-de-maio/): Suavemente Maio se insinua Por entre os véus de Abril, o mês cruel E lava o ar de anil, alegra a rua Alumbra os astros e aproxima o céu. Até a lua, a casta e branca lua Esquecido o pudor, baixa o dossel E em seu leito de plumas fica nua A destilar seu luminoso […]
- [Jim Holt - Por que o Mundo Existe? (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/jim-holt-por-que-o-mundo-existe-excerto/): Já se disse que a pergunta Por que existe algo e não apenas o nada? é tão profunda que só ocorreria a um metafísico, mas também é tão simples que só ocorreria a uma criança. Na época, eu não tinha idade para ser metafísico. Mas por que a pergunta não me ocorreu na infância? Revendo a questão, […]
- [Manuel Bandeira - O Último Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/manuel-bandeira-o-ultimo-poema/): Assim eu quereria meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
- [Søren Kierkegaard - O Prazer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/soren-kierkegaard-o-prazer/)
- [Blaise Pascal - de Pensamentos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/blaise-pascal-de-pensamentos/)
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-3-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-2-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Pedro Paulo de Sena Madureira - Matsuo Basho, Uma Garça](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/pedro-paulo-de-sena-madureira-matsuo-basho-uma-garca/)
- [Sílvia Rocha - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/silvia-rocha-solidao-2/)
- [Salvatore Quasimodo - E De Repente é Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite-2/)
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antônio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre-2/)
- [James Agee - Sim, Todas as Crianças...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/james-agee-sim-todas-as-criancas/)
- [Cristina Lemos - O Amor Sempre Falha](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cristina-lemos-o-amor-sempre-falha/)
- [Chico Buarque e Francis Hime - Trocando em Miúdos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/chico-buarque-e-francis-homem-trocando-em-miudos/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4-2/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4/): Nada vos oferto além destas mortes de que me alimento Caminhos não há Mas os pés na grama os inventarão Aqui se inicia uma viagem clara para a encantação Fonte, flor em fogo, quem é que nos espera por detrás da noite ? Nada vos sovino: com a minha incerteza vos ilumino
- [Chico Buarque - O Meu Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/22/chico-buarque-o-meu-amor/)
- [Philip Larkin - Por Que Sonhei Contigo a Noite Passada?](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-por-que-sonhei-contigo-a-passada/): Por que sonhei contigo a noite passada? Agora a manhã empurra cabelos para trás [com uma luz grisalha Lembranças batem de volta, como tapas na cara; Apoiado no cotovelo, eu fito o branco nevoeiro Além da janela. Tantas coisas que eu pensava esquecidas Voltam agora à mente numa estranha dor: Como cartas que chegam para […]
- [Philip Larkin - Ignorância](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-ignorancia/): Estranho nada saber, nunca ter a certeza Do que é verdadeiro, certo ou real, Forçado então a dizer pelo menos é o que sinto Ou Bom, é o que parece: Alguém deve saber. Estranho ignorar o modo como as coisas funcionam: A sua capacidade de encontrar o que necessitam, O seu sentido de forma, e […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/caetano-veloso-o-homem-velho-2/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Chico Buarque - Olhos nos Olhos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-olhos-nos-olhos/)
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-pedaco-de-mim-2/)
- [Cassiano Ricardo - O Relógio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/17/cassiano-ricardo-o-relogio/): Diante de coisa tão doída conservemo-nos serenos. Cada minuto de vida nunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma face Do não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nasce já se começa a morrer.
- [José Paulo Paes - Auto-epitáfio n° 2](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2-2/)
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/machado-de-assis-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Veja também: https://nsantand.wordpress.com/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/
- [Silvio Rodriguez e Pablo Milanés - Por Quem Merece Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-e-pablo-milanes-por-quem-merece-amor/): (intérpretes: MPB4) Te perturba esse amor? Amor de juventude Meu amor é amor de virtude Te perturba esse amor? Sem máscaras por trás Meu amor é uma arte de paz Te perturba esse amor? Amor de humanidade Meu amor é amor de verdade Te perturba esse amor? Com todos ao redor Meu amor é uma […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna-2/): (intérprete: Silvio Rodriguez) Vivo en un país libre cual solamente puede ser libre en esta tierra, en este instante yo soy feliz porque soy gigante. Amo a una mujer clara que amo y me ama sin pedir nada o casi nada, que no es lo mismo pero es igual Y si esto fuera poco, tengo […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna/)
- [Chico Buarque e Edu Lobo - Valsa Brasileira](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/chico-buarque-e-edu-lobo-valsa-brasileira/)
- [Eclesiastes (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/eclesiaste-excerto/): “Acumulei também prata e ouro, as riquezas dos reis e das províncias. Escolhi cantores e cantoras e todas as delícias dos homens, toda a abundância dos cofres. Ultrapassei e avantajei-me a todos quantos me precederam em Jerusalém, e a sabedoria permanecia junto a mim. Então examinei todas as obras de minhas mãos e o trabalho […]
- [Chico Buarque e Edu Lobo - A Moça do Sonho (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/chico-buarque-e-edu-lobo-a-moca-do-sonho-excerto/)
- [Nelson Santander - Renata Maria](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/nelson-santander-renata-maria/): Renata Maria, por Nelson Santander: uma análise da letra da canção de Chico Buarque
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/1517-2/)
- [Carlos Drummond de Andrade - A um Ausente](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/carlos-drummond-de-andrade-a-um-ausente/): Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de […]
- [Bertolt Brecht - Tudo Muda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/bertolt-brecht-tudo-muda/): Tudo muda. De novo começar podes, com o último alento. O que acontece, porém, fica acontecido: e a água que pões no vinho, não podes mais separar. O que acontece, fica acontecido: a água que pões no vinho, não podes mais separar. Porém, tudo muda: com o último alento podes de novo começar. Tradução: Geir […]
- [Ferreira Gullar - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/ferreira-gullar-ano-novo/): Meia-noite. Fim de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício. Olho o céu: o abismo vence o olhar. O mesmo espantoso silêncio da Via-Láctea feito um ectoplasma sobre a minha cabeça nada ali indica que um ano novo começa. E não começa nem no céu nem no chão do planeta: começa no […]
- [Jorge de Lima - A Divisão de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/jorge-de-lima-a-divisao-de-cristo/): Dividamos o mundo em duas partes iguais: uma para portugueses, outra para espanhóis. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus: a metade morreu na viagem do oceano. Dividamos o mundo entre as pátrias. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras: a metade morreu nos campos de batalha. Dividamos o mundo entra as máquinas. […]
- [Clarice Lispector - Acredito...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/clarice-lispector-acredito/)
- [Do Remorso Pela Traição](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/do-remorso-pela-traicao/): Não existe sentimento de culpa quando o assunto é traição amorosa. Se vemos alguém se lamentando, arrependido da traição descoberta, isso não é remorso, mas auto-piedade pela súbita constatação de que seus atos trar-lhe-ão consequências indesejáveis. Não se espere daquele que há meia hora delirava nos braços de um amante que experimente algo além de […]
- [Torquato Neto - Cogito](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/torquato-neto-cogito/): eu sou como eu sou pronome pessoal intransferível do homem que iniciei na medida do impossível eu sou como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem novos secretos dentes nesta hora eu sou como eu sou presente desferrolhado indecente feito um pedaço de mim eu sou como eu sou vidente e vivo tranqüilamente todas […]
- [Manuel Bandeira - Versos de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/manuel-bandeira-versos-de-natal/): Espelho, amigo verdadeiro, Tu refletes as minhas rugas, Os meus cabelos brancos, Os meus olhos míopes e cansados. Espelho, amigo verdadeiro, Mestre do realismo exato e minucioso, Obrigado, obrigado! Mas se fosses mágico, Penetrarias até o fundo desse homem triste, Descobririas o menino que sustenta esse homem, O menino que não quer morrer, Que não […]
- [Carlos Rennó - Todas Juntas Num Só Ser](https://singularidadepoetica.art/2016/04/07/carlos-renno-todas-juntas-num-so-ser/): Intérprete: Lenine Não canto mais Bebete nem DomingasNem Xica nem Tereza, de Ben Jor;Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;Nem Ana nem Luiza, do maior;Já não homenageio Januária,Joana, Ana, Bárbara, de Chico;Nem Yoko, a nipônica de Lennon;Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico; Nem a tigresa, nem a vera gata,Nem a camaleoa, de […]
- [Nelson Santander - Sonho Sertanejo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/nelson-santander-sonho-sertanejo/): Sonho Sertanejo, uma crônica de Nelson Santander sobre sonhos, subconsciente e gosto musical
- [Philip Larkin - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-aubade/): De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara. Olho o negror sem som, me levantando às quatro. Em tempo, a borda da cortina vai estar clara. Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato: A morte infatigável, um dia mais perto, Tornando inviável todo pensamento, exceto O de onde, como e […]
- [Philip Larkin - Eu Comecei a Dizer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-eu-comecei-a-dizer/): Eu comecei a dizer “Um quarto de século” Ou “trinta anos atrás” Sobre minha própria vida. Isso me deixa sem fôlego É como despencar e arremeter Acenando em largos giros Através do céu vazio. Tudo o que resta acontecer São algumas mortes (incluindo a minha). Em que ordem, e de que maneira, É o que […]
- [Philip Larkin - As Árvores](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/philip-larkin-as-arvores/): As árvores se põem a enfolhar Como algo quase expresso. Seus brotos, Tenros, estão se estendendo, soltos; Seu verde é uma espécie de pesar. Renascem, ou é a gente que vem a Envelhecer? Não, morrem, por certo. O truque anual de um novo aspecto Está inscrito nos anéis da lenha. E cada castelo móvel, no […]
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda-2/)
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda/): Folheio a vida Num calendário velho. Dias riscados, como contas pagas. Domingos de repouso, Segundas de trabalho Sábados de cansaço, Sem nenhum sentido. No abismo do nada, O nada, apenas. Quem sofreu nestas páginas vazias, Tão frias, Tão serenas?
- [William Carlos Williams - Estas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/william-carlos-williams-estas/): ESTAS são as semanas desoladas, sombrias em que na sua aridez a natureza rivaliza com a estupidez humana. O ano despenha-se na noite e o coração é um abismo mais fundo que a noite nesse vazio varrido pelo vento sem sol, sem lua nem estrelas apenas uma estranha luz do pensamento que lança um tenebroso […]
- [Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto - Paulista](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/eduardo-gudin-e-j-c-costa-netto-paulista/): (intérprete: Leila Pinheiro) Na Paulista os faróis já vão abrir E um milhão de estrelas prontas pra invadir Os jardins onde a gente aqueceu uma paixão Manhãs frias de abril Se a avenida exilou seus casarões Quem reconstruiria nossas ilusões? Me lembrei de contar prá você nessa canção Que o amor conseguiu Você sabe quantas […]
- [Arnaldo Antunes - Saiba](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/arnaldo-antunes-saiba/): (intérprete: Adriana Calcanhoto/Partimpim) Saiba Todo mundo foi neném Einstein, Freud e Platão, também Hitler, Bush e Saddam Hussein Quem tem grana e quem não tem… Saiba Todo mundo teve infância Maomé já foi criança Arquimedes, Buda, Galileu E também você e eu… Saiba Todo mundo teve medo Mesmo que seja segredo Nietzsche e Simone […]
- [Belchior - Velha Roupa Colorida](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/belchior-velha-roupa-colorida/): Você não sente e nem vê Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, Que uma nova mudança em breve vai acontecer E o que há algum tempo era jovem, novo, Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer Nunca mais meu pai falou: “She’s leaving home”, E meteu o pé na estrada “Like a […]
- [Humberto Gessinger - Terceira do Plural](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/humberto-gessinger-terceira-do-plural/): Corrida pra vender cigarro Cigarro pra vender remédio Remédio pra curar a tosse Tossir, cuspir, jogar pra fora Corrida pra vender os carros Pneu, cerveja e gasolina Cabeça pra usar boné E professar a fé de quem patrocina Eles querem te vender… Eles querem te comprar… Querem te matar (a sede) Eles querem te sedar! […]
- [Konstantinos Kaváfis - Desejos (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-desejos-em-3-traducoes/): DESEJOS – Trad. José Paulo Paes Belos corpos de mortos que nunca envelheceram, com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes, jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas – assim são os desejos que um dia feneceram sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes o prazer de uma noite ou a manhã luminosa. DESEJOS – Trad. […]
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-2/): DER PANTHER Rainer Maria Rilke Im Jardin des Plantes, Paris Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe so müd geworden,dass er nichts mehr hält. Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe und hinter tausend Stäben keine Welt. Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte, der sich im allerkleinsten Kreise dreht, ist wie ein Tanz von […]
- [William Blake - O Ti(y)gre (em 4 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/william-blake-o-tiygre-em-4-traducoes/): O TYGRE – Trad. Augusto de Campos Tygre! Tygre! Brilho, brasa que a furna noturna abrasa, que olho ou mão armaria tua feroz symmetrya? Em que céu se foi forjar o fogo do teu olhar? Em que asas veio a chamma? Que mão colheu esta flamma? Que força fez retorcer em nervos todo o teu […]
- [Augusto de Campos - O Vivo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/augusto-de-campos-o-vivo/): Não queiras ser mais vivo do que és morto. As sempre-vivas morrem diariamente Pisadas por teus pés enquanto nasces. Não queiras ser mais morto do que és vivo. As mortas-vivas rompem as mortalhas Miram-se umas nas outras e retornam (Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!) Para amassar o pão da própria carne. Ó vivo-morto […]
- [José Saramago - Ouvindo Beethoven](https://singularidadepoetica.art/2017/09/11/jose-saramago-ouvindo-beethoven/): Venham leis e homens de balanças, Mandamentos daquém e dalém mundo, Venham ordens, decretos e vinganças, Desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos todos da cidade, Brilhe, vermelha, a luz inquisidora, Risquem no chão os dentes da vaidade E mandem que os lavemos a vassoura. A quantas mãos existam, peçam dedos, Para […]
- [Fernando Moreira Salles - Legado](https://singularidadepoetica.art/2017/09/10/fernando-moreira-salles-legado/): Não há dor partilhável nem lamento que se ouça É pequeno o destino do teu sonho e do meu Se alguém te viu passar se o caminho te pertence segue e sorri
- [Ana Martins Marques - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2017/09/09/ana-martins-marques-interiores/): AÇUCAREIRO De amargo basta o amor Agridoce, ela disse Mas a mim pareceu amargo CADEIRA I Repetes diariamente os gestos do primeiro homem que se sentou numa tarde quente olhando as savanas II Pouso de gigantescos pássaros cansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesa essas doces evidências da morte? CRISTALEIRA Guarda e […]
- [Ana Martins Marques - entre a casa/ e o acaso,](https://singularidadepoetica.art/2017/09/08/ana-martins-marques-entre-a-casa-e-o-acaso/): entre a casa e o acaso entre a jura e os jogos entre a volta e as voltas a morada e o mar penélopes e circes entre a ilha e o ir-se
- [Gregório de Matos - Nasce o Sol e Não Dura mais que um Dia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/07/gregorio-de-matos-nasce-o-sol-e-nao-dura-mais-que-um-dia/): Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se formosa a Luz é, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto […]
- [Paulo Nunes - A um antianjo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/06/paulo-nunes-a-um-antianjo/): Em memória de Júlio Caixeta A mais longa distância que pode haver, esta que agora vai dos teus pés ao chão, não te fez mais leve: foi o mundo e nossas vidas que se soltaram.
- [Eucanaã Ferraz - De "Orelhas" (1)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/05/eucanaa-ferraz-de-orelhas-1/): Estão certas todas as canções banais letras convencionais seus corações como são de praxe; estão certos os poemas enfáticos inchados de artifícios à luz óbvia da lua ou de estúpidos crepúsculos; os sonetos mal alinhavados toscos estão certos bem como as confissões íntimas não lapidadas reles nem polidas; ouçamos o que dizem sobre qualquer coisa; […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/09/04/mia-couto-o-espelho/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me, a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mia Couto - A Luz da Dor](https://singularidadepoetica.art/2017/09/03/mia-couto-a-luz-da-dor/): O meu modo de saber é adoecendo. A uns, a ideia surge em luz. A mim, se declara uma pontada no peito. O advento da dor, o deflagrar da súbita febre e eu sei que o meu corpo sabe. Um dia destes me desconhecerei vivo desfalecido de aguda sapiência. Até lá repartirei com um anjo […]
- [Armando Freitas Filho - Escritor, Escritório](https://singularidadepoetica.art/2017/09/02/armando-freitas-filho-escritor-escritorio/): Não transponho Camões, mas me empenho. Não atravesso seu mar manuscrito porque me afogo na incompreensão no enfado, no palavreado castiço na análise sintática dos seus versos onde erro na prova urgente, aflita sem ouvi-los soar na página a pleno de difícil lida, da ilimitada luta na travessia da linha, da estrofe empolgante, empolada, que […]
- [Armando Freitas Filho - Antiquário](https://singularidadepoetica.art/2017/09/01/armando-freitas-filho-antiquario/): Mil folhas. Mesmo em algumas das mais passadas, um pouco do sabor, um risco de doçura e amargo, é remanescente. Anamnésia construída pelo fato e pela imaginação: vai do anátema ao enaltecimento, expressos em alta voz até ao murmúrio cifrado no coração. O acervo de uma vida se dispersará depois de ela parar: alguma coisa […]
- [W. H. Auden - Aquele que Ama Mais](https://singularidadepoetica.art/2017/08/28/w-h-auden-aquele-que-ama-mais/): Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais […]
- [Ricardo Silvestrin - Bilhete](https://singularidadepoetica.art/2017/08/26/ricardo-silvestrin-bilhete/): Não me parecias frágil, via-te doce. Talvez fosses mesmo forte, é preciso ser valente pra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo. Que rio obscuro e discreto te puxava para o fundo, sem saber nadar, sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta, um poema, um bilhete de suicida. Como se quisesses dizer que […]
- [Jaime Sabines - Te Amo às Dez da Manhã](https://singularidadepoetica.art/2017/08/10/jaime-sabines-te-amo-as-dez-da-manha/): Te amo às dez da manhã, e às onze, e ao meio-dia. Te amo com toda a minha alma e com todo o meu corpo, às vezes, em tardes chuvosas. Mas às duas da tarde, ou às três, quando eu me perco em pensar em nós dois, e tu pensas em comida ou nas tarefas […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Meio-dia](https://singularidadepoetica.art/2017/08/09/sophia-de-mello-breyner-andresen-meio-dia/): Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém. O sol no alto, fundo, enorme, aberto, Tornou o céu de todo o deus deserto. A luz cai implacável como um castigo. Não há fantasmas nem alvas, E o mar imenso solitário e antigo, Parece bater palmas.
- [Paul Auster - Fragmento de Frio](https://singularidadepoetica.art/2017/08/08/paul-auster-fragmento-de-frio/): Porque ficamos cegos no dia que se esvai conosco, e porque vimos nossa respiração nublar o espelho de ar, o olho do ar vai se abrir para nada mais que a palavra a que renunciamos: o inverno terá sido lugar de madureza. Nós que viramos os mortos de uma vida que não a nossa. Trad.: […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/08/07/alice-ruiz/): noite gelada a cidade toda coberta denso nevoeiro
- [Zulmira Ribeiro Tavares - Após o inverno](https://singularidadepoetica.art/2017/08/06/zulmira-ribeiro-tavares-apos-o-inverno-poema/): Desarrumação em setembro. O vento batendo as portas e a floração rebentando nas cercas vivas. O céu por vezes de terracota bem acima das cabeças, mas também finas agulhas de gelo imiscuindo-se pelas frinchas, noite alta. Era em São Paulo. Então se entende: o mato bravo torcido pela chuva, o prédio em demolição pingando água […]
- [Rainer Maria Rilke - Hora Grave](https://singularidadepoetica.art/2017/08/04/rainer-maria-rilke-hora-grave/): Quem agora chora em algum lugar do mundo, Sem razão chora no mundo, Chora por mim. Quem agora ri em algum lugar na noite, Sem razão ri dentro da noite, Ri-se de mim. Quem agora caminha em algum lugar no mundo, Sem razão caminha no mundo, Vem a mim. Quem agora morre em algum lugar […]
- [Rainer Maria Rilke - O Mundo Estava no Rosto da Amada](https://singularidadepoetica.art/2017/08/03/rainer-maria-rilke-o-mundo-estava-no-rosto-da-amada/): O mundo estava no rosto da amada – e logo converteu-se em nada, em mundo fora do alcance, mundo-além. Por que não o bebi quando o encontrei no rosto amado, um mundo à mão, ali, aroma em minha boca, eu só seu rei? Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi. Mas eu também estava […]
- [Wislawa Szymborska - Engano](https://singularidadepoetica.art/2017/08/02/wislawa-szymborska-engano/): Soou o telefone na galeria de arte, soou à meia-noite na sala quieta; se houvesse gente dormindo, acordaria na certa, mas aqui há somente insones profetas, somente reis empalidecem de luar e olham indiferentes o que há para olhar, e a mulher do usurário, agitada na aparência, fita justo essa coisa sonante na lareira, mas […]
- [Paulo Henriques Britto - Envoi](https://singularidadepoetica.art/2017/08/01/paulo-henriques-britto-envoi/): O tempo, que a tudo distorce, às vezes alisa, conserta, e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morse de instantes sem rumo e roteiro então dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquiva a gente retoca e remenda até ser coisa que se entenda, mas algo que na […]
- [Wislawa Szymborska - As três Palavras mais Estranhas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/31/wislawa-szymborska-as-tres-palavras-mais-estranhas/): Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já se perde no passado. Quando pronuncio a palavra Silêncio, suprimo-o. Quando pronuncio a palavra Nada, crio algo que não cabe em nenhum não ser. Trad.: Regina Przybycien
- [Paulo Henriques Britto - Três Peças Dispépticas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/30/paulo-henriques-britto-tres-pecas-dispepticas/): I É aqui mesmo, sim. Você era esperado. E por falar nisso, chegou atrasado. Não peça desculpas: não adianta nada. O atraso será contabilizado. Não há a menor dúvida; é este o endereço. Mas fique sabendo: tudo aqui tem preço. Não esteja à vontade. A casa não é sua. E se não gostar, por ali […]
- [Wislawa Szymborska - Entre Muitos](https://singularidadepoetica.art/2017/07/29/wislawa-szymborska-entre-muitos/): Sou quem sou. Inconcebível acaso como todos os acasos Fossem outros os meus antepassados e de outro ninho eu voaria ou de sob outro tronco coberta de escamas eu rastejaria. No guarda-roupa da natureza há trajes de sobra. O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo. Cada um cai como uma luva e […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/28/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-3/): IV Acrescentar ao mundo um morto a mais é só o que a vida garante. O resto é risco, é vai da valsa. Tanto faz improvisar ou decorar o texto, ser pedra ou imitar os animais, correr atrás de lucro ou prejuízo. Dá no que der. E, seja lá o que for, terá sido o […]
- [Wislawa Szymborska - Fim e Começo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/27/wislawa-szymborska-fim-e-comeco/): Depois de cada guerraalguém tem que fazer a faxina.Colocar uma certa ordemque afinal não se faz sozinha. Alguém tem que jogar o entulhopara o lado da estradapara que possam passaros carros carregando os corpos. Alguém tem que se atolarno lodo e nas cinzasem molas de sofásem cacos de vidroe em trapos ensanguentados. Alguém tem que […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/26/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-3/): V Súbito? Não. A coisa morre à míngua, um risco vira traço e o traço, ponto. Por exemplo: uma manhã de domingo, a mesa posta pro café, tudo pronto pra não se fazer nada – ou então a noite de uma terça-feira inane, sob o quebranto da televisão – mas isso não importa; que se […]
- [Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”](https://singularidadepoetica.art/2017/07/23/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-2/): IV Até onde a vista alcança é real todo o visível. Como dançarina e dança formam um todo indistinguível, assim também não há esperança de se atingir algum nível em que uma e outra substância se separem, dando alívio à consciência inquietante de que no próximo instante o erro vai ser dissipado. Não vai. O […]
- [Wislawa Szymborska - Ocaso do Século](https://singularidadepoetica.art/2017/07/20/wislawa-szymborska-ocaso-do-seculo/): Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX. Agora já não tem mais jeito, os anos estão contados, os passos vacilantes, a respiração curta. Coisas demais aconteceram, que não eram para acontecer, e o que era para ter sido não foi. Era para se chegar à primavera e à felicidade, entre […]
- [Mario Quintana - O Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/15/mario-quintana-o-tempo/): A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal… Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora […]
- [Ch'ang Wu Chien - Poema Chinês do Século VIII](https://singularidadepoetica.art/2017/07/14/chang-wu-chien-poema-chines-do-seculo-viii/): Praguejei contra a chuva Que tamborilando no telhado Não me deixou dormir. Praguejei contra o vento Que destruía todo o jardim. Mas você chegou de surpresa E agradeci à tempestade Que te fez despir A roupa molhada. Agradeci à ventania Por ter soprado, Apagado a vela. via Carlito Azevedo (https://www.facebook.com/profile.php?id=100007266525928)
- [Cacaso – Jogos Florais](https://singularidadepoetica.art/2017/07/05/cacaso-jogos-florais/): I Minha terra tem palmeiras onde canta o tico-tico. Enquanto isso o sabiá vive comendo o meu fubá. Ficou moderno o Brasil ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre. II Minha terra tem Palmares memória cala-te já. Peço licença poética Belém capital Pará. Bem, meus prezados senhores dado o […]
- [Armando Freitas Filho - Sibilante](https://singularidadepoetica.art/2017/07/03/armando-freitas-filho-sibilante/): Cego aço doce corte de navalha ou de folha de papel: só sangra bem depois da ação, da posse do sentido e sentimento que o amor concede não isento do ciúme.
- [Wislawa Szymborska - Amor à Primeira Vista](https://singularidadepoetica.art/2017/07/02/wislawa-szymborska-amor-a-primeira-vista/): Ambos estão certos de que uma paixão súbita os uniu. É bela esta certeza, mas é ainda mais bela a incerteza. Acham que por não terem se encontrado antes nunca havia se passado nada entre eles. Mas e as ruas, escadas, corredores nos quais há muito talvez se tenham cruzado? Queria lhes perguntar, se não […]
- [Eucanaã Ferraz - Sob a luz feroz do teu rosto](https://singularidadepoetica.art/2017/07/01/eucanaa-ferraz-sob-a-luz-feroz-do-teu-rosto/): “Sob a luz feroz do teu rosto”, um poema de Eucanaã Ferraz que transforma o amor impossível em metáfora selvagem: amar é desejar o que não pode ser tocado sem risco ou recusa.
- [Nelson Santander - Postudo (pós-"Pós-Tudo", Augusto de Campos e Os Hawaianos)](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/nelson-santander-postudo-poema/): Postudo, de Nelson Santander, paródia do famoso Pós-Tudo, de Augusto de Campos, atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Augusto de Campos - Pós-Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/augusto-de-campos-pos-tudo/)
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2017/06/16/jorge-luis-borges-labirinto/): Não haverá uma porta. Já estás dentro, Mas o alcácer abarca o universo E não tem nem anverso nem reverso Nem muro externo nem secreto centro. Não penses que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro o teu destino Como […]
- [Francis J. Quirós - Efêmero](https://singularidadepoetica.art/2017/06/05/efimero/): Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia: […]
- [Vinicius de Moraes - O poeta Hart Crane suicida-se no mar](https://singularidadepoetica.art/2017/05/23/vinicius-de-moraes-o-poeta-hart-crane-suicida-se-no-mar/): Quando mergulhaste na água Não sentiste como é fria Como é fria assim na noite Como é fria, como é fria? E ao teu medo que por certo Te acordou da nostalgia (Essa incrível nostalgia Dos que vivem no deserto…) Que te disse a Poesia? Que te disse a Poesia Quando Vênus que luzia No […]
- [Carlos Rennó - O Momento](https://singularidadepoetica.art/2017/05/15/carlos-renno-o-momento/): Tem um momento (que de todos é diverso) Em que você se une ao todo, ao universo O tempo então congela (feito lá no pólo) Seu ego some, seu eu ergue-se do solo E sai voando entre as estrelas na amplidão Você se torna uma delas na explosão Dentro de si você vê uma […]
- [Bill Knott - Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/05/09/bill-knott-morte/): Morte Perto de dormir, cruzo as mãos sobre o peito. Colocarão minhas mãos assim. Parecerá que estou a voar para dentro de mim mesmo. Death Going to sleep, I cross my hands on my chest. They will place my hands like this. It will look as though I am flying into myself. Trad.: Antonio Cicero […]
- [Abel Silva - Navegações](https://singularidadepoetica.art/2017/05/07/abel-silva-navegacoes/): Minha casa está calma, eu é que sou turbulento, o país navega, dizem, eu é que me arrebento eu é que sempre invento toda esta ventania eu é que não me contento com o rumo da romaria não sei se a sorte é cega ou eu que vivo a teimar: sei que eu sou o […]
- [Hilda Hilst - Roteiro do Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/05/03/roteiro-do-silencio/): Não há silêncio bastantePara o meu silêncio.Nas prisões e nos conventosNas igrejas e na noiteNão há silêncio bastantePara o meu silêncio.Os amantes no quarto.Os ratos no muro.A meninaNos longos corredores do colégio.Todos os cães perdidosPelos quais tenho sofrido:O meu silêncio é maiorQue toda solidão.E que todo silêncio.
- [Nelson Santander - Que a Terra lhe seja Leve](https://singularidadepoetica.art/2017/04/30/nelson-santander-que-a-terra-lhe-seja-leve/): "Que a terra lhe seja leve", uma crônica de Nelson Santander
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Gregorianos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/10/carlos-drummond-de-andrade-os-gregorianos/): Um amigo que tem consciência exacerbada do tempo confia-me que, depois de certo ponto (ele não usa a palavra idade), a vida já não oferece acontecimentos, e sim comemorações. — Por mais que o sujeito faça, não consegue realmente mover-se. Fica parado diante de formas movediças, como naquele romance do Zé Lins do Rego, que […]
- [Philip Larkin - Conversar na Cama](https://singularidadepoetica.art/2017/04/09/philip-larkin-conversar-na-cama/): Conversar na cama devia ser mais fácil Dois deitados juntos — é desde há muito Um símbolo de duas pessoas sendo francas. Ainda que mais e mais tempo passe em silêncio. Lá fora, a intérmina inquietação do vento Amontoa e dispersa nuvens pelo céu. E cidades escuras se empilham no horizonte. Nada disso se importa […]
- [Philip Larkin - A Primeira Coisa](https://singularidadepoetica.art/2017/04/08/philip-larkin-a-primeira-coisa/): A primeira coisa Que entendi foi esta: Tempo é o eco de um machado Dentro da floresta. Trad.: Luiz Roberto Guedes
- [Philip Larkin - A Igreja Indo-se...](https://singularidadepoetica.art/2017/04/06/philip-larkin-a-igreja-indo-se/): Quando estou certo de que nada está ocorrendo, Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta. Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dos Livrinhos; as juncadas secas, que se cortam Para o domingo; bronze e objetos a cobrir o Altar; um órgão impecável e pequeno; Silêncio tenso, de bolor, que […]
- [T. S. Eliot - Os Homens Ocos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/04/t-s-eliot-os-homens-ocos/): “A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada, […]
- [Álvaro de Campos - Poema em Linha Reta](https://singularidadepoetica.art/2017/04/03/alvaro-de-campos-poema-em-linha-reta/): Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado […]
- [José Saramago - Não me Peçam Razões](https://singularidadepoetica.art/2017/04/02/jose-saramago-nao-me-pecam-razoes-poema/): Não me peçam razões… Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos. Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não […]
- [Fernando Pessoa - Autopsicografia](https://singularidadepoetica.art/2017/04/01/fernando-pessoa-autopsicografia/): O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a […]
- [Joaquim Cardozo - Canção Elegíaca](https://singularidadepoetica.art/2017/03/29/joaquim-cardozo-cancao-elegiaca/): Quando os teus olhos fecharem Para o esplendor deste mundo, Num chão de cinza e fadigas Hei de ficar de joelhos; Quando os teus olhos fecharem Hão de murchar as espigas, Hão de cegar os espelhos. Quando os teus olhos fecharem E as tuas mãos repousarem No peito frio e deserto, Hão de morrer as […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Luis Mauricio, Infante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/28/carlos-drummond-de-andrade-a-luis-mauricio-infante/): Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo, se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho. Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário? Os olhos se […]
- [Neil Gaiman - A Escuridão Está à Espera](https://singularidadepoetica.art/2017/03/27/neil-gaiman-a-escuridao-esta-a-espera/): a chama vermelha bruxuleante no muro da caverna pintada de ocre, corante, carvão vegetal fazendo o alce se mover, fazendo o mastodonte respirar fazendo o caçador correr e matar. veja como procuram apaziguar e entender o mundo acima isso eles sabem isso eles entendem há escuridão por toda a parte lá fora o escuro está […]
- [Angela Melim - Meu pai nos abandonou](https://singularidadepoetica.art/2017/03/26/angela-melim-meu-pai-nos-abandonou/): Meu pai nos abandonou. Minha mãe casou e mudou. Vovó morreu. Os irmãos sumiram no mundo ou submundo. Sem explicação Yvonne nunca mais falou comigo e, para Ronaldo, sou fantasma do passado. Vejo meus filhos já voando. Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html
- [Luiz Olavo Fontes - Meu Amor de Soslaio](https://singularidadepoetica.art/2017/03/25/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio/): Faz tanto calor no Rio de Janeiro que é bom sentir essa neve partir de seu olhar in http://antoniocicero.blogspot.com.br/2008/07/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio.html
- [Emily Dickinson - Dizem que "O Tempo Consola"](https://singularidadepoetica.art/2017/03/22/emily-dickinson-dizem-que-o-tempo-consola/): Dizem que “O Tempo consola” — Mas não — na realidade, A vera dor, como um Tendão, Se fortalece, com a idade — O Tempo testa a Tristeza — Porém não a remedia — Se cura o Mal, prova apenas Que Mal deveras não havia — Trad.: Paulo Henriques Britto They say that “Time assuages” […]
- [Walter Savage Landor – Sobre a Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/03/20/walter-savage-landor-sobre-a-morte-poema/): "Sobre a morte", um poema de Walter Savage Landor
- [Samuel Taylor Coleridge – Kubla Khan](https://singularidadepoetica.art/2017/03/19/kubla-khan-samuel-taylor-coleridge/): Em Xanadu, um palácio de prazer Comanda-o Kubla Khan como um farol Onde Alph, rio sagrado, vem correr Através de cavernas sem mais ver Ao ser humano até um mar sem sol. Assim, milhas e milhas de bom solo, Cerca de muro e torres polo a polo: E lá jardins luzentes em ribeiros Curvos e […]
- [Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu](https://singularidadepoetica.art/2017/03/18/paulo-henriques-britto-geracao-paissandu/): Vim, como todo mundo do quarto escuro da infância, mundo de coisas e ânsias indecifráveis, de só desejo e repulsa. Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos, em tempo de seco fascismo. Por isso não tive pátria, só discos. Amei, como todos pensam. Troquei carícias cegas nos cinemas, li […]
- [Alberto da Cunha Melo - Lendo Emile Zola](https://singularidadepoetica.art/2017/03/17/alberto-da-cunha-melo-lendo-emile-zola/): O sol esgota os objetos: não me deixa dizer mais nada. Transforma em plantas os fantasmas que ontem dançavam no quintal. Mostra a burra realidade das coisas, o preço dos sonhos; água laminada levando, em ondas, o último mistério. Tudo foi dito da maneira mais cruel: um micro de sol escreveu em poucos segundos todos […]
- [Guillaume Apollinaire - A Ponte Mirabeau](https://singularidadepoetica.art/2017/03/16/guillaume-apollinaire-a-ponte-mirabeau/): Na Ponte Mirabeau, desliza o Sena E nossos amores E a memória acena: Alegria vem sempre após a pena Vem a noite, soa a hora Os dias vão, eu me demoro As mãos nas mãos, fiquemos face a face Enquanto abaixo Pela ponte dos nossos braços, passa. De olhar eterno a onda tão lassa. Vem […]
- [José Ángel Buesa - Ela Amará a Outro Homem](https://singularidadepoetica.art/2017/03/15/jose-angel-buesa-ela-amara-a-outro-homem-poema/): "Ela amará a outro homem", poema de José Ángel Buesa Ela amará a outro homem. Eu estarei longe, caminhando para o olvido. E pode ocorrer que alguém lembre meu nome, mas ela fingirá não tê-lo ouvido. (...)
- [Adriano Espínola - "Lamas" - Bar e Restaurante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/14/adriano-espinola-lamas-bar-e-restaurante/): A Horácio Dídimo À noite todos os lépidos são larápios, todos os otários são notórios, todas as lânguidas são lésbicas todas as cópulas são cédulas, todos os lúcidos são trágicos todos os bêbados são sábios.
- [Charles Bukowski - Feras Saltando Através do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/03/13/charles-bukowski-feras-saltando-atraves-do-tempo/): Van Gogh escrevendo para seu irmão pedindo tintas Hemingway testando seu rifle Céline fracassando como médico a impossibilidade de ser humano Villon expulso de Paris por ser um ladrão Faulkner bêbado pelas sarjetas da cidade a impossibilidade de ser humano Burroughs assassinando sua mulher com um tiro Mailer apunhalando a sua impossibilidade de ser humano […]
- [Wislawa Szymborska - As Cartas dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2017/03/12/wislawa-szymborska-as-cartas-dos-mortos/): Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes, mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores. Sabemos quais dívidas não foram pagas. Com quem as viúvas rapidamente se casaram. Pobres mortos, mortos cegos, enganados, falíveis, canhestramente previdentes. Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas. Capturamos o som de testamentos sendo rasgados. Sentados […]
- [Wislawa Szymborska - Bodas de Ouro](https://singularidadepoetica.art/2017/03/11/wislawa-szymborska-bodas-de-ouro/): Devem ter sido diferentes um dia, fogo e água, diferindo com veemência, sequestrando e se doando no desejo, no assalto à dessemelhança. Abraçados, apropriaram-se e expropriaram por tanto tempo, que nos braços restou o ar translúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta. Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outro […]
- [Wislawa Szymborska - Natureza-morta com um Balãozinho](https://singularidadepoetica.art/2017/03/10/wislawa-szymborska-natureza-morta-com-um-balaozinho/): Em vez da volta das lembranças na hora de morrer quero ter de volta as coisas perdidas. Pela porta, janela, malas, sombrinhas, luvas, casaco, para que eu possa dizer: Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente, rosa de papel, barbante, faca, para que eu possa dizer: Nada disto me faz falta. Esteja onde […]
- [Wislawa Szymborska - Nada Duas Vezes](https://singularidadepoetica.art/2017/03/09/wislawa-szymborska-nada-duas-vezes/): Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela […]
- [Wislawa Szymborska - A Cada Cem Pessoas](https://singularidadepoetica.art/2017/03/08/wislawa-szymborska-a-cada-cem-pessoas/): A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros: – cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo: – quase todas as outras. estão prontas a ajudar desde é claro que isso não lhes tome muito tempo: – quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas […]
- [Jaroslav Seifert - Vi Apenas uma Vez](https://singularidadepoetica.art/2017/03/01/jaroslav-seifert-vi-apenas-uma-vez/): Vi apenas uma vez um sol tão ensanguentado. E nunca mais Descia funesto sobre o horizonte e parecia que alguém havia escancarado as portas do inferno. Perguntei pelo observatório astronômico e hoje sei o porquê. O inferno, conhecemos: está em toda parte e caminha sobre duas pernas. […]
- [Gary Snyder - Dezembro em Yase](https://singularidadepoetica.art/2017/02/20/gary-snyder-dezembro-em-yase/): Naquele Outubro em que escolheu ser livre na grama alta e seca junto ao pomar você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te vi só mais uma vez. Você estava estranha. E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anos e até mais um […]
- [Yehuda Amichai - O Corpo é a Causa do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/02/19/yehuda-amichai-o-corpo-e-a-causa-do-amor/): Primeiro o corpo é a causa do amor depois a fortaleza que o protege por fim seu cárcere. E quando o corpo morre, o amor jorra caudalosamente como de um caça-níqueis clandestino quebrado jorram de súbito com estrondo todas as moedas de gerações e gerações entregues à própria sorte.
- [William Shakespeare - Romeu e Julieta (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/02/18/william-shakespeare-romeu-e-julieta-excerto/): “Esses prazeres violentos têm fins violentos e morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, que, ao se beijarem, se consomem. O mais doce mel repugna por sua própria doçura, e seu sabor confunde o paladar. Portanto, ama com moderação. O amor duradouro é moderado. Quem corre demais chega tão atrasado como aquele […]
- [Nicanor Parra - O que ganha um velho ao fazer ginástica?](https://singularidadepoetica.art/2017/02/11/nicanor-parra-o-que-ganha-um-velho-ao-fazer-ginastica/): e o que ganha falando ao telefone? e o que ganha ficando famoso? e o que ganha um velho olhando-se no espelho? Nada afundar cada vez mais na lama Já são três ou quatro da madrugada – por que não trata de dormir? mas não – tome ginástica tome ligações de longa distância tome Bach […]
- [Wislawa Szymborska -Retornos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/10/wislawa-szymborska-retornos/): Voltou. Não disse nada. Mas estava claro que teve algum desgosto. Deitou-se vestido. Cobriu a cabeça com o cobertor. Encolheu as pernas. Tem uns quarenta anos, mas não agora. Existe – mas só como na barriga da mãe na escuridão protetora, debaixo de sete peles. Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica. […]
- [Jorge Luis Borges - Os Justos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/09/jorge-luis-borges-os-justos/): Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra exista música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não […]
- [Antero de Quental - Nox](https://singularidadepoetica.art/2017/02/08/antero-de-quental-nox/): Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos… Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia… O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece alguns momentos… Oh! Antes tu também […]
- [John Keats - Ode sobre a Indolência](https://singularidadepoetica.art/2017/02/07/john-keats-ode-sobre-a-indolencia/): I Numa certa manhã eu vi as três as figuras, Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,Seguindo atrás da outra, mudas e seguras, Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;Como formas de mármore em alto-relevo Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,Mostraram-se mais uma vez como […]
- [John Keats - Do Endymion](https://singularidadepoetica.art/2017/02/06/john-keats-do-endymion/): O que é belo há de ser eternamente Uma alegria, e há de seguir presente. Não morre; onde quer que a vida breve Nos leve, há de nos dar um sono leve, Cheio de sonhos e de calmo alento. Assim, cabe tecer cada momento Nessa grinalda que nos entretece À terra, apesar da pouca messe […]
- [Yehuda Amichai - Outra Vez o Amor Terminou](https://singularidadepoetica.art/2017/02/05/yehuda-amichai-outra-vez-o-amor-terminou/): Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas, ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezas coisas comovidas que buscavam o esquecimento. Outra vez o amor terminou. E como depois de se demolir uma casa grande e retirar os escombros, visitamos o terreno vazio e quadrado e dizemos: como […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Nenhuma Arte"](https://singularidadepoetica.art/2017/02/04/paulo-henriques-britto-sem-titulo/): Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada, não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, […]
- [Konstantinos Kaváfis - A Origem](https://singularidadepoetica.art/2017/02/03/konstantinos-kavafis-a-origem/): “A Origem”, um poema de Konstantinos Kaváfis que revela como o instante clandestino do desejo se transmuta, no tempo, em matéria secreta da poesia.
- [Ezra Pound - E os dias...](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/ezra-pound-e-os-dias/)
- [Walter de la Mare - Os que Ouviam](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/walter-de-la-mare-os-que-ouviam/): ‘Tem alguém em casa?’ indagou o Viajante Defronte à porta enluarada; Seu cavalo no silêncio ruminava o capim Da forragem fértil e enfolhada: E uma ave voou para muito além da torre, Acima de sua cabeça: E de novo a porta ele outra vez castigou; ‘Tem alguém em casa?’ ele disse. Mas ninguém desceu para […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Eppur Si Muove](https://singularidadepoetica.art/2017/02/01/affonso-romano-de-santanna-eppur-si-muove/): Não se pode calar um homem Tirem-lhe a voz, restará o nome. Tirem-lhe o nome e em nossa boca restará a sua antiga fome. Matar, sim, se pode. Se pode matar um homem. Mas sua voz, como os peixes, nada contra a corrente a procriar verdades novas na direção contrária à foz. Mente quem fala […]
- [Ricardo Silvestrin - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/01/31/ricardo-silvestrin-sem-titulo/): ruas têm coração de pedra não espere nada do seu amor por elas a não ser cimento, asfalto e uma família nova na casa de um velho conhecido quando menos se espera uma rua muda de sentido
- [Bertolt Brecht - Se fôssemos infinitos...](https://singularidadepoetica.art/2017/01/29/bertolt-brecht-se-fossemos-infinitos/)
- [Domingos Pellegrini - Com Brecht](https://singularidadepoetica.art/2017/01/28/domingos-pellegrini-com-brecht/)
- [Domingos Pellegrini - Mudanças](https://singularidadepoetica.art/2017/01/27/domingos-pellegrini-mudancas/)
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/17/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere-2/): IV Só não dói mais porque não é preciso. Se fosse o caso, a dor era pior. Não há nada nisso de extraordinário: A natureza odeia o desperdício, tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr. É exatamente a conta necessária, até que alguma solução se encontre. O que aliás não acontece nunca. E isso […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/16/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere/): I A seletividade da memória — a cor exata da pele, a textura, o odor de cada côncavo e orifício, o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e a saliva, a coxa arisca, a dobra escura, o beijo salobro, o sabor difícil, a carne assombrada, o esperma […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetóides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/15/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos/): IV Também já estive aí, no não lugar onde você agora não se encontra. Também não me encontrei. Aliás, foi justamente contra a tal necessidade de seguir alguma rota que jurei lutar. Lutei, perdi, e pronto: agora estou aqui, a alguns centímetros do meu próprio umbigo Se tudo correr bem, também a tua derrota vai […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/14/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-2/): ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porém só surge em pleno ar. E não renego a rota tonta que segui. Ninguém se faz em linhas retas. Todo porto a que se chega é a meta desejada. E o caminho tomado, por mais torto, acaba sempre sendo a exata […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Duas Bagatelas"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/13/paulo-henriques-britto-de-duas-bagatelas/): II Então viver é isso, é essa obrigação de ser feliz a todo custo, mesmo que doa, de amar alguma coisa, qualquer coisa, uma causa, um corpo, o papel em que se escreve, a mão, a caneta até, amar até a negação de amar, mesmo que doa, então viver é só esse compromisso com a […]
- [Paulo Henriques Britto - Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2017/01/12/paulo-henriques-britto-epilogo/): Finda a leitura, o livro está completo em sua solidão mais-que-perfeita de couro falso e íntimo papel. Lá fora, o mundo segue, arquitetando as mesmas contingências costumeiras que nunca esbarram numa irrefutável conclusão que se possa resumir em três letras letais, inalienáveis. Que paz será possível nessa selva sem índices, prefácios, rodapés? indaga, da estante […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/11/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria/): VII Nada disso foi do jeito que eu quis. Se fosse como eu quis, não haveria de ser tão sofrido, tão infeliz. Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sinto como quem tem não o que foi pedido, e sim o que, guiado pelo instinto, […]
- [Konstantinos Kaváfis - À Espera dos Bárbaros](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-a-espera-dos-barbaros/): O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado? Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje. Que leis hão de fazer os senadores? Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se ergueu tão cedo e de coroa solene se […]
- [Franz Kafka - Pequena Fábula](https://singularidadepoetica.art/2016/03/31/franz-kafka-pequena-fabula/)
- [Konstantinos Kaváfis - O Prazo de Nero](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/konstantinos-kavafis-o-prazo-de-nero/): Não ficou perturbado Nero quando ouviu do Oráculo de Delfos o prenúncio: “Teme ao ano septuagésimo terceiro.” Tinha tempo bastante a desfrutar. Só contava trinta anos. Muito dilatado era o prazo que o Deus lhe concedia para cuidar-se dos riscos do futuro. Agora vai voltar a Roma um tanto fatigado da magnífica fadiga que se […]
- [Ana Martins Marques - Há estes dias em que pressentimos na casa...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/ana-martins-marques-ha-estes-dias-em-que-pressentimos-na-casa/): Há estes dias em que pressentimos na casa a ruína da casa e no corpo a morte do corpo e no amor o fim do amor estes dias em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde não são coisas que se expliquem apenas são dias […]
- [Marco Aurélio - Reflexões, 14](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/marco-aurelio-reflexoes-14/): Ainda que os anos de tua vida sejam três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida senão a que vive agora, nem vive outra senão a que perde. O prazo mais longo e o mais breve são, portanto, iguais. O presente é de todos; morrer é perder o presente, […]
- [Decio Pignatari - Femme](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/decio-pignatari-femme/)
- [Manuel Bandeira - Soneto Inglês n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/manuel-bandeira-soneto-ingles-n-2/): Aceitar o castigo imerecido, Não por fraqueza, mas por altivez. No tormento mais fundo o teu gemido Trocar um grito de ódio a quem o fez. As delicias da carne e pensamento Com que o instinto da espécie nos engana Sobpor ao gênero sentimento De uma afeição mais simplesmente humana. Não tremer de esperança nem […]
- [Moshé Ibn Ezra - São Túmulos de Tempos Antigos, Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos-antigos-velhos/): São túmulos de tempos antigos, velhos. Neles há gente que dorme um sono eterno. Nem ódio, nem inveja há no seu interior, nem amor, nem zangas de vizinhos. Os meus pensamentos não podem, quando os veem, distinguir entre servos e senhores. Versão de Francisco José Viegas, tradução do hebraico de Maria José Cano. Peguei aqui:http://antoniocicero.blogspot.com.br/2015/08/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos.html
- [Erthos Albino de Souza - Sea Nau](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/erthos-albino-de-souza-sea-nau/)
- [Ferreira Gullar - Nova Concepção da Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-nova-concepcao-da-morte/): Como ia morrer, foi-lhe dado o aviso na carne, como sempre ocorre aos seres vivos; um aviso, um sinal, que não lhe veio de fora, mas do fundo do corpo, onde a morte mora, ou, dizendo melhor, onde ela circula como a eletricidade ou o medo, na medula dos ossos e em cada enzima, que […]
- [Ferreira Gullar - Filhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-filhos/): A meu filho Marcos Daqui escutei quando eles chegaram rindo e correndo entraram na sala e logo invadiram também o escritório (onde eu trabalhava) num alvoroço e rindo e correndo se foram com sua alegria se foram Só então me perguntei por que não lhes dera maior atenção se há tantos e tantos anos não […]
- [Ferreira Gullar - Teu Corpo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-teu-corpo/): O teu corpo muda independente de ti. Não te pergunta se deve engordar. É um ser estranho que tem teu rosto ri em teu riso e goza com teu sexo. Lhe dás de comer e ele fica quieto. Penteias-lhe os cabelos como se fossem teus. Num relance, achas que apenas estás nesse corpo. Mas como, […]
- [Ferreira Gullar - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-despedida/): Eu deixarei o mundo com fúria. Não importa o que aparentemente aconteça, se docemente me retiro. De fato, nesse momento estarão de mim se arrebentando raízes tão fundas quanto estes céus brasileiros. Num alarido de gente e ventania olhos que amei rostos amigos tardes e verões vividos estarão gritando a meus ouvidos para que eu […]
- [Ferreira Gullar - Praia do Caju](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-praia-do-caju/): Escuta: o que passou passou e não há força capaz de mudar isto. Nesta tarde de férias, disponível, podes, se quiseres, relembrar. Mas nada acenderá de novo o lume que na carne das horas se perdeu. Ah, se perdeu! Nas águas da piscina se perdeu sob as folhas da tarde nas vozes conversando na varanda […]
- [Ferreira Gullar - O Que Se Foi](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-o-que-se-foi/): O que se foi se foi. Se algo ainda perdura é só a amarga marca na paisagem escura. Se o que foi regressa, traz um erro fatal: falta-lhe simplesmente ser real. Portanto, o que se foi, se volta, é feito morte. Então por que me faz o coração bater tão forte?
- [Arnaldo Antunes - Só o Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-so-o-sol/)
- [Arnaldo Antunes - Casulo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-casulo/)
- [Arnaldo Antunes - Acaba Acontecendo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-acaba-acontecendo/): o que você mais teme acaba acontecendo o que você mais quer acaba acontecendo o que ninguém espera acaba acontecendo o que ninguém consegue mais conter acaba de acontecer
- [O Segredo dos seus Olhos - Mil Passados](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/o-segredo-dos-seus-olhos-mil-passados/): “Não pense mais nisso! Não pense mais. O que importa? Não fique mais imaginando, não fique pensando no que aconteceu, no que não aconteceu. No que poderia ter acontecido. Senão você terá mil passados e nenhum futuro…” Ricardo Morales para Benjamin Espósito, em “O Segredo dos Seus Olhos”
- [Alfred Tennyson - Ulysses](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/alfred-tennyson-ulysses/): De nada serve a um rei ficar inerte, No lar quieto, em meio à rocha infértil, Unido a esposa idosa, eu doo e imponho Iníquas leis a um bando de selvagens Que soma, e dorme, e engorda, e não me vê. Estou inquieto: Sorverei da vida A última gota: Sempre gozei muito, Sofri muito, com […]
- [Bei Dao - Resposta](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/bei-dao-resposta/): A degradação é o passaporte do vilão, A nobreza é epitáfio do nobre. Olhe: como o céu dourado é inundado do reflexo das sombras torcidas dos mortos. Passada a época do gelo, Por que ainda há gelo em toda a parte? Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança, por que mil velas ainda competem […]
- [Antonio Cicero - Valeu](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/antonio-cicero-valeu/)
- [Óssip Mandelstam - Pedra (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/osip-mandelstam-pedra-excerto/): Não posso tocar, no escuro,Teu vulto vago e sombrio.“Senhor!”, por erro, murmuro,Alheio ao que balbucio. De mim, tal uma ave enorme,O nome de Deus se evola.À frente, um abismo informe,Atrás, vazia, a gaiola. Trad.: Augusto de Campos
- [Jorge Luis Borges - Everness](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-everness/): Só uma coisa há. É o esquecimento. Deus, que salva o metal, salva a escória E cifra na sua profética memória as luas que serão e que hão sido. Já tudo está. Os mil reflexos, Que entre os dois crepúsculos do dia Teu rosto foi deixando nos espelhos e os que irá deixando ainda. E […]
- [Jorge Luis Borges - Cosmogonia](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-cosmogonia/): Nem treva nem caos. A treva Requer olhos que vêem, como o som. E o silêncio requer o ouvido, O espelho, a forma que o povoa. Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer Uma divindade que premedita O silêncio anterior à primeira Noite do tempo, que será infinita. O grande rio de Heráclito o […]
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antonio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre/): —Nos —fios —ten sos —da —pauta —de me- tal —as — an/ do/ ri/ nhas —gri- tam —por —fal/ ta/ —de u- ma —cl’a- ve —de —sol
- [Doroty Parker - Em Suma](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/doroty-parker-em-suma/): Trad.: Nelson Ascher
- [Algernon Charles Swinburne - Uma Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/algernon-charles-swinburne-uma-despedida-poema/): Leia "Uma Despedida", de Algernon Charles Swinburne, um poema lírico sobre amor não correspondido, despedida e a beleza melancólica da renúncia.
- [William Butler Yeats - Quando Estiveres Grisalha e com Sono...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-quando-estiveres-grisalha-e-com-sono-poema/): Quando estiveres grisalha e com sono, Dormitando ante o fogo, lê meu livro Bem lentamente e lembra o sensitivo Olhar que tinhas de suave abandono. Muitos amaram tuas alegrias, Tua beleza; mas só num culmina O amor por tua alma peregrina E a mágoa que teu rosto pressentia. Reclina-te ante as chamas; e ao vê-las […]
- [William Butler Yeats - A Segunda Vinda](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-a-segunda-vinda/): Girando em círculos sempre maiores Já não ouve o falcão ao falcoeiro; Tudo desaba; o próprio centro hesita; Livre, a anarquia reina sobre o mundo, Livre a maré sanguinolenta: em tudo Se afogam os rituais da inocência; Os melhores vacilam e os piores À intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia, […]
- [Cassiano Ricardo - Dedicatória](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-dedicatoria/): I Ao claro tempo, ao tempo das metamorfoses, não havia horizonte na alegria do ser e do acontecer. Havia a graça aérea com que as coisas brincavam de ser e de não ser, no jardim da matéria. Hoje uma coisa passa a ser outra coisa; nascem anjos sem asa dentro do dicionário; um monstro, um […]
- [Cassiano Ricardo - O Hipopótamo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-o-hipopotamo/): Não adianta o rio lhe ofertar um espelho, se ele não sabe de quem é a imagem que o espelho reflete. Se ele pensa que a sua imagem n’água é a de um outro hipopótamo. A paisagem por volta tem algo de bíblico pois é a água da criação, ainda viva, como no primeiro dia. […]
- [Cassiano Ricardo - O Cacto](https://singularidadepoetica.art/2016/03/25/cassiano-ricardo-o-cacto/): This is cactus land. Here the stone images are raised… T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cacto na areia da nossa tristeza. Uma folha sobre outra, em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros, um braço a nascer de outro braço, uma folha sobre outra, formaremos um grande cacto. De cada braço, […]
- [Paul Auster - A Invenção da Solidão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/paul-auster-a-invencao-da-solidao-excerto/)
- [Arnaldo Antunes - Cultura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-cultura/)
- [Arnaldo Antunes - A Casa é Sua](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-a-casa-e-sua/): Não me falta cadeira Não me falta sofá Só falta você sentada na sala Só falta você estar Não me falta parede E nela uma porta pra você entrar Não me falta tapete Só falta o seu pé descalço pra pisar Não me falta cama Só falta você deitar Não me falta o sol da […]
- [Robert Frost - A Estrada não Trilhada](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/robert-frost-a-estrada-nao-trilhada/): Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se, mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria. Assim, por longo tempo eu ali me detive, e um deles observei até um longe declive no qual, dobrando, desaparecia… Porém tomei o outro, igualmente viável, e tendo mesmo um atrativo especial, pois mais ramos possuía e talvez […]
- [Gavin Aung Than e Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/gavin-aung-than-ozymandias/)
- [Carlos Drummond de Andrade - Declaração em Juízo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-declaracao-em-juizo/): Peço desculpas de ser o sobrevivente. Não por longo tempo, é claro. Tranqüilizem-se. Mas devo confessar, reconhecer que sou sobrevivente. Se é triste/cômico ficar sentado na platéia quando o espetáculo acabou e fecha-se o teatro, mais triste/grotesco é permanecer no palco, ator único, sem papel, quando o público já virou as costas e somente baratas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte no Avião](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-morte-no-aviao/): Acordo para a morte.Barbeio-me, visto-me, calço-me.É meu último dia: um diacortado de nenhum pressentimento.Tudo funciona como sempre.Saio para a rua. Vou morrer. Não morrerei agora. Um diainteiro se desata à minha frente.Um dia como é longo. Quantos passosna rua, que atravesso. E quantas coisasno tempo, acumuladas. Sem reparar,sigo meu caminho. Muitas facescomprimem-se no caderno de […]
- [Violeta de Outono - Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/03/20/violeta-de-outono-outono/): No percurso rumo ao prédio oculto Desolado o sol se põe a oeste Lua em gancho, triste, sons do vento Parte o coração o frio do outono Canto do extremo do mundo Espero em silêncio profundo No jardim noturno o esquecimento Velha árvore espera o julgamento Nada explicará meu sentimento Está em meu coração […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Uma Hora e mais Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-uma-hora-e-mais-outra/): Há uma hora triste que tu não conheces. Não é a da tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança; não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol antecipando outro mais gelado pano; e também não é a do nascer do sol enquanto enfastiado assistes […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Coisa Miserável](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-coisa-miseravel/): Coisa miserável, suspiro de angústia enchendo o espaço, vontade de chorar, coisa miserável, miserável. Senhor, piedade de mim, olhos misericordiosos pousando nos meus, braços divinos cingindo meu peito, coisa miserável no pó sem consolo, consolai-me. Mas de nada vele gemer ou chorar, de nada vale erguer as mãos e olhos para um céu tão longe, […]
- [Chico Buarque e Francis Hime - Amor Barato](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-e-francis-hime-amor-barato/): Eu queria serUm tipo de compositorCapaz de cantar nosso amorModesto Um tipo de amorQue é de mendigar cafunéQue é pobre e às vezes nem éHonesto Pechincha de amorMas que eu faço tanta questãoQue se tiver precisãoEu furto Vem cá, meu amorAguenta o teu cantadorMe esquenta porque o cobertor é curto Mas levo esse amorCom […]
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-pedaco-de-mim/): Oh, pedaço de mim Oh, metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior do que o esquecimento É pior do que se entrevar Oh, pedaço de mim Oh, metade exilada de mim Leva os teus sinais Que a saudade dói como um barco Que aos poucos […]
- [Haroldo Barbosa e Luis Reis - Notícia de Jornal](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/haroldo-barbosa-e-luis-reis-noticia-de-jornal1/): “Tentou contra a existência Num humilde barracão Joana de Tal, por causa de um tal João. Depois de medicada, Retirou-se pro seu lar.” Aí a notícia carece de exatidão. O lar não mais existe. Ninguém volta ao que acabou. Joana é mais uma mulata triste que errou. Errou na dose, errou no amor, Joana errou […]
- [Caetano Veloso - Como Dois e Dois](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/caetano-veloso-como-dois-e-dois/): Quando você me ouvir cantar Venha, não creia, eu não corro perigo Digo, não digo, não ligo, deixo no ar Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar… Tudo vai mal, tudo Tudo é igual quando eu canto e sou mudo Mas eu não minto, não minto, estou longe e perto Sinto alegrias, tristezas e […]
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura-2/)
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura/): Sei de uma criatura antiga e formidável, que a si mesma devora os membros e as entranhas, com a sofreguidão da fome insaciável. Habita juntamente os vales e as montanhas; e no mar, que se rasga, à maneira de abismo, espreguiça-se toda em convulsões estranhas. Traz impresso na fronte o obscuro despotismo. cada olhar que […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/caetano-veloso-o-homem-velho/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero - Inverno](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/adriana-calcanhotto-inverno/): No dia em que fui mais feliz Eu vi um avião Se espelhar no seu olhar até sumir De lá pra cá não sei Caminho ao longo do canal Faço longas cartas pra ninguém E o inverno no Leblon é quase glacial Há algo que jamais se esclareceu: Onde foi exatamente que larguei Naquele […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Versos à Boca da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/03/11/carlos-drummond-de-andrade-versos-a-boca-da-noite/): Sinto que o tempo sobre mim abatesua mão pesada. Rugas, dentes, calva.Uma aceitação maior de tudo,e o medo de novas descobertas. Escreverei sonetos de madureza?Darei aos outros a ilusão de calma?Serei sempre louco? Sempre mentiroso?Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? Há muito suspeitei o velho em mim.Ainda criança, já me atormentava.Hoje estou só. Nenhum menino […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Que País é Este?](https://singularidadepoetica.art/2016/03/10/affonso-romano-de-santanna-que-pais-e-este/): Que País é Este?, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, realiza uma vasta investigação poética sobre a formação histórica, cultural e política do Brasil.
- [Giacomo Leopardi - Opúsculos Morais (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-opusculos-morais-excerto/): “Cada parte do universo apressa-se, infatigavelmente, para a morte com solicitude e celeridade admiráveis. Apenas o próprio planeta parece imune à decadência e ao declínio. Contudo, se no outono e no inverno mostra-se quase enfermo e velho, não menos, na nova estação, rejuvenesce sempre. Mas como os mortais no primeiro momento de cada dia readquirem […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito-2-poema/): Sempre me foi cara esta colina erma E esta sebe, que de muitos lados Exclui a visão do último horizonte. Mas sentado, contemplando, infindáveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e a mais profunda calma Eu no pensar imagino; e por pouco Não se amedronta o coração. E o Vento Ouvindo sussurrar entre essas plantas, […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito/): Sempre cara me foi esta colina Erma, e esta sebe, que de tanta parte Do último horizonte, o olhar exclui. Mas sentado a mirar, intermináveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e uma calma profundíssima Eu crio em pensamentos, onde por pouco Não treme o coração. E como o vento Ouço fremir entre essas folhas, […]
- [Adriana Calcanhotto - Estrelas](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-estrelas/): estrelas para mim para mim estrelas são para mim estrelas para mim estrelas estrelas para quê? para quê? para quê? estrelas para mim só para mim. para mim para mim para mim e a treva entre as estrelas só para mim.
- [Adriana Calcanhotto - Jovens e Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-jovens-e-velhos/): Antes de mim vieram os velhos Os jovens vieram depois de mim E estamos todos aqui No meio do caminho dessa vida Vinda antes de nós E estamos todos a sós No meio do caminho dessa vida E estamos todos no meio Quem chegou e quem faz tempo que veio Ninguém no início ou no […]
- [Giuseppe Ungaretti - Daquela Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/giuseppe-ungaretti-daquela-estrela-a-outra/): Trad.: Haroldo de Campos
- [Arnaldo Antunes - O Que](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/arnaldo-antunes-o-que/)
- [Manuel Bandeira - O Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/manuel-bandeira-o-rio/): Ser como o rio que deflui Silencioso dentro da noite. Não temer as trevas da noite. Se há estrelas nos céus, refleti-las. E se os céus se pejam de nuvens, Como o rio as nuvens são água, Refleti-las também sem mágoa Nas profundidades tranquilas.
- [Andrew Marvell - To His Coy Mistress, em 5 traduções](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/andrew-marvell-to-his-coy-mistress-em-5-traducoes/): PARA SUA DAMA RECATADA. trad. Matheus “Mavericco”. Houvesse tempo e espaço e então de fato Não seria um delito este recato. Sentados, nós iríamos pensar Em só pensar no outro, e assim passar. Você, do lado indígena do Ganges, Achando rubis, e eu, pois me confrange A dor, junto ao Humber. Décadas antes Do Dilúvio […]
- [W. H. Auden - Ao Descer a Rua Bristol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/w-h-auden-ao-descer-a-rua-bristol/): Ao descer a rua Bristol uma tarde, eu vi os demais que eram como, antes da ceifa, os já maduros trigais. E ouvi junto ao rio, debaixo da ponte da ferrovia, um namorado cantando como ele sempre amaria: “Vou te amar, meu bem, até que a África se junte à China, que o rio salte […]
- [Jorge Luis Borges - Aqui. Hoje.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-aqui-hoje/): Já somos o esquecimento que seremos. A poeira elementar que nos ignora e que foi o ruivo Adão e que é agora todos os homens e que não veremos. Já somos na tumba as duas datas do princípio e do término, o esquife, a obscena corrupção e a mortalha, os ritos da morte e as […]
- [Jorge Luis Borges - São os Rios](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-sao-os-rios/): Somos o tempo. Somos a famosa parábola de Heráclito o Obscuro. Somos a água, não o diamante duro, a que se perde, não a que repousa. Somos o rio e somos aquele grego que se olha no rio. Seu semblante muda na água do espelho mutante, no cristal que muda como o fogo. Somos o […]
- [Jorge Luis Borges - As Coisas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-as-coisas/): A bengala, as moedas, o chaveiro, a fechadura dócil, as tardias notas que não lerão os poucos dias que me restam, o naipe, o tabuleiro, um livro e dentro dele a emurchecida violeta, monumento de uma tarde por certo inesquecível já esquecida, o rubro espelho ocidental em que arde uma aurora ilusória. Quantas coisas, atlas, […]
- [W. H. Auden - Musée des Beaux-Arts](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/w-h-auden-musee-des-beaux-arts/): Sobre o sofrimento jamais se enganaram os velhos Mestres: eles bem compreenderam a condição humana, viram como certas coisas acontecem enquanto alguém por aí está comendo ou abrindo a janela ou apenas caminhando sem pressa. Sabem que, enquanto os mais velhos es- tão, reverentemente, apaixo- nadamente, à espera do “birth” […]
- [Samuraitiger19 - Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/samuraitiger19-nos-minutos-finais-de-sua-vida-calvin-teve-uma-ultima-conversa-com-haroldo/): “Calvin? Calvin, querido?” No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Corrente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-a-corrente/): Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos, amarelos, e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.
- [Mário Quintana - Os Degraus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mario-quintana-os-degraus/): Não desças os degraus do sonho Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos – onde Os deuses, por trás das suas máscaras, Ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo…
- [Bertolt Brecht - Lista de Preferências](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/bertolt-brecht-lista-de-preferencias/): Alegrias, as desmedidas. Dores, as não curtidas. Casos, os inconcebíveis. Conselhos, os inexequíveis. Meninas, as veras. Mulheres, insinceras. Orgasmos, os múltiplos. Ódios, os mútuos. Domicílios, os passageiros. Adeuses, os bem ligeiros. Artes, as não rentáveis. Professores, os enterráveis. Prazeres, os transparentes. Projetos, os contingentes. Inimigos, os delicados. Amigos, os estouvados. Cores, o rubro. Meses, outubro. […]
- [John Keats - Ode sobre uma Urna Grega](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/john-keats-ode-sobre-uma-urna-grega/): I Inviolada noiva de quietude e paz, Filha do tempo lento e da muda harmonia, Silvestre historiadora que em silêncio dás Uma lição floral mais doce que a poesia: Que lenda flor-franjada envolve tua imagem De homens ou divindades, para sempre errantes. Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo? Que deuses ou mortais? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tarde de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-tarde-de-maio/): Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio, quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra, outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora, surdamente lavrava sob meus traços cômicos, e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes e condenadas, no […]
- [Rogério Nascente - Às Vezes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/rogerio-nascente-as-vezes/)
- [Múcio Góes - A Dor Meço](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mucio-goes-a-dor-meco/)
- [Arthur Schopenhauer - Fisicamente, o andar...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/926-2/)
- [Arthur Schopenhauer - Bolhas de Sabão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-bolhas-de-sabao-excerto/): O homem só vive no presente, que se converte no passado, e afunda-se na morte. Exceto as consequências que podem influir no presente, e que são filhas de sua vontade, ou de seus atos, a sua vida passada já não existe. Devia portanto ser-lhe indiferente que esse passado fosse de prazeres ou tristezas. O presente […]
- [Jorge Luis Borges - Outras Inquisições (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jorge-luis-borges-outras-inquisicoes-excerto/): Negar a sucessão temporal, negar o Eu, negar o universo astronômico, são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino não é assustador por ser irreal; é assustador porque é irreversível e ferrenho. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é […]
- [José Paulo Paes - Auto-Epitáfio n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2/)
- [Jules Laforgue - Mediocridade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jules-laforgue-mediocridade/): No infinito coberto de eternas belezas, Como átomo perdido, incerto, solitário, Um planeta chamado Terra, dias contados, Voa com os seus vermes sobre as profundezas. Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho, Marchando, indiferentes ao grande mistério, E quando um dos seus é enterrado, já sérios, Saúdam-no. Do torpor não são arrancados. Viver, morrer, […]
- [Richard Dawkins - Todos Vamos Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/richard-dawkins-todos-vamos-morrer/): Arte: Gavin Aung – 2012
- [William Shakespeare - do Macbeth (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/william-shakespeare-do-macbeth-excerto/): Amanhã amanhã amanhã amanhã Rasteja em passo parco dia a dia Até a última sílaba do Tempo. E os ontens, todos, só nos alumiam O fim no pó. Apaga, apaga, vela Breve! A vida é só uma sombra movel. Pobre ator Que freme e treme o seu papel no palco E logo sai de cena. […]
- [Edgar Allan Poe - Berenice](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/edgar-allan-poe-berenice/): A DESGRAÇA É VARIADA. O infortúnio da terra é multiforme. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris! Como de um exemplo de beleza, derivei eu uma imagem de desencanto? Da aliança da paz, uma […]
- [Arthur Schopenhauer - A Vida é Dor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-a-vida-e-dor/): Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor. Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre. A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos. A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em […]
- [Décio Pignatari - Cri$to](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/decio-pignatari-crito/)
- [D. H. Lawrence - Bons Maridos Fazem Mulheres Infelizes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/d-h-lawrence-bons-maridos-fazem-mulheres-infelizes/): Bons maridos fazem mulheres infelizes e maus maridos também fazem; mas a infelicidade de uma mulher de marido bom é muito mais arrasadora que a infelicidade de uma mulher de marido ruim. Trad.: Jorge Wanderley
- [Arnaldo Antunes - Sol To](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-sol-to/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Isabel Allende - Ruído](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/isabel-allende-ruido/): A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte.
- [António Lobo Antunes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/antonio-lobo-antunes/): Com os anos a morte vai-se tornando familiar. Quero dizer não a ideia da morte, não o medo da morte: a realidade dela. As pessoas de quem gostamos e partiram amputam-nos cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por dentro. Parece que sobrevivemos não aos outros mas a nós mesmos, […]
- [Anatol Knotek - Bye](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/anatol-knotek-bye/)
- [Arnaldo Antunes - A Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-a-eternidade/)
- [Arnaldo Antunes - faltaratéfartar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-faltaratefartar/)
- [Arnaldo Antunes - Pensa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-pensa/)
- [Arnaldo Antunes - Aquilo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-aquilo/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume-2/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume/): Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia Só vigia um ponto negro: o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Quem nem alegre, nem triste, nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski-2/): Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakósvki. Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem. Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski/)
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/ferreira-gullar-os-mortos/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Jorge de Sena - Conheço o Sal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/jorge-de-sena-conheco-o-sal-poema/): Conheço o sal, um poema de Jorge de Sena
- [Paulo Henriques Britto - Balanços](https://singularidadepoetica.art/2017/01/10/paulo-henriques-britto-balancos/): II Como saber sem tentar? Como tentar se é tão fácil conformar-se de saída com a ideia de fracasso? Pois fracassar justifica o não se ter nem sequer admitido não querer-se aquilo que mais se quer. É um beco sem saída, mas sempre é melhor que a rua: mais estreito. Acolhedor. Vem, entra. A casa […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Quarta Feira de Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/vinicius-de-moraes-soneto-de-quarta-feira-de-cinzas/): Por seres quem me foste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Malgrado a vida dura e atormentada Por seres mais que a simples aventura E menos que a constante namorada Porque te vi nascer de mim […]
- [Wislawa Szymborska - Discurso do Nobel 1996 (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/wislawa-szymborska-discurso-do-nobel-1996-excerto/)
- [Paulo Henriques Britto - Mínima Poética](https://singularidadepoetica.art/2017/01/08/paulo-henriques-britto-minima-poetica/): Poesia como forma de dizer o que de outras formas é omitido— não de calar o que se vive e vê e sente por vergonha do sentido. Poesia como discurso completo, ao mesmo tempo trama de fonemas, artesanato de éter, e projeto sobre a coisa que transborda o poema (se bem que dele próprio projetada). […]
- [Paulo Henriques Britto - Circular](https://singularidadepoetica.art/2017/01/07/paulo-henriques-britto-circular/): Neste mesmo instante, em algum lugar, alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer. Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar. O que você fizer não muda coisa alguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a […]
- [Paulo Henriques Britto - Biodiversidade](https://singularidadepoetica.art/2017/01/06/paulo-henriques-britto-biodiversidade/): Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, que não requerem prática, oficina, suor. Maneiras mais simpáticas de pagar mico e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, como há quem não se vexe de ler e decifrar essas palavras bestas estrebuchando […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/05/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos/): III Mesmo o mais sólido some sem deixar nenhum vestígio, sem nem se ter (como exige o costume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido — que se dá a posteriori, antes que se deteriore de todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculo ângulo do evento único […]
- [Paulo Henriques Britto - Mosaico](https://singularidadepoetica.art/2017/01/04/paulo-henriques-britto-mosaico/): Os dias a amontoar-se como se rumo a um sentido, algo que se assemelhasse a uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo, claro — o que sabem os dias?) uma estrutura em relevo, espécie de marchetaria, com padrão indecifrável (por não seguir um projeto), mas assim mesmo um resguardo, um remédio […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/03/paulo-henriques-britto-de-biographias-literarias/): V Céu azul. Cores vivas. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo. É talvez domingo. É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagem extremamente, absurdamente nítida. E se fosse menor a claridade, ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Seis Sonetos Soturnos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/02/paulo-henriques-britto-de-seis-sonetos-soturnos/): I A qualquer hora, o que se chama vida pode mudar da água pro vinho. Ou vice- -versa. Cada palavra proferida — uma sentença grave, uma tolice — pode retornar feito um bumerangue capaz de destruir o que encontrar. E nada que se funde em carne e sangue escapa dessas bólides de ar: o amor […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Vai, Ano Velho](https://singularidadepoetica.art/2017/01/01/affonso-romano-de-santanna-vai-ano-velho/): Leia Vai, Ano Velho, de Affonso Romano de Sant'Anna, um poema sobre renovação, esperança e a persistente necessidade humana de sonhar.
- [Paulo Henriques Britto - Madrigal](https://singularidadepoetica.art/2016/12/31/paulo-henriques-britto-madrigal/): Desista: não vai dar certo. O mundo é o mesmo de sempre, desejo é uma coisa cega. Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam, os pés vão aonde não sabem. As cartas estão marcadas: vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo, desejo é uma porta aberta. Desista, […]
- [Paulo Henriques Britto - Cuidado Poeta...](https://singularidadepoetica.art/2016/12/30/paulo-henriques-britto-cuidado-poeta/): Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma. Depois de um certo número de páginas anjos não pousam mais nas entrelinhas. E até a lucidez, essa moderna, também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado, não se resolve com um só lance de dados. Não basta a precisão do gesto […]
- [Paulo Henriques Britto - Soneto Inglês](https://singularidadepoetica.art/2016/12/29/paulo-henriques-britto-soneto-ingles/): A surpresa do amor — quando já não se espera do mundo nada em especial, e a evidência de que os anos vão se acumulando sem nenhum sinal de sentido já não dói nem comove — quando em matéria de felicidade não se deseja mais que uns nove metros quadrados de privacidade para abrigar os […]
- [Paulo Henriques Britto - Crepuscular](https://singularidadepoetica.art/2016/12/28/paulo-henriques-britto-crepuscular/): 1. Chegamos tarde. (Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidade aberta, e uma loucura provisória era a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todo atento, em transe, em trânsito, no assédio a um ou outro flanco do […]
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori II](https://singularidadepoetica.art/2016/12/27/paulo-henriques-britto-memento-mori-ii/): Luz frágil que brota no breu e num rápido relance dá forma e cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que pode às aparências, acredita piamente no sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forças contra o conforto de apagar-se enfim por trás de duas implacáveis pálpebras.
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori I](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-memento-mori-i/): Nenhum sinal da solidão se vê lá onde o amor corrói a carne a fundo. Dentro da pele, no entanto, você é só você contra o mundo. Esta felicidade que abastece seu organismo, feito um combustível, é volátil. Tudo que sobe desce. Tudo que dói é possível.
- [Paulo Henriques Britto - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-acalanto/): Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Três Epifanias Triviais"](https://singularidadepoetica.art/2016/12/25/paulo-henrique-brittos-de-tres-epifanias-triviais/): As coisas que te cercam, até onde alcança tua vista, tão passivas em sua opacidade, que te impedem de enxergar o (inexistente) horizonte, que justamente por não serem vivas se prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção, essas coisas que você usa e esquece assim que larga na primeira mesa — […]
- [Patrícia Pinheiro - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/12/12/patricia-pinheiro-sem-titulo/)
- [Cecília Meireles - De que são feitos os dias?](https://singularidadepoetica.art/2016/12/09/cecilia-meireles-de-que-sao-feitos-os-dias/): De que são feitos os dias? – De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Entre mágoas sombrias, momentâneos lampejos: vagas felicidades, inactuais esperanças. De loucuras, de crimes, de pecados, de glórias – do medo que encadeia todas essas mudanças. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alianças…
- [Nelson Santander - Limiar](https://singularidadepoetica.art/2016/11/21/nelson-santander-limiar-poema/): Limiar, um poema de Nelson Santander
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/ferreira-gullar-os-mortos-2/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Carlos Drummond de Andrade - Retrato de Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/carlos-drummond-de-andrade-retrato-de-familia/): Este retrato de família Está um tanto empoeirado. Já não se vê no rosto do pai Quanto dinheiro ele ganhou. Nas mãos dos tios não se percebem As viagens que ambos fizeram. A avó ficou lisa, amarela, Sem memórias da monarquia. Os meninos, como estão mudados. O rosto de Pedro é tranquilo, Usou os melhores […]
- [Ferreira Gullar - Redundâncias](https://singularidadepoetica.art/2016/11/19/ferreira-gullar-redundancias/): Ter medo da morteé coisa dos vivoso morto está livrede tudo o que é vida Ter apego ao mundoé coisa dos vivospara o morto não há(não houve)raios rios risos E ninguém vive a mortequer morto quer vivomera noção que existesó enquanto existo
- [Ferreira Gullar - Visita](https://singularidadepoetica.art/2016/11/18/ferreira-gullar-visita/): no dia de finados ele foi ao cemitério porque era o único lugar do mundo onde podia estar perto do filho mas diante daquele bloco negro de pedra impenetrável entendeu que nunca mais poderia alcançá-lo Então apanhou do chão um pedaço amarrotado de papel escreveu eu te amo filho pôs em cima do mármore sob […]
- [Ferreira Gullar - A Alegria](https://singularidadepoetica.art/2016/11/17/ferreira-gullar-a-alegria/): O sofrimento não tem nenhum valor. Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança ou a ilusão de uma alegria). Sofres tu, sofre um cachorro ferido, um inseto que o inseticida envenena. Será maior a tua dor que a […]
- [Marcelo Tápia - a pedra volátil](https://singularidadepoetica.art/2016/11/16/marcelo-tapia-a-pedra-volatil-poema/): a pedra volátil, um poema de marcelo tápia
- [Antonio Cicero - Cidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/15/antonio-cicero-cidade/): Para Arthur Nestrovsky Lembro que o futuro era uma cidade nebulosa da qual eu esperava tudo e que, sendo uma cidade, nada esperava de ninguém. Ah, cidade sonhada de avenidas macadâmicas, turbas febris e prédios de granito: o que era que eu perdera e que, perdido e em cacos, buscava nas tuas áridas calçadas e […]
- [Antonio Cicero - Virgem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/14/antonio-cicero-virgem/): Música: Marina Lima As coisas não precisam de você:Quem disse que eu tinha que precisar?As luzes brilham no VidigalE não precisam de você;Os Dois IrmãosTambém não.O Hotel Marina quando acendeNão é por nós doisNem lembra o nosso amor.Os inocentes do Leblon,Esses nem sabem de vocêNem vão querer saberE o farol da Ilha só gira agoraPor […]
- [Jorge Wanderley - Acerto de Contas](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/jorge-wanderlei-acerto-de-contas/): quando a geração de meu pai batia na minha a minha achava que era normal que a geração de cima só podia educar a de baixo batendo quando a minha geração batia na de vocês ainda não sabia que estava errado mas a geração de vocês já sabia e cresceu odiando a geração de cima […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Fragilidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/carlos-drummond-de-andrade-fragilidade/): Este verso, apenas um arabesco em torno do elemento essencial – inatingível. Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas, e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento, ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades de sono se depositam sobre a terra esfacelada. Não mais o desejo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Ontem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/12/carlos-drummond-de-andrade-ontem/): Até hoje perplexo ante o que murchou e não eram pétalas. De como este banco não reteve forma, cor ou lembrança. Nem esta árvore balança o galho que balançava. Tudo foi breve e definitivo. Eis está gravado não no ar, em mim, que por minha vez, escrevo, dissipo.
- [Carlos Drummond de Andrade - Viagem na Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/11/carlos-drummond-de-andrade-viagem-na-familia/): A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabira a sombra de meu pai tomou-me pela mão. Tanto tempo perdido. Porém nada dizia. Não era dia nem noite. Suspiro? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Noite Dissolve os Homens](https://singularidadepoetica.art/2016/11/10/carlos-drummond-de-andrade-a-noite-dissolve-os-homens/): A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão. A noite caiu. Tremenda, sem esperança… Os suspiros acusam a presença negra que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/11/09/carlos-drummond-de-andrade-os-ombros-suportam-o-mundo/): Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Inocentes do Leblon](https://singularidadepoetica.art/2016/11/08/carlos-drummond-de-andrade-inocentes-do-leblon/): Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Cassiano Ricardo - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2016/11/07/cassiano-ricardo-testamento/): Deixo os meus olhos ao cego que mora nesta rua. Deixo a minha esperança ao primeiro suicida. Deixo à polícia meu rasto, a Deus o meu último eco. Deixo o meu fogo-fátuo ao mais triste viandante que se perder sem lanterna numa noite de chuva. Deixo o meu suor ao fisco que me cobriu de […]
- [Cassiano Ricardo - Morrer não será dormir](https://singularidadepoetica.art/2016/11/06/cassiano-ricardo-morrer-nao-sera-dormir/): Morrer não será dormir, pois não existe horizonte para poder haver sono. Será ser indiferente. Apenas indiferente. Que tanto faça haver sol como o sol não seja mais do que um simples girassol. Não será, só, o morrer porque se deixou de ser. Será – por indiferença – tanto estar o mundo morto como imundo […]
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa-2/)
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa/): I A cidade chora lágrimas elétricas sobre o corpo anônimo do eletrocutado. As figuras tétricas que residem, mudas, na parede do templo, me cercam, na rua. Como se eu fosse, acaso, o culpado de algum acontecimento na noite confusa. II O deus unicórnio que há no escudo do rei, e que lhe defende a coroa, […]
- [Álvaro de Campos - Lisbon Revisited (1926)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/03/alvaro-de-campos-lisbon-revisited-1926/): Nada me prende a nada. Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. Anseio com uma angústia de fome de carne O que não sei que seja – Definidamente pelo indefinido… Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias. Correram cortinas de todas as […]
- [Thomas Mann - Morte em Veneza (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/thomas-mann-morte-em-veneza-excerto/): “(…) Gustav von Aschenbach era de estatura um pouco abaixo da média, moreno, rosto inteiramente barbeado. A cabeça parecia um pouco grande demais em relação à sua figura quase franzina. O cabelo, penteado para trás, escasso no alto da cabeça, abundante e já bem grisalho nas têmporas, enquadrava uma testa alta, cheia de rugas que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - José](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/carlos-drummond-de-andrade-jose/): E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não […]
- [Mário Chamie - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/mario-chamie-fantasma/): Um fantasma ausente põe tijolo sobre tijolo ao seu redor. Primeiro mede o terreno Divide o espaço. Calca com o pé a planta que não floresce. Mas que cresce sob estacas de cimento. Depois, a ausência se preenche. O fantasma move a cal, a pedra, a pá. O fantasma move o corpo já presente do […]
- [Cecilia Meireles - Cantarão os Galos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/cecilia-meireles-cantarao-os-galos/): Cantarão os galos, quando morrermos, e uma brisa leve, de mãos delicadas, tocará nas franjas, nas sedas mortuárias. E o sono da noite irá transpirando sobre as claras vidraças. E os grilos, ao longe, serrarão silêncios, talos de cristal, frios, longos ermos, e o enorme aroma das árvores. Ah, que doce lua verá nossa calma […]
- [Cecília Meireles - Epigrama nº 7](https://singularidadepoetica.art/2016/10/18/cecilia-meireles-epigrama-no-7/): A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. Conheça outros livros de Cecília Meireles clicando aqui
- [Cecília Meireles - O Jardim](https://singularidadepoetica.art/2016/10/15/cecilia-meireles-o-jardim/): O jardim é verde, encarnado e amarelo.Nas alamedas de cimento,movem-se os arabescos do solque a folhagem recortae o vento abana. A luz revela orvalhos no fundo das flores,nas asas tênues das borboletas,-e ensina a cintilar a mais ignorada areia,perdida nas sombras,submersas nos limos. Ensina a cintilar tambémos insetos mínimos,-alada areia dos ares, que se elevaaté […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Um Bruxo Com Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/carlos-drummond-de-andrade-a-um-bruxo-com-amor/): Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te; e me recebes na sala trastejada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro. Daí esse cansaço nos gestos e, […]
- [Mário de Andrade - Poema da Amiga (VIII)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/mario-de-andrade-poema-da-amiga-viii/): Gosto de estar a teu lado, Sem brilho. Tua presença é uma carne de peixe, De resistência mansa e de um branco Ecoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti. Anoiteço feito um bairro, Sem brilho algum. Estamos no interior duma asa Que fechou. Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/philip-roth-a-marca-humana-excerto/): “Porque não sabemos, não é? Todo mundo sabe… Como é que as coisas acontecem do jeito que acontecem? O que está por trás da anarquia da seqüência de eventos, as incertezas, os infortúnios, a incoerência, as irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. ‘Todo mundo sabe’ é a invocação do clichê e o início da […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Carta aos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/affonso-romano-de-santanna-carta-aos-mortos/): Carta aos Mortos, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, reflete sobre a aparente marcha do progresso e as surpreendentes permanências da experiência humana.
- [Machado de Assis - Bagatela (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/05/machado-de-assis-bagatela-excerto/)
- [Machado de Assis - Epitáfios](https://singularidadepoetica.art/2016/09/30/machado-de-assis-epitafios/)
- [Stephen King - Não pedimos...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/26/stephen-king-nao-pedimos/)
- [José Luís Peixoto - na hora de pôr a mesa...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/jose-luis-peixoto-na-hora-de-por-a-mesa/): na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está […]
- [José Luís Peixoto - Explicação da Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/2263-2/)
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Eu me Perdi](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-eu-me-perdi/): Eu me perdi na sordidez de um mundo Onde era preciso ser Polícia agiota fariseu Ou cocote Eu me perdi na sordidez do mundo Eu me salvei na limpidez da terra Eu me busquei no vento e me encontrei no mar E nunca Um navio da costa se afastou Sem me levar
- [Eugénio de Andrade - Quase Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/eugenio-de-andrade-quase-epitafio/): O outro sabia. Tinha uma certeza. Sou eterno, dizia. Eu não tenho nada. Amei o desejo com o corpo todo. Ah, tapai-me depressa. A terra me basta. Ou o lodo.
- [W. H. Auden - Funeral Blues](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/w-h-auden-funeral-blues/): BLUES FÚNEBRE Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto — um laço no […]
- [Mia Couto - Falta de Reza](https://singularidadepoetica.art/2016/09/10/mia-couto-falta-de-reza/): Por insuficiência de reza, por falsidade de crença meu anjo me culpou e vaticinou eterna penitência. Mas não ajoelho nem peço desculpa. Não quero um deus que vigie os vivos e peça contas aos mortos. Um deus amigo que me chame por tu e que espere por mim para um copo de riso e abraços: […]
- [João Cabral de Melo Neto - A Viagem](https://singularidadepoetica.art/2016/09/09/joao-cabral-de-melo-neto-a-viagem/): Quem é alguém que caminha toda manhã com tristeza dentro de minhas roupas, perdido além do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendo como se levassem nos bolsos doces geografias, pensamentos de além do sonho e da rua? Alguém a cada momento vem morrer no longe horizonte de meu quarto, onde esse alguém […]
- [José Saramago - Demissão](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/mario-quintana-demissao/): Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo demais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos tudo De morder os mais fracos, se mandamos, E de lamber as mãos se dependentes.
- [Lewis Carroll - Jaguadarte](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/lewis-carrol-jaguadarte/): Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo. […]
- [Shirley Jackson - A Assombração na Casa da Colina (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/09/04/shirley-jackson-a-assombracao-na-casa-da-colina-excerto/): “NENHUM ORGANISMO vivo pode existir com sanidade por longo tempo em condições de realidade absoluta; até as cotovias e os gafanhotos, pelo que alguns dizem, sonham. A Casa da Colina nada sã, erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas; existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais outros […]
- [Cassiano Ricardo - Jogo de Xadrez](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/cassiano-ricardo-jogo-de-xadrez/): 1 Não posso, sem remorso, ver uma criatura dormindo. Tão sincera, dá-se tanto (tão f o t o g ê n i c a- m e n t e) que me arrependo de não lhe haver sido mais puro quando falávamos, há pouco. A morte, se igual ao sono, absolvido, já, da luta, deverá ser […]
- [Richard Rorty - O Fogo da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/richard-rorty-o-fogo-da-vida/): Tradução por Igor de C. e S.C. (Publicado originalmente em Poetry Foundation, o pequeno ensaio foi o último publicado durante a vida do filósofo norte americano Richard Rorty (1931 – 2007).) Em um ensaio chamado “Pragmatismo e Romantismo” tentei revalidar o argumento de “Defesa da Poesia”, de Shelley. No coração do romantismo, eu disse, estava a tese de que a […]
- [Roberto e Erasmo Carlos - Detalhes (trecho)](https://singularidadepoetica.art/2016/08/28/roberto-e-erasmo-carlos-detalhes-trecho/)
- [Pedro Abrunhosa - Quem me Leva os meus Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2016/08/26/pedro-abrunhosa-quem-me-leva-os-meus-fantasmas/): https://youtu.be/w4ldfmoMoZk Intérprete: Maria Bethânia “De que serve ter o mapa Se o fim está traçado, De que serve a terra à vista Se o barco está parado, De que serve ter a chave Se a porta está aberta, De que servem as palavras Se a casa está deserta?” Aquele era o tempo em que as […]
- [Emil Cioran - Deus é um desespero...](https://singularidadepoetica.art/2016/08/24/2122-2/)
- [Páladas - Epigrama V, 72](https://singularidadepoetica.art/2016/08/22/paladas-epigrama-v-72/)
- [Arnaldo Antunes - Saudades](https://singularidadepoetica.art/2016/08/21/arnaldo-antunes-saudades/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Livro da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/08/19/livro-da-vida/)
- [Ricardo Silvestrin - Dança](https://singularidadepoetica.art/2016/08/18/ricardo-silvestrin-danca/): Sim, existe a dança: o corpo solto avança e recua leve nos passos matemáticos, um, dois, um, como se fosse mais fácil viver num tempo menor, brincadeira de criança que sabe de cor o roteiro e ri na hora marcada. Fora da dança, o infinito nos convida, nos seduz com passos improváveis, mas temos dois […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2016/08/14/carlos-drummond-de-andrade-a-mesa-2/): E não gostavas de festa. . . Ó velho, que festa grande hoje te faria a gente. E teus filhos que não bebem e o que gosta de beber, em torno da mesa larga, largavam as tristes dietas, esqueciam seus fricotes, e tudo era farra honesta acabando em confidência. Ai, velho, ouvirias coisas de arrepiar […]
- [William Carlos Williams - Entre Muros](https://singularidadepoetica.art/2016/08/11/william-carlos-wiliams-entre-muros/): alas traseiras do hospital onde nada medra jazem cinzas nas quais cacos verdes brilham garrafa Trad.: Haroldo de Campos
- [Robinson Jeffers - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/08/07/robinson-jefferson-sem-titulo/): Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com […]
- [Jules Laforgue - Spleen](https://singularidadepoetica.art/2016/08/03/jules-laforgue-spleen/): Tudo é tédio. Manhã. Olho pela janela. No alto, risca-se o céu no giz da chuva fria. Em baixo, a rua. Sob a cerração sombria Vultos deslizam na água turva de barrela. Olho sem ver (até meu cérebro regela) Maquinalmente sobre o vidro que embacia Meu dedo faz rabiscos de caligrafia. Bah! Saiamos. Quem sabe, […]
- [Guenádi Aigui - Nuvens](https://singularidadepoetica.art/2016/07/28/guenadi-aigui-nuvens/): Trad.: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman
- [William Carlos Williams - Carrinho de Mão Vermelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/22/william-carlos-williams-carrinho-de-mao-vermelho/): tanto depende de um carrinho de mão vermelho vidrado pela água da chuva perto das galinhas brancas. Trad.: Haroldo de Campos
- [William Carlos Williams - As Árvores de Botticelli](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-as-arvores-de-botticelli/): O alfabeto das árvores se esfuma no canto das folhas os entre- laços de finas letras que soletram inverno e o frio são iluminados em apontos de verde por chuva e sol – Os princípios simples estritos de justos ramos são tangidos por beliscões afãs de cor, devotas condições os sorrisos de amor – ……………. […]
- [William Carlos Williams - O Vento Aumenta](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-o-vento-aumenta/): A saqueada terra está varrida As árvores o brilho da tulipa desponta dobram-se e dançam – Desata teu amor para fluir Florir! Bom Cristo o que é um poeta – se algum existe? um homem cujas palavras irão morder sua trilha de retorno – ser atual tendo a forma. do movimento Em cada ramo-em-ponta novo […]
- [E. E. Cummings - “o amor é mais muito que olvido”](https://singularidadepoetica.art/2016/07/11/e-e-cummings-o-amor-e-mais-muito-que-olvido/): o amor é mais muito que olvido mais pouco que memória mais raro que onda ser aguada mais comum que dar foras é mais lunar, demente por menos nem falar que o mar todo somente mais fundo do que o mar é menos sempre que sucesso menos jamais que ao vivo menos maior que um […]
- [Emily Dickinson - Nesta Vida Tão Breve...](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/emily-dickinson-nesta-vida-tao-breve/)
- [Rudyard Kipling - Se](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/rudyard-kipling-se/): Se és capaz de manter a tua calma quando Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa; De crer em ti quando estão todos duvidando, E para esses no entanto achar uma desculpa; Se és capaz de esperar sem te desesperares, Ou, enganado, não mentir ao mentiroso, Ou, sendo odiado, sempre […]
- [William Butler Yeats - Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/william-butler-yeats-morte-poema/): Um bicho à morte ignora ânsia e temor; contudo um homem, quando é hora, anseia e teme tudo; morreu vezes sem conta e ergueu-se redivivo. Um grande homem confronta gente homicida, altivo, escarnecendo o corte do alento. Convivera com a morte a vida inteira: o homem criou a morte. Trad.: Nelson Ascher
- [T. S. Eliot - Morte Pela Água](https://singularidadepoetica.art/2016/07/04/t-s-eliot-morte-pela-agua/): Flibas, o Fenício, há quinze dias morto, Deixou o grito das gaivotas, e a funda onda do mar E o lucro e a perda. Uma corrente submarina Roeu seus ossos em sussurros. Como subiu caiu Varando o palco da velhice e juventude Rompendo os vagalhões. Gentio ou Judeu Ó tu que giras o leme e miras […]
- [Rainer Maria Rilke - Conclusão](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/rainer-maria-rilke-conclusao-poema/): A Morte é grande. Nós, sua presa, vamos sem receio. Quando rimos, indo, em meio à correnteza, chora de surpresa em nosso meio. Trad.: Augusto de Campos
- [Sérgio Sant'Anna - Heavy Metal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/sergio-santanna-heavy-metal/): Escombros. Um odor de carne chamuscada. Porém não se detecta a presença de cadáveres. Aqui e ali, como sombras, algumas paredes e edificações remanescentes. A torre caída de uma catedral gótica sobre fragmentos de vitrais estilhaçados. A reverberação de suas cores projetando castelos abstratos. Um bando de delinquentes juvenis, com as mãos nos bolsos, atravessa […]
- [Cassiano Ricardo - Ode Pastoril](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-ode-pastoril/): A paisagem é minha só porque tenho olhos. O pássaro é meu só porque tenho ouvidos. Amo com a mão as coisas que o estar aqui me deu. No universal verde, sou meu ser, não sou eu. Em meu léxico lírico só existem duas palavras, e uma é irmã da outra: a manhã e o […]
- [Laura Amélia Damous - Brevíssima Canção do Amor Constante](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/laura-amelia-damous-brevissima-cancao-do-amor-constante/): Ferindo o tempo Vestindo eternidade O meu amor tranqüilo e mudo Vive em ti Tão leve e manso Que tu não o sentes Tu
- [Carlos Nejar - Gazel do Universo Começando](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/carlos-nejar-gazel-do-universo-comecando/): "Gazel do Universo Começando", um poema de Carlos Nejar que funde amor e cosmos em imagens circulares de vento, trigo e mar, sugerindo que o universo inteiro começa no encontro amoroso e no movimento compartilhado dos amantes.
- [Cassiano Ricardo - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-o-espelho/): Um meio-dia nu, numa enorme moldura de prata. Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo. Mas não é nada. É apenas um espelho. Um rico espelho. De extraordinário fulgor. Próprio pra ser colocado à parede de um ministério da Fazenda, ou de uma casa de jogo. Toda a cidade cabe dentro dele. Árvores, […]
- [William Blake - Londres](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-londres/): Em cada rua escriturada em que ando, Onde o Tâmisa escriturado passa, Eu nos rostos que encontro vou notando Os sinais da doença e da desgraça. Ouço nos gritos que os adultos dão, E nos gritos de medo do inocente, Em cada voz, em cada interdição, As algemas forjadas pela mente Se o Limpa-Chaminés acaso […]
- [William Blake - London (c.1790)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-london-c-1790/): Perambulo por todas as ruas com barreiras Vizinhas de onde o próprio Tâmisa Entre barreiras flui, e em cada face que encontro Marco marcas de fraqueza, marcas de pesar. Ouço o ruído dos grilhões mentais apostos Em cada alocução de cada homem No grito de temor de cada infante Nas vozes todas, em cada interdição. […]
- [William Blake - A Tirzah](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-a-tirzah/): Tudo que nasceu para morrer Deve-se a terra misturar Para da geração se libertar: Então, que tenho eu a ver contigo? Do orgulho e da vergonha nasce o sexo Pela manhã florido, à tarde morto. Mas a piedade faz da Morte sono E os sexos se levantam para o trabalho e o pranto. Tu, mãe […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/giuseppe-ungaretti-natal-2/): Natal Não tenho vontade de mergulhar-me em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixai-me assim como uma coisa colocada em um canto e esquecida Aqui não se sente outra presença que o calor bom Estou com as quatro cabriolas de fumaça da lareira. Trad.: Luigi Lucchesi
- [João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/01/joao-guimaraes-rosa-grande-sertao-veredas-excerto/)
- [Lêdo Ivo - A Queimada](https://singularidadepoetica.art/2016/06/29/ledo-ivo-a-queimada/): Queime tudo o que puder: as cartas de amor as contas telefônicas o rol de roupas sujas as escrituras e certidões as inconfidências dos confrades ressentidos a confissão interrompida o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose os recortes antigos e as fotografias amareladas. Não deixe aos herdeiros esfaimados nenhuma herança de […]
- [Jorge Luis Borges - Poema dos Dons](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-borges-poema-dos-dons/): Ninguém rebaixe a lágrima ou censura Esta declaração da maestria De Deus, que com magnífica ironia Me deu mil livros e uma noite escura. Desta terra de livros fez senhores A olhos sem luz, que apenas se concedem Sonhar com bibliotecas e com cores De insensatos parágrafos que cedem As manhãs ao seu fim. Em […]
- [Amalia Bautista – Os meus melhores desejos](https://singularidadepoetica.art/2018/01/07/amalia-bautista-os-meus-melhores-desejos/): Que a vida te pareça suportável.Que a culpa não afogue a esperança.Que não te rendas nunca.Que o caminho que sigas seja sempre escolhidoentre dois pelo menos.Que te interesse a vida tanto como tu a ela.Que não te apanhe o víciode prolongar as despedidas.E que o peso da terra seja levesobre os teus pobres ossos.Que a […]
- [Amalia Bautista – O que fazes aqui](https://singularidadepoetica.art/2018/01/06/amalia-bautista-o-que-fazes-aqui/): Pensei que havia-te dito adeus,um adeus definitivo, ao deitar-mequando pude finalmente fechar meus olhose esquecer-me de ti e de tuas artimanhasde tua insistência, de tua baba ruim,da tua capacidade de anular-me.Pensei que havia-te dito adeuspara todo o sempre, e eu acordoe te encontro novamente junto a mim,dentro de mim, me envolvendo, ao meu lado,invadindo-me, sufocando-me, […]
- [Tomas Tranströmer – Minnena Ser Mig (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/05/tomas-transtromer-duas-traducoes-de-um-mesmo-poema/): Memórias que me Observam Manhã de Junho, cedo demais para acordar, tarde demais para adormecer. Tenho de sair – é densa a folhagem das memórias, perseguem-me com o seu olhar. Não se deixam ver, misturam-se todas com o fundo, verdadeiros camaleões. Tão perto estão que as ouço respirarem aqui onde o canto do pássaro ensurdece. […]
- [João Cabral de Melo Neto - Como a Morte se Infiltra](https://singularidadepoetica.art/2018/01/04/joao-cabral-de-melo-neto-como-a-morte-se-infiltra/): Certo dia, não se levanta porque quer demorar na cama. No outro dia ele diz por que: é porque lhe dói algum pé. No outro dia o que dói é a perna, E nem pode apoiar-se nela. Dia a dia lhe cresce um não, um enrodilhar-se de cão. Dia a dia ele aprende o jeito […]
- [Amalia Bautista – Al Cabo (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/03/amalia-bautista-ao-fim/): No fim de contas No fim de contas são poucas as palavrasque nos doem de verdade, e muito poucasas que conseguem alegrar a alma.E são também muito poucas as pessoasque nos fazem bater o coração, e menosainda com o correr do tempo.No fim de contas, são pouquíssimas as coisasque na verdade importam nesta vida:poder amar […]
- [Vicente de Carvalho – Velho Tema I](https://singularidadepoetica.art/2018/01/02/vicente-de-carvalho-velho-tema-i/): Só a leve esperança, em toda a vida, Disfarça a pena de viver, mais nada; Nem é mais a existência, resumida, Que uma grande esperança malograda. O eterno sonho da alma desterrada Sonho que a traz ansiosa e embevecida, É uma hora feliz, sempre adiada E que não chega nunca em toda a vida. Essa […]
- [Amalia Bautista – Façamos uma limpeza geral](https://singularidadepoetica.art/2018/01/01/amalia-bautista-facamos-uma-limpeza-geral/): Leia "Façamos uma limpeza geral", de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre memória, desapego e a coragem de recomeçar.
- [Carlos Drummond de Andrade - Receita de Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2017/12/31/carlos-drummond-de-andrade-receita-de-ano-novo/): Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das […]
- [Laura Liuzzi - Fio Sem Fim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/30/laura-liuzzi-fio-sem-fim/): Chega-se, enfim, à última página embora deixe claro: não se chega ao fim. Um mesmo fio fino frágil mas firme, da mesma fibra de rio conduz memória e história: storage — está estendido para sempre e para sempre soará, suará a cada renovação do sol, mesmo quando atingirmos o final — mesmo assim não se […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/12/29/alice-ruiz-s/): último dia ainda parece novo o ano que passou
- [Rainer Maria Rilke – Para recitar antes de adormecer](https://singularidadepoetica.art/2017/12/28/rainer-maria-rilke-para-recitar-antes-de-adormecer/): Eu queria cantar para dentro de alguém, sentar-me junto de alguém e estar aí. Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres. Queria ser o único na casa a saber: a noite estava fria. E queria escutar dentro e fora de ti, do mundo, da floresta. Os relógios chamam-se anunciando […]
- [Rainer Maria Rilke – Fonte Romana](https://singularidadepoetica.art/2017/12/27/rainer-maria-rilke-fonte-romana/): Vila Borghese Duas velhas bacias sobrepondo suas bordas de mármore redondo. Do alto a água fluindo, devagar, sobre a água, mais embaixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto, como que só no côncavo da mão, entremostrando um singular objeto: o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia, em […]
- [Adélia Prado – A Treva](https://singularidadepoetica.art/2017/12/26/adelia-prado-a-treva/): Me escolhem os claros do sono engastados na madrugada, a hora do Getsêmani. São cruas claras visões às vezes pacificadas, às vezes o terror puro sem o suporte dos ossos, que o dia pleno me dá. A alma desce aos infernos, a morte tem seu festim. Até que todos despertem e eu mesma possa dormir, […]
- [Anne Sexton – Frágil Fio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/25/anne-sexton-fragil-fio/): Minha fé é um grande peso suspenso por um frágil fio, como a aranha suspende seu bebê em uma fina teia, como a videira, galhos finos e madeira, sustenta as uvas como globos oculares, como muitos anjos dançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisa de muito fio para manter-Se lá, apenas uma veia […]
- [Laura Riding – Uma Gentileza](https://singularidadepoetica.art/2017/12/24/laura-riding-uma-gentileza/): Estar viva é estar curiosa. Quando perder interesse pelas coisas E não estiver mais atenta, álacre Por fatos, acabo este minguado inquérito. A morte é a condição do supremo tédio. Vou deixar que me desintegre E aí, por saber da paz que a morte traz, Seria bom seguir convencendo o destino A ser mais generoso, […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vigília](https://singularidadepoetica.art/2017/12/22/giuseppe-ungaretti-vigilia/): Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915 Toda uma noite em claro caído ao lado de um companheiro massacrado com sua boca arreganhada exposta à lua cheia com o hematoma de suas mãos cravado em meu silêncio escrevi cartas cheias de amor Não tinha nunca estado tão aferrado à vida Trad.: Nelson Ascher
- [Giuseppe Ungaretti – Não gritem mais](https://singularidadepoetica.art/2017/12/21/giuseppe-ungaretti-nao-gritem-mais/): Parem de matar os mortos, Não gritem mais, não gritem Se ouvir ainda os quiserem, Se imperecer ainda esperam. Eles, sussurro imperceptível, Não fazem mais ruído Que o mato quando cresce, Alegre, onde homem não passa. Trad.: Aurora Bernardini
- [Giuseppe Ungaretti – Peso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/20/giuseppe-ungaretti-peso/): Mariano, 29 de junho de 1916 Aquele camponês se fia na medalha de Santo Antonio e segue tranquilo Mas bem só e bem nua sem qualquer miragem carrego minha alma Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Georg Trakl – Ocaso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/19/georg-trakl-ocaso/): A Karl Borromäus Heinrich Por sobre o lago branco Partiram os pássaros selvagens. No crepúsculo sopra de nossas estrelas um vento gelado. Por sobre os nossos túmulos Inclina-se a fronte despedaçada das trevas. Sob carvalhos, balançamos numa barca prateada. Sempre ressoam os muros brancos da cidade. Sob arcos de espinhos Oh, irmão, ponteiros cegos, escalamos […]
- [Georg Trakl – Olhando um velho álbum](https://singularidadepoetica.art/2017/12/18/georg-trakl-olhando-um-velho-album/): Sempre voltas, melancolia, Mansidão da alma solitária. Por fim arde um dia dourado. Com humildade curva-se à dor o paciente Ressoando harmonia e suave loucura. Olha! Já escurece. Volta de novo a noite e um mortal lamenta-se E com ele sofre um outro. Arrepiada sob estrelas de outono, A cabeça mais baixa a cada ano.
- [Federico García Lorca – E Depois...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/17/federico-garcia-lorca-e-depois/): Os labirintos que criam o tempo se desvanecem. (Só fica o deserto.) O coração, fonte do desejo, se desvanece. (Só fica o deserto) A ilusão da aurora e os beijos se desvanecem. Só fica o deserto. Um ondulado deserto. Conheça outros livros de Federico García Lorca clicando aqui
- [Eugénio de Andrade – Adágio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/16/eugenio-de-andrade-adagio/): O Outono é isto – apodrecer de um fruto entre folhas esquecido. Água escorrendo, quem sabe donde, ocasional e fria e sem sentido.
- [José Saramago – É tão fundo o silêncio...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/15/3933-2/): É tão fundo o silêncio entre as estrelas. Nem o som da palavra se propaga, Nem o canto das aves milagrosas. Mas lá, entre as estrelas, onde somos Um astro recriado, é que se ouve O íntimo rumor que abre as rosas.
- [José Saramago – Diz tu por mim, silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/14/jose-saramago-diz-tu-por-mim-silencio/): Não era hoje um dia de palavras, Intenções de poemas ou discursos, Nem qualquer dos caminhos era nosso. A definir-nos bastava um acto só, E já que nas palavras me não salvo, Diz tu por mim, silêncio, o que não posso. Conheça outros livros de José Saramago clicando aqui
- [José Saramago – As Palavras de Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/12/13/jose-saramago-as-palavras-de-amor/): Esqueçamos as palavras, as palavras: As ternas, caprichosas, violentas, As suaves de mel, as obscenas, As de febre, as famintas e sedentas. Deixemos que o silêncio dê sentido Ao pulsar do meu sangue no teu ventre: Que palavra ou discurso poderia Dizer amar na língua da semente?
- [Ronaldo Costa Fernandes – Férias](https://singularidadepoetica.art/2017/12/12/ronaldo-costa-fernandes-ferias/): Aqui, quieto em meu canto sem mexer-me, olhando a luz higiênica do sol, penso na inutilidade cansativa de malas e hotéis para divertir-me nas férias estrangeiras. Não, só preciso da vontade, nem sempre firme, um vento estradeiro, um alarde distante de pássaros e nada além do meu corpo.
- [Dylan Thomas – E a Morte não terá nenhum Domínio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/11/dylan-thomas-e-a-morte-nao-tera-nenhum-dominio/): E a morte não terá nenhum domínio. Nus, os mortos irão se confundir Com o homem no vento e a lua no poente; Quando seus alvos ossos descarnados se tornarem pó, Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos; Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos, Ainda que submersos pelo mar, haverão de ressurgir; Ainda […]
- [Emmanuel Santiago – Lembro-me das Madrugadas](https://singularidadepoetica.art/2017/12/10/emmanuel-santiago-lembro-me-das-madrugadas/): Lembro-me das madrugadas de Minas, quando o frio era vidro moído na carne e, lívido, o orvalho lustrava o gume das estrelas, que luziam no brilho sombrio do céu noturno (negro veludo). Através da neblina, em dança imóvel e milenar, tremulava o vulto oblíquo das montanhas. E aquilo era tudo que eu sabia do horizonte […]
- [Mario Cesariny – Os Pássaros de Londres](https://singularidadepoetica.art/2017/12/09/mario-cesariny-os-passaros-de-londres/): Os pássaros de Londres cantam todo o inverno como se o frio fosse o maior aconchego nos parques arrancados ao trânsito automóvel nas ruas da neve negra sob um céu sempre duro os pássaros de Londres falam de esplendor com que se ergue o estio e a lua se derrama por praças tão sem cor […]
- [Ruy Espinheira Filho – Canção de Depois de Tanto](https://singularidadepoetica.art/2017/12/08/ruy-espinheira-filho-cancao-de-depois-de-tanto/): a Roniwalter Jatobá Vamos beber qualquer coisa, que a vida está um deserto e o coração só me pulsa sombras de Ido e do Incerto. Vamos beber qualquer coisa, que a lua avança no mar e há salobros fantasmas que não quero visitar. Vamos beber […]
- [Ricardo Silvestrin – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/12/07/ricardo-silvestrin-sem-titulo-2/): Lá no horizonte, o ar frio. Mais perto de você, a saudade. Fotografias. Um quadro completo. Vale a pena ver só. A verdade é uma escultura, se você quiser anunciar.
- [Ruy Espinheira Filho – Canção](https://singularidadepoetica.art/2017/12/06/ruy-espinheira-filho-cancao/): Morri de pena de ti porque foi tudo outra história – não a que hoje poderias viver em minha memória. Coisas da vida. Outro conto se contou então. E, enfim, vejo que foste feliz. Morro de pena de mim.
- [Hilda Hilst – Poemas aos homens do nosso tempo III](https://singularidadepoetica.art/2017/12/05/hilda-hilst-poemas-aos-homens-do-nosso-tempo-iii/): homenagem a Natalia Gorbanievskaya Sobre o vosso jazigo — Homem político — Nem compaixão, nem flores. Apenas o escuro grito Dos homens. Sobre os vossos filhos — Homem político — A desventura Do vosso nome. E enquanto estiverdes À frente da Pátria Sobre nós, a mordaça. E sobre as vossas vidas — Homem político — […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Retrato Malsim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/04/carlos-drummond-de-andrade-o-retrato-malsim/): O inimigo maduro a cada manhã se vai formando no espelho de onde deserta a mocidade. Onde estava ele, talvez escondido em castelos escoceses, em cacheados cabelos de primeira comunhão? Onde, que lentamente grava sua presença por cima de outra, hoje desintegrada? Ah, sim: estava na rigidez das horas de tenência orgulhosa, no morrer em […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Instante](https://singularidadepoetica.art/2017/12/03/sophia-de-mello-breyner-andresen-instante/): Deixai-me limpo O ar dos quartos E liso O branco das paredes Deixai-me com as coisas Fundadas no silêncio
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do Mar](https://singularidadepoetica.art/2017/12/02/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja […]
- [José Paulo Paes - Epitáfio para um banqueiro](https://singularidadepoetica.art/2017/12/01/jose-paulo-paes-epitafio-para-um-banqueiro/): Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [João Cabral de Melo Neto - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/30/joao-cabral-de-melo-neto-a-mesa/): O jornal dobrado sobre a mesa simples; a toalha limpa, a louça branca e fresca como o pão. A laranja verde: tua paisagem sempre, teu ar livre, sol tuas praias; clara e fresca como o pão. A faca que aparou teu lápis gasto; teu primeiro livro cuja capa é branca e fresca como o pão. […]
- [Pós-Tudo (Augusto de Campos) e Postudo (Nelson Santander)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/pos-tudo-augusto-de-campos-e-postudo-nelson-santander-poesia/): Pós-Tudo, poema visual de Augusto de Campos e Postudo, de Nelson Santander, sua paródia atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Carlos Drummond de Andrade - Quero](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/carlos-drummond-de-andrade-quero/): Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. Ouvindo-te dizer: Eu te amo, creio, no momento, que sou amado. No momento anterior e no seguinte, como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Escada](https://singularidadepoetica.art/2017/11/28/carlos-drummond-de-andrade-escada-poema/): Escada, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Guilherme de Almeida - Soneto XXVII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/27/guilherme-de-almeida-soneto-xxvii/): Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto. E assim fazemos, como se com isto pudéssemos varrer nosso passado. Passo, esquecido de teu olhar — coitado! Vais — coitada! — esquecida de que existo: como se nunca tu me houvesses visto, como se eu sempre […]
- [Goethe – Um Igual](https://singularidadepoetica.art/2017/11/21/goethe-um-igual/): Sobre cada monte A calma, Em cada fronde Nem sinal De brisa; calam- -se os pássaros na floresta. Espera! Em breve Descansas em paz. Trad.: André Vallias
- [Angela Lago - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/20/angela-lago-sem-titulo/): a pedra estará aqui daqui a vinte anos quem sabe mais polida embora não se veja ou mais recortada pelo vento a árvore terá crescido com sua sombra nem o céu permanece azul ou cinza rubro dorado negro no entanto tem essa criança que busca colo – que seja um cão que vem ao teu […]
- [Ana Martins Marques - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/19/ana-martins-marques-sem-titulo/): Porque sua camiseta secou ao sol ela tem a cor do sol porque seus cabelos secaram ao vento seus pensamentos têm a velocidade do vento porque você disse “noite” sua boca terá o gosto do mar noturno porque você não conheceu meu avô você me amará menos porque não te conheci quando criança eu te […]
- [Petrarca - Soneto CXXXIII ("O Amor me Assinalou com sua Seta")](https://singularidadepoetica.art/2017/11/18/petrarca-soneto-cxxxiii-o-amor-me-assinalou-com-tua-seta/): O amor me assinalou com sua seta,como a neve ao sol, como a cera ao fogo,como névoa ao vento; e já estou rouco,dama, de humilhar-me, feito um pateta. De teus olhos o golpe mortal veio,contra o qual tempo e espaço nada são;Vêm de ti, e vês como diversão,o sol, o fogo e o vento aos […]
- [Petrarca - Soneto CCLXXII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/17/petrarca-soneto-cclxxii/): A vida foge e não recua um passoE a morte, em grande marcha, vai em frente;As coisas do passado e do presente,Ao futuro reclamam meu espaço. A jornada que nesta vida eu traçoNa espera e na lembrança inutilmente,Por pena de mim mesmo descontenteEste caminho que ora fiz, desfaço. Se à lembrança me vem algum desejoDo […]
- [Lucrécio - Da Natureza das Coisas (de rerum natura) (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/16/lucrecio-da-natureza-das-coisas-de-rerum-natura-excerto/): Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui. Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescem Até que as conhecemos e nomeamos. Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos. Formados dos átomos que caem velozes ou lentos Vejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem; É sólido que a natureza está em nós até […]
- [Federico García Lorca - 1910 (Intermezzo)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/15/federico-garcia-lorca-1910-intermezzo/): “1910 (Intermezzo)”, um poema de Federico García Lorca que revisita o olhar inaugural da infância para revelar, entre imagens oníricas e presságios, o vazio oculto no curso inevitável das coisas.
- [Charles Baudelaire - A Giganta](https://singularidadepoetica.art/2017/11/14/charles-baudelaire-a-giganta/): Pois quando a Natureza, em seu capricho exato, Gerava estranhos seres raros, dia a dia, Uma giganta moça – eis do eu gostaria, Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato. Ver seu corpo florir com a flor de sua alma E crescer livremente em seus terríveis jogos; Ver se não teria no […]
- [Goethe - Pensamentos Noturnos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/13/goethe-pensamentos-noturnos/): Tão belas na rútila luz soberana, Guia do navegante aflito, sem norte (E sem recompensa, divina ou humana), – Tenho dó de vocês, estrelas sem sorte, Sem jamais amar e sem saber do amor! Tangendo, incansáveis, as horas eternas Na ronda do tempo das vastas esferas, Vocês vão cumprindo percursos sem conta. Mas eu, se […]
- [Thomas Hardy - Acaso](https://singularidadepoetica.art/2017/11/12/thomas-hardy-acaso/): Se ao menos do alto me chamasse um deus De ódio, e risse: “Ó homem coisa-dor, Teu sofrimento é o júbilo dos céus, Teu deve-amor é o meu haver-rancor”, Eu me conformaria, indo ao extremo De não dobrar-me, réu de um juiz verdugo, Mas orgulhoso que um poder sumpremo Me obrigasse a gemer sob o […]
- [Giacomo Leopardi - A Noite do Dia de Festa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/11/giacomo-leopardi-a-noite-do-dia-de-festa-poema/): A Noite do Dia de Festa, um poema de Giacomo Leopardi
- [William Carlos Williams - A Árvore sem Folhas](https://singularidadepoetica.art/2017/11/10/william-carlos-williams-a-arvore-sem-folhas/): A cerejeira sem folhas mais alta que o teto deu ano passado muita fruta. Como falar porém de fruta diante desse esqueleto? Embora possa estar vivo não há fruta nele. Por isso derrubem-no e usem a lenha contra este frio cortante. Trad.: José Paulo Paes The bare tree The bare cherry tree higher than […]
- [Ivan Junqueira - No Leito Fundo](https://singularidadepoetica.art/2017/11/09/ivan-junqueira-no-leito-fundo/): No leito fundo em que descansas, em meio às larvas e aos livores, longe do mundo e dos terrores que te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhores que te esqueceram nas andanças, longe das taças e das danças, e dos feéricos rumores; longe das cálidas crianças que ateavam fogo aos […]
- [Ivan Junqueira - de "Três Meditações na Corda Lírica"](https://singularidadepoetica.art/2017/11/08/ivan-junqueira-de-tres-meditacoes-na-corda-lirica/): Only through time time is conquered. T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terra e escuta a voz escura das raízes, do limo primitivo, da limalha fina do que […]
- [Ivan Junqueira - Lição](https://singularidadepoetica.art/2017/11/07/ivan-junqueira-licao/): À beira do claustro o monge se inclina e na pedra aprende o que a pedra ensina: que a vida é nada com a morte por cima, que o tempo apenas este fim lhe adia e que o ser carece de não ser ainda, pois à luz se esquiva do que o purifica: a doce […]
- [Ivan Junqueira - Antes que o Sol se Ponha](https://singularidadepoetica.art/2017/11/06/ivan-junqueira-antes-que-o-sol-se-ponha/): Antes que o sol se ponha e seja tarde, e o azul crepuscular me deite a garra, e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra ou mortalha que o corpo me resguarde; antes que murche a pétala na jarra, e eu cale, para sempre, sem alarde, e tudo o que me coube, por covarde, não […]
- [Attila József - Dois Fragmentos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/05/attila-jozsef-dois-fragmentos/): Igual motor já engatado, mas sem caminho a ser seguido, sou assim, e se fosse mais ousado só diria palavras sem sentido. ***** Quando se escreve um verso, ação diversa nos convém, o mar em vez de firme chão, navio em vez de trem. Quando se escreve em verso, não escrever nos convém. Trad.: Nelson […]
- [José Jorge Letria - Meditação sobre os Poderes](https://singularidadepoetica.art/2017/11/04/jose-jorge-letria-meditacao-sobre-os-poderes/): Rubricavam os decretos, as folhas tristes sobre a mesa dos seus poderes efémeros. Queriam ser reis, czares, tantas coisas, e rodeavam-se de pequenos corvos, palradores e reverentes, dos que repetem: és grande, ninguém te iguala, ninguém. Repartiam entre si os tesouros e as dádivas, murmurando forjadas confidências, não amando ninguém, nada respeitando. Encantavam-se com o […]
- [Haroldo de Campos – Ex/plicação](https://singularidadepoetica.art/2017/11/03/haroldo-de-campos-explicacao/): não há um sentido único num poema quando alguém começa a ex- plicá-lo e chega ao fim en- tão só fica o ex do ponto de partida beco (tente outra vez) sem saída
- [Charles Bukowski - Encurralado](https://singularidadepoetica.art/2017/11/02/charles-bukowski-encurralado/): bem, eles diziam que tudo terminaria assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca da palavra ouvindo os passos na escuridão, volto-me para olhar atrás de mim… ainda não, velho cão… logo em breve. agora eles se sentam falando sobre mim: “sim, acontece, ele já era… é triste…” “ele nunca teve muito, não […]
- [Charles Bukowski - Poema nos meus 43 anos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/01/charles-bukowski-poema-nos-meus-43-anos/): terminar sozinho no túmulo de um quarto sem cigarros nem bebida — careca como uma lâmpada, barrigudo, grisalho, e feliz por ter um quarto. …de manhã eles estão lá fora ganhando dinheiro: juízes, carpinteiros, encanadores , médicos, jornaleiros, guardas, barbeiros, lavadores de carro, dentistas, floristas, garçonetes, cozinheiros, motoristas de táxi… e você se vira para […]
- [Cecilia Meireles - Cântico VI](https://singularidadepoetica.art/2017/10/31/cecilia-meireles-cantico-vi/): Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de […]
- [Ferreira Gullar - Traduzir-se](https://singularidadepoetica.art/2017/10/30/ferreira-gullar-traduzir-se/): Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe […]
- [Orides Fontela - Kant (relido)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/29/orides-fontela-kant-relido/): Duas coisas admiro: a dura lei cobrindo-me e o estrelado céu dentro de mim.
- [Frank O'Hara - Autobiographia Literaria](https://singularidadepoetica.art/2017/10/28/frank-ohara-autobiographia-literaria/): Quando era menino eu brincava sozinho num canto do pátio da escola sem ninguém. Odiava bonecas e odiava jogos, os bichos eram hostis e os pássaros fugiam. Se alguém me procurava eu me escondia atrás de uma árvore e gritava “Sou um órfão.” E olha eu aqui, o centro de toda beleza! escrevendo estes versos! […]
- [Maya Angelou - Ainda assim me Levanto](https://singularidadepoetica.art/2017/10/27/maya-angelou-ainda-assim-me-levanto/): Você pode me inscrever na história Com as mentiras amargas que contar Você pode me arrastar no pó, Ainda assim, como pó, vou me levantar Minha elegância o perturba? Por que você afunda no pesar? Porque eu caminho como se eu tivesse Petróleo jorrando na sala de estar Assim como a lua ou o sol […]
- [Emily Dickinson - Morri pela Beleza](https://singularidadepoetica.art/2017/10/26/emily-dickinson-morri-pela-beleza/): Morri pela Beleza – e assim que no Jazigo Meu Corpo foi fechado, Um outro Morto foi depositado Num Túmulo contíguo – “Por que morreu?” murmurou sua voz. “Pela Beleza” – retruquei – “Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. Nós Somos Irmãos. É uma só lei” – E assim Parentes pela Noite, […]
- [Wislawa Szymborska - O Terrorista, Ele Observa](https://singularidadepoetica.art/2017/10/25/wislawa-szymborska-o-terrorista-ele-observa/): A bomba vai explodir no bar às treze e vinte. Agora são só treze e dezesseis. Alguns ainda terão tempo de entrar; alguns de sair. O terrorista já passou para o outro lado da rua. A distância o livra de todo mal e a vista, bom, é como no cinema: Uma mulher de jaqueta amarela, […]
- [Ana Martins Marques - Penélope (I)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/24/ana-martins-marques-penelope-i/): O que o dia tece, a noite esquece. O que o dia traça, a noite esgarça. De dia, tramas, de noite, traças. De dia, sedas, de noite, perdas. De dia, malhas, de noite, falhas.
- [Ana Martins Marques - Batata Quente](https://singularidadepoetica.art/2017/10/23/ana-martins-marques-batata-quente/): Se eu te entregasse agora o meu amor aceso como ele está, como ele está, pesado, você o trocaria rapidamente de mão, você o guardaria um pouco na esquerda, um pouco na direita, por quanto tempo antes de o passar adiante?
- [Raymond Carver - O que o Médico Disse](https://singularidadepoetica.art/2017/10/22/raymond-carver-o-que-o-medico-disse/): Ele disse não parece bom ele disse parece mau aliás muito mau ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes de parar de contar eu disse fico feliz não ia querer saber que tem mais do que isso lá ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha em bosques […]
- [Raymond Carver – Medo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/21/raymond-carver-medo/): Medo de ver a polícia estacionar à minha porta. Medo de dormir à noite. Medo de não dormir. Medo de que o passado desperte. Medo de que o presente alce voo. Medo do telefone que toca no silêncio da noite. Medo de tempestades elétricas. Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo! Medo de […]
- [Maria Cecilia Brandi – A Dança](https://singularidadepoetica.art/2017/10/20/maria-cecilia-brandi-a-danca/): Se a festa começou às dez e meia e terminou por volta das quatro teve trezentos e trinta minutos e como foram setenta e dois convidados neste meu aniversário de trinta e oito anos tive menos de cinco minutos para conversar com cada um na verdade ainda menos pois poucos chegaram no início e saíram […]
- [Cassiano Ricardo - Depois de Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/19/cassiano-ricardo-depois-de-tudo/): Mas tudo passou tão depressa Não consigo dormir agora. Nunca o silêncio gritou tanto Nas ruas da minha memória. Como agarrar líquido o tempo Que pelos vãos dos dedos flui? Meu coração é hoje um pássaro Pousado na árvore que eu fui.
- [Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer](https://singularidadepoetica.art/2017/10/17/stig-dagerman-a-nossa-necessidade-de-consolo-e-impossivel-de-satisfazer/): Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tampouco me legaram o disfarçado furor do cético, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso […]
- [Pedro Salinas - de "Presságios"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/16/pedro-salinas-de-pressagios/): 41 Estas frases de amor que se repetem tantonão são nunca as mesmas.Todas tem idêntico som,mas uma vida anima cada uma,virgem e só, se é que a percebes.E não te canses nuncade repetir as palavras iguais:sentirás a emoção que sente a almaao ver nascer a estrela primeirae ao ver que ela se multiplica, conforme a […]
- [Pedro Salinas - Não Quero que te Vás](https://singularidadepoetica.art/2017/10/15/pedro-salinas-nao-quero-que-te-vas/): Não quero que te vás,dor, última formade amar. Sinto-me vivoquando me dóis,não em ti, nem aqui,mais longe: na terra, no anode onde tu vens,no amor com elae tudo o que foi.Nessa realidadesubmersa que se negaa si mesma e insisteem nunca ter existido,que foi apenas um pretextoque encontrei para viver.Se tu não me restasses,ó dor irrefutável,até […]
- [Nicanor Parra - Perguntas e Respostas](https://singularidadepoetica.art/2017/10/14/nicanor-parra-perguntas-e-respostas/): então, tu achas que vale a pena assassinar deus se o mundo puder ser salvo? – é claro que vale a pena e vale a pena arriscar a vida por uma ideia que pode resultar falsa? – é claro que vale a pena pergunto se valerá a pena comer siri se vale a pena criar […]
- [Derek Walcott - O Amor Depois do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/10/13/derek-walcott-o-amor-depois-do-amor/): Um dia viráem que, eufórico,você cumprimentará a si próprio chegandoà sua porta, em seu espelhoe cada um dará ao outro um sorriso de boas-vindas, e você dirá, sente-se aqui. Coma.Você amará outra vez o estranho que foi.Sirva vinho. Reparta o pão. Restituao seu coraçãopara ele mesmo, para o estranho que um dia você amou por […]
- [Rainer Maria Rilke - A nós nos cabe andar](https://singularidadepoetica.art/2017/10/12/rainer-maria-rilke-a-nos-nos-cabe-andar/): I.22 A nós, nos cabe andar. Mas o tempo, os seus passos, são mínimos pedaços do que há de ficar. É perda pura tudo o que é pressa; só nos interessa o que sempre dura. Jovem, não há virtude na velocidade e no voo aonde for. Tudo é quietude: escuro e claridade, livro e flor. […]
- [Roger Wolfe - Pálpebra](https://singularidadepoetica.art/2017/10/11/roger-wolfe-palpebra/): Pedro Salinas disse num poema que não quer deixar de sentir a dor da ausência da mulher que ama porque isso é tudo o que dela fica: a dor. Não me recordo das suas palavras exactas. Ele di-lo melhor do que eu. Eram outros tempos. Salinas está morto. A mulher que ele amava também. Em […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/10/10/mia-couto-o-espelho-2/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mario Benedetti - Em Pé](https://singularidadepoetica.art/2017/10/08/mario-benedetti-em-pe/): Continuo em pé por pulsar por costume por não abrir a janela decisiva e olhar de uma vez a insolente morte essa mansa dona da espera continuo em pé por preguiça nas despedidas no fechamento e demolição da memória não é um mérito outros desafiam a claridade o caos ou a tortura continuar em pé […]
- [Octavio Paz - Irmandade](https://singularidadepoetica.art/2017/10/07/octavio-paz-irmandade/): Homenagem a Claudio Ptolomeo Sou homem: duro pouco E é enorme a noite. Mas olho para cima: As estrelas escrevem. Sem entender, compreendo: Também fui escrito E neste mesmo instante Alguém me soletra.
- [Pablo Neruda - De "Cem Sonetos de Amor"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/pablo-neruda-de-cem-sonetos-de-amor/): XII Plena mulher, maçã carnal, lua quente, Espesso aroma de algas, lodo e luz pisados, Que obscura claridade se abre entre tuas colunas? Que antiga noite o homem toca com seus sentidos? Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas, com ar opresso e bruscas tempestades de farinha: amar é um combate de […]
- [Mario Benedetti – Lento mas vem](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/mario-benedetti-lento-mas-vem/): Lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem hoje está mais além das nuvens que escolhe e mais além do trovão e da terra firme demorando-se vem qual flor desconfiada que vigila ao sol sem perguntar-lhe nada iluminando vem as últimas janelas lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem já […]
- [Ferreira Gullar – Digo Sim](https://singularidadepoetica.art/2017/10/03/ferreira-gullar-digo-sim/): Poderia dizer que a vida é bela, e muito, e que a revolução caminha com pés de flor nos campos de meu país, com pés de borracha nas grandes cidades brasileiras e que meu coração é um sol de esperança entre pulmões e nuvens Poderia dizer que meu povo é uma festa só na voz […]
- [Adilia Lopes - Absolver (com algumas coisas de Helberto Hélder)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/25/adilia-lopes-absolver-com-algumas-coisas-de-helberto-helder/): “Mas Maria guardava todas essas coisas, conferindo-as em seu coração” Lc 2,19 Chama-se sexo a uma parte do corpo como se todo o corpo as mãos os pés a cabeça não fossem também sexo o pênis a vagina os testículos as maminhas são frágeis vulneráveis estão expostos à crueldade são flores ou musgos posso estar […]
- [Mário Chamie - Cervo, Servo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/21/mario-chamie-cervo-servo/): 1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas, […]
- [Elizabeth Bishop - A Arte de Perder](https://singularidadepoetica.art/2017/09/20/elizabeth-bishop-a-arte-de-perder/): A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetoides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/09/19/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos-2/): VI Nada de mergulhos. É na superfície que o real, minúsculo plâncton, se trai. Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneira do funcional. E o sofrimento, ai, esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti- nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, […]
- [Bertolt Brecht – Prazeres](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/bertolt-brecht-prazeres/): O primeiro olhar da janela de manhã O velho livro de novo encontrado Rostos animados Neve, o mudar das estações O jornal O cão A dialéctica Tomar duche, nadar Velha música Sapatos cómodos Compreender Música nova Escrever, plantar Viajar, cantar Ser amável. Trad.: Paulo César de Souza
- [Vinícius de Moraes – O Verbo no Infinito](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/vinicius-de-moraes-o-verbo-no-infinito/): Ser criado, gerar-se, transformar O amor em carne e a carne em amor; nascer Respirar, e chorar, e adormecer E se nutrir para poder chorar Para poder nutrir-se; e despertar Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir E começar a amar e então sorrir E então sorrir para poder chorar. E crescer, […]
- [Manuel Bandeira – Renúncia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/17/manuel-bandeira-renuncia/): Chora de manso e no íntimo… Procura Curtir sem queixa o mal que te crucia: O mundo é sem piedade e até riria Da tua inconsolável amargura. Só a dor enobrece e é grande e é pura. Aprende a amá-la que a amarás um dia. Então ela será tua alegria, E será, ela só, tua […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Encontro](https://singularidadepoetica.art/2017/09/16/carlos-drumond-de-andrade-encontro/): Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho. Se a noite me atribui poder de fuga, sinto logo meu pai e nele ponho o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madruga e seu rosto, nem triste nem risonho, é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga suor […]
- [Sylvia Plath - A Redoma de Vidro (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/14/sylvia-plath-a-redoma-de-vidro-excerto/): “Eu vi minha vida estendendo seus galhos em minha frente como a figueira verde da história. Da ponta de cada ramo, como um figo roxo e grande, um maravilhoso futuro acenava e piscava. Um figo era um marido e um lar feliz e filhos, e outro figo era uma famosa poetisa e outro figo era […]
- [Nicanor Parra – Cartas a uma Desconhecida](https://singularidadepoetica.art/2017/09/13/nicanor-parra-cartas-a-uma-desconhecida/): Quando passarem os anos, quando passarem os anos e o ar tenha cavado um fosso entre tua alma e a minha; quando passarem os anos e eu só seja um homem que amou, um ser que se deteve um instante diante de teus lábios, um pobre homem cansado de andar pelos jardins, onde estarás tu? […]
- [Nicanor Parra – Acácias](https://singularidadepoetica.art/2017/09/12/nicanor-parra-acacias/): Passeando anos atrás por uma rua cheia de acácias em flor soube por um amigo bem informado que você tinha acabado de se casar. Respondi que por certo eu não tinha nada a ver com o assunto. Mas apesar de nunca ter amado você – e disso você sabe melhor do que eu – cada […]
- [Jorge Luis Borges - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-arte-poetica/): Fitar o rio feito de tempo e águae recordar que o tempo é outro rio,saber que nos perdemos como o rioE que os rostos passam como a água. Sentir que a vigília é outro sonhoque sonha não sonhar e que a morteque teme nossa carne é essa mortede cada noite, que se chama sonho. No […]
- [Rainer Maria Rilke - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/rainer-maria-rilke-solidao/): A solidão é como uma chuva. Ergue-se do mar ao encontro das noites; de planícies distantes e remotas sobe ao céu, que sempre a guarda. E do céu tomba sobre a cidade. Cai como chuva nas horas ambíguas, quando todas as vielas se voltam para a manhã e quando os corpos, que nada encontraram, desiludidos […]
- [Cassiano Ricardo - Ladainha](https://singularidadepoetica.art/2016/06/25/cassiano-ricardo-ladainha/): Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso. Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- corporal? Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por […]
- [Gil Jorge - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/gil-jorge-so/)
- [Heinrich Heine - “Larga as parábolas sagradas”](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/heinrich-heine-larga-as-parabolas-sagradas/): Larga as parábolas sagradas, Deixa as hipóteses devotas, E põe-te em busca das respostas Para as questões mais complicadas. Por que se arrasta miserável O justo carregando a cruz, Enquanto, impune, em seu cavalo, Desfila o ímpio de arcabuz? De quem é a culpa? Jeová Talvez não seja assim tão forte? Ou será Ele o […]
- [Heinrich Heine - Morfina](https://singularidadepoetica.art/2016/06/15/heinrich-heine-morfina/): É grande a semelhança desses dois jovens e belos vultos, muito embora um pareça mais pálido e severo ou, posso até dizer, bem mais distinto do que o outro, o que, terno, me abraçava. Havia em seu sorriso tanto afeto, carinho e, nos seus olhos,tanta paz! Ornada de papoulas, sua fronte tocava a minha, às […]
- [Friedrich Hölderlin - As Parcas](https://singularidadepoetica.art/2016/06/14/friedrich-holderlin-as-parcas/): Dai-me, Potestades, mais um verão apenas, Apenas um outono de maduro canto, Que de bom grado, o coração já farto Do suave jogo, morrerei então. A alma que em vida nunca desfrutou os seus Direitos divinos nem no Orco acha repouso; Mas se eu lograr o que é sagrado, o que Trago em meu coração, […]
- [William Butler Yeats - Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/06/09/william-butler-yeats-bizancio/): As imagens febris do dia se desfazem; Os guardas imperiais, bêbados, jazem; Noite sem som, sombras noctívagas se alongam Da catedral e do seu gongo; À luz de estrela ou lua um domo desmerece Tudo o que é humanidade, Mera complexidade As veias, fúria e lama, em toda humana espécie. Diante de mim a imagem, […]
- [John Keats - Ode a um Rouxinol](https://singularidadepoetica.art/2016/06/05/john-keats-ode-a-um-rouxinol/): Meu peito dói; um sono insano sobre mim Pesa, como se eu me tivesse intoxicado De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim, Há um só minuto, e após no Letes me abismado: Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte, É do excesso de ser que aspiro em tua paz […]
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento-2/)
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento/)
- [Carlos Nejar - José Mora](https://singularidadepoetica.art/2016/06/03/carlos-nejar-jose-mora/): Eu retornei. A morte imensa, tão imensa que não tocava mais os seus limites, os feudos. E eu, aos poucos, fui vencendo, fui desembaraçando seus cordames, o mortal peso, a superfície desamparada e vasta como se num escafandro viesse lentamente ao som das águas e fosse uma cítara tangida entre duas espigas de penumbra e […]
- [Goethe - Canção Noturna do Andarilho](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/goethe-cancao-noturna-do-andarilho/): No alto das colinas há paz; não se ouve, ali nas frondes, mais que um sopro manso. Nem há no bosque um trino. Aguarda: tampouco tarda o teu descanso. Trad.: Nelson Ascher
- [Carlos Drummond de Andrade - Congresso Internacional do Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-congresso-internacional-do-medo/): Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-o-medo/): Em verdade temos medo. Nascemos escuro. As existências são poucas: Carteiro, ditador, soldado. Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos. Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas, Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor, este […]
- [Edgar Allan Poe - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/edgar-allan-poe-so/): Desde criança nunca fui como outros foram Nem meus olhos nunca viram o que outros viram, Já que minhas paixões não têm a mesma origem Não vêm da mesma fonte as dores que me afligem. Também o prazer era de outra natureza – Tudo que amei ninguém amou, tenho certeza. Lá – no despontar de […]
- [Rainer Maria Rilke - Morgue](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/rainer-maria-rilke-morgue/): Estão prontos, ali, como a esperar que um gesto só, ainda que tardio, possa reconciliar com tanto frio os corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim. Que nome no seu bolso já vazio há por achar? Alguém procura, enfim, enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só […]
- [Ruy Proença - Tiranias](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/ruy-proenca-tiranias/): antigamente diziam: cuidado, as paredes têm ouvidos então falávamos baixo nos policiávamos hoje as coisas mudaram: os ouvidos têm paredes de nada adianta gritar Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui
- [Nelson Santander - Saindo do Armário da Sacristia](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/nelson-santander-saindo-do-armario-da-sacristia/): Saindo do armário da sacristia, por Nelson Santander: ateísmo, humanismo secular e outras questões
- [Gastão Debreix - Por do Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/05/27/gastao-debreix-por-do-sol/)
- [Itamar Assumpção - Noite Torta](https://singularidadepoetica.art/2016/05/21/itamar-assumpcao-noite-torta/): Intérprete: Zeca Baleiro Na sala numa fruteira a natureza está morta laranjas, maçãs e pêras bananas, figos de cera decoram a noite torta Sob a janela do quarto a cama dorme vazia encaro nosso retrato sorrindo sobre o criado no meio da noite fria Está pingando o chuveiro que banho mais apressado molhado caíste fora […]
- [Georg Trakl - De Profundis](https://singularidadepoetica.art/2016/05/20/georg-trakl-de-profundis/): Há um restolhal, onde cai uma chuva negra. Há uma árvore marrom, ali solitária. Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias. Como é triste o entardecer Passando pela aldeia A terra órfã recolhe ainda raras espigas. Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo, E seu colo espera o noivo divino. Na volta Os […]
- [Ovídio - A Morte de Narciso](https://singularidadepoetica.art/2016/05/16/ovidio-a-morte-de-narciso/): Fonte sem limo, pura prata em ondas límpidas, jorrava. Nem pastor se achega, nem pastando seu rebanho montês, ou gado avulso, acode. Nem pássaro, nem fera, nem, tombando, um ramo perturba a úmida grama que o frescor irriga. O bosque impede o sol de aquentar este sítio. Da caça e do calor exausto, aqui vem […]
- [Jorge Luis Borges — Pátio](https://singularidadepoetica.art/2016/05/14/jorge-luis-borges-patio/): Com a tarde Cansaram-se as duas ou três cores do pátio. A grande franqueza da lua cheia Já não entusiasma o seu habitual firmamento. Hoje que o céu está frisado, Dirá a crendice que morreu um anjinho. Pátio, céu canalizado. O pátio é a janela por onde Deus olha as almas. O pátio é o […]
- [Humberto Gessinger - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/humberto-gessinger-novos-horizontes/)
- [Engenheiros do Hawaii - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-novos-horizontes/): Corpos em movimento O universo em expansão E o apartamento que era tão pequeno Não acaba mais “Vamos dar um tempo” Não sei quem deu a sugestão E aquele sentimento que era passageiro Não acaba mais Quero explodir as grades E voar Não tenho pra onde ir Mas não quero ficar Novos horizontes Se não […]
- [Humberto Gessinger - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre-2/)
- [Engenheiros do Hawaii - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre/): http://h.saavncdn.com/737/UMG_00602498011737_01_011.mp3 Nem tudo está perdido Nem sinal de pedra no peito O horóscopo do jornal Arriscou “um belo dia” Liguei o rádio na hora certa Era a canção que eu queria Nem tudo está perdido Tudo em paz no reino da química Ninguém me telefonou Enquanto eu dormia Sonhei com meu pai e ele sorria […]
- [Nelson Santander - Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2016/05/08/nelson-santander-singularidade-2-poema/): Singularidade, um poema de Nelson Santander
- [Augusto de Campos - Desgrafite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/augusto-de-campos-desgrafite/)
- [William Butler Yeats - O Prazer do Difícil](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/william-butler-yeats-o-prazer-do-dificio/): O prazer do difícil tem secado A seiva em minhas veias. A alegria Espontânea se foi. O fogo esfria No coração. Algo mantém cerceado Meu potro, como se o divino passo Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço, Sob o chicote, trêmulo, prostrado, E carregasse pedras. Diabos levem As peças de sucesso que […]
- [André Ladeia - Efêmera](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/andre-ladeia-efemera/): A terra boia no oceano negro E estrelado Ela dança e rodopia; Ah! Como é bela E frágil… A Terra é uma bolha de sabão. http://antoniocicero.blogspot.com.br/2016/05/andre-ladeia-efemera.html
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras-2/)
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras/): https://youtu.be/dg4pbf0kcXk Eu insisto em cantar Diferente do que ouvi Seja como for recomeçar Nada há, mais há de vir Me disseram que sonhar Era ingênuo, e daí? Nossa geração não quer sonhar Pois que sonhe a que há de vir Eu preciso é te provar Que ainda sou o mesmo menino Que não dorme […]
- [Humberto Gessinger - Além da Máscara](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/humberto-gessinger-alem-da-mascara/): https://youtu.be/UclZRlPUyuA Intérprete: Pouca Vogal Agora que a terra é redonda E o centro do universo é outro lugar É hora de rever os planos O mundo não é plano, não pára de girar Agora que tudo é relativo Não há tempo perdido, não há tempo a perder Num piscar de olhos tudo se transforma Tá […]
- [Augusto de Campos - Pulsar (1975)](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/augusto-de-campos-pulsar-1975/): Intérprete: Caetano Veloso
- [José Paulo Paes - Seu Metaléxico](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/jose-paulo-paes-seu-metalexico/): Conheça outros livros de José Paulo Paes clicando aqui
- [Ivan Junqueira - O Aeroplano](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/ivan-junqueira-o-aeroplano/): Quando eu fiz cinco anos, meu pai deu-me de presente um aeroplano que ele próprio construíra com finas hastes de bambu e papel de seda. Tão leve quanto uma libélula, o frágil engenho voou até desaparecer por detrás do muro do quintal e dos últimos reflexos de um poente de verão. Ninguém jamais o encontrou. […]
- [Dante Milano - Princípio da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/dante-milano-principio-da-noite/)
- [Darcy Ribeiro - Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/darcy-ribeiro-mim/)
- [Darcy Ribeiro - A Indesejada](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-a-indesejada/): Aí estão eles, os da terceira idade. Gregários, vivem aos bandos. Sentados, jogando cartas, andando devagar. Conversando pretéritos assuntos. Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos. Hoje, são sogros, os chatos dos sogros. Uns são viúvos, outros largados, poucos. Muitos deles, os mais, ainda casados. As mulheres duram demais. Órfãos de seus […]
- [Darcy Ribeiro - Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-amor-poema/): "Amor", um poema de Darcy Ribeiro Quero um amor alucinado, depravado, tarado. Amor inteiro, de corpo-a-corpo, enlaçados. Amor sem reserva, que a tudo se entrega, lancinante. (...)
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/vinicius-de-moraes-soneto-de-maio/): Suavemente Maio se insinua Por entre os véus de Abril, o mês cruel E lava o ar de anil, alegra a rua Alumbra os astros e aproxima o céu. Até a lua, a casta e branca lua Esquecido o pudor, baixa o dossel E em seu leito de plumas fica nua A destilar seu luminoso […]
- [Jim Holt - Por que o Mundo Existe? (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/jim-holt-por-que-o-mundo-existe-excerto/): Já se disse que a pergunta Por que existe algo e não apenas o nada? é tão profunda que só ocorreria a um metafísico, mas também é tão simples que só ocorreria a uma criança. Na época, eu não tinha idade para ser metafísico. Mas por que a pergunta não me ocorreu na infância? Revendo a questão, […]
- [Manuel Bandeira - O Último Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/manuel-bandeira-o-ultimo-poema/): Assim eu quereria meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
- [Søren Kierkegaard - O Prazer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/soren-kierkegaard-o-prazer/)
- [Blaise Pascal - de Pensamentos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/blaise-pascal-de-pensamentos/)
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-3-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-2-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Pedro Paulo de Sena Madureira - Matsuo Basho, Uma Garça](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/pedro-paulo-de-sena-madureira-matsuo-basho-uma-garca/)
- [Sílvia Rocha - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/silvia-rocha-solidao-2/)
- [Salvatore Quasimodo - E De Repente é Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite-2/)
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antônio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre-2/)
- [James Agee - Sim, Todas as Crianças...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/james-agee-sim-todas-as-criancas/)
- [Cristina Lemos - O Amor Sempre Falha](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cristina-lemos-o-amor-sempre-falha/)
- [Chico Buarque e Francis Hime - Trocando em Miúdos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/chico-buarque-e-francis-homem-trocando-em-miudos/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4-2/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4/): Nada vos oferto além destas mortes de que me alimento Caminhos não há Mas os pés na grama os inventarão Aqui se inicia uma viagem clara para a encantação Fonte, flor em fogo, quem é que nos espera por detrás da noite ? Nada vos sovino: com a minha incerteza vos ilumino
- [Chico Buarque - O Meu Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/22/chico-buarque-o-meu-amor/)
- [Philip Larkin - Por Que Sonhei Contigo a Noite Passada?](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-por-que-sonhei-contigo-a-passada/): Por que sonhei contigo a noite passada? Agora a manhã empurra cabelos para trás [com uma luz grisalha Lembranças batem de volta, como tapas na cara; Apoiado no cotovelo, eu fito o branco nevoeiro Além da janela. Tantas coisas que eu pensava esquecidas Voltam agora à mente numa estranha dor: Como cartas que chegam para […]
- [Philip Larkin - Ignorância](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-ignorancia/): Estranho nada saber, nunca ter a certeza Do que é verdadeiro, certo ou real, Forçado então a dizer pelo menos é o que sinto Ou Bom, é o que parece: Alguém deve saber. Estranho ignorar o modo como as coisas funcionam: A sua capacidade de encontrar o que necessitam, O seu sentido de forma, e […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/caetano-veloso-o-homem-velho-2/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Chico Buarque - Olhos nos Olhos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-olhos-nos-olhos/)
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-pedaco-de-mim-2/)
- [Cassiano Ricardo - O Relógio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/17/cassiano-ricardo-o-relogio/): Diante de coisa tão doída conservemo-nos serenos. Cada minuto de vida nunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma face Do não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nasce já se começa a morrer.
- [José Paulo Paes - Auto-epitáfio n° 2](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2-2/)
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/machado-de-assis-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Veja também: https://nsantand.wordpress.com/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/
- [Silvio Rodriguez e Pablo Milanés - Por Quem Merece Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-e-pablo-milanes-por-quem-merece-amor/): (intérpretes: MPB4) Te perturba esse amor? Amor de juventude Meu amor é amor de virtude Te perturba esse amor? Sem máscaras por trás Meu amor é uma arte de paz Te perturba esse amor? Amor de humanidade Meu amor é amor de verdade Te perturba esse amor? Com todos ao redor Meu amor é uma […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna-2/): (intérprete: Silvio Rodriguez) Vivo en un país libre cual solamente puede ser libre en esta tierra, en este instante yo soy feliz porque soy gigante. Amo a una mujer clara que amo y me ama sin pedir nada o casi nada, que no es lo mismo pero es igual Y si esto fuera poco, tengo […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna/)
- [Chico Buarque e Edu Lobo - Valsa Brasileira](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/chico-buarque-e-edu-lobo-valsa-brasileira/)
- [Eclesiastes (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/eclesiaste-excerto/): “Acumulei também prata e ouro, as riquezas dos reis e das províncias. Escolhi cantores e cantoras e todas as delícias dos homens, toda a abundância dos cofres. Ultrapassei e avantajei-me a todos quantos me precederam em Jerusalém, e a sabedoria permanecia junto a mim. Então examinei todas as obras de minhas mãos e o trabalho […]
- [Chico Buarque e Edu Lobo - A Moça do Sonho (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/chico-buarque-e-edu-lobo-a-moca-do-sonho-excerto/)
- [Nelson Santander - Renata Maria](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/nelson-santander-renata-maria/): Renata Maria, por Nelson Santander: uma análise da letra da canção de Chico Buarque
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/1517-2/)
- [Carlos Drummond de Andrade - A um Ausente](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/carlos-drummond-de-andrade-a-um-ausente/): Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de […]
- [Bertolt Brecht - Tudo Muda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/bertolt-brecht-tudo-muda/): Tudo muda. De novo começar podes, com o último alento. O que acontece, porém, fica acontecido: e a água que pões no vinho, não podes mais separar. O que acontece, fica acontecido: a água que pões no vinho, não podes mais separar. Porém, tudo muda: com o último alento podes de novo começar. Tradução: Geir […]
- [Ferreira Gullar - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/ferreira-gullar-ano-novo/): Meia-noite. Fim de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício. Olho o céu: o abismo vence o olhar. O mesmo espantoso silêncio da Via-Láctea feito um ectoplasma sobre a minha cabeça nada ali indica que um ano novo começa. E não começa nem no céu nem no chão do planeta: começa no […]
- [Jorge de Lima - A Divisão de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/jorge-de-lima-a-divisao-de-cristo/): Dividamos o mundo em duas partes iguais: uma para portugueses, outra para espanhóis. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus: a metade morreu na viagem do oceano. Dividamos o mundo entre as pátrias. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras: a metade morreu nos campos de batalha. Dividamos o mundo entra as máquinas. […]
- [Clarice Lispector - Acredito...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/clarice-lispector-acredito/)
- [Do Remorso Pela Traição](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/do-remorso-pela-traicao/): Não existe sentimento de culpa quando o assunto é traição amorosa. Se vemos alguém se lamentando, arrependido da traição descoberta, isso não é remorso, mas auto-piedade pela súbita constatação de que seus atos trar-lhe-ão consequências indesejáveis. Não se espere daquele que há meia hora delirava nos braços de um amante que experimente algo além de […]
- [Torquato Neto - Cogito](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/torquato-neto-cogito/): eu sou como eu sou pronome pessoal intransferível do homem que iniciei na medida do impossível eu sou como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem novos secretos dentes nesta hora eu sou como eu sou presente desferrolhado indecente feito um pedaço de mim eu sou como eu sou vidente e vivo tranqüilamente todas […]
- [Manuel Bandeira - Versos de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/manuel-bandeira-versos-de-natal/): Espelho, amigo verdadeiro, Tu refletes as minhas rugas, Os meus cabelos brancos, Os meus olhos míopes e cansados. Espelho, amigo verdadeiro, Mestre do realismo exato e minucioso, Obrigado, obrigado! Mas se fosses mágico, Penetrarias até o fundo desse homem triste, Descobririas o menino que sustenta esse homem, O menino que não quer morrer, Que não […]
- [Carlos Rennó - Todas Juntas Num Só Ser](https://singularidadepoetica.art/2016/04/07/carlos-renno-todas-juntas-num-so-ser/): Intérprete: Lenine Não canto mais Bebete nem DomingasNem Xica nem Tereza, de Ben Jor;Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;Nem Ana nem Luiza, do maior;Já não homenageio Januária,Joana, Ana, Bárbara, de Chico;Nem Yoko, a nipônica de Lennon;Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico; Nem a tigresa, nem a vera gata,Nem a camaleoa, de […]
- [Nelson Santander - Sonho Sertanejo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/nelson-santander-sonho-sertanejo/): Sonho Sertanejo, uma crônica de Nelson Santander sobre sonhos, subconsciente e gosto musical
- [Philip Larkin - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-aubade/): De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara. Olho o negror sem som, me levantando às quatro. Em tempo, a borda da cortina vai estar clara. Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato: A morte infatigável, um dia mais perto, Tornando inviável todo pensamento, exceto O de onde, como e […]
- [Philip Larkin - Eu Comecei a Dizer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-eu-comecei-a-dizer/): Eu comecei a dizer “Um quarto de século” Ou “trinta anos atrás” Sobre minha própria vida. Isso me deixa sem fôlego É como despencar e arremeter Acenando em largos giros Através do céu vazio. Tudo o que resta acontecer São algumas mortes (incluindo a minha). Em que ordem, e de que maneira, É o que […]
- [Philip Larkin - As Árvores](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/philip-larkin-as-arvores/): As árvores se põem a enfolhar Como algo quase expresso. Seus brotos, Tenros, estão se estendendo, soltos; Seu verde é uma espécie de pesar. Renascem, ou é a gente que vem a Envelhecer? Não, morrem, por certo. O truque anual de um novo aspecto Está inscrito nos anéis da lenha. E cada castelo móvel, no […]
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda-2/)
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda/): Folheio a vida Num calendário velho. Dias riscados, como contas pagas. Domingos de repouso, Segundas de trabalho Sábados de cansaço, Sem nenhum sentido. No abismo do nada, O nada, apenas. Quem sofreu nestas páginas vazias, Tão frias, Tão serenas?
- [William Carlos Williams - Estas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/william-carlos-williams-estas/): ESTAS são as semanas desoladas, sombrias em que na sua aridez a natureza rivaliza com a estupidez humana. O ano despenha-se na noite e o coração é um abismo mais fundo que a noite nesse vazio varrido pelo vento sem sol, sem lua nem estrelas apenas uma estranha luz do pensamento que lança um tenebroso […]
- [Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto - Paulista](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/eduardo-gudin-e-j-c-costa-netto-paulista/): (intérprete: Leila Pinheiro) Na Paulista os faróis já vão abrir E um milhão de estrelas prontas pra invadir Os jardins onde a gente aqueceu uma paixão Manhãs frias de abril Se a avenida exilou seus casarões Quem reconstruiria nossas ilusões? Me lembrei de contar prá você nessa canção Que o amor conseguiu Você sabe quantas […]
- [Arnaldo Antunes - Saiba](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/arnaldo-antunes-saiba/): (intérprete: Adriana Calcanhoto/Partimpim) Saiba Todo mundo foi neném Einstein, Freud e Platão, também Hitler, Bush e Saddam Hussein Quem tem grana e quem não tem… Saiba Todo mundo teve infância Maomé já foi criança Arquimedes, Buda, Galileu E também você e eu… Saiba Todo mundo teve medo Mesmo que seja segredo Nietzsche e Simone […]
- [Belchior - Velha Roupa Colorida](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/belchior-velha-roupa-colorida/): Você não sente e nem vê Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, Que uma nova mudança em breve vai acontecer E o que há algum tempo era jovem, novo, Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer Nunca mais meu pai falou: “She’s leaving home”, E meteu o pé na estrada “Like a […]
- [Humberto Gessinger - Terceira do Plural](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/humberto-gessinger-terceira-do-plural/): Corrida pra vender cigarro Cigarro pra vender remédio Remédio pra curar a tosse Tossir, cuspir, jogar pra fora Corrida pra vender os carros Pneu, cerveja e gasolina Cabeça pra usar boné E professar a fé de quem patrocina Eles querem te vender… Eles querem te comprar… Querem te matar (a sede) Eles querem te sedar! […]
- [Konstantinos Kaváfis - Desejos (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-desejos-em-3-traducoes/): DESEJOS – Trad. José Paulo Paes Belos corpos de mortos que nunca envelheceram, com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes, jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas – assim são os desejos que um dia feneceram sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes o prazer de uma noite ou a manhã luminosa. DESEJOS – Trad. […]
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-2/): DER PANTHER Rainer Maria Rilke Im Jardin des Plantes, Paris Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe so müd geworden,dass er nichts mehr hält. Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe und hinter tausend Stäben keine Welt. Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte, der sich im allerkleinsten Kreise dreht, ist wie ein Tanz von […]
- [William Blake - O Ti(y)gre (em 4 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/william-blake-o-tiygre-em-4-traducoes/): O TYGRE – Trad. Augusto de Campos Tygre! Tygre! Brilho, brasa que a furna noturna abrasa, que olho ou mão armaria tua feroz symmetrya? Em que céu se foi forjar o fogo do teu olhar? Em que asas veio a chamma? Que mão colheu esta flamma? Que força fez retorcer em nervos todo o teu […]
- [Augusto de Campos - O Vivo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/augusto-de-campos-o-vivo/): Não queiras ser mais vivo do que és morto. As sempre-vivas morrem diariamente Pisadas por teus pés enquanto nasces. Não queiras ser mais morto do que és vivo. As mortas-vivas rompem as mortalhas Miram-se umas nas outras e retornam (Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!) Para amassar o pão da própria carne. Ó vivo-morto […]
- [José Saramago - Ouvindo Beethoven](https://singularidadepoetica.art/2017/09/11/jose-saramago-ouvindo-beethoven/): Venham leis e homens de balanças, Mandamentos daquém e dalém mundo, Venham ordens, decretos e vinganças, Desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos todos da cidade, Brilhe, vermelha, a luz inquisidora, Risquem no chão os dentes da vaidade E mandem que os lavemos a vassoura. A quantas mãos existam, peçam dedos, Para […]
- [Fernando Moreira Salles - Legado](https://singularidadepoetica.art/2017/09/10/fernando-moreira-salles-legado/): Não há dor partilhável nem lamento que se ouça É pequeno o destino do teu sonho e do meu Se alguém te viu passar se o caminho te pertence segue e sorri
- [Ana Martins Marques - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2017/09/09/ana-martins-marques-interiores/): AÇUCAREIRO De amargo basta o amor Agridoce, ela disse Mas a mim pareceu amargo CADEIRA I Repetes diariamente os gestos do primeiro homem que se sentou numa tarde quente olhando as savanas II Pouso de gigantescos pássaros cansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesa essas doces evidências da morte? CRISTALEIRA Guarda e […]
- [Ana Martins Marques - entre a casa/ e o acaso,](https://singularidadepoetica.art/2017/09/08/ana-martins-marques-entre-a-casa-e-o-acaso/): entre a casa e o acaso entre a jura e os jogos entre a volta e as voltas a morada e o mar penélopes e circes entre a ilha e o ir-se
- [Gregório de Matos - Nasce o Sol e Não Dura mais que um Dia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/07/gregorio-de-matos-nasce-o-sol-e-nao-dura-mais-que-um-dia/): Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se formosa a Luz é, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto […]
- [Paulo Nunes - A um antianjo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/06/paulo-nunes-a-um-antianjo/): Em memória de Júlio Caixeta A mais longa distância que pode haver, esta que agora vai dos teus pés ao chão, não te fez mais leve: foi o mundo e nossas vidas que se soltaram.
- [Eucanaã Ferraz - De "Orelhas" (1)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/05/eucanaa-ferraz-de-orelhas-1/): Estão certas todas as canções banais letras convencionais seus corações como são de praxe; estão certos os poemas enfáticos inchados de artifícios à luz óbvia da lua ou de estúpidos crepúsculos; os sonetos mal alinhavados toscos estão certos bem como as confissões íntimas não lapidadas reles nem polidas; ouçamos o que dizem sobre qualquer coisa; […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/09/04/mia-couto-o-espelho/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me, a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mia Couto - A Luz da Dor](https://singularidadepoetica.art/2017/09/03/mia-couto-a-luz-da-dor/): O meu modo de saber é adoecendo. A uns, a ideia surge em luz. A mim, se declara uma pontada no peito. O advento da dor, o deflagrar da súbita febre e eu sei que o meu corpo sabe. Um dia destes me desconhecerei vivo desfalecido de aguda sapiência. Até lá repartirei com um anjo […]
- [Armando Freitas Filho - Escritor, Escritório](https://singularidadepoetica.art/2017/09/02/armando-freitas-filho-escritor-escritorio/): Não transponho Camões, mas me empenho. Não atravesso seu mar manuscrito porque me afogo na incompreensão no enfado, no palavreado castiço na análise sintática dos seus versos onde erro na prova urgente, aflita sem ouvi-los soar na página a pleno de difícil lida, da ilimitada luta na travessia da linha, da estrofe empolgante, empolada, que […]
- [Armando Freitas Filho - Antiquário](https://singularidadepoetica.art/2017/09/01/armando-freitas-filho-antiquario/): Mil folhas. Mesmo em algumas das mais passadas, um pouco do sabor, um risco de doçura e amargo, é remanescente. Anamnésia construída pelo fato e pela imaginação: vai do anátema ao enaltecimento, expressos em alta voz até ao murmúrio cifrado no coração. O acervo de uma vida se dispersará depois de ela parar: alguma coisa […]
- [W. H. Auden - Aquele que Ama Mais](https://singularidadepoetica.art/2017/08/28/w-h-auden-aquele-que-ama-mais/): Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais […]
- [Ricardo Silvestrin - Bilhete](https://singularidadepoetica.art/2017/08/26/ricardo-silvestrin-bilhete/): Não me parecias frágil, via-te doce. Talvez fosses mesmo forte, é preciso ser valente pra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo. Que rio obscuro e discreto te puxava para o fundo, sem saber nadar, sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta, um poema, um bilhete de suicida. Como se quisesses dizer que […]
- [Jaime Sabines - Te Amo às Dez da Manhã](https://singularidadepoetica.art/2017/08/10/jaime-sabines-te-amo-as-dez-da-manha/): Te amo às dez da manhã, e às onze, e ao meio-dia. Te amo com toda a minha alma e com todo o meu corpo, às vezes, em tardes chuvosas. Mas às duas da tarde, ou às três, quando eu me perco em pensar em nós dois, e tu pensas em comida ou nas tarefas […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Meio-dia](https://singularidadepoetica.art/2017/08/09/sophia-de-mello-breyner-andresen-meio-dia/): Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém. O sol no alto, fundo, enorme, aberto, Tornou o céu de todo o deus deserto. A luz cai implacável como um castigo. Não há fantasmas nem alvas, E o mar imenso solitário e antigo, Parece bater palmas.
- [Paul Auster - Fragmento de Frio](https://singularidadepoetica.art/2017/08/08/paul-auster-fragmento-de-frio/): Porque ficamos cegos no dia que se esvai conosco, e porque vimos nossa respiração nublar o espelho de ar, o olho do ar vai se abrir para nada mais que a palavra a que renunciamos: o inverno terá sido lugar de madureza. Nós que viramos os mortos de uma vida que não a nossa. Trad.: […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/08/07/alice-ruiz/): noite gelada a cidade toda coberta denso nevoeiro
- [Zulmira Ribeiro Tavares - Após o inverno](https://singularidadepoetica.art/2017/08/06/zulmira-ribeiro-tavares-apos-o-inverno-poema/): Desarrumação em setembro. O vento batendo as portas e a floração rebentando nas cercas vivas. O céu por vezes de terracota bem acima das cabeças, mas também finas agulhas de gelo imiscuindo-se pelas frinchas, noite alta. Era em São Paulo. Então se entende: o mato bravo torcido pela chuva, o prédio em demolição pingando água […]
- [Rainer Maria Rilke - Hora Grave](https://singularidadepoetica.art/2017/08/04/rainer-maria-rilke-hora-grave/): Quem agora chora em algum lugar do mundo, Sem razão chora no mundo, Chora por mim. Quem agora ri em algum lugar na noite, Sem razão ri dentro da noite, Ri-se de mim. Quem agora caminha em algum lugar no mundo, Sem razão caminha no mundo, Vem a mim. Quem agora morre em algum lugar […]
- [Rainer Maria Rilke - O Mundo Estava no Rosto da Amada](https://singularidadepoetica.art/2017/08/03/rainer-maria-rilke-o-mundo-estava-no-rosto-da-amada/): O mundo estava no rosto da amada – e logo converteu-se em nada, em mundo fora do alcance, mundo-além. Por que não o bebi quando o encontrei no rosto amado, um mundo à mão, ali, aroma em minha boca, eu só seu rei? Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi. Mas eu também estava […]
- [Wislawa Szymborska - Engano](https://singularidadepoetica.art/2017/08/02/wislawa-szymborska-engano/): Soou o telefone na galeria de arte, soou à meia-noite na sala quieta; se houvesse gente dormindo, acordaria na certa, mas aqui há somente insones profetas, somente reis empalidecem de luar e olham indiferentes o que há para olhar, e a mulher do usurário, agitada na aparência, fita justo essa coisa sonante na lareira, mas […]
- [Paulo Henriques Britto - Envoi](https://singularidadepoetica.art/2017/08/01/paulo-henriques-britto-envoi/): O tempo, que a tudo distorce, às vezes alisa, conserta, e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morse de instantes sem rumo e roteiro então dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquiva a gente retoca e remenda até ser coisa que se entenda, mas algo que na […]
- [Wislawa Szymborska - As três Palavras mais Estranhas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/31/wislawa-szymborska-as-tres-palavras-mais-estranhas/): Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já se perde no passado. Quando pronuncio a palavra Silêncio, suprimo-o. Quando pronuncio a palavra Nada, crio algo que não cabe em nenhum não ser. Trad.: Regina Przybycien
- [Paulo Henriques Britto - Três Peças Dispépticas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/30/paulo-henriques-britto-tres-pecas-dispepticas/): I É aqui mesmo, sim. Você era esperado. E por falar nisso, chegou atrasado. Não peça desculpas: não adianta nada. O atraso será contabilizado. Não há a menor dúvida; é este o endereço. Mas fique sabendo: tudo aqui tem preço. Não esteja à vontade. A casa não é sua. E se não gostar, por ali […]
- [Wislawa Szymborska - Entre Muitos](https://singularidadepoetica.art/2017/07/29/wislawa-szymborska-entre-muitos/): Sou quem sou. Inconcebível acaso como todos os acasos Fossem outros os meus antepassados e de outro ninho eu voaria ou de sob outro tronco coberta de escamas eu rastejaria. No guarda-roupa da natureza há trajes de sobra. O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo. Cada um cai como uma luva e […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/28/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-3/): IV Acrescentar ao mundo um morto a mais é só o que a vida garante. O resto é risco, é vai da valsa. Tanto faz improvisar ou decorar o texto, ser pedra ou imitar os animais, correr atrás de lucro ou prejuízo. Dá no que der. E, seja lá o que for, terá sido o […]
- [Wislawa Szymborska - Fim e Começo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/27/wislawa-szymborska-fim-e-comeco/): Depois de cada guerraalguém tem que fazer a faxina.Colocar uma certa ordemque afinal não se faz sozinha. Alguém tem que jogar o entulhopara o lado da estradapara que possam passaros carros carregando os corpos. Alguém tem que se atolarno lodo e nas cinzasem molas de sofásem cacos de vidroe em trapos ensanguentados. Alguém tem que […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/26/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-3/): V Súbito? Não. A coisa morre à míngua, um risco vira traço e o traço, ponto. Por exemplo: uma manhã de domingo, a mesa posta pro café, tudo pronto pra não se fazer nada – ou então a noite de uma terça-feira inane, sob o quebranto da televisão – mas isso não importa; que se […]
- [Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”](https://singularidadepoetica.art/2017/07/23/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-2/): IV Até onde a vista alcança é real todo o visível. Como dançarina e dança formam um todo indistinguível, assim também não há esperança de se atingir algum nível em que uma e outra substância se separem, dando alívio à consciência inquietante de que no próximo instante o erro vai ser dissipado. Não vai. O […]
- [Wislawa Szymborska - Ocaso do Século](https://singularidadepoetica.art/2017/07/20/wislawa-szymborska-ocaso-do-seculo/): Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX. Agora já não tem mais jeito, os anos estão contados, os passos vacilantes, a respiração curta. Coisas demais aconteceram, que não eram para acontecer, e o que era para ter sido não foi. Era para se chegar à primavera e à felicidade, entre […]
- [Mario Quintana - O Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/15/mario-quintana-o-tempo/): A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal… Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora […]
- [Ch'ang Wu Chien - Poema Chinês do Século VIII](https://singularidadepoetica.art/2017/07/14/chang-wu-chien-poema-chines-do-seculo-viii/): Praguejei contra a chuva Que tamborilando no telhado Não me deixou dormir. Praguejei contra o vento Que destruía todo o jardim. Mas você chegou de surpresa E agradeci à tempestade Que te fez despir A roupa molhada. Agradeci à ventania Por ter soprado, Apagado a vela. via Carlito Azevedo (https://www.facebook.com/profile.php?id=100007266525928)
- [Cacaso – Jogos Florais](https://singularidadepoetica.art/2017/07/05/cacaso-jogos-florais/): I Minha terra tem palmeiras onde canta o tico-tico. Enquanto isso o sabiá vive comendo o meu fubá. Ficou moderno o Brasil ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre. II Minha terra tem Palmares memória cala-te já. Peço licença poética Belém capital Pará. Bem, meus prezados senhores dado o […]
- [Armando Freitas Filho - Sibilante](https://singularidadepoetica.art/2017/07/03/armando-freitas-filho-sibilante/): Cego aço doce corte de navalha ou de folha de papel: só sangra bem depois da ação, da posse do sentido e sentimento que o amor concede não isento do ciúme.
- [Wislawa Szymborska - Amor à Primeira Vista](https://singularidadepoetica.art/2017/07/02/wislawa-szymborska-amor-a-primeira-vista/): Ambos estão certos de que uma paixão súbita os uniu. É bela esta certeza, mas é ainda mais bela a incerteza. Acham que por não terem se encontrado antes nunca havia se passado nada entre eles. Mas e as ruas, escadas, corredores nos quais há muito talvez se tenham cruzado? Queria lhes perguntar, se não […]
- [Eucanaã Ferraz - Sob a luz feroz do teu rosto](https://singularidadepoetica.art/2017/07/01/eucanaa-ferraz-sob-a-luz-feroz-do-teu-rosto/): “Sob a luz feroz do teu rosto”, um poema de Eucanaã Ferraz que transforma o amor impossível em metáfora selvagem: amar é desejar o que não pode ser tocado sem risco ou recusa.
- [Nelson Santander - Postudo (pós-"Pós-Tudo", Augusto de Campos e Os Hawaianos)](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/nelson-santander-postudo-poema/): Postudo, de Nelson Santander, paródia do famoso Pós-Tudo, de Augusto de Campos, atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Augusto de Campos - Pós-Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/augusto-de-campos-pos-tudo/)
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2017/06/16/jorge-luis-borges-labirinto/): Não haverá uma porta. Já estás dentro, Mas o alcácer abarca o universo E não tem nem anverso nem reverso Nem muro externo nem secreto centro. Não penses que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro o teu destino Como […]
- [Francis J. Quirós - Efêmero](https://singularidadepoetica.art/2017/06/05/efimero/): Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia: […]
- [Vinicius de Moraes - O poeta Hart Crane suicida-se no mar](https://singularidadepoetica.art/2017/05/23/vinicius-de-moraes-o-poeta-hart-crane-suicida-se-no-mar/): Quando mergulhaste na água Não sentiste como é fria Como é fria assim na noite Como é fria, como é fria? E ao teu medo que por certo Te acordou da nostalgia (Essa incrível nostalgia Dos que vivem no deserto…) Que te disse a Poesia? Que te disse a Poesia Quando Vênus que luzia No […]
- [Carlos Rennó - O Momento](https://singularidadepoetica.art/2017/05/15/carlos-renno-o-momento/): Tem um momento (que de todos é diverso) Em que você se une ao todo, ao universo O tempo então congela (feito lá no pólo) Seu ego some, seu eu ergue-se do solo E sai voando entre as estrelas na amplidão Você se torna uma delas na explosão Dentro de si você vê uma […]
- [Bill Knott - Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/05/09/bill-knott-morte/): Morte Perto de dormir, cruzo as mãos sobre o peito. Colocarão minhas mãos assim. Parecerá que estou a voar para dentro de mim mesmo. Death Going to sleep, I cross my hands on my chest. They will place my hands like this. It will look as though I am flying into myself. Trad.: Antonio Cicero […]
- [Abel Silva - Navegações](https://singularidadepoetica.art/2017/05/07/abel-silva-navegacoes/): Minha casa está calma, eu é que sou turbulento, o país navega, dizem, eu é que me arrebento eu é que sempre invento toda esta ventania eu é que não me contento com o rumo da romaria não sei se a sorte é cega ou eu que vivo a teimar: sei que eu sou o […]
- [Hilda Hilst - Roteiro do Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/05/03/roteiro-do-silencio/): Não há silêncio bastantePara o meu silêncio.Nas prisões e nos conventosNas igrejas e na noiteNão há silêncio bastantePara o meu silêncio.Os amantes no quarto.Os ratos no muro.A meninaNos longos corredores do colégio.Todos os cães perdidosPelos quais tenho sofrido:O meu silêncio é maiorQue toda solidão.E que todo silêncio.
- [Nelson Santander - Que a Terra lhe seja Leve](https://singularidadepoetica.art/2017/04/30/nelson-santander-que-a-terra-lhe-seja-leve/): "Que a terra lhe seja leve", uma crônica de Nelson Santander
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Gregorianos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/10/carlos-drummond-de-andrade-os-gregorianos/): Um amigo que tem consciência exacerbada do tempo confia-me que, depois de certo ponto (ele não usa a palavra idade), a vida já não oferece acontecimentos, e sim comemorações. — Por mais que o sujeito faça, não consegue realmente mover-se. Fica parado diante de formas movediças, como naquele romance do Zé Lins do Rego, que […]
- [Philip Larkin - Conversar na Cama](https://singularidadepoetica.art/2017/04/09/philip-larkin-conversar-na-cama/): Conversar na cama devia ser mais fácil Dois deitados juntos — é desde há muito Um símbolo de duas pessoas sendo francas. Ainda que mais e mais tempo passe em silêncio. Lá fora, a intérmina inquietação do vento Amontoa e dispersa nuvens pelo céu. E cidades escuras se empilham no horizonte. Nada disso se importa […]
- [Philip Larkin - A Primeira Coisa](https://singularidadepoetica.art/2017/04/08/philip-larkin-a-primeira-coisa/): A primeira coisa Que entendi foi esta: Tempo é o eco de um machado Dentro da floresta. Trad.: Luiz Roberto Guedes
- [Philip Larkin - A Igreja Indo-se...](https://singularidadepoetica.art/2017/04/06/philip-larkin-a-igreja-indo-se/): Quando estou certo de que nada está ocorrendo, Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta. Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dos Livrinhos; as juncadas secas, que se cortam Para o domingo; bronze e objetos a cobrir o Altar; um órgão impecável e pequeno; Silêncio tenso, de bolor, que […]
- [T. S. Eliot - Os Homens Ocos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/04/t-s-eliot-os-homens-ocos/): “A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada, […]
- [Álvaro de Campos - Poema em Linha Reta](https://singularidadepoetica.art/2017/04/03/alvaro-de-campos-poema-em-linha-reta/): Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado […]
- [José Saramago - Não me Peçam Razões](https://singularidadepoetica.art/2017/04/02/jose-saramago-nao-me-pecam-razoes-poema/): Não me peçam razões… Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos. Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não […]
- [Fernando Pessoa - Autopsicografia](https://singularidadepoetica.art/2017/04/01/fernando-pessoa-autopsicografia/): O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a […]
- [Joaquim Cardozo - Canção Elegíaca](https://singularidadepoetica.art/2017/03/29/joaquim-cardozo-cancao-elegiaca/): Quando os teus olhos fecharem Para o esplendor deste mundo, Num chão de cinza e fadigas Hei de ficar de joelhos; Quando os teus olhos fecharem Hão de murchar as espigas, Hão de cegar os espelhos. Quando os teus olhos fecharem E as tuas mãos repousarem No peito frio e deserto, Hão de morrer as […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Luis Mauricio, Infante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/28/carlos-drummond-de-andrade-a-luis-mauricio-infante/): Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo, se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho. Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário? Os olhos se […]
- [Neil Gaiman - A Escuridão Está à Espera](https://singularidadepoetica.art/2017/03/27/neil-gaiman-a-escuridao-esta-a-espera/): a chama vermelha bruxuleante no muro da caverna pintada de ocre, corante, carvão vegetal fazendo o alce se mover, fazendo o mastodonte respirar fazendo o caçador correr e matar. veja como procuram apaziguar e entender o mundo acima isso eles sabem isso eles entendem há escuridão por toda a parte lá fora o escuro está […]
- [Angela Melim - Meu pai nos abandonou](https://singularidadepoetica.art/2017/03/26/angela-melim-meu-pai-nos-abandonou/): Meu pai nos abandonou. Minha mãe casou e mudou. Vovó morreu. Os irmãos sumiram no mundo ou submundo. Sem explicação Yvonne nunca mais falou comigo e, para Ronaldo, sou fantasma do passado. Vejo meus filhos já voando. Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html
- [Luiz Olavo Fontes - Meu Amor de Soslaio](https://singularidadepoetica.art/2017/03/25/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio/): Faz tanto calor no Rio de Janeiro que é bom sentir essa neve partir de seu olhar in http://antoniocicero.blogspot.com.br/2008/07/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio.html
- [Emily Dickinson - Dizem que "O Tempo Consola"](https://singularidadepoetica.art/2017/03/22/emily-dickinson-dizem-que-o-tempo-consola/): Dizem que “O Tempo consola” — Mas não — na realidade, A vera dor, como um Tendão, Se fortalece, com a idade — O Tempo testa a Tristeza — Porém não a remedia — Se cura o Mal, prova apenas Que Mal deveras não havia — Trad.: Paulo Henriques Britto They say that “Time assuages” […]
- [Walter Savage Landor – Sobre a Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/03/20/walter-savage-landor-sobre-a-morte-poema/): "Sobre a morte", um poema de Walter Savage Landor
- [Samuel Taylor Coleridge – Kubla Khan](https://singularidadepoetica.art/2017/03/19/kubla-khan-samuel-taylor-coleridge/): Em Xanadu, um palácio de prazer Comanda-o Kubla Khan como um farol Onde Alph, rio sagrado, vem correr Através de cavernas sem mais ver Ao ser humano até um mar sem sol. Assim, milhas e milhas de bom solo, Cerca de muro e torres polo a polo: E lá jardins luzentes em ribeiros Curvos e […]
- [Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu](https://singularidadepoetica.art/2017/03/18/paulo-henriques-britto-geracao-paissandu/): Vim, como todo mundo do quarto escuro da infância, mundo de coisas e ânsias indecifráveis, de só desejo e repulsa. Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos, em tempo de seco fascismo. Por isso não tive pátria, só discos. Amei, como todos pensam. Troquei carícias cegas nos cinemas, li […]
- [Alberto da Cunha Melo - Lendo Emile Zola](https://singularidadepoetica.art/2017/03/17/alberto-da-cunha-melo-lendo-emile-zola/): O sol esgota os objetos: não me deixa dizer mais nada. Transforma em plantas os fantasmas que ontem dançavam no quintal. Mostra a burra realidade das coisas, o preço dos sonhos; água laminada levando, em ondas, o último mistério. Tudo foi dito da maneira mais cruel: um micro de sol escreveu em poucos segundos todos […]
- [Guillaume Apollinaire - A Ponte Mirabeau](https://singularidadepoetica.art/2017/03/16/guillaume-apollinaire-a-ponte-mirabeau/): Na Ponte Mirabeau, desliza o Sena E nossos amores E a memória acena: Alegria vem sempre após a pena Vem a noite, soa a hora Os dias vão, eu me demoro As mãos nas mãos, fiquemos face a face Enquanto abaixo Pela ponte dos nossos braços, passa. De olhar eterno a onda tão lassa. Vem […]
- [José Ángel Buesa - Ela Amará a Outro Homem](https://singularidadepoetica.art/2017/03/15/jose-angel-buesa-ela-amara-a-outro-homem-poema/): "Ela amará a outro homem", poema de José Ángel Buesa Ela amará a outro homem. Eu estarei longe, caminhando para o olvido. E pode ocorrer que alguém lembre meu nome, mas ela fingirá não tê-lo ouvido. (...)
- [Adriano Espínola - "Lamas" - Bar e Restaurante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/14/adriano-espinola-lamas-bar-e-restaurante/): A Horácio Dídimo À noite todos os lépidos são larápios, todos os otários são notórios, todas as lânguidas são lésbicas todas as cópulas são cédulas, todos os lúcidos são trágicos todos os bêbados são sábios.
- [Charles Bukowski - Feras Saltando Através do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/03/13/charles-bukowski-feras-saltando-atraves-do-tempo/): Van Gogh escrevendo para seu irmão pedindo tintas Hemingway testando seu rifle Céline fracassando como médico a impossibilidade de ser humano Villon expulso de Paris por ser um ladrão Faulkner bêbado pelas sarjetas da cidade a impossibilidade de ser humano Burroughs assassinando sua mulher com um tiro Mailer apunhalando a sua impossibilidade de ser humano […]
- [Wislawa Szymborska - As Cartas dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2017/03/12/wislawa-szymborska-as-cartas-dos-mortos/): Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes, mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores. Sabemos quais dívidas não foram pagas. Com quem as viúvas rapidamente se casaram. Pobres mortos, mortos cegos, enganados, falíveis, canhestramente previdentes. Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas. Capturamos o som de testamentos sendo rasgados. Sentados […]
- [Wislawa Szymborska - Bodas de Ouro](https://singularidadepoetica.art/2017/03/11/wislawa-szymborska-bodas-de-ouro/): Devem ter sido diferentes um dia, fogo e água, diferindo com veemência, sequestrando e se doando no desejo, no assalto à dessemelhança. Abraçados, apropriaram-se e expropriaram por tanto tempo, que nos braços restou o ar translúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta. Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outro […]
- [Wislawa Szymborska - Natureza-morta com um Balãozinho](https://singularidadepoetica.art/2017/03/10/wislawa-szymborska-natureza-morta-com-um-balaozinho/): Em vez da volta das lembranças na hora de morrer quero ter de volta as coisas perdidas. Pela porta, janela, malas, sombrinhas, luvas, casaco, para que eu possa dizer: Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente, rosa de papel, barbante, faca, para que eu possa dizer: Nada disto me faz falta. Esteja onde […]
- [Wislawa Szymborska - Nada Duas Vezes](https://singularidadepoetica.art/2017/03/09/wislawa-szymborska-nada-duas-vezes/): Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela […]
- [Wislawa Szymborska - A Cada Cem Pessoas](https://singularidadepoetica.art/2017/03/08/wislawa-szymborska-a-cada-cem-pessoas/): A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros: – cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo: – quase todas as outras. estão prontas a ajudar desde é claro que isso não lhes tome muito tempo: – quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas […]
- [Jaroslav Seifert - Vi Apenas uma Vez](https://singularidadepoetica.art/2017/03/01/jaroslav-seifert-vi-apenas-uma-vez/): Vi apenas uma vez um sol tão ensanguentado. E nunca mais Descia funesto sobre o horizonte e parecia que alguém havia escancarado as portas do inferno. Perguntei pelo observatório astronômico e hoje sei o porquê. O inferno, conhecemos: está em toda parte e caminha sobre duas pernas. […]
- [Gary Snyder - Dezembro em Yase](https://singularidadepoetica.art/2017/02/20/gary-snyder-dezembro-em-yase/): Naquele Outubro em que escolheu ser livre na grama alta e seca junto ao pomar você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te vi só mais uma vez. Você estava estranha. E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anos e até mais um […]
- [Yehuda Amichai - O Corpo é a Causa do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/02/19/yehuda-amichai-o-corpo-e-a-causa-do-amor/): Primeiro o corpo é a causa do amor depois a fortaleza que o protege por fim seu cárcere. E quando o corpo morre, o amor jorra caudalosamente como de um caça-níqueis clandestino quebrado jorram de súbito com estrondo todas as moedas de gerações e gerações entregues à própria sorte.
- [William Shakespeare - Romeu e Julieta (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/02/18/william-shakespeare-romeu-e-julieta-excerto/): “Esses prazeres violentos têm fins violentos e morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, que, ao se beijarem, se consomem. O mais doce mel repugna por sua própria doçura, e seu sabor confunde o paladar. Portanto, ama com moderação. O amor duradouro é moderado. Quem corre demais chega tão atrasado como aquele […]
- [Nicanor Parra - O que ganha um velho ao fazer ginástica?](https://singularidadepoetica.art/2017/02/11/nicanor-parra-o-que-ganha-um-velho-ao-fazer-ginastica/): e o que ganha falando ao telefone? e o que ganha ficando famoso? e o que ganha um velho olhando-se no espelho? Nada afundar cada vez mais na lama Já são três ou quatro da madrugada – por que não trata de dormir? mas não – tome ginástica tome ligações de longa distância tome Bach […]
- [Wislawa Szymborska -Retornos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/10/wislawa-szymborska-retornos/): Voltou. Não disse nada. Mas estava claro que teve algum desgosto. Deitou-se vestido. Cobriu a cabeça com o cobertor. Encolheu as pernas. Tem uns quarenta anos, mas não agora. Existe – mas só como na barriga da mãe na escuridão protetora, debaixo de sete peles. Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica. […]
- [Jorge Luis Borges - Os Justos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/09/jorge-luis-borges-os-justos/): Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra exista música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não […]
- [Antero de Quental - Nox](https://singularidadepoetica.art/2017/02/08/antero-de-quental-nox/): Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos… Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia… O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece alguns momentos… Oh! Antes tu também […]
- [John Keats - Ode sobre a Indolência](https://singularidadepoetica.art/2017/02/07/john-keats-ode-sobre-a-indolencia/): I Numa certa manhã eu vi as três as figuras, Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,Seguindo atrás da outra, mudas e seguras, Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;Como formas de mármore em alto-relevo Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,Mostraram-se mais uma vez como […]
- [John Keats - Do Endymion](https://singularidadepoetica.art/2017/02/06/john-keats-do-endymion/): O que é belo há de ser eternamente Uma alegria, e há de seguir presente. Não morre; onde quer que a vida breve Nos leve, há de nos dar um sono leve, Cheio de sonhos e de calmo alento. Assim, cabe tecer cada momento Nessa grinalda que nos entretece À terra, apesar da pouca messe […]
- [Yehuda Amichai - Outra Vez o Amor Terminou](https://singularidadepoetica.art/2017/02/05/yehuda-amichai-outra-vez-o-amor-terminou/): Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas, ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezas coisas comovidas que buscavam o esquecimento. Outra vez o amor terminou. E como depois de se demolir uma casa grande e retirar os escombros, visitamos o terreno vazio e quadrado e dizemos: como […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Nenhuma Arte"](https://singularidadepoetica.art/2017/02/04/paulo-henriques-britto-sem-titulo/): Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada, não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, […]
- [Konstantinos Kaváfis - A Origem](https://singularidadepoetica.art/2017/02/03/konstantinos-kavafis-a-origem/): “A Origem”, um poema de Konstantinos Kaváfis que revela como o instante clandestino do desejo se transmuta, no tempo, em matéria secreta da poesia.
- [Ezra Pound - E os dias...](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/ezra-pound-e-os-dias/)
- [Walter de la Mare - Os que Ouviam](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/walter-de-la-mare-os-que-ouviam/): ‘Tem alguém em casa?’ indagou o Viajante Defronte à porta enluarada; Seu cavalo no silêncio ruminava o capim Da forragem fértil e enfolhada: E uma ave voou para muito além da torre, Acima de sua cabeça: E de novo a porta ele outra vez castigou; ‘Tem alguém em casa?’ ele disse. Mas ninguém desceu para […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Eppur Si Muove](https://singularidadepoetica.art/2017/02/01/affonso-romano-de-santanna-eppur-si-muove/): Não se pode calar um homem Tirem-lhe a voz, restará o nome. Tirem-lhe o nome e em nossa boca restará a sua antiga fome. Matar, sim, se pode. Se pode matar um homem. Mas sua voz, como os peixes, nada contra a corrente a procriar verdades novas na direção contrária à foz. Mente quem fala […]
- [Ricardo Silvestrin - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/01/31/ricardo-silvestrin-sem-titulo/): ruas têm coração de pedra não espere nada do seu amor por elas a não ser cimento, asfalto e uma família nova na casa de um velho conhecido quando menos se espera uma rua muda de sentido
- [Bertolt Brecht - Se fôssemos infinitos...](https://singularidadepoetica.art/2017/01/29/bertolt-brecht-se-fossemos-infinitos/)
- [Domingos Pellegrini - Com Brecht](https://singularidadepoetica.art/2017/01/28/domingos-pellegrini-com-brecht/)
- [Domingos Pellegrini - Mudanças](https://singularidadepoetica.art/2017/01/27/domingos-pellegrini-mudancas/)
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/17/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere-2/): IV Só não dói mais porque não é preciso. Se fosse o caso, a dor era pior. Não há nada nisso de extraordinário: A natureza odeia o desperdício, tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr. É exatamente a conta necessária, até que alguma solução se encontre. O que aliás não acontece nunca. E isso […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/16/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere/): I A seletividade da memória — a cor exata da pele, a textura, o odor de cada côncavo e orifício, o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e a saliva, a coxa arisca, a dobra escura, o beijo salobro, o sabor difícil, a carne assombrada, o esperma […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetóides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/15/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos/): IV Também já estive aí, no não lugar onde você agora não se encontra. Também não me encontrei. Aliás, foi justamente contra a tal necessidade de seguir alguma rota que jurei lutar. Lutei, perdi, e pronto: agora estou aqui, a alguns centímetros do meu próprio umbigo Se tudo correr bem, também a tua derrota vai […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/14/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-2/): ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porém só surge em pleno ar. E não renego a rota tonta que segui. Ninguém se faz em linhas retas. Todo porto a que se chega é a meta desejada. E o caminho tomado, por mais torto, acaba sempre sendo a exata […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Duas Bagatelas"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/13/paulo-henriques-britto-de-duas-bagatelas/): II Então viver é isso, é essa obrigação de ser feliz a todo custo, mesmo que doa, de amar alguma coisa, qualquer coisa, uma causa, um corpo, o papel em que se escreve, a mão, a caneta até, amar até a negação de amar, mesmo que doa, então viver é só esse compromisso com a […]
- [Paulo Henriques Britto - Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2017/01/12/paulo-henriques-britto-epilogo/): Finda a leitura, o livro está completo em sua solidão mais-que-perfeita de couro falso e íntimo papel. Lá fora, o mundo segue, arquitetando as mesmas contingências costumeiras que nunca esbarram numa irrefutável conclusão que se possa resumir em três letras letais, inalienáveis. Que paz será possível nessa selva sem índices, prefácios, rodapés? indaga, da estante […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/11/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria/): VII Nada disso foi do jeito que eu quis. Se fosse como eu quis, não haveria de ser tão sofrido, tão infeliz. Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sinto como quem tem não o que foi pedido, e sim o que, guiado pelo instinto, […]
- [Antonio Cicero - Nênia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-nenia/): A morte nada foi para ele, pois enquanto vivia não havia a morte e, agora que há, ele já não vive. Não temer a morte tornava-lhe a vida mais leve e o dispensava de desejar a imortalidade em vão. Sua vida era infinita, não porque se estendesse indefinidamente no tempo mas porque, como um campo visual, não tinha limite. […]
- [Carlos Pena Filho - A Solidão e sua Porta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-pena-filho-a-solidao-e-sua-porta/): Quando mais nada resistir que valhaa pena de viver e a dor de amare quando nada mais interessar,(nem o torpor do sono que se espalha). Quando pelo desuso da navalhaa barba livremente caminhare até Deus em silêncio se afastardeixando-te sozinho na batalha a arquitetar na sombra a despedidado mundo que te foi contraditório,lembra-te que afinal […]
- [Emily Dickinson - Cemitério](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/emily-dickinson-cemiterio/): Este pó foram damas, cavalheiros, Rapazes e meninas; Foi riso, foi espírito e suspiro, Vestidos, tranças finas. Este lugar foram jardins que abelhas E flores alegraram. Findo o verão, findava o seu destino… E como estes, passaram. Trad.: Manuel Bandeira
- [Robinson Jeffers - The Inhumanist (Parte II de "The Double Axe") (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/robinson-jefferson-the-inhumanist-part-ii-of-the-double-axe/): Chegará um tempo, sem dúvida,Em que também o sol morrerá; os planetas congelarãoe o ar sobre eles; gases congelados, com flocos de arSerão a poeira: que nenhum vento jamais bulirá:essa poeira mesma a cintilar à luz baixa dos astrosÉ o vento morto, o corpo branco do vento. Também a galáxia morrerá; o brilho da Via […]
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-poema/): A PANTERA – trad. Augusto de Campos (No Jardin des Plantes, Paris) De tanto olhar as grades seu olharesmoreceu e nada mais aferra.Como se houvesse só grades na terra:grades, apenas grades para olhar. A onda andante e flexível do seu vultoem círculos concêntricos decresce,dança de força em torno a um ponto ocultono qual um grande […]
- [Ian Curtis - 24 Hours](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/ian-curtis-24-hours/): https://youtu.be/3zo4JdTfDw0 24 Horas Então isso é a permanência – o orgulho despedaçado do amor O que uma vez foi inocência perdeu sua vez Uma nuvem paira sobre mim, marca cada movimento Fundo na memória do que uma vez foi amor Oh, como eu compreendi, como eu queria tempo para Colocar em perspectiva. Tentei tanto encontrar […]
- [Augusto de Campos - o pulsar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-pulsar/)
- [Augusto de Campos - o quasar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-quasar/): Conheça outros livros de Augusto de Campos clicando aqui
- [Augusto de Campos - Tudo Está Dito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tudo-esta-dito/)
- [Augusto de Campos - Morituro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-morituro/)
- [Augusto de Campos - Tour](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tour/)
- [Augusto de Campos - Pó do Cosmos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-po-do-cosmos/)
- [Ferreira Gullar - Voltas Para Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ferreira-gullar-voltas-para-casa/): Depois de um dia inteiro de trabalho voltas para casa, cansado. Já é noite em teu bairro e as mocinhas de calças compridas desceram para a porta após o jantar. Os namorados vão ao cinema. As empregadas surgem das entradas de serviço. Caminhas na calçada escura. Consumiste o dia numa sala fechada, lidando com papéis […]
- [Mario Quintana - Amor Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/mario-quintana-amor-eterno/): Dante se enganou: Paolo e Francesca Continuariam bem juntinhos no Inferno, com pecado e tudo Juntinhos e felizes! Mas quem sabe se não seria este mesmo o castigo divino? Um amor que jamais pudesse terminar…
- [Dante Milano - Ao Tempo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/dante-milano-ao-tempo/): Tempo, vais para trás ou para diante? O passado carrega a minha vida Para trás e eu de mim fiquei distante, Ou existir é uma contínua ida E eu me persigo nunca me alcançando? A hora da despedida é a da partida A um tempo aproximando e distanciando… Sem saber de onde vens e aonde […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Carnaval](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-de-carnaval/): Distante o meu amor, se me afigura O amor como um patético tormento Pensar nele é morrer de desventura Não pensar é matar meu pensamento. Seu mais doce desejo se amargura Todo o instante perdido é um sofrimento Cada beijo lembrado uma tortura Um ciúme do próprio ciumento. E vivemos partindo, ela de mim E […]
- [Horácio - Ode XI, I](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/horacio-ode-xi-i-poema/): não me perguntes — é vedado saber — o fim que a mim e a ti darão os deuses Leucônoe nem babilônios números consultes antes o que for recebe quer te atribua Júpiter muitos invernos quer o último que o mar tirreno debilita com abruptas r o c h a s bebe […]
- [Petrarca - Soneto XXXII](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/petrarca-soneto-xxxii/): Quanto mais perto estou do dia extremo Que o sofrimento humano torna breve, Mais vejo o tempo andar veloz e leve E o que dele esperar falaz e menos. E a mim me digo: Pouco ainda andaremos De amor falando, até que como neve Se dissolva este encargo que a alma teve, Duro e pesado, […]
- [Konstantínos Kaváfis - Míris: Alexandria, 340 d. c.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/konstantinus-kavafis-miris-alexandria-340-d-c/): Quando eu soube da tragédia, que Míris estava morto,fui até sua casa, embora eviteentrar nas casas dos cristãos,principalmente em épocas de luto ou de festividades. Fiquei no corredor. Não quisavançar mais para dentro, porque percebique os parentes do morto me olhavamcom evidente surpresa e desagrado. Tinham-no colocado num cômodo amplodo qual, do ponto onde permaneci,eu […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Traduzido de Kleist](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/sophia-de-mello-breyner-andresen/): Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhanteE brilha sobre campos mais floridosMas os olhos que vêem essas maravilhasSão olhos apodrecidos
- [Antonio Cicero - Sair](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-sair/): Largar o cobertor, a cama, o medo, o terço, o quarto, largar toda simbologia e religião; largar o espírito, largar a alma, abrir a porta principal e sair. Esta é a única vida e contém inimaginável beleza e dor. Já o sol, as cores da terra e o ar azul – o céu do dia […]
- [Antonio Cicero - Perplexidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-perplexidade/): Não sei bem onde foi que me perdi; talvez nem tenha me perdido mesmo, mas como é estranho pensar que isto aqui fosse o meu destino desde o começo.
- [Giuseppe Ungaretti - Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-eterno/): Entre uma flor colhida e o dom de outra o nada inexprimível Trad.: Haroldo de Campos Eterno Tra un fiore colto e l’ altro donato l’ inesprimibile nulla.
- [Giuseppe Ungaretti - De uma Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-de-uma-estrela-a-outra/): Daquela estrela à outra A noite se encarcera Em turbinosa vazia desmesura, Daquela solidão de estrela Àquela solidão de estrela Trad: Haroldo de Campos
- [Salvatore Quasimodo - E de repente é noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite/): Cada um está só no coração da terra traspassado por um raio de sol: e de repente é noite. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Jorge Luis Borges - Limites](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/jorge-luis-borges-limites/): Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar, Há uma rua próxima que está vedada a meus passos, Há um espelho que me viu pela última vez, Há uma porta que fechei até o fim do mundo. Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os) Há algum que já nunca abrirei. Este verão […]
- [Antero de Quental - Divina Comédia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antero-de-quental-divina-comedia/): Erguendo os braços para o Céu distante E apostrofando os deuses invisíveis, Os homens clamam: – «Deuses impassíveis, A quem serve o destino triunfante, Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inextinguíveis, Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis, Num turbilhão cruel e delirante… Pois não era melhor na paz clemente Do […]
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-outrora-e-agora/): De manhã era feliz, quando jovem, E à noite chorava; já hoje, mais velho, Começo meu dia em dúvida, porém Seu fim é para mim sagrado e sereno. Trad.: Antonio Cicero Ehmals und jetzt In jüngern Tagen war ich des Morgens froh, Des Abends weint’ich; jetzt, da ich älter bin, Beginn ich zweifelnd meinen Tag, […]
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-a-brevidade/): “Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora, O canto? Quando jovem, não chegavas, Nos dias de esperança, Nunca ao fim, quando cantavas!” Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebol Banhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está fria E o pássaro da noite esvoaça incomodamente aos olhos teus. […]
- [Rainer Maria Rilke - A Morte do Poeta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/rainer-maria-rilke-a-morte-do-poeta-poema/): Jazia. A sua face, antes intensa, pálida negação no leito frio, desde que o mundo, e tudo o que é presença, dos seus sentidos já vazio, se recolheu à Era da Indiferença. Ninguém jamais podia ter suposto que ele e tudo estivessem conjugados e que tudo, essas sombras, esses prados, essa água mesma eram o […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto do Gato Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-do-gato-morto/): Um gato vivo é qualquer coisa linda Nada existe com mais serenidade Mesmo parado ele caminha ainda As selvas sinuosas da saudade De ter sido feroz. À sua vinda Altas correntes de eletricidade Rompem do ar as lâminas em cinza Numa silenciosa tempestade. Por isso ele está sempre a rir de cada Um de nós, […]
- [Wislawa Szymborska - O primeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/wislawa-szymborska-o-primeiro-amor/): Dizem que o primeiro amor é o mais importante. Isso é muito romântico, mas não é o meu caso. Algo entre nós houve e não houve, se deu e se perdeu. Não me tremem as mãos quando encontro as pequenas lembranças e o maço de cartas atadas com barbante se ao menos fosse uma fita. […]
- [Ian Hamilton - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ian-hamilton-epitafio/): O aroma de rosas velhas e tabaco Faz-me regressar. Há quase vinte anos Que não nos vemos E a nossa desapegada paixão continua. Foi isto que me deixaste: A mão, entreaberta, imóvel Sobre uma colcha verde. O bastante para erguer Alguns poemas melancólicos. Se então eu te houvesse tocado Um de nós podia ter sobrevivido. […]
- [Fernando Pessoa - Poema 165 (Cancioneiro)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/fernando-pessoa-poema-165-cancioneiro/): Tenho tanto sentimento Que é freqüente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a […]
- [Pedro Salinas - Não Te Vejo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/pedro-salinas-nao-te-vejo/): Não te vejo. Bem sei que estás aqui, atrás de uma frágil parede de ladrilhos e cal, bem ao alcance da minha voz, se chamasse. Mas não chamarei. Chamarei amanhã, quando, ao não te ver mais imagine que continuas aqui perto, ao meu lado, e que basta hoje a voz que ontem eu não quis […]
- [William Butler Yeats - Viajando para Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-b-yeats-viajando-para-bizancio-poema/): Aquela não é terra para velhos. Gente jovem, de braços dados, pássaros nas ramas — gerações de mortais — cantando alegremente, salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas, peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente. Ao som da música sensual, o mundo esquece […]
- [W. H. Auden - Blues Fúnebre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-h-auden-blues-funebre/): BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone, jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais, que emudeça o piano e que o tambor sancione a vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço, escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu. Que […]
- [Giuseppe Ungaretti - San Martino del Carso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ungaretti-san-martino-del-carso/): Valloncello dell’Albero Isolato, 27 de agosto de 1916 Destas casas nada sobrou senão alguns pedaços de muro De quantos me foram próximos nada sobrou nem tanto No coração porém nenhuma cruz me falta É o meu coração a região mais destroçada Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – San Martino Del Carso Valloncello dell’Albero Isolato […]
- [Vinicius de Moraes - Poema de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-poema-de-natal/): Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos — Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/cassiano-ricardo-a-graca-triste/): Só me resta agora Esta graça triste De te haver esperado Adormecer primeiro. Ouço agora o rumor Das raízes da noite, Também o das formigas Imensas, numerosas, Que estão, todas, corroendo As rosas e as espigas. Sou um ramo seco Onde duas palavras Gorjeiam. Mais nada. E sei que já não ouves Estas vãs palavras. […]
- [Ezra Pound - Canto LXXXI (fragmentos)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/16/ezra-pound-canto-lxxxi-fragmentos/): O que amas de verdade permanece,o resto é escória.O que amas de verdade não te será arrancadoO que amas de verdade é tua herança verdadeiraMundo de quem, meu ou delesOu não é de ninguém?Veio o visível primeiro, depois o palpávelElísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,O que amas de verdade é tua herança verdadeiraO […]
- [Otto Renê Castillo – Os Amantes](https://singularidadepoetica.art/2018/04/10/otto-rene-castilho-os-amantes/): "Os Amantes", um poema de Otto René Castillo que retrata um encontro breve e uma separação dolorosa, transformando o último beijo dos amantes em metáfora cósmica — um planeta azul cuja luz continua a sustentar suas vidas mesmo na ausência.
- [Charles Bukowski – Para Jane Cooney Baker, morta em 22/01/1962](https://singularidadepoetica.art/2018/04/09/charles-bukowski-para-jane-cooney-baker-morta-em-22-01-1962/): e então você se foime deixando aquinum quarto com uma cortina rasgadae o Idílio de Siegfried tocando no radinho vermelho. e então você se foi tão rápidoquanto quando você veio pra mim,e nós tínhamos dito adeus antes,e quando eu estava limpando seu rosto e lábiosvocê abriu os maiores olhos que eu já tinha vistoe disse […]
- [Manuel António Pina - Talvez de noite (1)](https://singularidadepoetica.art/2018/04/08/manuel-antonio-pina-talvez-de-noite-1/): À minha volta tudo envelheceu como se fosse eu, e no entanto uma casa, ou um espaço em branco entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido. Pois nada surge com a sua própria forma. Digo “casa”, mas refiro-me a luas e umbrais, a lembranças extenuadas, às trevas do corpo, lúcidas, latejando na obscuridade de […]
- [Francisca Aguirre – E se, depois de tudo](https://singularidadepoetica.art/2018/04/07/francisca-aguirre-e-se-depois-de-tudo/): E se, depois de tudo, fosse o resto um ir morrendo para ao fim morrermos por este louco afã de convertermo-nos em contadores de um momento lesto. E se afigura que o correto era este sermão que vem nos repetir que avança o furacão de nos ferir, e é vã e absurda esta carreira. Então […]
- [Hilda Hilst - de "Do Desejo"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/06/hilda-hilst-de-do-desejo/)
- [Yehuda Amichai – Na história do nosso amor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/05/yehuda-amichai-na-historia-do-nosso-amor/): Na história do nosso amor, um foi sempre Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo. Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado. O tempo passará por nós, como paisagens Passam por trás de atores parados em suas marcas Quando se roda um filme. As palavras Passarão por nossos lábios, até as lágrimas […]
- [Miguel Torga – Comunicado](https://singularidadepoetica.art/2018/04/04/miguel-torga-comunicado/): Na frente ocidental nada de novo. O povo Continua a resistir. Sem ninguém que lhe valha, Geme e trabalha Até cair.
- [Pedro Salinas - De "La voz a ti debida" [39]](https://singularidadepoetica.art/2018/04/03/pedro-salinas-de-la-voz-a-ti-debida-39/): A tua forma de amaré deixar-me que te queiras.O sim com que tu te rendesé o silêncio. Teus beijossão oferecer-me os lábiospara que eu possa beija-los.Jamais palavras, abraços,me dirão que existias,que me quiseste: jamais.Dizem-mo as folhas brancas,mapas, augúrios, chamadas;tu, não.E fico abraçado a tisem perguntar-te, de medoque não seja verdadeiroque tu vives e me ama.E […]
- [Júlio Mendonça - Galáxias](https://singularidadepoetica.art/2018/04/02/julio-mendonca-galaxias/)
- [Sylvia Plath – Limite](https://singularidadepoetica.art/2018/04/01/sylvia-plath-limite/): A mulher está perfeita. Seu corpo Morto enverga o sorriso de completude, A ilusão de necessidade Grega voga pelos veios da sua toga, Seus pés Nus parecem dizer: Já caminhamos tanto, acabou. Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca, Uma para cada pequena Tigela de leite vazia. Ela recolheu-as todas Em seu corpo, como pétalas Da […]
- [Manuel António Pina – Depois](https://singularidadepoetica.art/2018/03/31/manuel-antonio-pina-depois/): Primeiro sabem-se as respostas. As perguntas chegam depois, como aves voltando a casa ao fim da tarde e pousando, uma a uma, no coração quando o coração já se recolheu de perguntas e de respostas. Que coração, no entanto, pode repousar com o restolhar de asas no telhado? A dúvida agita os cortinados e nos […]
- [Mary Oliver – Como é conosco, e como é com eles](https://singularidadepoetica.art/2018/03/30/mary-oliver-como-e-conosco-e-como-e-com-eles/): Nós nos tornamos religiosos, depois nos afastamos disso, depois ficamos carentes e talvez voltemos atrás. Nos dedicamos a ganhar dinheiro, depois nos voltamos para a vida moral, depois pensamos novamente em dinheiro. Conhecemos pessoas maravilhosas, mas as perdemos para os nossos negócios. Estamos, como diz o refrão, por toda parte. A constância, aparentemente, tem mais […]
- [Laia Noguera i Clofent – Sem título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/29/laia-noguera-i-clofent-sem-titulo/): Amo a vida simples, sentar-me à entrada para ver o ir e vir das pessoas, como se move um pardal, como se inclina a tarde nas casas do corpo. Já sei que morrerei muito antes de morrerem as árvores que amo. Mas nada me preocupa, porque no instante em que se me romper o último […]
- [Nicanor Parra – Composições](https://singularidadepoetica.art/2018/03/28/nicanor-parra-composicoes/): I Cuidado, todos mentimos Mas eu proclamo a verdade. A matemática enfada Mas nos dá o de comer. Por outro lado, se escreve Poema para viver Ninguém gosta de assumir Culpa por vidros quebrados. Se escreve contra si mesmo Em virtude dos demais Que indecente é fazer versos! Quando menos se esperar Darei um tiro […]
- [Anne Sexton – A Terra Desmorona](https://singularidadepoetica.art/2018/03/27/anne-sexton-a-terra-desmorona/): Se eu pudesse culpar o clima por tudo, a neve como a mesa de dissecação, as árvores que se tornam agulhas de tricô, o chão, tão rijo como uma arinca congelada, o lago vestindo seu bigode de geada. Se eu pudesse culpar tais circunstâncias, se eu pudesse culpar os corações de estranhos descendo as ruas […]
- [Aldo Oliva – O Elevador de Hera](https://singularidadepoetica.art/2018/03/26/aldo-oliva-o-elevador-de-hera/): Dizem os insetos sensatos e sensíveis que as paredes e os grandes muros são apenas um hausto veemente conjurando o nada, o infinito. Por estes ladrilhos de não-ser ascendem, como habitáculos de fúria, os corpos corrompidos das palavras. Quem me impôs, rasgando minha inocência animal na base da minha profundidade biológica, esta ascensão conjetural? Só […]
- [Carlos Saraiva Pinto – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/25/carlos-saraiva-pinto-sem-titulo-poema/): Sem Título, um poema de Carlos Saraiva Pinto
- [José Lino Grünewald - Soneto Burocrático](https://singularidadepoetica.art/2018/03/24/jose-lino-grunewald-soneto-burocratico-poema/): Salvo melhor juízo doravante, Dessarte, data vênia, por suposto, Por outro lado, maximé, isso posto, Todavia deveras, não obstante Pelo presente, atenciosamente, Pede deferimento sobretudo, Nestes termos, quiçá, aliás, contudo Cordialmente alhures entrementes Sub-roga ao alvedrio ou outrossim Amiúde nesse ínterim, senão Mediante qual mormente, oxalá quão Via de regra te-lo-ão enfim Ipso facto outorgado, […]
- [Marcelo Montenegro - Forte Apache](https://singularidadepoetica.art/2018/03/23/marcelo-montenegro-forte-apache/): Noel Rosa dizia que era universal sem sair de seu quarto. Elvis Costello disse que o rock ‘n’ roll não morrerá porque sempre vai ter um garoto trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém nunca viu. Laura Riding, por seu turno, falava da pretensão de “escrever sobre um assunto/ que tocasse todos os assuntos/ […]
- [Charles Bukowski – Agarre o Escuro](https://singularidadepoetica.art/2018/03/22/charles-bukowski-agarre-o-escuro/): estou sentado aqui agora bêbado escutando as mesmas sinfonias que me deram a vontade de seguir em frente quando eu tinha 22 anos. 40 anos depois elas e eu já não somos mais tão mágicos. você deveria ter-me visto tão esbelto sem barriga eu era um pedaço de homem: flamejante, forte, insano. dissesse uma palavra […]
- [Antonia Pozzi – Pausa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/21/antonia-pozzi-morte-de-uma-estacao/): Parecia-me que este dia sem ti devia ser inquieto, escuro. Em vez disso está repleto de uma estranha doçura, que aumenta com o passar das horas – quase como a terra após um aguaceiro, que fica sozinha no silêncio a beber a água caída e pouco a pouco nas veias mais profundas se sente penetrada. […]
- [Marcelo Montenegro - Três Pensatos](https://singularidadepoetica.art/2018/03/20/marcelo-montenegro-tres-pensatos/): 1. penso naquela única gota gelada do chuveiro quente. Nas ilíadas clandestinas que a febre percorre até virar suor. Penso nas caretas que os músicos fazem quando estão solando. No meu pai me dizendo que tudo isso aqui era mato. Penso na imagem exata de uma aurora indecisa. Penso em calços de papelão para pianos […]
- [Ana Martins Marques – História](https://singularidadepoetica.art/2018/03/19/ana-martins-marques-historia/): Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem um história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma […]
- [Charles Bukowski – Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/03/18/charles-bukowski-um-poema-de-amor/): “Um poema de amor”, um poema de Charles Bukowski que atravessa corpos e quartos para revelar, sob a crueza do desejo, a necessidade humana de afeto que sustenta e inquieta.
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Os Erros](https://singularidadepoetica.art/2018/03/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-2/): A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a […]
- [Ricardo Domeneck – Doentes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ricardo-domeneck-doentes/): Doentes. Nós, todos doentes. Há tanto doentes todos. Nós. Pungidos, conquanto impunes. Não, não impunes. Não se constrói impune a casa sobre covas. Não se ergue o prédio em grão-cemitério. Não sem velar e lavar carinhosos e doridos os ossos e os dentes. Não impunes. Doentes de cada gota derramada. Por nós ou avós. Os […]
- [Ana Martins Marques – a parte que me cabe](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ana-martins-marques-a-parte-que-me-cabe/): a parte do teu corpo que procura pelo sol como os gatos pela casa a parte que permanece imóvel quando cantas, aquela que se move quando estás parado a parte que apenas a mim e de relance, por descuido revelaste a parte onde guardas as memórias de infância, a parte que ainda anseia pelo futuro […]
- [Charles Bukowski – Os Gênios da Raça](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/charles-bukowski-os-genios-da-raca/): não há nada a discutir não há nada a lembrar não há nada a esquecer é triste e não é triste parece que a coisa mais sensata que uma pessoa pode fazer é se sentar com uma bebida na mão enquanto as paredes acenam seus sorrisos de adeus alguns passam por tudo isso com uma […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Escuto](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-escuto/): Escuto mas não sei Se o que ouço é silêncio Ou deus Escuto sem saber se estou ouvindo O ressoar das planícies do vazio Ou a consciência atenta Que nos confins do universo Me decifra e fita Apenas sei que caminho como quem É olhado, amado e conhecido E por isso em cada gesto ponho […]
- [Charles Bukowski – Outra Cama](https://singularidadepoetica.art/2018/03/14/charles-bukowski-outra-cama/): outra cama outra mulher mais cortinas outro banheiro outra cozinha outros olhos outro cabelo outros pés e dedos. todos à procura. a busca eterna. você fica na cama ela se veste para o trabalho e você se pergunta o que aconteceu à última e à outra antes dela… é tudo tão confortável — esse fazer […]
- [Eloy Sánchez Rosillo - Aviso aos Caminhantes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/13/eloy-sanchez-rosillo-aviso-aos-caminhantes/): Na soma de dias indeterminados que a vida dá ao homem, talvez exista um em que o destino, trágico e belo, passe ao nosso lado e o acaso acenda uma insólita luz, um incomum fulgor inconfundível. Mas não hesites. Tem coragem, quando chegar o momento, de abandonares as coisas com que os hábitos sempre te […]
- [Marcia Vinci – Mãe Solteira](https://singularidadepoetica.art/2018/03/12/marcia-vinci-mae-solteira/): dadeira parideira nutriz criadeira toda mãe é sozinha toda mãe é solteira
- [Vicente Gaos - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2018/03/11/vicente-gaos-testamento/): Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil anos de idade, de estado civil solitário, instável domiciliado/refugiado em um canto do cosmos, profissão náufrago na sombra, sem documento de identidade, sem títulos, condecorações nem diplomas de qualquer tipo, nenhum sinal particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo, sem nenhuma cicatriz além […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Perdão, falava em voz alta](https://singularidadepoetica.art/2018/03/10/ernesto-perez-vallejo-perdao-falava-em-voz-alta/): Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguém Nunca poderão decepcioná-la. A esperança é aquele relógio que sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezes como diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes. Mas, quando tristes, […]
- [Javier Salvago - Fim de Festa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/09/javier-salvago-fim-de-festa/): Enfim sós, vida. A festa acabou e não há mais ninguém que possa nos obrigar a forçar sorrisos, ou a inventar incômodas mentiras piedosas. Todos sumiram. Despe-te sem medo. Conheço as velhas rugas de tua carne triste. Acariciei-as. Sei o que teu rosto oculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncio […]
- [Luis Cernuda – No Meio da Multidão](https://singularidadepoetica.art/2018/03/08/luis-cernuda-no-meio-da-multidao/): Em meio à multidão a vi passar, com seus olhos tão dourados quanto seus cabelos. Caminhava cortando o ar e os corpos; uma mulher se ajoelhou em seu caminho. Senti como o sangue desertava de minhas veias gota a gota. Vazio, andei sem rumo pela cidade. Gente estranha passava a meu lado sem me ver. […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Insônia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/07/luis-alberto-de-cuenca-insonia/): A vida dura muito pouco. Não dá tempo de se fazer nada. Não há meios de reunir dias suficientes para aprender algo. Levantas, abraças tua namorada, tomas teu café da manhã, trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema, e nem sequer tens um momento para ler Sêneca e acreditar que tudo neste mundo tem conserto. A […]
- [Charles Bukowski – Até](https://singularidadepoetica.art/2018/03/06/charles-bukowski-ate/): Nós temos que viver com a perda e talvez jogar com uma mão de cartas ruim e nós sabemos o tempo todo qual é o placar. Nós o suportamos como Hemingway ou o descartamos como Camus mas nós sabemos nós sabemos. É assim que funciona e damos corda no relógio e esperamos pela madrugada ou […]
- [Manuel António Pina - Sétimo Dia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/05/manuel-antonio-pina-setimo-dia/): Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua morte para a nossa vida como quem regressa a casa de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países, e agora é como se te tivéssemos sonhado. A voz que, diante da escuridão, suspendemos quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti erguemo-la de […]
- [A. M. Pires Cabral – Pirilampos III](https://singularidadepoetica.art/2018/03/04/a-m-pires-cabral-pirilampos-iii/): Mas também estes negadores das trevas desertaram: Já não se vêem pirilampos, o seu lume deixou de desmentir a escuridão. Apagaram a lanterna, retiraram para um lugar qualquer onde talvez já não valha a pena alumiar – algures entre o frio e o esquecimento (se é que frio e esquecimento não são nomes alternativos da […]
- [Josep M. Rodríguez - Primeira Visita ao Zoológico](https://singularidadepoetica.art/2018/03/03/josep-m-rodriguez-primeira-visita-ao-zoologico/): Tinha doze anos e a minha mãe me presenteava com um mundo só para mim: – Se a tristeza fosse um animal? – Se a tristeza fosse um animal… seria um besouro. E dizia-lhe então que havia dias em que esse besouro fabricava uma bola muito grande na minha garganta. Os olhos da minha mãe […]
- [Joaquín Benito de Lucas – Elegia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/02/joaquin-benito-de-lucas-elegia/): Quando agora retorno à minha cidade, não posso conter a emoção de saber que não me esperam. Não me espera meu pai, que desceu rio abaixo muito lentamente entre os juncos, sob pontes de névoa. Não me espera meu irmão, que me esperava sempre ao lado de um balcão qualquer, em uma rua qualquer brindando […]
- [Rosario Castellanos - Destino](https://singularidadepoetica.art/2018/03/01/rosario-castellanos-destino/): Matamos o que amamos. O resto nunca esteve vivo. Ninguém está tão perto. A nenhum outro fere um esquecimento, uma ausência, às vezes menos. Matamos o que amamos. Que cesse esta asfixia de respirar por um pulmão distante! O ar não é suficiente para os dois. E não basta a terra para os corpos juntos […]
- [Charles Bukowski – O Matador Sorri](https://singularidadepoetica.art/2018/02/28/charles-bukowski-o-matador-sorri/): as antigas namoradas ainda telefonam algumas do ano passado algumas do ano retrasado algumas de anos atrás é bom poder por um fim nas coisas que não funcionam também é bom não odiar ou mesmo esquecer a pessoas com quem você falhou. aprecio quando elas me dizem que estão tendo sorte com um homem sorte […]
- [Carlos Alberto Machado – Chegaste à Idade da Morte](https://singularidadepoetica.art/2018/02/27/carlos-alberto-machado-chegaste-a-idade-da-morte/): Chegaste à idade da morte dos teus amigos também agora começas a distingui-los cai um e depois outro e tu apressas o passo desta vez vais discutir o terreno palmo a palmo não saberias o que fazer se a solidão se despovoasse.
- [Albano Martins – A Dor](https://singularidadepoetica.art/2018/02/26/albano-martins-a-dor/): Não ponhas o dedo na ferida. Deixa a dor respirar em segredo. L delor Nun pongas l dedo na frida. Deixa l delor ceçar an segredo.
- [Germana Zanettini - Leia Antes de Usar](https://singularidadepoetica.art/2018/02/25/germana-zanettini-leia-antes-de-usar/): não, aqui não há lugares reservados [de antemão já lhe adianto: nem adianta olhar para os lados] o ambiente não é climatizado os assentos não são flutuantes e máscaras de oxigênio não cairão sobre suas cabeças para sua segurança e conveniência informamos que a vida não vem equipada com saídas de emergência
- [Margareta Ekström - O Funeral](https://singularidadepoetica.art/2018/02/24/margareta-ekstrom-o-funeral/): Na noite do funeral eles abraçaram-me, beijaram-me, mesmo esses que habitualmente não beijam. Apoiaram-me e perguntaram se precisava de soporíferos, estimulantes, um xerez ou companhia para a noite. Cada noite é um funeral mas ninguém vem para me abraçar. Ninguém pergunta como as coisas vão se preciso de companhia para a noite, um xerez, um […]
- [Juan Luis Panero - Epitáfio diante de um Espelho](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-luis-panero-epitafio-diante-de-um-espelho/): Dura há de ser a vida para ti, que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez, para ti, cuja única certeza é tua memória e, por isso, teu sepulcro mais infausto. Dura há de ser a vida, quando os anos passarem e destruírem por fim a ilusória pátria da tua adolescência, quando vires, como hoje, […]
- [Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-vicente-piqueras-nomes-borrados/): A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiosnem os pronomes nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o […]
- [Diego Moraes - Já se passaram dez anos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/22/diego-moraes-ja-se-passaram-dez-anos/): Já se passaram dez anos Acabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal que seu tio ficou bêbado de vinho dom bosco e disse na frente dos filhos e da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaro em Londres Já se passaram dez anos Os poemas que escrevi quando […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/21/luis-alberto-de-cuenca-abre-todas-as-portas/): Abre todas as portas, a que conduz ao ouro, a que leva ao poder, a que esconde o mistério do amor; a que oculta o segredo insondável da felicidade, a que a vida te oferta para sempre no gozo de uma visão sublime. Abre todas as portas, sem te mostrares curioso, nem dar importância às […]
- [Jorge de Sena - Suma Teológica](https://singularidadepoetica.art/2018/02/20/jorge-de-sena-suma-teologica/): Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram navios no alto mar, quando nasci. Nada mudou. Continuaram as guerras; continuou a subir o preço do pão; continuaram os poetas, uma vez por outra, a perguntar por ti. É certo que, então, imensa gente envelheceu instantânea e misteriosamente. Mas até isso, meu amor, se não sabe […]
- [Ángel González - Todos vocês parecem felizes...](https://singularidadepoetica.art/2018/02/19/angel-gonzalez-todos-voces-parecem-felizes/): … e sorriem, às vezes, quando falam. E até dizem uns aos outros palavras de amor. Mas amam-se de dois em dois para odiar de mil em mil. E guardam toneladas de asco por cada milímetro de felicidade. E parecem – nada mais que parecem – felizes, e falam com o fim de ocultar essa […]
- [Maria Teresa Horta - Poema sobre a Recusa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/18/maria-teresa-horta-poema-sobre-a-recusa/): Como é possível perder-te sem nunca te ter achado nem na polpa dos meus dedos se ter formado o afago Sem termos sido a cidade nem termos rasgado pedras sem descobrirmos a cor nem o interior da erva Como é possível perder-te sem nunca te ter achado minha raiva de ternura meu ódio de conhecer-te […]
- [César Cantoni - O Tempo Irreparável](https://singularidadepoetica.art/2018/02/17/cesar-cantoni-o-tempo-irreparavel/): Quem, então, poderia imaginar? O certo é que meu pai está morto como se nunca houvesse estado vivo. Um dia gelaram suas mãos e os pés, e a casa se encheu de parentes, e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito. Ainda lembro. Meu pai está morto ou já não existe, e não é […]
- [Mário Cesariny - Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/02/16/mario-cesariny-lembra-te/): Lembra-te que todos os momentos que nos coroaram todas as estradas radiosas que abrimos irão achando sem fim seu ansioso lugar seu botão de florir o horizonte e que dessa procura extenuante e precisa não teremos sinal senão o de saber que irá por onde fomos um para o outro vividos
- [Gonçalo M. Tavares - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/15/goncalo-m-tavares-os-mortos/): Não há mortos que morram tanto como os nossos. Se um daqueles que nos pertence morre sete ou setenta vezes no coração, de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data, e os que sempre viveram longe morrem-nos metade ou um oitavo. E metade de uma morte é quase nada, são casas decimais […]
- [Charles Bukowski – Foda](https://singularidadepoetica.art/2018/02/14/charles-bukowski-foda/): foda ela tirou o vestido por sobre a cabeça e eu vi a calcinha um tanto enterrada em suas carnes. é simplesmente humano. agora teremos que fazê-lo. eu terei que fazê-lo depois de todo esse logro. é como uma festa – dois idiotas numa cilada. debaixo dos lençóis depois que apaguei as luzes suas calcinhas […]
- [Isabel Bono - O Futuro Acabará Chegando](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/isabel-bono-o-futuro-acabara-chegando/): perdemos tempo ordenando em um álbum as fotos do verão para olhá-las algum dia com nostalgia guardamos bolinhas de gude pedras livros cartas poemas adiamos assim a felicidade, a vida ainda não sei por quê ainda não sei para quando Trad.: Nelson Santander Isabel Bono – El Futuro Acabará por Llegar malgastábamos el tiempo ordenando […]
- [José Lino Grünewald – Sombra (1957)](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/jose-lino-grunewald-sombra-1957/)
- [Mário Dionísio – Elegia ao Companheiro Morto](https://singularidadepoetica.art/2018/02/12/mario-dionisio-elegia-ao-companheiro-morto/): Meu companheiro morreu às cinco da manhã Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã Ah antes fosse noite noite apenas noite sem a promessa da manhã Ah antes fosse noite noite noite apenas noite e não houvesse em tudo a promessa da manhã Deitado para sempre às cinco da […]
- [Alberto Caeiro - Poema XLIII ("Antes o voo da ave")](https://singularidadepoetica.art/2018/02/11/alberto-caeiro-poema-xliii-antes-o-voo-da-ave/): Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto, Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. A ave passa e esquece, e assim deve ser. O animal, onde já não está e por isso de nada serve, Mostra que já esteve, o que não serve para nada. A recordação é […]
- [Bruna Kalil - Paleativa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/10/bruna-kalil-paleativa/): Você é rebelde só da cintura para baixo 1984, George Orwell busco prazer sendo profana para que o físico compense o descompasso do meu interior tão triste e tão mole. fujo dos sentimentos justamente por ter a plena consciência de que sou sentimental dem- ais. tenho medo, pavor, fobia de apaixonar-me outra vez, dói […]
- [Rui Pires Cabral - Cartas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/09/rui-pires-cabral-cartas/): Escreves-me cartas, sou o destinatário da tua solidão. E sempre compreendo tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge as entrelinhas de um branco desespero que é tanto teu como meu: não tens quem te salve, envelheceste, trataste mal de um jardim que não chegou a vingar. Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade […]
- [Gil T. Sousa - Maré](https://singularidadepoetica.art/2018/02/08/gil-t-sousa-mare/): quando a maré se afasta é possível escrever tudo outra vez
- [Jorge Luis Borges - A Chuva](https://singularidadepoetica.art/2018/02/07/jorge-luis-borges-a-chuva/): A tarde subitamente clareou Porque já cai a chuva minuciosa. Ou caiu. A chuva é coisa curiosa Que acontece no tempo que passou. Quem a ouve cair já recobrou O tempo em que a fortuna venturosa Revelou-lhe uma flor chamada rosa E a encarnada cor com que se corou. Que esta chuva que já cega […]
- [César Cantoni - Álbum de Família](https://singularidadepoetica.art/2018/02/06/cesar-cantoni-album-de-familia/): Morreu meu pai, morreram meus avós, morreram meus tios de sangue e por afinidade. Uma família inteira de ferreiros, marceneiros, curtidores, pedreiros, jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos, o que não sabe fazer nada com as mãos, logrei sobreviver impunemente para chorar diante de uma foto o […]
- [Octavio Paz - Antes do Começo](https://singularidadepoetica.art/2018/02/05/octavio-paz-antes-do-comeco/): Ruídos confusos, claridade incerta. Outro dia começa. Um quarto em penumbra e dois corpos estendidos. Em minha fronte me perco numa planície vazia. E as horas afiam suas navalhas. Mas a meu lado tu respiras; íntima e longínqua fluis e não te moves. Inacessível se te penso, com os olhos te apalpo, te vejo com […]
- [Hagar Peeters - Esta Noite Cruzei-me com meus Pais](https://singularidadepoetica.art/2018/02/04/hagar-peeters-esta-noite-cruzei-me-com-meus-pais/): Esta noite cruzei-me com os meus pais, duas sombras pálidas reciprocamente atraídas, à luz branca de um candeeiro. Tendo em conta a felicidade demonstrada, eu ainda não era nascida. Eram jovens e muito apaixonados. Uma grande tristeza anuviou-me porque eu sabia a continuação da história. Ela soltava gargalhadas por causa de algo que ele lhe […]
- [Fernando Sabino - Certeza](https://singularidadepoetica.art/2018/02/03/fernando-sabino-certeza/): De tudo, ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando. A certeza de que precisamos continuar. A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança. Do medo, uma escada. Do sonho, uma ponte. Da procura, um encontro.
- [António Franco Alexandre - Quero dizer-te: não morras](https://singularidadepoetica.art/2018/02/02/antonio-franco-alexandre-quero-dizer-te-nao-morras/): quero dizer-te: não morras. Nem me digas quem és, quem foste, como sabes a língua que se fala sobre a terra. Ao lume lanço toda a vontade de viver, ser vivo, a cautela do ar, ardendo em torno. Passarei, terás passado em mim, só quero dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.
- [Carlos Edmundo de Ory – Dá-me](https://singularidadepoetica.art/2018/02/01/carlos-edmundo-de-ory-da-me/): dá-me algo mais que silêncio ou doçura algo que tenhas e não saibas não quero dádivas raras dá-me uma pedra não fiques imóvel fitando-me como se quisesses dizer que há muitas coisas mudas ocultas no que se diz dá-me algo lento e fino como uma faca nas costas e se nada tens para dar-me dá-me […]
- [António Reis – Mudamos esta Noite](https://singularidadepoetica.art/2018/01/31/antonio-reis-mudamos-esta-noite/): Mudamos esta noite E como tu eu penso no fogão a lenha e nos colchões onde levar as plantas e como disfarçar os móveis velhos Mudamos esta noite e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam e que os filhos dormem sempre nos quartos onde nascem Vai descendo tu Eu só quero ouvir os […]
- [Luljeta Lleshanaku – O Mistério das Orações](https://singularidadepoetica.art/2018/01/30/luljeta-lleshanaku-o-misterio-das-oracoes/): Na minha família as orações eram rezadas secretamente, em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor; quase murmuradas, com um suspiro no princípio e no fim, fino e limpo como uma gaze. Junto à casa havia apenas uma escada para subir, de madeira, encostada à parede o ano inteiro, de modo a reparar o […]
- [Albano Martins – Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/01/29/albano-martins-lembra-te/): Leia "Lembra-te", de Albano Martins, um poema breve e intenso sobre memória, passagem do tempo e os caminhos inevitáveis da existência.
- [Ana Goês - Convida-me só para jantar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/ana-goes-convida-me-so-para-jantar/): E não queiras depois fazer amor. Convida-me só para jantar num restaurante sossegado numa mesa de canto e fala devagar e fala devagar eu quero comer uma sopa quente não quero comer mariscos os mariscos atravancam-me o prato e estou cansada para os afastar fala assim devagar devagar não é preciso dizeres que sou bonita […]
- [Chacal – EXP](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/chacal-exp/)
- [Sylvia Plath - Achava que não Podia ser Magoada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/sylvia-plath-achava-que-nao-podia-ser-magoada/): Achava que não podia ser magoada; achava que com certeza era imune ao sofrimento — imune às dores do espírito ou à agonia. Meu mundo tinha o calor do sol de abril Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro. Minha alma em êxtase, ainda assim conheceu a dor suave e aguda que só o prazer […]
- [Anatol Knotek – Time is running out](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/anatol-knotek-time-is-running-out/)
- [César Cantoni - O mais digno em nós](https://singularidadepoetica.art/2018/01/26/cesar-cantoni-o-mais-digno-de-nos/): Eu sempre pensei que os ossos, com seu brilho mineral de pedra polida pela chuva, são o que há de mais digno em nós: sobrevivem largamente à putrefação indecorosa da carne e não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander César Cantoni – Lo más digno de nosotros Siempre pensé […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Terror de te Amar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/25/sophia-de-mello-breyner-andresen-terror-de-te-amar/): Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. […]
- [Mario Benedetti - Angelus](https://singularidadepoetica.art/2018/01/24/mario-benedetti-angelus/): Quem me diria que o destino era isso Vejo a chuva através de letras invertidas Uma parede com manchas que parecem homens Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes E essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu, Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braços E uma cadeira […]
- [Hilda Hilst - Obriga-me](https://singularidadepoetica.art/2018/01/23/hilda-hilst-obriga-me/): E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo, prazer, lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de […]
- [Charles Bukowski - A Retirada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/22/charles-bukowski-a-retirada/): desta vez o negócio acabou comigo. me sinto como as tropas alemãs açoitadas pela neve e pelos comunistas caminhando curvadas as botas gastas forradas com papel jornal. minha condição é tão terrível quanto. talvez até pior. a vitória estava tão perto a vitória estava logo ali. enquanto ela estava ali diante de meu espelho mais […]
- [Paola Rodrigues - Vida Lúcida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/21/paola-rodrigues-vida-lucida/): Assim como ninguém explicou o início As ondas continuam a chegar na costa Tudo corre sempre em direção ao fim Os copos caem e as cidades se amontoam em nossas costas Amar o perdido deixa confundido este coração Ainda que os dias continuem a nascer Os ônibus andem, os outros durmam Meus pés tropeçam em […]
- [Mikhail Svetlov - Dois](https://singularidadepoetica.art/2018/01/20/mikhail-svetlov-dois-poema/): Dois, um poema de Mikhail Svetlov
- [Miquel Martí i Pol - No ano que vem](https://singularidadepoetica.art/2018/01/19/miquel-marti-i-pol-no-ano-que-vem/): No ano que vem já ninguém reparará em nós. Agora somos recém-chegados e fitam-nos com desprezo até mesmo os que andam por cá há quarenta anos e já nada os muda. Temos um ar aturdido e tenaz que faz rir as mulheres e quase nem nos atrevemos a mexer a cabeça por temor a perder […]
- [Manuel de Freitas - "Pela manhã o gato..."](https://singularidadepoetica.art/2018/01/18/manuel-de-freitas-pela-manha-o-gato/): Pela manhã o gato estende-se vagaroso nesse impreciso lugar em que luz e sombra se entretecem. Nas pedras rondantes do que sempre chamámos a nossa casa, esse sonho de irmos por detrás das janelas encarcerados nas agrestes paredes do amor. Todas as manhãs, enquanto a escola me espera, o gato é tão certo como os […]
- [César Cantoni - Uma Arte Invisível](https://singularidadepoetica.art/2018/01/17/cesar-cantoni-uma-arte-invisivel/): O poeta caminha nu pelas ruas, mas ninguém o vê. O poeta vai ao cinema, desvia de putas, anda de ônibus, sempre nu, mas as pessoas olham para outro lado. O poeta não tem meios de chamar a atenção porque a poesia é uma arte invisível. A poesia se escreve sem palavras. Trad.: Nelson Santander […]
- [Carlos Marzal – Estranha Forma de Vida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/16/carlos-marzal-estranha-forma-de-vida/): A Vicente Gallego Sob a bigorna de fogo que o sol de agosto acende no muro caiado, derretem-se as pétalas de uma sedenta buganvília grená. Que estranha esta beleza moribunda, esta desaforada desnudez grandiosa, esta sílaba breve do milagre. Trad.: Inês Dias Carlos Marzal – Extraña Forma de Vida Bajo el yunque de […]
- [Billy Collins – Pardal de Natal](https://singularidadepoetica.art/2018/01/15/billy-collins-pardal-de-natal/): A primeira coisa que ouvi esta manhã foi um rápido bater de asas, suave, insistente – asas contra vidro, como se percebeu depois, lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro agitando-se na moldura de uma janela alta, tentando lançar-se através do enigma de vidro até a ampla luz. E então um ruído na garganta […]
- [Ana Hatherly - A Verdadeira Mão](https://singularidadepoetica.art/2018/01/14/ana-hatherly-a-verdadeira-mao/): A verdadeira mão que o poeta estende não tem dedos: é um gesto que se perde no próprio ato de dar-se O poeta desaparece na verdade da sua ausência dissolve-se no biombo da escrita O poema é a única a verdadeira mão que o poeta estende E quando o poema é bom não te aperta […]
- [Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ines-lourenco-balada-dos-amores-dificeis/): Não me refiro aos trágicos Romeu e Julieta Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-me aos que se buscam sem saber nada do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavos e convexos se combinam cruzando genes e transitórios tempos […]
- [Ana Martins Marques - Religião](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ana-martins-marques-religiao/): ‘If I were called in to construct a religion I should make use of water’ – Philip Larkin Inaugurar uma religião: adorar os pontos em que se formam as estações do ano os gestos de desnudar-se o dia depois da chuva a distância: entre uma árvore e outra árvore, entre cidades com o mesmo nome […]
- [Inês Lourenço – As Coisa que Cessam](https://singularidadepoetica.art/2018/01/12/ines-lourenco-as-coisa-que-cessam/): Tanto desprezo pelo que é transitório e finito. Não servirei senhor que possa morrer. Mas passamos a vida a amar todas as fragilidades das coisas que cessam. Há coisa mais breve do que um sorriso? Coisa mais curta que a alegria de um reencontro? Tudo o que amamos é passageiro e frágil ou as duas […]
- [Amalia Bautista – O Anjo Perplexo](https://singularidadepoetica.art/2018/01/11/amalia-bautista-o-anjo-perplexo/): Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, nem ídolo que proteja, nem oração que console; nunca houve milagres ou maravilhas, nem a salvação da alma, nem a vida eterna; nem palavras mágicas, nenhum bálsamo eficaz contra a dor que não desaparece nunca; nem luz do outro lado das sombras, nem saída do túnel, nem esperança. […]
- [Mario Quintana – Envelhecer](https://singularidadepoetica.art/2018/01/10/mario-quintana-envelhecer/): Antes, todos os caminhos iam. Agora todos os caminhos vêm. A casa é acolhedora, os livros poucos. E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
- [Amalia Bautista – Agora](https://singularidadepoetica.art/2018/01/09/amalia-bautista-agora/): Agora que a estrada que devo percorreré um viaduto por sobre uma rodoviado qual dá medo de olhar, porque o abismoimplacável me chama.Agora que morreu a esperançacomo um pássaro jogado de seu ninhopor irmãos mais fortes.Agora que é noite todo dia,inverno todo anoe as semanas só têm segundas-feiras,para onde olhar, para onde voltar os olhos,que […]
- [Marina Tzvietáieva – Você me Amava](https://singularidadepoetica.art/2018/01/08/marina-tsvietaieva-voce-me-amava-poema/): Você me Amava, um poema de Marina Tsvetáieva
- [Paulo Henriques Britto - Balanços](https://singularidadepoetica.art/2017/01/10/paulo-henriques-britto-balancos/): II Como saber sem tentar? Como tentar se é tão fácil conformar-se de saída com a ideia de fracasso? Pois fracassar justifica o não se ter nem sequer admitido não querer-se aquilo que mais se quer. É um beco sem saída, mas sempre é melhor que a rua: mais estreito. Acolhedor. Vem, entra. A casa […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Quarta Feira de Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/vinicius-de-moraes-soneto-de-quarta-feira-de-cinzas/): Por seres quem me foste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Malgrado a vida dura e atormentada Por seres mais que a simples aventura E menos que a constante namorada Porque te vi nascer de mim […]
- [Wislawa Szymborska - Discurso do Nobel 1996 (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/wislawa-szymborska-discurso-do-nobel-1996-excerto/)
- [Paulo Henriques Britto - Mínima Poética](https://singularidadepoetica.art/2017/01/08/paulo-henriques-britto-minima-poetica/): Poesia como forma de dizer o que de outras formas é omitido— não de calar o que se vive e vê e sente por vergonha do sentido. Poesia como discurso completo, ao mesmo tempo trama de fonemas, artesanato de éter, e projeto sobre a coisa que transborda o poema (se bem que dele próprio projetada). […]
- [Paulo Henriques Britto - Circular](https://singularidadepoetica.art/2017/01/07/paulo-henriques-britto-circular/): Neste mesmo instante, em algum lugar, alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer. Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar. O que você fizer não muda coisa alguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a […]
- [Paulo Henriques Britto - Biodiversidade](https://singularidadepoetica.art/2017/01/06/paulo-henriques-britto-biodiversidade/): Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, que não requerem prática, oficina, suor. Maneiras mais simpáticas de pagar mico e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, como há quem não se vexe de ler e decifrar essas palavras bestas estrebuchando […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/05/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos/): III Mesmo o mais sólido some sem deixar nenhum vestígio, sem nem se ter (como exige o costume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido — que se dá a posteriori, antes que se deteriore de todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculo ângulo do evento único […]
- [Paulo Henriques Britto - Mosaico](https://singularidadepoetica.art/2017/01/04/paulo-henriques-britto-mosaico/): Os dias a amontoar-se como se rumo a um sentido, algo que se assemelhasse a uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo, claro — o que sabem os dias?) uma estrutura em relevo, espécie de marchetaria, com padrão indecifrável (por não seguir um projeto), mas assim mesmo um resguardo, um remédio […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/03/paulo-henriques-britto-de-biographias-literarias/): V Céu azul. Cores vivas. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo. É talvez domingo. É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagem extremamente, absurdamente nítida. E se fosse menor a claridade, ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Seis Sonetos Soturnos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/02/paulo-henriques-britto-de-seis-sonetos-soturnos/): I A qualquer hora, o que se chama vida pode mudar da água pro vinho. Ou vice- -versa. Cada palavra proferida — uma sentença grave, uma tolice — pode retornar feito um bumerangue capaz de destruir o que encontrar. E nada que se funde em carne e sangue escapa dessas bólides de ar: o amor […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Vai, Ano Velho](https://singularidadepoetica.art/2017/01/01/affonso-romano-de-santanna-vai-ano-velho/): Leia Vai, Ano Velho, de Affonso Romano de Sant'Anna, um poema sobre renovação, esperança e a persistente necessidade humana de sonhar.
- [Paulo Henriques Britto - Madrigal](https://singularidadepoetica.art/2016/12/31/paulo-henriques-britto-madrigal/): Desista: não vai dar certo. O mundo é o mesmo de sempre, desejo é uma coisa cega. Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam, os pés vão aonde não sabem. As cartas estão marcadas: vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo, desejo é uma porta aberta. Desista, […]
- [Paulo Henriques Britto - Cuidado Poeta...](https://singularidadepoetica.art/2016/12/30/paulo-henriques-britto-cuidado-poeta/): Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma. Depois de um certo número de páginas anjos não pousam mais nas entrelinhas. E até a lucidez, essa moderna, também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado, não se resolve com um só lance de dados. Não basta a precisão do gesto […]
- [Paulo Henriques Britto - Soneto Inglês](https://singularidadepoetica.art/2016/12/29/paulo-henriques-britto-soneto-ingles/): A surpresa do amor — quando já não se espera do mundo nada em especial, e a evidência de que os anos vão se acumulando sem nenhum sinal de sentido já não dói nem comove — quando em matéria de felicidade não se deseja mais que uns nove metros quadrados de privacidade para abrigar os […]
- [Paulo Henriques Britto - Crepuscular](https://singularidadepoetica.art/2016/12/28/paulo-henriques-britto-crepuscular/): 1. Chegamos tarde. (Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidade aberta, e uma loucura provisória era a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todo atento, em transe, em trânsito, no assédio a um ou outro flanco do […]
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori II](https://singularidadepoetica.art/2016/12/27/paulo-henriques-britto-memento-mori-ii/): Luz frágil que brota no breu e num rápido relance dá forma e cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que pode às aparências, acredita piamente no sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forças contra o conforto de apagar-se enfim por trás de duas implacáveis pálpebras.
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori I](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-memento-mori-i/): Nenhum sinal da solidão se vê lá onde o amor corrói a carne a fundo. Dentro da pele, no entanto, você é só você contra o mundo. Esta felicidade que abastece seu organismo, feito um combustível, é volátil. Tudo que sobe desce. Tudo que dói é possível.
- [Paulo Henriques Britto - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-acalanto/): Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Três Epifanias Triviais"](https://singularidadepoetica.art/2016/12/25/paulo-henrique-brittos-de-tres-epifanias-triviais/): As coisas que te cercam, até onde alcança tua vista, tão passivas em sua opacidade, que te impedem de enxergar o (inexistente) horizonte, que justamente por não serem vivas se prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção, essas coisas que você usa e esquece assim que larga na primeira mesa — […]
- [Patrícia Pinheiro - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/12/12/patricia-pinheiro-sem-titulo/)
- [Cecília Meireles - De que são feitos os dias?](https://singularidadepoetica.art/2016/12/09/cecilia-meireles-de-que-sao-feitos-os-dias/): De que são feitos os dias? – De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Entre mágoas sombrias, momentâneos lampejos: vagas felicidades, inactuais esperanças. De loucuras, de crimes, de pecados, de glórias – do medo que encadeia todas essas mudanças. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alianças…
- [Nelson Santander - Limiar](https://singularidadepoetica.art/2016/11/21/nelson-santander-limiar-poema/): Limiar, um poema de Nelson Santander
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/ferreira-gullar-os-mortos-2/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Carlos Drummond de Andrade - Retrato de Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/carlos-drummond-de-andrade-retrato-de-familia/): Este retrato de família Está um tanto empoeirado. Já não se vê no rosto do pai Quanto dinheiro ele ganhou. Nas mãos dos tios não se percebem As viagens que ambos fizeram. A avó ficou lisa, amarela, Sem memórias da monarquia. Os meninos, como estão mudados. O rosto de Pedro é tranquilo, Usou os melhores […]
- [Ferreira Gullar - Redundâncias](https://singularidadepoetica.art/2016/11/19/ferreira-gullar-redundancias/): Ter medo da morteé coisa dos vivoso morto está livrede tudo o que é vida Ter apego ao mundoé coisa dos vivospara o morto não há(não houve)raios rios risos E ninguém vive a mortequer morto quer vivomera noção que existesó enquanto existo
- [Ferreira Gullar - Visita](https://singularidadepoetica.art/2016/11/18/ferreira-gullar-visita/): no dia de finados ele foi ao cemitério porque era o único lugar do mundo onde podia estar perto do filho mas diante daquele bloco negro de pedra impenetrável entendeu que nunca mais poderia alcançá-lo Então apanhou do chão um pedaço amarrotado de papel escreveu eu te amo filho pôs em cima do mármore sob […]
- [Ferreira Gullar - A Alegria](https://singularidadepoetica.art/2016/11/17/ferreira-gullar-a-alegria/): O sofrimento não tem nenhum valor. Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança ou a ilusão de uma alegria). Sofres tu, sofre um cachorro ferido, um inseto que o inseticida envenena. Será maior a tua dor que a […]
- [Marcelo Tápia - a pedra volátil](https://singularidadepoetica.art/2016/11/16/marcelo-tapia-a-pedra-volatil-poema/): a pedra volátil, um poema de marcelo tápia
- [Antonio Cicero - Cidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/15/antonio-cicero-cidade/): Para Arthur Nestrovsky Lembro que o futuro era uma cidade nebulosa da qual eu esperava tudo e que, sendo uma cidade, nada esperava de ninguém. Ah, cidade sonhada de avenidas macadâmicas, turbas febris e prédios de granito: o que era que eu perdera e que, perdido e em cacos, buscava nas tuas áridas calçadas e […]
- [Antonio Cicero - Virgem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/14/antonio-cicero-virgem/): Música: Marina Lima As coisas não precisam de você:Quem disse que eu tinha que precisar?As luzes brilham no VidigalE não precisam de você;Os Dois IrmãosTambém não.O Hotel Marina quando acendeNão é por nós doisNem lembra o nosso amor.Os inocentes do Leblon,Esses nem sabem de vocêNem vão querer saberE o farol da Ilha só gira agoraPor […]
- [Jorge Wanderley - Acerto de Contas](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/jorge-wanderlei-acerto-de-contas/): quando a geração de meu pai batia na minha a minha achava que era normal que a geração de cima só podia educar a de baixo batendo quando a minha geração batia na de vocês ainda não sabia que estava errado mas a geração de vocês já sabia e cresceu odiando a geração de cima […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Fragilidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/carlos-drummond-de-andrade-fragilidade/): Este verso, apenas um arabesco em torno do elemento essencial – inatingível. Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas, e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento, ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades de sono se depositam sobre a terra esfacelada. Não mais o desejo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Ontem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/12/carlos-drummond-de-andrade-ontem/): Até hoje perplexo ante o que murchou e não eram pétalas. De como este banco não reteve forma, cor ou lembrança. Nem esta árvore balança o galho que balançava. Tudo foi breve e definitivo. Eis está gravado não no ar, em mim, que por minha vez, escrevo, dissipo.
- [Carlos Drummond de Andrade - Viagem na Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/11/carlos-drummond-de-andrade-viagem-na-familia/): A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabira a sombra de meu pai tomou-me pela mão. Tanto tempo perdido. Porém nada dizia. Não era dia nem noite. Suspiro? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Noite Dissolve os Homens](https://singularidadepoetica.art/2016/11/10/carlos-drummond-de-andrade-a-noite-dissolve-os-homens/): A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão. A noite caiu. Tremenda, sem esperança… Os suspiros acusam a presença negra que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/11/09/carlos-drummond-de-andrade-os-ombros-suportam-o-mundo/): Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Inocentes do Leblon](https://singularidadepoetica.art/2016/11/08/carlos-drummond-de-andrade-inocentes-do-leblon/): Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Cassiano Ricardo - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2016/11/07/cassiano-ricardo-testamento/): Deixo os meus olhos ao cego que mora nesta rua. Deixo a minha esperança ao primeiro suicida. Deixo à polícia meu rasto, a Deus o meu último eco. Deixo o meu fogo-fátuo ao mais triste viandante que se perder sem lanterna numa noite de chuva. Deixo o meu suor ao fisco que me cobriu de […]
- [Cassiano Ricardo - Morrer não será dormir](https://singularidadepoetica.art/2016/11/06/cassiano-ricardo-morrer-nao-sera-dormir/): Morrer não será dormir, pois não existe horizonte para poder haver sono. Será ser indiferente. Apenas indiferente. Que tanto faça haver sol como o sol não seja mais do que um simples girassol. Não será, só, o morrer porque se deixou de ser. Será – por indiferença – tanto estar o mundo morto como imundo […]
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa-2/)
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa/): I A cidade chora lágrimas elétricas sobre o corpo anônimo do eletrocutado. As figuras tétricas que residem, mudas, na parede do templo, me cercam, na rua. Como se eu fosse, acaso, o culpado de algum acontecimento na noite confusa. II O deus unicórnio que há no escudo do rei, e que lhe defende a coroa, […]
- [Álvaro de Campos - Lisbon Revisited (1926)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/03/alvaro-de-campos-lisbon-revisited-1926/): Nada me prende a nada. Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. Anseio com uma angústia de fome de carne O que não sei que seja – Definidamente pelo indefinido… Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias. Correram cortinas de todas as […]
- [Thomas Mann - Morte em Veneza (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/thomas-mann-morte-em-veneza-excerto/): “(…) Gustav von Aschenbach era de estatura um pouco abaixo da média, moreno, rosto inteiramente barbeado. A cabeça parecia um pouco grande demais em relação à sua figura quase franzina. O cabelo, penteado para trás, escasso no alto da cabeça, abundante e já bem grisalho nas têmporas, enquadrava uma testa alta, cheia de rugas que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - José](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/carlos-drummond-de-andrade-jose/): E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não […]
- [Mário Chamie - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/mario-chamie-fantasma/): Um fantasma ausente põe tijolo sobre tijolo ao seu redor. Primeiro mede o terreno Divide o espaço. Calca com o pé a planta que não floresce. Mas que cresce sob estacas de cimento. Depois, a ausência se preenche. O fantasma move a cal, a pedra, a pá. O fantasma move o corpo já presente do […]
- [Cecilia Meireles - Cantarão os Galos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/cecilia-meireles-cantarao-os-galos/): Cantarão os galos, quando morrermos, e uma brisa leve, de mãos delicadas, tocará nas franjas, nas sedas mortuárias. E o sono da noite irá transpirando sobre as claras vidraças. E os grilos, ao longe, serrarão silêncios, talos de cristal, frios, longos ermos, e o enorme aroma das árvores. Ah, que doce lua verá nossa calma […]
- [Cecília Meireles - Epigrama nº 7](https://singularidadepoetica.art/2016/10/18/cecilia-meireles-epigrama-no-7/): A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. Conheça outros livros de Cecília Meireles clicando aqui
- [Cecília Meireles - O Jardim](https://singularidadepoetica.art/2016/10/15/cecilia-meireles-o-jardim/): O jardim é verde, encarnado e amarelo.Nas alamedas de cimento,movem-se os arabescos do solque a folhagem recortae o vento abana. A luz revela orvalhos no fundo das flores,nas asas tênues das borboletas,-e ensina a cintilar a mais ignorada areia,perdida nas sombras,submersas nos limos. Ensina a cintilar tambémos insetos mínimos,-alada areia dos ares, que se elevaaté […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Um Bruxo Com Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/carlos-drummond-de-andrade-a-um-bruxo-com-amor/): Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te; e me recebes na sala trastejada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro. Daí esse cansaço nos gestos e, […]
- [Mário de Andrade - Poema da Amiga (VIII)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/mario-de-andrade-poema-da-amiga-viii/): Gosto de estar a teu lado, Sem brilho. Tua presença é uma carne de peixe, De resistência mansa e de um branco Ecoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti. Anoiteço feito um bairro, Sem brilho algum. Estamos no interior duma asa Que fechou. Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/philip-roth-a-marca-humana-excerto/): “Porque não sabemos, não é? Todo mundo sabe… Como é que as coisas acontecem do jeito que acontecem? O que está por trás da anarquia da seqüência de eventos, as incertezas, os infortúnios, a incoerência, as irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. ‘Todo mundo sabe’ é a invocação do clichê e o início da […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Carta aos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/affonso-romano-de-santanna-carta-aos-mortos/): Carta aos Mortos, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, reflete sobre a aparente marcha do progresso e as surpreendentes permanências da experiência humana.
- [Machado de Assis - Bagatela (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/05/machado-de-assis-bagatela-excerto/)
- [Machado de Assis - Epitáfios](https://singularidadepoetica.art/2016/09/30/machado-de-assis-epitafios/)
- [Stephen King - Não pedimos...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/26/stephen-king-nao-pedimos/)
- [José Luís Peixoto - na hora de pôr a mesa...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/jose-luis-peixoto-na-hora-de-por-a-mesa/): na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está […]
- [José Luís Peixoto - Explicação da Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/2263-2/)
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Eu me Perdi](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-eu-me-perdi/): Eu me perdi na sordidez de um mundo Onde era preciso ser Polícia agiota fariseu Ou cocote Eu me perdi na sordidez do mundo Eu me salvei na limpidez da terra Eu me busquei no vento e me encontrei no mar E nunca Um navio da costa se afastou Sem me levar
- [Eugénio de Andrade - Quase Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/eugenio-de-andrade-quase-epitafio/): O outro sabia. Tinha uma certeza. Sou eterno, dizia. Eu não tenho nada. Amei o desejo com o corpo todo. Ah, tapai-me depressa. A terra me basta. Ou o lodo.
- [W. H. Auden - Funeral Blues](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/w-h-auden-funeral-blues/): BLUES FÚNEBRE Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto — um laço no […]
- [Mia Couto - Falta de Reza](https://singularidadepoetica.art/2016/09/10/mia-couto-falta-de-reza/): Por insuficiência de reza, por falsidade de crença meu anjo me culpou e vaticinou eterna penitência. Mas não ajoelho nem peço desculpa. Não quero um deus que vigie os vivos e peça contas aos mortos. Um deus amigo que me chame por tu e que espere por mim para um copo de riso e abraços: […]
- [João Cabral de Melo Neto - A Viagem](https://singularidadepoetica.art/2016/09/09/joao-cabral-de-melo-neto-a-viagem/): Quem é alguém que caminha toda manhã com tristeza dentro de minhas roupas, perdido além do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendo como se levassem nos bolsos doces geografias, pensamentos de além do sonho e da rua? Alguém a cada momento vem morrer no longe horizonte de meu quarto, onde esse alguém […]
- [José Saramago - Demissão](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/mario-quintana-demissao/): Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo demais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos tudo De morder os mais fracos, se mandamos, E de lamber as mãos se dependentes.
- [Lewis Carroll - Jaguadarte](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/lewis-carrol-jaguadarte/): Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo. […]
- [Shirley Jackson - A Assombração na Casa da Colina (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/09/04/shirley-jackson-a-assombracao-na-casa-da-colina-excerto/): “NENHUM ORGANISMO vivo pode existir com sanidade por longo tempo em condições de realidade absoluta; até as cotovias e os gafanhotos, pelo que alguns dizem, sonham. A Casa da Colina nada sã, erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas; existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais outros […]
- [Cassiano Ricardo - Jogo de Xadrez](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/cassiano-ricardo-jogo-de-xadrez/): 1 Não posso, sem remorso, ver uma criatura dormindo. Tão sincera, dá-se tanto (tão f o t o g ê n i c a- m e n t e) que me arrependo de não lhe haver sido mais puro quando falávamos, há pouco. A morte, se igual ao sono, absolvido, já, da luta, deverá ser […]
- [Richard Rorty - O Fogo da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/richard-rorty-o-fogo-da-vida/): Tradução por Igor de C. e S.C. (Publicado originalmente em Poetry Foundation, o pequeno ensaio foi o último publicado durante a vida do filósofo norte americano Richard Rorty (1931 – 2007).) Em um ensaio chamado “Pragmatismo e Romantismo” tentei revalidar o argumento de “Defesa da Poesia”, de Shelley. No coração do romantismo, eu disse, estava a tese de que a […]
- [Roberto e Erasmo Carlos - Detalhes (trecho)](https://singularidadepoetica.art/2016/08/28/roberto-e-erasmo-carlos-detalhes-trecho/)
- [Pedro Abrunhosa - Quem me Leva os meus Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2016/08/26/pedro-abrunhosa-quem-me-leva-os-meus-fantasmas/): https://youtu.be/w4ldfmoMoZk Intérprete: Maria Bethânia “De que serve ter o mapa Se o fim está traçado, De que serve a terra à vista Se o barco está parado, De que serve ter a chave Se a porta está aberta, De que servem as palavras Se a casa está deserta?” Aquele era o tempo em que as […]
- [Emil Cioran - Deus é um desespero...](https://singularidadepoetica.art/2016/08/24/2122-2/)
- [Páladas - Epigrama V, 72](https://singularidadepoetica.art/2016/08/22/paladas-epigrama-v-72/)
- [Arnaldo Antunes - Saudades](https://singularidadepoetica.art/2016/08/21/arnaldo-antunes-saudades/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Livro da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/08/19/livro-da-vida/)
- [Ricardo Silvestrin - Dança](https://singularidadepoetica.art/2016/08/18/ricardo-silvestrin-danca/): Sim, existe a dança: o corpo solto avança e recua leve nos passos matemáticos, um, dois, um, como se fosse mais fácil viver num tempo menor, brincadeira de criança que sabe de cor o roteiro e ri na hora marcada. Fora da dança, o infinito nos convida, nos seduz com passos improváveis, mas temos dois […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2016/08/14/carlos-drummond-de-andrade-a-mesa-2/): E não gostavas de festa. . . Ó velho, que festa grande hoje te faria a gente. E teus filhos que não bebem e o que gosta de beber, em torno da mesa larga, largavam as tristes dietas, esqueciam seus fricotes, e tudo era farra honesta acabando em confidência. Ai, velho, ouvirias coisas de arrepiar […]
- [William Carlos Williams - Entre Muros](https://singularidadepoetica.art/2016/08/11/william-carlos-wiliams-entre-muros/): alas traseiras do hospital onde nada medra jazem cinzas nas quais cacos verdes brilham garrafa Trad.: Haroldo de Campos
- [Robinson Jeffers - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/08/07/robinson-jefferson-sem-titulo/): Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com […]
- [Jules Laforgue - Spleen](https://singularidadepoetica.art/2016/08/03/jules-laforgue-spleen/): Tudo é tédio. Manhã. Olho pela janela. No alto, risca-se o céu no giz da chuva fria. Em baixo, a rua. Sob a cerração sombria Vultos deslizam na água turva de barrela. Olho sem ver (até meu cérebro regela) Maquinalmente sobre o vidro que embacia Meu dedo faz rabiscos de caligrafia. Bah! Saiamos. Quem sabe, […]
- [Guenádi Aigui - Nuvens](https://singularidadepoetica.art/2016/07/28/guenadi-aigui-nuvens/): Trad.: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman
- [William Carlos Williams - Carrinho de Mão Vermelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/22/william-carlos-williams-carrinho-de-mao-vermelho/): tanto depende de um carrinho de mão vermelho vidrado pela água da chuva perto das galinhas brancas. Trad.: Haroldo de Campos
- [William Carlos Williams - As Árvores de Botticelli](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-as-arvores-de-botticelli/): O alfabeto das árvores se esfuma no canto das folhas os entre- laços de finas letras que soletram inverno e o frio são iluminados em apontos de verde por chuva e sol – Os princípios simples estritos de justos ramos são tangidos por beliscões afãs de cor, devotas condições os sorrisos de amor – ……………. […]
- [William Carlos Williams - O Vento Aumenta](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-o-vento-aumenta/): A saqueada terra está varrida As árvores o brilho da tulipa desponta dobram-se e dançam – Desata teu amor para fluir Florir! Bom Cristo o que é um poeta – se algum existe? um homem cujas palavras irão morder sua trilha de retorno – ser atual tendo a forma. do movimento Em cada ramo-em-ponta novo […]
- [E. E. Cummings - “o amor é mais muito que olvido”](https://singularidadepoetica.art/2016/07/11/e-e-cummings-o-amor-e-mais-muito-que-olvido/): o amor é mais muito que olvido mais pouco que memória mais raro que onda ser aguada mais comum que dar foras é mais lunar, demente por menos nem falar que o mar todo somente mais fundo do que o mar é menos sempre que sucesso menos jamais que ao vivo menos maior que um […]
- [Emily Dickinson - Nesta Vida Tão Breve...](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/emily-dickinson-nesta-vida-tao-breve/)
- [Rudyard Kipling - Se](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/rudyard-kipling-se/): Se és capaz de manter a tua calma quando Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa; De crer em ti quando estão todos duvidando, E para esses no entanto achar uma desculpa; Se és capaz de esperar sem te desesperares, Ou, enganado, não mentir ao mentiroso, Ou, sendo odiado, sempre […]
- [William Butler Yeats - Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/william-butler-yeats-morte-poema/): Um bicho à morte ignora ânsia e temor; contudo um homem, quando é hora, anseia e teme tudo; morreu vezes sem conta e ergueu-se redivivo. Um grande homem confronta gente homicida, altivo, escarnecendo o corte do alento. Convivera com a morte a vida inteira: o homem criou a morte. Trad.: Nelson Ascher
- [T. S. Eliot - Morte Pela Água](https://singularidadepoetica.art/2016/07/04/t-s-eliot-morte-pela-agua/): Flibas, o Fenício, há quinze dias morto, Deixou o grito das gaivotas, e a funda onda do mar E o lucro e a perda. Uma corrente submarina Roeu seus ossos em sussurros. Como subiu caiu Varando o palco da velhice e juventude Rompendo os vagalhões. Gentio ou Judeu Ó tu que giras o leme e miras […]
- [Rainer Maria Rilke - Conclusão](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/rainer-maria-rilke-conclusao-poema/): A Morte é grande. Nós, sua presa, vamos sem receio. Quando rimos, indo, em meio à correnteza, chora de surpresa em nosso meio. Trad.: Augusto de Campos
- [Sérgio Sant'Anna - Heavy Metal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/sergio-santanna-heavy-metal/): Escombros. Um odor de carne chamuscada. Porém não se detecta a presença de cadáveres. Aqui e ali, como sombras, algumas paredes e edificações remanescentes. A torre caída de uma catedral gótica sobre fragmentos de vitrais estilhaçados. A reverberação de suas cores projetando castelos abstratos. Um bando de delinquentes juvenis, com as mãos nos bolsos, atravessa […]
- [Cassiano Ricardo - Ode Pastoril](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-ode-pastoril/): A paisagem é minha só porque tenho olhos. O pássaro é meu só porque tenho ouvidos. Amo com a mão as coisas que o estar aqui me deu. No universal verde, sou meu ser, não sou eu. Em meu léxico lírico só existem duas palavras, e uma é irmã da outra: a manhã e o […]
- [Laura Amélia Damous - Brevíssima Canção do Amor Constante](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/laura-amelia-damous-brevissima-cancao-do-amor-constante/): Ferindo o tempo Vestindo eternidade O meu amor tranqüilo e mudo Vive em ti Tão leve e manso Que tu não o sentes Tu
- [Carlos Nejar - Gazel do Universo Começando](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/carlos-nejar-gazel-do-universo-comecando/): "Gazel do Universo Começando", um poema de Carlos Nejar que funde amor e cosmos em imagens circulares de vento, trigo e mar, sugerindo que o universo inteiro começa no encontro amoroso e no movimento compartilhado dos amantes.
- [Cassiano Ricardo - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-o-espelho/): Um meio-dia nu, numa enorme moldura de prata. Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo. Mas não é nada. É apenas um espelho. Um rico espelho. De extraordinário fulgor. Próprio pra ser colocado à parede de um ministério da Fazenda, ou de uma casa de jogo. Toda a cidade cabe dentro dele. Árvores, […]
- [William Blake - Londres](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-londres/): Em cada rua escriturada em que ando, Onde o Tâmisa escriturado passa, Eu nos rostos que encontro vou notando Os sinais da doença e da desgraça. Ouço nos gritos que os adultos dão, E nos gritos de medo do inocente, Em cada voz, em cada interdição, As algemas forjadas pela mente Se o Limpa-Chaminés acaso […]
- [William Blake - London (c.1790)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-london-c-1790/): Perambulo por todas as ruas com barreiras Vizinhas de onde o próprio Tâmisa Entre barreiras flui, e em cada face que encontro Marco marcas de fraqueza, marcas de pesar. Ouço o ruído dos grilhões mentais apostos Em cada alocução de cada homem No grito de temor de cada infante Nas vozes todas, em cada interdição. […]
- [William Blake - A Tirzah](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-a-tirzah/): Tudo que nasceu para morrer Deve-se a terra misturar Para da geração se libertar: Então, que tenho eu a ver contigo? Do orgulho e da vergonha nasce o sexo Pela manhã florido, à tarde morto. Mas a piedade faz da Morte sono E os sexos se levantam para o trabalho e o pranto. Tu, mãe […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/giuseppe-ungaretti-natal-2/): Natal Não tenho vontade de mergulhar-me em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixai-me assim como uma coisa colocada em um canto e esquecida Aqui não se sente outra presença que o calor bom Estou com as quatro cabriolas de fumaça da lareira. Trad.: Luigi Lucchesi
- [João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/01/joao-guimaraes-rosa-grande-sertao-veredas-excerto/)
- [Lêdo Ivo - A Queimada](https://singularidadepoetica.art/2016/06/29/ledo-ivo-a-queimada/): Queime tudo o que puder: as cartas de amor as contas telefônicas o rol de roupas sujas as escrituras e certidões as inconfidências dos confrades ressentidos a confissão interrompida o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose os recortes antigos e as fotografias amareladas. Não deixe aos herdeiros esfaimados nenhuma herança de […]
- [Jorge Luis Borges - Poema dos Dons](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-borges-poema-dos-dons/): Ninguém rebaixe a lágrima ou censura Esta declaração da maestria De Deus, que com magnífica ironia Me deu mil livros e uma noite escura. Desta terra de livros fez senhores A olhos sem luz, que apenas se concedem Sonhar com bibliotecas e com cores De insensatos parágrafos que cedem As manhãs ao seu fim. Em […]
- [Amalia Bautista – Os meus melhores desejos](https://singularidadepoetica.art/2018/01/07/amalia-bautista-os-meus-melhores-desejos/): Que a vida te pareça suportável.Que a culpa não afogue a esperança.Que não te rendas nunca.Que o caminho que sigas seja sempre escolhidoentre dois pelo menos.Que te interesse a vida tanto como tu a ela.Que não te apanhe o víciode prolongar as despedidas.E que o peso da terra seja levesobre os teus pobres ossos.Que a […]
- [Amalia Bautista – O que fazes aqui](https://singularidadepoetica.art/2018/01/06/amalia-bautista-o-que-fazes-aqui/): Pensei que havia-te dito adeus,um adeus definitivo, ao deitar-mequando pude finalmente fechar meus olhose esquecer-me de ti e de tuas artimanhasde tua insistência, de tua baba ruim,da tua capacidade de anular-me.Pensei que havia-te dito adeuspara todo o sempre, e eu acordoe te encontro novamente junto a mim,dentro de mim, me envolvendo, ao meu lado,invadindo-me, sufocando-me, […]
- [Tomas Tranströmer – Minnena Ser Mig (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/05/tomas-transtromer-duas-traducoes-de-um-mesmo-poema/): Memórias que me Observam Manhã de Junho, cedo demais para acordar, tarde demais para adormecer. Tenho de sair – é densa a folhagem das memórias, perseguem-me com o seu olhar. Não se deixam ver, misturam-se todas com o fundo, verdadeiros camaleões. Tão perto estão que as ouço respirarem aqui onde o canto do pássaro ensurdece. […]
- [João Cabral de Melo Neto - Como a Morte se Infiltra](https://singularidadepoetica.art/2018/01/04/joao-cabral-de-melo-neto-como-a-morte-se-infiltra/): Certo dia, não se levanta porque quer demorar na cama. No outro dia ele diz por que: é porque lhe dói algum pé. No outro dia o que dói é a perna, E nem pode apoiar-se nela. Dia a dia lhe cresce um não, um enrodilhar-se de cão. Dia a dia ele aprende o jeito […]
- [Amalia Bautista – Al Cabo (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/03/amalia-bautista-ao-fim/): No fim de contas No fim de contas são poucas as palavrasque nos doem de verdade, e muito poucasas que conseguem alegrar a alma.E são também muito poucas as pessoasque nos fazem bater o coração, e menosainda com o correr do tempo.No fim de contas, são pouquíssimas as coisasque na verdade importam nesta vida:poder amar […]
- [Vicente de Carvalho – Velho Tema I](https://singularidadepoetica.art/2018/01/02/vicente-de-carvalho-velho-tema-i/): Só a leve esperança, em toda a vida, Disfarça a pena de viver, mais nada; Nem é mais a existência, resumida, Que uma grande esperança malograda. O eterno sonho da alma desterrada Sonho que a traz ansiosa e embevecida, É uma hora feliz, sempre adiada E que não chega nunca em toda a vida. Essa […]
- [Amalia Bautista – Façamos uma limpeza geral](https://singularidadepoetica.art/2018/01/01/amalia-bautista-facamos-uma-limpeza-geral/): Leia "Façamos uma limpeza geral", de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre memória, desapego e a coragem de recomeçar.
- [Carlos Drummond de Andrade - Receita de Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2017/12/31/carlos-drummond-de-andrade-receita-de-ano-novo/): Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das […]
- [Laura Liuzzi - Fio Sem Fim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/30/laura-liuzzi-fio-sem-fim/): Chega-se, enfim, à última página embora deixe claro: não se chega ao fim. Um mesmo fio fino frágil mas firme, da mesma fibra de rio conduz memória e história: storage — está estendido para sempre e para sempre soará, suará a cada renovação do sol, mesmo quando atingirmos o final — mesmo assim não se […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/12/29/alice-ruiz-s/): último dia ainda parece novo o ano que passou
- [Rainer Maria Rilke – Para recitar antes de adormecer](https://singularidadepoetica.art/2017/12/28/rainer-maria-rilke-para-recitar-antes-de-adormecer/): Eu queria cantar para dentro de alguém, sentar-me junto de alguém e estar aí. Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres. Queria ser o único na casa a saber: a noite estava fria. E queria escutar dentro e fora de ti, do mundo, da floresta. Os relógios chamam-se anunciando […]
- [Rainer Maria Rilke – Fonte Romana](https://singularidadepoetica.art/2017/12/27/rainer-maria-rilke-fonte-romana/): Vila Borghese Duas velhas bacias sobrepondo suas bordas de mármore redondo. Do alto a água fluindo, devagar, sobre a água, mais embaixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto, como que só no côncavo da mão, entremostrando um singular objeto: o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia, em […]
- [Adélia Prado – A Treva](https://singularidadepoetica.art/2017/12/26/adelia-prado-a-treva/): Me escolhem os claros do sono engastados na madrugada, a hora do Getsêmani. São cruas claras visões às vezes pacificadas, às vezes o terror puro sem o suporte dos ossos, que o dia pleno me dá. A alma desce aos infernos, a morte tem seu festim. Até que todos despertem e eu mesma possa dormir, […]
- [Anne Sexton – Frágil Fio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/25/anne-sexton-fragil-fio/): Minha fé é um grande peso suspenso por um frágil fio, como a aranha suspende seu bebê em uma fina teia, como a videira, galhos finos e madeira, sustenta as uvas como globos oculares, como muitos anjos dançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisa de muito fio para manter-Se lá, apenas uma veia […]
- [Laura Riding – Uma Gentileza](https://singularidadepoetica.art/2017/12/24/laura-riding-uma-gentileza/): Estar viva é estar curiosa. Quando perder interesse pelas coisas E não estiver mais atenta, álacre Por fatos, acabo este minguado inquérito. A morte é a condição do supremo tédio. Vou deixar que me desintegre E aí, por saber da paz que a morte traz, Seria bom seguir convencendo o destino A ser mais generoso, […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vigília](https://singularidadepoetica.art/2017/12/22/giuseppe-ungaretti-vigilia/): Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915 Toda uma noite em claro caído ao lado de um companheiro massacrado com sua boca arreganhada exposta à lua cheia com o hematoma de suas mãos cravado em meu silêncio escrevi cartas cheias de amor Não tinha nunca estado tão aferrado à vida Trad.: Nelson Ascher
- [Giuseppe Ungaretti – Não gritem mais](https://singularidadepoetica.art/2017/12/21/giuseppe-ungaretti-nao-gritem-mais/): Parem de matar os mortos, Não gritem mais, não gritem Se ouvir ainda os quiserem, Se imperecer ainda esperam. Eles, sussurro imperceptível, Não fazem mais ruído Que o mato quando cresce, Alegre, onde homem não passa. Trad.: Aurora Bernardini
- [Giuseppe Ungaretti – Peso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/20/giuseppe-ungaretti-peso/): Mariano, 29 de junho de 1916 Aquele camponês se fia na medalha de Santo Antonio e segue tranquilo Mas bem só e bem nua sem qualquer miragem carrego minha alma Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Georg Trakl – Ocaso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/19/georg-trakl-ocaso/): A Karl Borromäus Heinrich Por sobre o lago branco Partiram os pássaros selvagens. No crepúsculo sopra de nossas estrelas um vento gelado. Por sobre os nossos túmulos Inclina-se a fronte despedaçada das trevas. Sob carvalhos, balançamos numa barca prateada. Sempre ressoam os muros brancos da cidade. Sob arcos de espinhos Oh, irmão, ponteiros cegos, escalamos […]
- [Georg Trakl – Olhando um velho álbum](https://singularidadepoetica.art/2017/12/18/georg-trakl-olhando-um-velho-album/): Sempre voltas, melancolia, Mansidão da alma solitária. Por fim arde um dia dourado. Com humildade curva-se à dor o paciente Ressoando harmonia e suave loucura. Olha! Já escurece. Volta de novo a noite e um mortal lamenta-se E com ele sofre um outro. Arrepiada sob estrelas de outono, A cabeça mais baixa a cada ano.
- [Federico García Lorca – E Depois...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/17/federico-garcia-lorca-e-depois/): Os labirintos que criam o tempo se desvanecem. (Só fica o deserto.) O coração, fonte do desejo, se desvanece. (Só fica o deserto) A ilusão da aurora e os beijos se desvanecem. Só fica o deserto. Um ondulado deserto. Conheça outros livros de Federico García Lorca clicando aqui
- [Eugénio de Andrade – Adágio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/16/eugenio-de-andrade-adagio/): O Outono é isto – apodrecer de um fruto entre folhas esquecido. Água escorrendo, quem sabe donde, ocasional e fria e sem sentido.
- [José Saramago – É tão fundo o silêncio...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/15/3933-2/): É tão fundo o silêncio entre as estrelas. Nem o som da palavra se propaga, Nem o canto das aves milagrosas. Mas lá, entre as estrelas, onde somos Um astro recriado, é que se ouve O íntimo rumor que abre as rosas.
- [José Saramago – Diz tu por mim, silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/14/jose-saramago-diz-tu-por-mim-silencio/): Não era hoje um dia de palavras, Intenções de poemas ou discursos, Nem qualquer dos caminhos era nosso. A definir-nos bastava um acto só, E já que nas palavras me não salvo, Diz tu por mim, silêncio, o que não posso. Conheça outros livros de José Saramago clicando aqui
- [José Saramago – As Palavras de Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/12/13/jose-saramago-as-palavras-de-amor/): Esqueçamos as palavras, as palavras: As ternas, caprichosas, violentas, As suaves de mel, as obscenas, As de febre, as famintas e sedentas. Deixemos que o silêncio dê sentido Ao pulsar do meu sangue no teu ventre: Que palavra ou discurso poderia Dizer amar na língua da semente?
- [Ronaldo Costa Fernandes – Férias](https://singularidadepoetica.art/2017/12/12/ronaldo-costa-fernandes-ferias/): Aqui, quieto em meu canto sem mexer-me, olhando a luz higiênica do sol, penso na inutilidade cansativa de malas e hotéis para divertir-me nas férias estrangeiras. Não, só preciso da vontade, nem sempre firme, um vento estradeiro, um alarde distante de pássaros e nada além do meu corpo.
- [Dylan Thomas – E a Morte não terá nenhum Domínio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/11/dylan-thomas-e-a-morte-nao-tera-nenhum-dominio/): E a morte não terá nenhum domínio. Nus, os mortos irão se confundir Com o homem no vento e a lua no poente; Quando seus alvos ossos descarnados se tornarem pó, Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos; Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos, Ainda que submersos pelo mar, haverão de ressurgir; Ainda […]
- [Emmanuel Santiago – Lembro-me das Madrugadas](https://singularidadepoetica.art/2017/12/10/emmanuel-santiago-lembro-me-das-madrugadas/): Lembro-me das madrugadas de Minas, quando o frio era vidro moído na carne e, lívido, o orvalho lustrava o gume das estrelas, que luziam no brilho sombrio do céu noturno (negro veludo). Através da neblina, em dança imóvel e milenar, tremulava o vulto oblíquo das montanhas. E aquilo era tudo que eu sabia do horizonte […]
- [Mario Cesariny – Os Pássaros de Londres](https://singularidadepoetica.art/2017/12/09/mario-cesariny-os-passaros-de-londres/): Os pássaros de Londres cantam todo o inverno como se o frio fosse o maior aconchego nos parques arrancados ao trânsito automóvel nas ruas da neve negra sob um céu sempre duro os pássaros de Londres falam de esplendor com que se ergue o estio e a lua se derrama por praças tão sem cor […]
- [Ruy Espinheira Filho – Canção de Depois de Tanto](https://singularidadepoetica.art/2017/12/08/ruy-espinheira-filho-cancao-de-depois-de-tanto/): a Roniwalter Jatobá Vamos beber qualquer coisa, que a vida está um deserto e o coração só me pulsa sombras de Ido e do Incerto. Vamos beber qualquer coisa, que a lua avança no mar e há salobros fantasmas que não quero visitar. Vamos beber […]
- [Ricardo Silvestrin – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/12/07/ricardo-silvestrin-sem-titulo-2/): Lá no horizonte, o ar frio. Mais perto de você, a saudade. Fotografias. Um quadro completo. Vale a pena ver só. A verdade é uma escultura, se você quiser anunciar.
- [Ruy Espinheira Filho – Canção](https://singularidadepoetica.art/2017/12/06/ruy-espinheira-filho-cancao/): Morri de pena de ti porque foi tudo outra história – não a que hoje poderias viver em minha memória. Coisas da vida. Outro conto se contou então. E, enfim, vejo que foste feliz. Morro de pena de mim.
- [Hilda Hilst – Poemas aos homens do nosso tempo III](https://singularidadepoetica.art/2017/12/05/hilda-hilst-poemas-aos-homens-do-nosso-tempo-iii/): homenagem a Natalia Gorbanievskaya Sobre o vosso jazigo — Homem político — Nem compaixão, nem flores. Apenas o escuro grito Dos homens. Sobre os vossos filhos — Homem político — A desventura Do vosso nome. E enquanto estiverdes À frente da Pátria Sobre nós, a mordaça. E sobre as vossas vidas — Homem político — […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Retrato Malsim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/04/carlos-drummond-de-andrade-o-retrato-malsim/): O inimigo maduro a cada manhã se vai formando no espelho de onde deserta a mocidade. Onde estava ele, talvez escondido em castelos escoceses, em cacheados cabelos de primeira comunhão? Onde, que lentamente grava sua presença por cima de outra, hoje desintegrada? Ah, sim: estava na rigidez das horas de tenência orgulhosa, no morrer em […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Instante](https://singularidadepoetica.art/2017/12/03/sophia-de-mello-breyner-andresen-instante/): Deixai-me limpo O ar dos quartos E liso O branco das paredes Deixai-me com as coisas Fundadas no silêncio
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do Mar](https://singularidadepoetica.art/2017/12/02/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja […]
- [José Paulo Paes - Epitáfio para um banqueiro](https://singularidadepoetica.art/2017/12/01/jose-paulo-paes-epitafio-para-um-banqueiro/): Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [João Cabral de Melo Neto - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/30/joao-cabral-de-melo-neto-a-mesa/): O jornal dobrado sobre a mesa simples; a toalha limpa, a louça branca e fresca como o pão. A laranja verde: tua paisagem sempre, teu ar livre, sol tuas praias; clara e fresca como o pão. A faca que aparou teu lápis gasto; teu primeiro livro cuja capa é branca e fresca como o pão. […]
- [Pós-Tudo (Augusto de Campos) e Postudo (Nelson Santander)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/pos-tudo-augusto-de-campos-e-postudo-nelson-santander-poesia/): Pós-Tudo, poema visual de Augusto de Campos e Postudo, de Nelson Santander, sua paródia atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Carlos Drummond de Andrade - Quero](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/carlos-drummond-de-andrade-quero/): Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. Ouvindo-te dizer: Eu te amo, creio, no momento, que sou amado. No momento anterior e no seguinte, como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Escada](https://singularidadepoetica.art/2017/11/28/carlos-drummond-de-andrade-escada-poema/): Escada, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Guilherme de Almeida - Soneto XXVII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/27/guilherme-de-almeida-soneto-xxvii/): Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto. E assim fazemos, como se com isto pudéssemos varrer nosso passado. Passo, esquecido de teu olhar — coitado! Vais — coitada! — esquecida de que existo: como se nunca tu me houvesses visto, como se eu sempre […]
- [Goethe – Um Igual](https://singularidadepoetica.art/2017/11/21/goethe-um-igual/): Sobre cada monte A calma, Em cada fronde Nem sinal De brisa; calam- -se os pássaros na floresta. Espera! Em breve Descansas em paz. Trad.: André Vallias
- [Angela Lago - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/20/angela-lago-sem-titulo/): a pedra estará aqui daqui a vinte anos quem sabe mais polida embora não se veja ou mais recortada pelo vento a árvore terá crescido com sua sombra nem o céu permanece azul ou cinza rubro dorado negro no entanto tem essa criança que busca colo – que seja um cão que vem ao teu […]
- [Ana Martins Marques - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/19/ana-martins-marques-sem-titulo/): Porque sua camiseta secou ao sol ela tem a cor do sol porque seus cabelos secaram ao vento seus pensamentos têm a velocidade do vento porque você disse “noite” sua boca terá o gosto do mar noturno porque você não conheceu meu avô você me amará menos porque não te conheci quando criança eu te […]
- [Petrarca - Soneto CXXXIII ("O Amor me Assinalou com sua Seta")](https://singularidadepoetica.art/2017/11/18/petrarca-soneto-cxxxiii-o-amor-me-assinalou-com-tua-seta/): O amor me assinalou com sua seta,como a neve ao sol, como a cera ao fogo,como névoa ao vento; e já estou rouco,dama, de humilhar-me, feito um pateta. De teus olhos o golpe mortal veio,contra o qual tempo e espaço nada são;Vêm de ti, e vês como diversão,o sol, o fogo e o vento aos […]
- [Petrarca - Soneto CCLXXII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/17/petrarca-soneto-cclxxii/): A vida foge e não recua um passoE a morte, em grande marcha, vai em frente;As coisas do passado e do presente,Ao futuro reclamam meu espaço. A jornada que nesta vida eu traçoNa espera e na lembrança inutilmente,Por pena de mim mesmo descontenteEste caminho que ora fiz, desfaço. Se à lembrança me vem algum desejoDo […]
- [Lucrécio - Da Natureza das Coisas (de rerum natura) (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/16/lucrecio-da-natureza-das-coisas-de-rerum-natura-excerto/): Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui. Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescem Até que as conhecemos e nomeamos. Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos. Formados dos átomos que caem velozes ou lentos Vejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem; É sólido que a natureza está em nós até […]
- [Federico García Lorca - 1910 (Intermezzo)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/15/federico-garcia-lorca-1910-intermezzo/): “1910 (Intermezzo)”, um poema de Federico García Lorca que revisita o olhar inaugural da infância para revelar, entre imagens oníricas e presságios, o vazio oculto no curso inevitável das coisas.
- [Charles Baudelaire - A Giganta](https://singularidadepoetica.art/2017/11/14/charles-baudelaire-a-giganta/): Pois quando a Natureza, em seu capricho exato, Gerava estranhos seres raros, dia a dia, Uma giganta moça – eis do eu gostaria, Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato. Ver seu corpo florir com a flor de sua alma E crescer livremente em seus terríveis jogos; Ver se não teria no […]
- [Goethe - Pensamentos Noturnos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/13/goethe-pensamentos-noturnos/): Tão belas na rútila luz soberana, Guia do navegante aflito, sem norte (E sem recompensa, divina ou humana), – Tenho dó de vocês, estrelas sem sorte, Sem jamais amar e sem saber do amor! Tangendo, incansáveis, as horas eternas Na ronda do tempo das vastas esferas, Vocês vão cumprindo percursos sem conta. Mas eu, se […]
- [Thomas Hardy - Acaso](https://singularidadepoetica.art/2017/11/12/thomas-hardy-acaso/): Se ao menos do alto me chamasse um deus De ódio, e risse: “Ó homem coisa-dor, Teu sofrimento é o júbilo dos céus, Teu deve-amor é o meu haver-rancor”, Eu me conformaria, indo ao extremo De não dobrar-me, réu de um juiz verdugo, Mas orgulhoso que um poder sumpremo Me obrigasse a gemer sob o […]
- [Giacomo Leopardi - A Noite do Dia de Festa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/11/giacomo-leopardi-a-noite-do-dia-de-festa-poema/): A Noite do Dia de Festa, um poema de Giacomo Leopardi
- [William Carlos Williams - A Árvore sem Folhas](https://singularidadepoetica.art/2017/11/10/william-carlos-williams-a-arvore-sem-folhas/): A cerejeira sem folhas mais alta que o teto deu ano passado muita fruta. Como falar porém de fruta diante desse esqueleto? Embora possa estar vivo não há fruta nele. Por isso derrubem-no e usem a lenha contra este frio cortante. Trad.: José Paulo Paes The bare tree The bare cherry tree higher than […]
- [Ivan Junqueira - No Leito Fundo](https://singularidadepoetica.art/2017/11/09/ivan-junqueira-no-leito-fundo/): No leito fundo em que descansas, em meio às larvas e aos livores, longe do mundo e dos terrores que te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhores que te esqueceram nas andanças, longe das taças e das danças, e dos feéricos rumores; longe das cálidas crianças que ateavam fogo aos […]
- [Ivan Junqueira - de "Três Meditações na Corda Lírica"](https://singularidadepoetica.art/2017/11/08/ivan-junqueira-de-tres-meditacoes-na-corda-lirica/): Only through time time is conquered. T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terra e escuta a voz escura das raízes, do limo primitivo, da limalha fina do que […]
- [Ivan Junqueira - Lição](https://singularidadepoetica.art/2017/11/07/ivan-junqueira-licao/): À beira do claustro o monge se inclina e na pedra aprende o que a pedra ensina: que a vida é nada com a morte por cima, que o tempo apenas este fim lhe adia e que o ser carece de não ser ainda, pois à luz se esquiva do que o purifica: a doce […]
- [Ivan Junqueira - Antes que o Sol se Ponha](https://singularidadepoetica.art/2017/11/06/ivan-junqueira-antes-que-o-sol-se-ponha/): Antes que o sol se ponha e seja tarde, e o azul crepuscular me deite a garra, e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra ou mortalha que o corpo me resguarde; antes que murche a pétala na jarra, e eu cale, para sempre, sem alarde, e tudo o que me coube, por covarde, não […]
- [Attila József - Dois Fragmentos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/05/attila-jozsef-dois-fragmentos/): Igual motor já engatado, mas sem caminho a ser seguido, sou assim, e se fosse mais ousado só diria palavras sem sentido. ***** Quando se escreve um verso, ação diversa nos convém, o mar em vez de firme chão, navio em vez de trem. Quando se escreve em verso, não escrever nos convém. Trad.: Nelson […]
- [José Jorge Letria - Meditação sobre os Poderes](https://singularidadepoetica.art/2017/11/04/jose-jorge-letria-meditacao-sobre-os-poderes/): Rubricavam os decretos, as folhas tristes sobre a mesa dos seus poderes efémeros. Queriam ser reis, czares, tantas coisas, e rodeavam-se de pequenos corvos, palradores e reverentes, dos que repetem: és grande, ninguém te iguala, ninguém. Repartiam entre si os tesouros e as dádivas, murmurando forjadas confidências, não amando ninguém, nada respeitando. Encantavam-se com o […]
- [Haroldo de Campos – Ex/plicação](https://singularidadepoetica.art/2017/11/03/haroldo-de-campos-explicacao/): não há um sentido único num poema quando alguém começa a ex- plicá-lo e chega ao fim en- tão só fica o ex do ponto de partida beco (tente outra vez) sem saída
- [Charles Bukowski - Encurralado](https://singularidadepoetica.art/2017/11/02/charles-bukowski-encurralado/): bem, eles diziam que tudo terminaria assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca da palavra ouvindo os passos na escuridão, volto-me para olhar atrás de mim… ainda não, velho cão… logo em breve. agora eles se sentam falando sobre mim: “sim, acontece, ele já era… é triste…” “ele nunca teve muito, não […]
- [Charles Bukowski - Poema nos meus 43 anos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/01/charles-bukowski-poema-nos-meus-43-anos/): terminar sozinho no túmulo de um quarto sem cigarros nem bebida — careca como uma lâmpada, barrigudo, grisalho, e feliz por ter um quarto. …de manhã eles estão lá fora ganhando dinheiro: juízes, carpinteiros, encanadores , médicos, jornaleiros, guardas, barbeiros, lavadores de carro, dentistas, floristas, garçonetes, cozinheiros, motoristas de táxi… e você se vira para […]
- [Cecilia Meireles - Cântico VI](https://singularidadepoetica.art/2017/10/31/cecilia-meireles-cantico-vi/): Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de […]
- [Ferreira Gullar - Traduzir-se](https://singularidadepoetica.art/2017/10/30/ferreira-gullar-traduzir-se/): Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe […]
- [Orides Fontela - Kant (relido)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/29/orides-fontela-kant-relido/): Duas coisas admiro: a dura lei cobrindo-me e o estrelado céu dentro de mim.
- [Frank O'Hara - Autobiographia Literaria](https://singularidadepoetica.art/2017/10/28/frank-ohara-autobiographia-literaria/): Quando era menino eu brincava sozinho num canto do pátio da escola sem ninguém. Odiava bonecas e odiava jogos, os bichos eram hostis e os pássaros fugiam. Se alguém me procurava eu me escondia atrás de uma árvore e gritava “Sou um órfão.” E olha eu aqui, o centro de toda beleza! escrevendo estes versos! […]
- [Maya Angelou - Ainda assim me Levanto](https://singularidadepoetica.art/2017/10/27/maya-angelou-ainda-assim-me-levanto/): Você pode me inscrever na história Com as mentiras amargas que contar Você pode me arrastar no pó, Ainda assim, como pó, vou me levantar Minha elegância o perturba? Por que você afunda no pesar? Porque eu caminho como se eu tivesse Petróleo jorrando na sala de estar Assim como a lua ou o sol […]
- [Emily Dickinson - Morri pela Beleza](https://singularidadepoetica.art/2017/10/26/emily-dickinson-morri-pela-beleza/): Morri pela Beleza – e assim que no Jazigo Meu Corpo foi fechado, Um outro Morto foi depositado Num Túmulo contíguo – “Por que morreu?” murmurou sua voz. “Pela Beleza” – retruquei – “Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. Nós Somos Irmãos. É uma só lei” – E assim Parentes pela Noite, […]
- [Wislawa Szymborska - O Terrorista, Ele Observa](https://singularidadepoetica.art/2017/10/25/wislawa-szymborska-o-terrorista-ele-observa/): A bomba vai explodir no bar às treze e vinte. Agora são só treze e dezesseis. Alguns ainda terão tempo de entrar; alguns de sair. O terrorista já passou para o outro lado da rua. A distância o livra de todo mal e a vista, bom, é como no cinema: Uma mulher de jaqueta amarela, […]
- [Ana Martins Marques - Penélope (I)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/24/ana-martins-marques-penelope-i/): O que o dia tece, a noite esquece. O que o dia traça, a noite esgarça. De dia, tramas, de noite, traças. De dia, sedas, de noite, perdas. De dia, malhas, de noite, falhas.
- [Ana Martins Marques - Batata Quente](https://singularidadepoetica.art/2017/10/23/ana-martins-marques-batata-quente/): Se eu te entregasse agora o meu amor aceso como ele está, como ele está, pesado, você o trocaria rapidamente de mão, você o guardaria um pouco na esquerda, um pouco na direita, por quanto tempo antes de o passar adiante?
- [Raymond Carver - O que o Médico Disse](https://singularidadepoetica.art/2017/10/22/raymond-carver-o-que-o-medico-disse/): Ele disse não parece bom ele disse parece mau aliás muito mau ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes de parar de contar eu disse fico feliz não ia querer saber que tem mais do que isso lá ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha em bosques […]
- [Raymond Carver – Medo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/21/raymond-carver-medo/): Medo de ver a polícia estacionar à minha porta. Medo de dormir à noite. Medo de não dormir. Medo de que o passado desperte. Medo de que o presente alce voo. Medo do telefone que toca no silêncio da noite. Medo de tempestades elétricas. Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo! Medo de […]
- [Maria Cecilia Brandi – A Dança](https://singularidadepoetica.art/2017/10/20/maria-cecilia-brandi-a-danca/): Se a festa começou às dez e meia e terminou por volta das quatro teve trezentos e trinta minutos e como foram setenta e dois convidados neste meu aniversário de trinta e oito anos tive menos de cinco minutos para conversar com cada um na verdade ainda menos pois poucos chegaram no início e saíram […]
- [Cassiano Ricardo - Depois de Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/19/cassiano-ricardo-depois-de-tudo/): Mas tudo passou tão depressa Não consigo dormir agora. Nunca o silêncio gritou tanto Nas ruas da minha memória. Como agarrar líquido o tempo Que pelos vãos dos dedos flui? Meu coração é hoje um pássaro Pousado na árvore que eu fui.
- [Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer](https://singularidadepoetica.art/2017/10/17/stig-dagerman-a-nossa-necessidade-de-consolo-e-impossivel-de-satisfazer/): Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tampouco me legaram o disfarçado furor do cético, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso […]
- [Pedro Salinas - de "Presságios"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/16/pedro-salinas-de-pressagios/): 41 Estas frases de amor que se repetem tantonão são nunca as mesmas.Todas tem idêntico som,mas uma vida anima cada uma,virgem e só, se é que a percebes.E não te canses nuncade repetir as palavras iguais:sentirás a emoção que sente a almaao ver nascer a estrela primeirae ao ver que ela se multiplica, conforme a […]
- [Pedro Salinas - Não Quero que te Vás](https://singularidadepoetica.art/2017/10/15/pedro-salinas-nao-quero-que-te-vas/): Não quero que te vás,dor, última formade amar. Sinto-me vivoquando me dóis,não em ti, nem aqui,mais longe: na terra, no anode onde tu vens,no amor com elae tudo o que foi.Nessa realidadesubmersa que se negaa si mesma e insisteem nunca ter existido,que foi apenas um pretextoque encontrei para viver.Se tu não me restasses,ó dor irrefutável,até […]
- [Nicanor Parra - Perguntas e Respostas](https://singularidadepoetica.art/2017/10/14/nicanor-parra-perguntas-e-respostas/): então, tu achas que vale a pena assassinar deus se o mundo puder ser salvo? – é claro que vale a pena e vale a pena arriscar a vida por uma ideia que pode resultar falsa? – é claro que vale a pena pergunto se valerá a pena comer siri se vale a pena criar […]
- [Derek Walcott - O Amor Depois do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/10/13/derek-walcott-o-amor-depois-do-amor/): Um dia viráem que, eufórico,você cumprimentará a si próprio chegandoà sua porta, em seu espelhoe cada um dará ao outro um sorriso de boas-vindas, e você dirá, sente-se aqui. Coma.Você amará outra vez o estranho que foi.Sirva vinho. Reparta o pão. Restituao seu coraçãopara ele mesmo, para o estranho que um dia você amou por […]
- [Rainer Maria Rilke - A nós nos cabe andar](https://singularidadepoetica.art/2017/10/12/rainer-maria-rilke-a-nos-nos-cabe-andar/): I.22 A nós, nos cabe andar. Mas o tempo, os seus passos, são mínimos pedaços do que há de ficar. É perda pura tudo o que é pressa; só nos interessa o que sempre dura. Jovem, não há virtude na velocidade e no voo aonde for. Tudo é quietude: escuro e claridade, livro e flor. […]
- [Roger Wolfe - Pálpebra](https://singularidadepoetica.art/2017/10/11/roger-wolfe-palpebra/): Pedro Salinas disse num poema que não quer deixar de sentir a dor da ausência da mulher que ama porque isso é tudo o que dela fica: a dor. Não me recordo das suas palavras exactas. Ele di-lo melhor do que eu. Eram outros tempos. Salinas está morto. A mulher que ele amava também. Em […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/10/10/mia-couto-o-espelho-2/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mario Benedetti - Em Pé](https://singularidadepoetica.art/2017/10/08/mario-benedetti-em-pe/): Continuo em pé por pulsar por costume por não abrir a janela decisiva e olhar de uma vez a insolente morte essa mansa dona da espera continuo em pé por preguiça nas despedidas no fechamento e demolição da memória não é um mérito outros desafiam a claridade o caos ou a tortura continuar em pé […]
- [Octavio Paz - Irmandade](https://singularidadepoetica.art/2017/10/07/octavio-paz-irmandade/): Homenagem a Claudio Ptolomeo Sou homem: duro pouco E é enorme a noite. Mas olho para cima: As estrelas escrevem. Sem entender, compreendo: Também fui escrito E neste mesmo instante Alguém me soletra.
- [Pablo Neruda - De "Cem Sonetos de Amor"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/pablo-neruda-de-cem-sonetos-de-amor/): XII Plena mulher, maçã carnal, lua quente, Espesso aroma de algas, lodo e luz pisados, Que obscura claridade se abre entre tuas colunas? Que antiga noite o homem toca com seus sentidos? Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas, com ar opresso e bruscas tempestades de farinha: amar é um combate de […]
- [Mario Benedetti – Lento mas vem](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/mario-benedetti-lento-mas-vem/): Lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem hoje está mais além das nuvens que escolhe e mais além do trovão e da terra firme demorando-se vem qual flor desconfiada que vigila ao sol sem perguntar-lhe nada iluminando vem as últimas janelas lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem já […]
- [Ferreira Gullar – Digo Sim](https://singularidadepoetica.art/2017/10/03/ferreira-gullar-digo-sim/): Poderia dizer que a vida é bela, e muito, e que a revolução caminha com pés de flor nos campos de meu país, com pés de borracha nas grandes cidades brasileiras e que meu coração é um sol de esperança entre pulmões e nuvens Poderia dizer que meu povo é uma festa só na voz […]
- [Adilia Lopes - Absolver (com algumas coisas de Helberto Hélder)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/25/adilia-lopes-absolver-com-algumas-coisas-de-helberto-helder/): “Mas Maria guardava todas essas coisas, conferindo-as em seu coração” Lc 2,19 Chama-se sexo a uma parte do corpo como se todo o corpo as mãos os pés a cabeça não fossem também sexo o pênis a vagina os testículos as maminhas são frágeis vulneráveis estão expostos à crueldade são flores ou musgos posso estar […]
- [Mário Chamie - Cervo, Servo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/21/mario-chamie-cervo-servo/): 1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas, […]
- [Elizabeth Bishop - A Arte de Perder](https://singularidadepoetica.art/2017/09/20/elizabeth-bishop-a-arte-de-perder/): A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetoides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/09/19/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos-2/): VI Nada de mergulhos. É na superfície que o real, minúsculo plâncton, se trai. Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneira do funcional. E o sofrimento, ai, esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti- nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, […]
- [Bertolt Brecht – Prazeres](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/bertolt-brecht-prazeres/): O primeiro olhar da janela de manhã O velho livro de novo encontrado Rostos animados Neve, o mudar das estações O jornal O cão A dialéctica Tomar duche, nadar Velha música Sapatos cómodos Compreender Música nova Escrever, plantar Viajar, cantar Ser amável. Trad.: Paulo César de Souza
- [Vinícius de Moraes – O Verbo no Infinito](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/vinicius-de-moraes-o-verbo-no-infinito/): Ser criado, gerar-se, transformar O amor em carne e a carne em amor; nascer Respirar, e chorar, e adormecer E se nutrir para poder chorar Para poder nutrir-se; e despertar Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir E começar a amar e então sorrir E então sorrir para poder chorar. E crescer, […]
- [Manuel Bandeira – Renúncia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/17/manuel-bandeira-renuncia/): Chora de manso e no íntimo… Procura Curtir sem queixa o mal que te crucia: O mundo é sem piedade e até riria Da tua inconsolável amargura. Só a dor enobrece e é grande e é pura. Aprende a amá-la que a amarás um dia. Então ela será tua alegria, E será, ela só, tua […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Encontro](https://singularidadepoetica.art/2017/09/16/carlos-drumond-de-andrade-encontro/): Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho. Se a noite me atribui poder de fuga, sinto logo meu pai e nele ponho o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madruga e seu rosto, nem triste nem risonho, é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga suor […]
- [Sylvia Plath - A Redoma de Vidro (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/14/sylvia-plath-a-redoma-de-vidro-excerto/): “Eu vi minha vida estendendo seus galhos em minha frente como a figueira verde da história. Da ponta de cada ramo, como um figo roxo e grande, um maravilhoso futuro acenava e piscava. Um figo era um marido e um lar feliz e filhos, e outro figo era uma famosa poetisa e outro figo era […]
- [Nicanor Parra – Cartas a uma Desconhecida](https://singularidadepoetica.art/2017/09/13/nicanor-parra-cartas-a-uma-desconhecida/): Quando passarem os anos, quando passarem os anos e o ar tenha cavado um fosso entre tua alma e a minha; quando passarem os anos e eu só seja um homem que amou, um ser que se deteve um instante diante de teus lábios, um pobre homem cansado de andar pelos jardins, onde estarás tu? […]
- [Nicanor Parra – Acácias](https://singularidadepoetica.art/2017/09/12/nicanor-parra-acacias/): Passeando anos atrás por uma rua cheia de acácias em flor soube por um amigo bem informado que você tinha acabado de se casar. Respondi que por certo eu não tinha nada a ver com o assunto. Mas apesar de nunca ter amado você – e disso você sabe melhor do que eu – cada […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Consolo na Praia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-consolo-na-praia/): Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tu? Eu?](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-tu-eu/): Não morres satisfeito. A vida te viveu sem que vivesses nela. E não te convenceu nem deu motivo para haver o ser vivo. A vida te venceu em luta desigual. Era todo o passado presente presidente na polpa do futuro acuando-te no beco. Se morres derrotado, não morres conformado. Nem morres informado dos termos da […]
- [Antonio Cicero - Nihil](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-nihil/): nada sustenta no nada esta terra nada este ser que sou eu nada a beleza que o dia descerra nada a que a noite acendeu nada esse sol que ilumina enquanto erra pelas estradas do breu nada o poema que breve se encerra e que do nada nasceu
- [Algernon Charles Swinburne - Um Amigo Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/algernon-charles-swinburne-um-amigo-morto/): Leia "Um Amigo Morto", de Algernon Charles Swinburne, uma comovente elegia sobre amizade, memória e a permanência do amor após a morte.
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas (último capítulo)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/machado-de-assis-memorias-postumas-ultimo-capitulo/): Talvez o melhor capítulo final da literatura brasileira:Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, […]
- [Pierre Corneille - Estrofes para a bela marquesa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/pierre-corneille-estrofes-para-a-bela-marquesa/): Marquesa, se minha face A ti parece mais velha, Espera que o tempo passe Que verás a que te espelha. O tempo, contra o vigor Das coisas belas, protesta, E há de te fanar a flor Tal qual enrugou-me a testa. Noite e dia tudo flui, Rege-nos a mesma lei, Se veem em ti o […]
- [Alberto Caeiro - Há Metafísica demais em não Pensar em Nada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/alberto-caeiro-ha-metafisica-demais-em-nao-pensar-em-nada/): Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou! (Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as coisas, Não compreende quem fala delas Com o […]
- [Jorge Luis Borges - O Suicida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/jorge-luis-borges-o-suicida/): Não ficará na noite uma estrela. Não ficará a noite. Morrerei e comigo a suma Do intolerável universo. Apagarei as pirâmides, as medalhas, Os continentes e as caras. Apagarei a acumulação do passado. Farei pó a história, pó o pó. Estou olhando o último poente. Ouço o último pássaro. Lego o nada a ninguém. Trad.: […]
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyanedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat-2/): Trad.: Augusto de Campos
- [Mário Quintana - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/mario-quintana-o-morto/): Eu estava dormindo e me acordaram E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco… E quando eu começava a compreendê-lo Um pouco, Já eram horas de dormir de novo!
- [Rodrigo Barata - Cilada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/rodrigo-barata-cilada-3/)
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Antonio Cicero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida-2/)
- [Antonio Cícero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida/): Conheci da humana lida a sorte: o único fim da vida é a morte e não há, depois da morte, mais nada. Eis o que torna esta vida sagrada: ela é tudo e o resto, nada.
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/konstantinos-kavafis-itaca-em-tres-traducoes/): ÍTACA(Trad. José Paulo Paes) Se partires um dia rumo a Ítaca,faz votos de que o caminho seja longo,repleto de aventuras, repleto de saber.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o colérico Posídon te intimidem;eles no teu caminho jamais encontrarásse altivo for teu pensamento, se sutilemoção teu corpo e teu espírito tocar.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o bravio […]
- [Cassiano Ricardo - Os Futuricidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-os-futuricidas/): Sois o Bloco dos Suicidas.Paradoxo pensar que todo suicí- dio será a morte de Deus em nós. Nós não. Vamos salva-l’Oda hecatombe em que, afinal, tudo tombe.Nós O queremos vivo e salvo mesmo escanhoado dequalquer ornamento, pluma ou liturgia. Calvo.Sem nenhum arco-íris na cabeça ou púrpura.Não esquartejado numa vila ricaou atado ao rabo de um […]
- [Cassiano Ricardo - 2ª Aula na Jaula](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-2a-aula-na-jaula/): 1 Ícaro morreu,não por voar junto ao Sol mas de obsoleto pelos robôs levadoem seu caixão preto os mitos de hojeconversam comigo na rua.Convidam-me a assis- tir a Antonioni no cinemaem plena iconosfera. Tudo o que foi ontem é outra era. 2No Jardim Zoológicouma Lua presa numa enorme jaula de vidro. Com todas as crateras […]
- [Algernon Charles Swinburne - O Jardim de Proserpina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/algerno-charles-swinburne-o-jardim-de-proserpina/): Leia "O Jardim de Proserpina", de Algernon Charles Swinburne, um clássico da poesia vitoriana sobre morte, esquecimento e o anseio pelo repouso eterno.
- [Alan Moore - Monólogo de Rorschach](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/alan-moore-monologo-de-rorschach/): “Olhei para o céu, através da fumaça espessa com gordura humana, e Deus não estava lá. A fria, sufocante escuridão persiste para sempre e estamos sozinhos. Vivemos nossas vidas, por falta de algo melhor para fazer. Inventamos um motivo depois. Nascemos do esquecimento; temos filhos, destinados ao inferno como nós, caímos no esquecimento. Não há […]
- [Walter Savage Landor - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/walter-savage-landor-epitafio/)
- [Susan Sontag - De “Sobre Fotografia”](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/susan-sontag-de-sobre-fotografia/): “Todas as fotos são memento mori. Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa). Precisamente por cortar uma fatia deste momento e congelá-lo, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo (…). A fotografia é simultaneamente uma pseudo-presença e um sinal de ausência.” Susan Sontag, em […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte das Casas de Ouro Preto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/carlos-drummond-de-andrade-morte-das-casas-de-ouro-preto/): Sobre o tempo, sobre a taipa, a chuva escorre. As paredes que viram morrer os homens, que viram fugir o ouro, que viram finar-se o reino, que viram, reviram, viram, já não vêem. Também morrem. Assim plantadas no outeiro, menos rudes que orgulhosas na sua pobreza branca, azul e rosa e zarcão, ai, pareciam eternas! […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): East Coker](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-east-cocker/): Em meu princípio está meu fim. Uma após outrasAs casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugarSurgem um campo aberto, uma usina ou um atalho.Velhas pedras para novas construções, velhas lenhas para novas chamas,Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra semeada,Terra agora feita carne, pele e […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): Burnt Norton](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-burnt-norton/): I O tempo presente e o tempo passadoEstão ambos talvez presentes no tempo futuroE o tempo futuro contido no tempo passado.Se todo tempo é eternamente presenteTodo tempo é irredimível.O que poderia ter sido é uma abstraçãoQue permanece, […]
- [Ernest Dowson - Vitae Summa Brevis Spem Nos Vetat Incohare Longan](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ernest-c-dowson-vitae-summa-brevis-spem-nos-vetat-incohare-longan/): Vitae Summa Brevis Spem nos Vetat Incohare Longam (A Brevidade da Vida Impede que Possamos Acalentar Longas Esperanças) – Horácio A alegria, o desejo, o pranto, o amor E a raiva duram pouco. Nada disso, que eu saiba, há de transpor O umbral conosco. Poucos dias de rosas e de vinho: Surge num vago sonho […]
- [Janus Vitalis - Sobre Roma](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/janus-vitalis-sobre-roma/): Recém-chegado que, buscando Roma em Roma, não encontras, em Roma, Roma alguma, olha ao redor, muro e mais muro, pedras rotas, ruínas, que assustam, de um teatro imenso: é Roma isto que vês – cidade tão soberba, que ainda exala ameaças seu cadáver. Vencido o mundo, quis vencer-se e, se vencendo, para que nada mais […]
- [Ferreira Gullar - Anoitecer em Outubro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-anoitecer-em-outubro/): A noite cai, chove manso lá fora meu gato dorme enrodilhado na cadeiraNum dia qualquer não existirá mais nenhum de nós doispara ouvir nesta salaa chuva que eventualmente caia sobre as calçadas da rua Duvivier
- [Ferreira Gullar -Aprendizado](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-aprendizado/): Do mesmo modo que te abriste à alegria abre-te agora ao sofrimento que é fruto dela e seu avesso ardente. Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo e te perdeste nela e te achaste nessa perda deixa que a dor se exerça agora sem mentiras nem desculpas e em tua carne vaporize toda […]
- [Mário Quintana - Pequeno Poema Didático](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/mario-quintana-pequeno-poema-didatico/): O tempo é indivisível. Dize, Qual o sentido do calendário? Tombam as folhas e fica a árvore, Contra o vento incerto e vário. A vida é indivisível. Mesmo A que se julga mais dispersa E pertence a um eterno diálogo A mais inconseqüente conversa. Todos os poemas são um mesmo poema, Todos os porres são […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Carta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-carta/): Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas, as mesmas, triviais, embora estremecessem a um toque de paixão. Perfurando os obscuros canais de argila e sombra, ela iria contando que vou bem, e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente, e espero uma resposta, mas que não tarde; e peço […]
- [Nelson Santander - Pontuação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-pontuacao-poema/): Pontuação, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Beijo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-beijo-poema/): Beijo, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Chuva](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-chuva-poema/): Chuva, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Religio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-religio-poema/): Religio, um poema de Nelson Santander
- [Amadeu Amaral - Névoa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/amadeu-amaral-nevoa/): Tudo isto há de passar, decerto, muito em breve… Branca névoa sutil, ir-se-á quando o sol nasça; branco sonho de amor, passará, como passa pelas ondas em fúria uma garça de neve. Passará dentro em pouco, imitando a fumaça que se evola e se esvai nas curvas que descreve. Fumaça de ilusão, força é que […]
- [Lêdo Ivo - Epitalâmio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/ledo-ivo-epitalamio/): A terra cessa de girar, para que eu te ame. Não há mais Dia e Noite, meu amor. Somos hóspedes do impossível. Tudo é verdade e as horas irrompem como vulcões. O mar não clama, embora ainda exista. Para os que amam, como nós, as rotações foram abolidas, os séculos assumem a forma de um […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Mensagem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-mensagem/): Longe, muito longe, um país nos contempla. Um país de silício e saibro, de água salgada e sol Onde os peixes não chegam, os corvos não assistem. Onde os náufragos se afogam no incêndio do solitário dia eterno. Longe, muito longe, onde a areia reflete as escamas da lua; onde só os mortos vão beijar […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Elegia para os Suicidas do Viaduto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-elegia-para-os-suicidas-do-viaduto/): Eles já estavam mortos no ventre materno. Para eles o deflagrar da aurora era já um túmulo. Fugiam para a morte presos, embora, à corda umbilical. Rondava a lua estéril entre ciprestes E a terra de cardos e açucenas era a alegria, o trigo, a lepra, a tempestade. Já estavam mortos quando nasceram acorrentados ao […]
- [Thiago de Mello - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/thiago-de-mello-o-morto/): Qual a verdade que o morto conheceu, além dos muros, e lhe fez cerrar os lábios estrangulando a palavra porventura essencial? Enfim livre da cegueira, que paisagem contemplou para que o rosto lhe turve tão rude ruga de mágoa? Soube talvez que melhor fora mostrar-se de todo: desvelar inteira a face, seus amores e seus […]
- [Walderez C. Gomes - Eu te amei...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/walderez-c-gomes-eu-te-amei/): Eu te amei Amando-me em ti. E de tanto amor em ti fui convertida sem ser eu mesma sendo tu. Olhando-me assim dividida. Eu me enterrei de amor amando-me mais quanto menos em mim fui conhecida quanto mais em ti fui consumada.
- [Giórgos Seféris - Existe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-existe/): Existe, pelos deuses cruéis predestinada, uma dor universal, e cada um de nós dela pega a sua parte, quanto aguente levar. Julgamos insensatos os que, carregando pressurosamente nos ombros mais do que podiam carregar, aliviam assim a carga comum: os heróis, os mártires, os criminosos. Rogo-lhes que nos perdoem. Recordamos. Trad.: José Paulo Paes
- [Giórgos Seferis - São Assim os Túmulos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-sao-assim-os-tumulos/): São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio, com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura. E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas, a cabeça baixa, a fonte dos lamentos – acompanha as horas pétreas dos que jazem. Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se […]
- [Angela Leite de Souza - Do Lado de Cá Dessas Rosas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/angela-l-de-souza-do-lado-de-ca-dessas-rosas/): Nem percebi quando me cobriram com esta colcha rosa de rosas amorosamente. Dormia meu novo sono sem tranqulizantes, sem relógios: estou serena e não há pressa em acordar. Ser apenas, estar. Não me roem mais tristezas nem desejos, lateja leve leve uma saudade. Meu corpo vai não sendo, sou feliz. Livre do dever de viver e […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Rostos Imóveis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-os-rostos-imoveis/): Pai morto, namorada morta. Tia morta, irmão nascido morto. Primos mortos, amigo morto Avô morto, mãe morta (mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos). Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto. Noiva morta, amigas mortas. Chefe de trem morto, passageiro morto. Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho! Cão morto, passarinho morto. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Palavras no Mar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar/): Escrita nas ondas a palavra Encanto balança os náufragos, embala os suicidas. Lá dentro, os navios são algas e pedras em total olvido. Há também tesouros que se derramaram e cartas de amor circulando frias por entre medusas. Verdes solidões, merencórios prantos, queixumes de outrora, tudo passa rápido e os peixes devoram e a memória […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Noturno Oprimido](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-noturno-oprimido/): A água cai na caixa com uma força, com uma dor! A casa não dorme, estupefata. Os móveis continuam prisioneiros de sua matéria pobre, mas a água parte-se a água protesta. Ela molha toda noite com sua queixa feroz, seu alarido. E sobre nossos corpos se avoluma o lago negro de não sei que infusão. […]
- [Cassiano Ricardo - Vociferação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-vociferacao/): I Homem em Adão. Homem em Cristo. Homem em globo. II como salvar Deus? nós faremos d’Ele novamente o Autor de tudo: do peixe, da ave, da cobra, da maçã, do sapo, do rouxinol do sol. O obrigaremos contudo a suar san- gue conosco, na guerra, na fome na peste na terra suja; a engolir […]
- [Cassiano Ricardo - Gramática Visual de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-gramatica-visual-de-cristo/): 1 “Cristo, terá sido em vão teu sacri- fício? vê, o sangue escorre, acre, no massacre das ruas.” Cristo espalmou a mão cobrindo os olhos horizontalmente pra não ver a destruição do ser 2 “Cristo, vê os pequeninos que tanto amaste agora garotos nos becos como ratos dentro de sapatos rotos.” Cristo escondeu, de novo, […]
- [Cassiano Ricardo - Etc.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-etc-2/): Existe tudo porque existo. Há porque vemos. (Fernando Pessoa) Para que o mundo exista, existimos. Pois seja. Sem os nossos olhos, sem o que somos, que adiantaria haver mundo? Seria a árvore dos dourados pomos, etc. O que é ignorado não existe. O que é eterno também não existe. A eternidade é uma forma […]
- [Jorge Luis Borges - Remorso por qualquer morte](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/jorge-luis-borges-remorso-por-qualquer-morte/): Livre da memória e da esperança,Ilimitado, abstrato, quase futuro,O morto não é um morto: é a morte.Como o Deus dos místicos,A quem se devem negar todos os predicados,O morto, onipresentemente alheio,Não é senão a perdição e a ausência do mundo.Tudo lhe roubamos,Não lhe deixamos nem uma cor, nem uma sílaba:Aqui está o pátio que seus […]
- [John Donne - Em despedida: proibindo o pranto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/john-donne-em-despedida-proibindo-o-pranto/): Como esses santos homens que se apagam Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”, Enquanto alguns dos amigos amargos Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” — Nos dissolvamos sem fazer ruído. Sem tempestades de ais, sem rios de pranto, Fora profanação nossa ao ouvido Dos leigos descerrar todo este encanto. O terremoto traz terror e morte E […]
- [Cassiano Ricardo - Missa de Corpo Presente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-missa-de-corpo-presente/): O seu corpo tão alvo, o seu corpo presente é a coisa mais ausente, é uma ilusão pensar que a rosa ou o fruto já colhidos ainda soluçam desprendidos da haste. O seu corpo é já um fruto neutro e frio. Não obstante jovem, tem a mesma idade de todos os que morreram antes, ou […]
- [Ricardo Reis - Odes: 153 - Como este infante que alourado dorme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-153/): Como este infante que alourado dorme Fui. Hoje sei que há morte, Lídia, há largas taças por encher Nosso amor que nos tarda. Qualquer que seja o amor ou a taça, cedo Cessa. Receia, e apressa.
- [Ricardo Reis - Odes: 144 - Uns, com os olhos postos no passado,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-144/): Uns, com os olhos postos no passado, Vêem o que não vêem; outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, vêem O que não pode ver-se. Porque tão longe ir pôr o que está perto — A segurança nossa? Este é o dia, Esta é a hora, este o momento, isto É quem somos, e é […]
- [Ricardo Reis - Odes: 105 - Quando, Lídia, vier o nosso Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-105/): Quando, Lídia, vier o nosso outono Com o inverno que há nele, reservemos Um pensamento, não para a futura Primavera, que é de outrem, Nem para o estio, de quem somos mortos, Senão para o que fica do que passa – O amarelo atual que as folhas vivem E as torna diferentes.
- [Ricardo Reis - Odes: 80 - A nada imploram tuas mãos já coisas,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-80/): A nada imploram tuas mãos já coisas, Nem convencem teus lábios já parados, No abafo subterrâneo Da húmida imposta terra. Só talvez o sorriso com que amavas Te embalsama remota, e nas memórias Te ergue qual eras, hoje Cortiço apodrecido. E o nome inútil que teu corpo morto Usou, vivo, na terra, como uma alma, […]
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-63/)
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-4/): Tão cedo passa tudo quanto passa! Morre tão jovem ante os deuses quanto Morre! Tudo é tão pouco! Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala. O mais é nada.
- [Ricardo Reis - Odes: 61 - De uma só vez recolhe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-3/): De uma só vez recolhe Quantas flores puderes. Não dura mais que até à morte o dia. Colhe de que recordes. A vida é pouco e cerca-a A sombra e o sem remédio. Não temos regras que compreendamos, Súbditos sem governo. Goza este dia como Se a Vida fosse nele. Homens nem deuses fadam, nem […]
- [Ricardo Reis – Odes: 40 - Não sem lei, mas segundo leis diversas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-2/): Não sem lei, mas segundo leis diversas Entre os homens reparte o fado e os deuses Sem justiça ou injustiça Prazeres, dores, gozos e perigos. Bem ou mal, não terás o que mereces. Querem os deuses a isto obrigar Porque o Fado não tem Leis nossas com que reja a sua lei. Quem é rei […]
- [Ricardo Reis - Odes: 1 - Mestre, são placidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas/): Mestre, são plácidas Todas as horas Que nós perdemos, Se no perdê-las, Qual numa jarra, Nós pomos flores. Não há tristezas Nem alegrias Na nossa vida. Assim saibamos, Sábios incautos, Não a viver, Mas decorrê-la, Tranquilos, plácidos, Tendo as crianças Por nossas mestras, E os olhos cheios De natureza… À beira-fio, À beira-estrada, Conforme calha, […]
- [Ricardo Reis - Odes - Livro I - XIII - Olho os campos, Neera,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-livro-primeiro/): Olho os campos, Neera, Campos, campos e sofro Já o frio da sombra Em que não terei olhos. A caveira antessinto Que serei não sentindo, Ou só quanto o que ignoro Me incógnito ministre. E menos ao instante Choro, que a mim futuro. Súdito ausente e nulo Do universal destino.
- [Aldous Huxley - Silêncio/Música](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/384-2/): “Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.” – Aldous Huxley
- [Cassiano Ricardo - O Festim Terrestre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-festim-terrestre/): O olho de Polifemo já depois de arrancado ao gigante bêbado, foi posto, entre rosas carnosas e lírios agudos, sobre a alva mesa. Tinha ainda a pupila acesa. E os doze convivas, — doze fomes irmãs, — todos ao mesmo tempo, simultâneos como figuras de uma orquestra, vieram, graves, comer o olho de Polifemo, em […]
- [Cassiano Ricardo - Evocação dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-evocacao-dos-mortos/): Um dia conversarei com os meus mortos. E todos os que morri (os muitos eus que eu fui) reunidos inquietos sôfregos cada qual com um meu rosto na mão, me contarão (sua) a minha história. Não obstante a tua gélida memória. Ah, os defuntos que ficaram atrás de mim fotograficamente, agora juntos. Não acredito que […]
- [Titãs - O Pulso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/titas-o-pulso/): O PULSO O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Peste bubônica câncer pneumonia Raiva rubéola tuberculose anemia Rancor cisticercose caxumba difteria Encefalite faringite gripe leucemia O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Hepatite escarlatina estupidez paralisia Toxoplasmose sarampo esquizofrenia Úlcera trombose coqueluche hipocondria Sífilis ciúmes asma cleptomania O corpo ainda é pouco O […]
- [Marina Colasanti - Sexta-feira à noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/marina-colasanti-sexta-feira-a-noite/): Sexta-feira à noite Os homens acariciam o clitóris das esposas Com dedos molhados de saliva. O mesmo gesto com que todos os dias Contam dinheiro, papéis, documentos E folheiam nas revistas A vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noite Os homens penetram suas esposas Com tédio e pénis. O mesmo tédio com que todos os […]
- [Waly Salomão - A Fábrica do Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/waly-salomao-a-fabrica-do-poema/): do livro: Algaravias: FÁBRICA DO POEMA in memoriam Donna Lina Bo Bardi sonho o poema de arquitetura idealcuja própria nata de cimento encaixa palavra porpalavra,tornei-me perito em extrair faíscas das britase leite das pedras.acordo.e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.acordo.o prédio, pedra e cal, esvoaçacomo um leve papel solto à mercê do ventoe evola-se, […]
- [Ferreira Gullar - Galo Galo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ferreira-gullar-galo-galo/): O galo no saguão quieto. Galo galo de alarmante crista, guerreiro, medieval. De córneo bico e esporões, armado contra a morte, passeia. Mede os passos. Pára. Inclina a cabeça coroada dentro do silêncio: — que faço entre coisas ? — de que me defendo ? Anda No saguão. O cimento esquece o seu último passo. […]
- [Manuel Bandeira - Profundamente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-profundamente/): Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes, cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o […]
- [Manuel Bandeira - Poema Só Para Jaime Ovalle](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-poema-so-para-jaime-ovalle/): Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando… – Humildemente pensando na vida e nas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Máquina do Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/carlos-drummond-de-andrade-a-maquina-do-mundo/): E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio […]
- [José Paulo Paes - A Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-a-cidade/): Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que […]
- [José Paulo Paes - Revisitação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-revisitacao/): Cidade, por que me persegues? Com os dedos sangrando já não cavei em teu chão os sete palmos regulamentares para enterrar meus mortos? Não ficamos quites desde então? Por que insistes em acender toda noite as luzes de tuas vitrinas com as mercadorias do sonho a tão bom preço? Não é mais tempo de comprar. […]
- [Philip Larkin – Este Seja o Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/philip-larkin-este-seja-o-poema/): Teu pai e mãe fodem contigo. Que não o queiram, tanto faz. Passam-te cada podre antigo, além de uns novos, especiais. Mas de cartola e fraque, outrora, fodera-os já do mesmo modo, gente ora austero-piegas, ora se engalfinhando cega de ódio. Miséria é o que legamos: fossas num mar que só fica mais fundo. Dá […]
- [Jaime Gil de Biedma - Não Voltarei a ser Jovem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jaime-gil-de-biedma-nao-voltarei-a-ser-jovem/): Que é certo a vida passa só se começa a compreender mais tarde — como todos os jovens, decidi levar a minha vida por diante. Deixar marca eu queria e partir entre aplausos — envelhecer, morrer, eram somente as dimensões do teatro. Porém, passou o tempo e a verdade mais amarga assoma: envelhecer, morrer, é […]
- [William Butler Yeats - Quando Velha e Grisalha...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/william-butler-yeats-quando-velha-e-cansada-poema/): Quando velha e grisalha e exausta, ao fim do dia, tu cabeceares junto ao fogo, vem folhear lentamente este livro, e lembra o doce olhar e as sombras densas que nos olhos teus havia. Quantos, com falsidade ou devoção sincera, amaram-te a beleza e graça de menina! Um só, porém, amou tua alma peregrina, e […]
- [Ivan Junqueira - Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-morrer/): Pois morrer é apenas isto: cerrar os olhos vazios e esquecer o que foi visto; é não supor-se infinito, mas antes fáustico e ambíguo, jogral entre a história e o mito; é despedir-se em surdina, sem epitáfio melífluo ou testamento sovina; é talvez como despir o que em vida não vestia e agora é inútil […]
- [Ivan Junqueira - Esse Punhado de Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-esse-punhado-de-ossos/): Esse punhado de ossos que, na areia, alveja e estala à luz do sol a pino moveu-se outrora, esguio e bailarino, como se move o sangue numa veia. Moveu-se em vão, talvez, porque o destino lhe foi hostil e, astuto, em sua teia bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia o que havia de raro […]
- [Ivan Junqueira - A Sagração dos Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-a-sagracao-dos-ossos/): Considerai estes ossos – tíbios, inúteis, apócrifos – que sob a lápide dormem sem prédica que os conforte. Considerai: é o que sobra de quem lhes serviu de invólucro e agora já não se move entre as tábuas do sarcófago. Dormem sem túnica ou toga e, quando muito, um lençol lhes cobre as partes mais […]
- [Ivo Barroso - Poema a meu Pai](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivo-barroso-poema-a-meu-pai/): Meu pai morreu longe de mim (eu é que estava longe dele). Tantos anos se passaram e ainda não lhe vi a sepultura. Continuo longe. Mas sua presença me sacode como um choque elétrico, uma bebida forte que me arde por dentro. Está vivo nos meus dedos, nos cabelos ralos – a nuca dá arrepios […]
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono-2/)
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono/): Senhor, foi um verão imenso: é hora.Estende as tuas sombras nos relógiosde sol e solta os ventos prado afora. Instiga a sazonarem, com dois diasa mais de sul, as frutas que, tardias,conduzes rumo à plenitude, e apura,no vinho denso, a última doçura. Quem não tem lar já não terá; quem morasozinho há de velar e […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Homenagem a Ricardo Reis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/sophia-de-mello-breyner-andresen-homenagem-a-ricardo-reis/): Não creias, Lídia , que nenhum estioPor nós perdido possa regressarOferecemos a florQue adiámos colher. Cada dia te é dado uma só vezE no redondo círculo da noiteNão existe piedadePara aquele que hesita Mais tarde será tarde e já é tardeO tempo apaga tudo menos esseLongo indelével rastoQue o não – vivido deixa. Não creias […]
- [Ricardo Reis - Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ricardo-reis-vem-sentar-te-comigo-lidia-a-beira-do-rio/): Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.) Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, […]
- [John Donne - Elegia: indo para o leito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/john-donne-elegia-indo-para-o-leito/): Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz; Até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, Canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, Céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, Feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor […]
- [Bruno Tolentino - Via Crucis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/bruno-tolentino-via-crucis/): A Via Crucis foi uma selvageria, a Crucifixão uma brutalidade; mas em três, quatro horas, acabou a agonia, baixou a eternidade. Eu vivo aqui, crucificada noite e dia, carrego da manhã à tarde o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia, lenta, fria, covarde. Ah, como eu preferia que me crucificassem de uma […]
- [Catulo - Vivamus, mea Lésbia, ataque amemus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/catulo-vivamus-mea-lesbia-ataque-amemus/): Vivamos minha Lésbia, e amemos, e as graves vozes velhas – todas – valham para nós menos que um vintém. Os sóis podem morrer e renascer: quando se apaga nosso fogo breve dormimos uma noite infinita. Dá-me pois mil beijos, e mais cem, e mil, e cem, e mil, e mil e cem. Quando somarmos […]
- [Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/percy-bysshe-shelley-ozymandias-poema/): Disse o viajante de uma antiga terra: “Duas pernas de pedra, no deserto, Despontam gigantescas, e bem perto Há um rosto destroçado que descerra Os lábios num sorriso de comando Que atesta: o escultor leu com mestria Paixões que na matéria inerte e fria A mão que as entalhou vão perdurando. ‘Meu nome é Ozymândias, […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/giuseppe-ungaretti-natal/): Não me apetece mergulhar em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixe-me assim como uma coisa pousada em um canto e abandonada Aqui não se sente senão o bom calor Estou com as quatro cabriolas de fumo da lareira
- [Jorge Luis Borges - Nuvem (1)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/jorge-luis-borges-nuvem-1/): Não haverá uma só coisa que não seja uma nuvem. São nuvens as catedrais de vasta pedra e bíblicos cristais que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia que muda como o mar. Algo há distinto cada vez que a abrimos. O reflexo de tua cara já é outro no espelho e o dia é […]
- [Olavo Bilac - Nel Mezzo Del Camin...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/olavo-bilac-nel-mezzo-del-camin/): Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigadaE triste, e triste e fatigado eu vinha.Tinhas a alma de sonhos povoada,E a alma de sonhos povoada eu tinha… E paramos de súbito na estradaDa vida: longos anos, presa à minhaA tua mão, a vista deslumbradaTive da luz que teu olhar continha. Hoje, segues de novo… Na partidaNem o pranto teus […]
- [Machado de Assis - A Carolina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/machado-de-assis-a-carolina/): Querida, ao pé do leito derradeiroEm que descansas dessa longa vida,Aqui venho e virei, pobre querida,Trazer-te o coração do companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiroQue, a despeito de toda humana lida,Fez a nossa existência apetecidaE num recanto pôs um mundo inteiro. Trago-te flores, – restos arrancadosDa terra que nos viu passar unidosE ora mortos nos deixa […]
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/konstantinos-kavafis-itaca/): Ítaca, um poema de Konstantinos Kaváfis
- [Vladimir Maiakovski/Caetano Veloso - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-caetano-veloso-o-amor/): Talvez quem sabe um dia Por uma alameda do zoológico Ela também chegará Ela que também amava os animais Entrará sorridente assim como está Na foto sobre a mesa Ela é tão bonita Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão O século trinta vencerá O coração destroçado já Pelas mesquinharias Agora vamos […]
- [Vladimir Maiakovski - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-o-amor/): “O Amor”, um poema de Vladimir Maiakovski que explode a linguagem para fazer do sentimento uma força desmedida, urgente e quase insuportável.
- [Carlos Drummond de Andrade - Destruição](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-drummond-de-andrade-destruicao/): Os amantes se amam cruelmentee com se amarem tanto não se vêem.Um se beija no outro, refletido.Dois amantes que são? Dois inimigos. Amantes são meninos estragadospelo mimo de amar: e não percebemquanto se pulverizam no enlaçar-se,e como o que era mundo volve a nada. Nada, ninguém. Amor, puro fantasmaque os passeia de leve, assim a […]
- [Antonio Cicero - Huis Clos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-huis-clos/): Da vida não se sai pela porta: só pela janela. Não se sai bem da vida como não se sai bem de paixões jogatinas drogas. E é porque sabemos disso e não por temer viver depois da morte em plagas de Dante Goya ou Bosh (essas, doce príncipe, cá estão) que tão raramente nos matamos […]
- [Antonio Cicero - História](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-historia/): A história, que vem a ser? mera lembrança esgarçada algo entre ser e não-ser: noite névoa nuvem nada. Entre as palavras que a gravam e os desacertos dos homens tudo o que há no mundo some: Babilônia Tebas Acra. Que o mais impecável verso breve afunda feito o resto (embora mais lentamente que o bronze, […]
- [Nelson Santander - Mudança Singular](https://singularidadepoetica.art/2018/07/14/nelson-santander-mudanca-singular/): Resolvi mudar o blog. De hoje em diante, além de umas perfumarias que fiz na página, o blog passará a se chamar “singularidade”. Por quê? Primeiro, porque o nome anterior era muito feio. A ideia de criar um blog para divulgar poemas (principalmente), textos, vídeos, traduções e outras coisas de que gosto, veio meio de […]
- [Piedad Bonnett - Volta à Poesia](https://singularidadepoetica.art/2018/07/13/piedad-bonnett-volta-a-poesia/): Outra vez volto a ti. Cansada venho, definitivamente solitária. Minha bolsa cheia de tristeza trago, carregada de penas infinitas, de dor. Dos desertos venho com os lábios ardentes e o olhar cego pelo vento forte e a dura areia. Abrasada de sede, venho beber de teus profundos mananciais, render-me em teus braços, fundos braços de […]
- [Inês Dias - Linhas de Torres](https://singularidadepoetica.art/2018/07/12/ines-dias-linhas-de-torres-poema/): Linhas de Torres, um poema de Inês Dias
- [Manuel António Pina - M., A Última Palavra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/11/manuel-antonio-pina-m-a-ultima-palavra-poema/): M., A Última Palavra, um poema de Manuel António Pina
- [Joan Margarit - Vozes de Crianças](https://singularidadepoetica.art/2018/07/10/joan-margarit-vozes-de-criancas/): O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste, é uma teia de luz cansada onde recordo quando iam dormir. Ainda lhes leio naquele quarto, debaixo da lâmpada ao lado da cama, os contos com capas duras de cores brilhantes. De súbito, em alguma madrugada, ouço uma criança que me chama e incorporo-me, mas […]
- [Jorge Luis Borges - James Joyce (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/07/09/jorge-luis-borges-james-joyce-em-tres-traducoes/): Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os diasdo tempo, desde o inconcebíveldia inicial do tempo, em que um terrívelDeus prefixou os dias e agonias,até aquele outro em que o ubíquo riodo tempo terrenal torne a sua fonte,que é o […]
- [Emily Dickinson - "Senti um Féretro em meu Cérebro..."](https://singularidadepoetica.art/2018/07/08/emily-dickinson-senti-um-feretro-em-meu-cerebro/): Senti um Féretro em meu Cérebro,E Carpideiras indo e vindoA pisar — a pisar — até eu sonharMeus sentidos fugindo — E quando tudo se sentou,O Tambor de um Ofício —Bateu — bateu — até eu sentirInerte o meu Juízo E eu os ouvi — erguida a Tampa —Rangerem por minha Alma comTodo o Chumbo […]
- [Herberto Helder - A Paixão Grega](https://singularidadepoetica.art/2018/07/07/herberto-helder-a-paixao-grega/): Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,quando alguém morria perguntavam apenas:tinha paixão?quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:se tinha paixão pelas coisas gerais,água,música,pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,paixão pela paixão,tinha?e então indago de mim se […]
- [Manuel de Freitas - Pompe Inutili](https://singularidadepoetica.art/2018/07/06/manuel-de-freitas-pompe-inutili-poema/): Pompe Inutili, um poema de Manuel de Freitas
- [Carlos Alberto Machado – Mapa de Desencontros](https://singularidadepoetica.art/2018/07/05/carlos-alberto-machado-mapa-de-desencontros/): I Abrigo-te mais uma vez há muito tempo disseste aqui hei-de morrer voltas sempre a esta morada ris-te e partes no telhado frágil caem as primeiras águas de Inverno. II Deus encontrou-te eu sei apaixonou-se pelos teus olhos verdes (há fados assim) à sombra das velhas árvores dás-lhe a mão e passeiam deve ser em […]
- [Edna St. Vincent Millay – Objeção de Consciência](https://singularidadepoetica.art/2018/07/04/edna-st-vincent-millay-objecao-de-consciencia/): Eu vou morrer, mas isso é tudo o que farei pela Morte. Eu a ouço tirar seu cavalo da baia; Eu ouço pisadas no chão do celeiro. Ela tem pressa; ela tem negócios em Cuba e nos Bálcãs, muitas ligações a fazer na manhã. Mas eu não vou segurar a rédea enquanto ela ajusta a […]
- [Manuel António Pina - Forma, só Forma](https://singularidadepoetica.art/2018/07/03/manuel-antonio-pina-forma-so-forma-poema/): Forma, só Forma, um poema de Manuel António Pina
- [Alejandra Pizarnik - Capítulos Principais](https://singularidadepoetica.art/2018/07/02/alejandra-pizarnik-capitulos-principais/): Chega a morte com sua manada de ossos sorrio submissa a uma menina idiota que implora em meu nome juntas (a morte, a menina e eu) não encontramos outro ofício para execrar. No final todos se casam: o mar e as ondas, a noite e a escuridão, a taça e o vinho, o anel e […]
- [Georg Trakl – No Outono](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/georg-trakl-no-outono/): Junto à cerca, os girassóis e o seu brilho, Doentes sentados ao sol, sem alento. No campo, as mulheres cantam no trabalho, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Os pássaros contam lendas de encantar, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Há um violino no pátio a gemer. E já o vinho escuro vão […]
- [Joan Margarit - Não jogues fora as cartas de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/joan-margarit-nao-jogues-fora-as-cartas-de-amor/): Elas não te abandonarão. O tempo passará, apagar-se-á o desejo — esta flecha da sombra — e os rostos sensuais, belos e inteligentes, ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho. Passarão os anos. Cansar-te-ão os livros. Decairás ainda mais e perderás até mesmo a poesia. O ruído da cidade nas vidraças acabará por ser […]
- [Tishani Doshi - Poema de Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/06/30/tishani-doshi-poema-de-amor/): No fim, perderemos um ao outro para alguma coisa. Espero que para algo grandioso – morte ou desastre. Mas pode não ser dessa maneira. Pode ser que você saia para comprar cigarros uma manhã depois de termos feito amor e nunca mais retorne, ou eu me apaixone por outro homem. Pode ser uma lenta caminhada […]
- [Emily Dickinson - "Morrer por ti era pouco..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/29/emily-dickinson-morrer-por-ti-era-pouco/): Morrer por ti era pouco.Qualquer grego o fizera.Viver é mais difícil —É esta a minha oferta — Morrer é nada, nemMais. Porém viver importaMorte múltipla — semO Alívio de estar morta. Trad.: Augusto de Campos Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Too […]
- [Antonia Pozzi - Novembro](https://singularidadepoetica.art/2018/06/28/antonia-pozzi-novembro/): E depois – quando eu partir restará alguma coisa de mim no meu mundo – restará um fino rasto de silêncio no meio das vozes – um ténue sopro de branco no coração do azul – E numa noite de Novembro uma menina frágil à esquina de uma rua venderá braçadas de crisântemos e lá […]
- [Jorge Luis Borges - Cambridge](https://singularidadepoetica.art/2018/06/27/jorge-luis-borges-cambridge/): Nova Inglaterra e a manhã. Dobro por Craigie. Penso (já pensei) que o nome Craigie é escocês e que a palavra crag é de origem celta. Penso (já pensei) que neste inverno estão os antigos invernos dos quais deixaram escrito que o caminho está prefixado e que já somos do Amor ou do Fogo. A […]
- [Renata Correia Botelho - O Vento a Rondar os Dragoeiros](https://singularidadepoetica.art/2018/06/26/renata-correia-botelho-o-vento-a-rondar-os-dragoeiros-poema/): O Vento a Rondar os Dragoeiros, um poema de Renata Correia Botelho
- [Felipe Benítez Reyes - Uma Forma de Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2018/06/25/felipe-benitez-reyes-uma-forma-de-eternidade/): Então o medo era isto? Não os assustadores fantasmas do pensamento e da consciência. Não os longos corredores de hospitais com lâmpadas fluorescentes dia e noite. Nem sequer o tremor de irrealidade que permanece na alma se te recordas. O medo, aparentemente, é calmo: Chega quando fechas a janela e compreendes que tudo quanto vês […]
- [Alfredo Buxán - Lápide](https://singularidadepoetica.art/2018/06/24/alfredo-buxan-lapide/): Uma lágrima cai sobre a cal do solo, arde sob meus pés, consome na solidão minha solidão. Trad.: Nelson Santander Alfredo Buxán – Lápida Una lágrima cae sobre la cal del suelo, arde bajo mis pies, abrasa en soledad mi soledad.
- [Manuel de Freitas - Balladen Om Jenny Lind](https://singularidadepoetica.art/2018/06/23/manuel-de-freitas-balladen-om-jenny-lind-poema/): Balladen Om Jenny Lind, um poema de Manuel de Freitas
- [Inês Dias - Passou demasiado tempo...](https://singularidadepoetica.art/2018/06/22/ines-dias-passou-demasiado-tempo-tempo-poema/): Passou demasiado tempo..., um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Shostakovich. Sinfonia "Leningrado"](https://singularidadepoetica.art/2018/06/21/joan-margarit-shostakovich-sinfonia-leningrado/): Lembras-te? Joana havia morrido. Íamos para o norte, tu e eu, no carro, para o apartamento junto ao mar, e ouvíamos esta sinfonia. Iniciamos a viagem em uma manhã luminosa e, dentro da música, o dia era de muros cobertos pelo gelo, vultos carregando sacos meio vazios e, no lago, trenós com cadáveres. Como uma […]
- [Manuel António Pina - Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/manuel-antonio-pina-neste-preciso-momento-neste-preciso-lugar-poema/): Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar, um poema de Manuel António Pina
- [Nelson Santander – Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), por Nelson Santander
- [Alfredo Buxán - A eternidade das Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/19/alfredo-buxan-a-eternidade-das-cinzas/): Leia "A eternidade das cinzas", de Alfredo Buxán, um poema contemplativo sobre mortalidade, silêncio e a fragilidade da existência humana.
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2018/06/18/jorge-luis-borges-labirinto-2/): Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro. E o alcácer abarca o universo E não tem anverso nem reverso Não tem extremo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro teu destino Como […]
- [Manuel de Freitas - Genealogia](https://singularidadepoetica.art/2018/06/17/manuel-de-freitas-genealogia-poema/): Genealogia, um poema de Manuel de Freitas
- [Jorge Sousa Braga - Fogo sobre fogo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/16/jorge-sousa-braga-fogo-sobre-fogo-poema/): Fogo sobre fogo, um poema de Jorge Sousa Braga
- [Rui Caeiro - "Ainda atacas..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/15/rui-caeiro-ainda-atacas-poema/): "Ainda atacas...", um poema de Rui Caeiro
- [Nuno Júdice - Réquiem por Muitos Maios](https://singularidadepoetica.art/2018/06/14/nuno-judice-requiem-por-muitos-maios-poema/): Réquiem por Muitos Maios, um poema de Nuno Júdice Conheci tipos que viveram muito. Estão mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço. de álcool, da obrigação de viver que os consumia [...]
- [Inês Dias - Lapinha](https://singularidadepoetica.art/2018/06/13/ines-dias-lapinha-poema/): Lapinha, um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Não estava longe, não era difícil](https://singularidadepoetica.art/2018/06/12/joan-margarit-nao-estava-longe-nao-era-dificil/): Chegou este tempo em que já não machuca a vida que se perde, em que a luxúria é tão só uma lâmpada inútil, e a inveja se olvida. É um tempo de perdas prudentes, necessárias, e não é um tempo de chegar mas de partir. O amor, agora, por fim coincide com a inteligência. Não […]
- [Machado de Assis - Último Capítulo (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2018/06/11/machado-de-assis-ultimo-capitulo-excerto/): “Há entre os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato […]
- [Manuel António Pina – Esplanada](https://singularidadepoetica.art/2018/06/10/manuel-antonio-pina-esplanada-poema/): Esplanada, um poema de Manuel António Pina
- [Belchior - Comentários a Respeito de John](https://singularidadepoetica.art/2018/06/09/belchior-comentarios-a-respeito-de-john/): Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho Deixem que eu decido a minha vida Não preciso que me digam de que lado nasce o sol Porque bate lá o meu coração Sonho e escrevo em letras grandes de novo pelos muros do país João, o tempo andou mexendo com a gente, sim John, eu […]
- [Joan Margarit - Discurso do Método](https://singularidadepoetica.art/2018/06/07/joan-margarit-discurso-do-metodo/): Já de criança procurava as janelas para pode fugir com o olhar. Desde então, se entro em um lugar, observo com atenção onde deixo meu casaco e onde está a porta de saída. Liberdade, para mim, quer dizer fuga. Há muitas portas no mundo. Inclusive o sexo, em caso de emergência, pode sê-lo, embora todas […]
- [Idea Vilariño - Ou foram nove](https://singularidadepoetica.art/2018/06/06/idea-vilarino-ou-foram-nove/): Talvez tivemos só sete noites não sei não as contei como poderia ter feito. Talvez não mais que seis ou foram nove. Não sei, mas valeram a pena como o amor mais duradouro. Talvez com quatro ou cinco noites dessas, mas precisamente como essas, talvez seja possível viver como de um longo amor uma vida […]
- [Manuel António Pina – Lugares da infância](https://singularidadepoetica.art/2018/06/05/manuel-antonio-pina-lugares-da-infancia/): Lugares da infância onde sem palavras e sem memória alguém, talvez eu, brincou já lá não estão nem lá estou. Onde? Diante de que mistério em que, como num espelho hesitante, o meu rosto, outro rosto, se reflecte? Venderam a casa, as flores do jardim, se lhes toco, ficam hirtas e geladas, e sob os […]
- [Paulo Henriques Britto - Queima de Arquivo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/04/paulo-henriques-britto-queima-de-arquivo/): Houve um tempo em que eu amava em cada corpo o reflexo do que eu queria ter sido. No fundo do sexo eu buscava o meu desejo perdido. Acabei achando o outro que em mim mesmo destruí. Foi fácil reconhecê-lo: de tudo que vi em seu rosto somente o ódio era belo. Esse morto adolescente […]
- [Eduardo Chirinos - O que meu pai realmente quer de mim](https://singularidadepoetica.art/2018/06/03/eduardo-chirinos-o-que-meu-pai-realmente-quer-de-mim/): 1 Esta noite tive um sonho. Seguia com meu pai por uma estrada de terra. Os dois íamos a cavalo e mal trocávamos uma palavra. Ao longe se via a sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoado desconhecido e remoto. De repente, meu pai deteve seu cavalo e perguntou-me se eu sabia para […]
- [Wislawa Szymborska - Gato num apartamento vazio](https://singularidadepoetica.art/2018/06/02/wislawa-szymborska-gato-num-apartamento-vazio/): Morrer — isso não se faz a um gato. Pois o que há de fazer um gato num apartamento vazio. Trepar pelas paredes. Esfregar-se nos móveis. Nada aqui parece mudado e no entanto algo mudou. Nada parece mexido e no entanto está diferente. E à noite a lâmpada já não se acende. Ouvem-se passos na […]
- [Manuel de Freitas - Grand Hotel København, 326](https://singularidadepoetica.art/2018/06/01/manuel-de-freitas-grand-hotel-kobenhavn-326/): Onze horas: a tua mão adormecida marca agora um conto de Karen Blixen – veremos em breve essa casa cinzenta, em Helsingør – enquanto eu ouço uma sonata de Scarlatti tocada por Scott Ross e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca. Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes assim, ignorando a áspera nudez da […]
- [Jaime Gil de Biedma - Happy ending](https://singularidadepoetica.art/2018/05/31/jaime-gil-de-biedma-happy-ending/): Embora, à noite, comigo já não durmas mais, o acaso dirá talvez se é definitivo. Que embora o prazer nunca mais volte a ser o mesmo, na vida o esquecimento não costuma durar. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Happy ending Aunque la noche, conmigo, no la duermas ya, sólo el azar nos dirá […]
- [Javier Salvago - Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos](https://singularidadepoetica.art/2018/05/30/javier-salvago-um-pouco-mais-sabios-um-pouco-mais-cegos/): Quando você não é mais jovem, se convence de que o diabo sabe mais porque é velho e admite que os anos nos ensinam a distinguir a realidade do sonho. Talvez não. Talvez a vida só se nos mostre uma vez – quando temos olhos para aprecia-la – e depois vamos esquecendo seu rosto e […]
- [Inês Dias - Joaquim e Judite](https://singularidadepoetica.art/2018/05/29/ines-dias-joaquim-e-judite/): Fizera toda a viagem com ele ao colo. Queria despedir-se junto ao mar, mas as partidas são tão imperfeitas se o coração é uma caixa de cinzas demasiado enferrujada para abrir ao vento. Mesmo agora, depois de lavada a última partícula que se lhe colara à pele, sabia que o amor passara a ter o […]
- [Manuel António Pina - Ruínas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/28/manuel-antonio-pina-ruinas/): Por onde quer que tenha começado, pelo corpo ou pelo sentido, ficou tudo por fazer, o feito e o não feito, como num sono agitado interrompido. O teu nome tinha alturas inacessíveis e lugares mal iluminados onde se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam, e talvez devesse ter começado por aí. Agora […]
- [Javier Salvago - Convém não esquecer](https://singularidadepoetica.art/2018/05/27/javier-salvago-convem-nao-esquecer/): Por esta via que chamam vida, vamos com cautela devida, tal qual um cego. Mas em cinzas termina todo e qualquer fogo. Trad.: Nelson Santander Javier Salvago – Conviene no Olvidarlo Por esta senda, que llaman vida, todos vamos a tientas, igual que un ciego. En ceniza terminan todos los fuegos.
- [Vítor Nogueira - Gelo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/26/vitor-nogueira-gelo/): Agora é apenas um café com paredes adornadas, imagens retratando destemidos ancestrais. O tempo foi passando, não foi? Um acidente em câmara lenta a uma escala cataclísmica. Grande parte daquilo que fazemos é construir memória, uma promessa frágil ao futuro. E pensar que na vida acumulamos tanta coisa, sobretudo se por hábito não deitamos nada […]
- [Nuno Júdice - Passado](https://singularidadepoetica.art/2018/05/25/nuno-judice-passado/): Passou o vento, passou o dia, passou a noite e a manhã, passou o tempo, passou a gente, passou cada hora de amanhã; passou um canto esquecido nos cantos de cada passo, passou ao dizer que passo sem se lembrar do compasso; passou a vida como se nada fosse, só passou e foi-se embora, passou […]
- [Manuel António Pina - O Regresso](https://singularidadepoetica.art/2018/05/24/manuel-antonio-pina-o-regresso/): Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira […]
- [Inês Dias – Reconquista](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/ines-dias-reconquista/): Do meu bisavô, ferreiro e construtor de pontes, conheci apenas as iniciais, gravadas na pedra com que tomara o último dos elementos. Mas a sul do passado, o meu avô repetia-lhe ainda os gestos, ensinando-me a travar as marés com pequenos diques improvisados – paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel. Nunca mais o futuro […]
- [Nelson Santander - Philip Roth](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/philip-roth/): Morreu Philip Roth, meu último grande herói literário. Sua vasta bibliografia explora uma gama enorme de temas, mas a faceta que mais me impressionou foi a que ele abordou em seus últimos livros: a questão da velhice. A leitura de “Homem Comum” – principal obra de Roth sobre o tema – há cerca de 8 […]
- [Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame](https://singularidadepoetica.art/2018/05/22/lawrence-ferlinghetti-cafe-notre-dame/): Uma espécie de trauma sexual prende um casal abismado Ele está segurando as duas mãos dela nas suas Ela está beijando as mãos dele Estão olhando-se nos olhos de muito perto Ela tem um casaco de peles feito duma centena de coelhos correndo Ele tem um casaco clássico sombrio e calças cinza-de-pardo Agora estão a […]
- [Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções](https://singularidadepoetica.art/2018/05/21/marina-tsvetaieva-um-poema-em-duas-traducoes/): Tentativa de ciúme – Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra? Fácil, não é? — Um golpe de remo! — E de pronto a linha da costa Se foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante (No céu, por certo, não no mar)! Almas! Almas! — antes amar Como […]
- [Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa](https://singularidadepoetica.art/2018/05/20/anne-sexton-para-o-meu-amante-voltando-para-a-esposa/): Ela está bem aqui. Ela foi cuidadosamente esculpida para você saída de sua infância saída dentre seus cem colegas de escola preferidos. Ela sempre esteve aqui, meu bem. Ela é de fato extraordinária. Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro e tão real como uma panela de ferro fundido. Vamos ser sinceros, eu […]
- [Mario Benedetti - Tempo sem Tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/19/mario-benedetti-tempo-sem-tempo/): Preciso de tempo, necessito desse tempo que os outros deixam de lado porque lhes sobra ou já não sabem o que fazer com ele tempo em branco em rubro em verde mesmo em castanho escuro não me importa a cor cândido tempo que eu não posso abrir e fechar como uma porta tempo para olhar […]
- [Manuel António Pina - Luz](https://singularidadepoetica.art/2018/05/18/manuel-antonio-pina-luz/): Talvez que noutro mundo, noutro livro, tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu), e talvez então tu, eu, […]
- [Marina Colasanti - Rota de Colisão](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/marina-colasanti-rota-de-colisao/): De quem é esta pele que cobre a minha mão como uma luva? Que vento é este que sopra sem soprar encrespando a sensível superfície? Por fora a alheia casca dentro a polpa e a distância entre as duas que me atropela. Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas […]
- [Raul de Carvalho – Amiúde](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/raul-de-carvalho-amiude/): No vale dos afetos ninguém está seguro: Míngua a lembrança, Esquece-se o rosto, Retorna-se ao eu, Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo – E apenas as pequenas ilusões – um café, o cigarro, a limonada – imitam dois corações […]
- [Roger Wolfe - A Última Noite da Terra](https://singularidadepoetica.art/2018/05/16/roger-wolfe-a-ultima-noite-da-terra/): O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa E, no entanto, permaneço aqui. Sua melodia não muda, já o escrevi antes. Mas o meu trabalho é constatar o óbvio e é isso que o melro faz-me recordar. O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem por sua própria mão ou com ajuda. As […]
- [João Miguel Fernandes Jorge - Presépio Animado da Ribeira Grande](https://singularidadepoetica.art/2018/05/15/joao-miguel-fernandes-jorge-presepio-animado-da-ribeira-grande/): Ainda todos se lembram do dezembro de 96. Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na berma, um gato de pelagem branca. Parecia ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa de pelo curto, tinha uma chaga na orelha alastrava pelo crânio e pela face e olho. […]
- [Charles Simic - Na Biblioteca](https://singularidadepoetica.art/2018/05/14/charles-simic-na-biblioteca/): Para Octavio Há um livro chamado “Um Dicionário dos Anjos”. Não foi aberto por ninguém em cinquenta anos, Eu sei, porque quando o fiz As capas rangeram, as páginas desintegraram-se. Nele descobri Que os anjos já foram tão abundantes Quanto moscas. O céu ao entardecer Costumava ficar repleto deles. Você precisava agitar ambos os braços […]
- [Inês Dias – Lei Sálica](https://singularidadepoetica.art/2018/05/13/ines-dias-lei-salica/): As mulheres da família sempre tiveram um jeito quase póstumo de existir: guardar o lume em silêncio, comer depois de servir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destino para lerem os caminhos perdidos e coleccionavam a abdicação em caixinhas de folha, entre bilhetes caducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a […]
- [A. M. Pires Cabral – Motes e Voltas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/12/a-m-pires-cabral-motes-e-voltas/): 1 Senhor, vão sendo horas. Sei bem que o teu relógio não tem de regular-se pelo meu nem a tua vontade pela minha. Mas é justo que seja aquele que sofre do tempo os enxovalhos a dizer quando vão sendo horas — e não tu, Senhor, com quem o tempo não colide (decerto porque tu […]
- [Eugénio de Andrade - Ver Claro](https://singularidadepoetica.art/2018/05/11/eugenio-de-andrade-ver-claro/): Toda a poesia é luminosa, até a mais obscura. O leitor é que tem às vezes, em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver claro. Se regressar outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas ficará cego de tanta claridade. Abençoado seja se lá chegar.
- [Adília Lopes - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/adilia-lopes-arte-poetica-poema/): Arte Poética, um poema de Adília Lopes
- [Inês Dias – Your Funeral, my Trial](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/ines-dias-your-funeral-my-trial/): O morto fica mais só quando quem fala lhe rouba a última memória desse barco desmesurado da infância, construído sem vista para o mar. O morto fica mais só ainda, quando quem ouve se esquece da música para escolher o seu próprio funeral, alinhando convidados e preferindo coroas de plástico a condizer com as lágrimas. […]
- [Manuel António Pina - Relatório](https://singularidadepoetica.art/2018/05/09/manuel-antonio-pina-relatorio/): É um mundo pequeno, habitado por animais pequenos – a dúvida, a possibilidade da morte – e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros, os teus passos subindo as escadas, o gato brincando na sala com o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa, um pouco mais […]
- [Vitor Nogueira – Sementes](https://singularidadepoetica.art/2018/05/08/vitor-nogueira-sementes/): É claro que me lembro. Havia dois atalhos pelo meio do pinhal, direcções espantosamente precisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos, havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio para tratar certas lesões, uma peça vital do equipamento. Havia girassóis à volta da casa e as palavras imortais dos […]
- [Jorge Luis Borges - Sobre nós](https://singularidadepoetica.art/2018/05/07/jorge-luis-borges-sobre-nos/): Amamos o que não conhecemos, o já perdido. O bairro que foi periferia. Os antigos, que já não podem nos decepcionar porque são mito e esplendor. Os seis volumes de Schopenhauer, que não acabaremos de ler. A lembrança, não a leitura, da segunda parte do Quixote. O Oriente que, sem dúvida, não existe para o […]
- [Ana Martins Marques - de "Três Postais"](https://singularidadepoetica.art/2018/05/06/ana-martins-marques-de-tres-postais/): São Paulo Depois de um tempo todas as coisas ficam marcadas como se estivessem impregnadas de veneno Há um tempo em que os lugares são limpos e novos abertos como clareiras mas já não é este o tempo Sobre cada lugar se sobrepõe a experiência do lugar como um selo num cartão postal Por exemplo […]
- [Alberto Caeiro - Quando vier a primavera](https://singularidadepoetica.art/2018/05/05/alberto-caeiro-quando-vier-a-primavera/): Quando vier a primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morria E a primavera era […]
- [José Alcaraz - Volta para Casa](https://singularidadepoetica.art/2018/05/04/jose-alcaraz-volta-para-casa/): Atravessa as ruas absorto nos ecos das pessoas, distante inclusive de seus pensamentos. Não chove, não abre seu guarda-chuva, no entanto, como sempre, molham-se não só seus sapatos como a vida também, porque às vezes não recorda que o mundo o reclama. Caminha como quem não sabe para onde, a cada passo crê estar só […]
- [Hans Magnus Enzensberger - A Visita](https://singularidadepoetica.art/2018/05/03/hans-magnus-enzensberger-a-visita/): Quando levantei os olhos da página em branco havia um anjo no quarto. Um anjo bastante comum presumivelmente de menor hierarquia. Você não pode imaginar, ele disse, o tanto que você é dispensável. Dos quinze mil tons de azul, ele disse, cada um faz mais diferença Do que tudo que você possa fazer ou deixar […]
- [Manuel António Pina - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2018/05/02/manuel-antonio-pina-interiores/): Onde estamos agora que não nos vemos, tu sentada diante da TV e eu escrevendo isto, não sei o quê, como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceu do nosso amor como uma inevitabilidade, uma saudade pousada agora na mão de Deus existindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Reza da Manhã de Maio](https://singularidadepoetica.art/2018/05/01/sophia-de-mello-breyner-andresen-reza-da-manha-de-maio/): Senhor, dai-me a inocência dos animais Para que eu possa beber nesta manhã A harmonia e a força das coisas naturais. Apagai a máscara vazia e vã De humanidade, Apagai a vaidade, Para que eu me perca e me dissolva Na perfeição da manhã E para que o vento me devolva A parte de mim […]
- [Jorge Luis Borges – As Causas](https://singularidadepoetica.art/2018/04/30/jorge-luis-borges-as-causas/): Todas as gerações e os poentes. Os dias e nenhum foi o primeiro. A frescura da água na garganta De Adão. O ordenado Paraíso. O olho decifrando a maior treva. O amor dos lobos ao raiar da alba. A palavra. O hexâmetro. Os espelhos. A Torre de Babel e a soberba. A lua que os […]
- [Belchior - Coração Selvagem](https://singularidadepoetica.art/2018/04/30/belchior-coracao-selvagem/): Um ano sem Belchior… Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção Esconda um beijo pra mim Sob as dobras do blusão Eu quero um gole de cerveja No seu copo, no seu colo e nesse bar Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja Não quero o […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Discurso pós-jantar em um noivado](https://singularidadepoetica.art/2018/04/29/hans-magnus-enzensberger-discurso-pos-jantar-em-um-noivado/): Este eu, um invólucro que, contanto que ninguém o abra, parece compacto, regular como um Kinder ovo, quase apetitoso. Só por dentro é escuro. Quem sabe o que estará esperando por você lá. Obsessões, sem dúvida, hábitos enferrujados, medos incompreensíveis, truques de segunda mão, desejos infantis. Que você deseje tê-la, esta caixa de presente, beira […]
- [Juan Vicente Piqueras - Véspera de Permanecer](https://singularidadepoetica.art/2018/04/28/juan-vicente-piqueras-vespera/): Tudo está preparado: a mala, as camisas, os mapas, a tola esperança. Estou tirando o pó das pálpebras. Já pus na lapela a rosa dos ventos. Tudo está pronto: o mar, o ar, o atlas. Só me falta o quando, o onde, um diário de bordo, cartas de navegação, ventos propícios, coragem e alguém que […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Balanço](https://singularidadepoetica.art/2018/04/27/carlos-drummond-de-andrade-balanco/): A pobreza do eu a opulência do mundo A opulência do eu a pobreza do mundo A pobreza de tudo a opulência de tudo A incerteza de tudo na certeza de nada
- [Felipe Benítez Reyes – Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2018/04/26/felipe-benitez-reyes-aniversario-2/): Outro ano que se vai. Os muitos que se foram deixaram-nos um verbo repetido com significados diferentes e o mapa de um tesouro que não está em nenhum mapa, conversas amenas e o silêncio, e luzes que se apagam e sombras que se acendem e o penar de alma em luto pela alma do que […]
- [Jaime Gil de Biedma - Lembre-se](https://singularidadepoetica.art/2018/04/25/jaime-gil-de-biedma-lembre-se/): Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo sonhos na memória: estremece a eternidade do tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado para um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre dissipando-se o passado. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Recuerda […]
- [Haroldo de Campos - Servidão de Passagem](https://singularidadepoetica.art/2018/04/24/haroldo-de-campos-servidao-de-passagem/): forma de fome proêmio mosca ouro?mosca fosca. mosca prata?mosca preta. mosca íris?mosca reles. mosca anil?mosca vil. mosca azul?mosca mosca. mosca branca?poesia pouca. o azul é puro?o azul é pus. de barriga vazia. o verde é vivo?o verde é vírus de barriga vazia. o amarelo é belo?o amarelo é bile de barriga vazia. o vermelho é […]
- [Rocío Wittib - Outra vez olhas o mundo...](https://singularidadepoetica.art/2018/04/23/rocio-wittib-outra-vez-olhas-o-mundo/): outra vez olhas o mundo como se fosse tarde demais te perguntas se o tempo é uma resposta e aceitas a dúvida do talvez como consolo aprendeste a renunciar sempre de algo mas sobretudo a desistir de ti mesmo por isso foges do desejo como um animal ferido te refugias na certeza fiel de alguma […]
- [Manuel António Pina - Instituto de Oncologia](https://singularidadepoetica.art/2018/04/22/manuel-antonio-pina-instituto-de-oncologia/): Estes cumprem o rito antigo mantendo a chama da morte acesa na obscura água da vida e engrossam o rio dos mortos como pura memória sem nome. Nós rebelamo-nos, levantamos as mãos ao céu, e depois fechamo-las para deter o rio da mudança fluindo por entre os dedos, porque éramos os menos fortes e os […]
- [Charles Bukowski – Como ser um grande escritor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/21/charles-bukowski-como-ser-um-grande-escritor/): você tem que trepar com um grande número de mulheres belas mulheres e escrever uns poucos e decentes poemas de amor. não se preocupe com a idade e/ou com os talentos frescos e recém-chegados; apenas beba mais cerveja mais e mais cerveja e vá às corridas pelo menos uma vez por semana e vença se […]
- [Inês Lourenço – Consoantes Átonas](https://singularidadepoetica.art/2018/04/20/ines-lourenco-consoantes-atonas/): Emudecer o afe[c]to português? Amputar a consoante que anima a vibração exa[c]ta do abraço, a urgência tá[c]til do beijo. Eu não nasci nos Trópicos: preciso desta interna consoante para iluminar a névoa do meu dile[c]to norte.
- [Yehuda Amichai – Um homem em sua vida](https://singularidadepoetica.art/2018/04/19/yehuda-amichai-um-homem-em-sua-vida/): Um homem não tem tempo em sua vida para ter tempo para cada coisa. Ele não possui momentos suficientes para ter um momento para cada coisa. O Eclesiastes Estava errado a esse respeito. Um homem precisa amar e odiar no mesmo instante, rir e chorar com os mesmos olhos, com as mesmas mãos atirar e […]
- [Eira Stenberg – Falar de Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/18/eira-stenberg-falar-de-amor/): Falar de amor, do que não se pode falar – desse beco sem saída que é o espelho onde alguém pende de cabeça em uma árvore invisível com as pernas cingindo um ramo como se lutasse contra a gravidade e abrisse a boca sem emitir som algum. Ou falar como se o amor fosse uma […]
- [Fernando Luis Chivite – “Abril é o mês mais cruel”](https://singularidadepoetica.art/2018/04/17/fernando-luis-chivite-abril-e-o-mes-mais-cruel/): Às vezes, sem que nada pareça particularmente favorável – nem lúgubres violinos, nem a tarde tornando-se violeta e perigosa – sente-se que a vida segue sendo estranha, e desenvolve senhas inéditas, desordena papéis, acende cigarros com uma inquietude excessiva, como querendo assegurar-se que o tempo não se deterá, que o olvido é só algo fortuito, […]
- [Mario Montalbetti – Muito menos que uma ideia](https://singularidadepoetica.art/2018/04/16/mario-montalbetti-muito-menos-que-uma-ideia/): Não creias na verdade. Não creias na beleza. Não creias no amor. Senta ao piano sopra a trompa arranha a corda e fiquemos juntos. Não me apanhes um Beserol se me dói a cabeça. Não repitas comigo filme que já viste. Não creias que haja algo importante no que fazes. Nem sequer uma boa ação […]
- [Rocío Wittib - Imprescindível não é a direção...](https://singularidadepoetica.art/2018/04/15/rocio-wittib-imprescindivel-nao-e-a-direcao/): imprescindível não é a direção o caminho no mapa a geografia é apenas um acidente para quem se busca e suspeita que distância não significa quilômetros tampouco importa o destino porque nunca se está em um lugar preciso mas constantemente em uma fronteira entre o desespero do ser e o anseio de resistir não há […]
- [Felipe Fortuna – Samir](https://singularidadepoetica.art/2018/04/14/felipe-fortuna-samir/): Aquele garoto que vê o mercado ficar cheio se chama Samir. Ele crê em Deus de todas as maneiras: como pássaro brilhante, como água fresca entre pedras, como o assobio do vento deserto. Mas agora desmembrado e a cabeça confundida aos estilhaços Samir não vê. Sobre o mercado a bomba apontou o inimigo e levou […]
- [Jorge Teillier – Blue](https://singularidadepoetica.art/2018/04/13/jorge-teillier-blue/): Verei novos rostos Verei novos dias Serei esquecido Terei remembranças Verei sair o sol quando sai o sol Verei cair a chuva quando chove Andarei a esmo De um lado a outro Aborrecerei meio mundo Contando a mesma história Me sentarei para escrever uma carta Que não me interessa enviar Ou para olhar as crianças […]
- [e e cummings - de "xaipe"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/12/e-e-cummings-de-xaipe/): 40 eu estou te pedindo querida é pra que mais poderia um não mas não é o que claro mas você não parece entender que eu não posso ser mais claro a guerra não é o que imaginamos mas por favor pelo amor de Oh que diabo sim é verdade que fui eu mas esse […]
- [Rosa Leveroni i Valls – De "Epigramas e Canções"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/11/rosa-leveroni-i-valls-de-epigramas-e-cancoes-poema/): Eu levo dentro de mim para fazer-me companhia a solidão apenas. A solidão imensa do amor infinito que queria ser terra, ar e sol, mar e estrela, para que fosses mais meu, para que eu fosse mais tua. Trad.: Nelson Santander Rosa Leveroni i Valls – De “Epigrames i cançons” Jo porto dintre meu per […]
- [José Saramago - Ouvindo Beethoven](https://singularidadepoetica.art/2017/09/11/jose-saramago-ouvindo-beethoven/): Venham leis e homens de balanças, Mandamentos daquém e dalém mundo, Venham ordens, decretos e vinganças, Desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos todos da cidade, Brilhe, vermelha, a luz inquisidora, Risquem no chão os dentes da vaidade E mandem que os lavemos a vassoura. A quantas mãos existam, peçam dedos, Para […]
- [Fernando Moreira Salles - Legado](https://singularidadepoetica.art/2017/09/10/fernando-moreira-salles-legado/): Não há dor partilhável nem lamento que se ouça É pequeno o destino do teu sonho e do meu Se alguém te viu passar se o caminho te pertence segue e sorri
- [Ana Martins Marques - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2017/09/09/ana-martins-marques-interiores/): AÇUCAREIRO De amargo basta o amor Agridoce, ela disse Mas a mim pareceu amargo CADEIRA I Repetes diariamente os gestos do primeiro homem que se sentou numa tarde quente olhando as savanas II Pouso de gigantescos pássaros cansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesa essas doces evidências da morte? CRISTALEIRA Guarda e […]
- [Ana Martins Marques - entre a casa/ e o acaso,](https://singularidadepoetica.art/2017/09/08/ana-martins-marques-entre-a-casa-e-o-acaso/): entre a casa e o acaso entre a jura e os jogos entre a volta e as voltas a morada e o mar penélopes e circes entre a ilha e o ir-se
- [Gregório de Matos - Nasce o Sol e Não Dura mais que um Dia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/07/gregorio-de-matos-nasce-o-sol-e-nao-dura-mais-que-um-dia/): Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se formosa a Luz é, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto […]
- [Paulo Nunes - A um antianjo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/06/paulo-nunes-a-um-antianjo/): Em memória de Júlio Caixeta A mais longa distância que pode haver, esta que agora vai dos teus pés ao chão, não te fez mais leve: foi o mundo e nossas vidas que se soltaram.
- [Eucanaã Ferraz - De "Orelhas" (1)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/05/eucanaa-ferraz-de-orelhas-1/): Estão certas todas as canções banais letras convencionais seus corações como são de praxe; estão certos os poemas enfáticos inchados de artifícios à luz óbvia da lua ou de estúpidos crepúsculos; os sonetos mal alinhavados toscos estão certos bem como as confissões íntimas não lapidadas reles nem polidas; ouçamos o que dizem sobre qualquer coisa; […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/09/04/mia-couto-o-espelho/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me, a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mia Couto - A Luz da Dor](https://singularidadepoetica.art/2017/09/03/mia-couto-a-luz-da-dor/): O meu modo de saber é adoecendo. A uns, a ideia surge em luz. A mim, se declara uma pontada no peito. O advento da dor, o deflagrar da súbita febre e eu sei que o meu corpo sabe. Um dia destes me desconhecerei vivo desfalecido de aguda sapiência. Até lá repartirei com um anjo […]
- [Armando Freitas Filho - Escritor, Escritório](https://singularidadepoetica.art/2017/09/02/armando-freitas-filho-escritor-escritorio/): Não transponho Camões, mas me empenho. Não atravesso seu mar manuscrito porque me afogo na incompreensão no enfado, no palavreado castiço na análise sintática dos seus versos onde erro na prova urgente, aflita sem ouvi-los soar na página a pleno de difícil lida, da ilimitada luta na travessia da linha, da estrofe empolgante, empolada, que […]
- [Armando Freitas Filho - Antiquário](https://singularidadepoetica.art/2017/09/01/armando-freitas-filho-antiquario/): Mil folhas. Mesmo em algumas das mais passadas, um pouco do sabor, um risco de doçura e amargo, é remanescente. Anamnésia construída pelo fato e pela imaginação: vai do anátema ao enaltecimento, expressos em alta voz até ao murmúrio cifrado no coração. O acervo de uma vida se dispersará depois de ela parar: alguma coisa […]
- [W. H. Auden - Aquele que Ama Mais](https://singularidadepoetica.art/2017/08/28/w-h-auden-aquele-que-ama-mais/): Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais […]
- [Ricardo Silvestrin - Bilhete](https://singularidadepoetica.art/2017/08/26/ricardo-silvestrin-bilhete/): Não me parecias frágil, via-te doce. Talvez fosses mesmo forte, é preciso ser valente pra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo. Que rio obscuro e discreto te puxava para o fundo, sem saber nadar, sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta, um poema, um bilhete de suicida. Como se quisesses dizer que […]
- [Jaime Sabines - Te Amo às Dez da Manhã](https://singularidadepoetica.art/2017/08/10/jaime-sabines-te-amo-as-dez-da-manha/): Te amo às dez da manhã, e às onze, e ao meio-dia. Te amo com toda a minha alma e com todo o meu corpo, às vezes, em tardes chuvosas. Mas às duas da tarde, ou às três, quando eu me perco em pensar em nós dois, e tu pensas em comida ou nas tarefas […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Meio-dia](https://singularidadepoetica.art/2017/08/09/sophia-de-mello-breyner-andresen-meio-dia/): Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém. O sol no alto, fundo, enorme, aberto, Tornou o céu de todo o deus deserto. A luz cai implacável como um castigo. Não há fantasmas nem alvas, E o mar imenso solitário e antigo, Parece bater palmas.
- [Paul Auster - Fragmento de Frio](https://singularidadepoetica.art/2017/08/08/paul-auster-fragmento-de-frio/): Porque ficamos cegos no dia que se esvai conosco, e porque vimos nossa respiração nublar o espelho de ar, o olho do ar vai se abrir para nada mais que a palavra a que renunciamos: o inverno terá sido lugar de madureza. Nós que viramos os mortos de uma vida que não a nossa. Trad.: […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/08/07/alice-ruiz/): noite gelada a cidade toda coberta denso nevoeiro
- [Zulmira Ribeiro Tavares - Após o inverno](https://singularidadepoetica.art/2017/08/06/zulmira-ribeiro-tavares-apos-o-inverno-poema/): Desarrumação em setembro. O vento batendo as portas e a floração rebentando nas cercas vivas. O céu por vezes de terracota bem acima das cabeças, mas também finas agulhas de gelo imiscuindo-se pelas frinchas, noite alta. Era em São Paulo. Então se entende: o mato bravo torcido pela chuva, o prédio em demolição pingando água […]
- [Rainer Maria Rilke - Hora Grave](https://singularidadepoetica.art/2017/08/04/rainer-maria-rilke-hora-grave/): Quem agora chora em algum lugar do mundo, Sem razão chora no mundo, Chora por mim. Quem agora ri em algum lugar na noite, Sem razão ri dentro da noite, Ri-se de mim. Quem agora caminha em algum lugar no mundo, Sem razão caminha no mundo, Vem a mim. Quem agora morre em algum lugar […]
- [Rainer Maria Rilke - O Mundo Estava no Rosto da Amada](https://singularidadepoetica.art/2017/08/03/rainer-maria-rilke-o-mundo-estava-no-rosto-da-amada/): O mundo estava no rosto da amada – e logo converteu-se em nada, em mundo fora do alcance, mundo-além. Por que não o bebi quando o encontrei no rosto amado, um mundo à mão, ali, aroma em minha boca, eu só seu rei? Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi. Mas eu também estava […]
- [Wislawa Szymborska - Engano](https://singularidadepoetica.art/2017/08/02/wislawa-szymborska-engano/): Soou o telefone na galeria de arte, soou à meia-noite na sala quieta; se houvesse gente dormindo, acordaria na certa, mas aqui há somente insones profetas, somente reis empalidecem de luar e olham indiferentes o que há para olhar, e a mulher do usurário, agitada na aparência, fita justo essa coisa sonante na lareira, mas […]
- [Paulo Henriques Britto - Envoi](https://singularidadepoetica.art/2017/08/01/paulo-henriques-britto-envoi/): O tempo, que a tudo distorce, às vezes alisa, conserta, e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morse de instantes sem rumo e roteiro então dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquiva a gente retoca e remenda até ser coisa que se entenda, mas algo que na […]
- [Wislawa Szymborska - As três Palavras mais Estranhas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/31/wislawa-szymborska-as-tres-palavras-mais-estranhas/): Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já se perde no passado. Quando pronuncio a palavra Silêncio, suprimo-o. Quando pronuncio a palavra Nada, crio algo que não cabe em nenhum não ser. Trad.: Regina Przybycien
- [Paulo Henriques Britto - Três Peças Dispépticas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/30/paulo-henriques-britto-tres-pecas-dispepticas/): I É aqui mesmo, sim. Você era esperado. E por falar nisso, chegou atrasado. Não peça desculpas: não adianta nada. O atraso será contabilizado. Não há a menor dúvida; é este o endereço. Mas fique sabendo: tudo aqui tem preço. Não esteja à vontade. A casa não é sua. E se não gostar, por ali […]
- [Wislawa Szymborska - Entre Muitos](https://singularidadepoetica.art/2017/07/29/wislawa-szymborska-entre-muitos/): Sou quem sou. Inconcebível acaso como todos os acasos Fossem outros os meus antepassados e de outro ninho eu voaria ou de sob outro tronco coberta de escamas eu rastejaria. No guarda-roupa da natureza há trajes de sobra. O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo. Cada um cai como uma luva e […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/28/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-3/): IV Acrescentar ao mundo um morto a mais é só o que a vida garante. O resto é risco, é vai da valsa. Tanto faz improvisar ou decorar o texto, ser pedra ou imitar os animais, correr atrás de lucro ou prejuízo. Dá no que der. E, seja lá o que for, terá sido o […]
- [Wislawa Szymborska - Fim e Começo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/27/wislawa-szymborska-fim-e-comeco/): Depois de cada guerraalguém tem que fazer a faxina.Colocar uma certa ordemque afinal não se faz sozinha. Alguém tem que jogar o entulhopara o lado da estradapara que possam passaros carros carregando os corpos. Alguém tem que se atolarno lodo e nas cinzasem molas de sofásem cacos de vidroe em trapos ensanguentados. Alguém tem que […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/26/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-3/): V Súbito? Não. A coisa morre à míngua, um risco vira traço e o traço, ponto. Por exemplo: uma manhã de domingo, a mesa posta pro café, tudo pronto pra não se fazer nada – ou então a noite de uma terça-feira inane, sob o quebranto da televisão – mas isso não importa; que se […]
- [Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”](https://singularidadepoetica.art/2017/07/23/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-2/): IV Até onde a vista alcança é real todo o visível. Como dançarina e dança formam um todo indistinguível, assim também não há esperança de se atingir algum nível em que uma e outra substância se separem, dando alívio à consciência inquietante de que no próximo instante o erro vai ser dissipado. Não vai. O […]
- [Wislawa Szymborska - Ocaso do Século](https://singularidadepoetica.art/2017/07/20/wislawa-szymborska-ocaso-do-seculo/): Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX. Agora já não tem mais jeito, os anos estão contados, os passos vacilantes, a respiração curta. Coisas demais aconteceram, que não eram para acontecer, e o que era para ter sido não foi. Era para se chegar à primavera e à felicidade, entre […]
- [Mario Quintana - O Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/15/mario-quintana-o-tempo/): A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal… Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora […]
- [Ch'ang Wu Chien - Poema Chinês do Século VIII](https://singularidadepoetica.art/2017/07/14/chang-wu-chien-poema-chines-do-seculo-viii/): Praguejei contra a chuva Que tamborilando no telhado Não me deixou dormir. Praguejei contra o vento Que destruía todo o jardim. Mas você chegou de surpresa E agradeci à tempestade Que te fez despir A roupa molhada. Agradeci à ventania Por ter soprado, Apagado a vela. via Carlito Azevedo (https://www.facebook.com/profile.php?id=100007266525928)
- [Cacaso – Jogos Florais](https://singularidadepoetica.art/2017/07/05/cacaso-jogos-florais/): I Minha terra tem palmeiras onde canta o tico-tico. Enquanto isso o sabiá vive comendo o meu fubá. Ficou moderno o Brasil ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre. II Minha terra tem Palmares memória cala-te já. Peço licença poética Belém capital Pará. Bem, meus prezados senhores dado o […]
- [Armando Freitas Filho - Sibilante](https://singularidadepoetica.art/2017/07/03/armando-freitas-filho-sibilante/): Cego aço doce corte de navalha ou de folha de papel: só sangra bem depois da ação, da posse do sentido e sentimento que o amor concede não isento do ciúme.
- [Wislawa Szymborska - Amor à Primeira Vista](https://singularidadepoetica.art/2017/07/02/wislawa-szymborska-amor-a-primeira-vista/): Ambos estão certos de que uma paixão súbita os uniu. É bela esta certeza, mas é ainda mais bela a incerteza. Acham que por não terem se encontrado antes nunca havia se passado nada entre eles. Mas e as ruas, escadas, corredores nos quais há muito talvez se tenham cruzado? Queria lhes perguntar, se não […]
- [Eucanaã Ferraz - Sob a luz feroz do teu rosto](https://singularidadepoetica.art/2017/07/01/eucanaa-ferraz-sob-a-luz-feroz-do-teu-rosto/): “Sob a luz feroz do teu rosto”, um poema de Eucanaã Ferraz que transforma o amor impossível em metáfora selvagem: amar é desejar o que não pode ser tocado sem risco ou recusa.
- [Nelson Santander - Postudo (pós-"Pós-Tudo", Augusto de Campos e Os Hawaianos)](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/nelson-santander-postudo-poema/): Postudo, de Nelson Santander, paródia do famoso Pós-Tudo, de Augusto de Campos, atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Augusto de Campos - Pós-Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/augusto-de-campos-pos-tudo/)
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2017/06/16/jorge-luis-borges-labirinto/): Não haverá uma porta. Já estás dentro, Mas o alcácer abarca o universo E não tem nem anverso nem reverso Nem muro externo nem secreto centro. Não penses que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro o teu destino Como […]
- [Francis J. Quirós - Efêmero](https://singularidadepoetica.art/2017/06/05/efimero/): Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia: […]
- [Vinicius de Moraes - O poeta Hart Crane suicida-se no mar](https://singularidadepoetica.art/2017/05/23/vinicius-de-moraes-o-poeta-hart-crane-suicida-se-no-mar/): Quando mergulhaste na água Não sentiste como é fria Como é fria assim na noite Como é fria, como é fria? E ao teu medo que por certo Te acordou da nostalgia (Essa incrível nostalgia Dos que vivem no deserto…) Que te disse a Poesia? Que te disse a Poesia Quando Vênus que luzia No […]
- [Carlos Rennó - O Momento](https://singularidadepoetica.art/2017/05/15/carlos-renno-o-momento/): Tem um momento (que de todos é diverso) Em que você se une ao todo, ao universo O tempo então congela (feito lá no pólo) Seu ego some, seu eu ergue-se do solo E sai voando entre as estrelas na amplidão Você se torna uma delas na explosão Dentro de si você vê uma […]
- [Bill Knott - Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/05/09/bill-knott-morte/): Morte Perto de dormir, cruzo as mãos sobre o peito. Colocarão minhas mãos assim. Parecerá que estou a voar para dentro de mim mesmo. Death Going to sleep, I cross my hands on my chest. They will place my hands like this. It will look as though I am flying into myself. Trad.: Antonio Cicero […]
- [Abel Silva - Navegações](https://singularidadepoetica.art/2017/05/07/abel-silva-navegacoes/): Minha casa está calma, eu é que sou turbulento, o país navega, dizem, eu é que me arrebento eu é que sempre invento toda esta ventania eu é que não me contento com o rumo da romaria não sei se a sorte é cega ou eu que vivo a teimar: sei que eu sou o […]
- [Hilda Hilst - Roteiro do Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/05/03/roteiro-do-silencio/): Não há silêncio bastantePara o meu silêncio.Nas prisões e nos conventosNas igrejas e na noiteNão há silêncio bastantePara o meu silêncio.Os amantes no quarto.Os ratos no muro.A meninaNos longos corredores do colégio.Todos os cães perdidosPelos quais tenho sofrido:O meu silêncio é maiorQue toda solidão.E que todo silêncio.
- [Nelson Santander - Que a Terra lhe seja Leve](https://singularidadepoetica.art/2017/04/30/nelson-santander-que-a-terra-lhe-seja-leve/): "Que a terra lhe seja leve", uma crônica de Nelson Santander
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Gregorianos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/10/carlos-drummond-de-andrade-os-gregorianos/): Um amigo que tem consciência exacerbada do tempo confia-me que, depois de certo ponto (ele não usa a palavra idade), a vida já não oferece acontecimentos, e sim comemorações. — Por mais que o sujeito faça, não consegue realmente mover-se. Fica parado diante de formas movediças, como naquele romance do Zé Lins do Rego, que […]
- [Philip Larkin - Conversar na Cama](https://singularidadepoetica.art/2017/04/09/philip-larkin-conversar-na-cama/): Conversar na cama devia ser mais fácil Dois deitados juntos — é desde há muito Um símbolo de duas pessoas sendo francas. Ainda que mais e mais tempo passe em silêncio. Lá fora, a intérmina inquietação do vento Amontoa e dispersa nuvens pelo céu. E cidades escuras se empilham no horizonte. Nada disso se importa […]
- [Philip Larkin - A Primeira Coisa](https://singularidadepoetica.art/2017/04/08/philip-larkin-a-primeira-coisa/): A primeira coisa Que entendi foi esta: Tempo é o eco de um machado Dentro da floresta. Trad.: Luiz Roberto Guedes
- [Philip Larkin - A Igreja Indo-se...](https://singularidadepoetica.art/2017/04/06/philip-larkin-a-igreja-indo-se/): Quando estou certo de que nada está ocorrendo, Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta. Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dos Livrinhos; as juncadas secas, que se cortam Para o domingo; bronze e objetos a cobrir o Altar; um órgão impecável e pequeno; Silêncio tenso, de bolor, que […]
- [T. S. Eliot - Os Homens Ocos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/04/t-s-eliot-os-homens-ocos/): “A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada, […]
- [Álvaro de Campos - Poema em Linha Reta](https://singularidadepoetica.art/2017/04/03/alvaro-de-campos-poema-em-linha-reta/): Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado […]
- [José Saramago - Não me Peçam Razões](https://singularidadepoetica.art/2017/04/02/jose-saramago-nao-me-pecam-razoes-poema/): Não me peçam razões… Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos. Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não […]
- [Fernando Pessoa - Autopsicografia](https://singularidadepoetica.art/2017/04/01/fernando-pessoa-autopsicografia/): O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a […]
- [Joaquim Cardozo - Canção Elegíaca](https://singularidadepoetica.art/2017/03/29/joaquim-cardozo-cancao-elegiaca/): Quando os teus olhos fecharem Para o esplendor deste mundo, Num chão de cinza e fadigas Hei de ficar de joelhos; Quando os teus olhos fecharem Hão de murchar as espigas, Hão de cegar os espelhos. Quando os teus olhos fecharem E as tuas mãos repousarem No peito frio e deserto, Hão de morrer as […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Luis Mauricio, Infante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/28/carlos-drummond-de-andrade-a-luis-mauricio-infante/): Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo, se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho. Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário? Os olhos se […]
- [Neil Gaiman - A Escuridão Está à Espera](https://singularidadepoetica.art/2017/03/27/neil-gaiman-a-escuridao-esta-a-espera/): a chama vermelha bruxuleante no muro da caverna pintada de ocre, corante, carvão vegetal fazendo o alce se mover, fazendo o mastodonte respirar fazendo o caçador correr e matar. veja como procuram apaziguar e entender o mundo acima isso eles sabem isso eles entendem há escuridão por toda a parte lá fora o escuro está […]
- [Angela Melim - Meu pai nos abandonou](https://singularidadepoetica.art/2017/03/26/angela-melim-meu-pai-nos-abandonou/): Meu pai nos abandonou. Minha mãe casou e mudou. Vovó morreu. Os irmãos sumiram no mundo ou submundo. Sem explicação Yvonne nunca mais falou comigo e, para Ronaldo, sou fantasma do passado. Vejo meus filhos já voando. Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html
- [Luiz Olavo Fontes - Meu Amor de Soslaio](https://singularidadepoetica.art/2017/03/25/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio/): Faz tanto calor no Rio de Janeiro que é bom sentir essa neve partir de seu olhar in http://antoniocicero.blogspot.com.br/2008/07/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio.html
- [Emily Dickinson - Dizem que "O Tempo Consola"](https://singularidadepoetica.art/2017/03/22/emily-dickinson-dizem-que-o-tempo-consola/): Dizem que “O Tempo consola” — Mas não — na realidade, A vera dor, como um Tendão, Se fortalece, com a idade — O Tempo testa a Tristeza — Porém não a remedia — Se cura o Mal, prova apenas Que Mal deveras não havia — Trad.: Paulo Henriques Britto They say that “Time assuages” […]
- [Walter Savage Landor – Sobre a Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/03/20/walter-savage-landor-sobre-a-morte-poema/): "Sobre a morte", um poema de Walter Savage Landor
- [Samuel Taylor Coleridge – Kubla Khan](https://singularidadepoetica.art/2017/03/19/kubla-khan-samuel-taylor-coleridge/): Em Xanadu, um palácio de prazer Comanda-o Kubla Khan como um farol Onde Alph, rio sagrado, vem correr Através de cavernas sem mais ver Ao ser humano até um mar sem sol. Assim, milhas e milhas de bom solo, Cerca de muro e torres polo a polo: E lá jardins luzentes em ribeiros Curvos e […]
- [Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu](https://singularidadepoetica.art/2017/03/18/paulo-henriques-britto-geracao-paissandu/): Vim, como todo mundo do quarto escuro da infância, mundo de coisas e ânsias indecifráveis, de só desejo e repulsa. Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos, em tempo de seco fascismo. Por isso não tive pátria, só discos. Amei, como todos pensam. Troquei carícias cegas nos cinemas, li […]
- [Alberto da Cunha Melo - Lendo Emile Zola](https://singularidadepoetica.art/2017/03/17/alberto-da-cunha-melo-lendo-emile-zola/): O sol esgota os objetos: não me deixa dizer mais nada. Transforma em plantas os fantasmas que ontem dançavam no quintal. Mostra a burra realidade das coisas, o preço dos sonhos; água laminada levando, em ondas, o último mistério. Tudo foi dito da maneira mais cruel: um micro de sol escreveu em poucos segundos todos […]
- [Guillaume Apollinaire - A Ponte Mirabeau](https://singularidadepoetica.art/2017/03/16/guillaume-apollinaire-a-ponte-mirabeau/): Na Ponte Mirabeau, desliza o Sena E nossos amores E a memória acena: Alegria vem sempre após a pena Vem a noite, soa a hora Os dias vão, eu me demoro As mãos nas mãos, fiquemos face a face Enquanto abaixo Pela ponte dos nossos braços, passa. De olhar eterno a onda tão lassa. Vem […]
- [José Ángel Buesa - Ela Amará a Outro Homem](https://singularidadepoetica.art/2017/03/15/jose-angel-buesa-ela-amara-a-outro-homem-poema/): "Ela amará a outro homem", poema de José Ángel Buesa Ela amará a outro homem. Eu estarei longe, caminhando para o olvido. E pode ocorrer que alguém lembre meu nome, mas ela fingirá não tê-lo ouvido. (...)
- [Adriano Espínola - "Lamas" - Bar e Restaurante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/14/adriano-espinola-lamas-bar-e-restaurante/): A Horácio Dídimo À noite todos os lépidos são larápios, todos os otários são notórios, todas as lânguidas são lésbicas todas as cópulas são cédulas, todos os lúcidos são trágicos todos os bêbados são sábios.
- [Charles Bukowski - Feras Saltando Através do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/03/13/charles-bukowski-feras-saltando-atraves-do-tempo/): Van Gogh escrevendo para seu irmão pedindo tintas Hemingway testando seu rifle Céline fracassando como médico a impossibilidade de ser humano Villon expulso de Paris por ser um ladrão Faulkner bêbado pelas sarjetas da cidade a impossibilidade de ser humano Burroughs assassinando sua mulher com um tiro Mailer apunhalando a sua impossibilidade de ser humano […]
- [Wislawa Szymborska - As Cartas dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2017/03/12/wislawa-szymborska-as-cartas-dos-mortos/): Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes, mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores. Sabemos quais dívidas não foram pagas. Com quem as viúvas rapidamente se casaram. Pobres mortos, mortos cegos, enganados, falíveis, canhestramente previdentes. Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas. Capturamos o som de testamentos sendo rasgados. Sentados […]
- [Wislawa Szymborska - Bodas de Ouro](https://singularidadepoetica.art/2017/03/11/wislawa-szymborska-bodas-de-ouro/): Devem ter sido diferentes um dia, fogo e água, diferindo com veemência, sequestrando e se doando no desejo, no assalto à dessemelhança. Abraçados, apropriaram-se e expropriaram por tanto tempo, que nos braços restou o ar translúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta. Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outro […]
- [Wislawa Szymborska - Natureza-morta com um Balãozinho](https://singularidadepoetica.art/2017/03/10/wislawa-szymborska-natureza-morta-com-um-balaozinho/): Em vez da volta das lembranças na hora de morrer quero ter de volta as coisas perdidas. Pela porta, janela, malas, sombrinhas, luvas, casaco, para que eu possa dizer: Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente, rosa de papel, barbante, faca, para que eu possa dizer: Nada disto me faz falta. Esteja onde […]
- [Wislawa Szymborska - Nada Duas Vezes](https://singularidadepoetica.art/2017/03/09/wislawa-szymborska-nada-duas-vezes/): Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela […]
- [Wislawa Szymborska - A Cada Cem Pessoas](https://singularidadepoetica.art/2017/03/08/wislawa-szymborska-a-cada-cem-pessoas/): A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros: – cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo: – quase todas as outras. estão prontas a ajudar desde é claro que isso não lhes tome muito tempo: – quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas […]
- [Jaroslav Seifert - Vi Apenas uma Vez](https://singularidadepoetica.art/2017/03/01/jaroslav-seifert-vi-apenas-uma-vez/): Vi apenas uma vez um sol tão ensanguentado. E nunca mais Descia funesto sobre o horizonte e parecia que alguém havia escancarado as portas do inferno. Perguntei pelo observatório astronômico e hoje sei o porquê. O inferno, conhecemos: está em toda parte e caminha sobre duas pernas. […]
- [Gary Snyder - Dezembro em Yase](https://singularidadepoetica.art/2017/02/20/gary-snyder-dezembro-em-yase/): Naquele Outubro em que escolheu ser livre na grama alta e seca junto ao pomar você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te vi só mais uma vez. Você estava estranha. E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anos e até mais um […]
- [Yehuda Amichai - O Corpo é a Causa do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/02/19/yehuda-amichai-o-corpo-e-a-causa-do-amor/): Primeiro o corpo é a causa do amor depois a fortaleza que o protege por fim seu cárcere. E quando o corpo morre, o amor jorra caudalosamente como de um caça-níqueis clandestino quebrado jorram de súbito com estrondo todas as moedas de gerações e gerações entregues à própria sorte.
- [William Shakespeare - Romeu e Julieta (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/02/18/william-shakespeare-romeu-e-julieta-excerto/): “Esses prazeres violentos têm fins violentos e morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, que, ao se beijarem, se consomem. O mais doce mel repugna por sua própria doçura, e seu sabor confunde o paladar. Portanto, ama com moderação. O amor duradouro é moderado. Quem corre demais chega tão atrasado como aquele […]
- [Nicanor Parra - O que ganha um velho ao fazer ginástica?](https://singularidadepoetica.art/2017/02/11/nicanor-parra-o-que-ganha-um-velho-ao-fazer-ginastica/): e o que ganha falando ao telefone? e o que ganha ficando famoso? e o que ganha um velho olhando-se no espelho? Nada afundar cada vez mais na lama Já são três ou quatro da madrugada – por que não trata de dormir? mas não – tome ginástica tome ligações de longa distância tome Bach […]
- [Wislawa Szymborska -Retornos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/10/wislawa-szymborska-retornos/): Voltou. Não disse nada. Mas estava claro que teve algum desgosto. Deitou-se vestido. Cobriu a cabeça com o cobertor. Encolheu as pernas. Tem uns quarenta anos, mas não agora. Existe – mas só como na barriga da mãe na escuridão protetora, debaixo de sete peles. Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica. […]
- [Jorge Luis Borges - Os Justos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/09/jorge-luis-borges-os-justos/): Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra exista música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não […]
- [Antero de Quental - Nox](https://singularidadepoetica.art/2017/02/08/antero-de-quental-nox/): Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos… Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia… O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece alguns momentos… Oh! Antes tu também […]
- [John Keats - Ode sobre a Indolência](https://singularidadepoetica.art/2017/02/07/john-keats-ode-sobre-a-indolencia/): I Numa certa manhã eu vi as três as figuras, Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,Seguindo atrás da outra, mudas e seguras, Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;Como formas de mármore em alto-relevo Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,Mostraram-se mais uma vez como […]
- [John Keats - Do Endymion](https://singularidadepoetica.art/2017/02/06/john-keats-do-endymion/): O que é belo há de ser eternamente Uma alegria, e há de seguir presente. Não morre; onde quer que a vida breve Nos leve, há de nos dar um sono leve, Cheio de sonhos e de calmo alento. Assim, cabe tecer cada momento Nessa grinalda que nos entretece À terra, apesar da pouca messe […]
- [Yehuda Amichai - Outra Vez o Amor Terminou](https://singularidadepoetica.art/2017/02/05/yehuda-amichai-outra-vez-o-amor-terminou/): Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas, ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezas coisas comovidas que buscavam o esquecimento. Outra vez o amor terminou. E como depois de se demolir uma casa grande e retirar os escombros, visitamos o terreno vazio e quadrado e dizemos: como […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Nenhuma Arte"](https://singularidadepoetica.art/2017/02/04/paulo-henriques-britto-sem-titulo/): Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada, não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, […]
- [Konstantinos Kaváfis - A Origem](https://singularidadepoetica.art/2017/02/03/konstantinos-kavafis-a-origem/): “A Origem”, um poema de Konstantinos Kaváfis que revela como o instante clandestino do desejo se transmuta, no tempo, em matéria secreta da poesia.
- [Ezra Pound - E os dias...](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/ezra-pound-e-os-dias/)
- [Walter de la Mare - Os que Ouviam](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/walter-de-la-mare-os-que-ouviam/): ‘Tem alguém em casa?’ indagou o Viajante Defronte à porta enluarada; Seu cavalo no silêncio ruminava o capim Da forragem fértil e enfolhada: E uma ave voou para muito além da torre, Acima de sua cabeça: E de novo a porta ele outra vez castigou; ‘Tem alguém em casa?’ ele disse. Mas ninguém desceu para […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Eppur Si Muove](https://singularidadepoetica.art/2017/02/01/affonso-romano-de-santanna-eppur-si-muove/): Não se pode calar um homem Tirem-lhe a voz, restará o nome. Tirem-lhe o nome e em nossa boca restará a sua antiga fome. Matar, sim, se pode. Se pode matar um homem. Mas sua voz, como os peixes, nada contra a corrente a procriar verdades novas na direção contrária à foz. Mente quem fala […]
- [Ricardo Silvestrin - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/01/31/ricardo-silvestrin-sem-titulo/): ruas têm coração de pedra não espere nada do seu amor por elas a não ser cimento, asfalto e uma família nova na casa de um velho conhecido quando menos se espera uma rua muda de sentido
- [Bertolt Brecht - Se fôssemos infinitos...](https://singularidadepoetica.art/2017/01/29/bertolt-brecht-se-fossemos-infinitos/)
- [Domingos Pellegrini - Com Brecht](https://singularidadepoetica.art/2017/01/28/domingos-pellegrini-com-brecht/)
- [Domingos Pellegrini - Mudanças](https://singularidadepoetica.art/2017/01/27/domingos-pellegrini-mudancas/)
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/17/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere-2/): IV Só não dói mais porque não é preciso. Se fosse o caso, a dor era pior. Não há nada nisso de extraordinário: A natureza odeia o desperdício, tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr. É exatamente a conta necessária, até que alguma solução se encontre. O que aliás não acontece nunca. E isso […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/16/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere/): I A seletividade da memória — a cor exata da pele, a textura, o odor de cada côncavo e orifício, o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e a saliva, a coxa arisca, a dobra escura, o beijo salobro, o sabor difícil, a carne assombrada, o esperma […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetóides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/15/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos/): IV Também já estive aí, no não lugar onde você agora não se encontra. Também não me encontrei. Aliás, foi justamente contra a tal necessidade de seguir alguma rota que jurei lutar. Lutei, perdi, e pronto: agora estou aqui, a alguns centímetros do meu próprio umbigo Se tudo correr bem, também a tua derrota vai […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/14/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-2/): ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porém só surge em pleno ar. E não renego a rota tonta que segui. Ninguém se faz em linhas retas. Todo porto a que se chega é a meta desejada. E o caminho tomado, por mais torto, acaba sempre sendo a exata […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Duas Bagatelas"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/13/paulo-henriques-britto-de-duas-bagatelas/): II Então viver é isso, é essa obrigação de ser feliz a todo custo, mesmo que doa, de amar alguma coisa, qualquer coisa, uma causa, um corpo, o papel em que se escreve, a mão, a caneta até, amar até a negação de amar, mesmo que doa, então viver é só esse compromisso com a […]
- [Paulo Henriques Britto - Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2017/01/12/paulo-henriques-britto-epilogo/): Finda a leitura, o livro está completo em sua solidão mais-que-perfeita de couro falso e íntimo papel. Lá fora, o mundo segue, arquitetando as mesmas contingências costumeiras que nunca esbarram numa irrefutável conclusão que se possa resumir em três letras letais, inalienáveis. Que paz será possível nessa selva sem índices, prefácios, rodapés? indaga, da estante […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/11/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria/): VII Nada disso foi do jeito que eu quis. Se fosse como eu quis, não haveria de ser tão sofrido, tão infeliz. Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sinto como quem tem não o que foi pedido, e sim o que, guiado pelo instinto, […]
- [Otto Renê Castillo – Os Amantes](https://singularidadepoetica.art/2018/04/10/otto-rene-castilho-os-amantes/): "Os Amantes", um poema de Otto René Castillo que retrata um encontro breve e uma separação dolorosa, transformando o último beijo dos amantes em metáfora cósmica — um planeta azul cuja luz continua a sustentar suas vidas mesmo na ausência.
- [Charles Bukowski – Para Jane Cooney Baker, morta em 22/01/1962](https://singularidadepoetica.art/2018/04/09/charles-bukowski-para-jane-cooney-baker-morta-em-22-01-1962/): e então você se foime deixando aquinum quarto com uma cortina rasgadae o Idílio de Siegfried tocando no radinho vermelho. e então você se foi tão rápidoquanto quando você veio pra mim,e nós tínhamos dito adeus antes,e quando eu estava limpando seu rosto e lábiosvocê abriu os maiores olhos que eu já tinha vistoe disse […]
- [Manuel António Pina - Talvez de noite (1)](https://singularidadepoetica.art/2018/04/08/manuel-antonio-pina-talvez-de-noite-1/): À minha volta tudo envelheceu como se fosse eu, e no entanto uma casa, ou um espaço em branco entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido. Pois nada surge com a sua própria forma. Digo “casa”, mas refiro-me a luas e umbrais, a lembranças extenuadas, às trevas do corpo, lúcidas, latejando na obscuridade de […]
- [Francisca Aguirre – E se, depois de tudo](https://singularidadepoetica.art/2018/04/07/francisca-aguirre-e-se-depois-de-tudo/): E se, depois de tudo, fosse o resto um ir morrendo para ao fim morrermos por este louco afã de convertermo-nos em contadores de um momento lesto. E se afigura que o correto era este sermão que vem nos repetir que avança o furacão de nos ferir, e é vã e absurda esta carreira. Então […]
- [Hilda Hilst - de "Do Desejo"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/06/hilda-hilst-de-do-desejo/)
- [Yehuda Amichai – Na história do nosso amor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/05/yehuda-amichai-na-historia-do-nosso-amor/): Na história do nosso amor, um foi sempre Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo. Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado. O tempo passará por nós, como paisagens Passam por trás de atores parados em suas marcas Quando se roda um filme. As palavras Passarão por nossos lábios, até as lágrimas […]
- [Miguel Torga – Comunicado](https://singularidadepoetica.art/2018/04/04/miguel-torga-comunicado/): Na frente ocidental nada de novo. O povo Continua a resistir. Sem ninguém que lhe valha, Geme e trabalha Até cair.
- [Pedro Salinas - De "La voz a ti debida" [39]](https://singularidadepoetica.art/2018/04/03/pedro-salinas-de-la-voz-a-ti-debida-39/): A tua forma de amaré deixar-me que te queiras.O sim com que tu te rendesé o silêncio. Teus beijossão oferecer-me os lábiospara que eu possa beija-los.Jamais palavras, abraços,me dirão que existias,que me quiseste: jamais.Dizem-mo as folhas brancas,mapas, augúrios, chamadas;tu, não.E fico abraçado a tisem perguntar-te, de medoque não seja verdadeiroque tu vives e me ama.E […]
- [Júlio Mendonça - Galáxias](https://singularidadepoetica.art/2018/04/02/julio-mendonca-galaxias/)
- [Sylvia Plath – Limite](https://singularidadepoetica.art/2018/04/01/sylvia-plath-limite/): A mulher está perfeita. Seu corpo Morto enverga o sorriso de completude, A ilusão de necessidade Grega voga pelos veios da sua toga, Seus pés Nus parecem dizer: Já caminhamos tanto, acabou. Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca, Uma para cada pequena Tigela de leite vazia. Ela recolheu-as todas Em seu corpo, como pétalas Da […]
- [Manuel António Pina – Depois](https://singularidadepoetica.art/2018/03/31/manuel-antonio-pina-depois/): Primeiro sabem-se as respostas. As perguntas chegam depois, como aves voltando a casa ao fim da tarde e pousando, uma a uma, no coração quando o coração já se recolheu de perguntas e de respostas. Que coração, no entanto, pode repousar com o restolhar de asas no telhado? A dúvida agita os cortinados e nos […]
- [Mary Oliver – Como é conosco, e como é com eles](https://singularidadepoetica.art/2018/03/30/mary-oliver-como-e-conosco-e-como-e-com-eles/): Nós nos tornamos religiosos, depois nos afastamos disso, depois ficamos carentes e talvez voltemos atrás. Nos dedicamos a ganhar dinheiro, depois nos voltamos para a vida moral, depois pensamos novamente em dinheiro. Conhecemos pessoas maravilhosas, mas as perdemos para os nossos negócios. Estamos, como diz o refrão, por toda parte. A constância, aparentemente, tem mais […]
- [Laia Noguera i Clofent – Sem título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/29/laia-noguera-i-clofent-sem-titulo/): Amo a vida simples, sentar-me à entrada para ver o ir e vir das pessoas, como se move um pardal, como se inclina a tarde nas casas do corpo. Já sei que morrerei muito antes de morrerem as árvores que amo. Mas nada me preocupa, porque no instante em que se me romper o último […]
- [Nicanor Parra – Composições](https://singularidadepoetica.art/2018/03/28/nicanor-parra-composicoes/): I Cuidado, todos mentimos Mas eu proclamo a verdade. A matemática enfada Mas nos dá o de comer. Por outro lado, se escreve Poema para viver Ninguém gosta de assumir Culpa por vidros quebrados. Se escreve contra si mesmo Em virtude dos demais Que indecente é fazer versos! Quando menos se esperar Darei um tiro […]
- [Anne Sexton – A Terra Desmorona](https://singularidadepoetica.art/2018/03/27/anne-sexton-a-terra-desmorona/): Se eu pudesse culpar o clima por tudo, a neve como a mesa de dissecação, as árvores que se tornam agulhas de tricô, o chão, tão rijo como uma arinca congelada, o lago vestindo seu bigode de geada. Se eu pudesse culpar tais circunstâncias, se eu pudesse culpar os corações de estranhos descendo as ruas […]
- [Aldo Oliva – O Elevador de Hera](https://singularidadepoetica.art/2018/03/26/aldo-oliva-o-elevador-de-hera/): Dizem os insetos sensatos e sensíveis que as paredes e os grandes muros são apenas um hausto veemente conjurando o nada, o infinito. Por estes ladrilhos de não-ser ascendem, como habitáculos de fúria, os corpos corrompidos das palavras. Quem me impôs, rasgando minha inocência animal na base da minha profundidade biológica, esta ascensão conjetural? Só […]
- [Carlos Saraiva Pinto – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/25/carlos-saraiva-pinto-sem-titulo-poema/): Sem Título, um poema de Carlos Saraiva Pinto
- [José Lino Grünewald - Soneto Burocrático](https://singularidadepoetica.art/2018/03/24/jose-lino-grunewald-soneto-burocratico-poema/): Salvo melhor juízo doravante, Dessarte, data vênia, por suposto, Por outro lado, maximé, isso posto, Todavia deveras, não obstante Pelo presente, atenciosamente, Pede deferimento sobretudo, Nestes termos, quiçá, aliás, contudo Cordialmente alhures entrementes Sub-roga ao alvedrio ou outrossim Amiúde nesse ínterim, senão Mediante qual mormente, oxalá quão Via de regra te-lo-ão enfim Ipso facto outorgado, […]
- [Marcelo Montenegro - Forte Apache](https://singularidadepoetica.art/2018/03/23/marcelo-montenegro-forte-apache/): Noel Rosa dizia que era universal sem sair de seu quarto. Elvis Costello disse que o rock ‘n’ roll não morrerá porque sempre vai ter um garoto trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém nunca viu. Laura Riding, por seu turno, falava da pretensão de “escrever sobre um assunto/ que tocasse todos os assuntos/ […]
- [Charles Bukowski – Agarre o Escuro](https://singularidadepoetica.art/2018/03/22/charles-bukowski-agarre-o-escuro/): estou sentado aqui agora bêbado escutando as mesmas sinfonias que me deram a vontade de seguir em frente quando eu tinha 22 anos. 40 anos depois elas e eu já não somos mais tão mágicos. você deveria ter-me visto tão esbelto sem barriga eu era um pedaço de homem: flamejante, forte, insano. dissesse uma palavra […]
- [Antonia Pozzi – Pausa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/21/antonia-pozzi-morte-de-uma-estacao/): Parecia-me que este dia sem ti devia ser inquieto, escuro. Em vez disso está repleto de uma estranha doçura, que aumenta com o passar das horas – quase como a terra após um aguaceiro, que fica sozinha no silêncio a beber a água caída e pouco a pouco nas veias mais profundas se sente penetrada. […]
- [Marcelo Montenegro - Três Pensatos](https://singularidadepoetica.art/2018/03/20/marcelo-montenegro-tres-pensatos/): 1. penso naquela única gota gelada do chuveiro quente. Nas ilíadas clandestinas que a febre percorre até virar suor. Penso nas caretas que os músicos fazem quando estão solando. No meu pai me dizendo que tudo isso aqui era mato. Penso na imagem exata de uma aurora indecisa. Penso em calços de papelão para pianos […]
- [Ana Martins Marques – História](https://singularidadepoetica.art/2018/03/19/ana-martins-marques-historia/): Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem um história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma […]
- [Charles Bukowski – Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/03/18/charles-bukowski-um-poema-de-amor/): “Um poema de amor”, um poema de Charles Bukowski que atravessa corpos e quartos para revelar, sob a crueza do desejo, a necessidade humana de afeto que sustenta e inquieta.
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Os Erros](https://singularidadepoetica.art/2018/03/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-2/): A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a […]
- [Ricardo Domeneck – Doentes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ricardo-domeneck-doentes/): Doentes. Nós, todos doentes. Há tanto doentes todos. Nós. Pungidos, conquanto impunes. Não, não impunes. Não se constrói impune a casa sobre covas. Não se ergue o prédio em grão-cemitério. Não sem velar e lavar carinhosos e doridos os ossos e os dentes. Não impunes. Doentes de cada gota derramada. Por nós ou avós. Os […]
- [Ana Martins Marques – a parte que me cabe](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ana-martins-marques-a-parte-que-me-cabe/): a parte do teu corpo que procura pelo sol como os gatos pela casa a parte que permanece imóvel quando cantas, aquela que se move quando estás parado a parte que apenas a mim e de relance, por descuido revelaste a parte onde guardas as memórias de infância, a parte que ainda anseia pelo futuro […]
- [Charles Bukowski – Os Gênios da Raça](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/charles-bukowski-os-genios-da-raca/): não há nada a discutir não há nada a lembrar não há nada a esquecer é triste e não é triste parece que a coisa mais sensata que uma pessoa pode fazer é se sentar com uma bebida na mão enquanto as paredes acenam seus sorrisos de adeus alguns passam por tudo isso com uma […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Escuto](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-escuto/): Escuto mas não sei Se o que ouço é silêncio Ou deus Escuto sem saber se estou ouvindo O ressoar das planícies do vazio Ou a consciência atenta Que nos confins do universo Me decifra e fita Apenas sei que caminho como quem É olhado, amado e conhecido E por isso em cada gesto ponho […]
- [Charles Bukowski – Outra Cama](https://singularidadepoetica.art/2018/03/14/charles-bukowski-outra-cama/): outra cama outra mulher mais cortinas outro banheiro outra cozinha outros olhos outro cabelo outros pés e dedos. todos à procura. a busca eterna. você fica na cama ela se veste para o trabalho e você se pergunta o que aconteceu à última e à outra antes dela… é tudo tão confortável — esse fazer […]
- [Eloy Sánchez Rosillo - Aviso aos Caminhantes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/13/eloy-sanchez-rosillo-aviso-aos-caminhantes/): Na soma de dias indeterminados que a vida dá ao homem, talvez exista um em que o destino, trágico e belo, passe ao nosso lado e o acaso acenda uma insólita luz, um incomum fulgor inconfundível. Mas não hesites. Tem coragem, quando chegar o momento, de abandonares as coisas com que os hábitos sempre te […]
- [Marcia Vinci – Mãe Solteira](https://singularidadepoetica.art/2018/03/12/marcia-vinci-mae-solteira/): dadeira parideira nutriz criadeira toda mãe é sozinha toda mãe é solteira
- [Vicente Gaos - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2018/03/11/vicente-gaos-testamento/): Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil anos de idade, de estado civil solitário, instável domiciliado/refugiado em um canto do cosmos, profissão náufrago na sombra, sem documento de identidade, sem títulos, condecorações nem diplomas de qualquer tipo, nenhum sinal particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo, sem nenhuma cicatriz além […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Perdão, falava em voz alta](https://singularidadepoetica.art/2018/03/10/ernesto-perez-vallejo-perdao-falava-em-voz-alta/): Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguém Nunca poderão decepcioná-la. A esperança é aquele relógio que sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezes como diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes. Mas, quando tristes, […]
- [Javier Salvago - Fim de Festa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/09/javier-salvago-fim-de-festa/): Enfim sós, vida. A festa acabou e não há mais ninguém que possa nos obrigar a forçar sorrisos, ou a inventar incômodas mentiras piedosas. Todos sumiram. Despe-te sem medo. Conheço as velhas rugas de tua carne triste. Acariciei-as. Sei o que teu rosto oculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncio […]
- [Luis Cernuda – No Meio da Multidão](https://singularidadepoetica.art/2018/03/08/luis-cernuda-no-meio-da-multidao/): Em meio à multidão a vi passar, com seus olhos tão dourados quanto seus cabelos. Caminhava cortando o ar e os corpos; uma mulher se ajoelhou em seu caminho. Senti como o sangue desertava de minhas veias gota a gota. Vazio, andei sem rumo pela cidade. Gente estranha passava a meu lado sem me ver. […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Insônia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/07/luis-alberto-de-cuenca-insonia/): A vida dura muito pouco. Não dá tempo de se fazer nada. Não há meios de reunir dias suficientes para aprender algo. Levantas, abraças tua namorada, tomas teu café da manhã, trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema, e nem sequer tens um momento para ler Sêneca e acreditar que tudo neste mundo tem conserto. A […]
- [Charles Bukowski – Até](https://singularidadepoetica.art/2018/03/06/charles-bukowski-ate/): Nós temos que viver com a perda e talvez jogar com uma mão de cartas ruim e nós sabemos o tempo todo qual é o placar. Nós o suportamos como Hemingway ou o descartamos como Camus mas nós sabemos nós sabemos. É assim que funciona e damos corda no relógio e esperamos pela madrugada ou […]
- [Manuel António Pina - Sétimo Dia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/05/manuel-antonio-pina-setimo-dia/): Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua morte para a nossa vida como quem regressa a casa de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países, e agora é como se te tivéssemos sonhado. A voz que, diante da escuridão, suspendemos quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti erguemo-la de […]
- [A. M. Pires Cabral – Pirilampos III](https://singularidadepoetica.art/2018/03/04/a-m-pires-cabral-pirilampos-iii/): Mas também estes negadores das trevas desertaram: Já não se vêem pirilampos, o seu lume deixou de desmentir a escuridão. Apagaram a lanterna, retiraram para um lugar qualquer onde talvez já não valha a pena alumiar – algures entre o frio e o esquecimento (se é que frio e esquecimento não são nomes alternativos da […]
- [Josep M. Rodríguez - Primeira Visita ao Zoológico](https://singularidadepoetica.art/2018/03/03/josep-m-rodriguez-primeira-visita-ao-zoologico/): Tinha doze anos e a minha mãe me presenteava com um mundo só para mim: – Se a tristeza fosse um animal? – Se a tristeza fosse um animal… seria um besouro. E dizia-lhe então que havia dias em que esse besouro fabricava uma bola muito grande na minha garganta. Os olhos da minha mãe […]
- [Joaquín Benito de Lucas – Elegia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/02/joaquin-benito-de-lucas-elegia/): Quando agora retorno à minha cidade, não posso conter a emoção de saber que não me esperam. Não me espera meu pai, que desceu rio abaixo muito lentamente entre os juncos, sob pontes de névoa. Não me espera meu irmão, que me esperava sempre ao lado de um balcão qualquer, em uma rua qualquer brindando […]
- [Rosario Castellanos - Destino](https://singularidadepoetica.art/2018/03/01/rosario-castellanos-destino/): Matamos o que amamos. O resto nunca esteve vivo. Ninguém está tão perto. A nenhum outro fere um esquecimento, uma ausência, às vezes menos. Matamos o que amamos. Que cesse esta asfixia de respirar por um pulmão distante! O ar não é suficiente para os dois. E não basta a terra para os corpos juntos […]
- [Charles Bukowski – O Matador Sorri](https://singularidadepoetica.art/2018/02/28/charles-bukowski-o-matador-sorri/): as antigas namoradas ainda telefonam algumas do ano passado algumas do ano retrasado algumas de anos atrás é bom poder por um fim nas coisas que não funcionam também é bom não odiar ou mesmo esquecer a pessoas com quem você falhou. aprecio quando elas me dizem que estão tendo sorte com um homem sorte […]
- [Carlos Alberto Machado – Chegaste à Idade da Morte](https://singularidadepoetica.art/2018/02/27/carlos-alberto-machado-chegaste-a-idade-da-morte/): Chegaste à idade da morte dos teus amigos também agora começas a distingui-los cai um e depois outro e tu apressas o passo desta vez vais discutir o terreno palmo a palmo não saberias o que fazer se a solidão se despovoasse.
- [Albano Martins – A Dor](https://singularidadepoetica.art/2018/02/26/albano-martins-a-dor/): Não ponhas o dedo na ferida. Deixa a dor respirar em segredo. L delor Nun pongas l dedo na frida. Deixa l delor ceçar an segredo.
- [Germana Zanettini - Leia Antes de Usar](https://singularidadepoetica.art/2018/02/25/germana-zanettini-leia-antes-de-usar/): não, aqui não há lugares reservados [de antemão já lhe adianto: nem adianta olhar para os lados] o ambiente não é climatizado os assentos não são flutuantes e máscaras de oxigênio não cairão sobre suas cabeças para sua segurança e conveniência informamos que a vida não vem equipada com saídas de emergência
- [Margareta Ekström - O Funeral](https://singularidadepoetica.art/2018/02/24/margareta-ekstrom-o-funeral/): Na noite do funeral eles abraçaram-me, beijaram-me, mesmo esses que habitualmente não beijam. Apoiaram-me e perguntaram se precisava de soporíferos, estimulantes, um xerez ou companhia para a noite. Cada noite é um funeral mas ninguém vem para me abraçar. Ninguém pergunta como as coisas vão se preciso de companhia para a noite, um xerez, um […]
- [Juan Luis Panero - Epitáfio diante de um Espelho](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-luis-panero-epitafio-diante-de-um-espelho/): Dura há de ser a vida para ti, que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez, para ti, cuja única certeza é tua memória e, por isso, teu sepulcro mais infausto. Dura há de ser a vida, quando os anos passarem e destruírem por fim a ilusória pátria da tua adolescência, quando vires, como hoje, […]
- [Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-vicente-piqueras-nomes-borrados/): A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiosnem os pronomes nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o […]
- [Diego Moraes - Já se passaram dez anos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/22/diego-moraes-ja-se-passaram-dez-anos/): Já se passaram dez anos Acabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal que seu tio ficou bêbado de vinho dom bosco e disse na frente dos filhos e da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaro em Londres Já se passaram dez anos Os poemas que escrevi quando […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/21/luis-alberto-de-cuenca-abre-todas-as-portas/): Abre todas as portas, a que conduz ao ouro, a que leva ao poder, a que esconde o mistério do amor; a que oculta o segredo insondável da felicidade, a que a vida te oferta para sempre no gozo de uma visão sublime. Abre todas as portas, sem te mostrares curioso, nem dar importância às […]
- [Jorge de Sena - Suma Teológica](https://singularidadepoetica.art/2018/02/20/jorge-de-sena-suma-teologica/): Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram navios no alto mar, quando nasci. Nada mudou. Continuaram as guerras; continuou a subir o preço do pão; continuaram os poetas, uma vez por outra, a perguntar por ti. É certo que, então, imensa gente envelheceu instantânea e misteriosamente. Mas até isso, meu amor, se não sabe […]
- [Ángel González - Todos vocês parecem felizes...](https://singularidadepoetica.art/2018/02/19/angel-gonzalez-todos-voces-parecem-felizes/): … e sorriem, às vezes, quando falam. E até dizem uns aos outros palavras de amor. Mas amam-se de dois em dois para odiar de mil em mil. E guardam toneladas de asco por cada milímetro de felicidade. E parecem – nada mais que parecem – felizes, e falam com o fim de ocultar essa […]
- [Maria Teresa Horta - Poema sobre a Recusa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/18/maria-teresa-horta-poema-sobre-a-recusa/): Como é possível perder-te sem nunca te ter achado nem na polpa dos meus dedos se ter formado o afago Sem termos sido a cidade nem termos rasgado pedras sem descobrirmos a cor nem o interior da erva Como é possível perder-te sem nunca te ter achado minha raiva de ternura meu ódio de conhecer-te […]
- [César Cantoni - O Tempo Irreparável](https://singularidadepoetica.art/2018/02/17/cesar-cantoni-o-tempo-irreparavel/): Quem, então, poderia imaginar? O certo é que meu pai está morto como se nunca houvesse estado vivo. Um dia gelaram suas mãos e os pés, e a casa se encheu de parentes, e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito. Ainda lembro. Meu pai está morto ou já não existe, e não é […]
- [Mário Cesariny - Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/02/16/mario-cesariny-lembra-te/): Lembra-te que todos os momentos que nos coroaram todas as estradas radiosas que abrimos irão achando sem fim seu ansioso lugar seu botão de florir o horizonte e que dessa procura extenuante e precisa não teremos sinal senão o de saber que irá por onde fomos um para o outro vividos
- [Gonçalo M. Tavares - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/15/goncalo-m-tavares-os-mortos/): Não há mortos que morram tanto como os nossos. Se um daqueles que nos pertence morre sete ou setenta vezes no coração, de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data, e os que sempre viveram longe morrem-nos metade ou um oitavo. E metade de uma morte é quase nada, são casas decimais […]
- [Charles Bukowski – Foda](https://singularidadepoetica.art/2018/02/14/charles-bukowski-foda/): foda ela tirou o vestido por sobre a cabeça e eu vi a calcinha um tanto enterrada em suas carnes. é simplesmente humano. agora teremos que fazê-lo. eu terei que fazê-lo depois de todo esse logro. é como uma festa – dois idiotas numa cilada. debaixo dos lençóis depois que apaguei as luzes suas calcinhas […]
- [Isabel Bono - O Futuro Acabará Chegando](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/isabel-bono-o-futuro-acabara-chegando/): perdemos tempo ordenando em um álbum as fotos do verão para olhá-las algum dia com nostalgia guardamos bolinhas de gude pedras livros cartas poemas adiamos assim a felicidade, a vida ainda não sei por quê ainda não sei para quando Trad.: Nelson Santander Isabel Bono – El Futuro Acabará por Llegar malgastábamos el tiempo ordenando […]
- [José Lino Grünewald – Sombra (1957)](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/jose-lino-grunewald-sombra-1957/)
- [Mário Dionísio – Elegia ao Companheiro Morto](https://singularidadepoetica.art/2018/02/12/mario-dionisio-elegia-ao-companheiro-morto/): Meu companheiro morreu às cinco da manhã Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã Ah antes fosse noite noite apenas noite sem a promessa da manhã Ah antes fosse noite noite noite apenas noite e não houvesse em tudo a promessa da manhã Deitado para sempre às cinco da […]
- [Alberto Caeiro - Poema XLIII ("Antes o voo da ave")](https://singularidadepoetica.art/2018/02/11/alberto-caeiro-poema-xliii-antes-o-voo-da-ave/): Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto, Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. A ave passa e esquece, e assim deve ser. O animal, onde já não está e por isso de nada serve, Mostra que já esteve, o que não serve para nada. A recordação é […]
- [Bruna Kalil - Paleativa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/10/bruna-kalil-paleativa/): Você é rebelde só da cintura para baixo 1984, George Orwell busco prazer sendo profana para que o físico compense o descompasso do meu interior tão triste e tão mole. fujo dos sentimentos justamente por ter a plena consciência de que sou sentimental dem- ais. tenho medo, pavor, fobia de apaixonar-me outra vez, dói […]
- [Rui Pires Cabral - Cartas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/09/rui-pires-cabral-cartas/): Escreves-me cartas, sou o destinatário da tua solidão. E sempre compreendo tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge as entrelinhas de um branco desespero que é tanto teu como meu: não tens quem te salve, envelheceste, trataste mal de um jardim que não chegou a vingar. Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade […]
- [Gil T. Sousa - Maré](https://singularidadepoetica.art/2018/02/08/gil-t-sousa-mare/): quando a maré se afasta é possível escrever tudo outra vez
- [Jorge Luis Borges - A Chuva](https://singularidadepoetica.art/2018/02/07/jorge-luis-borges-a-chuva/): A tarde subitamente clareou Porque já cai a chuva minuciosa. Ou caiu. A chuva é coisa curiosa Que acontece no tempo que passou. Quem a ouve cair já recobrou O tempo em que a fortuna venturosa Revelou-lhe uma flor chamada rosa E a encarnada cor com que se corou. Que esta chuva que já cega […]
- [César Cantoni - Álbum de Família](https://singularidadepoetica.art/2018/02/06/cesar-cantoni-album-de-familia/): Morreu meu pai, morreram meus avós, morreram meus tios de sangue e por afinidade. Uma família inteira de ferreiros, marceneiros, curtidores, pedreiros, jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos, o que não sabe fazer nada com as mãos, logrei sobreviver impunemente para chorar diante de uma foto o […]
- [Octavio Paz - Antes do Começo](https://singularidadepoetica.art/2018/02/05/octavio-paz-antes-do-comeco/): Ruídos confusos, claridade incerta. Outro dia começa. Um quarto em penumbra e dois corpos estendidos. Em minha fronte me perco numa planície vazia. E as horas afiam suas navalhas. Mas a meu lado tu respiras; íntima e longínqua fluis e não te moves. Inacessível se te penso, com os olhos te apalpo, te vejo com […]
- [Hagar Peeters - Esta Noite Cruzei-me com meus Pais](https://singularidadepoetica.art/2018/02/04/hagar-peeters-esta-noite-cruzei-me-com-meus-pais/): Esta noite cruzei-me com os meus pais, duas sombras pálidas reciprocamente atraídas, à luz branca de um candeeiro. Tendo em conta a felicidade demonstrada, eu ainda não era nascida. Eram jovens e muito apaixonados. Uma grande tristeza anuviou-me porque eu sabia a continuação da história. Ela soltava gargalhadas por causa de algo que ele lhe […]
- [Fernando Sabino - Certeza](https://singularidadepoetica.art/2018/02/03/fernando-sabino-certeza/): De tudo, ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando. A certeza de que precisamos continuar. A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança. Do medo, uma escada. Do sonho, uma ponte. Da procura, um encontro.
- [António Franco Alexandre - Quero dizer-te: não morras](https://singularidadepoetica.art/2018/02/02/antonio-franco-alexandre-quero-dizer-te-nao-morras/): quero dizer-te: não morras. Nem me digas quem és, quem foste, como sabes a língua que se fala sobre a terra. Ao lume lanço toda a vontade de viver, ser vivo, a cautela do ar, ardendo em torno. Passarei, terás passado em mim, só quero dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.
- [Carlos Edmundo de Ory – Dá-me](https://singularidadepoetica.art/2018/02/01/carlos-edmundo-de-ory-da-me/): dá-me algo mais que silêncio ou doçura algo que tenhas e não saibas não quero dádivas raras dá-me uma pedra não fiques imóvel fitando-me como se quisesses dizer que há muitas coisas mudas ocultas no que se diz dá-me algo lento e fino como uma faca nas costas e se nada tens para dar-me dá-me […]
- [António Reis – Mudamos esta Noite](https://singularidadepoetica.art/2018/01/31/antonio-reis-mudamos-esta-noite/): Mudamos esta noite E como tu eu penso no fogão a lenha e nos colchões onde levar as plantas e como disfarçar os móveis velhos Mudamos esta noite e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam e que os filhos dormem sempre nos quartos onde nascem Vai descendo tu Eu só quero ouvir os […]
- [Luljeta Lleshanaku – O Mistério das Orações](https://singularidadepoetica.art/2018/01/30/luljeta-lleshanaku-o-misterio-das-oracoes/): Na minha família as orações eram rezadas secretamente, em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor; quase murmuradas, com um suspiro no princípio e no fim, fino e limpo como uma gaze. Junto à casa havia apenas uma escada para subir, de madeira, encostada à parede o ano inteiro, de modo a reparar o […]
- [Albano Martins – Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/01/29/albano-martins-lembra-te/): Leia "Lembra-te", de Albano Martins, um poema breve e intenso sobre memória, passagem do tempo e os caminhos inevitáveis da existência.
- [Ana Goês - Convida-me só para jantar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/ana-goes-convida-me-so-para-jantar/): E não queiras depois fazer amor. Convida-me só para jantar num restaurante sossegado numa mesa de canto e fala devagar e fala devagar eu quero comer uma sopa quente não quero comer mariscos os mariscos atravancam-me o prato e estou cansada para os afastar fala assim devagar devagar não é preciso dizeres que sou bonita […]
- [Chacal – EXP](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/chacal-exp/)
- [Sylvia Plath - Achava que não Podia ser Magoada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/sylvia-plath-achava-que-nao-podia-ser-magoada/): Achava que não podia ser magoada; achava que com certeza era imune ao sofrimento — imune às dores do espírito ou à agonia. Meu mundo tinha o calor do sol de abril Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro. Minha alma em êxtase, ainda assim conheceu a dor suave e aguda que só o prazer […]
- [Anatol Knotek – Time is running out](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/anatol-knotek-time-is-running-out/)
- [César Cantoni - O mais digno em nós](https://singularidadepoetica.art/2018/01/26/cesar-cantoni-o-mais-digno-de-nos/): Eu sempre pensei que os ossos, com seu brilho mineral de pedra polida pela chuva, são o que há de mais digno em nós: sobrevivem largamente à putrefação indecorosa da carne e não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander César Cantoni – Lo más digno de nosotros Siempre pensé […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Terror de te Amar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/25/sophia-de-mello-breyner-andresen-terror-de-te-amar/): Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. […]
- [Mario Benedetti - Angelus](https://singularidadepoetica.art/2018/01/24/mario-benedetti-angelus/): Quem me diria que o destino era isso Vejo a chuva através de letras invertidas Uma parede com manchas que parecem homens Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes E essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu, Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braços E uma cadeira […]
- [Hilda Hilst - Obriga-me](https://singularidadepoetica.art/2018/01/23/hilda-hilst-obriga-me/): E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo, prazer, lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de […]
- [Charles Bukowski - A Retirada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/22/charles-bukowski-a-retirada/): desta vez o negócio acabou comigo. me sinto como as tropas alemãs açoitadas pela neve e pelos comunistas caminhando curvadas as botas gastas forradas com papel jornal. minha condição é tão terrível quanto. talvez até pior. a vitória estava tão perto a vitória estava logo ali. enquanto ela estava ali diante de meu espelho mais […]
- [Paola Rodrigues - Vida Lúcida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/21/paola-rodrigues-vida-lucida/): Assim como ninguém explicou o início As ondas continuam a chegar na costa Tudo corre sempre em direção ao fim Os copos caem e as cidades se amontoam em nossas costas Amar o perdido deixa confundido este coração Ainda que os dias continuem a nascer Os ônibus andem, os outros durmam Meus pés tropeçam em […]
- [Mikhail Svetlov - Dois](https://singularidadepoetica.art/2018/01/20/mikhail-svetlov-dois-poema/): Dois, um poema de Mikhail Svetlov
- [Miquel Martí i Pol - No ano que vem](https://singularidadepoetica.art/2018/01/19/miquel-marti-i-pol-no-ano-que-vem/): No ano que vem já ninguém reparará em nós. Agora somos recém-chegados e fitam-nos com desprezo até mesmo os que andam por cá há quarenta anos e já nada os muda. Temos um ar aturdido e tenaz que faz rir as mulheres e quase nem nos atrevemos a mexer a cabeça por temor a perder […]
- [Manuel de Freitas - "Pela manhã o gato..."](https://singularidadepoetica.art/2018/01/18/manuel-de-freitas-pela-manha-o-gato/): Pela manhã o gato estende-se vagaroso nesse impreciso lugar em que luz e sombra se entretecem. Nas pedras rondantes do que sempre chamámos a nossa casa, esse sonho de irmos por detrás das janelas encarcerados nas agrestes paredes do amor. Todas as manhãs, enquanto a escola me espera, o gato é tão certo como os […]
- [César Cantoni - Uma Arte Invisível](https://singularidadepoetica.art/2018/01/17/cesar-cantoni-uma-arte-invisivel/): O poeta caminha nu pelas ruas, mas ninguém o vê. O poeta vai ao cinema, desvia de putas, anda de ônibus, sempre nu, mas as pessoas olham para outro lado. O poeta não tem meios de chamar a atenção porque a poesia é uma arte invisível. A poesia se escreve sem palavras. Trad.: Nelson Santander […]
- [Carlos Marzal – Estranha Forma de Vida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/16/carlos-marzal-estranha-forma-de-vida/): A Vicente Gallego Sob a bigorna de fogo que o sol de agosto acende no muro caiado, derretem-se as pétalas de uma sedenta buganvília grená. Que estranha esta beleza moribunda, esta desaforada desnudez grandiosa, esta sílaba breve do milagre. Trad.: Inês Dias Carlos Marzal – Extraña Forma de Vida Bajo el yunque de […]
- [Billy Collins – Pardal de Natal](https://singularidadepoetica.art/2018/01/15/billy-collins-pardal-de-natal/): A primeira coisa que ouvi esta manhã foi um rápido bater de asas, suave, insistente – asas contra vidro, como se percebeu depois, lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro agitando-se na moldura de uma janela alta, tentando lançar-se através do enigma de vidro até a ampla luz. E então um ruído na garganta […]
- [Ana Hatherly - A Verdadeira Mão](https://singularidadepoetica.art/2018/01/14/ana-hatherly-a-verdadeira-mao/): A verdadeira mão que o poeta estende não tem dedos: é um gesto que se perde no próprio ato de dar-se O poeta desaparece na verdade da sua ausência dissolve-se no biombo da escrita O poema é a única a verdadeira mão que o poeta estende E quando o poema é bom não te aperta […]
- [Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ines-lourenco-balada-dos-amores-dificeis/): Não me refiro aos trágicos Romeu e Julieta Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-me aos que se buscam sem saber nada do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavos e convexos se combinam cruzando genes e transitórios tempos […]
- [Ana Martins Marques - Religião](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ana-martins-marques-religiao/): ‘If I were called in to construct a religion I should make use of water’ – Philip Larkin Inaugurar uma religião: adorar os pontos em que se formam as estações do ano os gestos de desnudar-se o dia depois da chuva a distância: entre uma árvore e outra árvore, entre cidades com o mesmo nome […]
- [Inês Lourenço – As Coisa que Cessam](https://singularidadepoetica.art/2018/01/12/ines-lourenco-as-coisa-que-cessam/): Tanto desprezo pelo que é transitório e finito. Não servirei senhor que possa morrer. Mas passamos a vida a amar todas as fragilidades das coisas que cessam. Há coisa mais breve do que um sorriso? Coisa mais curta que a alegria de um reencontro? Tudo o que amamos é passageiro e frágil ou as duas […]
- [Amalia Bautista – O Anjo Perplexo](https://singularidadepoetica.art/2018/01/11/amalia-bautista-o-anjo-perplexo/): Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, nem ídolo que proteja, nem oração que console; nunca houve milagres ou maravilhas, nem a salvação da alma, nem a vida eterna; nem palavras mágicas, nenhum bálsamo eficaz contra a dor que não desaparece nunca; nem luz do outro lado das sombras, nem saída do túnel, nem esperança. […]
- [Mario Quintana – Envelhecer](https://singularidadepoetica.art/2018/01/10/mario-quintana-envelhecer/): Antes, todos os caminhos iam. Agora todos os caminhos vêm. A casa é acolhedora, os livros poucos. E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
- [Amalia Bautista – Agora](https://singularidadepoetica.art/2018/01/09/amalia-bautista-agora/): Agora que a estrada que devo percorreré um viaduto por sobre uma rodoviado qual dá medo de olhar, porque o abismoimplacável me chama.Agora que morreu a esperançacomo um pássaro jogado de seu ninhopor irmãos mais fortes.Agora que é noite todo dia,inverno todo anoe as semanas só têm segundas-feiras,para onde olhar, para onde voltar os olhos,que […]
- [Marina Tzvietáieva – Você me Amava](https://singularidadepoetica.art/2018/01/08/marina-tsvietaieva-voce-me-amava-poema/): Você me Amava, um poema de Marina Tsvetáieva
- [Konstantinos Kaváfis - À Espera dos Bárbaros](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-a-espera-dos-barbaros/): O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado? Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje. Que leis hão de fazer os senadores? Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se ergueu tão cedo e de coroa solene se […]
- [Franz Kafka - Pequena Fábula](https://singularidadepoetica.art/2016/03/31/franz-kafka-pequena-fabula/)
- [Konstantinos Kaváfis - O Prazo de Nero](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/konstantinos-kavafis-o-prazo-de-nero/): Não ficou perturbado Nero quando ouviu do Oráculo de Delfos o prenúncio: “Teme ao ano septuagésimo terceiro.” Tinha tempo bastante a desfrutar. Só contava trinta anos. Muito dilatado era o prazo que o Deus lhe concedia para cuidar-se dos riscos do futuro. Agora vai voltar a Roma um tanto fatigado da magnífica fadiga que se […]
- [Ana Martins Marques - Há estes dias em que pressentimos na casa...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/ana-martins-marques-ha-estes-dias-em-que-pressentimos-na-casa/): Há estes dias em que pressentimos na casa a ruína da casa e no corpo a morte do corpo e no amor o fim do amor estes dias em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde não são coisas que se expliquem apenas são dias […]
- [Marco Aurélio - Reflexões, 14](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/marco-aurelio-reflexoes-14/): Ainda que os anos de tua vida sejam três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida senão a que vive agora, nem vive outra senão a que perde. O prazo mais longo e o mais breve são, portanto, iguais. O presente é de todos; morrer é perder o presente, […]
- [Decio Pignatari - Femme](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/decio-pignatari-femme/)
- [Manuel Bandeira - Soneto Inglês n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/manuel-bandeira-soneto-ingles-n-2/): Aceitar o castigo imerecido, Não por fraqueza, mas por altivez. No tormento mais fundo o teu gemido Trocar um grito de ódio a quem o fez. As delicias da carne e pensamento Com que o instinto da espécie nos engana Sobpor ao gênero sentimento De uma afeição mais simplesmente humana. Não tremer de esperança nem […]
- [Moshé Ibn Ezra - São Túmulos de Tempos Antigos, Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos-antigos-velhos/): São túmulos de tempos antigos, velhos. Neles há gente que dorme um sono eterno. Nem ódio, nem inveja há no seu interior, nem amor, nem zangas de vizinhos. Os meus pensamentos não podem, quando os veem, distinguir entre servos e senhores. Versão de Francisco José Viegas, tradução do hebraico de Maria José Cano. Peguei aqui:http://antoniocicero.blogspot.com.br/2015/08/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos.html
- [Erthos Albino de Souza - Sea Nau](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/erthos-albino-de-souza-sea-nau/)
- [Ferreira Gullar - Nova Concepção da Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-nova-concepcao-da-morte/): Como ia morrer, foi-lhe dado o aviso na carne, como sempre ocorre aos seres vivos; um aviso, um sinal, que não lhe veio de fora, mas do fundo do corpo, onde a morte mora, ou, dizendo melhor, onde ela circula como a eletricidade ou o medo, na medula dos ossos e em cada enzima, que […]
- [Ferreira Gullar - Filhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-filhos/): A meu filho Marcos Daqui escutei quando eles chegaram rindo e correndo entraram na sala e logo invadiram também o escritório (onde eu trabalhava) num alvoroço e rindo e correndo se foram com sua alegria se foram Só então me perguntei por que não lhes dera maior atenção se há tantos e tantos anos não […]
- [Ferreira Gullar - Teu Corpo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-teu-corpo/): O teu corpo muda independente de ti. Não te pergunta se deve engordar. É um ser estranho que tem teu rosto ri em teu riso e goza com teu sexo. Lhe dás de comer e ele fica quieto. Penteias-lhe os cabelos como se fossem teus. Num relance, achas que apenas estás nesse corpo. Mas como, […]
- [Ferreira Gullar - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-despedida/): Eu deixarei o mundo com fúria. Não importa o que aparentemente aconteça, se docemente me retiro. De fato, nesse momento estarão de mim se arrebentando raízes tão fundas quanto estes céus brasileiros. Num alarido de gente e ventania olhos que amei rostos amigos tardes e verões vividos estarão gritando a meus ouvidos para que eu […]
- [Ferreira Gullar - Praia do Caju](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-praia-do-caju/): Escuta: o que passou passou e não há força capaz de mudar isto. Nesta tarde de férias, disponível, podes, se quiseres, relembrar. Mas nada acenderá de novo o lume que na carne das horas se perdeu. Ah, se perdeu! Nas águas da piscina se perdeu sob as folhas da tarde nas vozes conversando na varanda […]
- [Ferreira Gullar - O Que Se Foi](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-o-que-se-foi/): O que se foi se foi. Se algo ainda perdura é só a amarga marca na paisagem escura. Se o que foi regressa, traz um erro fatal: falta-lhe simplesmente ser real. Portanto, o que se foi, se volta, é feito morte. Então por que me faz o coração bater tão forte?
- [Arnaldo Antunes - Só o Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-so-o-sol/)
- [Arnaldo Antunes - Casulo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-casulo/)
- [Arnaldo Antunes - Acaba Acontecendo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-acaba-acontecendo/): o que você mais teme acaba acontecendo o que você mais quer acaba acontecendo o que ninguém espera acaba acontecendo o que ninguém consegue mais conter acaba de acontecer
- [O Segredo dos seus Olhos - Mil Passados](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/o-segredo-dos-seus-olhos-mil-passados/): “Não pense mais nisso! Não pense mais. O que importa? Não fique mais imaginando, não fique pensando no que aconteceu, no que não aconteceu. No que poderia ter acontecido. Senão você terá mil passados e nenhum futuro…” Ricardo Morales para Benjamin Espósito, em “O Segredo dos Seus Olhos”
- [Alfred Tennyson - Ulysses](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/alfred-tennyson-ulysses/): De nada serve a um rei ficar inerte, No lar quieto, em meio à rocha infértil, Unido a esposa idosa, eu doo e imponho Iníquas leis a um bando de selvagens Que soma, e dorme, e engorda, e não me vê. Estou inquieto: Sorverei da vida A última gota: Sempre gozei muito, Sofri muito, com […]
- [Bei Dao - Resposta](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/bei-dao-resposta/): A degradação é o passaporte do vilão, A nobreza é epitáfio do nobre. Olhe: como o céu dourado é inundado do reflexo das sombras torcidas dos mortos. Passada a época do gelo, Por que ainda há gelo em toda a parte? Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança, por que mil velas ainda competem […]
- [Antonio Cicero - Valeu](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/antonio-cicero-valeu/)
- [Óssip Mandelstam - Pedra (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/osip-mandelstam-pedra-excerto/): Não posso tocar, no escuro,Teu vulto vago e sombrio.“Senhor!”, por erro, murmuro,Alheio ao que balbucio. De mim, tal uma ave enorme,O nome de Deus se evola.À frente, um abismo informe,Atrás, vazia, a gaiola. Trad.: Augusto de Campos
- [Jorge Luis Borges - Everness](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-everness/): Só uma coisa há. É o esquecimento. Deus, que salva o metal, salva a escória E cifra na sua profética memória as luas que serão e que hão sido. Já tudo está. Os mil reflexos, Que entre os dois crepúsculos do dia Teu rosto foi deixando nos espelhos e os que irá deixando ainda. E […]
- [Jorge Luis Borges - Cosmogonia](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-cosmogonia/): Nem treva nem caos. A treva Requer olhos que vêem, como o som. E o silêncio requer o ouvido, O espelho, a forma que o povoa. Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer Uma divindade que premedita O silêncio anterior à primeira Noite do tempo, que será infinita. O grande rio de Heráclito o […]
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antonio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre/): —Nos —fios —ten sos —da —pauta —de me- tal —as — an/ do/ ri/ nhas —gri- tam —por —fal/ ta/ —de u- ma —cl’a- ve —de —sol
- [Doroty Parker - Em Suma](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/doroty-parker-em-suma/): Trad.: Nelson Ascher
- [Algernon Charles Swinburne - Uma Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/algernon-charles-swinburne-uma-despedida-poema/): Leia "Uma Despedida", de Algernon Charles Swinburne, um poema lírico sobre amor não correspondido, despedida e a beleza melancólica da renúncia.
- [William Butler Yeats - Quando Estiveres Grisalha e com Sono...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-quando-estiveres-grisalha-e-com-sono-poema/): Quando estiveres grisalha e com sono, Dormitando ante o fogo, lê meu livro Bem lentamente e lembra o sensitivo Olhar que tinhas de suave abandono. Muitos amaram tuas alegrias, Tua beleza; mas só num culmina O amor por tua alma peregrina E a mágoa que teu rosto pressentia. Reclina-te ante as chamas; e ao vê-las […]
- [William Butler Yeats - A Segunda Vinda](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-a-segunda-vinda/): Girando em círculos sempre maiores Já não ouve o falcão ao falcoeiro; Tudo desaba; o próprio centro hesita; Livre, a anarquia reina sobre o mundo, Livre a maré sanguinolenta: em tudo Se afogam os rituais da inocência; Os melhores vacilam e os piores À intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia, […]
- [Cassiano Ricardo - Dedicatória](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-dedicatoria/): I Ao claro tempo, ao tempo das metamorfoses, não havia horizonte na alegria do ser e do acontecer. Havia a graça aérea com que as coisas brincavam de ser e de não ser, no jardim da matéria. Hoje uma coisa passa a ser outra coisa; nascem anjos sem asa dentro do dicionário; um monstro, um […]
- [Cassiano Ricardo - O Hipopótamo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-o-hipopotamo/): Não adianta o rio lhe ofertar um espelho, se ele não sabe de quem é a imagem que o espelho reflete. Se ele pensa que a sua imagem n’água é a de um outro hipopótamo. A paisagem por volta tem algo de bíblico pois é a água da criação, ainda viva, como no primeiro dia. […]
- [Cassiano Ricardo - O Cacto](https://singularidadepoetica.art/2016/03/25/cassiano-ricardo-o-cacto/): This is cactus land. Here the stone images are raised… T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cacto na areia da nossa tristeza. Uma folha sobre outra, em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros, um braço a nascer de outro braço, uma folha sobre outra, formaremos um grande cacto. De cada braço, […]
- [Paul Auster - A Invenção da Solidão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/paul-auster-a-invencao-da-solidao-excerto/)
- [Arnaldo Antunes - Cultura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-cultura/)
- [Arnaldo Antunes - A Casa é Sua](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-a-casa-e-sua/): Não me falta cadeira Não me falta sofá Só falta você sentada na sala Só falta você estar Não me falta parede E nela uma porta pra você entrar Não me falta tapete Só falta o seu pé descalço pra pisar Não me falta cama Só falta você deitar Não me falta o sol da […]
- [Robert Frost - A Estrada não Trilhada](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/robert-frost-a-estrada-nao-trilhada/): Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se, mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria. Assim, por longo tempo eu ali me detive, e um deles observei até um longe declive no qual, dobrando, desaparecia… Porém tomei o outro, igualmente viável, e tendo mesmo um atrativo especial, pois mais ramos possuía e talvez […]
- [Gavin Aung Than e Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/gavin-aung-than-ozymandias/)
- [Carlos Drummond de Andrade - Declaração em Juízo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-declaracao-em-juizo/): Peço desculpas de ser o sobrevivente. Não por longo tempo, é claro. Tranqüilizem-se. Mas devo confessar, reconhecer que sou sobrevivente. Se é triste/cômico ficar sentado na platéia quando o espetáculo acabou e fecha-se o teatro, mais triste/grotesco é permanecer no palco, ator único, sem papel, quando o público já virou as costas e somente baratas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte no Avião](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-morte-no-aviao/): Acordo para a morte.Barbeio-me, visto-me, calço-me.É meu último dia: um diacortado de nenhum pressentimento.Tudo funciona como sempre.Saio para a rua. Vou morrer. Não morrerei agora. Um diainteiro se desata à minha frente.Um dia como é longo. Quantos passosna rua, que atravesso. E quantas coisasno tempo, acumuladas. Sem reparar,sigo meu caminho. Muitas facescomprimem-se no caderno de […]
- [Violeta de Outono - Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/03/20/violeta-de-outono-outono/): No percurso rumo ao prédio oculto Desolado o sol se põe a oeste Lua em gancho, triste, sons do vento Parte o coração o frio do outono Canto do extremo do mundo Espero em silêncio profundo No jardim noturno o esquecimento Velha árvore espera o julgamento Nada explicará meu sentimento Está em meu coração […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Uma Hora e mais Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-uma-hora-e-mais-outra/): Há uma hora triste que tu não conheces. Não é a da tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança; não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol antecipando outro mais gelado pano; e também não é a do nascer do sol enquanto enfastiado assistes […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Coisa Miserável](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-coisa-miseravel/): Coisa miserável, suspiro de angústia enchendo o espaço, vontade de chorar, coisa miserável, miserável. Senhor, piedade de mim, olhos misericordiosos pousando nos meus, braços divinos cingindo meu peito, coisa miserável no pó sem consolo, consolai-me. Mas de nada vele gemer ou chorar, de nada vale erguer as mãos e olhos para um céu tão longe, […]
- [Chico Buarque e Francis Hime - Amor Barato](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-e-francis-hime-amor-barato/): Eu queria serUm tipo de compositorCapaz de cantar nosso amorModesto Um tipo de amorQue é de mendigar cafunéQue é pobre e às vezes nem éHonesto Pechincha de amorMas que eu faço tanta questãoQue se tiver precisãoEu furto Vem cá, meu amorAguenta o teu cantadorMe esquenta porque o cobertor é curto Mas levo esse amorCom […]
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-pedaco-de-mim/): Oh, pedaço de mim Oh, metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior do que o esquecimento É pior do que se entrevar Oh, pedaço de mim Oh, metade exilada de mim Leva os teus sinais Que a saudade dói como um barco Que aos poucos […]
- [Haroldo Barbosa e Luis Reis - Notícia de Jornal](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/haroldo-barbosa-e-luis-reis-noticia-de-jornal1/): “Tentou contra a existência Num humilde barracão Joana de Tal, por causa de um tal João. Depois de medicada, Retirou-se pro seu lar.” Aí a notícia carece de exatidão. O lar não mais existe. Ninguém volta ao que acabou. Joana é mais uma mulata triste que errou. Errou na dose, errou no amor, Joana errou […]
- [Caetano Veloso - Como Dois e Dois](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/caetano-veloso-como-dois-e-dois/): Quando você me ouvir cantar Venha, não creia, eu não corro perigo Digo, não digo, não ligo, deixo no ar Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar… Tudo vai mal, tudo Tudo é igual quando eu canto e sou mudo Mas eu não minto, não minto, estou longe e perto Sinto alegrias, tristezas e […]
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura-2/)
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura/): Sei de uma criatura antiga e formidável, que a si mesma devora os membros e as entranhas, com a sofreguidão da fome insaciável. Habita juntamente os vales e as montanhas; e no mar, que se rasga, à maneira de abismo, espreguiça-se toda em convulsões estranhas. Traz impresso na fronte o obscuro despotismo. cada olhar que […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/caetano-veloso-o-homem-velho/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero - Inverno](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/adriana-calcanhotto-inverno/): No dia em que fui mais feliz Eu vi um avião Se espelhar no seu olhar até sumir De lá pra cá não sei Caminho ao longo do canal Faço longas cartas pra ninguém E o inverno no Leblon é quase glacial Há algo que jamais se esclareceu: Onde foi exatamente que larguei Naquele […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Versos à Boca da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/03/11/carlos-drummond-de-andrade-versos-a-boca-da-noite/): Sinto que o tempo sobre mim abatesua mão pesada. Rugas, dentes, calva.Uma aceitação maior de tudo,e o medo de novas descobertas. Escreverei sonetos de madureza?Darei aos outros a ilusão de calma?Serei sempre louco? Sempre mentiroso?Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? Há muito suspeitei o velho em mim.Ainda criança, já me atormentava.Hoje estou só. Nenhum menino […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Que País é Este?](https://singularidadepoetica.art/2016/03/10/affonso-romano-de-santanna-que-pais-e-este/): Que País é Este?, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, realiza uma vasta investigação poética sobre a formação histórica, cultural e política do Brasil.
- [Giacomo Leopardi - Opúsculos Morais (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-opusculos-morais-excerto/): “Cada parte do universo apressa-se, infatigavelmente, para a morte com solicitude e celeridade admiráveis. Apenas o próprio planeta parece imune à decadência e ao declínio. Contudo, se no outono e no inverno mostra-se quase enfermo e velho, não menos, na nova estação, rejuvenesce sempre. Mas como os mortais no primeiro momento de cada dia readquirem […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito-2-poema/): Sempre me foi cara esta colina erma E esta sebe, que de muitos lados Exclui a visão do último horizonte. Mas sentado, contemplando, infindáveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e a mais profunda calma Eu no pensar imagino; e por pouco Não se amedronta o coração. E o Vento Ouvindo sussurrar entre essas plantas, […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito/): Sempre cara me foi esta colina Erma, e esta sebe, que de tanta parte Do último horizonte, o olhar exclui. Mas sentado a mirar, intermináveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e uma calma profundíssima Eu crio em pensamentos, onde por pouco Não treme o coração. E como o vento Ouço fremir entre essas folhas, […]
- [Adriana Calcanhotto - Estrelas](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-estrelas/): estrelas para mim para mim estrelas são para mim estrelas para mim estrelas estrelas para quê? para quê? para quê? estrelas para mim só para mim. para mim para mim para mim e a treva entre as estrelas só para mim.
- [Adriana Calcanhotto - Jovens e Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-jovens-e-velhos/): Antes de mim vieram os velhos Os jovens vieram depois de mim E estamos todos aqui No meio do caminho dessa vida Vinda antes de nós E estamos todos a sós No meio do caminho dessa vida E estamos todos no meio Quem chegou e quem faz tempo que veio Ninguém no início ou no […]
- [Giuseppe Ungaretti - Daquela Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/giuseppe-ungaretti-daquela-estrela-a-outra/): Trad.: Haroldo de Campos
- [Arnaldo Antunes - O Que](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/arnaldo-antunes-o-que/)
- [Manuel Bandeira - O Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/manuel-bandeira-o-rio/): Ser como o rio que deflui Silencioso dentro da noite. Não temer as trevas da noite. Se há estrelas nos céus, refleti-las. E se os céus se pejam de nuvens, Como o rio as nuvens são água, Refleti-las também sem mágoa Nas profundidades tranquilas.
- [Andrew Marvell - To His Coy Mistress, em 5 traduções](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/andrew-marvell-to-his-coy-mistress-em-5-traducoes/): PARA SUA DAMA RECATADA. trad. Matheus “Mavericco”. Houvesse tempo e espaço e então de fato Não seria um delito este recato. Sentados, nós iríamos pensar Em só pensar no outro, e assim passar. Você, do lado indígena do Ganges, Achando rubis, e eu, pois me confrange A dor, junto ao Humber. Décadas antes Do Dilúvio […]
- [W. H. Auden - Ao Descer a Rua Bristol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/w-h-auden-ao-descer-a-rua-bristol/): Ao descer a rua Bristol uma tarde, eu vi os demais que eram como, antes da ceifa, os já maduros trigais. E ouvi junto ao rio, debaixo da ponte da ferrovia, um namorado cantando como ele sempre amaria: “Vou te amar, meu bem, até que a África se junte à China, que o rio salte […]
- [Jorge Luis Borges - Aqui. Hoje.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-aqui-hoje/): Já somos o esquecimento que seremos. A poeira elementar que nos ignora e que foi o ruivo Adão e que é agora todos os homens e que não veremos. Já somos na tumba as duas datas do princípio e do término, o esquife, a obscena corrupção e a mortalha, os ritos da morte e as […]
- [Jorge Luis Borges - São os Rios](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-sao-os-rios/): Somos o tempo. Somos a famosa parábola de Heráclito o Obscuro. Somos a água, não o diamante duro, a que se perde, não a que repousa. Somos o rio e somos aquele grego que se olha no rio. Seu semblante muda na água do espelho mutante, no cristal que muda como o fogo. Somos o […]
- [Jorge Luis Borges - As Coisas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-as-coisas/): A bengala, as moedas, o chaveiro, a fechadura dócil, as tardias notas que não lerão os poucos dias que me restam, o naipe, o tabuleiro, um livro e dentro dele a emurchecida violeta, monumento de uma tarde por certo inesquecível já esquecida, o rubro espelho ocidental em que arde uma aurora ilusória. Quantas coisas, atlas, […]
- [W. H. Auden - Musée des Beaux-Arts](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/w-h-auden-musee-des-beaux-arts/): Sobre o sofrimento jamais se enganaram os velhos Mestres: eles bem compreenderam a condição humana, viram como certas coisas acontecem enquanto alguém por aí está comendo ou abrindo a janela ou apenas caminhando sem pressa. Sabem que, enquanto os mais velhos es- tão, reverentemente, apaixo- nadamente, à espera do “birth” […]
- [Samuraitiger19 - Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/samuraitiger19-nos-minutos-finais-de-sua-vida-calvin-teve-uma-ultima-conversa-com-haroldo/): “Calvin? Calvin, querido?” No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Corrente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-a-corrente/): Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos, amarelos, e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.
- [Mário Quintana - Os Degraus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mario-quintana-os-degraus/): Não desças os degraus do sonho Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos – onde Os deuses, por trás das suas máscaras, Ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo…
- [Bertolt Brecht - Lista de Preferências](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/bertolt-brecht-lista-de-preferencias/): Alegrias, as desmedidas. Dores, as não curtidas. Casos, os inconcebíveis. Conselhos, os inexequíveis. Meninas, as veras. Mulheres, insinceras. Orgasmos, os múltiplos. Ódios, os mútuos. Domicílios, os passageiros. Adeuses, os bem ligeiros. Artes, as não rentáveis. Professores, os enterráveis. Prazeres, os transparentes. Projetos, os contingentes. Inimigos, os delicados. Amigos, os estouvados. Cores, o rubro. Meses, outubro. […]
- [John Keats - Ode sobre uma Urna Grega](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/john-keats-ode-sobre-uma-urna-grega/): I Inviolada noiva de quietude e paz, Filha do tempo lento e da muda harmonia, Silvestre historiadora que em silêncio dás Uma lição floral mais doce que a poesia: Que lenda flor-franjada envolve tua imagem De homens ou divindades, para sempre errantes. Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo? Que deuses ou mortais? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tarde de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-tarde-de-maio/): Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio, quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra, outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora, surdamente lavrava sob meus traços cômicos, e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes e condenadas, no […]
- [Rogério Nascente - Às Vezes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/rogerio-nascente-as-vezes/)
- [Múcio Góes - A Dor Meço](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mucio-goes-a-dor-meco/)
- [Arthur Schopenhauer - Fisicamente, o andar...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/926-2/)
- [Arthur Schopenhauer - Bolhas de Sabão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-bolhas-de-sabao-excerto/): O homem só vive no presente, que se converte no passado, e afunda-se na morte. Exceto as consequências que podem influir no presente, e que são filhas de sua vontade, ou de seus atos, a sua vida passada já não existe. Devia portanto ser-lhe indiferente que esse passado fosse de prazeres ou tristezas. O presente […]
- [Jorge Luis Borges - Outras Inquisições (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jorge-luis-borges-outras-inquisicoes-excerto/): Negar a sucessão temporal, negar o Eu, negar o universo astronômico, são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino não é assustador por ser irreal; é assustador porque é irreversível e ferrenho. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é […]
- [José Paulo Paes - Auto-Epitáfio n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2/)
- [Jules Laforgue - Mediocridade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jules-laforgue-mediocridade/): No infinito coberto de eternas belezas, Como átomo perdido, incerto, solitário, Um planeta chamado Terra, dias contados, Voa com os seus vermes sobre as profundezas. Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho, Marchando, indiferentes ao grande mistério, E quando um dos seus é enterrado, já sérios, Saúdam-no. Do torpor não são arrancados. Viver, morrer, […]
- [Richard Dawkins - Todos Vamos Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/richard-dawkins-todos-vamos-morrer/): Arte: Gavin Aung – 2012
- [William Shakespeare - do Macbeth (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/william-shakespeare-do-macbeth-excerto/): Amanhã amanhã amanhã amanhã Rasteja em passo parco dia a dia Até a última sílaba do Tempo. E os ontens, todos, só nos alumiam O fim no pó. Apaga, apaga, vela Breve! A vida é só uma sombra movel. Pobre ator Que freme e treme o seu papel no palco E logo sai de cena. […]
- [Edgar Allan Poe - Berenice](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/edgar-allan-poe-berenice/): A DESGRAÇA É VARIADA. O infortúnio da terra é multiforme. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris! Como de um exemplo de beleza, derivei eu uma imagem de desencanto? Da aliança da paz, uma […]
- [Arthur Schopenhauer - A Vida é Dor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-a-vida-e-dor/): Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor. Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre. A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos. A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em […]
- [Décio Pignatari - Cri$to](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/decio-pignatari-crito/)
- [D. H. Lawrence - Bons Maridos Fazem Mulheres Infelizes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/d-h-lawrence-bons-maridos-fazem-mulheres-infelizes/): Bons maridos fazem mulheres infelizes e maus maridos também fazem; mas a infelicidade de uma mulher de marido bom é muito mais arrasadora que a infelicidade de uma mulher de marido ruim. Trad.: Jorge Wanderley
- [Arnaldo Antunes - Sol To](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-sol-to/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Isabel Allende - Ruído](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/isabel-allende-ruido/): A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte.
- [António Lobo Antunes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/antonio-lobo-antunes/): Com os anos a morte vai-se tornando familiar. Quero dizer não a ideia da morte, não o medo da morte: a realidade dela. As pessoas de quem gostamos e partiram amputam-nos cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por dentro. Parece que sobrevivemos não aos outros mas a nós mesmos, […]
- [Anatol Knotek - Bye](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/anatol-knotek-bye/)
- [Arnaldo Antunes - A Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-a-eternidade/)
- [Arnaldo Antunes - faltaratéfartar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-faltaratefartar/)
- [Arnaldo Antunes - Pensa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-pensa/)
- [Arnaldo Antunes - Aquilo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-aquilo/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume-2/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume/): Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia Só vigia um ponto negro: o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Quem nem alegre, nem triste, nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski-2/): Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakósvki. Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem. Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski/)
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/ferreira-gullar-os-mortos/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Jorge de Sena - Conheço o Sal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/jorge-de-sena-conheco-o-sal-poema/): Conheço o sal, um poema de Jorge de Sena
- [Manuel António Pina - Sob Escombros](https://singularidadepoetica.art/2018/10/20/manuel-antonio-pina-sob-escombros/): Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir o silêncio do mundo pulsando onde tu também eras mundo, coisa pulsante. Extinguiu-se esse canto não na morte mas na vida excluída da clarividência da infância e de tudo o que pulsa, fins e começos, e corrompida pela estridência e pela heterogeneidade. Agora respondes […]
- [John Mateer - s/ título](https://singularidadepoetica.art/2018/10/19/john-mateer-a-sede-entre-os-limites/): Este poema vai ser escrito com um livro de fotografias em mente, comemorando esse retrato da jovem estudante de história de arte que se tornaria a mulher do fotógrafo, a mãe do seu filho, ela que se atiraria de uma janela do apartamento deles, e que, por ter existido, proliferaria, como tudo o que pode […]
- [Jaime Sabines - Algo sobre a Morte do Major Sabines](https://singularidadepoetica.art/2018/10/18/jaime-sabines-algo-sobre-a-morte-do-major-sabines/): Primeira Parte I Deixa-me repousar, relaxar os músculos do coração e colocar a alma para dormir para poder falar, para poder recordar estes dias, os mais longos dos tempos. Mal convalescemos da angústia e estamos fracos, assustados, despertando duas ou três vezes do nosso escasso sonho para ver-te na noite e saber que respiras. Precisamos […]
- [Vitor Nogueira - Domingo](https://singularidadepoetica.art/2018/10/17/vitor-nogueira-domingo/): Acordamos com o céu encostado no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam o domingo, a partir do alto das montanhas. E aqui continuamos, agarrados a nós próprios, como dois miúdos que não têm para onde ir. Estamos presos ao sofá unicamente porque sim, nem tristes nem alegres, metidos no roupão e nos chinelos, pequenos cadeados […]
- [Antonia Pozzi - Desalento](https://singularidadepoetica.art/2018/10/16/antonia-pozzi-desalento/): Tristeza destas minhas mãos demasiado pesadas para não abrirem feridas, demasiado leves para deixarem marca – tristeza desta minha boca que diz as mesmas palavras que tu – significando outras coisas – e esta é a expressão da mais desesperada distância. Trad.: Inês Dias Sfiducia Tristezza di queste mie mani troppo pesanti per non aprire […]
- [Nuno Júdice - Outra Imagem](https://singularidadepoetica.art/2018/10/15/nuno-judice-outra-imagem/): Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terra Por cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos. Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomes Familiares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros – música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campas ao fim da tarde, com […]
- [Joan Margarit - A moça do semáforo](https://singularidadepoetica.art/2018/10/14/joan-margarit-a-moca-do-semaforo/): Tens a mesma idade que eu tinha quando comecei a sonhar em encontrar-te. Então ignorava, assim como tu o ignoras, que o amor se transforma na arma carregada de solidão e de melancolia que agora está apontada para ti nos meus olhos. Tu és a moça que busquei durante tanto tempo quando ainda não existias. […]
- [Manuel António Pina - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2018/10/13/manuel-antonio-pina-os-mortos/): Eu sei, é preciso esquecer, desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los, os nossos mortos anseiam por morrer e só a nossa dor pode matá-los. Tanta memória! O frenesim escuro das suas palavras comendo-me a boca, a minha voz numerosa e rouca de todos eles desprendendo-se de mim. Porém como esquecer? Com que palavras […]
- [Alfonsina Storni - Leva-me](https://singularidadepoetica.art/2018/10/12/alfonsina-storni-leva-me/): Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar; Ata-me a tua alma; a alva a brilhar. Toma-me pelas mãos como em um branco casulo E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho. Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!… A morte caça pelo mundo tal qual harpia. Faz-me esquecer o muito que me […]
- [Mário Cesariny - "de profundis amamus"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/11/mario-cesariny-de-profundis-amamus/): Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidos por natureza própria Andámos dez quilómetros a pé ninguém nos viu passar excepto claro os porteiros é da natureza das coisas ser-se visto pelos porteiros Olha como só tu sabes olhar a rua os costumes O […]
- [Rui Pires Cabral – Nunca se Sabe](https://singularidadepoetica.art/2018/10/10/rui-pires-cabral-nunca-se-sabe/): Papéis velhos com poemas: são o joio das gavetas. Relê-los causa aversão e uma espécie de tristeza arrependida – são tão nossos como as más recordações e ainda vemos a circunstância precisa, a causa, a ferida, por detrás de cada um. Mas na altura havia esperança: é isso que representam. Não pelas coisas que dizem […]
- [Amalia Bautista – Ver o Sol](https://singularidadepoetica.art/2018/10/09/amalia-bautista-ver-o-sol/): Leia "Ver o Sol", de Amalia Bautista, um poema breve e intenso sobre desilusão amorosa, percepção e as difíceis verdades da experiência humana.
- [José Mateos - Caminhantes na Neblina](https://singularidadepoetica.art/2018/10/08/jose-mateos-caminhantes-na-neblina/): Símbolo da morte é esta neblina que hoje me envolve nos ecos do bosque solitário, que apaga os caminhos e tudo iguala, que faz mais longe o próximo? Assim será a morte? Ouvir ao lado as pessoas que amamos e não vê-las? Saber que em nossa casa nos aguardam, e não poder, e não saber […]
- [José Tolentino Mendonça – Calle Principe, 25](https://singularidadepoetica.art/2018/10/07/jose-tolentino-mendonca-calle-principe-25/): Perdemos repentinamente a profundidade dos campos os enigmas singulares a claridade que juramos conservar mas levamos anos a esquecer alguém que apenas nos olhou
- [Angela Figuera Aymerich - Princípio e Fim (na morte de minha mãe)](https://singularidadepoetica.art/2018/10/06/angela-figuera-aymerich-principio-e-fim-na-morte-de-minha-mae/): Já tenho minha raiz debaixo da terra. Já um pouco morta contigo, mãe, há algo da minha vida que se decompõe contigo, com teus ossos delicados, com tuas veias azuis, com teu ventre que côncavo sofreu, dando-me forma. Na ignorância, mãe, não no pecado mostraste-me como a vida brota. Como a carne cresce e se […]
- [Spencer Reece - Portofino](https://singularidadepoetica.art/2018/10/05/spencer-reece-portofino/): Prometa-me que você não esquecerá Portofino. Prometa-me que você encontrará o trompe l’oeil nas paredes daquele quarto no Splendido. As paredes que criam um cenário em que você não pode entrar. Talvez então você compreenda esse anseio por permanência do qual sempre lhe falei. Além do porto? Uma capela amarela. Um penhasco. Prometa-me que você […]
- [Jesús Jiménez Domínguez - A Ponte no Nevoeiro](https://singularidadepoetica.art/2018/10/04/jesus-jimenez-dominguez-a-ponte-no-nevoeiro/): Detenho-me a meio do caminho e ouço. Num extremo aquele que fui grita-me: Espera-me! No outro, aquele que serei sussurra-me: Segue-me. E a ponte, eterna, não aguenta o peso dos três. Trad.: Maria Sousa El Puente en la Niebla Me detengo a mitad del recorrido y escucho. En un extremo aquel que fui me grita: […]
- [José Gomes Ferreira - Viver Sempre Também Cansa!](https://singularidadepoetica.art/2018/10/03/jose-gomes-ferreira-viver-sempre-tambem-cansa/): Viver sempre também cansa! O sol é sempre o mesmo e o céu azul ora é azul, nitidamente azul, ora é cinza, negro, quase verde… Mas nunca tem a cor inesperada. O Mundo não se modifica. As árvores dão flores, folhas, frutos e pássaros como máquinas verdes. As paisagens não se transformam Não cai neve […]
- [Chico Amaral e Samuel Rosa - As Noites](https://singularidadepoetica.art/2018/10/02/chico-amaral-e-samuel-rosa-as-noites-2/): As ruas desse lugar Conhecem bem As noites longas, as noites pálidas Quando eu te procurava As casas desse lugar Se lembrarão Do nosso abraço, da sombra insólita Espelho azul no chão As ruas desse lugar Agora eu sei Sempre escutaram a nossa música Quando eu te respirava As pedras municipais Se impregnaram Da dupla […]
- [Pierre de Ronsard - Quando fores bem velha...](https://singularidadepoetica.art/2018/10/01/pierre-de-ronsard-quando-fores-bem-velha/): Quando fores bem velha, à noite junto à vela, Sentada ao pé do fogo, enovelando e fiando, Dirás, cantando os versos meus e te enlevando: “Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela”. Então nem haverá, ouvindo o recital, Serva, ao fim do trabalho e semi-sonolenta, Que, com som do meu nome, não desperte […]
- [Joan Margarit - Era Rubra](https://singularidadepoetica.art/2018/09/30/joan-margarit-era-rubra/): A Àlex Susanna Tanto tempo demoraste a aprender que estás atrasado para o grande amor: que nunca viveste uma era de ouro. As rosas de Ronsard jamais serão perfume em teu olhar, nenhum outono haverá de desfolhar morosas pétalas nos braços de ninguém. Com negligência tapas os espelhos como era costume em casas onde havia […]
- [Joan Margarit - A partida](https://singularidadepoetica.art/2018/09/29/joan-margarit-a-partida/): Definitivamente, este é o meu Outono, um tempo de alianças impossíveis, a era rubra de todos os perigos para homens maduros e mulheres solitárias. A idade do adultério e da desmemória sem nenhuma esperança, a era do gelo, a partida final contra mim mesmo. Mantenho-me à mesa, sem esperar pela sorte, já não há chances […]
- [Manuel António Pina - Estarei ainda muito perto da luz?](https://singularidadepoetica.art/2018/09/28/manuel-antonio-pina-estarei-ainda-muito-perto-da-luz/): Estarei ainda muito perto da luz? Poderei esquecer estes rostos,estas vozes, e ficar diante do meu rosto? Às vezes,como num sonho, vejo formas como um rosto e pergunto: “De quem é este rosto?” E ainda: “Quem pergunta isto?” E: “E com quem fala?” Estarei ainda longe de Ti, quem quer que sejas ou eu seja? […]
- [Maria do Rosário Pedreira – O Último Abraço](https://singularidadepoetica.art/2018/09/27/maria-do-rosario-pedreira-o-ultimo-abraco/): Este foi o nosso último abraço. E quando, daqui a nada, deixares o chão desta casa encostarei amorosamente os lábios ao teu copo para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos. E então, sim, poderei também eu partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida foi mais, muito mais, do que mereci.
- [Bruno Gouveia e Miguel Cunha – Impossível](https://singularidadepoetica.art/2018/09/26/bruno-gouveia-e-miguel-cunha-impossivel/): Biquíni Cavadão Tudo bem quando termina bem E os seus olhos, e os seus olhos não estão rasos d’água Mas eu sei que no coração ficaram muitas palavras Um vocabulário inteiro de ilusão Tudo que viceja também pode agonizar E perder seu brilho em poucas semanas E não podemos evitar que a vida trabalhe com […]
- [Giuseppe Ghiaroni – A máquina de escrever](https://singularidadepoetica.art/2018/09/25/giuseppe-ghiaroni-a-maquina-de-escrever/): Mãe, se eu morrer de um repentino mal, vende meus bens a bem dos meus credores: a fantasia de festivas cores que usei no derradeiro Carnaval. Vende esse rádio que ganhei de prêmio por um concurso num jornal do povo, e aquele terno novo, ou quase novo, com poucas manchas de café boêmio. Vende também […]
- [Pedro Mexia – Paráfrase](https://singularidadepoetica.art/2018/09/24/pedro-mexia-parafrase/): Este poema começa por te comparar com as constelações, com os seus nomes mágicos e desenhos precisos, e depois um jogo de palavras indica que sem ti a astronomia é uma ciência infeliz. Em seguida, duas metáforas introduzem o tema da luz e dos contrastes petrarquistas que existem na mulher amada, no refúgio triste da […]
- [David Mourão-Ferreira - Praia do Paraíso](https://singularidadepoetica.art/2018/09/23/david-mourao-ferreira-praia-do-paraiso/): Era a primeira Vez que nus os nossos corpos Apesar da penumbra à vontade se olhavam Surpresos de saber que tinham tantos olhos Que podiam ser luz de tantos candelabros Era a primeira vez cerrados os estores Só o rumor do mar permanecera em casa E sabias a sal, e cheiravas a limos Que tivesses […]
- [Antonia Pozzi - Canto da Minha Nudez](https://singularidadepoetica.art/2018/09/22/antonia-pozzi-canto-da-minha-nudez/): Olha para mim: estou nua. Da inquieta languidez da minha cabeleira até à tensão fina do meu pé, sou toda de uma magreza amarga envolta numa cor de marfim. Olha: como é pálida a minha carne. Dir-se-ia que o sangue não a percorre. O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida pulsação azul se esbate no […]
- [Amalia Bautista – Contra 'Remedia Amoris'](https://singularidadepoetica.art/2018/09/21/amalia-bautista-contra-remedia-amoris/): Não sou desse género de mulheresincapazes de amor e de ternura.Odeio o sacrifício e repugna-mea vaidade que nasce da violência,mas sei o que é valor e o que é sangue.Quero ser a mulher de um mercenário,de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.Porque sei olhar nos olhos dos homens.Conheço quem merece a minha ternura. […]
- [Eugénio de Andrade – As Mãos](https://singularidadepoetica.art/2018/09/20/eugenio-de-andrade-as-maos/): Que tristeza tão inútil essas mãos que nem sequer são flores que se dêem: abertas são apenas abandono, fechadas são pálpebras imensas carregadas de sono.
- [João Cabral de Melo Neto – de "Os Três Mal Amados"](https://singularidadepoetica.art/2018/09/19/joao-cabral-de-melo-neto-de-os-tres-mal-amados/): Trecho de “Os Três Mal Amados”, de João Cabral de Melo Neto, em que o amor surge como força devoradora que corrói identidade, memória e futuro, deixando o sujeito reduzido à própria perda.
- [Rui Pires Cabral - «He loved beauty that looked kind of destroyed»](https://singularidadepoetica.art/2018/09/18/rui-pires-cabral-he-loved-beauty-that-looked-kind-of-destroyed/): Gostava dessa espécie de beleza que podemos surpreender a cada passo, desvelada pelo acaso numa esquina de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta que foi toda a infância de alguém, com visitas ao domingo e tardes no quintal depois da escola; a beleza crepuscular de alguns rostos num retrato de família a preto e […]
- [Nuno Júdice - Como Aves, Cuja Passagem](https://singularidadepoetica.art/2018/09/17/nuno-judice-como-aves-cuja-passagem/): Como sombras passaram entre nós, como sombras. Uma vez perante alguns amigos e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei os seus nomes. Mas o que não correspondia a um acto heroico, nada significava hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. Só se eu próprio me tornar uma sombra, e também eu passar a uma outra vida. Durante […]
- [Hilda Hilst : Dez chamamentos ao amigo](https://singularidadepoetica.art/2018/09/16/hilda-hilst-dez-chamamentos-ao-amigo/): I Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. E era como se a água Desejasse Escapar de sua casa que é o rio E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há um tempo Entendo que sou terra. Há tanto […]
- [Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe](https://singularidadepoetica.art/2018/09/15/tamara-kamenszain-o-eco-de-minha-mae/): Não posso narrar. Que pretérito me serviria se minha mãe já não se afasta mais de mim? Exúbere então me detenho ante um estado de coisas demasiado presente: ser a descuidada que dela cuida enquanto outros a negligenciam por mim. São as pessoas que me restaram e a gramática se torna um escândalo quando ela […]
- [Anna Akhmátova – Último Brinde](https://singularidadepoetica.art/2018/09/14/anna-akhmatova-ultimo-brinde/): Bebo ao lar em pedaços,À minha vida feroz,À solidão dos abraçosE a ti, num brinde, ergo a voz… Ao lábio que me traiu,Aos mortos que nada veem,Ao mundo, estúpido e vil,A Deus, por não salvar ninguém. Trad.: Rubens Figueiredo Последний тост Я пью за разоренный дом,За злую жизнь мою,За одиночество вдвоем,И за тебя я […]
- [Rui Lage - EN 314](https://singularidadepoetica.art/2018/09/13/rui-lage-en-314/): Ardidas há muito as velas de ignição que davam centelha ao meu antigo e primeiro coração. Agora sou apenas um ponto morto, sem tração: rolo sem atrito mas também sem aflição. A estrada adormece em bosques propícios a emboscadas, mas já não tenho crenças que mereçam ser cobiçadas. E os meus sonhos, até os meus […]
- [Albano Martins - Haicais](https://singularidadepoetica.art/2018/09/12/albano-martins-haicais/): Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por […]
- [Manuel António Pina - de "Cuidados Intensivos"](https://singularidadepoetica.art/2018/09/11/manuel-antonio-pina-cuidados-intensivos/): I “A esta hora e neste sítio (miocárdio ventricular esquerdo) é a abstracta vida que me assalta. Eles não sabem que o seu coração pulsa, ferido, no meu coração, que a minha dor alheia vagarosamente mata os seus sonhos, os seus sentidos, os seus dias visíveis e invisíveis, a linha dos telhados ao longe sobre […]
- [Eunice de Souza – Convite](https://singularidadepoetica.art/2018/09/10/eunice-de-souza-convite/): Tenta-me com uma visão de colinas relva que é verde pavões tão vulgares como pardais. Podemos ler no pátio, diz ela, ouvindo o picapau às voltas com a sua árvore, admirar as rosas, colher fruta, contar estrelas. Traga a tia, os cães, o periquito, diz, escreva um ou dois poemas felizes. De vez em quando, […]
- [José Mateos - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2018/09/09/jose-mateos-in-memoriam/): Para Pedro Sevilla Sempre, frente à dor, estamos sozinhos, não se quer viver, e tu sabes disso. Há um instante viste, na penumbra de um quarto de hospital, a mão hirta, seu rosto naufragado que o lençol cobriu. E era como mirar-se em um espelho e ver que somos menos que essa ausência, menos que […]
- [Elisa Lucinda - Do Efêmero Presente](https://singularidadepoetica.art/2018/09/08/elisa-lucinda-do-efemero-presente/): Às vezes passo um dia e sinto que o perdi. Um dia sem importâncias dentro dele, sem fruto, sem feito, metade avião, metade hotel. Mas que mania é essa de querer que o pobre do dia seja sempre cheio de tarefas? Um dia escravinho, sofrendo na senzala calendário. Ora essa, tem gente que dorme quase […]
- [Paulo Henriques Britto - Entrevista](https://singularidadepoetica.art/2018/09/08/paulo-henriques-britto-entrevista/): Ótima entrevista concedida por Paulo Henriques Britto (para mim, o melhor poeta brasileiro vivo) a Ramon Ramos, e publicada no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco. Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1952), além de poeta, é contista, tradutor e professor da PUC-Rio. Sua obra poética, desde a estreia em Liturgia da […]
- [Joan Margarit - Ulisses nas Águas de Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2018/09/07/joan-margarit-ulisses-nas-aguas-de-itaca/): Estás chegando a ilha e agora sabes o que é o acaso. Viver, o que significa. Teu arco será poeira em uma estante. Poeira será o tear e a peça que ele tece. Os pretendentes, que no pátio acampam, são sombras dos sonhos de Penélope. Estás chegando a ilha enquanto explode o mar contra as […]
- [Vitor Nogueira - Formol](https://singularidadepoetica.art/2018/09/06/vitor-nogueira-formol/): A casa por sob o sótão. O sótão por sobre a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre o mundo. À volta desta praça, quis o tempo conservados em formol os edifícios, esquinas de onde surgem cada vez mais perguntas sem aviso. Escondida pela fachada do liceu há-de estar ainda a […]
- [Kenneth Rexroth – Leão](https://singularidadepoetica.art/2018/09/05/kenneth-rexroth-leao/): O leão é chamado de rei Dos animais. Atualmente existem Quase tantos leões Em jaulas quanto fora delas. Se te oferecerem uma coroa, recusa. Trad.: José Antônio Cavalcanti Lion The lion is called the king Of beasts. Nowadays there are Almost as many lions In cages as out of them. If offered a crown, refuse.
- [Ruy Belo – Através da chuva e da névoa](https://singularidadepoetica.art/2018/09/04/ruy-belo-atraves-da-chuva-e-da-nevoa/): Chovia e vi-te entrar no mar longe de aqui há muito tempo já ó meu amor o teu olhar o meu olhar o teu amor Mais tarde olhei-te e nem te conhecia Agora aqui relembro e pergunto: Qual é a realidade de tudo isto? Afinal onde é que as coisas continuam e como continuam se […]
- [João Luís Barreto Guimarães - Um Quarto de Hotel em Madrid](https://singularidadepoetica.art/2018/09/04/joao-luis-barreto-guimaraes-um-quarto-de-hotel-em-madrid/): Não se chega a pertencer nunca a um quarto de hotel. Não se lhe ganha afecto (não é nosso por inteiro) se é certo que amanhã outro dono estará emoldurado ao espelho. Não se chega a confiar nele (não se lhe lega segredos) sequer a palavra impudica expurgada da pele pela toalha de banho. Não […]
- [Henri Michaux – Nós dois ainda](https://singularidadepoetica.art/2018/09/02/henri-michaux-nos-dois-ainda/): 1948 Música do fogo, tu não soubeste tocar. Lançaste sobre a minha casa um pano negro. O que é este opaco em toda a parte? É o opaco que tapou o meu céu. O que é este silêncio em toda a parte? É o silêncio que calou o meu canto. * De esperança tinha-me bastado […]
- [Amalia Bautista - Nada Sabemos](https://singularidadepoetica.art/2018/09/01/amalia-bautista-nada-sabemos/): Nunca saberemos se os enganadossão os sentidos ou os sentimentos,se viaja o comboio ou a nossa ânsia,se as cidades mudam de lugarou se todas as casas são a mesma.Nunca saberemos se quem nos esperaé quem deve esperar-nos, nem sequerquem temos de esperar no meio de umaplataforma fria. Nada sabemos.Avançamos às cegas, perguntandose isto que se […]
- [Maria Lúcia Alvim - Nosferatu](https://singularidadepoetica.art/2018/08/31/maria-lucia-alvim-nosferatu/): Não era bem isso que eu queria, no entanto, ele veio. Olho de vidro, dente de espada, sopro de guerreiro afeito à noite. – Por que tarda tanto o teu amanhecer sob a capa? – Porque veio? perguntei. E ele debruçava, derramava sobre mim um jeito de morrer.
- [Luís Felipe Castro Mendes – Estóicos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/30/luis-felipe-castro-mendes-estoicos/): Deixa-te ficar comigo à beira do rio. Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza nem a sedução da mocidade. Se te falarem dos deuses, finge entender. E se chamarem poeta ao dono do circo, concorda gravemente.
- [Víctor Botas - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/29/victor-botas-collige-virgo-rosas/): Não falta quem suponha que em sessenta bilhões de anos voltaremos a ser como agora (aparentemente o Espaço se dilata para logo, elástico, encolher-se e novamente outra vez dilatar-se), repetindo tu, as profundidades desses olhos, eu, este esperar a morte de tua mão agônica nas minhas, aqui mesmo, neste lugar. Mas, caso seja tudo uma […]
- [Luis Alberto de Cuenca - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/28/luis-alberto-de-cuenca-collige-virgo-rosas/): Moça, colhe as rosas, não esperes a manhã. Corta-as velozmente, desaforadamente, sem parar para pensar se elas são más ou boas. Que não sobre nenhuma. Poliniza os rosais que encontrares em teu caminho e deixa os espinhos para tuas colegas do colégio. Desfruta da luz e do ouro enquanto podes e consagra tua beleza a […]
- [Felipe Benitez Reyes - "Collige Rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/27/felipe-benitez-reyes-collige-rosas/): Consumir este dia como se fosse o último. Queima-lo como o último cigarro que restou ao insone. Retarda-lo nos lábios como a sílaba última de uma fórmula mágica. Que dependa dele – como a moeda que o suicida reticente lança ao ar – o exato sentido da vida essa confusão de quimeras que morrem nas […]
- [Francisco Brines - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/26/francisco-brines-collige-virgo-rosas/): Estás já com quem queres. Ri e goza. Ama. E anima-te na noite que agora começa, e entre tantos amigos (e comigo) abre os grandes olhos para a vida com a avidez preciosa de tua idade. A noite, longa, há de acabar ao amanhecer, e virão esquadrões de espiões com a luz, apagar-se-ão as estrelas, […]
- [Garcilaso de la Vega - Soneto XXIII](https://singularidadepoetica.art/2018/08/25/garcilaso-de-la-vega-soneto-xxiii/): Enquanto que de rosa e de açucena se mostra toda a cor neste teu rosto, enquanto o teu olhar ardente, honesto, acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjas do ouro se escolheu, com voo presto, sobre o formoso colo branco, ereto, o vento move, espalha e desarranja: colhe […]
- [Jorge Luis Borges - Cristo na Cruz](https://singularidadepoetica.art/2018/08/24/jorge-luis-borges-cristo-na-cruz/): Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.Os três madeiros são de igual altura.Cristo não é o do meio. É o terceiro.A negra barba pende sobre o peito.O rosto não é este das gravuras.É áspero e judeu. Mas não o vejoE vou buscá-lo sempre até o diaDe meu último passo sobre a terra.O homem alquebrado […]
- [Francisco Brines - Os Prazeres Inferiores](https://singularidadepoetica.art/2018/08/23/francisco-brines-os-prazeres-inferiores/): Não desdenhes as paixões vulgares Tens os anos necessários para saber que elas se correspondem exatamente com a vida. Não reduzas sua ação, pois se do breve tempo em que consistes as retiras, é ainda o existir mais imperfeito. Descobre sua verdade por trás da aparência, e assim não haverá falsidade, não poderás fingir que […]
- [Amalia Bautista - Os Teus Olhos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/22/amalia-bautista-os-teus-olhos/): Quando já se esgotaram os caminhos que a razão poderia aconselhar-nos abrem-se os teus olhos: com eles tudo volta a inundar-se da luz escura que dá sentido ao mundo e à minha vida. Trad.: Inês Dias Tus Ojos Cuando se han agotado los caminos que la razón podría aconsejarnos se abren tus ojos, y con […]
- [Joan Margarit - Espaço e Tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/08/21/joan-margarit-espaco-e-tempo/): E de repente a casa é demasiado grande. Tua mãe e eu esvaziamos teus armários e seguimos por mesas e prateleiras, de retrato em retrato, teus sorrisos. À noite os espelhos, sob a luz elétrica, expõem com mais ênfase o teu vazio. Os móveis são agora mais escuros. Pela escada desce a cálida balaustrada que […]
- [Manuel António Pina - Amor como em Casa](https://singularidadepoetica.art/2018/08/20/manuel-antonio-pina-amor-como-em-casa/): Amor como em casa, um poema de Manuel António Pina
- [Antonia Pozzi – Grito](https://singularidadepoetica.art/2018/08/19/antonia-pozzi-grito/): Não ter um Deus não ter um túmulo não ter nada de certo mas apenas coisas vivas que nos fogem – existir sem ontem existir sem amanhã e cegar no vazio – socorro – pelo sofrimento que não tem fim – 10 de fevereiro de 1932 Trad.: Inês Dias Grido Non avere un Dio non […]
- [Miguel Torga – Sísifo](https://singularidadepoetica.art/2018/08/18/miguel-torga-sisifo-poema/): Sísifo, um poema de Miguel Torga
- [Rainer Maria Rilke – O Poeta](https://singularidadepoetica.art/2018/08/17/rainer-maria-rilke-o-poeta/): Já te despedes de mim, Hora. Teu golpe de asa é o meu açoite. Só: da boca o que faço agora? Que faço do dia, da noite? Sem paz, sem amor, sem teto, caminho pela vida afora. Tudo aquilo em que ponho afeto fica mais rico e me devora. Trad.: Augusto de Campos Der Dichter […]
- [Jane Hirshfield - O Homem Gentil](https://singularidadepoetica.art/2018/08/16/jane-hirshfield-o-homem-gentil/): Eu vendi o relógio do meu avô, seu ouro nacarado e padrões pontilhados, para ser derretido. Engrenagem condenada. Tampa faltando. Corrente — deve ter havido uma — faltando. Números que foram pintados com um única e hábil cerda. Dei corda na coroa antes de entrega-lo por sobre o balcão. O homem gentil agarrou o que […]
- [Rui Pires Cabral - "Are Others Happier?"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/15/rui-pires-cabral-are-others-happier-poema/): "Are Others Happier?", um poema de Rui Pires Cabral
- [Joan Margarit - Despedir-se](https://singularidadepoetica.art/2018/08/14/joan-margarit-despedir-se/): Removi tapetes e cortinas, todas as mesas em que há tempos não como nem escrevo. Tirei os quadros e pintei as paredes para apagar os sinais dos anos. Guardo uns poucos livros. Sei bem quais. Destruí cartas de amor que não me amavam mais. Silenciosos, agora, os amores são icebergs errantes do pensamento. A casa, […]
- [Manuel António Pina - Os Gatos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/13/manuel-antonio-pina-os-gatos/): Há um deus único e secretoem cada gato inconcretogovernando um mundo efémeroonde estamos de passagem Um deus que nos hospedanos seus vastos aposentosde nervos, ausências, pressentimentos,e de longe nos observa Somos intrusos, bárbaros amigáveis,e compassivo o deuspermite que o sirvamose a ilusão de que o tocamos
- [Stein Mehren – Grandes Perguntas](https://singularidadepoetica.art/2018/08/12/stein-mehren-grandes-perguntas/): As grandes perguntas não têm soluções, não têm resposta Grandes perguntas não são feitas para serem respondidas Mas para serem vividas Os maiores mistérios continuam sendo mistérios. E na condição de mistérios permitem apreender nosso lugar no mundo, posto que inevitavelmente nos colocam em nossos devidos lugares dentro de nós mesmos. Trad.: Ana Cristina de […]
- [Ruy Belo – Muriel](https://singularidadepoetica.art/2018/08/11/ruy-belo-muriel/): Às vezes se te lembras procurava-te retinha-te esgotava-te e se te não perdia era só por haver-te já perdido ao encontrar-te Nada no fundo tinha que dizer-te e para ver-te verdadeiramente e na tua visão me comprazer indispensável era evitar ter-te Era tudo tão simples quando te esperava tão disponível como então eu estava Mas […]
- [Lêdo Ivo – O Dia dos Homens](https://singularidadepoetica.art/2018/08/10/ledo-ivo-o-dia-dos-homens/): Viver é preciso. Não existe inferno nem paraíso. Apenas o chão. E uma persistente chuva de verão.
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Apesar das ruínas e da morte](https://singularidadepoetica.art/2018/08/09/sophia-de-mello-breyner-andresen-apesar-das-ruinas-e-da-morte/): Apesar das ruínas e da morte,Onde sempre acabou cada ilusão,A força dos meus sonhos é tão forte,Que de tudo renasce a exaltaçãoE nunca as minhas mãos ficam vazias. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ryane Leão – "Você é uma frase bonita"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/08/ryane-leao-voce-e-uma-frase-bonita/): você é uma frase bonita dessas que a gente sublinha no livro faz tatuagem, conta pra todo mundo dessas que dividem a gente em antes e depois
- [Sonja Åkesson – Primavera e Outono, Verão e Inverno](https://singularidadepoetica.art/2018/08/07/sonja-akesson-primavera-e-outono-verao-e-inverno/): A grade que enferrujou. O pão que empedrou. O vento que correu em busca de uma caixa d’água. Primavera e outono, verão e inverno. Isso foi tudo. E é claro, a morte também sonolenta e bem empanturrada como um gato castrado bocejando enquanto as estações do ano vão e voltam deixando um gosto amargo em […]
- [Nuno Júdice – Carpe Diem](https://singularidadepoetica.art/2018/08/06/nuno-judice-carpe-diem/): Confias no incerto amanhã? Entregas às sombras do acaso a resposta inadiável? Aceitas que a diurna inquietação da alma substitua o riso claro de um corpo que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos, os instantes; e nos lábios dessa que amaste morre um fim de frase, deixando a dúvida definitiva. Um nome […]
- [Manuel António Pina - Farewell Happy Fields - IV](https://singularidadepoetica.art/2018/08/05/manuel-antonio-pina-farewell-happy-fields-iv-poema/): Farewell Happy Fields - IV, um poema de Manuel António Pina
- [Ivan Junqueira – Hoje](https://singularidadepoetica.art/2018/08/04/ivan-junqueira-hoje/): A sensação oca de que tudo acabou o pânico impresso na face dos nervos o solitário inverno da carne a lágrima, a doce lágrima impossível… e a chuva soluçando devagar sobre o esqueleto tortuoso das árvores
- [Assionara Souza – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/03/assionara-souza-a-mulher-de-lot/): Um passo atrás Enquanto a cidade desaba Todos correndo Um tumulto dos diabos O filho, a filha, o marido A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz Como se ela não soubesse Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida Ele […]
- [Wislawa Szymborska – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/02/wislawa-szymborska-a-mulher-de-lot/): Dizem que olhei para trás curiosa. Mas quem sabe eu também tinha outras razões. Olhei para trás de pena pela tigela de prata. Por distração – amarrando a tira da sandália. Para não olhar mais para a nuca virtuosa do meu marido Lot. Pela súbita certeza de que se eu morresse ele nem diminuiria o […]
- [Anna Akhmátova – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/01/anna-akhmatova-a-mulher-de-lot/): A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás e transformou-se numa estátua de sal. Gênesis E o homem justo seguiu o enviado de Deus, alto e brilhante, pelas negras montanhas. Mas a angústia falava bem alto à sua mulher: “Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar as rubras torres da […]
- [Arnaldo Antunes – Lugar Nenhum](https://singularidadepoetica.art/2018/07/31/titas-lugar-nenhum-2/): [youtube https://www.youtube.com/watch?v=E5iMIFJ-vLU&w=560&h=315] Não sou brasileiro Não sou estrangeiro Não sou brasileiro Não sou estrangeiro Eu não sou de nenhum lugar Sou de lugar nenhum Sou de lugar nenhum Não sou de São Paulo Não sou japonês Não sou carioca Não sou português Não sou de Brasília Não sou do Brasil Nenhuma pátria me pariu Eu […]
- [Francisco José Viegas – O Estoril](https://singularidadepoetica.art/2018/07/30/francisco-jose-viegas-o-estoril-poema/): O Estoril, um poema de Francisco José Viegas
- [Knut Hamsun – Em cem anos, tudo estará esquecido](https://singularidadepoetica.art/2018/07/29/knut-hamsun-em-cem-anos-tudo-estara-esquecido/): Reviro-me insone por noites a fio, qual náufrago num barco adernando, e tudo por que tanto tenho sofrido ao fim sempre vem dar em pranto. Mas por que sofrer tanto? Em cem anos, tudo estará esquecido. Num sobressalto me vejo cantando personagem da própria labuta. Comungo com Deus qual gigante desperto e a mesa com […]
- [Vitor Nogueira - Sala](https://singularidadepoetica.art/2018/07/28/vitor-nogueira-sala-poema/): Sala, um poema de Vitor Nogueira
- [Miriam Reyes - Imóvel](https://singularidadepoetica.art/2018/07/27/miriam-reyes-imovel/): abandonado a teu peso de homem imóvel olhas-me com antiquíssimos ressentimentos. Ouve-me bem: sou inocente de teu passado não sou a tua puta mãe nem a tua enferma mãe nem a tua louca mãe embora seja uma puta louca. Não mereço receber agressões alheias, atrasadas e caducas. Não projetes em mim os fantasmas de tua […]
- [Joan Margarit - Um pobre instante](https://singularidadepoetica.art/2018/07/26/joan-margarit-um-pobre-instante/): A morte não é mais do que isto: um quarto, a luminosa tarde na janela, e este toca-fitas na mesinha tão desligado como o teu coração com todas as tuas canções cantadas para sempre. Teu último suspiro segue dentro de mim, todavia em suspenso: não deixo que termine. Sabes qual é, Joana, o próximo concerto? […]
- [Manuel António Pina - Teoria das Cordas](https://singularidadepoetica.art/2018/07/25/manuel-antonio-pina-teoria-das-cordas-poema/): Teoria das Cordas, um poema de Manuel António Pina
- [Josep M. Rodríguez – Equação](https://singularidadepoetica.art/2018/07/24/josep-m-rodriguez-equacao/): De pé neste penhasco, aceito a mentira da paisagem. Tudo é inacessível: o orvalho – que é suor vegetal – e o comboio que passa. Uma cegonha voa a preto e branco. Tem o seu ninho no cimo da igreja que fica junto ao cemitério. Estranho paradoxo, a pedra testemunha a fugacidade, a carne é […]
- [Renato Russo – Música Urbana 2](https://singularidadepoetica.art/2018/07/23/legiao-urbana-musica-urbana-2/): [wpvideo ktLJm0wd] Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana Motocicletas querendo atenção às três da manhã É só música urbana Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música […]
- [Miquel Martí i Pol - Tua Solidão](https://singularidadepoetica.art/2018/07/22/miquel-marti-i-pol-tua-solidao/): Enquanto puderes, não desperdices tua solidão, dedicando-a a uma absurda busca do nada, nem persigas a ti próprio obsessivamente por escuras galerias. Assustado pela luz dos preceitos. Sai no sol a pino e olha para as coisas difíceis. Considera que o jogo desmedido das palavras não te servirá de nada se não te apoiares naquilo […]
- [Jorge Luis Borges - Elogio da Sombra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/21/jorge-luis-borges-elogio-da-sombra/): A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade. O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e sua alma. Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão. Buenos Aires, que antes se espalhava em subúrbios em direção à planície incessante, […]
- [Joan Margarit - Quando se perde o sinal](https://singularidadepoetica.art/2018/07/20/joan-margarit-quando-se-perde-o-sinal/): À noite, em um pequeno aeroporto, vês um avião que está decolando. Vai-se perdendo o sinal. Sem nenhuma piedade pelo que foste, pois a piedade é demasiado efêmera e não há tempo para construir nada sobre ela, convences-te de que vives, embora sem esperanças, uma época que é a mais feliz de tua vida. Há […]
- [Stein Mehren - A Pedra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/19/stein-mehren-a-pedra/): Eu acumulei tanto tempo em cada grama de matéria, diz a pedra que milhões de anos são um mero piscar de olhos em mim Eu conheço a dor do mundo continua a pedra. O peso que é necessário carregar. Peso que é o sofrimento do mundo em espaços banhados de luz Se ficares totalmente calado […]
- [Doris Lessing - Fábula](https://singularidadepoetica.art/2018/07/18/doris-lessing-fabula/): Quando olho para trás me parece recordar o canto, embora sempre houvesse silêncio naquele largo e cálido salão. Impenetráveis, essas paredes, acreditávamos, escuras como escudos antigos. A luz brilhava na cabeça ou nas pernas esparramadas com indolência por uma menina. E as vozes baixas subiam no silêncio a se perder como a água. Assim, tudo […]
- [Jane Hirshfield - Alzheimer](https://singularidadepoetica.art/2018/07/17/jane-hirshfield-alzheimer/): Quando os ratos roem um tapete velho e de boa qualidade, as cores e os padrões do que resta não se alteram. Como um leito de rocha, inclinado, continua um leito de rocha, as estrias roxas e vermelhas por interromper. Grandeza inata que se não pode roubar. “Como está?”, perguntei, sem saber o que esperar. […]
- [Nuno Júdice – Fotografia](https://singularidadepoetica.art/2018/07/16/nuno-judice-fotografia/): Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso deatget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,e olha para trás, de esguelha, como se quisessemostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-sede nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-seum sorriso que, não se sabe porquê, se esbate comessa espécie de névoa […]
- [Werner Aspenström – Domingo](https://singularidadepoetica.art/2018/07/15/werner-aspenstrom-domingo/): Pela simples razão de que nunca mais voltará hoje é um dia memorável. O sol nasceu no leste e se pôs no oeste, deixou o céu para as estrelas e uma nave espacial nadando no espaço. O rádio falava e cantava através da janela aberta atrás dos pelargônios vermelhos imutáveis. Uma mulher colhia cachos de […]
- [Andreia C. Faria - Descarnação](https://singularidadepoetica.art/2018/07/14/andreia-c-faria-descarnacao/): Até aos trinta anos tens a cara que Deus te deu. Depois tens a cara que mereces. É uma promessa de ironia, uma sentença sem recurso. É-te assim dito: estás entregue ao labor íntimo do que comes, ao número de horas que dormes, àquilo que fazes e sobretudo àquilo em que pensas. Deus (perdoa-lhe a […]
- [Amalia Bautista – Os meus melhores desejos](https://singularidadepoetica.art/2018/01/07/amalia-bautista-os-meus-melhores-desejos/): Que a vida te pareça suportável.Que a culpa não afogue a esperança.Que não te rendas nunca.Que o caminho que sigas seja sempre escolhidoentre dois pelo menos.Que te interesse a vida tanto como tu a ela.Que não te apanhe o víciode prolongar as despedidas.E que o peso da terra seja levesobre os teus pobres ossos.Que a […]
- [Amalia Bautista – O que fazes aqui](https://singularidadepoetica.art/2018/01/06/amalia-bautista-o-que-fazes-aqui/): Pensei que havia-te dito adeus,um adeus definitivo, ao deitar-mequando pude finalmente fechar meus olhose esquecer-me de ti e de tuas artimanhasde tua insistência, de tua baba ruim,da tua capacidade de anular-me.Pensei que havia-te dito adeuspara todo o sempre, e eu acordoe te encontro novamente junto a mim,dentro de mim, me envolvendo, ao meu lado,invadindo-me, sufocando-me, […]
- [Tomas Tranströmer – Minnena Ser Mig (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/05/tomas-transtromer-duas-traducoes-de-um-mesmo-poema/): Memórias que me Observam Manhã de Junho, cedo demais para acordar, tarde demais para adormecer. Tenho de sair – é densa a folhagem das memórias, perseguem-me com o seu olhar. Não se deixam ver, misturam-se todas com o fundo, verdadeiros camaleões. Tão perto estão que as ouço respirarem aqui onde o canto do pássaro ensurdece. […]
- [João Cabral de Melo Neto - Como a Morte se Infiltra](https://singularidadepoetica.art/2018/01/04/joao-cabral-de-melo-neto-como-a-morte-se-infiltra/): Certo dia, não se levanta porque quer demorar na cama. No outro dia ele diz por que: é porque lhe dói algum pé. No outro dia o que dói é a perna, E nem pode apoiar-se nela. Dia a dia lhe cresce um não, um enrodilhar-se de cão. Dia a dia ele aprende o jeito […]
- [Amalia Bautista – Al Cabo (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/03/amalia-bautista-ao-fim/): No fim de contas No fim de contas são poucas as palavrasque nos doem de verdade, e muito poucasas que conseguem alegrar a alma.E são também muito poucas as pessoasque nos fazem bater o coração, e menosainda com o correr do tempo.No fim de contas, são pouquíssimas as coisasque na verdade importam nesta vida:poder amar […]
- [Vicente de Carvalho – Velho Tema I](https://singularidadepoetica.art/2018/01/02/vicente-de-carvalho-velho-tema-i/): Só a leve esperança, em toda a vida, Disfarça a pena de viver, mais nada; Nem é mais a existência, resumida, Que uma grande esperança malograda. O eterno sonho da alma desterrada Sonho que a traz ansiosa e embevecida, É uma hora feliz, sempre adiada E que não chega nunca em toda a vida. Essa […]
- [Amalia Bautista – Façamos uma limpeza geral](https://singularidadepoetica.art/2018/01/01/amalia-bautista-facamos-uma-limpeza-geral/): Leia "Façamos uma limpeza geral", de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre memória, desapego e a coragem de recomeçar.
- [Carlos Drummond de Andrade - Receita de Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2017/12/31/carlos-drummond-de-andrade-receita-de-ano-novo/): Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das […]
- [Laura Liuzzi - Fio Sem Fim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/30/laura-liuzzi-fio-sem-fim/): Chega-se, enfim, à última página embora deixe claro: não se chega ao fim. Um mesmo fio fino frágil mas firme, da mesma fibra de rio conduz memória e história: storage — está estendido para sempre e para sempre soará, suará a cada renovação do sol, mesmo quando atingirmos o final — mesmo assim não se […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/12/29/alice-ruiz-s/): último dia ainda parece novo o ano que passou
- [Rainer Maria Rilke – Para recitar antes de adormecer](https://singularidadepoetica.art/2017/12/28/rainer-maria-rilke-para-recitar-antes-de-adormecer/): Eu queria cantar para dentro de alguém, sentar-me junto de alguém e estar aí. Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres. Queria ser o único na casa a saber: a noite estava fria. E queria escutar dentro e fora de ti, do mundo, da floresta. Os relógios chamam-se anunciando […]
- [Rainer Maria Rilke – Fonte Romana](https://singularidadepoetica.art/2017/12/27/rainer-maria-rilke-fonte-romana/): Vila Borghese Duas velhas bacias sobrepondo suas bordas de mármore redondo. Do alto a água fluindo, devagar, sobre a água, mais embaixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto, como que só no côncavo da mão, entremostrando um singular objeto: o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia, em […]
- [Adélia Prado – A Treva](https://singularidadepoetica.art/2017/12/26/adelia-prado-a-treva/): Me escolhem os claros do sono engastados na madrugada, a hora do Getsêmani. São cruas claras visões às vezes pacificadas, às vezes o terror puro sem o suporte dos ossos, que o dia pleno me dá. A alma desce aos infernos, a morte tem seu festim. Até que todos despertem e eu mesma possa dormir, […]
- [Anne Sexton – Frágil Fio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/25/anne-sexton-fragil-fio/): Minha fé é um grande peso suspenso por um frágil fio, como a aranha suspende seu bebê em uma fina teia, como a videira, galhos finos e madeira, sustenta as uvas como globos oculares, como muitos anjos dançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisa de muito fio para manter-Se lá, apenas uma veia […]
- [Laura Riding – Uma Gentileza](https://singularidadepoetica.art/2017/12/24/laura-riding-uma-gentileza/): Estar viva é estar curiosa. Quando perder interesse pelas coisas E não estiver mais atenta, álacre Por fatos, acabo este minguado inquérito. A morte é a condição do supremo tédio. Vou deixar que me desintegre E aí, por saber da paz que a morte traz, Seria bom seguir convencendo o destino A ser mais generoso, […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vigília](https://singularidadepoetica.art/2017/12/22/giuseppe-ungaretti-vigilia/): Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915 Toda uma noite em claro caído ao lado de um companheiro massacrado com sua boca arreganhada exposta à lua cheia com o hematoma de suas mãos cravado em meu silêncio escrevi cartas cheias de amor Não tinha nunca estado tão aferrado à vida Trad.: Nelson Ascher
- [Giuseppe Ungaretti – Não gritem mais](https://singularidadepoetica.art/2017/12/21/giuseppe-ungaretti-nao-gritem-mais/): Parem de matar os mortos, Não gritem mais, não gritem Se ouvir ainda os quiserem, Se imperecer ainda esperam. Eles, sussurro imperceptível, Não fazem mais ruído Que o mato quando cresce, Alegre, onde homem não passa. Trad.: Aurora Bernardini
- [Giuseppe Ungaretti – Peso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/20/giuseppe-ungaretti-peso/): Mariano, 29 de junho de 1916 Aquele camponês se fia na medalha de Santo Antonio e segue tranquilo Mas bem só e bem nua sem qualquer miragem carrego minha alma Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Georg Trakl – Ocaso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/19/georg-trakl-ocaso/): A Karl Borromäus Heinrich Por sobre o lago branco Partiram os pássaros selvagens. No crepúsculo sopra de nossas estrelas um vento gelado. Por sobre os nossos túmulos Inclina-se a fronte despedaçada das trevas. Sob carvalhos, balançamos numa barca prateada. Sempre ressoam os muros brancos da cidade. Sob arcos de espinhos Oh, irmão, ponteiros cegos, escalamos […]
- [Georg Trakl – Olhando um velho álbum](https://singularidadepoetica.art/2017/12/18/georg-trakl-olhando-um-velho-album/): Sempre voltas, melancolia, Mansidão da alma solitária. Por fim arde um dia dourado. Com humildade curva-se à dor o paciente Ressoando harmonia e suave loucura. Olha! Já escurece. Volta de novo a noite e um mortal lamenta-se E com ele sofre um outro. Arrepiada sob estrelas de outono, A cabeça mais baixa a cada ano.
- [Federico García Lorca – E Depois...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/17/federico-garcia-lorca-e-depois/): Os labirintos que criam o tempo se desvanecem. (Só fica o deserto.) O coração, fonte do desejo, se desvanece. (Só fica o deserto) A ilusão da aurora e os beijos se desvanecem. Só fica o deserto. Um ondulado deserto. Conheça outros livros de Federico García Lorca clicando aqui
- [Eugénio de Andrade – Adágio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/16/eugenio-de-andrade-adagio/): O Outono é isto – apodrecer de um fruto entre folhas esquecido. Água escorrendo, quem sabe donde, ocasional e fria e sem sentido.
- [José Saramago – É tão fundo o silêncio...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/15/3933-2/): É tão fundo o silêncio entre as estrelas. Nem o som da palavra se propaga, Nem o canto das aves milagrosas. Mas lá, entre as estrelas, onde somos Um astro recriado, é que se ouve O íntimo rumor que abre as rosas.
- [José Saramago – Diz tu por mim, silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/14/jose-saramago-diz-tu-por-mim-silencio/): Não era hoje um dia de palavras, Intenções de poemas ou discursos, Nem qualquer dos caminhos era nosso. A definir-nos bastava um acto só, E já que nas palavras me não salvo, Diz tu por mim, silêncio, o que não posso. Conheça outros livros de José Saramago clicando aqui
- [José Saramago – As Palavras de Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/12/13/jose-saramago-as-palavras-de-amor/): Esqueçamos as palavras, as palavras: As ternas, caprichosas, violentas, As suaves de mel, as obscenas, As de febre, as famintas e sedentas. Deixemos que o silêncio dê sentido Ao pulsar do meu sangue no teu ventre: Que palavra ou discurso poderia Dizer amar na língua da semente?
- [Ronaldo Costa Fernandes – Férias](https://singularidadepoetica.art/2017/12/12/ronaldo-costa-fernandes-ferias/): Aqui, quieto em meu canto sem mexer-me, olhando a luz higiênica do sol, penso na inutilidade cansativa de malas e hotéis para divertir-me nas férias estrangeiras. Não, só preciso da vontade, nem sempre firme, um vento estradeiro, um alarde distante de pássaros e nada além do meu corpo.
- [Dylan Thomas – E a Morte não terá nenhum Domínio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/11/dylan-thomas-e-a-morte-nao-tera-nenhum-dominio/): E a morte não terá nenhum domínio. Nus, os mortos irão se confundir Com o homem no vento e a lua no poente; Quando seus alvos ossos descarnados se tornarem pó, Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos; Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos, Ainda que submersos pelo mar, haverão de ressurgir; Ainda […]
- [Emmanuel Santiago – Lembro-me das Madrugadas](https://singularidadepoetica.art/2017/12/10/emmanuel-santiago-lembro-me-das-madrugadas/): Lembro-me das madrugadas de Minas, quando o frio era vidro moído na carne e, lívido, o orvalho lustrava o gume das estrelas, que luziam no brilho sombrio do céu noturno (negro veludo). Através da neblina, em dança imóvel e milenar, tremulava o vulto oblíquo das montanhas. E aquilo era tudo que eu sabia do horizonte […]
- [Mario Cesariny – Os Pássaros de Londres](https://singularidadepoetica.art/2017/12/09/mario-cesariny-os-passaros-de-londres/): Os pássaros de Londres cantam todo o inverno como se o frio fosse o maior aconchego nos parques arrancados ao trânsito automóvel nas ruas da neve negra sob um céu sempre duro os pássaros de Londres falam de esplendor com que se ergue o estio e a lua se derrama por praças tão sem cor […]
- [Ruy Espinheira Filho – Canção de Depois de Tanto](https://singularidadepoetica.art/2017/12/08/ruy-espinheira-filho-cancao-de-depois-de-tanto/): a Roniwalter Jatobá Vamos beber qualquer coisa, que a vida está um deserto e o coração só me pulsa sombras de Ido e do Incerto. Vamos beber qualquer coisa, que a lua avança no mar e há salobros fantasmas que não quero visitar. Vamos beber […]
- [Ricardo Silvestrin – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/12/07/ricardo-silvestrin-sem-titulo-2/): Lá no horizonte, o ar frio. Mais perto de você, a saudade. Fotografias. Um quadro completo. Vale a pena ver só. A verdade é uma escultura, se você quiser anunciar.
- [Ruy Espinheira Filho – Canção](https://singularidadepoetica.art/2017/12/06/ruy-espinheira-filho-cancao/): Morri de pena de ti porque foi tudo outra história – não a que hoje poderias viver em minha memória. Coisas da vida. Outro conto se contou então. E, enfim, vejo que foste feliz. Morro de pena de mim.
- [Hilda Hilst – Poemas aos homens do nosso tempo III](https://singularidadepoetica.art/2017/12/05/hilda-hilst-poemas-aos-homens-do-nosso-tempo-iii/): homenagem a Natalia Gorbanievskaya Sobre o vosso jazigo — Homem político — Nem compaixão, nem flores. Apenas o escuro grito Dos homens. Sobre os vossos filhos — Homem político — A desventura Do vosso nome. E enquanto estiverdes À frente da Pátria Sobre nós, a mordaça. E sobre as vossas vidas — Homem político — […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Retrato Malsim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/04/carlos-drummond-de-andrade-o-retrato-malsim/): O inimigo maduro a cada manhã se vai formando no espelho de onde deserta a mocidade. Onde estava ele, talvez escondido em castelos escoceses, em cacheados cabelos de primeira comunhão? Onde, que lentamente grava sua presença por cima de outra, hoje desintegrada? Ah, sim: estava na rigidez das horas de tenência orgulhosa, no morrer em […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Instante](https://singularidadepoetica.art/2017/12/03/sophia-de-mello-breyner-andresen-instante/): Deixai-me limpo O ar dos quartos E liso O branco das paredes Deixai-me com as coisas Fundadas no silêncio
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do Mar](https://singularidadepoetica.art/2017/12/02/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja […]
- [José Paulo Paes - Epitáfio para um banqueiro](https://singularidadepoetica.art/2017/12/01/jose-paulo-paes-epitafio-para-um-banqueiro/): Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [João Cabral de Melo Neto - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/30/joao-cabral-de-melo-neto-a-mesa/): O jornal dobrado sobre a mesa simples; a toalha limpa, a louça branca e fresca como o pão. A laranja verde: tua paisagem sempre, teu ar livre, sol tuas praias; clara e fresca como o pão. A faca que aparou teu lápis gasto; teu primeiro livro cuja capa é branca e fresca como o pão. […]
- [Pós-Tudo (Augusto de Campos) e Postudo (Nelson Santander)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/pos-tudo-augusto-de-campos-e-postudo-nelson-santander-poesia/): Pós-Tudo, poema visual de Augusto de Campos e Postudo, de Nelson Santander, sua paródia atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Carlos Drummond de Andrade - Quero](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/carlos-drummond-de-andrade-quero/): Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. Ouvindo-te dizer: Eu te amo, creio, no momento, que sou amado. No momento anterior e no seguinte, como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Escada](https://singularidadepoetica.art/2017/11/28/carlos-drummond-de-andrade-escada-poema/): Escada, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Guilherme de Almeida - Soneto XXVII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/27/guilherme-de-almeida-soneto-xxvii/): Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto. E assim fazemos, como se com isto pudéssemos varrer nosso passado. Passo, esquecido de teu olhar — coitado! Vais — coitada! — esquecida de que existo: como se nunca tu me houvesses visto, como se eu sempre […]
- [Goethe – Um Igual](https://singularidadepoetica.art/2017/11/21/goethe-um-igual/): Sobre cada monte A calma, Em cada fronde Nem sinal De brisa; calam- -se os pássaros na floresta. Espera! Em breve Descansas em paz. Trad.: André Vallias
- [Angela Lago - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/20/angela-lago-sem-titulo/): a pedra estará aqui daqui a vinte anos quem sabe mais polida embora não se veja ou mais recortada pelo vento a árvore terá crescido com sua sombra nem o céu permanece azul ou cinza rubro dorado negro no entanto tem essa criança que busca colo – que seja um cão que vem ao teu […]
- [Ana Martins Marques - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/19/ana-martins-marques-sem-titulo/): Porque sua camiseta secou ao sol ela tem a cor do sol porque seus cabelos secaram ao vento seus pensamentos têm a velocidade do vento porque você disse “noite” sua boca terá o gosto do mar noturno porque você não conheceu meu avô você me amará menos porque não te conheci quando criança eu te […]
- [Petrarca - Soneto CXXXIII ("O Amor me Assinalou com sua Seta")](https://singularidadepoetica.art/2017/11/18/petrarca-soneto-cxxxiii-o-amor-me-assinalou-com-tua-seta/): O amor me assinalou com sua seta,como a neve ao sol, como a cera ao fogo,como névoa ao vento; e já estou rouco,dama, de humilhar-me, feito um pateta. De teus olhos o golpe mortal veio,contra o qual tempo e espaço nada são;Vêm de ti, e vês como diversão,o sol, o fogo e o vento aos […]
- [Petrarca - Soneto CCLXXII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/17/petrarca-soneto-cclxxii/): A vida foge e não recua um passoE a morte, em grande marcha, vai em frente;As coisas do passado e do presente,Ao futuro reclamam meu espaço. A jornada que nesta vida eu traçoNa espera e na lembrança inutilmente,Por pena de mim mesmo descontenteEste caminho que ora fiz, desfaço. Se à lembrança me vem algum desejoDo […]
- [Lucrécio - Da Natureza das Coisas (de rerum natura) (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/16/lucrecio-da-natureza-das-coisas-de-rerum-natura-excerto/): Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui. Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescem Até que as conhecemos e nomeamos. Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos. Formados dos átomos que caem velozes ou lentos Vejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem; É sólido que a natureza está em nós até […]
- [Federico García Lorca - 1910 (Intermezzo)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/15/federico-garcia-lorca-1910-intermezzo/): “1910 (Intermezzo)”, um poema de Federico García Lorca que revisita o olhar inaugural da infância para revelar, entre imagens oníricas e presságios, o vazio oculto no curso inevitável das coisas.
- [Charles Baudelaire - A Giganta](https://singularidadepoetica.art/2017/11/14/charles-baudelaire-a-giganta/): Pois quando a Natureza, em seu capricho exato, Gerava estranhos seres raros, dia a dia, Uma giganta moça – eis do eu gostaria, Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato. Ver seu corpo florir com a flor de sua alma E crescer livremente em seus terríveis jogos; Ver se não teria no […]
- [Goethe - Pensamentos Noturnos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/13/goethe-pensamentos-noturnos/): Tão belas na rútila luz soberana, Guia do navegante aflito, sem norte (E sem recompensa, divina ou humana), – Tenho dó de vocês, estrelas sem sorte, Sem jamais amar e sem saber do amor! Tangendo, incansáveis, as horas eternas Na ronda do tempo das vastas esferas, Vocês vão cumprindo percursos sem conta. Mas eu, se […]
- [Thomas Hardy - Acaso](https://singularidadepoetica.art/2017/11/12/thomas-hardy-acaso/): Se ao menos do alto me chamasse um deus De ódio, e risse: “Ó homem coisa-dor, Teu sofrimento é o júbilo dos céus, Teu deve-amor é o meu haver-rancor”, Eu me conformaria, indo ao extremo De não dobrar-me, réu de um juiz verdugo, Mas orgulhoso que um poder sumpremo Me obrigasse a gemer sob o […]
- [Giacomo Leopardi - A Noite do Dia de Festa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/11/giacomo-leopardi-a-noite-do-dia-de-festa-poema/): A Noite do Dia de Festa, um poema de Giacomo Leopardi
- [William Carlos Williams - A Árvore sem Folhas](https://singularidadepoetica.art/2017/11/10/william-carlos-williams-a-arvore-sem-folhas/): A cerejeira sem folhas mais alta que o teto deu ano passado muita fruta. Como falar porém de fruta diante desse esqueleto? Embora possa estar vivo não há fruta nele. Por isso derrubem-no e usem a lenha contra este frio cortante. Trad.: José Paulo Paes The bare tree The bare cherry tree higher than […]
- [Ivan Junqueira - No Leito Fundo](https://singularidadepoetica.art/2017/11/09/ivan-junqueira-no-leito-fundo/): No leito fundo em que descansas, em meio às larvas e aos livores, longe do mundo e dos terrores que te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhores que te esqueceram nas andanças, longe das taças e das danças, e dos feéricos rumores; longe das cálidas crianças que ateavam fogo aos […]
- [Ivan Junqueira - de "Três Meditações na Corda Lírica"](https://singularidadepoetica.art/2017/11/08/ivan-junqueira-de-tres-meditacoes-na-corda-lirica/): Only through time time is conquered. T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terra e escuta a voz escura das raízes, do limo primitivo, da limalha fina do que […]
- [Ivan Junqueira - Lição](https://singularidadepoetica.art/2017/11/07/ivan-junqueira-licao/): À beira do claustro o monge se inclina e na pedra aprende o que a pedra ensina: que a vida é nada com a morte por cima, que o tempo apenas este fim lhe adia e que o ser carece de não ser ainda, pois à luz se esquiva do que o purifica: a doce […]
- [Ivan Junqueira - Antes que o Sol se Ponha](https://singularidadepoetica.art/2017/11/06/ivan-junqueira-antes-que-o-sol-se-ponha/): Antes que o sol se ponha e seja tarde, e o azul crepuscular me deite a garra, e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra ou mortalha que o corpo me resguarde; antes que murche a pétala na jarra, e eu cale, para sempre, sem alarde, e tudo o que me coube, por covarde, não […]
- [Attila József - Dois Fragmentos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/05/attila-jozsef-dois-fragmentos/): Igual motor já engatado, mas sem caminho a ser seguido, sou assim, e se fosse mais ousado só diria palavras sem sentido. ***** Quando se escreve um verso, ação diversa nos convém, o mar em vez de firme chão, navio em vez de trem. Quando se escreve em verso, não escrever nos convém. Trad.: Nelson […]
- [José Jorge Letria - Meditação sobre os Poderes](https://singularidadepoetica.art/2017/11/04/jose-jorge-letria-meditacao-sobre-os-poderes/): Rubricavam os decretos, as folhas tristes sobre a mesa dos seus poderes efémeros. Queriam ser reis, czares, tantas coisas, e rodeavam-se de pequenos corvos, palradores e reverentes, dos que repetem: és grande, ninguém te iguala, ninguém. Repartiam entre si os tesouros e as dádivas, murmurando forjadas confidências, não amando ninguém, nada respeitando. Encantavam-se com o […]
- [Haroldo de Campos – Ex/plicação](https://singularidadepoetica.art/2017/11/03/haroldo-de-campos-explicacao/): não há um sentido único num poema quando alguém começa a ex- plicá-lo e chega ao fim en- tão só fica o ex do ponto de partida beco (tente outra vez) sem saída
- [Charles Bukowski - Encurralado](https://singularidadepoetica.art/2017/11/02/charles-bukowski-encurralado/): bem, eles diziam que tudo terminaria assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca da palavra ouvindo os passos na escuridão, volto-me para olhar atrás de mim… ainda não, velho cão… logo em breve. agora eles se sentam falando sobre mim: “sim, acontece, ele já era… é triste…” “ele nunca teve muito, não […]
- [Charles Bukowski - Poema nos meus 43 anos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/01/charles-bukowski-poema-nos-meus-43-anos/): terminar sozinho no túmulo de um quarto sem cigarros nem bebida — careca como uma lâmpada, barrigudo, grisalho, e feliz por ter um quarto. …de manhã eles estão lá fora ganhando dinheiro: juízes, carpinteiros, encanadores , médicos, jornaleiros, guardas, barbeiros, lavadores de carro, dentistas, floristas, garçonetes, cozinheiros, motoristas de táxi… e você se vira para […]
- [Cecilia Meireles - Cântico VI](https://singularidadepoetica.art/2017/10/31/cecilia-meireles-cantico-vi/): Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de […]
- [Ferreira Gullar - Traduzir-se](https://singularidadepoetica.art/2017/10/30/ferreira-gullar-traduzir-se/): Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe […]
- [Orides Fontela - Kant (relido)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/29/orides-fontela-kant-relido/): Duas coisas admiro: a dura lei cobrindo-me e o estrelado céu dentro de mim.
- [Frank O'Hara - Autobiographia Literaria](https://singularidadepoetica.art/2017/10/28/frank-ohara-autobiographia-literaria/): Quando era menino eu brincava sozinho num canto do pátio da escola sem ninguém. Odiava bonecas e odiava jogos, os bichos eram hostis e os pássaros fugiam. Se alguém me procurava eu me escondia atrás de uma árvore e gritava “Sou um órfão.” E olha eu aqui, o centro de toda beleza! escrevendo estes versos! […]
- [Maya Angelou - Ainda assim me Levanto](https://singularidadepoetica.art/2017/10/27/maya-angelou-ainda-assim-me-levanto/): Você pode me inscrever na história Com as mentiras amargas que contar Você pode me arrastar no pó, Ainda assim, como pó, vou me levantar Minha elegância o perturba? Por que você afunda no pesar? Porque eu caminho como se eu tivesse Petróleo jorrando na sala de estar Assim como a lua ou o sol […]
- [Emily Dickinson - Morri pela Beleza](https://singularidadepoetica.art/2017/10/26/emily-dickinson-morri-pela-beleza/): Morri pela Beleza – e assim que no Jazigo Meu Corpo foi fechado, Um outro Morto foi depositado Num Túmulo contíguo – “Por que morreu?” murmurou sua voz. “Pela Beleza” – retruquei – “Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. Nós Somos Irmãos. É uma só lei” – E assim Parentes pela Noite, […]
- [Wislawa Szymborska - O Terrorista, Ele Observa](https://singularidadepoetica.art/2017/10/25/wislawa-szymborska-o-terrorista-ele-observa/): A bomba vai explodir no bar às treze e vinte. Agora são só treze e dezesseis. Alguns ainda terão tempo de entrar; alguns de sair. O terrorista já passou para o outro lado da rua. A distância o livra de todo mal e a vista, bom, é como no cinema: Uma mulher de jaqueta amarela, […]
- [Ana Martins Marques - Penélope (I)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/24/ana-martins-marques-penelope-i/): O que o dia tece, a noite esquece. O que o dia traça, a noite esgarça. De dia, tramas, de noite, traças. De dia, sedas, de noite, perdas. De dia, malhas, de noite, falhas.
- [Ana Martins Marques - Batata Quente](https://singularidadepoetica.art/2017/10/23/ana-martins-marques-batata-quente/): Se eu te entregasse agora o meu amor aceso como ele está, como ele está, pesado, você o trocaria rapidamente de mão, você o guardaria um pouco na esquerda, um pouco na direita, por quanto tempo antes de o passar adiante?
- [Raymond Carver - O que o Médico Disse](https://singularidadepoetica.art/2017/10/22/raymond-carver-o-que-o-medico-disse/): Ele disse não parece bom ele disse parece mau aliás muito mau ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes de parar de contar eu disse fico feliz não ia querer saber que tem mais do que isso lá ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha em bosques […]
- [Raymond Carver – Medo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/21/raymond-carver-medo/): Medo de ver a polícia estacionar à minha porta. Medo de dormir à noite. Medo de não dormir. Medo de que o passado desperte. Medo de que o presente alce voo. Medo do telefone que toca no silêncio da noite. Medo de tempestades elétricas. Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo! Medo de […]
- [Maria Cecilia Brandi – A Dança](https://singularidadepoetica.art/2017/10/20/maria-cecilia-brandi-a-danca/): Se a festa começou às dez e meia e terminou por volta das quatro teve trezentos e trinta minutos e como foram setenta e dois convidados neste meu aniversário de trinta e oito anos tive menos de cinco minutos para conversar com cada um na verdade ainda menos pois poucos chegaram no início e saíram […]
- [Cassiano Ricardo - Depois de Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/19/cassiano-ricardo-depois-de-tudo/): Mas tudo passou tão depressa Não consigo dormir agora. Nunca o silêncio gritou tanto Nas ruas da minha memória. Como agarrar líquido o tempo Que pelos vãos dos dedos flui? Meu coração é hoje um pássaro Pousado na árvore que eu fui.
- [Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer](https://singularidadepoetica.art/2017/10/17/stig-dagerman-a-nossa-necessidade-de-consolo-e-impossivel-de-satisfazer/): Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tampouco me legaram o disfarçado furor do cético, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso […]
- [Pedro Salinas - de "Presságios"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/16/pedro-salinas-de-pressagios/): 41 Estas frases de amor que se repetem tantonão são nunca as mesmas.Todas tem idêntico som,mas uma vida anima cada uma,virgem e só, se é que a percebes.E não te canses nuncade repetir as palavras iguais:sentirás a emoção que sente a almaao ver nascer a estrela primeirae ao ver que ela se multiplica, conforme a […]
- [Pedro Salinas - Não Quero que te Vás](https://singularidadepoetica.art/2017/10/15/pedro-salinas-nao-quero-que-te-vas/): Não quero que te vás,dor, última formade amar. Sinto-me vivoquando me dóis,não em ti, nem aqui,mais longe: na terra, no anode onde tu vens,no amor com elae tudo o que foi.Nessa realidadesubmersa que se negaa si mesma e insisteem nunca ter existido,que foi apenas um pretextoque encontrei para viver.Se tu não me restasses,ó dor irrefutável,até […]
- [Nicanor Parra - Perguntas e Respostas](https://singularidadepoetica.art/2017/10/14/nicanor-parra-perguntas-e-respostas/): então, tu achas que vale a pena assassinar deus se o mundo puder ser salvo? – é claro que vale a pena e vale a pena arriscar a vida por uma ideia que pode resultar falsa? – é claro que vale a pena pergunto se valerá a pena comer siri se vale a pena criar […]
- [Derek Walcott - O Amor Depois do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/10/13/derek-walcott-o-amor-depois-do-amor/): Um dia viráem que, eufórico,você cumprimentará a si próprio chegandoà sua porta, em seu espelhoe cada um dará ao outro um sorriso de boas-vindas, e você dirá, sente-se aqui. Coma.Você amará outra vez o estranho que foi.Sirva vinho. Reparta o pão. Restituao seu coraçãopara ele mesmo, para o estranho que um dia você amou por […]
- [Rainer Maria Rilke - A nós nos cabe andar](https://singularidadepoetica.art/2017/10/12/rainer-maria-rilke-a-nos-nos-cabe-andar/): I.22 A nós, nos cabe andar. Mas o tempo, os seus passos, são mínimos pedaços do que há de ficar. É perda pura tudo o que é pressa; só nos interessa o que sempre dura. Jovem, não há virtude na velocidade e no voo aonde for. Tudo é quietude: escuro e claridade, livro e flor. […]
- [Roger Wolfe - Pálpebra](https://singularidadepoetica.art/2017/10/11/roger-wolfe-palpebra/): Pedro Salinas disse num poema que não quer deixar de sentir a dor da ausência da mulher que ama porque isso é tudo o que dela fica: a dor. Não me recordo das suas palavras exactas. Ele di-lo melhor do que eu. Eram outros tempos. Salinas está morto. A mulher que ele amava também. Em […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/10/10/mia-couto-o-espelho-2/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mario Benedetti - Em Pé](https://singularidadepoetica.art/2017/10/08/mario-benedetti-em-pe/): Continuo em pé por pulsar por costume por não abrir a janela decisiva e olhar de uma vez a insolente morte essa mansa dona da espera continuo em pé por preguiça nas despedidas no fechamento e demolição da memória não é um mérito outros desafiam a claridade o caos ou a tortura continuar em pé […]
- [Octavio Paz - Irmandade](https://singularidadepoetica.art/2017/10/07/octavio-paz-irmandade/): Homenagem a Claudio Ptolomeo Sou homem: duro pouco E é enorme a noite. Mas olho para cima: As estrelas escrevem. Sem entender, compreendo: Também fui escrito E neste mesmo instante Alguém me soletra.
- [Pablo Neruda - De "Cem Sonetos de Amor"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/pablo-neruda-de-cem-sonetos-de-amor/): XII Plena mulher, maçã carnal, lua quente, Espesso aroma de algas, lodo e luz pisados, Que obscura claridade se abre entre tuas colunas? Que antiga noite o homem toca com seus sentidos? Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas, com ar opresso e bruscas tempestades de farinha: amar é um combate de […]
- [Mario Benedetti – Lento mas vem](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/mario-benedetti-lento-mas-vem/): Lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem hoje está mais além das nuvens que escolhe e mais além do trovão e da terra firme demorando-se vem qual flor desconfiada que vigila ao sol sem perguntar-lhe nada iluminando vem as últimas janelas lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem já […]
- [Ferreira Gullar – Digo Sim](https://singularidadepoetica.art/2017/10/03/ferreira-gullar-digo-sim/): Poderia dizer que a vida é bela, e muito, e que a revolução caminha com pés de flor nos campos de meu país, com pés de borracha nas grandes cidades brasileiras e que meu coração é um sol de esperança entre pulmões e nuvens Poderia dizer que meu povo é uma festa só na voz […]
- [Adilia Lopes - Absolver (com algumas coisas de Helberto Hélder)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/25/adilia-lopes-absolver-com-algumas-coisas-de-helberto-helder/): “Mas Maria guardava todas essas coisas, conferindo-as em seu coração” Lc 2,19 Chama-se sexo a uma parte do corpo como se todo o corpo as mãos os pés a cabeça não fossem também sexo o pênis a vagina os testículos as maminhas são frágeis vulneráveis estão expostos à crueldade são flores ou musgos posso estar […]
- [Mário Chamie - Cervo, Servo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/21/mario-chamie-cervo-servo/): 1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas, […]
- [Elizabeth Bishop - A Arte de Perder](https://singularidadepoetica.art/2017/09/20/elizabeth-bishop-a-arte-de-perder/): A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetoides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/09/19/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos-2/): VI Nada de mergulhos. É na superfície que o real, minúsculo plâncton, se trai. Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneira do funcional. E o sofrimento, ai, esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti- nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, […]
- [Bertolt Brecht – Prazeres](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/bertolt-brecht-prazeres/): O primeiro olhar da janela de manhã O velho livro de novo encontrado Rostos animados Neve, o mudar das estações O jornal O cão A dialéctica Tomar duche, nadar Velha música Sapatos cómodos Compreender Música nova Escrever, plantar Viajar, cantar Ser amável. Trad.: Paulo César de Souza
- [Vinícius de Moraes – O Verbo no Infinito](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/vinicius-de-moraes-o-verbo-no-infinito/): Ser criado, gerar-se, transformar O amor em carne e a carne em amor; nascer Respirar, e chorar, e adormecer E se nutrir para poder chorar Para poder nutrir-se; e despertar Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir E começar a amar e então sorrir E então sorrir para poder chorar. E crescer, […]
- [Manuel Bandeira – Renúncia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/17/manuel-bandeira-renuncia/): Chora de manso e no íntimo… Procura Curtir sem queixa o mal que te crucia: O mundo é sem piedade e até riria Da tua inconsolável amargura. Só a dor enobrece e é grande e é pura. Aprende a amá-la que a amarás um dia. Então ela será tua alegria, E será, ela só, tua […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Encontro](https://singularidadepoetica.art/2017/09/16/carlos-drumond-de-andrade-encontro/): Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho. Se a noite me atribui poder de fuga, sinto logo meu pai e nele ponho o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madruga e seu rosto, nem triste nem risonho, é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga suor […]
- [Sylvia Plath - A Redoma de Vidro (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/14/sylvia-plath-a-redoma-de-vidro-excerto/): “Eu vi minha vida estendendo seus galhos em minha frente como a figueira verde da história. Da ponta de cada ramo, como um figo roxo e grande, um maravilhoso futuro acenava e piscava. Um figo era um marido e um lar feliz e filhos, e outro figo era uma famosa poetisa e outro figo era […]
- [Nicanor Parra – Cartas a uma Desconhecida](https://singularidadepoetica.art/2017/09/13/nicanor-parra-cartas-a-uma-desconhecida/): Quando passarem os anos, quando passarem os anos e o ar tenha cavado um fosso entre tua alma e a minha; quando passarem os anos e eu só seja um homem que amou, um ser que se deteve um instante diante de teus lábios, um pobre homem cansado de andar pelos jardins, onde estarás tu? […]
- [Nicanor Parra – Acácias](https://singularidadepoetica.art/2017/09/12/nicanor-parra-acacias/): Passeando anos atrás por uma rua cheia de acácias em flor soube por um amigo bem informado que você tinha acabado de se casar. Respondi que por certo eu não tinha nada a ver com o assunto. Mas apesar de nunca ter amado você – e disso você sabe melhor do que eu – cada […]
- [Nelson Santander - Mudança Singular](https://singularidadepoetica.art/2018/07/14/nelson-santander-mudanca-singular/): Resolvi mudar o blog. De hoje em diante, além de umas perfumarias que fiz na página, o blog passará a se chamar “singularidade”. Por quê? Primeiro, porque o nome anterior era muito feio. A ideia de criar um blog para divulgar poemas (principalmente), textos, vídeos, traduções e outras coisas de que gosto, veio meio de […]
- [Piedad Bonnett - Volta à Poesia](https://singularidadepoetica.art/2018/07/13/piedad-bonnett-volta-a-poesia/): Outra vez volto a ti. Cansada venho, definitivamente solitária. Minha bolsa cheia de tristeza trago, carregada de penas infinitas, de dor. Dos desertos venho com os lábios ardentes e o olhar cego pelo vento forte e a dura areia. Abrasada de sede, venho beber de teus profundos mananciais, render-me em teus braços, fundos braços de […]
- [Inês Dias - Linhas de Torres](https://singularidadepoetica.art/2018/07/12/ines-dias-linhas-de-torres-poema/): Linhas de Torres, um poema de Inês Dias
- [Manuel António Pina - M., A Última Palavra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/11/manuel-antonio-pina-m-a-ultima-palavra-poema/): M., A Última Palavra, um poema de Manuel António Pina
- [Joan Margarit - Vozes de Crianças](https://singularidadepoetica.art/2018/07/10/joan-margarit-vozes-de-criancas/): O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste, é uma teia de luz cansada onde recordo quando iam dormir. Ainda lhes leio naquele quarto, debaixo da lâmpada ao lado da cama, os contos com capas duras de cores brilhantes. De súbito, em alguma madrugada, ouço uma criança que me chama e incorporo-me, mas […]
- [Jorge Luis Borges - James Joyce (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/07/09/jorge-luis-borges-james-joyce-em-tres-traducoes/): Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os diasdo tempo, desde o inconcebíveldia inicial do tempo, em que um terrívelDeus prefixou os dias e agonias,até aquele outro em que o ubíquo riodo tempo terrenal torne a sua fonte,que é o […]
- [Emily Dickinson - "Senti um Féretro em meu Cérebro..."](https://singularidadepoetica.art/2018/07/08/emily-dickinson-senti-um-feretro-em-meu-cerebro/): Senti um Féretro em meu Cérebro,E Carpideiras indo e vindoA pisar — a pisar — até eu sonharMeus sentidos fugindo — E quando tudo se sentou,O Tambor de um Ofício —Bateu — bateu — até eu sentirInerte o meu Juízo E eu os ouvi — erguida a Tampa —Rangerem por minha Alma comTodo o Chumbo […]
- [Herberto Helder - A Paixão Grega](https://singularidadepoetica.art/2018/07/07/herberto-helder-a-paixao-grega/): Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,quando alguém morria perguntavam apenas:tinha paixão?quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:se tinha paixão pelas coisas gerais,água,música,pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,paixão pela paixão,tinha?e então indago de mim se […]
- [Manuel de Freitas - Pompe Inutili](https://singularidadepoetica.art/2018/07/06/manuel-de-freitas-pompe-inutili-poema/): Pompe Inutili, um poema de Manuel de Freitas
- [Carlos Alberto Machado – Mapa de Desencontros](https://singularidadepoetica.art/2018/07/05/carlos-alberto-machado-mapa-de-desencontros/): I Abrigo-te mais uma vez há muito tempo disseste aqui hei-de morrer voltas sempre a esta morada ris-te e partes no telhado frágil caem as primeiras águas de Inverno. II Deus encontrou-te eu sei apaixonou-se pelos teus olhos verdes (há fados assim) à sombra das velhas árvores dás-lhe a mão e passeiam deve ser em […]
- [Edna St. Vincent Millay – Objeção de Consciência](https://singularidadepoetica.art/2018/07/04/edna-st-vincent-millay-objecao-de-consciencia/): Eu vou morrer, mas isso é tudo o que farei pela Morte. Eu a ouço tirar seu cavalo da baia; Eu ouço pisadas no chão do celeiro. Ela tem pressa; ela tem negócios em Cuba e nos Bálcãs, muitas ligações a fazer na manhã. Mas eu não vou segurar a rédea enquanto ela ajusta a […]
- [Manuel António Pina - Forma, só Forma](https://singularidadepoetica.art/2018/07/03/manuel-antonio-pina-forma-so-forma-poema/): Forma, só Forma, um poema de Manuel António Pina
- [Alejandra Pizarnik - Capítulos Principais](https://singularidadepoetica.art/2018/07/02/alejandra-pizarnik-capitulos-principais/): Chega a morte com sua manada de ossos sorrio submissa a uma menina idiota que implora em meu nome juntas (a morte, a menina e eu) não encontramos outro ofício para execrar. No final todos se casam: o mar e as ondas, a noite e a escuridão, a taça e o vinho, o anel e […]
- [Georg Trakl – No Outono](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/georg-trakl-no-outono/): Junto à cerca, os girassóis e o seu brilho, Doentes sentados ao sol, sem alento. No campo, as mulheres cantam no trabalho, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Os pássaros contam lendas de encantar, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Há um violino no pátio a gemer. E já o vinho escuro vão […]
- [Joan Margarit - Não jogues fora as cartas de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/joan-margarit-nao-jogues-fora-as-cartas-de-amor/): Elas não te abandonarão. O tempo passará, apagar-se-á o desejo — esta flecha da sombra — e os rostos sensuais, belos e inteligentes, ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho. Passarão os anos. Cansar-te-ão os livros. Decairás ainda mais e perderás até mesmo a poesia. O ruído da cidade nas vidraças acabará por ser […]
- [Tishani Doshi - Poema de Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/06/30/tishani-doshi-poema-de-amor/): No fim, perderemos um ao outro para alguma coisa. Espero que para algo grandioso – morte ou desastre. Mas pode não ser dessa maneira. Pode ser que você saia para comprar cigarros uma manhã depois de termos feito amor e nunca mais retorne, ou eu me apaixone por outro homem. Pode ser uma lenta caminhada […]
- [Emily Dickinson - "Morrer por ti era pouco..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/29/emily-dickinson-morrer-por-ti-era-pouco/): Morrer por ti era pouco.Qualquer grego o fizera.Viver é mais difícil —É esta a minha oferta — Morrer é nada, nemMais. Porém viver importaMorte múltipla — semO Alívio de estar morta. Trad.: Augusto de Campos Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Too […]
- [Antonia Pozzi - Novembro](https://singularidadepoetica.art/2018/06/28/antonia-pozzi-novembro/): E depois – quando eu partir restará alguma coisa de mim no meu mundo – restará um fino rasto de silêncio no meio das vozes – um ténue sopro de branco no coração do azul – E numa noite de Novembro uma menina frágil à esquina de uma rua venderá braçadas de crisântemos e lá […]
- [Jorge Luis Borges - Cambridge](https://singularidadepoetica.art/2018/06/27/jorge-luis-borges-cambridge/): Nova Inglaterra e a manhã. Dobro por Craigie. Penso (já pensei) que o nome Craigie é escocês e que a palavra crag é de origem celta. Penso (já pensei) que neste inverno estão os antigos invernos dos quais deixaram escrito que o caminho está prefixado e que já somos do Amor ou do Fogo. A […]
- [Renata Correia Botelho - O Vento a Rondar os Dragoeiros](https://singularidadepoetica.art/2018/06/26/renata-correia-botelho-o-vento-a-rondar-os-dragoeiros-poema/): O Vento a Rondar os Dragoeiros, um poema de Renata Correia Botelho
- [Felipe Benítez Reyes - Uma Forma de Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2018/06/25/felipe-benitez-reyes-uma-forma-de-eternidade/): Então o medo era isto? Não os assustadores fantasmas do pensamento e da consciência. Não os longos corredores de hospitais com lâmpadas fluorescentes dia e noite. Nem sequer o tremor de irrealidade que permanece na alma se te recordas. O medo, aparentemente, é calmo: Chega quando fechas a janela e compreendes que tudo quanto vês […]
- [Alfredo Buxán - Lápide](https://singularidadepoetica.art/2018/06/24/alfredo-buxan-lapide/): Uma lágrima cai sobre a cal do solo, arde sob meus pés, consome na solidão minha solidão. Trad.: Nelson Santander Alfredo Buxán – Lápida Una lágrima cae sobre la cal del suelo, arde bajo mis pies, abrasa en soledad mi soledad.
- [Manuel de Freitas - Balladen Om Jenny Lind](https://singularidadepoetica.art/2018/06/23/manuel-de-freitas-balladen-om-jenny-lind-poema/): Balladen Om Jenny Lind, um poema de Manuel de Freitas
- [Inês Dias - Passou demasiado tempo...](https://singularidadepoetica.art/2018/06/22/ines-dias-passou-demasiado-tempo-tempo-poema/): Passou demasiado tempo..., um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Shostakovich. Sinfonia "Leningrado"](https://singularidadepoetica.art/2018/06/21/joan-margarit-shostakovich-sinfonia-leningrado/): Lembras-te? Joana havia morrido. Íamos para o norte, tu e eu, no carro, para o apartamento junto ao mar, e ouvíamos esta sinfonia. Iniciamos a viagem em uma manhã luminosa e, dentro da música, o dia era de muros cobertos pelo gelo, vultos carregando sacos meio vazios e, no lago, trenós com cadáveres. Como uma […]
- [Manuel António Pina - Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/manuel-antonio-pina-neste-preciso-momento-neste-preciso-lugar-poema/): Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar, um poema de Manuel António Pina
- [Nelson Santander – Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), por Nelson Santander
- [Alfredo Buxán - A eternidade das Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/19/alfredo-buxan-a-eternidade-das-cinzas/): Leia "A eternidade das cinzas", de Alfredo Buxán, um poema contemplativo sobre mortalidade, silêncio e a fragilidade da existência humana.
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2018/06/18/jorge-luis-borges-labirinto-2/): Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro. E o alcácer abarca o universo E não tem anverso nem reverso Não tem extremo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro teu destino Como […]
- [Manuel de Freitas - Genealogia](https://singularidadepoetica.art/2018/06/17/manuel-de-freitas-genealogia-poema/): Genealogia, um poema de Manuel de Freitas
- [Jorge Sousa Braga - Fogo sobre fogo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/16/jorge-sousa-braga-fogo-sobre-fogo-poema/): Fogo sobre fogo, um poema de Jorge Sousa Braga
- [Rui Caeiro - "Ainda atacas..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/15/rui-caeiro-ainda-atacas-poema/): "Ainda atacas...", um poema de Rui Caeiro
- [Nuno Júdice - Réquiem por Muitos Maios](https://singularidadepoetica.art/2018/06/14/nuno-judice-requiem-por-muitos-maios-poema/): Réquiem por Muitos Maios, um poema de Nuno Júdice Conheci tipos que viveram muito. Estão mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço. de álcool, da obrigação de viver que os consumia [...]
- [Inês Dias - Lapinha](https://singularidadepoetica.art/2018/06/13/ines-dias-lapinha-poema/): Lapinha, um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Não estava longe, não era difícil](https://singularidadepoetica.art/2018/06/12/joan-margarit-nao-estava-longe-nao-era-dificil/): Chegou este tempo em que já não machuca a vida que se perde, em que a luxúria é tão só uma lâmpada inútil, e a inveja se olvida. É um tempo de perdas prudentes, necessárias, e não é um tempo de chegar mas de partir. O amor, agora, por fim coincide com a inteligência. Não […]
- [Machado de Assis - Último Capítulo (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2018/06/11/machado-de-assis-ultimo-capitulo-excerto/): “Há entre os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato […]
- [Manuel António Pina – Esplanada](https://singularidadepoetica.art/2018/06/10/manuel-antonio-pina-esplanada-poema/): Esplanada, um poema de Manuel António Pina
- [Belchior - Comentários a Respeito de John](https://singularidadepoetica.art/2018/06/09/belchior-comentarios-a-respeito-de-john/): Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho Deixem que eu decido a minha vida Não preciso que me digam de que lado nasce o sol Porque bate lá o meu coração Sonho e escrevo em letras grandes de novo pelos muros do país João, o tempo andou mexendo com a gente, sim John, eu […]
- [Joan Margarit - Discurso do Método](https://singularidadepoetica.art/2018/06/07/joan-margarit-discurso-do-metodo/): Já de criança procurava as janelas para pode fugir com o olhar. Desde então, se entro em um lugar, observo com atenção onde deixo meu casaco e onde está a porta de saída. Liberdade, para mim, quer dizer fuga. Há muitas portas no mundo. Inclusive o sexo, em caso de emergência, pode sê-lo, embora todas […]
- [Idea Vilariño - Ou foram nove](https://singularidadepoetica.art/2018/06/06/idea-vilarino-ou-foram-nove/): Talvez tivemos só sete noites não sei não as contei como poderia ter feito. Talvez não mais que seis ou foram nove. Não sei, mas valeram a pena como o amor mais duradouro. Talvez com quatro ou cinco noites dessas, mas precisamente como essas, talvez seja possível viver como de um longo amor uma vida […]
- [Manuel António Pina – Lugares da infância](https://singularidadepoetica.art/2018/06/05/manuel-antonio-pina-lugares-da-infancia/): Lugares da infância onde sem palavras e sem memória alguém, talvez eu, brincou já lá não estão nem lá estou. Onde? Diante de que mistério em que, como num espelho hesitante, o meu rosto, outro rosto, se reflecte? Venderam a casa, as flores do jardim, se lhes toco, ficam hirtas e geladas, e sob os […]
- [Paulo Henriques Britto - Queima de Arquivo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/04/paulo-henriques-britto-queima-de-arquivo/): Houve um tempo em que eu amava em cada corpo o reflexo do que eu queria ter sido. No fundo do sexo eu buscava o meu desejo perdido. Acabei achando o outro que em mim mesmo destruí. Foi fácil reconhecê-lo: de tudo que vi em seu rosto somente o ódio era belo. Esse morto adolescente […]
- [Eduardo Chirinos - O que meu pai realmente quer de mim](https://singularidadepoetica.art/2018/06/03/eduardo-chirinos-o-que-meu-pai-realmente-quer-de-mim/): 1 Esta noite tive um sonho. Seguia com meu pai por uma estrada de terra. Os dois íamos a cavalo e mal trocávamos uma palavra. Ao longe se via a sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoado desconhecido e remoto. De repente, meu pai deteve seu cavalo e perguntou-me se eu sabia para […]
- [Wislawa Szymborska - Gato num apartamento vazio](https://singularidadepoetica.art/2018/06/02/wislawa-szymborska-gato-num-apartamento-vazio/): Morrer — isso não se faz a um gato. Pois o que há de fazer um gato num apartamento vazio. Trepar pelas paredes. Esfregar-se nos móveis. Nada aqui parece mudado e no entanto algo mudou. Nada parece mexido e no entanto está diferente. E à noite a lâmpada já não se acende. Ouvem-se passos na […]
- [Manuel de Freitas - Grand Hotel København, 326](https://singularidadepoetica.art/2018/06/01/manuel-de-freitas-grand-hotel-kobenhavn-326/): Onze horas: a tua mão adormecida marca agora um conto de Karen Blixen – veremos em breve essa casa cinzenta, em Helsingør – enquanto eu ouço uma sonata de Scarlatti tocada por Scott Ross e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca. Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes assim, ignorando a áspera nudez da […]
- [Jaime Gil de Biedma - Happy ending](https://singularidadepoetica.art/2018/05/31/jaime-gil-de-biedma-happy-ending/): Embora, à noite, comigo já não durmas mais, o acaso dirá talvez se é definitivo. Que embora o prazer nunca mais volte a ser o mesmo, na vida o esquecimento não costuma durar. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Happy ending Aunque la noche, conmigo, no la duermas ya, sólo el azar nos dirá […]
- [Javier Salvago - Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos](https://singularidadepoetica.art/2018/05/30/javier-salvago-um-pouco-mais-sabios-um-pouco-mais-cegos/): Quando você não é mais jovem, se convence de que o diabo sabe mais porque é velho e admite que os anos nos ensinam a distinguir a realidade do sonho. Talvez não. Talvez a vida só se nos mostre uma vez – quando temos olhos para aprecia-la – e depois vamos esquecendo seu rosto e […]
- [Inês Dias - Joaquim e Judite](https://singularidadepoetica.art/2018/05/29/ines-dias-joaquim-e-judite/): Fizera toda a viagem com ele ao colo. Queria despedir-se junto ao mar, mas as partidas são tão imperfeitas se o coração é uma caixa de cinzas demasiado enferrujada para abrir ao vento. Mesmo agora, depois de lavada a última partícula que se lhe colara à pele, sabia que o amor passara a ter o […]
- [Manuel António Pina - Ruínas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/28/manuel-antonio-pina-ruinas/): Por onde quer que tenha começado, pelo corpo ou pelo sentido, ficou tudo por fazer, o feito e o não feito, como num sono agitado interrompido. O teu nome tinha alturas inacessíveis e lugares mal iluminados onde se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam, e talvez devesse ter começado por aí. Agora […]
- [Javier Salvago - Convém não esquecer](https://singularidadepoetica.art/2018/05/27/javier-salvago-convem-nao-esquecer/): Por esta via que chamam vida, vamos com cautela devida, tal qual um cego. Mas em cinzas termina todo e qualquer fogo. Trad.: Nelson Santander Javier Salvago – Conviene no Olvidarlo Por esta senda, que llaman vida, todos vamos a tientas, igual que un ciego. En ceniza terminan todos los fuegos.
- [Vítor Nogueira - Gelo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/26/vitor-nogueira-gelo/): Agora é apenas um café com paredes adornadas, imagens retratando destemidos ancestrais. O tempo foi passando, não foi? Um acidente em câmara lenta a uma escala cataclísmica. Grande parte daquilo que fazemos é construir memória, uma promessa frágil ao futuro. E pensar que na vida acumulamos tanta coisa, sobretudo se por hábito não deitamos nada […]
- [Nuno Júdice - Passado](https://singularidadepoetica.art/2018/05/25/nuno-judice-passado/): Passou o vento, passou o dia, passou a noite e a manhã, passou o tempo, passou a gente, passou cada hora de amanhã; passou um canto esquecido nos cantos de cada passo, passou ao dizer que passo sem se lembrar do compasso; passou a vida como se nada fosse, só passou e foi-se embora, passou […]
- [Manuel António Pina - O Regresso](https://singularidadepoetica.art/2018/05/24/manuel-antonio-pina-o-regresso/): Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira […]
- [Inês Dias – Reconquista](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/ines-dias-reconquista/): Do meu bisavô, ferreiro e construtor de pontes, conheci apenas as iniciais, gravadas na pedra com que tomara o último dos elementos. Mas a sul do passado, o meu avô repetia-lhe ainda os gestos, ensinando-me a travar as marés com pequenos diques improvisados – paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel. Nunca mais o futuro […]
- [Nelson Santander - Philip Roth](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/philip-roth/): Morreu Philip Roth, meu último grande herói literário. Sua vasta bibliografia explora uma gama enorme de temas, mas a faceta que mais me impressionou foi a que ele abordou em seus últimos livros: a questão da velhice. A leitura de “Homem Comum” – principal obra de Roth sobre o tema – há cerca de 8 […]
- [Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame](https://singularidadepoetica.art/2018/05/22/lawrence-ferlinghetti-cafe-notre-dame/): Uma espécie de trauma sexual prende um casal abismado Ele está segurando as duas mãos dela nas suas Ela está beijando as mãos dele Estão olhando-se nos olhos de muito perto Ela tem um casaco de peles feito duma centena de coelhos correndo Ele tem um casaco clássico sombrio e calças cinza-de-pardo Agora estão a […]
- [Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções](https://singularidadepoetica.art/2018/05/21/marina-tsvetaieva-um-poema-em-duas-traducoes/): Tentativa de ciúme – Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra? Fácil, não é? — Um golpe de remo! — E de pronto a linha da costa Se foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante (No céu, por certo, não no mar)! Almas! Almas! — antes amar Como […]
- [Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa](https://singularidadepoetica.art/2018/05/20/anne-sexton-para-o-meu-amante-voltando-para-a-esposa/): Ela está bem aqui. Ela foi cuidadosamente esculpida para você saída de sua infância saída dentre seus cem colegas de escola preferidos. Ela sempre esteve aqui, meu bem. Ela é de fato extraordinária. Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro e tão real como uma panela de ferro fundido. Vamos ser sinceros, eu […]
- [Mario Benedetti - Tempo sem Tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/19/mario-benedetti-tempo-sem-tempo/): Preciso de tempo, necessito desse tempo que os outros deixam de lado porque lhes sobra ou já não sabem o que fazer com ele tempo em branco em rubro em verde mesmo em castanho escuro não me importa a cor cândido tempo que eu não posso abrir e fechar como uma porta tempo para olhar […]
- [Manuel António Pina - Luz](https://singularidadepoetica.art/2018/05/18/manuel-antonio-pina-luz/): Talvez que noutro mundo, noutro livro, tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu), e talvez então tu, eu, […]
- [Marina Colasanti - Rota de Colisão](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/marina-colasanti-rota-de-colisao/): De quem é esta pele que cobre a minha mão como uma luva? Que vento é este que sopra sem soprar encrespando a sensível superfície? Por fora a alheia casca dentro a polpa e a distância entre as duas que me atropela. Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas […]
- [Raul de Carvalho – Amiúde](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/raul-de-carvalho-amiude/): No vale dos afetos ninguém está seguro: Míngua a lembrança, Esquece-se o rosto, Retorna-se ao eu, Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo – E apenas as pequenas ilusões – um café, o cigarro, a limonada – imitam dois corações […]
- [Roger Wolfe - A Última Noite da Terra](https://singularidadepoetica.art/2018/05/16/roger-wolfe-a-ultima-noite-da-terra/): O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa E, no entanto, permaneço aqui. Sua melodia não muda, já o escrevi antes. Mas o meu trabalho é constatar o óbvio e é isso que o melro faz-me recordar. O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem por sua própria mão ou com ajuda. As […]
- [João Miguel Fernandes Jorge - Presépio Animado da Ribeira Grande](https://singularidadepoetica.art/2018/05/15/joao-miguel-fernandes-jorge-presepio-animado-da-ribeira-grande/): Ainda todos se lembram do dezembro de 96. Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na berma, um gato de pelagem branca. Parecia ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa de pelo curto, tinha uma chaga na orelha alastrava pelo crânio e pela face e olho. […]
- [Charles Simic - Na Biblioteca](https://singularidadepoetica.art/2018/05/14/charles-simic-na-biblioteca/): Para Octavio Há um livro chamado “Um Dicionário dos Anjos”. Não foi aberto por ninguém em cinquenta anos, Eu sei, porque quando o fiz As capas rangeram, as páginas desintegraram-se. Nele descobri Que os anjos já foram tão abundantes Quanto moscas. O céu ao entardecer Costumava ficar repleto deles. Você precisava agitar ambos os braços […]
- [Inês Dias – Lei Sálica](https://singularidadepoetica.art/2018/05/13/ines-dias-lei-salica/): As mulheres da família sempre tiveram um jeito quase póstumo de existir: guardar o lume em silêncio, comer depois de servir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destino para lerem os caminhos perdidos e coleccionavam a abdicação em caixinhas de folha, entre bilhetes caducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a […]
- [A. M. Pires Cabral – Motes e Voltas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/12/a-m-pires-cabral-motes-e-voltas/): 1 Senhor, vão sendo horas. Sei bem que o teu relógio não tem de regular-se pelo meu nem a tua vontade pela minha. Mas é justo que seja aquele que sofre do tempo os enxovalhos a dizer quando vão sendo horas — e não tu, Senhor, com quem o tempo não colide (decerto porque tu […]
- [Eugénio de Andrade - Ver Claro](https://singularidadepoetica.art/2018/05/11/eugenio-de-andrade-ver-claro/): Toda a poesia é luminosa, até a mais obscura. O leitor é que tem às vezes, em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver claro. Se regressar outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas ficará cego de tanta claridade. Abençoado seja se lá chegar.
- [Adília Lopes - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/adilia-lopes-arte-poetica-poema/): Arte Poética, um poema de Adília Lopes
- [Inês Dias – Your Funeral, my Trial](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/ines-dias-your-funeral-my-trial/): O morto fica mais só quando quem fala lhe rouba a última memória desse barco desmesurado da infância, construído sem vista para o mar. O morto fica mais só ainda, quando quem ouve se esquece da música para escolher o seu próprio funeral, alinhando convidados e preferindo coroas de plástico a condizer com as lágrimas. […]
- [Manuel António Pina - Relatório](https://singularidadepoetica.art/2018/05/09/manuel-antonio-pina-relatorio/): É um mundo pequeno, habitado por animais pequenos – a dúvida, a possibilidade da morte – e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros, os teus passos subindo as escadas, o gato brincando na sala com o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa, um pouco mais […]
- [Vitor Nogueira – Sementes](https://singularidadepoetica.art/2018/05/08/vitor-nogueira-sementes/): É claro que me lembro. Havia dois atalhos pelo meio do pinhal, direcções espantosamente precisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos, havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio para tratar certas lesões, uma peça vital do equipamento. Havia girassóis à volta da casa e as palavras imortais dos […]
- [Jorge Luis Borges - Sobre nós](https://singularidadepoetica.art/2018/05/07/jorge-luis-borges-sobre-nos/): Amamos o que não conhecemos, o já perdido. O bairro que foi periferia. Os antigos, que já não podem nos decepcionar porque são mito e esplendor. Os seis volumes de Schopenhauer, que não acabaremos de ler. A lembrança, não a leitura, da segunda parte do Quixote. O Oriente que, sem dúvida, não existe para o […]
- [Ana Martins Marques - de "Três Postais"](https://singularidadepoetica.art/2018/05/06/ana-martins-marques-de-tres-postais/): São Paulo Depois de um tempo todas as coisas ficam marcadas como se estivessem impregnadas de veneno Há um tempo em que os lugares são limpos e novos abertos como clareiras mas já não é este o tempo Sobre cada lugar se sobrepõe a experiência do lugar como um selo num cartão postal Por exemplo […]
- [Alberto Caeiro - Quando vier a primavera](https://singularidadepoetica.art/2018/05/05/alberto-caeiro-quando-vier-a-primavera/): Quando vier a primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morria E a primavera era […]
- [José Alcaraz - Volta para Casa](https://singularidadepoetica.art/2018/05/04/jose-alcaraz-volta-para-casa/): Atravessa as ruas absorto nos ecos das pessoas, distante inclusive de seus pensamentos. Não chove, não abre seu guarda-chuva, no entanto, como sempre, molham-se não só seus sapatos como a vida também, porque às vezes não recorda que o mundo o reclama. Caminha como quem não sabe para onde, a cada passo crê estar só […]
- [Hans Magnus Enzensberger - A Visita](https://singularidadepoetica.art/2018/05/03/hans-magnus-enzensberger-a-visita/): Quando levantei os olhos da página em branco havia um anjo no quarto. Um anjo bastante comum presumivelmente de menor hierarquia. Você não pode imaginar, ele disse, o tanto que você é dispensável. Dos quinze mil tons de azul, ele disse, cada um faz mais diferença Do que tudo que você possa fazer ou deixar […]
- [Manuel António Pina - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2018/05/02/manuel-antonio-pina-interiores/): Onde estamos agora que não nos vemos, tu sentada diante da TV e eu escrevendo isto, não sei o quê, como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceu do nosso amor como uma inevitabilidade, uma saudade pousada agora na mão de Deus existindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Reza da Manhã de Maio](https://singularidadepoetica.art/2018/05/01/sophia-de-mello-breyner-andresen-reza-da-manha-de-maio/): Senhor, dai-me a inocência dos animais Para que eu possa beber nesta manhã A harmonia e a força das coisas naturais. Apagai a máscara vazia e vã De humanidade, Apagai a vaidade, Para que eu me perca e me dissolva Na perfeição da manhã E para que o vento me devolva A parte de mim […]
- [Jorge Luis Borges – As Causas](https://singularidadepoetica.art/2018/04/30/jorge-luis-borges-as-causas/): Todas as gerações e os poentes. Os dias e nenhum foi o primeiro. A frescura da água na garganta De Adão. O ordenado Paraíso. O olho decifrando a maior treva. O amor dos lobos ao raiar da alba. A palavra. O hexâmetro. Os espelhos. A Torre de Babel e a soberba. A lua que os […]
- [Belchior - Coração Selvagem](https://singularidadepoetica.art/2018/04/30/belchior-coracao-selvagem/): Um ano sem Belchior… Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção Esconda um beijo pra mim Sob as dobras do blusão Eu quero um gole de cerveja No seu copo, no seu colo e nesse bar Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja Não quero o […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Discurso pós-jantar em um noivado](https://singularidadepoetica.art/2018/04/29/hans-magnus-enzensberger-discurso-pos-jantar-em-um-noivado/): Este eu, um invólucro que, contanto que ninguém o abra, parece compacto, regular como um Kinder ovo, quase apetitoso. Só por dentro é escuro. Quem sabe o que estará esperando por você lá. Obsessões, sem dúvida, hábitos enferrujados, medos incompreensíveis, truques de segunda mão, desejos infantis. Que você deseje tê-la, esta caixa de presente, beira […]
- [Juan Vicente Piqueras - Véspera de Permanecer](https://singularidadepoetica.art/2018/04/28/juan-vicente-piqueras-vespera/): Tudo está preparado: a mala, as camisas, os mapas, a tola esperança. Estou tirando o pó das pálpebras. Já pus na lapela a rosa dos ventos. Tudo está pronto: o mar, o ar, o atlas. Só me falta o quando, o onde, um diário de bordo, cartas de navegação, ventos propícios, coragem e alguém que […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Balanço](https://singularidadepoetica.art/2018/04/27/carlos-drummond-de-andrade-balanco/): A pobreza do eu a opulência do mundo A opulência do eu a pobreza do mundo A pobreza de tudo a opulência de tudo A incerteza de tudo na certeza de nada
- [Felipe Benítez Reyes – Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2018/04/26/felipe-benitez-reyes-aniversario-2/): Outro ano que se vai. Os muitos que se foram deixaram-nos um verbo repetido com significados diferentes e o mapa de um tesouro que não está em nenhum mapa, conversas amenas e o silêncio, e luzes que se apagam e sombras que se acendem e o penar de alma em luto pela alma do que […]
- [Jaime Gil de Biedma - Lembre-se](https://singularidadepoetica.art/2018/04/25/jaime-gil-de-biedma-lembre-se/): Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo sonhos na memória: estremece a eternidade do tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado para um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre dissipando-se o passado. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Recuerda […]
- [Haroldo de Campos - Servidão de Passagem](https://singularidadepoetica.art/2018/04/24/haroldo-de-campos-servidao-de-passagem/): forma de fome proêmio mosca ouro?mosca fosca. mosca prata?mosca preta. mosca íris?mosca reles. mosca anil?mosca vil. mosca azul?mosca mosca. mosca branca?poesia pouca. o azul é puro?o azul é pus. de barriga vazia. o verde é vivo?o verde é vírus de barriga vazia. o amarelo é belo?o amarelo é bile de barriga vazia. o vermelho é […]
- [Rocío Wittib - Outra vez olhas o mundo...](https://singularidadepoetica.art/2018/04/23/rocio-wittib-outra-vez-olhas-o-mundo/): outra vez olhas o mundo como se fosse tarde demais te perguntas se o tempo é uma resposta e aceitas a dúvida do talvez como consolo aprendeste a renunciar sempre de algo mas sobretudo a desistir de ti mesmo por isso foges do desejo como um animal ferido te refugias na certeza fiel de alguma […]
- [Manuel António Pina - Instituto de Oncologia](https://singularidadepoetica.art/2018/04/22/manuel-antonio-pina-instituto-de-oncologia/): Estes cumprem o rito antigo mantendo a chama da morte acesa na obscura água da vida e engrossam o rio dos mortos como pura memória sem nome. Nós rebelamo-nos, levantamos as mãos ao céu, e depois fechamo-las para deter o rio da mudança fluindo por entre os dedos, porque éramos os menos fortes e os […]
- [Charles Bukowski – Como ser um grande escritor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/21/charles-bukowski-como-ser-um-grande-escritor/): você tem que trepar com um grande número de mulheres belas mulheres e escrever uns poucos e decentes poemas de amor. não se preocupe com a idade e/ou com os talentos frescos e recém-chegados; apenas beba mais cerveja mais e mais cerveja e vá às corridas pelo menos uma vez por semana e vença se […]
- [Inês Lourenço – Consoantes Átonas](https://singularidadepoetica.art/2018/04/20/ines-lourenco-consoantes-atonas/): Emudecer o afe[c]to português? Amputar a consoante que anima a vibração exa[c]ta do abraço, a urgência tá[c]til do beijo. Eu não nasci nos Trópicos: preciso desta interna consoante para iluminar a névoa do meu dile[c]to norte.
- [Yehuda Amichai – Um homem em sua vida](https://singularidadepoetica.art/2018/04/19/yehuda-amichai-um-homem-em-sua-vida/): Um homem não tem tempo em sua vida para ter tempo para cada coisa. Ele não possui momentos suficientes para ter um momento para cada coisa. O Eclesiastes Estava errado a esse respeito. Um homem precisa amar e odiar no mesmo instante, rir e chorar com os mesmos olhos, com as mesmas mãos atirar e […]
- [Eira Stenberg – Falar de Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/18/eira-stenberg-falar-de-amor/): Falar de amor, do que não se pode falar – desse beco sem saída que é o espelho onde alguém pende de cabeça em uma árvore invisível com as pernas cingindo um ramo como se lutasse contra a gravidade e abrisse a boca sem emitir som algum. Ou falar como se o amor fosse uma […]
- [Fernando Luis Chivite – “Abril é o mês mais cruel”](https://singularidadepoetica.art/2018/04/17/fernando-luis-chivite-abril-e-o-mes-mais-cruel/): Às vezes, sem que nada pareça particularmente favorável – nem lúgubres violinos, nem a tarde tornando-se violeta e perigosa – sente-se que a vida segue sendo estranha, e desenvolve senhas inéditas, desordena papéis, acende cigarros com uma inquietude excessiva, como querendo assegurar-se que o tempo não se deterá, que o olvido é só algo fortuito, […]
- [Mario Montalbetti – Muito menos que uma ideia](https://singularidadepoetica.art/2018/04/16/mario-montalbetti-muito-menos-que-uma-ideia/): Não creias na verdade. Não creias na beleza. Não creias no amor. Senta ao piano sopra a trompa arranha a corda e fiquemos juntos. Não me apanhes um Beserol se me dói a cabeça. Não repitas comigo filme que já viste. Não creias que haja algo importante no que fazes. Nem sequer uma boa ação […]
- [Rocío Wittib - Imprescindível não é a direção...](https://singularidadepoetica.art/2018/04/15/rocio-wittib-imprescindivel-nao-e-a-direcao/): imprescindível não é a direção o caminho no mapa a geografia é apenas um acidente para quem se busca e suspeita que distância não significa quilômetros tampouco importa o destino porque nunca se está em um lugar preciso mas constantemente em uma fronteira entre o desespero do ser e o anseio de resistir não há […]
- [Felipe Fortuna – Samir](https://singularidadepoetica.art/2018/04/14/felipe-fortuna-samir/): Aquele garoto que vê o mercado ficar cheio se chama Samir. Ele crê em Deus de todas as maneiras: como pássaro brilhante, como água fresca entre pedras, como o assobio do vento deserto. Mas agora desmembrado e a cabeça confundida aos estilhaços Samir não vê. Sobre o mercado a bomba apontou o inimigo e levou […]
- [Jorge Teillier – Blue](https://singularidadepoetica.art/2018/04/13/jorge-teillier-blue/): Verei novos rostos Verei novos dias Serei esquecido Terei remembranças Verei sair o sol quando sai o sol Verei cair a chuva quando chove Andarei a esmo De um lado a outro Aborrecerei meio mundo Contando a mesma história Me sentarei para escrever uma carta Que não me interessa enviar Ou para olhar as crianças […]
- [e e cummings - de "xaipe"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/12/e-e-cummings-de-xaipe/): 40 eu estou te pedindo querida é pra que mais poderia um não mas não é o que claro mas você não parece entender que eu não posso ser mais claro a guerra não é o que imaginamos mas por favor pelo amor de Oh que diabo sim é verdade que fui eu mas esse […]
- [Rosa Leveroni i Valls – De "Epigramas e Canções"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/11/rosa-leveroni-i-valls-de-epigramas-e-cancoes-poema/): Eu levo dentro de mim para fazer-me companhia a solidão apenas. A solidão imensa do amor infinito que queria ser terra, ar e sol, mar e estrela, para que fosses mais meu, para que eu fosse mais tua. Trad.: Nelson Santander Rosa Leveroni i Valls – De “Epigrames i cançons” Jo porto dintre meu per […]
- [Jorge Luis Borges - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-arte-poetica/): Fitar o rio feito de tempo e águae recordar que o tempo é outro rio,saber que nos perdemos como o rioE que os rostos passam como a água. Sentir que a vigília é outro sonhoque sonha não sonhar e que a morteque teme nossa carne é essa mortede cada noite, que se chama sonho. No […]
- [Rainer Maria Rilke - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/rainer-maria-rilke-solidao/): A solidão é como uma chuva. Ergue-se do mar ao encontro das noites; de planícies distantes e remotas sobe ao céu, que sempre a guarda. E do céu tomba sobre a cidade. Cai como chuva nas horas ambíguas, quando todas as vielas se voltam para a manhã e quando os corpos, que nada encontraram, desiludidos […]
- [Cassiano Ricardo - Ladainha](https://singularidadepoetica.art/2016/06/25/cassiano-ricardo-ladainha/): Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso. Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- corporal? Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por […]
- [Gil Jorge - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/gil-jorge-so/)
- [Heinrich Heine - “Larga as parábolas sagradas”](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/heinrich-heine-larga-as-parabolas-sagradas/): Larga as parábolas sagradas, Deixa as hipóteses devotas, E põe-te em busca das respostas Para as questões mais complicadas. Por que se arrasta miserável O justo carregando a cruz, Enquanto, impune, em seu cavalo, Desfila o ímpio de arcabuz? De quem é a culpa? Jeová Talvez não seja assim tão forte? Ou será Ele o […]
- [Heinrich Heine - Morfina](https://singularidadepoetica.art/2016/06/15/heinrich-heine-morfina/): É grande a semelhança desses dois jovens e belos vultos, muito embora um pareça mais pálido e severo ou, posso até dizer, bem mais distinto do que o outro, o que, terno, me abraçava. Havia em seu sorriso tanto afeto, carinho e, nos seus olhos,tanta paz! Ornada de papoulas, sua fronte tocava a minha, às […]
- [Friedrich Hölderlin - As Parcas](https://singularidadepoetica.art/2016/06/14/friedrich-holderlin-as-parcas/): Dai-me, Potestades, mais um verão apenas, Apenas um outono de maduro canto, Que de bom grado, o coração já farto Do suave jogo, morrerei então. A alma que em vida nunca desfrutou os seus Direitos divinos nem no Orco acha repouso; Mas se eu lograr o que é sagrado, o que Trago em meu coração, […]
- [William Butler Yeats - Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/06/09/william-butler-yeats-bizancio/): As imagens febris do dia se desfazem; Os guardas imperiais, bêbados, jazem; Noite sem som, sombras noctívagas se alongam Da catedral e do seu gongo; À luz de estrela ou lua um domo desmerece Tudo o que é humanidade, Mera complexidade As veias, fúria e lama, em toda humana espécie. Diante de mim a imagem, […]
- [John Keats - Ode a um Rouxinol](https://singularidadepoetica.art/2016/06/05/john-keats-ode-a-um-rouxinol/): Meu peito dói; um sono insano sobre mim Pesa, como se eu me tivesse intoxicado De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim, Há um só minuto, e após no Letes me abismado: Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte, É do excesso de ser que aspiro em tua paz […]
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento-2/)
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento/)
- [Carlos Nejar - José Mora](https://singularidadepoetica.art/2016/06/03/carlos-nejar-jose-mora/): Eu retornei. A morte imensa, tão imensa que não tocava mais os seus limites, os feudos. E eu, aos poucos, fui vencendo, fui desembaraçando seus cordames, o mortal peso, a superfície desamparada e vasta como se num escafandro viesse lentamente ao som das águas e fosse uma cítara tangida entre duas espigas de penumbra e […]
- [Goethe - Canção Noturna do Andarilho](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/goethe-cancao-noturna-do-andarilho/): No alto das colinas há paz; não se ouve, ali nas frondes, mais que um sopro manso. Nem há no bosque um trino. Aguarda: tampouco tarda o teu descanso. Trad.: Nelson Ascher
- [Carlos Drummond de Andrade - Congresso Internacional do Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-congresso-internacional-do-medo/): Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-o-medo/): Em verdade temos medo. Nascemos escuro. As existências são poucas: Carteiro, ditador, soldado. Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos. Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas, Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor, este […]
- [Edgar Allan Poe - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/edgar-allan-poe-so/): Desde criança nunca fui como outros foram Nem meus olhos nunca viram o que outros viram, Já que minhas paixões não têm a mesma origem Não vêm da mesma fonte as dores que me afligem. Também o prazer era de outra natureza – Tudo que amei ninguém amou, tenho certeza. Lá – no despontar de […]
- [Rainer Maria Rilke - Morgue](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/rainer-maria-rilke-morgue/): Estão prontos, ali, como a esperar que um gesto só, ainda que tardio, possa reconciliar com tanto frio os corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim. Que nome no seu bolso já vazio há por achar? Alguém procura, enfim, enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só […]
- [Ruy Proença - Tiranias](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/ruy-proenca-tiranias/): antigamente diziam: cuidado, as paredes têm ouvidos então falávamos baixo nos policiávamos hoje as coisas mudaram: os ouvidos têm paredes de nada adianta gritar Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui
- [Nelson Santander - Saindo do Armário da Sacristia](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/nelson-santander-saindo-do-armario-da-sacristia/): Saindo do armário da sacristia, por Nelson Santander: ateísmo, humanismo secular e outras questões
- [Gastão Debreix - Por do Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/05/27/gastao-debreix-por-do-sol/)
- [Itamar Assumpção - Noite Torta](https://singularidadepoetica.art/2016/05/21/itamar-assumpcao-noite-torta/): Intérprete: Zeca Baleiro Na sala numa fruteira a natureza está morta laranjas, maçãs e pêras bananas, figos de cera decoram a noite torta Sob a janela do quarto a cama dorme vazia encaro nosso retrato sorrindo sobre o criado no meio da noite fria Está pingando o chuveiro que banho mais apressado molhado caíste fora […]
- [Georg Trakl - De Profundis](https://singularidadepoetica.art/2016/05/20/georg-trakl-de-profundis/): Há um restolhal, onde cai uma chuva negra. Há uma árvore marrom, ali solitária. Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias. Como é triste o entardecer Passando pela aldeia A terra órfã recolhe ainda raras espigas. Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo, E seu colo espera o noivo divino. Na volta Os […]
- [Ovídio - A Morte de Narciso](https://singularidadepoetica.art/2016/05/16/ovidio-a-morte-de-narciso/): Fonte sem limo, pura prata em ondas límpidas, jorrava. Nem pastor se achega, nem pastando seu rebanho montês, ou gado avulso, acode. Nem pássaro, nem fera, nem, tombando, um ramo perturba a úmida grama que o frescor irriga. O bosque impede o sol de aquentar este sítio. Da caça e do calor exausto, aqui vem […]
- [Jorge Luis Borges — Pátio](https://singularidadepoetica.art/2016/05/14/jorge-luis-borges-patio/): Com a tarde Cansaram-se as duas ou três cores do pátio. A grande franqueza da lua cheia Já não entusiasma o seu habitual firmamento. Hoje que o céu está frisado, Dirá a crendice que morreu um anjinho. Pátio, céu canalizado. O pátio é a janela por onde Deus olha as almas. O pátio é o […]
- [Humberto Gessinger - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/humberto-gessinger-novos-horizontes/)
- [Engenheiros do Hawaii - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-novos-horizontes/): Corpos em movimento O universo em expansão E o apartamento que era tão pequeno Não acaba mais “Vamos dar um tempo” Não sei quem deu a sugestão E aquele sentimento que era passageiro Não acaba mais Quero explodir as grades E voar Não tenho pra onde ir Mas não quero ficar Novos horizontes Se não […]
- [Humberto Gessinger - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre-2/)
- [Engenheiros do Hawaii - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre/): http://h.saavncdn.com/737/UMG_00602498011737_01_011.mp3 Nem tudo está perdido Nem sinal de pedra no peito O horóscopo do jornal Arriscou “um belo dia” Liguei o rádio na hora certa Era a canção que eu queria Nem tudo está perdido Tudo em paz no reino da química Ninguém me telefonou Enquanto eu dormia Sonhei com meu pai e ele sorria […]
- [Nelson Santander - Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2016/05/08/nelson-santander-singularidade-2-poema/): Singularidade, um poema de Nelson Santander
- [Augusto de Campos - Desgrafite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/augusto-de-campos-desgrafite/)
- [William Butler Yeats - O Prazer do Difícil](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/william-butler-yeats-o-prazer-do-dificio/): O prazer do difícil tem secado A seiva em minhas veias. A alegria Espontânea se foi. O fogo esfria No coração. Algo mantém cerceado Meu potro, como se o divino passo Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço, Sob o chicote, trêmulo, prostrado, E carregasse pedras. Diabos levem As peças de sucesso que […]
- [André Ladeia - Efêmera](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/andre-ladeia-efemera/): A terra boia no oceano negro E estrelado Ela dança e rodopia; Ah! Como é bela E frágil… A Terra é uma bolha de sabão. http://antoniocicero.blogspot.com.br/2016/05/andre-ladeia-efemera.html
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras-2/)
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras/): https://youtu.be/dg4pbf0kcXk Eu insisto em cantar Diferente do que ouvi Seja como for recomeçar Nada há, mais há de vir Me disseram que sonhar Era ingênuo, e daí? Nossa geração não quer sonhar Pois que sonhe a que há de vir Eu preciso é te provar Que ainda sou o mesmo menino Que não dorme […]
- [Humberto Gessinger - Além da Máscara](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/humberto-gessinger-alem-da-mascara/): https://youtu.be/UclZRlPUyuA Intérprete: Pouca Vogal Agora que a terra é redonda E o centro do universo é outro lugar É hora de rever os planos O mundo não é plano, não pára de girar Agora que tudo é relativo Não há tempo perdido, não há tempo a perder Num piscar de olhos tudo se transforma Tá […]
- [Augusto de Campos - Pulsar (1975)](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/augusto-de-campos-pulsar-1975/): Intérprete: Caetano Veloso
- [José Paulo Paes - Seu Metaléxico](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/jose-paulo-paes-seu-metalexico/): Conheça outros livros de José Paulo Paes clicando aqui
- [Ivan Junqueira - O Aeroplano](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/ivan-junqueira-o-aeroplano/): Quando eu fiz cinco anos, meu pai deu-me de presente um aeroplano que ele próprio construíra com finas hastes de bambu e papel de seda. Tão leve quanto uma libélula, o frágil engenho voou até desaparecer por detrás do muro do quintal e dos últimos reflexos de um poente de verão. Ninguém jamais o encontrou. […]
- [Dante Milano - Princípio da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/dante-milano-principio-da-noite/)
- [Darcy Ribeiro - Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/darcy-ribeiro-mim/)
- [Darcy Ribeiro - A Indesejada](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-a-indesejada/): Aí estão eles, os da terceira idade. Gregários, vivem aos bandos. Sentados, jogando cartas, andando devagar. Conversando pretéritos assuntos. Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos. Hoje, são sogros, os chatos dos sogros. Uns são viúvos, outros largados, poucos. Muitos deles, os mais, ainda casados. As mulheres duram demais. Órfãos de seus […]
- [Darcy Ribeiro - Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-amor-poema/): "Amor", um poema de Darcy Ribeiro Quero um amor alucinado, depravado, tarado. Amor inteiro, de corpo-a-corpo, enlaçados. Amor sem reserva, que a tudo se entrega, lancinante. (...)
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/vinicius-de-moraes-soneto-de-maio/): Suavemente Maio se insinua Por entre os véus de Abril, o mês cruel E lava o ar de anil, alegra a rua Alumbra os astros e aproxima o céu. Até a lua, a casta e branca lua Esquecido o pudor, baixa o dossel E em seu leito de plumas fica nua A destilar seu luminoso […]
- [Jim Holt - Por que o Mundo Existe? (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/jim-holt-por-que-o-mundo-existe-excerto/): Já se disse que a pergunta Por que existe algo e não apenas o nada? é tão profunda que só ocorreria a um metafísico, mas também é tão simples que só ocorreria a uma criança. Na época, eu não tinha idade para ser metafísico. Mas por que a pergunta não me ocorreu na infância? Revendo a questão, […]
- [Manuel Bandeira - O Último Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/manuel-bandeira-o-ultimo-poema/): Assim eu quereria meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
- [Søren Kierkegaard - O Prazer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/soren-kierkegaard-o-prazer/)
- [Blaise Pascal - de Pensamentos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/blaise-pascal-de-pensamentos/)
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-3-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-2-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Pedro Paulo de Sena Madureira - Matsuo Basho, Uma Garça](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/pedro-paulo-de-sena-madureira-matsuo-basho-uma-garca/)
- [Sílvia Rocha - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/silvia-rocha-solidao-2/)
- [Salvatore Quasimodo - E De Repente é Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite-2/)
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antônio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre-2/)
- [James Agee - Sim, Todas as Crianças...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/james-agee-sim-todas-as-criancas/)
- [Cristina Lemos - O Amor Sempre Falha](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cristina-lemos-o-amor-sempre-falha/)
- [Chico Buarque e Francis Hime - Trocando em Miúdos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/chico-buarque-e-francis-homem-trocando-em-miudos/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4-2/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4/): Nada vos oferto além destas mortes de que me alimento Caminhos não há Mas os pés na grama os inventarão Aqui se inicia uma viagem clara para a encantação Fonte, flor em fogo, quem é que nos espera por detrás da noite ? Nada vos sovino: com a minha incerteza vos ilumino
- [Chico Buarque - O Meu Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/22/chico-buarque-o-meu-amor/)
- [Philip Larkin - Por Que Sonhei Contigo a Noite Passada?](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-por-que-sonhei-contigo-a-passada/): Por que sonhei contigo a noite passada? Agora a manhã empurra cabelos para trás [com uma luz grisalha Lembranças batem de volta, como tapas na cara; Apoiado no cotovelo, eu fito o branco nevoeiro Além da janela. Tantas coisas que eu pensava esquecidas Voltam agora à mente numa estranha dor: Como cartas que chegam para […]
- [Philip Larkin - Ignorância](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-ignorancia/): Estranho nada saber, nunca ter a certeza Do que é verdadeiro, certo ou real, Forçado então a dizer pelo menos é o que sinto Ou Bom, é o que parece: Alguém deve saber. Estranho ignorar o modo como as coisas funcionam: A sua capacidade de encontrar o que necessitam, O seu sentido de forma, e […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/caetano-veloso-o-homem-velho-2/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Chico Buarque - Olhos nos Olhos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-olhos-nos-olhos/)
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-pedaco-de-mim-2/)
- [Cassiano Ricardo - O Relógio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/17/cassiano-ricardo-o-relogio/): Diante de coisa tão doída conservemo-nos serenos. Cada minuto de vida nunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma face Do não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nasce já se começa a morrer.
- [José Paulo Paes - Auto-epitáfio n° 2](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2-2/)
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/machado-de-assis-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Veja também: https://nsantand.wordpress.com/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/
- [Silvio Rodriguez e Pablo Milanés - Por Quem Merece Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-e-pablo-milanes-por-quem-merece-amor/): (intérpretes: MPB4) Te perturba esse amor? Amor de juventude Meu amor é amor de virtude Te perturba esse amor? Sem máscaras por trás Meu amor é uma arte de paz Te perturba esse amor? Amor de humanidade Meu amor é amor de verdade Te perturba esse amor? Com todos ao redor Meu amor é uma […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna-2/): (intérprete: Silvio Rodriguez) Vivo en un país libre cual solamente puede ser libre en esta tierra, en este instante yo soy feliz porque soy gigante. Amo a una mujer clara que amo y me ama sin pedir nada o casi nada, que no es lo mismo pero es igual Y si esto fuera poco, tengo […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna/)
- [Chico Buarque e Edu Lobo - Valsa Brasileira](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/chico-buarque-e-edu-lobo-valsa-brasileira/)
- [Eclesiastes (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/eclesiaste-excerto/): “Acumulei também prata e ouro, as riquezas dos reis e das províncias. Escolhi cantores e cantoras e todas as delícias dos homens, toda a abundância dos cofres. Ultrapassei e avantajei-me a todos quantos me precederam em Jerusalém, e a sabedoria permanecia junto a mim. Então examinei todas as obras de minhas mãos e o trabalho […]
- [Chico Buarque e Edu Lobo - A Moça do Sonho (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/chico-buarque-e-edu-lobo-a-moca-do-sonho-excerto/)
- [Nelson Santander - Renata Maria](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/nelson-santander-renata-maria/): Renata Maria, por Nelson Santander: uma análise da letra da canção de Chico Buarque
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/1517-2/)
- [Carlos Drummond de Andrade - A um Ausente](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/carlos-drummond-de-andrade-a-um-ausente/): Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de […]
- [Bertolt Brecht - Tudo Muda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/bertolt-brecht-tudo-muda/): Tudo muda. De novo começar podes, com o último alento. O que acontece, porém, fica acontecido: e a água que pões no vinho, não podes mais separar. O que acontece, fica acontecido: a água que pões no vinho, não podes mais separar. Porém, tudo muda: com o último alento podes de novo começar. Tradução: Geir […]
- [Ferreira Gullar - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/ferreira-gullar-ano-novo/): Meia-noite. Fim de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício. Olho o céu: o abismo vence o olhar. O mesmo espantoso silêncio da Via-Láctea feito um ectoplasma sobre a minha cabeça nada ali indica que um ano novo começa. E não começa nem no céu nem no chão do planeta: começa no […]
- [Jorge de Lima - A Divisão de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/jorge-de-lima-a-divisao-de-cristo/): Dividamos o mundo em duas partes iguais: uma para portugueses, outra para espanhóis. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus: a metade morreu na viagem do oceano. Dividamos o mundo entre as pátrias. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras: a metade morreu nos campos de batalha. Dividamos o mundo entra as máquinas. […]
- [Clarice Lispector - Acredito...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/clarice-lispector-acredito/)
- [Do Remorso Pela Traição](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/do-remorso-pela-traicao/): Não existe sentimento de culpa quando o assunto é traição amorosa. Se vemos alguém se lamentando, arrependido da traição descoberta, isso não é remorso, mas auto-piedade pela súbita constatação de que seus atos trar-lhe-ão consequências indesejáveis. Não se espere daquele que há meia hora delirava nos braços de um amante que experimente algo além de […]
- [Torquato Neto - Cogito](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/torquato-neto-cogito/): eu sou como eu sou pronome pessoal intransferível do homem que iniciei na medida do impossível eu sou como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem novos secretos dentes nesta hora eu sou como eu sou presente desferrolhado indecente feito um pedaço de mim eu sou como eu sou vidente e vivo tranqüilamente todas […]
- [Manuel Bandeira - Versos de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/manuel-bandeira-versos-de-natal/): Espelho, amigo verdadeiro, Tu refletes as minhas rugas, Os meus cabelos brancos, Os meus olhos míopes e cansados. Espelho, amigo verdadeiro, Mestre do realismo exato e minucioso, Obrigado, obrigado! Mas se fosses mágico, Penetrarias até o fundo desse homem triste, Descobririas o menino que sustenta esse homem, O menino que não quer morrer, Que não […]
- [Carlos Rennó - Todas Juntas Num Só Ser](https://singularidadepoetica.art/2016/04/07/carlos-renno-todas-juntas-num-so-ser/): Intérprete: Lenine Não canto mais Bebete nem DomingasNem Xica nem Tereza, de Ben Jor;Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;Nem Ana nem Luiza, do maior;Já não homenageio Januária,Joana, Ana, Bárbara, de Chico;Nem Yoko, a nipônica de Lennon;Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico; Nem a tigresa, nem a vera gata,Nem a camaleoa, de […]
- [Nelson Santander - Sonho Sertanejo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/nelson-santander-sonho-sertanejo/): Sonho Sertanejo, uma crônica de Nelson Santander sobre sonhos, subconsciente e gosto musical
- [Philip Larkin - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-aubade/): De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara. Olho o negror sem som, me levantando às quatro. Em tempo, a borda da cortina vai estar clara. Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato: A morte infatigável, um dia mais perto, Tornando inviável todo pensamento, exceto O de onde, como e […]
- [Philip Larkin - Eu Comecei a Dizer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-eu-comecei-a-dizer/): Eu comecei a dizer “Um quarto de século” Ou “trinta anos atrás” Sobre minha própria vida. Isso me deixa sem fôlego É como despencar e arremeter Acenando em largos giros Através do céu vazio. Tudo o que resta acontecer São algumas mortes (incluindo a minha). Em que ordem, e de que maneira, É o que […]
- [Philip Larkin - As Árvores](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/philip-larkin-as-arvores/): As árvores se põem a enfolhar Como algo quase expresso. Seus brotos, Tenros, estão se estendendo, soltos; Seu verde é uma espécie de pesar. Renascem, ou é a gente que vem a Envelhecer? Não, morrem, por certo. O truque anual de um novo aspecto Está inscrito nos anéis da lenha. E cada castelo móvel, no […]
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda-2/)
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda/): Folheio a vida Num calendário velho. Dias riscados, como contas pagas. Domingos de repouso, Segundas de trabalho Sábados de cansaço, Sem nenhum sentido. No abismo do nada, O nada, apenas. Quem sofreu nestas páginas vazias, Tão frias, Tão serenas?
- [William Carlos Williams - Estas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/william-carlos-williams-estas/): ESTAS são as semanas desoladas, sombrias em que na sua aridez a natureza rivaliza com a estupidez humana. O ano despenha-se na noite e o coração é um abismo mais fundo que a noite nesse vazio varrido pelo vento sem sol, sem lua nem estrelas apenas uma estranha luz do pensamento que lança um tenebroso […]
- [Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto - Paulista](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/eduardo-gudin-e-j-c-costa-netto-paulista/): (intérprete: Leila Pinheiro) Na Paulista os faróis já vão abrir E um milhão de estrelas prontas pra invadir Os jardins onde a gente aqueceu uma paixão Manhãs frias de abril Se a avenida exilou seus casarões Quem reconstruiria nossas ilusões? Me lembrei de contar prá você nessa canção Que o amor conseguiu Você sabe quantas […]
- [Arnaldo Antunes - Saiba](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/arnaldo-antunes-saiba/): (intérprete: Adriana Calcanhoto/Partimpim) Saiba Todo mundo foi neném Einstein, Freud e Platão, também Hitler, Bush e Saddam Hussein Quem tem grana e quem não tem… Saiba Todo mundo teve infância Maomé já foi criança Arquimedes, Buda, Galileu E também você e eu… Saiba Todo mundo teve medo Mesmo que seja segredo Nietzsche e Simone […]
- [Belchior - Velha Roupa Colorida](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/belchior-velha-roupa-colorida/): Você não sente e nem vê Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, Que uma nova mudança em breve vai acontecer E o que há algum tempo era jovem, novo, Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer Nunca mais meu pai falou: “She’s leaving home”, E meteu o pé na estrada “Like a […]
- [Humberto Gessinger - Terceira do Plural](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/humberto-gessinger-terceira-do-plural/): Corrida pra vender cigarro Cigarro pra vender remédio Remédio pra curar a tosse Tossir, cuspir, jogar pra fora Corrida pra vender os carros Pneu, cerveja e gasolina Cabeça pra usar boné E professar a fé de quem patrocina Eles querem te vender… Eles querem te comprar… Querem te matar (a sede) Eles querem te sedar! […]
- [Konstantinos Kaváfis - Desejos (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-desejos-em-3-traducoes/): DESEJOS – Trad. José Paulo Paes Belos corpos de mortos que nunca envelheceram, com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes, jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas – assim são os desejos que um dia feneceram sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes o prazer de uma noite ou a manhã luminosa. DESEJOS – Trad. […]
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-2/): DER PANTHER Rainer Maria Rilke Im Jardin des Plantes, Paris Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe so müd geworden,dass er nichts mehr hält. Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe und hinter tausend Stäben keine Welt. Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte, der sich im allerkleinsten Kreise dreht, ist wie ein Tanz von […]
- [William Blake - O Ti(y)gre (em 4 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/william-blake-o-tiygre-em-4-traducoes/): O TYGRE – Trad. Augusto de Campos Tygre! Tygre! Brilho, brasa que a furna noturna abrasa, que olho ou mão armaria tua feroz symmetrya? Em que céu se foi forjar o fogo do teu olhar? Em que asas veio a chamma? Que mão colheu esta flamma? Que força fez retorcer em nervos todo o teu […]
- [Augusto de Campos - O Vivo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/augusto-de-campos-o-vivo/): Não queiras ser mais vivo do que és morto. As sempre-vivas morrem diariamente Pisadas por teus pés enquanto nasces. Não queiras ser mais morto do que és vivo. As mortas-vivas rompem as mortalhas Miram-se umas nas outras e retornam (Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!) Para amassar o pão da própria carne. Ó vivo-morto […]
- [rocío - "não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses..."](https://singularidadepoetica.art/2019/01/27/rocio-nao-e-que-me-sinta-mais-velha-mae-e-que-todos-esses-meses/): não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses todos os dias tendo que ser forte, fico cansada pela manhã, acordo abraçada ao travesseiro e às vezes não sei o que dizer pra mim mesma para levantar de minha pequena e solitária cama em alguns meio-dias, se tomo cerveja, sinto-me um […]
- [Paulo Henriques Britto - À margem do Douro](https://singularidadepoetica.art/2019/01/26/paulo-henriques-britto-a-margem-do-douro/): Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que […]
- [Joan Margarit - Professor Bonaventura Bassegoda](https://singularidadepoetica.art/2019/01/25/joan-margarit-professor-bonaventura-bassegoda/): Recordo-o alto e gordo, atrevido, sentimental. Você, então, era uma autoridade em Alicerces Profundos. Sempre iniciava suas aulas assim: “Senhores, bom dia. Hoje faz tantos anos, tantos meses e tantos dias que minha filha morreu”. E costumava secar algumas lágrimas. Tínhamos vinte anos, mais ou menos, e o homem corpulento que você era, chorando no […]
- [Rui Knopfli – Fim de tarde no café](https://singularidadepoetica.art/2019/01/24/rui-knopfli-fim-de-tarde-no-cafe/): Na tarde cor de azebre falávamos de coisas amargas. Ali, na mesa triste do café com moscas adejando sobre restos de açúcar e um copo de água morna de esquecida, falávamos da amargura das coisas, entre rostos graníticos e enxovalhados, entre estranhos e estranhos de estranhos e os que, nada tendo de estranhos, cuidam de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Os deuses Internos](https://singularidadepoetica.art/2019/01/23/juan-vicente-piqueras-os-deuses-internos/): Os deuses sabem mais e melhor do que nósdo que precisamos. Pedimos-lhes um filho,e nos enviam um lobo, e não os compreendemos. A vida diariamente os esquece.A morte à noite os inventa. E as doenças, como diz o sábio,são deuses que agonizam dentro de nosso corpo,seu último templo em ruínas,seu refúgio sem fé. Imploram compaixão. […]
- [Vladimir Holan - A Neve](https://singularidadepoetica.art/2019/01/22/vladimir-holan-a-neve/): A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvida de que o melhor para o homem é estar sentado na cozinha, ainda que seja a da insônia. Ali faz calor, preparas-te algo, bebes vinho e contemplas pela vidraça a eternidade familiar. Por que te atormentarias querendo saber se nascimento e morte são apenas […]
- [Bruno Darcoleto Malavolta - Epicurus Revisited](https://singularidadepoetica.art/2019/01/21/bruno-darcoleto-malavolta-epicurus-revisited/): disco, agulha, caixas onde ouço os sonhos de coltrane e duke ellington o velho violão em que aprendi os primeiros acordes o novo violão, superior, trincado poemas que li, poemas que escrevi, por todos os lados uma cadeira, uma mesa, um cigarro, um filtro de água o meu corpo cercado por gatos neste exato ponto […]
- [Juan Luis Panero - Mensagem de Antonio a Cleópatra](https://singularidadepoetica.art/2019/01/20/juan-luis-panero-mensagem-de-antonio-a-cleopatra/): Mensagem de Antonio a Cleópatra I Elogiem outros tua adormecida beleza, a suavidade de tua pele em repouso, a medida perfeição de teus membros. Eu não vim para isso, vim somente para te penetrar pela frente e por detrás como um punhal atravessa a água transparente e afunda e se perde no poço sombrio. Mensagem […]
- [José Asunción Silva - Obra Humana](https://singularidadepoetica.art/2019/01/19/jose-asuncion-silva-obra-humana/): No interior da floresta intocada em que, uma noite, no início de maio, tocou a velha ramagem folhada da pálida lua o primeiro raio, poucos meses depois a luz de gás da aurora na estação iluminou o curso da locomotiva audaz que por trilhos duríssimos cruzou. E onde fora certa vez um abrigo, porto seguro […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Desfile](https://singularidadepoetica.art/2019/01/18/carlos-drummond-de-andrade-desfile/): O rosto no travesseiro, escuto o tempo fluindo no mais completo silêncio. Como remédio entornado em camisa de doente; como na penugem de braço de namorada; como vento no cabelo, fluindo: fiquei mais moço. Já não tenho cicatriz. Vejo-me noutra cidade. Sem mar nem derivativo, o corpo era bem pequeno para tanta insubmissão. E tento […]
- [Paul Valéry - Cemitério Marinho](https://singularidadepoetica.art/2019/01/17/paul-valery-cemiterio-marinho/): Ó min’alma não aspires A uma existência imortal, Mas goza plenamente Tudo o que estiver ao teu alcance. Píndaro Píticas III Este teto tranquilo, onde caminham pombas,Palpita entre pinheiros e tumbas;Compõe-lhe de luz o meio dia justoO mar, o mar, sempre recomeçado!Que recompensa após meditaçãoN’um longo olhar sobre a calma dos deuses! Puro lavor de finos lampejos consumaTanto diamante de […]
- [Berta Piñán - Duas Garças](https://singularidadepoetica.art/2019/01/16/berta-pinan-duas-garcas/): Chegaram no sábado. Vimo-las cedo porque nesse dia chegou também o frio e passamos a manhã falando do tempo. São duas, e me pergunto que destino imprevisto as trouxe a esta árvore precisa, a este lugar exato em que o tempo delas cruza, como um sinal confuso, nosso tempo. De tarde falamos sobre elas: “Esta […]
- [Vasco Gato - Eterno Outono](https://singularidadepoetica.art/2019/01/15/vasco-gato-eterno-outono/): Estou com a idade pousada nas mãos. Explico-me com dedicação aos berços fundos onde cada coisa dorme o seu medo de morrer. Há na tristeza um perigo de terminar: o eterno outono parece belo a quem perdeu todas as sementes. Pergunta-se um nome e ninguém responde. Onde fica essa ilha a que só chegamos por […]
- [Nuno Júdice - Poema (Arredores)](https://singularidadepoetica.art/2019/01/14/nuno-judice-poema-arredores/): A brancura dos ossos, em contraste com a terra argilosa, com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar leite, papel, cal, e também as tuas mãos – frias. Bebo o seu brilho numa noturna memória. Uma contaminação de corpos não reduz a minha solidão; nem a música, nem o riso, nem o vinho. Lágrimas […]
- [Helder Moura Pereira - "Eu não tinha nada de felino..."](https://singularidadepoetica.art/2019/01/13/helder-moura-pereira-eu-nao-tinha-nada-de-felino/): Eu não tinha nada de felino, tu sabias que eu não tinha nada de felino. Nenhum de nós se admirou quando medi mal a distância e falhei o salto. Enquanto ia no ar parecia que era um salto bom, porém houve qualquer coisa que correu mal e caí com estrondo no chão. Ninguém riu. Não […]
- [Filipa Leal - Entrevista de Emprego](https://singularidadepoetica.art/2019/01/12/filipa-leal-entrevista-de-emprego/): Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse umaspecto impeditivo,prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro,ao nosso relacionamentoprofissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras,sim,e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menoscuidado com elas,e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as comrespeito,o senhor sabe pontuar […]
- [César Vallejo - Paris, Outubro de 1936](https://singularidadepoetica.art/2019/01/11/cesar-vallejo-paris-outubro-de-1936/): De tudo isto eu sou o único que parte. Deste banco eu me vou, de meus calções, de minha grande situação, de minhas ações, de meu número dividido de lado a lado, de tudo isto eu sou o único que parte. Dos Campos Elísios ou ao dar a volta à estranha viela de la Luna, […]
- [Maria do Rosário Pedreira – Ondas](https://singularidadepoetica.art/2019/01/10/maria-do-rosario-pedreira-ondas/): Dei-te o meu corpo como quem estende um mapa antes de viagem, para que nele descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses os dedos devagar, como fazem as aves quando encontram o verão. Se me tivesses tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços como uma escarpa pronta a desabar, ou uma cidade do litoral a definhar […]
- [Denise Emmer - Da Morte](https://singularidadepoetica.art/2019/01/09/denise-emmer-da-morte/): Os mortos não sobem aos céus nem elevam-se abstratos tornam-se apenas retratos lado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvel austero e silencioso do tio tuberculoso que esquivo me espia. A avó já está fria mas me olha com ternura tece uma colcha escura para as bodas da família, Mortos não sobem trilhas de […]
- [Roger Wolfe - O amor, suponho](https://singularidadepoetica.art/2019/01/08/roger-wolfe-o-amor-suponho/): "O amor, suponho", um poema de Roger Wolfe que reflete sobre a dificuldade de escrever um poema de amor para a própria esposa, associando o amor a raros instantes de felicidade e questionando se vale a pena desperdiçá-los tentando transformá-los em versos.
- [Ian Hamilton - Pai, Morrendo](https://singularidadepoetica.art/2019/01/07/ian-hamilton-pai-morrendo/): Seus dedos, tufos de pelos de cobertor Debaixo das unhas, estendem-se para tocar As rosas ao lado da cama despetalando com o calor. Caem pétalas brancas. Aprisionadas em suas mão Elas escurecem, empapadas em suor, depois enrolam, Desidratam-se e desmoronam. Hora após hora Elas gotejam do ramo. Por fim Ele está limpo e, quando você […]
- [Paulo Henriques Britto - Heraclitus meets Pascal](https://singularidadepoetica.art/2019/01/06/paulo-henriques-britto-heraclitus-meets-pascal/): Ninguém se molha duas vezes na mesma tempestade. Mudam você, a água, nem é o mesmo, na sua mão, o guarda-chuva; muda o motivo pelo qual você houve por bem molhar-se, oferecendo ao temporal – por assim dizer – a outra face; não muda, porém, a consciência de que os sapatos encharcados e a calça […]
- [Manuel António Pina - A Canção dos Adultos](https://singularidadepoetica.art/2019/01/05/manuel-antonio-pina-a-cancao-dos-adultos/): Parece que crescemos mas não.Somos sempre do mesmo tamanho.as coisas que à volta estãoé que mudam de tamanho. Parece que crescemos mas não crescemos.São as coisas grandes que há,o amor que há, a alegria que há,que estão a ficar mais pequenos. Ficam de nós distantesque às vezes já mal os vemos.Por isso parece que crescemose […]
- [Rui Pires Cabral - Recomeço](https://singularidadepoetica.art/2019/01/04/rui-pires-cabral-recomeco/): O primeiro cigarro do dia é na varanda quando faz sol: misteriosamente o terraço do vizinho continua a concentrar a tristeza do bairro inteiro. Mal acordado, juntas as linhas que te permitem perceber quem és, onde estás, o que terás de fazer a seguir. E a angústia que te abraça é a memória mais antiga […]
- [Francisco Brines - Os Verões](https://singularidadepoetica.art/2019/01/03/francisco-brines-os-veroes/): A Carmen Marí Foram longos e ardentes os verões! Ficamos nus juntos ao mar, e o mar ainda mais nu. Com os olhos, e em corpos ágeis, praticamos a mais prazerosa posse do mundo. Soavam para nós as vozes iluminadas de lua, e era a vida abrasadora e violenta, ingratos com o sonho, fluíamos. O […]
- [Abel Silva – O Poço](https://singularidadepoetica.art/2019/01/02/abel-silva-o-poco/): A moeda do Acaso cai tão fundo no Poço dos Destinos que vivemos descolados do viver do outro, como num contrato de comportamento. O milagre do viver nos entorpece. Então a notícia da doença de um amigo, o convite para a missa de um outro, um susto, um alarme, uma suspeita nos vareja no rosto […]
- [Javier Salvago - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2019/01/01/javier-salvago-ano-novo/): Como as coisas não podiam ficar pior – escreveu Kafka, em seu Diário – melhoraram. Como eu gostaria, ante este negro e inóspito horizonte que se abre, diante de mim – como mais um ano, ou como menos um ano -, de poder dizer o mesmo. Mas sinto que ainda não cheguei ao fundo, que […]
- [Manuel António Pina – KM 82](https://singularidadepoetica.art/2018/12/31/manuel-antonio-pina-km-82/): I’m on the highway to hell a 170 à hora no CD, ou então o rádio para sempre sintonizado na final da Taça. Nunca saberás o resultado, Faéton, hey, mumma, look at me, I’m on may way to the promised land e está visto que uma ligação directa não chega para pôr em marcha uma […]
- [The White Buffalo – This Year](https://singularidadepoetica.art/2018/12/31/the-white-buffalo-this-year/): Acho que toda mensagem de “Feliz Ano Novo” se resume à ideia contida na letra desta música: tente melhorar sempre e sempre. Se não der, tente de novo no ano que vem. E no outro. E no outro. Uma hora dá certo. Ou não. Feliz 2019! [wpvideo 7QK0XJOX] The White Buffalo – This Year (Tradução […]
- [Joan Margarit - Canção de Ninar](https://singularidadepoetica.art/2018/12/30/joan-margarit-cancao-de-ninar/): Dorme, Joana. E que este Loverman obscuro e trágico do sax de teu irmão em Montjuïc possa acompanhar-te toda a eternidade pelos caminhos que são bem conhecidos pela música. Dorme, Joana, dorme. E de preferência não esqueças de teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste. Enquanto envelhecemos, conservaremos todas as cores que […]
- [José Mateos - Canção 10](https://singularidadepoetica.art/2018/12/29/jose-mateos-cancao-10/): Canção 10 (Ruínas de Bolonha) Disse o sol do entardecer,aqui, defronte ao mar:Morreré começar a voltar. Trad.: Nelson Santander José Mateos – Canción 10 (Ruinas de Bolonia) Aquí, frente al mar, lo diceel sol del atardecer:Morires empezar a volver.
- [Inês Dias - Um estranho no meu túmulo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/28/ines-dias-um-estranho-no-meu-tumulo/): Chegamos tarde a nós. Eu tinha a pele gasta, o coração no fio. Tu eras um longo muro de cimento areado em que deixava a carne inteira a caminho do encontro. A primavera ficava-nos sempre à esquerda e tu cada vez mais dentro de mim até não sentir nada, até estares já do outro lado. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Procura](https://singularidadepoetica.art/2018/12/27/carlos-drummond-de-andrade-procura/): Procurar sem notícia, nos lugares onde nunca passou; inquirir, gente não, porém textura, chamar à fala muros de nascença, os que não são nem sabem, elementos de uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis, feitos de cimento do impossível, e ao sol-menino opor a antiga busca, e de tal modo revolver a morte que ela […]
- [Táxis Varvitsiótis - Assim também a morte](https://singularidadepoetica.art/2018/12/26/taxis-varvitsiotis-assim-tambem-a-morte/): À memória de Andréa Karandonis Asa ou marfim É tudo espesso Como o ferro e a madeira Como a proa inquebrável De um navio Rumo ao infinito Assim também a morte Espessa impenetrável Como galeria de mina Muro indestrutível Poço sem fundo Carvão aceso Para alcançar-lhe o duro cerne Tons de rasgar O pano entretecidos […]
- [Nuno Júdice - Natal](https://singularidadepoetica.art/2018/12/25/nuno-judice-natal/): Deito-me à sombra da árvore sem sombra – a árvore cujas raízes nascem da infância – e é natal, e nunca mais chega a meia-noite dessa noite sem fim. Rezo pelas mais obscuras incertezas, pelas almas que hesitam nas encruzilhadas, pelos vagabundos que esperam a meia-noite para se sentarem à porta da igreja, na única […]
- [Joan Margarit - Cemitério de Montjuïc](https://singularidadepoetica.art/2018/12/24/joan-margarit-cemiterio-de-montjuic/): Algo permanece das almas, como a brisa que surge depois que alguém passou, e que faz estremecer uma leve cortina na janela. Pelo caminho de pedras ásperas que não esquecem mas calam, severas, o que sabem, o vento deixa um silêncio de lágrimas por vidas como as nossas, perdidas. “Jazigo perpétuo”, a terra sempre dura, […]
- [Amalia Bautista – Noite de São João](https://singularidadepoetica.art/2018/12/23/amalia-bautista-noite-de-sao-joao/): Que queimaremos esta noite, quantasvelhas feridas daremos nós às chamas,de que nos livraremos para não o recordarnem sequer dos piores pesadelos diurnos?Que lançaremos nós ao fogo ou em que fogueiraslimparemos a vida para nos renovarmos,para o tempo que reste, para o que consigamosroubar a tantas mortes?Chega a noite de São João, continuamosvivos e juntos apesar […]
- [Nelson Santander – Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/23/nelson-santander-cinema-paradiso-e-a-visita-cruel-do-tempo/): Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo, uma crônica de Nelson Santander
- [paulo leminski - sossegue coração](https://singularidadepoetica.art/2018/12/22/paulo-leminski-sossegue-coracao/): sossegue coração ainda não é agora a confusão prossegue sonhos afora calma calma logo mais a gente goza perto do osso a carne é mais gostosa
- [Antonio Cicero – Prólogo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/21/antonio-cicero-prologo/): Por onde começar? Pelo começo absoluto, pelo rio Oceano, já que ele é, segundo o poeta cego em cujo canto a terra e o céu escampo e o que é e será e não é mais e longe e perto se abrem para mim, pai das coisas divinas e mortais, seu líquido princípio, fluxo e […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Quando Penso nos Velhos Amigos](https://singularidadepoetica.art/2018/12/20/luis-alberto-de-cuenca-quanto-penso-nos-velhos-amigos/): Quando penso nos velhos amigos que saíram de minha vida, unindo-se a más mulheres que alimentam seu medo e os enchem de filhos para tê-los por perto, controlados e inermes. Quando penso nos velhos amigos que se foram para o país da morte, sem passagem de volta, só porque procuraram o deleite nos corpos e […]
- [Robert Schindel - Réquiem por uma Amizade](https://singularidadepoetica.art/2018/12/19/robert-schindel-requiem-por-uma-amizade/): Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos. E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia O seu eco no coração, morreu o meu hóspede. Um riso, um sapato, o violino de estar aqui Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Espera](https://singularidadepoetica.art/2018/12/18/sophia-de-mello-breyner-andresen-espera/): Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia, No silêncio que apenas quebrava a maré cheia A gritar o seu eterno insulto, Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro.
- [josé luís peixoto - arte poética](https://singularidadepoetica.art/2018/12/16/jose-luis-peixoto-arte-poetica/): o poema não tem mais que o som do seu sentido, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma, poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil […]
- [Ian Hamilton - Poema de Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2018/12/15/ian-hamilton-poema-de-aniversario/): Firme em suas mãos Sua caneca de barbear com a Exposição do Império. Você a conserva agora Como escarradeira, as pombas presunçosas, O 1938 dela Manchados por gotas de seu sangue. Esta noite, Meio sufocado, canceroso, Desiludido, Você bate os dentes contra sua boca dourada de porcelana E espera por um ataque. Trad.: Nelson Santander […]
- [Ivan Junqueira - A tua data](https://singularidadepoetica.art/2018/12/14/ivan-junqueira-a-tua-data/): Alguém só morre em sua data, que é única, ôntica, enfática. Nunca depende de quem vai nem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba, e, se dele a alma se aparta, não cabe a ninguém afirmá-lo, nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas […]
- [Paulo Henriques Britto - Nenhum Mistério](https://singularidadepoetica.art/2018/12/13/paulo-henriques-britto-nenhum-misterio/): I Não chega a ser desespero, mas não por haver esperança. Falta a ênfase, o tempero, o sal da intemperança, sem o qual não é iguaria à altura de grandes gestos. É mais da categoria das migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassa há que se tirar sustância. (Até mesmo na desgraça é pra poucos […]
- [Nuno Júdice - O Eterno Retorno](https://singularidadepoetica.art/2018/12/12/nuno-judice-o-eterno-retorno/): Agora, ao ouvir uma peça de música Barroca, como se isso servisse para alterar A cor do céu ou a cor dos sentimentos, Apercebo-me de que a música é, só, O que ficou de ti. O resto – amor, Corpo, palavras, desejo, um riso – ficou Não sei onde, nem exatamente sei quando: sei só […]
- [Amalia Bautista – Nu de Mulher](https://singularidadepoetica.art/2018/12/11/amalia-bautista-nu-de-mulher/): Para ti nunca passei de um blocode mármore. Esculpiste nele o meu corpo,um corpo de mulher branco e formoso,em que não viste nada a não ser pedrae o orgulho, isso sim, do teu trabalho.Nunca imaginaste que eu te amavae que tremia quando, docemente,me modelavas os seios e os ombros,ou alisavas as coxas e o ventre.Hoje, […]
- [América, Aztecas – O rio passa, passa](https://singularidadepoetica.art/2018/12/10/america-aztecas-o-rio-passa-passa/): O rio passa, passa e nunca cessa. O vento passa, passa e nunca cessa. A vida passa: nunca regressa. Versão: Herberto Helder
- [Ian Hamilton - Memorial](https://singularidadepoetica.art/2018/12/09/ian-hamilton-memorial/): Quatro lápides desgastadas inclinam-se contra a parede do seu hospício Vitoriano. Além dos limites, você se ajoelha na grama alta Decifrando nomes obliterados: Velhos lunáticos que aqui morreram. Trad.: Nelson Santander Ian Hamilton – Memorial Four weathered gravestones tilt against the wall Of your Victorian asylum. Out of bounds, you kneel in the long grass […]
- [Joan Margarit - Tchaicovsky](https://singularidadepoetica.art/2018/12/08/joan-margarit-tchaicovsky/): Não te suicides nunca. Olha a escuridão: nunca poderás saber quem te estende a mão. Lembras-te do inverno de luz nos cristais e a cumplicidade daquela música? Ouço a Patética e me vejo desejando que a morte de Joana nos devolvesse a ordem e a felicidade que acreditamos perder quando ela nasceu. Amor meu, Joana, […]
- [Manuel António Pina - Uma noite com Vladimir](https://singularidadepoetica.art/2018/12/07/manuel-antonio-pina-uma-noite-com-vladimir/): Eu sou mais mortal do que o meu corpo, e as minhas palavras mais mortais do que eu. E o teu silêncio, nenhum leitor, que as minhas palavras avidamente ouvem, mais mortal do que as minhas palavras. Ouvir-me-emos não é a morte o que as palavras procuram? sob tanta terra?
- [José Carlos Soares - Camel Blue](https://singularidadepoetica.art/2018/12/06/jose-carlos-soares-camel-blue/): No pequeno cemitério comovente ninguém, a não ser o latido de algum cão, o canto de um galo vermelho, a tosse de um pequeno deus desempregado. Também pude reparar como saía de uma velha campa abandonada um exército de formigas sob um intenso céu azul que nada respondia.
- [Rui Costa - A Minha Bisavó](https://singularidadepoetica.art/2018/12/05/rui-costa-a-minha-bisavo/): A minha bisavó é um quadro na parede. Roída pela traça, ela sucumbe à dentição do tempo nos seus olhos escuros de discreta bruxa. Um dia a minha bisavó nem quadro há-de ser. Continuará, apesar disso, a beber a água do copo onde lavou as cerejas (fingindo-se distraída) e a arrazoar antes da visita extemporânea […]
- [Rui Pires Cabral - Welcome Break](https://singularidadepoetica.art/2018/12/04/rui-pires-cabral-welcome-break/): Estações de serviço como ilhas de vidro no mar alto dos campos. O acaso governa as estradas e os viajantes que se cruzam despidos da teia do seu passado. Atravesso há horas um país chuvoso: anoiteceu e não se vê ninguém nas aldeias. Contra o seu escuro mistério, estas casas são reais? Nelas nasceu gente […]
- [Eugénio de Andrade – Adeus](https://singularidadepoetica.art/2018/12/03/eugenio-de-andrade-adeus/): Já gastamos as palavras pela rua, meu amor e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silêncio. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas, gastamos as mãos à força de as apertarmos, gastamos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto […]
- [Inês Lourenço – Sala Provisória](https://singularidadepoetica.art/2018/12/02/ines-lourenco-sala-provisoria/): Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez. Numa casa que vai ser demolida, numa sala provisória que vai encerrar, num velho café que mudará de ramo, como página virada jamais reaberta, como canção demasiado gasta, como abraço tornado irrepetível, numa porta a que não voltaremos.
- [Francisco Brines - Sitiado pela Divindade](https://singularidadepoetica.art/2018/12/01/francisco-brines-sitiado-pela-divindade/): Hoje voltas-te para o mar, com o corpo nu como na juventude, e todo o peso de ouro caindo sobre as costas como um interminável falcão que, azul, plana ao largo e pousa no braço, sem emitir sons, e respira. Descubro, com sereno assombro, minha existência, e o mundo então existe – o mar, que […]
- [Luís Falcão – Sabemos que o tempo passou](https://singularidadepoetica.art/2018/11/30/luis-falcao-sabemos-que-o-tempo-passou/): Sabemos que o tempo passou Que alguma coisa deveria ter sido dita (talvez depois, talvez mais tarde) Deixamos atrás de nós Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis E, feridos, Por todas as coisas que poderíamos ter evitado a nós próprios Caminhamos para o silêncio E para a escuridão indefinível dos bosques.
- [Wang Wei – Dedicado a Chang Yin](https://singularidadepoetica.art/2018/11/29/wang-wei-dedicado-a-chang-yin/): Instalar armadilhas e esperar pelas lebres astutas, Lançar uma linha à água e espreitar os peixes, Talvez acalme a boca e a barriga, Mas não é esse o sentido da vida do eremita. Eu amo a tranquilidade, Alimento-me de legumes para me desembaraçar das paixões terrenas Doravante, como tu livre e indiferente Lamento aqueles que […]
- [Halldís Moren Vesaas – Oração à Vida](https://singularidadepoetica.art/2018/11/28/halldis-moren-vesaas-oracao-a-vida/): A vida terrena, única, seja o meu quinhão! Vida minha, tudo o que tenho na tua mão! Toma-me e usa-me e exaure-me nos dias e então me larga alhures, alijada de ti, fria e impotente e condenada a não renascer na noite, na eterna noite sem amanhecer! Trad.: Luciano Dutra BØN TIL LIVET Eitt jordliv, […]
- [Manuel de Freitas – CCB, 2002](https://singularidadepoetica.art/2018/11/27/manuel-de-freitas-ccb-2002/): Abrem-se devagar os túmulos – e entramos neles. É o nosso ofício, talvez o único. Esperamos, anos fartos, o vazio. Não há engano possível, não há regresso. Todas as ilhas devagar nos mentem. Dançava perto de ti, talvez demasiado só, uma estrela d’nada, bo dispidida. Não me digas que não ouviste.
- [José Mateos - Canção 1](https://singularidadepoetica.art/2018/11/26/jose-mateos-cancao-1/): Ainda quase um menino te sentaste a esperar à orla do grande silêncio. Pensavas que estando a sós com tua voz talvez pudesses roubar ao mar seu segredo. Foi-se tua juventude. Mudos passaram os anos e agora estás oco por dentro. Podias, se ao fim soasse a voz do grande silêncio, chegar a cantar seu […]
- [Paulo Henriques Britto - Nenhuma Arte](https://singularidadepoetica.art/2018/11/25/paulo-henriques-britto-nenhuma-arte/): Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, […]
- [Eunice de Souza - Primavera Relutante](https://singularidadepoetica.art/2018/11/24/eunice-de-souza-primavera-relutante/): os corrupiões dourados se foram. as mariquitas estão em silêncio. a última folha vermelha na amendoeira recusa o próprio outono. Trad.: Nelson Santander Reluctant Spring the golden orioles have gone. the warblers are silent. the last red leaf on the almond tree refuses to fall
- [Juan Ramón Jiménez - Com tua Voz](https://singularidadepoetica.art/2018/11/23/juan-ramon-jimenez-com-tua-voz/): Quando eu estiver com as raízes chama-me com tua voz. A mim parecerá que entrou tremendo a luz do sol. Trad.: Nelson Santander Juan Ramón Jiménez – Con tu voz Cuando esté con las raíces llámame tú con tu voz. Me parecerá que entra temblando la luz del sol.
- [André Tecedeiro - de "O Número de Strahler"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/22/andre-tecedeiro-de-o-numero-de-strahler/): nem o poema dá a dimensão da contradição. o tom dizia odeio-te mas o que lhe saía da boca era amo-te. eu sabia que ficar era morte mas o que me dizia era que fugir era morte. a um hematoma eu teria chamado alívio.
- [Yves Bonnefoy – As Árvores](https://singularidadepoetica.art/2018/11/21/yves-bonnefoy-as-arvores/): Olhávamos as árvores, era do alto Do terraço que nos foi caro, o sol Ficava junto a nós mais esta vez ainda Mas retirado, silencioso anfitrião No limiar da casa em ruínas, que deixávamos A seu poder, imensa, iluminada. Vê, dizia-te eu, ele faz deslizar Na pedra desigual, insondável do nosso apoio A sombra do […]
- [Rupi Kaur – Depressão é uma sombra que mora em mim](https://singularidadepoetica.art/2018/11/20/rupi-kaur-depressao-e-uma-sombra-que-mora-em-mim/): ontem quando saí da cama o sol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou fui eu e eu já não sei se isso é vida Trad.: Ana Guadalupe
- [Francisco Brines - O Triunfo do Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/11/19/francisco-brines-o-triunfo-do-amor/): Eu te amei em Queroneia. Vivos estávamos. Entre a tristeza arruinada um sopro mortal: estávamos vivos. Séculos se passaram, e outros olhos contemplam as ruínas, ainda intactas. Quem passou por aqui? Apenas o vazio foi o tecido do tempo nesta planície. Eu te amei em Queroneia. Impalpável era o calor das cinzas humanas, e na […]
- [Nelson Santander - Gene Tierney](https://singularidadepoetica.art/2018/11/18/nelson-santander-gene-tierney/): Gene Tierney, um texto de Nelson Santander
- [Vitorino Nemésio – A Concha](https://singularidadepoetica.art/2018/11/18/vitorino-nemesio-a-concha/): A minha casa é concha. Como os bichos Segreguei-a de mim com paciência: Fachada de marés, a sonho e lixos, O horto e os muros só areia e ausência. Minha casa sou eu e os meus caprichos. O orgulho carregado de inocência Se às vezes dá uma varanda, vence-a O sal que os santos esboroou […]
- [Joan Margarit - Aventura Doméstica](https://singularidadepoetica.art/2018/11/17/joan-margarit-aventura-domestica/): Sozinho em casa e vasculhando os armários. Encontro um antigo mapa rodoviário, contratos vencidos, esferográficas que já não escreverão nenhuma carta, calculadoras com pilhas descarregadas e relógios que o tempo derrotou. No fundo das gavetas, como um rato triste, aninha-se o passado. Vazios, os vestidos pendem como velhas personagens que nos interpretaram. Súbito, encontro também […]
- [Miguel Torga - Princípio](https://singularidadepoetica.art/2018/11/16/miguel-torga-principio/): Não tenho deuses. Vivo Desamparado. Sonhei deuses outrora, Mas acordei. Agora Os acúleos são versos, E tacteiam apenas A ilusão de um suporte. Mas a inércia da morte, O descanso da vide na ramada A contar primaveras uma a uma, Também não me diz nada. A paz possível é não ter nenhuma.
- [Pedro Mexia - Vamos Morrer](https://singularidadepoetica.art/2018/11/15/pedro-mexia-vamos-morrer/): Vamos morrer, mas somos sensatos, e à noite, debaixo da cama, deixamos, simétricos e exactos, o medo e os sapatos.
- [Inês Dias - (Primeira Memória)](https://singularidadepoetica.art/2018/11/13/ines-dias-primeira-memoria/): No ano da morte da última beguina, que nunca precisara do desassossego de ver, chegou finalmente à Terra a primeira luz do mundo. 380 mil anos até comprovarmos, como a História nunca se cansara, aliás, de repetir, que tudo é trevas, instável equilíbrio entre matéria e energia escuras. Em suma, a humanidade devolvida num saco […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vaidade](https://singularidadepoetica.art/2018/11/12/giuseppe-ungaretti-vaidade/): De repente se eleva sobre os escombros a límpida maravilha da imensidão. E o homem curvado sobre a água surpreendida pelo sol se descobre uma sombra Embalada pouco a pouco desfeita Trad : Geraldo Holanda Cavalcanti Vanità D’improvviso è alto sulle macerie il limpido stupore dell’immensità E l’uomo curvato sull’acqua sorpresa dal sole si rinviene […]
- [Ricardo Molina - Convite à Felicidade](https://singularidadepoetica.art/2018/11/11/ricardo-molina-convite-a-felicidade/): Es dulce ser amado pero amar, oh dioses, qué ventura… Goethe Ama-me agora que tenho os cabelos pretos e uma coroa de junco e o perfume da água e da esteva nos braços nus. Ama-me agora que tenho nos olhos a suave chama da tarde e a graça do sorriso e a leve frescura dos […]
- [Helder Moura Pereira - "Chegamos ao fim do dia..."](https://singularidadepoetica.art/2018/11/10/helder-moura-pereira-chegamos-ao-fim-do-dia/): Chegamos ao fim do dia e cada um pensa para seu lado que isto não é vida, deixámos na terra os habituais sinais com tanto de amor como de desespero e, de mãos vazias, de coração ainda com alguma coisa mas quase vazio, batemos com a força que nos resta, pela última vez, à porta […]
- [Josep M. Rodríguez - Talvez Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/11/09/josep-m-rodriguez-talvez-amor/): “Talvez Amor”, um poema de Josep M. Rodríguez que encontra, na banalidade chuvosa da cidade, a possibilidade secreta de encontros que podem transformar-se em amizade, amor ou resistência à dor.
- [Armando Freitas Filho de "Rol"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/08/armando-freitas-filho/): 150 Ontem, foi-se. Amanhã, não há. Ar, somente, o de hoje no presente, desse dia que projeta na respiração sua plataforma insubstituível: peça única com sua aura esplêndida longe de qualquer linha de montagem frágil a qualquer hora, em aberto. No levante, no meio, no fim do seu alento, não em si, mas em mim […]
- [Ana Martins Marques - Caçada](https://singularidadepoetica.art/2018/11/07/ana-martins-marques-cacada/): E o que é o amorsenão a pressada presaem prender-se? A pressada presaemperder-se
- [Rui Costa - Breve](https://singularidadepoetica.art/2018/11/06/rui-costa-breve/): Esta manhã comecei a esquecer-me de ti. Acordei mais cedo que nos outros dias e com o mesmo sono. A tua boca dizia-me “bom dia” mas não: não o teu corpo todo como nos outros dias. As sombras por aqui são lentas e hoje não comprei o jornal: o mundo que se ocupe da sua […]
- [Miguel Martins - Fine](https://singularidadepoetica.art/2018/11/05/miguel-martins-fine/): Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis. Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura. Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem. Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no […]
- [Paulo Henriques Britto - "Da metafísica"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/04/paulo-henriques-britto-da-metafisica/): Ser parte de alguém ou algo tão grande que não se entenda: toda crença, ao fim e ao cabo, se resume a essa lenda – o mais rematado dislate, coisa jamais entendida, que eleva ao sumo quilate o caco mais reles de vida.
- [Marianne Moore - Poesia](https://singularidadepoetica.art/2018/11/03/marianne-moore-poesia/): Eu também não gosto dela: há coisas mais importantes para além de toda esta farsa. Lendo-a, contudo, com absoluto desprezo, descobre-se nela, no fim das contas, um lugar para o autêntico. Mãos que podem agarrar, olhos que podem dilatar-se, pelos que podem eriçar- se necessário, essas coisas são importantes não porque uma grandiloquente interpretação pode […]
- [Miguel-Manso – Na morte da avó](https://singularidadepoetica.art/2018/11/02/miguel-manso-na-morte-da-avo/): não bastasse a humilhação pública de morrer espera-se do corpo que cumpra com indiscutível pompa o intolerável protocolo de ausentar-se a penosa execução circular e noturna do velório a presença inconveniente dos agentes funerários os adereços lutuosos a obscena maquiagem no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa cerimônia (não há muito a dizer, […]
- [Rui Pires Cabral – Morada](https://singularidadepoetica.art/2018/11/01/rui-pires-cabral-morada/): Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos nas nossas pequenas razões. Estas ruas ainda prometem mais do que podem cumprir? A breve epifania do amor ou simplesmente um cúmplice que nos diga, à mesa de um café, que não faz mal, que pouco importam as perdas e danos que sofremos. De qualquer modo o mundo […]
- [Joan Margarit - A Espera](https://singularidadepoetica.art/2018/10/31/joan-margarit-a-espera/): Tantas coisas estão sentindo tua falta. Assim preenchem-se os dias, instantes feitos de esperar por tuas mãos, de sentir falta de tuas pequenas mãos, que pegaram nas minhas tantas vezes. Temos de nos acostumar com tua ausência. Um verão já passou sem teus olhos e o mar também haverá de acostumar-se. Tua rua, ainda por […]
- [Paulus Silentiarius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/30/paulus-silentiarius-da-antologia-grega/): Zeus, em chuva de ouro, atravessou o bronze que guardava Danae e roubou-lhe a virgindade. Moral da história: o ouro tudo domina – paredes e grilhetas de bronze, fechaduras e peias. Foi o ouro que subjugou Danae. Não é necessário rezar a Afrodite; só é preciso dinheiro. Versão: José Alberto Oliveira
- [Páladas - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/29/palladas-da-antologia-grega/): Nascidos nus. Enterrados nus. Qual a azáfama? Toda a vida conduz à primeira nudez. Versão: José Alberto Oliveira
- [Lucilius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/28/lucilius-da-antologia-grega/): Eutychides, o poeta lírico, morreu. Fugi, ó moradores do Hades! – ele transporta odes e ordenou que consigo queimassem vinte liras e vinte e cinco pautas de música, que Caronte terá de transportar. Onde se poderá encontrar refúgio, agora que Eutychides canta pela eternidade? Versão: José Alberto Oliveira
- [Anônimo - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/27/anonimo-da-antologia-grega/): Não esbanjem comigo o odor da mirra, nem ofereçam coroas de flores, nem acendam a pira funerária, tudo isso é desperdício; ofereçam-me presentes, se quiserem, enquanto estiver vivo – mas espalhar cinzas no vinho torná-lo-á lama e dele não beberão os mortos. Versão: José Alberto Oliveira
- [Automedon - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/26/automedon-da-antologia-grega/): Mandaste chamá-la, disseste para vir, preparaste tudo. Mas, se vier, o que farás? Repara no que se passa contigo, Automedon. Esse canalha, que era alegre e firme, está agora flácido, como cenoura cozida, morto e encolhido entre as pernas. Como irão rir se te puseres a navegar de mãos vazias, um remador que perdeu o […]
- [Marcus Argentarius - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/25/marcus-argentarius-sem-titulo/): Psyllas jaz aqui. A sua ocupação proxeneta; mantinha um bando de raparigas e alugava-as para festas. Um negócio pouco simpático, ganhar dinheiro com carne humana e fraca. Mas poupem o seu túmulo, não atirem pedras, agora que está morto e enterrado. Lembrem-se disto: os serviços que prestou convenceram os rapazes a deixarem as nossas mulheres […]
- [Platão - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/24/platao-sem-titulo/): Eu, Lais, que escarneci dos gregos e enxame de amantes retive à porta, ofereço a Afrodite o meu espelho. Não olharei para esta cara e não consigo ver a anterior. Versão: José Alberto Oliveira
- [Zenodotus - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/23/zenodotus-sem-titulo/): Quem esculpiu o Amor e o colocou junto desta fonte, pensaria que poderia subjugar, com água, tal fogo? Versão: José Alberto Oliveira
- [Eunice de Souza – Alvorada 2](https://singularidadepoetica.art/2018/10/22/eunice-de-souza-alvorada-2/): Falamos através de continentes. É pouco provável que nos voltemos a encontrar. Não posso fumar, não posso viajar, nenhuma felicidade claro. Sentindo um vento frio nas costas renunciamos à filosofia. Acabaram os amantes errantes, maridos, passarões não propriamente sensatos. Ainda temos a idade com que nos conhecemos. Trad.: Francisco José Craveiro de Carvalho
- [Eugénio Andrade - Passamos pelas coisas sem as ver](https://singularidadepoetica.art/2018/10/21/eugenio-andrade-passamos-pelas-coisas-sem-as-ver/): Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos.
- [Otto Renê Castillo – Os Amantes](https://singularidadepoetica.art/2018/04/10/otto-rene-castilho-os-amantes/): "Os Amantes", um poema de Otto René Castillo que retrata um encontro breve e uma separação dolorosa, transformando o último beijo dos amantes em metáfora cósmica — um planeta azul cuja luz continua a sustentar suas vidas mesmo na ausência.
- [Charles Bukowski – Para Jane Cooney Baker, morta em 22/01/1962](https://singularidadepoetica.art/2018/04/09/charles-bukowski-para-jane-cooney-baker-morta-em-22-01-1962/): e então você se foime deixando aquinum quarto com uma cortina rasgadae o Idílio de Siegfried tocando no radinho vermelho. e então você se foi tão rápidoquanto quando você veio pra mim,e nós tínhamos dito adeus antes,e quando eu estava limpando seu rosto e lábiosvocê abriu os maiores olhos que eu já tinha vistoe disse […]
- [Manuel António Pina - Talvez de noite (1)](https://singularidadepoetica.art/2018/04/08/manuel-antonio-pina-talvez-de-noite-1/): À minha volta tudo envelheceu como se fosse eu, e no entanto uma casa, ou um espaço em branco entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido. Pois nada surge com a sua própria forma. Digo “casa”, mas refiro-me a luas e umbrais, a lembranças extenuadas, às trevas do corpo, lúcidas, latejando na obscuridade de […]
- [Francisca Aguirre – E se, depois de tudo](https://singularidadepoetica.art/2018/04/07/francisca-aguirre-e-se-depois-de-tudo/): E se, depois de tudo, fosse o resto um ir morrendo para ao fim morrermos por este louco afã de convertermo-nos em contadores de um momento lesto. E se afigura que o correto era este sermão que vem nos repetir que avança o furacão de nos ferir, e é vã e absurda esta carreira. Então […]
- [Hilda Hilst - de "Do Desejo"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/06/hilda-hilst-de-do-desejo/)
- [Yehuda Amichai – Na história do nosso amor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/05/yehuda-amichai-na-historia-do-nosso-amor/): Na história do nosso amor, um foi sempre Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo. Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado. O tempo passará por nós, como paisagens Passam por trás de atores parados em suas marcas Quando se roda um filme. As palavras Passarão por nossos lábios, até as lágrimas […]
- [Miguel Torga – Comunicado](https://singularidadepoetica.art/2018/04/04/miguel-torga-comunicado/): Na frente ocidental nada de novo. O povo Continua a resistir. Sem ninguém que lhe valha, Geme e trabalha Até cair.
- [Pedro Salinas - De "La voz a ti debida" [39]](https://singularidadepoetica.art/2018/04/03/pedro-salinas-de-la-voz-a-ti-debida-39/): A tua forma de amaré deixar-me que te queiras.O sim com que tu te rendesé o silêncio. Teus beijossão oferecer-me os lábiospara que eu possa beija-los.Jamais palavras, abraços,me dirão que existias,que me quiseste: jamais.Dizem-mo as folhas brancas,mapas, augúrios, chamadas;tu, não.E fico abraçado a tisem perguntar-te, de medoque não seja verdadeiroque tu vives e me ama.E […]
- [Júlio Mendonça - Galáxias](https://singularidadepoetica.art/2018/04/02/julio-mendonca-galaxias/)
- [Sylvia Plath – Limite](https://singularidadepoetica.art/2018/04/01/sylvia-plath-limite/): A mulher está perfeita. Seu corpo Morto enverga o sorriso de completude, A ilusão de necessidade Grega voga pelos veios da sua toga, Seus pés Nus parecem dizer: Já caminhamos tanto, acabou. Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca, Uma para cada pequena Tigela de leite vazia. Ela recolheu-as todas Em seu corpo, como pétalas Da […]
- [Manuel António Pina – Depois](https://singularidadepoetica.art/2018/03/31/manuel-antonio-pina-depois/): Primeiro sabem-se as respostas. As perguntas chegam depois, como aves voltando a casa ao fim da tarde e pousando, uma a uma, no coração quando o coração já se recolheu de perguntas e de respostas. Que coração, no entanto, pode repousar com o restolhar de asas no telhado? A dúvida agita os cortinados e nos […]
- [Mary Oliver – Como é conosco, e como é com eles](https://singularidadepoetica.art/2018/03/30/mary-oliver-como-e-conosco-e-como-e-com-eles/): Nós nos tornamos religiosos, depois nos afastamos disso, depois ficamos carentes e talvez voltemos atrás. Nos dedicamos a ganhar dinheiro, depois nos voltamos para a vida moral, depois pensamos novamente em dinheiro. Conhecemos pessoas maravilhosas, mas as perdemos para os nossos negócios. Estamos, como diz o refrão, por toda parte. A constância, aparentemente, tem mais […]
- [Laia Noguera i Clofent – Sem título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/29/laia-noguera-i-clofent-sem-titulo/): Amo a vida simples, sentar-me à entrada para ver o ir e vir das pessoas, como se move um pardal, como se inclina a tarde nas casas do corpo. Já sei que morrerei muito antes de morrerem as árvores que amo. Mas nada me preocupa, porque no instante em que se me romper o último […]
- [Nicanor Parra – Composições](https://singularidadepoetica.art/2018/03/28/nicanor-parra-composicoes/): I Cuidado, todos mentimos Mas eu proclamo a verdade. A matemática enfada Mas nos dá o de comer. Por outro lado, se escreve Poema para viver Ninguém gosta de assumir Culpa por vidros quebrados. Se escreve contra si mesmo Em virtude dos demais Que indecente é fazer versos! Quando menos se esperar Darei um tiro […]
- [Anne Sexton – A Terra Desmorona](https://singularidadepoetica.art/2018/03/27/anne-sexton-a-terra-desmorona/): Se eu pudesse culpar o clima por tudo, a neve como a mesa de dissecação, as árvores que se tornam agulhas de tricô, o chão, tão rijo como uma arinca congelada, o lago vestindo seu bigode de geada. Se eu pudesse culpar tais circunstâncias, se eu pudesse culpar os corações de estranhos descendo as ruas […]
- [Aldo Oliva – O Elevador de Hera](https://singularidadepoetica.art/2018/03/26/aldo-oliva-o-elevador-de-hera/): Dizem os insetos sensatos e sensíveis que as paredes e os grandes muros são apenas um hausto veemente conjurando o nada, o infinito. Por estes ladrilhos de não-ser ascendem, como habitáculos de fúria, os corpos corrompidos das palavras. Quem me impôs, rasgando minha inocência animal na base da minha profundidade biológica, esta ascensão conjetural? Só […]
- [Carlos Saraiva Pinto – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/25/carlos-saraiva-pinto-sem-titulo-poema/): Sem Título, um poema de Carlos Saraiva Pinto
- [José Lino Grünewald - Soneto Burocrático](https://singularidadepoetica.art/2018/03/24/jose-lino-grunewald-soneto-burocratico-poema/): Salvo melhor juízo doravante, Dessarte, data vênia, por suposto, Por outro lado, maximé, isso posto, Todavia deveras, não obstante Pelo presente, atenciosamente, Pede deferimento sobretudo, Nestes termos, quiçá, aliás, contudo Cordialmente alhures entrementes Sub-roga ao alvedrio ou outrossim Amiúde nesse ínterim, senão Mediante qual mormente, oxalá quão Via de regra te-lo-ão enfim Ipso facto outorgado, […]
- [Marcelo Montenegro - Forte Apache](https://singularidadepoetica.art/2018/03/23/marcelo-montenegro-forte-apache/): Noel Rosa dizia que era universal sem sair de seu quarto. Elvis Costello disse que o rock ‘n’ roll não morrerá porque sempre vai ter um garoto trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém nunca viu. Laura Riding, por seu turno, falava da pretensão de “escrever sobre um assunto/ que tocasse todos os assuntos/ […]
- [Charles Bukowski – Agarre o Escuro](https://singularidadepoetica.art/2018/03/22/charles-bukowski-agarre-o-escuro/): estou sentado aqui agora bêbado escutando as mesmas sinfonias que me deram a vontade de seguir em frente quando eu tinha 22 anos. 40 anos depois elas e eu já não somos mais tão mágicos. você deveria ter-me visto tão esbelto sem barriga eu era um pedaço de homem: flamejante, forte, insano. dissesse uma palavra […]
- [Antonia Pozzi – Pausa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/21/antonia-pozzi-morte-de-uma-estacao/): Parecia-me que este dia sem ti devia ser inquieto, escuro. Em vez disso está repleto de uma estranha doçura, que aumenta com o passar das horas – quase como a terra após um aguaceiro, que fica sozinha no silêncio a beber a água caída e pouco a pouco nas veias mais profundas se sente penetrada. […]
- [Marcelo Montenegro - Três Pensatos](https://singularidadepoetica.art/2018/03/20/marcelo-montenegro-tres-pensatos/): 1. penso naquela única gota gelada do chuveiro quente. Nas ilíadas clandestinas que a febre percorre até virar suor. Penso nas caretas que os músicos fazem quando estão solando. No meu pai me dizendo que tudo isso aqui era mato. Penso na imagem exata de uma aurora indecisa. Penso em calços de papelão para pianos […]
- [Ana Martins Marques – História](https://singularidadepoetica.art/2018/03/19/ana-martins-marques-historia/): Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem um história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma […]
- [Charles Bukowski – Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/03/18/charles-bukowski-um-poema-de-amor/): “Um poema de amor”, um poema de Charles Bukowski que atravessa corpos e quartos para revelar, sob a crueza do desejo, a necessidade humana de afeto que sustenta e inquieta.
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Os Erros](https://singularidadepoetica.art/2018/03/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-2/): A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a […]
- [Ricardo Domeneck – Doentes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ricardo-domeneck-doentes/): Doentes. Nós, todos doentes. Há tanto doentes todos. Nós. Pungidos, conquanto impunes. Não, não impunes. Não se constrói impune a casa sobre covas. Não se ergue o prédio em grão-cemitério. Não sem velar e lavar carinhosos e doridos os ossos e os dentes. Não impunes. Doentes de cada gota derramada. Por nós ou avós. Os […]
- [Ana Martins Marques – a parte que me cabe](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ana-martins-marques-a-parte-que-me-cabe/): a parte do teu corpo que procura pelo sol como os gatos pela casa a parte que permanece imóvel quando cantas, aquela que se move quando estás parado a parte que apenas a mim e de relance, por descuido revelaste a parte onde guardas as memórias de infância, a parte que ainda anseia pelo futuro […]
- [Charles Bukowski – Os Gênios da Raça](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/charles-bukowski-os-genios-da-raca/): não há nada a discutir não há nada a lembrar não há nada a esquecer é triste e não é triste parece que a coisa mais sensata que uma pessoa pode fazer é se sentar com uma bebida na mão enquanto as paredes acenam seus sorrisos de adeus alguns passam por tudo isso com uma […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Escuto](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-escuto/): Escuto mas não sei Se o que ouço é silêncio Ou deus Escuto sem saber se estou ouvindo O ressoar das planícies do vazio Ou a consciência atenta Que nos confins do universo Me decifra e fita Apenas sei que caminho como quem É olhado, amado e conhecido E por isso em cada gesto ponho […]
- [Charles Bukowski – Outra Cama](https://singularidadepoetica.art/2018/03/14/charles-bukowski-outra-cama/): outra cama outra mulher mais cortinas outro banheiro outra cozinha outros olhos outro cabelo outros pés e dedos. todos à procura. a busca eterna. você fica na cama ela se veste para o trabalho e você se pergunta o que aconteceu à última e à outra antes dela… é tudo tão confortável — esse fazer […]
- [Eloy Sánchez Rosillo - Aviso aos Caminhantes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/13/eloy-sanchez-rosillo-aviso-aos-caminhantes/): Na soma de dias indeterminados que a vida dá ao homem, talvez exista um em que o destino, trágico e belo, passe ao nosso lado e o acaso acenda uma insólita luz, um incomum fulgor inconfundível. Mas não hesites. Tem coragem, quando chegar o momento, de abandonares as coisas com que os hábitos sempre te […]
- [Marcia Vinci – Mãe Solteira](https://singularidadepoetica.art/2018/03/12/marcia-vinci-mae-solteira/): dadeira parideira nutriz criadeira toda mãe é sozinha toda mãe é solteira
- [Vicente Gaos - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2018/03/11/vicente-gaos-testamento/): Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil anos de idade, de estado civil solitário, instável domiciliado/refugiado em um canto do cosmos, profissão náufrago na sombra, sem documento de identidade, sem títulos, condecorações nem diplomas de qualquer tipo, nenhum sinal particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo, sem nenhuma cicatriz além […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Perdão, falava em voz alta](https://singularidadepoetica.art/2018/03/10/ernesto-perez-vallejo-perdao-falava-em-voz-alta/): Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguém Nunca poderão decepcioná-la. A esperança é aquele relógio que sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezes como diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes. Mas, quando tristes, […]
- [Javier Salvago - Fim de Festa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/09/javier-salvago-fim-de-festa/): Enfim sós, vida. A festa acabou e não há mais ninguém que possa nos obrigar a forçar sorrisos, ou a inventar incômodas mentiras piedosas. Todos sumiram. Despe-te sem medo. Conheço as velhas rugas de tua carne triste. Acariciei-as. Sei o que teu rosto oculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncio […]
- [Luis Cernuda – No Meio da Multidão](https://singularidadepoetica.art/2018/03/08/luis-cernuda-no-meio-da-multidao/): Em meio à multidão a vi passar, com seus olhos tão dourados quanto seus cabelos. Caminhava cortando o ar e os corpos; uma mulher se ajoelhou em seu caminho. Senti como o sangue desertava de minhas veias gota a gota. Vazio, andei sem rumo pela cidade. Gente estranha passava a meu lado sem me ver. […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Insônia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/07/luis-alberto-de-cuenca-insonia/): A vida dura muito pouco. Não dá tempo de se fazer nada. Não há meios de reunir dias suficientes para aprender algo. Levantas, abraças tua namorada, tomas teu café da manhã, trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema, e nem sequer tens um momento para ler Sêneca e acreditar que tudo neste mundo tem conserto. A […]
- [Charles Bukowski – Até](https://singularidadepoetica.art/2018/03/06/charles-bukowski-ate/): Nós temos que viver com a perda e talvez jogar com uma mão de cartas ruim e nós sabemos o tempo todo qual é o placar. Nós o suportamos como Hemingway ou o descartamos como Camus mas nós sabemos nós sabemos. É assim que funciona e damos corda no relógio e esperamos pela madrugada ou […]
- [Manuel António Pina - Sétimo Dia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/05/manuel-antonio-pina-setimo-dia/): Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua morte para a nossa vida como quem regressa a casa de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países, e agora é como se te tivéssemos sonhado. A voz que, diante da escuridão, suspendemos quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti erguemo-la de […]
- [A. M. Pires Cabral – Pirilampos III](https://singularidadepoetica.art/2018/03/04/a-m-pires-cabral-pirilampos-iii/): Mas também estes negadores das trevas desertaram: Já não se vêem pirilampos, o seu lume deixou de desmentir a escuridão. Apagaram a lanterna, retiraram para um lugar qualquer onde talvez já não valha a pena alumiar – algures entre o frio e o esquecimento (se é que frio e esquecimento não são nomes alternativos da […]
- [Josep M. Rodríguez - Primeira Visita ao Zoológico](https://singularidadepoetica.art/2018/03/03/josep-m-rodriguez-primeira-visita-ao-zoologico/): Tinha doze anos e a minha mãe me presenteava com um mundo só para mim: – Se a tristeza fosse um animal? – Se a tristeza fosse um animal… seria um besouro. E dizia-lhe então que havia dias em que esse besouro fabricava uma bola muito grande na minha garganta. Os olhos da minha mãe […]
- [Joaquín Benito de Lucas – Elegia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/02/joaquin-benito-de-lucas-elegia/): Quando agora retorno à minha cidade, não posso conter a emoção de saber que não me esperam. Não me espera meu pai, que desceu rio abaixo muito lentamente entre os juncos, sob pontes de névoa. Não me espera meu irmão, que me esperava sempre ao lado de um balcão qualquer, em uma rua qualquer brindando […]
- [Rosario Castellanos - Destino](https://singularidadepoetica.art/2018/03/01/rosario-castellanos-destino/): Matamos o que amamos. O resto nunca esteve vivo. Ninguém está tão perto. A nenhum outro fere um esquecimento, uma ausência, às vezes menos. Matamos o que amamos. Que cesse esta asfixia de respirar por um pulmão distante! O ar não é suficiente para os dois. E não basta a terra para os corpos juntos […]
- [Charles Bukowski – O Matador Sorri](https://singularidadepoetica.art/2018/02/28/charles-bukowski-o-matador-sorri/): as antigas namoradas ainda telefonam algumas do ano passado algumas do ano retrasado algumas de anos atrás é bom poder por um fim nas coisas que não funcionam também é bom não odiar ou mesmo esquecer a pessoas com quem você falhou. aprecio quando elas me dizem que estão tendo sorte com um homem sorte […]
- [Carlos Alberto Machado – Chegaste à Idade da Morte](https://singularidadepoetica.art/2018/02/27/carlos-alberto-machado-chegaste-a-idade-da-morte/): Chegaste à idade da morte dos teus amigos também agora começas a distingui-los cai um e depois outro e tu apressas o passo desta vez vais discutir o terreno palmo a palmo não saberias o que fazer se a solidão se despovoasse.
- [Albano Martins – A Dor](https://singularidadepoetica.art/2018/02/26/albano-martins-a-dor/): Não ponhas o dedo na ferida. Deixa a dor respirar em segredo. L delor Nun pongas l dedo na frida. Deixa l delor ceçar an segredo.
- [Germana Zanettini - Leia Antes de Usar](https://singularidadepoetica.art/2018/02/25/germana-zanettini-leia-antes-de-usar/): não, aqui não há lugares reservados [de antemão já lhe adianto: nem adianta olhar para os lados] o ambiente não é climatizado os assentos não são flutuantes e máscaras de oxigênio não cairão sobre suas cabeças para sua segurança e conveniência informamos que a vida não vem equipada com saídas de emergência
- [Margareta Ekström - O Funeral](https://singularidadepoetica.art/2018/02/24/margareta-ekstrom-o-funeral/): Na noite do funeral eles abraçaram-me, beijaram-me, mesmo esses que habitualmente não beijam. Apoiaram-me e perguntaram se precisava de soporíferos, estimulantes, um xerez ou companhia para a noite. Cada noite é um funeral mas ninguém vem para me abraçar. Ninguém pergunta como as coisas vão se preciso de companhia para a noite, um xerez, um […]
- [Juan Luis Panero - Epitáfio diante de um Espelho](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-luis-panero-epitafio-diante-de-um-espelho/): Dura há de ser a vida para ti, que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez, para ti, cuja única certeza é tua memória e, por isso, teu sepulcro mais infausto. Dura há de ser a vida, quando os anos passarem e destruírem por fim a ilusória pátria da tua adolescência, quando vires, como hoje, […]
- [Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-vicente-piqueras-nomes-borrados/): A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiosnem os pronomes nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o […]
- [Diego Moraes - Já se passaram dez anos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/22/diego-moraes-ja-se-passaram-dez-anos/): Já se passaram dez anos Acabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal que seu tio ficou bêbado de vinho dom bosco e disse na frente dos filhos e da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaro em Londres Já se passaram dez anos Os poemas que escrevi quando […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/21/luis-alberto-de-cuenca-abre-todas-as-portas/): Abre todas as portas, a que conduz ao ouro, a que leva ao poder, a que esconde o mistério do amor; a que oculta o segredo insondável da felicidade, a que a vida te oferta para sempre no gozo de uma visão sublime. Abre todas as portas, sem te mostrares curioso, nem dar importância às […]
- [Jorge de Sena - Suma Teológica](https://singularidadepoetica.art/2018/02/20/jorge-de-sena-suma-teologica/): Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram navios no alto mar, quando nasci. Nada mudou. Continuaram as guerras; continuou a subir o preço do pão; continuaram os poetas, uma vez por outra, a perguntar por ti. É certo que, então, imensa gente envelheceu instantânea e misteriosamente. Mas até isso, meu amor, se não sabe […]
- [Ángel González - Todos vocês parecem felizes...](https://singularidadepoetica.art/2018/02/19/angel-gonzalez-todos-voces-parecem-felizes/): … e sorriem, às vezes, quando falam. E até dizem uns aos outros palavras de amor. Mas amam-se de dois em dois para odiar de mil em mil. E guardam toneladas de asco por cada milímetro de felicidade. E parecem – nada mais que parecem – felizes, e falam com o fim de ocultar essa […]
- [Maria Teresa Horta - Poema sobre a Recusa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/18/maria-teresa-horta-poema-sobre-a-recusa/): Como é possível perder-te sem nunca te ter achado nem na polpa dos meus dedos se ter formado o afago Sem termos sido a cidade nem termos rasgado pedras sem descobrirmos a cor nem o interior da erva Como é possível perder-te sem nunca te ter achado minha raiva de ternura meu ódio de conhecer-te […]
- [César Cantoni - O Tempo Irreparável](https://singularidadepoetica.art/2018/02/17/cesar-cantoni-o-tempo-irreparavel/): Quem, então, poderia imaginar? O certo é que meu pai está morto como se nunca houvesse estado vivo. Um dia gelaram suas mãos e os pés, e a casa se encheu de parentes, e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito. Ainda lembro. Meu pai está morto ou já não existe, e não é […]
- [Mário Cesariny - Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/02/16/mario-cesariny-lembra-te/): Lembra-te que todos os momentos que nos coroaram todas as estradas radiosas que abrimos irão achando sem fim seu ansioso lugar seu botão de florir o horizonte e que dessa procura extenuante e precisa não teremos sinal senão o de saber que irá por onde fomos um para o outro vividos
- [Gonçalo M. Tavares - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/15/goncalo-m-tavares-os-mortos/): Não há mortos que morram tanto como os nossos. Se um daqueles que nos pertence morre sete ou setenta vezes no coração, de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data, e os que sempre viveram longe morrem-nos metade ou um oitavo. E metade de uma morte é quase nada, são casas decimais […]
- [Charles Bukowski – Foda](https://singularidadepoetica.art/2018/02/14/charles-bukowski-foda/): foda ela tirou o vestido por sobre a cabeça e eu vi a calcinha um tanto enterrada em suas carnes. é simplesmente humano. agora teremos que fazê-lo. eu terei que fazê-lo depois de todo esse logro. é como uma festa – dois idiotas numa cilada. debaixo dos lençóis depois que apaguei as luzes suas calcinhas […]
- [Isabel Bono - O Futuro Acabará Chegando](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/isabel-bono-o-futuro-acabara-chegando/): perdemos tempo ordenando em um álbum as fotos do verão para olhá-las algum dia com nostalgia guardamos bolinhas de gude pedras livros cartas poemas adiamos assim a felicidade, a vida ainda não sei por quê ainda não sei para quando Trad.: Nelson Santander Isabel Bono – El Futuro Acabará por Llegar malgastábamos el tiempo ordenando […]
- [José Lino Grünewald – Sombra (1957)](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/jose-lino-grunewald-sombra-1957/)
- [Mário Dionísio – Elegia ao Companheiro Morto](https://singularidadepoetica.art/2018/02/12/mario-dionisio-elegia-ao-companheiro-morto/): Meu companheiro morreu às cinco da manhã Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã Ah antes fosse noite noite apenas noite sem a promessa da manhã Ah antes fosse noite noite noite apenas noite e não houvesse em tudo a promessa da manhã Deitado para sempre às cinco da […]
- [Alberto Caeiro - Poema XLIII ("Antes o voo da ave")](https://singularidadepoetica.art/2018/02/11/alberto-caeiro-poema-xliii-antes-o-voo-da-ave/): Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto, Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. A ave passa e esquece, e assim deve ser. O animal, onde já não está e por isso de nada serve, Mostra que já esteve, o que não serve para nada. A recordação é […]
- [Bruna Kalil - Paleativa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/10/bruna-kalil-paleativa/): Você é rebelde só da cintura para baixo 1984, George Orwell busco prazer sendo profana para que o físico compense o descompasso do meu interior tão triste e tão mole. fujo dos sentimentos justamente por ter a plena consciência de que sou sentimental dem- ais. tenho medo, pavor, fobia de apaixonar-me outra vez, dói […]
- [Rui Pires Cabral - Cartas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/09/rui-pires-cabral-cartas/): Escreves-me cartas, sou o destinatário da tua solidão. E sempre compreendo tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge as entrelinhas de um branco desespero que é tanto teu como meu: não tens quem te salve, envelheceste, trataste mal de um jardim que não chegou a vingar. Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade […]
- [Gil T. Sousa - Maré](https://singularidadepoetica.art/2018/02/08/gil-t-sousa-mare/): quando a maré se afasta é possível escrever tudo outra vez
- [Jorge Luis Borges - A Chuva](https://singularidadepoetica.art/2018/02/07/jorge-luis-borges-a-chuva/): A tarde subitamente clareou Porque já cai a chuva minuciosa. Ou caiu. A chuva é coisa curiosa Que acontece no tempo que passou. Quem a ouve cair já recobrou O tempo em que a fortuna venturosa Revelou-lhe uma flor chamada rosa E a encarnada cor com que se corou. Que esta chuva que já cega […]
- [César Cantoni - Álbum de Família](https://singularidadepoetica.art/2018/02/06/cesar-cantoni-album-de-familia/): Morreu meu pai, morreram meus avós, morreram meus tios de sangue e por afinidade. Uma família inteira de ferreiros, marceneiros, curtidores, pedreiros, jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos, o que não sabe fazer nada com as mãos, logrei sobreviver impunemente para chorar diante de uma foto o […]
- [Octavio Paz - Antes do Começo](https://singularidadepoetica.art/2018/02/05/octavio-paz-antes-do-comeco/): Ruídos confusos, claridade incerta. Outro dia começa. Um quarto em penumbra e dois corpos estendidos. Em minha fronte me perco numa planície vazia. E as horas afiam suas navalhas. Mas a meu lado tu respiras; íntima e longínqua fluis e não te moves. Inacessível se te penso, com os olhos te apalpo, te vejo com […]
- [Hagar Peeters - Esta Noite Cruzei-me com meus Pais](https://singularidadepoetica.art/2018/02/04/hagar-peeters-esta-noite-cruzei-me-com-meus-pais/): Esta noite cruzei-me com os meus pais, duas sombras pálidas reciprocamente atraídas, à luz branca de um candeeiro. Tendo em conta a felicidade demonstrada, eu ainda não era nascida. Eram jovens e muito apaixonados. Uma grande tristeza anuviou-me porque eu sabia a continuação da história. Ela soltava gargalhadas por causa de algo que ele lhe […]
- [Fernando Sabino - Certeza](https://singularidadepoetica.art/2018/02/03/fernando-sabino-certeza/): De tudo, ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando. A certeza de que precisamos continuar. A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança. Do medo, uma escada. Do sonho, uma ponte. Da procura, um encontro.
- [António Franco Alexandre - Quero dizer-te: não morras](https://singularidadepoetica.art/2018/02/02/antonio-franco-alexandre-quero-dizer-te-nao-morras/): quero dizer-te: não morras. Nem me digas quem és, quem foste, como sabes a língua que se fala sobre a terra. Ao lume lanço toda a vontade de viver, ser vivo, a cautela do ar, ardendo em torno. Passarei, terás passado em mim, só quero dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.
- [Carlos Edmundo de Ory – Dá-me](https://singularidadepoetica.art/2018/02/01/carlos-edmundo-de-ory-da-me/): dá-me algo mais que silêncio ou doçura algo que tenhas e não saibas não quero dádivas raras dá-me uma pedra não fiques imóvel fitando-me como se quisesses dizer que há muitas coisas mudas ocultas no que se diz dá-me algo lento e fino como uma faca nas costas e se nada tens para dar-me dá-me […]
- [António Reis – Mudamos esta Noite](https://singularidadepoetica.art/2018/01/31/antonio-reis-mudamos-esta-noite/): Mudamos esta noite E como tu eu penso no fogão a lenha e nos colchões onde levar as plantas e como disfarçar os móveis velhos Mudamos esta noite e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam e que os filhos dormem sempre nos quartos onde nascem Vai descendo tu Eu só quero ouvir os […]
- [Luljeta Lleshanaku – O Mistério das Orações](https://singularidadepoetica.art/2018/01/30/luljeta-lleshanaku-o-misterio-das-oracoes/): Na minha família as orações eram rezadas secretamente, em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor; quase murmuradas, com um suspiro no princípio e no fim, fino e limpo como uma gaze. Junto à casa havia apenas uma escada para subir, de madeira, encostada à parede o ano inteiro, de modo a reparar o […]
- [Albano Martins – Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/01/29/albano-martins-lembra-te/): Leia "Lembra-te", de Albano Martins, um poema breve e intenso sobre memória, passagem do tempo e os caminhos inevitáveis da existência.
- [Ana Goês - Convida-me só para jantar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/ana-goes-convida-me-so-para-jantar/): E não queiras depois fazer amor. Convida-me só para jantar num restaurante sossegado numa mesa de canto e fala devagar e fala devagar eu quero comer uma sopa quente não quero comer mariscos os mariscos atravancam-me o prato e estou cansada para os afastar fala assim devagar devagar não é preciso dizeres que sou bonita […]
- [Chacal – EXP](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/chacal-exp/)
- [Sylvia Plath - Achava que não Podia ser Magoada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/sylvia-plath-achava-que-nao-podia-ser-magoada/): Achava que não podia ser magoada; achava que com certeza era imune ao sofrimento — imune às dores do espírito ou à agonia. Meu mundo tinha o calor do sol de abril Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro. Minha alma em êxtase, ainda assim conheceu a dor suave e aguda que só o prazer […]
- [Anatol Knotek – Time is running out](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/anatol-knotek-time-is-running-out/)
- [César Cantoni - O mais digno em nós](https://singularidadepoetica.art/2018/01/26/cesar-cantoni-o-mais-digno-de-nos/): Eu sempre pensei que os ossos, com seu brilho mineral de pedra polida pela chuva, são o que há de mais digno em nós: sobrevivem largamente à putrefação indecorosa da carne e não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander César Cantoni – Lo más digno de nosotros Siempre pensé […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Terror de te Amar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/25/sophia-de-mello-breyner-andresen-terror-de-te-amar/): Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. […]
- [Mario Benedetti - Angelus](https://singularidadepoetica.art/2018/01/24/mario-benedetti-angelus/): Quem me diria que o destino era isso Vejo a chuva através de letras invertidas Uma parede com manchas que parecem homens Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes E essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu, Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braços E uma cadeira […]
- [Hilda Hilst - Obriga-me](https://singularidadepoetica.art/2018/01/23/hilda-hilst-obriga-me/): E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo, prazer, lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de […]
- [Charles Bukowski - A Retirada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/22/charles-bukowski-a-retirada/): desta vez o negócio acabou comigo. me sinto como as tropas alemãs açoitadas pela neve e pelos comunistas caminhando curvadas as botas gastas forradas com papel jornal. minha condição é tão terrível quanto. talvez até pior. a vitória estava tão perto a vitória estava logo ali. enquanto ela estava ali diante de meu espelho mais […]
- [Paola Rodrigues - Vida Lúcida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/21/paola-rodrigues-vida-lucida/): Assim como ninguém explicou o início As ondas continuam a chegar na costa Tudo corre sempre em direção ao fim Os copos caem e as cidades se amontoam em nossas costas Amar o perdido deixa confundido este coração Ainda que os dias continuem a nascer Os ônibus andem, os outros durmam Meus pés tropeçam em […]
- [Mikhail Svetlov - Dois](https://singularidadepoetica.art/2018/01/20/mikhail-svetlov-dois-poema/): Dois, um poema de Mikhail Svetlov
- [Miquel Martí i Pol - No ano que vem](https://singularidadepoetica.art/2018/01/19/miquel-marti-i-pol-no-ano-que-vem/): No ano que vem já ninguém reparará em nós. Agora somos recém-chegados e fitam-nos com desprezo até mesmo os que andam por cá há quarenta anos e já nada os muda. Temos um ar aturdido e tenaz que faz rir as mulheres e quase nem nos atrevemos a mexer a cabeça por temor a perder […]
- [Manuel de Freitas - "Pela manhã o gato..."](https://singularidadepoetica.art/2018/01/18/manuel-de-freitas-pela-manha-o-gato/): Pela manhã o gato estende-se vagaroso nesse impreciso lugar em que luz e sombra se entretecem. Nas pedras rondantes do que sempre chamámos a nossa casa, esse sonho de irmos por detrás das janelas encarcerados nas agrestes paredes do amor. Todas as manhãs, enquanto a escola me espera, o gato é tão certo como os […]
- [César Cantoni - Uma Arte Invisível](https://singularidadepoetica.art/2018/01/17/cesar-cantoni-uma-arte-invisivel/): O poeta caminha nu pelas ruas, mas ninguém o vê. O poeta vai ao cinema, desvia de putas, anda de ônibus, sempre nu, mas as pessoas olham para outro lado. O poeta não tem meios de chamar a atenção porque a poesia é uma arte invisível. A poesia se escreve sem palavras. Trad.: Nelson Santander […]
- [Carlos Marzal – Estranha Forma de Vida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/16/carlos-marzal-estranha-forma-de-vida/): A Vicente Gallego Sob a bigorna de fogo que o sol de agosto acende no muro caiado, derretem-se as pétalas de uma sedenta buganvília grená. Que estranha esta beleza moribunda, esta desaforada desnudez grandiosa, esta sílaba breve do milagre. Trad.: Inês Dias Carlos Marzal – Extraña Forma de Vida Bajo el yunque de […]
- [Billy Collins – Pardal de Natal](https://singularidadepoetica.art/2018/01/15/billy-collins-pardal-de-natal/): A primeira coisa que ouvi esta manhã foi um rápido bater de asas, suave, insistente – asas contra vidro, como se percebeu depois, lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro agitando-se na moldura de uma janela alta, tentando lançar-se através do enigma de vidro até a ampla luz. E então um ruído na garganta […]
- [Ana Hatherly - A Verdadeira Mão](https://singularidadepoetica.art/2018/01/14/ana-hatherly-a-verdadeira-mao/): A verdadeira mão que o poeta estende não tem dedos: é um gesto que se perde no próprio ato de dar-se O poeta desaparece na verdade da sua ausência dissolve-se no biombo da escrita O poema é a única a verdadeira mão que o poeta estende E quando o poema é bom não te aperta […]
- [Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ines-lourenco-balada-dos-amores-dificeis/): Não me refiro aos trágicos Romeu e Julieta Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-me aos que se buscam sem saber nada do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavos e convexos se combinam cruzando genes e transitórios tempos […]
- [Ana Martins Marques - Religião](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ana-martins-marques-religiao/): ‘If I were called in to construct a religion I should make use of water’ – Philip Larkin Inaugurar uma religião: adorar os pontos em que se formam as estações do ano os gestos de desnudar-se o dia depois da chuva a distância: entre uma árvore e outra árvore, entre cidades com o mesmo nome […]
- [Inês Lourenço – As Coisa que Cessam](https://singularidadepoetica.art/2018/01/12/ines-lourenco-as-coisa-que-cessam/): Tanto desprezo pelo que é transitório e finito. Não servirei senhor que possa morrer. Mas passamos a vida a amar todas as fragilidades das coisas que cessam. Há coisa mais breve do que um sorriso? Coisa mais curta que a alegria de um reencontro? Tudo o que amamos é passageiro e frágil ou as duas […]
- [Amalia Bautista – O Anjo Perplexo](https://singularidadepoetica.art/2018/01/11/amalia-bautista-o-anjo-perplexo/): Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, nem ídolo que proteja, nem oração que console; nunca houve milagres ou maravilhas, nem a salvação da alma, nem a vida eterna; nem palavras mágicas, nenhum bálsamo eficaz contra a dor que não desaparece nunca; nem luz do outro lado das sombras, nem saída do túnel, nem esperança. […]
- [Mario Quintana – Envelhecer](https://singularidadepoetica.art/2018/01/10/mario-quintana-envelhecer/): Antes, todos os caminhos iam. Agora todos os caminhos vêm. A casa é acolhedora, os livros poucos. E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
- [Amalia Bautista – Agora](https://singularidadepoetica.art/2018/01/09/amalia-bautista-agora/): Agora que a estrada que devo percorreré um viaduto por sobre uma rodoviado qual dá medo de olhar, porque o abismoimplacável me chama.Agora que morreu a esperançacomo um pássaro jogado de seu ninhopor irmãos mais fortes.Agora que é noite todo dia,inverno todo anoe as semanas só têm segundas-feiras,para onde olhar, para onde voltar os olhos,que […]
- [Marina Tzvietáieva – Você me Amava](https://singularidadepoetica.art/2018/01/08/marina-tsvietaieva-voce-me-amava-poema/): Você me Amava, um poema de Marina Tsvetáieva
- [Manuel António Pina - Sob Escombros](https://singularidadepoetica.art/2018/10/20/manuel-antonio-pina-sob-escombros/): Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir o silêncio do mundo pulsando onde tu também eras mundo, coisa pulsante. Extinguiu-se esse canto não na morte mas na vida excluída da clarividência da infância e de tudo o que pulsa, fins e começos, e corrompida pela estridência e pela heterogeneidade. Agora respondes […]
- [John Mateer - s/ título](https://singularidadepoetica.art/2018/10/19/john-mateer-a-sede-entre-os-limites/): Este poema vai ser escrito com um livro de fotografias em mente, comemorando esse retrato da jovem estudante de história de arte que se tornaria a mulher do fotógrafo, a mãe do seu filho, ela que se atiraria de uma janela do apartamento deles, e que, por ter existido, proliferaria, como tudo o que pode […]
- [Jaime Sabines - Algo sobre a Morte do Major Sabines](https://singularidadepoetica.art/2018/10/18/jaime-sabines-algo-sobre-a-morte-do-major-sabines/): Primeira Parte I Deixa-me repousar, relaxar os músculos do coração e colocar a alma para dormir para poder falar, para poder recordar estes dias, os mais longos dos tempos. Mal convalescemos da angústia e estamos fracos, assustados, despertando duas ou três vezes do nosso escasso sonho para ver-te na noite e saber que respiras. Precisamos […]
- [Vitor Nogueira - Domingo](https://singularidadepoetica.art/2018/10/17/vitor-nogueira-domingo/): Acordamos com o céu encostado no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam o domingo, a partir do alto das montanhas. E aqui continuamos, agarrados a nós próprios, como dois miúdos que não têm para onde ir. Estamos presos ao sofá unicamente porque sim, nem tristes nem alegres, metidos no roupão e nos chinelos, pequenos cadeados […]
- [Antonia Pozzi - Desalento](https://singularidadepoetica.art/2018/10/16/antonia-pozzi-desalento/): Tristeza destas minhas mãos demasiado pesadas para não abrirem feridas, demasiado leves para deixarem marca – tristeza desta minha boca que diz as mesmas palavras que tu – significando outras coisas – e esta é a expressão da mais desesperada distância. Trad.: Inês Dias Sfiducia Tristezza di queste mie mani troppo pesanti per non aprire […]
- [Nuno Júdice - Outra Imagem](https://singularidadepoetica.art/2018/10/15/nuno-judice-outra-imagem/): Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terra Por cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos. Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomes Familiares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros – música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campas ao fim da tarde, com […]
- [Joan Margarit - A moça do semáforo](https://singularidadepoetica.art/2018/10/14/joan-margarit-a-moca-do-semaforo/): Tens a mesma idade que eu tinha quando comecei a sonhar em encontrar-te. Então ignorava, assim como tu o ignoras, que o amor se transforma na arma carregada de solidão e de melancolia que agora está apontada para ti nos meus olhos. Tu és a moça que busquei durante tanto tempo quando ainda não existias. […]
- [Manuel António Pina - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2018/10/13/manuel-antonio-pina-os-mortos/): Eu sei, é preciso esquecer, desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los, os nossos mortos anseiam por morrer e só a nossa dor pode matá-los. Tanta memória! O frenesim escuro das suas palavras comendo-me a boca, a minha voz numerosa e rouca de todos eles desprendendo-se de mim. Porém como esquecer? Com que palavras […]
- [Alfonsina Storni - Leva-me](https://singularidadepoetica.art/2018/10/12/alfonsina-storni-leva-me/): Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar; Ata-me a tua alma; a alva a brilhar. Toma-me pelas mãos como em um branco casulo E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho. Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!… A morte caça pelo mundo tal qual harpia. Faz-me esquecer o muito que me […]
- [Mário Cesariny - "de profundis amamus"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/11/mario-cesariny-de-profundis-amamus/): Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidos por natureza própria Andámos dez quilómetros a pé ninguém nos viu passar excepto claro os porteiros é da natureza das coisas ser-se visto pelos porteiros Olha como só tu sabes olhar a rua os costumes O […]
- [Rui Pires Cabral – Nunca se Sabe](https://singularidadepoetica.art/2018/10/10/rui-pires-cabral-nunca-se-sabe/): Papéis velhos com poemas: são o joio das gavetas. Relê-los causa aversão e uma espécie de tristeza arrependida – são tão nossos como as más recordações e ainda vemos a circunstância precisa, a causa, a ferida, por detrás de cada um. Mas na altura havia esperança: é isso que representam. Não pelas coisas que dizem […]
- [Amalia Bautista – Ver o Sol](https://singularidadepoetica.art/2018/10/09/amalia-bautista-ver-o-sol/): Leia "Ver o Sol", de Amalia Bautista, um poema breve e intenso sobre desilusão amorosa, percepção e as difíceis verdades da experiência humana.
- [José Mateos - Caminhantes na Neblina](https://singularidadepoetica.art/2018/10/08/jose-mateos-caminhantes-na-neblina/): Símbolo da morte é esta neblina que hoje me envolve nos ecos do bosque solitário, que apaga os caminhos e tudo iguala, que faz mais longe o próximo? Assim será a morte? Ouvir ao lado as pessoas que amamos e não vê-las? Saber que em nossa casa nos aguardam, e não poder, e não saber […]
- [José Tolentino Mendonça – Calle Principe, 25](https://singularidadepoetica.art/2018/10/07/jose-tolentino-mendonca-calle-principe-25/): Perdemos repentinamente a profundidade dos campos os enigmas singulares a claridade que juramos conservar mas levamos anos a esquecer alguém que apenas nos olhou
- [Angela Figuera Aymerich - Princípio e Fim (na morte de minha mãe)](https://singularidadepoetica.art/2018/10/06/angela-figuera-aymerich-principio-e-fim-na-morte-de-minha-mae/): Já tenho minha raiz debaixo da terra. Já um pouco morta contigo, mãe, há algo da minha vida que se decompõe contigo, com teus ossos delicados, com tuas veias azuis, com teu ventre que côncavo sofreu, dando-me forma. Na ignorância, mãe, não no pecado mostraste-me como a vida brota. Como a carne cresce e se […]
- [Spencer Reece - Portofino](https://singularidadepoetica.art/2018/10/05/spencer-reece-portofino/): Prometa-me que você não esquecerá Portofino. Prometa-me que você encontrará o trompe l’oeil nas paredes daquele quarto no Splendido. As paredes que criam um cenário em que você não pode entrar. Talvez então você compreenda esse anseio por permanência do qual sempre lhe falei. Além do porto? Uma capela amarela. Um penhasco. Prometa-me que você […]
- [Jesús Jiménez Domínguez - A Ponte no Nevoeiro](https://singularidadepoetica.art/2018/10/04/jesus-jimenez-dominguez-a-ponte-no-nevoeiro/): Detenho-me a meio do caminho e ouço. Num extremo aquele que fui grita-me: Espera-me! No outro, aquele que serei sussurra-me: Segue-me. E a ponte, eterna, não aguenta o peso dos três. Trad.: Maria Sousa El Puente en la Niebla Me detengo a mitad del recorrido y escucho. En un extremo aquel que fui me grita: […]
- [José Gomes Ferreira - Viver Sempre Também Cansa!](https://singularidadepoetica.art/2018/10/03/jose-gomes-ferreira-viver-sempre-tambem-cansa/): Viver sempre também cansa! O sol é sempre o mesmo e o céu azul ora é azul, nitidamente azul, ora é cinza, negro, quase verde… Mas nunca tem a cor inesperada. O Mundo não se modifica. As árvores dão flores, folhas, frutos e pássaros como máquinas verdes. As paisagens não se transformam Não cai neve […]
- [Chico Amaral e Samuel Rosa - As Noites](https://singularidadepoetica.art/2018/10/02/chico-amaral-e-samuel-rosa-as-noites-2/): As ruas desse lugar Conhecem bem As noites longas, as noites pálidas Quando eu te procurava As casas desse lugar Se lembrarão Do nosso abraço, da sombra insólita Espelho azul no chão As ruas desse lugar Agora eu sei Sempre escutaram a nossa música Quando eu te respirava As pedras municipais Se impregnaram Da dupla […]
- [Pierre de Ronsard - Quando fores bem velha...](https://singularidadepoetica.art/2018/10/01/pierre-de-ronsard-quando-fores-bem-velha/): Quando fores bem velha, à noite junto à vela, Sentada ao pé do fogo, enovelando e fiando, Dirás, cantando os versos meus e te enlevando: “Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela”. Então nem haverá, ouvindo o recital, Serva, ao fim do trabalho e semi-sonolenta, Que, com som do meu nome, não desperte […]
- [Joan Margarit - Era Rubra](https://singularidadepoetica.art/2018/09/30/joan-margarit-era-rubra/): A Àlex Susanna Tanto tempo demoraste a aprender que estás atrasado para o grande amor: que nunca viveste uma era de ouro. As rosas de Ronsard jamais serão perfume em teu olhar, nenhum outono haverá de desfolhar morosas pétalas nos braços de ninguém. Com negligência tapas os espelhos como era costume em casas onde havia […]
- [Joan Margarit - A partida](https://singularidadepoetica.art/2018/09/29/joan-margarit-a-partida/): Definitivamente, este é o meu Outono, um tempo de alianças impossíveis, a era rubra de todos os perigos para homens maduros e mulheres solitárias. A idade do adultério e da desmemória sem nenhuma esperança, a era do gelo, a partida final contra mim mesmo. Mantenho-me à mesa, sem esperar pela sorte, já não há chances […]
- [Manuel António Pina - Estarei ainda muito perto da luz?](https://singularidadepoetica.art/2018/09/28/manuel-antonio-pina-estarei-ainda-muito-perto-da-luz/): Estarei ainda muito perto da luz? Poderei esquecer estes rostos,estas vozes, e ficar diante do meu rosto? Às vezes,como num sonho, vejo formas como um rosto e pergunto: “De quem é este rosto?” E ainda: “Quem pergunta isto?” E: “E com quem fala?” Estarei ainda longe de Ti, quem quer que sejas ou eu seja? […]
- [Maria do Rosário Pedreira – O Último Abraço](https://singularidadepoetica.art/2018/09/27/maria-do-rosario-pedreira-o-ultimo-abraco/): Este foi o nosso último abraço. E quando, daqui a nada, deixares o chão desta casa encostarei amorosamente os lábios ao teu copo para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos. E então, sim, poderei também eu partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida foi mais, muito mais, do que mereci.
- [Bruno Gouveia e Miguel Cunha – Impossível](https://singularidadepoetica.art/2018/09/26/bruno-gouveia-e-miguel-cunha-impossivel/): Biquíni Cavadão Tudo bem quando termina bem E os seus olhos, e os seus olhos não estão rasos d’água Mas eu sei que no coração ficaram muitas palavras Um vocabulário inteiro de ilusão Tudo que viceja também pode agonizar E perder seu brilho em poucas semanas E não podemos evitar que a vida trabalhe com […]
- [Giuseppe Ghiaroni – A máquina de escrever](https://singularidadepoetica.art/2018/09/25/giuseppe-ghiaroni-a-maquina-de-escrever/): Mãe, se eu morrer de um repentino mal, vende meus bens a bem dos meus credores: a fantasia de festivas cores que usei no derradeiro Carnaval. Vende esse rádio que ganhei de prêmio por um concurso num jornal do povo, e aquele terno novo, ou quase novo, com poucas manchas de café boêmio. Vende também […]
- [Pedro Mexia – Paráfrase](https://singularidadepoetica.art/2018/09/24/pedro-mexia-parafrase/): Este poema começa por te comparar com as constelações, com os seus nomes mágicos e desenhos precisos, e depois um jogo de palavras indica que sem ti a astronomia é uma ciência infeliz. Em seguida, duas metáforas introduzem o tema da luz e dos contrastes petrarquistas que existem na mulher amada, no refúgio triste da […]
- [David Mourão-Ferreira - Praia do Paraíso](https://singularidadepoetica.art/2018/09/23/david-mourao-ferreira-praia-do-paraiso/): Era a primeira Vez que nus os nossos corpos Apesar da penumbra à vontade se olhavam Surpresos de saber que tinham tantos olhos Que podiam ser luz de tantos candelabros Era a primeira vez cerrados os estores Só o rumor do mar permanecera em casa E sabias a sal, e cheiravas a limos Que tivesses […]
- [Antonia Pozzi - Canto da Minha Nudez](https://singularidadepoetica.art/2018/09/22/antonia-pozzi-canto-da-minha-nudez/): Olha para mim: estou nua. Da inquieta languidez da minha cabeleira até à tensão fina do meu pé, sou toda de uma magreza amarga envolta numa cor de marfim. Olha: como é pálida a minha carne. Dir-se-ia que o sangue não a percorre. O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida pulsação azul se esbate no […]
- [Amalia Bautista – Contra 'Remedia Amoris'](https://singularidadepoetica.art/2018/09/21/amalia-bautista-contra-remedia-amoris/): Não sou desse género de mulheresincapazes de amor e de ternura.Odeio o sacrifício e repugna-mea vaidade que nasce da violência,mas sei o que é valor e o que é sangue.Quero ser a mulher de um mercenário,de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.Porque sei olhar nos olhos dos homens.Conheço quem merece a minha ternura. […]
- [Eugénio de Andrade – As Mãos](https://singularidadepoetica.art/2018/09/20/eugenio-de-andrade-as-maos/): Que tristeza tão inútil essas mãos que nem sequer são flores que se dêem: abertas são apenas abandono, fechadas são pálpebras imensas carregadas de sono.
- [João Cabral de Melo Neto – de "Os Três Mal Amados"](https://singularidadepoetica.art/2018/09/19/joao-cabral-de-melo-neto-de-os-tres-mal-amados/): Trecho de “Os Três Mal Amados”, de João Cabral de Melo Neto, em que o amor surge como força devoradora que corrói identidade, memória e futuro, deixando o sujeito reduzido à própria perda.
- [Rui Pires Cabral - «He loved beauty that looked kind of destroyed»](https://singularidadepoetica.art/2018/09/18/rui-pires-cabral-he-loved-beauty-that-looked-kind-of-destroyed/): Gostava dessa espécie de beleza que podemos surpreender a cada passo, desvelada pelo acaso numa esquina de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta que foi toda a infância de alguém, com visitas ao domingo e tardes no quintal depois da escola; a beleza crepuscular de alguns rostos num retrato de família a preto e […]
- [Nuno Júdice - Como Aves, Cuja Passagem](https://singularidadepoetica.art/2018/09/17/nuno-judice-como-aves-cuja-passagem/): Como sombras passaram entre nós, como sombras. Uma vez perante alguns amigos e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei os seus nomes. Mas o que não correspondia a um acto heroico, nada significava hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. Só se eu próprio me tornar uma sombra, e também eu passar a uma outra vida. Durante […]
- [Hilda Hilst : Dez chamamentos ao amigo](https://singularidadepoetica.art/2018/09/16/hilda-hilst-dez-chamamentos-ao-amigo/): I Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. E era como se a água Desejasse Escapar de sua casa que é o rio E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há um tempo Entendo que sou terra. Há tanto […]
- [Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe](https://singularidadepoetica.art/2018/09/15/tamara-kamenszain-o-eco-de-minha-mae/): Não posso narrar. Que pretérito me serviria se minha mãe já não se afasta mais de mim? Exúbere então me detenho ante um estado de coisas demasiado presente: ser a descuidada que dela cuida enquanto outros a negligenciam por mim. São as pessoas que me restaram e a gramática se torna um escândalo quando ela […]
- [Anna Akhmátova – Último Brinde](https://singularidadepoetica.art/2018/09/14/anna-akhmatova-ultimo-brinde/): Bebo ao lar em pedaços,À minha vida feroz,À solidão dos abraçosE a ti, num brinde, ergo a voz… Ao lábio que me traiu,Aos mortos que nada veem,Ao mundo, estúpido e vil,A Deus, por não salvar ninguém. Trad.: Rubens Figueiredo Последний тост Я пью за разоренный дом,За злую жизнь мою,За одиночество вдвоем,И за тебя я […]
- [Rui Lage - EN 314](https://singularidadepoetica.art/2018/09/13/rui-lage-en-314/): Ardidas há muito as velas de ignição que davam centelha ao meu antigo e primeiro coração. Agora sou apenas um ponto morto, sem tração: rolo sem atrito mas também sem aflição. A estrada adormece em bosques propícios a emboscadas, mas já não tenho crenças que mereçam ser cobiçadas. E os meus sonhos, até os meus […]
- [Albano Martins - Haicais](https://singularidadepoetica.art/2018/09/12/albano-martins-haicais/): Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por […]
- [Manuel António Pina - de "Cuidados Intensivos"](https://singularidadepoetica.art/2018/09/11/manuel-antonio-pina-cuidados-intensivos/): I “A esta hora e neste sítio (miocárdio ventricular esquerdo) é a abstracta vida que me assalta. Eles não sabem que o seu coração pulsa, ferido, no meu coração, que a minha dor alheia vagarosamente mata os seus sonhos, os seus sentidos, os seus dias visíveis e invisíveis, a linha dos telhados ao longe sobre […]
- [Eunice de Souza – Convite](https://singularidadepoetica.art/2018/09/10/eunice-de-souza-convite/): Tenta-me com uma visão de colinas relva que é verde pavões tão vulgares como pardais. Podemos ler no pátio, diz ela, ouvindo o picapau às voltas com a sua árvore, admirar as rosas, colher fruta, contar estrelas. Traga a tia, os cães, o periquito, diz, escreva um ou dois poemas felizes. De vez em quando, […]
- [José Mateos - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2018/09/09/jose-mateos-in-memoriam/): Para Pedro Sevilla Sempre, frente à dor, estamos sozinhos, não se quer viver, e tu sabes disso. Há um instante viste, na penumbra de um quarto de hospital, a mão hirta, seu rosto naufragado que o lençol cobriu. E era como mirar-se em um espelho e ver que somos menos que essa ausência, menos que […]
- [Elisa Lucinda - Do Efêmero Presente](https://singularidadepoetica.art/2018/09/08/elisa-lucinda-do-efemero-presente/): Às vezes passo um dia e sinto que o perdi. Um dia sem importâncias dentro dele, sem fruto, sem feito, metade avião, metade hotel. Mas que mania é essa de querer que o pobre do dia seja sempre cheio de tarefas? Um dia escravinho, sofrendo na senzala calendário. Ora essa, tem gente que dorme quase […]
- [Paulo Henriques Britto - Entrevista](https://singularidadepoetica.art/2018/09/08/paulo-henriques-britto-entrevista/): Ótima entrevista concedida por Paulo Henriques Britto (para mim, o melhor poeta brasileiro vivo) a Ramon Ramos, e publicada no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco. Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1952), além de poeta, é contista, tradutor e professor da PUC-Rio. Sua obra poética, desde a estreia em Liturgia da […]
- [Joan Margarit - Ulisses nas Águas de Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2018/09/07/joan-margarit-ulisses-nas-aguas-de-itaca/): Estás chegando a ilha e agora sabes o que é o acaso. Viver, o que significa. Teu arco será poeira em uma estante. Poeira será o tear e a peça que ele tece. Os pretendentes, que no pátio acampam, são sombras dos sonhos de Penélope. Estás chegando a ilha enquanto explode o mar contra as […]
- [Vitor Nogueira - Formol](https://singularidadepoetica.art/2018/09/06/vitor-nogueira-formol/): A casa por sob o sótão. O sótão por sobre a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre o mundo. À volta desta praça, quis o tempo conservados em formol os edifícios, esquinas de onde surgem cada vez mais perguntas sem aviso. Escondida pela fachada do liceu há-de estar ainda a […]
- [Kenneth Rexroth – Leão](https://singularidadepoetica.art/2018/09/05/kenneth-rexroth-leao/): O leão é chamado de rei Dos animais. Atualmente existem Quase tantos leões Em jaulas quanto fora delas. Se te oferecerem uma coroa, recusa. Trad.: José Antônio Cavalcanti Lion The lion is called the king Of beasts. Nowadays there are Almost as many lions In cages as out of them. If offered a crown, refuse.
- [Ruy Belo – Através da chuva e da névoa](https://singularidadepoetica.art/2018/09/04/ruy-belo-atraves-da-chuva-e-da-nevoa/): Chovia e vi-te entrar no mar longe de aqui há muito tempo já ó meu amor o teu olhar o meu olhar o teu amor Mais tarde olhei-te e nem te conhecia Agora aqui relembro e pergunto: Qual é a realidade de tudo isto? Afinal onde é que as coisas continuam e como continuam se […]
- [João Luís Barreto Guimarães - Um Quarto de Hotel em Madrid](https://singularidadepoetica.art/2018/09/04/joao-luis-barreto-guimaraes-um-quarto-de-hotel-em-madrid/): Não se chega a pertencer nunca a um quarto de hotel. Não se lhe ganha afecto (não é nosso por inteiro) se é certo que amanhã outro dono estará emoldurado ao espelho. Não se chega a confiar nele (não se lhe lega segredos) sequer a palavra impudica expurgada da pele pela toalha de banho. Não […]
- [Henri Michaux – Nós dois ainda](https://singularidadepoetica.art/2018/09/02/henri-michaux-nos-dois-ainda/): 1948 Música do fogo, tu não soubeste tocar. Lançaste sobre a minha casa um pano negro. O que é este opaco em toda a parte? É o opaco que tapou o meu céu. O que é este silêncio em toda a parte? É o silêncio que calou o meu canto. * De esperança tinha-me bastado […]
- [Amalia Bautista - Nada Sabemos](https://singularidadepoetica.art/2018/09/01/amalia-bautista-nada-sabemos/): Nunca saberemos se os enganadossão os sentidos ou os sentimentos,se viaja o comboio ou a nossa ânsia,se as cidades mudam de lugarou se todas as casas são a mesma.Nunca saberemos se quem nos esperaé quem deve esperar-nos, nem sequerquem temos de esperar no meio de umaplataforma fria. Nada sabemos.Avançamos às cegas, perguntandose isto que se […]
- [Maria Lúcia Alvim - Nosferatu](https://singularidadepoetica.art/2018/08/31/maria-lucia-alvim-nosferatu/): Não era bem isso que eu queria, no entanto, ele veio. Olho de vidro, dente de espada, sopro de guerreiro afeito à noite. – Por que tarda tanto o teu amanhecer sob a capa? – Porque veio? perguntei. E ele debruçava, derramava sobre mim um jeito de morrer.
- [Luís Felipe Castro Mendes – Estóicos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/30/luis-felipe-castro-mendes-estoicos/): Deixa-te ficar comigo à beira do rio. Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza nem a sedução da mocidade. Se te falarem dos deuses, finge entender. E se chamarem poeta ao dono do circo, concorda gravemente.
- [Víctor Botas - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/29/victor-botas-collige-virgo-rosas/): Não falta quem suponha que em sessenta bilhões de anos voltaremos a ser como agora (aparentemente o Espaço se dilata para logo, elástico, encolher-se e novamente outra vez dilatar-se), repetindo tu, as profundidades desses olhos, eu, este esperar a morte de tua mão agônica nas minhas, aqui mesmo, neste lugar. Mas, caso seja tudo uma […]
- [Luis Alberto de Cuenca - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/28/luis-alberto-de-cuenca-collige-virgo-rosas/): Moça, colhe as rosas, não esperes a manhã. Corta-as velozmente, desaforadamente, sem parar para pensar se elas são más ou boas. Que não sobre nenhuma. Poliniza os rosais que encontrares em teu caminho e deixa os espinhos para tuas colegas do colégio. Desfruta da luz e do ouro enquanto podes e consagra tua beleza a […]
- [Felipe Benitez Reyes - "Collige Rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/27/felipe-benitez-reyes-collige-rosas/): Consumir este dia como se fosse o último. Queima-lo como o último cigarro que restou ao insone. Retarda-lo nos lábios como a sílaba última de uma fórmula mágica. Que dependa dele – como a moeda que o suicida reticente lança ao ar – o exato sentido da vida essa confusão de quimeras que morrem nas […]
- [Francisco Brines - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/26/francisco-brines-collige-virgo-rosas/): Estás já com quem queres. Ri e goza. Ama. E anima-te na noite que agora começa, e entre tantos amigos (e comigo) abre os grandes olhos para a vida com a avidez preciosa de tua idade. A noite, longa, há de acabar ao amanhecer, e virão esquadrões de espiões com a luz, apagar-se-ão as estrelas, […]
- [Garcilaso de la Vega - Soneto XXIII](https://singularidadepoetica.art/2018/08/25/garcilaso-de-la-vega-soneto-xxiii/): Enquanto que de rosa e de açucena se mostra toda a cor neste teu rosto, enquanto o teu olhar ardente, honesto, acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjas do ouro se escolheu, com voo presto, sobre o formoso colo branco, ereto, o vento move, espalha e desarranja: colhe […]
- [Jorge Luis Borges - Cristo na Cruz](https://singularidadepoetica.art/2018/08/24/jorge-luis-borges-cristo-na-cruz/): Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.Os três madeiros são de igual altura.Cristo não é o do meio. É o terceiro.A negra barba pende sobre o peito.O rosto não é este das gravuras.É áspero e judeu. Mas não o vejoE vou buscá-lo sempre até o diaDe meu último passo sobre a terra.O homem alquebrado […]
- [Francisco Brines - Os Prazeres Inferiores](https://singularidadepoetica.art/2018/08/23/francisco-brines-os-prazeres-inferiores/): Não desdenhes as paixões vulgares Tens os anos necessários para saber que elas se correspondem exatamente com a vida. Não reduzas sua ação, pois se do breve tempo em que consistes as retiras, é ainda o existir mais imperfeito. Descobre sua verdade por trás da aparência, e assim não haverá falsidade, não poderás fingir que […]
- [Amalia Bautista - Os Teus Olhos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/22/amalia-bautista-os-teus-olhos/): Quando já se esgotaram os caminhos que a razão poderia aconselhar-nos abrem-se os teus olhos: com eles tudo volta a inundar-se da luz escura que dá sentido ao mundo e à minha vida. Trad.: Inês Dias Tus Ojos Cuando se han agotado los caminos que la razón podría aconsejarnos se abren tus ojos, y con […]
- [Joan Margarit - Espaço e Tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/08/21/joan-margarit-espaco-e-tempo/): E de repente a casa é demasiado grande. Tua mãe e eu esvaziamos teus armários e seguimos por mesas e prateleiras, de retrato em retrato, teus sorrisos. À noite os espelhos, sob a luz elétrica, expõem com mais ênfase o teu vazio. Os móveis são agora mais escuros. Pela escada desce a cálida balaustrada que […]
- [Manuel António Pina - Amor como em Casa](https://singularidadepoetica.art/2018/08/20/manuel-antonio-pina-amor-como-em-casa/): Amor como em casa, um poema de Manuel António Pina
- [Antonia Pozzi – Grito](https://singularidadepoetica.art/2018/08/19/antonia-pozzi-grito/): Não ter um Deus não ter um túmulo não ter nada de certo mas apenas coisas vivas que nos fogem – existir sem ontem existir sem amanhã e cegar no vazio – socorro – pelo sofrimento que não tem fim – 10 de fevereiro de 1932 Trad.: Inês Dias Grido Non avere un Dio non […]
- [Miguel Torga – Sísifo](https://singularidadepoetica.art/2018/08/18/miguel-torga-sisifo-poema/): Sísifo, um poema de Miguel Torga
- [Rainer Maria Rilke – O Poeta](https://singularidadepoetica.art/2018/08/17/rainer-maria-rilke-o-poeta/): Já te despedes de mim, Hora. Teu golpe de asa é o meu açoite. Só: da boca o que faço agora? Que faço do dia, da noite? Sem paz, sem amor, sem teto, caminho pela vida afora. Tudo aquilo em que ponho afeto fica mais rico e me devora. Trad.: Augusto de Campos Der Dichter […]
- [Jane Hirshfield - O Homem Gentil](https://singularidadepoetica.art/2018/08/16/jane-hirshfield-o-homem-gentil/): Eu vendi o relógio do meu avô, seu ouro nacarado e padrões pontilhados, para ser derretido. Engrenagem condenada. Tampa faltando. Corrente — deve ter havido uma — faltando. Números que foram pintados com um única e hábil cerda. Dei corda na coroa antes de entrega-lo por sobre o balcão. O homem gentil agarrou o que […]
- [Rui Pires Cabral - "Are Others Happier?"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/15/rui-pires-cabral-are-others-happier-poema/): "Are Others Happier?", um poema de Rui Pires Cabral
- [Joan Margarit - Despedir-se](https://singularidadepoetica.art/2018/08/14/joan-margarit-despedir-se/): Removi tapetes e cortinas, todas as mesas em que há tempos não como nem escrevo. Tirei os quadros e pintei as paredes para apagar os sinais dos anos. Guardo uns poucos livros. Sei bem quais. Destruí cartas de amor que não me amavam mais. Silenciosos, agora, os amores são icebergs errantes do pensamento. A casa, […]
- [Manuel António Pina - Os Gatos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/13/manuel-antonio-pina-os-gatos/): Há um deus único e secretoem cada gato inconcretogovernando um mundo efémeroonde estamos de passagem Um deus que nos hospedanos seus vastos aposentosde nervos, ausências, pressentimentos,e de longe nos observa Somos intrusos, bárbaros amigáveis,e compassivo o deuspermite que o sirvamose a ilusão de que o tocamos
- [Stein Mehren – Grandes Perguntas](https://singularidadepoetica.art/2018/08/12/stein-mehren-grandes-perguntas/): As grandes perguntas não têm soluções, não têm resposta Grandes perguntas não são feitas para serem respondidas Mas para serem vividas Os maiores mistérios continuam sendo mistérios. E na condição de mistérios permitem apreender nosso lugar no mundo, posto que inevitavelmente nos colocam em nossos devidos lugares dentro de nós mesmos. Trad.: Ana Cristina de […]
- [Ruy Belo – Muriel](https://singularidadepoetica.art/2018/08/11/ruy-belo-muriel/): Às vezes se te lembras procurava-te retinha-te esgotava-te e se te não perdia era só por haver-te já perdido ao encontrar-te Nada no fundo tinha que dizer-te e para ver-te verdadeiramente e na tua visão me comprazer indispensável era evitar ter-te Era tudo tão simples quando te esperava tão disponível como então eu estava Mas […]
- [Lêdo Ivo – O Dia dos Homens](https://singularidadepoetica.art/2018/08/10/ledo-ivo-o-dia-dos-homens/): Viver é preciso. Não existe inferno nem paraíso. Apenas o chão. E uma persistente chuva de verão.
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Apesar das ruínas e da morte](https://singularidadepoetica.art/2018/08/09/sophia-de-mello-breyner-andresen-apesar-das-ruinas-e-da-morte/): Apesar das ruínas e da morte,Onde sempre acabou cada ilusão,A força dos meus sonhos é tão forte,Que de tudo renasce a exaltaçãoE nunca as minhas mãos ficam vazias. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ryane Leão – "Você é uma frase bonita"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/08/ryane-leao-voce-e-uma-frase-bonita/): você é uma frase bonita dessas que a gente sublinha no livro faz tatuagem, conta pra todo mundo dessas que dividem a gente em antes e depois
- [Sonja Åkesson – Primavera e Outono, Verão e Inverno](https://singularidadepoetica.art/2018/08/07/sonja-akesson-primavera-e-outono-verao-e-inverno/): A grade que enferrujou. O pão que empedrou. O vento que correu em busca de uma caixa d’água. Primavera e outono, verão e inverno. Isso foi tudo. E é claro, a morte também sonolenta e bem empanturrada como um gato castrado bocejando enquanto as estações do ano vão e voltam deixando um gosto amargo em […]
- [Nuno Júdice – Carpe Diem](https://singularidadepoetica.art/2018/08/06/nuno-judice-carpe-diem/): Confias no incerto amanhã? Entregas às sombras do acaso a resposta inadiável? Aceitas que a diurna inquietação da alma substitua o riso claro de um corpo que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos, os instantes; e nos lábios dessa que amaste morre um fim de frase, deixando a dúvida definitiva. Um nome […]
- [Manuel António Pina - Farewell Happy Fields - IV](https://singularidadepoetica.art/2018/08/05/manuel-antonio-pina-farewell-happy-fields-iv-poema/): Farewell Happy Fields - IV, um poema de Manuel António Pina
- [Ivan Junqueira – Hoje](https://singularidadepoetica.art/2018/08/04/ivan-junqueira-hoje/): A sensação oca de que tudo acabou o pânico impresso na face dos nervos o solitário inverno da carne a lágrima, a doce lágrima impossível… e a chuva soluçando devagar sobre o esqueleto tortuoso das árvores
- [Assionara Souza – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/03/assionara-souza-a-mulher-de-lot/): Um passo atrás Enquanto a cidade desaba Todos correndo Um tumulto dos diabos O filho, a filha, o marido A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz Como se ela não soubesse Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida Ele […]
- [Wislawa Szymborska – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/02/wislawa-szymborska-a-mulher-de-lot/): Dizem que olhei para trás curiosa. Mas quem sabe eu também tinha outras razões. Olhei para trás de pena pela tigela de prata. Por distração – amarrando a tira da sandália. Para não olhar mais para a nuca virtuosa do meu marido Lot. Pela súbita certeza de que se eu morresse ele nem diminuiria o […]
- [Anna Akhmátova – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/01/anna-akhmatova-a-mulher-de-lot/): A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás e transformou-se numa estátua de sal. Gênesis E o homem justo seguiu o enviado de Deus, alto e brilhante, pelas negras montanhas. Mas a angústia falava bem alto à sua mulher: “Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar as rubras torres da […]
- [Arnaldo Antunes – Lugar Nenhum](https://singularidadepoetica.art/2018/07/31/titas-lugar-nenhum-2/): [youtube https://www.youtube.com/watch?v=E5iMIFJ-vLU&w=560&h=315] Não sou brasileiro Não sou estrangeiro Não sou brasileiro Não sou estrangeiro Eu não sou de nenhum lugar Sou de lugar nenhum Sou de lugar nenhum Não sou de São Paulo Não sou japonês Não sou carioca Não sou português Não sou de Brasília Não sou do Brasil Nenhuma pátria me pariu Eu […]
- [Francisco José Viegas – O Estoril](https://singularidadepoetica.art/2018/07/30/francisco-jose-viegas-o-estoril-poema/): O Estoril, um poema de Francisco José Viegas
- [Knut Hamsun – Em cem anos, tudo estará esquecido](https://singularidadepoetica.art/2018/07/29/knut-hamsun-em-cem-anos-tudo-estara-esquecido/): Reviro-me insone por noites a fio, qual náufrago num barco adernando, e tudo por que tanto tenho sofrido ao fim sempre vem dar em pranto. Mas por que sofrer tanto? Em cem anos, tudo estará esquecido. Num sobressalto me vejo cantando personagem da própria labuta. Comungo com Deus qual gigante desperto e a mesa com […]
- [Vitor Nogueira - Sala](https://singularidadepoetica.art/2018/07/28/vitor-nogueira-sala-poema/): Sala, um poema de Vitor Nogueira
- [Miriam Reyes - Imóvel](https://singularidadepoetica.art/2018/07/27/miriam-reyes-imovel/): abandonado a teu peso de homem imóvel olhas-me com antiquíssimos ressentimentos. Ouve-me bem: sou inocente de teu passado não sou a tua puta mãe nem a tua enferma mãe nem a tua louca mãe embora seja uma puta louca. Não mereço receber agressões alheias, atrasadas e caducas. Não projetes em mim os fantasmas de tua […]
- [Joan Margarit - Um pobre instante](https://singularidadepoetica.art/2018/07/26/joan-margarit-um-pobre-instante/): A morte não é mais do que isto: um quarto, a luminosa tarde na janela, e este toca-fitas na mesinha tão desligado como o teu coração com todas as tuas canções cantadas para sempre. Teu último suspiro segue dentro de mim, todavia em suspenso: não deixo que termine. Sabes qual é, Joana, o próximo concerto? […]
- [Manuel António Pina - Teoria das Cordas](https://singularidadepoetica.art/2018/07/25/manuel-antonio-pina-teoria-das-cordas-poema/): Teoria das Cordas, um poema de Manuel António Pina
- [Josep M. Rodríguez – Equação](https://singularidadepoetica.art/2018/07/24/josep-m-rodriguez-equacao/): De pé neste penhasco, aceito a mentira da paisagem. Tudo é inacessível: o orvalho – que é suor vegetal – e o comboio que passa. Uma cegonha voa a preto e branco. Tem o seu ninho no cimo da igreja que fica junto ao cemitério. Estranho paradoxo, a pedra testemunha a fugacidade, a carne é […]
- [Renato Russo – Música Urbana 2](https://singularidadepoetica.art/2018/07/23/legiao-urbana-musica-urbana-2/): [wpvideo ktLJm0wd] Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana Motocicletas querendo atenção às três da manhã É só música urbana Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música […]
- [Miquel Martí i Pol - Tua Solidão](https://singularidadepoetica.art/2018/07/22/miquel-marti-i-pol-tua-solidao/): Enquanto puderes, não desperdices tua solidão, dedicando-a a uma absurda busca do nada, nem persigas a ti próprio obsessivamente por escuras galerias. Assustado pela luz dos preceitos. Sai no sol a pino e olha para as coisas difíceis. Considera que o jogo desmedido das palavras não te servirá de nada se não te apoiares naquilo […]
- [Jorge Luis Borges - Elogio da Sombra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/21/jorge-luis-borges-elogio-da-sombra/): A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade. O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e sua alma. Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão. Buenos Aires, que antes se espalhava em subúrbios em direção à planície incessante, […]
- [Joan Margarit - Quando se perde o sinal](https://singularidadepoetica.art/2018/07/20/joan-margarit-quando-se-perde-o-sinal/): À noite, em um pequeno aeroporto, vês um avião que está decolando. Vai-se perdendo o sinal. Sem nenhuma piedade pelo que foste, pois a piedade é demasiado efêmera e não há tempo para construir nada sobre ela, convences-te de que vives, embora sem esperanças, uma época que é a mais feliz de tua vida. Há […]
- [Stein Mehren - A Pedra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/19/stein-mehren-a-pedra/): Eu acumulei tanto tempo em cada grama de matéria, diz a pedra que milhões de anos são um mero piscar de olhos em mim Eu conheço a dor do mundo continua a pedra. O peso que é necessário carregar. Peso que é o sofrimento do mundo em espaços banhados de luz Se ficares totalmente calado […]
- [Doris Lessing - Fábula](https://singularidadepoetica.art/2018/07/18/doris-lessing-fabula/): Quando olho para trás me parece recordar o canto, embora sempre houvesse silêncio naquele largo e cálido salão. Impenetráveis, essas paredes, acreditávamos, escuras como escudos antigos. A luz brilhava na cabeça ou nas pernas esparramadas com indolência por uma menina. E as vozes baixas subiam no silêncio a se perder como a água. Assim, tudo […]
- [Jane Hirshfield - Alzheimer](https://singularidadepoetica.art/2018/07/17/jane-hirshfield-alzheimer/): Quando os ratos roem um tapete velho e de boa qualidade, as cores e os padrões do que resta não se alteram. Como um leito de rocha, inclinado, continua um leito de rocha, as estrias roxas e vermelhas por interromper. Grandeza inata que se não pode roubar. “Como está?”, perguntei, sem saber o que esperar. […]
- [Nuno Júdice – Fotografia](https://singularidadepoetica.art/2018/07/16/nuno-judice-fotografia/): Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso deatget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,e olha para trás, de esguelha, como se quisessemostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-sede nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-seum sorriso que, não se sabe porquê, se esbate comessa espécie de névoa […]
- [Werner Aspenström – Domingo](https://singularidadepoetica.art/2018/07/15/werner-aspenstrom-domingo/): Pela simples razão de que nunca mais voltará hoje é um dia memorável. O sol nasceu no leste e se pôs no oeste, deixou o céu para as estrelas e uma nave espacial nadando no espaço. O rádio falava e cantava através da janela aberta atrás dos pelargônios vermelhos imutáveis. Uma mulher colhia cachos de […]
- [Andreia C. Faria - Descarnação](https://singularidadepoetica.art/2018/07/14/andreia-c-faria-descarnacao/): Até aos trinta anos tens a cara que Deus te deu. Depois tens a cara que mereces. É uma promessa de ironia, uma sentença sem recurso. É-te assim dito: estás entregue ao labor íntimo do que comes, ao número de horas que dormes, àquilo que fazes e sobretudo àquilo em que pensas. Deus (perdoa-lhe a […]
- [Paulo Henriques Britto - Balanços](https://singularidadepoetica.art/2017/01/10/paulo-henriques-britto-balancos/): II Como saber sem tentar? Como tentar se é tão fácil conformar-se de saída com a ideia de fracasso? Pois fracassar justifica o não se ter nem sequer admitido não querer-se aquilo que mais se quer. É um beco sem saída, mas sempre é melhor que a rua: mais estreito. Acolhedor. Vem, entra. A casa […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Quarta Feira de Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/vinicius-de-moraes-soneto-de-quarta-feira-de-cinzas/): Por seres quem me foste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Malgrado a vida dura e atormentada Por seres mais que a simples aventura E menos que a constante namorada Porque te vi nascer de mim […]
- [Wislawa Szymborska - Discurso do Nobel 1996 (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/wislawa-szymborska-discurso-do-nobel-1996-excerto/)
- [Paulo Henriques Britto - Mínima Poética](https://singularidadepoetica.art/2017/01/08/paulo-henriques-britto-minima-poetica/): Poesia como forma de dizer o que de outras formas é omitido— não de calar o que se vive e vê e sente por vergonha do sentido. Poesia como discurso completo, ao mesmo tempo trama de fonemas, artesanato de éter, e projeto sobre a coisa que transborda o poema (se bem que dele próprio projetada). […]
- [Paulo Henriques Britto - Circular](https://singularidadepoetica.art/2017/01/07/paulo-henriques-britto-circular/): Neste mesmo instante, em algum lugar, alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer. Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar. O que você fizer não muda coisa alguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a […]
- [Paulo Henriques Britto - Biodiversidade](https://singularidadepoetica.art/2017/01/06/paulo-henriques-britto-biodiversidade/): Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, que não requerem prática, oficina, suor. Maneiras mais simpáticas de pagar mico e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, como há quem não se vexe de ler e decifrar essas palavras bestas estrebuchando […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/05/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos/): III Mesmo o mais sólido some sem deixar nenhum vestígio, sem nem se ter (como exige o costume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido — que se dá a posteriori, antes que se deteriore de todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculo ângulo do evento único […]
- [Paulo Henriques Britto - Mosaico](https://singularidadepoetica.art/2017/01/04/paulo-henriques-britto-mosaico/): Os dias a amontoar-se como se rumo a um sentido, algo que se assemelhasse a uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo, claro — o que sabem os dias?) uma estrutura em relevo, espécie de marchetaria, com padrão indecifrável (por não seguir um projeto), mas assim mesmo um resguardo, um remédio […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/03/paulo-henriques-britto-de-biographias-literarias/): V Céu azul. Cores vivas. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo. É talvez domingo. É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagem extremamente, absurdamente nítida. E se fosse menor a claridade, ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Seis Sonetos Soturnos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/02/paulo-henriques-britto-de-seis-sonetos-soturnos/): I A qualquer hora, o que se chama vida pode mudar da água pro vinho. Ou vice- -versa. Cada palavra proferida — uma sentença grave, uma tolice — pode retornar feito um bumerangue capaz de destruir o que encontrar. E nada que se funde em carne e sangue escapa dessas bólides de ar: o amor […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Vai, Ano Velho](https://singularidadepoetica.art/2017/01/01/affonso-romano-de-santanna-vai-ano-velho/): Leia Vai, Ano Velho, de Affonso Romano de Sant'Anna, um poema sobre renovação, esperança e a persistente necessidade humana de sonhar.
- [Paulo Henriques Britto - Madrigal](https://singularidadepoetica.art/2016/12/31/paulo-henriques-britto-madrigal/): Desista: não vai dar certo. O mundo é o mesmo de sempre, desejo é uma coisa cega. Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam, os pés vão aonde não sabem. As cartas estão marcadas: vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo, desejo é uma porta aberta. Desista, […]
- [Paulo Henriques Britto - Cuidado Poeta...](https://singularidadepoetica.art/2016/12/30/paulo-henriques-britto-cuidado-poeta/): Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma. Depois de um certo número de páginas anjos não pousam mais nas entrelinhas. E até a lucidez, essa moderna, também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado, não se resolve com um só lance de dados. Não basta a precisão do gesto […]
- [Paulo Henriques Britto - Soneto Inglês](https://singularidadepoetica.art/2016/12/29/paulo-henriques-britto-soneto-ingles/): A surpresa do amor — quando já não se espera do mundo nada em especial, e a evidência de que os anos vão se acumulando sem nenhum sinal de sentido já não dói nem comove — quando em matéria de felicidade não se deseja mais que uns nove metros quadrados de privacidade para abrigar os […]
- [Paulo Henriques Britto - Crepuscular](https://singularidadepoetica.art/2016/12/28/paulo-henriques-britto-crepuscular/): 1. Chegamos tarde. (Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidade aberta, e uma loucura provisória era a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todo atento, em transe, em trânsito, no assédio a um ou outro flanco do […]
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori II](https://singularidadepoetica.art/2016/12/27/paulo-henriques-britto-memento-mori-ii/): Luz frágil que brota no breu e num rápido relance dá forma e cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que pode às aparências, acredita piamente no sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forças contra o conforto de apagar-se enfim por trás de duas implacáveis pálpebras.
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori I](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-memento-mori-i/): Nenhum sinal da solidão se vê lá onde o amor corrói a carne a fundo. Dentro da pele, no entanto, você é só você contra o mundo. Esta felicidade que abastece seu organismo, feito um combustível, é volátil. Tudo que sobe desce. Tudo que dói é possível.
- [Paulo Henriques Britto - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-acalanto/): Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Três Epifanias Triviais"](https://singularidadepoetica.art/2016/12/25/paulo-henrique-brittos-de-tres-epifanias-triviais/): As coisas que te cercam, até onde alcança tua vista, tão passivas em sua opacidade, que te impedem de enxergar o (inexistente) horizonte, que justamente por não serem vivas se prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção, essas coisas que você usa e esquece assim que larga na primeira mesa — […]
- [Patrícia Pinheiro - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/12/12/patricia-pinheiro-sem-titulo/)
- [Cecília Meireles - De que são feitos os dias?](https://singularidadepoetica.art/2016/12/09/cecilia-meireles-de-que-sao-feitos-os-dias/): De que são feitos os dias? – De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Entre mágoas sombrias, momentâneos lampejos: vagas felicidades, inactuais esperanças. De loucuras, de crimes, de pecados, de glórias – do medo que encadeia todas essas mudanças. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alianças…
- [Nelson Santander - Limiar](https://singularidadepoetica.art/2016/11/21/nelson-santander-limiar-poema/): Limiar, um poema de Nelson Santander
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/ferreira-gullar-os-mortos-2/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Carlos Drummond de Andrade - Retrato de Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/carlos-drummond-de-andrade-retrato-de-familia/): Este retrato de família Está um tanto empoeirado. Já não se vê no rosto do pai Quanto dinheiro ele ganhou. Nas mãos dos tios não se percebem As viagens que ambos fizeram. A avó ficou lisa, amarela, Sem memórias da monarquia. Os meninos, como estão mudados. O rosto de Pedro é tranquilo, Usou os melhores […]
- [Ferreira Gullar - Redundâncias](https://singularidadepoetica.art/2016/11/19/ferreira-gullar-redundancias/): Ter medo da morteé coisa dos vivoso morto está livrede tudo o que é vida Ter apego ao mundoé coisa dos vivospara o morto não há(não houve)raios rios risos E ninguém vive a mortequer morto quer vivomera noção que existesó enquanto existo
- [Ferreira Gullar - Visita](https://singularidadepoetica.art/2016/11/18/ferreira-gullar-visita/): no dia de finados ele foi ao cemitério porque era o único lugar do mundo onde podia estar perto do filho mas diante daquele bloco negro de pedra impenetrável entendeu que nunca mais poderia alcançá-lo Então apanhou do chão um pedaço amarrotado de papel escreveu eu te amo filho pôs em cima do mármore sob […]
- [Ferreira Gullar - A Alegria](https://singularidadepoetica.art/2016/11/17/ferreira-gullar-a-alegria/): O sofrimento não tem nenhum valor. Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança ou a ilusão de uma alegria). Sofres tu, sofre um cachorro ferido, um inseto que o inseticida envenena. Será maior a tua dor que a […]
- [Marcelo Tápia - a pedra volátil](https://singularidadepoetica.art/2016/11/16/marcelo-tapia-a-pedra-volatil-poema/): a pedra volátil, um poema de marcelo tápia
- [Antonio Cicero - Cidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/15/antonio-cicero-cidade/): Para Arthur Nestrovsky Lembro que o futuro era uma cidade nebulosa da qual eu esperava tudo e que, sendo uma cidade, nada esperava de ninguém. Ah, cidade sonhada de avenidas macadâmicas, turbas febris e prédios de granito: o que era que eu perdera e que, perdido e em cacos, buscava nas tuas áridas calçadas e […]
- [Antonio Cicero - Virgem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/14/antonio-cicero-virgem/): Música: Marina Lima As coisas não precisam de você:Quem disse que eu tinha que precisar?As luzes brilham no VidigalE não precisam de você;Os Dois IrmãosTambém não.O Hotel Marina quando acendeNão é por nós doisNem lembra o nosso amor.Os inocentes do Leblon,Esses nem sabem de vocêNem vão querer saberE o farol da Ilha só gira agoraPor […]
- [Jorge Wanderley - Acerto de Contas](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/jorge-wanderlei-acerto-de-contas/): quando a geração de meu pai batia na minha a minha achava que era normal que a geração de cima só podia educar a de baixo batendo quando a minha geração batia na de vocês ainda não sabia que estava errado mas a geração de vocês já sabia e cresceu odiando a geração de cima […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Fragilidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/carlos-drummond-de-andrade-fragilidade/): Este verso, apenas um arabesco em torno do elemento essencial – inatingível. Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas, e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento, ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades de sono se depositam sobre a terra esfacelada. Não mais o desejo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Ontem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/12/carlos-drummond-de-andrade-ontem/): Até hoje perplexo ante o que murchou e não eram pétalas. De como este banco não reteve forma, cor ou lembrança. Nem esta árvore balança o galho que balançava. Tudo foi breve e definitivo. Eis está gravado não no ar, em mim, que por minha vez, escrevo, dissipo.
- [Carlos Drummond de Andrade - Viagem na Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/11/carlos-drummond-de-andrade-viagem-na-familia/): A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabira a sombra de meu pai tomou-me pela mão. Tanto tempo perdido. Porém nada dizia. Não era dia nem noite. Suspiro? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Noite Dissolve os Homens](https://singularidadepoetica.art/2016/11/10/carlos-drummond-de-andrade-a-noite-dissolve-os-homens/): A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão. A noite caiu. Tremenda, sem esperança… Os suspiros acusam a presença negra que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/11/09/carlos-drummond-de-andrade-os-ombros-suportam-o-mundo/): Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Inocentes do Leblon](https://singularidadepoetica.art/2016/11/08/carlos-drummond-de-andrade-inocentes-do-leblon/): Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Cassiano Ricardo - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2016/11/07/cassiano-ricardo-testamento/): Deixo os meus olhos ao cego que mora nesta rua. Deixo a minha esperança ao primeiro suicida. Deixo à polícia meu rasto, a Deus o meu último eco. Deixo o meu fogo-fátuo ao mais triste viandante que se perder sem lanterna numa noite de chuva. Deixo o meu suor ao fisco que me cobriu de […]
- [Cassiano Ricardo - Morrer não será dormir](https://singularidadepoetica.art/2016/11/06/cassiano-ricardo-morrer-nao-sera-dormir/): Morrer não será dormir, pois não existe horizonte para poder haver sono. Será ser indiferente. Apenas indiferente. Que tanto faça haver sol como o sol não seja mais do que um simples girassol. Não será, só, o morrer porque se deixou de ser. Será – por indiferença – tanto estar o mundo morto como imundo […]
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa-2/)
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa/): I A cidade chora lágrimas elétricas sobre o corpo anônimo do eletrocutado. As figuras tétricas que residem, mudas, na parede do templo, me cercam, na rua. Como se eu fosse, acaso, o culpado de algum acontecimento na noite confusa. II O deus unicórnio que há no escudo do rei, e que lhe defende a coroa, […]
- [Álvaro de Campos - Lisbon Revisited (1926)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/03/alvaro-de-campos-lisbon-revisited-1926/): Nada me prende a nada. Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. Anseio com uma angústia de fome de carne O que não sei que seja – Definidamente pelo indefinido… Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias. Correram cortinas de todas as […]
- [Thomas Mann - Morte em Veneza (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/thomas-mann-morte-em-veneza-excerto/): “(…) Gustav von Aschenbach era de estatura um pouco abaixo da média, moreno, rosto inteiramente barbeado. A cabeça parecia um pouco grande demais em relação à sua figura quase franzina. O cabelo, penteado para trás, escasso no alto da cabeça, abundante e já bem grisalho nas têmporas, enquadrava uma testa alta, cheia de rugas que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - José](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/carlos-drummond-de-andrade-jose/): E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não […]
- [Mário Chamie - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/mario-chamie-fantasma/): Um fantasma ausente põe tijolo sobre tijolo ao seu redor. Primeiro mede o terreno Divide o espaço. Calca com o pé a planta que não floresce. Mas que cresce sob estacas de cimento. Depois, a ausência se preenche. O fantasma move a cal, a pedra, a pá. O fantasma move o corpo já presente do […]
- [Cecilia Meireles - Cantarão os Galos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/cecilia-meireles-cantarao-os-galos/): Cantarão os galos, quando morrermos, e uma brisa leve, de mãos delicadas, tocará nas franjas, nas sedas mortuárias. E o sono da noite irá transpirando sobre as claras vidraças. E os grilos, ao longe, serrarão silêncios, talos de cristal, frios, longos ermos, e o enorme aroma das árvores. Ah, que doce lua verá nossa calma […]
- [Cecília Meireles - Epigrama nº 7](https://singularidadepoetica.art/2016/10/18/cecilia-meireles-epigrama-no-7/): A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. Conheça outros livros de Cecília Meireles clicando aqui
- [Cecília Meireles - O Jardim](https://singularidadepoetica.art/2016/10/15/cecilia-meireles-o-jardim/): O jardim é verde, encarnado e amarelo.Nas alamedas de cimento,movem-se os arabescos do solque a folhagem recortae o vento abana. A luz revela orvalhos no fundo das flores,nas asas tênues das borboletas,-e ensina a cintilar a mais ignorada areia,perdida nas sombras,submersas nos limos. Ensina a cintilar tambémos insetos mínimos,-alada areia dos ares, que se elevaaté […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Um Bruxo Com Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/carlos-drummond-de-andrade-a-um-bruxo-com-amor/): Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te; e me recebes na sala trastejada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro. Daí esse cansaço nos gestos e, […]
- [Mário de Andrade - Poema da Amiga (VIII)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/mario-de-andrade-poema-da-amiga-viii/): Gosto de estar a teu lado, Sem brilho. Tua presença é uma carne de peixe, De resistência mansa e de um branco Ecoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti. Anoiteço feito um bairro, Sem brilho algum. Estamos no interior duma asa Que fechou. Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/philip-roth-a-marca-humana-excerto/): “Porque não sabemos, não é? Todo mundo sabe… Como é que as coisas acontecem do jeito que acontecem? O que está por trás da anarquia da seqüência de eventos, as incertezas, os infortúnios, a incoerência, as irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. ‘Todo mundo sabe’ é a invocação do clichê e o início da […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Carta aos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/affonso-romano-de-santanna-carta-aos-mortos/): Carta aos Mortos, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, reflete sobre a aparente marcha do progresso e as surpreendentes permanências da experiência humana.
- [Machado de Assis - Bagatela (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/05/machado-de-assis-bagatela-excerto/)
- [Machado de Assis - Epitáfios](https://singularidadepoetica.art/2016/09/30/machado-de-assis-epitafios/)
- [Stephen King - Não pedimos...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/26/stephen-king-nao-pedimos/)
- [José Luís Peixoto - na hora de pôr a mesa...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/jose-luis-peixoto-na-hora-de-por-a-mesa/): na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está […]
- [José Luís Peixoto - Explicação da Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/2263-2/)
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Eu me Perdi](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-eu-me-perdi/): Eu me perdi na sordidez de um mundo Onde era preciso ser Polícia agiota fariseu Ou cocote Eu me perdi na sordidez do mundo Eu me salvei na limpidez da terra Eu me busquei no vento e me encontrei no mar E nunca Um navio da costa se afastou Sem me levar
- [Eugénio de Andrade - Quase Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/eugenio-de-andrade-quase-epitafio/): O outro sabia. Tinha uma certeza. Sou eterno, dizia. Eu não tenho nada. Amei o desejo com o corpo todo. Ah, tapai-me depressa. A terra me basta. Ou o lodo.
- [W. H. Auden - Funeral Blues](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/w-h-auden-funeral-blues/): BLUES FÚNEBRE Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto — um laço no […]
- [Mia Couto - Falta de Reza](https://singularidadepoetica.art/2016/09/10/mia-couto-falta-de-reza/): Por insuficiência de reza, por falsidade de crença meu anjo me culpou e vaticinou eterna penitência. Mas não ajoelho nem peço desculpa. Não quero um deus que vigie os vivos e peça contas aos mortos. Um deus amigo que me chame por tu e que espere por mim para um copo de riso e abraços: […]
- [João Cabral de Melo Neto - A Viagem](https://singularidadepoetica.art/2016/09/09/joao-cabral-de-melo-neto-a-viagem/): Quem é alguém que caminha toda manhã com tristeza dentro de minhas roupas, perdido além do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendo como se levassem nos bolsos doces geografias, pensamentos de além do sonho e da rua? Alguém a cada momento vem morrer no longe horizonte de meu quarto, onde esse alguém […]
- [José Saramago - Demissão](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/mario-quintana-demissao/): Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo demais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos tudo De morder os mais fracos, se mandamos, E de lamber as mãos se dependentes.
- [Lewis Carroll - Jaguadarte](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/lewis-carrol-jaguadarte/): Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo. […]
- [Shirley Jackson - A Assombração na Casa da Colina (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/09/04/shirley-jackson-a-assombracao-na-casa-da-colina-excerto/): “NENHUM ORGANISMO vivo pode existir com sanidade por longo tempo em condições de realidade absoluta; até as cotovias e os gafanhotos, pelo que alguns dizem, sonham. A Casa da Colina nada sã, erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas; existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais outros […]
- [Cassiano Ricardo - Jogo de Xadrez](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/cassiano-ricardo-jogo-de-xadrez/): 1 Não posso, sem remorso, ver uma criatura dormindo. Tão sincera, dá-se tanto (tão f o t o g ê n i c a- m e n t e) que me arrependo de não lhe haver sido mais puro quando falávamos, há pouco. A morte, se igual ao sono, absolvido, já, da luta, deverá ser […]
- [Richard Rorty - O Fogo da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/richard-rorty-o-fogo-da-vida/): Tradução por Igor de C. e S.C. (Publicado originalmente em Poetry Foundation, o pequeno ensaio foi o último publicado durante a vida do filósofo norte americano Richard Rorty (1931 – 2007).) Em um ensaio chamado “Pragmatismo e Romantismo” tentei revalidar o argumento de “Defesa da Poesia”, de Shelley. No coração do romantismo, eu disse, estava a tese de que a […]
- [Roberto e Erasmo Carlos - Detalhes (trecho)](https://singularidadepoetica.art/2016/08/28/roberto-e-erasmo-carlos-detalhes-trecho/)
- [Pedro Abrunhosa - Quem me Leva os meus Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2016/08/26/pedro-abrunhosa-quem-me-leva-os-meus-fantasmas/): https://youtu.be/w4ldfmoMoZk Intérprete: Maria Bethânia “De que serve ter o mapa Se o fim está traçado, De que serve a terra à vista Se o barco está parado, De que serve ter a chave Se a porta está aberta, De que servem as palavras Se a casa está deserta?” Aquele era o tempo em que as […]
- [Emil Cioran - Deus é um desespero...](https://singularidadepoetica.art/2016/08/24/2122-2/)
- [Páladas - Epigrama V, 72](https://singularidadepoetica.art/2016/08/22/paladas-epigrama-v-72/)
- [Arnaldo Antunes - Saudades](https://singularidadepoetica.art/2016/08/21/arnaldo-antunes-saudades/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Livro da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/08/19/livro-da-vida/)
- [Ricardo Silvestrin - Dança](https://singularidadepoetica.art/2016/08/18/ricardo-silvestrin-danca/): Sim, existe a dança: o corpo solto avança e recua leve nos passos matemáticos, um, dois, um, como se fosse mais fácil viver num tempo menor, brincadeira de criança que sabe de cor o roteiro e ri na hora marcada. Fora da dança, o infinito nos convida, nos seduz com passos improváveis, mas temos dois […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2016/08/14/carlos-drummond-de-andrade-a-mesa-2/): E não gostavas de festa. . . Ó velho, que festa grande hoje te faria a gente. E teus filhos que não bebem e o que gosta de beber, em torno da mesa larga, largavam as tristes dietas, esqueciam seus fricotes, e tudo era farra honesta acabando em confidência. Ai, velho, ouvirias coisas de arrepiar […]
- [William Carlos Williams - Entre Muros](https://singularidadepoetica.art/2016/08/11/william-carlos-wiliams-entre-muros/): alas traseiras do hospital onde nada medra jazem cinzas nas quais cacos verdes brilham garrafa Trad.: Haroldo de Campos
- [Robinson Jeffers - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/08/07/robinson-jefferson-sem-titulo/): Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com […]
- [Jules Laforgue - Spleen](https://singularidadepoetica.art/2016/08/03/jules-laforgue-spleen/): Tudo é tédio. Manhã. Olho pela janela. No alto, risca-se o céu no giz da chuva fria. Em baixo, a rua. Sob a cerração sombria Vultos deslizam na água turva de barrela. Olho sem ver (até meu cérebro regela) Maquinalmente sobre o vidro que embacia Meu dedo faz rabiscos de caligrafia. Bah! Saiamos. Quem sabe, […]
- [Guenádi Aigui - Nuvens](https://singularidadepoetica.art/2016/07/28/guenadi-aigui-nuvens/): Trad.: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman
- [William Carlos Williams - Carrinho de Mão Vermelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/22/william-carlos-williams-carrinho-de-mao-vermelho/): tanto depende de um carrinho de mão vermelho vidrado pela água da chuva perto das galinhas brancas. Trad.: Haroldo de Campos
- [William Carlos Williams - As Árvores de Botticelli](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-as-arvores-de-botticelli/): O alfabeto das árvores se esfuma no canto das folhas os entre- laços de finas letras que soletram inverno e o frio são iluminados em apontos de verde por chuva e sol – Os princípios simples estritos de justos ramos são tangidos por beliscões afãs de cor, devotas condições os sorrisos de amor – ……………. […]
- [William Carlos Williams - O Vento Aumenta](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-o-vento-aumenta/): A saqueada terra está varrida As árvores o brilho da tulipa desponta dobram-se e dançam – Desata teu amor para fluir Florir! Bom Cristo o que é um poeta – se algum existe? um homem cujas palavras irão morder sua trilha de retorno – ser atual tendo a forma. do movimento Em cada ramo-em-ponta novo […]
- [E. E. Cummings - “o amor é mais muito que olvido”](https://singularidadepoetica.art/2016/07/11/e-e-cummings-o-amor-e-mais-muito-que-olvido/): o amor é mais muito que olvido mais pouco que memória mais raro que onda ser aguada mais comum que dar foras é mais lunar, demente por menos nem falar que o mar todo somente mais fundo do que o mar é menos sempre que sucesso menos jamais que ao vivo menos maior que um […]
- [Emily Dickinson - Nesta Vida Tão Breve...](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/emily-dickinson-nesta-vida-tao-breve/)
- [Rudyard Kipling - Se](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/rudyard-kipling-se/): Se és capaz de manter a tua calma quando Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa; De crer em ti quando estão todos duvidando, E para esses no entanto achar uma desculpa; Se és capaz de esperar sem te desesperares, Ou, enganado, não mentir ao mentiroso, Ou, sendo odiado, sempre […]
- [William Butler Yeats - Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/william-butler-yeats-morte-poema/): Um bicho à morte ignora ânsia e temor; contudo um homem, quando é hora, anseia e teme tudo; morreu vezes sem conta e ergueu-se redivivo. Um grande homem confronta gente homicida, altivo, escarnecendo o corte do alento. Convivera com a morte a vida inteira: o homem criou a morte. Trad.: Nelson Ascher
- [T. S. Eliot - Morte Pela Água](https://singularidadepoetica.art/2016/07/04/t-s-eliot-morte-pela-agua/): Flibas, o Fenício, há quinze dias morto, Deixou o grito das gaivotas, e a funda onda do mar E o lucro e a perda. Uma corrente submarina Roeu seus ossos em sussurros. Como subiu caiu Varando o palco da velhice e juventude Rompendo os vagalhões. Gentio ou Judeu Ó tu que giras o leme e miras […]
- [Rainer Maria Rilke - Conclusão](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/rainer-maria-rilke-conclusao-poema/): A Morte é grande. Nós, sua presa, vamos sem receio. Quando rimos, indo, em meio à correnteza, chora de surpresa em nosso meio. Trad.: Augusto de Campos
- [Sérgio Sant'Anna - Heavy Metal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/sergio-santanna-heavy-metal/): Escombros. Um odor de carne chamuscada. Porém não se detecta a presença de cadáveres. Aqui e ali, como sombras, algumas paredes e edificações remanescentes. A torre caída de uma catedral gótica sobre fragmentos de vitrais estilhaçados. A reverberação de suas cores projetando castelos abstratos. Um bando de delinquentes juvenis, com as mãos nos bolsos, atravessa […]
- [Cassiano Ricardo - Ode Pastoril](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-ode-pastoril/): A paisagem é minha só porque tenho olhos. O pássaro é meu só porque tenho ouvidos. Amo com a mão as coisas que o estar aqui me deu. No universal verde, sou meu ser, não sou eu. Em meu léxico lírico só existem duas palavras, e uma é irmã da outra: a manhã e o […]
- [Laura Amélia Damous - Brevíssima Canção do Amor Constante](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/laura-amelia-damous-brevissima-cancao-do-amor-constante/): Ferindo o tempo Vestindo eternidade O meu amor tranqüilo e mudo Vive em ti Tão leve e manso Que tu não o sentes Tu
- [Carlos Nejar - Gazel do Universo Começando](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/carlos-nejar-gazel-do-universo-comecando/): "Gazel do Universo Começando", um poema de Carlos Nejar que funde amor e cosmos em imagens circulares de vento, trigo e mar, sugerindo que o universo inteiro começa no encontro amoroso e no movimento compartilhado dos amantes.
- [Cassiano Ricardo - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-o-espelho/): Um meio-dia nu, numa enorme moldura de prata. Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo. Mas não é nada. É apenas um espelho. Um rico espelho. De extraordinário fulgor. Próprio pra ser colocado à parede de um ministério da Fazenda, ou de uma casa de jogo. Toda a cidade cabe dentro dele. Árvores, […]
- [William Blake - Londres](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-londres/): Em cada rua escriturada em que ando, Onde o Tâmisa escriturado passa, Eu nos rostos que encontro vou notando Os sinais da doença e da desgraça. Ouço nos gritos que os adultos dão, E nos gritos de medo do inocente, Em cada voz, em cada interdição, As algemas forjadas pela mente Se o Limpa-Chaminés acaso […]
- [William Blake - London (c.1790)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-london-c-1790/): Perambulo por todas as ruas com barreiras Vizinhas de onde o próprio Tâmisa Entre barreiras flui, e em cada face que encontro Marco marcas de fraqueza, marcas de pesar. Ouço o ruído dos grilhões mentais apostos Em cada alocução de cada homem No grito de temor de cada infante Nas vozes todas, em cada interdição. […]
- [William Blake - A Tirzah](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-a-tirzah/): Tudo que nasceu para morrer Deve-se a terra misturar Para da geração se libertar: Então, que tenho eu a ver contigo? Do orgulho e da vergonha nasce o sexo Pela manhã florido, à tarde morto. Mas a piedade faz da Morte sono E os sexos se levantam para o trabalho e o pranto. Tu, mãe […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/giuseppe-ungaretti-natal-2/): Natal Não tenho vontade de mergulhar-me em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixai-me assim como uma coisa colocada em um canto e esquecida Aqui não se sente outra presença que o calor bom Estou com as quatro cabriolas de fumaça da lareira. Trad.: Luigi Lucchesi
- [João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/01/joao-guimaraes-rosa-grande-sertao-veredas-excerto/)
- [Lêdo Ivo - A Queimada](https://singularidadepoetica.art/2016/06/29/ledo-ivo-a-queimada/): Queime tudo o que puder: as cartas de amor as contas telefônicas o rol de roupas sujas as escrituras e certidões as inconfidências dos confrades ressentidos a confissão interrompida o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose os recortes antigos e as fotografias amareladas. Não deixe aos herdeiros esfaimados nenhuma herança de […]
- [Jorge Luis Borges - Poema dos Dons](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-borges-poema-dos-dons/): Ninguém rebaixe a lágrima ou censura Esta declaração da maestria De Deus, que com magnífica ironia Me deu mil livros e uma noite escura. Desta terra de livros fez senhores A olhos sem luz, que apenas se concedem Sonhar com bibliotecas e com cores De insensatos parágrafos que cedem As manhãs ao seu fim. Em […]
- [Manuel de Freitas - Nada de nada](https://singularidadepoetica.art/2019/05/05/manuel-de-freitas-nada-de-nada/): para o José Carlos Soares Um dia, logo de manhã, entraremos num cemitério e perguntarás a Antonia Pozzi se estar morto é mais ou menos triste do que estes dias arduamente sepultados. Receando que saibas a resposta, beberei com Lowry a primeira ou a última tequila, na certeza de que ambos os adjetivos estarão certos […]
- [José Miguel Silva - Desculpas não faltam](https://singularidadepoetica.art/2019/05/04/jose-miguel-silva-desculpas-nao-faltam/): Uma casa junto ao Vouga, rio de água suficiente, onde apenas se mergulha até à cintura, a pequena horta de Virgílio, o amor robustecido por nenhuma esperança e tantos livros para ler — que desculpa vou agora dar para não ser feliz?
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/03/herberto-helder-de-poemas-canhotos-4/): o António Ramos Rosa estava deitado na cama contra a parede e deu meia volta sobre si mesmo e ficou de cara voltada contra a parede e fechou os olhos e fechou a boca e ficou todo fechado e então morreu todo fundo e completo de uma só vez e apenas ele no tempo e […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/02/herberto-helder-de-poemas-canhotos-3/): fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são inteligentes tão subis no súbito entendimento das intenções segundas que temos em relação a eles se lhes dessem a ler bons poemas maior proveito teriam aqueles que os escrevem do que tem com A ou B eu cá por mim estou certo de que nenhum golfinho […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/01/herberto-helder-de-poemas-canhotos-2/): escrever poemas não é boa maneira de atordoar os tempos do verbo, não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio, nem perder algures uma perna e lembrar-me depois de perder ainda a outra: ninguém ganha assim uma barra de ouro, ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro, ninguém transforma assim […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/04/30/herberto-helder-de-poemas-canhotos/): em boa verdade houve tempo em que tive uma ou duas artes poéticas, agora não tenho nada: sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas: as vezes apenas duas ou três linhas; outras, vinte ou trinta: houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei a encher umas quantas […]
- [Goliarda Sapienza – Para minha mãe](https://singularidadepoetica.art/2019/04/29/goliarda-sapienza-para-minha-mae/): Quando eu voltarserá noite fechadaQuando eu voltaras coisas estarão quietasNinguém vai me esperarnaquele leito de terraNinguém vai me acolhernaquele silêncio de terra Ninguém vai me consolarpor todas as partes já mortasque carrego em mimcom resignada impotênciaNinguém vai me consolarpelos instantes perdidospelos sons esquecidosque há tempoviajam ao meu lado e tornam densoo respiro, lamacenta a língua […]
- [Mário Cesariny – Em todas as ruas te encontro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/28/mario-cesariny-em-todas-as-ruas-te-encontro/): Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real que […]
- [Walt Whitman - Canção de mim mesmo, 48](https://singularidadepoetica.art/2019/04/27/walt-whitman-cancao-de-mim-mesmo-48/): 48 Eu disse que a alma não é mais do que o corpo, e disse que o corpo não é mais do que a alma, e nada, nem Deus, é maior para um ser do que esse ser para si mesmo, e quem quer que ande um estádio sem solidariedade caminha para seu próprio funeral […]
- [Joan Margarit - Ela](https://singularidadepoetica.art/2019/04/26/joan-margarit-ela/): É tempo de não esperar por ninguém. Passa o amor, fugaz e silencioso, como, na distância, um trem noturno. Não resta ninguém. É hora de voltar ao desolado reino do absurdo, ao sentimento de culpa, ao medo vulgar de perder o que estava, já, perdido. Ao inútil e sórdido tempo moral. É hora já de […]
- [Paulo Henriques Britto - Lacrimæ rerum](https://singularidadepoetica.art/2019/04/25/paulo-henriques-britto-lacrimae-rerum/): É o lamento das coisas, a desdita da matéria. Não tem nada a ver conosco, com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo. É uma questão de moléculas, que antecede a biologia por coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcana nosso entendimento pasma. Nem tudo está a vosso alcance, ó seres de protoplasma.
- [Philip Roth - Patrimônio (excerto 2)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/25/philip-roth-patrimonio-excerto-2/): Ele morreu três semanas depois. Durante uma provação de doze horas, que começou pouco antes da meia-noite de 24 doutubro de 1989 e terminou logo após o meio-dia, ele lutou por cada sorvo de ar com uma erupção impressionante, uma derradeira exibição da tenacidade férrea que havia demonstrado ao longo da vida. Algo digno de […]
- [Fernando Assis Pacheco - R., 1992](https://singularidadepoetica.art/2019/04/24/fernando-assis-pacheco-r-1992/): Quando os anos passarem sobre esse teu desgosto vais ver que te curaste não de vez mas um pouco pois o que a gente busca nas dobras do amor é a cura para a morte que não tem consolo e por falar em f’ridas até as que mais doem acabam por fechar só ela vence […]
- [Vasco Gato - Fera Oculta](https://singularidadepoetica.art/2019/04/23/vasco-gato-fera-oculta/): com a Inês para o Rodrigo I Durante essa tua natação de fera ocultahá um papiro que se desdobra na minha bocae nunca o futuro teve o saborde palavras tão sobejamente pronunciadasfamília rapaz umbigopalavras com que se poderia redigirtão pouca coisase não fosse a reinvenção da tua chegadainscrita no mundo como pedra preciosaque não é pedraantes […]
- [José Manuel Caballero Bonald - Transfiguração do perdido](https://singularidadepoetica.art/2019/04/22/jose-manuel-caballero-bonald-transfiguracao-do-perdido/): A música convoca as imagens degradadas do tempo. De onde estão me chamando, de qual penumbra, quando retornam para mim? Nada me pertence senão aquilo que perdi. Máscara do passado, a memória conflui para um fundo difuso de alegrias em que tudo soçobra e se reduz a nada, onde está minha verdade tornando-se mais crédula. […]
- [Rafael Montesinos - Vida](https://singularidadepoetica.art/2019/04/21/rafael-montesinos-vida/): Nasceu. Viveu feliz. Sorveu a vida de um só e belo trago adolescente. Buscou a solidão, e se viu frente a uma atroz, inesperada ferida. Em desvario, deu para crer em tudo. “Oh sensatez de não se crer em nada!”, disse, e depois a alma, entusiasmada quis sentir a vida de um outro modo. Farto […]
- [Philip Roth - Patrimônio (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/20/philip-roth-patrimonio-excerto/): “Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério, […]
- [Manuel António Pina - Sexta-feira Santa](https://singularidadepoetica.art/2019/04/19/manuel-antonio-pina-sexta-feira-santa/): A conversa era sobre Deus, embora o teólogo estivesse inclinado a pensar que fosse sobre outra coisa, pois era hora de jantar. Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar. Tinha devorado o pargo com honesto apetite e elogiava as virtudes do cozinheiro. Só Deus, algures, chorava sobre os despojos da sua pequena […]
- [Ian Hamilton - Admissão](https://singularidadepoetica.art/2019/04/18/ian-hamilton-admissao/): Os lábios rachados do porteiro noturno uniformizadoMurmuram horrivelmente contra o vidro embaçadoDe nossa ambulância escura.Nossa afliçãoInspira um único olhar marcial de desdémE logo ele nos indica o caminho, para a “Pátria”. Trad.: Nelson Santander Admission The chapped lips of the uniformed night-porterMumble horribly against the misted glassOf our black ambulance.Our plightInspires a single, soldierly, contemptuous […]
- [Manuel Halpern - Domingo de manhã](https://singularidadepoetica.art/2019/04/17/manuel-halpern-domingo-de-manha/): Quantos homens se apaixonam por ti ao sábado à tarde enquanto passeiam os filhos no parque e se distraem do balanço do baloiço na adivinhação das partes do corpo que trazes tapadas Mal sabem que a tua solidão não se preenche com a desventura erótica de um corpo que te cubra sem consolo Não há […]
- [Miguel Martins - Sou eu](https://singularidadepoetica.art/2019/04/16/miguel-martins-sou-eu/): são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral sou eu agora em espasmos, assemelhando-me […]
- [Ángel González - Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/04/15/angel-gonzalez-aniversario/): Eu percebo: como estou me tornandomais incerto, confuso,dissolvendo-me no arcotidiano, brutopedaço de mim, desgastadoe em frangalhos. Eu compreendo: vivimais um ano, e isso é muito duro.Pulsar o coração todos os diasquase cem vezes por minuto! Viver um ano requermorrer muito muitas vezes. Trad.: Nelson Santander Cumpleaños Yo lo noto: cómo me voy volviendomenos cierto, confuso,disolviéndome […]
- [William Butler Yeats - Um aviador irlandês prevê a morte](https://singularidadepoetica.art/2019/04/14/william-butler-yeats-um-aviador-irlandes-preve-a-morte/): Encontrarei meu fim no meio das nuvens de algum céu sobejo; os que combato, eu não odeio, também não amo os que protejo; Kiltartan Cross é meu país, seus pobres são a minha gente, nada a fará mais infeliz do que já era, ou mais contente. Não é por lei ou por dever, turba ou […]
- [Jaime Gil de Biedma - Pandêmia e Celeste](https://singularidadepoetica.art/2019/04/13/jaime-gil-de-biedma-pandemia-e-celeste/): Quan magnus numerus Libyssae arenae …………………………….. Aut quam sidera multa, cum tacet nox, Furtiuos hominum uident amores. CATULO, VII Imagina agora que tu e eu muito tarde da noite falamos de homem para homem, enfim. Imagina-o, em uma dessas noites memoráveis de rara comunhão, com a garrafa meio vazia, os cinzeiros sujos, depois de esgotado […]
- [Eugénio de Andrade - Mulheres de preto](https://singularidadepoetica.art/2019/04/12/eugenio-de-andrade-mulheres-de-preto/): Há muito que são velhas, vestidas de preto até a alma. Contra o muro defendem-se do sol de pedra; ao lume furtam-se ao frio do mundo. Ainda têm nome? Ninguém pergunta, ninguém responde. A língua, pedra também.
- [Giuseppe Ungaretti - Céu claro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/11/giuseppe-ungaretti-ceu-claro/): Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tanta névoa uma a uma se desvelam as estrelas Respiro o frescor que me deixa a cor do céu Me reconheço imagem passageira Presa de um ciclo imortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sereno Bosco di Courton luglio 1918 Dopo tanta nebbia a una a […]
- [Raymond Carver - A cabine telefônica](https://singularidadepoetica.art/2019/04/10/raymond-carver-a-cabine-telefonica/): Ela desaba na cabine, chorando no telefone. Perguntando uma coisa ou outra, e chorando um pouco mais. Seu companheiro, um camarada mais velho, usando jeans e camiseta, aguarda em pé a sua vez de falar, e chorar. Ela passa o telefone para ele. Por um minuto eles ficam juntos na minúscula cabine, as lágrimas dele […]
- [Joan Margarit - O ano em que ela morreu](https://singularidadepoetica.art/2019/04/09/joan-margarit-o-ano-em-que-ela-morreu/): Na fotografia em sépiaés jovem e sorri. Faz-me lembraras mulheres dos filmes de guerrada minha infância:barcos na neblina, trens noturnose grandes cidades sob o alarme aéreo.Na lápide está escrito que ela se foino inverno de 44,aos vinte anos, quando me apaixonavapela sufocante escuridãocruzada por um raio de luz, a heroínados sonhos de amor de minha […]
- [Manuel António Pina - Corpo presente](https://singularidadepoetica.art/2019/04/08/manuel-antonio-pina-corpo-presente/): Toda a casa suspendera a respiração incapaz de conter tamanha desproporção, e eu próprio desaparecera algures na sala, entre a tua vida e a tua morte. Atenderam o telefone falando baixo, temendo que regressasse cada coisa do teu lugar sem estar prontos ainda para a tua solidão. Faltava muito para podermos perceber, muitos passos para […]
- [Paulo Henriques Britto - Plaudite, amici](https://singularidadepoetica.art/2019/04/07/paulo-henriques-britto-plaudite-amici/): Seria muito bom saber sair de cena sem fazer cenas, sem roubar a cena, sem atropelar sequer um figurante. Pena que nessas horas se improvisa, e que ninguém respeita nada quando foge do roteiro. Mesmo os maiores canastrões têm seu momento de glória, de prima-donismo o mais rasteiro e o mais justificável. Pois na vida […]
- [Nuno Júdice - É isto o amor](https://singularidadepoetica.art/2019/04/06/nuno-judice-e-isto-o-amor/): Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me a sermos dois; e a […]
- [Luís García Montero - Resumo dos fatos](https://singularidadepoetica.art/2019/04/05/luis-garcia-montero-resumo-dos-fatos/): Falei com a morte por telefonee recebi e-mails de amor que foram apagadossem deixar uma única lágrima em papel amarelo.Ninguém esqueça os tempos, mas ninguém se engane:no final, apenas o amor e a morte importam. Trad.: Nelson Santander Resumen de los hechos He hablado con la muerte por teléfonoy he recibido e-mails de amor que […]
- [Fernando Assis Pacheco - Respiração Assistida](https://singularidadepoetica.art/2019/04/04/fernando-assis-pacheco-respiracao-assistida/): Eu vi a morte de noite – névoa branca – entre os frascos do soro rondar a minha cama era um trasgo e como tal metera-se pelas frinchas; noutra versão coando-se através dos nós da madeira ou noutra ainda imitando à perfeição o gorgolejar da água nos ralos: eu tremia covardemente enquanto ela raspava a […]
- [Carlos Poças Falcão - A luz coada num pano negro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/03/carlos-pocas-falcao-a-luz-coada-num-pano-negro/): Lamenta-te, pois já não é alegre o vento sobre os campos. Não há descoberta nem transfiguração quando o calendário vem com as primícias. Lamenta-te, lamenta-te. Já não tens a nudez certa nem a fragrância antiga.
- [Paul Verlaine – Chanson D'Automne (em seis traduções)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/02/paul-verlaine-chanson-dautomne-em-seis-traducoes/): Canção do Outono (Trad.: Alphonsus de Guimaraens) Os soluços graves Dos violinos suaves Do outono Ferem a minh’alma Num langor de calma E sono. Sufocado, em ânsia, Ai! quando à distância Soa a hora, Meu peito magoado Relembra o passado E chora. Daqui, dali, pelo Vento em atropelo Seguido, Vou de porta em porta, Como […]
- [Vicente Gaos - Esquecei](https://singularidadepoetica.art/2019/04/01/vicente-gaos-esquecei/): Esquece, homem… Esquece que és cinzase em cinzas te tornarás. Esquece esta quarta-feirae o in pulvis reverteris. Pois embora sejas cinza e pó,há vida, amor, beleza ao redor. É verdade: beleza, amor, vida,fugazes flores de um dia. Mas flores, sim. Enquanto durara magia verdadeira de seu perfume, esquece o pó e a morte.É melhor não lembrar […]
- [Helena Zelic - Bem-vinda](https://singularidadepoetica.art/2019/03/31/helena-zelic-bem-vinda/): em uma casa desconhecidaé preciso observar os movimentos das coisas: o gás se vem da rua ou botijãoas árduas relações entre tomadas e eletrodomésticosbotões de liga e desligaa política da limpezase toda sujeira é política.as cores das chaves, as trancas trocadasencaixar, tirar e encaixar de novona busca do que é espontâneo.entrar na casa como se […]
- [Eugénio de Andrade - Fim de tarde em S Lázaro](https://singularidadepoetica.art/2019/03/30/eugenio-de-andrade-fim-de-tarde-em-s-lazaro/): Estou sozinho. Nas estantes, restos da minha vida. É quase noite sobre os telhados. No livro abandonado nas mãos corre um rio: à deriva duas ou três coisas que foram minhas: um punhado de amoras, a porosa delícia do barro, essas nuvens, essas aves num céu branco de trigo, um sorriso que também era um […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Mal de ausência](https://singularidadepoetica.art/2019/03/29/luis-alberto-de-cuenca-mal-de-ausencia/): Desde que partiste, não sabes como devagar passa o tempo em Madrid. Vi um filme que terminou apenas há um século. Não sabes que lento corre o mundo sem ti, noiva distante. Os amigos pedem-me que volte a ser o mesmo que o coração apodrece de tanta melancolia, que a tua ausência não vale tanta […]
- [Francisco Brines - Última declaração de amor](https://singularidadepoetica.art/2019/03/28/francisco-brines-ultima-declaracao-de-amor/): Oh Vida, que tudo me deste. Agora já sei que, sendo isto verdade, nada me deste. Mas deixa-me olhar-te ainda com amor, mesmo que eu já não mais deseje abraçar-te. E embora saibas que eu não te abandono podes tu abandonar-me. Trad.: Nelson Santander Última declaración de amor Oh Vida, que todo me lo has […]
- [José Fernando Guedes - Os pássaros cantam forte](https://singularidadepoetica.art/2019/03/27/jose-fernando-guedes-os-passaros-cantam-forte/): Os pássaros cantam forte, um poema de José Fernando Guedes
- [Giuseppe Ungaretti - Sou uma criatura](https://singularidadepoetica.art/2019/03/26/giuseppe-ungaretti-sou-uma-criatura-poema/): Valloncello di Cima Quattro, 5 de agosto de 1916 Como esta pedra de S. Michele tão fria tão dura tão seca tão indiferente tão completamente sem ânimo Como esta pedra é meu pranto que não se vê A morte se expia vivendo Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sono una creatura Valloncello di Cima […]
- [Raymond Carver - Esta manhã](https://singularidadepoetica.art/2019/03/25/raymond-carver-esta-manha/): Esta manhã foi especial. Um pouco de neve cobria o chão. O sol flutuava num claro céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado, até onde o olho podia enxergar. Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti e saí para caminhar – decidido a não voltar até receber o que a Natureza tivesse a oferecer. […]
- [Paulo Henriques Britto - Da irresolução](https://singularidadepoetica.art/2019/03/24/paulo-henriques-britto-da-irresolucao/): Por não se estar preparadoperde-se a vida inteira.A preparação, porém,pra ser completa e certeira, exigiria no mínimouma existência e meia.Compreende-se, portanto,aquele que titubeia ao se ver face a facecom tamanho compromissoe termina decidindoviver mesmo de improviso.
- [Joan Margarit - Helena](https://singularidadepoetica.art/2019/03/23/joan-margarit-helena/): O ontem é teu inferno. É cada instanteem que, sem sabê-lo, te perdestee também cada instante em que foste salvo.Quando o jovem que foste está muito distante,o amor é vingança do passado.Vens de uma guerra em que foste vencido,de armas e acampamentos abandonadosna Troia que levas dentro de ti.Buscar-te-ão de noite os aqueose estreitarão o […]
- [Manuel António Pina - Café Orfeu](https://singularidadepoetica.art/2019/03/22/manuel-antonio-pina-cafe-orfeu/): Nunca tinha caído de tamanha altura em mim antes de ter subido às alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorriso como de uma súbita ausência ou como se tivesse lá ficado e outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorriso a minha vida parecia a vida de outra pessoa que fora de mim […]
- [Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave](https://singularidadepoetica.art/2019/03/21/fernando-pinto-do-amaral-por-causa-de-uma-ave/): para a minha mãe Cada vez gosto menos de saborearo travo tão pastoso da morte, o murmúriosecreto dos seus olhos invisíveisdentro de mim. Porém, há pouco tempo,num fim de tarde deste fim de julho,passou-me um episódio que rompeude repente na alma todas as comportasque fingem proteger os ópios tranquilosa que chamamos vida. Aconteceudepois de ter […]
- [Rui Caeiro - Sabem que mais?](https://singularidadepoetica.art/2019/03/20/rui-caeiro-sabem-que-mais/): Sou um homem dado ao álcool e a eternas dúvidas e que na rua ou lá onde seja a todo o momento pode tropeçar ou morrer: voar é que é muito mais improvável Sou um homem de áridas certezas e uma esperança a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas paro escuto e olho […]
- [Diogo Vaz Pinto – Guilty pleasures](https://singularidadepoetica.art/2019/03/19/diogo-vaz-pinto-guilty-pleasures/): No princípio correram ainda uns dias sem que o desencanto desse pela nossa falta. Seja como for, não fomos muito longe. Íamos mais era ao cinema mas aí eu já olhava menos para o lado, apaixonava-me pelas tipas que enchiam o ecrã, para depois, com o sexo aceso e louco por se molhar entre quaisquer […]
- [Vicente Gaos - A vida](https://singularidadepoetica.art/2019/03/18/vicente-gaos-a-vida/): Os ardorosos signos da vidapulsam na atmosfera do verão.O mar respira tal como um varão,como uma criatura enfurecida. Oh gozo e amor, sangue furioso,cósmica vibração de um mundo arcano.Mundo que sinto ao tatear teu crâniofrágil quando nele minha mão pouso. Te amo, sim, te amo, sonho forte,Fecho os olhos e te sinto inteira– Oh luz […]
- [Rui Diniz - O desaguar dos crepúsculos no Ebro](https://singularidadepoetica.art/2019/03/17/rui-diniz-o-desaguar-dos-crepusculos-no-ebro/): Eu estava presente quando o corpo do hernandez deu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamente roxo, evocava os últimos dias da sua vida, quando se demorava o menos possível nos cafés de barcelona, perseguido até por si próprio. De facto a loucura procurava-o lentamente. Durante a noite, em tempo de lua cheia, a […]
- [Ramón de Garciasol - Ávila do Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2019/03/16/ramon-de-garciasol-avila-do-silencio/): Silêncio: cala-me até as raízes, lava minha carne, meu suor de morte, a caspa cotidiana. Quero ver-te, Senhor, em paz, pelo que me dizes sem esta feroz contenda confusa, extinta a chama, pedra pura de eternidade sem fim, viva verdura sem o sal da dor e das cinzas. Silêncio: chove mais. A terra dura está […]
- [Ian Hamilton - Legado](https://singularidadepoetica.art/2019/03/15/ian-hamilton-legado/): Estamos no inverno agora e estou aquecido, Acamado, feliz por ter sobrevivido. Minha mobília Me cerca. Eu posso alcançar meus livros. E você, noite após noite, Até “o fim” Ficará comigo. Entre nós Há lenitivos, esta dor E estes poemas inacabados eu lego a você. Muitas vezes deve ser assim. Escurecemos suavemente enquanto você conta […]
- [Carmen Conde - [Declaro que morreu e que seu túmulo]](https://singularidadepoetica.art/2019/03/14/carmen-conde-declaro-que-morreu-e-que-seu-tumulo/): Declaro que morreu e que seu túmuloestá dentro de mim; sou seu sudário.A ninguém se enterrou porque seu trânsitono tempo foi de loucas esperanças. Circundam o contorno desta cova– quente é a vinha que escala as paredes –os pâmpanos mais tenros e suculentosque arrancam do silêncio seu tumulto. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma […]
- [Mario Benedetti - Currículo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/13/mario-benedetti-curriculo/): A história é muito simplesvocê nascecontempla aturdidoo vermelho-azul do céuo pássaro que emigrao desajeitado besouroque seu sapato esmagarádestemido você sofrereclama por comidae por hábitopor obrigaçãochora isento de culpasexaustoaté que o sonho o desqualifique você amase transfigura e amapor uma eternidade tão efêmeraque até o orgulho se torna ternoe o coração proféticose converte em escombros você […]
- [Nicanor Parra - Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2019/03/12/nicanor-parra-esquecimento/): Juro que não me lembro nem do seu nome,Mas morrerei chamando-a de Maria,Não por mero capricho de poeta,Pela sua aura de praça de província.Que tempos aqueles!, eu, um esquisitão,Ela, jovem pálida e sombria.Ao voltar certa tarde do LiceuSoube de sua morte imerecida,Notícia que me causou tal desalentoQue derramei uma lágrima ao ouvi-la.Uma lágrima, sim, quem […]
- [Luis Alberto de Cuenca - A casa da minha infância](https://singularidadepoetica.art/2019/03/11/luis-alberto-de-cuenca-a-casa-da-minha-infancia/): Fui feliz naquela casa repleta de flores e de livros proibidos. A casa em que tu eras Ginevra nos nossos jogos, e eu era o rei Artur (não havia Lancelote para arruinar tudo). A casa onde foste donzela das minhas ânsias, senhora dos meus suspiros, muralha em meu peito, cofre do meu tesouro, brinde dos […]
- [José Fernando Guedes - Coeso é o tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/10/jose-fernando-guedes-coeso-e-o-tempo/): Coeso é o tempo em cada tênue segundo Que logo se desfaz e se reconstrói Como uma linguagem de gestos que o universo Elabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundo Há suficiente espaço para se fazer o bem ou o mal Porque é assim mesmo que acontece: o mal ou o […]
- [Giuseppe Ungaretti - Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2019/03/09/giuseppe-ungaretti-silencio/): Mariano, 27 de junho de 1916 Conheço uma cidade que cada dia se enche de sol e tudo é arrebatado nessa hora Dela parti uma tarde No coração perdurava o limar das cigarras Do navio laqueado de branco vi minha cidade sumir deixando por um instante no ar toldado um abraço de luzes suspensas Trad.: […]
- [Raymond Carver - A carteira do meu pai](https://singularidadepoetica.art/2019/03/08/raymond-carver-a-carteira-do-meu-pai/): Muito antes de pensar em sua própria morte meu pai dizia que gostaria de descansar perto dos seus pais. Sentia muita falta deles desde que tinham partido. Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse, e eu me lembrasse. Mas quando o ar deixou seus pulmões e todo sinal de vida se extinguiu, […]
- [Francisco Brines - A Piedade do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/07/francisco-brines-a-piedade-do-tempo/): Em que escuro recanto do tempo que morreu vivem ainda, a arder, aqueles coxas? Dão luz ainda a estes olhos tão velhos e enganados, que voltam agora a ser o milagre que foram: desejo de uma carne, e a alegria do que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagem que […]
- [Paulo Henriques Britto - Uma nova teoria de tudo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/06/paulo-henriques-britto-uma-nova-teoria-de-tudo/): Todas as coisas que existem no mundo fazem sentido. Senão não teria sentido elas serem. Ou estarem. Tudo mais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nunca faz parte de sempre, assim como zero é apenas um número entre outros números. Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é […]
- [Rui Chafes](https://singularidadepoetica.art/2019/03/05/rui-chafes/): “Só a forma e o vazio são universais; tudo o resto é pó e cinzas.”
- [Helena Zelic - Dimensões](https://singularidadepoetica.art/2019/03/04/helena-zelic-dimensoes/): “dimensões”, um poema de Helena Zelic que desloca a história e a experiência humana para a vertigem de uma hipótese radical: e se tudo não passar do sonho de outro ser, à margem de um mundo desconhecido?
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - 25 de abril](https://singularidadepoetica.art/2019/03/03/sophia-mello-breyner-andresen-25-de-abril/): Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo
- [Rainer Maria Rilke - Tira-me a luz dos olhos](https://singularidadepoetica.art/2019/03/02/rainer-maria-rilke-tira-me-a-luz-dos-olhos/): Tira-me a luz dos olhos; continuarei a ver-te. Tapa-me os ouvidos; continuarei a ouvir-te. E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti. E, mesmo sem boca, posso chamar por ti. Arranca-me os braços e tocar-te-ei Com o meu coração como com uma mão… Despedaça-me o coração; e o meu cérebro baterá E, mesmo que faças […]
- [Eugénio de Andrade - O Amigo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/01/eugenio-de-andrade-o-amigo/): Não voltará – o que dele me ficou é como no inverno entre cortinas de chuva um tímido fio de sol: ilumina mas não aquece as mãos.
- [Joan Margarit - Esboço para um Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/28/joan-margarit-esboco-para-um-epilogo/): Diante de ti sentes um rumor de passosque vem do futuro, essa torredemolida antes de ser construída.Só existe a dúvida moral: ama,não penses na camada de póa que tanto aludes, ostensivamente,quando dizes: “minha vida”.E, do prestígio das negações,desconfia: a vida representanão só a vitória dos anossobre nós. Também nos ensinaquão gloriosa foinossa primeira inicial sobre […]
- [Israel Zangwill - Um dia, estando entre nós dois o Atlântico...](https://singularidadepoetica.art/2019/02/27/israel-zangwill-um-dia-estando-entre-nos-dois-o-atlantico/): Um dia, estando entre nós dois o Atlântico, senti a tua mão na minha; Agora, tendo a tua mão na minha, sinto entre nós dois o Atlântico. Trad.: Cecília Meireles
- [Manuel António Pina - Numa Estação de Metrô](https://singularidadepoetica.art/2019/02/26/manuel-antonio-pina-numa-estacao-de-metro/): A minha juventude passou e eu não estava lá. Pensava em outra coisa, olhava noutra direção. Os melhores anos da minha vida perdidos por distração! Rosalinda, a das róseas coxas, onde está? Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão? Provavelmente professoras de Alemão em colégios fora do tempo e do espa- ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-ia amado […]
- [Ezra Pound - Metrô](https://singularidadepoetica.art/2019/02/25/ezra-pound-metro/): A visão destas faces dentre a turba: Pétalas num ramo úmido, escuro. Trad.: Augusto de Campos In a station of the metro The apparition of these faces in the crowd; petals on a wet, black bough.
- [Konstantinos Kaváfis – Coisas Ocultas](https://singularidadepoetica.art/2019/02/24/konstantinos-kavafis-coisas-ocultas/): De tudo quanto fiz e quanto disse, não procurem saber quem eu era. Um obstáculo havia e transformou os meus atos e o meu modo de viver. Um obstáculo havia e me deteve cada vez em que eu ia falar. Os mais despercebidos dos meus atos, e, de meus escritos, os mais dissimulados – só […]
- [Rupi Kaur - preliminares](https://singularidadepoetica.art/2019/02/23/rupi-kaur-preliminares/): você envolve meu cabelo com os dedos e puxa é assim que você tira música de mim — preliminares Trad.: Ana Guadalupe You wrap you fingers around my hair and pull this is how you make music out of me — foreplay
- [Bruna Beber - Romance em doze linhas](https://singularidadepoetica.art/2019/02/22/bruna-beber-romance-em-doze-linhas/): quanto falta pra gente se ver hoje quanto falta pra gente se ver logo quanto falta pra gente se ver todo dia quanto falta pra gente se ver pra sempre quanto falta pra gente se ver dia sim dia não quanto falta pra gente se ver às vezes quanto falta pra gente se ver cada […]
- [Sérgio Jockyman - Os votos](https://singularidadepoetica.art/2019/02/21/sergio-jockyman-os-votos/): Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado. E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa. Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e […]
- [Felipe Benítez Reyes - O desenho na água](https://singularidadepoetica.art/2019/02/20/felipe-benitez-reyes-o-desenho-na-agua/): Bem sabes que estes anos passarão,que tudo terminará em literatura:a imagem das noites, as lendasda triunfante juventude e as cidadesvividas como corpos. Que estes anospassarão tu já sabes, pois são teuscomo se possuísses a neve e a neblina,como é do mar a bruma, ou do ara cor da tarde fugidia:pertences de ninguém e do nadasurgidos, […]
- [Nelson Santander - Clint Eastwood](https://singularidadepoetica.art/2019/02/19/nelson-santander-clint-eastwood/): Clint Eastwood, por Nelson Santander
- [Juan Luis Panero - Palavras e presságios](https://singularidadepoetica.art/2019/02/19/juan-luis-panero-palavras-e-pressagios/): Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.Repetir as sílabas, iluminar os símboloscomo cerradas salas, janelas empoeiradasque ocultam um jardim perdido, árvores da morte.Melancolia do regresso e medo do vazio,rangidos de madeira, agitar de sombras,e, de repente, em um quarto, perdidacomo um velho copo ou […]
- [José Fernando Guedes - Adeus meu pai](https://singularidadepoetica.art/2019/02/18/jose-fernando-guedes-adeus-meu-pai/): Continuo a vislumbrar o olhar que meu pai Me lançou, há tantos anos, lá da janela De onde morava. Eu realmente não vi com precisão Esse derradeiro olhar para mim. Era mais como um grito para dentro Que ele lançava. Meu nome talvez. Me acenou e foi o último acenar seu. Nessa despedida que eu […]
- [Raymond Carver - Um passeio](https://singularidadepoetica.art/2019/02/17/raymond-carver-um-passeio/): Saí para caminhar pelos trilhos do trem.Caminhei algum tempo por elese cheguei ao cemitério do povoado,onde um homem descansa entreduas esposas. Emily van der Zee,Mãe e Esposa Amada,está à direita de John van der Zee.Mary, a segunda senhora Van der Zee,também uma Esposa Amada, à sua esquerda.Primeiro Emily se foi, depois Mary.Anos mais tarde, foi […]
- [Ian Hamilton - A Tempestade](https://singularidadepoetica.art/2019/02/16/ian-hamilton-a-tempestade/): Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um ladoDo teu rosto, tua boca contraída, teu assustado.Voltas-te para mim e quando chamo, tu vensE ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tomeTua cabeça entre minhas mãos, como se fosseUma delicada tigela que a […]
- [Francisco Brines - Aquele verão de minha juventude](https://singularidadepoetica.art/2019/02/15/francisco-brines-aquele-verao-de-minha-juventude/): E o que restou daquele distante verãonas costas da Grécia?O que resta em mim do único verão de minha vida?Se pudesse escolher, de todos em que vivi,algum lugar, e o tempo que o ata,sua milagrosa companhia me arrasta até lá,onde ser feliz era a razão natural de existir. Perdura a experiência, como um quarto fechado […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Duas autotraduções"](https://singularidadepoetica.art/2019/02/14/paulo-henriques-britto-de-duas-autotraducoes/): (CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como […]
- [Joan Margarit - Amor e tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/13/joan-margarit-amor-e-tempo/): Lembras quando ainda desconheciasque a vida não teria piedade de ti?Amor e tempo: o tempo nos habitacomo a areia do rio que, lentamente,vai moldando a forma da margem.O amor, que refletiu em teu olharo esplendor da ilha do tesouro.Sensual, solitária, cercadapela sonora senectude do mare os gritos militares das gaivotas.O sonho clandestino dos cinquenta anos. […]
- [Manuel António Pina - As vozes](https://singularidadepoetica.art/2019/02/12/manuel-antonio-pina-as-vozes/): A infância vem pé ante pé sobe as escadas e bate à porta – Quem é? – É a mãe morta – São coisas passadas – Não é ninguém Tantas vozes fora de nós! E se somos nós quem está lá fora e bate à porta? E se nos fomos embora? E se ficamos sós?
- [William Soares dos Santos – A força do desejo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/11/william-soares-dos-santos-a-forca-do-desejo/): A força do desejo se desfaz tão logo se saciam as tensões ferozes do corpo e dos hemisférios e no destino dos braços do tempo os amantes se perdem em mistérios
- [Manuel Vilas - O último Elvis](https://singularidadepoetica.art/2019/02/10/manuel-vilas-o-ultimo-elvis/): Respeita sempre a decadência das mulherese dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amara vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.Respeita todos os sagrados e humildes naufrágiosdos seres humanos. Respeita aqueles que se suicidaram. Respeita aqueles que se […]
- [Walter Savage Landor - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2019/02/09/walter-savage-landor-epitafio-2/): Não lutei com ninguém; nada valia a lida.Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;As mãos, estas aqueci no fogo da vidaQue naufraga; estou pronto para o desate. Trad.: Nelson Santander Walter Savage Landor – Dying Speech of an Old Philosopher I strove with none, for none was worth my strife:Nature I loved, and, next […]
- [Giuseppe Ungaretti - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2019/02/08/giuseppe-ungaretti-in-memoriam/): Locvizza, 30 de setembro de 1916 Chamava-seMoammed Sceab Descendentede emires de nômadessuicidaporque não tinha maisPátria Amou a Françae mudou de nome Foi Marcelmas não era francêse já não sabiaviverna tenda dos seusonde se escuta a cantilenado Alcorãosaboreando um café E não sabiadesataro cantodo seu abandono Acompanhei-ojunto com a dona da pensãoonde vivíamosem Parisdo número 5 […]
- [Raymond Carver - Vocês não sabem o que é o amor (uma noite com Charles Bukowski)](https://singularidadepoetica.art/2019/02/07/raymond-carver-voces-nao-sabem-o-que-e-o-amor-uma-noite-com-charles-bukowski/): Vocês não sabem o que é o amor disse BukowskiEu tenho 51 anos e olhem pra mimestou apaixonado por essa garotaestou louco por ela mas ela também estáentão tudo bem cara é assim que deve serEu entro no sangue delas e elas não conseguem se livrarElas tentam de tudo pra se afastar de mimmas no […]
- [Wilfred Owen - Futilidade](https://singularidadepoetica.art/2019/02/05/wilfred-owen-futilidade/): Coloquem-no à luz do sol… Em casa Seu toque gentil o acordava com a lembrança De campos ainda por plantar… O sol o acordou sempre, até na França, Até chegarem a manhã de hoje e a neve que aí está. Se alguma coisa pode acorda-lo agora, Só o velho sol saberá. Lembrem que também acorda […]
- [Andreia C. Faria - "Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada"](https://singularidadepoetica.art/2019/02/04/andreia-c-faria-tenho-a-pedir-vos-que-nao-reutilizeis-mais-nada/): "Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada", um poema de Andreia C. Faria
- [Adam Zagajewski - Conversa com Friedrich Nietzsche](https://singularidadepoetica.art/2019/02/04/adam-zagajewski-conversa-com-friedrich-nietzsche/): “Conversa com Friedrich Nietzsche”, um poema de Adam Zagajewski que imagina um diálogo com o filósofo alemão para investigar algumas das questões mais profundas da existência humana.
- [Jorge Luis Borges - João 1,14](https://singularidadepoetica.art/2019/02/03/jorge-luis-borges-joao-114/): Não será menos enigmática esta páginaque as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetemas bocas ignorantes,por julgá-las de um homem, não espelhosobscuros do Espírito.Eu que sou o É, o Foi e o Serátorno a condescender com a linguagem,que é tempo sucessivo e emblema.Quem brinca com um menino brinca com algopróximo e misterioso;eu quis […]
- [Ian Hamilton - Despertar](https://singularidadepoetica.art/2019/02/02/ian-hamilton-despertar/): Sua cabeça, tão enferma, repousa junto à minha.Tão sensível. Você não consegue lembrarPor que está aqui, nem reconheceEstas mãos prestativas.Meu amor,O mundo nos encurrala. Estamos perdendo terreno. Trad.: Nelson Santander Awakening Your head, so sick, is leaning against mine,So sensible. You can’t rememberWhy you’re here, nor do you recognizeThese helping hands.My love,The world encircles us. […]
- [Manuel António Pina - Gare du Sud](https://singularidadepoetica.art/2019/02/01/manuel-antonio-pina-gare-du-sud/): Tudo o que temos pertence a outros, desconhecidos de nós, e ainda a outros, e temo-lo como se o perdêssemos ficando uma sombra, a nossa sombra. Estamos longe de casa e essa sombra é a única morada a que podemos acolher-nos. A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante; e se a ouvíssemos […]
- [José María Cumbreño - Identidade](https://singularidadepoetica.art/2019/01/31/jose-maria-cumbreno-identidade/): Durante anos, a roupa que usei foi herdada de meu irmão mais velho.Meu nome me foi dado em homenagem ao meu avô.O primeiro carro que conduzi era de segunda mão.A primeira mulher que me beijou já havia beijado outros.A casa em que habito é alugada.Tudo o que escrevo já foi escrito por alguém há muito […]
- [Billy Collins - As cadeiras em que ninguém se senta](https://singularidadepoetica.art/2019/01/30/billy-collins-as-cadeiras-em-que-ninguem-se-senta/): Vêem-se em varandas e em relvados mesmo à beira do lago, geralmente dispostas em pares indicando que um casal se poderá sentar ali e olhar para a água ou para as grandes árvores frondosas. O problema é que nunca se vê ninguém sentado nessas cadeiras abandonadas embora a dada altura deva ter parecido um bom […]
- [José Luis García Martín - Em algum lugar](https://singularidadepoetica.art/2019/01/29/jose-luis-garcia-martin-em-algum-lugar/): Logo, depois, mais tarde, quando nunca,meus passos se afastaram dos meus passose em algum lugar, não sei se dentro ou fora,ouviu-se uma voz que repetia um nome.Uma voz, apenas um eco, quase nada,talvez a voz do vento entre as árvoresonde árvores sequer existiam.Tremiam os alicerces da terraou seria eu quem tremia naquele instantequando um sol […]
- [Walter de la Mare - Os que ouviam](https://singularidadepoetica.art/2019/01/28/walter-de-la-mare-os-que-ouviam-2/): “Está aí alguém?”, disse o Viajante Batendo à porta de luar; A relva, chão de fetos da floresta, Pôs-se o cavalo a devorar. Sobre a cabeça do Viajante, um pássaro Voou da torre para além. E ele feriu a porta uma outra vez, Dizendo: “Está aí alguém?” Do peitoril da janela, ninguém Desceu até o […]
- [Nelson Santander - Mudança Singular](https://singularidadepoetica.art/2018/07/14/nelson-santander-mudanca-singular/): Resolvi mudar o blog. De hoje em diante, além de umas perfumarias que fiz na página, o blog passará a se chamar “singularidade”. Por quê? Primeiro, porque o nome anterior era muito feio. A ideia de criar um blog para divulgar poemas (principalmente), textos, vídeos, traduções e outras coisas de que gosto, veio meio de […]
- [Piedad Bonnett - Volta à Poesia](https://singularidadepoetica.art/2018/07/13/piedad-bonnett-volta-a-poesia/): Outra vez volto a ti. Cansada venho, definitivamente solitária. Minha bolsa cheia de tristeza trago, carregada de penas infinitas, de dor. Dos desertos venho com os lábios ardentes e o olhar cego pelo vento forte e a dura areia. Abrasada de sede, venho beber de teus profundos mananciais, render-me em teus braços, fundos braços de […]
- [Inês Dias - Linhas de Torres](https://singularidadepoetica.art/2018/07/12/ines-dias-linhas-de-torres-poema/): Linhas de Torres, um poema de Inês Dias
- [Manuel António Pina - M., A Última Palavra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/11/manuel-antonio-pina-m-a-ultima-palavra-poema/): M., A Última Palavra, um poema de Manuel António Pina
- [Joan Margarit - Vozes de Crianças](https://singularidadepoetica.art/2018/07/10/joan-margarit-vozes-de-criancas/): O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste, é uma teia de luz cansada onde recordo quando iam dormir. Ainda lhes leio naquele quarto, debaixo da lâmpada ao lado da cama, os contos com capas duras de cores brilhantes. De súbito, em alguma madrugada, ouço uma criança que me chama e incorporo-me, mas […]
- [Jorge Luis Borges - James Joyce (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/07/09/jorge-luis-borges-james-joyce-em-tres-traducoes/): Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os diasdo tempo, desde o inconcebíveldia inicial do tempo, em que um terrívelDeus prefixou os dias e agonias,até aquele outro em que o ubíquo riodo tempo terrenal torne a sua fonte,que é o […]
- [Emily Dickinson - "Senti um Féretro em meu Cérebro..."](https://singularidadepoetica.art/2018/07/08/emily-dickinson-senti-um-feretro-em-meu-cerebro/): Senti um Féretro em meu Cérebro,E Carpideiras indo e vindoA pisar — a pisar — até eu sonharMeus sentidos fugindo — E quando tudo se sentou,O Tambor de um Ofício —Bateu — bateu — até eu sentirInerte o meu Juízo E eu os ouvi — erguida a Tampa —Rangerem por minha Alma comTodo o Chumbo […]
- [Herberto Helder - A Paixão Grega](https://singularidadepoetica.art/2018/07/07/herberto-helder-a-paixao-grega/): Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,quando alguém morria perguntavam apenas:tinha paixão?quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:se tinha paixão pelas coisas gerais,água,música,pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,paixão pela paixão,tinha?e então indago de mim se […]
- [Manuel de Freitas - Pompe Inutili](https://singularidadepoetica.art/2018/07/06/manuel-de-freitas-pompe-inutili-poema/): Pompe Inutili, um poema de Manuel de Freitas
- [Carlos Alberto Machado – Mapa de Desencontros](https://singularidadepoetica.art/2018/07/05/carlos-alberto-machado-mapa-de-desencontros/): I Abrigo-te mais uma vez há muito tempo disseste aqui hei-de morrer voltas sempre a esta morada ris-te e partes no telhado frágil caem as primeiras águas de Inverno. II Deus encontrou-te eu sei apaixonou-se pelos teus olhos verdes (há fados assim) à sombra das velhas árvores dás-lhe a mão e passeiam deve ser em […]
- [Edna St. Vincent Millay – Objeção de Consciência](https://singularidadepoetica.art/2018/07/04/edna-st-vincent-millay-objecao-de-consciencia/): Eu vou morrer, mas isso é tudo o que farei pela Morte. Eu a ouço tirar seu cavalo da baia; Eu ouço pisadas no chão do celeiro. Ela tem pressa; ela tem negócios em Cuba e nos Bálcãs, muitas ligações a fazer na manhã. Mas eu não vou segurar a rédea enquanto ela ajusta a […]
- [Manuel António Pina - Forma, só Forma](https://singularidadepoetica.art/2018/07/03/manuel-antonio-pina-forma-so-forma-poema/): Forma, só Forma, um poema de Manuel António Pina
- [Alejandra Pizarnik - Capítulos Principais](https://singularidadepoetica.art/2018/07/02/alejandra-pizarnik-capitulos-principais/): Chega a morte com sua manada de ossos sorrio submissa a uma menina idiota que implora em meu nome juntas (a morte, a menina e eu) não encontramos outro ofício para execrar. No final todos se casam: o mar e as ondas, a noite e a escuridão, a taça e o vinho, o anel e […]
- [Georg Trakl – No Outono](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/georg-trakl-no-outono/): Junto à cerca, os girassóis e o seu brilho, Doentes sentados ao sol, sem alento. No campo, as mulheres cantam no trabalho, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Os pássaros contam lendas de encantar, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Há um violino no pátio a gemer. E já o vinho escuro vão […]
- [Joan Margarit - Não jogues fora as cartas de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/joan-margarit-nao-jogues-fora-as-cartas-de-amor/): Elas não te abandonarão. O tempo passará, apagar-se-á o desejo — esta flecha da sombra — e os rostos sensuais, belos e inteligentes, ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho. Passarão os anos. Cansar-te-ão os livros. Decairás ainda mais e perderás até mesmo a poesia. O ruído da cidade nas vidraças acabará por ser […]
- [Tishani Doshi - Poema de Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/06/30/tishani-doshi-poema-de-amor/): No fim, perderemos um ao outro para alguma coisa. Espero que para algo grandioso – morte ou desastre. Mas pode não ser dessa maneira. Pode ser que você saia para comprar cigarros uma manhã depois de termos feito amor e nunca mais retorne, ou eu me apaixone por outro homem. Pode ser uma lenta caminhada […]
- [Emily Dickinson - "Morrer por ti era pouco..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/29/emily-dickinson-morrer-por-ti-era-pouco/): Morrer por ti era pouco.Qualquer grego o fizera.Viver é mais difícil —É esta a minha oferta — Morrer é nada, nemMais. Porém viver importaMorte múltipla — semO Alívio de estar morta. Trad.: Augusto de Campos Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Too […]
- [Antonia Pozzi - Novembro](https://singularidadepoetica.art/2018/06/28/antonia-pozzi-novembro/): E depois – quando eu partir restará alguma coisa de mim no meu mundo – restará um fino rasto de silêncio no meio das vozes – um ténue sopro de branco no coração do azul – E numa noite de Novembro uma menina frágil à esquina de uma rua venderá braçadas de crisântemos e lá […]
- [Jorge Luis Borges - Cambridge](https://singularidadepoetica.art/2018/06/27/jorge-luis-borges-cambridge/): Nova Inglaterra e a manhã. Dobro por Craigie. Penso (já pensei) que o nome Craigie é escocês e que a palavra crag é de origem celta. Penso (já pensei) que neste inverno estão os antigos invernos dos quais deixaram escrito que o caminho está prefixado e que já somos do Amor ou do Fogo. A […]
- [Renata Correia Botelho - O Vento a Rondar os Dragoeiros](https://singularidadepoetica.art/2018/06/26/renata-correia-botelho-o-vento-a-rondar-os-dragoeiros-poema/): O Vento a Rondar os Dragoeiros, um poema de Renata Correia Botelho
- [Felipe Benítez Reyes - Uma Forma de Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2018/06/25/felipe-benitez-reyes-uma-forma-de-eternidade/): Então o medo era isto? Não os assustadores fantasmas do pensamento e da consciência. Não os longos corredores de hospitais com lâmpadas fluorescentes dia e noite. Nem sequer o tremor de irrealidade que permanece na alma se te recordas. O medo, aparentemente, é calmo: Chega quando fechas a janela e compreendes que tudo quanto vês […]
- [Alfredo Buxán - Lápide](https://singularidadepoetica.art/2018/06/24/alfredo-buxan-lapide/): Uma lágrima cai sobre a cal do solo, arde sob meus pés, consome na solidão minha solidão. Trad.: Nelson Santander Alfredo Buxán – Lápida Una lágrima cae sobre la cal del suelo, arde bajo mis pies, abrasa en soledad mi soledad.
- [Manuel de Freitas - Balladen Om Jenny Lind](https://singularidadepoetica.art/2018/06/23/manuel-de-freitas-balladen-om-jenny-lind-poema/): Balladen Om Jenny Lind, um poema de Manuel de Freitas
- [Inês Dias - Passou demasiado tempo...](https://singularidadepoetica.art/2018/06/22/ines-dias-passou-demasiado-tempo-tempo-poema/): Passou demasiado tempo..., um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Shostakovich. Sinfonia "Leningrado"](https://singularidadepoetica.art/2018/06/21/joan-margarit-shostakovich-sinfonia-leningrado/): Lembras-te? Joana havia morrido. Íamos para o norte, tu e eu, no carro, para o apartamento junto ao mar, e ouvíamos esta sinfonia. Iniciamos a viagem em uma manhã luminosa e, dentro da música, o dia era de muros cobertos pelo gelo, vultos carregando sacos meio vazios e, no lago, trenós com cadáveres. Como uma […]
- [Manuel António Pina - Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/manuel-antonio-pina-neste-preciso-momento-neste-preciso-lugar-poema/): Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar, um poema de Manuel António Pina
- [Nelson Santander – Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), por Nelson Santander
- [Alfredo Buxán - A eternidade das Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/19/alfredo-buxan-a-eternidade-das-cinzas/): Leia "A eternidade das cinzas", de Alfredo Buxán, um poema contemplativo sobre mortalidade, silêncio e a fragilidade da existência humana.
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2018/06/18/jorge-luis-borges-labirinto-2/): Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro. E o alcácer abarca o universo E não tem anverso nem reverso Não tem extremo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro teu destino Como […]
- [Manuel de Freitas - Genealogia](https://singularidadepoetica.art/2018/06/17/manuel-de-freitas-genealogia-poema/): Genealogia, um poema de Manuel de Freitas
- [Jorge Sousa Braga - Fogo sobre fogo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/16/jorge-sousa-braga-fogo-sobre-fogo-poema/): Fogo sobre fogo, um poema de Jorge Sousa Braga
- [Rui Caeiro - "Ainda atacas..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/15/rui-caeiro-ainda-atacas-poema/): "Ainda atacas...", um poema de Rui Caeiro
- [Nuno Júdice - Réquiem por Muitos Maios](https://singularidadepoetica.art/2018/06/14/nuno-judice-requiem-por-muitos-maios-poema/): Réquiem por Muitos Maios, um poema de Nuno Júdice Conheci tipos que viveram muito. Estão mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço. de álcool, da obrigação de viver que os consumia [...]
- [Inês Dias - Lapinha](https://singularidadepoetica.art/2018/06/13/ines-dias-lapinha-poema/): Lapinha, um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Não estava longe, não era difícil](https://singularidadepoetica.art/2018/06/12/joan-margarit-nao-estava-longe-nao-era-dificil/): Chegou este tempo em que já não machuca a vida que se perde, em que a luxúria é tão só uma lâmpada inútil, e a inveja se olvida. É um tempo de perdas prudentes, necessárias, e não é um tempo de chegar mas de partir. O amor, agora, por fim coincide com a inteligência. Não […]
- [Machado de Assis - Último Capítulo (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2018/06/11/machado-de-assis-ultimo-capitulo-excerto/): “Há entre os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato […]
- [Manuel António Pina – Esplanada](https://singularidadepoetica.art/2018/06/10/manuel-antonio-pina-esplanada-poema/): Esplanada, um poema de Manuel António Pina
- [Belchior - Comentários a Respeito de John](https://singularidadepoetica.art/2018/06/09/belchior-comentarios-a-respeito-de-john/): Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho Deixem que eu decido a minha vida Não preciso que me digam de que lado nasce o sol Porque bate lá o meu coração Sonho e escrevo em letras grandes de novo pelos muros do país João, o tempo andou mexendo com a gente, sim John, eu […]
- [Joan Margarit - Discurso do Método](https://singularidadepoetica.art/2018/06/07/joan-margarit-discurso-do-metodo/): Já de criança procurava as janelas para pode fugir com o olhar. Desde então, se entro em um lugar, observo com atenção onde deixo meu casaco e onde está a porta de saída. Liberdade, para mim, quer dizer fuga. Há muitas portas no mundo. Inclusive o sexo, em caso de emergência, pode sê-lo, embora todas […]
- [Idea Vilariño - Ou foram nove](https://singularidadepoetica.art/2018/06/06/idea-vilarino-ou-foram-nove/): Talvez tivemos só sete noites não sei não as contei como poderia ter feito. Talvez não mais que seis ou foram nove. Não sei, mas valeram a pena como o amor mais duradouro. Talvez com quatro ou cinco noites dessas, mas precisamente como essas, talvez seja possível viver como de um longo amor uma vida […]
- [Manuel António Pina – Lugares da infância](https://singularidadepoetica.art/2018/06/05/manuel-antonio-pina-lugares-da-infancia/): Lugares da infância onde sem palavras e sem memória alguém, talvez eu, brincou já lá não estão nem lá estou. Onde? Diante de que mistério em que, como num espelho hesitante, o meu rosto, outro rosto, se reflecte? Venderam a casa, as flores do jardim, se lhes toco, ficam hirtas e geladas, e sob os […]
- [Paulo Henriques Britto - Queima de Arquivo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/04/paulo-henriques-britto-queima-de-arquivo/): Houve um tempo em que eu amava em cada corpo o reflexo do que eu queria ter sido. No fundo do sexo eu buscava o meu desejo perdido. Acabei achando o outro que em mim mesmo destruí. Foi fácil reconhecê-lo: de tudo que vi em seu rosto somente o ódio era belo. Esse morto adolescente […]
- [Eduardo Chirinos - O que meu pai realmente quer de mim](https://singularidadepoetica.art/2018/06/03/eduardo-chirinos-o-que-meu-pai-realmente-quer-de-mim/): 1 Esta noite tive um sonho. Seguia com meu pai por uma estrada de terra. Os dois íamos a cavalo e mal trocávamos uma palavra. Ao longe se via a sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoado desconhecido e remoto. De repente, meu pai deteve seu cavalo e perguntou-me se eu sabia para […]
- [Wislawa Szymborska - Gato num apartamento vazio](https://singularidadepoetica.art/2018/06/02/wislawa-szymborska-gato-num-apartamento-vazio/): Morrer — isso não se faz a um gato. Pois o que há de fazer um gato num apartamento vazio. Trepar pelas paredes. Esfregar-se nos móveis. Nada aqui parece mudado e no entanto algo mudou. Nada parece mexido e no entanto está diferente. E à noite a lâmpada já não se acende. Ouvem-se passos na […]
- [Manuel de Freitas - Grand Hotel København, 326](https://singularidadepoetica.art/2018/06/01/manuel-de-freitas-grand-hotel-kobenhavn-326/): Onze horas: a tua mão adormecida marca agora um conto de Karen Blixen – veremos em breve essa casa cinzenta, em Helsingør – enquanto eu ouço uma sonata de Scarlatti tocada por Scott Ross e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca. Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes assim, ignorando a áspera nudez da […]
- [Jaime Gil de Biedma - Happy ending](https://singularidadepoetica.art/2018/05/31/jaime-gil-de-biedma-happy-ending/): Embora, à noite, comigo já não durmas mais, o acaso dirá talvez se é definitivo. Que embora o prazer nunca mais volte a ser o mesmo, na vida o esquecimento não costuma durar. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Happy ending Aunque la noche, conmigo, no la duermas ya, sólo el azar nos dirá […]
- [Javier Salvago - Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos](https://singularidadepoetica.art/2018/05/30/javier-salvago-um-pouco-mais-sabios-um-pouco-mais-cegos/): Quando você não é mais jovem, se convence de que o diabo sabe mais porque é velho e admite que os anos nos ensinam a distinguir a realidade do sonho. Talvez não. Talvez a vida só se nos mostre uma vez – quando temos olhos para aprecia-la – e depois vamos esquecendo seu rosto e […]
- [Inês Dias - Joaquim e Judite](https://singularidadepoetica.art/2018/05/29/ines-dias-joaquim-e-judite/): Fizera toda a viagem com ele ao colo. Queria despedir-se junto ao mar, mas as partidas são tão imperfeitas se o coração é uma caixa de cinzas demasiado enferrujada para abrir ao vento. Mesmo agora, depois de lavada a última partícula que se lhe colara à pele, sabia que o amor passara a ter o […]
- [Manuel António Pina - Ruínas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/28/manuel-antonio-pina-ruinas/): Por onde quer que tenha começado, pelo corpo ou pelo sentido, ficou tudo por fazer, o feito e o não feito, como num sono agitado interrompido. O teu nome tinha alturas inacessíveis e lugares mal iluminados onde se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam, e talvez devesse ter começado por aí. Agora […]
- [Javier Salvago - Convém não esquecer](https://singularidadepoetica.art/2018/05/27/javier-salvago-convem-nao-esquecer/): Por esta via que chamam vida, vamos com cautela devida, tal qual um cego. Mas em cinzas termina todo e qualquer fogo. Trad.: Nelson Santander Javier Salvago – Conviene no Olvidarlo Por esta senda, que llaman vida, todos vamos a tientas, igual que un ciego. En ceniza terminan todos los fuegos.
- [Vítor Nogueira - Gelo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/26/vitor-nogueira-gelo/): Agora é apenas um café com paredes adornadas, imagens retratando destemidos ancestrais. O tempo foi passando, não foi? Um acidente em câmara lenta a uma escala cataclísmica. Grande parte daquilo que fazemos é construir memória, uma promessa frágil ao futuro. E pensar que na vida acumulamos tanta coisa, sobretudo se por hábito não deitamos nada […]
- [Nuno Júdice - Passado](https://singularidadepoetica.art/2018/05/25/nuno-judice-passado/): Passou o vento, passou o dia, passou a noite e a manhã, passou o tempo, passou a gente, passou cada hora de amanhã; passou um canto esquecido nos cantos de cada passo, passou ao dizer que passo sem se lembrar do compasso; passou a vida como se nada fosse, só passou e foi-se embora, passou […]
- [Manuel António Pina - O Regresso](https://singularidadepoetica.art/2018/05/24/manuel-antonio-pina-o-regresso/): Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira […]
- [Inês Dias – Reconquista](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/ines-dias-reconquista/): Do meu bisavô, ferreiro e construtor de pontes, conheci apenas as iniciais, gravadas na pedra com que tomara o último dos elementos. Mas a sul do passado, o meu avô repetia-lhe ainda os gestos, ensinando-me a travar as marés com pequenos diques improvisados – paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel. Nunca mais o futuro […]
- [Nelson Santander - Philip Roth](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/philip-roth/): Morreu Philip Roth, meu último grande herói literário. Sua vasta bibliografia explora uma gama enorme de temas, mas a faceta que mais me impressionou foi a que ele abordou em seus últimos livros: a questão da velhice. A leitura de “Homem Comum” – principal obra de Roth sobre o tema – há cerca de 8 […]
- [Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame](https://singularidadepoetica.art/2018/05/22/lawrence-ferlinghetti-cafe-notre-dame/): Uma espécie de trauma sexual prende um casal abismado Ele está segurando as duas mãos dela nas suas Ela está beijando as mãos dele Estão olhando-se nos olhos de muito perto Ela tem um casaco de peles feito duma centena de coelhos correndo Ele tem um casaco clássico sombrio e calças cinza-de-pardo Agora estão a […]
- [Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções](https://singularidadepoetica.art/2018/05/21/marina-tsvetaieva-um-poema-em-duas-traducoes/): Tentativa de ciúme – Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra? Fácil, não é? — Um golpe de remo! — E de pronto a linha da costa Se foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante (No céu, por certo, não no mar)! Almas! Almas! — antes amar Como […]
- [Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa](https://singularidadepoetica.art/2018/05/20/anne-sexton-para-o-meu-amante-voltando-para-a-esposa/): Ela está bem aqui. Ela foi cuidadosamente esculpida para você saída de sua infância saída dentre seus cem colegas de escola preferidos. Ela sempre esteve aqui, meu bem. Ela é de fato extraordinária. Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro e tão real como uma panela de ferro fundido. Vamos ser sinceros, eu […]
- [Mario Benedetti - Tempo sem Tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/19/mario-benedetti-tempo-sem-tempo/): Preciso de tempo, necessito desse tempo que os outros deixam de lado porque lhes sobra ou já não sabem o que fazer com ele tempo em branco em rubro em verde mesmo em castanho escuro não me importa a cor cândido tempo que eu não posso abrir e fechar como uma porta tempo para olhar […]
- [Manuel António Pina - Luz](https://singularidadepoetica.art/2018/05/18/manuel-antonio-pina-luz/): Talvez que noutro mundo, noutro livro, tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu), e talvez então tu, eu, […]
- [Marina Colasanti - Rota de Colisão](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/marina-colasanti-rota-de-colisao/): De quem é esta pele que cobre a minha mão como uma luva? Que vento é este que sopra sem soprar encrespando a sensível superfície? Por fora a alheia casca dentro a polpa e a distância entre as duas que me atropela. Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas […]
- [Raul de Carvalho – Amiúde](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/raul-de-carvalho-amiude/): No vale dos afetos ninguém está seguro: Míngua a lembrança, Esquece-se o rosto, Retorna-se ao eu, Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo – E apenas as pequenas ilusões – um café, o cigarro, a limonada – imitam dois corações […]
- [Roger Wolfe - A Última Noite da Terra](https://singularidadepoetica.art/2018/05/16/roger-wolfe-a-ultima-noite-da-terra/): O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa E, no entanto, permaneço aqui. Sua melodia não muda, já o escrevi antes. Mas o meu trabalho é constatar o óbvio e é isso que o melro faz-me recordar. O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem por sua própria mão ou com ajuda. As […]
- [João Miguel Fernandes Jorge - Presépio Animado da Ribeira Grande](https://singularidadepoetica.art/2018/05/15/joao-miguel-fernandes-jorge-presepio-animado-da-ribeira-grande/): Ainda todos se lembram do dezembro de 96. Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na berma, um gato de pelagem branca. Parecia ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa de pelo curto, tinha uma chaga na orelha alastrava pelo crânio e pela face e olho. […]
- [Charles Simic - Na Biblioteca](https://singularidadepoetica.art/2018/05/14/charles-simic-na-biblioteca/): Para Octavio Há um livro chamado “Um Dicionário dos Anjos”. Não foi aberto por ninguém em cinquenta anos, Eu sei, porque quando o fiz As capas rangeram, as páginas desintegraram-se. Nele descobri Que os anjos já foram tão abundantes Quanto moscas. O céu ao entardecer Costumava ficar repleto deles. Você precisava agitar ambos os braços […]
- [Inês Dias – Lei Sálica](https://singularidadepoetica.art/2018/05/13/ines-dias-lei-salica/): As mulheres da família sempre tiveram um jeito quase póstumo de existir: guardar o lume em silêncio, comer depois de servir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destino para lerem os caminhos perdidos e coleccionavam a abdicação em caixinhas de folha, entre bilhetes caducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a […]
- [A. M. Pires Cabral – Motes e Voltas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/12/a-m-pires-cabral-motes-e-voltas/): 1 Senhor, vão sendo horas. Sei bem que o teu relógio não tem de regular-se pelo meu nem a tua vontade pela minha. Mas é justo que seja aquele que sofre do tempo os enxovalhos a dizer quando vão sendo horas — e não tu, Senhor, com quem o tempo não colide (decerto porque tu […]
- [Eugénio de Andrade - Ver Claro](https://singularidadepoetica.art/2018/05/11/eugenio-de-andrade-ver-claro/): Toda a poesia é luminosa, até a mais obscura. O leitor é que tem às vezes, em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver claro. Se regressar outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas ficará cego de tanta claridade. Abençoado seja se lá chegar.
- [Adília Lopes - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/adilia-lopes-arte-poetica-poema/): Arte Poética, um poema de Adília Lopes
- [Inês Dias – Your Funeral, my Trial](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/ines-dias-your-funeral-my-trial/): O morto fica mais só quando quem fala lhe rouba a última memória desse barco desmesurado da infância, construído sem vista para o mar. O morto fica mais só ainda, quando quem ouve se esquece da música para escolher o seu próprio funeral, alinhando convidados e preferindo coroas de plástico a condizer com as lágrimas. […]
- [Manuel António Pina - Relatório](https://singularidadepoetica.art/2018/05/09/manuel-antonio-pina-relatorio/): É um mundo pequeno, habitado por animais pequenos – a dúvida, a possibilidade da morte – e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros, os teus passos subindo as escadas, o gato brincando na sala com o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa, um pouco mais […]
- [Vitor Nogueira – Sementes](https://singularidadepoetica.art/2018/05/08/vitor-nogueira-sementes/): É claro que me lembro. Havia dois atalhos pelo meio do pinhal, direcções espantosamente precisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos, havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio para tratar certas lesões, uma peça vital do equipamento. Havia girassóis à volta da casa e as palavras imortais dos […]
- [Jorge Luis Borges - Sobre nós](https://singularidadepoetica.art/2018/05/07/jorge-luis-borges-sobre-nos/): Amamos o que não conhecemos, o já perdido. O bairro que foi periferia. Os antigos, que já não podem nos decepcionar porque são mito e esplendor. Os seis volumes de Schopenhauer, que não acabaremos de ler. A lembrança, não a leitura, da segunda parte do Quixote. O Oriente que, sem dúvida, não existe para o […]
- [Ana Martins Marques - de "Três Postais"](https://singularidadepoetica.art/2018/05/06/ana-martins-marques-de-tres-postais/): São Paulo Depois de um tempo todas as coisas ficam marcadas como se estivessem impregnadas de veneno Há um tempo em que os lugares são limpos e novos abertos como clareiras mas já não é este o tempo Sobre cada lugar se sobrepõe a experiência do lugar como um selo num cartão postal Por exemplo […]
- [Alberto Caeiro - Quando vier a primavera](https://singularidadepoetica.art/2018/05/05/alberto-caeiro-quando-vier-a-primavera/): Quando vier a primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morria E a primavera era […]
- [José Alcaraz - Volta para Casa](https://singularidadepoetica.art/2018/05/04/jose-alcaraz-volta-para-casa/): Atravessa as ruas absorto nos ecos das pessoas, distante inclusive de seus pensamentos. Não chove, não abre seu guarda-chuva, no entanto, como sempre, molham-se não só seus sapatos como a vida também, porque às vezes não recorda que o mundo o reclama. Caminha como quem não sabe para onde, a cada passo crê estar só […]
- [Hans Magnus Enzensberger - A Visita](https://singularidadepoetica.art/2018/05/03/hans-magnus-enzensberger-a-visita/): Quando levantei os olhos da página em branco havia um anjo no quarto. Um anjo bastante comum presumivelmente de menor hierarquia. Você não pode imaginar, ele disse, o tanto que você é dispensável. Dos quinze mil tons de azul, ele disse, cada um faz mais diferença Do que tudo que você possa fazer ou deixar […]
- [Manuel António Pina - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2018/05/02/manuel-antonio-pina-interiores/): Onde estamos agora que não nos vemos, tu sentada diante da TV e eu escrevendo isto, não sei o quê, como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceu do nosso amor como uma inevitabilidade, uma saudade pousada agora na mão de Deus existindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Reza da Manhã de Maio](https://singularidadepoetica.art/2018/05/01/sophia-de-mello-breyner-andresen-reza-da-manha-de-maio/): Senhor, dai-me a inocência dos animais Para que eu possa beber nesta manhã A harmonia e a força das coisas naturais. Apagai a máscara vazia e vã De humanidade, Apagai a vaidade, Para que eu me perca e me dissolva Na perfeição da manhã E para que o vento me devolva A parte de mim […]
- [Jorge Luis Borges – As Causas](https://singularidadepoetica.art/2018/04/30/jorge-luis-borges-as-causas/): Todas as gerações e os poentes. Os dias e nenhum foi o primeiro. A frescura da água na garganta De Adão. O ordenado Paraíso. O olho decifrando a maior treva. O amor dos lobos ao raiar da alba. A palavra. O hexâmetro. Os espelhos. A Torre de Babel e a soberba. A lua que os […]
- [Belchior - Coração Selvagem](https://singularidadepoetica.art/2018/04/30/belchior-coracao-selvagem/): Um ano sem Belchior… Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção Esconda um beijo pra mim Sob as dobras do blusão Eu quero um gole de cerveja No seu copo, no seu colo e nesse bar Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja Não quero o […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Discurso pós-jantar em um noivado](https://singularidadepoetica.art/2018/04/29/hans-magnus-enzensberger-discurso-pos-jantar-em-um-noivado/): Este eu, um invólucro que, contanto que ninguém o abra, parece compacto, regular como um Kinder ovo, quase apetitoso. Só por dentro é escuro. Quem sabe o que estará esperando por você lá. Obsessões, sem dúvida, hábitos enferrujados, medos incompreensíveis, truques de segunda mão, desejos infantis. Que você deseje tê-la, esta caixa de presente, beira […]
- [Juan Vicente Piqueras - Véspera de Permanecer](https://singularidadepoetica.art/2018/04/28/juan-vicente-piqueras-vespera/): Tudo está preparado: a mala, as camisas, os mapas, a tola esperança. Estou tirando o pó das pálpebras. Já pus na lapela a rosa dos ventos. Tudo está pronto: o mar, o ar, o atlas. Só me falta o quando, o onde, um diário de bordo, cartas de navegação, ventos propícios, coragem e alguém que […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Balanço](https://singularidadepoetica.art/2018/04/27/carlos-drummond-de-andrade-balanco/): A pobreza do eu a opulência do mundo A opulência do eu a pobreza do mundo A pobreza de tudo a opulência de tudo A incerteza de tudo na certeza de nada
- [Felipe Benítez Reyes – Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2018/04/26/felipe-benitez-reyes-aniversario-2/): Outro ano que se vai. Os muitos que se foram deixaram-nos um verbo repetido com significados diferentes e o mapa de um tesouro que não está em nenhum mapa, conversas amenas e o silêncio, e luzes que se apagam e sombras que se acendem e o penar de alma em luto pela alma do que […]
- [Jaime Gil de Biedma - Lembre-se](https://singularidadepoetica.art/2018/04/25/jaime-gil-de-biedma-lembre-se/): Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo sonhos na memória: estremece a eternidade do tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado para um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre dissipando-se o passado. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Recuerda […]
- [Haroldo de Campos - Servidão de Passagem](https://singularidadepoetica.art/2018/04/24/haroldo-de-campos-servidao-de-passagem/): forma de fome proêmio mosca ouro?mosca fosca. mosca prata?mosca preta. mosca íris?mosca reles. mosca anil?mosca vil. mosca azul?mosca mosca. mosca branca?poesia pouca. o azul é puro?o azul é pus. de barriga vazia. o verde é vivo?o verde é vírus de barriga vazia. o amarelo é belo?o amarelo é bile de barriga vazia. o vermelho é […]
- [Rocío Wittib - Outra vez olhas o mundo...](https://singularidadepoetica.art/2018/04/23/rocio-wittib-outra-vez-olhas-o-mundo/): outra vez olhas o mundo como se fosse tarde demais te perguntas se o tempo é uma resposta e aceitas a dúvida do talvez como consolo aprendeste a renunciar sempre de algo mas sobretudo a desistir de ti mesmo por isso foges do desejo como um animal ferido te refugias na certeza fiel de alguma […]
- [Manuel António Pina - Instituto de Oncologia](https://singularidadepoetica.art/2018/04/22/manuel-antonio-pina-instituto-de-oncologia/): Estes cumprem o rito antigo mantendo a chama da morte acesa na obscura água da vida e engrossam o rio dos mortos como pura memória sem nome. Nós rebelamo-nos, levantamos as mãos ao céu, e depois fechamo-las para deter o rio da mudança fluindo por entre os dedos, porque éramos os menos fortes e os […]
- [Charles Bukowski – Como ser um grande escritor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/21/charles-bukowski-como-ser-um-grande-escritor/): você tem que trepar com um grande número de mulheres belas mulheres e escrever uns poucos e decentes poemas de amor. não se preocupe com a idade e/ou com os talentos frescos e recém-chegados; apenas beba mais cerveja mais e mais cerveja e vá às corridas pelo menos uma vez por semana e vença se […]
- [Inês Lourenço – Consoantes Átonas](https://singularidadepoetica.art/2018/04/20/ines-lourenco-consoantes-atonas/): Emudecer o afe[c]to português? Amputar a consoante que anima a vibração exa[c]ta do abraço, a urgência tá[c]til do beijo. Eu não nasci nos Trópicos: preciso desta interna consoante para iluminar a névoa do meu dile[c]to norte.
- [Yehuda Amichai – Um homem em sua vida](https://singularidadepoetica.art/2018/04/19/yehuda-amichai-um-homem-em-sua-vida/): Um homem não tem tempo em sua vida para ter tempo para cada coisa. Ele não possui momentos suficientes para ter um momento para cada coisa. O Eclesiastes Estava errado a esse respeito. Um homem precisa amar e odiar no mesmo instante, rir e chorar com os mesmos olhos, com as mesmas mãos atirar e […]
- [Eira Stenberg – Falar de Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/18/eira-stenberg-falar-de-amor/): Falar de amor, do que não se pode falar – desse beco sem saída que é o espelho onde alguém pende de cabeça em uma árvore invisível com as pernas cingindo um ramo como se lutasse contra a gravidade e abrisse a boca sem emitir som algum. Ou falar como se o amor fosse uma […]
- [Fernando Luis Chivite – “Abril é o mês mais cruel”](https://singularidadepoetica.art/2018/04/17/fernando-luis-chivite-abril-e-o-mes-mais-cruel/): Às vezes, sem que nada pareça particularmente favorável – nem lúgubres violinos, nem a tarde tornando-se violeta e perigosa – sente-se que a vida segue sendo estranha, e desenvolve senhas inéditas, desordena papéis, acende cigarros com uma inquietude excessiva, como querendo assegurar-se que o tempo não se deterá, que o olvido é só algo fortuito, […]
- [Mario Montalbetti – Muito menos que uma ideia](https://singularidadepoetica.art/2018/04/16/mario-montalbetti-muito-menos-que-uma-ideia/): Não creias na verdade. Não creias na beleza. Não creias no amor. Senta ao piano sopra a trompa arranha a corda e fiquemos juntos. Não me apanhes um Beserol se me dói a cabeça. Não repitas comigo filme que já viste. Não creias que haja algo importante no que fazes. Nem sequer uma boa ação […]
- [Rocío Wittib - Imprescindível não é a direção...](https://singularidadepoetica.art/2018/04/15/rocio-wittib-imprescindivel-nao-e-a-direcao/): imprescindível não é a direção o caminho no mapa a geografia é apenas um acidente para quem se busca e suspeita que distância não significa quilômetros tampouco importa o destino porque nunca se está em um lugar preciso mas constantemente em uma fronteira entre o desespero do ser e o anseio de resistir não há […]
- [Felipe Fortuna – Samir](https://singularidadepoetica.art/2018/04/14/felipe-fortuna-samir/): Aquele garoto que vê o mercado ficar cheio se chama Samir. Ele crê em Deus de todas as maneiras: como pássaro brilhante, como água fresca entre pedras, como o assobio do vento deserto. Mas agora desmembrado e a cabeça confundida aos estilhaços Samir não vê. Sobre o mercado a bomba apontou o inimigo e levou […]
- [Jorge Teillier – Blue](https://singularidadepoetica.art/2018/04/13/jorge-teillier-blue/): Verei novos rostos Verei novos dias Serei esquecido Terei remembranças Verei sair o sol quando sai o sol Verei cair a chuva quando chove Andarei a esmo De um lado a outro Aborrecerei meio mundo Contando a mesma história Me sentarei para escrever uma carta Que não me interessa enviar Ou para olhar as crianças […]
- [e e cummings - de "xaipe"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/12/e-e-cummings-de-xaipe/): 40 eu estou te pedindo querida é pra que mais poderia um não mas não é o que claro mas você não parece entender que eu não posso ser mais claro a guerra não é o que imaginamos mas por favor pelo amor de Oh que diabo sim é verdade que fui eu mas esse […]
- [Rosa Leveroni i Valls – De "Epigramas e Canções"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/11/rosa-leveroni-i-valls-de-epigramas-e-cancoes-poema/): Eu levo dentro de mim para fazer-me companhia a solidão apenas. A solidão imensa do amor infinito que queria ser terra, ar e sol, mar e estrela, para que fosses mais meu, para que eu fosse mais tua. Trad.: Nelson Santander Rosa Leveroni i Valls – De “Epigrames i cançons” Jo porto dintre meu per […]
- [rocío - "não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses..."](https://singularidadepoetica.art/2019/01/27/rocio-nao-e-que-me-sinta-mais-velha-mae-e-que-todos-esses-meses/): não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses todos os dias tendo que ser forte, fico cansada pela manhã, acordo abraçada ao travesseiro e às vezes não sei o que dizer pra mim mesma para levantar de minha pequena e solitária cama em alguns meio-dias, se tomo cerveja, sinto-me um […]
- [Paulo Henriques Britto - À margem do Douro](https://singularidadepoetica.art/2019/01/26/paulo-henriques-britto-a-margem-do-douro/): Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que […]
- [Joan Margarit - Professor Bonaventura Bassegoda](https://singularidadepoetica.art/2019/01/25/joan-margarit-professor-bonaventura-bassegoda/): Recordo-o alto e gordo, atrevido, sentimental. Você, então, era uma autoridade em Alicerces Profundos. Sempre iniciava suas aulas assim: “Senhores, bom dia. Hoje faz tantos anos, tantos meses e tantos dias que minha filha morreu”. E costumava secar algumas lágrimas. Tínhamos vinte anos, mais ou menos, e o homem corpulento que você era, chorando no […]
- [Rui Knopfli – Fim de tarde no café](https://singularidadepoetica.art/2019/01/24/rui-knopfli-fim-de-tarde-no-cafe/): Na tarde cor de azebre falávamos de coisas amargas. Ali, na mesa triste do café com moscas adejando sobre restos de açúcar e um copo de água morna de esquecida, falávamos da amargura das coisas, entre rostos graníticos e enxovalhados, entre estranhos e estranhos de estranhos e os que, nada tendo de estranhos, cuidam de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Os deuses Internos](https://singularidadepoetica.art/2019/01/23/juan-vicente-piqueras-os-deuses-internos/): Os deuses sabem mais e melhor do que nósdo que precisamos. Pedimos-lhes um filho,e nos enviam um lobo, e não os compreendemos. A vida diariamente os esquece.A morte à noite os inventa. E as doenças, como diz o sábio,são deuses que agonizam dentro de nosso corpo,seu último templo em ruínas,seu refúgio sem fé. Imploram compaixão. […]
- [Vladimir Holan - A Neve](https://singularidadepoetica.art/2019/01/22/vladimir-holan-a-neve/): A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvida de que o melhor para o homem é estar sentado na cozinha, ainda que seja a da insônia. Ali faz calor, preparas-te algo, bebes vinho e contemplas pela vidraça a eternidade familiar. Por que te atormentarias querendo saber se nascimento e morte são apenas […]
- [Bruno Darcoleto Malavolta - Epicurus Revisited](https://singularidadepoetica.art/2019/01/21/bruno-darcoleto-malavolta-epicurus-revisited/): disco, agulha, caixas onde ouço os sonhos de coltrane e duke ellington o velho violão em que aprendi os primeiros acordes o novo violão, superior, trincado poemas que li, poemas que escrevi, por todos os lados uma cadeira, uma mesa, um cigarro, um filtro de água o meu corpo cercado por gatos neste exato ponto […]
- [Juan Luis Panero - Mensagem de Antonio a Cleópatra](https://singularidadepoetica.art/2019/01/20/juan-luis-panero-mensagem-de-antonio-a-cleopatra/): Mensagem de Antonio a Cleópatra I Elogiem outros tua adormecida beleza, a suavidade de tua pele em repouso, a medida perfeição de teus membros. Eu não vim para isso, vim somente para te penetrar pela frente e por detrás como um punhal atravessa a água transparente e afunda e se perde no poço sombrio. Mensagem […]
- [José Asunción Silva - Obra Humana](https://singularidadepoetica.art/2019/01/19/jose-asuncion-silva-obra-humana/): No interior da floresta intocada em que, uma noite, no início de maio, tocou a velha ramagem folhada da pálida lua o primeiro raio, poucos meses depois a luz de gás da aurora na estação iluminou o curso da locomotiva audaz que por trilhos duríssimos cruzou. E onde fora certa vez um abrigo, porto seguro […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Desfile](https://singularidadepoetica.art/2019/01/18/carlos-drummond-de-andrade-desfile/): O rosto no travesseiro, escuto o tempo fluindo no mais completo silêncio. Como remédio entornado em camisa de doente; como na penugem de braço de namorada; como vento no cabelo, fluindo: fiquei mais moço. Já não tenho cicatriz. Vejo-me noutra cidade. Sem mar nem derivativo, o corpo era bem pequeno para tanta insubmissão. E tento […]
- [Paul Valéry - Cemitério Marinho](https://singularidadepoetica.art/2019/01/17/paul-valery-cemiterio-marinho/): Ó min’alma não aspires A uma existência imortal, Mas goza plenamente Tudo o que estiver ao teu alcance. Píndaro Píticas III Este teto tranquilo, onde caminham pombas,Palpita entre pinheiros e tumbas;Compõe-lhe de luz o meio dia justoO mar, o mar, sempre recomeçado!Que recompensa após meditaçãoN’um longo olhar sobre a calma dos deuses! Puro lavor de finos lampejos consumaTanto diamante de […]
- [Berta Piñán - Duas Garças](https://singularidadepoetica.art/2019/01/16/berta-pinan-duas-garcas/): Chegaram no sábado. Vimo-las cedo porque nesse dia chegou também o frio e passamos a manhã falando do tempo. São duas, e me pergunto que destino imprevisto as trouxe a esta árvore precisa, a este lugar exato em que o tempo delas cruza, como um sinal confuso, nosso tempo. De tarde falamos sobre elas: “Esta […]
- [Vasco Gato - Eterno Outono](https://singularidadepoetica.art/2019/01/15/vasco-gato-eterno-outono/): Estou com a idade pousada nas mãos. Explico-me com dedicação aos berços fundos onde cada coisa dorme o seu medo de morrer. Há na tristeza um perigo de terminar: o eterno outono parece belo a quem perdeu todas as sementes. Pergunta-se um nome e ninguém responde. Onde fica essa ilha a que só chegamos por […]
- [Nuno Júdice - Poema (Arredores)](https://singularidadepoetica.art/2019/01/14/nuno-judice-poema-arredores/): A brancura dos ossos, em contraste com a terra argilosa, com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar leite, papel, cal, e também as tuas mãos – frias. Bebo o seu brilho numa noturna memória. Uma contaminação de corpos não reduz a minha solidão; nem a música, nem o riso, nem o vinho. Lágrimas […]
- [Helder Moura Pereira - "Eu não tinha nada de felino..."](https://singularidadepoetica.art/2019/01/13/helder-moura-pereira-eu-nao-tinha-nada-de-felino/): Eu não tinha nada de felino, tu sabias que eu não tinha nada de felino. Nenhum de nós se admirou quando medi mal a distância e falhei o salto. Enquanto ia no ar parecia que era um salto bom, porém houve qualquer coisa que correu mal e caí com estrondo no chão. Ninguém riu. Não […]
- [Filipa Leal - Entrevista de Emprego](https://singularidadepoetica.art/2019/01/12/filipa-leal-entrevista-de-emprego/): Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse umaspecto impeditivo,prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro,ao nosso relacionamentoprofissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras,sim,e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menoscuidado com elas,e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as comrespeito,o senhor sabe pontuar […]
- [César Vallejo - Paris, Outubro de 1936](https://singularidadepoetica.art/2019/01/11/cesar-vallejo-paris-outubro-de-1936/): De tudo isto eu sou o único que parte. Deste banco eu me vou, de meus calções, de minha grande situação, de minhas ações, de meu número dividido de lado a lado, de tudo isto eu sou o único que parte. Dos Campos Elísios ou ao dar a volta à estranha viela de la Luna, […]
- [Maria do Rosário Pedreira – Ondas](https://singularidadepoetica.art/2019/01/10/maria-do-rosario-pedreira-ondas/): Dei-te o meu corpo como quem estende um mapa antes de viagem, para que nele descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses os dedos devagar, como fazem as aves quando encontram o verão. Se me tivesses tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços como uma escarpa pronta a desabar, ou uma cidade do litoral a definhar […]
- [Denise Emmer - Da Morte](https://singularidadepoetica.art/2019/01/09/denise-emmer-da-morte/): Os mortos não sobem aos céus nem elevam-se abstratos tornam-se apenas retratos lado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvel austero e silencioso do tio tuberculoso que esquivo me espia. A avó já está fria mas me olha com ternura tece uma colcha escura para as bodas da família, Mortos não sobem trilhas de […]
- [Roger Wolfe - O amor, suponho](https://singularidadepoetica.art/2019/01/08/roger-wolfe-o-amor-suponho/): "O amor, suponho", um poema de Roger Wolfe que reflete sobre a dificuldade de escrever um poema de amor para a própria esposa, associando o amor a raros instantes de felicidade e questionando se vale a pena desperdiçá-los tentando transformá-los em versos.
- [Ian Hamilton - Pai, Morrendo](https://singularidadepoetica.art/2019/01/07/ian-hamilton-pai-morrendo/): Seus dedos, tufos de pelos de cobertor Debaixo das unhas, estendem-se para tocar As rosas ao lado da cama despetalando com o calor. Caem pétalas brancas. Aprisionadas em suas mão Elas escurecem, empapadas em suor, depois enrolam, Desidratam-se e desmoronam. Hora após hora Elas gotejam do ramo. Por fim Ele está limpo e, quando você […]
- [Paulo Henriques Britto - Heraclitus meets Pascal](https://singularidadepoetica.art/2019/01/06/paulo-henriques-britto-heraclitus-meets-pascal/): Ninguém se molha duas vezes na mesma tempestade. Mudam você, a água, nem é o mesmo, na sua mão, o guarda-chuva; muda o motivo pelo qual você houve por bem molhar-se, oferecendo ao temporal – por assim dizer – a outra face; não muda, porém, a consciência de que os sapatos encharcados e a calça […]
- [Manuel António Pina - A Canção dos Adultos](https://singularidadepoetica.art/2019/01/05/manuel-antonio-pina-a-cancao-dos-adultos/): Parece que crescemos mas não.Somos sempre do mesmo tamanho.as coisas que à volta estãoé que mudam de tamanho. Parece que crescemos mas não crescemos.São as coisas grandes que há,o amor que há, a alegria que há,que estão a ficar mais pequenos. Ficam de nós distantesque às vezes já mal os vemos.Por isso parece que crescemose […]
- [Rui Pires Cabral - Recomeço](https://singularidadepoetica.art/2019/01/04/rui-pires-cabral-recomeco/): O primeiro cigarro do dia é na varanda quando faz sol: misteriosamente o terraço do vizinho continua a concentrar a tristeza do bairro inteiro. Mal acordado, juntas as linhas que te permitem perceber quem és, onde estás, o que terás de fazer a seguir. E a angústia que te abraça é a memória mais antiga […]
- [Francisco Brines - Os Verões](https://singularidadepoetica.art/2019/01/03/francisco-brines-os-veroes/): A Carmen Marí Foram longos e ardentes os verões! Ficamos nus juntos ao mar, e o mar ainda mais nu. Com os olhos, e em corpos ágeis, praticamos a mais prazerosa posse do mundo. Soavam para nós as vozes iluminadas de lua, e era a vida abrasadora e violenta, ingratos com o sonho, fluíamos. O […]
- [Abel Silva – O Poço](https://singularidadepoetica.art/2019/01/02/abel-silva-o-poco/): A moeda do Acaso cai tão fundo no Poço dos Destinos que vivemos descolados do viver do outro, como num contrato de comportamento. O milagre do viver nos entorpece. Então a notícia da doença de um amigo, o convite para a missa de um outro, um susto, um alarme, uma suspeita nos vareja no rosto […]
- [Javier Salvago - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2019/01/01/javier-salvago-ano-novo/): Como as coisas não podiam ficar pior – escreveu Kafka, em seu Diário – melhoraram. Como eu gostaria, ante este negro e inóspito horizonte que se abre, diante de mim – como mais um ano, ou como menos um ano -, de poder dizer o mesmo. Mas sinto que ainda não cheguei ao fundo, que […]
- [Manuel António Pina – KM 82](https://singularidadepoetica.art/2018/12/31/manuel-antonio-pina-km-82/): I’m on the highway to hell a 170 à hora no CD, ou então o rádio para sempre sintonizado na final da Taça. Nunca saberás o resultado, Faéton, hey, mumma, look at me, I’m on may way to the promised land e está visto que uma ligação directa não chega para pôr em marcha uma […]
- [The White Buffalo – This Year](https://singularidadepoetica.art/2018/12/31/the-white-buffalo-this-year/): Acho que toda mensagem de “Feliz Ano Novo” se resume à ideia contida na letra desta música: tente melhorar sempre e sempre. Se não der, tente de novo no ano que vem. E no outro. E no outro. Uma hora dá certo. Ou não. Feliz 2019! [wpvideo 7QK0XJOX] The White Buffalo – This Year (Tradução […]
- [Joan Margarit - Canção de Ninar](https://singularidadepoetica.art/2018/12/30/joan-margarit-cancao-de-ninar/): Dorme, Joana. E que este Loverman obscuro e trágico do sax de teu irmão em Montjuïc possa acompanhar-te toda a eternidade pelos caminhos que são bem conhecidos pela música. Dorme, Joana, dorme. E de preferência não esqueças de teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste. Enquanto envelhecemos, conservaremos todas as cores que […]
- [José Mateos - Canção 10](https://singularidadepoetica.art/2018/12/29/jose-mateos-cancao-10/): Canção 10 (Ruínas de Bolonha) Disse o sol do entardecer,aqui, defronte ao mar:Morreré começar a voltar. Trad.: Nelson Santander José Mateos – Canción 10 (Ruinas de Bolonia) Aquí, frente al mar, lo diceel sol del atardecer:Morires empezar a volver.
- [Inês Dias - Um estranho no meu túmulo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/28/ines-dias-um-estranho-no-meu-tumulo/): Chegamos tarde a nós. Eu tinha a pele gasta, o coração no fio. Tu eras um longo muro de cimento areado em que deixava a carne inteira a caminho do encontro. A primavera ficava-nos sempre à esquerda e tu cada vez mais dentro de mim até não sentir nada, até estares já do outro lado. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Procura](https://singularidadepoetica.art/2018/12/27/carlos-drummond-de-andrade-procura/): Procurar sem notícia, nos lugares onde nunca passou; inquirir, gente não, porém textura, chamar à fala muros de nascença, os que não são nem sabem, elementos de uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis, feitos de cimento do impossível, e ao sol-menino opor a antiga busca, e de tal modo revolver a morte que ela […]
- [Táxis Varvitsiótis - Assim também a morte](https://singularidadepoetica.art/2018/12/26/taxis-varvitsiotis-assim-tambem-a-morte/): À memória de Andréa Karandonis Asa ou marfim É tudo espesso Como o ferro e a madeira Como a proa inquebrável De um navio Rumo ao infinito Assim também a morte Espessa impenetrável Como galeria de mina Muro indestrutível Poço sem fundo Carvão aceso Para alcançar-lhe o duro cerne Tons de rasgar O pano entretecidos […]
- [Nuno Júdice - Natal](https://singularidadepoetica.art/2018/12/25/nuno-judice-natal/): Deito-me à sombra da árvore sem sombra – a árvore cujas raízes nascem da infância – e é natal, e nunca mais chega a meia-noite dessa noite sem fim. Rezo pelas mais obscuras incertezas, pelas almas que hesitam nas encruzilhadas, pelos vagabundos que esperam a meia-noite para se sentarem à porta da igreja, na única […]
- [Joan Margarit - Cemitério de Montjuïc](https://singularidadepoetica.art/2018/12/24/joan-margarit-cemiterio-de-montjuic/): Algo permanece das almas, como a brisa que surge depois que alguém passou, e que faz estremecer uma leve cortina na janela. Pelo caminho de pedras ásperas que não esquecem mas calam, severas, o que sabem, o vento deixa um silêncio de lágrimas por vidas como as nossas, perdidas. “Jazigo perpétuo”, a terra sempre dura, […]
- [Amalia Bautista – Noite de São João](https://singularidadepoetica.art/2018/12/23/amalia-bautista-noite-de-sao-joao/): Que queimaremos esta noite, quantasvelhas feridas daremos nós às chamas,de que nos livraremos para não o recordarnem sequer dos piores pesadelos diurnos?Que lançaremos nós ao fogo ou em que fogueiraslimparemos a vida para nos renovarmos,para o tempo que reste, para o que consigamosroubar a tantas mortes?Chega a noite de São João, continuamosvivos e juntos apesar […]
- [Nelson Santander – Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/23/nelson-santander-cinema-paradiso-e-a-visita-cruel-do-tempo/): Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo, uma crônica de Nelson Santander
- [paulo leminski - sossegue coração](https://singularidadepoetica.art/2018/12/22/paulo-leminski-sossegue-coracao/): sossegue coração ainda não é agora a confusão prossegue sonhos afora calma calma logo mais a gente goza perto do osso a carne é mais gostosa
- [Antonio Cicero – Prólogo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/21/antonio-cicero-prologo/): Por onde começar? Pelo começo absoluto, pelo rio Oceano, já que ele é, segundo o poeta cego em cujo canto a terra e o céu escampo e o que é e será e não é mais e longe e perto se abrem para mim, pai das coisas divinas e mortais, seu líquido princípio, fluxo e […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Quando Penso nos Velhos Amigos](https://singularidadepoetica.art/2018/12/20/luis-alberto-de-cuenca-quanto-penso-nos-velhos-amigos/): Quando penso nos velhos amigos que saíram de minha vida, unindo-se a más mulheres que alimentam seu medo e os enchem de filhos para tê-los por perto, controlados e inermes. Quando penso nos velhos amigos que se foram para o país da morte, sem passagem de volta, só porque procuraram o deleite nos corpos e […]
- [Robert Schindel - Réquiem por uma Amizade](https://singularidadepoetica.art/2018/12/19/robert-schindel-requiem-por-uma-amizade/): Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos. E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia O seu eco no coração, morreu o meu hóspede. Um riso, um sapato, o violino de estar aqui Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Espera](https://singularidadepoetica.art/2018/12/18/sophia-de-mello-breyner-andresen-espera/): Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia, No silêncio que apenas quebrava a maré cheia A gritar o seu eterno insulto, Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro.
- [josé luís peixoto - arte poética](https://singularidadepoetica.art/2018/12/16/jose-luis-peixoto-arte-poetica/): o poema não tem mais que o som do seu sentido, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma, poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil […]
- [Ian Hamilton - Poema de Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2018/12/15/ian-hamilton-poema-de-aniversario/): Firme em suas mãos Sua caneca de barbear com a Exposição do Império. Você a conserva agora Como escarradeira, as pombas presunçosas, O 1938 dela Manchados por gotas de seu sangue. Esta noite, Meio sufocado, canceroso, Desiludido, Você bate os dentes contra sua boca dourada de porcelana E espera por um ataque. Trad.: Nelson Santander […]
- [Ivan Junqueira - A tua data](https://singularidadepoetica.art/2018/12/14/ivan-junqueira-a-tua-data/): Alguém só morre em sua data, que é única, ôntica, enfática. Nunca depende de quem vai nem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba, e, se dele a alma se aparta, não cabe a ninguém afirmá-lo, nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas […]
- [Paulo Henriques Britto - Nenhum Mistério](https://singularidadepoetica.art/2018/12/13/paulo-henriques-britto-nenhum-misterio/): I Não chega a ser desespero, mas não por haver esperança. Falta a ênfase, o tempero, o sal da intemperança, sem o qual não é iguaria à altura de grandes gestos. É mais da categoria das migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassa há que se tirar sustância. (Até mesmo na desgraça é pra poucos […]
- [Nuno Júdice - O Eterno Retorno](https://singularidadepoetica.art/2018/12/12/nuno-judice-o-eterno-retorno/): Agora, ao ouvir uma peça de música Barroca, como se isso servisse para alterar A cor do céu ou a cor dos sentimentos, Apercebo-me de que a música é, só, O que ficou de ti. O resto – amor, Corpo, palavras, desejo, um riso – ficou Não sei onde, nem exatamente sei quando: sei só […]
- [Amalia Bautista – Nu de Mulher](https://singularidadepoetica.art/2018/12/11/amalia-bautista-nu-de-mulher/): Para ti nunca passei de um blocode mármore. Esculpiste nele o meu corpo,um corpo de mulher branco e formoso,em que não viste nada a não ser pedrae o orgulho, isso sim, do teu trabalho.Nunca imaginaste que eu te amavae que tremia quando, docemente,me modelavas os seios e os ombros,ou alisavas as coxas e o ventre.Hoje, […]
- [América, Aztecas – O rio passa, passa](https://singularidadepoetica.art/2018/12/10/america-aztecas-o-rio-passa-passa/): O rio passa, passa e nunca cessa. O vento passa, passa e nunca cessa. A vida passa: nunca regressa. Versão: Herberto Helder
- [Ian Hamilton - Memorial](https://singularidadepoetica.art/2018/12/09/ian-hamilton-memorial/): Quatro lápides desgastadas inclinam-se contra a parede do seu hospício Vitoriano. Além dos limites, você se ajoelha na grama alta Decifrando nomes obliterados: Velhos lunáticos que aqui morreram. Trad.: Nelson Santander Ian Hamilton – Memorial Four weathered gravestones tilt against the wall Of your Victorian asylum. Out of bounds, you kneel in the long grass […]
- [Joan Margarit - Tchaicovsky](https://singularidadepoetica.art/2018/12/08/joan-margarit-tchaicovsky/): Não te suicides nunca. Olha a escuridão: nunca poderás saber quem te estende a mão. Lembras-te do inverno de luz nos cristais e a cumplicidade daquela música? Ouço a Patética e me vejo desejando que a morte de Joana nos devolvesse a ordem e a felicidade que acreditamos perder quando ela nasceu. Amor meu, Joana, […]
- [Manuel António Pina - Uma noite com Vladimir](https://singularidadepoetica.art/2018/12/07/manuel-antonio-pina-uma-noite-com-vladimir/): Eu sou mais mortal do que o meu corpo, e as minhas palavras mais mortais do que eu. E o teu silêncio, nenhum leitor, que as minhas palavras avidamente ouvem, mais mortal do que as minhas palavras. Ouvir-me-emos não é a morte o que as palavras procuram? sob tanta terra?
- [José Carlos Soares - Camel Blue](https://singularidadepoetica.art/2018/12/06/jose-carlos-soares-camel-blue/): No pequeno cemitério comovente ninguém, a não ser o latido de algum cão, o canto de um galo vermelho, a tosse de um pequeno deus desempregado. Também pude reparar como saía de uma velha campa abandonada um exército de formigas sob um intenso céu azul que nada respondia.
- [Rui Costa - A Minha Bisavó](https://singularidadepoetica.art/2018/12/05/rui-costa-a-minha-bisavo/): A minha bisavó é um quadro na parede. Roída pela traça, ela sucumbe à dentição do tempo nos seus olhos escuros de discreta bruxa. Um dia a minha bisavó nem quadro há-de ser. Continuará, apesar disso, a beber a água do copo onde lavou as cerejas (fingindo-se distraída) e a arrazoar antes da visita extemporânea […]
- [Rui Pires Cabral - Welcome Break](https://singularidadepoetica.art/2018/12/04/rui-pires-cabral-welcome-break/): Estações de serviço como ilhas de vidro no mar alto dos campos. O acaso governa as estradas e os viajantes que se cruzam despidos da teia do seu passado. Atravesso há horas um país chuvoso: anoiteceu e não se vê ninguém nas aldeias. Contra o seu escuro mistério, estas casas são reais? Nelas nasceu gente […]
- [Eugénio de Andrade – Adeus](https://singularidadepoetica.art/2018/12/03/eugenio-de-andrade-adeus/): Já gastamos as palavras pela rua, meu amor e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silêncio. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas, gastamos as mãos à força de as apertarmos, gastamos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto […]
- [Inês Lourenço – Sala Provisória](https://singularidadepoetica.art/2018/12/02/ines-lourenco-sala-provisoria/): Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez. Numa casa que vai ser demolida, numa sala provisória que vai encerrar, num velho café que mudará de ramo, como página virada jamais reaberta, como canção demasiado gasta, como abraço tornado irrepetível, numa porta a que não voltaremos.
- [Francisco Brines - Sitiado pela Divindade](https://singularidadepoetica.art/2018/12/01/francisco-brines-sitiado-pela-divindade/): Hoje voltas-te para o mar, com o corpo nu como na juventude, e todo o peso de ouro caindo sobre as costas como um interminável falcão que, azul, plana ao largo e pousa no braço, sem emitir sons, e respira. Descubro, com sereno assombro, minha existência, e o mundo então existe – o mar, que […]
- [Luís Falcão – Sabemos que o tempo passou](https://singularidadepoetica.art/2018/11/30/luis-falcao-sabemos-que-o-tempo-passou/): Sabemos que o tempo passou Que alguma coisa deveria ter sido dita (talvez depois, talvez mais tarde) Deixamos atrás de nós Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis E, feridos, Por todas as coisas que poderíamos ter evitado a nós próprios Caminhamos para o silêncio E para a escuridão indefinível dos bosques.
- [Wang Wei – Dedicado a Chang Yin](https://singularidadepoetica.art/2018/11/29/wang-wei-dedicado-a-chang-yin/): Instalar armadilhas e esperar pelas lebres astutas, Lançar uma linha à água e espreitar os peixes, Talvez acalme a boca e a barriga, Mas não é esse o sentido da vida do eremita. Eu amo a tranquilidade, Alimento-me de legumes para me desembaraçar das paixões terrenas Doravante, como tu livre e indiferente Lamento aqueles que […]
- [Halldís Moren Vesaas – Oração à Vida](https://singularidadepoetica.art/2018/11/28/halldis-moren-vesaas-oracao-a-vida/): A vida terrena, única, seja o meu quinhão! Vida minha, tudo o que tenho na tua mão! Toma-me e usa-me e exaure-me nos dias e então me larga alhures, alijada de ti, fria e impotente e condenada a não renascer na noite, na eterna noite sem amanhecer! Trad.: Luciano Dutra BØN TIL LIVET Eitt jordliv, […]
- [Manuel de Freitas – CCB, 2002](https://singularidadepoetica.art/2018/11/27/manuel-de-freitas-ccb-2002/): Abrem-se devagar os túmulos – e entramos neles. É o nosso ofício, talvez o único. Esperamos, anos fartos, o vazio. Não há engano possível, não há regresso. Todas as ilhas devagar nos mentem. Dançava perto de ti, talvez demasiado só, uma estrela d’nada, bo dispidida. Não me digas que não ouviste.
- [José Mateos - Canção 1](https://singularidadepoetica.art/2018/11/26/jose-mateos-cancao-1/): Ainda quase um menino te sentaste a esperar à orla do grande silêncio. Pensavas que estando a sós com tua voz talvez pudesses roubar ao mar seu segredo. Foi-se tua juventude. Mudos passaram os anos e agora estás oco por dentro. Podias, se ao fim soasse a voz do grande silêncio, chegar a cantar seu […]
- [Paulo Henriques Britto - Nenhuma Arte](https://singularidadepoetica.art/2018/11/25/paulo-henriques-britto-nenhuma-arte/): Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, […]
- [Eunice de Souza - Primavera Relutante](https://singularidadepoetica.art/2018/11/24/eunice-de-souza-primavera-relutante/): os corrupiões dourados se foram. as mariquitas estão em silêncio. a última folha vermelha na amendoeira recusa o próprio outono. Trad.: Nelson Santander Reluctant Spring the golden orioles have gone. the warblers are silent. the last red leaf on the almond tree refuses to fall
- [Juan Ramón Jiménez - Com tua Voz](https://singularidadepoetica.art/2018/11/23/juan-ramon-jimenez-com-tua-voz/): Quando eu estiver com as raízes chama-me com tua voz. A mim parecerá que entrou tremendo a luz do sol. Trad.: Nelson Santander Juan Ramón Jiménez – Con tu voz Cuando esté con las raíces llámame tú con tu voz. Me parecerá que entra temblando la luz del sol.
- [André Tecedeiro - de "O Número de Strahler"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/22/andre-tecedeiro-de-o-numero-de-strahler/): nem o poema dá a dimensão da contradição. o tom dizia odeio-te mas o que lhe saía da boca era amo-te. eu sabia que ficar era morte mas o que me dizia era que fugir era morte. a um hematoma eu teria chamado alívio.
- [Yves Bonnefoy – As Árvores](https://singularidadepoetica.art/2018/11/21/yves-bonnefoy-as-arvores/): Olhávamos as árvores, era do alto Do terraço que nos foi caro, o sol Ficava junto a nós mais esta vez ainda Mas retirado, silencioso anfitrião No limiar da casa em ruínas, que deixávamos A seu poder, imensa, iluminada. Vê, dizia-te eu, ele faz deslizar Na pedra desigual, insondável do nosso apoio A sombra do […]
- [Rupi Kaur – Depressão é uma sombra que mora em mim](https://singularidadepoetica.art/2018/11/20/rupi-kaur-depressao-e-uma-sombra-que-mora-em-mim/): ontem quando saí da cama o sol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou fui eu e eu já não sei se isso é vida Trad.: Ana Guadalupe
- [Francisco Brines - O Triunfo do Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/11/19/francisco-brines-o-triunfo-do-amor/): Eu te amei em Queroneia. Vivos estávamos. Entre a tristeza arruinada um sopro mortal: estávamos vivos. Séculos se passaram, e outros olhos contemplam as ruínas, ainda intactas. Quem passou por aqui? Apenas o vazio foi o tecido do tempo nesta planície. Eu te amei em Queroneia. Impalpável era o calor das cinzas humanas, e na […]
- [Nelson Santander - Gene Tierney](https://singularidadepoetica.art/2018/11/18/nelson-santander-gene-tierney/): Gene Tierney, um texto de Nelson Santander
- [Vitorino Nemésio – A Concha](https://singularidadepoetica.art/2018/11/18/vitorino-nemesio-a-concha/): A minha casa é concha. Como os bichos Segreguei-a de mim com paciência: Fachada de marés, a sonho e lixos, O horto e os muros só areia e ausência. Minha casa sou eu e os meus caprichos. O orgulho carregado de inocência Se às vezes dá uma varanda, vence-a O sal que os santos esboroou […]
- [Joan Margarit - Aventura Doméstica](https://singularidadepoetica.art/2018/11/17/joan-margarit-aventura-domestica/): Sozinho em casa e vasculhando os armários. Encontro um antigo mapa rodoviário, contratos vencidos, esferográficas que já não escreverão nenhuma carta, calculadoras com pilhas descarregadas e relógios que o tempo derrotou. No fundo das gavetas, como um rato triste, aninha-se o passado. Vazios, os vestidos pendem como velhas personagens que nos interpretaram. Súbito, encontro também […]
- [Miguel Torga - Princípio](https://singularidadepoetica.art/2018/11/16/miguel-torga-principio/): Não tenho deuses. Vivo Desamparado. Sonhei deuses outrora, Mas acordei. Agora Os acúleos são versos, E tacteiam apenas A ilusão de um suporte. Mas a inércia da morte, O descanso da vide na ramada A contar primaveras uma a uma, Também não me diz nada. A paz possível é não ter nenhuma.
- [Pedro Mexia - Vamos Morrer](https://singularidadepoetica.art/2018/11/15/pedro-mexia-vamos-morrer/): Vamos morrer, mas somos sensatos, e à noite, debaixo da cama, deixamos, simétricos e exactos, o medo e os sapatos.
- [Inês Dias - (Primeira Memória)](https://singularidadepoetica.art/2018/11/13/ines-dias-primeira-memoria/): No ano da morte da última beguina, que nunca precisara do desassossego de ver, chegou finalmente à Terra a primeira luz do mundo. 380 mil anos até comprovarmos, como a História nunca se cansara, aliás, de repetir, que tudo é trevas, instável equilíbrio entre matéria e energia escuras. Em suma, a humanidade devolvida num saco […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vaidade](https://singularidadepoetica.art/2018/11/12/giuseppe-ungaretti-vaidade/): De repente se eleva sobre os escombros a límpida maravilha da imensidão. E o homem curvado sobre a água surpreendida pelo sol se descobre uma sombra Embalada pouco a pouco desfeita Trad : Geraldo Holanda Cavalcanti Vanità D’improvviso è alto sulle macerie il limpido stupore dell’immensità E l’uomo curvato sull’acqua sorpresa dal sole si rinviene […]
- [Ricardo Molina - Convite à Felicidade](https://singularidadepoetica.art/2018/11/11/ricardo-molina-convite-a-felicidade/): Es dulce ser amado pero amar, oh dioses, qué ventura… Goethe Ama-me agora que tenho os cabelos pretos e uma coroa de junco e o perfume da água e da esteva nos braços nus. Ama-me agora que tenho nos olhos a suave chama da tarde e a graça do sorriso e a leve frescura dos […]
- [Helder Moura Pereira - "Chegamos ao fim do dia..."](https://singularidadepoetica.art/2018/11/10/helder-moura-pereira-chegamos-ao-fim-do-dia/): Chegamos ao fim do dia e cada um pensa para seu lado que isto não é vida, deixámos na terra os habituais sinais com tanto de amor como de desespero e, de mãos vazias, de coração ainda com alguma coisa mas quase vazio, batemos com a força que nos resta, pela última vez, à porta […]
- [Josep M. Rodríguez - Talvez Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/11/09/josep-m-rodriguez-talvez-amor/): “Talvez Amor”, um poema de Josep M. Rodríguez que encontra, na banalidade chuvosa da cidade, a possibilidade secreta de encontros que podem transformar-se em amizade, amor ou resistência à dor.
- [Armando Freitas Filho de "Rol"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/08/armando-freitas-filho/): 150 Ontem, foi-se. Amanhã, não há. Ar, somente, o de hoje no presente, desse dia que projeta na respiração sua plataforma insubstituível: peça única com sua aura esplêndida longe de qualquer linha de montagem frágil a qualquer hora, em aberto. No levante, no meio, no fim do seu alento, não em si, mas em mim […]
- [Ana Martins Marques - Caçada](https://singularidadepoetica.art/2018/11/07/ana-martins-marques-cacada/): E o que é o amorsenão a pressada presaem prender-se? A pressada presaemperder-se
- [Rui Costa - Breve](https://singularidadepoetica.art/2018/11/06/rui-costa-breve/): Esta manhã comecei a esquecer-me de ti. Acordei mais cedo que nos outros dias e com o mesmo sono. A tua boca dizia-me “bom dia” mas não: não o teu corpo todo como nos outros dias. As sombras por aqui são lentas e hoje não comprei o jornal: o mundo que se ocupe da sua […]
- [Miguel Martins - Fine](https://singularidadepoetica.art/2018/11/05/miguel-martins-fine/): Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis. Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura. Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem. Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no […]
- [Paulo Henriques Britto - "Da metafísica"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/04/paulo-henriques-britto-da-metafisica/): Ser parte de alguém ou algo tão grande que não se entenda: toda crença, ao fim e ao cabo, se resume a essa lenda – o mais rematado dislate, coisa jamais entendida, que eleva ao sumo quilate o caco mais reles de vida.
- [Marianne Moore - Poesia](https://singularidadepoetica.art/2018/11/03/marianne-moore-poesia/): Eu também não gosto dela: há coisas mais importantes para além de toda esta farsa. Lendo-a, contudo, com absoluto desprezo, descobre-se nela, no fim das contas, um lugar para o autêntico. Mãos que podem agarrar, olhos que podem dilatar-se, pelos que podem eriçar- se necessário, essas coisas são importantes não porque uma grandiloquente interpretação pode […]
- [Miguel-Manso – Na morte da avó](https://singularidadepoetica.art/2018/11/02/miguel-manso-na-morte-da-avo/): não bastasse a humilhação pública de morrer espera-se do corpo que cumpra com indiscutível pompa o intolerável protocolo de ausentar-se a penosa execução circular e noturna do velório a presença inconveniente dos agentes funerários os adereços lutuosos a obscena maquiagem no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa cerimônia (não há muito a dizer, […]
- [Rui Pires Cabral – Morada](https://singularidadepoetica.art/2018/11/01/rui-pires-cabral-morada/): Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos nas nossas pequenas razões. Estas ruas ainda prometem mais do que podem cumprir? A breve epifania do amor ou simplesmente um cúmplice que nos diga, à mesa de um café, que não faz mal, que pouco importam as perdas e danos que sofremos. De qualquer modo o mundo […]
- [Joan Margarit - A Espera](https://singularidadepoetica.art/2018/10/31/joan-margarit-a-espera/): Tantas coisas estão sentindo tua falta. Assim preenchem-se os dias, instantes feitos de esperar por tuas mãos, de sentir falta de tuas pequenas mãos, que pegaram nas minhas tantas vezes. Temos de nos acostumar com tua ausência. Um verão já passou sem teus olhos e o mar também haverá de acostumar-se. Tua rua, ainda por […]
- [Paulus Silentiarius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/30/paulus-silentiarius-da-antologia-grega/): Zeus, em chuva de ouro, atravessou o bronze que guardava Danae e roubou-lhe a virgindade. Moral da história: o ouro tudo domina – paredes e grilhetas de bronze, fechaduras e peias. Foi o ouro que subjugou Danae. Não é necessário rezar a Afrodite; só é preciso dinheiro. Versão: José Alberto Oliveira
- [Páladas - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/29/palladas-da-antologia-grega/): Nascidos nus. Enterrados nus. Qual a azáfama? Toda a vida conduz à primeira nudez. Versão: José Alberto Oliveira
- [Lucilius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/28/lucilius-da-antologia-grega/): Eutychides, o poeta lírico, morreu. Fugi, ó moradores do Hades! – ele transporta odes e ordenou que consigo queimassem vinte liras e vinte e cinco pautas de música, que Caronte terá de transportar. Onde se poderá encontrar refúgio, agora que Eutychides canta pela eternidade? Versão: José Alberto Oliveira
- [Anônimo - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/27/anonimo-da-antologia-grega/): Não esbanjem comigo o odor da mirra, nem ofereçam coroas de flores, nem acendam a pira funerária, tudo isso é desperdício; ofereçam-me presentes, se quiserem, enquanto estiver vivo – mas espalhar cinzas no vinho torná-lo-á lama e dele não beberão os mortos. Versão: José Alberto Oliveira
- [Automedon - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/26/automedon-da-antologia-grega/): Mandaste chamá-la, disseste para vir, preparaste tudo. Mas, se vier, o que farás? Repara no que se passa contigo, Automedon. Esse canalha, que era alegre e firme, está agora flácido, como cenoura cozida, morto e encolhido entre as pernas. Como irão rir se te puseres a navegar de mãos vazias, um remador que perdeu o […]
- [Marcus Argentarius - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/25/marcus-argentarius-sem-titulo/): Psyllas jaz aqui. A sua ocupação proxeneta; mantinha um bando de raparigas e alugava-as para festas. Um negócio pouco simpático, ganhar dinheiro com carne humana e fraca. Mas poupem o seu túmulo, não atirem pedras, agora que está morto e enterrado. Lembrem-se disto: os serviços que prestou convenceram os rapazes a deixarem as nossas mulheres […]
- [Platão - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/24/platao-sem-titulo/): Eu, Lais, que escarneci dos gregos e enxame de amantes retive à porta, ofereço a Afrodite o meu espelho. Não olharei para esta cara e não consigo ver a anterior. Versão: José Alberto Oliveira
- [Zenodotus - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/23/zenodotus-sem-titulo/): Quem esculpiu o Amor e o colocou junto desta fonte, pensaria que poderia subjugar, com água, tal fogo? Versão: José Alberto Oliveira
- [Eunice de Souza – Alvorada 2](https://singularidadepoetica.art/2018/10/22/eunice-de-souza-alvorada-2/): Falamos através de continentes. É pouco provável que nos voltemos a encontrar. Não posso fumar, não posso viajar, nenhuma felicidade claro. Sentindo um vento frio nas costas renunciamos à filosofia. Acabaram os amantes errantes, maridos, passarões não propriamente sensatos. Ainda temos a idade com que nos conhecemos. Trad.: Francisco José Craveiro de Carvalho
- [Eugénio Andrade - Passamos pelas coisas sem as ver](https://singularidadepoetica.art/2018/10/21/eugenio-andrade-passamos-pelas-coisas-sem-as-ver/): Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos.
- [José Saramago - Ouvindo Beethoven](https://singularidadepoetica.art/2017/09/11/jose-saramago-ouvindo-beethoven/): Venham leis e homens de balanças, Mandamentos daquém e dalém mundo, Venham ordens, decretos e vinganças, Desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos todos da cidade, Brilhe, vermelha, a luz inquisidora, Risquem no chão os dentes da vaidade E mandem que os lavemos a vassoura. A quantas mãos existam, peçam dedos, Para […]
- [Fernando Moreira Salles - Legado](https://singularidadepoetica.art/2017/09/10/fernando-moreira-salles-legado/): Não há dor partilhável nem lamento que se ouça É pequeno o destino do teu sonho e do meu Se alguém te viu passar se o caminho te pertence segue e sorri
- [Ana Martins Marques - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2017/09/09/ana-martins-marques-interiores/): AÇUCAREIRO De amargo basta o amor Agridoce, ela disse Mas a mim pareceu amargo CADEIRA I Repetes diariamente os gestos do primeiro homem que se sentou numa tarde quente olhando as savanas II Pouso de gigantescos pássaros cansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesa essas doces evidências da morte? CRISTALEIRA Guarda e […]
- [Ana Martins Marques - entre a casa/ e o acaso,](https://singularidadepoetica.art/2017/09/08/ana-martins-marques-entre-a-casa-e-o-acaso/): entre a casa e o acaso entre a jura e os jogos entre a volta e as voltas a morada e o mar penélopes e circes entre a ilha e o ir-se
- [Gregório de Matos - Nasce o Sol e Não Dura mais que um Dia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/07/gregorio-de-matos-nasce-o-sol-e-nao-dura-mais-que-um-dia/): Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se formosa a Luz é, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto […]
- [Paulo Nunes - A um antianjo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/06/paulo-nunes-a-um-antianjo/): Em memória de Júlio Caixeta A mais longa distância que pode haver, esta que agora vai dos teus pés ao chão, não te fez mais leve: foi o mundo e nossas vidas que se soltaram.
- [Eucanaã Ferraz - De "Orelhas" (1)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/05/eucanaa-ferraz-de-orelhas-1/): Estão certas todas as canções banais letras convencionais seus corações como são de praxe; estão certos os poemas enfáticos inchados de artifícios à luz óbvia da lua ou de estúpidos crepúsculos; os sonetos mal alinhavados toscos estão certos bem como as confissões íntimas não lapidadas reles nem polidas; ouçamos o que dizem sobre qualquer coisa; […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/09/04/mia-couto-o-espelho/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me, a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mia Couto - A Luz da Dor](https://singularidadepoetica.art/2017/09/03/mia-couto-a-luz-da-dor/): O meu modo de saber é adoecendo. A uns, a ideia surge em luz. A mim, se declara uma pontada no peito. O advento da dor, o deflagrar da súbita febre e eu sei que o meu corpo sabe. Um dia destes me desconhecerei vivo desfalecido de aguda sapiência. Até lá repartirei com um anjo […]
- [Armando Freitas Filho - Escritor, Escritório](https://singularidadepoetica.art/2017/09/02/armando-freitas-filho-escritor-escritorio/): Não transponho Camões, mas me empenho. Não atravesso seu mar manuscrito porque me afogo na incompreensão no enfado, no palavreado castiço na análise sintática dos seus versos onde erro na prova urgente, aflita sem ouvi-los soar na página a pleno de difícil lida, da ilimitada luta na travessia da linha, da estrofe empolgante, empolada, que […]
- [Armando Freitas Filho - Antiquário](https://singularidadepoetica.art/2017/09/01/armando-freitas-filho-antiquario/): Mil folhas. Mesmo em algumas das mais passadas, um pouco do sabor, um risco de doçura e amargo, é remanescente. Anamnésia construída pelo fato e pela imaginação: vai do anátema ao enaltecimento, expressos em alta voz até ao murmúrio cifrado no coração. O acervo de uma vida se dispersará depois de ela parar: alguma coisa […]
- [W. H. Auden - Aquele que Ama Mais](https://singularidadepoetica.art/2017/08/28/w-h-auden-aquele-que-ama-mais/): Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais […]
- [Ricardo Silvestrin - Bilhete](https://singularidadepoetica.art/2017/08/26/ricardo-silvestrin-bilhete/): Não me parecias frágil, via-te doce. Talvez fosses mesmo forte, é preciso ser valente pra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo. Que rio obscuro e discreto te puxava para o fundo, sem saber nadar, sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta, um poema, um bilhete de suicida. Como se quisesses dizer que […]
- [Jaime Sabines - Te Amo às Dez da Manhã](https://singularidadepoetica.art/2017/08/10/jaime-sabines-te-amo-as-dez-da-manha/): Te amo às dez da manhã, e às onze, e ao meio-dia. Te amo com toda a minha alma e com todo o meu corpo, às vezes, em tardes chuvosas. Mas às duas da tarde, ou às três, quando eu me perco em pensar em nós dois, e tu pensas em comida ou nas tarefas […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Meio-dia](https://singularidadepoetica.art/2017/08/09/sophia-de-mello-breyner-andresen-meio-dia/): Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém. O sol no alto, fundo, enorme, aberto, Tornou o céu de todo o deus deserto. A luz cai implacável como um castigo. Não há fantasmas nem alvas, E o mar imenso solitário e antigo, Parece bater palmas.
- [Paul Auster - Fragmento de Frio](https://singularidadepoetica.art/2017/08/08/paul-auster-fragmento-de-frio/): Porque ficamos cegos no dia que se esvai conosco, e porque vimos nossa respiração nublar o espelho de ar, o olho do ar vai se abrir para nada mais que a palavra a que renunciamos: o inverno terá sido lugar de madureza. Nós que viramos os mortos de uma vida que não a nossa. Trad.: […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/08/07/alice-ruiz/): noite gelada a cidade toda coberta denso nevoeiro
- [Zulmira Ribeiro Tavares - Após o inverno](https://singularidadepoetica.art/2017/08/06/zulmira-ribeiro-tavares-apos-o-inverno-poema/): Desarrumação em setembro. O vento batendo as portas e a floração rebentando nas cercas vivas. O céu por vezes de terracota bem acima das cabeças, mas também finas agulhas de gelo imiscuindo-se pelas frinchas, noite alta. Era em São Paulo. Então se entende: o mato bravo torcido pela chuva, o prédio em demolição pingando água […]
- [Rainer Maria Rilke - Hora Grave](https://singularidadepoetica.art/2017/08/04/rainer-maria-rilke-hora-grave/): Quem agora chora em algum lugar do mundo, Sem razão chora no mundo, Chora por mim. Quem agora ri em algum lugar na noite, Sem razão ri dentro da noite, Ri-se de mim. Quem agora caminha em algum lugar no mundo, Sem razão caminha no mundo, Vem a mim. Quem agora morre em algum lugar […]
- [Rainer Maria Rilke - O Mundo Estava no Rosto da Amada](https://singularidadepoetica.art/2017/08/03/rainer-maria-rilke-o-mundo-estava-no-rosto-da-amada/): O mundo estava no rosto da amada – e logo converteu-se em nada, em mundo fora do alcance, mundo-além. Por que não o bebi quando o encontrei no rosto amado, um mundo à mão, ali, aroma em minha boca, eu só seu rei? Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi. Mas eu também estava […]
- [Wislawa Szymborska - Engano](https://singularidadepoetica.art/2017/08/02/wislawa-szymborska-engano/): Soou o telefone na galeria de arte, soou à meia-noite na sala quieta; se houvesse gente dormindo, acordaria na certa, mas aqui há somente insones profetas, somente reis empalidecem de luar e olham indiferentes o que há para olhar, e a mulher do usurário, agitada na aparência, fita justo essa coisa sonante na lareira, mas […]
- [Paulo Henriques Britto - Envoi](https://singularidadepoetica.art/2017/08/01/paulo-henriques-britto-envoi/): O tempo, que a tudo distorce, às vezes alisa, conserta, e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morse de instantes sem rumo e roteiro então dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquiva a gente retoca e remenda até ser coisa que se entenda, mas algo que na […]
- [Wislawa Szymborska - As três Palavras mais Estranhas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/31/wislawa-szymborska-as-tres-palavras-mais-estranhas/): Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já se perde no passado. Quando pronuncio a palavra Silêncio, suprimo-o. Quando pronuncio a palavra Nada, crio algo que não cabe em nenhum não ser. Trad.: Regina Przybycien
- [Paulo Henriques Britto - Três Peças Dispépticas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/30/paulo-henriques-britto-tres-pecas-dispepticas/): I É aqui mesmo, sim. Você era esperado. E por falar nisso, chegou atrasado. Não peça desculpas: não adianta nada. O atraso será contabilizado. Não há a menor dúvida; é este o endereço. Mas fique sabendo: tudo aqui tem preço. Não esteja à vontade. A casa não é sua. E se não gostar, por ali […]
- [Wislawa Szymborska - Entre Muitos](https://singularidadepoetica.art/2017/07/29/wislawa-szymborska-entre-muitos/): Sou quem sou. Inconcebível acaso como todos os acasos Fossem outros os meus antepassados e de outro ninho eu voaria ou de sob outro tronco coberta de escamas eu rastejaria. No guarda-roupa da natureza há trajes de sobra. O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo. Cada um cai como uma luva e […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/28/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-3/): IV Acrescentar ao mundo um morto a mais é só o que a vida garante. O resto é risco, é vai da valsa. Tanto faz improvisar ou decorar o texto, ser pedra ou imitar os animais, correr atrás de lucro ou prejuízo. Dá no que der. E, seja lá o que for, terá sido o […]
- [Wislawa Szymborska - Fim e Começo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/27/wislawa-szymborska-fim-e-comeco/): Depois de cada guerraalguém tem que fazer a faxina.Colocar uma certa ordemque afinal não se faz sozinha. Alguém tem que jogar o entulhopara o lado da estradapara que possam passaros carros carregando os corpos. Alguém tem que se atolarno lodo e nas cinzasem molas de sofásem cacos de vidroe em trapos ensanguentados. Alguém tem que […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/26/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-3/): V Súbito? Não. A coisa morre à míngua, um risco vira traço e o traço, ponto. Por exemplo: uma manhã de domingo, a mesa posta pro café, tudo pronto pra não se fazer nada – ou então a noite de uma terça-feira inane, sob o quebranto da televisão – mas isso não importa; que se […]
- [Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”](https://singularidadepoetica.art/2017/07/23/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-2/): IV Até onde a vista alcança é real todo o visível. Como dançarina e dança formam um todo indistinguível, assim também não há esperança de se atingir algum nível em que uma e outra substância se separem, dando alívio à consciência inquietante de que no próximo instante o erro vai ser dissipado. Não vai. O […]
- [Wislawa Szymborska - Ocaso do Século](https://singularidadepoetica.art/2017/07/20/wislawa-szymborska-ocaso-do-seculo/): Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX. Agora já não tem mais jeito, os anos estão contados, os passos vacilantes, a respiração curta. Coisas demais aconteceram, que não eram para acontecer, e o que era para ter sido não foi. Era para se chegar à primavera e à felicidade, entre […]
- [Mario Quintana - O Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/15/mario-quintana-o-tempo/): A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal… Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora […]
- [Ch'ang Wu Chien - Poema Chinês do Século VIII](https://singularidadepoetica.art/2017/07/14/chang-wu-chien-poema-chines-do-seculo-viii/): Praguejei contra a chuva Que tamborilando no telhado Não me deixou dormir. Praguejei contra o vento Que destruía todo o jardim. Mas você chegou de surpresa E agradeci à tempestade Que te fez despir A roupa molhada. Agradeci à ventania Por ter soprado, Apagado a vela. via Carlito Azevedo (https://www.facebook.com/profile.php?id=100007266525928)
- [Cacaso – Jogos Florais](https://singularidadepoetica.art/2017/07/05/cacaso-jogos-florais/): I Minha terra tem palmeiras onde canta o tico-tico. Enquanto isso o sabiá vive comendo o meu fubá. Ficou moderno o Brasil ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre. II Minha terra tem Palmares memória cala-te já. Peço licença poética Belém capital Pará. Bem, meus prezados senhores dado o […]
- [Armando Freitas Filho - Sibilante](https://singularidadepoetica.art/2017/07/03/armando-freitas-filho-sibilante/): Cego aço doce corte de navalha ou de folha de papel: só sangra bem depois da ação, da posse do sentido e sentimento que o amor concede não isento do ciúme.
- [Wislawa Szymborska - Amor à Primeira Vista](https://singularidadepoetica.art/2017/07/02/wislawa-szymborska-amor-a-primeira-vista/): Ambos estão certos de que uma paixão súbita os uniu. É bela esta certeza, mas é ainda mais bela a incerteza. Acham que por não terem se encontrado antes nunca havia se passado nada entre eles. Mas e as ruas, escadas, corredores nos quais há muito talvez se tenham cruzado? Queria lhes perguntar, se não […]
- [Eucanaã Ferraz - Sob a luz feroz do teu rosto](https://singularidadepoetica.art/2017/07/01/eucanaa-ferraz-sob-a-luz-feroz-do-teu-rosto/): “Sob a luz feroz do teu rosto”, um poema de Eucanaã Ferraz que transforma o amor impossível em metáfora selvagem: amar é desejar o que não pode ser tocado sem risco ou recusa.
- [Nelson Santander - Postudo (pós-"Pós-Tudo", Augusto de Campos e Os Hawaianos)](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/nelson-santander-postudo-poema/): Postudo, de Nelson Santander, paródia do famoso Pós-Tudo, de Augusto de Campos, atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Augusto de Campos - Pós-Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/augusto-de-campos-pos-tudo/)
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2017/06/16/jorge-luis-borges-labirinto/): Não haverá uma porta. Já estás dentro, Mas o alcácer abarca o universo E não tem nem anverso nem reverso Nem muro externo nem secreto centro. Não penses que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro o teu destino Como […]
- [Francis J. Quirós - Efêmero](https://singularidadepoetica.art/2017/06/05/efimero/): Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia: […]
- [Vinicius de Moraes - O poeta Hart Crane suicida-se no mar](https://singularidadepoetica.art/2017/05/23/vinicius-de-moraes-o-poeta-hart-crane-suicida-se-no-mar/): Quando mergulhaste na água Não sentiste como é fria Como é fria assim na noite Como é fria, como é fria? E ao teu medo que por certo Te acordou da nostalgia (Essa incrível nostalgia Dos que vivem no deserto…) Que te disse a Poesia? Que te disse a Poesia Quando Vênus que luzia No […]
- [Carlos Rennó - O Momento](https://singularidadepoetica.art/2017/05/15/carlos-renno-o-momento/): Tem um momento (que de todos é diverso) Em que você se une ao todo, ao universo O tempo então congela (feito lá no pólo) Seu ego some, seu eu ergue-se do solo E sai voando entre as estrelas na amplidão Você se torna uma delas na explosão Dentro de si você vê uma […]
- [Bill Knott - Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/05/09/bill-knott-morte/): Morte Perto de dormir, cruzo as mãos sobre o peito. Colocarão minhas mãos assim. Parecerá que estou a voar para dentro de mim mesmo. Death Going to sleep, I cross my hands on my chest. They will place my hands like this. It will look as though I am flying into myself. Trad.: Antonio Cicero […]
- [Abel Silva - Navegações](https://singularidadepoetica.art/2017/05/07/abel-silva-navegacoes/): Minha casa está calma, eu é que sou turbulento, o país navega, dizem, eu é que me arrebento eu é que sempre invento toda esta ventania eu é que não me contento com o rumo da romaria não sei se a sorte é cega ou eu que vivo a teimar: sei que eu sou o […]
- [Hilda Hilst - Roteiro do Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/05/03/roteiro-do-silencio/): Não há silêncio bastantePara o meu silêncio.Nas prisões e nos conventosNas igrejas e na noiteNão há silêncio bastantePara o meu silêncio.Os amantes no quarto.Os ratos no muro.A meninaNos longos corredores do colégio.Todos os cães perdidosPelos quais tenho sofrido:O meu silêncio é maiorQue toda solidão.E que todo silêncio.
- [Nelson Santander - Que a Terra lhe seja Leve](https://singularidadepoetica.art/2017/04/30/nelson-santander-que-a-terra-lhe-seja-leve/): "Que a terra lhe seja leve", uma crônica de Nelson Santander
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Gregorianos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/10/carlos-drummond-de-andrade-os-gregorianos/): Um amigo que tem consciência exacerbada do tempo confia-me que, depois de certo ponto (ele não usa a palavra idade), a vida já não oferece acontecimentos, e sim comemorações. — Por mais que o sujeito faça, não consegue realmente mover-se. Fica parado diante de formas movediças, como naquele romance do Zé Lins do Rego, que […]
- [Philip Larkin - Conversar na Cama](https://singularidadepoetica.art/2017/04/09/philip-larkin-conversar-na-cama/): Conversar na cama devia ser mais fácil Dois deitados juntos — é desde há muito Um símbolo de duas pessoas sendo francas. Ainda que mais e mais tempo passe em silêncio. Lá fora, a intérmina inquietação do vento Amontoa e dispersa nuvens pelo céu. E cidades escuras se empilham no horizonte. Nada disso se importa […]
- [Philip Larkin - A Primeira Coisa](https://singularidadepoetica.art/2017/04/08/philip-larkin-a-primeira-coisa/): A primeira coisa Que entendi foi esta: Tempo é o eco de um machado Dentro da floresta. Trad.: Luiz Roberto Guedes
- [Philip Larkin - A Igreja Indo-se...](https://singularidadepoetica.art/2017/04/06/philip-larkin-a-igreja-indo-se/): Quando estou certo de que nada está ocorrendo, Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta. Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dos Livrinhos; as juncadas secas, que se cortam Para o domingo; bronze e objetos a cobrir o Altar; um órgão impecável e pequeno; Silêncio tenso, de bolor, que […]
- [T. S. Eliot - Os Homens Ocos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/04/t-s-eliot-os-homens-ocos/): “A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada, […]
- [Álvaro de Campos - Poema em Linha Reta](https://singularidadepoetica.art/2017/04/03/alvaro-de-campos-poema-em-linha-reta/): Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado […]
- [José Saramago - Não me Peçam Razões](https://singularidadepoetica.art/2017/04/02/jose-saramago-nao-me-pecam-razoes-poema/): Não me peçam razões… Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos. Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não […]
- [Fernando Pessoa - Autopsicografia](https://singularidadepoetica.art/2017/04/01/fernando-pessoa-autopsicografia/): O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a […]
- [Joaquim Cardozo - Canção Elegíaca](https://singularidadepoetica.art/2017/03/29/joaquim-cardozo-cancao-elegiaca/): Quando os teus olhos fecharem Para o esplendor deste mundo, Num chão de cinza e fadigas Hei de ficar de joelhos; Quando os teus olhos fecharem Hão de murchar as espigas, Hão de cegar os espelhos. Quando os teus olhos fecharem E as tuas mãos repousarem No peito frio e deserto, Hão de morrer as […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Luis Mauricio, Infante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/28/carlos-drummond-de-andrade-a-luis-mauricio-infante/): Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo, se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho. Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário? Os olhos se […]
- [Neil Gaiman - A Escuridão Está à Espera](https://singularidadepoetica.art/2017/03/27/neil-gaiman-a-escuridao-esta-a-espera/): a chama vermelha bruxuleante no muro da caverna pintada de ocre, corante, carvão vegetal fazendo o alce se mover, fazendo o mastodonte respirar fazendo o caçador correr e matar. veja como procuram apaziguar e entender o mundo acima isso eles sabem isso eles entendem há escuridão por toda a parte lá fora o escuro está […]
- [Angela Melim - Meu pai nos abandonou](https://singularidadepoetica.art/2017/03/26/angela-melim-meu-pai-nos-abandonou/): Meu pai nos abandonou. Minha mãe casou e mudou. Vovó morreu. Os irmãos sumiram no mundo ou submundo. Sem explicação Yvonne nunca mais falou comigo e, para Ronaldo, sou fantasma do passado. Vejo meus filhos já voando. Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html
- [Luiz Olavo Fontes - Meu Amor de Soslaio](https://singularidadepoetica.art/2017/03/25/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio/): Faz tanto calor no Rio de Janeiro que é bom sentir essa neve partir de seu olhar in http://antoniocicero.blogspot.com.br/2008/07/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio.html
- [Emily Dickinson - Dizem que "O Tempo Consola"](https://singularidadepoetica.art/2017/03/22/emily-dickinson-dizem-que-o-tempo-consola/): Dizem que “O Tempo consola” — Mas não — na realidade, A vera dor, como um Tendão, Se fortalece, com a idade — O Tempo testa a Tristeza — Porém não a remedia — Se cura o Mal, prova apenas Que Mal deveras não havia — Trad.: Paulo Henriques Britto They say that “Time assuages” […]
- [Walter Savage Landor – Sobre a Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/03/20/walter-savage-landor-sobre-a-morte-poema/): "Sobre a morte", um poema de Walter Savage Landor
- [Samuel Taylor Coleridge – Kubla Khan](https://singularidadepoetica.art/2017/03/19/kubla-khan-samuel-taylor-coleridge/): Em Xanadu, um palácio de prazer Comanda-o Kubla Khan como um farol Onde Alph, rio sagrado, vem correr Através de cavernas sem mais ver Ao ser humano até um mar sem sol. Assim, milhas e milhas de bom solo, Cerca de muro e torres polo a polo: E lá jardins luzentes em ribeiros Curvos e […]
- [Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu](https://singularidadepoetica.art/2017/03/18/paulo-henriques-britto-geracao-paissandu/): Vim, como todo mundo do quarto escuro da infância, mundo de coisas e ânsias indecifráveis, de só desejo e repulsa. Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos, em tempo de seco fascismo. Por isso não tive pátria, só discos. Amei, como todos pensam. Troquei carícias cegas nos cinemas, li […]
- [Alberto da Cunha Melo - Lendo Emile Zola](https://singularidadepoetica.art/2017/03/17/alberto-da-cunha-melo-lendo-emile-zola/): O sol esgota os objetos: não me deixa dizer mais nada. Transforma em plantas os fantasmas que ontem dançavam no quintal. Mostra a burra realidade das coisas, o preço dos sonhos; água laminada levando, em ondas, o último mistério. Tudo foi dito da maneira mais cruel: um micro de sol escreveu em poucos segundos todos […]
- [Guillaume Apollinaire - A Ponte Mirabeau](https://singularidadepoetica.art/2017/03/16/guillaume-apollinaire-a-ponte-mirabeau/): Na Ponte Mirabeau, desliza o Sena E nossos amores E a memória acena: Alegria vem sempre após a pena Vem a noite, soa a hora Os dias vão, eu me demoro As mãos nas mãos, fiquemos face a face Enquanto abaixo Pela ponte dos nossos braços, passa. De olhar eterno a onda tão lassa. Vem […]
- [José Ángel Buesa - Ela Amará a Outro Homem](https://singularidadepoetica.art/2017/03/15/jose-angel-buesa-ela-amara-a-outro-homem-poema/): "Ela amará a outro homem", poema de José Ángel Buesa Ela amará a outro homem. Eu estarei longe, caminhando para o olvido. E pode ocorrer que alguém lembre meu nome, mas ela fingirá não tê-lo ouvido. (...)
- [Adriano Espínola - "Lamas" - Bar e Restaurante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/14/adriano-espinola-lamas-bar-e-restaurante/): A Horácio Dídimo À noite todos os lépidos são larápios, todos os otários são notórios, todas as lânguidas são lésbicas todas as cópulas são cédulas, todos os lúcidos são trágicos todos os bêbados são sábios.
- [Charles Bukowski - Feras Saltando Através do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/03/13/charles-bukowski-feras-saltando-atraves-do-tempo/): Van Gogh escrevendo para seu irmão pedindo tintas Hemingway testando seu rifle Céline fracassando como médico a impossibilidade de ser humano Villon expulso de Paris por ser um ladrão Faulkner bêbado pelas sarjetas da cidade a impossibilidade de ser humano Burroughs assassinando sua mulher com um tiro Mailer apunhalando a sua impossibilidade de ser humano […]
- [Wislawa Szymborska - As Cartas dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2017/03/12/wislawa-szymborska-as-cartas-dos-mortos/): Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes, mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores. Sabemos quais dívidas não foram pagas. Com quem as viúvas rapidamente se casaram. Pobres mortos, mortos cegos, enganados, falíveis, canhestramente previdentes. Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas. Capturamos o som de testamentos sendo rasgados. Sentados […]
- [Wislawa Szymborska - Bodas de Ouro](https://singularidadepoetica.art/2017/03/11/wislawa-szymborska-bodas-de-ouro/): Devem ter sido diferentes um dia, fogo e água, diferindo com veemência, sequestrando e se doando no desejo, no assalto à dessemelhança. Abraçados, apropriaram-se e expropriaram por tanto tempo, que nos braços restou o ar translúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta. Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outro […]
- [Wislawa Szymborska - Natureza-morta com um Balãozinho](https://singularidadepoetica.art/2017/03/10/wislawa-szymborska-natureza-morta-com-um-balaozinho/): Em vez da volta das lembranças na hora de morrer quero ter de volta as coisas perdidas. Pela porta, janela, malas, sombrinhas, luvas, casaco, para que eu possa dizer: Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente, rosa de papel, barbante, faca, para que eu possa dizer: Nada disto me faz falta. Esteja onde […]
- [Wislawa Szymborska - Nada Duas Vezes](https://singularidadepoetica.art/2017/03/09/wislawa-szymborska-nada-duas-vezes/): Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela […]
- [Wislawa Szymborska - A Cada Cem Pessoas](https://singularidadepoetica.art/2017/03/08/wislawa-szymborska-a-cada-cem-pessoas/): A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros: – cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo: – quase todas as outras. estão prontas a ajudar desde é claro que isso não lhes tome muito tempo: – quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas […]
- [Jaroslav Seifert - Vi Apenas uma Vez](https://singularidadepoetica.art/2017/03/01/jaroslav-seifert-vi-apenas-uma-vez/): Vi apenas uma vez um sol tão ensanguentado. E nunca mais Descia funesto sobre o horizonte e parecia que alguém havia escancarado as portas do inferno. Perguntei pelo observatório astronômico e hoje sei o porquê. O inferno, conhecemos: está em toda parte e caminha sobre duas pernas. […]
- [Gary Snyder - Dezembro em Yase](https://singularidadepoetica.art/2017/02/20/gary-snyder-dezembro-em-yase/): Naquele Outubro em que escolheu ser livre na grama alta e seca junto ao pomar você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te vi só mais uma vez. Você estava estranha. E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anos e até mais um […]
- [Yehuda Amichai - O Corpo é a Causa do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/02/19/yehuda-amichai-o-corpo-e-a-causa-do-amor/): Primeiro o corpo é a causa do amor depois a fortaleza que o protege por fim seu cárcere. E quando o corpo morre, o amor jorra caudalosamente como de um caça-níqueis clandestino quebrado jorram de súbito com estrondo todas as moedas de gerações e gerações entregues à própria sorte.
- [William Shakespeare - Romeu e Julieta (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/02/18/william-shakespeare-romeu-e-julieta-excerto/): “Esses prazeres violentos têm fins violentos e morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, que, ao se beijarem, se consomem. O mais doce mel repugna por sua própria doçura, e seu sabor confunde o paladar. Portanto, ama com moderação. O amor duradouro é moderado. Quem corre demais chega tão atrasado como aquele […]
- [Nicanor Parra - O que ganha um velho ao fazer ginástica?](https://singularidadepoetica.art/2017/02/11/nicanor-parra-o-que-ganha-um-velho-ao-fazer-ginastica/): e o que ganha falando ao telefone? e o que ganha ficando famoso? e o que ganha um velho olhando-se no espelho? Nada afundar cada vez mais na lama Já são três ou quatro da madrugada – por que não trata de dormir? mas não – tome ginástica tome ligações de longa distância tome Bach […]
- [Wislawa Szymborska -Retornos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/10/wislawa-szymborska-retornos/): Voltou. Não disse nada. Mas estava claro que teve algum desgosto. Deitou-se vestido. Cobriu a cabeça com o cobertor. Encolheu as pernas. Tem uns quarenta anos, mas não agora. Existe – mas só como na barriga da mãe na escuridão protetora, debaixo de sete peles. Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica. […]
- [Jorge Luis Borges - Os Justos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/09/jorge-luis-borges-os-justos/): Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra exista música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não […]
- [Antero de Quental - Nox](https://singularidadepoetica.art/2017/02/08/antero-de-quental-nox/): Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos… Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia… O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece alguns momentos… Oh! Antes tu também […]
- [John Keats - Ode sobre a Indolência](https://singularidadepoetica.art/2017/02/07/john-keats-ode-sobre-a-indolencia/): I Numa certa manhã eu vi as três as figuras, Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,Seguindo atrás da outra, mudas e seguras, Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;Como formas de mármore em alto-relevo Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,Mostraram-se mais uma vez como […]
- [John Keats - Do Endymion](https://singularidadepoetica.art/2017/02/06/john-keats-do-endymion/): O que é belo há de ser eternamente Uma alegria, e há de seguir presente. Não morre; onde quer que a vida breve Nos leve, há de nos dar um sono leve, Cheio de sonhos e de calmo alento. Assim, cabe tecer cada momento Nessa grinalda que nos entretece À terra, apesar da pouca messe […]
- [Yehuda Amichai - Outra Vez o Amor Terminou](https://singularidadepoetica.art/2017/02/05/yehuda-amichai-outra-vez-o-amor-terminou/): Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas, ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezas coisas comovidas que buscavam o esquecimento. Outra vez o amor terminou. E como depois de se demolir uma casa grande e retirar os escombros, visitamos o terreno vazio e quadrado e dizemos: como […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Nenhuma Arte"](https://singularidadepoetica.art/2017/02/04/paulo-henriques-britto-sem-titulo/): Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada, não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, […]
- [Konstantinos Kaváfis - A Origem](https://singularidadepoetica.art/2017/02/03/konstantinos-kavafis-a-origem/): “A Origem”, um poema de Konstantinos Kaváfis que revela como o instante clandestino do desejo se transmuta, no tempo, em matéria secreta da poesia.
- [Ezra Pound - E os dias...](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/ezra-pound-e-os-dias/)
- [Walter de la Mare - Os que Ouviam](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/walter-de-la-mare-os-que-ouviam/): ‘Tem alguém em casa?’ indagou o Viajante Defronte à porta enluarada; Seu cavalo no silêncio ruminava o capim Da forragem fértil e enfolhada: E uma ave voou para muito além da torre, Acima de sua cabeça: E de novo a porta ele outra vez castigou; ‘Tem alguém em casa?’ ele disse. Mas ninguém desceu para […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Eppur Si Muove](https://singularidadepoetica.art/2017/02/01/affonso-romano-de-santanna-eppur-si-muove/): Não se pode calar um homem Tirem-lhe a voz, restará o nome. Tirem-lhe o nome e em nossa boca restará a sua antiga fome. Matar, sim, se pode. Se pode matar um homem. Mas sua voz, como os peixes, nada contra a corrente a procriar verdades novas na direção contrária à foz. Mente quem fala […]
- [Ricardo Silvestrin - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/01/31/ricardo-silvestrin-sem-titulo/): ruas têm coração de pedra não espere nada do seu amor por elas a não ser cimento, asfalto e uma família nova na casa de um velho conhecido quando menos se espera uma rua muda de sentido
- [Bertolt Brecht - Se fôssemos infinitos...](https://singularidadepoetica.art/2017/01/29/bertolt-brecht-se-fossemos-infinitos/)
- [Domingos Pellegrini - Com Brecht](https://singularidadepoetica.art/2017/01/28/domingos-pellegrini-com-brecht/)
- [Domingos Pellegrini - Mudanças](https://singularidadepoetica.art/2017/01/27/domingos-pellegrini-mudancas/)
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/17/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere-2/): IV Só não dói mais porque não é preciso. Se fosse o caso, a dor era pior. Não há nada nisso de extraordinário: A natureza odeia o desperdício, tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr. É exatamente a conta necessária, até que alguma solução se encontre. O que aliás não acontece nunca. E isso […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/16/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere/): I A seletividade da memória — a cor exata da pele, a textura, o odor de cada côncavo e orifício, o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e a saliva, a coxa arisca, a dobra escura, o beijo salobro, o sabor difícil, a carne assombrada, o esperma […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetóides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/15/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos/): IV Também já estive aí, no não lugar onde você agora não se encontra. Também não me encontrei. Aliás, foi justamente contra a tal necessidade de seguir alguma rota que jurei lutar. Lutei, perdi, e pronto: agora estou aqui, a alguns centímetros do meu próprio umbigo Se tudo correr bem, também a tua derrota vai […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/14/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-2/): ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porém só surge em pleno ar. E não renego a rota tonta que segui. Ninguém se faz em linhas retas. Todo porto a que se chega é a meta desejada. E o caminho tomado, por mais torto, acaba sempre sendo a exata […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Duas Bagatelas"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/13/paulo-henriques-britto-de-duas-bagatelas/): II Então viver é isso, é essa obrigação de ser feliz a todo custo, mesmo que doa, de amar alguma coisa, qualquer coisa, uma causa, um corpo, o papel em que se escreve, a mão, a caneta até, amar até a negação de amar, mesmo que doa, então viver é só esse compromisso com a […]
- [Paulo Henriques Britto - Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2017/01/12/paulo-henriques-britto-epilogo/): Finda a leitura, o livro está completo em sua solidão mais-que-perfeita de couro falso e íntimo papel. Lá fora, o mundo segue, arquitetando as mesmas contingências costumeiras que nunca esbarram numa irrefutável conclusão que se possa resumir em três letras letais, inalienáveis. Que paz será possível nessa selva sem índices, prefácios, rodapés? indaga, da estante […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/11/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria/): VII Nada disso foi do jeito que eu quis. Se fosse como eu quis, não haveria de ser tão sofrido, tão infeliz. Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sinto como quem tem não o que foi pedido, e sim o que, guiado pelo instinto, […]
- [Ian Hamilton - Os quarenta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/12/ian-hamilton-os-quarenta/): “O eu que sobreviveu àqueles anos desprezíveis”,Sua “virtude austera” incrivelmente preservada. Pois bem,Terá se perguntado, isto éO “é isso”?; esta Vida resumidaQue nunca pensei encontrarE nunca procurei: que começa no meioDe tal modo que no fimO dano perdura mais do que a reparação? Aos quarenta e cincoAgora sou o patriarca da casa e ao entardecerVocê […]
- [Eugénio de Andrade - Sou fiel ao ardor...](https://singularidadepoetica.art/2019/08/11/eugenio-de-andrade-sou-fiel-ao-ardor/): Sou fiel ao ardor, amo esta espécie de verão que de longe me vem morrer às mãos, e juro que ao fazer da palavra morada do silêncio não há outra razão.
- [Joan Margarit - Vida Social](https://singularidadepoetica.art/2019/08/10/joan-margarit-vida-social/): Idealizavas esta solidãopara ouvir música ou ler,e caminhar no inverno junto ao mar.Mas a solidão é uma chuvaque suja as janelas deste trem dos anos.A solidão é a palavra crueldo acre ressentimento familiar.É a lei do acaso, um labirinto injusto.É não ter dinheiro, é ter medo.É o sexo, uma estranha pista falsaque conduz ao mais […]
- [Manuel António Pina - A avó](https://singularidadepoetica.art/2019/08/09/manuel-antonio-pina-a-avo/): Tinha ao colo o gato velho cansadamente passando a sua branca mão pelo pelo dele preto e brando Sentada ao pé da janela olhando a rua ou sonhando-a todo o passado passando a passos lentos por ela Dormiam ambos enquanto a tarde se ia acabando o gato dormindo por fora a avó dormindo por dentro
- [Gregory Corso - Tenho 25](https://singularidadepoetica.art/2019/08/08/gregory-corso-tenho-25/): Com um amor louco por Shelley Chatterton Rimbaud e o ganido carente de minha juventude passou de orelha a orelha: EU ODEIO OS VELHOS POETAS! Especialmente velhos poetas que se retratam que consultam outros velhos poetas que falam de suas juventudes em sussurros, dizendo: – Eu fiz mas isso é passado isso é passado […]
- [Armando Silva Carvalho - Struggle for life](https://singularidadepoetica.art/2019/08/07/armando-silva-carvalho-struggle-for-life/): Cheguei há muito à idade filosófica, Secaram-me os sonetos na tão nervosa pena dos sentidos. As aves lânguidas e longas do desejo – Que não eram lânguidas Nem longas – Voaram dos meus sonhos para nunca mais. Houve quem ouvisse os seus gritos românticos, Seguisse o seu devaneio em círculos voláteis, Em versos de dez […]
- [Oscar Wilde - Da vaidade](https://singularidadepoetica.art/2019/08/06/oscar-wilde-da-vaidade/): “Por que você chora?”, perguntaram as Oreiades. “Choro por Narciso”. “Ah, não nos espanta que você chore por Narciso”, continuaram elas. “Afinal de contas, todas nós sempre corremos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza”. “Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago. “Quem […]
- [André Oviedo - Caixa-Preta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/05/andre-oviedo-caixa-preta/): em algum lugar depois do fim flutuando entre os destroços encontraremos a caixa-preta e poderemos finalmente restituir o passado palavra por palavra como chaves perdidas no tempo a reabrirem as portas que nos trouxeram até aqui
- [Walter Savage Landor - Rose Aylmer](https://singularidadepoetica.art/2019/08/04/walter-savage-landor-rose-aylmer/): Ah, de que vale a régia raça! E esta forma celeste! Toda virtude, toda graça! Rose Aylmer, tudo o que foste. Rose Aylmer, meus olhos despertos Eles choram, mas não veem, Uma noite de dor te oferto, E de lembranças também. Trad.: Nelson Santander Rose Aylmer Ah, what avails the sceptred race! Ah, what the […]
- [François Villon - Balada dos Enforcados](https://singularidadepoetica.art/2019/08/03/francois-villon-balada-dos-enforcados/): Irmãos humanos que ao redor viveis, Não nos olheis com duro coração, Pois se aos pobres de nós absolveis Também a vós Deus vos dará perdão. Aqui nos vedes presos, cinco, seis: Quanto era cara viva que comia Foi devorado e em pouco apodrecia. Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós. Que de nossa aflição […]
- [Nelson Santander - Impermanência](https://singularidadepoetica.art/2019/08/03/nelson-santander-impermanencia/): Impermanência, uma crônica de Nelson Santander
- [Delmore Schwartz – Calmamente caminhamos neste dia de abril](https://singularidadepoetica.art/2019/08/02/delmore-schwartz-calmamente-passeamos-neste-dia-de-abril/): Calmamente caminhamos neste dia de abril,Poesia urbana por todo lado,No parque sentam-se indigentes e usurários,As crianças gritando, o carroEm fuga que passa correndo por nós,Entre o trabalhador e o milionárioOs números expressam as distâncias,Estamos em mil novecentos e trinta e sete agora,Muitos camaradas foram levados para longe,O que será de você e de mim(Esta é […]
- [José Miguel Silva - Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)](https://singularidadepoetica.art/2019/08/01/jose-miguel-silva-morangos-silvestres-ingmar-bergman-1957/): Um ser humano é um combinado de egoísmo, sofrimento e necessidade. Não comove ninguém. Uma pedra não comove ninguém. A beleza é um acidente banal e pressupõe a morte; muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala, chega a ser assustador. A inteligência, refrescante como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora, […]
- [Eugénio de Andrade - De "As mãos e os frutos"](https://singularidadepoetica.art/2019/07/31/eugenio-de-andrade-de-as-maos-e-os-frutos/): XIX Terra: se um dia lhe tocares o corpo adormecido, põe folhas verdes onde pões silêncio, sê leve para quem o foi contigo. Dá-lhe o meu cabelo para sonho, e deixa as minhas mãos para tecer a mágoa infinita das raízes que no seu corpo um dia hão-de beber
- [Joan Margarit - El Primer Frío](https://singularidadepoetica.art/2019/07/30/joan-margarit-el-primer-frio/): Acompanhei-te até o museu, no parque,em uma manhã de inverno. Detivemo-nosdiante daquela escultura: El primer frío.Era de mármore cinzento: um velho, nu,olha ao longe, entre as folhas mortasque o vento carrega.A arte não é diferente da vida,lembro que disseste. Mas euvia apenas um mármore frio,um tanto retórico, e pensava em garotas.Entre aquele dia e hoje, […]
- [Manuel António Pina - Extrema-unção](https://singularidadepoetica.art/2019/07/29/manuel-antonio-pina-extrema-uncao/): Uma breve, amável mágoa à flor dos olhos, um distante desapontamento, morrias como se pedisses desculpa por nos fazeres perder tempo. Tinhas pressa mas não o mostravas, receavas que não estivéssemos preparados, e, suspenso sobre nós, esperavas que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado. Morrer não é motivo de orgulho, mas estavas cansado demais para […]
- [Ferreira Gullar - Notícia da Morte de Alberto da Silva](https://singularidadepoetica.art/2019/07/28/ferreira-gullar-noticia-da-morte-de-alberto-da-silva/): (Poema Dramático para Muitas Vozes) I Eis aqui o morto chegado a bom porto Eis aqui o morto como um rei deposto Eis aqui o morto com seu terno curto Eis aqui o morto com seu corpo duro Eis aqui o morto enfim no seguro II De barba feita, cabelo penteado jamais esteve tão bem […]
- [Robert Penn Warren – Conta-me uma história](https://singularidadepoetica.art/2019/07/27/robert-penn-warren-conte-me-uma-historia/): A Há muito tempo, no Kentucky, eu, apenas um rapaz, estavaEm uma estrada de terra, ao anoitecer, e ouviA algaravia dos gansos que rumavam para o norte. Não pude vê-los, pois não havia lua,E escassos eram os astros. Eu os ouvi. Não sabia o que se passava em meu coração. Era a estação antes dos […]
- [William Ernest Henley - Invictus](https://singularidadepoetica.art/2019/07/26/william-ernest-henley-invictus/): No meio da noite que me abraça, Negra como um Poço em sua inteireza, Agradeço a cada Deus pela graça De minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstâncias Não recuei nem alteei meu pranto. Debaixo dos golpes das contingências Minha fronte sangra – altiva, no entanto. Além deste lugar de desenganos, Somente o Horror […]
- [Ángel González - O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado](https://singularidadepoetica.art/2019/07/25/angel-gonzalez-o-amanha-e-um-mar-profundo-que-precisamos-atravessar-a-nado/): Queria ser alga, alga enredada na parte suave de tuas coxas. Sopro de brisa nas tuas bochechas. Leve areia sob tua pegada. Queria ser água, água salgada quando corres nua no litoral. Sol cortando em sombra tua banal Silhueta virgem recém-molhada. Tudo quisera ser, indefinido, ao teu redor: vista, luz, ambiente gaivota, céu, navio, vela, […]
- [António Barahona - Memórias](https://singularidadepoetica.art/2019/07/24/antonio-barahona-memorias/): Da minha vida, os anos que passaram não os quero de volta: só agora me basta pra viver, a toda a hora, os momentos que em mim se eternizaram. Caminho pesaroso, entre destroços de lutas amorosas, sem ter tréguas. Vão às cegas, meus passos pelas trevas de sombras movediças feitas de ossos. Lembro os que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Nosso Tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/23/carlos-drummond-de-andrade-nosso-tempo/): I Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te […]
- [A. M. Pires Cabral - Folha rubra](https://singularidadepoetica.art/2019/07/22/a-m-pires-cabral-folha-rubra/): É bom sermos como essas folhas verdes que prolongam todo o ano a Primavera. Mas melhor do que isso é sermos como aquela folha rubra que antes das outras pressentiu o Outono e vestiu para ele a sua melhor cor, mesmo sabendo que o Inverno tem um plano para em breve a dissolver no chão.
- [Eugénio de Andrade - Quando em silêncio passas entre as folhas...](https://singularidadepoetica.art/2019/07/21/eugenio-de-andrade-quando-em-silencio-passas-entre-as-folhas/): Quando em silêncio passas entre as folhas, uma ave renasce da sua morte e agita as asas de repente; tremem maduras todas as espigas como se o próprio dia as inclinasse, e gravemente, comedidas, param as fontes a beber-te a face. Conheça outros livros de Eugénio de Andrade clicando aqui
- [Mario Quintana - Poema da gare de Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/20/mario-quintana-poema-da-gare-de-astapovo/): O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos E foi morrer na gare de Astapovo! Com certeza sentou-se a um velho banco, Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo Contra uma parede nua… Sentou-se …e sorriu amargamente Pensando que Em toda a sua vida […]
- [Joan Margarit - Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/19/joan-margarit-astapovo/): De madrugada, quando só se ouvemrelógios no escuro,eu o imagino, com seus oitenta anos,fugindo em um trem russo que ia para o sul,de lugar nenhum, para onde os velhos sonham ir.Tolstói temia aquele invernoque o acompanhou durante a velhiceaté o leito de morte ferroviário,na noite em que o telégrafotransmitiu a mais breve e cruelde todas […]
- [Manuel António Pina - Quinquagésimo ano](https://singularidadepoetica.art/2019/07/18/manuel-antonio-pina-quinquagesimo-ano/): São muitos dias (e alguns nem tantos como isso…) e começa a fazer-se tarde de um modo menos literário do que soía, (um modo literal e inerte que, no entanto, não posso dizer-te senão literariamente). Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr; a única coisa que corre é o tempo, do lado […]
- [Emily Dickinson - de "Não sou ninguém"](https://singularidadepoetica.art/2019/07/17/emily-dickinson-de-nao-sou-ninguem/): 27 Poetas mártires — não clamam — A Dor em sílabas transmudam — Falam por eles seus poemas — Quando já estejam mudos. Pintores mártires — Não falam — Com sua Obra eles almejam Que quando já não sejam mais — Alguns busquem na Arte — a Paz — Trad.: Augusto de Campos The Martyr […]
- [Vasco Gato - Repara nos velhos](https://singularidadepoetica.art/2019/07/16/vasco-gato-repara-nos-velhos/): Repara nos velhos. Dementes, doridos, restos de casas. Vivem agora a lepra de todos nós. Não lhes chegamos. Tresandam. Esquecem. Apoderam-se do nada. E nós, capitosos, brindamos com o vinho que também eles sorveram, desdenhando a morte que, amarga como a nossa indiferença, haveremos de provar.
- [William Butler Yeats - As quatro idades do homem](https://singularidadepoetica.art/2019/07/15/william-butler-yeats-as-quatro-idades-do-homem-poema/): As quatro idades do homem, um poema de William Butler Yeates: Com seu corpo principiou uma rinha O corpo venceu; ereto ele caminha. Ele lutou então com o coração; Sua inocência e sua paz já se vão.
- [A. A. Milne – Narciso](https://singularidadepoetica.art/2019/07/14/a-a-milne-narciso/): Ela vestiu seu chapéu-de-sol,E pôs o seu mais verde vestido;Virou-se para o vento australE prestou-lhe o cortejo devido.Virou-se então para a luz do solE os cabelos louros agitou,E sussurrou para o seu vizinho:“O inverno acabou” Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em […]
- [Nelson Ascher - Saudade](https://singularidadepoetica.art/2019/07/13/nelson-ascher-saudade/): Posto que nem é de bom-tom falar sobre a tristeza insossa cujo vaivém, quando se apossa de mim, me embala como o som sem fim das ondas do Leblon, dispondo-me a curtir a fossa a sós, pus na vitrola a bossa nova de João, Vinícius, Tom, menos pra ouvir o que ela tem, porque talvez […]
- [José Paulo Paes - Borboleta](https://singularidadepoetica.art/2019/07/12/jose-paulo-paes-borboleta/): Mal saíra do casulo para mostrar ao sol o esplendor de suas asas um pé distraído a pisou. (A visão de beleza dura um só instante inesquecível.)
- [Joseph Stroud - Tributo a Rolf Jacobsen](https://singularidadepoetica.art/2019/07/11/joseph-stroud-tributo-a-rolf-jacobsen/): A jaqueta amarela fica batendo contra a vidraça tentando sair. Desde o começo era apenas uma questão de abrir a janela, encontrar as palavras, e você por aí – em um outro, maior mundo. Para os mortos, o paraíso é a calçada na qual você caminha olhando as janelas, cantarolando, parando para um café. Trad.: […]
- [Maria do Rosário Pedreira - Onde quer que o encontres](https://singularidadepoetica.art/2019/07/10/maria-do-rosario-pedreira-onde-quer-que-o-encontres/): Onde quer que o encontres – escrito, rasgado ou desenhado: na areia, no papel, na casca de uma árvore, na pele de um muro, no ar que atravessar de repente a tua voz, na terra apodrecida sobre o meu corpo – é teu, para sempre, o meu nome.
- [Ferreira Gullar - Pela rua](https://singularidadepoetica.art/2019/07/09/ferreira-gullar-pela-rua/): Sem qualquer esperança detenho-me diante de uma vitrina de bolsas na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo, enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro. Sem qualquer esperança te espero. Na multidão que vai e vem entra e sai dos bares e cinemas surge teu rosto e some num vislumbre e o coração dispara. Te […]
- [Wisława Szymborska - Desatenção](https://singularidadepoetica.art/2019/07/08/wislawa-szymborska-desatencao/): Ontem me comportei mal no universo. Vivi o dia inteiro sem indagar nada, sem estranhar nada. Executei as tarefas diárias como se isso fosse tudo o que devia fazer. Inspirar, expirar, um passo, outro passo, obrigações, mas sem um pensamento que fosse além de sair de casa e voltar para casa. O mundo podia ter […]
- [Czeslaw Milosz - A queda](https://singularidadepoetica.art/2019/07/07/czeslaw-milosz-a-queda/): A morte de um homem é como a queda de uma poderosa nação Que teve valentes exércitos, capitães e profetas, E ricos portos e barcos em todos os mares, Mas agora não socorrerá nenhuma cidade sitiada, Não entrará em nenhuma aliança, Porque suas cidades estão vazias, sua população dispersa, Sua terra que certa vez proveu […]
- [Daniel Faria - Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2019/07/06/daniel-faria-itaca/): O que dói É não poder apagar a tua ausência e repetir dia após dia os mesmos gestos O que dói é o teu nome que ficou como mendigo Descoberto em cada esquina dos meus versos O que dói é tudo e mais aquilo que desteço Ao tecer para ti novos regressos
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Quando](https://singularidadepoetica.art/2019/07/05/sophia-de-mello-breyner-andresen-quando/): Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje igualmente hão-de bailar As quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomar Em que eu tantas vezes passei, Haverá longos poentes sobre o mar, Outros amarão as coisas que eu amei. Será […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O desjejum](https://singularidadepoetica.art/2019/07/04/luis-alberto-de-cuenca-o-desjejum/): Gosto quando dizes disparates, quando fazes asneiras, quando mentes, quando vais às compras com tua mãe e chego atrasado ao cinema por tua culpa. Gosto mais quando é meu aniversário e me cobres de beijos e bolos, ou quando estás feliz e dá para notar, ou quando és genial com uma frase que resume tudo, […]
- [Nuno Júdice – Fábula industrial](https://singularidadepoetica.art/2019/07/03/nuno-judice-fabula-industrial/): As chaminés das fábricas tinham pescoços de cegonha, e quando deitavam fumo era como se as cegonhas abrissem as asas. Quando o fumo era preto, porém, as cegonhas transformavam-se em corvos de grandes pescoços feitos de tijolo; e ao contrário das cegonhas não voavam, mas faziam soar as sirenes com os bicos metálicos, para que […]
- [Adelaide Ivánova - os anos noventa](https://singularidadepoetica.art/2019/07/02/adelaide-ivanova-os-anos-noventa/): você não estava lá nas coisas mais decisivas da minha vida mas é assim mesmo: historiadores e arqueólogos nunca estiveram presentes pra testemunhar os levantes coletivos isso fazem os jornalistas e os videntes você era apenas um menino quando kurt cobain morreu nem poderia ainda saber o dano que causaria sua existência de crisálida taurino […]
- [Ian Hamilton - Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2019/07/01/ian-hamilton-fantasmas/): O caixão lustroso e suntuosamente adornadoDesliza como um novo navio para as profundezas em chamas.Na terra firme,A congregação se ajoelha em murmúrios. Do meu banco no cantoTenho uma visão livre e desimpedidade sua partida.Se você estivesse deitada de ladoTalvez pudesse captar seu olhar insuspeito. No pátio, ao anoitecer,Os tributos florais. Eu poderia jurarTer visto vocêAspirando […]
- [Eugénio de Andrade - Com o tempo aproximar-se-ão os rios...](https://singularidadepoetica.art/2019/06/30/eugenio-de-andrade-com-o-tempo-aproximar-se-ao-os-rios/): Com o tempo aproximar-se-ão os rios e os montes, com o tempo acabará por te vir comer à mão e fazer ninho na tua cama o silêncio.
- [Joan Margarit - Banheiro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/29/joan-margarit-banheiro/): Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos […]
- [Manuel António Pina - Todas as palavras](https://singularidadepoetica.art/2019/06/28/manuel-antonio-pina-todas-as-palavras/): As que procurei em vão, principalmente as que estiveram muito perto, como uma respiração, e não reconheci, ou desistiram e partiram para sempre, deixando no poema uma espécie de mágoa como uma marca de água impresente; as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te nem foram capazes de dizer-me; as que calei por serem muito […]
- [Heinrich Heine - Chegou a morte](https://singularidadepoetica.art/2019/06/27/heinrich-heine-chegou-a-morte/): Chegou a morte – agora vou Dizer o que o orgulho não Me permitiu: meu coração Tão só por ti pulsou, pulsou. Já estou fechado no ataúde, Descem-me à cova. A calmaria Me abraça enfim, mas tu, Maria, Por mim irás, muito amiúde, Chorar, e pra quê, afinal? Consola-te, este é o destino Humano: o […]
- [Jorge Luis Borges - O cego](https://singularidadepoetica.art/2019/06/26/jorge-luis-borges-o-cego/): I Foi despojado do diverso mundo, Dos rostos, que ainda são o que eram antes, Das ruas próximas, hoje distantes, E do côncavo azul, ontem profundo. Dos livros lhe restou só o que deixa A memória, essa fórmula do olvido Que o formato retém, não o sentido, E que apenas os títulos enfeixa. O desnível […]
- [José Paulo Paes - Declaração de bens](https://singularidadepoetica.art/2019/06/25/jose-paulo-paes-declaracao-de-bens/): meu deus minha pátria minha família minha casa meu clube meu carro minha mulher minha escova de dentes meus calos minha vida meu câncer meus vermes
- [Joseph Stroud - Lázaro em Varanasi](https://singularidadepoetica.art/2019/06/24/joseph-stroud-lazaro-em-varanasi/): De uma pira no flamejante ghat,um cadáver se ergue lentamente entre as chamas.Como se lembrasse de algo importante.Como se quisesse olhar ao redor uma última vez.Como se finalmente tivesse algo a dizer.Como se houvesse uma saída para isso. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a […]
- [Joseph Stroud - Lendo Kaváfis sozinho na cama](https://singularidadepoetica.art/2019/06/23/joseph-stroud-lendo-kavafis-sozinho-na-cama/): Eu, também, me lembro do passado, meu quarto iluminado por velas, e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto com seu rosto, com boca e língua e lábios, do pomar à noite, do odor das frutas, seus seios – lembra, corpo? – aquele quarto, lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes? Trad.: […]
- [Konstantinos Kaváfis - Lembra, corpo...](https://singularidadepoetica.art/2019/06/22/konstantinos-kavafis-lembra-corpo/): Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,não só os leitos onde repousaste,mas também os desejos que brilharampor ti em outros olhos, claramente,e que tornaram a voz trêmula – e que algumobstáculo casual fez malograr.Agora que isso tudo perdeu-se no passado,é quase como se a tais desejoste entregaras – e como brilhavam,lembra, nos olhos que […]
- [Pedro Mexia - "O fogo, o ferro, o futuro"](https://singularidadepoetica.art/2019/06/21/pedro-mexia-o-fogo-o-ferro-o-futuro/): Eras um sustento, eras um segredo, uma feroz tentativa. Eras a roupa do corpo feito estandarte a caminho de casa e as tuas mãos metade das minhas. Eras um fascínio, eras um fracasso, eras a chama que nunca te queimou, o sul, o sufoco, a madrugada. Eras um tumulto de éguas e galgos, a minha […]
- [Wislawa Szymborska - Mapa](https://singularidadepoetica.art/2019/06/20/wislawa-szymborska-mapa/): Plano como a mesa na qual está colocado. Debaixo dele nada se move nem busca vazão. Sobre ele – meu hálito humano não cria vórtices de ar e deixa toda a sua superfície em silêncio. Suas planícies, vales, são sempre verdes, os planaltos, montanhas, amarelos e marrons e os mares, oceanos, de um azul delicado […]
- [Jorge Sousa Braga - Litania](https://singularidadepoetica.art/2019/06/19/jorge-sousa-braga-litania/): Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparente Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos ainda escorrendo sangue Uma pequena construção toda em pedra com divisões de tijolo e cal hidráulica e janelas abrindo para […]
- [Nuno Júdice - Nostalgia de setembro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/18/nuno-judice-nostalgia-de-setembro/): Quando vinham as nuvens de setembro, já os pássaros tinham emigrado para além dos mares, o campo ficava em longos silêncios que só a passagem dos rebanhos, a caminho do matadouro, cortava num tropel que ecoava ainda, depois da paisagem, com os gritos do pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvens quando […]
- [A. M. Pires Cabral - O Vento](https://singularidadepoetica.art/2019/06/17/a-m-pires-cabral-o-vento/): É fácil dizer que o vento tem gatos na voz enfurecidos. Que afaga e despenteia, traz a chuva. Que levanta as telhas, exercita na noite os nossos mais pesados pesadelos. É fácil ser poeta à custa do vento. Fingir que não sabemos que o vento não é senão o vazio que muda de lugar.
- [Carlos Bousoño - À distância](https://singularidadepoetica.art/2019/06/16/carlos-bousono-a-distancia/): Passa a juventude, e passa a vida, passa o amor, a morte também passa, o vento, a amargura que trespassa a pátria espessa, hirta e adormecida. Adormecida, em sonho eterno, olvida. Mortos e vivos na mesma argamassa dormem igual sina e alegria escassa. Pátria, profundeza, pedra perdida. Pedra perdida, imersa, vivos, mortos. Toda Espanha dorme […]
- [David Teles Pereira - Tractatus de Legibus ac Deo Legislatore (Livro III, Capítulo II)](https://singularidadepoetica.art/2019/06/15/david-teles-pereira-tractatus-de-legibus-ac-deo-legislatore-livro-iii-capitulo-ii/): Ao meu avô Nunca mais me irás interromper ao comentar uma passagem do de Legibus de Francisco Suárez, mas, por agora, a nuvem castanha que te ocupa o peito sufoca-me a voz. As nossas leis não chegam para acalmar todos os vícios e o pior de todos é chorar-te por não te poder dizer, seguindo […]
- [Maria do Rosário Pedreira - À avó](https://singularidadepoetica.art/2019/06/14/maria-do-rosario-pedreira-a-avo/): Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a […]
- [Helder Moura Pereira - "Eras mesmo a fonte de tudo..."](https://singularidadepoetica.art/2019/06/13/helder-moura-pereira-eras-mesmo-a-fonte-de-tudo/): Eras mesmo a fonte de tudo, pelo menos naquele dia a que chamamos perfeito. Os dias tinham-se entranhado nos dias, a tal ponto que a vida era só dias, dias a seguir uns aos outros. Apenas dias. De olhos vendados e sem bater numa única parede, pegados a isto, ao cheiro reconhecido só quando um […]
- [Andreia C. Faria - "Espero o dia em que possa..."](https://singularidadepoetica.art/2019/06/12/andreia-c-faria-espero-o-dia-em-que-possa/): Espero o dia em que possa deixar crescer as unhas as meias por cerzir a boca sem propósito de beijar. O dia que misture à noite uma respiração de espelhos, um registro acidental, mortificado, ou o livro que se leu na tarde até perder a luz. Que a natureza avance em mim sem esperança de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Confissão do fugitivo](https://singularidadepoetica.art/2019/06/11/juan-vicente-piqueras-confissao-do-fugitivo/): Só sou feliz partindo. Não entre quatro paredes, à mercê das espadas, mas entre aqui e ali, uma e outra casa, ambas de preferência alheias. Já não posso, nem quero, estar quieto. Nem agora nem depois. Nem aqui nem ali. Em todo caso aí, onde tu estás, seja tu quem fores, põe o teu nome […]
- [Ferreira Gullar - Verão](https://singularidadepoetica.art/2019/06/10/ferreira-gullar-verao/): Este fevereiro azul como a chama da paixão nascido com a morte certa com prevista duração deflagra suas manhãs sobre as montanhas e o mar com o desatino de tudo que está para se acabar. A carne de fevereiro tem o sabor suicida de coisa que está vivendo vivendo mas já perdida. Mas como tudo […]
- [Czesław Miłosz - Uma descrição honesta de mim mesmo com um copo de whisky num aeroporto, digamos, em Minneapolis](https://singularidadepoetica.art/2019/06/09/czelaw-milosz-uma-descricao-honesta-de-mim-mesmo-com-um-copo-de-whisky-num-aeroporto-digamos-em-minneapolis/): Meus ouvidos captam cada vez menos as conversas, meus olhos vêm se tornando fracos, embora sigam insaciáveis. Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas, em tecidos ondulantes, Observo uma a uma, separadamente, suas bundas e coxas, acalentado por sonhos pornô. Velho depravado, é chegada a hora da cova, não dos jogos e folguedos da […]
- [Walt Whitman – Aos que Falharam](https://singularidadepoetica.art/2019/06/08/walt-whitman-aos-que-falharam/): Aos que falharam, grandes na aspiração, aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate, aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos, aos super-ardorosos viajantes, a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento – eu gostaria de erguer um momento coberto de louros alto, bem alto, acima dos demais: A todos os truncados […]
- [Adelaide Ivánova - um poema pra italo](https://singularidadepoetica.art/2019/06/07/adelaide-ivanova-um-poema-pra-italo/): a vida tem estado mesmo dura vou poupar-te da ladainha sobre temer AfD #voltadilma e o caralho não ganhamos dos bancos em caruaru ou karlsruhe meu dinheiro e endereço: bloqueados a moça do balcão cagou pra mim ser cidadão não significa merda nenhuma mas é privilégio nessa europa genocida (e quando é que ela não […]
- [Nicolás Guillén - Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2019/06/06/nicolas-guillen-um-poema-de-amor/): Não sei. Ignoro-o.Desconheço todo o tempo que andeisem encontrá-la novamente.Quem sabe um século? Talvez.Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.Ou um mês. Poderia ser. De qualquer formaum tempo enorme, enorme, enorme.Ao fim como uma rosa súbita,repentina campânula tremendo,a notícia.Saber de prontoque ia voltar a vê-lá, que a teriaperto, tangível, real, como nos sonhos.Que troar […]
- [Ian Hamilton - Vizinhos](https://singularidadepoetica.art/2019/06/05/ian-hamilton-vizinhos/): Das janelasDo decadente hotel do outro lado da ruaMisteriosos hóspedes noturnos emergemEm suas varandasPara aspirar o ar fresco da noite. Nós os deixamos nos observarEm nossas vidas pacatas.Eles nos permitem imaginaro que o destino lhes reservou. Trad.: Nelson Santander Neighbours From the bay windowsOf the mouldering hotel across the road from usMysterious, one-night itinerants emergeOn […]
- [Eugénio de Andrade - Ver claro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/04/eugenio-de-andrade-ver-claro-2/): Toda poesia é luminosa, até A mais obscura. O leitor é que tem às vezes, Em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver o claro. Se regressar Outra vez e outra vez E outra vez A essas sílabas acesas Ficará cego de tanta claridade Abençoado seja se lá chegar.
- [Joan Margarit - Por que fomos covardes](https://singularidadepoetica.art/2019/06/03/joan-margarit-por-que-fomos-covardes/): Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil. Sempre farás amor com uma sombra de olhos azuis, e estarás tão só como em uma vingança. Ao longe, as luzes de Roses cintilam assim como a minha memória. Há uma fúria triste, mas ninguém no final. Perdemos o cavalo sem cavaleiro que nunca passa uma segunda […]
- [Manuel António Pina - Café do molhe](https://singularidadepoetica.art/2019/06/02/manuel-antonio-pina-cafe-do-molhe/): Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) por que a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe) […]
- [Konstantinos Kaváfis - Velas](https://singularidadepoetica.art/2019/06/01/konstantinos-kavafis-velas/): Os dias futuros se erguem diante de nós como uma fileira de velas acesas – douradas, vivazes, cálidas velas. Os dias do passado ficaram tão para trás, fúnebre fileira consumida onde as mais próximas ainda fumam, velas frias, retorcidas e desfeitas. Não quero vê-las; seu aspecto me aflige, me aflige recordar sua luz primeira. Vejo […]
- [Idea Vilariño - Não mais](https://singularidadepoetica.art/2019/05/31/idea-vilarino-nao-mais/): Não mais será não mais não viveremos juntos não criarei teu filho não coserei tua roupa não te terei à noite não te beijarei ao partir nunca saberás quem fui por que outros me amaram. Não chegarei a saber por que nem porque nunca nem se era verdadeiro o que disseste que era nem quem […]
- [Nâzim Hikmet - O último ônibus](https://singularidadepoetica.art/2019/05/30/nazim-hikmet-o-ultimo-onibus/): Meia-noite. O último ônibus.O condutor rasga os bilhetes.Não me esperam em casa nem uma má notícianem a fartura da bebida.Para mim, é a partida que espera.Caminho em direção a ela sem medoou tristeza. A escuridão imensa se aproxima de mim.Posso olhar para o mundocalma e serenamente, agora.Já não me surpreende a traição de um amigo,a […]
- [Daniel Faria - Infância](https://singularidadepoetica.art/2019/05/29/daniel-faria-infancia/): e jogava o pião com Deus enquanto minha mãe estendia roupa e o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempo era muito próxima da dos meninos e de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro: o pião ou Deus apenas sei que Deus continua a jogar com outros meninos […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Não te esqueças nunca](https://singularidadepoetica.art/2019/05/28/sophia-de-mello-breyner-andresen-nao-te-esquecas-nunca/): Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina O pinhal a coluna a veemência divina O templo o teatro o rolar de uma pinha O ar cheirava a mel e a pedra a resina Na estátua morava tua nudez marinha Sob o sol azul e a veemência divina Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O véu protetor](https://singularidadepoetica.art/2019/05/27/luis-alberto-de-cuenca-o-veu-protetor/): Amanheceu e nós estávamos dentro da vil realidade, o que não pode ser bom. Melhor seria que passassem logo as horas inúteis em que o dia proscreve a aventura com as normas do tédio laboral, e que voltassem a noite e as suas estrelas a envolver-nos no seu véu fantástico e a dar-nos a inútil […]
- [Yehuda Amichai - 1924](https://singularidadepoetica.art/2019/05/26/yehuda-amichai-1924/): Nasci em 1924. Se eu fosse um violino da minha idade não seria dos melhores. Como vinho seria um cinco estrelas ou vinagre. Como cachorro estaria morto. Como um livro estaria me tornando caro, ou estaria abandonado num sebo qualquer. Como uma floresta eu seria jovem; como uma máquina, ridículo. Como uma criatura humana, estou […]
- [Walt Whitman - Pleno de vida agora](https://singularidadepoetica.art/2019/05/25/walt-whitman-pleno-de-vida-agora-poema/): Pleno de vida agora, consistente, visível, Eu, quarenta anos vividos, no ano oitenta e três anos dos Estados, Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for, A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto. Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível, Enquanto tu […]
- [Miguel-Manso – No número de outubro da revista Wire](https://singularidadepoetica.art/2019/05/24/miguel-manso-no-numero-de-outubro-da-revista-wire/): frente ao fotógrafo e ao leitor o homem envelhecido parece que já não olha Mitra o deus sol dos psicadélicos noutra foto no interior da revista o poeta está sentado a uma pequena mesa de frente para a janela onde as cortinas brancas filtram a luz e o ruído da rua sentado na cadeira de […]
- [Andreia C. Faria - San Cibrán de Las](https://singularidadepoetica.art/2019/05/23/andreia-c-faria-san-cibran-de-las/): Ainda aos sábados os homens passeiam pelo que resta das muralhas e as mulheres procuram vestígios – os pulsos nus, a canteira e a nascente de água, a paciência necessária a quem se alimentava desse pão É também este o meu plano para a velhice: ervas de que não sei o nome, a ruína interior […]
- [Gonçalo M. Tavares - uma síntese disto tudo](https://singularidadepoetica.art/2019/05/22/goncalo-m-tavares-uma-sintese-disto-tudo/): é porque existe o desejo, o olfato, e o medo, e os vivos apaixonam-se por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos, e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho, e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um […]
- [Adelaide Ivánova - o elefante](https://singularidadepoetica.art/2019/05/21/adelaide-ivanova-o-elefante/): quando johanna morreu tinha um ano e oito meses foi encontrada na piscina apertava um elefante na mão que sua mãe até hoje aperta muito embora o alzheimer lhe impeça de lembrar por que ela a mãe pulou na piscina ao ver johanna à deriva no ventinho do norte da renânia boiando na piscina que […]
- [Goliarda Sapienza - Sem título](https://singularidadepoetica.art/2019/05/20/goliarda-sapienza-sem-titulo/): Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se. Consumiu-se o incêndio. Findou-se. Fechou-se o círculo petrificado. Findou-se o tempo. Consumiu-se o delito. Queimou-se a lembrança. Cessou a angústia. Um manto de lava interditou todo crânio toda órbita esvaziada. Toda boca no grito interditou. Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar o silêncio de lava. As formigas rodeiam o fogo gasto […]
- [Ian Hamilton - Última Valsa](https://singularidadepoetica.art/2019/05/19/ian-hamilton-ultima-valsa/): De onde estamos quase que podemos identificar Os rostos destas pessoas que não conhecemos: Um semi-círculo sombreado Ao redor do enorme aparelho de TV doado Que domina nossa ala. A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre eles Iluminando Amistosos, exaustos sorrisos. E nós, Como se nos importássemos, também sorrimos. Para cada alma perdida, nesta hora tardia Um […]
- [Jaime Gil de Biedma - Depois da morte de Jaime Gil de Biedma](https://singularidadepoetica.art/2019/05/18/jaime-gil-de-biedma-depois-da-morte-de-jaime-gil-de-biedma/): No jardim, lendo, a sombra da casa tolda as páginas e o frio repentino do final de agosto faz-me pensar em ti. O jardim e a casa vizinha onde piam os pássaros nas trepadeiras, uma tarde de agosto, quando começa a anoitecer e tem-se ainda o livro nas mãos, eram, lembro-me, teu símbolo da morte. […]
- [Vicente Gaos - Homem Total](https://singularidadepoetica.art/2019/05/17/vicente-gaos-homem-total/): "Homem Total", um poema de Vicente Gaos que homenageia Lope de Vega ao revisitar suas paixões e musas, refletindo sobre a intensidade do amor, a fugacidade dos anos e a elevação espiritual que transcende os gozos e pesares da experiência humana.
- [Helena Zelic - Gaveta de Casa](https://singularidadepoetica.art/2019/05/16/helena-zelic-gaveta-de-casa/): Nossas fotos de infância boletins de nota azul três diários à chave hoje abertos duzentos milhões de pequenos museus da desimportância
- [Eugénio de Andrade - Ao fim da tarde](https://singularidadepoetica.art/2019/05/15/eugenio-de-andrade-ao-fim-da-tarde/): Ninguém esperava ver o mar naquele dia mas era o mar que estava ali, à porta naqueles olhos.
- [Giuseppe Ungaretti - Sentimento do tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/05/14/giuseppe-ungaretti-sentimento-do-tempo/): Sentimento do tempo1931 E à luz mais própria,Deixando apenas uma sombra violácea,Sobre os cimos mais baixos,A distância aberta ao alcance,Cada batida, como usa o coração,Agora escuto,Apressa-te, tempo, a por-me sobre os lábiosTeu último beijo. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sentimento del tempo1931 E per la luce giusta,Cadendo solo un ombra violaSopra il […]
- [Raymond Carver - Fragmento final](https://singularidadepoetica.art/2019/05/13/raymond-carver-fragmento-final/): E você teve o que queriadesta vida, apesar de tudo?Tive.E o que você queria?Dizer que fui amado, me sentiramado sobre a terra. Trad.: Cide Piquet Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Raymond Carver – Late Fragment And did you get whatyou wanted […]
- [Joan Margarit - Monumentos](https://singularidadepoetica.art/2019/05/12/joan-margarit-monumentos/): O vazio que sentes, cada vez com mais força,é o dos traidores.Também os monumentos, por dentro, são vazios,com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:escuros e corroídos pela história,é tão sinistro seu interiorcomo arrogante o gesto que no ardesenha a personagem.À medida que os amigos nos traem– e a morte é também uma traição […]
- [Manuel António Pina - Sérgio](https://singularidadepoetica.art/2019/05/11/manuel-antonio-pina-sergio/): Onde agora estás não alcançam o clamor dos magistrados nem a faca do assassino. A tua própria morte não te pertence já, é assunto nosso, desprovido e inerte. Que faremos nós com o teu inúmero corpo, como te diremos o que está a acontecer-te? Fechou-se qualquer coisa qualquer porta espessa e desabitada, a faca pôs […]
- [Andreia C. Faria - As mulheres têm formas mais curiosas](https://singularidadepoetica.art/2019/05/10/andreia-c-faria-as-mulheres-tem-formas-mais-curiosas/): As mulheres têm formas mais curiosas Se eu montasse um circo, em vez de elefantes teria Senhoras com os seus diferentes peitos coxas e rabos, todo o corpo fingimento, adereço Senhoras com os seus diferentes almoços, amantes e diferentes níveis de tonificação da alma, rivais dos tigres desdenhosos, dos leões emparedados Em vez de macacos […]
- [Adelaide Ivánova - pro meu amante, quando atinge a maioridade](https://singularidadepoetica.art/2019/05/09/adelaide-ivanova-pro-meu-amante-quando-atinge-a-maioridade/): “Pro meu amante, quando atinge a maioridade”, um poema de Adelaide Ivanova que entrelaça amor, memória e consciência do tempo em uma celebração agridoce do amadurecimento.
- [A. M. Pires Cabral - Não me mostres nenhum norte](https://singularidadepoetica.art/2019/05/08/a-m-pires-cabral-nao-me-mostres-nenhum-norte/): Não me mostres nenhum norte nem estradas para lá: são tudo embustes. Mostra-me antes pedras, folhas mortas de Outono atapetando o chão das matas, voos de libelinha rasando o sol poente, cândidas risadas infantis. Quero eu dizer: mostra-me coisas daquelas que se corrompem sem pressa.
- [Ian Hamilton - Lamento](https://singularidadepoetica.art/2019/05/07/ian-hamilton-lamento/): Fiz o que pude. Meus garotos correm soltos agora.Eles buscam oportunidades enquanto a mãe deles apodrece aqui.E rua acima, o homem,Meu único homem, que me tocou em todos os lugares,Desmancha-se sob a terra. Sou triste, obtusa, velha e alienada.À noite, sinto minhas mãos vagando sobre mim,Sondando meus seios, meus joelhos,As dobras do meu ventre,Vez ou […]
- [Gonçalo M. Tavares - Palavras, Atos](https://singularidadepoetica.art/2019/05/06/goncalo-m-tavares-palavras-atos/): A ironia ensina a sabotar uma frase Como se faz a um motor de automóvel: Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres No verbo ou numa letra do substantivo A frase trágica torna-se divertida, E a divertida, trágica. Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me, Desde novo, daquilo que ainda hoje […]
- [Manuel António Pina - Sob Escombros](https://singularidadepoetica.art/2018/10/20/manuel-antonio-pina-sob-escombros/): Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir o silêncio do mundo pulsando onde tu também eras mundo, coisa pulsante. Extinguiu-se esse canto não na morte mas na vida excluída da clarividência da infância e de tudo o que pulsa, fins e começos, e corrompida pela estridência e pela heterogeneidade. Agora respondes […]
- [John Mateer - s/ título](https://singularidadepoetica.art/2018/10/19/john-mateer-a-sede-entre-os-limites/): Este poema vai ser escrito com um livro de fotografias em mente, comemorando esse retrato da jovem estudante de história de arte que se tornaria a mulher do fotógrafo, a mãe do seu filho, ela que se atiraria de uma janela do apartamento deles, e que, por ter existido, proliferaria, como tudo o que pode […]
- [Jaime Sabines - Algo sobre a Morte do Major Sabines](https://singularidadepoetica.art/2018/10/18/jaime-sabines-algo-sobre-a-morte-do-major-sabines/): Primeira Parte I Deixa-me repousar, relaxar os músculos do coração e colocar a alma para dormir para poder falar, para poder recordar estes dias, os mais longos dos tempos. Mal convalescemos da angústia e estamos fracos, assustados, despertando duas ou três vezes do nosso escasso sonho para ver-te na noite e saber que respiras. Precisamos […]
- [Vitor Nogueira - Domingo](https://singularidadepoetica.art/2018/10/17/vitor-nogueira-domingo/): Acordamos com o céu encostado no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam o domingo, a partir do alto das montanhas. E aqui continuamos, agarrados a nós próprios, como dois miúdos que não têm para onde ir. Estamos presos ao sofá unicamente porque sim, nem tristes nem alegres, metidos no roupão e nos chinelos, pequenos cadeados […]
- [Antonia Pozzi - Desalento](https://singularidadepoetica.art/2018/10/16/antonia-pozzi-desalento/): Tristeza destas minhas mãos demasiado pesadas para não abrirem feridas, demasiado leves para deixarem marca – tristeza desta minha boca que diz as mesmas palavras que tu – significando outras coisas – e esta é a expressão da mais desesperada distância. Trad.: Inês Dias Sfiducia Tristezza di queste mie mani troppo pesanti per non aprire […]
- [Nuno Júdice - Outra Imagem](https://singularidadepoetica.art/2018/10/15/nuno-judice-outra-imagem/): Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terra Por cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos. Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomes Familiares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros – música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campas ao fim da tarde, com […]
- [Joan Margarit - A moça do semáforo](https://singularidadepoetica.art/2018/10/14/joan-margarit-a-moca-do-semaforo/): Tens a mesma idade que eu tinha quando comecei a sonhar em encontrar-te. Então ignorava, assim como tu o ignoras, que o amor se transforma na arma carregada de solidão e de melancolia que agora está apontada para ti nos meus olhos. Tu és a moça que busquei durante tanto tempo quando ainda não existias. […]
- [Manuel António Pina - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2018/10/13/manuel-antonio-pina-os-mortos/): Eu sei, é preciso esquecer, desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los, os nossos mortos anseiam por morrer e só a nossa dor pode matá-los. Tanta memória! O frenesim escuro das suas palavras comendo-me a boca, a minha voz numerosa e rouca de todos eles desprendendo-se de mim. Porém como esquecer? Com que palavras […]
- [Alfonsina Storni - Leva-me](https://singularidadepoetica.art/2018/10/12/alfonsina-storni-leva-me/): Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar; Ata-me a tua alma; a alva a brilhar. Toma-me pelas mãos como em um branco casulo E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho. Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!… A morte caça pelo mundo tal qual harpia. Faz-me esquecer o muito que me […]
- [Mário Cesariny - "de profundis amamus"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/11/mario-cesariny-de-profundis-amamus/): Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidos por natureza própria Andámos dez quilómetros a pé ninguém nos viu passar excepto claro os porteiros é da natureza das coisas ser-se visto pelos porteiros Olha como só tu sabes olhar a rua os costumes O […]
- [Rui Pires Cabral – Nunca se Sabe](https://singularidadepoetica.art/2018/10/10/rui-pires-cabral-nunca-se-sabe/): Papéis velhos com poemas: são o joio das gavetas. Relê-los causa aversão e uma espécie de tristeza arrependida – são tão nossos como as más recordações e ainda vemos a circunstância precisa, a causa, a ferida, por detrás de cada um. Mas na altura havia esperança: é isso que representam. Não pelas coisas que dizem […]
- [Amalia Bautista – Ver o Sol](https://singularidadepoetica.art/2018/10/09/amalia-bautista-ver-o-sol/): Leia "Ver o Sol", de Amalia Bautista, um poema breve e intenso sobre desilusão amorosa, percepção e as difíceis verdades da experiência humana.
- [José Mateos - Caminhantes na Neblina](https://singularidadepoetica.art/2018/10/08/jose-mateos-caminhantes-na-neblina/): Símbolo da morte é esta neblina que hoje me envolve nos ecos do bosque solitário, que apaga os caminhos e tudo iguala, que faz mais longe o próximo? Assim será a morte? Ouvir ao lado as pessoas que amamos e não vê-las? Saber que em nossa casa nos aguardam, e não poder, e não saber […]
- [José Tolentino Mendonça – Calle Principe, 25](https://singularidadepoetica.art/2018/10/07/jose-tolentino-mendonca-calle-principe-25/): Perdemos repentinamente a profundidade dos campos os enigmas singulares a claridade que juramos conservar mas levamos anos a esquecer alguém que apenas nos olhou
- [Angela Figuera Aymerich - Princípio e Fim (na morte de minha mãe)](https://singularidadepoetica.art/2018/10/06/angela-figuera-aymerich-principio-e-fim-na-morte-de-minha-mae/): Já tenho minha raiz debaixo da terra. Já um pouco morta contigo, mãe, há algo da minha vida que se decompõe contigo, com teus ossos delicados, com tuas veias azuis, com teu ventre que côncavo sofreu, dando-me forma. Na ignorância, mãe, não no pecado mostraste-me como a vida brota. Como a carne cresce e se […]
- [Spencer Reece - Portofino](https://singularidadepoetica.art/2018/10/05/spencer-reece-portofino/): Prometa-me que você não esquecerá Portofino. Prometa-me que você encontrará o trompe l’oeil nas paredes daquele quarto no Splendido. As paredes que criam um cenário em que você não pode entrar. Talvez então você compreenda esse anseio por permanência do qual sempre lhe falei. Além do porto? Uma capela amarela. Um penhasco. Prometa-me que você […]
- [Jesús Jiménez Domínguez - A Ponte no Nevoeiro](https://singularidadepoetica.art/2018/10/04/jesus-jimenez-dominguez-a-ponte-no-nevoeiro/): Detenho-me a meio do caminho e ouço. Num extremo aquele que fui grita-me: Espera-me! No outro, aquele que serei sussurra-me: Segue-me. E a ponte, eterna, não aguenta o peso dos três. Trad.: Maria Sousa El Puente en la Niebla Me detengo a mitad del recorrido y escucho. En un extremo aquel que fui me grita: […]
- [José Gomes Ferreira - Viver Sempre Também Cansa!](https://singularidadepoetica.art/2018/10/03/jose-gomes-ferreira-viver-sempre-tambem-cansa/): Viver sempre também cansa! O sol é sempre o mesmo e o céu azul ora é azul, nitidamente azul, ora é cinza, negro, quase verde… Mas nunca tem a cor inesperada. O Mundo não se modifica. As árvores dão flores, folhas, frutos e pássaros como máquinas verdes. As paisagens não se transformam Não cai neve […]
- [Chico Amaral e Samuel Rosa - As Noites](https://singularidadepoetica.art/2018/10/02/chico-amaral-e-samuel-rosa-as-noites-2/): As ruas desse lugar Conhecem bem As noites longas, as noites pálidas Quando eu te procurava As casas desse lugar Se lembrarão Do nosso abraço, da sombra insólita Espelho azul no chão As ruas desse lugar Agora eu sei Sempre escutaram a nossa música Quando eu te respirava As pedras municipais Se impregnaram Da dupla […]
- [Pierre de Ronsard - Quando fores bem velha...](https://singularidadepoetica.art/2018/10/01/pierre-de-ronsard-quando-fores-bem-velha/): Quando fores bem velha, à noite junto à vela, Sentada ao pé do fogo, enovelando e fiando, Dirás, cantando os versos meus e te enlevando: “Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela”. Então nem haverá, ouvindo o recital, Serva, ao fim do trabalho e semi-sonolenta, Que, com som do meu nome, não desperte […]
- [Joan Margarit - Era Rubra](https://singularidadepoetica.art/2018/09/30/joan-margarit-era-rubra/): A Àlex Susanna Tanto tempo demoraste a aprender que estás atrasado para o grande amor: que nunca viveste uma era de ouro. As rosas de Ronsard jamais serão perfume em teu olhar, nenhum outono haverá de desfolhar morosas pétalas nos braços de ninguém. Com negligência tapas os espelhos como era costume em casas onde havia […]
- [Joan Margarit - A partida](https://singularidadepoetica.art/2018/09/29/joan-margarit-a-partida/): Definitivamente, este é o meu Outono, um tempo de alianças impossíveis, a era rubra de todos os perigos para homens maduros e mulheres solitárias. A idade do adultério e da desmemória sem nenhuma esperança, a era do gelo, a partida final contra mim mesmo. Mantenho-me à mesa, sem esperar pela sorte, já não há chances […]
- [Manuel António Pina - Estarei ainda muito perto da luz?](https://singularidadepoetica.art/2018/09/28/manuel-antonio-pina-estarei-ainda-muito-perto-da-luz/): Estarei ainda muito perto da luz? Poderei esquecer estes rostos,estas vozes, e ficar diante do meu rosto? Às vezes,como num sonho, vejo formas como um rosto e pergunto: “De quem é este rosto?” E ainda: “Quem pergunta isto?” E: “E com quem fala?” Estarei ainda longe de Ti, quem quer que sejas ou eu seja? […]
- [Maria do Rosário Pedreira – O Último Abraço](https://singularidadepoetica.art/2018/09/27/maria-do-rosario-pedreira-o-ultimo-abraco/): Este foi o nosso último abraço. E quando, daqui a nada, deixares o chão desta casa encostarei amorosamente os lábios ao teu copo para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos. E então, sim, poderei também eu partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida foi mais, muito mais, do que mereci.
- [Bruno Gouveia e Miguel Cunha – Impossível](https://singularidadepoetica.art/2018/09/26/bruno-gouveia-e-miguel-cunha-impossivel/): Biquíni Cavadão Tudo bem quando termina bem E os seus olhos, e os seus olhos não estão rasos d’água Mas eu sei que no coração ficaram muitas palavras Um vocabulário inteiro de ilusão Tudo que viceja também pode agonizar E perder seu brilho em poucas semanas E não podemos evitar que a vida trabalhe com […]
- [Giuseppe Ghiaroni – A máquina de escrever](https://singularidadepoetica.art/2018/09/25/giuseppe-ghiaroni-a-maquina-de-escrever/): Mãe, se eu morrer de um repentino mal, vende meus bens a bem dos meus credores: a fantasia de festivas cores que usei no derradeiro Carnaval. Vende esse rádio que ganhei de prêmio por um concurso num jornal do povo, e aquele terno novo, ou quase novo, com poucas manchas de café boêmio. Vende também […]
- [Pedro Mexia – Paráfrase](https://singularidadepoetica.art/2018/09/24/pedro-mexia-parafrase/): Este poema começa por te comparar com as constelações, com os seus nomes mágicos e desenhos precisos, e depois um jogo de palavras indica que sem ti a astronomia é uma ciência infeliz. Em seguida, duas metáforas introduzem o tema da luz e dos contrastes petrarquistas que existem na mulher amada, no refúgio triste da […]
- [David Mourão-Ferreira - Praia do Paraíso](https://singularidadepoetica.art/2018/09/23/david-mourao-ferreira-praia-do-paraiso/): Era a primeira Vez que nus os nossos corpos Apesar da penumbra à vontade se olhavam Surpresos de saber que tinham tantos olhos Que podiam ser luz de tantos candelabros Era a primeira vez cerrados os estores Só o rumor do mar permanecera em casa E sabias a sal, e cheiravas a limos Que tivesses […]
- [Antonia Pozzi - Canto da Minha Nudez](https://singularidadepoetica.art/2018/09/22/antonia-pozzi-canto-da-minha-nudez/): Olha para mim: estou nua. Da inquieta languidez da minha cabeleira até à tensão fina do meu pé, sou toda de uma magreza amarga envolta numa cor de marfim. Olha: como é pálida a minha carne. Dir-se-ia que o sangue não a percorre. O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida pulsação azul se esbate no […]
- [Amalia Bautista – Contra 'Remedia Amoris'](https://singularidadepoetica.art/2018/09/21/amalia-bautista-contra-remedia-amoris/): Não sou desse género de mulheresincapazes de amor e de ternura.Odeio o sacrifício e repugna-mea vaidade que nasce da violência,mas sei o que é valor e o que é sangue.Quero ser a mulher de um mercenário,de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.Porque sei olhar nos olhos dos homens.Conheço quem merece a minha ternura. […]
- [Eugénio de Andrade – As Mãos](https://singularidadepoetica.art/2018/09/20/eugenio-de-andrade-as-maos/): Que tristeza tão inútil essas mãos que nem sequer são flores que se dêem: abertas são apenas abandono, fechadas são pálpebras imensas carregadas de sono.
- [João Cabral de Melo Neto – de "Os Três Mal Amados"](https://singularidadepoetica.art/2018/09/19/joao-cabral-de-melo-neto-de-os-tres-mal-amados/): Trecho de “Os Três Mal Amados”, de João Cabral de Melo Neto, em que o amor surge como força devoradora que corrói identidade, memória e futuro, deixando o sujeito reduzido à própria perda.
- [Rui Pires Cabral - «He loved beauty that looked kind of destroyed»](https://singularidadepoetica.art/2018/09/18/rui-pires-cabral-he-loved-beauty-that-looked-kind-of-destroyed/): Gostava dessa espécie de beleza que podemos surpreender a cada passo, desvelada pelo acaso numa esquina de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta que foi toda a infância de alguém, com visitas ao domingo e tardes no quintal depois da escola; a beleza crepuscular de alguns rostos num retrato de família a preto e […]
- [Nuno Júdice - Como Aves, Cuja Passagem](https://singularidadepoetica.art/2018/09/17/nuno-judice-como-aves-cuja-passagem/): Como sombras passaram entre nós, como sombras. Uma vez perante alguns amigos e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei os seus nomes. Mas o que não correspondia a um acto heroico, nada significava hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. Só se eu próprio me tornar uma sombra, e também eu passar a uma outra vida. Durante […]
- [Hilda Hilst : Dez chamamentos ao amigo](https://singularidadepoetica.art/2018/09/16/hilda-hilst-dez-chamamentos-ao-amigo/): I Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. E era como se a água Desejasse Escapar de sua casa que é o rio E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há um tempo Entendo que sou terra. Há tanto […]
- [Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe](https://singularidadepoetica.art/2018/09/15/tamara-kamenszain-o-eco-de-minha-mae/): Não posso narrar. Que pretérito me serviria se minha mãe já não se afasta mais de mim? Exúbere então me detenho ante um estado de coisas demasiado presente: ser a descuidada que dela cuida enquanto outros a negligenciam por mim. São as pessoas que me restaram e a gramática se torna um escândalo quando ela […]
- [Anna Akhmátova – Último Brinde](https://singularidadepoetica.art/2018/09/14/anna-akhmatova-ultimo-brinde/): Bebo ao lar em pedaços,À minha vida feroz,À solidão dos abraçosE a ti, num brinde, ergo a voz… Ao lábio que me traiu,Aos mortos que nada veem,Ao mundo, estúpido e vil,A Deus, por não salvar ninguém. Trad.: Rubens Figueiredo Последний тост Я пью за разоренный дом,За злую жизнь мою,За одиночество вдвоем,И за тебя я […]
- [Rui Lage - EN 314](https://singularidadepoetica.art/2018/09/13/rui-lage-en-314/): Ardidas há muito as velas de ignição que davam centelha ao meu antigo e primeiro coração. Agora sou apenas um ponto morto, sem tração: rolo sem atrito mas também sem aflição. A estrada adormece em bosques propícios a emboscadas, mas já não tenho crenças que mereçam ser cobiçadas. E os meus sonhos, até os meus […]
- [Albano Martins - Haicais](https://singularidadepoetica.art/2018/09/12/albano-martins-haicais/): Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por […]
- [Manuel António Pina - de "Cuidados Intensivos"](https://singularidadepoetica.art/2018/09/11/manuel-antonio-pina-cuidados-intensivos/): I “A esta hora e neste sítio (miocárdio ventricular esquerdo) é a abstracta vida que me assalta. Eles não sabem que o seu coração pulsa, ferido, no meu coração, que a minha dor alheia vagarosamente mata os seus sonhos, os seus sentidos, os seus dias visíveis e invisíveis, a linha dos telhados ao longe sobre […]
- [Eunice de Souza – Convite](https://singularidadepoetica.art/2018/09/10/eunice-de-souza-convite/): Tenta-me com uma visão de colinas relva que é verde pavões tão vulgares como pardais. Podemos ler no pátio, diz ela, ouvindo o picapau às voltas com a sua árvore, admirar as rosas, colher fruta, contar estrelas. Traga a tia, os cães, o periquito, diz, escreva um ou dois poemas felizes. De vez em quando, […]
- [José Mateos - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2018/09/09/jose-mateos-in-memoriam/): Para Pedro Sevilla Sempre, frente à dor, estamos sozinhos, não se quer viver, e tu sabes disso. Há um instante viste, na penumbra de um quarto de hospital, a mão hirta, seu rosto naufragado que o lençol cobriu. E era como mirar-se em um espelho e ver que somos menos que essa ausência, menos que […]
- [Elisa Lucinda - Do Efêmero Presente](https://singularidadepoetica.art/2018/09/08/elisa-lucinda-do-efemero-presente/): Às vezes passo um dia e sinto que o perdi. Um dia sem importâncias dentro dele, sem fruto, sem feito, metade avião, metade hotel. Mas que mania é essa de querer que o pobre do dia seja sempre cheio de tarefas? Um dia escravinho, sofrendo na senzala calendário. Ora essa, tem gente que dorme quase […]
- [Paulo Henriques Britto - Entrevista](https://singularidadepoetica.art/2018/09/08/paulo-henriques-britto-entrevista/): Ótima entrevista concedida por Paulo Henriques Britto (para mim, o melhor poeta brasileiro vivo) a Ramon Ramos, e publicada no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco. Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1952), além de poeta, é contista, tradutor e professor da PUC-Rio. Sua obra poética, desde a estreia em Liturgia da […]
- [Joan Margarit - Ulisses nas Águas de Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2018/09/07/joan-margarit-ulisses-nas-aguas-de-itaca/): Estás chegando a ilha e agora sabes o que é o acaso. Viver, o que significa. Teu arco será poeira em uma estante. Poeira será o tear e a peça que ele tece. Os pretendentes, que no pátio acampam, são sombras dos sonhos de Penélope. Estás chegando a ilha enquanto explode o mar contra as […]
- [Vitor Nogueira - Formol](https://singularidadepoetica.art/2018/09/06/vitor-nogueira-formol/): A casa por sob o sótão. O sótão por sobre a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre o mundo. À volta desta praça, quis o tempo conservados em formol os edifícios, esquinas de onde surgem cada vez mais perguntas sem aviso. Escondida pela fachada do liceu há-de estar ainda a […]
- [Kenneth Rexroth – Leão](https://singularidadepoetica.art/2018/09/05/kenneth-rexroth-leao/): O leão é chamado de rei Dos animais. Atualmente existem Quase tantos leões Em jaulas quanto fora delas. Se te oferecerem uma coroa, recusa. Trad.: José Antônio Cavalcanti Lion The lion is called the king Of beasts. Nowadays there are Almost as many lions In cages as out of them. If offered a crown, refuse.
- [Ruy Belo – Através da chuva e da névoa](https://singularidadepoetica.art/2018/09/04/ruy-belo-atraves-da-chuva-e-da-nevoa/): Chovia e vi-te entrar no mar longe de aqui há muito tempo já ó meu amor o teu olhar o meu olhar o teu amor Mais tarde olhei-te e nem te conhecia Agora aqui relembro e pergunto: Qual é a realidade de tudo isto? Afinal onde é que as coisas continuam e como continuam se […]
- [João Luís Barreto Guimarães - Um Quarto de Hotel em Madrid](https://singularidadepoetica.art/2018/09/04/joao-luis-barreto-guimaraes-um-quarto-de-hotel-em-madrid/): Não se chega a pertencer nunca a um quarto de hotel. Não se lhe ganha afecto (não é nosso por inteiro) se é certo que amanhã outro dono estará emoldurado ao espelho. Não se chega a confiar nele (não se lhe lega segredos) sequer a palavra impudica expurgada da pele pela toalha de banho. Não […]
- [Henri Michaux – Nós dois ainda](https://singularidadepoetica.art/2018/09/02/henri-michaux-nos-dois-ainda/): 1948 Música do fogo, tu não soubeste tocar. Lançaste sobre a minha casa um pano negro. O que é este opaco em toda a parte? É o opaco que tapou o meu céu. O que é este silêncio em toda a parte? É o silêncio que calou o meu canto. * De esperança tinha-me bastado […]
- [Amalia Bautista - Nada Sabemos](https://singularidadepoetica.art/2018/09/01/amalia-bautista-nada-sabemos/): Nunca saberemos se os enganadossão os sentidos ou os sentimentos,se viaja o comboio ou a nossa ânsia,se as cidades mudam de lugarou se todas as casas são a mesma.Nunca saberemos se quem nos esperaé quem deve esperar-nos, nem sequerquem temos de esperar no meio de umaplataforma fria. Nada sabemos.Avançamos às cegas, perguntandose isto que se […]
- [Maria Lúcia Alvim - Nosferatu](https://singularidadepoetica.art/2018/08/31/maria-lucia-alvim-nosferatu/): Não era bem isso que eu queria, no entanto, ele veio. Olho de vidro, dente de espada, sopro de guerreiro afeito à noite. – Por que tarda tanto o teu amanhecer sob a capa? – Porque veio? perguntei. E ele debruçava, derramava sobre mim um jeito de morrer.
- [Luís Felipe Castro Mendes – Estóicos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/30/luis-felipe-castro-mendes-estoicos/): Deixa-te ficar comigo à beira do rio. Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza nem a sedução da mocidade. Se te falarem dos deuses, finge entender. E se chamarem poeta ao dono do circo, concorda gravemente.
- [Víctor Botas - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/29/victor-botas-collige-virgo-rosas/): Não falta quem suponha que em sessenta bilhões de anos voltaremos a ser como agora (aparentemente o Espaço se dilata para logo, elástico, encolher-se e novamente outra vez dilatar-se), repetindo tu, as profundidades desses olhos, eu, este esperar a morte de tua mão agônica nas minhas, aqui mesmo, neste lugar. Mas, caso seja tudo uma […]
- [Luis Alberto de Cuenca - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/28/luis-alberto-de-cuenca-collige-virgo-rosas/): Moça, colhe as rosas, não esperes a manhã. Corta-as velozmente, desaforadamente, sem parar para pensar se elas são más ou boas. Que não sobre nenhuma. Poliniza os rosais que encontrares em teu caminho e deixa os espinhos para tuas colegas do colégio. Desfruta da luz e do ouro enquanto podes e consagra tua beleza a […]
- [Felipe Benitez Reyes - "Collige Rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/27/felipe-benitez-reyes-collige-rosas/): Consumir este dia como se fosse o último. Queima-lo como o último cigarro que restou ao insone. Retarda-lo nos lábios como a sílaba última de uma fórmula mágica. Que dependa dele – como a moeda que o suicida reticente lança ao ar – o exato sentido da vida essa confusão de quimeras que morrem nas […]
- [Francisco Brines - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/26/francisco-brines-collige-virgo-rosas/): Estás já com quem queres. Ri e goza. Ama. E anima-te na noite que agora começa, e entre tantos amigos (e comigo) abre os grandes olhos para a vida com a avidez preciosa de tua idade. A noite, longa, há de acabar ao amanhecer, e virão esquadrões de espiões com a luz, apagar-se-ão as estrelas, […]
- [Garcilaso de la Vega - Soneto XXIII](https://singularidadepoetica.art/2018/08/25/garcilaso-de-la-vega-soneto-xxiii/): Enquanto que de rosa e de açucena se mostra toda a cor neste teu rosto, enquanto o teu olhar ardente, honesto, acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjas do ouro se escolheu, com voo presto, sobre o formoso colo branco, ereto, o vento move, espalha e desarranja: colhe […]
- [Jorge Luis Borges - Cristo na Cruz](https://singularidadepoetica.art/2018/08/24/jorge-luis-borges-cristo-na-cruz/): Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.Os três madeiros são de igual altura.Cristo não é o do meio. É o terceiro.A negra barba pende sobre o peito.O rosto não é este das gravuras.É áspero e judeu. Mas não o vejoE vou buscá-lo sempre até o diaDe meu último passo sobre a terra.O homem alquebrado […]
- [Francisco Brines - Os Prazeres Inferiores](https://singularidadepoetica.art/2018/08/23/francisco-brines-os-prazeres-inferiores/): Não desdenhes as paixões vulgares Tens os anos necessários para saber que elas se correspondem exatamente com a vida. Não reduzas sua ação, pois se do breve tempo em que consistes as retiras, é ainda o existir mais imperfeito. Descobre sua verdade por trás da aparência, e assim não haverá falsidade, não poderás fingir que […]
- [Amalia Bautista - Os Teus Olhos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/22/amalia-bautista-os-teus-olhos/): Quando já se esgotaram os caminhos que a razão poderia aconselhar-nos abrem-se os teus olhos: com eles tudo volta a inundar-se da luz escura que dá sentido ao mundo e à minha vida. Trad.: Inês Dias Tus Ojos Cuando se han agotado los caminos que la razón podría aconsejarnos se abren tus ojos, y con […]
- [Joan Margarit - Espaço e Tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/08/21/joan-margarit-espaco-e-tempo/): E de repente a casa é demasiado grande. Tua mãe e eu esvaziamos teus armários e seguimos por mesas e prateleiras, de retrato em retrato, teus sorrisos. À noite os espelhos, sob a luz elétrica, expõem com mais ênfase o teu vazio. Os móveis são agora mais escuros. Pela escada desce a cálida balaustrada que […]
- [Manuel António Pina - Amor como em Casa](https://singularidadepoetica.art/2018/08/20/manuel-antonio-pina-amor-como-em-casa/): Amor como em casa, um poema de Manuel António Pina
- [Antonia Pozzi – Grito](https://singularidadepoetica.art/2018/08/19/antonia-pozzi-grito/): Não ter um Deus não ter um túmulo não ter nada de certo mas apenas coisas vivas que nos fogem – existir sem ontem existir sem amanhã e cegar no vazio – socorro – pelo sofrimento que não tem fim – 10 de fevereiro de 1932 Trad.: Inês Dias Grido Non avere un Dio non […]
- [Miguel Torga – Sísifo](https://singularidadepoetica.art/2018/08/18/miguel-torga-sisifo-poema/): Sísifo, um poema de Miguel Torga
- [Rainer Maria Rilke – O Poeta](https://singularidadepoetica.art/2018/08/17/rainer-maria-rilke-o-poeta/): Já te despedes de mim, Hora. Teu golpe de asa é o meu açoite. Só: da boca o que faço agora? Que faço do dia, da noite? Sem paz, sem amor, sem teto, caminho pela vida afora. Tudo aquilo em que ponho afeto fica mais rico e me devora. Trad.: Augusto de Campos Der Dichter […]
- [Jane Hirshfield - O Homem Gentil](https://singularidadepoetica.art/2018/08/16/jane-hirshfield-o-homem-gentil/): Eu vendi o relógio do meu avô, seu ouro nacarado e padrões pontilhados, para ser derretido. Engrenagem condenada. Tampa faltando. Corrente — deve ter havido uma — faltando. Números que foram pintados com um única e hábil cerda. Dei corda na coroa antes de entrega-lo por sobre o balcão. O homem gentil agarrou o que […]
- [Rui Pires Cabral - "Are Others Happier?"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/15/rui-pires-cabral-are-others-happier-poema/): "Are Others Happier?", um poema de Rui Pires Cabral
- [Joan Margarit - Despedir-se](https://singularidadepoetica.art/2018/08/14/joan-margarit-despedir-se/): Removi tapetes e cortinas, todas as mesas em que há tempos não como nem escrevo. Tirei os quadros e pintei as paredes para apagar os sinais dos anos. Guardo uns poucos livros. Sei bem quais. Destruí cartas de amor que não me amavam mais. Silenciosos, agora, os amores são icebergs errantes do pensamento. A casa, […]
- [Manuel António Pina - Os Gatos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/13/manuel-antonio-pina-os-gatos/): Há um deus único e secretoem cada gato inconcretogovernando um mundo efémeroonde estamos de passagem Um deus que nos hospedanos seus vastos aposentosde nervos, ausências, pressentimentos,e de longe nos observa Somos intrusos, bárbaros amigáveis,e compassivo o deuspermite que o sirvamose a ilusão de que o tocamos
- [Stein Mehren – Grandes Perguntas](https://singularidadepoetica.art/2018/08/12/stein-mehren-grandes-perguntas/): As grandes perguntas não têm soluções, não têm resposta Grandes perguntas não são feitas para serem respondidas Mas para serem vividas Os maiores mistérios continuam sendo mistérios. E na condição de mistérios permitem apreender nosso lugar no mundo, posto que inevitavelmente nos colocam em nossos devidos lugares dentro de nós mesmos. Trad.: Ana Cristina de […]
- [Ruy Belo – Muriel](https://singularidadepoetica.art/2018/08/11/ruy-belo-muriel/): Às vezes se te lembras procurava-te retinha-te esgotava-te e se te não perdia era só por haver-te já perdido ao encontrar-te Nada no fundo tinha que dizer-te e para ver-te verdadeiramente e na tua visão me comprazer indispensável era evitar ter-te Era tudo tão simples quando te esperava tão disponível como então eu estava Mas […]
- [Lêdo Ivo – O Dia dos Homens](https://singularidadepoetica.art/2018/08/10/ledo-ivo-o-dia-dos-homens/): Viver é preciso. Não existe inferno nem paraíso. Apenas o chão. E uma persistente chuva de verão.
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Apesar das ruínas e da morte](https://singularidadepoetica.art/2018/08/09/sophia-de-mello-breyner-andresen-apesar-das-ruinas-e-da-morte/): Apesar das ruínas e da morte,Onde sempre acabou cada ilusão,A força dos meus sonhos é tão forte,Que de tudo renasce a exaltaçãoE nunca as minhas mãos ficam vazias. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ryane Leão – "Você é uma frase bonita"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/08/ryane-leao-voce-e-uma-frase-bonita/): você é uma frase bonita dessas que a gente sublinha no livro faz tatuagem, conta pra todo mundo dessas que dividem a gente em antes e depois
- [Sonja Åkesson – Primavera e Outono, Verão e Inverno](https://singularidadepoetica.art/2018/08/07/sonja-akesson-primavera-e-outono-verao-e-inverno/): A grade que enferrujou. O pão que empedrou. O vento que correu em busca de uma caixa d’água. Primavera e outono, verão e inverno. Isso foi tudo. E é claro, a morte também sonolenta e bem empanturrada como um gato castrado bocejando enquanto as estações do ano vão e voltam deixando um gosto amargo em […]
- [Nuno Júdice – Carpe Diem](https://singularidadepoetica.art/2018/08/06/nuno-judice-carpe-diem/): Confias no incerto amanhã? Entregas às sombras do acaso a resposta inadiável? Aceitas que a diurna inquietação da alma substitua o riso claro de um corpo que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos, os instantes; e nos lábios dessa que amaste morre um fim de frase, deixando a dúvida definitiva. Um nome […]
- [Manuel António Pina - Farewell Happy Fields - IV](https://singularidadepoetica.art/2018/08/05/manuel-antonio-pina-farewell-happy-fields-iv-poema/): Farewell Happy Fields - IV, um poema de Manuel António Pina
- [Ivan Junqueira – Hoje](https://singularidadepoetica.art/2018/08/04/ivan-junqueira-hoje/): A sensação oca de que tudo acabou o pânico impresso na face dos nervos o solitário inverno da carne a lágrima, a doce lágrima impossível… e a chuva soluçando devagar sobre o esqueleto tortuoso das árvores
- [Assionara Souza – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/03/assionara-souza-a-mulher-de-lot/): Um passo atrás Enquanto a cidade desaba Todos correndo Um tumulto dos diabos O filho, a filha, o marido A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz Como se ela não soubesse Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida Ele […]
- [Wislawa Szymborska – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/02/wislawa-szymborska-a-mulher-de-lot/): Dizem que olhei para trás curiosa. Mas quem sabe eu também tinha outras razões. Olhei para trás de pena pela tigela de prata. Por distração – amarrando a tira da sandália. Para não olhar mais para a nuca virtuosa do meu marido Lot. Pela súbita certeza de que se eu morresse ele nem diminuiria o […]
- [Anna Akhmátova – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/01/anna-akhmatova-a-mulher-de-lot/): A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás e transformou-se numa estátua de sal. Gênesis E o homem justo seguiu o enviado de Deus, alto e brilhante, pelas negras montanhas. Mas a angústia falava bem alto à sua mulher: “Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar as rubras torres da […]
- [Arnaldo Antunes – Lugar Nenhum](https://singularidadepoetica.art/2018/07/31/titas-lugar-nenhum-2/): [youtube https://www.youtube.com/watch?v=E5iMIFJ-vLU&w=560&h=315] Não sou brasileiro Não sou estrangeiro Não sou brasileiro Não sou estrangeiro Eu não sou de nenhum lugar Sou de lugar nenhum Sou de lugar nenhum Não sou de São Paulo Não sou japonês Não sou carioca Não sou português Não sou de Brasília Não sou do Brasil Nenhuma pátria me pariu Eu […]
- [Francisco José Viegas – O Estoril](https://singularidadepoetica.art/2018/07/30/francisco-jose-viegas-o-estoril-poema/): O Estoril, um poema de Francisco José Viegas
- [Knut Hamsun – Em cem anos, tudo estará esquecido](https://singularidadepoetica.art/2018/07/29/knut-hamsun-em-cem-anos-tudo-estara-esquecido/): Reviro-me insone por noites a fio, qual náufrago num barco adernando, e tudo por que tanto tenho sofrido ao fim sempre vem dar em pranto. Mas por que sofrer tanto? Em cem anos, tudo estará esquecido. Num sobressalto me vejo cantando personagem da própria labuta. Comungo com Deus qual gigante desperto e a mesa com […]
- [Vitor Nogueira - Sala](https://singularidadepoetica.art/2018/07/28/vitor-nogueira-sala-poema/): Sala, um poema de Vitor Nogueira
- [Miriam Reyes - Imóvel](https://singularidadepoetica.art/2018/07/27/miriam-reyes-imovel/): abandonado a teu peso de homem imóvel olhas-me com antiquíssimos ressentimentos. Ouve-me bem: sou inocente de teu passado não sou a tua puta mãe nem a tua enferma mãe nem a tua louca mãe embora seja uma puta louca. Não mereço receber agressões alheias, atrasadas e caducas. Não projetes em mim os fantasmas de tua […]
- [Joan Margarit - Um pobre instante](https://singularidadepoetica.art/2018/07/26/joan-margarit-um-pobre-instante/): A morte não é mais do que isto: um quarto, a luminosa tarde na janela, e este toca-fitas na mesinha tão desligado como o teu coração com todas as tuas canções cantadas para sempre. Teu último suspiro segue dentro de mim, todavia em suspenso: não deixo que termine. Sabes qual é, Joana, o próximo concerto? […]
- [Manuel António Pina - Teoria das Cordas](https://singularidadepoetica.art/2018/07/25/manuel-antonio-pina-teoria-das-cordas-poema/): Teoria das Cordas, um poema de Manuel António Pina
- [Josep M. Rodríguez – Equação](https://singularidadepoetica.art/2018/07/24/josep-m-rodriguez-equacao/): De pé neste penhasco, aceito a mentira da paisagem. Tudo é inacessível: o orvalho – que é suor vegetal – e o comboio que passa. Uma cegonha voa a preto e branco. Tem o seu ninho no cimo da igreja que fica junto ao cemitério. Estranho paradoxo, a pedra testemunha a fugacidade, a carne é […]
- [Renato Russo – Música Urbana 2](https://singularidadepoetica.art/2018/07/23/legiao-urbana-musica-urbana-2/): [wpvideo ktLJm0wd] Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana Motocicletas querendo atenção às três da manhã É só música urbana Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música […]
- [Miquel Martí i Pol - Tua Solidão](https://singularidadepoetica.art/2018/07/22/miquel-marti-i-pol-tua-solidao/): Enquanto puderes, não desperdices tua solidão, dedicando-a a uma absurda busca do nada, nem persigas a ti próprio obsessivamente por escuras galerias. Assustado pela luz dos preceitos. Sai no sol a pino e olha para as coisas difíceis. Considera que o jogo desmedido das palavras não te servirá de nada se não te apoiares naquilo […]
- [Jorge Luis Borges - Elogio da Sombra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/21/jorge-luis-borges-elogio-da-sombra/): A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade. O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e sua alma. Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão. Buenos Aires, que antes se espalhava em subúrbios em direção à planície incessante, […]
- [Joan Margarit - Quando se perde o sinal](https://singularidadepoetica.art/2018/07/20/joan-margarit-quando-se-perde-o-sinal/): À noite, em um pequeno aeroporto, vês um avião que está decolando. Vai-se perdendo o sinal. Sem nenhuma piedade pelo que foste, pois a piedade é demasiado efêmera e não há tempo para construir nada sobre ela, convences-te de que vives, embora sem esperanças, uma época que é a mais feliz de tua vida. Há […]
- [Stein Mehren - A Pedra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/19/stein-mehren-a-pedra/): Eu acumulei tanto tempo em cada grama de matéria, diz a pedra que milhões de anos são um mero piscar de olhos em mim Eu conheço a dor do mundo continua a pedra. O peso que é necessário carregar. Peso que é o sofrimento do mundo em espaços banhados de luz Se ficares totalmente calado […]
- [Doris Lessing - Fábula](https://singularidadepoetica.art/2018/07/18/doris-lessing-fabula/): Quando olho para trás me parece recordar o canto, embora sempre houvesse silêncio naquele largo e cálido salão. Impenetráveis, essas paredes, acreditávamos, escuras como escudos antigos. A luz brilhava na cabeça ou nas pernas esparramadas com indolência por uma menina. E as vozes baixas subiam no silêncio a se perder como a água. Assim, tudo […]
- [Jane Hirshfield - Alzheimer](https://singularidadepoetica.art/2018/07/17/jane-hirshfield-alzheimer/): Quando os ratos roem um tapete velho e de boa qualidade, as cores e os padrões do que resta não se alteram. Como um leito de rocha, inclinado, continua um leito de rocha, as estrias roxas e vermelhas por interromper. Grandeza inata que se não pode roubar. “Como está?”, perguntei, sem saber o que esperar. […]
- [Nuno Júdice – Fotografia](https://singularidadepoetica.art/2018/07/16/nuno-judice-fotografia/): Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso deatget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,e olha para trás, de esguelha, como se quisessemostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-sede nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-seum sorriso que, não se sabe porquê, se esbate comessa espécie de névoa […]
- [Werner Aspenström – Domingo](https://singularidadepoetica.art/2018/07/15/werner-aspenstrom-domingo/): Pela simples razão de que nunca mais voltará hoje é um dia memorável. O sol nasceu no leste e se pôs no oeste, deixou o céu para as estrelas e uma nave espacial nadando no espaço. O rádio falava e cantava através da janela aberta atrás dos pelargônios vermelhos imutáveis. Uma mulher colhia cachos de […]
- [Andreia C. Faria - Descarnação](https://singularidadepoetica.art/2018/07/14/andreia-c-faria-descarnacao/): Até aos trinta anos tens a cara que Deus te deu. Depois tens a cara que mereces. É uma promessa de ironia, uma sentença sem recurso. É-te assim dito: estás entregue ao labor íntimo do que comes, ao número de horas que dormes, àquilo que fazes e sobretudo àquilo em que pensas. Deus (perdoa-lhe a […]
- [Manuel de Freitas - Nada de nada](https://singularidadepoetica.art/2019/05/05/manuel-de-freitas-nada-de-nada/): para o José Carlos Soares Um dia, logo de manhã, entraremos num cemitério e perguntarás a Antonia Pozzi se estar morto é mais ou menos triste do que estes dias arduamente sepultados. Receando que saibas a resposta, beberei com Lowry a primeira ou a última tequila, na certeza de que ambos os adjetivos estarão certos […]
- [José Miguel Silva - Desculpas não faltam](https://singularidadepoetica.art/2019/05/04/jose-miguel-silva-desculpas-nao-faltam/): Uma casa junto ao Vouga, rio de água suficiente, onde apenas se mergulha até à cintura, a pequena horta de Virgílio, o amor robustecido por nenhuma esperança e tantos livros para ler — que desculpa vou agora dar para não ser feliz?
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/03/herberto-helder-de-poemas-canhotos-4/): o António Ramos Rosa estava deitado na cama contra a parede e deu meia volta sobre si mesmo e ficou de cara voltada contra a parede e fechou os olhos e fechou a boca e ficou todo fechado e então morreu todo fundo e completo de uma só vez e apenas ele no tempo e […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/02/herberto-helder-de-poemas-canhotos-3/): fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são inteligentes tão subis no súbito entendimento das intenções segundas que temos em relação a eles se lhes dessem a ler bons poemas maior proveito teriam aqueles que os escrevem do que tem com A ou B eu cá por mim estou certo de que nenhum golfinho […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/01/herberto-helder-de-poemas-canhotos-2/): escrever poemas não é boa maneira de atordoar os tempos do verbo, não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio, nem perder algures uma perna e lembrar-me depois de perder ainda a outra: ninguém ganha assim uma barra de ouro, ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro, ninguém transforma assim […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/04/30/herberto-helder-de-poemas-canhotos/): em boa verdade houve tempo em que tive uma ou duas artes poéticas, agora não tenho nada: sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas: as vezes apenas duas ou três linhas; outras, vinte ou trinta: houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei a encher umas quantas […]
- [Goliarda Sapienza – Para minha mãe](https://singularidadepoetica.art/2019/04/29/goliarda-sapienza-para-minha-mae/): Quando eu voltarserá noite fechadaQuando eu voltaras coisas estarão quietasNinguém vai me esperarnaquele leito de terraNinguém vai me acolhernaquele silêncio de terra Ninguém vai me consolarpor todas as partes já mortasque carrego em mimcom resignada impotênciaNinguém vai me consolarpelos instantes perdidospelos sons esquecidosque há tempoviajam ao meu lado e tornam densoo respiro, lamacenta a língua […]
- [Mário Cesariny – Em todas as ruas te encontro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/28/mario-cesariny-em-todas-as-ruas-te-encontro/): Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real que […]
- [Walt Whitman - Canção de mim mesmo, 48](https://singularidadepoetica.art/2019/04/27/walt-whitman-cancao-de-mim-mesmo-48/): 48 Eu disse que a alma não é mais do que o corpo, e disse que o corpo não é mais do que a alma, e nada, nem Deus, é maior para um ser do que esse ser para si mesmo, e quem quer que ande um estádio sem solidariedade caminha para seu próprio funeral […]
- [Joan Margarit - Ela](https://singularidadepoetica.art/2019/04/26/joan-margarit-ela/): É tempo de não esperar por ninguém. Passa o amor, fugaz e silencioso, como, na distância, um trem noturno. Não resta ninguém. É hora de voltar ao desolado reino do absurdo, ao sentimento de culpa, ao medo vulgar de perder o que estava, já, perdido. Ao inútil e sórdido tempo moral. É hora já de […]
- [Paulo Henriques Britto - Lacrimæ rerum](https://singularidadepoetica.art/2019/04/25/paulo-henriques-britto-lacrimae-rerum/): É o lamento das coisas, a desdita da matéria. Não tem nada a ver conosco, com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo. É uma questão de moléculas, que antecede a biologia por coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcana nosso entendimento pasma. Nem tudo está a vosso alcance, ó seres de protoplasma.
- [Philip Roth - Patrimônio (excerto 2)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/25/philip-roth-patrimonio-excerto-2/): Ele morreu três semanas depois. Durante uma provação de doze horas, que começou pouco antes da meia-noite de 24 doutubro de 1989 e terminou logo após o meio-dia, ele lutou por cada sorvo de ar com uma erupção impressionante, uma derradeira exibição da tenacidade férrea que havia demonstrado ao longo da vida. Algo digno de […]
- [Fernando Assis Pacheco - R., 1992](https://singularidadepoetica.art/2019/04/24/fernando-assis-pacheco-r-1992/): Quando os anos passarem sobre esse teu desgosto vais ver que te curaste não de vez mas um pouco pois o que a gente busca nas dobras do amor é a cura para a morte que não tem consolo e por falar em f’ridas até as que mais doem acabam por fechar só ela vence […]
- [Vasco Gato - Fera Oculta](https://singularidadepoetica.art/2019/04/23/vasco-gato-fera-oculta/): com a Inês para o Rodrigo I Durante essa tua natação de fera ocultahá um papiro que se desdobra na minha bocae nunca o futuro teve o saborde palavras tão sobejamente pronunciadasfamília rapaz umbigopalavras com que se poderia redigirtão pouca coisase não fosse a reinvenção da tua chegadainscrita no mundo como pedra preciosaque não é pedraantes […]
- [José Manuel Caballero Bonald - Transfiguração do perdido](https://singularidadepoetica.art/2019/04/22/jose-manuel-caballero-bonald-transfiguracao-do-perdido/): A música convoca as imagens degradadas do tempo. De onde estão me chamando, de qual penumbra, quando retornam para mim? Nada me pertence senão aquilo que perdi. Máscara do passado, a memória conflui para um fundo difuso de alegrias em que tudo soçobra e se reduz a nada, onde está minha verdade tornando-se mais crédula. […]
- [Rafael Montesinos - Vida](https://singularidadepoetica.art/2019/04/21/rafael-montesinos-vida/): Nasceu. Viveu feliz. Sorveu a vida de um só e belo trago adolescente. Buscou a solidão, e se viu frente a uma atroz, inesperada ferida. Em desvario, deu para crer em tudo. “Oh sensatez de não se crer em nada!”, disse, e depois a alma, entusiasmada quis sentir a vida de um outro modo. Farto […]
- [Philip Roth - Patrimônio (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/20/philip-roth-patrimonio-excerto/): “Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério, […]
- [Manuel António Pina - Sexta-feira Santa](https://singularidadepoetica.art/2019/04/19/manuel-antonio-pina-sexta-feira-santa/): A conversa era sobre Deus, embora o teólogo estivesse inclinado a pensar que fosse sobre outra coisa, pois era hora de jantar. Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar. Tinha devorado o pargo com honesto apetite e elogiava as virtudes do cozinheiro. Só Deus, algures, chorava sobre os despojos da sua pequena […]
- [Ian Hamilton - Admissão](https://singularidadepoetica.art/2019/04/18/ian-hamilton-admissao/): Os lábios rachados do porteiro noturno uniformizadoMurmuram horrivelmente contra o vidro embaçadoDe nossa ambulância escura.Nossa afliçãoInspira um único olhar marcial de desdémE logo ele nos indica o caminho, para a “Pátria”. Trad.: Nelson Santander Admission The chapped lips of the uniformed night-porterMumble horribly against the misted glassOf our black ambulance.Our plightInspires a single, soldierly, contemptuous […]
- [Manuel Halpern - Domingo de manhã](https://singularidadepoetica.art/2019/04/17/manuel-halpern-domingo-de-manha/): Quantos homens se apaixonam por ti ao sábado à tarde enquanto passeiam os filhos no parque e se distraem do balanço do baloiço na adivinhação das partes do corpo que trazes tapadas Mal sabem que a tua solidão não se preenche com a desventura erótica de um corpo que te cubra sem consolo Não há […]
- [Miguel Martins - Sou eu](https://singularidadepoetica.art/2019/04/16/miguel-martins-sou-eu/): são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral sou eu agora em espasmos, assemelhando-me […]
- [Ángel González - Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/04/15/angel-gonzalez-aniversario/): Eu percebo: como estou me tornandomais incerto, confuso,dissolvendo-me no arcotidiano, brutopedaço de mim, desgastadoe em frangalhos. Eu compreendo: vivimais um ano, e isso é muito duro.Pulsar o coração todos os diasquase cem vezes por minuto! Viver um ano requermorrer muito muitas vezes. Trad.: Nelson Santander Cumpleaños Yo lo noto: cómo me voy volviendomenos cierto, confuso,disolviéndome […]
- [William Butler Yeats - Um aviador irlandês prevê a morte](https://singularidadepoetica.art/2019/04/14/william-butler-yeats-um-aviador-irlandes-preve-a-morte/): Encontrarei meu fim no meio das nuvens de algum céu sobejo; os que combato, eu não odeio, também não amo os que protejo; Kiltartan Cross é meu país, seus pobres são a minha gente, nada a fará mais infeliz do que já era, ou mais contente. Não é por lei ou por dever, turba ou […]
- [Jaime Gil de Biedma - Pandêmia e Celeste](https://singularidadepoetica.art/2019/04/13/jaime-gil-de-biedma-pandemia-e-celeste/): Quan magnus numerus Libyssae arenae …………………………….. Aut quam sidera multa, cum tacet nox, Furtiuos hominum uident amores. CATULO, VII Imagina agora que tu e eu muito tarde da noite falamos de homem para homem, enfim. Imagina-o, em uma dessas noites memoráveis de rara comunhão, com a garrafa meio vazia, os cinzeiros sujos, depois de esgotado […]
- [Eugénio de Andrade - Mulheres de preto](https://singularidadepoetica.art/2019/04/12/eugenio-de-andrade-mulheres-de-preto/): Há muito que são velhas, vestidas de preto até a alma. Contra o muro defendem-se do sol de pedra; ao lume furtam-se ao frio do mundo. Ainda têm nome? Ninguém pergunta, ninguém responde. A língua, pedra também.
- [Giuseppe Ungaretti - Céu claro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/11/giuseppe-ungaretti-ceu-claro/): Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tanta névoa uma a uma se desvelam as estrelas Respiro o frescor que me deixa a cor do céu Me reconheço imagem passageira Presa de um ciclo imortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sereno Bosco di Courton luglio 1918 Dopo tanta nebbia a una a […]
- [Raymond Carver - A cabine telefônica](https://singularidadepoetica.art/2019/04/10/raymond-carver-a-cabine-telefonica/): Ela desaba na cabine, chorando no telefone. Perguntando uma coisa ou outra, e chorando um pouco mais. Seu companheiro, um camarada mais velho, usando jeans e camiseta, aguarda em pé a sua vez de falar, e chorar. Ela passa o telefone para ele. Por um minuto eles ficam juntos na minúscula cabine, as lágrimas dele […]
- [Joan Margarit - O ano em que ela morreu](https://singularidadepoetica.art/2019/04/09/joan-margarit-o-ano-em-que-ela-morreu/): Na fotografia em sépiaés jovem e sorri. Faz-me lembraras mulheres dos filmes de guerrada minha infância:barcos na neblina, trens noturnose grandes cidades sob o alarme aéreo.Na lápide está escrito que ela se foino inverno de 44,aos vinte anos, quando me apaixonavapela sufocante escuridãocruzada por um raio de luz, a heroínados sonhos de amor de minha […]
- [Manuel António Pina - Corpo presente](https://singularidadepoetica.art/2019/04/08/manuel-antonio-pina-corpo-presente/): Toda a casa suspendera a respiração incapaz de conter tamanha desproporção, e eu próprio desaparecera algures na sala, entre a tua vida e a tua morte. Atenderam o telefone falando baixo, temendo que regressasse cada coisa do teu lugar sem estar prontos ainda para a tua solidão. Faltava muito para podermos perceber, muitos passos para […]
- [Paulo Henriques Britto - Plaudite, amici](https://singularidadepoetica.art/2019/04/07/paulo-henriques-britto-plaudite-amici/): Seria muito bom saber sair de cena sem fazer cenas, sem roubar a cena, sem atropelar sequer um figurante. Pena que nessas horas se improvisa, e que ninguém respeita nada quando foge do roteiro. Mesmo os maiores canastrões têm seu momento de glória, de prima-donismo o mais rasteiro e o mais justificável. Pois na vida […]
- [Nuno Júdice - É isto o amor](https://singularidadepoetica.art/2019/04/06/nuno-judice-e-isto-o-amor/): Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me a sermos dois; e a […]
- [Luís García Montero - Resumo dos fatos](https://singularidadepoetica.art/2019/04/05/luis-garcia-montero-resumo-dos-fatos/): Falei com a morte por telefonee recebi e-mails de amor que foram apagadossem deixar uma única lágrima em papel amarelo.Ninguém esqueça os tempos, mas ninguém se engane:no final, apenas o amor e a morte importam. Trad.: Nelson Santander Resumen de los hechos He hablado con la muerte por teléfonoy he recibido e-mails de amor que […]
- [Fernando Assis Pacheco - Respiração Assistida](https://singularidadepoetica.art/2019/04/04/fernando-assis-pacheco-respiracao-assistida/): Eu vi a morte de noite – névoa branca – entre os frascos do soro rondar a minha cama era um trasgo e como tal metera-se pelas frinchas; noutra versão coando-se através dos nós da madeira ou noutra ainda imitando à perfeição o gorgolejar da água nos ralos: eu tremia covardemente enquanto ela raspava a […]
- [Carlos Poças Falcão - A luz coada num pano negro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/03/carlos-pocas-falcao-a-luz-coada-num-pano-negro/): Lamenta-te, pois já não é alegre o vento sobre os campos. Não há descoberta nem transfiguração quando o calendário vem com as primícias. Lamenta-te, lamenta-te. Já não tens a nudez certa nem a fragrância antiga.
- [Paul Verlaine – Chanson D'Automne (em seis traduções)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/02/paul-verlaine-chanson-dautomne-em-seis-traducoes/): Canção do Outono (Trad.: Alphonsus de Guimaraens) Os soluços graves Dos violinos suaves Do outono Ferem a minh’alma Num langor de calma E sono. Sufocado, em ânsia, Ai! quando à distância Soa a hora, Meu peito magoado Relembra o passado E chora. Daqui, dali, pelo Vento em atropelo Seguido, Vou de porta em porta, Como […]
- [Vicente Gaos - Esquecei](https://singularidadepoetica.art/2019/04/01/vicente-gaos-esquecei/): Esquece, homem… Esquece que és cinzase em cinzas te tornarás. Esquece esta quarta-feirae o in pulvis reverteris. Pois embora sejas cinza e pó,há vida, amor, beleza ao redor. É verdade: beleza, amor, vida,fugazes flores de um dia. Mas flores, sim. Enquanto durara magia verdadeira de seu perfume, esquece o pó e a morte.É melhor não lembrar […]
- [Helena Zelic - Bem-vinda](https://singularidadepoetica.art/2019/03/31/helena-zelic-bem-vinda/): em uma casa desconhecidaé preciso observar os movimentos das coisas: o gás se vem da rua ou botijãoas árduas relações entre tomadas e eletrodomésticosbotões de liga e desligaa política da limpezase toda sujeira é política.as cores das chaves, as trancas trocadasencaixar, tirar e encaixar de novona busca do que é espontâneo.entrar na casa como se […]
- [Eugénio de Andrade - Fim de tarde em S Lázaro](https://singularidadepoetica.art/2019/03/30/eugenio-de-andrade-fim-de-tarde-em-s-lazaro/): Estou sozinho. Nas estantes, restos da minha vida. É quase noite sobre os telhados. No livro abandonado nas mãos corre um rio: à deriva duas ou três coisas que foram minhas: um punhado de amoras, a porosa delícia do barro, essas nuvens, essas aves num céu branco de trigo, um sorriso que também era um […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Mal de ausência](https://singularidadepoetica.art/2019/03/29/luis-alberto-de-cuenca-mal-de-ausencia/): Desde que partiste, não sabes como devagar passa o tempo em Madrid. Vi um filme que terminou apenas há um século. Não sabes que lento corre o mundo sem ti, noiva distante. Os amigos pedem-me que volte a ser o mesmo que o coração apodrece de tanta melancolia, que a tua ausência não vale tanta […]
- [Francisco Brines - Última declaração de amor](https://singularidadepoetica.art/2019/03/28/francisco-brines-ultima-declaracao-de-amor/): Oh Vida, que tudo me deste. Agora já sei que, sendo isto verdade, nada me deste. Mas deixa-me olhar-te ainda com amor, mesmo que eu já não mais deseje abraçar-te. E embora saibas que eu não te abandono podes tu abandonar-me. Trad.: Nelson Santander Última declaración de amor Oh Vida, que todo me lo has […]
- [José Fernando Guedes - Os pássaros cantam forte](https://singularidadepoetica.art/2019/03/27/jose-fernando-guedes-os-passaros-cantam-forte/): Os pássaros cantam forte, um poema de José Fernando Guedes
- [Giuseppe Ungaretti - Sou uma criatura](https://singularidadepoetica.art/2019/03/26/giuseppe-ungaretti-sou-uma-criatura-poema/): Valloncello di Cima Quattro, 5 de agosto de 1916 Como esta pedra de S. Michele tão fria tão dura tão seca tão indiferente tão completamente sem ânimo Como esta pedra é meu pranto que não se vê A morte se expia vivendo Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sono una creatura Valloncello di Cima […]
- [Raymond Carver - Esta manhã](https://singularidadepoetica.art/2019/03/25/raymond-carver-esta-manha/): Esta manhã foi especial. Um pouco de neve cobria o chão. O sol flutuava num claro céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado, até onde o olho podia enxergar. Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti e saí para caminhar – decidido a não voltar até receber o que a Natureza tivesse a oferecer. […]
- [Paulo Henriques Britto - Da irresolução](https://singularidadepoetica.art/2019/03/24/paulo-henriques-britto-da-irresolucao/): Por não se estar preparadoperde-se a vida inteira.A preparação, porém,pra ser completa e certeira, exigiria no mínimouma existência e meia.Compreende-se, portanto,aquele que titubeia ao se ver face a facecom tamanho compromissoe termina decidindoviver mesmo de improviso.
- [Joan Margarit - Helena](https://singularidadepoetica.art/2019/03/23/joan-margarit-helena/): O ontem é teu inferno. É cada instanteem que, sem sabê-lo, te perdestee também cada instante em que foste salvo.Quando o jovem que foste está muito distante,o amor é vingança do passado.Vens de uma guerra em que foste vencido,de armas e acampamentos abandonadosna Troia que levas dentro de ti.Buscar-te-ão de noite os aqueose estreitarão o […]
- [Manuel António Pina - Café Orfeu](https://singularidadepoetica.art/2019/03/22/manuel-antonio-pina-cafe-orfeu/): Nunca tinha caído de tamanha altura em mim antes de ter subido às alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorriso como de uma súbita ausência ou como se tivesse lá ficado e outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorriso a minha vida parecia a vida de outra pessoa que fora de mim […]
- [Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave](https://singularidadepoetica.art/2019/03/21/fernando-pinto-do-amaral-por-causa-de-uma-ave/): para a minha mãe Cada vez gosto menos de saborearo travo tão pastoso da morte, o murmúriosecreto dos seus olhos invisíveisdentro de mim. Porém, há pouco tempo,num fim de tarde deste fim de julho,passou-me um episódio que rompeude repente na alma todas as comportasque fingem proteger os ópios tranquilosa que chamamos vida. Aconteceudepois de ter […]
- [Rui Caeiro - Sabem que mais?](https://singularidadepoetica.art/2019/03/20/rui-caeiro-sabem-que-mais/): Sou um homem dado ao álcool e a eternas dúvidas e que na rua ou lá onde seja a todo o momento pode tropeçar ou morrer: voar é que é muito mais improvável Sou um homem de áridas certezas e uma esperança a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas paro escuto e olho […]
- [Diogo Vaz Pinto – Guilty pleasures](https://singularidadepoetica.art/2019/03/19/diogo-vaz-pinto-guilty-pleasures/): No princípio correram ainda uns dias sem que o desencanto desse pela nossa falta. Seja como for, não fomos muito longe. Íamos mais era ao cinema mas aí eu já olhava menos para o lado, apaixonava-me pelas tipas que enchiam o ecrã, para depois, com o sexo aceso e louco por se molhar entre quaisquer […]
- [Vicente Gaos - A vida](https://singularidadepoetica.art/2019/03/18/vicente-gaos-a-vida/): Os ardorosos signos da vidapulsam na atmosfera do verão.O mar respira tal como um varão,como uma criatura enfurecida. Oh gozo e amor, sangue furioso,cósmica vibração de um mundo arcano.Mundo que sinto ao tatear teu crâniofrágil quando nele minha mão pouso. Te amo, sim, te amo, sonho forte,Fecho os olhos e te sinto inteira– Oh luz […]
- [Rui Diniz - O desaguar dos crepúsculos no Ebro](https://singularidadepoetica.art/2019/03/17/rui-diniz-o-desaguar-dos-crepusculos-no-ebro/): Eu estava presente quando o corpo do hernandez deu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamente roxo, evocava os últimos dias da sua vida, quando se demorava o menos possível nos cafés de barcelona, perseguido até por si próprio. De facto a loucura procurava-o lentamente. Durante a noite, em tempo de lua cheia, a […]
- [Ramón de Garciasol - Ávila do Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2019/03/16/ramon-de-garciasol-avila-do-silencio/): Silêncio: cala-me até as raízes, lava minha carne, meu suor de morte, a caspa cotidiana. Quero ver-te, Senhor, em paz, pelo que me dizes sem esta feroz contenda confusa, extinta a chama, pedra pura de eternidade sem fim, viva verdura sem o sal da dor e das cinzas. Silêncio: chove mais. A terra dura está […]
- [Ian Hamilton - Legado](https://singularidadepoetica.art/2019/03/15/ian-hamilton-legado/): Estamos no inverno agora e estou aquecido, Acamado, feliz por ter sobrevivido. Minha mobília Me cerca. Eu posso alcançar meus livros. E você, noite após noite, Até “o fim” Ficará comigo. Entre nós Há lenitivos, esta dor E estes poemas inacabados eu lego a você. Muitas vezes deve ser assim. Escurecemos suavemente enquanto você conta […]
- [Carmen Conde - [Declaro que morreu e que seu túmulo]](https://singularidadepoetica.art/2019/03/14/carmen-conde-declaro-que-morreu-e-que-seu-tumulo/): Declaro que morreu e que seu túmuloestá dentro de mim; sou seu sudário.A ninguém se enterrou porque seu trânsitono tempo foi de loucas esperanças. Circundam o contorno desta cova– quente é a vinha que escala as paredes –os pâmpanos mais tenros e suculentosque arrancam do silêncio seu tumulto. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma […]
- [Mario Benedetti - Currículo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/13/mario-benedetti-curriculo/): A história é muito simplesvocê nascecontempla aturdidoo vermelho-azul do céuo pássaro que emigrao desajeitado besouroque seu sapato esmagarádestemido você sofrereclama por comidae por hábitopor obrigaçãochora isento de culpasexaustoaté que o sonho o desqualifique você amase transfigura e amapor uma eternidade tão efêmeraque até o orgulho se torna ternoe o coração proféticose converte em escombros você […]
- [Nicanor Parra - Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2019/03/12/nicanor-parra-esquecimento/): Juro que não me lembro nem do seu nome,Mas morrerei chamando-a de Maria,Não por mero capricho de poeta,Pela sua aura de praça de província.Que tempos aqueles!, eu, um esquisitão,Ela, jovem pálida e sombria.Ao voltar certa tarde do LiceuSoube de sua morte imerecida,Notícia que me causou tal desalentoQue derramei uma lágrima ao ouvi-la.Uma lágrima, sim, quem […]
- [Luis Alberto de Cuenca - A casa da minha infância](https://singularidadepoetica.art/2019/03/11/luis-alberto-de-cuenca-a-casa-da-minha-infancia/): Fui feliz naquela casa repleta de flores e de livros proibidos. A casa em que tu eras Ginevra nos nossos jogos, e eu era o rei Artur (não havia Lancelote para arruinar tudo). A casa onde foste donzela das minhas ânsias, senhora dos meus suspiros, muralha em meu peito, cofre do meu tesouro, brinde dos […]
- [José Fernando Guedes - Coeso é o tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/10/jose-fernando-guedes-coeso-e-o-tempo/): Coeso é o tempo em cada tênue segundo Que logo se desfaz e se reconstrói Como uma linguagem de gestos que o universo Elabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundo Há suficiente espaço para se fazer o bem ou o mal Porque é assim mesmo que acontece: o mal ou o […]
- [Giuseppe Ungaretti - Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2019/03/09/giuseppe-ungaretti-silencio/): Mariano, 27 de junho de 1916 Conheço uma cidade que cada dia se enche de sol e tudo é arrebatado nessa hora Dela parti uma tarde No coração perdurava o limar das cigarras Do navio laqueado de branco vi minha cidade sumir deixando por um instante no ar toldado um abraço de luzes suspensas Trad.: […]
- [Raymond Carver - A carteira do meu pai](https://singularidadepoetica.art/2019/03/08/raymond-carver-a-carteira-do-meu-pai/): Muito antes de pensar em sua própria morte meu pai dizia que gostaria de descansar perto dos seus pais. Sentia muita falta deles desde que tinham partido. Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse, e eu me lembrasse. Mas quando o ar deixou seus pulmões e todo sinal de vida se extinguiu, […]
- [Francisco Brines - A Piedade do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/07/francisco-brines-a-piedade-do-tempo/): Em que escuro recanto do tempo que morreu vivem ainda, a arder, aqueles coxas? Dão luz ainda a estes olhos tão velhos e enganados, que voltam agora a ser o milagre que foram: desejo de uma carne, e a alegria do que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagem que […]
- [Paulo Henriques Britto - Uma nova teoria de tudo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/06/paulo-henriques-britto-uma-nova-teoria-de-tudo/): Todas as coisas que existem no mundo fazem sentido. Senão não teria sentido elas serem. Ou estarem. Tudo mais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nunca faz parte de sempre, assim como zero é apenas um número entre outros números. Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é […]
- [Rui Chafes](https://singularidadepoetica.art/2019/03/05/rui-chafes/): “Só a forma e o vazio são universais; tudo o resto é pó e cinzas.”
- [Helena Zelic - Dimensões](https://singularidadepoetica.art/2019/03/04/helena-zelic-dimensoes/): “dimensões”, um poema de Helena Zelic que desloca a história e a experiência humana para a vertigem de uma hipótese radical: e se tudo não passar do sonho de outro ser, à margem de um mundo desconhecido?
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - 25 de abril](https://singularidadepoetica.art/2019/03/03/sophia-mello-breyner-andresen-25-de-abril/): Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo
- [Rainer Maria Rilke - Tira-me a luz dos olhos](https://singularidadepoetica.art/2019/03/02/rainer-maria-rilke-tira-me-a-luz-dos-olhos/): Tira-me a luz dos olhos; continuarei a ver-te. Tapa-me os ouvidos; continuarei a ouvir-te. E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti. E, mesmo sem boca, posso chamar por ti. Arranca-me os braços e tocar-te-ei Com o meu coração como com uma mão… Despedaça-me o coração; e o meu cérebro baterá E, mesmo que faças […]
- [Eugénio de Andrade - O Amigo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/01/eugenio-de-andrade-o-amigo/): Não voltará – o que dele me ficou é como no inverno entre cortinas de chuva um tímido fio de sol: ilumina mas não aquece as mãos.
- [Joan Margarit - Esboço para um Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/28/joan-margarit-esboco-para-um-epilogo/): Diante de ti sentes um rumor de passosque vem do futuro, essa torredemolida antes de ser construída.Só existe a dúvida moral: ama,não penses na camada de póa que tanto aludes, ostensivamente,quando dizes: “minha vida”.E, do prestígio das negações,desconfia: a vida representanão só a vitória dos anossobre nós. Também nos ensinaquão gloriosa foinossa primeira inicial sobre […]
- [Israel Zangwill - Um dia, estando entre nós dois o Atlântico...](https://singularidadepoetica.art/2019/02/27/israel-zangwill-um-dia-estando-entre-nos-dois-o-atlantico/): Um dia, estando entre nós dois o Atlântico, senti a tua mão na minha; Agora, tendo a tua mão na minha, sinto entre nós dois o Atlântico. Trad.: Cecília Meireles
- [Manuel António Pina - Numa Estação de Metrô](https://singularidadepoetica.art/2019/02/26/manuel-antonio-pina-numa-estacao-de-metro/): A minha juventude passou e eu não estava lá. Pensava em outra coisa, olhava noutra direção. Os melhores anos da minha vida perdidos por distração! Rosalinda, a das róseas coxas, onde está? Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão? Provavelmente professoras de Alemão em colégios fora do tempo e do espa- ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-ia amado […]
- [Ezra Pound - Metrô](https://singularidadepoetica.art/2019/02/25/ezra-pound-metro/): A visão destas faces dentre a turba: Pétalas num ramo úmido, escuro. Trad.: Augusto de Campos In a station of the metro The apparition of these faces in the crowd; petals on a wet, black bough.
- [Konstantinos Kaváfis – Coisas Ocultas](https://singularidadepoetica.art/2019/02/24/konstantinos-kavafis-coisas-ocultas/): De tudo quanto fiz e quanto disse, não procurem saber quem eu era. Um obstáculo havia e transformou os meus atos e o meu modo de viver. Um obstáculo havia e me deteve cada vez em que eu ia falar. Os mais despercebidos dos meus atos, e, de meus escritos, os mais dissimulados – só […]
- [Rupi Kaur - preliminares](https://singularidadepoetica.art/2019/02/23/rupi-kaur-preliminares/): você envolve meu cabelo com os dedos e puxa é assim que você tira música de mim — preliminares Trad.: Ana Guadalupe You wrap you fingers around my hair and pull this is how you make music out of me — foreplay
- [Bruna Beber - Romance em doze linhas](https://singularidadepoetica.art/2019/02/22/bruna-beber-romance-em-doze-linhas/): quanto falta pra gente se ver hoje quanto falta pra gente se ver logo quanto falta pra gente se ver todo dia quanto falta pra gente se ver pra sempre quanto falta pra gente se ver dia sim dia não quanto falta pra gente se ver às vezes quanto falta pra gente se ver cada […]
- [Sérgio Jockyman - Os votos](https://singularidadepoetica.art/2019/02/21/sergio-jockyman-os-votos/): Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado. E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa. Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e […]
- [Felipe Benítez Reyes - O desenho na água](https://singularidadepoetica.art/2019/02/20/felipe-benitez-reyes-o-desenho-na-agua/): Bem sabes que estes anos passarão,que tudo terminará em literatura:a imagem das noites, as lendasda triunfante juventude e as cidadesvividas como corpos. Que estes anospassarão tu já sabes, pois são teuscomo se possuísses a neve e a neblina,como é do mar a bruma, ou do ara cor da tarde fugidia:pertences de ninguém e do nadasurgidos, […]
- [Nelson Santander - Clint Eastwood](https://singularidadepoetica.art/2019/02/19/nelson-santander-clint-eastwood/): Clint Eastwood, por Nelson Santander
- [Juan Luis Panero - Palavras e presságios](https://singularidadepoetica.art/2019/02/19/juan-luis-panero-palavras-e-pressagios/): Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.Repetir as sílabas, iluminar os símboloscomo cerradas salas, janelas empoeiradasque ocultam um jardim perdido, árvores da morte.Melancolia do regresso e medo do vazio,rangidos de madeira, agitar de sombras,e, de repente, em um quarto, perdidacomo um velho copo ou […]
- [José Fernando Guedes - Adeus meu pai](https://singularidadepoetica.art/2019/02/18/jose-fernando-guedes-adeus-meu-pai/): Continuo a vislumbrar o olhar que meu pai Me lançou, há tantos anos, lá da janela De onde morava. Eu realmente não vi com precisão Esse derradeiro olhar para mim. Era mais como um grito para dentro Que ele lançava. Meu nome talvez. Me acenou e foi o último acenar seu. Nessa despedida que eu […]
- [Raymond Carver - Um passeio](https://singularidadepoetica.art/2019/02/17/raymond-carver-um-passeio/): Saí para caminhar pelos trilhos do trem.Caminhei algum tempo por elese cheguei ao cemitério do povoado,onde um homem descansa entreduas esposas. Emily van der Zee,Mãe e Esposa Amada,está à direita de John van der Zee.Mary, a segunda senhora Van der Zee,também uma Esposa Amada, à sua esquerda.Primeiro Emily se foi, depois Mary.Anos mais tarde, foi […]
- [Ian Hamilton - A Tempestade](https://singularidadepoetica.art/2019/02/16/ian-hamilton-a-tempestade/): Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um ladoDo teu rosto, tua boca contraída, teu assustado.Voltas-te para mim e quando chamo, tu vensE ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tomeTua cabeça entre minhas mãos, como se fosseUma delicada tigela que a […]
- [Francisco Brines - Aquele verão de minha juventude](https://singularidadepoetica.art/2019/02/15/francisco-brines-aquele-verao-de-minha-juventude/): E o que restou daquele distante verãonas costas da Grécia?O que resta em mim do único verão de minha vida?Se pudesse escolher, de todos em que vivi,algum lugar, e o tempo que o ata,sua milagrosa companhia me arrasta até lá,onde ser feliz era a razão natural de existir. Perdura a experiência, como um quarto fechado […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Duas autotraduções"](https://singularidadepoetica.art/2019/02/14/paulo-henriques-britto-de-duas-autotraducoes/): (CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como […]
- [Joan Margarit - Amor e tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/13/joan-margarit-amor-e-tempo/): Lembras quando ainda desconheciasque a vida não teria piedade de ti?Amor e tempo: o tempo nos habitacomo a areia do rio que, lentamente,vai moldando a forma da margem.O amor, que refletiu em teu olharo esplendor da ilha do tesouro.Sensual, solitária, cercadapela sonora senectude do mare os gritos militares das gaivotas.O sonho clandestino dos cinquenta anos. […]
- [Manuel António Pina - As vozes](https://singularidadepoetica.art/2019/02/12/manuel-antonio-pina-as-vozes/): A infância vem pé ante pé sobe as escadas e bate à porta – Quem é? – É a mãe morta – São coisas passadas – Não é ninguém Tantas vozes fora de nós! E se somos nós quem está lá fora e bate à porta? E se nos fomos embora? E se ficamos sós?
- [William Soares dos Santos – A força do desejo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/11/william-soares-dos-santos-a-forca-do-desejo/): A força do desejo se desfaz tão logo se saciam as tensões ferozes do corpo e dos hemisférios e no destino dos braços do tempo os amantes se perdem em mistérios
- [Manuel Vilas - O último Elvis](https://singularidadepoetica.art/2019/02/10/manuel-vilas-o-ultimo-elvis/): Respeita sempre a decadência das mulherese dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amara vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.Respeita todos os sagrados e humildes naufrágiosdos seres humanos. Respeita aqueles que se suicidaram. Respeita aqueles que se […]
- [Walter Savage Landor - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2019/02/09/walter-savage-landor-epitafio-2/): Não lutei com ninguém; nada valia a lida.Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;As mãos, estas aqueci no fogo da vidaQue naufraga; estou pronto para o desate. Trad.: Nelson Santander Walter Savage Landor – Dying Speech of an Old Philosopher I strove with none, for none was worth my strife:Nature I loved, and, next […]
- [Giuseppe Ungaretti - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2019/02/08/giuseppe-ungaretti-in-memoriam/): Locvizza, 30 de setembro de 1916 Chamava-seMoammed Sceab Descendentede emires de nômadessuicidaporque não tinha maisPátria Amou a Françae mudou de nome Foi Marcelmas não era francêse já não sabiaviverna tenda dos seusonde se escuta a cantilenado Alcorãosaboreando um café E não sabiadesataro cantodo seu abandono Acompanhei-ojunto com a dona da pensãoonde vivíamosem Parisdo número 5 […]
- [Raymond Carver - Vocês não sabem o que é o amor (uma noite com Charles Bukowski)](https://singularidadepoetica.art/2019/02/07/raymond-carver-voces-nao-sabem-o-que-e-o-amor-uma-noite-com-charles-bukowski/): Vocês não sabem o que é o amor disse BukowskiEu tenho 51 anos e olhem pra mimestou apaixonado por essa garotaestou louco por ela mas ela também estáentão tudo bem cara é assim que deve serEu entro no sangue delas e elas não conseguem se livrarElas tentam de tudo pra se afastar de mimmas no […]
- [Wilfred Owen - Futilidade](https://singularidadepoetica.art/2019/02/05/wilfred-owen-futilidade/): Coloquem-no à luz do sol… Em casa Seu toque gentil o acordava com a lembrança De campos ainda por plantar… O sol o acordou sempre, até na França, Até chegarem a manhã de hoje e a neve que aí está. Se alguma coisa pode acorda-lo agora, Só o velho sol saberá. Lembrem que também acorda […]
- [Andreia C. Faria - "Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada"](https://singularidadepoetica.art/2019/02/04/andreia-c-faria-tenho-a-pedir-vos-que-nao-reutilizeis-mais-nada/): "Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada", um poema de Andreia C. Faria
- [Adam Zagajewski - Conversa com Friedrich Nietzsche](https://singularidadepoetica.art/2019/02/04/adam-zagajewski-conversa-com-friedrich-nietzsche/): “Conversa com Friedrich Nietzsche”, um poema de Adam Zagajewski que imagina um diálogo com o filósofo alemão para investigar algumas das questões mais profundas da existência humana.
- [Jorge Luis Borges - João 1,14](https://singularidadepoetica.art/2019/02/03/jorge-luis-borges-joao-114/): Não será menos enigmática esta páginaque as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetemas bocas ignorantes,por julgá-las de um homem, não espelhosobscuros do Espírito.Eu que sou o É, o Foi e o Serátorno a condescender com a linguagem,que é tempo sucessivo e emblema.Quem brinca com um menino brinca com algopróximo e misterioso;eu quis […]
- [Ian Hamilton - Despertar](https://singularidadepoetica.art/2019/02/02/ian-hamilton-despertar/): Sua cabeça, tão enferma, repousa junto à minha.Tão sensível. Você não consegue lembrarPor que está aqui, nem reconheceEstas mãos prestativas.Meu amor,O mundo nos encurrala. Estamos perdendo terreno. Trad.: Nelson Santander Awakening Your head, so sick, is leaning against mine,So sensible. You can’t rememberWhy you’re here, nor do you recognizeThese helping hands.My love,The world encircles us. […]
- [Manuel António Pina - Gare du Sud](https://singularidadepoetica.art/2019/02/01/manuel-antonio-pina-gare-du-sud/): Tudo o que temos pertence a outros, desconhecidos de nós, e ainda a outros, e temo-lo como se o perdêssemos ficando uma sombra, a nossa sombra. Estamos longe de casa e essa sombra é a única morada a que podemos acolher-nos. A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante; e se a ouvíssemos […]
- [José María Cumbreño - Identidade](https://singularidadepoetica.art/2019/01/31/jose-maria-cumbreno-identidade/): Durante anos, a roupa que usei foi herdada de meu irmão mais velho.Meu nome me foi dado em homenagem ao meu avô.O primeiro carro que conduzi era de segunda mão.A primeira mulher que me beijou já havia beijado outros.A casa em que habito é alugada.Tudo o que escrevo já foi escrito por alguém há muito […]
- [Billy Collins - As cadeiras em que ninguém se senta](https://singularidadepoetica.art/2019/01/30/billy-collins-as-cadeiras-em-que-ninguem-se-senta/): Vêem-se em varandas e em relvados mesmo à beira do lago, geralmente dispostas em pares indicando que um casal se poderá sentar ali e olhar para a água ou para as grandes árvores frondosas. O problema é que nunca se vê ninguém sentado nessas cadeiras abandonadas embora a dada altura deva ter parecido um bom […]
- [José Luis García Martín - Em algum lugar](https://singularidadepoetica.art/2019/01/29/jose-luis-garcia-martin-em-algum-lugar/): Logo, depois, mais tarde, quando nunca,meus passos se afastaram dos meus passose em algum lugar, não sei se dentro ou fora,ouviu-se uma voz que repetia um nome.Uma voz, apenas um eco, quase nada,talvez a voz do vento entre as árvoresonde árvores sequer existiam.Tremiam os alicerces da terraou seria eu quem tremia naquele instantequando um sol […]
- [Walter de la Mare - Os que ouviam](https://singularidadepoetica.art/2019/01/28/walter-de-la-mare-os-que-ouviam-2/): “Está aí alguém?”, disse o Viajante Batendo à porta de luar; A relva, chão de fetos da floresta, Pôs-se o cavalo a devorar. Sobre a cabeça do Viajante, um pássaro Voou da torre para além. E ele feriu a porta uma outra vez, Dizendo: “Está aí alguém?” Do peitoril da janela, ninguém Desceu até o […]
- [Amalia Bautista – Os meus melhores desejos](https://singularidadepoetica.art/2018/01/07/amalia-bautista-os-meus-melhores-desejos/): Que a vida te pareça suportável.Que a culpa não afogue a esperança.Que não te rendas nunca.Que o caminho que sigas seja sempre escolhidoentre dois pelo menos.Que te interesse a vida tanto como tu a ela.Que não te apanhe o víciode prolongar as despedidas.E que o peso da terra seja levesobre os teus pobres ossos.Que a […]
- [Amalia Bautista – O que fazes aqui](https://singularidadepoetica.art/2018/01/06/amalia-bautista-o-que-fazes-aqui/): Pensei que havia-te dito adeus,um adeus definitivo, ao deitar-mequando pude finalmente fechar meus olhose esquecer-me de ti e de tuas artimanhasde tua insistência, de tua baba ruim,da tua capacidade de anular-me.Pensei que havia-te dito adeuspara todo o sempre, e eu acordoe te encontro novamente junto a mim,dentro de mim, me envolvendo, ao meu lado,invadindo-me, sufocando-me, […]
- [Tomas Tranströmer – Minnena Ser Mig (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/05/tomas-transtromer-duas-traducoes-de-um-mesmo-poema/): Memórias que me Observam Manhã de Junho, cedo demais para acordar, tarde demais para adormecer. Tenho de sair – é densa a folhagem das memórias, perseguem-me com o seu olhar. Não se deixam ver, misturam-se todas com o fundo, verdadeiros camaleões. Tão perto estão que as ouço respirarem aqui onde o canto do pássaro ensurdece. […]
- [João Cabral de Melo Neto - Como a Morte se Infiltra](https://singularidadepoetica.art/2018/01/04/joao-cabral-de-melo-neto-como-a-morte-se-infiltra/): Certo dia, não se levanta porque quer demorar na cama. No outro dia ele diz por que: é porque lhe dói algum pé. No outro dia o que dói é a perna, E nem pode apoiar-se nela. Dia a dia lhe cresce um não, um enrodilhar-se de cão. Dia a dia ele aprende o jeito […]
- [Amalia Bautista – Al Cabo (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/03/amalia-bautista-ao-fim/): No fim de contas No fim de contas são poucas as palavrasque nos doem de verdade, e muito poucasas que conseguem alegrar a alma.E são também muito poucas as pessoasque nos fazem bater o coração, e menosainda com o correr do tempo.No fim de contas, são pouquíssimas as coisasque na verdade importam nesta vida:poder amar […]
- [Vicente de Carvalho – Velho Tema I](https://singularidadepoetica.art/2018/01/02/vicente-de-carvalho-velho-tema-i/): Só a leve esperança, em toda a vida, Disfarça a pena de viver, mais nada; Nem é mais a existência, resumida, Que uma grande esperança malograda. O eterno sonho da alma desterrada Sonho que a traz ansiosa e embevecida, É uma hora feliz, sempre adiada E que não chega nunca em toda a vida. Essa […]
- [Amalia Bautista – Façamos uma limpeza geral](https://singularidadepoetica.art/2018/01/01/amalia-bautista-facamos-uma-limpeza-geral/): Leia "Façamos uma limpeza geral", de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre memória, desapego e a coragem de recomeçar.
- [Carlos Drummond de Andrade - Receita de Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2017/12/31/carlos-drummond-de-andrade-receita-de-ano-novo/): Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das […]
- [Laura Liuzzi - Fio Sem Fim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/30/laura-liuzzi-fio-sem-fim/): Chega-se, enfim, à última página embora deixe claro: não se chega ao fim. Um mesmo fio fino frágil mas firme, da mesma fibra de rio conduz memória e história: storage — está estendido para sempre e para sempre soará, suará a cada renovação do sol, mesmo quando atingirmos o final — mesmo assim não se […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/12/29/alice-ruiz-s/): último dia ainda parece novo o ano que passou
- [Rainer Maria Rilke – Para recitar antes de adormecer](https://singularidadepoetica.art/2017/12/28/rainer-maria-rilke-para-recitar-antes-de-adormecer/): Eu queria cantar para dentro de alguém, sentar-me junto de alguém e estar aí. Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres. Queria ser o único na casa a saber: a noite estava fria. E queria escutar dentro e fora de ti, do mundo, da floresta. Os relógios chamam-se anunciando […]
- [Rainer Maria Rilke – Fonte Romana](https://singularidadepoetica.art/2017/12/27/rainer-maria-rilke-fonte-romana/): Vila Borghese Duas velhas bacias sobrepondo suas bordas de mármore redondo. Do alto a água fluindo, devagar, sobre a água, mais embaixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto, como que só no côncavo da mão, entremostrando um singular objeto: o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia, em […]
- [Adélia Prado – A Treva](https://singularidadepoetica.art/2017/12/26/adelia-prado-a-treva/): Me escolhem os claros do sono engastados na madrugada, a hora do Getsêmani. São cruas claras visões às vezes pacificadas, às vezes o terror puro sem o suporte dos ossos, que o dia pleno me dá. A alma desce aos infernos, a morte tem seu festim. Até que todos despertem e eu mesma possa dormir, […]
- [Anne Sexton – Frágil Fio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/25/anne-sexton-fragil-fio/): Minha fé é um grande peso suspenso por um frágil fio, como a aranha suspende seu bebê em uma fina teia, como a videira, galhos finos e madeira, sustenta as uvas como globos oculares, como muitos anjos dançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisa de muito fio para manter-Se lá, apenas uma veia […]
- [Laura Riding – Uma Gentileza](https://singularidadepoetica.art/2017/12/24/laura-riding-uma-gentileza/): Estar viva é estar curiosa. Quando perder interesse pelas coisas E não estiver mais atenta, álacre Por fatos, acabo este minguado inquérito. A morte é a condição do supremo tédio. Vou deixar que me desintegre E aí, por saber da paz que a morte traz, Seria bom seguir convencendo o destino A ser mais generoso, […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vigília](https://singularidadepoetica.art/2017/12/22/giuseppe-ungaretti-vigilia/): Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915 Toda uma noite em claro caído ao lado de um companheiro massacrado com sua boca arreganhada exposta à lua cheia com o hematoma de suas mãos cravado em meu silêncio escrevi cartas cheias de amor Não tinha nunca estado tão aferrado à vida Trad.: Nelson Ascher
- [Giuseppe Ungaretti – Não gritem mais](https://singularidadepoetica.art/2017/12/21/giuseppe-ungaretti-nao-gritem-mais/): Parem de matar os mortos, Não gritem mais, não gritem Se ouvir ainda os quiserem, Se imperecer ainda esperam. Eles, sussurro imperceptível, Não fazem mais ruído Que o mato quando cresce, Alegre, onde homem não passa. Trad.: Aurora Bernardini
- [Giuseppe Ungaretti – Peso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/20/giuseppe-ungaretti-peso/): Mariano, 29 de junho de 1916 Aquele camponês se fia na medalha de Santo Antonio e segue tranquilo Mas bem só e bem nua sem qualquer miragem carrego minha alma Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Georg Trakl – Ocaso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/19/georg-trakl-ocaso/): A Karl Borromäus Heinrich Por sobre o lago branco Partiram os pássaros selvagens. No crepúsculo sopra de nossas estrelas um vento gelado. Por sobre os nossos túmulos Inclina-se a fronte despedaçada das trevas. Sob carvalhos, balançamos numa barca prateada. Sempre ressoam os muros brancos da cidade. Sob arcos de espinhos Oh, irmão, ponteiros cegos, escalamos […]
- [Georg Trakl – Olhando um velho álbum](https://singularidadepoetica.art/2017/12/18/georg-trakl-olhando-um-velho-album/): Sempre voltas, melancolia, Mansidão da alma solitária. Por fim arde um dia dourado. Com humildade curva-se à dor o paciente Ressoando harmonia e suave loucura. Olha! Já escurece. Volta de novo a noite e um mortal lamenta-se E com ele sofre um outro. Arrepiada sob estrelas de outono, A cabeça mais baixa a cada ano.
- [Federico García Lorca – E Depois...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/17/federico-garcia-lorca-e-depois/): Os labirintos que criam o tempo se desvanecem. (Só fica o deserto.) O coração, fonte do desejo, se desvanece. (Só fica o deserto) A ilusão da aurora e os beijos se desvanecem. Só fica o deserto. Um ondulado deserto. Conheça outros livros de Federico García Lorca clicando aqui
- [Eugénio de Andrade – Adágio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/16/eugenio-de-andrade-adagio/): O Outono é isto – apodrecer de um fruto entre folhas esquecido. Água escorrendo, quem sabe donde, ocasional e fria e sem sentido.
- [José Saramago – É tão fundo o silêncio...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/15/3933-2/): É tão fundo o silêncio entre as estrelas. Nem o som da palavra se propaga, Nem o canto das aves milagrosas. Mas lá, entre as estrelas, onde somos Um astro recriado, é que se ouve O íntimo rumor que abre as rosas.
- [José Saramago – Diz tu por mim, silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/14/jose-saramago-diz-tu-por-mim-silencio/): Não era hoje um dia de palavras, Intenções de poemas ou discursos, Nem qualquer dos caminhos era nosso. A definir-nos bastava um acto só, E já que nas palavras me não salvo, Diz tu por mim, silêncio, o que não posso. Conheça outros livros de José Saramago clicando aqui
- [José Saramago – As Palavras de Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/12/13/jose-saramago-as-palavras-de-amor/): Esqueçamos as palavras, as palavras: As ternas, caprichosas, violentas, As suaves de mel, as obscenas, As de febre, as famintas e sedentas. Deixemos que o silêncio dê sentido Ao pulsar do meu sangue no teu ventre: Que palavra ou discurso poderia Dizer amar na língua da semente?
- [Ronaldo Costa Fernandes – Férias](https://singularidadepoetica.art/2017/12/12/ronaldo-costa-fernandes-ferias/): Aqui, quieto em meu canto sem mexer-me, olhando a luz higiênica do sol, penso na inutilidade cansativa de malas e hotéis para divertir-me nas férias estrangeiras. Não, só preciso da vontade, nem sempre firme, um vento estradeiro, um alarde distante de pássaros e nada além do meu corpo.
- [Dylan Thomas – E a Morte não terá nenhum Domínio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/11/dylan-thomas-e-a-morte-nao-tera-nenhum-dominio/): E a morte não terá nenhum domínio. Nus, os mortos irão se confundir Com o homem no vento e a lua no poente; Quando seus alvos ossos descarnados se tornarem pó, Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos; Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos, Ainda que submersos pelo mar, haverão de ressurgir; Ainda […]
- [Emmanuel Santiago – Lembro-me das Madrugadas](https://singularidadepoetica.art/2017/12/10/emmanuel-santiago-lembro-me-das-madrugadas/): Lembro-me das madrugadas de Minas, quando o frio era vidro moído na carne e, lívido, o orvalho lustrava o gume das estrelas, que luziam no brilho sombrio do céu noturno (negro veludo). Através da neblina, em dança imóvel e milenar, tremulava o vulto oblíquo das montanhas. E aquilo era tudo que eu sabia do horizonte […]
- [Mario Cesariny – Os Pássaros de Londres](https://singularidadepoetica.art/2017/12/09/mario-cesariny-os-passaros-de-londres/): Os pássaros de Londres cantam todo o inverno como se o frio fosse o maior aconchego nos parques arrancados ao trânsito automóvel nas ruas da neve negra sob um céu sempre duro os pássaros de Londres falam de esplendor com que se ergue o estio e a lua se derrama por praças tão sem cor […]
- [Ruy Espinheira Filho – Canção de Depois de Tanto](https://singularidadepoetica.art/2017/12/08/ruy-espinheira-filho-cancao-de-depois-de-tanto/): a Roniwalter Jatobá Vamos beber qualquer coisa, que a vida está um deserto e o coração só me pulsa sombras de Ido e do Incerto. Vamos beber qualquer coisa, que a lua avança no mar e há salobros fantasmas que não quero visitar. Vamos beber […]
- [Ricardo Silvestrin – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/12/07/ricardo-silvestrin-sem-titulo-2/): Lá no horizonte, o ar frio. Mais perto de você, a saudade. Fotografias. Um quadro completo. Vale a pena ver só. A verdade é uma escultura, se você quiser anunciar.
- [Ruy Espinheira Filho – Canção](https://singularidadepoetica.art/2017/12/06/ruy-espinheira-filho-cancao/): Morri de pena de ti porque foi tudo outra história – não a que hoje poderias viver em minha memória. Coisas da vida. Outro conto se contou então. E, enfim, vejo que foste feliz. Morro de pena de mim.
- [Hilda Hilst – Poemas aos homens do nosso tempo III](https://singularidadepoetica.art/2017/12/05/hilda-hilst-poemas-aos-homens-do-nosso-tempo-iii/): homenagem a Natalia Gorbanievskaya Sobre o vosso jazigo — Homem político — Nem compaixão, nem flores. Apenas o escuro grito Dos homens. Sobre os vossos filhos — Homem político — A desventura Do vosso nome. E enquanto estiverdes À frente da Pátria Sobre nós, a mordaça. E sobre as vossas vidas — Homem político — […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Retrato Malsim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/04/carlos-drummond-de-andrade-o-retrato-malsim/): O inimigo maduro a cada manhã se vai formando no espelho de onde deserta a mocidade. Onde estava ele, talvez escondido em castelos escoceses, em cacheados cabelos de primeira comunhão? Onde, que lentamente grava sua presença por cima de outra, hoje desintegrada? Ah, sim: estava na rigidez das horas de tenência orgulhosa, no morrer em […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Instante](https://singularidadepoetica.art/2017/12/03/sophia-de-mello-breyner-andresen-instante/): Deixai-me limpo O ar dos quartos E liso O branco das paredes Deixai-me com as coisas Fundadas no silêncio
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do Mar](https://singularidadepoetica.art/2017/12/02/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja […]
- [José Paulo Paes - Epitáfio para um banqueiro](https://singularidadepoetica.art/2017/12/01/jose-paulo-paes-epitafio-para-um-banqueiro/): Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [João Cabral de Melo Neto - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/30/joao-cabral-de-melo-neto-a-mesa/): O jornal dobrado sobre a mesa simples; a toalha limpa, a louça branca e fresca como o pão. A laranja verde: tua paisagem sempre, teu ar livre, sol tuas praias; clara e fresca como o pão. A faca que aparou teu lápis gasto; teu primeiro livro cuja capa é branca e fresca como o pão. […]
- [Pós-Tudo (Augusto de Campos) e Postudo (Nelson Santander)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/pos-tudo-augusto-de-campos-e-postudo-nelson-santander-poesia/): Pós-Tudo, poema visual de Augusto de Campos e Postudo, de Nelson Santander, sua paródia atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Carlos Drummond de Andrade - Quero](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/carlos-drummond-de-andrade-quero/): Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. Ouvindo-te dizer: Eu te amo, creio, no momento, que sou amado. No momento anterior e no seguinte, como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Escada](https://singularidadepoetica.art/2017/11/28/carlos-drummond-de-andrade-escada-poema/): Escada, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Guilherme de Almeida - Soneto XXVII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/27/guilherme-de-almeida-soneto-xxvii/): Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto. E assim fazemos, como se com isto pudéssemos varrer nosso passado. Passo, esquecido de teu olhar — coitado! Vais — coitada! — esquecida de que existo: como se nunca tu me houvesses visto, como se eu sempre […]
- [Goethe – Um Igual](https://singularidadepoetica.art/2017/11/21/goethe-um-igual/): Sobre cada monte A calma, Em cada fronde Nem sinal De brisa; calam- -se os pássaros na floresta. Espera! Em breve Descansas em paz. Trad.: André Vallias
- [Angela Lago - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/20/angela-lago-sem-titulo/): a pedra estará aqui daqui a vinte anos quem sabe mais polida embora não se veja ou mais recortada pelo vento a árvore terá crescido com sua sombra nem o céu permanece azul ou cinza rubro dorado negro no entanto tem essa criança que busca colo – que seja um cão que vem ao teu […]
- [Ana Martins Marques - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/19/ana-martins-marques-sem-titulo/): Porque sua camiseta secou ao sol ela tem a cor do sol porque seus cabelos secaram ao vento seus pensamentos têm a velocidade do vento porque você disse “noite” sua boca terá o gosto do mar noturno porque você não conheceu meu avô você me amará menos porque não te conheci quando criança eu te […]
- [Petrarca - Soneto CXXXIII ("O Amor me Assinalou com sua Seta")](https://singularidadepoetica.art/2017/11/18/petrarca-soneto-cxxxiii-o-amor-me-assinalou-com-tua-seta/): O amor me assinalou com sua seta,como a neve ao sol, como a cera ao fogo,como névoa ao vento; e já estou rouco,dama, de humilhar-me, feito um pateta. De teus olhos o golpe mortal veio,contra o qual tempo e espaço nada são;Vêm de ti, e vês como diversão,o sol, o fogo e o vento aos […]
- [Petrarca - Soneto CCLXXII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/17/petrarca-soneto-cclxxii/): A vida foge e não recua um passoE a morte, em grande marcha, vai em frente;As coisas do passado e do presente,Ao futuro reclamam meu espaço. A jornada que nesta vida eu traçoNa espera e na lembrança inutilmente,Por pena de mim mesmo descontenteEste caminho que ora fiz, desfaço. Se à lembrança me vem algum desejoDo […]
- [Lucrécio - Da Natureza das Coisas (de rerum natura) (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/16/lucrecio-da-natureza-das-coisas-de-rerum-natura-excerto/): Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui. Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescem Até que as conhecemos e nomeamos. Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos. Formados dos átomos que caem velozes ou lentos Vejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem; É sólido que a natureza está em nós até […]
- [Federico García Lorca - 1910 (Intermezzo)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/15/federico-garcia-lorca-1910-intermezzo/): “1910 (Intermezzo)”, um poema de Federico García Lorca que revisita o olhar inaugural da infância para revelar, entre imagens oníricas e presságios, o vazio oculto no curso inevitável das coisas.
- [Charles Baudelaire - A Giganta](https://singularidadepoetica.art/2017/11/14/charles-baudelaire-a-giganta/): Pois quando a Natureza, em seu capricho exato, Gerava estranhos seres raros, dia a dia, Uma giganta moça – eis do eu gostaria, Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato. Ver seu corpo florir com a flor de sua alma E crescer livremente em seus terríveis jogos; Ver se não teria no […]
- [Goethe - Pensamentos Noturnos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/13/goethe-pensamentos-noturnos/): Tão belas na rútila luz soberana, Guia do navegante aflito, sem norte (E sem recompensa, divina ou humana), – Tenho dó de vocês, estrelas sem sorte, Sem jamais amar e sem saber do amor! Tangendo, incansáveis, as horas eternas Na ronda do tempo das vastas esferas, Vocês vão cumprindo percursos sem conta. Mas eu, se […]
- [Thomas Hardy - Acaso](https://singularidadepoetica.art/2017/11/12/thomas-hardy-acaso/): Se ao menos do alto me chamasse um deus De ódio, e risse: “Ó homem coisa-dor, Teu sofrimento é o júbilo dos céus, Teu deve-amor é o meu haver-rancor”, Eu me conformaria, indo ao extremo De não dobrar-me, réu de um juiz verdugo, Mas orgulhoso que um poder sumpremo Me obrigasse a gemer sob o […]
- [Giacomo Leopardi - A Noite do Dia de Festa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/11/giacomo-leopardi-a-noite-do-dia-de-festa-poema/): A Noite do Dia de Festa, um poema de Giacomo Leopardi
- [William Carlos Williams - A Árvore sem Folhas](https://singularidadepoetica.art/2017/11/10/william-carlos-williams-a-arvore-sem-folhas/): A cerejeira sem folhas mais alta que o teto deu ano passado muita fruta. Como falar porém de fruta diante desse esqueleto? Embora possa estar vivo não há fruta nele. Por isso derrubem-no e usem a lenha contra este frio cortante. Trad.: José Paulo Paes The bare tree The bare cherry tree higher than […]
- [Ivan Junqueira - No Leito Fundo](https://singularidadepoetica.art/2017/11/09/ivan-junqueira-no-leito-fundo/): No leito fundo em que descansas, em meio às larvas e aos livores, longe do mundo e dos terrores que te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhores que te esqueceram nas andanças, longe das taças e das danças, e dos feéricos rumores; longe das cálidas crianças que ateavam fogo aos […]
- [Ivan Junqueira - de "Três Meditações na Corda Lírica"](https://singularidadepoetica.art/2017/11/08/ivan-junqueira-de-tres-meditacoes-na-corda-lirica/): Only through time time is conquered. T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terra e escuta a voz escura das raízes, do limo primitivo, da limalha fina do que […]
- [Ivan Junqueira - Lição](https://singularidadepoetica.art/2017/11/07/ivan-junqueira-licao/): À beira do claustro o monge se inclina e na pedra aprende o que a pedra ensina: que a vida é nada com a morte por cima, que o tempo apenas este fim lhe adia e que o ser carece de não ser ainda, pois à luz se esquiva do que o purifica: a doce […]
- [Ivan Junqueira - Antes que o Sol se Ponha](https://singularidadepoetica.art/2017/11/06/ivan-junqueira-antes-que-o-sol-se-ponha/): Antes que o sol se ponha e seja tarde, e o azul crepuscular me deite a garra, e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra ou mortalha que o corpo me resguarde; antes que murche a pétala na jarra, e eu cale, para sempre, sem alarde, e tudo o que me coube, por covarde, não […]
- [Attila József - Dois Fragmentos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/05/attila-jozsef-dois-fragmentos/): Igual motor já engatado, mas sem caminho a ser seguido, sou assim, e se fosse mais ousado só diria palavras sem sentido. ***** Quando se escreve um verso, ação diversa nos convém, o mar em vez de firme chão, navio em vez de trem. Quando se escreve em verso, não escrever nos convém. Trad.: Nelson […]
- [José Jorge Letria - Meditação sobre os Poderes](https://singularidadepoetica.art/2017/11/04/jose-jorge-letria-meditacao-sobre-os-poderes/): Rubricavam os decretos, as folhas tristes sobre a mesa dos seus poderes efémeros. Queriam ser reis, czares, tantas coisas, e rodeavam-se de pequenos corvos, palradores e reverentes, dos que repetem: és grande, ninguém te iguala, ninguém. Repartiam entre si os tesouros e as dádivas, murmurando forjadas confidências, não amando ninguém, nada respeitando. Encantavam-se com o […]
- [Haroldo de Campos – Ex/plicação](https://singularidadepoetica.art/2017/11/03/haroldo-de-campos-explicacao/): não há um sentido único num poema quando alguém começa a ex- plicá-lo e chega ao fim en- tão só fica o ex do ponto de partida beco (tente outra vez) sem saída
- [Charles Bukowski - Encurralado](https://singularidadepoetica.art/2017/11/02/charles-bukowski-encurralado/): bem, eles diziam que tudo terminaria assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca da palavra ouvindo os passos na escuridão, volto-me para olhar atrás de mim… ainda não, velho cão… logo em breve. agora eles se sentam falando sobre mim: “sim, acontece, ele já era… é triste…” “ele nunca teve muito, não […]
- [Charles Bukowski - Poema nos meus 43 anos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/01/charles-bukowski-poema-nos-meus-43-anos/): terminar sozinho no túmulo de um quarto sem cigarros nem bebida — careca como uma lâmpada, barrigudo, grisalho, e feliz por ter um quarto. …de manhã eles estão lá fora ganhando dinheiro: juízes, carpinteiros, encanadores , médicos, jornaleiros, guardas, barbeiros, lavadores de carro, dentistas, floristas, garçonetes, cozinheiros, motoristas de táxi… e você se vira para […]
- [Cecilia Meireles - Cântico VI](https://singularidadepoetica.art/2017/10/31/cecilia-meireles-cantico-vi/): Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de […]
- [Ferreira Gullar - Traduzir-se](https://singularidadepoetica.art/2017/10/30/ferreira-gullar-traduzir-se/): Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe […]
- [Orides Fontela - Kant (relido)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/29/orides-fontela-kant-relido/): Duas coisas admiro: a dura lei cobrindo-me e o estrelado céu dentro de mim.
- [Frank O'Hara - Autobiographia Literaria](https://singularidadepoetica.art/2017/10/28/frank-ohara-autobiographia-literaria/): Quando era menino eu brincava sozinho num canto do pátio da escola sem ninguém. Odiava bonecas e odiava jogos, os bichos eram hostis e os pássaros fugiam. Se alguém me procurava eu me escondia atrás de uma árvore e gritava “Sou um órfão.” E olha eu aqui, o centro de toda beleza! escrevendo estes versos! […]
- [Maya Angelou - Ainda assim me Levanto](https://singularidadepoetica.art/2017/10/27/maya-angelou-ainda-assim-me-levanto/): Você pode me inscrever na história Com as mentiras amargas que contar Você pode me arrastar no pó, Ainda assim, como pó, vou me levantar Minha elegância o perturba? Por que você afunda no pesar? Porque eu caminho como se eu tivesse Petróleo jorrando na sala de estar Assim como a lua ou o sol […]
- [Emily Dickinson - Morri pela Beleza](https://singularidadepoetica.art/2017/10/26/emily-dickinson-morri-pela-beleza/): Morri pela Beleza – e assim que no Jazigo Meu Corpo foi fechado, Um outro Morto foi depositado Num Túmulo contíguo – “Por que morreu?” murmurou sua voz. “Pela Beleza” – retruquei – “Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. Nós Somos Irmãos. É uma só lei” – E assim Parentes pela Noite, […]
- [Wislawa Szymborska - O Terrorista, Ele Observa](https://singularidadepoetica.art/2017/10/25/wislawa-szymborska-o-terrorista-ele-observa/): A bomba vai explodir no bar às treze e vinte. Agora são só treze e dezesseis. Alguns ainda terão tempo de entrar; alguns de sair. O terrorista já passou para o outro lado da rua. A distância o livra de todo mal e a vista, bom, é como no cinema: Uma mulher de jaqueta amarela, […]
- [Ana Martins Marques - Penélope (I)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/24/ana-martins-marques-penelope-i/): O que o dia tece, a noite esquece. O que o dia traça, a noite esgarça. De dia, tramas, de noite, traças. De dia, sedas, de noite, perdas. De dia, malhas, de noite, falhas.
- [Ana Martins Marques - Batata Quente](https://singularidadepoetica.art/2017/10/23/ana-martins-marques-batata-quente/): Se eu te entregasse agora o meu amor aceso como ele está, como ele está, pesado, você o trocaria rapidamente de mão, você o guardaria um pouco na esquerda, um pouco na direita, por quanto tempo antes de o passar adiante?
- [Raymond Carver - O que o Médico Disse](https://singularidadepoetica.art/2017/10/22/raymond-carver-o-que-o-medico-disse/): Ele disse não parece bom ele disse parece mau aliás muito mau ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes de parar de contar eu disse fico feliz não ia querer saber que tem mais do que isso lá ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha em bosques […]
- [Raymond Carver – Medo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/21/raymond-carver-medo/): Medo de ver a polícia estacionar à minha porta. Medo de dormir à noite. Medo de não dormir. Medo de que o passado desperte. Medo de que o presente alce voo. Medo do telefone que toca no silêncio da noite. Medo de tempestades elétricas. Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo! Medo de […]
- [Maria Cecilia Brandi – A Dança](https://singularidadepoetica.art/2017/10/20/maria-cecilia-brandi-a-danca/): Se a festa começou às dez e meia e terminou por volta das quatro teve trezentos e trinta minutos e como foram setenta e dois convidados neste meu aniversário de trinta e oito anos tive menos de cinco minutos para conversar com cada um na verdade ainda menos pois poucos chegaram no início e saíram […]
- [Cassiano Ricardo - Depois de Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/19/cassiano-ricardo-depois-de-tudo/): Mas tudo passou tão depressa Não consigo dormir agora. Nunca o silêncio gritou tanto Nas ruas da minha memória. Como agarrar líquido o tempo Que pelos vãos dos dedos flui? Meu coração é hoje um pássaro Pousado na árvore que eu fui.
- [Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer](https://singularidadepoetica.art/2017/10/17/stig-dagerman-a-nossa-necessidade-de-consolo-e-impossivel-de-satisfazer/): Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tampouco me legaram o disfarçado furor do cético, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso […]
- [Pedro Salinas - de "Presságios"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/16/pedro-salinas-de-pressagios/): 41 Estas frases de amor que se repetem tantonão são nunca as mesmas.Todas tem idêntico som,mas uma vida anima cada uma,virgem e só, se é que a percebes.E não te canses nuncade repetir as palavras iguais:sentirás a emoção que sente a almaao ver nascer a estrela primeirae ao ver que ela se multiplica, conforme a […]
- [Pedro Salinas - Não Quero que te Vás](https://singularidadepoetica.art/2017/10/15/pedro-salinas-nao-quero-que-te-vas/): Não quero que te vás,dor, última formade amar. Sinto-me vivoquando me dóis,não em ti, nem aqui,mais longe: na terra, no anode onde tu vens,no amor com elae tudo o que foi.Nessa realidadesubmersa que se negaa si mesma e insisteem nunca ter existido,que foi apenas um pretextoque encontrei para viver.Se tu não me restasses,ó dor irrefutável,até […]
- [Nicanor Parra - Perguntas e Respostas](https://singularidadepoetica.art/2017/10/14/nicanor-parra-perguntas-e-respostas/): então, tu achas que vale a pena assassinar deus se o mundo puder ser salvo? – é claro que vale a pena e vale a pena arriscar a vida por uma ideia que pode resultar falsa? – é claro que vale a pena pergunto se valerá a pena comer siri se vale a pena criar […]
- [Derek Walcott - O Amor Depois do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/10/13/derek-walcott-o-amor-depois-do-amor/): Um dia viráem que, eufórico,você cumprimentará a si próprio chegandoà sua porta, em seu espelhoe cada um dará ao outro um sorriso de boas-vindas, e você dirá, sente-se aqui. Coma.Você amará outra vez o estranho que foi.Sirva vinho. Reparta o pão. Restituao seu coraçãopara ele mesmo, para o estranho que um dia você amou por […]
- [Rainer Maria Rilke - A nós nos cabe andar](https://singularidadepoetica.art/2017/10/12/rainer-maria-rilke-a-nos-nos-cabe-andar/): I.22 A nós, nos cabe andar. Mas o tempo, os seus passos, são mínimos pedaços do que há de ficar. É perda pura tudo o que é pressa; só nos interessa o que sempre dura. Jovem, não há virtude na velocidade e no voo aonde for. Tudo é quietude: escuro e claridade, livro e flor. […]
- [Roger Wolfe - Pálpebra](https://singularidadepoetica.art/2017/10/11/roger-wolfe-palpebra/): Pedro Salinas disse num poema que não quer deixar de sentir a dor da ausência da mulher que ama porque isso é tudo o que dela fica: a dor. Não me recordo das suas palavras exactas. Ele di-lo melhor do que eu. Eram outros tempos. Salinas está morto. A mulher que ele amava também. Em […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/10/10/mia-couto-o-espelho-2/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mario Benedetti - Em Pé](https://singularidadepoetica.art/2017/10/08/mario-benedetti-em-pe/): Continuo em pé por pulsar por costume por não abrir a janela decisiva e olhar de uma vez a insolente morte essa mansa dona da espera continuo em pé por preguiça nas despedidas no fechamento e demolição da memória não é um mérito outros desafiam a claridade o caos ou a tortura continuar em pé […]
- [Octavio Paz - Irmandade](https://singularidadepoetica.art/2017/10/07/octavio-paz-irmandade/): Homenagem a Claudio Ptolomeo Sou homem: duro pouco E é enorme a noite. Mas olho para cima: As estrelas escrevem. Sem entender, compreendo: Também fui escrito E neste mesmo instante Alguém me soletra.
- [Pablo Neruda - De "Cem Sonetos de Amor"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/pablo-neruda-de-cem-sonetos-de-amor/): XII Plena mulher, maçã carnal, lua quente, Espesso aroma de algas, lodo e luz pisados, Que obscura claridade se abre entre tuas colunas? Que antiga noite o homem toca com seus sentidos? Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas, com ar opresso e bruscas tempestades de farinha: amar é um combate de […]
- [Mario Benedetti – Lento mas vem](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/mario-benedetti-lento-mas-vem/): Lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem hoje está mais além das nuvens que escolhe e mais além do trovão e da terra firme demorando-se vem qual flor desconfiada que vigila ao sol sem perguntar-lhe nada iluminando vem as últimas janelas lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem já […]
- [Ferreira Gullar – Digo Sim](https://singularidadepoetica.art/2017/10/03/ferreira-gullar-digo-sim/): Poderia dizer que a vida é bela, e muito, e que a revolução caminha com pés de flor nos campos de meu país, com pés de borracha nas grandes cidades brasileiras e que meu coração é um sol de esperança entre pulmões e nuvens Poderia dizer que meu povo é uma festa só na voz […]
- [Adilia Lopes - Absolver (com algumas coisas de Helberto Hélder)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/25/adilia-lopes-absolver-com-algumas-coisas-de-helberto-helder/): “Mas Maria guardava todas essas coisas, conferindo-as em seu coração” Lc 2,19 Chama-se sexo a uma parte do corpo como se todo o corpo as mãos os pés a cabeça não fossem também sexo o pênis a vagina os testículos as maminhas são frágeis vulneráveis estão expostos à crueldade são flores ou musgos posso estar […]
- [Mário Chamie - Cervo, Servo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/21/mario-chamie-cervo-servo/): 1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas, […]
- [Elizabeth Bishop - A Arte de Perder](https://singularidadepoetica.art/2017/09/20/elizabeth-bishop-a-arte-de-perder/): A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetoides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/09/19/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos-2/): VI Nada de mergulhos. É na superfície que o real, minúsculo plâncton, se trai. Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneira do funcional. E o sofrimento, ai, esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti- nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, […]
- [Bertolt Brecht – Prazeres](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/bertolt-brecht-prazeres/): O primeiro olhar da janela de manhã O velho livro de novo encontrado Rostos animados Neve, o mudar das estações O jornal O cão A dialéctica Tomar duche, nadar Velha música Sapatos cómodos Compreender Música nova Escrever, plantar Viajar, cantar Ser amável. Trad.: Paulo César de Souza
- [Vinícius de Moraes – O Verbo no Infinito](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/vinicius-de-moraes-o-verbo-no-infinito/): Ser criado, gerar-se, transformar O amor em carne e a carne em amor; nascer Respirar, e chorar, e adormecer E se nutrir para poder chorar Para poder nutrir-se; e despertar Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir E começar a amar e então sorrir E então sorrir para poder chorar. E crescer, […]
- [Manuel Bandeira – Renúncia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/17/manuel-bandeira-renuncia/): Chora de manso e no íntimo… Procura Curtir sem queixa o mal que te crucia: O mundo é sem piedade e até riria Da tua inconsolável amargura. Só a dor enobrece e é grande e é pura. Aprende a amá-la que a amarás um dia. Então ela será tua alegria, E será, ela só, tua […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Encontro](https://singularidadepoetica.art/2017/09/16/carlos-drumond-de-andrade-encontro/): Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho. Se a noite me atribui poder de fuga, sinto logo meu pai e nele ponho o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madruga e seu rosto, nem triste nem risonho, é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga suor […]
- [Sylvia Plath - A Redoma de Vidro (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/14/sylvia-plath-a-redoma-de-vidro-excerto/): “Eu vi minha vida estendendo seus galhos em minha frente como a figueira verde da história. Da ponta de cada ramo, como um figo roxo e grande, um maravilhoso futuro acenava e piscava. Um figo era um marido e um lar feliz e filhos, e outro figo era uma famosa poetisa e outro figo era […]
- [Nicanor Parra – Cartas a uma Desconhecida](https://singularidadepoetica.art/2017/09/13/nicanor-parra-cartas-a-uma-desconhecida/): Quando passarem os anos, quando passarem os anos e o ar tenha cavado um fosso entre tua alma e a minha; quando passarem os anos e eu só seja um homem que amou, um ser que se deteve um instante diante de teus lábios, um pobre homem cansado de andar pelos jardins, onde estarás tu? […]
- [Nicanor Parra – Acácias](https://singularidadepoetica.art/2017/09/12/nicanor-parra-acacias/): Passeando anos atrás por uma rua cheia de acácias em flor soube por um amigo bem informado que você tinha acabado de se casar. Respondi que por certo eu não tinha nada a ver com o assunto. Mas apesar de nunca ter amado você – e disso você sabe melhor do que eu – cada […]
- [Louise Glück - Trillium*](https://singularidadepoetica.art/2019/11/20/louise-gluck-trillium/): Quando acordei, estava em uma floresta. A escuridãoparecia natural, o céu entre os pinheirosrepleto de muitas luzes. Eu não sabia nada; eu não podia fazer nada além de olhar.E enquanto observava, todas as luzes do céuse apagaram para formar uma única coisa, um fogoardendo por entre os frescos abetos.Então, não era mais possível olharpara o […]
- [Louise Glück - Matinas (2)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/19/louise-gluck-matinas-2/): Pai inalcançável, quando fomos, pela primeira vez,exilados do paraíso, criasteuma réplica, um lugar em certo sentidodiferente do paraíso,concebido para ensinar uma lição: de outro modo,o mesmo – beleza em ambos os lados, belezasem alternativa – Excetoque não sabíamos qual era a lição. Deixados sozinhos,nos consumimos. Anosde escuridão se seguiram; nos revezávamoscuidando do jardim, as primeiras […]
- [Louise Glück - Matinas* (1)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/18/louise-gluck-matinas-1/): Brilha o sol; perto da caixa de correio, folhasde uma bétula dividida, dobradas, plissadas como barbatanas.Abaixo, hastes ocas de narcisos brancos, Tulipas,Cantatrice**; folhasescuras de violetas selvagens. Noah dizque os depressivos odeiam a primavera, desequilíbrioentre o mundo interior e exterior. Eu defendooutra perspectiva – deprimida, sim, mas de alguma forma apaixonadamenteunida à árvore viva, meu corporealmente […]
- [Louise Glück - A íris selvagem](https://singularidadepoetica.art/2019/11/17/louise-gluck-a-iris-selvagem/): No fim do meu sofrimentohavia uma saída. Ouça-me: aquilo que você chama de morteeu me recordo. Acima, ruídos, ramos de pinheiros se movendo.Depois, nada. O sol fracocintilava sobre a superfície ressequida. É terrível sobrevivercomo consciênciaenterrada na terra escura. E então acabou: aquilo que você teme, sendouma alma e incapazde falar, terminando abruptamente, a terra duracedendo […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "The Wild Iris", de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2019/11/16/nelson-santander-apresentacao-de-the-wild-iris-de-louise-gluck/): Atualizado em 08/10/2020: tive contato com a obra de Louise Glück no ano passado. Como narrado na apresentação que segue, fui tão impactado pela qualidade de seus poemas que me vi na contingência de traduzir, na íntegra, um de seus principais trabalhos – The Wild Iris. E desde então, tenho traduzido diversos outros grandes poemas […]
- [Wendell Berry - Antes do Anoitecer](https://singularidadepoetica.art/2019/11/15/wendell-berry-antes-do-anoitecer/): Da varanda no crepúsculo, observeium martim-pescador selvagem em um vooque ele só poderia estar realizando por deleite. Ele desceu pelo rio, chapinhandocontra o rosto turvo da águacomo uma pedra saltitante, passando rio abaixo até sumir de vista. E aindaeu podia ouvir o chapinharcada vez mais distante à medida que escurecia. Ele voltoupelo mesmo caminho, escuro […]
- [Joseph Stroud - Primeira Canção](https://singularidadepoetica.art/2019/11/14/joseph-stroud-primeira-cancao/): Naquela distante manhã na fazenda de Ruthquando me escondi entre as glicíniase observei os beija-flores. Eu penseique o rubi ou o ouro que reluzia em seus pescoçosfosse o sangue adocicado das flores.Eles mergulhavam seus bicos perfurantesem uma coroa de pétalas até suas cabeçasdesaparecerem. As flores se confundiam com as asas,e a respiração que eu ouviavinha […]
- [Wislawa Szymborska - Adolescente](https://singularidadepoetica.art/2019/11/13/wislawa-szymborska-adolescente/): Eu — adolescente? Se de repente ela me aparecesse aqui, agora, deveria saudá-la como a uma pessoa próxima, mesmo que me pareça estranha e distante? Derramar uma lágrima, beijar a testa somente pelo motivo de termos a mesma data de nascimento? Tanta dessemelhança entre nós que talvez só os ossos sejam os mesmos, o formato […]
- [Joan Margarit - Água-forte](https://singularidadepoetica.art/2019/11/12/joan-margarit-agua-forte/): O granizo metralha as vidraças,as rajadas arrasam as calçadas.E tu e eu aqui, onde o mau temporesume os obstáculos que às vezesnos levam à beira do abismo.Olhos brilhantes de desacertos,mãos queimadas por se salvarem agarradasaos gelados corrimãos do inferno.Que o acaso continue disparandosem razão, como sempre, nas vidraças.Além do amor – desse nosso amor –nada […]
- [Paul Verlaine – Colóquio sentimental](https://singularidadepoetica.art/2019/11/11/paul-verlaine-coloquio-sentimental/): No velho parque frio e abandonado Duas formas passaram lado a lado. Olhos sem vida já, lábios tremendo, Apenas se ouve o que elas vão dizendo. No velho parque frio e abandonado, Dois vultos evocaram o passado. – Lembras-te bem do nosso amor de outrora? – Por que é que hei de lembrar-me disso agora? […]
- [Tarso de Melo – Raiz e minério](https://singularidadepoetica.art/2019/11/10/tarso-de-melo-raiz-e-minerio/): ainda é possível ouvir (mais fundo, mais fundo,você encontra) o som da lama se arrastando por baixodas portas e aos pés do sofá (o que há é o homem,esse bicho) nos vãos da estante e no meio dos livrosnas gavetas da geladeira (que invade a terra procurandooutro homem) na altura do peito e entre os […]
- [Manuel Vilas - Delia's Gone](https://singularidadepoetica.art/2019/11/09/manuel-vilas-delias-gone/): "Delia's Gone", um poema de Manuel Vilas que aborda de forma provocativa e irônica a relação entre amor, abandono e suicídio, evocando figuras como Ian Curtis, Mariano José de Larra e Sylvia Plath para refletir sobre a idealização trágica da morte por amor e o vazio deixado pela perda.
- [Wislawa Szymborska - Bagagem de volta](https://singularidadepoetica.art/2019/11/08/wislawa-szymborska-bagagem-de-volta/): Uma quadra de pequenas tumbas no cemitério. Nós, que vivemos muito, passamos furtivamente, como os ricos passam pelos bairros dos pobres. Aqui jazem a Zosia, o Jacek, o Dominik, prematuramente tirados do sol, da lua, da mudança das estações, das nuvens. Não juntaram muito na bagagem de volta. Fragmentos de vista não muito no plural. […]
- [Ferreira Gullar - Morrer no Rio de Janeiro](https://singularidadepoetica.art/2019/11/07/ferreira-gullar-morrer-no-rio-de-janeiro/): Se for março quando o verão esmerila a grossa luz nas montanhas do Rio teu coração estará funcionando normalmente entre tantas outras coisas que pulsam na manhã ainda que possam de repente enguiçar. Se for março e de manhã as brisas cheirando a maresia quando uma lancha deixa seu rastro de espumas no dorso da […]
- [Joan Margarit - Anos Sessenta](https://singularidadepoetica.art/2019/11/06/joan-margarit-anos-sessenta/): Lento, muito mais lento, tempo meu: falemos sobre o amor mesmo que as rosas tenham que acabar sempre na lixeira. Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro? Sem esperança alguma, críamos em algo, ou, porque era difícil a fé em algo, nunca perdemos a esperança. Restam as bandeiras vermelhas de perigo defronte ao mar bravio. Lembro-me de […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Nos veremos novamente](https://singularidadepoetica.art/2019/11/05/luis-alberto-de-cuenca-nos-veremos-novamente-poema/): Nos veremos novamente onde sempre é de dia e os feios são bonitos e eternamente jovens, onde os poderosos não abusam dos mais fracos e, das árvores, pendem brinquedos e gibis. Nesta morada de luz que não fere os olhos Voltaremos, tu e eu, a dizer-nos bobagens de mãos dadas, contemplando as ondas a morrer […]
- [Jules Laforgue – O silêncio azul](https://singularidadepoetica.art/2019/11/04/jules-laforgue-o-silencio-azul/): Por todo o transcorrido eterno e no vindouro, A Noite universal povoa-se infinita E cegamente em coágulos onde se agita A vida que rabisca em arabescos de ouro. Eis que um daqueles, tão desassistido e só, Junto a seus deuses, artes, erros e mania, Seu lodaçal, miséria e cantos de ironia, Escreve história, grita ao […]
- [Karmelo C. Iribarren - A herança](https://singularidadepoetica.art/2019/11/03/karmelo-c-iribarren-a-heranca/): Ultimamente,quando me vejo no espelho,é meu avô quem me encara,mais que meu pai. Cinquenta anospara começar a entrar na posseda única herança que ele me deixou, e que acabará me matando. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog La herencia […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Dia dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2019/11/02/jorge-valdes-diaz-velez-dia-dos-mortos/): Dia dos mortos, um poema de Jorge Valdés Díaz-Vélez
- [Jaime Gil de Biedma - Canção de aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/11/01/jaime-gil-de-biedma-cancao-de-aniversario/): Porque são já seis anos desde então, porque não há na terra, ainda, nada tão doce quanto um quarto para dois, se for teu e meu; porque até o tempo, esse parente pobre que conheceu dias melhores, parece hoje partidário da felicidade, cantemos, alegria! E, depois, levantemo-nos mais tarde, como no domingo. Que a manhã […]
- [Wislawa Szymborska - Sobre a morte sem exagero](https://singularidadepoetica.art/2019/10/31/wislawa-szymborska-sobre-a-morte-sem-exagero/): Não entende de piadas,de estrelas, de pontes,de tecer, minerar, lavrar a terra,de construir navios e assar bolos. Quando falamos de planos para amanhãintromete sua última palavrasem nada a ver com o assunto. Não sabe sequer as coisasdiretamente ligadas ao seu ofício:nem cavar uma cova,nem fazer um caixão,nem arrumar a desordem que deixa. Ocupada em matar,o […]
- [Ferreira Gullar - Reflexão](https://singularidadepoetica.art/2019/10/30/ferreira-gullar-reflexao/): Está fora de meu alcance o meu fim Sei só até onde sou contemporâneo de mim
- [Joan Margarit - Inverno de 95](https://singularidadepoetica.art/2019/10/29/joan-margarit-inverno-de-95/): Esta carta a escrevo para alguémque está em um barco pelo nortede Tenerife, em cinquenta e sete.Um rapaz que, da amurada,mira o duro poente sobre o mare estuda arquitetura em Barcelona,para onde retorna agora. Aviso-tecom um sinal de alerta: a alegriaque sentes ao deixar teu pai para trásrevela a solidão sob uma luz dourada.Teu pai […]
- [Manuel António Pina - Eugénio de Andrade no seu leito de morte](https://singularidadepoetica.art/2019/10/28/manuel-antonio-pina-eugenio-de-andrade-no-seu-leito-de-morte/): Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um […]
- [Henry Reed – A nomeação das peças](https://singularidadepoetica.art/2019/10/27/henry-reed-nomeacao-das-pecas/): Hoje temos a nomeação das peças. OntemTivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonicaArde como coral em todos os jardins adjacentes,E hoje nós temos a nomeação das peças. Isto é o zarelho móvel inferior. E istoÉ o […]
- [Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Antonio Carlos Santos de Freitas – Infinito particular](https://singularidadepoetica.art/2019/10/26/marisa-monte-arnaldo-antunes-antonio-carlos-santos-de-freitas-infinito-particular/): Eis o melhor e o pior de mim No meu termômetro o meu quilate Vem, cara, me retrate Não é impossível Eu não sou difícil de ler Faça sua parte Eu sou daqui, eu não sou de Marte Vem, cara, me repara Não vê, ‘tá na cara Eu sou porta-bandeira de mim Só não se […]
- [Braulio Tavares - [para mim tanto faz]](https://singularidadepoetica.art/2019/10/25/braulio-tavares-para-mim-tanto-faz/): para mim tanto fazestar alegre ou tristeeu preciso é que o tempo voe,que o tempo viva a gente só lembraque o segundo existequando vê um relógioem contagem regressiva
- [Francisco Alvim – Nada, mas nada mesmo](https://singularidadepoetica.art/2019/10/24/francisco-alvim-nada-mas-nada-mesmo/): Nada, mas nada mesmo tem a menor importância Nem antesNem depoisNem durante
- [Francisco Brines - Métodos de conhecimento](https://singularidadepoetica.art/2019/10/23/francisco-brines-metodos-de-conhecimento/): No cansaço da noite, penetrando a mais sombria canção, recobrei por trás de meus olhos cegos o frágil testemunho de uma cena remota. Recendia o mar, e a aurora era a ladra dos céus; tornava fantasmagóricas as luzes da casa. Os comensais eram jovens, e fartos e sem sede, no naufrágio do banquete, buscavam a […]
- [João Cabral de Melo Neto - Uma faca só lâmina](https://singularidadepoetica.art/2019/10/22/joao-cabral-de-melo-neto-uma-faca-so-lamina/): Assim como uma balaenterrada no corpo,fazendo mais espessoum dos lados do morto; assim como uma balado chumbo pesado,no músculo de um homempesando-o mais de um lado qual bala que tivesseum vivo mecanismo,bala que possuísseum coração ativo igual ao de um relógiosubmerso em algum corpo,ao de um relógio vivoe também revoltoso, relógio que tivesseo gume de […]
- [António Ramos Rosa - O jardim](https://singularidadepoetica.art/2019/10/21/antonio-ramos-rosa-o-jardim/): Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Anúncio de pedra](https://singularidadepoetica.art/2019/10/20/hans-magnus-enzensberger-anuncio-de-pedra/): Perdem-se o cabelo, os nervos, vocês entendem, o tempo precioso, perde-se altura no posto perdido, brilho, sinto muito, não faz mal, por pontos, não me interrompam, perde-se sangue, pai e mãe, o coração perdido de Heidelberg, sem pestanejar perdem-se, de novo, os encantos da novidade, passe-se um esponja, os direitos civis, oh sim, a cabeça, […]
- [Wislawa Szymborska - Visto do alto](https://singularidadepoetica.art/2019/10/19/wislawa-szymborska-visto-do-alto/): Um besouro morto num caminho campestre. Três pares de perninhas dobradas sobre o ventre. Ao invés da desordem da morte – ordem e limpeza. O horror da cena é moderado, o âmbito estritamente local, da tiririca à menta. A tristeza não se transmite. O céu está azul. Para nosso sossego, os animais não falecem, morrem […]
- [José Paulo Paes - Dúvida](https://singularidadepoetica.art/2019/10/18/jose-paulo-paes-duvida/): Não há nada mais triste do que um cão em guarda ao cadáver do seu dono. Eu não tenho cão. Será que ainda estou vivo? data da última gravação: 8/10/98, 17h09 Na “Apresentação” de Socráticas – obra da qual foi extraído o poema acima – Alfredo Bosi esclarece: As Socráticas, publicadas postumamente, soam como um […]
- [Ferreira Gullar - Lições de um gato siamês](https://singularidadepoetica.art/2019/10/17/ferreira-gullar-licoes-de-um-gato-siames/): Só agora sei que existe a eternidade: é a duração finita da minha precariedade O tempo fora de mim é relativo mas não o tempo vivo: esse é eterno porque afetivo — dura eternamente enquanto vivo E como não vivo além do que vivo não é tempo relativo: dura em si mesmo eterno (e transitivo)
- [Joan Margarit - Piscina](https://singularidadepoetica.art/2019/10/16/joan-margarit-piscina/): Não temia a água, mas a ti,era teu medo o que eu temia,e o lugar mais profundo,em que não se veem os azulejos do fundo.Arrastaste-me até lá, lembro aindaa força de teus braços obrigando-me,enquanto tentava abraçar-me a ti.Não aprendi a nadar até muito tempo depois,e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.Agora que já nunca voltarás a […]
- [Manuel António Pina - Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte](https://singularidadepoetica.art/2019/10/15/manuel-antonio-pina-carta-a-mario-cesariny-no-dia-da-sua-morte/): Hoje soube-se uma coisa extraordinária, que morreste. Talvez já to tenham dito, embora o caso verdadeiramente não te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo. Algo, de fato, deve ter acontecido porque nada acontece, a não ser o costume, amor e estrume; quanto ao resto tudo prossegue de acordo com o Plano. Há apenas agora […]
- [Paulo Henriques Britto - O aqualouco](https://singularidadepoetica.art/2019/10/14/paulo-henriques-britto-o-aqualouco/): A verdadeira diferençasó se sente depois do frio.Antes é só um salto, um mergulho imprudente,como se eternidade fosse água gelada,como se o nada não fosse mais que um rio. Depois somem as palavras fáceis(“eternidade” etc.; v. acima),fica só o fundamental:o vômito, o medo, o adeus,a vontade de assassinar todos os recém-nascidosdo Egito, como se alguém […]
- [Chacal - como era bom](https://singularidadepoetica.art/2019/10/13/chacal-como-era-bom/): o tempo em que marx explicava que tudo era luta de classes como era simples o tempo em que freud explicava que édipo tudo explicava tudo era clarinho limpinho explicadinho tudo muito mais asséptico do que era quando nasci hoje rodado sambado pirado descobri que é preciso aprender a nascer todo dia
- [Wislawa Szymborska - Autotomia](https://singularidadepoetica.art/2019/10/12/wislawa-szymborska-autotomia/): Em perigo, a holotúria se divide em duas:com uma metade se entrega à voracidade do mundo,com a outra foge. Desintegra-se violentamente em ruína e salvação,em multa e prêmio, no que foi e no que será. No meio do corpo da holotúria se abre um abismocom duas margens subitamente estranhas. Em uma margem a morte, na […]
- [Antonio Colinas - Envio](https://singularidadepoetica.art/2019/10/11/antonio-colinas-envio/): Lembras-te ainda do débil cantodo rouxinol perdido na ramagem?Viste farfalhar comigo naquela noitea copa do cipreste. Desfez-seo céu em fios de luar sobre teu rosto.Mas depois do pássaro e da luaapagaram-se os astros. Vi passarnão sei que brisa estranha pelo teu corpo.Lembras-te das nossas mãos na água?Lembras-te do silêncio sobre o campoe, como um deus exangue, do […]
- [Meira Delmar – Hóspede sem sombra](https://singularidadepoetica.art/2019/10/10/meira-delmar-hospede-sem-sombra/): Nada deixam meus passos sobre a terra. No momento do último passeio hei de levar o que ao nascer me veio: o rosto em paz e o coração em guerra. Nenhuma voz repetirá a minha de saudoso ardor e fiel espanto. A voz estremecida com que canto o mar, a rosa, a melancolia. Não ressuscitará […]
- [Théodore Fraenckel - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2019/10/09/theodore-fraenckel-elegia/): X. não compreendeu ainda como lhe resta pouco tempo de vida. Outrora, os grandes lagos eram a esperança querida de um abrigo. Da infância, o que nos resta é esta visão acadêmica quando, suave, no tom do quadro, leve se sente o esboroar do espírito… Contudo, a vida nem sempre é uma constante aventura. Por […]
- [José Paulo Paes - De malas prontas](https://singularidadepoetica.art/2019/10/08/jose-paulo-paes-de-malas-prontas/): Vários dos seus amigos mortos dão hoje nome a ruas e praças. Ele próprio se sente um pouco póstumo quando conversa com gente jovem. Dos passeios, raros, a melhor parte é a volta para casa. As pessoas lhe parecem barulhentas e vulgares. Ele sabe de antemão tudo quanto possam dizer. Nos sonhos, os dias da […]
- [Ivan Junqueira - Estamos indo embora](https://singularidadepoetica.art/2019/10/07/ivan-junqueira-estamos-indo-embora/): Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia, por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico, os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios, com suas patas de veludo, silenciosas, que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis. Os tapetes abafam seus passos ociosos, como se faz quando se acolhem […]
- [Ferreira Gullar - Fim](https://singularidadepoetica.art/2019/10/06/ferreira-gullar-fim/): Como não havia ninguém na casa aquela terça-feira tudo é suposição: teria tomado seu costumeiro banho de imersão por volta de meio-dia e trinta e de cabelos ainda úmidos deitou-se na cama para descansar não para morrer queria dormir um pouco apenas isso e assim não lhe terá passado pela mente – até aquele último […]
- [Joan Margarit - Alguém](https://singularidadepoetica.art/2019/10/05/joan-margarit-alguem/): Tinha que salvar-me com seus olhos azuis cravados ainda em uma lembrança da adolescência, a estranha fase de precipitar-se, sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo. Do bonde, a fugaz imagem de uma garota em uma varanda, e o número de um telefone anotado como uma cicatriz na memória. Nunca estive a seu lado, inventava […]
- [Wislawa Szymborska - Fotografia de 11 de setembro](https://singularidadepoetica.art/2019/10/04/wislawa-szymborska-fotografia-de-11-de-setembro/): Saltaram dos andares em chamas —um, dois, alguns maisacima, abaixo. A fotografia os susteve em vidae agora os mantémsobre a terra em direção à terra. Cada um ainda é um todocom um rosto próprioe o sangue bem escondido. Há bastante tempopara os cabelos se soltareme dos bolsos caíremchaves, dinheiro trocado. Ainda estão ao alcance do […]
- [Delmore Schwartz - All night, all night](https://singularidadepoetica.art/2019/10/03/delmore-schwartz-all-night-all-night/): I have been one acquainted whit the night – Robert Frost Viajou de trem a noite inteira, sob uma luz agoureira. Uma ave Voou em paralelo com singular determinação. Em ações e anseios de devaneios Os demais passageiros curvados, deitados, lendo, dormindo, Esperando, e esperando um local para se deslocar, Para a correta rota da […]
- [Armando Freitas Filho - Autobiografia até agora](https://singularidadepoetica.art/2019/10/02/armando-freitas-filho-autobiografia-ate-agora/): No Cineac antes da descoberta do Brasil com a mãe a tiracolo vendo o Arqueiro Verde (um Robin Hood de segunda mão) disparando suas flechas morais. Depois, punhetas, colégios, lápis a primeira caneta, poesia, pin-ups futebol, jogo de botão e puteiros: a sessão começa quando você chega. Agora, no escuro, meio Zé Carioca trocando de […]
- [Miguel Martins - [Do lado de fora, tudo parece pouco]](https://singularidadepoetica.art/2019/10/01/miguel-martins-do-lado-de-fora-tudo-parece-pouco/): Do lado de fora, tudo parece pouco. Borborinho. Intemperança. Sono. O rosto não faz prova da memória mas a memória testemunha a evolução do rosto, os pares de óculos que por ali passaram, a fome e o consolo, o medo, a morte de cada beijo, o milagre do seu renascimento e, por fim, o extremo […]
- [Théodore Fraenckel - Meditação do fim de Agosto](https://singularidadepoetica.art/2019/09/30/theodore-fraenckel-meditacao-do-fim-de-agosto/): Mal as árvores se abatem, o que resta da floresta? Resistirá a madeira a ser moldada pelo acréscimo de formas que lhe vem da literatura? E no entanto a natureza nada tem de humano e dela não se pode dizer que prescinde de crescer e se aquieta nos limites de uma forma que a torna […]
- [Henry Scott Holland - [A morte não é nada]](https://singularidadepoetica.art/2019/09/29/henry-scott-holland-a-morte-nao-e-nada/): A morte não é nada*. Ela não conta. Eu apenas passei para a sala vizinha. Nada aconteceu. Tudo permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, e você é você, e a velha vida que vivemos carinhosamente juntos permanece intocada, inalterada. O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda o somos. Chame-me […]
- [José Paulo Paes - Glauco](https://singularidadepoetica.art/2019/09/28/jose-paulo-paes-glauco/): Nas duas vezes que voltei a Curitiba não o encontrei. Numa tinha viajado para o Rio na outra tinha viajado para a morte. E nem havia mais onde encontrá-lo: o Belas Artes fechara a redação de O Dia sumira-se no ar as pensões eram terrenos baldios. Desarvorado me sentei à mesa de uma confeitaria na […]
- [Ruy Belo – Uma vez que já tudo se perdeu](https://singularidadepoetica.art/2019/09/27/ruy-belo-uma-vez-que-ja-tudo-se-perdeu/): Que o medo não te tolha a tua mão Nenhuma ocasião vale o temor Ergue a cabeça dignamente irmão falo-te em nome seja de quem for No princípio de tudo o coração como o fogo alastrava em redor Uma nuvem qualquer toldou então céus de canção promessa e amor Mas tudo é apenas o que […]
- [Mário de Sá-Carneiro – Além-Tédio](https://singularidadepoetica.art/2019/09/26/mario-de-sa-carneiro-alem-tedio/): Nada me expira já, nada me vive – Nem a tristeza nem as horas belas. De as não ter e de nunca vir a tê-las, Fartam-me até as coisas que não tive. Como eu quisera, enfim d’alma esquecida, Dormir em paz num leito de hospital… Cansei dentro de mim, cansei a vida De tanto a […]
- [A. M. Pires Cabral — Confesso que voei](https://singularidadepoetica.art/2019/09/25/a-m-pires-cabral-confesso-que-voei/): 1 Mas, se nestas seis décadas e meia eu fui capaz de algum voo — concedo: semelhante ao das galinhas, isto é, rudimentar, desgracioso, com muitíssimo dispêndio de energia para pouca ascensão, breve e apenas em desespero de causa; em todo o caso uma forma de voo pelo qual me sustentei no ar em horas […]
- [Tristan Corbière - Paisagem má](https://singularidadepoetica.art/2019/09/24/tristan-corbiere-paisagem-ma/): Praias de ossos. A onda estertora Seus dobres, som a som, na areia. Palude pálido. O luar devora Grandes vermes – é a sua ceia. Torpor de peste: somente a febre Coze… O duende danado dorme. A erva que fede vomita a lebre, Bruxa medrosa que se some. A lavadeira branca junta os Trapos surrados […]
- [Ivan Junqueira - O que sabemos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/23/ivan-junqueira-o-que-sabemos/): É quase nada o que sabemos de nós, do que somos, do frêmito que nos empurra, débeis duendes, à cena ambígua da existência. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos moldou à sua esplêndida imagem, se a mão não lhe vemos? Será mesmo que o fez, consciente do risco que estava correndo, da imperdoável […]
- [Goethe - Aos leitores amigos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/22/goethe-aos-leitores-amigos/): Poetas não podem calar-se, Querem às turbas mostrar-se. Há-de haver louvores, censuras! Quem vai confessar-se em prosa? Mas abrimo-nos sub rosa No calmo bosque das Musas. Quanto errei, quanto vivi, Quanto aspirei e sofri, Só flores num ramo – aí estão; E a velhice e a juventude, E o erro e a virtude Ficam bem […]
- [Margaret Atwood - O momento](https://singularidadepoetica.art/2019/09/21/margaret-atwood-o-momento/): O momento em que, depois de muitos anos de trabalho duro e de uma longa jornada, encontras-te no centro do teu quarto, casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país, sabendo por fim como lá chegaste, e dizes: tudo isso me pertence, é o mesmo momento em que as árvores desatam seus braços macios ao teu […]
- [Michael Krüger - À primeira vista](https://singularidadepoetica.art/2019/09/20/michael-kruger-a-primeira-vista/): Na verdade, nada mudou: o castanheiro diante da casa, martirizado pela hera, as ameixeiras sobre o seu tapete azul, o doce perfume da infância e da decadência. Do vale, rugem os caminhões, e a sombra se apressa em redor da casa em sentido anti-horário, perscrutando a dor. Até o poço ainda está lá como um […]
- [Ferreira Gullar - Thereza](https://singularidadepoetica.art/2019/09/19/ferreira-gullar-thereza/): Sem apelo no vórtice do dia no abandono do chão na lâmina da luz feroz fora da vida desfaz-se agora a minha doída desavinda companheira
- [Eugénio de Andrade - Canção Breve](https://singularidadepoetica.art/2019/09/18/eugenio-de-andrade-cancao-breve/): Tudo me prende à terra onde me dei: o rio subitamente adolescente, a luz tropeçando nas esquinas, as areias onde ardi impaciente. Tudo me prende do mesmo triste amor que há em saber que a vida pouco dura, e nela ponho a esperança ou o calor de uns dedos com restos de ternura. Dizem que […]
- [Joan Margarit - De repente está claro](https://singularidadepoetica.art/2019/09/17/joan-margarit-de-repente-esta-claro/): De repente está claro. O amor é a vitória que irá me destruir. Como me gangrena o coração a solidão, como me destroça nas janelas do crepúsculo a hiena desolada e exangue. Na era rubra só o amor nos livra da gélida gruta do tempo. Conheci a glória de estar desesperado e a miséria do […]
- [Manuel António Pina - As escadas](https://singularidadepoetica.art/2019/09/16/manuel-antonio-pina-as-escadas/): Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas em direção à tua escuridão, deixando-me, ou a alguma coisa menos tangível, no seu lugar. Também elas envelheceram, as escadas, também, como eu, desabitadas. Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus, e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras.
- [Francisco Brines - Deitado](https://singularidadepoetica.art/2019/09/15/francisco-brines-deitado/): Chove, e amo. Pulsam, em alongada sombra, duas sombras vivas, sondam o nada, e nele se alimentam. São farrapos de luz, e à sua luz se veem olhos, músculos, cabelos, enquanto a sombra se extingue em mais sombra, e o repouso nos lençóis das fúrias do corpo é a gratidão de quem há de morrer, […]
- [Jaime Gil de Biedma - Valsa de Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/09/14/jaime-gil-de-biedma-valsa-de-aniversario/): Não há nada tão doce como um quarto para dois (quando já não nos amamos tanto) fora da cidade, em um hotel tranquilo, e casais duvidosos e alguma criança com caxumba, não fosse esta ligeira sensação de irrealidade. Algo como o verão na casa de meus pais, há tempos, como viajar de trem à noite. […]
- [Vasco Miranda - de "Invenção da Manhã"](https://singularidadepoetica.art/2019/09/13/vasco-miranda-de-invencao-da-manha/): 20 Olha Jorge quando vier a morte E virá cedo “Não deixes fechar-me os olhos” Eflorescências salitrosas me rebentarão das órbitas Para queimar as mãos que fechar-mos queiram – Não pode a luz negar-se a quem bêbado dela Inventou em cada dia uma madrugada E eis tudo quanto deixo a quem me herde Não Jorge […]
- [Joseph Stroud - A mais difícil tradução do amor](https://singularidadepoetica.art/2019/09/12/joseph-stroud-a-mais-dificil-traducao-do-amor/): “A mais difícil tradução do amor”, um poema de Joseph Stroud que compara o matrimônio a um filme estrangeiro, revelando com humor a ilusão momentânea de compreender plenamente o outro.
- [José Agostinho Baptista - É a prata da minha amada](https://singularidadepoetica.art/2019/09/11/jose-agostinho-baptista-e-a-prata-da-minha-amada/): “É a prata da minha amada”, um poema de José Agostinho Baptista que encena uma despedida crepuscular onde amor e morte se entrelaçam num silêncio maior que o mar.
- [José Paulo Paes - Elogio da Memória](https://singularidadepoetica.art/2019/09/10/jose-paulo-paes-elogio-da-memoria/): O funil da ampulhetaapressa, retardando-a,a quedada areia. Nisso imita o jogomanhosode certos momentosque se vão emboraquando mais queríamosque ficassem. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ruy Belo – Missa de aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/09/09/ruy-belo-missa-de-aniversario/): Há um ano que os teus gestos andam ausentes da nossa freguesia Tu que eras destes campos onde de novo a seara amadurece donde és hoje? Que nome novo tens? Haverá mais singular fim de semana do que um sábado assim que nunca mais tem fim? Que ocupação é agora a tua que tens todo […]
- [Luis Cernuda - Os espinhos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/08/luis-cernuda-os-espinhos/): Possuem já os espinhos verdor novo na colina, toda de púrpura e neve pelo ar estremecida. Quantos céus em flor já viste? Embora ao encontro eles serão sempre devotados, tu não o serás um dia. Antes que a penumbra caia, sabe o que a alegria é junto aos espinhos vermelhos e alvos em flor. Olha. […]
- [Luís de Góngora - Estamos desperdiçando a páscoa, moças](https://singularidadepoetica.art/2019/09/07/luis-de-gongora-estamos-desperdicando-a-pascoa-mocas/): Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Moçoilas do meu distrito, Louquinhas e confiantes, Que não vos engane o tempo, a idade e a confiança. Não deixeis cortejar-vos o frescor da juventude, porque de flores caducas tece o tempo suas grinaldas. Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Voam os velozes […]
- [José Régio – Cântico Negro](https://singularidadepoetica.art/2019/09/06/jose-regio-cantico-negro/): “Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui!” Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali… A minha glória é esta: […]
- [Javier Salvago - No verso de uma velha fotografia](https://singularidadepoetica.art/2019/09/05/javier-salvago-no-verso-de-uma-velha-fotografia/): Os Beatles ainda não tinham surgido, nem haviam abatido Che Guevara. Nat King Cole cantava ansiedad de tenerte en mis brazos ou solamente una vez se entrega el alma. e no cinema talvez exibissem Sete noivas para sete irmãos. O comandante Armstrong ainda não havia deixado sua profana pegada no rosto esburacado da lua. Os […]
- [Ferreira Gullar - Aqui e agora](https://singularidadepoetica.art/2019/09/04/ferreira-gullar-aqui-e-agora/): 1 Que faz a defunta manhã na manhã nova? Que sois vós hoje alegria de outrora riso extinta palavra de afeto? que sois vós senão fantasmas senão miasmas a infectar de morte o que está vivo? 2 Se há sol no pátio e um carro penetra nele e estaciona e o chofer desce bate a […]
- [Eugénio de Andrade - O sal da língua](https://singularidadepoetica.art/2019/09/03/eugenio-de-andrade-o-sal-da-lingua/): Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem […]
- [Joan Margarit - No álbum](https://singularidadepoetica.art/2019/09/02/joan-margarit-no-album/): És tu antes de partir,quando ainda vivias em casa.O olhar brilhante que nos recompensava.Teu nome foi ficando para trás,na foto de onde ainda nos sorriscomo se tudo fosse para sempree nada tivesse acontecido em outro lugar,nem no sorriso que hoje desconhecemos,longe do que teu rosto exibe neste álbum.Este sorriso, agora, é só para nós:convive com […]
- [Manuel António Pina - As Coisas](https://singularidadepoetica.art/2019/09/01/manuel-antonio-pina-as-coisas/): Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certas tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência […]
- [Páladas - da Antologia Palatina, 10.45](https://singularidadepoetica.art/2019/08/31/paladas-da-antologia-palatina-10-45/): Caso te lembres, humano, de como o teu pai ao gerá-lo te semeou, cessarás com toda tua arrogância. Só que Platão sonhador te implantou ilusões de grandeza, ao te chamar de imortal, planta provinda do céu. Vindo do barro, por que pensas grande? Por essa maneira, age somente quem quer dar-se aparência solene. Eis a […]
- [Maria Mercedes Carranza - Kavafiana](https://singularidadepoetica.art/2019/08/30/maria-mercedes-carranza-kavafiana/): O desejo aparece de repente,em qualquer sítio, a propósito de nada.Na cozinha, caminhando pela rua.Basta um olhar, um aceno, um roçar.Mas dois corpostêm também o seu amanhecer e o seu acaso,a sua rotina de amor e de sonhos,de gestos sabidos até ao cansaço.Dispersam-se os risos, deformam-se.Há cinzas nas bocase o íntimo desdém.Dois corpos têm a […]
- [Amalia Bautista - A pesagem do coração](https://singularidadepoetica.art/2019/08/29/amalia-bautista-a-pesagem-do-coracao/): Leia "A pesagem do coração", de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre ética, compaixão e o legado que deixamos após a morte.
- [Jules Laforgue - Penúltima palavra](https://singularidadepoetica.art/2019/08/28/jules-laforgue-penultima-palavra/): O Espaço? – A vida Ida Sem traço. O amor? – Seu preço: Desprezo E dor. O sonho? – Infindo, É lindo (Suponho). Que vou Fazer Do ser Que sou? Isto, Aquilo, Aqui, Ali. Trad.: Augusto de Campos Avant-dernier mot L’Espace? – Mon Coeur Y meurt Sans traces… La Femme? – J’en sors, La […]
- [Tristan Corbière - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2019/08/27/tristan-corbiere-epitafio/): Epitáfio Salvo os amorosos principiantes ou findos que querem principiar pelo fim há tantas coisas que findam pelo princípio que o princípio principia a findar por estar no fim o fim disso é que os amorosos e outros findarão por principiar a reprincipiar por esse princípio que terá findo por não ser mais que o […]
- [Ivan Junqueira - O tempo que me resta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/26/ivan-junqueira-o-tempo-que-me-resta/): Qual o tempo que me resta? Poderei medi-lo em pétalas de alguma flor que fenece, a última da sua espécie? Poderei fazê-lo em décimos de um segundo que parece durar mais do que uma década ou quem sabe todo um século? O que é o tempo? Uma névoa que na ampulheta escorrega, ou algo que […]
- [Jack Kerouac - Richmond Hill Tree Poem](https://singularidadepoetica.art/2019/08/25/jack-kerouac-richmond-hill-tree-poem/): Amontoadas, amarelas folhas de novembro De uma distinta árvore nua e envergonhadamente castrada fazem um minúsculo e manso PLICK ao se roçar umas nas outras preparando-se para morrer – Quando vejo uma folha cair Eu sempre digo adeus. Richmond Hill Tree Poem A cluster of yellow November leaves in an otherwise bare and sheepish castrated […]
- [Amalia Bautista - S.O.S.](https://singularidadepoetica.art/2019/08/24/amalia-bautista-s-o-s/): Protege-me do medo e das sombrasdefende-me de todas as tristezas,exila de minha vida o desconsolo,se puderes, com teu amor, se nãocom o fim do mundo ou com a minha morte. Trad.: Nelson Santander S.O.S Protégeme del miedo y de las sombras,defiéndeme de todas las tristezas,destierra de mi vida el desconsuelo.si puedes, con tu amor, y […]
- [Eugénia de Vasconcellos – Lembra](https://singularidadepoetica.art/2019/08/23/eugenia-de-vasconcellos-lembra/): Digo-te isto para que saibas quem és, às vezes, esquecemos, confundimos, desconseguimos e ao fim, desacreditamos, colam-se-nos os fantasmas dos vivos e as memórias dos mortos e da voz faz-se um fio à míngua de palavras – e onde a palavra não chega, o pensamento não cria o ato e morre-se, morre-se, morre-se um dia […]
- [Tarso de Melo - Hoje](https://singularidadepoetica.art/2019/08/22/tarso-de-melo-hoje/): Amanhã vai chover mais forte, todos nós já sabemos. E é estranha a calma dos rios Os guarda-chuvas seguem fechados, os meteorologistas fingem não ter nada com isso, o barro não demonstra qualquer apreensão, o vento lambe as roupas secas no varal, nenhuma janela ainda se fechou. A água vai vir, forte, como sempre, engolindo […]
- [Danusha Laméris - Pequenas Gentilezas](https://singularidadepoetica.art/2019/08/21/danusha-lameris-pequenas-gentilezas/): Estive pensando na maneira como, quando você caminhapor um corredor lotado, as pessoas recolhem suas pernaspara deixar você passar. Ou como estranhos ainda dizem “Deus te abençoe”quando alguém espirra, um resquícioda Peste Bubônica. “Não morra”, estamos dizendo.E das vezes que, ao derrubar limõesde sua sacola de compras, outra pessoa o ajudaa recolhê-los. Na maioria das […]
- [Leila Guenther - Amuleto](https://singularidadepoetica.art/2019/08/20/leila-guenther-amuleto/): nem trevo de quatro folhas foto de filho, mãe ou marido medalhinha da Virgem lentilha do ano novo passado bilhete de loteria moeda furada origami de pássaro cordão umbilical oração da prosperidade mensagem de biscoito chinês pirâmide de cristal fitinha do senhor do Bonfim folha de arruda caroço de romã olho grego sachê de sal […]
- [Joan Brossa - O tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/08/19/joan-brossa-o-tempo/): Este verso é o presente. O verso que você leu é o passado – já envelheceu depois da leitura. O que resta do poema é o futuro, que existe fora da sua percepção. As palavras estão aqui, se você as leu ou não. E todo o poder terrestre não pode mudar isso. Trad.: Guilherme Gontijo […]
- [Iberê Schvartz - Das beiradas](https://singularidadepoetica.art/2019/08/18/ibere-schvartz-das-beiradas/)
- [Filipa Leal - Estátua da Liberdade](https://singularidadepoetica.art/2019/08/17/filipa-leal-estatua-da-liberdade/): E ali estava – nós a atravessarmos de barco a alegria: o pai ainda de bigode, de chapéu castanho, a mãe de óculos e echarpe, a Marta que em breve seria mãe também mas não sabia que transportava no útero mais um passageiro, o Miguel, pequenino e corajoso, sempre a tentar que os pés não […]
- [Joseph Stroud - Perdido](https://singularidadepoetica.art/2019/08/16/joseph-stroud-perdido/): O cervo se distancia de mim e continua sem pressaao longo da colina sem sequer olhar para trás,para onde estou, e de onde começo a cruzarum campo de neve dentro do meu corpo e me percoenquanto uma cinza branca cai do céu encobrindo meus rastrose não há como encontrar o caminho de volta. Trad.: Nelson […]
- [José Hierro - Réquiem](https://singularidadepoetica.art/2019/08/15/jose-hierro-requiem/): Manuel del Río, naturalda Espanha, faleceu no sábado,onze de maio, em consequênciade um acidente. Seu cadáverestá estendido na funerária D´Agostino. Haskell. Nova Jersey.Uma missa cantada será celebradaàs nove e meia, em St. Francis. É uma história que começacom sol e pedra, e que terminasobre uma mesa, no D’Agostino,com flores e círios elétricos.É uma história que […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O Sagrado](https://singularidadepoetica.art/2019/08/14/luis-alberto-de-cuenca-o-sagrado/): A maquiagem é suspeita, sempre.Tu, recém-saída da cama,sem nada além do teu gloriosocorpo desgastado pelas decepçõese pelos desenganos, mas eretocomo uma árvore ao vento da vidaque arrasta tudo pela frente:essa é minha religião, a únicavisão do sagrado que conheço. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter […]
- [Adelaide Ivánova - sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015](https://singularidadepoetica.art/2019/08/13/adelaide-ivanova-sobre-uma-foto-no-huffington-post-em-01-de-novembro-de-2015/): “Sobre uma foto no Huffington Post, em 01 de novembro de 2015”, um poema de Adelaide Ivanova que confronta a violência extrema contra mulheres com os limites da linguagem, da arte e da ação política.
- [Antonio Cicero - Nênia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-nenia/): A morte nada foi para ele, pois enquanto vivia não havia a morte e, agora que há, ele já não vive. Não temer a morte tornava-lhe a vida mais leve e o dispensava de desejar a imortalidade em vão. Sua vida era infinita, não porque se estendesse indefinidamente no tempo mas porque, como um campo visual, não tinha limite. […]
- [Carlos Pena Filho - A Solidão e sua Porta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-pena-filho-a-solidao-e-sua-porta/): Quando mais nada resistir que valhaa pena de viver e a dor de amare quando nada mais interessar,(nem o torpor do sono que se espalha). Quando pelo desuso da navalhaa barba livremente caminhare até Deus em silêncio se afastardeixando-te sozinho na batalha a arquitetar na sombra a despedidado mundo que te foi contraditório,lembra-te que afinal […]
- [Emily Dickinson - Cemitério](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/emily-dickinson-cemiterio/): Este pó foram damas, cavalheiros, Rapazes e meninas; Foi riso, foi espírito e suspiro, Vestidos, tranças finas. Este lugar foram jardins que abelhas E flores alegraram. Findo o verão, findava o seu destino… E como estes, passaram. Trad.: Manuel Bandeira
- [Robinson Jeffers - The Inhumanist (Parte II de "The Double Axe") (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/robinson-jefferson-the-inhumanist-part-ii-of-the-double-axe/): Chegará um tempo, sem dúvida,Em que também o sol morrerá; os planetas congelarãoe o ar sobre eles; gases congelados, com flocos de arSerão a poeira: que nenhum vento jamais bulirá:essa poeira mesma a cintilar à luz baixa dos astrosÉ o vento morto, o corpo branco do vento. Também a galáxia morrerá; o brilho da Via […]
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-poema/): A PANTERA – trad. Augusto de Campos (No Jardin des Plantes, Paris) De tanto olhar as grades seu olharesmoreceu e nada mais aferra.Como se houvesse só grades na terra:grades, apenas grades para olhar. A onda andante e flexível do seu vultoem círculos concêntricos decresce,dança de força em torno a um ponto ocultono qual um grande […]
- [Ian Curtis - 24 Hours](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/ian-curtis-24-hours/): https://youtu.be/3zo4JdTfDw0 24 Horas Então isso é a permanência – o orgulho despedaçado do amor O que uma vez foi inocência perdeu sua vez Uma nuvem paira sobre mim, marca cada movimento Fundo na memória do que uma vez foi amor Oh, como eu compreendi, como eu queria tempo para Colocar em perspectiva. Tentei tanto encontrar […]
- [Augusto de Campos - o pulsar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-pulsar/)
- [Augusto de Campos - o quasar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-quasar/): Conheça outros livros de Augusto de Campos clicando aqui
- [Augusto de Campos - Tudo Está Dito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tudo-esta-dito/)
- [Augusto de Campos - Morituro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-morituro/)
- [Augusto de Campos - Tour](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tour/)
- [Augusto de Campos - Pó do Cosmos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-po-do-cosmos/)
- [Ferreira Gullar - Voltas Para Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ferreira-gullar-voltas-para-casa/): Depois de um dia inteiro de trabalho voltas para casa, cansado. Já é noite em teu bairro e as mocinhas de calças compridas desceram para a porta após o jantar. Os namorados vão ao cinema. As empregadas surgem das entradas de serviço. Caminhas na calçada escura. Consumiste o dia numa sala fechada, lidando com papéis […]
- [Mario Quintana - Amor Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/mario-quintana-amor-eterno/): Dante se enganou: Paolo e Francesca Continuariam bem juntinhos no Inferno, com pecado e tudo Juntinhos e felizes! Mas quem sabe se não seria este mesmo o castigo divino? Um amor que jamais pudesse terminar…
- [Dante Milano - Ao Tempo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/dante-milano-ao-tempo/): Tempo, vais para trás ou para diante? O passado carrega a minha vida Para trás e eu de mim fiquei distante, Ou existir é uma contínua ida E eu me persigo nunca me alcançando? A hora da despedida é a da partida A um tempo aproximando e distanciando… Sem saber de onde vens e aonde […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Carnaval](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-de-carnaval/): Distante o meu amor, se me afigura O amor como um patético tormento Pensar nele é morrer de desventura Não pensar é matar meu pensamento. Seu mais doce desejo se amargura Todo o instante perdido é um sofrimento Cada beijo lembrado uma tortura Um ciúme do próprio ciumento. E vivemos partindo, ela de mim E […]
- [Horácio - Ode XI, I](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/horacio-ode-xi-i-poema/): não me perguntes — é vedado saber — o fim que a mim e a ti darão os deuses Leucônoe nem babilônios números consultes antes o que for recebe quer te atribua Júpiter muitos invernos quer o último que o mar tirreno debilita com abruptas r o c h a s bebe […]
- [Petrarca - Soneto XXXII](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/petrarca-soneto-xxxii/): Quanto mais perto estou do dia extremo Que o sofrimento humano torna breve, Mais vejo o tempo andar veloz e leve E o que dele esperar falaz e menos. E a mim me digo: Pouco ainda andaremos De amor falando, até que como neve Se dissolva este encargo que a alma teve, Duro e pesado, […]
- [Konstantínos Kaváfis - Míris: Alexandria, 340 d. c.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/konstantinus-kavafis-miris-alexandria-340-d-c/): Quando eu soube da tragédia, que Míris estava morto,fui até sua casa, embora eviteentrar nas casas dos cristãos,principalmente em épocas de luto ou de festividades. Fiquei no corredor. Não quisavançar mais para dentro, porque percebique os parentes do morto me olhavamcom evidente surpresa e desagrado. Tinham-no colocado num cômodo amplodo qual, do ponto onde permaneci,eu […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Traduzido de Kleist](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/sophia-de-mello-breyner-andresen/): Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhanteE brilha sobre campos mais floridosMas os olhos que vêem essas maravilhasSão olhos apodrecidos
- [Antonio Cicero - Sair](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-sair/): Largar o cobertor, a cama, o medo, o terço, o quarto, largar toda simbologia e religião; largar o espírito, largar a alma, abrir a porta principal e sair. Esta é a única vida e contém inimaginável beleza e dor. Já o sol, as cores da terra e o ar azul – o céu do dia […]
- [Antonio Cicero - Perplexidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-perplexidade/): Não sei bem onde foi que me perdi; talvez nem tenha me perdido mesmo, mas como é estranho pensar que isto aqui fosse o meu destino desde o começo.
- [Giuseppe Ungaretti - Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-eterno/): Entre uma flor colhida e o dom de outra o nada inexprimível Trad.: Haroldo de Campos Eterno Tra un fiore colto e l’ altro donato l’ inesprimibile nulla.
- [Giuseppe Ungaretti - De uma Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-de-uma-estrela-a-outra/): Daquela estrela à outra A noite se encarcera Em turbinosa vazia desmesura, Daquela solidão de estrela Àquela solidão de estrela Trad: Haroldo de Campos
- [Salvatore Quasimodo - E de repente é noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite/): Cada um está só no coração da terra traspassado por um raio de sol: e de repente é noite. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Jorge Luis Borges - Limites](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/jorge-luis-borges-limites/): Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar, Há uma rua próxima que está vedada a meus passos, Há um espelho que me viu pela última vez, Há uma porta que fechei até o fim do mundo. Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os) Há algum que já nunca abrirei. Este verão […]
- [Antero de Quental - Divina Comédia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antero-de-quental-divina-comedia/): Erguendo os braços para o Céu distante E apostrofando os deuses invisíveis, Os homens clamam: – «Deuses impassíveis, A quem serve o destino triunfante, Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inextinguíveis, Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis, Num turbilhão cruel e delirante… Pois não era melhor na paz clemente Do […]
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-outrora-e-agora/): De manhã era feliz, quando jovem, E à noite chorava; já hoje, mais velho, Começo meu dia em dúvida, porém Seu fim é para mim sagrado e sereno. Trad.: Antonio Cicero Ehmals und jetzt In jüngern Tagen war ich des Morgens froh, Des Abends weint’ich; jetzt, da ich älter bin, Beginn ich zweifelnd meinen Tag, […]
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-a-brevidade/): “Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora, O canto? Quando jovem, não chegavas, Nos dias de esperança, Nunca ao fim, quando cantavas!” Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebol Banhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está fria E o pássaro da noite esvoaça incomodamente aos olhos teus. […]
- [Rainer Maria Rilke - A Morte do Poeta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/rainer-maria-rilke-a-morte-do-poeta-poema/): Jazia. A sua face, antes intensa, pálida negação no leito frio, desde que o mundo, e tudo o que é presença, dos seus sentidos já vazio, se recolheu à Era da Indiferença. Ninguém jamais podia ter suposto que ele e tudo estivessem conjugados e que tudo, essas sombras, esses prados, essa água mesma eram o […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto do Gato Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-do-gato-morto/): Um gato vivo é qualquer coisa linda Nada existe com mais serenidade Mesmo parado ele caminha ainda As selvas sinuosas da saudade De ter sido feroz. À sua vinda Altas correntes de eletricidade Rompem do ar as lâminas em cinza Numa silenciosa tempestade. Por isso ele está sempre a rir de cada Um de nós, […]
- [Wislawa Szymborska - O primeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/wislawa-szymborska-o-primeiro-amor/): Dizem que o primeiro amor é o mais importante. Isso é muito romântico, mas não é o meu caso. Algo entre nós houve e não houve, se deu e se perdeu. Não me tremem as mãos quando encontro as pequenas lembranças e o maço de cartas atadas com barbante se ao menos fosse uma fita. […]
- [Ian Hamilton - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ian-hamilton-epitafio/): O aroma de rosas velhas e tabaco Faz-me regressar. Há quase vinte anos Que não nos vemos E a nossa desapegada paixão continua. Foi isto que me deixaste: A mão, entreaberta, imóvel Sobre uma colcha verde. O bastante para erguer Alguns poemas melancólicos. Se então eu te houvesse tocado Um de nós podia ter sobrevivido. […]
- [Fernando Pessoa - Poema 165 (Cancioneiro)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/fernando-pessoa-poema-165-cancioneiro/): Tenho tanto sentimento Que é freqüente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a […]
- [Pedro Salinas - Não Te Vejo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/pedro-salinas-nao-te-vejo/): Não te vejo. Bem sei que estás aqui, atrás de uma frágil parede de ladrilhos e cal, bem ao alcance da minha voz, se chamasse. Mas não chamarei. Chamarei amanhã, quando, ao não te ver mais imagine que continuas aqui perto, ao meu lado, e que basta hoje a voz que ontem eu não quis […]
- [William Butler Yeats - Viajando para Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-b-yeats-viajando-para-bizancio-poema/): Aquela não é terra para velhos. Gente jovem, de braços dados, pássaros nas ramas — gerações de mortais — cantando alegremente, salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas, peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente. Ao som da música sensual, o mundo esquece […]
- [W. H. Auden - Blues Fúnebre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-h-auden-blues-funebre/): BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone, jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais, que emudeça o piano e que o tambor sancione a vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço, escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu. Que […]
- [Giuseppe Ungaretti - San Martino del Carso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ungaretti-san-martino-del-carso/): Valloncello dell’Albero Isolato, 27 de agosto de 1916 Destas casas nada sobrou senão alguns pedaços de muro De quantos me foram próximos nada sobrou nem tanto No coração porém nenhuma cruz me falta É o meu coração a região mais destroçada Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – San Martino Del Carso Valloncello dell’Albero Isolato […]
- [Vinicius de Moraes - Poema de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-poema-de-natal/): Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos — Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/cassiano-ricardo-a-graca-triste/): Só me resta agora Esta graça triste De te haver esperado Adormecer primeiro. Ouço agora o rumor Das raízes da noite, Também o das formigas Imensas, numerosas, Que estão, todas, corroendo As rosas e as espigas. Sou um ramo seco Onde duas palavras Gorjeiam. Mais nada. E sei que já não ouves Estas vãs palavras. […]
- [Ezra Pound - Canto LXXXI (fragmentos)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/16/ezra-pound-canto-lxxxi-fragmentos/): O que amas de verdade permanece,o resto é escória.O que amas de verdade não te será arrancadoO que amas de verdade é tua herança verdadeiraMundo de quem, meu ou delesOu não é de ninguém?Veio o visível primeiro, depois o palpávelElísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,O que amas de verdade é tua herança verdadeiraO […]
- [rocío - "não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses..."](https://singularidadepoetica.art/2019/01/27/rocio-nao-e-que-me-sinta-mais-velha-mae-e-que-todos-esses-meses/): não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses todos os dias tendo que ser forte, fico cansada pela manhã, acordo abraçada ao travesseiro e às vezes não sei o que dizer pra mim mesma para levantar de minha pequena e solitária cama em alguns meio-dias, se tomo cerveja, sinto-me um […]
- [Paulo Henriques Britto - À margem do Douro](https://singularidadepoetica.art/2019/01/26/paulo-henriques-britto-a-margem-do-douro/): Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que […]
- [Joan Margarit - Professor Bonaventura Bassegoda](https://singularidadepoetica.art/2019/01/25/joan-margarit-professor-bonaventura-bassegoda/): Recordo-o alto e gordo, atrevido, sentimental. Você, então, era uma autoridade em Alicerces Profundos. Sempre iniciava suas aulas assim: “Senhores, bom dia. Hoje faz tantos anos, tantos meses e tantos dias que minha filha morreu”. E costumava secar algumas lágrimas. Tínhamos vinte anos, mais ou menos, e o homem corpulento que você era, chorando no […]
- [Rui Knopfli – Fim de tarde no café](https://singularidadepoetica.art/2019/01/24/rui-knopfli-fim-de-tarde-no-cafe/): Na tarde cor de azebre falávamos de coisas amargas. Ali, na mesa triste do café com moscas adejando sobre restos de açúcar e um copo de água morna de esquecida, falávamos da amargura das coisas, entre rostos graníticos e enxovalhados, entre estranhos e estranhos de estranhos e os que, nada tendo de estranhos, cuidam de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Os deuses Internos](https://singularidadepoetica.art/2019/01/23/juan-vicente-piqueras-os-deuses-internos/): Os deuses sabem mais e melhor do que nósdo que precisamos. Pedimos-lhes um filho,e nos enviam um lobo, e não os compreendemos. A vida diariamente os esquece.A morte à noite os inventa. E as doenças, como diz o sábio,são deuses que agonizam dentro de nosso corpo,seu último templo em ruínas,seu refúgio sem fé. Imploram compaixão. […]
- [Vladimir Holan - A Neve](https://singularidadepoetica.art/2019/01/22/vladimir-holan-a-neve/): A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvida de que o melhor para o homem é estar sentado na cozinha, ainda que seja a da insônia. Ali faz calor, preparas-te algo, bebes vinho e contemplas pela vidraça a eternidade familiar. Por que te atormentarias querendo saber se nascimento e morte são apenas […]
- [Bruno Darcoleto Malavolta - Epicurus Revisited](https://singularidadepoetica.art/2019/01/21/bruno-darcoleto-malavolta-epicurus-revisited/): disco, agulha, caixas onde ouço os sonhos de coltrane e duke ellington o velho violão em que aprendi os primeiros acordes o novo violão, superior, trincado poemas que li, poemas que escrevi, por todos os lados uma cadeira, uma mesa, um cigarro, um filtro de água o meu corpo cercado por gatos neste exato ponto […]
- [Juan Luis Panero - Mensagem de Antonio a Cleópatra](https://singularidadepoetica.art/2019/01/20/juan-luis-panero-mensagem-de-antonio-a-cleopatra/): Mensagem de Antonio a Cleópatra I Elogiem outros tua adormecida beleza, a suavidade de tua pele em repouso, a medida perfeição de teus membros. Eu não vim para isso, vim somente para te penetrar pela frente e por detrás como um punhal atravessa a água transparente e afunda e se perde no poço sombrio. Mensagem […]
- [José Asunción Silva - Obra Humana](https://singularidadepoetica.art/2019/01/19/jose-asuncion-silva-obra-humana/): No interior da floresta intocada em que, uma noite, no início de maio, tocou a velha ramagem folhada da pálida lua o primeiro raio, poucos meses depois a luz de gás da aurora na estação iluminou o curso da locomotiva audaz que por trilhos duríssimos cruzou. E onde fora certa vez um abrigo, porto seguro […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Desfile](https://singularidadepoetica.art/2019/01/18/carlos-drummond-de-andrade-desfile/): O rosto no travesseiro, escuto o tempo fluindo no mais completo silêncio. Como remédio entornado em camisa de doente; como na penugem de braço de namorada; como vento no cabelo, fluindo: fiquei mais moço. Já não tenho cicatriz. Vejo-me noutra cidade. Sem mar nem derivativo, o corpo era bem pequeno para tanta insubmissão. E tento […]
- [Paul Valéry - Cemitério Marinho](https://singularidadepoetica.art/2019/01/17/paul-valery-cemiterio-marinho/): Ó min’alma não aspires A uma existência imortal, Mas goza plenamente Tudo o que estiver ao teu alcance. Píndaro Píticas III Este teto tranquilo, onde caminham pombas,Palpita entre pinheiros e tumbas;Compõe-lhe de luz o meio dia justoO mar, o mar, sempre recomeçado!Que recompensa após meditaçãoN’um longo olhar sobre a calma dos deuses! Puro lavor de finos lampejos consumaTanto diamante de […]
- [Berta Piñán - Duas Garças](https://singularidadepoetica.art/2019/01/16/berta-pinan-duas-garcas/): Chegaram no sábado. Vimo-las cedo porque nesse dia chegou também o frio e passamos a manhã falando do tempo. São duas, e me pergunto que destino imprevisto as trouxe a esta árvore precisa, a este lugar exato em que o tempo delas cruza, como um sinal confuso, nosso tempo. De tarde falamos sobre elas: “Esta […]
- [Vasco Gato - Eterno Outono](https://singularidadepoetica.art/2019/01/15/vasco-gato-eterno-outono/): Estou com a idade pousada nas mãos. Explico-me com dedicação aos berços fundos onde cada coisa dorme o seu medo de morrer. Há na tristeza um perigo de terminar: o eterno outono parece belo a quem perdeu todas as sementes. Pergunta-se um nome e ninguém responde. Onde fica essa ilha a que só chegamos por […]
- [Nuno Júdice - Poema (Arredores)](https://singularidadepoetica.art/2019/01/14/nuno-judice-poema-arredores/): A brancura dos ossos, em contraste com a terra argilosa, com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar leite, papel, cal, e também as tuas mãos – frias. Bebo o seu brilho numa noturna memória. Uma contaminação de corpos não reduz a minha solidão; nem a música, nem o riso, nem o vinho. Lágrimas […]
- [Helder Moura Pereira - "Eu não tinha nada de felino..."](https://singularidadepoetica.art/2019/01/13/helder-moura-pereira-eu-nao-tinha-nada-de-felino/): Eu não tinha nada de felino, tu sabias que eu não tinha nada de felino. Nenhum de nós se admirou quando medi mal a distância e falhei o salto. Enquanto ia no ar parecia que era um salto bom, porém houve qualquer coisa que correu mal e caí com estrondo no chão. Ninguém riu. Não […]
- [Filipa Leal - Entrevista de Emprego](https://singularidadepoetica.art/2019/01/12/filipa-leal-entrevista-de-emprego/): Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse umaspecto impeditivo,prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro,ao nosso relacionamentoprofissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras,sim,e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menoscuidado com elas,e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as comrespeito,o senhor sabe pontuar […]
- [César Vallejo - Paris, Outubro de 1936](https://singularidadepoetica.art/2019/01/11/cesar-vallejo-paris-outubro-de-1936/): De tudo isto eu sou o único que parte. Deste banco eu me vou, de meus calções, de minha grande situação, de minhas ações, de meu número dividido de lado a lado, de tudo isto eu sou o único que parte. Dos Campos Elísios ou ao dar a volta à estranha viela de la Luna, […]
- [Maria do Rosário Pedreira – Ondas](https://singularidadepoetica.art/2019/01/10/maria-do-rosario-pedreira-ondas/): Dei-te o meu corpo como quem estende um mapa antes de viagem, para que nele descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses os dedos devagar, como fazem as aves quando encontram o verão. Se me tivesses tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços como uma escarpa pronta a desabar, ou uma cidade do litoral a definhar […]
- [Denise Emmer - Da Morte](https://singularidadepoetica.art/2019/01/09/denise-emmer-da-morte/): Os mortos não sobem aos céus nem elevam-se abstratos tornam-se apenas retratos lado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvel austero e silencioso do tio tuberculoso que esquivo me espia. A avó já está fria mas me olha com ternura tece uma colcha escura para as bodas da família, Mortos não sobem trilhas de […]
- [Roger Wolfe - O amor, suponho](https://singularidadepoetica.art/2019/01/08/roger-wolfe-o-amor-suponho/): "O amor, suponho", um poema de Roger Wolfe que reflete sobre a dificuldade de escrever um poema de amor para a própria esposa, associando o amor a raros instantes de felicidade e questionando se vale a pena desperdiçá-los tentando transformá-los em versos.
- [Ian Hamilton - Pai, Morrendo](https://singularidadepoetica.art/2019/01/07/ian-hamilton-pai-morrendo/): Seus dedos, tufos de pelos de cobertor Debaixo das unhas, estendem-se para tocar As rosas ao lado da cama despetalando com o calor. Caem pétalas brancas. Aprisionadas em suas mão Elas escurecem, empapadas em suor, depois enrolam, Desidratam-se e desmoronam. Hora após hora Elas gotejam do ramo. Por fim Ele está limpo e, quando você […]
- [Paulo Henriques Britto - Heraclitus meets Pascal](https://singularidadepoetica.art/2019/01/06/paulo-henriques-britto-heraclitus-meets-pascal/): Ninguém se molha duas vezes na mesma tempestade. Mudam você, a água, nem é o mesmo, na sua mão, o guarda-chuva; muda o motivo pelo qual você houve por bem molhar-se, oferecendo ao temporal – por assim dizer – a outra face; não muda, porém, a consciência de que os sapatos encharcados e a calça […]
- [Manuel António Pina - A Canção dos Adultos](https://singularidadepoetica.art/2019/01/05/manuel-antonio-pina-a-cancao-dos-adultos/): Parece que crescemos mas não.Somos sempre do mesmo tamanho.as coisas que à volta estãoé que mudam de tamanho. Parece que crescemos mas não crescemos.São as coisas grandes que há,o amor que há, a alegria que há,que estão a ficar mais pequenos. Ficam de nós distantesque às vezes já mal os vemos.Por isso parece que crescemose […]
- [Rui Pires Cabral - Recomeço](https://singularidadepoetica.art/2019/01/04/rui-pires-cabral-recomeco/): O primeiro cigarro do dia é na varanda quando faz sol: misteriosamente o terraço do vizinho continua a concentrar a tristeza do bairro inteiro. Mal acordado, juntas as linhas que te permitem perceber quem és, onde estás, o que terás de fazer a seguir. E a angústia que te abraça é a memória mais antiga […]
- [Francisco Brines - Os Verões](https://singularidadepoetica.art/2019/01/03/francisco-brines-os-veroes/): A Carmen Marí Foram longos e ardentes os verões! Ficamos nus juntos ao mar, e o mar ainda mais nu. Com os olhos, e em corpos ágeis, praticamos a mais prazerosa posse do mundo. Soavam para nós as vozes iluminadas de lua, e era a vida abrasadora e violenta, ingratos com o sonho, fluíamos. O […]
- [Abel Silva – O Poço](https://singularidadepoetica.art/2019/01/02/abel-silva-o-poco/): A moeda do Acaso cai tão fundo no Poço dos Destinos que vivemos descolados do viver do outro, como num contrato de comportamento. O milagre do viver nos entorpece. Então a notícia da doença de um amigo, o convite para a missa de um outro, um susto, um alarme, uma suspeita nos vareja no rosto […]
- [Javier Salvago - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2019/01/01/javier-salvago-ano-novo/): Como as coisas não podiam ficar pior – escreveu Kafka, em seu Diário – melhoraram. Como eu gostaria, ante este negro e inóspito horizonte que se abre, diante de mim – como mais um ano, ou como menos um ano -, de poder dizer o mesmo. Mas sinto que ainda não cheguei ao fundo, que […]
- [Manuel António Pina – KM 82](https://singularidadepoetica.art/2018/12/31/manuel-antonio-pina-km-82/): I’m on the highway to hell a 170 à hora no CD, ou então o rádio para sempre sintonizado na final da Taça. Nunca saberás o resultado, Faéton, hey, mumma, look at me, I’m on may way to the promised land e está visto que uma ligação directa não chega para pôr em marcha uma […]
- [The White Buffalo – This Year](https://singularidadepoetica.art/2018/12/31/the-white-buffalo-this-year/): Acho que toda mensagem de “Feliz Ano Novo” se resume à ideia contida na letra desta música: tente melhorar sempre e sempre. Se não der, tente de novo no ano que vem. E no outro. E no outro. Uma hora dá certo. Ou não. Feliz 2019! [wpvideo 7QK0XJOX] The White Buffalo – This Year (Tradução […]
- [Joan Margarit - Canção de Ninar](https://singularidadepoetica.art/2018/12/30/joan-margarit-cancao-de-ninar/): Dorme, Joana. E que este Loverman obscuro e trágico do sax de teu irmão em Montjuïc possa acompanhar-te toda a eternidade pelos caminhos que são bem conhecidos pela música. Dorme, Joana, dorme. E de preferência não esqueças de teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste. Enquanto envelhecemos, conservaremos todas as cores que […]
- [José Mateos - Canção 10](https://singularidadepoetica.art/2018/12/29/jose-mateos-cancao-10/): Canção 10 (Ruínas de Bolonha) Disse o sol do entardecer,aqui, defronte ao mar:Morreré começar a voltar. Trad.: Nelson Santander José Mateos – Canción 10 (Ruinas de Bolonia) Aquí, frente al mar, lo diceel sol del atardecer:Morires empezar a volver.
- [Inês Dias - Um estranho no meu túmulo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/28/ines-dias-um-estranho-no-meu-tumulo/): Chegamos tarde a nós. Eu tinha a pele gasta, o coração no fio. Tu eras um longo muro de cimento areado em que deixava a carne inteira a caminho do encontro. A primavera ficava-nos sempre à esquerda e tu cada vez mais dentro de mim até não sentir nada, até estares já do outro lado. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Procura](https://singularidadepoetica.art/2018/12/27/carlos-drummond-de-andrade-procura/): Procurar sem notícia, nos lugares onde nunca passou; inquirir, gente não, porém textura, chamar à fala muros de nascença, os que não são nem sabem, elementos de uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis, feitos de cimento do impossível, e ao sol-menino opor a antiga busca, e de tal modo revolver a morte que ela […]
- [Táxis Varvitsiótis - Assim também a morte](https://singularidadepoetica.art/2018/12/26/taxis-varvitsiotis-assim-tambem-a-morte/): À memória de Andréa Karandonis Asa ou marfim É tudo espesso Como o ferro e a madeira Como a proa inquebrável De um navio Rumo ao infinito Assim também a morte Espessa impenetrável Como galeria de mina Muro indestrutível Poço sem fundo Carvão aceso Para alcançar-lhe o duro cerne Tons de rasgar O pano entretecidos […]
- [Nuno Júdice - Natal](https://singularidadepoetica.art/2018/12/25/nuno-judice-natal/): Deito-me à sombra da árvore sem sombra – a árvore cujas raízes nascem da infância – e é natal, e nunca mais chega a meia-noite dessa noite sem fim. Rezo pelas mais obscuras incertezas, pelas almas que hesitam nas encruzilhadas, pelos vagabundos que esperam a meia-noite para se sentarem à porta da igreja, na única […]
- [Joan Margarit - Cemitério de Montjuïc](https://singularidadepoetica.art/2018/12/24/joan-margarit-cemiterio-de-montjuic/): Algo permanece das almas, como a brisa que surge depois que alguém passou, e que faz estremecer uma leve cortina na janela. Pelo caminho de pedras ásperas que não esquecem mas calam, severas, o que sabem, o vento deixa um silêncio de lágrimas por vidas como as nossas, perdidas. “Jazigo perpétuo”, a terra sempre dura, […]
- [Amalia Bautista – Noite de São João](https://singularidadepoetica.art/2018/12/23/amalia-bautista-noite-de-sao-joao/): Que queimaremos esta noite, quantasvelhas feridas daremos nós às chamas,de que nos livraremos para não o recordarnem sequer dos piores pesadelos diurnos?Que lançaremos nós ao fogo ou em que fogueiraslimparemos a vida para nos renovarmos,para o tempo que reste, para o que consigamosroubar a tantas mortes?Chega a noite de São João, continuamosvivos e juntos apesar […]
- [Nelson Santander – Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/23/nelson-santander-cinema-paradiso-e-a-visita-cruel-do-tempo/): Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo, uma crônica de Nelson Santander
- [paulo leminski - sossegue coração](https://singularidadepoetica.art/2018/12/22/paulo-leminski-sossegue-coracao/): sossegue coração ainda não é agora a confusão prossegue sonhos afora calma calma logo mais a gente goza perto do osso a carne é mais gostosa
- [Antonio Cicero – Prólogo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/21/antonio-cicero-prologo/): Por onde começar? Pelo começo absoluto, pelo rio Oceano, já que ele é, segundo o poeta cego em cujo canto a terra e o céu escampo e o que é e será e não é mais e longe e perto se abrem para mim, pai das coisas divinas e mortais, seu líquido princípio, fluxo e […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Quando Penso nos Velhos Amigos](https://singularidadepoetica.art/2018/12/20/luis-alberto-de-cuenca-quanto-penso-nos-velhos-amigos/): Quando penso nos velhos amigos que saíram de minha vida, unindo-se a más mulheres que alimentam seu medo e os enchem de filhos para tê-los por perto, controlados e inermes. Quando penso nos velhos amigos que se foram para o país da morte, sem passagem de volta, só porque procuraram o deleite nos corpos e […]
- [Robert Schindel - Réquiem por uma Amizade](https://singularidadepoetica.art/2018/12/19/robert-schindel-requiem-por-uma-amizade/): Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos. E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia O seu eco no coração, morreu o meu hóspede. Um riso, um sapato, o violino de estar aqui Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Espera](https://singularidadepoetica.art/2018/12/18/sophia-de-mello-breyner-andresen-espera/): Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia, No silêncio que apenas quebrava a maré cheia A gritar o seu eterno insulto, Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro.
- [josé luís peixoto - arte poética](https://singularidadepoetica.art/2018/12/16/jose-luis-peixoto-arte-poetica/): o poema não tem mais que o som do seu sentido, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma, poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil […]
- [Ian Hamilton - Poema de Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2018/12/15/ian-hamilton-poema-de-aniversario/): Firme em suas mãos Sua caneca de barbear com a Exposição do Império. Você a conserva agora Como escarradeira, as pombas presunçosas, O 1938 dela Manchados por gotas de seu sangue. Esta noite, Meio sufocado, canceroso, Desiludido, Você bate os dentes contra sua boca dourada de porcelana E espera por um ataque. Trad.: Nelson Santander […]
- [Ivan Junqueira - A tua data](https://singularidadepoetica.art/2018/12/14/ivan-junqueira-a-tua-data/): Alguém só morre em sua data, que é única, ôntica, enfática. Nunca depende de quem vai nem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba, e, se dele a alma se aparta, não cabe a ninguém afirmá-lo, nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas […]
- [Paulo Henriques Britto - Nenhum Mistério](https://singularidadepoetica.art/2018/12/13/paulo-henriques-britto-nenhum-misterio/): I Não chega a ser desespero, mas não por haver esperança. Falta a ênfase, o tempero, o sal da intemperança, sem o qual não é iguaria à altura de grandes gestos. É mais da categoria das migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassa há que se tirar sustância. (Até mesmo na desgraça é pra poucos […]
- [Nuno Júdice - O Eterno Retorno](https://singularidadepoetica.art/2018/12/12/nuno-judice-o-eterno-retorno/): Agora, ao ouvir uma peça de música Barroca, como se isso servisse para alterar A cor do céu ou a cor dos sentimentos, Apercebo-me de que a música é, só, O que ficou de ti. O resto – amor, Corpo, palavras, desejo, um riso – ficou Não sei onde, nem exatamente sei quando: sei só […]
- [Amalia Bautista – Nu de Mulher](https://singularidadepoetica.art/2018/12/11/amalia-bautista-nu-de-mulher/): Para ti nunca passei de um blocode mármore. Esculpiste nele o meu corpo,um corpo de mulher branco e formoso,em que não viste nada a não ser pedrae o orgulho, isso sim, do teu trabalho.Nunca imaginaste que eu te amavae que tremia quando, docemente,me modelavas os seios e os ombros,ou alisavas as coxas e o ventre.Hoje, […]
- [América, Aztecas – O rio passa, passa](https://singularidadepoetica.art/2018/12/10/america-aztecas-o-rio-passa-passa/): O rio passa, passa e nunca cessa. O vento passa, passa e nunca cessa. A vida passa: nunca regressa. Versão: Herberto Helder
- [Ian Hamilton - Memorial](https://singularidadepoetica.art/2018/12/09/ian-hamilton-memorial/): Quatro lápides desgastadas inclinam-se contra a parede do seu hospício Vitoriano. Além dos limites, você se ajoelha na grama alta Decifrando nomes obliterados: Velhos lunáticos que aqui morreram. Trad.: Nelson Santander Ian Hamilton – Memorial Four weathered gravestones tilt against the wall Of your Victorian asylum. Out of bounds, you kneel in the long grass […]
- [Joan Margarit - Tchaicovsky](https://singularidadepoetica.art/2018/12/08/joan-margarit-tchaicovsky/): Não te suicides nunca. Olha a escuridão: nunca poderás saber quem te estende a mão. Lembras-te do inverno de luz nos cristais e a cumplicidade daquela música? Ouço a Patética e me vejo desejando que a morte de Joana nos devolvesse a ordem e a felicidade que acreditamos perder quando ela nasceu. Amor meu, Joana, […]
- [Manuel António Pina - Uma noite com Vladimir](https://singularidadepoetica.art/2018/12/07/manuel-antonio-pina-uma-noite-com-vladimir/): Eu sou mais mortal do que o meu corpo, e as minhas palavras mais mortais do que eu. E o teu silêncio, nenhum leitor, que as minhas palavras avidamente ouvem, mais mortal do que as minhas palavras. Ouvir-me-emos não é a morte o que as palavras procuram? sob tanta terra?
- [José Carlos Soares - Camel Blue](https://singularidadepoetica.art/2018/12/06/jose-carlos-soares-camel-blue/): No pequeno cemitério comovente ninguém, a não ser o latido de algum cão, o canto de um galo vermelho, a tosse de um pequeno deus desempregado. Também pude reparar como saía de uma velha campa abandonada um exército de formigas sob um intenso céu azul que nada respondia.
- [Rui Costa - A Minha Bisavó](https://singularidadepoetica.art/2018/12/05/rui-costa-a-minha-bisavo/): A minha bisavó é um quadro na parede. Roída pela traça, ela sucumbe à dentição do tempo nos seus olhos escuros de discreta bruxa. Um dia a minha bisavó nem quadro há-de ser. Continuará, apesar disso, a beber a água do copo onde lavou as cerejas (fingindo-se distraída) e a arrazoar antes da visita extemporânea […]
- [Rui Pires Cabral - Welcome Break](https://singularidadepoetica.art/2018/12/04/rui-pires-cabral-welcome-break/): Estações de serviço como ilhas de vidro no mar alto dos campos. O acaso governa as estradas e os viajantes que se cruzam despidos da teia do seu passado. Atravesso há horas um país chuvoso: anoiteceu e não se vê ninguém nas aldeias. Contra o seu escuro mistério, estas casas são reais? Nelas nasceu gente […]
- [Eugénio de Andrade – Adeus](https://singularidadepoetica.art/2018/12/03/eugenio-de-andrade-adeus/): Já gastamos as palavras pela rua, meu amor e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silêncio. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas, gastamos as mãos à força de as apertarmos, gastamos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto […]
- [Inês Lourenço – Sala Provisória](https://singularidadepoetica.art/2018/12/02/ines-lourenco-sala-provisoria/): Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez. Numa casa que vai ser demolida, numa sala provisória que vai encerrar, num velho café que mudará de ramo, como página virada jamais reaberta, como canção demasiado gasta, como abraço tornado irrepetível, numa porta a que não voltaremos.
- [Francisco Brines - Sitiado pela Divindade](https://singularidadepoetica.art/2018/12/01/francisco-brines-sitiado-pela-divindade/): Hoje voltas-te para o mar, com o corpo nu como na juventude, e todo o peso de ouro caindo sobre as costas como um interminável falcão que, azul, plana ao largo e pousa no braço, sem emitir sons, e respira. Descubro, com sereno assombro, minha existência, e o mundo então existe – o mar, que […]
- [Luís Falcão – Sabemos que o tempo passou](https://singularidadepoetica.art/2018/11/30/luis-falcao-sabemos-que-o-tempo-passou/): Sabemos que o tempo passou Que alguma coisa deveria ter sido dita (talvez depois, talvez mais tarde) Deixamos atrás de nós Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis E, feridos, Por todas as coisas que poderíamos ter evitado a nós próprios Caminhamos para o silêncio E para a escuridão indefinível dos bosques.
- [Wang Wei – Dedicado a Chang Yin](https://singularidadepoetica.art/2018/11/29/wang-wei-dedicado-a-chang-yin/): Instalar armadilhas e esperar pelas lebres astutas, Lançar uma linha à água e espreitar os peixes, Talvez acalme a boca e a barriga, Mas não é esse o sentido da vida do eremita. Eu amo a tranquilidade, Alimento-me de legumes para me desembaraçar das paixões terrenas Doravante, como tu livre e indiferente Lamento aqueles que […]
- [Halldís Moren Vesaas – Oração à Vida](https://singularidadepoetica.art/2018/11/28/halldis-moren-vesaas-oracao-a-vida/): A vida terrena, única, seja o meu quinhão! Vida minha, tudo o que tenho na tua mão! Toma-me e usa-me e exaure-me nos dias e então me larga alhures, alijada de ti, fria e impotente e condenada a não renascer na noite, na eterna noite sem amanhecer! Trad.: Luciano Dutra BØN TIL LIVET Eitt jordliv, […]
- [Manuel de Freitas – CCB, 2002](https://singularidadepoetica.art/2018/11/27/manuel-de-freitas-ccb-2002/): Abrem-se devagar os túmulos – e entramos neles. É o nosso ofício, talvez o único. Esperamos, anos fartos, o vazio. Não há engano possível, não há regresso. Todas as ilhas devagar nos mentem. Dançava perto de ti, talvez demasiado só, uma estrela d’nada, bo dispidida. Não me digas que não ouviste.
- [José Mateos - Canção 1](https://singularidadepoetica.art/2018/11/26/jose-mateos-cancao-1/): Ainda quase um menino te sentaste a esperar à orla do grande silêncio. Pensavas que estando a sós com tua voz talvez pudesses roubar ao mar seu segredo. Foi-se tua juventude. Mudos passaram os anos e agora estás oco por dentro. Podias, se ao fim soasse a voz do grande silêncio, chegar a cantar seu […]
- [Paulo Henriques Britto - Nenhuma Arte](https://singularidadepoetica.art/2018/11/25/paulo-henriques-britto-nenhuma-arte/): Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, […]
- [Eunice de Souza - Primavera Relutante](https://singularidadepoetica.art/2018/11/24/eunice-de-souza-primavera-relutante/): os corrupiões dourados se foram. as mariquitas estão em silêncio. a última folha vermelha na amendoeira recusa o próprio outono. Trad.: Nelson Santander Reluctant Spring the golden orioles have gone. the warblers are silent. the last red leaf on the almond tree refuses to fall
- [Juan Ramón Jiménez - Com tua Voz](https://singularidadepoetica.art/2018/11/23/juan-ramon-jimenez-com-tua-voz/): Quando eu estiver com as raízes chama-me com tua voz. A mim parecerá que entrou tremendo a luz do sol. Trad.: Nelson Santander Juan Ramón Jiménez – Con tu voz Cuando esté con las raíces llámame tú con tu voz. Me parecerá que entra temblando la luz del sol.
- [André Tecedeiro - de "O Número de Strahler"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/22/andre-tecedeiro-de-o-numero-de-strahler/): nem o poema dá a dimensão da contradição. o tom dizia odeio-te mas o que lhe saía da boca era amo-te. eu sabia que ficar era morte mas o que me dizia era que fugir era morte. a um hematoma eu teria chamado alívio.
- [Yves Bonnefoy – As Árvores](https://singularidadepoetica.art/2018/11/21/yves-bonnefoy-as-arvores/): Olhávamos as árvores, era do alto Do terraço que nos foi caro, o sol Ficava junto a nós mais esta vez ainda Mas retirado, silencioso anfitrião No limiar da casa em ruínas, que deixávamos A seu poder, imensa, iluminada. Vê, dizia-te eu, ele faz deslizar Na pedra desigual, insondável do nosso apoio A sombra do […]
- [Rupi Kaur – Depressão é uma sombra que mora em mim](https://singularidadepoetica.art/2018/11/20/rupi-kaur-depressao-e-uma-sombra-que-mora-em-mim/): ontem quando saí da cama o sol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou fui eu e eu já não sei se isso é vida Trad.: Ana Guadalupe
- [Francisco Brines - O Triunfo do Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/11/19/francisco-brines-o-triunfo-do-amor/): Eu te amei em Queroneia. Vivos estávamos. Entre a tristeza arruinada um sopro mortal: estávamos vivos. Séculos se passaram, e outros olhos contemplam as ruínas, ainda intactas. Quem passou por aqui? Apenas o vazio foi o tecido do tempo nesta planície. Eu te amei em Queroneia. Impalpável era o calor das cinzas humanas, e na […]
- [Nelson Santander - Gene Tierney](https://singularidadepoetica.art/2018/11/18/nelson-santander-gene-tierney/): Gene Tierney, um texto de Nelson Santander
- [Vitorino Nemésio – A Concha](https://singularidadepoetica.art/2018/11/18/vitorino-nemesio-a-concha/): A minha casa é concha. Como os bichos Segreguei-a de mim com paciência: Fachada de marés, a sonho e lixos, O horto e os muros só areia e ausência. Minha casa sou eu e os meus caprichos. O orgulho carregado de inocência Se às vezes dá uma varanda, vence-a O sal que os santos esboroou […]
- [Joan Margarit - Aventura Doméstica](https://singularidadepoetica.art/2018/11/17/joan-margarit-aventura-domestica/): Sozinho em casa e vasculhando os armários. Encontro um antigo mapa rodoviário, contratos vencidos, esferográficas que já não escreverão nenhuma carta, calculadoras com pilhas descarregadas e relógios que o tempo derrotou. No fundo das gavetas, como um rato triste, aninha-se o passado. Vazios, os vestidos pendem como velhas personagens que nos interpretaram. Súbito, encontro também […]
- [Miguel Torga - Princípio](https://singularidadepoetica.art/2018/11/16/miguel-torga-principio/): Não tenho deuses. Vivo Desamparado. Sonhei deuses outrora, Mas acordei. Agora Os acúleos são versos, E tacteiam apenas A ilusão de um suporte. Mas a inércia da morte, O descanso da vide na ramada A contar primaveras uma a uma, Também não me diz nada. A paz possível é não ter nenhuma.
- [Pedro Mexia - Vamos Morrer](https://singularidadepoetica.art/2018/11/15/pedro-mexia-vamos-morrer/): Vamos morrer, mas somos sensatos, e à noite, debaixo da cama, deixamos, simétricos e exactos, o medo e os sapatos.
- [Inês Dias - (Primeira Memória)](https://singularidadepoetica.art/2018/11/13/ines-dias-primeira-memoria/): No ano da morte da última beguina, que nunca precisara do desassossego de ver, chegou finalmente à Terra a primeira luz do mundo. 380 mil anos até comprovarmos, como a História nunca se cansara, aliás, de repetir, que tudo é trevas, instável equilíbrio entre matéria e energia escuras. Em suma, a humanidade devolvida num saco […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vaidade](https://singularidadepoetica.art/2018/11/12/giuseppe-ungaretti-vaidade/): De repente se eleva sobre os escombros a límpida maravilha da imensidão. E o homem curvado sobre a água surpreendida pelo sol se descobre uma sombra Embalada pouco a pouco desfeita Trad : Geraldo Holanda Cavalcanti Vanità D’improvviso è alto sulle macerie il limpido stupore dell’immensità E l’uomo curvato sull’acqua sorpresa dal sole si rinviene […]
- [Ricardo Molina - Convite à Felicidade](https://singularidadepoetica.art/2018/11/11/ricardo-molina-convite-a-felicidade/): Es dulce ser amado pero amar, oh dioses, qué ventura… Goethe Ama-me agora que tenho os cabelos pretos e uma coroa de junco e o perfume da água e da esteva nos braços nus. Ama-me agora que tenho nos olhos a suave chama da tarde e a graça do sorriso e a leve frescura dos […]
- [Helder Moura Pereira - "Chegamos ao fim do dia..."](https://singularidadepoetica.art/2018/11/10/helder-moura-pereira-chegamos-ao-fim-do-dia/): Chegamos ao fim do dia e cada um pensa para seu lado que isto não é vida, deixámos na terra os habituais sinais com tanto de amor como de desespero e, de mãos vazias, de coração ainda com alguma coisa mas quase vazio, batemos com a força que nos resta, pela última vez, à porta […]
- [Josep M. Rodríguez - Talvez Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/11/09/josep-m-rodriguez-talvez-amor/): “Talvez Amor”, um poema de Josep M. Rodríguez que encontra, na banalidade chuvosa da cidade, a possibilidade secreta de encontros que podem transformar-se em amizade, amor ou resistência à dor.
- [Armando Freitas Filho de "Rol"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/08/armando-freitas-filho/): 150 Ontem, foi-se. Amanhã, não há. Ar, somente, o de hoje no presente, desse dia que projeta na respiração sua plataforma insubstituível: peça única com sua aura esplêndida longe de qualquer linha de montagem frágil a qualquer hora, em aberto. No levante, no meio, no fim do seu alento, não em si, mas em mim […]
- [Ana Martins Marques - Caçada](https://singularidadepoetica.art/2018/11/07/ana-martins-marques-cacada/): E o que é o amorsenão a pressada presaem prender-se? A pressada presaemperder-se
- [Rui Costa - Breve](https://singularidadepoetica.art/2018/11/06/rui-costa-breve/): Esta manhã comecei a esquecer-me de ti. Acordei mais cedo que nos outros dias e com o mesmo sono. A tua boca dizia-me “bom dia” mas não: não o teu corpo todo como nos outros dias. As sombras por aqui são lentas e hoje não comprei o jornal: o mundo que se ocupe da sua […]
- [Miguel Martins - Fine](https://singularidadepoetica.art/2018/11/05/miguel-martins-fine/): Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis. Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura. Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem. Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no […]
- [Paulo Henriques Britto - "Da metafísica"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/04/paulo-henriques-britto-da-metafisica/): Ser parte de alguém ou algo tão grande que não se entenda: toda crença, ao fim e ao cabo, se resume a essa lenda – o mais rematado dislate, coisa jamais entendida, que eleva ao sumo quilate o caco mais reles de vida.
- [Marianne Moore - Poesia](https://singularidadepoetica.art/2018/11/03/marianne-moore-poesia/): Eu também não gosto dela: há coisas mais importantes para além de toda esta farsa. Lendo-a, contudo, com absoluto desprezo, descobre-se nela, no fim das contas, um lugar para o autêntico. Mãos que podem agarrar, olhos que podem dilatar-se, pelos que podem eriçar- se necessário, essas coisas são importantes não porque uma grandiloquente interpretação pode […]
- [Miguel-Manso – Na morte da avó](https://singularidadepoetica.art/2018/11/02/miguel-manso-na-morte-da-avo/): não bastasse a humilhação pública de morrer espera-se do corpo que cumpra com indiscutível pompa o intolerável protocolo de ausentar-se a penosa execução circular e noturna do velório a presença inconveniente dos agentes funerários os adereços lutuosos a obscena maquiagem no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa cerimônia (não há muito a dizer, […]
- [Rui Pires Cabral – Morada](https://singularidadepoetica.art/2018/11/01/rui-pires-cabral-morada/): Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos nas nossas pequenas razões. Estas ruas ainda prometem mais do que podem cumprir? A breve epifania do amor ou simplesmente um cúmplice que nos diga, à mesa de um café, que não faz mal, que pouco importam as perdas e danos que sofremos. De qualquer modo o mundo […]
- [Joan Margarit - A Espera](https://singularidadepoetica.art/2018/10/31/joan-margarit-a-espera/): Tantas coisas estão sentindo tua falta. Assim preenchem-se os dias, instantes feitos de esperar por tuas mãos, de sentir falta de tuas pequenas mãos, que pegaram nas minhas tantas vezes. Temos de nos acostumar com tua ausência. Um verão já passou sem teus olhos e o mar também haverá de acostumar-se. Tua rua, ainda por […]
- [Paulus Silentiarius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/30/paulus-silentiarius-da-antologia-grega/): Zeus, em chuva de ouro, atravessou o bronze que guardava Danae e roubou-lhe a virgindade. Moral da história: o ouro tudo domina – paredes e grilhetas de bronze, fechaduras e peias. Foi o ouro que subjugou Danae. Não é necessário rezar a Afrodite; só é preciso dinheiro. Versão: José Alberto Oliveira
- [Páladas - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/29/palladas-da-antologia-grega/): Nascidos nus. Enterrados nus. Qual a azáfama? Toda a vida conduz à primeira nudez. Versão: José Alberto Oliveira
- [Lucilius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/28/lucilius-da-antologia-grega/): Eutychides, o poeta lírico, morreu. Fugi, ó moradores do Hades! – ele transporta odes e ordenou que consigo queimassem vinte liras e vinte e cinco pautas de música, que Caronte terá de transportar. Onde se poderá encontrar refúgio, agora que Eutychides canta pela eternidade? Versão: José Alberto Oliveira
- [Anônimo - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/27/anonimo-da-antologia-grega/): Não esbanjem comigo o odor da mirra, nem ofereçam coroas de flores, nem acendam a pira funerária, tudo isso é desperdício; ofereçam-me presentes, se quiserem, enquanto estiver vivo – mas espalhar cinzas no vinho torná-lo-á lama e dele não beberão os mortos. Versão: José Alberto Oliveira
- [Automedon - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/26/automedon-da-antologia-grega/): Mandaste chamá-la, disseste para vir, preparaste tudo. Mas, se vier, o que farás? Repara no que se passa contigo, Automedon. Esse canalha, que era alegre e firme, está agora flácido, como cenoura cozida, morto e encolhido entre as pernas. Como irão rir se te puseres a navegar de mãos vazias, um remador que perdeu o […]
- [Marcus Argentarius - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/25/marcus-argentarius-sem-titulo/): Psyllas jaz aqui. A sua ocupação proxeneta; mantinha um bando de raparigas e alugava-as para festas. Um negócio pouco simpático, ganhar dinheiro com carne humana e fraca. Mas poupem o seu túmulo, não atirem pedras, agora que está morto e enterrado. Lembrem-se disto: os serviços que prestou convenceram os rapazes a deixarem as nossas mulheres […]
- [Platão - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/24/platao-sem-titulo/): Eu, Lais, que escarneci dos gregos e enxame de amantes retive à porta, ofereço a Afrodite o meu espelho. Não olharei para esta cara e não consigo ver a anterior. Versão: José Alberto Oliveira
- [Zenodotus - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/23/zenodotus-sem-titulo/): Quem esculpiu o Amor e o colocou junto desta fonte, pensaria que poderia subjugar, com água, tal fogo? Versão: José Alberto Oliveira
- [Eunice de Souza – Alvorada 2](https://singularidadepoetica.art/2018/10/22/eunice-de-souza-alvorada-2/): Falamos através de continentes. É pouco provável que nos voltemos a encontrar. Não posso fumar, não posso viajar, nenhuma felicidade claro. Sentindo um vento frio nas costas renunciamos à filosofia. Acabaram os amantes errantes, maridos, passarões não propriamente sensatos. Ainda temos a idade com que nos conhecemos. Trad.: Francisco José Craveiro de Carvalho
- [Eugénio Andrade - Passamos pelas coisas sem as ver](https://singularidadepoetica.art/2018/10/21/eugenio-andrade-passamos-pelas-coisas-sem-as-ver/): Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos.
- [Ian Hamilton - Os quarenta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/12/ian-hamilton-os-quarenta/): “O eu que sobreviveu àqueles anos desprezíveis”,Sua “virtude austera” incrivelmente preservada. Pois bem,Terá se perguntado, isto éO “é isso”?; esta Vida resumidaQue nunca pensei encontrarE nunca procurei: que começa no meioDe tal modo que no fimO dano perdura mais do que a reparação? Aos quarenta e cincoAgora sou o patriarca da casa e ao entardecerVocê […]
- [Eugénio de Andrade - Sou fiel ao ardor...](https://singularidadepoetica.art/2019/08/11/eugenio-de-andrade-sou-fiel-ao-ardor/): Sou fiel ao ardor, amo esta espécie de verão que de longe me vem morrer às mãos, e juro que ao fazer da palavra morada do silêncio não há outra razão.
- [Joan Margarit - Vida Social](https://singularidadepoetica.art/2019/08/10/joan-margarit-vida-social/): Idealizavas esta solidãopara ouvir música ou ler,e caminhar no inverno junto ao mar.Mas a solidão é uma chuvaque suja as janelas deste trem dos anos.A solidão é a palavra crueldo acre ressentimento familiar.É a lei do acaso, um labirinto injusto.É não ter dinheiro, é ter medo.É o sexo, uma estranha pista falsaque conduz ao mais […]
- [Manuel António Pina - A avó](https://singularidadepoetica.art/2019/08/09/manuel-antonio-pina-a-avo/): Tinha ao colo o gato velho cansadamente passando a sua branca mão pelo pelo dele preto e brando Sentada ao pé da janela olhando a rua ou sonhando-a todo o passado passando a passos lentos por ela Dormiam ambos enquanto a tarde se ia acabando o gato dormindo por fora a avó dormindo por dentro
- [Gregory Corso - Tenho 25](https://singularidadepoetica.art/2019/08/08/gregory-corso-tenho-25/): Com um amor louco por Shelley Chatterton Rimbaud e o ganido carente de minha juventude passou de orelha a orelha: EU ODEIO OS VELHOS POETAS! Especialmente velhos poetas que se retratam que consultam outros velhos poetas que falam de suas juventudes em sussurros, dizendo: – Eu fiz mas isso é passado isso é passado […]
- [Armando Silva Carvalho - Struggle for life](https://singularidadepoetica.art/2019/08/07/armando-silva-carvalho-struggle-for-life/): Cheguei há muito à idade filosófica, Secaram-me os sonetos na tão nervosa pena dos sentidos. As aves lânguidas e longas do desejo – Que não eram lânguidas Nem longas – Voaram dos meus sonhos para nunca mais. Houve quem ouvisse os seus gritos românticos, Seguisse o seu devaneio em círculos voláteis, Em versos de dez […]
- [Oscar Wilde - Da vaidade](https://singularidadepoetica.art/2019/08/06/oscar-wilde-da-vaidade/): “Por que você chora?”, perguntaram as Oreiades. “Choro por Narciso”. “Ah, não nos espanta que você chore por Narciso”, continuaram elas. “Afinal de contas, todas nós sempre corremos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza”. “Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago. “Quem […]
- [André Oviedo - Caixa-Preta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/05/andre-oviedo-caixa-preta/): em algum lugar depois do fim flutuando entre os destroços encontraremos a caixa-preta e poderemos finalmente restituir o passado palavra por palavra como chaves perdidas no tempo a reabrirem as portas que nos trouxeram até aqui
- [Walter Savage Landor - Rose Aylmer](https://singularidadepoetica.art/2019/08/04/walter-savage-landor-rose-aylmer/): Ah, de que vale a régia raça! E esta forma celeste! Toda virtude, toda graça! Rose Aylmer, tudo o que foste. Rose Aylmer, meus olhos despertos Eles choram, mas não veem, Uma noite de dor te oferto, E de lembranças também. Trad.: Nelson Santander Rose Aylmer Ah, what avails the sceptred race! Ah, what the […]
- [François Villon - Balada dos Enforcados](https://singularidadepoetica.art/2019/08/03/francois-villon-balada-dos-enforcados/): Irmãos humanos que ao redor viveis, Não nos olheis com duro coração, Pois se aos pobres de nós absolveis Também a vós Deus vos dará perdão. Aqui nos vedes presos, cinco, seis: Quanto era cara viva que comia Foi devorado e em pouco apodrecia. Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós. Que de nossa aflição […]
- [Nelson Santander - Impermanência](https://singularidadepoetica.art/2019/08/03/nelson-santander-impermanencia/): Impermanência, uma crônica de Nelson Santander
- [Delmore Schwartz – Calmamente caminhamos neste dia de abril](https://singularidadepoetica.art/2019/08/02/delmore-schwartz-calmamente-passeamos-neste-dia-de-abril/): Calmamente caminhamos neste dia de abril,Poesia urbana por todo lado,No parque sentam-se indigentes e usurários,As crianças gritando, o carroEm fuga que passa correndo por nós,Entre o trabalhador e o milionárioOs números expressam as distâncias,Estamos em mil novecentos e trinta e sete agora,Muitos camaradas foram levados para longe,O que será de você e de mim(Esta é […]
- [José Miguel Silva - Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)](https://singularidadepoetica.art/2019/08/01/jose-miguel-silva-morangos-silvestres-ingmar-bergman-1957/): Um ser humano é um combinado de egoísmo, sofrimento e necessidade. Não comove ninguém. Uma pedra não comove ninguém. A beleza é um acidente banal e pressupõe a morte; muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala, chega a ser assustador. A inteligência, refrescante como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora, […]
- [Eugénio de Andrade - De "As mãos e os frutos"](https://singularidadepoetica.art/2019/07/31/eugenio-de-andrade-de-as-maos-e-os-frutos/): XIX Terra: se um dia lhe tocares o corpo adormecido, põe folhas verdes onde pões silêncio, sê leve para quem o foi contigo. Dá-lhe o meu cabelo para sonho, e deixa as minhas mãos para tecer a mágoa infinita das raízes que no seu corpo um dia hão-de beber
- [Joan Margarit - El Primer Frío](https://singularidadepoetica.art/2019/07/30/joan-margarit-el-primer-frio/): Acompanhei-te até o museu, no parque,em uma manhã de inverno. Detivemo-nosdiante daquela escultura: El primer frío.Era de mármore cinzento: um velho, nu,olha ao longe, entre as folhas mortasque o vento carrega.A arte não é diferente da vida,lembro que disseste. Mas euvia apenas um mármore frio,um tanto retórico, e pensava em garotas.Entre aquele dia e hoje, […]
- [Manuel António Pina - Extrema-unção](https://singularidadepoetica.art/2019/07/29/manuel-antonio-pina-extrema-uncao/): Uma breve, amável mágoa à flor dos olhos, um distante desapontamento, morrias como se pedisses desculpa por nos fazeres perder tempo. Tinhas pressa mas não o mostravas, receavas que não estivéssemos preparados, e, suspenso sobre nós, esperavas que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado. Morrer não é motivo de orgulho, mas estavas cansado demais para […]
- [Ferreira Gullar - Notícia da Morte de Alberto da Silva](https://singularidadepoetica.art/2019/07/28/ferreira-gullar-noticia-da-morte-de-alberto-da-silva/): (Poema Dramático para Muitas Vozes) I Eis aqui o morto chegado a bom porto Eis aqui o morto como um rei deposto Eis aqui o morto com seu terno curto Eis aqui o morto com seu corpo duro Eis aqui o morto enfim no seguro II De barba feita, cabelo penteado jamais esteve tão bem […]
- [Robert Penn Warren – Conta-me uma história](https://singularidadepoetica.art/2019/07/27/robert-penn-warren-conte-me-uma-historia/): A Há muito tempo, no Kentucky, eu, apenas um rapaz, estavaEm uma estrada de terra, ao anoitecer, e ouviA algaravia dos gansos que rumavam para o norte. Não pude vê-los, pois não havia lua,E escassos eram os astros. Eu os ouvi. Não sabia o que se passava em meu coração. Era a estação antes dos […]
- [William Ernest Henley - Invictus](https://singularidadepoetica.art/2019/07/26/william-ernest-henley-invictus/): No meio da noite que me abraça, Negra como um Poço em sua inteireza, Agradeço a cada Deus pela graça De minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstâncias Não recuei nem alteei meu pranto. Debaixo dos golpes das contingências Minha fronte sangra – altiva, no entanto. Além deste lugar de desenganos, Somente o Horror […]
- [Ángel González - O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado](https://singularidadepoetica.art/2019/07/25/angel-gonzalez-o-amanha-e-um-mar-profundo-que-precisamos-atravessar-a-nado/): Queria ser alga, alga enredada na parte suave de tuas coxas. Sopro de brisa nas tuas bochechas. Leve areia sob tua pegada. Queria ser água, água salgada quando corres nua no litoral. Sol cortando em sombra tua banal Silhueta virgem recém-molhada. Tudo quisera ser, indefinido, ao teu redor: vista, luz, ambiente gaivota, céu, navio, vela, […]
- [António Barahona - Memórias](https://singularidadepoetica.art/2019/07/24/antonio-barahona-memorias/): Da minha vida, os anos que passaram não os quero de volta: só agora me basta pra viver, a toda a hora, os momentos que em mim se eternizaram. Caminho pesaroso, entre destroços de lutas amorosas, sem ter tréguas. Vão às cegas, meus passos pelas trevas de sombras movediças feitas de ossos. Lembro os que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Nosso Tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/23/carlos-drummond-de-andrade-nosso-tempo/): I Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te […]
- [A. M. Pires Cabral - Folha rubra](https://singularidadepoetica.art/2019/07/22/a-m-pires-cabral-folha-rubra/): É bom sermos como essas folhas verdes que prolongam todo o ano a Primavera. Mas melhor do que isso é sermos como aquela folha rubra que antes das outras pressentiu o Outono e vestiu para ele a sua melhor cor, mesmo sabendo que o Inverno tem um plano para em breve a dissolver no chão.
- [Eugénio de Andrade - Quando em silêncio passas entre as folhas...](https://singularidadepoetica.art/2019/07/21/eugenio-de-andrade-quando-em-silencio-passas-entre-as-folhas/): Quando em silêncio passas entre as folhas, uma ave renasce da sua morte e agita as asas de repente; tremem maduras todas as espigas como se o próprio dia as inclinasse, e gravemente, comedidas, param as fontes a beber-te a face. Conheça outros livros de Eugénio de Andrade clicando aqui
- [Mario Quintana - Poema da gare de Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/20/mario-quintana-poema-da-gare-de-astapovo/): O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos E foi morrer na gare de Astapovo! Com certeza sentou-se a um velho banco, Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo Contra uma parede nua… Sentou-se …e sorriu amargamente Pensando que Em toda a sua vida […]
- [Joan Margarit - Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/19/joan-margarit-astapovo/): De madrugada, quando só se ouvemrelógios no escuro,eu o imagino, com seus oitenta anos,fugindo em um trem russo que ia para o sul,de lugar nenhum, para onde os velhos sonham ir.Tolstói temia aquele invernoque o acompanhou durante a velhiceaté o leito de morte ferroviário,na noite em que o telégrafotransmitiu a mais breve e cruelde todas […]
- [Manuel António Pina - Quinquagésimo ano](https://singularidadepoetica.art/2019/07/18/manuel-antonio-pina-quinquagesimo-ano/): São muitos dias (e alguns nem tantos como isso…) e começa a fazer-se tarde de um modo menos literário do que soía, (um modo literal e inerte que, no entanto, não posso dizer-te senão literariamente). Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr; a única coisa que corre é o tempo, do lado […]
- [Emily Dickinson - de "Não sou ninguém"](https://singularidadepoetica.art/2019/07/17/emily-dickinson-de-nao-sou-ninguem/): 27 Poetas mártires — não clamam — A Dor em sílabas transmudam — Falam por eles seus poemas — Quando já estejam mudos. Pintores mártires — Não falam — Com sua Obra eles almejam Que quando já não sejam mais — Alguns busquem na Arte — a Paz — Trad.: Augusto de Campos The Martyr […]
- [Vasco Gato - Repara nos velhos](https://singularidadepoetica.art/2019/07/16/vasco-gato-repara-nos-velhos/): Repara nos velhos. Dementes, doridos, restos de casas. Vivem agora a lepra de todos nós. Não lhes chegamos. Tresandam. Esquecem. Apoderam-se do nada. E nós, capitosos, brindamos com o vinho que também eles sorveram, desdenhando a morte que, amarga como a nossa indiferença, haveremos de provar.
- [William Butler Yeats - As quatro idades do homem](https://singularidadepoetica.art/2019/07/15/william-butler-yeats-as-quatro-idades-do-homem-poema/): As quatro idades do homem, um poema de William Butler Yeates: Com seu corpo principiou uma rinha O corpo venceu; ereto ele caminha. Ele lutou então com o coração; Sua inocência e sua paz já se vão.
- [A. A. Milne – Narciso](https://singularidadepoetica.art/2019/07/14/a-a-milne-narciso/): Ela vestiu seu chapéu-de-sol,E pôs o seu mais verde vestido;Virou-se para o vento australE prestou-lhe o cortejo devido.Virou-se então para a luz do solE os cabelos louros agitou,E sussurrou para o seu vizinho:“O inverno acabou” Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em […]
- [Nelson Ascher - Saudade](https://singularidadepoetica.art/2019/07/13/nelson-ascher-saudade/): Posto que nem é de bom-tom falar sobre a tristeza insossa cujo vaivém, quando se apossa de mim, me embala como o som sem fim das ondas do Leblon, dispondo-me a curtir a fossa a sós, pus na vitrola a bossa nova de João, Vinícius, Tom, menos pra ouvir o que ela tem, porque talvez […]
- [José Paulo Paes - Borboleta](https://singularidadepoetica.art/2019/07/12/jose-paulo-paes-borboleta/): Mal saíra do casulo para mostrar ao sol o esplendor de suas asas um pé distraído a pisou. (A visão de beleza dura um só instante inesquecível.)
- [Joseph Stroud - Tributo a Rolf Jacobsen](https://singularidadepoetica.art/2019/07/11/joseph-stroud-tributo-a-rolf-jacobsen/): A jaqueta amarela fica batendo contra a vidraça tentando sair. Desde o começo era apenas uma questão de abrir a janela, encontrar as palavras, e você por aí – em um outro, maior mundo. Para os mortos, o paraíso é a calçada na qual você caminha olhando as janelas, cantarolando, parando para um café. Trad.: […]
- [Maria do Rosário Pedreira - Onde quer que o encontres](https://singularidadepoetica.art/2019/07/10/maria-do-rosario-pedreira-onde-quer-que-o-encontres/): Onde quer que o encontres – escrito, rasgado ou desenhado: na areia, no papel, na casca de uma árvore, na pele de um muro, no ar que atravessar de repente a tua voz, na terra apodrecida sobre o meu corpo – é teu, para sempre, o meu nome.
- [Ferreira Gullar - Pela rua](https://singularidadepoetica.art/2019/07/09/ferreira-gullar-pela-rua/): Sem qualquer esperança detenho-me diante de uma vitrina de bolsas na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo, enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro. Sem qualquer esperança te espero. Na multidão que vai e vem entra e sai dos bares e cinemas surge teu rosto e some num vislumbre e o coração dispara. Te […]
- [Wisława Szymborska - Desatenção](https://singularidadepoetica.art/2019/07/08/wislawa-szymborska-desatencao/): Ontem me comportei mal no universo. Vivi o dia inteiro sem indagar nada, sem estranhar nada. Executei as tarefas diárias como se isso fosse tudo o que devia fazer. Inspirar, expirar, um passo, outro passo, obrigações, mas sem um pensamento que fosse além de sair de casa e voltar para casa. O mundo podia ter […]
- [Czeslaw Milosz - A queda](https://singularidadepoetica.art/2019/07/07/czeslaw-milosz-a-queda/): A morte de um homem é como a queda de uma poderosa nação Que teve valentes exércitos, capitães e profetas, E ricos portos e barcos em todos os mares, Mas agora não socorrerá nenhuma cidade sitiada, Não entrará em nenhuma aliança, Porque suas cidades estão vazias, sua população dispersa, Sua terra que certa vez proveu […]
- [Daniel Faria - Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2019/07/06/daniel-faria-itaca/): O que dói É não poder apagar a tua ausência e repetir dia após dia os mesmos gestos O que dói é o teu nome que ficou como mendigo Descoberto em cada esquina dos meus versos O que dói é tudo e mais aquilo que desteço Ao tecer para ti novos regressos
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Quando](https://singularidadepoetica.art/2019/07/05/sophia-de-mello-breyner-andresen-quando/): Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje igualmente hão-de bailar As quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomar Em que eu tantas vezes passei, Haverá longos poentes sobre o mar, Outros amarão as coisas que eu amei. Será […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O desjejum](https://singularidadepoetica.art/2019/07/04/luis-alberto-de-cuenca-o-desjejum/): Gosto quando dizes disparates, quando fazes asneiras, quando mentes, quando vais às compras com tua mãe e chego atrasado ao cinema por tua culpa. Gosto mais quando é meu aniversário e me cobres de beijos e bolos, ou quando estás feliz e dá para notar, ou quando és genial com uma frase que resume tudo, […]
- [Nuno Júdice – Fábula industrial](https://singularidadepoetica.art/2019/07/03/nuno-judice-fabula-industrial/): As chaminés das fábricas tinham pescoços de cegonha, e quando deitavam fumo era como se as cegonhas abrissem as asas. Quando o fumo era preto, porém, as cegonhas transformavam-se em corvos de grandes pescoços feitos de tijolo; e ao contrário das cegonhas não voavam, mas faziam soar as sirenes com os bicos metálicos, para que […]
- [Adelaide Ivánova - os anos noventa](https://singularidadepoetica.art/2019/07/02/adelaide-ivanova-os-anos-noventa/): você não estava lá nas coisas mais decisivas da minha vida mas é assim mesmo: historiadores e arqueólogos nunca estiveram presentes pra testemunhar os levantes coletivos isso fazem os jornalistas e os videntes você era apenas um menino quando kurt cobain morreu nem poderia ainda saber o dano que causaria sua existência de crisálida taurino […]
- [Ian Hamilton - Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2019/07/01/ian-hamilton-fantasmas/): O caixão lustroso e suntuosamente adornadoDesliza como um novo navio para as profundezas em chamas.Na terra firme,A congregação se ajoelha em murmúrios. Do meu banco no cantoTenho uma visão livre e desimpedidade sua partida.Se você estivesse deitada de ladoTalvez pudesse captar seu olhar insuspeito. No pátio, ao anoitecer,Os tributos florais. Eu poderia jurarTer visto vocêAspirando […]
- [Eugénio de Andrade - Com o tempo aproximar-se-ão os rios...](https://singularidadepoetica.art/2019/06/30/eugenio-de-andrade-com-o-tempo-aproximar-se-ao-os-rios/): Com o tempo aproximar-se-ão os rios e os montes, com o tempo acabará por te vir comer à mão e fazer ninho na tua cama o silêncio.
- [Joan Margarit - Banheiro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/29/joan-margarit-banheiro/): Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos […]
- [Manuel António Pina - Todas as palavras](https://singularidadepoetica.art/2019/06/28/manuel-antonio-pina-todas-as-palavras/): As que procurei em vão, principalmente as que estiveram muito perto, como uma respiração, e não reconheci, ou desistiram e partiram para sempre, deixando no poema uma espécie de mágoa como uma marca de água impresente; as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te nem foram capazes de dizer-me; as que calei por serem muito […]
- [Heinrich Heine - Chegou a morte](https://singularidadepoetica.art/2019/06/27/heinrich-heine-chegou-a-morte/): Chegou a morte – agora vou Dizer o que o orgulho não Me permitiu: meu coração Tão só por ti pulsou, pulsou. Já estou fechado no ataúde, Descem-me à cova. A calmaria Me abraça enfim, mas tu, Maria, Por mim irás, muito amiúde, Chorar, e pra quê, afinal? Consola-te, este é o destino Humano: o […]
- [Jorge Luis Borges - O cego](https://singularidadepoetica.art/2019/06/26/jorge-luis-borges-o-cego/): I Foi despojado do diverso mundo, Dos rostos, que ainda são o que eram antes, Das ruas próximas, hoje distantes, E do côncavo azul, ontem profundo. Dos livros lhe restou só o que deixa A memória, essa fórmula do olvido Que o formato retém, não o sentido, E que apenas os títulos enfeixa. O desnível […]
- [José Paulo Paes - Declaração de bens](https://singularidadepoetica.art/2019/06/25/jose-paulo-paes-declaracao-de-bens/): meu deus minha pátria minha família minha casa meu clube meu carro minha mulher minha escova de dentes meus calos minha vida meu câncer meus vermes
- [Joseph Stroud - Lázaro em Varanasi](https://singularidadepoetica.art/2019/06/24/joseph-stroud-lazaro-em-varanasi/): De uma pira no flamejante ghat,um cadáver se ergue lentamente entre as chamas.Como se lembrasse de algo importante.Como se quisesse olhar ao redor uma última vez.Como se finalmente tivesse algo a dizer.Como se houvesse uma saída para isso. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a […]
- [Joseph Stroud - Lendo Kaváfis sozinho na cama](https://singularidadepoetica.art/2019/06/23/joseph-stroud-lendo-kavafis-sozinho-na-cama/): Eu, também, me lembro do passado, meu quarto iluminado por velas, e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto com seu rosto, com boca e língua e lábios, do pomar à noite, do odor das frutas, seus seios – lembra, corpo? – aquele quarto, lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes? Trad.: […]
- [Konstantinos Kaváfis - Lembra, corpo...](https://singularidadepoetica.art/2019/06/22/konstantinos-kavafis-lembra-corpo/): Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,não só os leitos onde repousaste,mas também os desejos que brilharampor ti em outros olhos, claramente,e que tornaram a voz trêmula – e que algumobstáculo casual fez malograr.Agora que isso tudo perdeu-se no passado,é quase como se a tais desejoste entregaras – e como brilhavam,lembra, nos olhos que […]
- [Pedro Mexia - "O fogo, o ferro, o futuro"](https://singularidadepoetica.art/2019/06/21/pedro-mexia-o-fogo-o-ferro-o-futuro/): Eras um sustento, eras um segredo, uma feroz tentativa. Eras a roupa do corpo feito estandarte a caminho de casa e as tuas mãos metade das minhas. Eras um fascínio, eras um fracasso, eras a chama que nunca te queimou, o sul, o sufoco, a madrugada. Eras um tumulto de éguas e galgos, a minha […]
- [Wislawa Szymborska - Mapa](https://singularidadepoetica.art/2019/06/20/wislawa-szymborska-mapa/): Plano como a mesa na qual está colocado. Debaixo dele nada se move nem busca vazão. Sobre ele – meu hálito humano não cria vórtices de ar e deixa toda a sua superfície em silêncio. Suas planícies, vales, são sempre verdes, os planaltos, montanhas, amarelos e marrons e os mares, oceanos, de um azul delicado […]
- [Jorge Sousa Braga - Litania](https://singularidadepoetica.art/2019/06/19/jorge-sousa-braga-litania/): Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparente Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos ainda escorrendo sangue Uma pequena construção toda em pedra com divisões de tijolo e cal hidráulica e janelas abrindo para […]
- [Nuno Júdice - Nostalgia de setembro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/18/nuno-judice-nostalgia-de-setembro/): Quando vinham as nuvens de setembro, já os pássaros tinham emigrado para além dos mares, o campo ficava em longos silêncios que só a passagem dos rebanhos, a caminho do matadouro, cortava num tropel que ecoava ainda, depois da paisagem, com os gritos do pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvens quando […]
- [A. M. Pires Cabral - O Vento](https://singularidadepoetica.art/2019/06/17/a-m-pires-cabral-o-vento/): É fácil dizer que o vento tem gatos na voz enfurecidos. Que afaga e despenteia, traz a chuva. Que levanta as telhas, exercita na noite os nossos mais pesados pesadelos. É fácil ser poeta à custa do vento. Fingir que não sabemos que o vento não é senão o vazio que muda de lugar.
- [Carlos Bousoño - À distância](https://singularidadepoetica.art/2019/06/16/carlos-bousono-a-distancia/): Passa a juventude, e passa a vida, passa o amor, a morte também passa, o vento, a amargura que trespassa a pátria espessa, hirta e adormecida. Adormecida, em sonho eterno, olvida. Mortos e vivos na mesma argamassa dormem igual sina e alegria escassa. Pátria, profundeza, pedra perdida. Pedra perdida, imersa, vivos, mortos. Toda Espanha dorme […]
- [David Teles Pereira - Tractatus de Legibus ac Deo Legislatore (Livro III, Capítulo II)](https://singularidadepoetica.art/2019/06/15/david-teles-pereira-tractatus-de-legibus-ac-deo-legislatore-livro-iii-capitulo-ii/): Ao meu avô Nunca mais me irás interromper ao comentar uma passagem do de Legibus de Francisco Suárez, mas, por agora, a nuvem castanha que te ocupa o peito sufoca-me a voz. As nossas leis não chegam para acalmar todos os vícios e o pior de todos é chorar-te por não te poder dizer, seguindo […]
- [Maria do Rosário Pedreira - À avó](https://singularidadepoetica.art/2019/06/14/maria-do-rosario-pedreira-a-avo/): Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a […]
- [Helder Moura Pereira - "Eras mesmo a fonte de tudo..."](https://singularidadepoetica.art/2019/06/13/helder-moura-pereira-eras-mesmo-a-fonte-de-tudo/): Eras mesmo a fonte de tudo, pelo menos naquele dia a que chamamos perfeito. Os dias tinham-se entranhado nos dias, a tal ponto que a vida era só dias, dias a seguir uns aos outros. Apenas dias. De olhos vendados e sem bater numa única parede, pegados a isto, ao cheiro reconhecido só quando um […]
- [Andreia C. Faria - "Espero o dia em que possa..."](https://singularidadepoetica.art/2019/06/12/andreia-c-faria-espero-o-dia-em-que-possa/): Espero o dia em que possa deixar crescer as unhas as meias por cerzir a boca sem propósito de beijar. O dia que misture à noite uma respiração de espelhos, um registro acidental, mortificado, ou o livro que se leu na tarde até perder a luz. Que a natureza avance em mim sem esperança de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Confissão do fugitivo](https://singularidadepoetica.art/2019/06/11/juan-vicente-piqueras-confissao-do-fugitivo/): Só sou feliz partindo. Não entre quatro paredes, à mercê das espadas, mas entre aqui e ali, uma e outra casa, ambas de preferência alheias. Já não posso, nem quero, estar quieto. Nem agora nem depois. Nem aqui nem ali. Em todo caso aí, onde tu estás, seja tu quem fores, põe o teu nome […]
- [Ferreira Gullar - Verão](https://singularidadepoetica.art/2019/06/10/ferreira-gullar-verao/): Este fevereiro azul como a chama da paixão nascido com a morte certa com prevista duração deflagra suas manhãs sobre as montanhas e o mar com o desatino de tudo que está para se acabar. A carne de fevereiro tem o sabor suicida de coisa que está vivendo vivendo mas já perdida. Mas como tudo […]
- [Czesław Miłosz - Uma descrição honesta de mim mesmo com um copo de whisky num aeroporto, digamos, em Minneapolis](https://singularidadepoetica.art/2019/06/09/czelaw-milosz-uma-descricao-honesta-de-mim-mesmo-com-um-copo-de-whisky-num-aeroporto-digamos-em-minneapolis/): Meus ouvidos captam cada vez menos as conversas, meus olhos vêm se tornando fracos, embora sigam insaciáveis. Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas, em tecidos ondulantes, Observo uma a uma, separadamente, suas bundas e coxas, acalentado por sonhos pornô. Velho depravado, é chegada a hora da cova, não dos jogos e folguedos da […]
- [Walt Whitman – Aos que Falharam](https://singularidadepoetica.art/2019/06/08/walt-whitman-aos-que-falharam/): Aos que falharam, grandes na aspiração, aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate, aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos, aos super-ardorosos viajantes, a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento – eu gostaria de erguer um momento coberto de louros alto, bem alto, acima dos demais: A todos os truncados […]
- [Adelaide Ivánova - um poema pra italo](https://singularidadepoetica.art/2019/06/07/adelaide-ivanova-um-poema-pra-italo/): a vida tem estado mesmo dura vou poupar-te da ladainha sobre temer AfD #voltadilma e o caralho não ganhamos dos bancos em caruaru ou karlsruhe meu dinheiro e endereço: bloqueados a moça do balcão cagou pra mim ser cidadão não significa merda nenhuma mas é privilégio nessa europa genocida (e quando é que ela não […]
- [Nicolás Guillén - Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2019/06/06/nicolas-guillen-um-poema-de-amor/): Não sei. Ignoro-o.Desconheço todo o tempo que andeisem encontrá-la novamente.Quem sabe um século? Talvez.Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.Ou um mês. Poderia ser. De qualquer formaum tempo enorme, enorme, enorme.Ao fim como uma rosa súbita,repentina campânula tremendo,a notícia.Saber de prontoque ia voltar a vê-lá, que a teriaperto, tangível, real, como nos sonhos.Que troar […]
- [Ian Hamilton - Vizinhos](https://singularidadepoetica.art/2019/06/05/ian-hamilton-vizinhos/): Das janelasDo decadente hotel do outro lado da ruaMisteriosos hóspedes noturnos emergemEm suas varandasPara aspirar o ar fresco da noite. Nós os deixamos nos observarEm nossas vidas pacatas.Eles nos permitem imaginaro que o destino lhes reservou. Trad.: Nelson Santander Neighbours From the bay windowsOf the mouldering hotel across the road from usMysterious, one-night itinerants emergeOn […]
- [Eugénio de Andrade - Ver claro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/04/eugenio-de-andrade-ver-claro-2/): Toda poesia é luminosa, até A mais obscura. O leitor é que tem às vezes, Em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver o claro. Se regressar Outra vez e outra vez E outra vez A essas sílabas acesas Ficará cego de tanta claridade Abençoado seja se lá chegar.
- [Joan Margarit - Por que fomos covardes](https://singularidadepoetica.art/2019/06/03/joan-margarit-por-que-fomos-covardes/): Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil. Sempre farás amor com uma sombra de olhos azuis, e estarás tão só como em uma vingança. Ao longe, as luzes de Roses cintilam assim como a minha memória. Há uma fúria triste, mas ninguém no final. Perdemos o cavalo sem cavaleiro que nunca passa uma segunda […]
- [Manuel António Pina - Café do molhe](https://singularidadepoetica.art/2019/06/02/manuel-antonio-pina-cafe-do-molhe/): Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) por que a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe) […]
- [Konstantinos Kaváfis - Velas](https://singularidadepoetica.art/2019/06/01/konstantinos-kavafis-velas/): Os dias futuros se erguem diante de nós como uma fileira de velas acesas – douradas, vivazes, cálidas velas. Os dias do passado ficaram tão para trás, fúnebre fileira consumida onde as mais próximas ainda fumam, velas frias, retorcidas e desfeitas. Não quero vê-las; seu aspecto me aflige, me aflige recordar sua luz primeira. Vejo […]
- [Idea Vilariño - Não mais](https://singularidadepoetica.art/2019/05/31/idea-vilarino-nao-mais/): Não mais será não mais não viveremos juntos não criarei teu filho não coserei tua roupa não te terei à noite não te beijarei ao partir nunca saberás quem fui por que outros me amaram. Não chegarei a saber por que nem porque nunca nem se era verdadeiro o que disseste que era nem quem […]
- [Nâzim Hikmet - O último ônibus](https://singularidadepoetica.art/2019/05/30/nazim-hikmet-o-ultimo-onibus/): Meia-noite. O último ônibus.O condutor rasga os bilhetes.Não me esperam em casa nem uma má notícianem a fartura da bebida.Para mim, é a partida que espera.Caminho em direção a ela sem medoou tristeza. A escuridão imensa se aproxima de mim.Posso olhar para o mundocalma e serenamente, agora.Já não me surpreende a traição de um amigo,a […]
- [Daniel Faria - Infância](https://singularidadepoetica.art/2019/05/29/daniel-faria-infancia/): e jogava o pião com Deus enquanto minha mãe estendia roupa e o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempo era muito próxima da dos meninos e de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro: o pião ou Deus apenas sei que Deus continua a jogar com outros meninos […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Não te esqueças nunca](https://singularidadepoetica.art/2019/05/28/sophia-de-mello-breyner-andresen-nao-te-esquecas-nunca/): Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina O pinhal a coluna a veemência divina O templo o teatro o rolar de uma pinha O ar cheirava a mel e a pedra a resina Na estátua morava tua nudez marinha Sob o sol azul e a veemência divina Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O véu protetor](https://singularidadepoetica.art/2019/05/27/luis-alberto-de-cuenca-o-veu-protetor/): Amanheceu e nós estávamos dentro da vil realidade, o que não pode ser bom. Melhor seria que passassem logo as horas inúteis em que o dia proscreve a aventura com as normas do tédio laboral, e que voltassem a noite e as suas estrelas a envolver-nos no seu véu fantástico e a dar-nos a inútil […]
- [Yehuda Amichai - 1924](https://singularidadepoetica.art/2019/05/26/yehuda-amichai-1924/): Nasci em 1924. Se eu fosse um violino da minha idade não seria dos melhores. Como vinho seria um cinco estrelas ou vinagre. Como cachorro estaria morto. Como um livro estaria me tornando caro, ou estaria abandonado num sebo qualquer. Como uma floresta eu seria jovem; como uma máquina, ridículo. Como uma criatura humana, estou […]
- [Walt Whitman - Pleno de vida agora](https://singularidadepoetica.art/2019/05/25/walt-whitman-pleno-de-vida-agora-poema/): Pleno de vida agora, consistente, visível, Eu, quarenta anos vividos, no ano oitenta e três anos dos Estados, Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for, A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto. Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível, Enquanto tu […]
- [Miguel-Manso – No número de outubro da revista Wire](https://singularidadepoetica.art/2019/05/24/miguel-manso-no-numero-de-outubro-da-revista-wire/): frente ao fotógrafo e ao leitor o homem envelhecido parece que já não olha Mitra o deus sol dos psicadélicos noutra foto no interior da revista o poeta está sentado a uma pequena mesa de frente para a janela onde as cortinas brancas filtram a luz e o ruído da rua sentado na cadeira de […]
- [Andreia C. Faria - San Cibrán de Las](https://singularidadepoetica.art/2019/05/23/andreia-c-faria-san-cibran-de-las/): Ainda aos sábados os homens passeiam pelo que resta das muralhas e as mulheres procuram vestígios – os pulsos nus, a canteira e a nascente de água, a paciência necessária a quem se alimentava desse pão É também este o meu plano para a velhice: ervas de que não sei o nome, a ruína interior […]
- [Gonçalo M. Tavares - uma síntese disto tudo](https://singularidadepoetica.art/2019/05/22/goncalo-m-tavares-uma-sintese-disto-tudo/): é porque existe o desejo, o olfato, e o medo, e os vivos apaixonam-se por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos, e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho, e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um […]
- [Adelaide Ivánova - o elefante](https://singularidadepoetica.art/2019/05/21/adelaide-ivanova-o-elefante/): quando johanna morreu tinha um ano e oito meses foi encontrada na piscina apertava um elefante na mão que sua mãe até hoje aperta muito embora o alzheimer lhe impeça de lembrar por que ela a mãe pulou na piscina ao ver johanna à deriva no ventinho do norte da renânia boiando na piscina que […]
- [Goliarda Sapienza - Sem título](https://singularidadepoetica.art/2019/05/20/goliarda-sapienza-sem-titulo/): Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se. Consumiu-se o incêndio. Findou-se. Fechou-se o círculo petrificado. Findou-se o tempo. Consumiu-se o delito. Queimou-se a lembrança. Cessou a angústia. Um manto de lava interditou todo crânio toda órbita esvaziada. Toda boca no grito interditou. Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar o silêncio de lava. As formigas rodeiam o fogo gasto […]
- [Ian Hamilton - Última Valsa](https://singularidadepoetica.art/2019/05/19/ian-hamilton-ultima-valsa/): De onde estamos quase que podemos identificar Os rostos destas pessoas que não conhecemos: Um semi-círculo sombreado Ao redor do enorme aparelho de TV doado Que domina nossa ala. A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre eles Iluminando Amistosos, exaustos sorrisos. E nós, Como se nos importássemos, também sorrimos. Para cada alma perdida, nesta hora tardia Um […]
- [Jaime Gil de Biedma - Depois da morte de Jaime Gil de Biedma](https://singularidadepoetica.art/2019/05/18/jaime-gil-de-biedma-depois-da-morte-de-jaime-gil-de-biedma/): No jardim, lendo, a sombra da casa tolda as páginas e o frio repentino do final de agosto faz-me pensar em ti. O jardim e a casa vizinha onde piam os pássaros nas trepadeiras, uma tarde de agosto, quando começa a anoitecer e tem-se ainda o livro nas mãos, eram, lembro-me, teu símbolo da morte. […]
- [Vicente Gaos - Homem Total](https://singularidadepoetica.art/2019/05/17/vicente-gaos-homem-total/): "Homem Total", um poema de Vicente Gaos que homenageia Lope de Vega ao revisitar suas paixões e musas, refletindo sobre a intensidade do amor, a fugacidade dos anos e a elevação espiritual que transcende os gozos e pesares da experiência humana.
- [Helena Zelic - Gaveta de Casa](https://singularidadepoetica.art/2019/05/16/helena-zelic-gaveta-de-casa/): Nossas fotos de infância boletins de nota azul três diários à chave hoje abertos duzentos milhões de pequenos museus da desimportância
- [Eugénio de Andrade - Ao fim da tarde](https://singularidadepoetica.art/2019/05/15/eugenio-de-andrade-ao-fim-da-tarde/): Ninguém esperava ver o mar naquele dia mas era o mar que estava ali, à porta naqueles olhos.
- [Giuseppe Ungaretti - Sentimento do tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/05/14/giuseppe-ungaretti-sentimento-do-tempo/): Sentimento do tempo1931 E à luz mais própria,Deixando apenas uma sombra violácea,Sobre os cimos mais baixos,A distância aberta ao alcance,Cada batida, como usa o coração,Agora escuto,Apressa-te, tempo, a por-me sobre os lábiosTeu último beijo. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sentimento del tempo1931 E per la luce giusta,Cadendo solo un ombra violaSopra il […]
- [Raymond Carver - Fragmento final](https://singularidadepoetica.art/2019/05/13/raymond-carver-fragmento-final/): E você teve o que queriadesta vida, apesar de tudo?Tive.E o que você queria?Dizer que fui amado, me sentiramado sobre a terra. Trad.: Cide Piquet Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Raymond Carver – Late Fragment And did you get whatyou wanted […]
- [Joan Margarit - Monumentos](https://singularidadepoetica.art/2019/05/12/joan-margarit-monumentos/): O vazio que sentes, cada vez com mais força,é o dos traidores.Também os monumentos, por dentro, são vazios,com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:escuros e corroídos pela história,é tão sinistro seu interiorcomo arrogante o gesto que no ardesenha a personagem.À medida que os amigos nos traem– e a morte é também uma traição […]
- [Manuel António Pina - Sérgio](https://singularidadepoetica.art/2019/05/11/manuel-antonio-pina-sergio/): Onde agora estás não alcançam o clamor dos magistrados nem a faca do assassino. A tua própria morte não te pertence já, é assunto nosso, desprovido e inerte. Que faremos nós com o teu inúmero corpo, como te diremos o que está a acontecer-te? Fechou-se qualquer coisa qualquer porta espessa e desabitada, a faca pôs […]
- [Andreia C. Faria - As mulheres têm formas mais curiosas](https://singularidadepoetica.art/2019/05/10/andreia-c-faria-as-mulheres-tem-formas-mais-curiosas/): As mulheres têm formas mais curiosas Se eu montasse um circo, em vez de elefantes teria Senhoras com os seus diferentes peitos coxas e rabos, todo o corpo fingimento, adereço Senhoras com os seus diferentes almoços, amantes e diferentes níveis de tonificação da alma, rivais dos tigres desdenhosos, dos leões emparedados Em vez de macacos […]
- [Adelaide Ivánova - pro meu amante, quando atinge a maioridade](https://singularidadepoetica.art/2019/05/09/adelaide-ivanova-pro-meu-amante-quando-atinge-a-maioridade/): “Pro meu amante, quando atinge a maioridade”, um poema de Adelaide Ivanova que entrelaça amor, memória e consciência do tempo em uma celebração agridoce do amadurecimento.
- [A. M. Pires Cabral - Não me mostres nenhum norte](https://singularidadepoetica.art/2019/05/08/a-m-pires-cabral-nao-me-mostres-nenhum-norte/): Não me mostres nenhum norte nem estradas para lá: são tudo embustes. Mostra-me antes pedras, folhas mortas de Outono atapetando o chão das matas, voos de libelinha rasando o sol poente, cândidas risadas infantis. Quero eu dizer: mostra-me coisas daquelas que se corrompem sem pressa.
- [Ian Hamilton - Lamento](https://singularidadepoetica.art/2019/05/07/ian-hamilton-lamento/): Fiz o que pude. Meus garotos correm soltos agora.Eles buscam oportunidades enquanto a mãe deles apodrece aqui.E rua acima, o homem,Meu único homem, que me tocou em todos os lugares,Desmancha-se sob a terra. Sou triste, obtusa, velha e alienada.À noite, sinto minhas mãos vagando sobre mim,Sondando meus seios, meus joelhos,As dobras do meu ventre,Vez ou […]
- [Gonçalo M. Tavares - Palavras, Atos](https://singularidadepoetica.art/2019/05/06/goncalo-m-tavares-palavras-atos/): A ironia ensina a sabotar uma frase Como se faz a um motor de automóvel: Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres No verbo ou numa letra do substantivo A frase trágica torna-se divertida, E a divertida, trágica. Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me, Desde novo, daquilo que ainda hoje […]
- [Otto Renê Castillo – Os Amantes](https://singularidadepoetica.art/2018/04/10/otto-rene-castilho-os-amantes/): "Os Amantes", um poema de Otto René Castillo que retrata um encontro breve e uma separação dolorosa, transformando o último beijo dos amantes em metáfora cósmica — um planeta azul cuja luz continua a sustentar suas vidas mesmo na ausência.
- [Charles Bukowski – Para Jane Cooney Baker, morta em 22/01/1962](https://singularidadepoetica.art/2018/04/09/charles-bukowski-para-jane-cooney-baker-morta-em-22-01-1962/): e então você se foime deixando aquinum quarto com uma cortina rasgadae o Idílio de Siegfried tocando no radinho vermelho. e então você se foi tão rápidoquanto quando você veio pra mim,e nós tínhamos dito adeus antes,e quando eu estava limpando seu rosto e lábiosvocê abriu os maiores olhos que eu já tinha vistoe disse […]
- [Manuel António Pina - Talvez de noite (1)](https://singularidadepoetica.art/2018/04/08/manuel-antonio-pina-talvez-de-noite-1/): À minha volta tudo envelheceu como se fosse eu, e no entanto uma casa, ou um espaço em branco entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido. Pois nada surge com a sua própria forma. Digo “casa”, mas refiro-me a luas e umbrais, a lembranças extenuadas, às trevas do corpo, lúcidas, latejando na obscuridade de […]
- [Francisca Aguirre – E se, depois de tudo](https://singularidadepoetica.art/2018/04/07/francisca-aguirre-e-se-depois-de-tudo/): E se, depois de tudo, fosse o resto um ir morrendo para ao fim morrermos por este louco afã de convertermo-nos em contadores de um momento lesto. E se afigura que o correto era este sermão que vem nos repetir que avança o furacão de nos ferir, e é vã e absurda esta carreira. Então […]
- [Hilda Hilst - de "Do Desejo"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/06/hilda-hilst-de-do-desejo/)
- [Yehuda Amichai – Na história do nosso amor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/05/yehuda-amichai-na-historia-do-nosso-amor/): Na história do nosso amor, um foi sempre Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo. Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado. O tempo passará por nós, como paisagens Passam por trás de atores parados em suas marcas Quando se roda um filme. As palavras Passarão por nossos lábios, até as lágrimas […]
- [Miguel Torga – Comunicado](https://singularidadepoetica.art/2018/04/04/miguel-torga-comunicado/): Na frente ocidental nada de novo. O povo Continua a resistir. Sem ninguém que lhe valha, Geme e trabalha Até cair.
- [Pedro Salinas - De "La voz a ti debida" [39]](https://singularidadepoetica.art/2018/04/03/pedro-salinas-de-la-voz-a-ti-debida-39/): A tua forma de amaré deixar-me que te queiras.O sim com que tu te rendesé o silêncio. Teus beijossão oferecer-me os lábiospara que eu possa beija-los.Jamais palavras, abraços,me dirão que existias,que me quiseste: jamais.Dizem-mo as folhas brancas,mapas, augúrios, chamadas;tu, não.E fico abraçado a tisem perguntar-te, de medoque não seja verdadeiroque tu vives e me ama.E […]
- [Júlio Mendonça - Galáxias](https://singularidadepoetica.art/2018/04/02/julio-mendonca-galaxias/)
- [Sylvia Plath – Limite](https://singularidadepoetica.art/2018/04/01/sylvia-plath-limite/): A mulher está perfeita. Seu corpo Morto enverga o sorriso de completude, A ilusão de necessidade Grega voga pelos veios da sua toga, Seus pés Nus parecem dizer: Já caminhamos tanto, acabou. Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca, Uma para cada pequena Tigela de leite vazia. Ela recolheu-as todas Em seu corpo, como pétalas Da […]
- [Manuel António Pina – Depois](https://singularidadepoetica.art/2018/03/31/manuel-antonio-pina-depois/): Primeiro sabem-se as respostas. As perguntas chegam depois, como aves voltando a casa ao fim da tarde e pousando, uma a uma, no coração quando o coração já se recolheu de perguntas e de respostas. Que coração, no entanto, pode repousar com o restolhar de asas no telhado? A dúvida agita os cortinados e nos […]
- [Mary Oliver – Como é conosco, e como é com eles](https://singularidadepoetica.art/2018/03/30/mary-oliver-como-e-conosco-e-como-e-com-eles/): Nós nos tornamos religiosos, depois nos afastamos disso, depois ficamos carentes e talvez voltemos atrás. Nos dedicamos a ganhar dinheiro, depois nos voltamos para a vida moral, depois pensamos novamente em dinheiro. Conhecemos pessoas maravilhosas, mas as perdemos para os nossos negócios. Estamos, como diz o refrão, por toda parte. A constância, aparentemente, tem mais […]
- [Laia Noguera i Clofent – Sem título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/29/laia-noguera-i-clofent-sem-titulo/): Amo a vida simples, sentar-me à entrada para ver o ir e vir das pessoas, como se move um pardal, como se inclina a tarde nas casas do corpo. Já sei que morrerei muito antes de morrerem as árvores que amo. Mas nada me preocupa, porque no instante em que se me romper o último […]
- [Nicanor Parra – Composições](https://singularidadepoetica.art/2018/03/28/nicanor-parra-composicoes/): I Cuidado, todos mentimos Mas eu proclamo a verdade. A matemática enfada Mas nos dá o de comer. Por outro lado, se escreve Poema para viver Ninguém gosta de assumir Culpa por vidros quebrados. Se escreve contra si mesmo Em virtude dos demais Que indecente é fazer versos! Quando menos se esperar Darei um tiro […]
- [Anne Sexton – A Terra Desmorona](https://singularidadepoetica.art/2018/03/27/anne-sexton-a-terra-desmorona/): Se eu pudesse culpar o clima por tudo, a neve como a mesa de dissecação, as árvores que se tornam agulhas de tricô, o chão, tão rijo como uma arinca congelada, o lago vestindo seu bigode de geada. Se eu pudesse culpar tais circunstâncias, se eu pudesse culpar os corações de estranhos descendo as ruas […]
- [Aldo Oliva – O Elevador de Hera](https://singularidadepoetica.art/2018/03/26/aldo-oliva-o-elevador-de-hera/): Dizem os insetos sensatos e sensíveis que as paredes e os grandes muros são apenas um hausto veemente conjurando o nada, o infinito. Por estes ladrilhos de não-ser ascendem, como habitáculos de fúria, os corpos corrompidos das palavras. Quem me impôs, rasgando minha inocência animal na base da minha profundidade biológica, esta ascensão conjetural? Só […]
- [Carlos Saraiva Pinto – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/25/carlos-saraiva-pinto-sem-titulo-poema/): Sem Título, um poema de Carlos Saraiva Pinto
- [José Lino Grünewald - Soneto Burocrático](https://singularidadepoetica.art/2018/03/24/jose-lino-grunewald-soneto-burocratico-poema/): Salvo melhor juízo doravante, Dessarte, data vênia, por suposto, Por outro lado, maximé, isso posto, Todavia deveras, não obstante Pelo presente, atenciosamente, Pede deferimento sobretudo, Nestes termos, quiçá, aliás, contudo Cordialmente alhures entrementes Sub-roga ao alvedrio ou outrossim Amiúde nesse ínterim, senão Mediante qual mormente, oxalá quão Via de regra te-lo-ão enfim Ipso facto outorgado, […]
- [Marcelo Montenegro - Forte Apache](https://singularidadepoetica.art/2018/03/23/marcelo-montenegro-forte-apache/): Noel Rosa dizia que era universal sem sair de seu quarto. Elvis Costello disse que o rock ‘n’ roll não morrerá porque sempre vai ter um garoto trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém nunca viu. Laura Riding, por seu turno, falava da pretensão de “escrever sobre um assunto/ que tocasse todos os assuntos/ […]
- [Charles Bukowski – Agarre o Escuro](https://singularidadepoetica.art/2018/03/22/charles-bukowski-agarre-o-escuro/): estou sentado aqui agora bêbado escutando as mesmas sinfonias que me deram a vontade de seguir em frente quando eu tinha 22 anos. 40 anos depois elas e eu já não somos mais tão mágicos. você deveria ter-me visto tão esbelto sem barriga eu era um pedaço de homem: flamejante, forte, insano. dissesse uma palavra […]
- [Antonia Pozzi – Pausa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/21/antonia-pozzi-morte-de-uma-estacao/): Parecia-me que este dia sem ti devia ser inquieto, escuro. Em vez disso está repleto de uma estranha doçura, que aumenta com o passar das horas – quase como a terra após um aguaceiro, que fica sozinha no silêncio a beber a água caída e pouco a pouco nas veias mais profundas se sente penetrada. […]
- [Marcelo Montenegro - Três Pensatos](https://singularidadepoetica.art/2018/03/20/marcelo-montenegro-tres-pensatos/): 1. penso naquela única gota gelada do chuveiro quente. Nas ilíadas clandestinas que a febre percorre até virar suor. Penso nas caretas que os músicos fazem quando estão solando. No meu pai me dizendo que tudo isso aqui era mato. Penso na imagem exata de uma aurora indecisa. Penso em calços de papelão para pianos […]
- [Ana Martins Marques – História](https://singularidadepoetica.art/2018/03/19/ana-martins-marques-historia/): Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem um história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma […]
- [Charles Bukowski – Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/03/18/charles-bukowski-um-poema-de-amor/): “Um poema de amor”, um poema de Charles Bukowski que atravessa corpos e quartos para revelar, sob a crueza do desejo, a necessidade humana de afeto que sustenta e inquieta.
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Os Erros](https://singularidadepoetica.art/2018/03/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-2/): A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a […]
- [Ricardo Domeneck – Doentes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ricardo-domeneck-doentes/): Doentes. Nós, todos doentes. Há tanto doentes todos. Nós. Pungidos, conquanto impunes. Não, não impunes. Não se constrói impune a casa sobre covas. Não se ergue o prédio em grão-cemitério. Não sem velar e lavar carinhosos e doridos os ossos e os dentes. Não impunes. Doentes de cada gota derramada. Por nós ou avós. Os […]
- [Ana Martins Marques – a parte que me cabe](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ana-martins-marques-a-parte-que-me-cabe/): a parte do teu corpo que procura pelo sol como os gatos pela casa a parte que permanece imóvel quando cantas, aquela que se move quando estás parado a parte que apenas a mim e de relance, por descuido revelaste a parte onde guardas as memórias de infância, a parte que ainda anseia pelo futuro […]
- [Charles Bukowski – Os Gênios da Raça](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/charles-bukowski-os-genios-da-raca/): não há nada a discutir não há nada a lembrar não há nada a esquecer é triste e não é triste parece que a coisa mais sensata que uma pessoa pode fazer é se sentar com uma bebida na mão enquanto as paredes acenam seus sorrisos de adeus alguns passam por tudo isso com uma […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Escuto](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-escuto/): Escuto mas não sei Se o que ouço é silêncio Ou deus Escuto sem saber se estou ouvindo O ressoar das planícies do vazio Ou a consciência atenta Que nos confins do universo Me decifra e fita Apenas sei que caminho como quem É olhado, amado e conhecido E por isso em cada gesto ponho […]
- [Charles Bukowski – Outra Cama](https://singularidadepoetica.art/2018/03/14/charles-bukowski-outra-cama/): outra cama outra mulher mais cortinas outro banheiro outra cozinha outros olhos outro cabelo outros pés e dedos. todos à procura. a busca eterna. você fica na cama ela se veste para o trabalho e você se pergunta o que aconteceu à última e à outra antes dela… é tudo tão confortável — esse fazer […]
- [Eloy Sánchez Rosillo - Aviso aos Caminhantes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/13/eloy-sanchez-rosillo-aviso-aos-caminhantes/): Na soma de dias indeterminados que a vida dá ao homem, talvez exista um em que o destino, trágico e belo, passe ao nosso lado e o acaso acenda uma insólita luz, um incomum fulgor inconfundível. Mas não hesites. Tem coragem, quando chegar o momento, de abandonares as coisas com que os hábitos sempre te […]
- [Marcia Vinci – Mãe Solteira](https://singularidadepoetica.art/2018/03/12/marcia-vinci-mae-solteira/): dadeira parideira nutriz criadeira toda mãe é sozinha toda mãe é solteira
- [Vicente Gaos - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2018/03/11/vicente-gaos-testamento/): Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil anos de idade, de estado civil solitário, instável domiciliado/refugiado em um canto do cosmos, profissão náufrago na sombra, sem documento de identidade, sem títulos, condecorações nem diplomas de qualquer tipo, nenhum sinal particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo, sem nenhuma cicatriz além […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Perdão, falava em voz alta](https://singularidadepoetica.art/2018/03/10/ernesto-perez-vallejo-perdao-falava-em-voz-alta/): Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguém Nunca poderão decepcioná-la. A esperança é aquele relógio que sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezes como diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes. Mas, quando tristes, […]
- [Javier Salvago - Fim de Festa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/09/javier-salvago-fim-de-festa/): Enfim sós, vida. A festa acabou e não há mais ninguém que possa nos obrigar a forçar sorrisos, ou a inventar incômodas mentiras piedosas. Todos sumiram. Despe-te sem medo. Conheço as velhas rugas de tua carne triste. Acariciei-as. Sei o que teu rosto oculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncio […]
- [Luis Cernuda – No Meio da Multidão](https://singularidadepoetica.art/2018/03/08/luis-cernuda-no-meio-da-multidao/): Em meio à multidão a vi passar, com seus olhos tão dourados quanto seus cabelos. Caminhava cortando o ar e os corpos; uma mulher se ajoelhou em seu caminho. Senti como o sangue desertava de minhas veias gota a gota. Vazio, andei sem rumo pela cidade. Gente estranha passava a meu lado sem me ver. […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Insônia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/07/luis-alberto-de-cuenca-insonia/): A vida dura muito pouco. Não dá tempo de se fazer nada. Não há meios de reunir dias suficientes para aprender algo. Levantas, abraças tua namorada, tomas teu café da manhã, trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema, e nem sequer tens um momento para ler Sêneca e acreditar que tudo neste mundo tem conserto. A […]
- [Charles Bukowski – Até](https://singularidadepoetica.art/2018/03/06/charles-bukowski-ate/): Nós temos que viver com a perda e talvez jogar com uma mão de cartas ruim e nós sabemos o tempo todo qual é o placar. Nós o suportamos como Hemingway ou o descartamos como Camus mas nós sabemos nós sabemos. É assim que funciona e damos corda no relógio e esperamos pela madrugada ou […]
- [Manuel António Pina - Sétimo Dia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/05/manuel-antonio-pina-setimo-dia/): Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua morte para a nossa vida como quem regressa a casa de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países, e agora é como se te tivéssemos sonhado. A voz que, diante da escuridão, suspendemos quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti erguemo-la de […]
- [A. M. Pires Cabral – Pirilampos III](https://singularidadepoetica.art/2018/03/04/a-m-pires-cabral-pirilampos-iii/): Mas também estes negadores das trevas desertaram: Já não se vêem pirilampos, o seu lume deixou de desmentir a escuridão. Apagaram a lanterna, retiraram para um lugar qualquer onde talvez já não valha a pena alumiar – algures entre o frio e o esquecimento (se é que frio e esquecimento não são nomes alternativos da […]
- [Josep M. Rodríguez - Primeira Visita ao Zoológico](https://singularidadepoetica.art/2018/03/03/josep-m-rodriguez-primeira-visita-ao-zoologico/): Tinha doze anos e a minha mãe me presenteava com um mundo só para mim: – Se a tristeza fosse um animal? – Se a tristeza fosse um animal… seria um besouro. E dizia-lhe então que havia dias em que esse besouro fabricava uma bola muito grande na minha garganta. Os olhos da minha mãe […]
- [Joaquín Benito de Lucas – Elegia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/02/joaquin-benito-de-lucas-elegia/): Quando agora retorno à minha cidade, não posso conter a emoção de saber que não me esperam. Não me espera meu pai, que desceu rio abaixo muito lentamente entre os juncos, sob pontes de névoa. Não me espera meu irmão, que me esperava sempre ao lado de um balcão qualquer, em uma rua qualquer brindando […]
- [Rosario Castellanos - Destino](https://singularidadepoetica.art/2018/03/01/rosario-castellanos-destino/): Matamos o que amamos. O resto nunca esteve vivo. Ninguém está tão perto. A nenhum outro fere um esquecimento, uma ausência, às vezes menos. Matamos o que amamos. Que cesse esta asfixia de respirar por um pulmão distante! O ar não é suficiente para os dois. E não basta a terra para os corpos juntos […]
- [Charles Bukowski – O Matador Sorri](https://singularidadepoetica.art/2018/02/28/charles-bukowski-o-matador-sorri/): as antigas namoradas ainda telefonam algumas do ano passado algumas do ano retrasado algumas de anos atrás é bom poder por um fim nas coisas que não funcionam também é bom não odiar ou mesmo esquecer a pessoas com quem você falhou. aprecio quando elas me dizem que estão tendo sorte com um homem sorte […]
- [Carlos Alberto Machado – Chegaste à Idade da Morte](https://singularidadepoetica.art/2018/02/27/carlos-alberto-machado-chegaste-a-idade-da-morte/): Chegaste à idade da morte dos teus amigos também agora começas a distingui-los cai um e depois outro e tu apressas o passo desta vez vais discutir o terreno palmo a palmo não saberias o que fazer se a solidão se despovoasse.
- [Albano Martins – A Dor](https://singularidadepoetica.art/2018/02/26/albano-martins-a-dor/): Não ponhas o dedo na ferida. Deixa a dor respirar em segredo. L delor Nun pongas l dedo na frida. Deixa l delor ceçar an segredo.
- [Germana Zanettini - Leia Antes de Usar](https://singularidadepoetica.art/2018/02/25/germana-zanettini-leia-antes-de-usar/): não, aqui não há lugares reservados [de antemão já lhe adianto: nem adianta olhar para os lados] o ambiente não é climatizado os assentos não são flutuantes e máscaras de oxigênio não cairão sobre suas cabeças para sua segurança e conveniência informamos que a vida não vem equipada com saídas de emergência
- [Margareta Ekström - O Funeral](https://singularidadepoetica.art/2018/02/24/margareta-ekstrom-o-funeral/): Na noite do funeral eles abraçaram-me, beijaram-me, mesmo esses que habitualmente não beijam. Apoiaram-me e perguntaram se precisava de soporíferos, estimulantes, um xerez ou companhia para a noite. Cada noite é um funeral mas ninguém vem para me abraçar. Ninguém pergunta como as coisas vão se preciso de companhia para a noite, um xerez, um […]
- [Juan Luis Panero - Epitáfio diante de um Espelho](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-luis-panero-epitafio-diante-de-um-espelho/): Dura há de ser a vida para ti, que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez, para ti, cuja única certeza é tua memória e, por isso, teu sepulcro mais infausto. Dura há de ser a vida, quando os anos passarem e destruírem por fim a ilusória pátria da tua adolescência, quando vires, como hoje, […]
- [Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-vicente-piqueras-nomes-borrados/): A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiosnem os pronomes nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o […]
- [Diego Moraes - Já se passaram dez anos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/22/diego-moraes-ja-se-passaram-dez-anos/): Já se passaram dez anos Acabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal que seu tio ficou bêbado de vinho dom bosco e disse na frente dos filhos e da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaro em Londres Já se passaram dez anos Os poemas que escrevi quando […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/21/luis-alberto-de-cuenca-abre-todas-as-portas/): Abre todas as portas, a que conduz ao ouro, a que leva ao poder, a que esconde o mistério do amor; a que oculta o segredo insondável da felicidade, a que a vida te oferta para sempre no gozo de uma visão sublime. Abre todas as portas, sem te mostrares curioso, nem dar importância às […]
- [Jorge de Sena - Suma Teológica](https://singularidadepoetica.art/2018/02/20/jorge-de-sena-suma-teologica/): Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram navios no alto mar, quando nasci. Nada mudou. Continuaram as guerras; continuou a subir o preço do pão; continuaram os poetas, uma vez por outra, a perguntar por ti. É certo que, então, imensa gente envelheceu instantânea e misteriosamente. Mas até isso, meu amor, se não sabe […]
- [Ángel González - Todos vocês parecem felizes...](https://singularidadepoetica.art/2018/02/19/angel-gonzalez-todos-voces-parecem-felizes/): … e sorriem, às vezes, quando falam. E até dizem uns aos outros palavras de amor. Mas amam-se de dois em dois para odiar de mil em mil. E guardam toneladas de asco por cada milímetro de felicidade. E parecem – nada mais que parecem – felizes, e falam com o fim de ocultar essa […]
- [Maria Teresa Horta - Poema sobre a Recusa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/18/maria-teresa-horta-poema-sobre-a-recusa/): Como é possível perder-te sem nunca te ter achado nem na polpa dos meus dedos se ter formado o afago Sem termos sido a cidade nem termos rasgado pedras sem descobrirmos a cor nem o interior da erva Como é possível perder-te sem nunca te ter achado minha raiva de ternura meu ódio de conhecer-te […]
- [César Cantoni - O Tempo Irreparável](https://singularidadepoetica.art/2018/02/17/cesar-cantoni-o-tempo-irreparavel/): Quem, então, poderia imaginar? O certo é que meu pai está morto como se nunca houvesse estado vivo. Um dia gelaram suas mãos e os pés, e a casa se encheu de parentes, e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito. Ainda lembro. Meu pai está morto ou já não existe, e não é […]
- [Mário Cesariny - Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/02/16/mario-cesariny-lembra-te/): Lembra-te que todos os momentos que nos coroaram todas as estradas radiosas que abrimos irão achando sem fim seu ansioso lugar seu botão de florir o horizonte e que dessa procura extenuante e precisa não teremos sinal senão o de saber que irá por onde fomos um para o outro vividos
- [Gonçalo M. Tavares - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/15/goncalo-m-tavares-os-mortos/): Não há mortos que morram tanto como os nossos. Se um daqueles que nos pertence morre sete ou setenta vezes no coração, de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data, e os que sempre viveram longe morrem-nos metade ou um oitavo. E metade de uma morte é quase nada, são casas decimais […]
- [Charles Bukowski – Foda](https://singularidadepoetica.art/2018/02/14/charles-bukowski-foda/): foda ela tirou o vestido por sobre a cabeça e eu vi a calcinha um tanto enterrada em suas carnes. é simplesmente humano. agora teremos que fazê-lo. eu terei que fazê-lo depois de todo esse logro. é como uma festa – dois idiotas numa cilada. debaixo dos lençóis depois que apaguei as luzes suas calcinhas […]
- [Isabel Bono - O Futuro Acabará Chegando](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/isabel-bono-o-futuro-acabara-chegando/): perdemos tempo ordenando em um álbum as fotos do verão para olhá-las algum dia com nostalgia guardamos bolinhas de gude pedras livros cartas poemas adiamos assim a felicidade, a vida ainda não sei por quê ainda não sei para quando Trad.: Nelson Santander Isabel Bono – El Futuro Acabará por Llegar malgastábamos el tiempo ordenando […]
- [José Lino Grünewald – Sombra (1957)](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/jose-lino-grunewald-sombra-1957/)
- [Mário Dionísio – Elegia ao Companheiro Morto](https://singularidadepoetica.art/2018/02/12/mario-dionisio-elegia-ao-companheiro-morto/): Meu companheiro morreu às cinco da manhã Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã Ah antes fosse noite noite apenas noite sem a promessa da manhã Ah antes fosse noite noite noite apenas noite e não houvesse em tudo a promessa da manhã Deitado para sempre às cinco da […]
- [Alberto Caeiro - Poema XLIII ("Antes o voo da ave")](https://singularidadepoetica.art/2018/02/11/alberto-caeiro-poema-xliii-antes-o-voo-da-ave/): Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto, Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. A ave passa e esquece, e assim deve ser. O animal, onde já não está e por isso de nada serve, Mostra que já esteve, o que não serve para nada. A recordação é […]
- [Bruna Kalil - Paleativa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/10/bruna-kalil-paleativa/): Você é rebelde só da cintura para baixo 1984, George Orwell busco prazer sendo profana para que o físico compense o descompasso do meu interior tão triste e tão mole. fujo dos sentimentos justamente por ter a plena consciência de que sou sentimental dem- ais. tenho medo, pavor, fobia de apaixonar-me outra vez, dói […]
- [Rui Pires Cabral - Cartas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/09/rui-pires-cabral-cartas/): Escreves-me cartas, sou o destinatário da tua solidão. E sempre compreendo tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge as entrelinhas de um branco desespero que é tanto teu como meu: não tens quem te salve, envelheceste, trataste mal de um jardim que não chegou a vingar. Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade […]
- [Gil T. Sousa - Maré](https://singularidadepoetica.art/2018/02/08/gil-t-sousa-mare/): quando a maré se afasta é possível escrever tudo outra vez
- [Jorge Luis Borges - A Chuva](https://singularidadepoetica.art/2018/02/07/jorge-luis-borges-a-chuva/): A tarde subitamente clareou Porque já cai a chuva minuciosa. Ou caiu. A chuva é coisa curiosa Que acontece no tempo que passou. Quem a ouve cair já recobrou O tempo em que a fortuna venturosa Revelou-lhe uma flor chamada rosa E a encarnada cor com que se corou. Que esta chuva que já cega […]
- [César Cantoni - Álbum de Família](https://singularidadepoetica.art/2018/02/06/cesar-cantoni-album-de-familia/): Morreu meu pai, morreram meus avós, morreram meus tios de sangue e por afinidade. Uma família inteira de ferreiros, marceneiros, curtidores, pedreiros, jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos, o que não sabe fazer nada com as mãos, logrei sobreviver impunemente para chorar diante de uma foto o […]
- [Octavio Paz - Antes do Começo](https://singularidadepoetica.art/2018/02/05/octavio-paz-antes-do-comeco/): Ruídos confusos, claridade incerta. Outro dia começa. Um quarto em penumbra e dois corpos estendidos. Em minha fronte me perco numa planície vazia. E as horas afiam suas navalhas. Mas a meu lado tu respiras; íntima e longínqua fluis e não te moves. Inacessível se te penso, com os olhos te apalpo, te vejo com […]
- [Hagar Peeters - Esta Noite Cruzei-me com meus Pais](https://singularidadepoetica.art/2018/02/04/hagar-peeters-esta-noite-cruzei-me-com-meus-pais/): Esta noite cruzei-me com os meus pais, duas sombras pálidas reciprocamente atraídas, à luz branca de um candeeiro. Tendo em conta a felicidade demonstrada, eu ainda não era nascida. Eram jovens e muito apaixonados. Uma grande tristeza anuviou-me porque eu sabia a continuação da história. Ela soltava gargalhadas por causa de algo que ele lhe […]
- [Fernando Sabino - Certeza](https://singularidadepoetica.art/2018/02/03/fernando-sabino-certeza/): De tudo, ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando. A certeza de que precisamos continuar. A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança. Do medo, uma escada. Do sonho, uma ponte. Da procura, um encontro.
- [António Franco Alexandre - Quero dizer-te: não morras](https://singularidadepoetica.art/2018/02/02/antonio-franco-alexandre-quero-dizer-te-nao-morras/): quero dizer-te: não morras. Nem me digas quem és, quem foste, como sabes a língua que se fala sobre a terra. Ao lume lanço toda a vontade de viver, ser vivo, a cautela do ar, ardendo em torno. Passarei, terás passado em mim, só quero dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.
- [Carlos Edmundo de Ory – Dá-me](https://singularidadepoetica.art/2018/02/01/carlos-edmundo-de-ory-da-me/): dá-me algo mais que silêncio ou doçura algo que tenhas e não saibas não quero dádivas raras dá-me uma pedra não fiques imóvel fitando-me como se quisesses dizer que há muitas coisas mudas ocultas no que se diz dá-me algo lento e fino como uma faca nas costas e se nada tens para dar-me dá-me […]
- [António Reis – Mudamos esta Noite](https://singularidadepoetica.art/2018/01/31/antonio-reis-mudamos-esta-noite/): Mudamos esta noite E como tu eu penso no fogão a lenha e nos colchões onde levar as plantas e como disfarçar os móveis velhos Mudamos esta noite e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam e que os filhos dormem sempre nos quartos onde nascem Vai descendo tu Eu só quero ouvir os […]
- [Luljeta Lleshanaku – O Mistério das Orações](https://singularidadepoetica.art/2018/01/30/luljeta-lleshanaku-o-misterio-das-oracoes/): Na minha família as orações eram rezadas secretamente, em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor; quase murmuradas, com um suspiro no princípio e no fim, fino e limpo como uma gaze. Junto à casa havia apenas uma escada para subir, de madeira, encostada à parede o ano inteiro, de modo a reparar o […]
- [Albano Martins – Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/01/29/albano-martins-lembra-te/): Leia "Lembra-te", de Albano Martins, um poema breve e intenso sobre memória, passagem do tempo e os caminhos inevitáveis da existência.
- [Ana Goês - Convida-me só para jantar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/ana-goes-convida-me-so-para-jantar/): E não queiras depois fazer amor. Convida-me só para jantar num restaurante sossegado numa mesa de canto e fala devagar e fala devagar eu quero comer uma sopa quente não quero comer mariscos os mariscos atravancam-me o prato e estou cansada para os afastar fala assim devagar devagar não é preciso dizeres que sou bonita […]
- [Chacal – EXP](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/chacal-exp/)
- [Sylvia Plath - Achava que não Podia ser Magoada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/sylvia-plath-achava-que-nao-podia-ser-magoada/): Achava que não podia ser magoada; achava que com certeza era imune ao sofrimento — imune às dores do espírito ou à agonia. Meu mundo tinha o calor do sol de abril Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro. Minha alma em êxtase, ainda assim conheceu a dor suave e aguda que só o prazer […]
- [Anatol Knotek – Time is running out](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/anatol-knotek-time-is-running-out/)
- [César Cantoni - O mais digno em nós](https://singularidadepoetica.art/2018/01/26/cesar-cantoni-o-mais-digno-de-nos/): Eu sempre pensei que os ossos, com seu brilho mineral de pedra polida pela chuva, são o que há de mais digno em nós: sobrevivem largamente à putrefação indecorosa da carne e não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander César Cantoni – Lo más digno de nosotros Siempre pensé […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Terror de te Amar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/25/sophia-de-mello-breyner-andresen-terror-de-te-amar/): Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. […]
- [Mario Benedetti - Angelus](https://singularidadepoetica.art/2018/01/24/mario-benedetti-angelus/): Quem me diria que o destino era isso Vejo a chuva através de letras invertidas Uma parede com manchas que parecem homens Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes E essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu, Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braços E uma cadeira […]
- [Hilda Hilst - Obriga-me](https://singularidadepoetica.art/2018/01/23/hilda-hilst-obriga-me/): E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo, prazer, lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de […]
- [Charles Bukowski - A Retirada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/22/charles-bukowski-a-retirada/): desta vez o negócio acabou comigo. me sinto como as tropas alemãs açoitadas pela neve e pelos comunistas caminhando curvadas as botas gastas forradas com papel jornal. minha condição é tão terrível quanto. talvez até pior. a vitória estava tão perto a vitória estava logo ali. enquanto ela estava ali diante de meu espelho mais […]
- [Paola Rodrigues - Vida Lúcida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/21/paola-rodrigues-vida-lucida/): Assim como ninguém explicou o início As ondas continuam a chegar na costa Tudo corre sempre em direção ao fim Os copos caem e as cidades se amontoam em nossas costas Amar o perdido deixa confundido este coração Ainda que os dias continuem a nascer Os ônibus andem, os outros durmam Meus pés tropeçam em […]
- [Mikhail Svetlov - Dois](https://singularidadepoetica.art/2018/01/20/mikhail-svetlov-dois-poema/): Dois, um poema de Mikhail Svetlov
- [Miquel Martí i Pol - No ano que vem](https://singularidadepoetica.art/2018/01/19/miquel-marti-i-pol-no-ano-que-vem/): No ano que vem já ninguém reparará em nós. Agora somos recém-chegados e fitam-nos com desprezo até mesmo os que andam por cá há quarenta anos e já nada os muda. Temos um ar aturdido e tenaz que faz rir as mulheres e quase nem nos atrevemos a mexer a cabeça por temor a perder […]
- [Manuel de Freitas - "Pela manhã o gato..."](https://singularidadepoetica.art/2018/01/18/manuel-de-freitas-pela-manha-o-gato/): Pela manhã o gato estende-se vagaroso nesse impreciso lugar em que luz e sombra se entretecem. Nas pedras rondantes do que sempre chamámos a nossa casa, esse sonho de irmos por detrás das janelas encarcerados nas agrestes paredes do amor. Todas as manhãs, enquanto a escola me espera, o gato é tão certo como os […]
- [César Cantoni - Uma Arte Invisível](https://singularidadepoetica.art/2018/01/17/cesar-cantoni-uma-arte-invisivel/): O poeta caminha nu pelas ruas, mas ninguém o vê. O poeta vai ao cinema, desvia de putas, anda de ônibus, sempre nu, mas as pessoas olham para outro lado. O poeta não tem meios de chamar a atenção porque a poesia é uma arte invisível. A poesia se escreve sem palavras. Trad.: Nelson Santander […]
- [Carlos Marzal – Estranha Forma de Vida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/16/carlos-marzal-estranha-forma-de-vida/): A Vicente Gallego Sob a bigorna de fogo que o sol de agosto acende no muro caiado, derretem-se as pétalas de uma sedenta buganvília grená. Que estranha esta beleza moribunda, esta desaforada desnudez grandiosa, esta sílaba breve do milagre. Trad.: Inês Dias Carlos Marzal – Extraña Forma de Vida Bajo el yunque de […]
- [Billy Collins – Pardal de Natal](https://singularidadepoetica.art/2018/01/15/billy-collins-pardal-de-natal/): A primeira coisa que ouvi esta manhã foi um rápido bater de asas, suave, insistente – asas contra vidro, como se percebeu depois, lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro agitando-se na moldura de uma janela alta, tentando lançar-se através do enigma de vidro até a ampla luz. E então um ruído na garganta […]
- [Ana Hatherly - A Verdadeira Mão](https://singularidadepoetica.art/2018/01/14/ana-hatherly-a-verdadeira-mao/): A verdadeira mão que o poeta estende não tem dedos: é um gesto que se perde no próprio ato de dar-se O poeta desaparece na verdade da sua ausência dissolve-se no biombo da escrita O poema é a única a verdadeira mão que o poeta estende E quando o poema é bom não te aperta […]
- [Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ines-lourenco-balada-dos-amores-dificeis/): Não me refiro aos trágicos Romeu e Julieta Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-me aos que se buscam sem saber nada do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavos e convexos se combinam cruzando genes e transitórios tempos […]
- [Ana Martins Marques - Religião](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ana-martins-marques-religiao/): ‘If I were called in to construct a religion I should make use of water’ – Philip Larkin Inaugurar uma religião: adorar os pontos em que se formam as estações do ano os gestos de desnudar-se o dia depois da chuva a distância: entre uma árvore e outra árvore, entre cidades com o mesmo nome […]
- [Inês Lourenço – As Coisa que Cessam](https://singularidadepoetica.art/2018/01/12/ines-lourenco-as-coisa-que-cessam/): Tanto desprezo pelo que é transitório e finito. Não servirei senhor que possa morrer. Mas passamos a vida a amar todas as fragilidades das coisas que cessam. Há coisa mais breve do que um sorriso? Coisa mais curta que a alegria de um reencontro? Tudo o que amamos é passageiro e frágil ou as duas […]
- [Amalia Bautista – O Anjo Perplexo](https://singularidadepoetica.art/2018/01/11/amalia-bautista-o-anjo-perplexo/): Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, nem ídolo que proteja, nem oração que console; nunca houve milagres ou maravilhas, nem a salvação da alma, nem a vida eterna; nem palavras mágicas, nenhum bálsamo eficaz contra a dor que não desaparece nunca; nem luz do outro lado das sombras, nem saída do túnel, nem esperança. […]
- [Mario Quintana – Envelhecer](https://singularidadepoetica.art/2018/01/10/mario-quintana-envelhecer/): Antes, todos os caminhos iam. Agora todos os caminhos vêm. A casa é acolhedora, os livros poucos. E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
- [Amalia Bautista – Agora](https://singularidadepoetica.art/2018/01/09/amalia-bautista-agora/): Agora que a estrada que devo percorreré um viaduto por sobre uma rodoviado qual dá medo de olhar, porque o abismoimplacável me chama.Agora que morreu a esperançacomo um pássaro jogado de seu ninhopor irmãos mais fortes.Agora que é noite todo dia,inverno todo anoe as semanas só têm segundas-feiras,para onde olhar, para onde voltar os olhos,que […]
- [Marina Tzvietáieva – Você me Amava](https://singularidadepoetica.art/2018/01/08/marina-tsvietaieva-voce-me-amava-poema/): Você me Amava, um poema de Marina Tsvetáieva
- [Merrit Malloy - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2020/03/02/merrit-malloy-epitafio/): Quando eu morrerDoa o que restar de mimÀs criançasE aos idosos que esperam para morrer. E se precisares chorar,Chora por teu irmãoQue caminha pela rua ao teu lado.E quando precisares de mim,Põe teus braçosEm volta de alguémE dá-lhe o que tens a me oferecer. Quero deixar-te algo,Algo melhorQue palavrasOu sons. Busca por mimNas pessoas que […]
- [José Emílio Pacheco - Crianças e adultos](https://singularidadepoetica.art/2020/03/01/jose-emilio-pacheco-criancas-e-adultos/): Aos dez anos, acreditavaque o mundo era dos adultos.Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,ir aonde quisessem.Sobretudo, nos esmagar com seu poder indomável. Agora sei, por vasta experiência, o lugar-comum:em verdade, não há adultos,apenas crianças envelhecidas. Desejam o que não têm:o brinquedo do outro.Sentem medo de tudo.Obedecem sempre a alguém.Não governam a própria existência.Choram por […]
- [Juan Vicente Piqueras - Papoulas](https://singularidadepoetica.art/2020/02/29/juan-vicente-piqueras-papoulas/): No antigo campo de batalha onde morreram milhares de meninos cresce novamente o trigo, salpicado aqui e ali de ardentes papoulas. E dois amantes, que terão mais ou menos a idade dos soldados que aqui então morreram, hoje fazem amor no semeado. Deitam o trigo. Calcam as papoulas. Trad.: Nelson Santander Amapolas Sobre el antiguo […]
- [Louise Glück - Outubro](https://singularidadepoetica.art/2020/02/28/louise-gluck-outubro/): 1. É inverno outra vez, faz frio outra vez, Frank não escorregou no gelo, ele não se curou, não se plantaram as sementes da primavera a noite não terminou, o gelo derretido não inundou as calhas estreitas meu corpo não foi resgatado, não era seguro não se formou a cicatriz, invisível sobre a lesão terror […]
- [Raquel Lanseros - A propósito de Eros](https://singularidadepoetica.art/2020/02/27/raquel-lanseros-a-proposito-de-eros/): De todas as terrenas servidões que aprisionam meu afã neste cárcere confesso-me devedora da carne e de todos os seus íntimos vaivéns que me fazem mais feliz e menos livre. Às vezes, porém, a escravidão se mostra soberana e me sinto senhora do destino. Porque sei amar, porque provei da fruta e nunca maldisse o […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - O material do relâmpago](https://singularidadepoetica.art/2020/02/26/jorge-valdes-diaz-velez-o-material-do-relampago/): Calculaste em detalhes cada passo, sutil, há muitos séculos. Finalmente teu marido viajou e as crianças foram dormir com os avós. Estás agora sozinha e eufórica voltaste-te a se maquiar e vestiste-te de preto rigoroso e perfumaste tua mínima porção de lingerie. Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada te fará voltar atrás. Olhas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Dentaduras duplas](https://singularidadepoetica.art/2020/02/25/carlos-drummond-de-andrade-dentaduras-duplas/): Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos… Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. (Coroas sem reino, os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura, dentadura múltipla, a serra mecânica, sempre desejada, jamais possuída, que acabará com o tédio da boca, a boca que beija, a boca […]
- [T. S. Eliot - A Viagem dos Magos](https://singularidadepoetica.art/2020/02/24/t-s-eliot-a-viagem-dos-magos/): “Foi um frio que nos colheu Na pior quadra do ano Para uma viagem, e longa era a viagem: Os caminhos enlameados e o tempo adverso Em pleno coração do inverno.” E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis, Jaziam em meio à neve derretida. Foram momentos em que recordamos Os palácios estivais sobre […]
- [Blas de Otero - Ímpeto](https://singularidadepoetica.art/2020/02/23/blas-de-otero-impeto/): Mas nem tudo há de ser ruína e vazioE nem tudo escombro ou descongelação.Por cima deste ombro levo o céu,e por cima deste outro, um vasto rio de entusiasmo. E meu corpo no meio,árvore luzente gritando do chão.E, entre raízes mortais, sofreguidão,meu coração desperto, raio sombrio. Somente o anseio me vence. Mas avançosem duvidar, sobre […]
- [Mary Oliver - O quarto signo do zodíaco](https://singularidadepoetica.art/2020/02/22/mary-oliver-o-quarto-signo-do-zodiaco/): 1. Porque eu deveria ter ficado surpresa? Caçadores percorrem a floresta sem um som. O caçador, armado com seu rifle, a raposa com seus pés de seda, a serpente em seu império de músculos — todos se movem em silêncio, famintos, cuidadosos, atentos. Exatamente como o câncer entrou na floresta do meu corpo, sem um […]
- [Robert Hayden - Aqueles domingos de inverno](https://singularidadepoetica.art/2020/02/21/robert-hayden-aqueles-domingos-de-inverno/): Também aos domingos meu pai acordava cedo e vestia suas roupas no frio azul escuro, depois, com as mãos rachadas doloridas do trabalho no tempo durante a semana, ele fazia os fogos empilhados arderem. Ninguém nunca o agradeceu. Eu acordava e ouvia o frio se partindo em fragmentos. Quando as salas ficavam aquecidas, ele me […]
- [Marisa de la Peña - O tempo que nos resta](https://singularidadepoetica.art/2020/02/20/marisa-de-la-pena-o-tempo-que-nos-resta/): “Somos o tempo que nos resta” J. M. Caballero Bonald. É isso o que somos: o tempo que nos resta, o último batimento interrompido, a palavra não dita, o deserto cruzado, e o caminho sem nome que deixamos para trás. Somos o abandono, a intempérie, as luzes apagadas, e as portas, fechadas para sempre, ao […]
- [Ricardo Aleixo - Geral](https://singularidadepoetica.art/2020/02/19/ricardo-aleixo-geral/): O jo go é tão sujo e você (entre bis onho e biz arro) torce justo para o juiz?
- [André Vallias - as instituições estão funcionando](https://singularidadepoetica.art/2020/02/18/andre-vallias-as-instituicoes-estao-funcionando/)
- [Rubén Darío - Quando vieres a amar](https://singularidadepoetica.art/2020/02/17/ruben-dario-quando-chegares-a-amar/): "Quando vieres a amar", um poema de Rubén Darío que apresenta o amor como experiência paradoxal de luz e sombra, felicidade e dor, afirmando sua natureza inevitável e a impossibilidade de viver plenamente sem ele.
- [Juan Vicente Piqueras - Ristorante dal 1882–](https://singularidadepoetica.art/2020/02/16/juan-vicente-piqueras-ristorante-dal-1882/): Ristorante dal 1882–leio no cardápio e me ponho a pensarque numa noite, há mais de um século,numa noite igual a esta,houve um grupo de amigos que aqui jantou,como nós fazemos agora,e riram, conversaram, passaram o sal,mais ou menos felizes, fugazes, encantadosde estarem juntos rindocomo nós fazemos agora,e que nenhum deles vive maise agora somos nós,os […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - O primeiro homem](https://singularidadepoetica.art/2020/02/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-o-primeiro-homem/): Era como uma árvore da terra nascida Confundindo com o ardor da terra a sua vida, E no vasto cantar das marés cheias Continuava o bater das suas veias. Criados à medida dos elementos A alma e os sentimentos Em si não eram tormentos Mas graves, grandes, vagos, Lagos Refletindo o mundo, E o eco […]
- [Alfonso Brezmes - Notas marginais](https://singularidadepoetica.art/2020/02/14/alfonso-brezmes-notas-marginais/): Leia "Notas marginais", de Alfonso Brezmes, um poema delicado sobre memória, releitura e as transformações silenciosas provocadas pelo tempo.
- [Wislawa Szymborska - Para o meu próprio poema](https://singularidadepoetica.art/2020/02/13/wislawa-szymborska-para-o-meu-proprio-poema/): Na melhor das hipóteses, meu poema, você será lido atentamente, comentado e lembrado. Na pior das hipóteses somente lido. Terceira possibilidade – embora escrito, logo jogado no lixo. Você pode se valer ainda de uma quarta saída – desaparecer não escrito murmurando satisfeito algo para si mesmo. Trad.: Regina Przybycien Do własnego wiersza W najlepszym […]
- [Carlos Montemayor - Memória](https://singularidadepoetica.art/2020/02/12/carlos-montemayor-memoria/): Estou aqui, em casa, a sós.Aqui estão os móveis, o ar, os ruídos.Tenho um sentimento tão transparentequanto a vidraça de uma janela.É como a janela pela qual olhava a neve ao amanhecer,há muitos anos, quando criança,e colava o rosto contra o vidro e compreendia toda a vida.É um desejo calmo, como a tarde.É estar como […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - S.T.T.R. Sit Tibi Terra Levis](https://singularidadepoetica.art/2020/02/11/jorge-valdes-diaz-velez-s-t-t-r-sit-tibi-terra-levis/): Hoje lembro os mortos da minha casaOctavio Paz De todos os nossos mortos, jamais esqueceremoso primeiro. O meu habita a raiz do outono,sob os álamos. Sua memóriame oferece uma murta enquanto se inclinacom os braços abertos de outros dias. Lembrode sua estatura nas sombras, prestes a afastar-sedo espelho, seu rosto velado, o ornamentodas obstinadas lições […]
- [Gonçalo M. Tavares - O idiota](https://singularidadepoetica.art/2020/02/10/goncalo-m-tavares-o-idiota/): Os irmãos com saúde,os meus pais vivos,um pouco deprimidos, mas lúcidos e vivos.Uma mulher que me espera à porta, e sorri,um bebê com um ano e meio, uma rapariga, vem aí outra;quando regresso a minha mulher recebe-me a sorrir com uma barriga grande. Um café, outro,o caderno preto à minha frente, o tempo,nada para fazer a não ser […]
- [T. E. Hulme - Outono](https://singularidadepoetica.art/2020/02/09/t-e-hulme-outono/): Um fio de frio na noite outonal —Fui para o quintalE vi a lua rubra inclinar-se sobre o folharalComo um rancheiro de rosto rosado.Não parei para falar, mas dei aval,E ao redor estavam as tristes estrelasCom pálidas faces como crianças da cidade. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e […]
- [Charles Simic - O dicionário](https://singularidadepoetica.art/2020/02/08/charles-simic-o-dicionario/): Talvez haja uma palavra em algum lugarpara descrever o mundo nesta manhã,uma palavra para o jeito como a primeira luzse deleita em perseguir as sombraspelas vitrines e entradas das lojas. Outra palavra para o modo como ela se detémsobre um par de óculos de aros finosque alguém deixou cair na calçadana noite passada e cambaleou […]
- [Lope de Vega - Desmaiar, ousar, ficar furioso](https://singularidadepoetica.art/2020/02/07/lope-de-vega-desmaiar-ousar-ficar-furioso/): Desmaiar, ousar, ficar furioso,áspero, terno, generoso, esquivo,entretido, mortal, defunto, vivo,leal, falso, covarde e corajoso; não achar, para além, paz e repouso,mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,irritado, valente, fugitivo,satisfeito, ofendido, receoso; furtar o rosto ao claro desengano,sorver veneno por licor suave,esquecer o proveito, amar o dano; crer que um céu em um inferno cabe,dar a vida e […]
- [Juan Vicente Piqueras - História universal](https://singularidadepoetica.art/2020/02/06/juan-vicente-piqueras-historia-universal/): Um homem nasce chora cresce risofre e faz sofrer caminha cantatem sede fome frio medose perde extravasa arde sorri. Um homem sozinho no meio da noiteassobia para domar as bestas que o habitam. Abraça empurra mata beija morrese cansa de si mesmo se apaixonase entrega à vida sabe que se findaque o que é escoa […]
- [Hugo Mujica – Há escassos dias](https://singularidadepoetica.art/2020/02/05/hugo-mujica-ha-escassos-dias/): Há escassos dias morreu meu pai,há muito tempo atrás. Caiu suavemente,como as pálpebras ao chegara noite, ou uma folhaque o vento não arranca, embala. Hoje não é como outras chuvas,hoje chove pela primeira vezsobre o mármore de sua lápide. Sob cada chuvapoderia ser eu quem jaz, agora eu sei,agora que morri em outro. Trad.: Nelson […]
- [Joan Margarit - A aventura](https://singularidadepoetica.art/2020/02/04/joan-margarit-a-aventura/): Quando me ausento por um momento, ao finalizaruma inspeção de obra em algum bairro estranhoe entro para tomar café em um pequeno baronde não me conhecem, penso que soualguém que parte para não mais voltar.Quando me refugio no vaziode um entreato e procuro a escadaque leva aos banheiros,sinto que ali poderia começar minha ausência.Instantes que […]
- [Ernesto Pérez Vallejo – A garota de preto](https://singularidadepoetica.art/2020/02/03/ernesto-perez-vallejo-a-garota-de-preto/): Hoje eu podia ter-me apaixonado por ti, apesar de tuas botas sem salto, podia até ter-te beijado assim, com o mar ao fundo, os beijos aos domingos têm um sabor distinto, mais intenso. Podia ter-te levado pelas mãos até a praia e ter-te despido docemente enquanto me ajoelhava na terra e perfumava o meu nariz. […]
- [Wislawa Szymborska - Metafísica](https://singularidadepoetica.art/2020/02/02/wislawa-szymborska-metafisica/): Foi-se, acabou-se. Foi-se, então acabou-se. Numa sequência sempre irreversível, pois essa é a regra desse jogo perdido. Conclusão banal, que já não vale escrever, não fosse um fato incontestável, um fato pelos séculos dos séculos, por todo o cosmos, como é e será, de que algo realmente foi, até que se acabou, menos isso de […]
- [Jenny Joseph - Advertência](https://singularidadepoetica.art/2020/02/01/jenny-joseph-advertencia/): Quando estiver velha, usarei roxoCom um chapéu vermelho que não combina e que não me cai bem.E torrarei minha aposentadoria em conhaques e luvas de verãoe sandálias de cetim, e direi que não temos dinheiro para manteiga.Sentarei na calçada quando me cansarE provarei amostras nas lojas e tocarei as campainhasE correrei minha bengala pelas grades […]
- [Hugo Vera Miranda – Os cavaleiros do apocalipse](https://singularidadepoetica.art/2020/01/31/hugo-vera-miranda-os-cavaleiros-do-apocalipse/): Como defender-se dos furtivos invernos que aninham as moradas obscuras do desejo? Como voltar por um instante ao tempo feroz da infância onde um velho com cara de sapo solta pombas enquanto o trem passa? Como decifrar a carícia longínqua que agora atormenta a insônia? Vamos ficando sozinhos, cercados por demônios dançarinos e um tiro […]
- [Joan Margarit - Noite escura na rua Balmes](https://singularidadepoetica.art/2020/01/30/joan-margarit-noite-escura-na-rua-balmes/): Cumpridas as ameaças e temores — hoje já todas as ruas levam à velhice —, passo defronte à clínica em que tu nasceste, vinte e seis anos atrás, em uma noite de corredores feridos pela luz. Aqui foi a tua chegada, pequena e indefesa, à praia feliz do teu sorriso, à dificuldade da palavra, às […]
- [Marianne Moore - Uma água-viva](https://singularidadepoetica.art/2020/01/29/marianne-moore-uma-agua-viva/): Visível, invisível, uma flutuante sedução que uma ametista cor de âmbar habita, se aproximam seus tentáculos, abrem e fecham; você pretendia pega-los e eles tremem; você abandona este intento. Trad.: Nelson Santander A Jelly-Fish Visible, invisible, a fluctuating charm an amber-tinctured amethyst inhabits it, your arm approaches and it opens and it closes; you had […]
- [Antonia Pozzi - Erros](https://singularidadepoetica.art/2020/01/28/antonia-pozzi-erros/): Cai graciosamente a neve sobre os cestos das floristas: embranquece os junquilhos e as violetas, as delicadas frésias vindas dos países do sol. Ao vê-las pensamos nos muitos destinos errados que sofrem pelos caminhos da terra e um furor nostálgico investe pelos caminhos de ouro da alma aonde não chega a neve. Trad.: Inês Dias […]
- [Rodrigo da Silva - Chegará um dia em que o seu coração parará de bater](https://singularidadepoetica.art/2020/01/27/rodrigo-da-silva-chegara-um-dia-em-que-o-seu-coracao-parara-de-bater/): Chegará um dia em que o seu coração parará de bater. A sua pupila dilatará. A sua pele ficará pálida e a sua temperatura corporal esfriará. Você ficará inteiramente esquálido; e então roxo. O seu sangue se tornará mais ácido com o acúmulo de dióxido de carbono. E as suas células começarão a se dividir, […]
- [Eloy Sánchez Rosillo – O segredo](https://singularidadepoetica.art/2020/01/26/eloy-sanchez-rosillo-o-segredo/): Se por acaso a alegria se assuste e se apresse em me deixar, eu a escondo das pessoas e não digo a ninguém que veio à minha casa depois de muito tempo. Falo com ela, e com frequência vê-la de novo tão próxima me faz chorar, e rio. Depois a deixo sozinha e vou para […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Naquele agora](https://singularidadepoetica.art/2020/01/25/jorge-valdes-diaz-velez-naquele-agora/): As chances de encontrar-te novamente eram remotas. Uma em um bilhão. E havendo infinitos lugares dispersos pelos números de um cálculo improvável, quem imaginaria que eu te veria naquela cantina, transformando-te na luz daqueles tempos felizes, ou isso quiseram crer, anos atrás, aqueles dois que fomos. Estavas ali, de repente e sem aviso prévio, com […]
- [Wislawa Szymborska - Terroristas](https://singularidadepoetica.art/2020/01/24/wislawa-szymborska-terroristas/): Dias inteiros eles ficam pensando como matar, para matar, e quantos matar para matar muitos. Fora isso comem com apetite, rezam, lavam os pés, alimentam os pássaros, dão telefonemas coçando o sovaco, estancam o sangue quando machucam o dedo, se são mulheres, compram absorventes, sombra para as pálpebras, flores para os vasos, todos gracejam um […]
- [Ivan Junqueira – Vésperas](https://singularidadepoetica.art/2020/01/23/ivan-junqueira-vesperas/): A tarde descortina uma paisagem híspida: no galho seco, o ninho é uma inútil relíquia que a luz do sol calcina até a estrita cinza. Gota a gota, o alambique das horas se esvazia, e dilui-se a vertigem do álcool que lhe mordia as veias retorcidas. Êxtase da agonia no crepúsculo a pino. Sob o […]
- [Rui Caeiro - Espero um dia](https://singularidadepoetica.art/2020/01/22/rui-caeiro-espero-um-dia/): Espero um dia ter de esperar-te, com a ansiedade dos que perderam tudo ou quase, menos talvez a memória E espero humildemente vir a merece-te, cometer um ato heroico e merecer-te, ser outra e a mesma pessoa – e merecer-te Espero estar bem triste para quando enfim chegares poder dar-te o mais autêntico: a memória, […]
- [Geruza Zelnys - descomedimentos](https://singularidadepoetica.art/2020/01/21/geruza-zelnys-descomedimentos/): que venha abaixo tudo que venha abaixo o que é tempestade e destruição que não sobre embarcação e vela que os raios queimem plantações e trovões arrebentem toda a terra e teu corpo se deite sobre o meu e tua boca mate toda fome minha e que versos & palavras do amor sejam ditos bem […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Só o silêncio salva](https://singularidadepoetica.art/2020/01/20/luis-alberto-de-cuenca-so-o-silencio-salva/): Só o silêncio salva, companheiro. Só o silêncio salva. Se tiveste uma noite gloriosa em que Afrodite sorriu para ti e Baco encheu-te a taça sem cessar, pensa que em breve, quando e noite se for, teus amigos voltarem para casa e começar a amanhecer, só o silêncio te salvará, rapaz. Tem isso em conta. […]
- [Arnaldo Antunes, Fernando Laszlo e Walter Silveira - Fome de Sede](https://singularidadepoetica.art/2020/01/19/arnaldo-antunes-fernando-laszlo-e-walter-silveira-fome-de-sede/)
- [Antonia Pozzi - Morte de uma estação](https://singularidadepoetica.art/2020/01/18/antonia-pozzi-morte-de-uma-estacao-2/): Choveu toda a noite sobre as memórias do verão. Ao anoitecer saímos no meio de um ribombar lúgubre de pedras e, parados na margem, levantamos as lanternas para explorar o perigo das pontes. Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas ensopadas e pousadas sobre os fios à espreita de indícios secretos de partida – e refletiam-nas […]
- [Dan Fante - [Eu conheci o mais faminto]](https://singularidadepoetica.art/2020/01/17/dan-fante-eu-conheci-o-mais-faminto/): Eu conheci o mais faminto e desprezível dos gatos enquanto sentava com um livro e meio maço de cigarros num banco em Venice Beach Ele me viu e apareceu branco sujo com um olho verde e outro amarelo e um corte recente em sua orelha desfigurada Furioso como um lobo ferido ele estabeleceu uma distância […]
- [Dylan Thomas - Colina de samambaias](https://singularidadepoetica.art/2020/01/16/dylan-thomas-colina-de-samambaias/): Quando, junto à casa em festa, sob os ramos da macieira, Eu era lépido e jovem, e feliz como era verde a relva, A noite suspensa sobre as estrelas do desfiladeiro, O tempo a permitir que eu gritasse e me erguesse, Dourado, no fulgurante apogeu de seus olhos, Eu, venerado entre as carroças, era o […]
- [Wislawa Szymborska - Vida difícil com a memória](https://singularidadepoetica.art/2020/01/15/wislawa-szymborska-vida-dificil-com-a-memoria/): Sou um péssimo público para a minha memória.Ela quer que eu ouça sua voz incessantemente,mas eu me agito, tusso,ouço e não ouço,saio, volto e saio de novo. Ela requer todo o meu tempo e atenção.Quando durmo, é fácil para ela.De dia já nem tanto, o que a magoa. Me propõe zelosamente velhas cartas, fotos,revolve fatos […]
- [A Íris Selvagem, de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2020/01/14/a-iris-selvagem-sumario/): Há livros que não se deixam atravessar como uma sequência de poemas isolados. A Íris Selvagem, de Louise Glück, é um deles. O livro se passa num jardim, mas esse jardim não é cenário. É um lugar de vozes. Flores falam. Uma consciência humana pergunta, insiste, se cansa. Uma presença divina responde, se afasta, corrige, […]
- [Louise Glück - Os lírios brancos](https://singularidadepoetica.art/2020/01/14/louise-gluck-os-lirios-brancos/): Como um homem e uma mulher fazemde um jardim entre elesum leito de estrelas, aquieles permanecem na noite de verãoe a noite se tornafria com seu pavor: tudopode acabar, tudo é capazde devastação. Tudo, tudose pode perder, pelo ar perfumadodas colunas estreitasse elevando inutilmente, e mais além,um agitado mar de papoulas — Silêncio, amada. Não […]
- [Louise Glück - O lírio dourado](https://singularidadepoetica.art/2020/01/13/louise-gluck-o-lirio-dourado/): Como percebo,estou morrendo agora e seique não falarei novamente,não sobreviverei à terra, serei convocadodela uma vez mais, ainda nãouma flor, apenas uma espinha, terra cruaaderindo às minhas costelas, eu o invoco,pai e mestre: ao redor,meus companheiras estão fraquejando, pensandoque você não os vê. Comoeles poderão saber que você os enxergaa menos que os salve?No crepúsculo […]
- [Louise Glück - Crepúsculo de Setembro](https://singularidadepoetica.art/2020/01/12/louise-gluck-setembro-crepuscular/): Eu os reuni,eu posso dispensa-los — Estou farto de vocês, do caosdo mundo dos vivos —Eu só posso me estenderpor tanto tempo a algo vivo. Convoquei-os à existênciaao abrir minha boca, ao erguermeu dedo mínimo, cintilando azuis deaster selvagem, florde lírio, imensa,com veias douradas — Vocês vêm e vão; eventualmenteesqueço seus nomes.Vocês vêm e vão, […]
- [Louise Glück - O lírio prateado](https://singularidadepoetica.art/2020/01/11/louise-gluck-o-lirio-prateado/): As noites esfriaram novamente, como as noitesdo início da primavera, e estão silenciosas outra vez. Incomoda-oconversarmos? Estamossozinhos agora; não há razão para o silêncio. Você pode ver, sobre o jardim — a lua cheia nasce.Eu não verei a próxima lua cheia. Na primavera, quando a lua surgia, significavaque o tempo era infindo. Campainhas-brancasabriam e fechavam, […]
- [Louise Glück - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2020/01/05/louise-gluck-acalanto/): Hora de descansar agora; vocêjá teve emoção suficiente por ora. Crepúsculo, depois início da noite. Vaga-lumesno quarto, cintilando aqui e ali, aqui e ali,e a profunda doçura do verão inundando através da janela aberta. Não pense mais nessas coisas.Escute minha respiração, sua própria respiraçãocomo os vaga-lumes, cada pequena respiraçãouma centelha na qual o mundo se […]
- [Louise Glück - Ocaso](https://singularidadepoetica.art/2020/01/04/louise-gluck-crepusculo/): Minha maior alegriaé o som que sua voz produzme chamando mesmo no desespero; meu desgostoé não poder responderem uma fala que você reconheça como minha. Você não tem fé em sua própria linguagem.Por isso investea reputação em sinaisque não consegue ler com precisão. E ainda assim sua voz sempre me alcança.E eu respondo incessantemente,minha raiva […]
- [Louise Glück - Vésperas (10)](https://singularidadepoetica.art/2020/01/03/louise-gluck-vesperas-10/): Fim de agosto. Calorcomo em uma estufa sobre ahorta do John. E algumas coisastêm a coragem de começar,cachos de tomates, talhõesde lírios tardios – otimismodas grandes hastes – ouroe prata imperiais: mas por queiniciar algotão perto do fim?Tomates que nunca amadurecerão, líriosque o inverno matará, que nãoretornarão na primavera. Ouvocê acha queeu passo tempo demaispensando […]
- [Rebecca Elson – Antídotos para o medo da morte](https://singularidadepoetica.art/2020/01/03/rebecca-elson-antidotos-para-o-medo-da-morte-poema/): Às vezes, como um antídotoPara o medo da morte,Eu como as estrelas. Nessas noites, deitada de costas,Eu as sorvo da escuridão que se dissipaAté que estejam todas, todas elas dentro de mim,Fortes e picantes. Às vezes, ao invés disso, eu me entregoA um universo ainda jovem,Ainda quente como o sangue: Nenhum espaço sideral, apenas o […]
- [Louise Glück - Vésperas (9)](https://singularidadepoetica.art/2020/01/02/louise-gluck-vesperas-9/): Sua voz se foi agora; mal consigo ouvi-la.Sua voz estrelada é apenas sombra agorae a terra está escura novamentecom suas grandes transformações. E de dia a grama fica parda em alguns pontossob as amplas sombras dos carvalhos.Agora, por toda parte, sou assunto para o silêncio, então está claro que não tenho acesso a você;Não existo […]
- [Louise Glück - Vésperas: Parousia](https://singularidadepoetica.art/2020/01/01/louise-gluck-vesperas-parousia/): Amor da minha vida, vocêEstá perdido e eu souJovem novamente. Alguns anos se passaram.O ar se encheCom música de meninas;No jardim da frenteA macieiraSe cobre de flores. Eu tento reconquista-lo.É esse o propósitoDa escrita.Mas você se foi para sempre.Como nos romances russos, dizendoAlgumas palavras das quais não me lembro – Quão exuberante é o mundo,Quão […]
- [Louise Glück - Vésperas (7)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/31/louise-gluck-vesperas-7/): Eu sei o que você planejou, o que pretendia ao me ensinara amar o mundo, tornando impossívelvirar completamente as costas, excluí-lo completamente para sempre –está por toda parte; quando fecho os olhos,no canto dos pássaros, no aroma de lilases no início da primavera, no aroma de rosas no verão:você quer arrancar de mim cada flor, […]
- [Louise Glück - Luz em retirada](https://singularidadepoetica.art/2019/12/30/louise-gluck-luz-em-retirada/): Vocês eram como crianças pequenas,sempre esperando por uma história.E eu já havia passado por tudo aquilo muitas vezes;eu estava cansado de contar histórias.Então eu lhes dei papel e lápis.Eu lhes dei canetas feitas de juncos queeu mesmo havia reunido, à tarde, nos densos prados.E lhes disse: escrevam sua própria história. Depois de todos estes anos […]
- [Louise Glück - Presque Isle](https://singularidadepoetica.art/2019/12/29/louise-gluck-presque-isle/): Em cada vida, há um momento ou dois.Em cada vida, um quarto em algum lugar, à beira-mar ou nas montanhas. Sobre a mesa, um prato de damascos. Caroços em um cinzeiro branco. Como todas as imagens, essas foram as condições de um pacto:em seu rosto, o tremor da luz do sol,meu dedo pressionando seus lábios.As […]
- [Louise Glück - Ipomoea](https://singularidadepoetica.art/2019/12/28/louise-gluck-ipomoea/): Qual foi o meu crime em outra vida,como nesta vida meu crimeé a dor, de modo que não me épermitido ascender novamente,nunca em nenhum sentidome é permitido repetir minha vida,ferida no espinheiro, todabeleza terrena um castigotão meu quanto seu —Fonte do meu sofrimento, por quevocê tirou de mimestas flores celestes, salvopara me marcar como partedo […]
- [Louise Glück - A rosa branca](https://singularidadepoetica.art/2019/12/27/louise-gluck-a-rosa-branca/): É esta a terra? Entãoeu não pertenço a este lugar. Quem é você na janela acesa,sombreado agora pelas folhas trêmulasde uma viburnum lantana1?Você pode sobreviver onde eu não durareialém do primeiro verão? Ao longo da noite, os ramos finos da árvoremovem-se e farfalham na janela iluminada.Explique minha vida para mim, você que não faz sinal […]
- [Louise Glück - Colheita](https://singularidadepoetica.art/2019/12/26/louise-gluck-safra/): Entristece-me pensar em vocês no passado — Olhe para vocês, agarrando-se cegamente à terracomo se fossem os vinhedos do paraísoenquanto os campos ardem ao redor — Ah, pequeninos, como são pouco sutis:isso é ao mesmo tempo o dom e o tormento. Se o que temem na morteé uma punição além disso, não precisamtemer a morte: […]
- [Louise Glück - Escuridão Inicial](https://singularidadepoetica.art/2019/12/25/louise-gluck-trevas-primitivas/): Como podem afirmarque a terra deveria me dar alegria? Cada coisanascida é meu fardo; não posso prosperarcom todos vocês. E vocês gostariam de ditar para mim,gostariam de me dizerquem entre vocês é mais valioso,quem mais se assemelha a mim.E apresentam como exemploa vida pura, o desapegoque lutam para alcançar — Como vocês podem me entenderquando […]
- [Louise Glück - Vésperas (6)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/24/louise-gluck-vesperas-6/): Você pensou que nós não soubéssemos. Mas nós sabíamos,as crianças sabem dessas coisas. Não vire as costas agora – nós habitávamosuma mentira para apaziguá-lo. Eu me lembroda luz do sol do início da primavera, os taludesreticulados por vincas roxas. Eu me lembrode me deitar em um campo, roçando o corpo de meu irmão.Não vire as costas […]
- [Louise Glück - Vésperas (5)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/23/louise-gluck-vesperas-5/): Assim como você apareceu para Moisés, porqueeu necessito de você, você aparece para mim,raramente, porém. Eu vivo essencialmentenas trevas. Você talvez esteja me treinando para sermais responsiva ao menor clarão. Ou, como os poetas,será que o desespero o estimula, o sofrimentoo leva a revelar sua natureza? Esta tarde,no mundo material ao qual você normalmentecontribui com […]
- [Louise Glück - Vésperas (4)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/22/louise-gluck-vesperas-4/): Eu não me pergunto mais onde você está.Você está no jardim; você está onde John está,na terra, absorto, segurando sua pequena pá verde.É assim que ele jardina: quinze minutos de intenso esforço,quinze minutos de estática contemplação. Às vezes,trabalho ao lado dele, fazendo as tarefas à sombra,capinando, esfolhando as alfaces; às vezes, o observodo alpendre próximo […]
- [Louise Glück - Fim de verão](https://singularidadepoetica.art/2019/12/21/louise-gluck-fim-de-verao/): Depois de tudo o que me ocorreu,o vazio me ocorreu. Há um limitepara o prazer que tive na forma — Eu não sou como vocês nisso,Não tenho liberdade em outro corpo, Não precisode abrigo fora de mim — Minha pobre inspiradacriação, vocês sãodistrações, enfim,meras limitações; no final,vocês são muito pouco parecidas comigopara me agradar. E […]
- [Louise Glück - Margaridas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/20/louise-gluck-margaridas/): Vá em frente: diga o que está pensando. O jardimnão é o mundo real. As máquinassão o mundo real. Diga francamente o que qualquer tolo podeler em seu rosto: faz todo sentidoevitar-nos, resistirà nostalgia. Não ésuficientemente moderno, o som que o vento produzagitando um campo de margaridas: a mentenão pode brilhar ao segui-lo. E a […]
- [Louise Glück - Vésperas (3)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/19/louise-gluck-vesperas-3/): Para além de mim, muito provavelmentevocê ama ainda mais as criaturas do campo; talvez, até o próprio campo, pontilhado em agostode chicórias-bravas e ásteres.Eu sei. Eu me compareia essas flores, com seu leque de sentimentostão menores e sem problemas; assim como à ovelha branca,na verdade, cinzenta: eu sou particularmenteapta a louva-lo. Então por quevocê me […]
- [Louise Glück - Vésperas (2)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/18/louise-gluck-vesperas-2/): Em sua prolongada ausência, você me permiteusar a terra, antecipandoalgum retorno sobre o investimento. Devo reportarque falhei em minha missão, principalmenteem relação à plantação de tomates.Acho que não devo ser encorajada a cultivartomates. Ou, se o for, você você deveria reteras fortes chuvas, as gélidas noites que sãotão comuns por aqui, enquanto outras regiões desfrutamde […]
- [Louise Glück – Vésperas (1)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/17/louise-gluck-vesperas-1/): Uma vez acreditei em você; plantei uma figueira.Aqui, em Vermont, uma terraque desconhece o verão. Era um teste: se a árvore sobrevivesse,isso provaria que você existe. Segundo essa lógica, você não existe. Ou existeexclusivamente em climas mais quentes,na fervorosa Sicília, no México e na Califórnia,onde crescem o inimagináveldamasco e o vulnerável pêssego. Talvezvejam sua face […]
- [Louise Glück - Solstício de verão](https://singularidadepoetica.art/2019/12/16/louise-gluck-solsticio-de-verao/): Como posso ajuda-los quando todos desejamcoisas distintas — luz do sol e sombra,tempo seco e umidade sombria — Ouçam a si próprios, competindo uns com os outros — E se perguntampor que desespero por vocês,achando que algo pode fundi-los em um todo — o ar imóvel do auge do verãoentrelaçado com mil vozes cada qual […]
- [Louise Glück - A porta de entrada](https://singularidadepoetica.art/2019/12/15/louise-gluck-a-entrada/): Eu queria permanecer como eu era,imóvel como o mundo raramente fica,não no solstício de verão, mas no momento anteriorà flor fundamental se formar, o momentoem que nada ainda é passado — não o solstício de verão, intoxicante,mas a tardia primavera, a grama ainda nãoalta nos limites do jardim, as primeiras tulipascomeçando a desabrochar — como […]
- [Louise Glück - Céu e terra](https://singularidadepoetica.art/2019/12/14/louise-gluck-ceu-e-terra/): Onde um acaba, a outra começa.No alto, uma faixa de azul; abaixo,uma faixa de verde e dourado, verde e rosa profundo. John está no horizonte: ele querambos ao mesmo tempo, ele quertudo de uma vez. Os extremos são fáceis. Apenaso meio é um enigma. Meio do verão —tudo é possível. Significado: a vida nunca mais […]
- [Louise Glück - Matinas (7)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/13/louise-gluck-matinas-7/): Não apenas o sol mas a própriaterra brilha, fogo brancoirrompendo das imponentes montanhase da estrada planatremeluzindo nas primeiras horas da manhã: será issoapenas para nós, para provocar umaresposta, ou você tambémfica mexido, incapazde se conterna presença da terra? Sinto vergonhado que eu pensava que você fosse,distante de nós, nos observandocomo um experimento: éamargo sero animal […]
- [Louise Glück - Trevo](https://singularidadepoetica.art/2019/12/12/louise-gluck-trevo/): O que está dispersoentre nós, que você chamade sinal de bem-aventurança,embora seja, como nós,uma erva daninha, uma coisapara ser extirpada — qual lógicao faz reterum único brotode algo que desejamorto? Se há alguma presença entre nóstão poderosa, não deveria elase multiplicar, a serviçodo adorado jardim? Você mesmo deveriaestar fazendo essas perguntas,não deixando-aspara suas vítimas. Você […]
- [Louise Glück - A papoula vermelha](https://singularidadepoetica.art/2019/12/11/louise-gluck-a-papoula-vermelha/): O melhor de tudoé não teruma mente. Sentimentos:oh, eu os tenho; elesme governam. Tenhoum senhor no céuchamado sol, e me abroa ele, mostrando-lheo fogo do meu próprio coração, ardentecomo a sua presença.O que poderia ser tal glóriase não um coração? Oh meus irmãos e irmãs,vocês já foram como eu, tempos atrás,antes de se tornarem humanos?Já […]
- [Louise Glück - Campo de flores](https://singularidadepoetica.art/2019/12/10/louise-gluck-campo-de-flores/): O que você está dizendo? Que desejavida eterna? Seus pensamentos realmentesão tão convincentes assim? Certamentevocê não nos vê, não nos ouve,mancha de solem sua pele, póde ranúnculos amarelos: estoufalando com você, aí, olhando fixamenteatravés das barras de grama alta que agitamseus pequenos chocalhos — Óalma! a alma! É suficienteapenas olhar para dentro? O desprezopela humanidade […]
- [Louise Glück - Canção](https://singularidadepoetica.art/2019/12/09/louise-gluck-cancao/): Como um coração blindado,o botão vermelho-vivoda rosa silvestre começaa desabrochar no ramo mais baixo,sustentado pela malhareticulada de um arbusto robusto:ela floresce contra a escuridão,que é o cenário constante do coração, enquanto as floresmais acima murcham ou apodrecem;sobreviverà adversidade apenasacentua sua cor. Mas Johnobjeta, ele acredita quese isto não fosse um poema, massim um jardim de […]
- [Louise Glück - Matinas (6)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/08/louise-gluck-matinas-6/): O que é o meu coração para vocêque precisa parti-lo repetidas vezescomo um jardineiro testandosua nova espécie? Pratiqueem algo diferente: como posso viverem colônias, como você prefere, se impõeuma quarentena de aflição, apartando-mede membros saudáveis deminha própria tribo? Você não faz issono jardim, não segregaa rosa doente; permite que ela balance suas sociáveisfolhas infestadas nosrostos […]
- [Louise Glück - Matinas (5)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/07/louise-gluck-matinas-5/): Quer saber como passo o meu tempo?Eu caminho pelo jardim, fingindoque estou capinando. Deve saberque nunca estou capinando, de joelhos, extirpandotufos de trevos dos canteiros de flores: na verdade,estou em busca de coragem, de alguma evidênciade que minha vida irá mudar, ainda queisso leve uma eternidade, verificandocada touceira em busca da folhasimbólica, e logo o […]
- [Louise Glück - A Escada de Jacó](https://singularidadepoetica.art/2019/12/06/louise-gluck-a-escada-de-jaco/): Preso à terra,você também não gostaria dealcançar o céu? Eu habitoo jardim de uma senhora. Perdoe-me senhora;o anseio roubou minha graça. Não souo que você esperava. Mascomo homens e mulheres parecemdesejar uns aos outros, também desejoconhecer o paraíso — e agorasua dor, uma haste nuaalcançando a vidraça da varanda.E no final, o quê? Uma pequena […]
- [Louise Glück - Capim-das-bruxas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/05/louise-gluck-witchgrass/): Algoindesejado chega ao mundoclamando desordem, desordem — Se você me odeia tantonão se dê ao trabalho de me darum nome: você precisade mais um insultoem sua língua, outramaneira de culparuma tribo por tudo — pois ambos sabemos,se você cultuaum deus, só precisade um inimigo — Eu não sou o inimigo.Apenas um pretexto para ignoraro que […]
- [Louise Glück - Violetas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/04/louise-gluck-violetas/): Porque em nosso mundosempre há algo oculto,pequeno e branco,pequeno e o que você chama depuro, nós não lamentamoscomo você, caromestre sofredor; vocênão está mais perdidodo que nós, sobo espinheiro, o espinheiro segurandobandejas equilibradas de pérolas: o queo trouxe até nóspara que possamos ensina-lo, sevocê se ajoelhar e chorar,apertando suas grandes mãos,em toda sua grandeza, sem […]
- [Louise Glück - Abril](https://singularidadepoetica.art/2019/12/03/louise-gluck-abril/): O desespero de mais ninguém é como o meu desespero — Vocês não têm lugar neste jardimpensando em tais coisas, emitindocansativos sinais exteriores; o homemdesmatando intencionalmente uma floresta inteira,a mulher mancando e se recusando a trocar de roupasou lavar os cabelos. Acham que eu me importose vocês conversarem um com o outro?Mas quero que saibamque […]
- [Louise Glück - Amor ao luar](https://singularidadepoetica.art/2019/12/02/louise-gluck-amor-ao-luar/): Às vezes, um homem ou uma mulher impõe seu desesperoa outra pessoa, o que é chamado deabrir o coração, ou alternativamente, desnudar a alma —o que significa que, neste momento, eles adquiriram almas —lá fora, em uma noite de verão, um mundo inteiroderramado sobre a lua: grupos de formas prateadasque podem ser edifícios ou árvores, […]
- [Louise Glück - O espinheiro](https://singularidadepoetica.art/2019/12/01/louise-gluck-o-espinheiro/): Lado a lado, não demãos dadas: eu os observocaminhando no jardim de verão — coisasque não podem se moveraprendem a ver; não é necessáriopersegui-los pelojardim; seres humanos deixamsinais de sentimentospor toda parte, floresespalhadas no caminho de terra, todasbrancas e douradas, algumaslevemente erguidas pelosventos da tarde; não é necessáriosegui-los até onde vocês estão agora,nas profundezas do […]
- [Louise Glück - O jardim](https://singularidadepoetica.art/2019/11/30/louise-gluck-o-jardim/): Eu não poderia fazê-lo de novo,Mal posso olhar para isso — no jardim, sob a chuva leve,o jovem casal plantauma fieira de ervilhas,como se ninguém jamais o tivesse feito antes,as grandes dificuldades ainda nãoforam enfrentadas e resolvidas — Eles não conseguem se ver,na terra fresca, começandosem perspectiva,as colinas verde-claras atrás deles, encobertas pelas flores — […]
- [Louise Glück - Vento em retirada](https://singularidadepoetica.art/2019/11/29/louise-gluck-vento-em-retirada/): Quando os criei, eu os amava.Agora sinto pena de vocês. Dei-lhes tudo o que precisavam:leito de terra, manto de ar azul — À medida que me afasto de vocês,vejo-os com mais clareza.Suas almas deveriam ser vastas agora,não o que são,pequenas criaturas tagarelas — Dei a vocês todas as dádivas,o azul das manhãs de primavera,o tempo […]
- [Louise Glück - Scilla](https://singularidadepoetica.art/2019/11/28/louise-gluck-scilla/): Não eu, seu tolo, não eu-mesma, mas nós, nós – ondasde céu azul comouma crítica do firmamento: por quevocês valorizam tanto suas vozesquando ser algoé ser quase nada?Por que olham para cima? Para ouvirum eco como a vozde deus? Vocês são todos iguais para nós,solitários, pairando acima de nós, planejandosuas vidas tolas: vocês vãoonde são […]
- [Louise Glück - Matinas (4)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/27/louise-gluck-matinas-4/): Percebo que com você é como com as bétulas:não posso lhe falarde maneira pessoal. Muitose passou entre nós. Ousempre foi apenas de um lado? Euerrei, eu errei, eu lhe pedipara ser humano – não sou mais carentedo que as outras pessoas. Mas a ausênciade todo sentimento, da menorpreocupação por mim – poderia muito bem continuardirigindo-me […]
- [Louise Glück - Matinas (3)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/26/louise-gluck-matinas-3/): Perdoe-me se eu disser que o amo: os poderosossempre são enganados, já que os fracos são sempreguiados pelo pânico. Não posso amaro que não consigo conceber, e você revelapraticamente nada: é como o espinheiro,sempre a mesma coisa no mesmo lugar,ou está mais para a dedaleira, inconstante, brotando primeiroum espigão rosa na encosta atrás das margaridas,e […]
- [Louise Glück - Fim de inverno](https://singularidadepoetica.art/2019/11/25/louise-gluck-fim-de-inverno/): Sobre o mundo ainda, um pássaro cantadespertando solitário entre ramos escuros. Vocês desejaram nascer; eu permiti que nascessem.Quando minha dor alguma vezinterferiu em seu prazer? Mergulhandona escuridão e na luz ao mesmo tempo,sedentos por sensações como se fossem algo novo, querendose expressar com todo brilho, toda vivacidade nunca imaginandoque isso lhes custaria algo,nunca concebendo o […]
- [Louise Glück - Neve de primavera](https://singularidadepoetica.art/2019/11/24/louise-gluck-neve-de-primavera/): Olhe para o céu noturno:tenho dois eus, duas formas de poder. Estou aqui com você, à janela,observando sua reação. Ontema lua se ergueu sobre a terra úmida no jardim de baixo.Agora a terra reluz como a lua,como matéria morta crivada de luz. Você pode fechar os olhos agora.Ouvi seus clamores, e os clamores antes dos […]
- [Louise Glück - Manhã clara](https://singularidadepoetica.art/2019/11/23/louise-gluck-manha-clara/): Eu já os observei por tempo suficiente,posso me dirigir a vocês do jeito que eu quiser — Tenho me submetido às suas preferências, observando pacientementeas coisa que vocês amam, comunicando-me apenas através de veículos, emdetalhes da terra, como preferem, gavinhasde clematis azul, luz de fim de tarde —vocês jamais aceitariam uma voz como a minha, […]
- [Louise Glück - Flores-de-neve](https://singularidadepoetica.art/2019/11/22/louise-gluck-snowdrops/): Você sabe o que eu era, como eu vivia? Você sabeo que é o desespero? Entãoo inverno deve ter um significado para você. Eu não esperava sobreviver,a terra me sufocando. Não esperavadespertar outra vez, sentirna terra úmida meu corpocapaz de responder outra vez, lembrandoapós tanto tempo como brotar outra vezna luz friada primavera mais precoce […]
- [Louise Glück - Lamium](https://singularidadepoetica.art/2019/11/21/louise-gluck-lamium/): Assim se vive quando se tem um coração frio.Como eu: nas sombras, arrastando-se sobre a rocha fria,sob os grandes carvalhos. O sol mal me toca.Às vezes o avisto no início da primavera, surgindo muito distante.Então as folhas crescem sobre ele, ocultando-o completamente. Eu o sintobrilhando por entre aas folhas, errático,como alguém batendo na lateral de […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Consolo na Praia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-consolo-na-praia/): Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tu? Eu?](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-tu-eu/): Não morres satisfeito. A vida te viveu sem que vivesses nela. E não te convenceu nem deu motivo para haver o ser vivo. A vida te venceu em luta desigual. Era todo o passado presente presidente na polpa do futuro acuando-te no beco. Se morres derrotado, não morres conformado. Nem morres informado dos termos da […]
- [Antonio Cicero - Nihil](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-nihil/): nada sustenta no nada esta terra nada este ser que sou eu nada a beleza que o dia descerra nada a que a noite acendeu nada esse sol que ilumina enquanto erra pelas estradas do breu nada o poema que breve se encerra e que do nada nasceu
- [Algernon Charles Swinburne - Um Amigo Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/algernon-charles-swinburne-um-amigo-morto/): Leia "Um Amigo Morto", de Algernon Charles Swinburne, uma comovente elegia sobre amizade, memória e a permanência do amor após a morte.
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas (último capítulo)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/machado-de-assis-memorias-postumas-ultimo-capitulo/): Talvez o melhor capítulo final da literatura brasileira:Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, […]
- [Pierre Corneille - Estrofes para a bela marquesa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/pierre-corneille-estrofes-para-a-bela-marquesa/): Marquesa, se minha face A ti parece mais velha, Espera que o tempo passe Que verás a que te espelha. O tempo, contra o vigor Das coisas belas, protesta, E há de te fanar a flor Tal qual enrugou-me a testa. Noite e dia tudo flui, Rege-nos a mesma lei, Se veem em ti o […]
- [Alberto Caeiro - Há Metafísica demais em não Pensar em Nada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/alberto-caeiro-ha-metafisica-demais-em-nao-pensar-em-nada/): Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou! (Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as coisas, Não compreende quem fala delas Com o […]
- [Jorge Luis Borges - O Suicida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/jorge-luis-borges-o-suicida/): Não ficará na noite uma estrela. Não ficará a noite. Morrerei e comigo a suma Do intolerável universo. Apagarei as pirâmides, as medalhas, Os continentes e as caras. Apagarei a acumulação do passado. Farei pó a história, pó o pó. Estou olhando o último poente. Ouço o último pássaro. Lego o nada a ninguém. Trad.: […]
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyanedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat-2/): Trad.: Augusto de Campos
- [Mário Quintana - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/mario-quintana-o-morto/): Eu estava dormindo e me acordaram E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco… E quando eu começava a compreendê-lo Um pouco, Já eram horas de dormir de novo!
- [Rodrigo Barata - Cilada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/rodrigo-barata-cilada-3/)
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Antonio Cicero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida-2/)
- [Antonio Cícero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida/): Conheci da humana lida a sorte: o único fim da vida é a morte e não há, depois da morte, mais nada. Eis o que torna esta vida sagrada: ela é tudo e o resto, nada.
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/konstantinos-kavafis-itaca-em-tres-traducoes/): ÍTACA(Trad. José Paulo Paes) Se partires um dia rumo a Ítaca,faz votos de que o caminho seja longo,repleto de aventuras, repleto de saber.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o colérico Posídon te intimidem;eles no teu caminho jamais encontrarásse altivo for teu pensamento, se sutilemoção teu corpo e teu espírito tocar.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o bravio […]
- [Cassiano Ricardo - Os Futuricidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-os-futuricidas/): Sois o Bloco dos Suicidas.Paradoxo pensar que todo suicí- dio será a morte de Deus em nós. Nós não. Vamos salva-l’Oda hecatombe em que, afinal, tudo tombe.Nós O queremos vivo e salvo mesmo escanhoado dequalquer ornamento, pluma ou liturgia. Calvo.Sem nenhum arco-íris na cabeça ou púrpura.Não esquartejado numa vila ricaou atado ao rabo de um […]
- [Cassiano Ricardo - 2ª Aula na Jaula](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-2a-aula-na-jaula/): 1 Ícaro morreu,não por voar junto ao Sol mas de obsoleto pelos robôs levadoem seu caixão preto os mitos de hojeconversam comigo na rua.Convidam-me a assis- tir a Antonioni no cinemaem plena iconosfera. Tudo o que foi ontem é outra era. 2No Jardim Zoológicouma Lua presa numa enorme jaula de vidro. Com todas as crateras […]
- [Algernon Charles Swinburne - O Jardim de Proserpina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/algerno-charles-swinburne-o-jardim-de-proserpina/): Leia "O Jardim de Proserpina", de Algernon Charles Swinburne, um clássico da poesia vitoriana sobre morte, esquecimento e o anseio pelo repouso eterno.
- [Alan Moore - Monólogo de Rorschach](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/alan-moore-monologo-de-rorschach/): “Olhei para o céu, através da fumaça espessa com gordura humana, e Deus não estava lá. A fria, sufocante escuridão persiste para sempre e estamos sozinhos. Vivemos nossas vidas, por falta de algo melhor para fazer. Inventamos um motivo depois. Nascemos do esquecimento; temos filhos, destinados ao inferno como nós, caímos no esquecimento. Não há […]
- [Walter Savage Landor - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/walter-savage-landor-epitafio/)
- [Susan Sontag - De “Sobre Fotografia”](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/susan-sontag-de-sobre-fotografia/): “Todas as fotos são memento mori. Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa). Precisamente por cortar uma fatia deste momento e congelá-lo, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo (…). A fotografia é simultaneamente uma pseudo-presença e um sinal de ausência.” Susan Sontag, em […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte das Casas de Ouro Preto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/carlos-drummond-de-andrade-morte-das-casas-de-ouro-preto/): Sobre o tempo, sobre a taipa, a chuva escorre. As paredes que viram morrer os homens, que viram fugir o ouro, que viram finar-se o reino, que viram, reviram, viram, já não vêem. Também morrem. Assim plantadas no outeiro, menos rudes que orgulhosas na sua pobreza branca, azul e rosa e zarcão, ai, pareciam eternas! […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): East Coker](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-east-cocker/): Em meu princípio está meu fim. Uma após outrasAs casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugarSurgem um campo aberto, uma usina ou um atalho.Velhas pedras para novas construções, velhas lenhas para novas chamas,Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra semeada,Terra agora feita carne, pele e […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): Burnt Norton](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-burnt-norton/): I O tempo presente e o tempo passadoEstão ambos talvez presentes no tempo futuroE o tempo futuro contido no tempo passado.Se todo tempo é eternamente presenteTodo tempo é irredimível.O que poderia ter sido é uma abstraçãoQue permanece, […]
- [Ernest Dowson - Vitae Summa Brevis Spem Nos Vetat Incohare Longan](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ernest-c-dowson-vitae-summa-brevis-spem-nos-vetat-incohare-longan/): Vitae Summa Brevis Spem nos Vetat Incohare Longam (A Brevidade da Vida Impede que Possamos Acalentar Longas Esperanças) – Horácio A alegria, o desejo, o pranto, o amor E a raiva duram pouco. Nada disso, que eu saiba, há de transpor O umbral conosco. Poucos dias de rosas e de vinho: Surge num vago sonho […]
- [Janus Vitalis - Sobre Roma](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/janus-vitalis-sobre-roma/): Recém-chegado que, buscando Roma em Roma, não encontras, em Roma, Roma alguma, olha ao redor, muro e mais muro, pedras rotas, ruínas, que assustam, de um teatro imenso: é Roma isto que vês – cidade tão soberba, que ainda exala ameaças seu cadáver. Vencido o mundo, quis vencer-se e, se vencendo, para que nada mais […]
- [Ferreira Gullar - Anoitecer em Outubro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-anoitecer-em-outubro/): A noite cai, chove manso lá fora meu gato dorme enrodilhado na cadeiraNum dia qualquer não existirá mais nenhum de nós doispara ouvir nesta salaa chuva que eventualmente caia sobre as calçadas da rua Duvivier
- [Ferreira Gullar -Aprendizado](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-aprendizado/): Do mesmo modo que te abriste à alegria abre-te agora ao sofrimento que é fruto dela e seu avesso ardente. Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo e te perdeste nela e te achaste nessa perda deixa que a dor se exerça agora sem mentiras nem desculpas e em tua carne vaporize toda […]
- [Mário Quintana - Pequeno Poema Didático](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/mario-quintana-pequeno-poema-didatico/): O tempo é indivisível. Dize, Qual o sentido do calendário? Tombam as folhas e fica a árvore, Contra o vento incerto e vário. A vida é indivisível. Mesmo A que se julga mais dispersa E pertence a um eterno diálogo A mais inconseqüente conversa. Todos os poemas são um mesmo poema, Todos os porres são […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Carta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-carta/): Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas, as mesmas, triviais, embora estremecessem a um toque de paixão. Perfurando os obscuros canais de argila e sombra, ela iria contando que vou bem, e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente, e espero uma resposta, mas que não tarde; e peço […]
- [Nelson Santander - Pontuação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-pontuacao-poema/): Pontuação, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Beijo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-beijo-poema/): Beijo, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Chuva](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-chuva-poema/): Chuva, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Religio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-religio-poema/): Religio, um poema de Nelson Santander
- [Amadeu Amaral - Névoa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/amadeu-amaral-nevoa/): Tudo isto há de passar, decerto, muito em breve… Branca névoa sutil, ir-se-á quando o sol nasça; branco sonho de amor, passará, como passa pelas ondas em fúria uma garça de neve. Passará dentro em pouco, imitando a fumaça que se evola e se esvai nas curvas que descreve. Fumaça de ilusão, força é que […]
- [Lêdo Ivo - Epitalâmio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/ledo-ivo-epitalamio/): A terra cessa de girar, para que eu te ame. Não há mais Dia e Noite, meu amor. Somos hóspedes do impossível. Tudo é verdade e as horas irrompem como vulcões. O mar não clama, embora ainda exista. Para os que amam, como nós, as rotações foram abolidas, os séculos assumem a forma de um […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Mensagem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-mensagem/): Longe, muito longe, um país nos contempla. Um país de silício e saibro, de água salgada e sol Onde os peixes não chegam, os corvos não assistem. Onde os náufragos se afogam no incêndio do solitário dia eterno. Longe, muito longe, onde a areia reflete as escamas da lua; onde só os mortos vão beijar […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Elegia para os Suicidas do Viaduto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-elegia-para-os-suicidas-do-viaduto/): Eles já estavam mortos no ventre materno. Para eles o deflagrar da aurora era já um túmulo. Fugiam para a morte presos, embora, à corda umbilical. Rondava a lua estéril entre ciprestes E a terra de cardos e açucenas era a alegria, o trigo, a lepra, a tempestade. Já estavam mortos quando nasceram acorrentados ao […]
- [Thiago de Mello - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/thiago-de-mello-o-morto/): Qual a verdade que o morto conheceu, além dos muros, e lhe fez cerrar os lábios estrangulando a palavra porventura essencial? Enfim livre da cegueira, que paisagem contemplou para que o rosto lhe turve tão rude ruga de mágoa? Soube talvez que melhor fora mostrar-se de todo: desvelar inteira a face, seus amores e seus […]
- [Walderez C. Gomes - Eu te amei...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/walderez-c-gomes-eu-te-amei/): Eu te amei Amando-me em ti. E de tanto amor em ti fui convertida sem ser eu mesma sendo tu. Olhando-me assim dividida. Eu me enterrei de amor amando-me mais quanto menos em mim fui conhecida quanto mais em ti fui consumada.
- [Giórgos Seféris - Existe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-existe/): Existe, pelos deuses cruéis predestinada, uma dor universal, e cada um de nós dela pega a sua parte, quanto aguente levar. Julgamos insensatos os que, carregando pressurosamente nos ombros mais do que podiam carregar, aliviam assim a carga comum: os heróis, os mártires, os criminosos. Rogo-lhes que nos perdoem. Recordamos. Trad.: José Paulo Paes
- [Giórgos Seferis - São Assim os Túmulos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-sao-assim-os-tumulos/): São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio, com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura. E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas, a cabeça baixa, a fonte dos lamentos – acompanha as horas pétreas dos que jazem. Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se […]
- [Angela Leite de Souza - Do Lado de Cá Dessas Rosas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/angela-l-de-souza-do-lado-de-ca-dessas-rosas/): Nem percebi quando me cobriram com esta colcha rosa de rosas amorosamente. Dormia meu novo sono sem tranqulizantes, sem relógios: estou serena e não há pressa em acordar. Ser apenas, estar. Não me roem mais tristezas nem desejos, lateja leve leve uma saudade. Meu corpo vai não sendo, sou feliz. Livre do dever de viver e […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Rostos Imóveis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-os-rostos-imoveis/): Pai morto, namorada morta. Tia morta, irmão nascido morto. Primos mortos, amigo morto Avô morto, mãe morta (mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos). Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto. Noiva morta, amigas mortas. Chefe de trem morto, passageiro morto. Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho! Cão morto, passarinho morto. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Palavras no Mar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar/): Escrita nas ondas a palavra Encanto balança os náufragos, embala os suicidas. Lá dentro, os navios são algas e pedras em total olvido. Há também tesouros que se derramaram e cartas de amor circulando frias por entre medusas. Verdes solidões, merencórios prantos, queixumes de outrora, tudo passa rápido e os peixes devoram e a memória […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Noturno Oprimido](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-noturno-oprimido/): A água cai na caixa com uma força, com uma dor! A casa não dorme, estupefata. Os móveis continuam prisioneiros de sua matéria pobre, mas a água parte-se a água protesta. Ela molha toda noite com sua queixa feroz, seu alarido. E sobre nossos corpos se avoluma o lago negro de não sei que infusão. […]
- [Cassiano Ricardo - Vociferação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-vociferacao/): I Homem em Adão. Homem em Cristo. Homem em globo. II como salvar Deus? nós faremos d’Ele novamente o Autor de tudo: do peixe, da ave, da cobra, da maçã, do sapo, do rouxinol do sol. O obrigaremos contudo a suar san- gue conosco, na guerra, na fome na peste na terra suja; a engolir […]
- [Cassiano Ricardo - Gramática Visual de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-gramatica-visual-de-cristo/): 1 “Cristo, terá sido em vão teu sacri- fício? vê, o sangue escorre, acre, no massacre das ruas.” Cristo espalmou a mão cobrindo os olhos horizontalmente pra não ver a destruição do ser 2 “Cristo, vê os pequeninos que tanto amaste agora garotos nos becos como ratos dentro de sapatos rotos.” Cristo escondeu, de novo, […]
- [Cassiano Ricardo - Etc.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-etc-2/): Existe tudo porque existo. Há porque vemos. (Fernando Pessoa) Para que o mundo exista, existimos. Pois seja. Sem os nossos olhos, sem o que somos, que adiantaria haver mundo? Seria a árvore dos dourados pomos, etc. O que é ignorado não existe. O que é eterno também não existe. A eternidade é uma forma […]
- [Jorge Luis Borges - Remorso por qualquer morte](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/jorge-luis-borges-remorso-por-qualquer-morte/): Livre da memória e da esperança,Ilimitado, abstrato, quase futuro,O morto não é um morto: é a morte.Como o Deus dos místicos,A quem se devem negar todos os predicados,O morto, onipresentemente alheio,Não é senão a perdição e a ausência do mundo.Tudo lhe roubamos,Não lhe deixamos nem uma cor, nem uma sílaba:Aqui está o pátio que seus […]
- [John Donne - Em despedida: proibindo o pranto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/john-donne-em-despedida-proibindo-o-pranto/): Como esses santos homens que se apagam Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”, Enquanto alguns dos amigos amargos Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” — Nos dissolvamos sem fazer ruído. Sem tempestades de ais, sem rios de pranto, Fora profanação nossa ao ouvido Dos leigos descerrar todo este encanto. O terremoto traz terror e morte E […]
- [Cassiano Ricardo - Missa de Corpo Presente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-missa-de-corpo-presente/): O seu corpo tão alvo, o seu corpo presente é a coisa mais ausente, é uma ilusão pensar que a rosa ou o fruto já colhidos ainda soluçam desprendidos da haste. O seu corpo é já um fruto neutro e frio. Não obstante jovem, tem a mesma idade de todos os que morreram antes, ou […]
- [Ricardo Reis - Odes: 153 - Como este infante que alourado dorme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-153/): Como este infante que alourado dorme Fui. Hoje sei que há morte, Lídia, há largas taças por encher Nosso amor que nos tarda. Qualquer que seja o amor ou a taça, cedo Cessa. Receia, e apressa.
- [Ricardo Reis - Odes: 144 - Uns, com os olhos postos no passado,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-144/): Uns, com os olhos postos no passado, Vêem o que não vêem; outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, vêem O que não pode ver-se. Porque tão longe ir pôr o que está perto — A segurança nossa? Este é o dia, Esta é a hora, este o momento, isto É quem somos, e é […]
- [Ricardo Reis - Odes: 105 - Quando, Lídia, vier o nosso Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-105/): Quando, Lídia, vier o nosso outono Com o inverno que há nele, reservemos Um pensamento, não para a futura Primavera, que é de outrem, Nem para o estio, de quem somos mortos, Senão para o que fica do que passa – O amarelo atual que as folhas vivem E as torna diferentes.
- [Ricardo Reis - Odes: 80 - A nada imploram tuas mãos já coisas,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-80/): A nada imploram tuas mãos já coisas, Nem convencem teus lábios já parados, No abafo subterrâneo Da húmida imposta terra. Só talvez o sorriso com que amavas Te embalsama remota, e nas memórias Te ergue qual eras, hoje Cortiço apodrecido. E o nome inútil que teu corpo morto Usou, vivo, na terra, como uma alma, […]
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-63/)
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-4/): Tão cedo passa tudo quanto passa! Morre tão jovem ante os deuses quanto Morre! Tudo é tão pouco! Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala. O mais é nada.
- [Ricardo Reis - Odes: 61 - De uma só vez recolhe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-3/): De uma só vez recolhe Quantas flores puderes. Não dura mais que até à morte o dia. Colhe de que recordes. A vida é pouco e cerca-a A sombra e o sem remédio. Não temos regras que compreendamos, Súbditos sem governo. Goza este dia como Se a Vida fosse nele. Homens nem deuses fadam, nem […]
- [Ricardo Reis – Odes: 40 - Não sem lei, mas segundo leis diversas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-2/): Não sem lei, mas segundo leis diversas Entre os homens reparte o fado e os deuses Sem justiça ou injustiça Prazeres, dores, gozos e perigos. Bem ou mal, não terás o que mereces. Querem os deuses a isto obrigar Porque o Fado não tem Leis nossas com que reja a sua lei. Quem é rei […]
- [Ricardo Reis - Odes: 1 - Mestre, são placidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas/): Mestre, são plácidas Todas as horas Que nós perdemos, Se no perdê-las, Qual numa jarra, Nós pomos flores. Não há tristezas Nem alegrias Na nossa vida. Assim saibamos, Sábios incautos, Não a viver, Mas decorrê-la, Tranquilos, plácidos, Tendo as crianças Por nossas mestras, E os olhos cheios De natureza… À beira-fio, À beira-estrada, Conforme calha, […]
- [Ricardo Reis - Odes - Livro I - XIII - Olho os campos, Neera,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-livro-primeiro/): Olho os campos, Neera, Campos, campos e sofro Já o frio da sombra Em que não terei olhos. A caveira antessinto Que serei não sentindo, Ou só quanto o que ignoro Me incógnito ministre. E menos ao instante Choro, que a mim futuro. Súdito ausente e nulo Do universal destino.
- [Aldous Huxley - Silêncio/Música](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/384-2/): “Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.” – Aldous Huxley
- [Cassiano Ricardo - O Festim Terrestre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-festim-terrestre/): O olho de Polifemo já depois de arrancado ao gigante bêbado, foi posto, entre rosas carnosas e lírios agudos, sobre a alva mesa. Tinha ainda a pupila acesa. E os doze convivas, — doze fomes irmãs, — todos ao mesmo tempo, simultâneos como figuras de uma orquestra, vieram, graves, comer o olho de Polifemo, em […]
- [Cassiano Ricardo - Evocação dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-evocacao-dos-mortos/): Um dia conversarei com os meus mortos. E todos os que morri (os muitos eus que eu fui) reunidos inquietos sôfregos cada qual com um meu rosto na mão, me contarão (sua) a minha história. Não obstante a tua gélida memória. Ah, os defuntos que ficaram atrás de mim fotograficamente, agora juntos. Não acredito que […]
- [Titãs - O Pulso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/titas-o-pulso/): O PULSO O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Peste bubônica câncer pneumonia Raiva rubéola tuberculose anemia Rancor cisticercose caxumba difteria Encefalite faringite gripe leucemia O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Hepatite escarlatina estupidez paralisia Toxoplasmose sarampo esquizofrenia Úlcera trombose coqueluche hipocondria Sífilis ciúmes asma cleptomania O corpo ainda é pouco O […]
- [Marina Colasanti - Sexta-feira à noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/marina-colasanti-sexta-feira-a-noite/): Sexta-feira à noite Os homens acariciam o clitóris das esposas Com dedos molhados de saliva. O mesmo gesto com que todos os dias Contam dinheiro, papéis, documentos E folheiam nas revistas A vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noite Os homens penetram suas esposas Com tédio e pénis. O mesmo tédio com que todos os […]
- [Waly Salomão - A Fábrica do Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/waly-salomao-a-fabrica-do-poema/): do livro: Algaravias: FÁBRICA DO POEMA in memoriam Donna Lina Bo Bardi sonho o poema de arquitetura idealcuja própria nata de cimento encaixa palavra porpalavra,tornei-me perito em extrair faíscas das britase leite das pedras.acordo.e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.acordo.o prédio, pedra e cal, esvoaçacomo um leve papel solto à mercê do ventoe evola-se, […]
- [Ferreira Gullar - Galo Galo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ferreira-gullar-galo-galo/): O galo no saguão quieto. Galo galo de alarmante crista, guerreiro, medieval. De córneo bico e esporões, armado contra a morte, passeia. Mede os passos. Pára. Inclina a cabeça coroada dentro do silêncio: — que faço entre coisas ? — de que me defendo ? Anda No saguão. O cimento esquece o seu último passo. […]
- [Manuel Bandeira - Profundamente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-profundamente/): Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes, cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o […]
- [Manuel Bandeira - Poema Só Para Jaime Ovalle](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-poema-so-para-jaime-ovalle/): Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando… – Humildemente pensando na vida e nas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Máquina do Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/carlos-drummond-de-andrade-a-maquina-do-mundo/): E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio […]
- [José Paulo Paes - A Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-a-cidade/): Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que […]
- [José Paulo Paes - Revisitação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-revisitacao/): Cidade, por que me persegues? Com os dedos sangrando já não cavei em teu chão os sete palmos regulamentares para enterrar meus mortos? Não ficamos quites desde então? Por que insistes em acender toda noite as luzes de tuas vitrinas com as mercadorias do sonho a tão bom preço? Não é mais tempo de comprar. […]
- [Philip Larkin – Este Seja o Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/philip-larkin-este-seja-o-poema/): Teu pai e mãe fodem contigo. Que não o queiram, tanto faz. Passam-te cada podre antigo, além de uns novos, especiais. Mas de cartola e fraque, outrora, fodera-os já do mesmo modo, gente ora austero-piegas, ora se engalfinhando cega de ódio. Miséria é o que legamos: fossas num mar que só fica mais fundo. Dá […]
- [Jaime Gil de Biedma - Não Voltarei a ser Jovem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jaime-gil-de-biedma-nao-voltarei-a-ser-jovem/): Que é certo a vida passa só se começa a compreender mais tarde — como todos os jovens, decidi levar a minha vida por diante. Deixar marca eu queria e partir entre aplausos — envelhecer, morrer, eram somente as dimensões do teatro. Porém, passou o tempo e a verdade mais amarga assoma: envelhecer, morrer, é […]
- [William Butler Yeats - Quando Velha e Grisalha...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/william-butler-yeats-quando-velha-e-cansada-poema/): Quando velha e grisalha e exausta, ao fim do dia, tu cabeceares junto ao fogo, vem folhear lentamente este livro, e lembra o doce olhar e as sombras densas que nos olhos teus havia. Quantos, com falsidade ou devoção sincera, amaram-te a beleza e graça de menina! Um só, porém, amou tua alma peregrina, e […]
- [Ivan Junqueira - Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-morrer/): Pois morrer é apenas isto: cerrar os olhos vazios e esquecer o que foi visto; é não supor-se infinito, mas antes fáustico e ambíguo, jogral entre a história e o mito; é despedir-se em surdina, sem epitáfio melífluo ou testamento sovina; é talvez como despir o que em vida não vestia e agora é inútil […]
- [Ivan Junqueira - Esse Punhado de Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-esse-punhado-de-ossos/): Esse punhado de ossos que, na areia, alveja e estala à luz do sol a pino moveu-se outrora, esguio e bailarino, como se move o sangue numa veia. Moveu-se em vão, talvez, porque o destino lhe foi hostil e, astuto, em sua teia bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia o que havia de raro […]
- [Ivan Junqueira - A Sagração dos Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-a-sagracao-dos-ossos/): Considerai estes ossos – tíbios, inúteis, apócrifos – que sob a lápide dormem sem prédica que os conforte. Considerai: é o que sobra de quem lhes serviu de invólucro e agora já não se move entre as tábuas do sarcófago. Dormem sem túnica ou toga e, quando muito, um lençol lhes cobre as partes mais […]
- [Ivo Barroso - Poema a meu Pai](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivo-barroso-poema-a-meu-pai/): Meu pai morreu longe de mim (eu é que estava longe dele). Tantos anos se passaram e ainda não lhe vi a sepultura. Continuo longe. Mas sua presença me sacode como um choque elétrico, uma bebida forte que me arde por dentro. Está vivo nos meus dedos, nos cabelos ralos – a nuca dá arrepios […]
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono-2/)
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono/): Senhor, foi um verão imenso: é hora.Estende as tuas sombras nos relógiosde sol e solta os ventos prado afora. Instiga a sazonarem, com dois diasa mais de sul, as frutas que, tardias,conduzes rumo à plenitude, e apura,no vinho denso, a última doçura. Quem não tem lar já não terá; quem morasozinho há de velar e […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Homenagem a Ricardo Reis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/sophia-de-mello-breyner-andresen-homenagem-a-ricardo-reis/): Não creias, Lídia , que nenhum estioPor nós perdido possa regressarOferecemos a florQue adiámos colher. Cada dia te é dado uma só vezE no redondo círculo da noiteNão existe piedadePara aquele que hesita Mais tarde será tarde e já é tardeO tempo apaga tudo menos esseLongo indelével rastoQue o não – vivido deixa. Não creias […]
- [Ricardo Reis - Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ricardo-reis-vem-sentar-te-comigo-lidia-a-beira-do-rio/): Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.) Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, […]
- [John Donne - Elegia: indo para o leito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/john-donne-elegia-indo-para-o-leito/): Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz; Até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, Canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, Céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, Feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor […]
- [Bruno Tolentino - Via Crucis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/bruno-tolentino-via-crucis/): A Via Crucis foi uma selvageria, a Crucifixão uma brutalidade; mas em três, quatro horas, acabou a agonia, baixou a eternidade. Eu vivo aqui, crucificada noite e dia, carrego da manhã à tarde o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia, lenta, fria, covarde. Ah, como eu preferia que me crucificassem de uma […]
- [Catulo - Vivamus, mea Lésbia, ataque amemus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/catulo-vivamus-mea-lesbia-ataque-amemus/): Vivamos minha Lésbia, e amemos, e as graves vozes velhas – todas – valham para nós menos que um vintém. Os sóis podem morrer e renascer: quando se apaga nosso fogo breve dormimos uma noite infinita. Dá-me pois mil beijos, e mais cem, e mil, e cem, e mil, e mil e cem. Quando somarmos […]
- [Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/percy-bysshe-shelley-ozymandias-poema/): Disse o viajante de uma antiga terra: “Duas pernas de pedra, no deserto, Despontam gigantescas, e bem perto Há um rosto destroçado que descerra Os lábios num sorriso de comando Que atesta: o escultor leu com mestria Paixões que na matéria inerte e fria A mão que as entalhou vão perdurando. ‘Meu nome é Ozymândias, […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/giuseppe-ungaretti-natal/): Não me apetece mergulhar em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixe-me assim como uma coisa pousada em um canto e abandonada Aqui não se sente senão o bom calor Estou com as quatro cabriolas de fumo da lareira
- [Jorge Luis Borges - Nuvem (1)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/jorge-luis-borges-nuvem-1/): Não haverá uma só coisa que não seja uma nuvem. São nuvens as catedrais de vasta pedra e bíblicos cristais que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia que muda como o mar. Algo há distinto cada vez que a abrimos. O reflexo de tua cara já é outro no espelho e o dia é […]
- [Olavo Bilac - Nel Mezzo Del Camin...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/olavo-bilac-nel-mezzo-del-camin/): Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigadaE triste, e triste e fatigado eu vinha.Tinhas a alma de sonhos povoada,E a alma de sonhos povoada eu tinha… E paramos de súbito na estradaDa vida: longos anos, presa à minhaA tua mão, a vista deslumbradaTive da luz que teu olhar continha. Hoje, segues de novo… Na partidaNem o pranto teus […]
- [Machado de Assis - A Carolina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/machado-de-assis-a-carolina/): Querida, ao pé do leito derradeiroEm que descansas dessa longa vida,Aqui venho e virei, pobre querida,Trazer-te o coração do companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiroQue, a despeito de toda humana lida,Fez a nossa existência apetecidaE num recanto pôs um mundo inteiro. Trago-te flores, – restos arrancadosDa terra que nos viu passar unidosE ora mortos nos deixa […]
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/konstantinos-kavafis-itaca/): Ítaca, um poema de Konstantinos Kaváfis
- [Vladimir Maiakovski/Caetano Veloso - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-caetano-veloso-o-amor/): Talvez quem sabe um dia Por uma alameda do zoológico Ela também chegará Ela que também amava os animais Entrará sorridente assim como está Na foto sobre a mesa Ela é tão bonita Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão O século trinta vencerá O coração destroçado já Pelas mesquinharias Agora vamos […]
- [Vladimir Maiakovski - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-o-amor/): “O Amor”, um poema de Vladimir Maiakovski que explode a linguagem para fazer do sentimento uma força desmedida, urgente e quase insuportável.
- [Carlos Drummond de Andrade - Destruição](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-drummond-de-andrade-destruicao/): Os amantes se amam cruelmentee com se amarem tanto não se vêem.Um se beija no outro, refletido.Dois amantes que são? Dois inimigos. Amantes são meninos estragadospelo mimo de amar: e não percebemquanto se pulverizam no enlaçar-se,e como o que era mundo volve a nada. Nada, ninguém. Amor, puro fantasmaque os passeia de leve, assim a […]
- [Antonio Cicero - Huis Clos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-huis-clos/): Da vida não se sai pela porta: só pela janela. Não se sai bem da vida como não se sai bem de paixões jogatinas drogas. E é porque sabemos disso e não por temer viver depois da morte em plagas de Dante Goya ou Bosh (essas, doce príncipe, cá estão) que tão raramente nos matamos […]
- [Antonio Cicero - História](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-historia/): A história, que vem a ser? mera lembrança esgarçada algo entre ser e não-ser: noite névoa nuvem nada. Entre as palavras que a gravam e os desacertos dos homens tudo o que há no mundo some: Babilônia Tebas Acra. Que o mais impecável verso breve afunda feito o resto (embora mais lentamente que o bronze, […]
- [Manuel de Freitas - Nada de nada](https://singularidadepoetica.art/2019/05/05/manuel-de-freitas-nada-de-nada/): para o José Carlos Soares Um dia, logo de manhã, entraremos num cemitério e perguntarás a Antonia Pozzi se estar morto é mais ou menos triste do que estes dias arduamente sepultados. Receando que saibas a resposta, beberei com Lowry a primeira ou a última tequila, na certeza de que ambos os adjetivos estarão certos […]
- [José Miguel Silva - Desculpas não faltam](https://singularidadepoetica.art/2019/05/04/jose-miguel-silva-desculpas-nao-faltam/): Uma casa junto ao Vouga, rio de água suficiente, onde apenas se mergulha até à cintura, a pequena horta de Virgílio, o amor robustecido por nenhuma esperança e tantos livros para ler — que desculpa vou agora dar para não ser feliz?
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/03/herberto-helder-de-poemas-canhotos-4/): o António Ramos Rosa estava deitado na cama contra a parede e deu meia volta sobre si mesmo e ficou de cara voltada contra a parede e fechou os olhos e fechou a boca e ficou todo fechado e então morreu todo fundo e completo de uma só vez e apenas ele no tempo e […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/02/herberto-helder-de-poemas-canhotos-3/): fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são inteligentes tão subis no súbito entendimento das intenções segundas que temos em relação a eles se lhes dessem a ler bons poemas maior proveito teriam aqueles que os escrevem do que tem com A ou B eu cá por mim estou certo de que nenhum golfinho […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/01/herberto-helder-de-poemas-canhotos-2/): escrever poemas não é boa maneira de atordoar os tempos do verbo, não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio, nem perder algures uma perna e lembrar-me depois de perder ainda a outra: ninguém ganha assim uma barra de ouro, ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro, ninguém transforma assim […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/04/30/herberto-helder-de-poemas-canhotos/): em boa verdade houve tempo em que tive uma ou duas artes poéticas, agora não tenho nada: sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas: as vezes apenas duas ou três linhas; outras, vinte ou trinta: houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei a encher umas quantas […]
- [Goliarda Sapienza – Para minha mãe](https://singularidadepoetica.art/2019/04/29/goliarda-sapienza-para-minha-mae/): Quando eu voltarserá noite fechadaQuando eu voltaras coisas estarão quietasNinguém vai me esperarnaquele leito de terraNinguém vai me acolhernaquele silêncio de terra Ninguém vai me consolarpor todas as partes já mortasque carrego em mimcom resignada impotênciaNinguém vai me consolarpelos instantes perdidospelos sons esquecidosque há tempoviajam ao meu lado e tornam densoo respiro, lamacenta a língua […]
- [Mário Cesariny – Em todas as ruas te encontro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/28/mario-cesariny-em-todas-as-ruas-te-encontro/): Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real que […]
- [Walt Whitman - Canção de mim mesmo, 48](https://singularidadepoetica.art/2019/04/27/walt-whitman-cancao-de-mim-mesmo-48/): 48 Eu disse que a alma não é mais do que o corpo, e disse que o corpo não é mais do que a alma, e nada, nem Deus, é maior para um ser do que esse ser para si mesmo, e quem quer que ande um estádio sem solidariedade caminha para seu próprio funeral […]
- [Joan Margarit - Ela](https://singularidadepoetica.art/2019/04/26/joan-margarit-ela/): É tempo de não esperar por ninguém. Passa o amor, fugaz e silencioso, como, na distância, um trem noturno. Não resta ninguém. É hora de voltar ao desolado reino do absurdo, ao sentimento de culpa, ao medo vulgar de perder o que estava, já, perdido. Ao inútil e sórdido tempo moral. É hora já de […]
- [Paulo Henriques Britto - Lacrimæ rerum](https://singularidadepoetica.art/2019/04/25/paulo-henriques-britto-lacrimae-rerum/): É o lamento das coisas, a desdita da matéria. Não tem nada a ver conosco, com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo. É uma questão de moléculas, que antecede a biologia por coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcana nosso entendimento pasma. Nem tudo está a vosso alcance, ó seres de protoplasma.
- [Philip Roth - Patrimônio (excerto 2)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/25/philip-roth-patrimonio-excerto-2/): Ele morreu três semanas depois. Durante uma provação de doze horas, que começou pouco antes da meia-noite de 24 doutubro de 1989 e terminou logo após o meio-dia, ele lutou por cada sorvo de ar com uma erupção impressionante, uma derradeira exibição da tenacidade férrea que havia demonstrado ao longo da vida. Algo digno de […]
- [Fernando Assis Pacheco - R., 1992](https://singularidadepoetica.art/2019/04/24/fernando-assis-pacheco-r-1992/): Quando os anos passarem sobre esse teu desgosto vais ver que te curaste não de vez mas um pouco pois o que a gente busca nas dobras do amor é a cura para a morte que não tem consolo e por falar em f’ridas até as que mais doem acabam por fechar só ela vence […]
- [Vasco Gato - Fera Oculta](https://singularidadepoetica.art/2019/04/23/vasco-gato-fera-oculta/): com a Inês para o Rodrigo I Durante essa tua natação de fera ocultahá um papiro que se desdobra na minha bocae nunca o futuro teve o saborde palavras tão sobejamente pronunciadasfamília rapaz umbigopalavras com que se poderia redigirtão pouca coisase não fosse a reinvenção da tua chegadainscrita no mundo como pedra preciosaque não é pedraantes […]
- [José Manuel Caballero Bonald - Transfiguração do perdido](https://singularidadepoetica.art/2019/04/22/jose-manuel-caballero-bonald-transfiguracao-do-perdido/): A música convoca as imagens degradadas do tempo. De onde estão me chamando, de qual penumbra, quando retornam para mim? Nada me pertence senão aquilo que perdi. Máscara do passado, a memória conflui para um fundo difuso de alegrias em que tudo soçobra e se reduz a nada, onde está minha verdade tornando-se mais crédula. […]
- [Rafael Montesinos - Vida](https://singularidadepoetica.art/2019/04/21/rafael-montesinos-vida/): Nasceu. Viveu feliz. Sorveu a vida de um só e belo trago adolescente. Buscou a solidão, e se viu frente a uma atroz, inesperada ferida. Em desvario, deu para crer em tudo. “Oh sensatez de não se crer em nada!”, disse, e depois a alma, entusiasmada quis sentir a vida de um outro modo. Farto […]
- [Philip Roth - Patrimônio (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/20/philip-roth-patrimonio-excerto/): “Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério, […]
- [Manuel António Pina - Sexta-feira Santa](https://singularidadepoetica.art/2019/04/19/manuel-antonio-pina-sexta-feira-santa/): A conversa era sobre Deus, embora o teólogo estivesse inclinado a pensar que fosse sobre outra coisa, pois era hora de jantar. Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar. Tinha devorado o pargo com honesto apetite e elogiava as virtudes do cozinheiro. Só Deus, algures, chorava sobre os despojos da sua pequena […]
- [Ian Hamilton - Admissão](https://singularidadepoetica.art/2019/04/18/ian-hamilton-admissao/): Os lábios rachados do porteiro noturno uniformizadoMurmuram horrivelmente contra o vidro embaçadoDe nossa ambulância escura.Nossa afliçãoInspira um único olhar marcial de desdémE logo ele nos indica o caminho, para a “Pátria”. Trad.: Nelson Santander Admission The chapped lips of the uniformed night-porterMumble horribly against the misted glassOf our black ambulance.Our plightInspires a single, soldierly, contemptuous […]
- [Manuel Halpern - Domingo de manhã](https://singularidadepoetica.art/2019/04/17/manuel-halpern-domingo-de-manha/): Quantos homens se apaixonam por ti ao sábado à tarde enquanto passeiam os filhos no parque e se distraem do balanço do baloiço na adivinhação das partes do corpo que trazes tapadas Mal sabem que a tua solidão não se preenche com a desventura erótica de um corpo que te cubra sem consolo Não há […]
- [Miguel Martins - Sou eu](https://singularidadepoetica.art/2019/04/16/miguel-martins-sou-eu/): são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral sou eu agora em espasmos, assemelhando-me […]
- [Ángel González - Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/04/15/angel-gonzalez-aniversario/): Eu percebo: como estou me tornandomais incerto, confuso,dissolvendo-me no arcotidiano, brutopedaço de mim, desgastadoe em frangalhos. Eu compreendo: vivimais um ano, e isso é muito duro.Pulsar o coração todos os diasquase cem vezes por minuto! Viver um ano requermorrer muito muitas vezes. Trad.: Nelson Santander Cumpleaños Yo lo noto: cómo me voy volviendomenos cierto, confuso,disolviéndome […]
- [William Butler Yeats - Um aviador irlandês prevê a morte](https://singularidadepoetica.art/2019/04/14/william-butler-yeats-um-aviador-irlandes-preve-a-morte/): Encontrarei meu fim no meio das nuvens de algum céu sobejo; os que combato, eu não odeio, também não amo os que protejo; Kiltartan Cross é meu país, seus pobres são a minha gente, nada a fará mais infeliz do que já era, ou mais contente. Não é por lei ou por dever, turba ou […]
- [Jaime Gil de Biedma - Pandêmia e Celeste](https://singularidadepoetica.art/2019/04/13/jaime-gil-de-biedma-pandemia-e-celeste/): Quan magnus numerus Libyssae arenae …………………………….. Aut quam sidera multa, cum tacet nox, Furtiuos hominum uident amores. CATULO, VII Imagina agora que tu e eu muito tarde da noite falamos de homem para homem, enfim. Imagina-o, em uma dessas noites memoráveis de rara comunhão, com a garrafa meio vazia, os cinzeiros sujos, depois de esgotado […]
- [Eugénio de Andrade - Mulheres de preto](https://singularidadepoetica.art/2019/04/12/eugenio-de-andrade-mulheres-de-preto/): Há muito que são velhas, vestidas de preto até a alma. Contra o muro defendem-se do sol de pedra; ao lume furtam-se ao frio do mundo. Ainda têm nome? Ninguém pergunta, ninguém responde. A língua, pedra também.
- [Giuseppe Ungaretti - Céu claro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/11/giuseppe-ungaretti-ceu-claro/): Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tanta névoa uma a uma se desvelam as estrelas Respiro o frescor que me deixa a cor do céu Me reconheço imagem passageira Presa de um ciclo imortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sereno Bosco di Courton luglio 1918 Dopo tanta nebbia a una a […]
- [Raymond Carver - A cabine telefônica](https://singularidadepoetica.art/2019/04/10/raymond-carver-a-cabine-telefonica/): Ela desaba na cabine, chorando no telefone. Perguntando uma coisa ou outra, e chorando um pouco mais. Seu companheiro, um camarada mais velho, usando jeans e camiseta, aguarda em pé a sua vez de falar, e chorar. Ela passa o telefone para ele. Por um minuto eles ficam juntos na minúscula cabine, as lágrimas dele […]
- [Joan Margarit - O ano em que ela morreu](https://singularidadepoetica.art/2019/04/09/joan-margarit-o-ano-em-que-ela-morreu/): Na fotografia em sépiaés jovem e sorri. Faz-me lembraras mulheres dos filmes de guerrada minha infância:barcos na neblina, trens noturnose grandes cidades sob o alarme aéreo.Na lápide está escrito que ela se foino inverno de 44,aos vinte anos, quando me apaixonavapela sufocante escuridãocruzada por um raio de luz, a heroínados sonhos de amor de minha […]
- [Manuel António Pina - Corpo presente](https://singularidadepoetica.art/2019/04/08/manuel-antonio-pina-corpo-presente/): Toda a casa suspendera a respiração incapaz de conter tamanha desproporção, e eu próprio desaparecera algures na sala, entre a tua vida e a tua morte. Atenderam o telefone falando baixo, temendo que regressasse cada coisa do teu lugar sem estar prontos ainda para a tua solidão. Faltava muito para podermos perceber, muitos passos para […]
- [Paulo Henriques Britto - Plaudite, amici](https://singularidadepoetica.art/2019/04/07/paulo-henriques-britto-plaudite-amici/): Seria muito bom saber sair de cena sem fazer cenas, sem roubar a cena, sem atropelar sequer um figurante. Pena que nessas horas se improvisa, e que ninguém respeita nada quando foge do roteiro. Mesmo os maiores canastrões têm seu momento de glória, de prima-donismo o mais rasteiro e o mais justificável. Pois na vida […]
- [Nuno Júdice - É isto o amor](https://singularidadepoetica.art/2019/04/06/nuno-judice-e-isto-o-amor/): Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me a sermos dois; e a […]
- [Luís García Montero - Resumo dos fatos](https://singularidadepoetica.art/2019/04/05/luis-garcia-montero-resumo-dos-fatos/): Falei com a morte por telefonee recebi e-mails de amor que foram apagadossem deixar uma única lágrima em papel amarelo.Ninguém esqueça os tempos, mas ninguém se engane:no final, apenas o amor e a morte importam. Trad.: Nelson Santander Resumen de los hechos He hablado con la muerte por teléfonoy he recibido e-mails de amor que […]
- [Fernando Assis Pacheco - Respiração Assistida](https://singularidadepoetica.art/2019/04/04/fernando-assis-pacheco-respiracao-assistida/): Eu vi a morte de noite – névoa branca – entre os frascos do soro rondar a minha cama era um trasgo e como tal metera-se pelas frinchas; noutra versão coando-se através dos nós da madeira ou noutra ainda imitando à perfeição o gorgolejar da água nos ralos: eu tremia covardemente enquanto ela raspava a […]
- [Carlos Poças Falcão - A luz coada num pano negro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/03/carlos-pocas-falcao-a-luz-coada-num-pano-negro/): Lamenta-te, pois já não é alegre o vento sobre os campos. Não há descoberta nem transfiguração quando o calendário vem com as primícias. Lamenta-te, lamenta-te. Já não tens a nudez certa nem a fragrância antiga.
- [Paul Verlaine – Chanson D'Automne (em seis traduções)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/02/paul-verlaine-chanson-dautomne-em-seis-traducoes/): Canção do Outono (Trad.: Alphonsus de Guimaraens) Os soluços graves Dos violinos suaves Do outono Ferem a minh’alma Num langor de calma E sono. Sufocado, em ânsia, Ai! quando à distância Soa a hora, Meu peito magoado Relembra o passado E chora. Daqui, dali, pelo Vento em atropelo Seguido, Vou de porta em porta, Como […]
- [Vicente Gaos - Esquecei](https://singularidadepoetica.art/2019/04/01/vicente-gaos-esquecei/): Esquece, homem… Esquece que és cinzase em cinzas te tornarás. Esquece esta quarta-feirae o in pulvis reverteris. Pois embora sejas cinza e pó,há vida, amor, beleza ao redor. É verdade: beleza, amor, vida,fugazes flores de um dia. Mas flores, sim. Enquanto durara magia verdadeira de seu perfume, esquece o pó e a morte.É melhor não lembrar […]
- [Helena Zelic - Bem-vinda](https://singularidadepoetica.art/2019/03/31/helena-zelic-bem-vinda/): em uma casa desconhecidaé preciso observar os movimentos das coisas: o gás se vem da rua ou botijãoas árduas relações entre tomadas e eletrodomésticosbotões de liga e desligaa política da limpezase toda sujeira é política.as cores das chaves, as trancas trocadasencaixar, tirar e encaixar de novona busca do que é espontâneo.entrar na casa como se […]
- [Eugénio de Andrade - Fim de tarde em S Lázaro](https://singularidadepoetica.art/2019/03/30/eugenio-de-andrade-fim-de-tarde-em-s-lazaro/): Estou sozinho. Nas estantes, restos da minha vida. É quase noite sobre os telhados. No livro abandonado nas mãos corre um rio: à deriva duas ou três coisas que foram minhas: um punhado de amoras, a porosa delícia do barro, essas nuvens, essas aves num céu branco de trigo, um sorriso que também era um […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Mal de ausência](https://singularidadepoetica.art/2019/03/29/luis-alberto-de-cuenca-mal-de-ausencia/): Desde que partiste, não sabes como devagar passa o tempo em Madrid. Vi um filme que terminou apenas há um século. Não sabes que lento corre o mundo sem ti, noiva distante. Os amigos pedem-me que volte a ser o mesmo que o coração apodrece de tanta melancolia, que a tua ausência não vale tanta […]
- [Francisco Brines - Última declaração de amor](https://singularidadepoetica.art/2019/03/28/francisco-brines-ultima-declaracao-de-amor/): Oh Vida, que tudo me deste. Agora já sei que, sendo isto verdade, nada me deste. Mas deixa-me olhar-te ainda com amor, mesmo que eu já não mais deseje abraçar-te. E embora saibas que eu não te abandono podes tu abandonar-me. Trad.: Nelson Santander Última declaración de amor Oh Vida, que todo me lo has […]
- [José Fernando Guedes - Os pássaros cantam forte](https://singularidadepoetica.art/2019/03/27/jose-fernando-guedes-os-passaros-cantam-forte/): Os pássaros cantam forte, um poema de José Fernando Guedes
- [Giuseppe Ungaretti - Sou uma criatura](https://singularidadepoetica.art/2019/03/26/giuseppe-ungaretti-sou-uma-criatura-poema/): Valloncello di Cima Quattro, 5 de agosto de 1916 Como esta pedra de S. Michele tão fria tão dura tão seca tão indiferente tão completamente sem ânimo Como esta pedra é meu pranto que não se vê A morte se expia vivendo Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sono una creatura Valloncello di Cima […]
- [Raymond Carver - Esta manhã](https://singularidadepoetica.art/2019/03/25/raymond-carver-esta-manha/): Esta manhã foi especial. Um pouco de neve cobria o chão. O sol flutuava num claro céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado, até onde o olho podia enxergar. Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti e saí para caminhar – decidido a não voltar até receber o que a Natureza tivesse a oferecer. […]
- [Paulo Henriques Britto - Da irresolução](https://singularidadepoetica.art/2019/03/24/paulo-henriques-britto-da-irresolucao/): Por não se estar preparadoperde-se a vida inteira.A preparação, porém,pra ser completa e certeira, exigiria no mínimouma existência e meia.Compreende-se, portanto,aquele que titubeia ao se ver face a facecom tamanho compromissoe termina decidindoviver mesmo de improviso.
- [Joan Margarit - Helena](https://singularidadepoetica.art/2019/03/23/joan-margarit-helena/): O ontem é teu inferno. É cada instanteem que, sem sabê-lo, te perdestee também cada instante em que foste salvo.Quando o jovem que foste está muito distante,o amor é vingança do passado.Vens de uma guerra em que foste vencido,de armas e acampamentos abandonadosna Troia que levas dentro de ti.Buscar-te-ão de noite os aqueose estreitarão o […]
- [Manuel António Pina - Café Orfeu](https://singularidadepoetica.art/2019/03/22/manuel-antonio-pina-cafe-orfeu/): Nunca tinha caído de tamanha altura em mim antes de ter subido às alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorriso como de uma súbita ausência ou como se tivesse lá ficado e outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorriso a minha vida parecia a vida de outra pessoa que fora de mim […]
- [Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave](https://singularidadepoetica.art/2019/03/21/fernando-pinto-do-amaral-por-causa-de-uma-ave/): para a minha mãe Cada vez gosto menos de saborearo travo tão pastoso da morte, o murmúriosecreto dos seus olhos invisíveisdentro de mim. Porém, há pouco tempo,num fim de tarde deste fim de julho,passou-me um episódio que rompeude repente na alma todas as comportasque fingem proteger os ópios tranquilosa que chamamos vida. Aconteceudepois de ter […]
- [Rui Caeiro - Sabem que mais?](https://singularidadepoetica.art/2019/03/20/rui-caeiro-sabem-que-mais/): Sou um homem dado ao álcool e a eternas dúvidas e que na rua ou lá onde seja a todo o momento pode tropeçar ou morrer: voar é que é muito mais improvável Sou um homem de áridas certezas e uma esperança a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas paro escuto e olho […]
- [Diogo Vaz Pinto – Guilty pleasures](https://singularidadepoetica.art/2019/03/19/diogo-vaz-pinto-guilty-pleasures/): No princípio correram ainda uns dias sem que o desencanto desse pela nossa falta. Seja como for, não fomos muito longe. Íamos mais era ao cinema mas aí eu já olhava menos para o lado, apaixonava-me pelas tipas que enchiam o ecrã, para depois, com o sexo aceso e louco por se molhar entre quaisquer […]
- [Vicente Gaos - A vida](https://singularidadepoetica.art/2019/03/18/vicente-gaos-a-vida/): Os ardorosos signos da vidapulsam na atmosfera do verão.O mar respira tal como um varão,como uma criatura enfurecida. Oh gozo e amor, sangue furioso,cósmica vibração de um mundo arcano.Mundo que sinto ao tatear teu crâniofrágil quando nele minha mão pouso. Te amo, sim, te amo, sonho forte,Fecho os olhos e te sinto inteira– Oh luz […]
- [Rui Diniz - O desaguar dos crepúsculos no Ebro](https://singularidadepoetica.art/2019/03/17/rui-diniz-o-desaguar-dos-crepusculos-no-ebro/): Eu estava presente quando o corpo do hernandez deu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamente roxo, evocava os últimos dias da sua vida, quando se demorava o menos possível nos cafés de barcelona, perseguido até por si próprio. De facto a loucura procurava-o lentamente. Durante a noite, em tempo de lua cheia, a […]
- [Ramón de Garciasol - Ávila do Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2019/03/16/ramon-de-garciasol-avila-do-silencio/): Silêncio: cala-me até as raízes, lava minha carne, meu suor de morte, a caspa cotidiana. Quero ver-te, Senhor, em paz, pelo que me dizes sem esta feroz contenda confusa, extinta a chama, pedra pura de eternidade sem fim, viva verdura sem o sal da dor e das cinzas. Silêncio: chove mais. A terra dura está […]
- [Ian Hamilton - Legado](https://singularidadepoetica.art/2019/03/15/ian-hamilton-legado/): Estamos no inverno agora e estou aquecido, Acamado, feliz por ter sobrevivido. Minha mobília Me cerca. Eu posso alcançar meus livros. E você, noite após noite, Até “o fim” Ficará comigo. Entre nós Há lenitivos, esta dor E estes poemas inacabados eu lego a você. Muitas vezes deve ser assim. Escurecemos suavemente enquanto você conta […]
- [Carmen Conde - [Declaro que morreu e que seu túmulo]](https://singularidadepoetica.art/2019/03/14/carmen-conde-declaro-que-morreu-e-que-seu-tumulo/): Declaro que morreu e que seu túmuloestá dentro de mim; sou seu sudário.A ninguém se enterrou porque seu trânsitono tempo foi de loucas esperanças. Circundam o contorno desta cova– quente é a vinha que escala as paredes –os pâmpanos mais tenros e suculentosque arrancam do silêncio seu tumulto. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma […]
- [Mario Benedetti - Currículo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/13/mario-benedetti-curriculo/): A história é muito simplesvocê nascecontempla aturdidoo vermelho-azul do céuo pássaro que emigrao desajeitado besouroque seu sapato esmagarádestemido você sofrereclama por comidae por hábitopor obrigaçãochora isento de culpasexaustoaté que o sonho o desqualifique você amase transfigura e amapor uma eternidade tão efêmeraque até o orgulho se torna ternoe o coração proféticose converte em escombros você […]
- [Nicanor Parra - Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2019/03/12/nicanor-parra-esquecimento/): Juro que não me lembro nem do seu nome,Mas morrerei chamando-a de Maria,Não por mero capricho de poeta,Pela sua aura de praça de província.Que tempos aqueles!, eu, um esquisitão,Ela, jovem pálida e sombria.Ao voltar certa tarde do LiceuSoube de sua morte imerecida,Notícia que me causou tal desalentoQue derramei uma lágrima ao ouvi-la.Uma lágrima, sim, quem […]
- [Luis Alberto de Cuenca - A casa da minha infância](https://singularidadepoetica.art/2019/03/11/luis-alberto-de-cuenca-a-casa-da-minha-infancia/): Fui feliz naquela casa repleta de flores e de livros proibidos. A casa em que tu eras Ginevra nos nossos jogos, e eu era o rei Artur (não havia Lancelote para arruinar tudo). A casa onde foste donzela das minhas ânsias, senhora dos meus suspiros, muralha em meu peito, cofre do meu tesouro, brinde dos […]
- [José Fernando Guedes - Coeso é o tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/10/jose-fernando-guedes-coeso-e-o-tempo/): Coeso é o tempo em cada tênue segundo Que logo se desfaz e se reconstrói Como uma linguagem de gestos que o universo Elabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundo Há suficiente espaço para se fazer o bem ou o mal Porque é assim mesmo que acontece: o mal ou o […]
- [Giuseppe Ungaretti - Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2019/03/09/giuseppe-ungaretti-silencio/): Mariano, 27 de junho de 1916 Conheço uma cidade que cada dia se enche de sol e tudo é arrebatado nessa hora Dela parti uma tarde No coração perdurava o limar das cigarras Do navio laqueado de branco vi minha cidade sumir deixando por um instante no ar toldado um abraço de luzes suspensas Trad.: […]
- [Raymond Carver - A carteira do meu pai](https://singularidadepoetica.art/2019/03/08/raymond-carver-a-carteira-do-meu-pai/): Muito antes de pensar em sua própria morte meu pai dizia que gostaria de descansar perto dos seus pais. Sentia muita falta deles desde que tinham partido. Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse, e eu me lembrasse. Mas quando o ar deixou seus pulmões e todo sinal de vida se extinguiu, […]
- [Francisco Brines - A Piedade do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/07/francisco-brines-a-piedade-do-tempo/): Em que escuro recanto do tempo que morreu vivem ainda, a arder, aqueles coxas? Dão luz ainda a estes olhos tão velhos e enganados, que voltam agora a ser o milagre que foram: desejo de uma carne, e a alegria do que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagem que […]
- [Paulo Henriques Britto - Uma nova teoria de tudo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/06/paulo-henriques-britto-uma-nova-teoria-de-tudo/): Todas as coisas que existem no mundo fazem sentido. Senão não teria sentido elas serem. Ou estarem. Tudo mais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nunca faz parte de sempre, assim como zero é apenas um número entre outros números. Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é […]
- [Rui Chafes](https://singularidadepoetica.art/2019/03/05/rui-chafes/): “Só a forma e o vazio são universais; tudo o resto é pó e cinzas.”
- [Helena Zelic - Dimensões](https://singularidadepoetica.art/2019/03/04/helena-zelic-dimensoes/): “dimensões”, um poema de Helena Zelic que desloca a história e a experiência humana para a vertigem de uma hipótese radical: e se tudo não passar do sonho de outro ser, à margem de um mundo desconhecido?
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - 25 de abril](https://singularidadepoetica.art/2019/03/03/sophia-mello-breyner-andresen-25-de-abril/): Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo
- [Rainer Maria Rilke - Tira-me a luz dos olhos](https://singularidadepoetica.art/2019/03/02/rainer-maria-rilke-tira-me-a-luz-dos-olhos/): Tira-me a luz dos olhos; continuarei a ver-te. Tapa-me os ouvidos; continuarei a ouvir-te. E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti. E, mesmo sem boca, posso chamar por ti. Arranca-me os braços e tocar-te-ei Com o meu coração como com uma mão… Despedaça-me o coração; e o meu cérebro baterá E, mesmo que faças […]
- [Eugénio de Andrade - O Amigo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/01/eugenio-de-andrade-o-amigo/): Não voltará – o que dele me ficou é como no inverno entre cortinas de chuva um tímido fio de sol: ilumina mas não aquece as mãos.
- [Joan Margarit - Esboço para um Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/28/joan-margarit-esboco-para-um-epilogo/): Diante de ti sentes um rumor de passosque vem do futuro, essa torredemolida antes de ser construída.Só existe a dúvida moral: ama,não penses na camada de póa que tanto aludes, ostensivamente,quando dizes: “minha vida”.E, do prestígio das negações,desconfia: a vida representanão só a vitória dos anossobre nós. Também nos ensinaquão gloriosa foinossa primeira inicial sobre […]
- [Israel Zangwill - Um dia, estando entre nós dois o Atlântico...](https://singularidadepoetica.art/2019/02/27/israel-zangwill-um-dia-estando-entre-nos-dois-o-atlantico/): Um dia, estando entre nós dois o Atlântico, senti a tua mão na minha; Agora, tendo a tua mão na minha, sinto entre nós dois o Atlântico. Trad.: Cecília Meireles
- [Manuel António Pina - Numa Estação de Metrô](https://singularidadepoetica.art/2019/02/26/manuel-antonio-pina-numa-estacao-de-metro/): A minha juventude passou e eu não estava lá. Pensava em outra coisa, olhava noutra direção. Os melhores anos da minha vida perdidos por distração! Rosalinda, a das róseas coxas, onde está? Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão? Provavelmente professoras de Alemão em colégios fora do tempo e do espa- ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-ia amado […]
- [Ezra Pound - Metrô](https://singularidadepoetica.art/2019/02/25/ezra-pound-metro/): A visão destas faces dentre a turba: Pétalas num ramo úmido, escuro. Trad.: Augusto de Campos In a station of the metro The apparition of these faces in the crowd; petals on a wet, black bough.
- [Konstantinos Kaváfis – Coisas Ocultas](https://singularidadepoetica.art/2019/02/24/konstantinos-kavafis-coisas-ocultas/): De tudo quanto fiz e quanto disse, não procurem saber quem eu era. Um obstáculo havia e transformou os meus atos e o meu modo de viver. Um obstáculo havia e me deteve cada vez em que eu ia falar. Os mais despercebidos dos meus atos, e, de meus escritos, os mais dissimulados – só […]
- [Rupi Kaur - preliminares](https://singularidadepoetica.art/2019/02/23/rupi-kaur-preliminares/): você envolve meu cabelo com os dedos e puxa é assim que você tira música de mim — preliminares Trad.: Ana Guadalupe You wrap you fingers around my hair and pull this is how you make music out of me — foreplay
- [Bruna Beber - Romance em doze linhas](https://singularidadepoetica.art/2019/02/22/bruna-beber-romance-em-doze-linhas/): quanto falta pra gente se ver hoje quanto falta pra gente se ver logo quanto falta pra gente se ver todo dia quanto falta pra gente se ver pra sempre quanto falta pra gente se ver dia sim dia não quanto falta pra gente se ver às vezes quanto falta pra gente se ver cada […]
- [Sérgio Jockyman - Os votos](https://singularidadepoetica.art/2019/02/21/sergio-jockyman-os-votos/): Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado. E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa. Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e […]
- [Felipe Benítez Reyes - O desenho na água](https://singularidadepoetica.art/2019/02/20/felipe-benitez-reyes-o-desenho-na-agua/): Bem sabes que estes anos passarão,que tudo terminará em literatura:a imagem das noites, as lendasda triunfante juventude e as cidadesvividas como corpos. Que estes anospassarão tu já sabes, pois são teuscomo se possuísses a neve e a neblina,como é do mar a bruma, ou do ara cor da tarde fugidia:pertences de ninguém e do nadasurgidos, […]
- [Nelson Santander - Clint Eastwood](https://singularidadepoetica.art/2019/02/19/nelson-santander-clint-eastwood/): Clint Eastwood, por Nelson Santander
- [Juan Luis Panero - Palavras e presságios](https://singularidadepoetica.art/2019/02/19/juan-luis-panero-palavras-e-pressagios/): Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.Repetir as sílabas, iluminar os símboloscomo cerradas salas, janelas empoeiradasque ocultam um jardim perdido, árvores da morte.Melancolia do regresso e medo do vazio,rangidos de madeira, agitar de sombras,e, de repente, em um quarto, perdidacomo um velho copo ou […]
- [José Fernando Guedes - Adeus meu pai](https://singularidadepoetica.art/2019/02/18/jose-fernando-guedes-adeus-meu-pai/): Continuo a vislumbrar o olhar que meu pai Me lançou, há tantos anos, lá da janela De onde morava. Eu realmente não vi com precisão Esse derradeiro olhar para mim. Era mais como um grito para dentro Que ele lançava. Meu nome talvez. Me acenou e foi o último acenar seu. Nessa despedida que eu […]
- [Raymond Carver - Um passeio](https://singularidadepoetica.art/2019/02/17/raymond-carver-um-passeio/): Saí para caminhar pelos trilhos do trem.Caminhei algum tempo por elese cheguei ao cemitério do povoado,onde um homem descansa entreduas esposas. Emily van der Zee,Mãe e Esposa Amada,está à direita de John van der Zee.Mary, a segunda senhora Van der Zee,também uma Esposa Amada, à sua esquerda.Primeiro Emily se foi, depois Mary.Anos mais tarde, foi […]
- [Ian Hamilton - A Tempestade](https://singularidadepoetica.art/2019/02/16/ian-hamilton-a-tempestade/): Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um ladoDo teu rosto, tua boca contraída, teu assustado.Voltas-te para mim e quando chamo, tu vensE ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tomeTua cabeça entre minhas mãos, como se fosseUma delicada tigela que a […]
- [Francisco Brines - Aquele verão de minha juventude](https://singularidadepoetica.art/2019/02/15/francisco-brines-aquele-verao-de-minha-juventude/): E o que restou daquele distante verãonas costas da Grécia?O que resta em mim do único verão de minha vida?Se pudesse escolher, de todos em que vivi,algum lugar, e o tempo que o ata,sua milagrosa companhia me arrasta até lá,onde ser feliz era a razão natural de existir. Perdura a experiência, como um quarto fechado […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Duas autotraduções"](https://singularidadepoetica.art/2019/02/14/paulo-henriques-britto-de-duas-autotraducoes/): (CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como […]
- [Joan Margarit - Amor e tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/13/joan-margarit-amor-e-tempo/): Lembras quando ainda desconheciasque a vida não teria piedade de ti?Amor e tempo: o tempo nos habitacomo a areia do rio que, lentamente,vai moldando a forma da margem.O amor, que refletiu em teu olharo esplendor da ilha do tesouro.Sensual, solitária, cercadapela sonora senectude do mare os gritos militares das gaivotas.O sonho clandestino dos cinquenta anos. […]
- [Manuel António Pina - As vozes](https://singularidadepoetica.art/2019/02/12/manuel-antonio-pina-as-vozes/): A infância vem pé ante pé sobe as escadas e bate à porta – Quem é? – É a mãe morta – São coisas passadas – Não é ninguém Tantas vozes fora de nós! E se somos nós quem está lá fora e bate à porta? E se nos fomos embora? E se ficamos sós?
- [William Soares dos Santos – A força do desejo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/11/william-soares-dos-santos-a-forca-do-desejo/): A força do desejo se desfaz tão logo se saciam as tensões ferozes do corpo e dos hemisférios e no destino dos braços do tempo os amantes se perdem em mistérios
- [Manuel Vilas - O último Elvis](https://singularidadepoetica.art/2019/02/10/manuel-vilas-o-ultimo-elvis/): Respeita sempre a decadência das mulherese dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amara vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.Respeita todos os sagrados e humildes naufrágiosdos seres humanos. Respeita aqueles que se suicidaram. Respeita aqueles que se […]
- [Walter Savage Landor - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2019/02/09/walter-savage-landor-epitafio-2/): Não lutei com ninguém; nada valia a lida.Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;As mãos, estas aqueci no fogo da vidaQue naufraga; estou pronto para o desate. Trad.: Nelson Santander Walter Savage Landor – Dying Speech of an Old Philosopher I strove with none, for none was worth my strife:Nature I loved, and, next […]
- [Giuseppe Ungaretti - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2019/02/08/giuseppe-ungaretti-in-memoriam/): Locvizza, 30 de setembro de 1916 Chamava-seMoammed Sceab Descendentede emires de nômadessuicidaporque não tinha maisPátria Amou a Françae mudou de nome Foi Marcelmas não era francêse já não sabiaviverna tenda dos seusonde se escuta a cantilenado Alcorãosaboreando um café E não sabiadesataro cantodo seu abandono Acompanhei-ojunto com a dona da pensãoonde vivíamosem Parisdo número 5 […]
- [Raymond Carver - Vocês não sabem o que é o amor (uma noite com Charles Bukowski)](https://singularidadepoetica.art/2019/02/07/raymond-carver-voces-nao-sabem-o-que-e-o-amor-uma-noite-com-charles-bukowski/): Vocês não sabem o que é o amor disse BukowskiEu tenho 51 anos e olhem pra mimestou apaixonado por essa garotaestou louco por ela mas ela também estáentão tudo bem cara é assim que deve serEu entro no sangue delas e elas não conseguem se livrarElas tentam de tudo pra se afastar de mimmas no […]
- [Wilfred Owen - Futilidade](https://singularidadepoetica.art/2019/02/05/wilfred-owen-futilidade/): Coloquem-no à luz do sol… Em casa Seu toque gentil o acordava com a lembrança De campos ainda por plantar… O sol o acordou sempre, até na França, Até chegarem a manhã de hoje e a neve que aí está. Se alguma coisa pode acorda-lo agora, Só o velho sol saberá. Lembrem que também acorda […]
- [Andreia C. Faria - "Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada"](https://singularidadepoetica.art/2019/02/04/andreia-c-faria-tenho-a-pedir-vos-que-nao-reutilizeis-mais-nada/): "Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada", um poema de Andreia C. Faria
- [Adam Zagajewski - Conversa com Friedrich Nietzsche](https://singularidadepoetica.art/2019/02/04/adam-zagajewski-conversa-com-friedrich-nietzsche/): “Conversa com Friedrich Nietzsche”, um poema de Adam Zagajewski que imagina um diálogo com o filósofo alemão para investigar algumas das questões mais profundas da existência humana.
- [Jorge Luis Borges - João 1,14](https://singularidadepoetica.art/2019/02/03/jorge-luis-borges-joao-114/): Não será menos enigmática esta páginaque as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetemas bocas ignorantes,por julgá-las de um homem, não espelhosobscuros do Espírito.Eu que sou o É, o Foi e o Serátorno a condescender com a linguagem,que é tempo sucessivo e emblema.Quem brinca com um menino brinca com algopróximo e misterioso;eu quis […]
- [Ian Hamilton - Despertar](https://singularidadepoetica.art/2019/02/02/ian-hamilton-despertar/): Sua cabeça, tão enferma, repousa junto à minha.Tão sensível. Você não consegue lembrarPor que está aqui, nem reconheceEstas mãos prestativas.Meu amor,O mundo nos encurrala. Estamos perdendo terreno. Trad.: Nelson Santander Awakening Your head, so sick, is leaning against mine,So sensible. You can’t rememberWhy you’re here, nor do you recognizeThese helping hands.My love,The world encircles us. […]
- [Manuel António Pina - Gare du Sud](https://singularidadepoetica.art/2019/02/01/manuel-antonio-pina-gare-du-sud/): Tudo o que temos pertence a outros, desconhecidos de nós, e ainda a outros, e temo-lo como se o perdêssemos ficando uma sombra, a nossa sombra. Estamos longe de casa e essa sombra é a única morada a que podemos acolher-nos. A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante; e se a ouvíssemos […]
- [José María Cumbreño - Identidade](https://singularidadepoetica.art/2019/01/31/jose-maria-cumbreno-identidade/): Durante anos, a roupa que usei foi herdada de meu irmão mais velho.Meu nome me foi dado em homenagem ao meu avô.O primeiro carro que conduzi era de segunda mão.A primeira mulher que me beijou já havia beijado outros.A casa em que habito é alugada.Tudo o que escrevo já foi escrito por alguém há muito […]
- [Billy Collins - As cadeiras em que ninguém se senta](https://singularidadepoetica.art/2019/01/30/billy-collins-as-cadeiras-em-que-ninguem-se-senta/): Vêem-se em varandas e em relvados mesmo à beira do lago, geralmente dispostas em pares indicando que um casal se poderá sentar ali e olhar para a água ou para as grandes árvores frondosas. O problema é que nunca se vê ninguém sentado nessas cadeiras abandonadas embora a dada altura deva ter parecido um bom […]
- [José Luis García Martín - Em algum lugar](https://singularidadepoetica.art/2019/01/29/jose-luis-garcia-martin-em-algum-lugar/): Logo, depois, mais tarde, quando nunca,meus passos se afastaram dos meus passose em algum lugar, não sei se dentro ou fora,ouviu-se uma voz que repetia um nome.Uma voz, apenas um eco, quase nada,talvez a voz do vento entre as árvoresonde árvores sequer existiam.Tremiam os alicerces da terraou seria eu quem tremia naquele instantequando um sol […]
- [Walter de la Mare - Os que ouviam](https://singularidadepoetica.art/2019/01/28/walter-de-la-mare-os-que-ouviam-2/): “Está aí alguém?”, disse o Viajante Batendo à porta de luar; A relva, chão de fetos da floresta, Pôs-se o cavalo a devorar. Sobre a cabeça do Viajante, um pássaro Voou da torre para além. E ele feriu a porta uma outra vez, Dizendo: “Está aí alguém?” Do peitoril da janela, ninguém Desceu até o […]
- [Louise Glück - Trillium*](https://singularidadepoetica.art/2019/11/20/louise-gluck-trillium/): Quando acordei, estava em uma floresta. A escuridãoparecia natural, o céu entre os pinheirosrepleto de muitas luzes. Eu não sabia nada; eu não podia fazer nada além de olhar.E enquanto observava, todas as luzes do céuse apagaram para formar uma única coisa, um fogoardendo por entre os frescos abetos.Então, não era mais possível olharpara o […]
- [Louise Glück - Matinas (2)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/19/louise-gluck-matinas-2/): Pai inalcançável, quando fomos, pela primeira vez,exilados do paraíso, criasteuma réplica, um lugar em certo sentidodiferente do paraíso,concebido para ensinar uma lição: de outro modo,o mesmo – beleza em ambos os lados, belezasem alternativa – Excetoque não sabíamos qual era a lição. Deixados sozinhos,nos consumimos. Anosde escuridão se seguiram; nos revezávamoscuidando do jardim, as primeiras […]
- [Louise Glück - Matinas* (1)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/18/louise-gluck-matinas-1/): Brilha o sol; perto da caixa de correio, folhasde uma bétula dividida, dobradas, plissadas como barbatanas.Abaixo, hastes ocas de narcisos brancos, Tulipas,Cantatrice**; folhasescuras de violetas selvagens. Noah dizque os depressivos odeiam a primavera, desequilíbrioentre o mundo interior e exterior. Eu defendooutra perspectiva – deprimida, sim, mas de alguma forma apaixonadamenteunida à árvore viva, meu corporealmente […]
- [Louise Glück - A íris selvagem](https://singularidadepoetica.art/2019/11/17/louise-gluck-a-iris-selvagem/): No fim do meu sofrimentohavia uma saída. Ouça-me: aquilo que você chama de morteeu me recordo. Acima, ruídos, ramos de pinheiros se movendo.Depois, nada. O sol fracocintilava sobre a superfície ressequida. É terrível sobrevivercomo consciênciaenterrada na terra escura. E então acabou: aquilo que você teme, sendouma alma e incapazde falar, terminando abruptamente, a terra duracedendo […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "The Wild Iris", de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2019/11/16/nelson-santander-apresentacao-de-the-wild-iris-de-louise-gluck/): Atualizado em 08/10/2020: tive contato com a obra de Louise Glück no ano passado. Como narrado na apresentação que segue, fui tão impactado pela qualidade de seus poemas que me vi na contingência de traduzir, na íntegra, um de seus principais trabalhos – The Wild Iris. E desde então, tenho traduzido diversos outros grandes poemas […]
- [Wendell Berry - Antes do Anoitecer](https://singularidadepoetica.art/2019/11/15/wendell-berry-antes-do-anoitecer/): Da varanda no crepúsculo, observeium martim-pescador selvagem em um vooque ele só poderia estar realizando por deleite. Ele desceu pelo rio, chapinhandocontra o rosto turvo da águacomo uma pedra saltitante, passando rio abaixo até sumir de vista. E aindaeu podia ouvir o chapinharcada vez mais distante à medida que escurecia. Ele voltoupelo mesmo caminho, escuro […]
- [Joseph Stroud - Primeira Canção](https://singularidadepoetica.art/2019/11/14/joseph-stroud-primeira-cancao/): Naquela distante manhã na fazenda de Ruthquando me escondi entre as glicíniase observei os beija-flores. Eu penseique o rubi ou o ouro que reluzia em seus pescoçosfosse o sangue adocicado das flores.Eles mergulhavam seus bicos perfurantesem uma coroa de pétalas até suas cabeçasdesaparecerem. As flores se confundiam com as asas,e a respiração que eu ouviavinha […]
- [Wislawa Szymborska - Adolescente](https://singularidadepoetica.art/2019/11/13/wislawa-szymborska-adolescente/): Eu — adolescente? Se de repente ela me aparecesse aqui, agora, deveria saudá-la como a uma pessoa próxima, mesmo que me pareça estranha e distante? Derramar uma lágrima, beijar a testa somente pelo motivo de termos a mesma data de nascimento? Tanta dessemelhança entre nós que talvez só os ossos sejam os mesmos, o formato […]
- [Joan Margarit - Água-forte](https://singularidadepoetica.art/2019/11/12/joan-margarit-agua-forte/): O granizo metralha as vidraças,as rajadas arrasam as calçadas.E tu e eu aqui, onde o mau temporesume os obstáculos que às vezesnos levam à beira do abismo.Olhos brilhantes de desacertos,mãos queimadas por se salvarem agarradasaos gelados corrimãos do inferno.Que o acaso continue disparandosem razão, como sempre, nas vidraças.Além do amor – desse nosso amor –nada […]
- [Paul Verlaine – Colóquio sentimental](https://singularidadepoetica.art/2019/11/11/paul-verlaine-coloquio-sentimental/): No velho parque frio e abandonado Duas formas passaram lado a lado. Olhos sem vida já, lábios tremendo, Apenas se ouve o que elas vão dizendo. No velho parque frio e abandonado, Dois vultos evocaram o passado. – Lembras-te bem do nosso amor de outrora? – Por que é que hei de lembrar-me disso agora? […]
- [Tarso de Melo – Raiz e minério](https://singularidadepoetica.art/2019/11/10/tarso-de-melo-raiz-e-minerio/): ainda é possível ouvir (mais fundo, mais fundo,você encontra) o som da lama se arrastando por baixodas portas e aos pés do sofá (o que há é o homem,esse bicho) nos vãos da estante e no meio dos livrosnas gavetas da geladeira (que invade a terra procurandooutro homem) na altura do peito e entre os […]
- [Manuel Vilas - Delia's Gone](https://singularidadepoetica.art/2019/11/09/manuel-vilas-delias-gone/): "Delia's Gone", um poema de Manuel Vilas que aborda de forma provocativa e irônica a relação entre amor, abandono e suicídio, evocando figuras como Ian Curtis, Mariano José de Larra e Sylvia Plath para refletir sobre a idealização trágica da morte por amor e o vazio deixado pela perda.
- [Wislawa Szymborska - Bagagem de volta](https://singularidadepoetica.art/2019/11/08/wislawa-szymborska-bagagem-de-volta/): Uma quadra de pequenas tumbas no cemitério. Nós, que vivemos muito, passamos furtivamente, como os ricos passam pelos bairros dos pobres. Aqui jazem a Zosia, o Jacek, o Dominik, prematuramente tirados do sol, da lua, da mudança das estações, das nuvens. Não juntaram muito na bagagem de volta. Fragmentos de vista não muito no plural. […]
- [Ferreira Gullar - Morrer no Rio de Janeiro](https://singularidadepoetica.art/2019/11/07/ferreira-gullar-morrer-no-rio-de-janeiro/): Se for março quando o verão esmerila a grossa luz nas montanhas do Rio teu coração estará funcionando normalmente entre tantas outras coisas que pulsam na manhã ainda que possam de repente enguiçar. Se for março e de manhã as brisas cheirando a maresia quando uma lancha deixa seu rastro de espumas no dorso da […]
- [Joan Margarit - Anos Sessenta](https://singularidadepoetica.art/2019/11/06/joan-margarit-anos-sessenta/): Lento, muito mais lento, tempo meu: falemos sobre o amor mesmo que as rosas tenham que acabar sempre na lixeira. Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro? Sem esperança alguma, críamos em algo, ou, porque era difícil a fé em algo, nunca perdemos a esperança. Restam as bandeiras vermelhas de perigo defronte ao mar bravio. Lembro-me de […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Nos veremos novamente](https://singularidadepoetica.art/2019/11/05/luis-alberto-de-cuenca-nos-veremos-novamente-poema/): Nos veremos novamente onde sempre é de dia e os feios são bonitos e eternamente jovens, onde os poderosos não abusam dos mais fracos e, das árvores, pendem brinquedos e gibis. Nesta morada de luz que não fere os olhos Voltaremos, tu e eu, a dizer-nos bobagens de mãos dadas, contemplando as ondas a morrer […]
- [Jules Laforgue – O silêncio azul](https://singularidadepoetica.art/2019/11/04/jules-laforgue-o-silencio-azul/): Por todo o transcorrido eterno e no vindouro, A Noite universal povoa-se infinita E cegamente em coágulos onde se agita A vida que rabisca em arabescos de ouro. Eis que um daqueles, tão desassistido e só, Junto a seus deuses, artes, erros e mania, Seu lodaçal, miséria e cantos de ironia, Escreve história, grita ao […]
- [Karmelo C. Iribarren - A herança](https://singularidadepoetica.art/2019/11/03/karmelo-c-iribarren-a-heranca/): Ultimamente,quando me vejo no espelho,é meu avô quem me encara,mais que meu pai. Cinquenta anospara começar a entrar na posseda única herança que ele me deixou, e que acabará me matando. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog La herencia […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Dia dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2019/11/02/jorge-valdes-diaz-velez-dia-dos-mortos/): Dia dos mortos, um poema de Jorge Valdés Díaz-Vélez
- [Jaime Gil de Biedma - Canção de aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/11/01/jaime-gil-de-biedma-cancao-de-aniversario/): Porque são já seis anos desde então, porque não há na terra, ainda, nada tão doce quanto um quarto para dois, se for teu e meu; porque até o tempo, esse parente pobre que conheceu dias melhores, parece hoje partidário da felicidade, cantemos, alegria! E, depois, levantemo-nos mais tarde, como no domingo. Que a manhã […]
- [Wislawa Szymborska - Sobre a morte sem exagero](https://singularidadepoetica.art/2019/10/31/wislawa-szymborska-sobre-a-morte-sem-exagero/): Não entende de piadas,de estrelas, de pontes,de tecer, minerar, lavrar a terra,de construir navios e assar bolos. Quando falamos de planos para amanhãintromete sua última palavrasem nada a ver com o assunto. Não sabe sequer as coisasdiretamente ligadas ao seu ofício:nem cavar uma cova,nem fazer um caixão,nem arrumar a desordem que deixa. Ocupada em matar,o […]
- [Ferreira Gullar - Reflexão](https://singularidadepoetica.art/2019/10/30/ferreira-gullar-reflexao/): Está fora de meu alcance o meu fim Sei só até onde sou contemporâneo de mim
- [Joan Margarit - Inverno de 95](https://singularidadepoetica.art/2019/10/29/joan-margarit-inverno-de-95/): Esta carta a escrevo para alguémque está em um barco pelo nortede Tenerife, em cinquenta e sete.Um rapaz que, da amurada,mira o duro poente sobre o mare estuda arquitetura em Barcelona,para onde retorna agora. Aviso-tecom um sinal de alerta: a alegriaque sentes ao deixar teu pai para trásrevela a solidão sob uma luz dourada.Teu pai […]
- [Manuel António Pina - Eugénio de Andrade no seu leito de morte](https://singularidadepoetica.art/2019/10/28/manuel-antonio-pina-eugenio-de-andrade-no-seu-leito-de-morte/): Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um […]
- [Henry Reed – A nomeação das peças](https://singularidadepoetica.art/2019/10/27/henry-reed-nomeacao-das-pecas/): Hoje temos a nomeação das peças. OntemTivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonicaArde como coral em todos os jardins adjacentes,E hoje nós temos a nomeação das peças. Isto é o zarelho móvel inferior. E istoÉ o […]
- [Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Antonio Carlos Santos de Freitas – Infinito particular](https://singularidadepoetica.art/2019/10/26/marisa-monte-arnaldo-antunes-antonio-carlos-santos-de-freitas-infinito-particular/): Eis o melhor e o pior de mim No meu termômetro o meu quilate Vem, cara, me retrate Não é impossível Eu não sou difícil de ler Faça sua parte Eu sou daqui, eu não sou de Marte Vem, cara, me repara Não vê, ‘tá na cara Eu sou porta-bandeira de mim Só não se […]
- [Braulio Tavares - [para mim tanto faz]](https://singularidadepoetica.art/2019/10/25/braulio-tavares-para-mim-tanto-faz/): para mim tanto fazestar alegre ou tristeeu preciso é que o tempo voe,que o tempo viva a gente só lembraque o segundo existequando vê um relógioem contagem regressiva
- [Francisco Alvim – Nada, mas nada mesmo](https://singularidadepoetica.art/2019/10/24/francisco-alvim-nada-mas-nada-mesmo/): Nada, mas nada mesmo tem a menor importância Nem antesNem depoisNem durante
- [Francisco Brines - Métodos de conhecimento](https://singularidadepoetica.art/2019/10/23/francisco-brines-metodos-de-conhecimento/): No cansaço da noite, penetrando a mais sombria canção, recobrei por trás de meus olhos cegos o frágil testemunho de uma cena remota. Recendia o mar, e a aurora era a ladra dos céus; tornava fantasmagóricas as luzes da casa. Os comensais eram jovens, e fartos e sem sede, no naufrágio do banquete, buscavam a […]
- [João Cabral de Melo Neto - Uma faca só lâmina](https://singularidadepoetica.art/2019/10/22/joao-cabral-de-melo-neto-uma-faca-so-lamina/): Assim como uma balaenterrada no corpo,fazendo mais espessoum dos lados do morto; assim como uma balado chumbo pesado,no músculo de um homempesando-o mais de um lado qual bala que tivesseum vivo mecanismo,bala que possuísseum coração ativo igual ao de um relógiosubmerso em algum corpo,ao de um relógio vivoe também revoltoso, relógio que tivesseo gume de […]
- [António Ramos Rosa - O jardim](https://singularidadepoetica.art/2019/10/21/antonio-ramos-rosa-o-jardim/): Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Anúncio de pedra](https://singularidadepoetica.art/2019/10/20/hans-magnus-enzensberger-anuncio-de-pedra/): Perdem-se o cabelo, os nervos, vocês entendem, o tempo precioso, perde-se altura no posto perdido, brilho, sinto muito, não faz mal, por pontos, não me interrompam, perde-se sangue, pai e mãe, o coração perdido de Heidelberg, sem pestanejar perdem-se, de novo, os encantos da novidade, passe-se um esponja, os direitos civis, oh sim, a cabeça, […]
- [Wislawa Szymborska - Visto do alto](https://singularidadepoetica.art/2019/10/19/wislawa-szymborska-visto-do-alto/): Um besouro morto num caminho campestre. Três pares de perninhas dobradas sobre o ventre. Ao invés da desordem da morte – ordem e limpeza. O horror da cena é moderado, o âmbito estritamente local, da tiririca à menta. A tristeza não se transmite. O céu está azul. Para nosso sossego, os animais não falecem, morrem […]
- [José Paulo Paes - Dúvida](https://singularidadepoetica.art/2019/10/18/jose-paulo-paes-duvida/): Não há nada mais triste do que um cão em guarda ao cadáver do seu dono. Eu não tenho cão. Será que ainda estou vivo? data da última gravação: 8/10/98, 17h09 Na “Apresentação” de Socráticas – obra da qual foi extraído o poema acima – Alfredo Bosi esclarece: As Socráticas, publicadas postumamente, soam como um […]
- [Ferreira Gullar - Lições de um gato siamês](https://singularidadepoetica.art/2019/10/17/ferreira-gullar-licoes-de-um-gato-siames/): Só agora sei que existe a eternidade: é a duração finita da minha precariedade O tempo fora de mim é relativo mas não o tempo vivo: esse é eterno porque afetivo — dura eternamente enquanto vivo E como não vivo além do que vivo não é tempo relativo: dura em si mesmo eterno (e transitivo)
- [Joan Margarit - Piscina](https://singularidadepoetica.art/2019/10/16/joan-margarit-piscina/): Não temia a água, mas a ti,era teu medo o que eu temia,e o lugar mais profundo,em que não se veem os azulejos do fundo.Arrastaste-me até lá, lembro aindaa força de teus braços obrigando-me,enquanto tentava abraçar-me a ti.Não aprendi a nadar até muito tempo depois,e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.Agora que já nunca voltarás a […]
- [Manuel António Pina - Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte](https://singularidadepoetica.art/2019/10/15/manuel-antonio-pina-carta-a-mario-cesariny-no-dia-da-sua-morte/): Hoje soube-se uma coisa extraordinária, que morreste. Talvez já to tenham dito, embora o caso verdadeiramente não te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo. Algo, de fato, deve ter acontecido porque nada acontece, a não ser o costume, amor e estrume; quanto ao resto tudo prossegue de acordo com o Plano. Há apenas agora […]
- [Paulo Henriques Britto - O aqualouco](https://singularidadepoetica.art/2019/10/14/paulo-henriques-britto-o-aqualouco/): A verdadeira diferençasó se sente depois do frio.Antes é só um salto, um mergulho imprudente,como se eternidade fosse água gelada,como se o nada não fosse mais que um rio. Depois somem as palavras fáceis(“eternidade” etc.; v. acima),fica só o fundamental:o vômito, o medo, o adeus,a vontade de assassinar todos os recém-nascidosdo Egito, como se alguém […]
- [Chacal - como era bom](https://singularidadepoetica.art/2019/10/13/chacal-como-era-bom/): o tempo em que marx explicava que tudo era luta de classes como era simples o tempo em que freud explicava que édipo tudo explicava tudo era clarinho limpinho explicadinho tudo muito mais asséptico do que era quando nasci hoje rodado sambado pirado descobri que é preciso aprender a nascer todo dia
- [Wislawa Szymborska - Autotomia](https://singularidadepoetica.art/2019/10/12/wislawa-szymborska-autotomia/): Em perigo, a holotúria se divide em duas:com uma metade se entrega à voracidade do mundo,com a outra foge. Desintegra-se violentamente em ruína e salvação,em multa e prêmio, no que foi e no que será. No meio do corpo da holotúria se abre um abismocom duas margens subitamente estranhas. Em uma margem a morte, na […]
- [Antonio Colinas - Envio](https://singularidadepoetica.art/2019/10/11/antonio-colinas-envio/): Lembras-te ainda do débil cantodo rouxinol perdido na ramagem?Viste farfalhar comigo naquela noitea copa do cipreste. Desfez-seo céu em fios de luar sobre teu rosto.Mas depois do pássaro e da luaapagaram-se os astros. Vi passarnão sei que brisa estranha pelo teu corpo.Lembras-te das nossas mãos na água?Lembras-te do silêncio sobre o campoe, como um deus exangue, do […]
- [Meira Delmar – Hóspede sem sombra](https://singularidadepoetica.art/2019/10/10/meira-delmar-hospede-sem-sombra/): Nada deixam meus passos sobre a terra. No momento do último passeio hei de levar o que ao nascer me veio: o rosto em paz e o coração em guerra. Nenhuma voz repetirá a minha de saudoso ardor e fiel espanto. A voz estremecida com que canto o mar, a rosa, a melancolia. Não ressuscitará […]
- [Théodore Fraenckel - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2019/10/09/theodore-fraenckel-elegia/): X. não compreendeu ainda como lhe resta pouco tempo de vida. Outrora, os grandes lagos eram a esperança querida de um abrigo. Da infância, o que nos resta é esta visão acadêmica quando, suave, no tom do quadro, leve se sente o esboroar do espírito… Contudo, a vida nem sempre é uma constante aventura. Por […]
- [José Paulo Paes - De malas prontas](https://singularidadepoetica.art/2019/10/08/jose-paulo-paes-de-malas-prontas/): Vários dos seus amigos mortos dão hoje nome a ruas e praças. Ele próprio se sente um pouco póstumo quando conversa com gente jovem. Dos passeios, raros, a melhor parte é a volta para casa. As pessoas lhe parecem barulhentas e vulgares. Ele sabe de antemão tudo quanto possam dizer. Nos sonhos, os dias da […]
- [Ivan Junqueira - Estamos indo embora](https://singularidadepoetica.art/2019/10/07/ivan-junqueira-estamos-indo-embora/): Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia, por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico, os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios, com suas patas de veludo, silenciosas, que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis. Os tapetes abafam seus passos ociosos, como se faz quando se acolhem […]
- [Ferreira Gullar - Fim](https://singularidadepoetica.art/2019/10/06/ferreira-gullar-fim/): Como não havia ninguém na casa aquela terça-feira tudo é suposição: teria tomado seu costumeiro banho de imersão por volta de meio-dia e trinta e de cabelos ainda úmidos deitou-se na cama para descansar não para morrer queria dormir um pouco apenas isso e assim não lhe terá passado pela mente – até aquele último […]
- [Joan Margarit - Alguém](https://singularidadepoetica.art/2019/10/05/joan-margarit-alguem/): Tinha que salvar-me com seus olhos azuis cravados ainda em uma lembrança da adolescência, a estranha fase de precipitar-se, sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo. Do bonde, a fugaz imagem de uma garota em uma varanda, e o número de um telefone anotado como uma cicatriz na memória. Nunca estive a seu lado, inventava […]
- [Wislawa Szymborska - Fotografia de 11 de setembro](https://singularidadepoetica.art/2019/10/04/wislawa-szymborska-fotografia-de-11-de-setembro/): Saltaram dos andares em chamas —um, dois, alguns maisacima, abaixo. A fotografia os susteve em vidae agora os mantémsobre a terra em direção à terra. Cada um ainda é um todocom um rosto próprioe o sangue bem escondido. Há bastante tempopara os cabelos se soltareme dos bolsos caíremchaves, dinheiro trocado. Ainda estão ao alcance do […]
- [Delmore Schwartz - All night, all night](https://singularidadepoetica.art/2019/10/03/delmore-schwartz-all-night-all-night/): I have been one acquainted whit the night – Robert Frost Viajou de trem a noite inteira, sob uma luz agoureira. Uma ave Voou em paralelo com singular determinação. Em ações e anseios de devaneios Os demais passageiros curvados, deitados, lendo, dormindo, Esperando, e esperando um local para se deslocar, Para a correta rota da […]
- [Armando Freitas Filho - Autobiografia até agora](https://singularidadepoetica.art/2019/10/02/armando-freitas-filho-autobiografia-ate-agora/): No Cineac antes da descoberta do Brasil com a mãe a tiracolo vendo o Arqueiro Verde (um Robin Hood de segunda mão) disparando suas flechas morais. Depois, punhetas, colégios, lápis a primeira caneta, poesia, pin-ups futebol, jogo de botão e puteiros: a sessão começa quando você chega. Agora, no escuro, meio Zé Carioca trocando de […]
- [Miguel Martins - [Do lado de fora, tudo parece pouco]](https://singularidadepoetica.art/2019/10/01/miguel-martins-do-lado-de-fora-tudo-parece-pouco/): Do lado de fora, tudo parece pouco. Borborinho. Intemperança. Sono. O rosto não faz prova da memória mas a memória testemunha a evolução do rosto, os pares de óculos que por ali passaram, a fome e o consolo, o medo, a morte de cada beijo, o milagre do seu renascimento e, por fim, o extremo […]
- [Théodore Fraenckel - Meditação do fim de Agosto](https://singularidadepoetica.art/2019/09/30/theodore-fraenckel-meditacao-do-fim-de-agosto/): Mal as árvores se abatem, o que resta da floresta? Resistirá a madeira a ser moldada pelo acréscimo de formas que lhe vem da literatura? E no entanto a natureza nada tem de humano e dela não se pode dizer que prescinde de crescer e se aquieta nos limites de uma forma que a torna […]
- [Henry Scott Holland - [A morte não é nada]](https://singularidadepoetica.art/2019/09/29/henry-scott-holland-a-morte-nao-e-nada/): A morte não é nada*. Ela não conta. Eu apenas passei para a sala vizinha. Nada aconteceu. Tudo permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, e você é você, e a velha vida que vivemos carinhosamente juntos permanece intocada, inalterada. O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda o somos. Chame-me […]
- [José Paulo Paes - Glauco](https://singularidadepoetica.art/2019/09/28/jose-paulo-paes-glauco/): Nas duas vezes que voltei a Curitiba não o encontrei. Numa tinha viajado para o Rio na outra tinha viajado para a morte. E nem havia mais onde encontrá-lo: o Belas Artes fechara a redação de O Dia sumira-se no ar as pensões eram terrenos baldios. Desarvorado me sentei à mesa de uma confeitaria na […]
- [Ruy Belo – Uma vez que já tudo se perdeu](https://singularidadepoetica.art/2019/09/27/ruy-belo-uma-vez-que-ja-tudo-se-perdeu/): Que o medo não te tolha a tua mão Nenhuma ocasião vale o temor Ergue a cabeça dignamente irmão falo-te em nome seja de quem for No princípio de tudo o coração como o fogo alastrava em redor Uma nuvem qualquer toldou então céus de canção promessa e amor Mas tudo é apenas o que […]
- [Mário de Sá-Carneiro – Além-Tédio](https://singularidadepoetica.art/2019/09/26/mario-de-sa-carneiro-alem-tedio/): Nada me expira já, nada me vive – Nem a tristeza nem as horas belas. De as não ter e de nunca vir a tê-las, Fartam-me até as coisas que não tive. Como eu quisera, enfim d’alma esquecida, Dormir em paz num leito de hospital… Cansei dentro de mim, cansei a vida De tanto a […]
- [A. M. Pires Cabral — Confesso que voei](https://singularidadepoetica.art/2019/09/25/a-m-pires-cabral-confesso-que-voei/): 1 Mas, se nestas seis décadas e meia eu fui capaz de algum voo — concedo: semelhante ao das galinhas, isto é, rudimentar, desgracioso, com muitíssimo dispêndio de energia para pouca ascensão, breve e apenas em desespero de causa; em todo o caso uma forma de voo pelo qual me sustentei no ar em horas […]
- [Tristan Corbière - Paisagem má](https://singularidadepoetica.art/2019/09/24/tristan-corbiere-paisagem-ma/): Praias de ossos. A onda estertora Seus dobres, som a som, na areia. Palude pálido. O luar devora Grandes vermes – é a sua ceia. Torpor de peste: somente a febre Coze… O duende danado dorme. A erva que fede vomita a lebre, Bruxa medrosa que se some. A lavadeira branca junta os Trapos surrados […]
- [Ivan Junqueira - O que sabemos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/23/ivan-junqueira-o-que-sabemos/): É quase nada o que sabemos de nós, do que somos, do frêmito que nos empurra, débeis duendes, à cena ambígua da existência. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos moldou à sua esplêndida imagem, se a mão não lhe vemos? Será mesmo que o fez, consciente do risco que estava correndo, da imperdoável […]
- [Goethe - Aos leitores amigos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/22/goethe-aos-leitores-amigos/): Poetas não podem calar-se, Querem às turbas mostrar-se. Há-de haver louvores, censuras! Quem vai confessar-se em prosa? Mas abrimo-nos sub rosa No calmo bosque das Musas. Quanto errei, quanto vivi, Quanto aspirei e sofri, Só flores num ramo – aí estão; E a velhice e a juventude, E o erro e a virtude Ficam bem […]
- [Margaret Atwood - O momento](https://singularidadepoetica.art/2019/09/21/margaret-atwood-o-momento/): O momento em que, depois de muitos anos de trabalho duro e de uma longa jornada, encontras-te no centro do teu quarto, casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país, sabendo por fim como lá chegaste, e dizes: tudo isso me pertence, é o mesmo momento em que as árvores desatam seus braços macios ao teu […]
- [Michael Krüger - À primeira vista](https://singularidadepoetica.art/2019/09/20/michael-kruger-a-primeira-vista/): Na verdade, nada mudou: o castanheiro diante da casa, martirizado pela hera, as ameixeiras sobre o seu tapete azul, o doce perfume da infância e da decadência. Do vale, rugem os caminhões, e a sombra se apressa em redor da casa em sentido anti-horário, perscrutando a dor. Até o poço ainda está lá como um […]
- [Ferreira Gullar - Thereza](https://singularidadepoetica.art/2019/09/19/ferreira-gullar-thereza/): Sem apelo no vórtice do dia no abandono do chão na lâmina da luz feroz fora da vida desfaz-se agora a minha doída desavinda companheira
- [Eugénio de Andrade - Canção Breve](https://singularidadepoetica.art/2019/09/18/eugenio-de-andrade-cancao-breve/): Tudo me prende à terra onde me dei: o rio subitamente adolescente, a luz tropeçando nas esquinas, as areias onde ardi impaciente. Tudo me prende do mesmo triste amor que há em saber que a vida pouco dura, e nela ponho a esperança ou o calor de uns dedos com restos de ternura. Dizem que […]
- [Joan Margarit - De repente está claro](https://singularidadepoetica.art/2019/09/17/joan-margarit-de-repente-esta-claro/): De repente está claro. O amor é a vitória que irá me destruir. Como me gangrena o coração a solidão, como me destroça nas janelas do crepúsculo a hiena desolada e exangue. Na era rubra só o amor nos livra da gélida gruta do tempo. Conheci a glória de estar desesperado e a miséria do […]
- [Manuel António Pina - As escadas](https://singularidadepoetica.art/2019/09/16/manuel-antonio-pina-as-escadas/): Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas em direção à tua escuridão, deixando-me, ou a alguma coisa menos tangível, no seu lugar. Também elas envelheceram, as escadas, também, como eu, desabitadas. Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus, e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras.
- [Francisco Brines - Deitado](https://singularidadepoetica.art/2019/09/15/francisco-brines-deitado/): Chove, e amo. Pulsam, em alongada sombra, duas sombras vivas, sondam o nada, e nele se alimentam. São farrapos de luz, e à sua luz se veem olhos, músculos, cabelos, enquanto a sombra se extingue em mais sombra, e o repouso nos lençóis das fúrias do corpo é a gratidão de quem há de morrer, […]
- [Jaime Gil de Biedma - Valsa de Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/09/14/jaime-gil-de-biedma-valsa-de-aniversario/): Não há nada tão doce como um quarto para dois (quando já não nos amamos tanto) fora da cidade, em um hotel tranquilo, e casais duvidosos e alguma criança com caxumba, não fosse esta ligeira sensação de irrealidade. Algo como o verão na casa de meus pais, há tempos, como viajar de trem à noite. […]
- [Vasco Miranda - de "Invenção da Manhã"](https://singularidadepoetica.art/2019/09/13/vasco-miranda-de-invencao-da-manha/): 20 Olha Jorge quando vier a morte E virá cedo “Não deixes fechar-me os olhos” Eflorescências salitrosas me rebentarão das órbitas Para queimar as mãos que fechar-mos queiram – Não pode a luz negar-se a quem bêbado dela Inventou em cada dia uma madrugada E eis tudo quanto deixo a quem me herde Não Jorge […]
- [Joseph Stroud - A mais difícil tradução do amor](https://singularidadepoetica.art/2019/09/12/joseph-stroud-a-mais-dificil-traducao-do-amor/): “A mais difícil tradução do amor”, um poema de Joseph Stroud que compara o matrimônio a um filme estrangeiro, revelando com humor a ilusão momentânea de compreender plenamente o outro.
- [José Agostinho Baptista - É a prata da minha amada](https://singularidadepoetica.art/2019/09/11/jose-agostinho-baptista-e-a-prata-da-minha-amada/): “É a prata da minha amada”, um poema de José Agostinho Baptista que encena uma despedida crepuscular onde amor e morte se entrelaçam num silêncio maior que o mar.
- [José Paulo Paes - Elogio da Memória](https://singularidadepoetica.art/2019/09/10/jose-paulo-paes-elogio-da-memoria/): O funil da ampulhetaapressa, retardando-a,a quedada areia. Nisso imita o jogomanhosode certos momentosque se vão emboraquando mais queríamosque ficassem. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ruy Belo – Missa de aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/09/09/ruy-belo-missa-de-aniversario/): Há um ano que os teus gestos andam ausentes da nossa freguesia Tu que eras destes campos onde de novo a seara amadurece donde és hoje? Que nome novo tens? Haverá mais singular fim de semana do que um sábado assim que nunca mais tem fim? Que ocupação é agora a tua que tens todo […]
- [Luis Cernuda - Os espinhos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/08/luis-cernuda-os-espinhos/): Possuem já os espinhos verdor novo na colina, toda de púrpura e neve pelo ar estremecida. Quantos céus em flor já viste? Embora ao encontro eles serão sempre devotados, tu não o serás um dia. Antes que a penumbra caia, sabe o que a alegria é junto aos espinhos vermelhos e alvos em flor. Olha. […]
- [Luís de Góngora - Estamos desperdiçando a páscoa, moças](https://singularidadepoetica.art/2019/09/07/luis-de-gongora-estamos-desperdicando-a-pascoa-mocas/): Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Moçoilas do meu distrito, Louquinhas e confiantes, Que não vos engane o tempo, a idade e a confiança. Não deixeis cortejar-vos o frescor da juventude, porque de flores caducas tece o tempo suas grinaldas. Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Voam os velozes […]
- [José Régio – Cântico Negro](https://singularidadepoetica.art/2019/09/06/jose-regio-cantico-negro/): “Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui!” Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali… A minha glória é esta: […]
- [Javier Salvago - No verso de uma velha fotografia](https://singularidadepoetica.art/2019/09/05/javier-salvago-no-verso-de-uma-velha-fotografia/): Os Beatles ainda não tinham surgido, nem haviam abatido Che Guevara. Nat King Cole cantava ansiedad de tenerte en mis brazos ou solamente una vez se entrega el alma. e no cinema talvez exibissem Sete noivas para sete irmãos. O comandante Armstrong ainda não havia deixado sua profana pegada no rosto esburacado da lua. Os […]
- [Ferreira Gullar - Aqui e agora](https://singularidadepoetica.art/2019/09/04/ferreira-gullar-aqui-e-agora/): 1 Que faz a defunta manhã na manhã nova? Que sois vós hoje alegria de outrora riso extinta palavra de afeto? que sois vós senão fantasmas senão miasmas a infectar de morte o que está vivo? 2 Se há sol no pátio e um carro penetra nele e estaciona e o chofer desce bate a […]
- [Eugénio de Andrade - O sal da língua](https://singularidadepoetica.art/2019/09/03/eugenio-de-andrade-o-sal-da-lingua/): Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem […]
- [Joan Margarit - No álbum](https://singularidadepoetica.art/2019/09/02/joan-margarit-no-album/): És tu antes de partir,quando ainda vivias em casa.O olhar brilhante que nos recompensava.Teu nome foi ficando para trás,na foto de onde ainda nos sorriscomo se tudo fosse para sempree nada tivesse acontecido em outro lugar,nem no sorriso que hoje desconhecemos,longe do que teu rosto exibe neste álbum.Este sorriso, agora, é só para nós:convive com […]
- [Manuel António Pina - As Coisas](https://singularidadepoetica.art/2019/09/01/manuel-antonio-pina-as-coisas/): Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certas tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência […]
- [Páladas - da Antologia Palatina, 10.45](https://singularidadepoetica.art/2019/08/31/paladas-da-antologia-palatina-10-45/): Caso te lembres, humano, de como o teu pai ao gerá-lo te semeou, cessarás com toda tua arrogância. Só que Platão sonhador te implantou ilusões de grandeza, ao te chamar de imortal, planta provinda do céu. Vindo do barro, por que pensas grande? Por essa maneira, age somente quem quer dar-se aparência solene. Eis a […]
- [Maria Mercedes Carranza - Kavafiana](https://singularidadepoetica.art/2019/08/30/maria-mercedes-carranza-kavafiana/): O desejo aparece de repente,em qualquer sítio, a propósito de nada.Na cozinha, caminhando pela rua.Basta um olhar, um aceno, um roçar.Mas dois corpostêm também o seu amanhecer e o seu acaso,a sua rotina de amor e de sonhos,de gestos sabidos até ao cansaço.Dispersam-se os risos, deformam-se.Há cinzas nas bocase o íntimo desdém.Dois corpos têm a […]
- [Amalia Bautista - A pesagem do coração](https://singularidadepoetica.art/2019/08/29/amalia-bautista-a-pesagem-do-coracao/): Leia "A pesagem do coração", de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre ética, compaixão e o legado que deixamos após a morte.
- [Jules Laforgue - Penúltima palavra](https://singularidadepoetica.art/2019/08/28/jules-laforgue-penultima-palavra/): O Espaço? – A vida Ida Sem traço. O amor? – Seu preço: Desprezo E dor. O sonho? – Infindo, É lindo (Suponho). Que vou Fazer Do ser Que sou? Isto, Aquilo, Aqui, Ali. Trad.: Augusto de Campos Avant-dernier mot L’Espace? – Mon Coeur Y meurt Sans traces… La Femme? – J’en sors, La […]
- [Tristan Corbière - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2019/08/27/tristan-corbiere-epitafio/): Epitáfio Salvo os amorosos principiantes ou findos que querem principiar pelo fim há tantas coisas que findam pelo princípio que o princípio principia a findar por estar no fim o fim disso é que os amorosos e outros findarão por principiar a reprincipiar por esse princípio que terá findo por não ser mais que o […]
- [Ivan Junqueira - O tempo que me resta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/26/ivan-junqueira-o-tempo-que-me-resta/): Qual o tempo que me resta? Poderei medi-lo em pétalas de alguma flor que fenece, a última da sua espécie? Poderei fazê-lo em décimos de um segundo que parece durar mais do que uma década ou quem sabe todo um século? O que é o tempo? Uma névoa que na ampulheta escorrega, ou algo que […]
- [Jack Kerouac - Richmond Hill Tree Poem](https://singularidadepoetica.art/2019/08/25/jack-kerouac-richmond-hill-tree-poem/): Amontoadas, amarelas folhas de novembro De uma distinta árvore nua e envergonhadamente castrada fazem um minúsculo e manso PLICK ao se roçar umas nas outras preparando-se para morrer – Quando vejo uma folha cair Eu sempre digo adeus. Richmond Hill Tree Poem A cluster of yellow November leaves in an otherwise bare and sheepish castrated […]
- [Amalia Bautista - S.O.S.](https://singularidadepoetica.art/2019/08/24/amalia-bautista-s-o-s/): Protege-me do medo e das sombrasdefende-me de todas as tristezas,exila de minha vida o desconsolo,se puderes, com teu amor, se nãocom o fim do mundo ou com a minha morte. Trad.: Nelson Santander S.O.S Protégeme del miedo y de las sombras,defiéndeme de todas las tristezas,destierra de mi vida el desconsuelo.si puedes, con tu amor, y […]
- [Eugénia de Vasconcellos – Lembra](https://singularidadepoetica.art/2019/08/23/eugenia-de-vasconcellos-lembra/): Digo-te isto para que saibas quem és, às vezes, esquecemos, confundimos, desconseguimos e ao fim, desacreditamos, colam-se-nos os fantasmas dos vivos e as memórias dos mortos e da voz faz-se um fio à míngua de palavras – e onde a palavra não chega, o pensamento não cria o ato e morre-se, morre-se, morre-se um dia […]
- [Tarso de Melo - Hoje](https://singularidadepoetica.art/2019/08/22/tarso-de-melo-hoje/): Amanhã vai chover mais forte, todos nós já sabemos. E é estranha a calma dos rios Os guarda-chuvas seguem fechados, os meteorologistas fingem não ter nada com isso, o barro não demonstra qualquer apreensão, o vento lambe as roupas secas no varal, nenhuma janela ainda se fechou. A água vai vir, forte, como sempre, engolindo […]
- [Danusha Laméris - Pequenas Gentilezas](https://singularidadepoetica.art/2019/08/21/danusha-lameris-pequenas-gentilezas/): Estive pensando na maneira como, quando você caminhapor um corredor lotado, as pessoas recolhem suas pernaspara deixar você passar. Ou como estranhos ainda dizem “Deus te abençoe”quando alguém espirra, um resquícioda Peste Bubônica. “Não morra”, estamos dizendo.E das vezes que, ao derrubar limõesde sua sacola de compras, outra pessoa o ajudaa recolhê-los. Na maioria das […]
- [Leila Guenther - Amuleto](https://singularidadepoetica.art/2019/08/20/leila-guenther-amuleto/): nem trevo de quatro folhas foto de filho, mãe ou marido medalhinha da Virgem lentilha do ano novo passado bilhete de loteria moeda furada origami de pássaro cordão umbilical oração da prosperidade mensagem de biscoito chinês pirâmide de cristal fitinha do senhor do Bonfim folha de arruda caroço de romã olho grego sachê de sal […]
- [Joan Brossa - O tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/08/19/joan-brossa-o-tempo/): Este verso é o presente. O verso que você leu é o passado – já envelheceu depois da leitura. O que resta do poema é o futuro, que existe fora da sua percepção. As palavras estão aqui, se você as leu ou não. E todo o poder terrestre não pode mudar isso. Trad.: Guilherme Gontijo […]
- [Iberê Schvartz - Das beiradas](https://singularidadepoetica.art/2019/08/18/ibere-schvartz-das-beiradas/)
- [Filipa Leal - Estátua da Liberdade](https://singularidadepoetica.art/2019/08/17/filipa-leal-estatua-da-liberdade/): E ali estava – nós a atravessarmos de barco a alegria: o pai ainda de bigode, de chapéu castanho, a mãe de óculos e echarpe, a Marta que em breve seria mãe também mas não sabia que transportava no útero mais um passageiro, o Miguel, pequenino e corajoso, sempre a tentar que os pés não […]
- [Joseph Stroud - Perdido](https://singularidadepoetica.art/2019/08/16/joseph-stroud-perdido/): O cervo se distancia de mim e continua sem pressaao longo da colina sem sequer olhar para trás,para onde estou, e de onde começo a cruzarum campo de neve dentro do meu corpo e me percoenquanto uma cinza branca cai do céu encobrindo meus rastrose não há como encontrar o caminho de volta. Trad.: Nelson […]
- [José Hierro - Réquiem](https://singularidadepoetica.art/2019/08/15/jose-hierro-requiem/): Manuel del Río, naturalda Espanha, faleceu no sábado,onze de maio, em consequênciade um acidente. Seu cadáverestá estendido na funerária D´Agostino. Haskell. Nova Jersey.Uma missa cantada será celebradaàs nove e meia, em St. Francis. É uma história que começacom sol e pedra, e que terminasobre uma mesa, no D’Agostino,com flores e círios elétricos.É uma história que […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O Sagrado](https://singularidadepoetica.art/2019/08/14/luis-alberto-de-cuenca-o-sagrado/): A maquiagem é suspeita, sempre.Tu, recém-saída da cama,sem nada além do teu gloriosocorpo desgastado pelas decepçõese pelos desenganos, mas eretocomo uma árvore ao vento da vidaque arrasta tudo pela frente:essa é minha religião, a únicavisão do sagrado que conheço. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter […]
- [Adelaide Ivánova - sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015](https://singularidadepoetica.art/2019/08/13/adelaide-ivanova-sobre-uma-foto-no-huffington-post-em-01-de-novembro-de-2015/): “Sobre uma foto no Huffington Post, em 01 de novembro de 2015”, um poema de Adelaide Ivanova que confronta a violência extrema contra mulheres com os limites da linguagem, da arte e da ação política.
- [Nelson Santander - Mudança Singular](https://singularidadepoetica.art/2018/07/14/nelson-santander-mudanca-singular/): Resolvi mudar o blog. De hoje em diante, além de umas perfumarias que fiz na página, o blog passará a se chamar “singularidade”. Por quê? Primeiro, porque o nome anterior era muito feio. A ideia de criar um blog para divulgar poemas (principalmente), textos, vídeos, traduções e outras coisas de que gosto, veio meio de […]
- [Piedad Bonnett - Volta à Poesia](https://singularidadepoetica.art/2018/07/13/piedad-bonnett-volta-a-poesia/): Outra vez volto a ti. Cansada venho, definitivamente solitária. Minha bolsa cheia de tristeza trago, carregada de penas infinitas, de dor. Dos desertos venho com os lábios ardentes e o olhar cego pelo vento forte e a dura areia. Abrasada de sede, venho beber de teus profundos mananciais, render-me em teus braços, fundos braços de […]
- [Inês Dias - Linhas de Torres](https://singularidadepoetica.art/2018/07/12/ines-dias-linhas-de-torres-poema/): Linhas de Torres, um poema de Inês Dias
- [Manuel António Pina - M., A Última Palavra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/11/manuel-antonio-pina-m-a-ultima-palavra-poema/): M., A Última Palavra, um poema de Manuel António Pina
- [Joan Margarit - Vozes de Crianças](https://singularidadepoetica.art/2018/07/10/joan-margarit-vozes-de-criancas/): O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste, é uma teia de luz cansada onde recordo quando iam dormir. Ainda lhes leio naquele quarto, debaixo da lâmpada ao lado da cama, os contos com capas duras de cores brilhantes. De súbito, em alguma madrugada, ouço uma criança que me chama e incorporo-me, mas […]
- [Jorge Luis Borges - James Joyce (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/07/09/jorge-luis-borges-james-joyce-em-tres-traducoes/): Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os diasdo tempo, desde o inconcebíveldia inicial do tempo, em que um terrívelDeus prefixou os dias e agonias,até aquele outro em que o ubíquo riodo tempo terrenal torne a sua fonte,que é o […]
- [Emily Dickinson - "Senti um Féretro em meu Cérebro..."](https://singularidadepoetica.art/2018/07/08/emily-dickinson-senti-um-feretro-em-meu-cerebro/): Senti um Féretro em meu Cérebro,E Carpideiras indo e vindoA pisar — a pisar — até eu sonharMeus sentidos fugindo — E quando tudo se sentou,O Tambor de um Ofício —Bateu — bateu — até eu sentirInerte o meu Juízo E eu os ouvi — erguida a Tampa —Rangerem por minha Alma comTodo o Chumbo […]
- [Herberto Helder - A Paixão Grega](https://singularidadepoetica.art/2018/07/07/herberto-helder-a-paixao-grega/): Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,quando alguém morria perguntavam apenas:tinha paixão?quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:se tinha paixão pelas coisas gerais,água,música,pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,paixão pela paixão,tinha?e então indago de mim se […]
- [Manuel de Freitas - Pompe Inutili](https://singularidadepoetica.art/2018/07/06/manuel-de-freitas-pompe-inutili-poema/): Pompe Inutili, um poema de Manuel de Freitas
- [Carlos Alberto Machado – Mapa de Desencontros](https://singularidadepoetica.art/2018/07/05/carlos-alberto-machado-mapa-de-desencontros/): I Abrigo-te mais uma vez há muito tempo disseste aqui hei-de morrer voltas sempre a esta morada ris-te e partes no telhado frágil caem as primeiras águas de Inverno. II Deus encontrou-te eu sei apaixonou-se pelos teus olhos verdes (há fados assim) à sombra das velhas árvores dás-lhe a mão e passeiam deve ser em […]
- [Edna St. Vincent Millay – Objeção de Consciência](https://singularidadepoetica.art/2018/07/04/edna-st-vincent-millay-objecao-de-consciencia/): Eu vou morrer, mas isso é tudo o que farei pela Morte. Eu a ouço tirar seu cavalo da baia; Eu ouço pisadas no chão do celeiro. Ela tem pressa; ela tem negócios em Cuba e nos Bálcãs, muitas ligações a fazer na manhã. Mas eu não vou segurar a rédea enquanto ela ajusta a […]
- [Manuel António Pina - Forma, só Forma](https://singularidadepoetica.art/2018/07/03/manuel-antonio-pina-forma-so-forma-poema/): Forma, só Forma, um poema de Manuel António Pina
- [Alejandra Pizarnik - Capítulos Principais](https://singularidadepoetica.art/2018/07/02/alejandra-pizarnik-capitulos-principais/): Chega a morte com sua manada de ossos sorrio submissa a uma menina idiota que implora em meu nome juntas (a morte, a menina e eu) não encontramos outro ofício para execrar. No final todos se casam: o mar e as ondas, a noite e a escuridão, a taça e o vinho, o anel e […]
- [Georg Trakl – No Outono](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/georg-trakl-no-outono/): Junto à cerca, os girassóis e o seu brilho, Doentes sentados ao sol, sem alento. No campo, as mulheres cantam no trabalho, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Os pássaros contam lendas de encantar, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Há um violino no pátio a gemer. E já o vinho escuro vão […]
- [Joan Margarit - Não jogues fora as cartas de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/joan-margarit-nao-jogues-fora-as-cartas-de-amor/): Elas não te abandonarão. O tempo passará, apagar-se-á o desejo — esta flecha da sombra — e os rostos sensuais, belos e inteligentes, ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho. Passarão os anos. Cansar-te-ão os livros. Decairás ainda mais e perderás até mesmo a poesia. O ruído da cidade nas vidraças acabará por ser […]
- [Tishani Doshi - Poema de Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/06/30/tishani-doshi-poema-de-amor/): No fim, perderemos um ao outro para alguma coisa. Espero que para algo grandioso – morte ou desastre. Mas pode não ser dessa maneira. Pode ser que você saia para comprar cigarros uma manhã depois de termos feito amor e nunca mais retorne, ou eu me apaixone por outro homem. Pode ser uma lenta caminhada […]
- [Emily Dickinson - "Morrer por ti era pouco..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/29/emily-dickinson-morrer-por-ti-era-pouco/): Morrer por ti era pouco.Qualquer grego o fizera.Viver é mais difícil —É esta a minha oferta — Morrer é nada, nemMais. Porém viver importaMorte múltipla — semO Alívio de estar morta. Trad.: Augusto de Campos Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Too […]
- [Antonia Pozzi - Novembro](https://singularidadepoetica.art/2018/06/28/antonia-pozzi-novembro/): E depois – quando eu partir restará alguma coisa de mim no meu mundo – restará um fino rasto de silêncio no meio das vozes – um ténue sopro de branco no coração do azul – E numa noite de Novembro uma menina frágil à esquina de uma rua venderá braçadas de crisântemos e lá […]
- [Jorge Luis Borges - Cambridge](https://singularidadepoetica.art/2018/06/27/jorge-luis-borges-cambridge/): Nova Inglaterra e a manhã. Dobro por Craigie. Penso (já pensei) que o nome Craigie é escocês e que a palavra crag é de origem celta. Penso (já pensei) que neste inverno estão os antigos invernos dos quais deixaram escrito que o caminho está prefixado e que já somos do Amor ou do Fogo. A […]
- [Renata Correia Botelho - O Vento a Rondar os Dragoeiros](https://singularidadepoetica.art/2018/06/26/renata-correia-botelho-o-vento-a-rondar-os-dragoeiros-poema/): O Vento a Rondar os Dragoeiros, um poema de Renata Correia Botelho
- [Felipe Benítez Reyes - Uma Forma de Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2018/06/25/felipe-benitez-reyes-uma-forma-de-eternidade/): Então o medo era isto? Não os assustadores fantasmas do pensamento e da consciência. Não os longos corredores de hospitais com lâmpadas fluorescentes dia e noite. Nem sequer o tremor de irrealidade que permanece na alma se te recordas. O medo, aparentemente, é calmo: Chega quando fechas a janela e compreendes que tudo quanto vês […]
- [Alfredo Buxán - Lápide](https://singularidadepoetica.art/2018/06/24/alfredo-buxan-lapide/): Uma lágrima cai sobre a cal do solo, arde sob meus pés, consome na solidão minha solidão. Trad.: Nelson Santander Alfredo Buxán – Lápida Una lágrima cae sobre la cal del suelo, arde bajo mis pies, abrasa en soledad mi soledad.
- [Manuel de Freitas - Balladen Om Jenny Lind](https://singularidadepoetica.art/2018/06/23/manuel-de-freitas-balladen-om-jenny-lind-poema/): Balladen Om Jenny Lind, um poema de Manuel de Freitas
- [Inês Dias - Passou demasiado tempo...](https://singularidadepoetica.art/2018/06/22/ines-dias-passou-demasiado-tempo-tempo-poema/): Passou demasiado tempo..., um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Shostakovich. Sinfonia "Leningrado"](https://singularidadepoetica.art/2018/06/21/joan-margarit-shostakovich-sinfonia-leningrado/): Lembras-te? Joana havia morrido. Íamos para o norte, tu e eu, no carro, para o apartamento junto ao mar, e ouvíamos esta sinfonia. Iniciamos a viagem em uma manhã luminosa e, dentro da música, o dia era de muros cobertos pelo gelo, vultos carregando sacos meio vazios e, no lago, trenós com cadáveres. Como uma […]
- [Manuel António Pina - Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/manuel-antonio-pina-neste-preciso-momento-neste-preciso-lugar-poema/): Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar, um poema de Manuel António Pina
- [Nelson Santander – Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), por Nelson Santander
- [Alfredo Buxán - A eternidade das Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/19/alfredo-buxan-a-eternidade-das-cinzas/): Leia "A eternidade das cinzas", de Alfredo Buxán, um poema contemplativo sobre mortalidade, silêncio e a fragilidade da existência humana.
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2018/06/18/jorge-luis-borges-labirinto-2/): Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro. E o alcácer abarca o universo E não tem anverso nem reverso Não tem extremo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro teu destino Como […]
- [Manuel de Freitas - Genealogia](https://singularidadepoetica.art/2018/06/17/manuel-de-freitas-genealogia-poema/): Genealogia, um poema de Manuel de Freitas
- [Jorge Sousa Braga - Fogo sobre fogo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/16/jorge-sousa-braga-fogo-sobre-fogo-poema/): Fogo sobre fogo, um poema de Jorge Sousa Braga
- [Rui Caeiro - "Ainda atacas..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/15/rui-caeiro-ainda-atacas-poema/): "Ainda atacas...", um poema de Rui Caeiro
- [Nuno Júdice - Réquiem por Muitos Maios](https://singularidadepoetica.art/2018/06/14/nuno-judice-requiem-por-muitos-maios-poema/): Réquiem por Muitos Maios, um poema de Nuno Júdice Conheci tipos que viveram muito. Estão mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço. de álcool, da obrigação de viver que os consumia [...]
- [Inês Dias - Lapinha](https://singularidadepoetica.art/2018/06/13/ines-dias-lapinha-poema/): Lapinha, um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Não estava longe, não era difícil](https://singularidadepoetica.art/2018/06/12/joan-margarit-nao-estava-longe-nao-era-dificil/): Chegou este tempo em que já não machuca a vida que se perde, em que a luxúria é tão só uma lâmpada inútil, e a inveja se olvida. É um tempo de perdas prudentes, necessárias, e não é um tempo de chegar mas de partir. O amor, agora, por fim coincide com a inteligência. Não […]
- [Machado de Assis - Último Capítulo (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2018/06/11/machado-de-assis-ultimo-capitulo-excerto/): “Há entre os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato […]
- [Manuel António Pina – Esplanada](https://singularidadepoetica.art/2018/06/10/manuel-antonio-pina-esplanada-poema/): Esplanada, um poema de Manuel António Pina
- [Belchior - Comentários a Respeito de John](https://singularidadepoetica.art/2018/06/09/belchior-comentarios-a-respeito-de-john/): Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho Deixem que eu decido a minha vida Não preciso que me digam de que lado nasce o sol Porque bate lá o meu coração Sonho e escrevo em letras grandes de novo pelos muros do país João, o tempo andou mexendo com a gente, sim John, eu […]
- [Joan Margarit - Discurso do Método](https://singularidadepoetica.art/2018/06/07/joan-margarit-discurso-do-metodo/): Já de criança procurava as janelas para pode fugir com o olhar. Desde então, se entro em um lugar, observo com atenção onde deixo meu casaco e onde está a porta de saída. Liberdade, para mim, quer dizer fuga. Há muitas portas no mundo. Inclusive o sexo, em caso de emergência, pode sê-lo, embora todas […]
- [Idea Vilariño - Ou foram nove](https://singularidadepoetica.art/2018/06/06/idea-vilarino-ou-foram-nove/): Talvez tivemos só sete noites não sei não as contei como poderia ter feito. Talvez não mais que seis ou foram nove. Não sei, mas valeram a pena como o amor mais duradouro. Talvez com quatro ou cinco noites dessas, mas precisamente como essas, talvez seja possível viver como de um longo amor uma vida […]
- [Manuel António Pina – Lugares da infância](https://singularidadepoetica.art/2018/06/05/manuel-antonio-pina-lugares-da-infancia/): Lugares da infância onde sem palavras e sem memória alguém, talvez eu, brincou já lá não estão nem lá estou. Onde? Diante de que mistério em que, como num espelho hesitante, o meu rosto, outro rosto, se reflecte? Venderam a casa, as flores do jardim, se lhes toco, ficam hirtas e geladas, e sob os […]
- [Paulo Henriques Britto - Queima de Arquivo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/04/paulo-henriques-britto-queima-de-arquivo/): Houve um tempo em que eu amava em cada corpo o reflexo do que eu queria ter sido. No fundo do sexo eu buscava o meu desejo perdido. Acabei achando o outro que em mim mesmo destruí. Foi fácil reconhecê-lo: de tudo que vi em seu rosto somente o ódio era belo. Esse morto adolescente […]
- [Eduardo Chirinos - O que meu pai realmente quer de mim](https://singularidadepoetica.art/2018/06/03/eduardo-chirinos-o-que-meu-pai-realmente-quer-de-mim/): 1 Esta noite tive um sonho. Seguia com meu pai por uma estrada de terra. Os dois íamos a cavalo e mal trocávamos uma palavra. Ao longe se via a sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoado desconhecido e remoto. De repente, meu pai deteve seu cavalo e perguntou-me se eu sabia para […]
- [Wislawa Szymborska - Gato num apartamento vazio](https://singularidadepoetica.art/2018/06/02/wislawa-szymborska-gato-num-apartamento-vazio/): Morrer — isso não se faz a um gato. Pois o que há de fazer um gato num apartamento vazio. Trepar pelas paredes. Esfregar-se nos móveis. Nada aqui parece mudado e no entanto algo mudou. Nada parece mexido e no entanto está diferente. E à noite a lâmpada já não se acende. Ouvem-se passos na […]
- [Manuel de Freitas - Grand Hotel København, 326](https://singularidadepoetica.art/2018/06/01/manuel-de-freitas-grand-hotel-kobenhavn-326/): Onze horas: a tua mão adormecida marca agora um conto de Karen Blixen – veremos em breve essa casa cinzenta, em Helsingør – enquanto eu ouço uma sonata de Scarlatti tocada por Scott Ross e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca. Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes assim, ignorando a áspera nudez da […]
- [Jaime Gil de Biedma - Happy ending](https://singularidadepoetica.art/2018/05/31/jaime-gil-de-biedma-happy-ending/): Embora, à noite, comigo já não durmas mais, o acaso dirá talvez se é definitivo. Que embora o prazer nunca mais volte a ser o mesmo, na vida o esquecimento não costuma durar. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Happy ending Aunque la noche, conmigo, no la duermas ya, sólo el azar nos dirá […]
- [Javier Salvago - Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos](https://singularidadepoetica.art/2018/05/30/javier-salvago-um-pouco-mais-sabios-um-pouco-mais-cegos/): Quando você não é mais jovem, se convence de que o diabo sabe mais porque é velho e admite que os anos nos ensinam a distinguir a realidade do sonho. Talvez não. Talvez a vida só se nos mostre uma vez – quando temos olhos para aprecia-la – e depois vamos esquecendo seu rosto e […]
- [Inês Dias - Joaquim e Judite](https://singularidadepoetica.art/2018/05/29/ines-dias-joaquim-e-judite/): Fizera toda a viagem com ele ao colo. Queria despedir-se junto ao mar, mas as partidas são tão imperfeitas se o coração é uma caixa de cinzas demasiado enferrujada para abrir ao vento. Mesmo agora, depois de lavada a última partícula que se lhe colara à pele, sabia que o amor passara a ter o […]
- [Manuel António Pina - Ruínas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/28/manuel-antonio-pina-ruinas/): Por onde quer que tenha começado, pelo corpo ou pelo sentido, ficou tudo por fazer, o feito e o não feito, como num sono agitado interrompido. O teu nome tinha alturas inacessíveis e lugares mal iluminados onde se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam, e talvez devesse ter começado por aí. Agora […]
- [Javier Salvago - Convém não esquecer](https://singularidadepoetica.art/2018/05/27/javier-salvago-convem-nao-esquecer/): Por esta via que chamam vida, vamos com cautela devida, tal qual um cego. Mas em cinzas termina todo e qualquer fogo. Trad.: Nelson Santander Javier Salvago – Conviene no Olvidarlo Por esta senda, que llaman vida, todos vamos a tientas, igual que un ciego. En ceniza terminan todos los fuegos.
- [Vítor Nogueira - Gelo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/26/vitor-nogueira-gelo/): Agora é apenas um café com paredes adornadas, imagens retratando destemidos ancestrais. O tempo foi passando, não foi? Um acidente em câmara lenta a uma escala cataclísmica. Grande parte daquilo que fazemos é construir memória, uma promessa frágil ao futuro. E pensar que na vida acumulamos tanta coisa, sobretudo se por hábito não deitamos nada […]
- [Nuno Júdice - Passado](https://singularidadepoetica.art/2018/05/25/nuno-judice-passado/): Passou o vento, passou o dia, passou a noite e a manhã, passou o tempo, passou a gente, passou cada hora de amanhã; passou um canto esquecido nos cantos de cada passo, passou ao dizer que passo sem se lembrar do compasso; passou a vida como se nada fosse, só passou e foi-se embora, passou […]
- [Manuel António Pina - O Regresso](https://singularidadepoetica.art/2018/05/24/manuel-antonio-pina-o-regresso/): Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira […]
- [Inês Dias – Reconquista](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/ines-dias-reconquista/): Do meu bisavô, ferreiro e construtor de pontes, conheci apenas as iniciais, gravadas na pedra com que tomara o último dos elementos. Mas a sul do passado, o meu avô repetia-lhe ainda os gestos, ensinando-me a travar as marés com pequenos diques improvisados – paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel. Nunca mais o futuro […]
- [Nelson Santander - Philip Roth](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/philip-roth/): Morreu Philip Roth, meu último grande herói literário. Sua vasta bibliografia explora uma gama enorme de temas, mas a faceta que mais me impressionou foi a que ele abordou em seus últimos livros: a questão da velhice. A leitura de “Homem Comum” – principal obra de Roth sobre o tema – há cerca de 8 […]
- [Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame](https://singularidadepoetica.art/2018/05/22/lawrence-ferlinghetti-cafe-notre-dame/): Uma espécie de trauma sexual prende um casal abismado Ele está segurando as duas mãos dela nas suas Ela está beijando as mãos dele Estão olhando-se nos olhos de muito perto Ela tem um casaco de peles feito duma centena de coelhos correndo Ele tem um casaco clássico sombrio e calças cinza-de-pardo Agora estão a […]
- [Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções](https://singularidadepoetica.art/2018/05/21/marina-tsvetaieva-um-poema-em-duas-traducoes/): Tentativa de ciúme – Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra? Fácil, não é? — Um golpe de remo! — E de pronto a linha da costa Se foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante (No céu, por certo, não no mar)! Almas! Almas! — antes amar Como […]
- [Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa](https://singularidadepoetica.art/2018/05/20/anne-sexton-para-o-meu-amante-voltando-para-a-esposa/): Ela está bem aqui. Ela foi cuidadosamente esculpida para você saída de sua infância saída dentre seus cem colegas de escola preferidos. Ela sempre esteve aqui, meu bem. Ela é de fato extraordinária. Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro e tão real como uma panela de ferro fundido. Vamos ser sinceros, eu […]
- [Mario Benedetti - Tempo sem Tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/19/mario-benedetti-tempo-sem-tempo/): Preciso de tempo, necessito desse tempo que os outros deixam de lado porque lhes sobra ou já não sabem o que fazer com ele tempo em branco em rubro em verde mesmo em castanho escuro não me importa a cor cândido tempo que eu não posso abrir e fechar como uma porta tempo para olhar […]
- [Manuel António Pina - Luz](https://singularidadepoetica.art/2018/05/18/manuel-antonio-pina-luz/): Talvez que noutro mundo, noutro livro, tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu), e talvez então tu, eu, […]
- [Marina Colasanti - Rota de Colisão](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/marina-colasanti-rota-de-colisao/): De quem é esta pele que cobre a minha mão como uma luva? Que vento é este que sopra sem soprar encrespando a sensível superfície? Por fora a alheia casca dentro a polpa e a distância entre as duas que me atropela. Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas […]
- [Raul de Carvalho – Amiúde](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/raul-de-carvalho-amiude/): No vale dos afetos ninguém está seguro: Míngua a lembrança, Esquece-se o rosto, Retorna-se ao eu, Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo – E apenas as pequenas ilusões – um café, o cigarro, a limonada – imitam dois corações […]
- [Roger Wolfe - A Última Noite da Terra](https://singularidadepoetica.art/2018/05/16/roger-wolfe-a-ultima-noite-da-terra/): O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa E, no entanto, permaneço aqui. Sua melodia não muda, já o escrevi antes. Mas o meu trabalho é constatar o óbvio e é isso que o melro faz-me recordar. O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem por sua própria mão ou com ajuda. As […]
- [João Miguel Fernandes Jorge - Presépio Animado da Ribeira Grande](https://singularidadepoetica.art/2018/05/15/joao-miguel-fernandes-jorge-presepio-animado-da-ribeira-grande/): Ainda todos se lembram do dezembro de 96. Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na berma, um gato de pelagem branca. Parecia ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa de pelo curto, tinha uma chaga na orelha alastrava pelo crânio e pela face e olho. […]
- [Charles Simic - Na Biblioteca](https://singularidadepoetica.art/2018/05/14/charles-simic-na-biblioteca/): Para Octavio Há um livro chamado “Um Dicionário dos Anjos”. Não foi aberto por ninguém em cinquenta anos, Eu sei, porque quando o fiz As capas rangeram, as páginas desintegraram-se. Nele descobri Que os anjos já foram tão abundantes Quanto moscas. O céu ao entardecer Costumava ficar repleto deles. Você precisava agitar ambos os braços […]
- [Inês Dias – Lei Sálica](https://singularidadepoetica.art/2018/05/13/ines-dias-lei-salica/): As mulheres da família sempre tiveram um jeito quase póstumo de existir: guardar o lume em silêncio, comer depois de servir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destino para lerem os caminhos perdidos e coleccionavam a abdicação em caixinhas de folha, entre bilhetes caducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a […]
- [A. M. Pires Cabral – Motes e Voltas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/12/a-m-pires-cabral-motes-e-voltas/): 1 Senhor, vão sendo horas. Sei bem que o teu relógio não tem de regular-se pelo meu nem a tua vontade pela minha. Mas é justo que seja aquele que sofre do tempo os enxovalhos a dizer quando vão sendo horas — e não tu, Senhor, com quem o tempo não colide (decerto porque tu […]
- [Eugénio de Andrade - Ver Claro](https://singularidadepoetica.art/2018/05/11/eugenio-de-andrade-ver-claro/): Toda a poesia é luminosa, até a mais obscura. O leitor é que tem às vezes, em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver claro. Se regressar outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas ficará cego de tanta claridade. Abençoado seja se lá chegar.
- [Adília Lopes - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/adilia-lopes-arte-poetica-poema/): Arte Poética, um poema de Adília Lopes
- [Inês Dias – Your Funeral, my Trial](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/ines-dias-your-funeral-my-trial/): O morto fica mais só quando quem fala lhe rouba a última memória desse barco desmesurado da infância, construído sem vista para o mar. O morto fica mais só ainda, quando quem ouve se esquece da música para escolher o seu próprio funeral, alinhando convidados e preferindo coroas de plástico a condizer com as lágrimas. […]
- [Manuel António Pina - Relatório](https://singularidadepoetica.art/2018/05/09/manuel-antonio-pina-relatorio/): É um mundo pequeno, habitado por animais pequenos – a dúvida, a possibilidade da morte – e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros, os teus passos subindo as escadas, o gato brincando na sala com o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa, um pouco mais […]
- [Vitor Nogueira – Sementes](https://singularidadepoetica.art/2018/05/08/vitor-nogueira-sementes/): É claro que me lembro. Havia dois atalhos pelo meio do pinhal, direcções espantosamente precisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos, havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio para tratar certas lesões, uma peça vital do equipamento. Havia girassóis à volta da casa e as palavras imortais dos […]
- [Jorge Luis Borges - Sobre nós](https://singularidadepoetica.art/2018/05/07/jorge-luis-borges-sobre-nos/): Amamos o que não conhecemos, o já perdido. O bairro que foi periferia. Os antigos, que já não podem nos decepcionar porque são mito e esplendor. Os seis volumes de Schopenhauer, que não acabaremos de ler. A lembrança, não a leitura, da segunda parte do Quixote. O Oriente que, sem dúvida, não existe para o […]
- [Ana Martins Marques - de "Três Postais"](https://singularidadepoetica.art/2018/05/06/ana-martins-marques-de-tres-postais/): São Paulo Depois de um tempo todas as coisas ficam marcadas como se estivessem impregnadas de veneno Há um tempo em que os lugares são limpos e novos abertos como clareiras mas já não é este o tempo Sobre cada lugar se sobrepõe a experiência do lugar como um selo num cartão postal Por exemplo […]
- [Alberto Caeiro - Quando vier a primavera](https://singularidadepoetica.art/2018/05/05/alberto-caeiro-quando-vier-a-primavera/): Quando vier a primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morria E a primavera era […]
- [José Alcaraz - Volta para Casa](https://singularidadepoetica.art/2018/05/04/jose-alcaraz-volta-para-casa/): Atravessa as ruas absorto nos ecos das pessoas, distante inclusive de seus pensamentos. Não chove, não abre seu guarda-chuva, no entanto, como sempre, molham-se não só seus sapatos como a vida também, porque às vezes não recorda que o mundo o reclama. Caminha como quem não sabe para onde, a cada passo crê estar só […]
- [Hans Magnus Enzensberger - A Visita](https://singularidadepoetica.art/2018/05/03/hans-magnus-enzensberger-a-visita/): Quando levantei os olhos da página em branco havia um anjo no quarto. Um anjo bastante comum presumivelmente de menor hierarquia. Você não pode imaginar, ele disse, o tanto que você é dispensável. Dos quinze mil tons de azul, ele disse, cada um faz mais diferença Do que tudo que você possa fazer ou deixar […]
- [Manuel António Pina - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2018/05/02/manuel-antonio-pina-interiores/): Onde estamos agora que não nos vemos, tu sentada diante da TV e eu escrevendo isto, não sei o quê, como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceu do nosso amor como uma inevitabilidade, uma saudade pousada agora na mão de Deus existindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Reza da Manhã de Maio](https://singularidadepoetica.art/2018/05/01/sophia-de-mello-breyner-andresen-reza-da-manha-de-maio/): Senhor, dai-me a inocência dos animais Para que eu possa beber nesta manhã A harmonia e a força das coisas naturais. Apagai a máscara vazia e vã De humanidade, Apagai a vaidade, Para que eu me perca e me dissolva Na perfeição da manhã E para que o vento me devolva A parte de mim […]
- [Jorge Luis Borges – As Causas](https://singularidadepoetica.art/2018/04/30/jorge-luis-borges-as-causas/): Todas as gerações e os poentes. Os dias e nenhum foi o primeiro. A frescura da água na garganta De Adão. O ordenado Paraíso. O olho decifrando a maior treva. O amor dos lobos ao raiar da alba. A palavra. O hexâmetro. Os espelhos. A Torre de Babel e a soberba. A lua que os […]
- [Belchior - Coração Selvagem](https://singularidadepoetica.art/2018/04/30/belchior-coracao-selvagem/): Um ano sem Belchior… Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção Esconda um beijo pra mim Sob as dobras do blusão Eu quero um gole de cerveja No seu copo, no seu colo e nesse bar Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja Não quero o […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Discurso pós-jantar em um noivado](https://singularidadepoetica.art/2018/04/29/hans-magnus-enzensberger-discurso-pos-jantar-em-um-noivado/): Este eu, um invólucro que, contanto que ninguém o abra, parece compacto, regular como um Kinder ovo, quase apetitoso. Só por dentro é escuro. Quem sabe o que estará esperando por você lá. Obsessões, sem dúvida, hábitos enferrujados, medos incompreensíveis, truques de segunda mão, desejos infantis. Que você deseje tê-la, esta caixa de presente, beira […]
- [Juan Vicente Piqueras - Véspera de Permanecer](https://singularidadepoetica.art/2018/04/28/juan-vicente-piqueras-vespera/): Tudo está preparado: a mala, as camisas, os mapas, a tola esperança. Estou tirando o pó das pálpebras. Já pus na lapela a rosa dos ventos. Tudo está pronto: o mar, o ar, o atlas. Só me falta o quando, o onde, um diário de bordo, cartas de navegação, ventos propícios, coragem e alguém que […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Balanço](https://singularidadepoetica.art/2018/04/27/carlos-drummond-de-andrade-balanco/): A pobreza do eu a opulência do mundo A opulência do eu a pobreza do mundo A pobreza de tudo a opulência de tudo A incerteza de tudo na certeza de nada
- [Felipe Benítez Reyes – Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2018/04/26/felipe-benitez-reyes-aniversario-2/): Outro ano que se vai. Os muitos que se foram deixaram-nos um verbo repetido com significados diferentes e o mapa de um tesouro que não está em nenhum mapa, conversas amenas e o silêncio, e luzes que se apagam e sombras que se acendem e o penar de alma em luto pela alma do que […]
- [Jaime Gil de Biedma - Lembre-se](https://singularidadepoetica.art/2018/04/25/jaime-gil-de-biedma-lembre-se/): Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo sonhos na memória: estremece a eternidade do tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado para um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre dissipando-se o passado. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Recuerda […]
- [Haroldo de Campos - Servidão de Passagem](https://singularidadepoetica.art/2018/04/24/haroldo-de-campos-servidao-de-passagem/): forma de fome proêmio mosca ouro?mosca fosca. mosca prata?mosca preta. mosca íris?mosca reles. mosca anil?mosca vil. mosca azul?mosca mosca. mosca branca?poesia pouca. o azul é puro?o azul é pus. de barriga vazia. o verde é vivo?o verde é vírus de barriga vazia. o amarelo é belo?o amarelo é bile de barriga vazia. o vermelho é […]
- [Rocío Wittib - Outra vez olhas o mundo...](https://singularidadepoetica.art/2018/04/23/rocio-wittib-outra-vez-olhas-o-mundo/): outra vez olhas o mundo como se fosse tarde demais te perguntas se o tempo é uma resposta e aceitas a dúvida do talvez como consolo aprendeste a renunciar sempre de algo mas sobretudo a desistir de ti mesmo por isso foges do desejo como um animal ferido te refugias na certeza fiel de alguma […]
- [Manuel António Pina - Instituto de Oncologia](https://singularidadepoetica.art/2018/04/22/manuel-antonio-pina-instituto-de-oncologia/): Estes cumprem o rito antigo mantendo a chama da morte acesa na obscura água da vida e engrossam o rio dos mortos como pura memória sem nome. Nós rebelamo-nos, levantamos as mãos ao céu, e depois fechamo-las para deter o rio da mudança fluindo por entre os dedos, porque éramos os menos fortes e os […]
- [Charles Bukowski – Como ser um grande escritor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/21/charles-bukowski-como-ser-um-grande-escritor/): você tem que trepar com um grande número de mulheres belas mulheres e escrever uns poucos e decentes poemas de amor. não se preocupe com a idade e/ou com os talentos frescos e recém-chegados; apenas beba mais cerveja mais e mais cerveja e vá às corridas pelo menos uma vez por semana e vença se […]
- [Inês Lourenço – Consoantes Átonas](https://singularidadepoetica.art/2018/04/20/ines-lourenco-consoantes-atonas/): Emudecer o afe[c]to português? Amputar a consoante que anima a vibração exa[c]ta do abraço, a urgência tá[c]til do beijo. Eu não nasci nos Trópicos: preciso desta interna consoante para iluminar a névoa do meu dile[c]to norte.
- [Yehuda Amichai – Um homem em sua vida](https://singularidadepoetica.art/2018/04/19/yehuda-amichai-um-homem-em-sua-vida/): Um homem não tem tempo em sua vida para ter tempo para cada coisa. Ele não possui momentos suficientes para ter um momento para cada coisa. O Eclesiastes Estava errado a esse respeito. Um homem precisa amar e odiar no mesmo instante, rir e chorar com os mesmos olhos, com as mesmas mãos atirar e […]
- [Eira Stenberg – Falar de Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/18/eira-stenberg-falar-de-amor/): Falar de amor, do que não se pode falar – desse beco sem saída que é o espelho onde alguém pende de cabeça em uma árvore invisível com as pernas cingindo um ramo como se lutasse contra a gravidade e abrisse a boca sem emitir som algum. Ou falar como se o amor fosse uma […]
- [Fernando Luis Chivite – “Abril é o mês mais cruel”](https://singularidadepoetica.art/2018/04/17/fernando-luis-chivite-abril-e-o-mes-mais-cruel/): Às vezes, sem que nada pareça particularmente favorável – nem lúgubres violinos, nem a tarde tornando-se violeta e perigosa – sente-se que a vida segue sendo estranha, e desenvolve senhas inéditas, desordena papéis, acende cigarros com uma inquietude excessiva, como querendo assegurar-se que o tempo não se deterá, que o olvido é só algo fortuito, […]
- [Mario Montalbetti – Muito menos que uma ideia](https://singularidadepoetica.art/2018/04/16/mario-montalbetti-muito-menos-que-uma-ideia/): Não creias na verdade. Não creias na beleza. Não creias no amor. Senta ao piano sopra a trompa arranha a corda e fiquemos juntos. Não me apanhes um Beserol se me dói a cabeça. Não repitas comigo filme que já viste. Não creias que haja algo importante no que fazes. Nem sequer uma boa ação […]
- [Rocío Wittib - Imprescindível não é a direção...](https://singularidadepoetica.art/2018/04/15/rocio-wittib-imprescindivel-nao-e-a-direcao/): imprescindível não é a direção o caminho no mapa a geografia é apenas um acidente para quem se busca e suspeita que distância não significa quilômetros tampouco importa o destino porque nunca se está em um lugar preciso mas constantemente em uma fronteira entre o desespero do ser e o anseio de resistir não há […]
- [Felipe Fortuna – Samir](https://singularidadepoetica.art/2018/04/14/felipe-fortuna-samir/): Aquele garoto que vê o mercado ficar cheio se chama Samir. Ele crê em Deus de todas as maneiras: como pássaro brilhante, como água fresca entre pedras, como o assobio do vento deserto. Mas agora desmembrado e a cabeça confundida aos estilhaços Samir não vê. Sobre o mercado a bomba apontou o inimigo e levou […]
- [Jorge Teillier – Blue](https://singularidadepoetica.art/2018/04/13/jorge-teillier-blue/): Verei novos rostos Verei novos dias Serei esquecido Terei remembranças Verei sair o sol quando sai o sol Verei cair a chuva quando chove Andarei a esmo De um lado a outro Aborrecerei meio mundo Contando a mesma história Me sentarei para escrever uma carta Que não me interessa enviar Ou para olhar as crianças […]
- [e e cummings - de "xaipe"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/12/e-e-cummings-de-xaipe/): 40 eu estou te pedindo querida é pra que mais poderia um não mas não é o que claro mas você não parece entender que eu não posso ser mais claro a guerra não é o que imaginamos mas por favor pelo amor de Oh que diabo sim é verdade que fui eu mas esse […]
- [Rosa Leveroni i Valls – De "Epigramas e Canções"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/11/rosa-leveroni-i-valls-de-epigramas-e-cancoes-poema/): Eu levo dentro de mim para fazer-me companhia a solidão apenas. A solidão imensa do amor infinito que queria ser terra, ar e sol, mar e estrela, para que fosses mais meu, para que eu fosse mais tua. Trad.: Nelson Santander Rosa Leveroni i Valls – De “Epigrames i cançons” Jo porto dintre meu per […]
- [Jacques Prévert - Bárbara](https://singularidadepoetica.art/2020/06/07/jacques-prevert-barbara/): Lembra-te BárbaraChovia em Brestsem cessar naquele diaCaminhavas à chuvasorridenteradiosa encantadora deslumbranteLembra-te Bárbarachovia em Brestsem cessare eu passei por tina Rua do Sião.Sorriase eu sorriaLembra-te Bárbaratu a quem não conheciatu que não me conheciasLembra-teLembra-te mesmo assimdaquele diaNão te esqueçasSob um pórticoabrigava-se um homemque gritou o teu nomeBárbaraCorreste para eleà chuvadeslumbrante encantadoraradiosalançaste-te nos seus braçosLembra-te BárbaraE não […]
- [Joan Margarit - A senha](https://singularidadepoetica.art/2020/06/06/joan-margarit-a-senha/): Sozinho entre dois infernos— o da liberdade e o da idade —,já não consigo abrir nosso cofre.A porta com seus dígitos giratóriosé a roleta na qual já não aposto.Desde o primeiro suspiro conserveia blindada clarezadaquela rosa.Agora, nu em nosso quarto,a janela aberta e a luz apagada,ouço o rumor urbano da noite,enquanto a leve brisa me […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Décima Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/05/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-decima-elegia/): Que um dia, ao emergir da terrível intuição, ascenda meu canto de júbilo e glória até os Anjos aprovadores! Que nenhum claro golpe dos malhos do coração desentoe sobre cordas frouxas, vacilantes ou desgarradas! Que meu rosto se ilumine sob o pranto! Que a obscura lágrima floresça! Oh, como então vos amaria, noites de aflição! […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Nona Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/04/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-nona-elegia/): Por que, sendo possível o prazo da existência levar como o loureiro, de um verde mais sombrio que todos os outros verdes, com leves ondulações no contorno das folhas (como um sorriso do vento) – por que então, escravos do humano, anelar pelo destino fugindo ao destino?… Oh, não porque a felicidade exista, essa prematura […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Oitava Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/03/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-oitava-elegia/): Oitava elegia dedicada a Rudolf Kassner Com todos os seus olhos, a criatura vê o Aberto.Nosso olhar, porém, foi revertido e como armadilhase oculta em torno do livre caminho.O que está além, pressentimos apenasna expressão do animal; pois desde a infânciadesviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos,ah, esse espaço profundo que há […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Sétima Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/02/rainer-maria-rilke-elegia-de-duino-setima-elegia/): Não, não mais buscar: que seja esta, voz da madurez, a essência do teu grito. Gritaste, em verdade, com a pureza do pássaro, quando erguido pela estação que ascende, quase esquece que é um ser desamparado, coração solitário lançado às alturas, na intimidade do céu. Como ele, buscavas a amiga invisível que te pressentisse, a […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Sexta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/01/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-sexta-elegia/): Figueira, há muito que te vejo esquecer quase inteiramente a floração, precipitando no fruto prematuro, incompreendido, teu puro segredo. Como o canal de uma fonte teus ramos sinuosos impelem para a luz a seiva adormecida, abandonando-a, ainda sonolenta ao seu doce destino: como o deus em cisne transformado. Nós porém que nos detemos, gloriosos de […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Quinta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/31/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-quinta-elegia/): Quinta elegia dedicada a Frau Hertha von Kœnig Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância por alguém torcidos – por amor de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce, curva-os, entretece-os, vibra-os, atira-os e os toma de volta! Do ar untado e mais liso, […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Quarta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/30/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-quarta-elegia/): Ó árvores da vida, quando atingireis o inverno? Ignoramos a unidade. Não somos lúcidos como as aves migradoras. Precipitados ou vagarosos nos impomos repentinamente aos ventos e tornamos a cair num lago indiferente. Conhecemos igualmente o florescer e o murchar. No entanto, em alguma parte, vagueiam leões ainda, alheios ao desamparo enquanto vivem seu esplendor. […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Terceira Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/29/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-terceira-elegia/): Uma coisa é cantar a amada. Outra, ai de mim, é cantar o culpado e oculto Deus-Rio do sangue. Aquele que a amada reconhece de longe, seu amante, que sabe ele do Senhor da Volúpia que tantas vezes o assaltava em plena solidão, antes que a mulher amada o abrandasse, como se nem mesmo ela […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Segunda Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/28/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-segunda-elegia/): Todo Anjo é terrível. No entanto, ai de mim, eu vos invoco, pássaros quase mortais da alma, sabendo quem sois. Tempos remotos de Tobias, em que o mais radiante dentre vós aparecia no limiar da casa humilde, sem intimidar, para a viagem levemente disfarçado (jovem que outro jovem, curioso, contemplava). Adiantasse agora o Arcanjo, ameaça […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Primeira Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/27/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-primeira-elegia/): Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjosme ouviria? E mesmo que um deles me tomasseinesperadamente em seu coração, aniquilar-me-iasua existência demasiado forte. Pois que é o Belosenão o grau do Terrível que ainda suportamose que admiramos porque, impassível, desdenhadestruir-nos? Todo Anjo é terrível.E eu me contenho, pois, e reprimo o apelodo meu soluço […]
- [Federico Garcia Lorca - Pranto por Ignacio Sánchez Mejías](https://singularidadepoetica.art/2020/05/26/federico-garcia-lorca-pranto-por-ignacio-sanchez-mejias/): 1. A captura e a morte Às cinco da tarde.Eram as cinco em ponto dessa tarde Um menino trouxe o lençol brancoàs cinco da tarde. Uma alcofa de cal já prevenidaàs cinco da tarde.O mais era só morte e apenas morteàs cinco da tarde. O vento arrebatou os algodõesàs cinco da tarde.E o óxido semeou […]
- [John Ashbery - Medo da morte](https://singularidadepoetica.art/2020/05/25/john-ashbery-medo-da-morte/): Que há comigo agora, é assim que eu fiquei? Não há estado livre dos limites do antes e depois? Hoje a janela está aberta e o ar jorra para dentro com notas de piano nas suas saias, como a dizer, “Olha, John, eu trouxe isso e aquilo” – ou seja, alguns Beethovens, uns Brahms, umas […]
- [Álvaro de Campos - Tabacaria](https://singularidadepoetica.art/2020/05/25/alvaro-de-campos-tabacaria/): Leia "Tabacaria", de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), um dos maiores poemas do modernismo português sobre identidade, fracasso, sonho e existência.
- [Horácio - Ode 1/11](https://singularidadepoetica.art/2020/05/24/horacio-ode-1-11-poema/): Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe, os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo da babilônia e aceita: o que há de ser, será, quer nos dê Jove mais invernos, quer só este que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos. Enquanto […]
- [Attila József - Dói demais](https://singularidadepoetica.art/2020/05/23/attila-jozsef-doi-demais/): A morte atenta de dentro e fora te afugenta (ratinho oculto com receio) e, enquanto arderes, vais procurar junto às mulheres refúgio em braço, joelho e seio. Mais que o calor do colo afável, mais que o ardor, precisar muito é que te apressa; assim, quem quer que possa abraça uma mulher até que a […]
- [Eugenio Montale - Xenia I](https://singularidadepoetica.art/2020/05/22/eugenio-montale-xenia-i/): 1 Querido pequeno inseto que chamavam de mosca, não sei por quê, esta tarde quase ao escurecer enquanto lia o Segundo Livro de Isaías reapareceste ao meu lado, mas não tinhas óculos, não podias me ver nem podia eu sem aquela centelha reconhecer-te no escuro. 2 Sem óculos nem antenas pobre inseto que asas só […]
- [Basil Bunting - O que o diretor disse a Tom](https://singularidadepoetica.art/2020/05/21/basil-bunting-o-que-o-diretor-disse-a-tom/): Poesia? É um hobby O meu são trens elétricos. O sr. Shaw ali cria pombos. Não é trabalho. Você não sua a camisa. Ninguém paga. Tente anunciar sabão. Ópera é que é arte; ou o teatro. A Canção do Deserto. Nancy era do coro. Mas pedir doze libras por semana – casado, não? – isso […]
- [Mary Oliver - O dia de verão](https://singularidadepoetica.art/2020/05/20/mary-oliver-o-dia-de-verao/): Quem criou o mundo?Quem fez o cisne e o urso-negro?Quem fez o gafanhoto?Digo, aquele gafanhoto –aquele que saltou da grama,aquele que agora come açúcar na minha mão,aquele que move as mandíbulas para frente e para trás, não de cima para baixo –aquele que olha ao redor com seus olhos enormes e complexos.Agora ele ergue os […]
- [Raúl Ferruz - Com os olhos bem abertos](https://singularidadepoetica.art/2020/05/19/raul-ferruz-com-os-olhos-bem-abertos/): Quando meu avô sorria depois de cada gole de água,isso significava. Não sabes o que é beber o próprio mijo.Quando desenhava uma parábola no ar que só ele via,isso significava. Fogo cruzado.Quando tapava o rosto para que não o víssemos chorar,isso significava. Os alemães nos infligiram horrores.Quando fechava a porta do banheiro para que não […]
- [Anne Sexton - A noite estrelada](https://singularidadepoetica.art/2020/05/18/anne-sexton-a-noite-estrelada/): A noite estrelada Isso não me impede de ter uma terrível necessidade de — devo dizer a palavra — religião. Então, saio à noite para pintar as estrelas. – Vincent Van Gogh, em uma carta ao seu irmão A cidade não existe,exceto onde uma árvore de cabelos negros deslizacomo uma mulher afogada no ar abrasador.A […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Cruzeiro do Sul](https://singularidadepoetica.art/2020/05/17/jorge-valdes-diaz-velez-cruzeiro-do-sul/): Ardem as folhas do outono na umidade crepuscular de Buenos Aires. Contra um parque dividido por três colinas, a opacidade de sua beleza procura nas folhagens o olhar que acompanhou a luz. As lâmpadas douradas mantêm suas memórias e acendem sombras no gramado. Ao entardecer, se organizam o horizonte de troncos e o suave tato […]
- [James Elroy Flecker - A um poeta daqui a mil anos](https://singularidadepoetica.art/2020/05/16/james-elroy-flecker-a-um-poeta-daqui-a-mil-anos/): Eu, que há mil anos concluí meu percurso,E escrevi esta doce e arcaica canção,Por arautos te envio este discursoPor estradas que meus pés não trilharão. Não me importa se os mares tu transpões,Ou se galgas em segurança um céu mau,Se eriges exímias fortificaçõesFeitas de alvenaria ou de metal. Mas ainda tens canções e o hidromel,E […]
- [Augusto de Campos - Viv (1992)](https://singularidadepoetica.art/2020/05/15/augusto-de-campos-viv/): Viv (1992), “viver é defender uma forma” (hoelderlin via Webern)
- [Juan Vicente Piqueras - Oração do incrédulo](https://singularidadepoetica.art/2020/05/14/juan-vicente-piqueras-oracao-do-incredulo/): O importante é rezar, não importa a quem,que as perguntas sejam as oraçõesdo pensamento, plantem sua sementeem nossa solidão, e que não exista pazque, à força de insistir, seja capazde não existir, não tenha remédiosenão atender à voz de quem a chama. Que deus não exista, acasoé razão para nele não crer? Deus é o […]
- [Eugenio Montale - A enguia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/13/eugenio-montale-a-enguia/): A enguia, a sereia dos mares frios que deixa o Báltico para alcançar os nossos mares, nossos estuários, os rios que sobe pelas profundezas, contra a enxurrada, de braço em braço e depois de veio em veio, cada vez mais delgados, sempre mais dentro, sempre mais perto do coração da rocha, filtrando-se por regos de […]
- [Eavan Boland - Quarentena](https://singularidadepoetica.art/2020/05/12/eavan-boland-quarentena/): Na pior hora da pior estação do pior ano de todo um povo um homem partiu do internato com a mulher Ele andava – ambos andavam – para o norte Ela tinha a febre da fome e não se aguentava. Ele a ergueu e a pôs nas costas. Andou assim para oeste e oeste e […]
- [Aldir Blanc - Valsa pra Leila](https://singularidadepoetica.art/2020/05/11/aldir-blanc-valsa-pra-leila/): Tu te esfumarásme neblinareisobre os telhadosgaláxias azuis.Sonambularáste volteareigatos lambendo as estrelasWendy e Peter Pansem o amanhãnunca, pra nós dois, é sempre cedo.Marietarás,eu Buarquireiem dois cavaloscom asas de luz.Tu te nublarás,me eclipsareinuvens em nossa cabeça.Toma, Peter Pan,só um lexotanpra que tanto amor não te enlouqueça.Vagalumarás por sobre o campo,eu virei do mar, teu pirilampo.Como um circo […]
- [Paul Celan - O companheiro de viagem](https://singularidadepoetica.art/2020/05/10/paul-celan-o-companheiro-de-viagem-poema/): A alma da tua mãe flutua adiante.A alma da tua mãe ajuda a noite a navegar, escolho após escolho.A alma da tua mãe fustiga os tubarões à tua frente. Esta palavra é a disciplina da tua mãe.A discípula da tua mãe partilha o teu jazigo, pedra a pedra.A discípula da tua mãe inclina-se para a […]
- [Charles Bukowski - oh, sim](https://singularidadepoetica.art/2020/05/09/charles-bukowiski-oh-sim/): há coisas piores do que estar sozinho mas muitas vezes leva décadas para perceber isso e na maioria das vezes quando você percebe é tarde demais e não há nada pior do que tarde demais Trad.: Nelson Santander oh, yes there are worse things than being alone but it often takes decades to realize this […]
- [Emily Dickinson - Após grande dor sobrevém um sentimento austero](https://singularidadepoetica.art/2020/05/08/emily-dickinson-apos-grande-dor-sobrevem-um-sentimento-austero/): Após grande dor sobrevém um sentimento austero –Os Nervos ficam cerimoniosos como um cemitério –Indaga o rijo Coração se foi Ele que sofreu,Se Ontem, ou Séculos antes aconteceu? Os pés, mecânicos, circundam sem cessar –Nos Sopés, no Ar, em qualquer Lugar –Um caminho de madeiraQue indiferentemente medraUm contentamento de Quartzo, uma pedra – A Hora […]
- [William Carlos Williams - Nevasca](https://singularidadepoetica.art/2020/05/07/william-carlos-williams-nevasca/): Neve:anos de fúria seguindohoras que flutuam indolentes —a nevascadeposita seu fardocada vez mais fundo por três diasou sessenta anos, não? Entãoo sol! um tumulto deflocos amarelos e azuis —Árvores de aparência hirsuta destacam-seem longas alamedassobre uma selvagem solidão.O homem se vira e lá —seu solitário rastro estendendo-sesobre o mundo. Trad.: Nelson Santander Mais do que […]
- [Nuno Júdice – Epidemia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/06/nuno-judice-epidemia/): Passa de um para o outro através do olhar, de uma palavra, de um toque de mãos; por vezes, basta um leve suspiro para adivinhar a febre, e atrás dele descobre-se que não é preciso cura nem tratamento. Instala-se na cabeça, no corpo, na boca, nos dedos, sem dor nem cansaço, apenas aquela ânsia a […]
- [Susana Cattaneo - Quando já não estiver...](https://singularidadepoetica.art/2020/05/05/susana-cattaneo-quando-ja-nao-estiver/): Quem porá o pésobre a marca que o meu deixou?Quem olhará estas árvoresonde meus olhos deixaram sinais?Alguém ouvirá cantar um pássaroque será outro.Alguém respirará os mesmos pinheirosde um verde mais cansado.A vida será uma folha em brancoe não poderei timbrá-la com minha palavra. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre […]
- [William Butler Yeats - A torre](https://singularidadepoetica.art/2020/05/04/william-butler-yeats-a-torre/): 1 O que farei com esta absurdidade, Esta caricatura, coração? Decrepitude atada à minha idade Como à cauda de um cão? Jamais terei sentido Tão grande, tão apaixonada, tão incrível A fantasia, nem houve olho e ouvido Que mais quisessem o impossível – Não, nem quando menino, com inseto e anzol, Ou mais humilde verme, […]
- [Joan Margarit - Despedidas](https://singularidadepoetica.art/2020/05/03/joan-margarit-despedidas/): Ela o acompanhava até o primeiro trem que partia às segundas antes do amanhecer, e naquele bar costumavam despedir-se, o mais próximo da Estación de Francia. Evoco os invernos detidos atrás das vidraças da infância. E talvez esta seja sua mesa, onde agora lembro-me de que, naquela mesma hora, eu estava na penumbra do meu […]
- [Paul Verlaine - Arte poética](https://singularidadepoetica.art/2020/05/02/paul-verlaine-arte-poetica/): Arte Poética A Charles Morice Antes de tudo, a Música. Preza Portanto o Ímpar. Só cabe usar O que é mais vago e solúvel no ar, Sem nada em si que pousa ou que pesa. Pesar palavras será preciso, Mas com algum desdém pela pinça: Nada melhor do que a canção cinza Onde o Indeciso […]
- [Laurie Lee – A sombra abandonada](https://singularidadepoetica.art/2020/05/01/laurie-lee-a-sombra-abandonada/): Percorrendo a sombra abandonadadas habitações da minha infância,meus ouvidos relembram o badalar,ouvindo suas vozes soterradas. Ouço o verão primordial,as margens da aurora iluminadas por aves,o pulsar de sangue da escrevedeira-amareladourando meus olhos de berço. Ouço a lua-de-estanho subire a moeda do crepúsculo cair,o rastejar da geada e o gemidodo degelo e o pio dos piscos […]
- [Jorge Luis Borges - Mortes de Buenos Aires](https://singularidadepoetica.art/2020/04/30/jorge-luis-borges-mortes-de-buenos-aires/): I La Chacarita Porque a entranha do cemitério do Sul foi saciada pela febre amarela até dizer basta; porque os tugúrios fundos do Sul lançaram morte sobre a face de Buenos Aires e porque Buenos Aires não pôde encarar essa morte, golpes de pá te abriram na ponta perdida do Oeste, atrás das tempestades de […]
- [Fernando Pessoa - No Túmulo de Christian Rosencreutz](https://singularidadepoetica.art/2020/04/29/fernando-pessoa-no-tumulo-de-christian-rosencreutz/): NO TÚMULO DE CHRISTIAN ROSENCREUTZ Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastámos para um lado o altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto…, e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a […]
- [César Vallejo - Os passos distantes](https://singularidadepoetica.art/2020/04/28/cesar-vallejo-os-passos-distantes/): Meu pai dorme. Seu semblante augusto exprime um tranquilo coração; está agora tão doce… se há algo nele de amargo, serei eu. Há solidão no lar; se reza; e não há notícias das crianças hoje. Meu pai desperta, ausculta a fuga para o Egito, o último adeus. Está agora tão perto; se há algo nele […]
- [Rainer Maria Rilke - Torso arcaico de Apolo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/27/rainer-maria-rilke-torso-arcaico-de-apolo/): Não conhecemos sua cabeça inaudita Onde as pupilas amadureciam. Mas Seu torso brilha ainda como um candelabro No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado Detém-se e brilha. Do contrário não poderia Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva Dos rins poderia chegar um sorriso Até aquele centro, donde o sexo pendia. De […]
- [Jorge Luis Borges - A noite que no sul o velaram](https://singularidadepoetica.art/2020/04/26/jorge-luis-borges-a-noite-que-no-sul-o-velaram/): A noite que no sul o velaram para Letizia Álvarez de Toledo Pelo passamento de alguém — mistério cujo desconhecido nome possuo e cuja realidade não abarcamos — há até o alvorecer uma casa aberta no Sul, uma casa ignorada que não estou destinado a […]
- [Charles Bukowski - Manual de Combate](https://singularidadepoetica.art/2020/04/25/poesia-vim-buscar-te/): Eles chamaram Celine de nazista eles chamaram Pound de fascista eles chamaram Hamsun de nazista eles puseram Dostoiévski diante de um esquadrão de fuzilamento e você sabe que eles atiraram em Lorca submeteram Hemingway a tratamento de choque e você sabe que ele se matou e eles levaram Villon para fora da cidade (Paris) e […]
- [Ferreira Gullar - Reflexão sobre o osso da minha perna](https://singularidadepoetica.art/2020/04/24/ferreira-gullar-reflexao-sobre-o-osso-da-minha-perna/): A parte mais durável de mim são os ossos e a mais dura também como, por exemplo, este osso da perna que apalpo sob a macia cobertura ativa de carne e pele que o veste e inteiro me reveste dos pés à cabeça esta vestimenta fugaz e viva sim, este osso a mais dura parte […]
- [Jane Hirshfield - Meu esqueleto](https://singularidadepoetica.art/2020/04/23/jane-hirschfield-meu-esqueleto/): Meu esqueleto, que um dia doeu com o próprio crescimento, está agora, a cada ano imperceptivelmente menor, mais leve, absorvido por sua própria concentração. Quando eu dancei, você dançou. Quando você quebrou, eu. E assim foi, deitando, caminhando, subindo os fatigantes degraus. Seus maxilares. Meu pão. Algum dia você, o que resta de você, será […]
- [Louise Glück - Nostos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/22/louise-gluck-nostos/): Havia uma macieira no quintal – isso teria sido há quarenta anos – nos fundos, apenas prados. Excesso de crocus na relva úmida Eu estava naquela janela: fim de abril. Flores da primavera no quintal do vizinho. Quantas vezes, realmente, a árvore floresceu no meu aniversário, no dia exato, nem antes nem depois? Substituição do […]
- [Denise Levertov - Naquele dia](https://singularidadepoetica.art/2020/04/21/denise-levertov-naquele-dia/): Do outro lado de um lago na Suíça, cinquenta anos atrás, a luz duelava com uma longa lança, esgrimindo com sabres de um lado para o outro entre picos nublados e colinas. Observávamos de um pequeno pavilhão, minha mãe e eu, fascinadas. E então, eis que um feixe, uma coluna, um corpo definido, não de […]
- [Richard Eberhart - A marmota](https://singularidadepoetica.art/2020/04/20/richard-eberhart-a-marmota/): Em junho, entre os campos dourados, Avistei uma marmota morta. Morta ela estava; meu juízo se abalou, E a mente projetou a nossa fragilidade nua. Lá embaixo, humilde no vigoroso verão, Sua forma iniciou sua mudança sem sentido, E fez oscilar meus sentidos para o sombrio Vendo a natureza feroz que nela havia. Inspecionando de […]
- [Jane Hirshfield - Dentro desta árvore](https://singularidadepoetica.art/2020/04/19/jane-hirshfield-dentro-desta-arvore/): Dentro desta árvore outra árvore habita o mesmo tronco; dentro desta pedra outra pedra descansa, com muitos tons de cinza iguais, com superfície e peso idênticos. E dentro do meu corpo, outro corpo, cuja história, à espera, canta; não há outro corpo, ela canta, não há outro mundo. Trad.: Nelson Santander Within this tree Within […]
- [Gonçalo M. Tavares - Sobre o mundo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/18/goncalo-m-tavares-sobre-o-mundo/): O telescópio não alcança sequer a tua alma; Imprecisão exata de um instrumento instintivo. Mas repara: não há instrumentos instintivos ou máquinas espontâneas. Dois terços do amor estão na mulher, qualquer que seja o casal. As evidências abrem falência em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam ciências viris. Indispensáveis, de facto: ciências […]
- [Alberto Szpunberg - De "Sol de noche"](https://singularidadepoetica.art/2020/04/17/alberto-szpunberg-de-sol-de-noche/): XIV Embora já saibas que nada volta, volta para casa, aceita a pequena mentira como um lapso antes que o inverno te surpreenda sob uma árvore de ramos despojados: aqui termina o bosque, o que cresceu em teus sonhos antes mesmo de tuas mãos roçarem os troncos: a pradaria que se estende perante teus olhos […]
- [Ana Martins Marques - [Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano]](https://singularidadepoetica.art/2020/04/16/ana-martins-marques-pense-em-quantos-anos-foram-necessarios-para-chegarmos-a-este-ano/): Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano quantas cidades para chegarmos a esta cidade e quantas mães, todas mortas, até tua mãe quantas línguas até que a língua fosse esta e quantos verões até precisamente este verão este em que nos encontramos neste sítio exato à beira de um mar rigorosamente […]
- [Marie Howe - Meus amigos mortos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/15/marie-howe-meus-amigos-mortos/): Comecei, quando estou cansada e não consigo decidir a resposta que devo dar a uma pergunta desconcertante, a pedir a opinião dos meus amigos mortos e frequentemente a resposta é imediata e clara. Devo aceitar o emprego? Mudar-me para a cidade? Devo tentar conceber um filho em minha meia idade? Em uníssono, eles balançam suas […]
- [Emily Dickinson - Poema 1.222](https://singularidadepoetica.art/2020/04/14/emily-dickinson-poema-1-222/): O Enigma decifrado Despreza-se com pressa — A Surpresa de Ontem Já não nos interessa — Trad.: Augusto de Campos Poem 1.222 The Riddle we can guess We speedily despise — Not anything is stale so long As Yesterday’s surprise —
- [Robert Bly - Pessoas como nós](https://singularidadepoetica.art/2020/04/13/robert-bly-pessoas-como-nos/): Pessoas como nós para James Wright Há mais como nós. Em toda parte Há pessoas confusas, que não conseguem lembrar O nome do próprio cão quando acordam, e pessoas Que amam a Deus mas não se lembram onde Ele estava quando foram dormir. Não Tem problema. O mundo se purifica desta forma. Um número errado […]
- [Juan Vicente Piqueras - Taças de sede](https://singularidadepoetica.art/2020/04/12/juan-vicente-piqueras-tacas-de-sede/): Se duvidas de tua sede, se não te atreves a questiona-la ou a dar-lhe um nome, se só sabes que buscas uma água que a sacie e não achas senão poços, e neles ecos que te chamam, bebe. Se ao beber a sede desaparece é que era só sede. Segue buscando. Mas se cresce em […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Canção de fevereiro](https://singularidadepoetica.art/2020/04/11/jorge-valdes-diaz-velez-cancao-de-fevereiro/): Canção de fevereiro no peito do céu, palpitando Jaime Gil de Biedma Leve e triste, a tarde se retira contigo até o crepúsculo e as horas começam a doer nas dobras distantes do lençol. Subitamente a noite regressou e é difícil não pensar em teus efêmeros lábios ou nas altas regiões do teu corpo glorificando […]
- [Iracema Macedo - Dandara](https://singularidadepoetica.art/2020/04/10/iracema-macedo-dandara/): Eu só acreditava em Drummond: ‘o amor chega tarde’ Não conhecia o amor que fulgura sem aviso esse que se sabe proibido o amor que já se sabe perdido desde o início Eu não acreditava no impossível vinha tão sóbria, tão cheia de medidas não conhecia o esplendor da queda nem a violência dos abismos
- [José Miguel Silva - Tudo coisas mortais para a poesia](https://singularidadepoetica.art/2020/04/09/jose-miguel-silva-tudo-coisas-mortais-para-a-poesia/): A casa, o lume, o sono dobrado do corpo feliz, a cesta de figos, a curva do rio, a fotografia no cimo do monte, a veracidade das glicínias, o rosto da mãe, a fava no bolo, o trunfo de copas, o filme da tarde, a música nova, o rasto da chuva por entre os pinheiros, […]
- [Juan Vicente Piqueras - Lençóis herdados](https://singularidadepoetica.art/2020/04/09/juan-vicente-piqueras-lencois-herdados/): A ferida mais íntima é herdada. O onde, o como, o quando,a morte, o nascimento,língua, família, deus, tempo, amor:o decisivo do que nos acontece,e quem somos,não é algo desejado nem escolhido. E passamos a vida, a despeito disso, ou por isso,crendo que o desejo é nosso deus,e não uma rosa rara que em nós cultivao […]
- [Czeslaw Milosz - Sobre anjos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/08/czeslaw-milosz-sobre-anjos/): Tudo foi tirado de vocês: túnica branca, asas, até mesmo a existência. Contudo, ainda acredito em vocês, mensageiros. Aqui, onde o mundo está virado do avesso, uma trama maciça bordada com astros e bestas, vocês passeiam, inspecionando as suturas confiáveis. Curta é sua estadia neste lugar: às vezes na hora matinal, se o céu está […]
- [Joan Margarit - Ela me disse](https://singularidadepoetica.art/2020/04/07/joan-margarit-ela-me-disse/): Procuremos uma casa para morrer. Por exemplo, aquele apartamento onde começamos a nossa história: arquitetura vulgar dos anos sessenta, mas arejado e com flores. Um bom lugar – e alegre – para nele morrer: Talvez na sala, sempre com música e a luz que chegava do mar. Ou na cozinha, em que recebia as ordens […]
- [W. S. Merwin - A estrada](https://singularidadepoetica.art/2020/04/06/w-s-merwin-a-estrada/): Parece grande demais para que apenas um homemCaminhe sobre ela Como se ela e o dia vazioFossem tudo o que existisse. E um cachorrinhoTrotando no compasso das ondas de calor, pertoDo horizonte, parecendo nunca avançar.O sol e todas as coisasEstão empoçados nos mesmos lugares, e a valaÉ sempre a mesma, repleta de todo tipo deOsso, […]
- [Mary Oliver - Quando a morte chegar](https://singularidadepoetica.art/2020/04/05/mary-oliver-quando-a-morte-vier/): Quando a morte chegarcomo um urso faminto no outono;Quando a morte chegar e tirar todas as moedas brilhantes de sua bolsa para me comprar, e fechá-la com um estalo;quando a morte chegarcomo o sarampo-varíola quando a morte chegarcomo um iceberg entre as omoplatas, quero atravessar o portal cheia de curiosidade, perguntando:como será essa sombria cabana? […]
- [Rainer Maria Rilke - A Morte da Amada](https://singularidadepoetica.art/2020/04/04/rainer-maria-rilker-a-morte-da-amada/): Da morte ele sabia quase nada: que nos toma e nos cala de repente. Como a amada não fora arrebatada, antes se desprendera docemente do seu olhar para a morada escura, e como percebeu que à outra vida como uma lua plena a formosura da visitante fora concedida, dos mortos se tornou tão familiar que […]
- [Robert Graves – Através do pesadelo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/03/robert-graves-atraves-do-pesadelo/): Jamais se desencante daquele Lugar no qual algumas vezes você sonha estar, Deitada muito além de todo sonho, Ou daqueles que você lá encontra, embora raramente se sente na companhia deles. O indomável, o vivo, o gentil. Você não os conhece? Quem? Eles transportam O tempo circular como um sábio-rio ao redor de suas casas […]
- [Alberto Bresciani – Bisões](https://singularidadepoetica.art/2020/04/02/aberto-bresciani-bisoes/): Leia "Bisões", de Alberto Bresciani, um poema sobre pertencimento, deslocamento e a busca humana por direção e sentido.
- [Jane Hirshfield - O emissário](https://singularidadepoetica.art/2020/04/01/jane-hirshfield-o-enviado/): Um dia, naquele quarto, um pequeno rato. Dois dias depois, uma cobra. Que, vendo-me entrar, serpenteou a longa listra de seu corpo para baixo da cama, e depois se enrolou como um dócil animal doméstico. Não sei como veio ou saiu. Mais tarde, a lanterna nada encontrou. Por um ano, eu observei como alguma coisa […]
- [May Swenson - Indagações](https://singularidadepoetica.art/2020/03/31/may-swenson-indagacoes/): Corpo minha casameu cavalo meu cão de caçao que fareiquando você ruir? Onde vou dormirComo vou montarO que vou caçar? Onde posso irsem minha montariarápida e impaciente?Como sabereise na mata à frentehá perigos ou tesourosquando o corpo, meu cãobom e fiel, estiver morto Como serájazer no céusem teto ou portae vento por visão? Com a […]
- [Mary Oliver - A jornada](https://singularidadepoetica.art/2020/03/30/mary-oliver-a-jornada/): Um dia você finalmente soubeo que precisava fazer e começou,embora as vozes à sua voltacontinuassem gritandoseus maus conselhos –embora a casa todacomeçasse a tremere você sentisse o velho apeloem seus tornozelos.“Remende minha vida!”,cada voz clamava.Mas você não parou.Você sabia o que precisava fazer,embora o vento tateassecom seus dedos rijosas próprias fundações,e embora a melancolia delesfosse […]
- [William Stafford - O sonho de agora](https://singularidadepoetica.art/2020/03/29/william-stafford-o-sonho-de-agora/): Quando acorda, da noite e dos outros sonhos, para o sonho de agora, você conduz o dia para fora das trevas como a uma chama. Quando a primavera acontece no norte e as flores desabrocham no solo e até adormecem, você alteia o verão com sua respiração para que ele não se perca jamais tão […]
- [Mary Oliver - Gansos selvagens](https://singularidadepoetica.art/2020/03/28/mary-oliver-gansos-selvagens/): Você não precisa ser bom.Você não precisa atravessar o deserto de joelhos,por cem milhas, em penitência.Você só precisa deixar o suave animal do seu corpoamar o que ele ama.Fale-me sobre o desespero, o seu, e eu lhe direi o meu.Enquanto isso, o mundo continua.Enquanto isso, o sol e os translúcidos seixos da chuvamovem-se por entre […]
- [Juan Vicente Piqueras - A sala vazia](https://singularidadepoetica.art/2020/03/27/juan-vicente-piqueras-a-sala-vazia/): a Carlos Edmundo de Ory Era um de teus jogos favoritos. O que há em uma sala vazia?, perguntavas. Mantínhamo-nos em silêncio. O que há em uma sala vazia? Os que não conheciam o jogo às vezes diziam: nada, e tu dizias: não. Nada é nada, e eu disse o quê. Até que alguém dizia, […]
- [Chico Buarque e Cristovão Bastos - Todo sentimento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/26/chico-buarque-e-cristovao-bastos-todo-sentimento/): [youtube https://www.youtube.com/watch?v=WyZuJ337Y3w&w=560&h=315] Preciso não dormir Até se consumar O tempo Da gente Preciso conduzir Um tempo de te amar Te amando devagar E urgentemente Pretendo descobrir No último momento Um tempo que refaz o que desfez Que recolhe todo o sentimento E bota no corpo uma outra vez Prometo te querer Até o amor cair […]
- [Raquel Lanseros - Oração](https://singularidadepoetica.art/2020/03/25/raquel-lanseros-oracao/): Que não cresça jamais em minhas entranhasessa paz aparente chamada ceticismoFuja eu do amargor, do cinismo, da imparcialidade de ombros encolhidos.Creia eu sempre na vidaCreia eu sempre nas mil infinitas possibilidades.Que me enganem os cantos das sereias,que minha alma guarde sempre um toque de ingenuidade.Que nunca se pareça minha pelecom a de um imóvel e […]
- [Camille Dungy – Para entrar em nossa própria casa vazia](https://singularidadepoetica.art/2020/03/25/camille-dungy-para-entrar-em-nossa-propria-casa-vazia-poema/): Ela estava com sete anos quando paramosde usar chaves. Menos uma coisa para se perder.Agora nós usamos uma senha —simples, mas espero que não tão simples queum estranho possa adivinhar. É aqui queeu deveria parar. Eles se veriam obrigadosa ficar irritados — meus amados.Estou revelando todos os nossos segredosnovamente. Esta vulnerabilidadeé a raiz de muita […]
- [Juan Vicente Piqueras - Visível e Invisível](https://singularidadepoetica.art/2020/03/24/juan-vicente-piqueras-visivel-e-invisivel/): (Para os amigos que ainda estão vivos, mas desapareceram, onde quer que estejam, com um abraço póstumo) As pessoas tendem a desaparecer. Um dia te fazem rir e no seguinte já não estão. Um dia te ligavam todos os diaspara saber como estavas,e agora já nem te lembras de suas vozes. Um dia disseram sempree sempre acabou […]
- [Fernando Assis Pacheco - Tentas, de longe](https://singularidadepoetica.art/2020/03/23/fernando-assis-pacheco-tentas-de-longe/): Tentas, de longe, dizer que estás aqui. Com peso triste caminha na rua o Outono. O meu coração debruça-se à janela a ver pessoas e carros, e as folhas caindo. Mastigo esta solidão como quando era pequeno e jantava diante dos pais zangados: devagar, ausente.
- [Sharon Olds - Uma semana depois](https://singularidadepoetica.art/2020/03/22/sharon-olds-uma-semana-depois/): Uma semana depois, eu disse a um amigo: acho quenunca poderia escrever sobre isso.Talvez daqui a um ano eu consiga escrever alguma coisa.Há algo em mim que talvez algumdia possa ser escrito; por ora está dobrado, e redobrado,como um bilhete da escola. E em meu sonhoalguém jogava jacks, e no ar havia umjack arremessado, enorme, […]
- [William Stafford - Uma cópia de arquivo](https://singularidadepoetica.art/2020/03/21/william-stafford-uma-copia-de-arquivo/): Deus tira seu retrato: não desvie o olhar –agora, neste quarto, seu rosto inclinadoexatamente como é, antes de você pensarou controla-lo. Vá em frente, deixe-se trair portodas as urgências secretas e ainda mantenhaaquele disfarce parcial que você chama de caráter. Mesmo o seu lábio, dizem, o modo como ele arqueiaou não, ou hesita, entregarávolumes de […]
- [Dylan Thomas - Poema de outubro](https://singularidadepoetica.art/2020/03/20/dylan-thomas-poema-de-outubro/): Era o meu trigésimo ano rumo ao céu Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto e do bosque ao lado, E da praia empoçada de mexilhões E sacralizada pelas garças O aceno da manhã Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas E o chocar-se dos barcos contra o muro […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A flor e a náusea](https://singularidadepoetica.art/2020/03/19/carlos-drummond-de-andrade-a-flor-e-a-nausea/): Preso à minha classe e a algumas roupas, Vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o […]
- [Czeslaw Milosz - Onde quer que esteja](https://singularidadepoetica.art/2020/03/18/czeslaw-milosz-onde-quer-que-esteja/): Onde quer que esteja, em qualquer lugar na Terra, escondo dos outros a certeza de que n ã o s o u d a q u i. Como se tivesse sido enviado para absorver o máximo das cores, sons, cheiros, sabores, provar de tudo o que é reservado ao Homem, converter o vivido num registo […]
- [Nicanor Parra - Último brinde](https://singularidadepoetica.art/2020/03/17/nicanos-parra-ultimo-brinde/): Querendo ou não,só temos três alternativas:o ontem, o presente e o amanhã. E nem sequer três,pois, como diz o filósofo,ontem é ontem,é nosso apenas na memória:à rosa que já se desbastounão se pode arrancar outra pétala. As cartas por jogarsão apenas duas:o presente e o dia de amanhã. E nem sequer duas,porque é um fato […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Ishmar](https://singularidadepoetica.art/2020/03/16/jorge-valdes-diaz-velez-ishmar/): para Martha Iga A maneira de pentear-te nua diante do espelho úmido do banheiro, de prender na palma teus cabelos para fazer correr a água e de agachar-te no meio de palavras que não entendo; o ato de secar tua pele, a forma de sentir com os dedos uma ruga que ontem não estava, ou […]
- [Lisel Mueller - Quando me perguntam](https://singularidadepoetica.art/2020/03/15/lisel-mueller-quando-me-perguntam/): Quando me perguntamcomo comecei a escrever poesia,eu falo da indiferença da natureza. Foi logo depois que minha mãe faleceu,um dia radiante de junhoem que tudo florescia. Sentei-me em um banco de pedra acinzentadoem um jardim carinhosamente cultivado,mas os lírios eram tão surdosquanto os bêbados adormecidose as rosas curvadas para dentro.Nada estava enlutado ou quebrado,nem uma […]
- [Lawrence Ferlinghetti - Allen Ginsberg morrendo](https://singularidadepoetica.art/2020/03/14/lawrence-ferlinghetti-allen-ginsberg-morrendo/): Allen Ginsberg está morrendoEstá em todos os jornaisEstá no noticiário noturnoUm grande poeta está morrendoMas sua voznão vai morrerSua voz está na terraNo Baixo Manhattanna sua camaele está morrendoNão há nadaa fazer sobre issoEle está morrendo a morte que todos enfrentamEle está morrendo a morte do poetaEle tem um telefone em sua mãoe liga para […]
- [Billy Collins - Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/13/billy-collins-esquecimento/): O nome do autor é o primeiro a desaparecerseguido obedientemente pelo título, a trama,a conclusão comovente, o romance inteiroque subitamente se torna algo que você nunca leu,nunca sequer ouviu falar, como se, uma a uma, as memórias que você costumava abrigardecidissem se aposentar no hemisfério sul do cérebro,em uma pequena aldeia de pescadores onde não […]
- [Alberto Pucheu - A luta antes da luta](https://singularidadepoetica.art/2020/03/12/alberto-pucheu-a-luta-antes-da-luta/): Você sabe, de nada adianta rezar no canto do ringue. Aquele que nele sobe, sobe sozinho. As bravatas lançadas na hora da pesagem e o peso da multidão colado em sua carne, você sabe, lá em cima, só aumentarão seu abandono. Você sabe também o preço que terá de pagar se deixar que qualquer vagabundo […]
- [Bertrand Russell - de "No que acredito"](https://singularidadepoetica.art/2020/03/11/bertrand-russell-de-no-que-acredito/): “Acredito que ao morrer apodrecerei e nada do meu eu sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenho tremer de terror à ideia do aniquilamento. A felicidade não se torna menos verdadeira por ter que chegar ao fim, e o pensamento e o amor não perdem o seu valor por não durarem para […]
- [Ernesto Cardenal - de "Epigramas"](https://singularidadepoetica.art/2020/03/10/ernesto-cardenal-de-epigramas/): de "Epigramas", Um poema de Ernesto Cardenal
- [Carlos Drummond de Andrade - A bruxa](https://singularidadepoetica.art/2020/03/09/carlos-drummond-de-andrade-a-bruxa/): Nesta cidade do Rio,de dois milhões de habitantes,estou sozinho no quarto,estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho?Ainda há pouco um ruídoanunciou vida ao meu lado.Certo não é vida humana,mas é vida. E sinto a bruxapresa na zona de luz. De dois milhões de habitantes!E nem precisava tanto…Precisava de um amigo,desses calados, distantes,que leem verso de […]
- [Joan Margarit - No museu](https://singularidadepoetica.art/2020/03/08/joan-margarit-no-museu/): Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro.Com um gesto solene, comprime o punhoe tenta explicar a força queacredita ver na pintura.Esta velha obsessão de transmitiraos pequenos nossos pobres recursos.Atento, o menino observa com temor.Talvez pressinta a solidão que se ocultanos gestos, na retórica da arte.Temos sempre a verdade diante de nós,mas, assim como […]
- [Michael Krüger - Discurso do homem lento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/07/michael-kruger-discurso-do-homem-lento/): A história acelera,logo nos alcança,precedendo-nos com passos ligeiros.Vemos então por trása Era Glacial, Grécia,Roma, a Revolução francesa,a nuca de Stalin, as luzes traseirasdo carro de Hitler.Estranho que não se cansenem esmoreça.Às vezes se virae nos mostra sua caracom a boca escancaradae os dentes podres. Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução para o italiano feita […]
- [Louise Glück - Under Taurus](https://singularidadepoetica.art/2020/03/06/louise-gluck-under-taurus/): Estávamos no píer, e você desejavaque eu visse as Plêiades. Eu podia vertudo, menos o que você desejava. Agora o seguirei. Não há uma única nuvem; as estrelasaparecem, até mesmo a irmã invisível. Mostre-me onde olhar,como se elas fossem ficar onde estão. Instrua-me na escuridão. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. […]
- [Dan Fante - [Agora que eu já escrevi]](https://singularidadepoetica.art/2020/03/05/dan-fante-agora-que-eu-ja-escrevi/): Agora que eu já escrevi dez anos de livros e peças e abandonei álcool e cigarros e a gloriosa pornografia suja e minhas roupas não fedem por passar a noite dormindo no velho Pontiac e meu cabelo está caindo e estou dez quilos mais gordo Aos meus cinquenta anos com ligações a retornar e responsabilidades […]
- [Roberto Juarroz - Assim como não podemos](https://singularidadepoetica.art/2020/03/04/roberto-juarroz-assim-como-nao-podemos/): Assim como não podemos sustentar por muito tempo um olhar, também não podemos sustentar por muito tempo a alegria, a espiral do amor, a gratuidade do pensamento, a terra em suspensão do cântico. Não podemos sequer sustentar por muito tempo as proporções do silêncio quando algo o visita. E menos ainda quando nada o visita. […]
- [T. S. Eliot - A Terra Desolada](https://singularidadepoetica.art/2020/03/03/t-s-eliot-a-terra-desolada/): A TERRA DESOLADA 1922 Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse oculis meis vidi in ampulla pendere, et cum illi pueri dicerent: Σίβνλλα τί ϴέλεις; respondebat illa: άπο ϴανεΐν ϴέλω.* A Ezra Paound Il miglior fabbro I. O ENTERRO DOS MORTOS Abril é o mais cruel dos meses, germinando Lilases da terra morta, misturando Memória e […]
- [Konstantinos Kaváfis - À Espera dos Bárbaros](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-a-espera-dos-barbaros/): O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado? Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje. Que leis hão de fazer os senadores? Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se ergueu tão cedo e de coroa solene se […]
- [Franz Kafka - Pequena Fábula](https://singularidadepoetica.art/2016/03/31/franz-kafka-pequena-fabula/)
- [Konstantinos Kaváfis - O Prazo de Nero](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/konstantinos-kavafis-o-prazo-de-nero/): Não ficou perturbado Nero quando ouviu do Oráculo de Delfos o prenúncio: “Teme ao ano septuagésimo terceiro.” Tinha tempo bastante a desfrutar. Só contava trinta anos. Muito dilatado era o prazo que o Deus lhe concedia para cuidar-se dos riscos do futuro. Agora vai voltar a Roma um tanto fatigado da magnífica fadiga que se […]
- [Ana Martins Marques - Há estes dias em que pressentimos na casa...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/ana-martins-marques-ha-estes-dias-em-que-pressentimos-na-casa/): Há estes dias em que pressentimos na casa a ruína da casa e no corpo a morte do corpo e no amor o fim do amor estes dias em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde não são coisas que se expliquem apenas são dias […]
- [Marco Aurélio - Reflexões, 14](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/marco-aurelio-reflexoes-14/): Ainda que os anos de tua vida sejam três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida senão a que vive agora, nem vive outra senão a que perde. O prazo mais longo e o mais breve são, portanto, iguais. O presente é de todos; morrer é perder o presente, […]
- [Decio Pignatari - Femme](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/decio-pignatari-femme/)
- [Manuel Bandeira - Soneto Inglês n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/manuel-bandeira-soneto-ingles-n-2/): Aceitar o castigo imerecido, Não por fraqueza, mas por altivez. No tormento mais fundo o teu gemido Trocar um grito de ódio a quem o fez. As delicias da carne e pensamento Com que o instinto da espécie nos engana Sobpor ao gênero sentimento De uma afeição mais simplesmente humana. Não tremer de esperança nem […]
- [Moshé Ibn Ezra - São Túmulos de Tempos Antigos, Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos-antigos-velhos/): São túmulos de tempos antigos, velhos. Neles há gente que dorme um sono eterno. Nem ódio, nem inveja há no seu interior, nem amor, nem zangas de vizinhos. Os meus pensamentos não podem, quando os veem, distinguir entre servos e senhores. Versão de Francisco José Viegas, tradução do hebraico de Maria José Cano. Peguei aqui:http://antoniocicero.blogspot.com.br/2015/08/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos.html
- [Erthos Albino de Souza - Sea Nau](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/erthos-albino-de-souza-sea-nau/)
- [Ferreira Gullar - Nova Concepção da Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-nova-concepcao-da-morte/): Como ia morrer, foi-lhe dado o aviso na carne, como sempre ocorre aos seres vivos; um aviso, um sinal, que não lhe veio de fora, mas do fundo do corpo, onde a morte mora, ou, dizendo melhor, onde ela circula como a eletricidade ou o medo, na medula dos ossos e em cada enzima, que […]
- [Ferreira Gullar - Filhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-filhos/): A meu filho Marcos Daqui escutei quando eles chegaram rindo e correndo entraram na sala e logo invadiram também o escritório (onde eu trabalhava) num alvoroço e rindo e correndo se foram com sua alegria se foram Só então me perguntei por que não lhes dera maior atenção se há tantos e tantos anos não […]
- [Ferreira Gullar - Teu Corpo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-teu-corpo/): O teu corpo muda independente de ti. Não te pergunta se deve engordar. É um ser estranho que tem teu rosto ri em teu riso e goza com teu sexo. Lhe dás de comer e ele fica quieto. Penteias-lhe os cabelos como se fossem teus. Num relance, achas que apenas estás nesse corpo. Mas como, […]
- [Ferreira Gullar - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-despedida/): Eu deixarei o mundo com fúria. Não importa o que aparentemente aconteça, se docemente me retiro. De fato, nesse momento estarão de mim se arrebentando raízes tão fundas quanto estes céus brasileiros. Num alarido de gente e ventania olhos que amei rostos amigos tardes e verões vividos estarão gritando a meus ouvidos para que eu […]
- [Ferreira Gullar - Praia do Caju](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-praia-do-caju/): Escuta: o que passou passou e não há força capaz de mudar isto. Nesta tarde de férias, disponível, podes, se quiseres, relembrar. Mas nada acenderá de novo o lume que na carne das horas se perdeu. Ah, se perdeu! Nas águas da piscina se perdeu sob as folhas da tarde nas vozes conversando na varanda […]
- [Ferreira Gullar - O Que Se Foi](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-o-que-se-foi/): O que se foi se foi. Se algo ainda perdura é só a amarga marca na paisagem escura. Se o que foi regressa, traz um erro fatal: falta-lhe simplesmente ser real. Portanto, o que se foi, se volta, é feito morte. Então por que me faz o coração bater tão forte?
- [Arnaldo Antunes - Só o Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-so-o-sol/)
- [Arnaldo Antunes - Casulo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-casulo/)
- [Arnaldo Antunes - Acaba Acontecendo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-acaba-acontecendo/): o que você mais teme acaba acontecendo o que você mais quer acaba acontecendo o que ninguém espera acaba acontecendo o que ninguém consegue mais conter acaba de acontecer
- [O Segredo dos seus Olhos - Mil Passados](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/o-segredo-dos-seus-olhos-mil-passados/): “Não pense mais nisso! Não pense mais. O que importa? Não fique mais imaginando, não fique pensando no que aconteceu, no que não aconteceu. No que poderia ter acontecido. Senão você terá mil passados e nenhum futuro…” Ricardo Morales para Benjamin Espósito, em “O Segredo dos Seus Olhos”
- [Alfred Tennyson - Ulysses](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/alfred-tennyson-ulysses/): De nada serve a um rei ficar inerte, No lar quieto, em meio à rocha infértil, Unido a esposa idosa, eu doo e imponho Iníquas leis a um bando de selvagens Que soma, e dorme, e engorda, e não me vê. Estou inquieto: Sorverei da vida A última gota: Sempre gozei muito, Sofri muito, com […]
- [Bei Dao - Resposta](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/bei-dao-resposta/): A degradação é o passaporte do vilão, A nobreza é epitáfio do nobre. Olhe: como o céu dourado é inundado do reflexo das sombras torcidas dos mortos. Passada a época do gelo, Por que ainda há gelo em toda a parte? Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança, por que mil velas ainda competem […]
- [Antonio Cicero - Valeu](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/antonio-cicero-valeu/)
- [Óssip Mandelstam - Pedra (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/osip-mandelstam-pedra-excerto/): Não posso tocar, no escuro,Teu vulto vago e sombrio.“Senhor!”, por erro, murmuro,Alheio ao que balbucio. De mim, tal uma ave enorme,O nome de Deus se evola.À frente, um abismo informe,Atrás, vazia, a gaiola. Trad.: Augusto de Campos
- [Jorge Luis Borges - Everness](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-everness/): Só uma coisa há. É o esquecimento. Deus, que salva o metal, salva a escória E cifra na sua profética memória as luas que serão e que hão sido. Já tudo está. Os mil reflexos, Que entre os dois crepúsculos do dia Teu rosto foi deixando nos espelhos e os que irá deixando ainda. E […]
- [Jorge Luis Borges - Cosmogonia](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-cosmogonia/): Nem treva nem caos. A treva Requer olhos que vêem, como o som. E o silêncio requer o ouvido, O espelho, a forma que o povoa. Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer Uma divindade que premedita O silêncio anterior à primeira Noite do tempo, que será infinita. O grande rio de Heráclito o […]
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antonio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre/): —Nos —fios —ten sos —da —pauta —de me- tal —as — an/ do/ ri/ nhas —gri- tam —por —fal/ ta/ —de u- ma —cl’a- ve —de —sol
- [Doroty Parker - Em Suma](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/doroty-parker-em-suma/): Trad.: Nelson Ascher
- [Algernon Charles Swinburne - Uma Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/algernon-charles-swinburne-uma-despedida-poema/): Leia "Uma Despedida", de Algernon Charles Swinburne, um poema lírico sobre amor não correspondido, despedida e a beleza melancólica da renúncia.
- [William Butler Yeats - Quando Estiveres Grisalha e com Sono...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-quando-estiveres-grisalha-e-com-sono-poema/): Quando estiveres grisalha e com sono, Dormitando ante o fogo, lê meu livro Bem lentamente e lembra o sensitivo Olhar que tinhas de suave abandono. Muitos amaram tuas alegrias, Tua beleza; mas só num culmina O amor por tua alma peregrina E a mágoa que teu rosto pressentia. Reclina-te ante as chamas; e ao vê-las […]
- [William Butler Yeats - A Segunda Vinda](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-a-segunda-vinda/): Girando em círculos sempre maiores Já não ouve o falcão ao falcoeiro; Tudo desaba; o próprio centro hesita; Livre, a anarquia reina sobre o mundo, Livre a maré sanguinolenta: em tudo Se afogam os rituais da inocência; Os melhores vacilam e os piores À intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia, […]
- [Cassiano Ricardo - Dedicatória](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-dedicatoria/): I Ao claro tempo, ao tempo das metamorfoses, não havia horizonte na alegria do ser e do acontecer. Havia a graça aérea com que as coisas brincavam de ser e de não ser, no jardim da matéria. Hoje uma coisa passa a ser outra coisa; nascem anjos sem asa dentro do dicionário; um monstro, um […]
- [Cassiano Ricardo - O Hipopótamo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-o-hipopotamo/): Não adianta o rio lhe ofertar um espelho, se ele não sabe de quem é a imagem que o espelho reflete. Se ele pensa que a sua imagem n’água é a de um outro hipopótamo. A paisagem por volta tem algo de bíblico pois é a água da criação, ainda viva, como no primeiro dia. […]
- [Cassiano Ricardo - O Cacto](https://singularidadepoetica.art/2016/03/25/cassiano-ricardo-o-cacto/): This is cactus land. Here the stone images are raised… T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cacto na areia da nossa tristeza. Uma folha sobre outra, em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros, um braço a nascer de outro braço, uma folha sobre outra, formaremos um grande cacto. De cada braço, […]
- [Paul Auster - A Invenção da Solidão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/paul-auster-a-invencao-da-solidao-excerto/)
- [Arnaldo Antunes - Cultura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-cultura/)
- [Arnaldo Antunes - A Casa é Sua](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-a-casa-e-sua/): Não me falta cadeira Não me falta sofá Só falta você sentada na sala Só falta você estar Não me falta parede E nela uma porta pra você entrar Não me falta tapete Só falta o seu pé descalço pra pisar Não me falta cama Só falta você deitar Não me falta o sol da […]
- [Robert Frost - A Estrada não Trilhada](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/robert-frost-a-estrada-nao-trilhada/): Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se, mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria. Assim, por longo tempo eu ali me detive, e um deles observei até um longe declive no qual, dobrando, desaparecia… Porém tomei o outro, igualmente viável, e tendo mesmo um atrativo especial, pois mais ramos possuía e talvez […]
- [Gavin Aung Than e Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/gavin-aung-than-ozymandias/)
- [Carlos Drummond de Andrade - Declaração em Juízo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-declaracao-em-juizo/): Peço desculpas de ser o sobrevivente. Não por longo tempo, é claro. Tranqüilizem-se. Mas devo confessar, reconhecer que sou sobrevivente. Se é triste/cômico ficar sentado na platéia quando o espetáculo acabou e fecha-se o teatro, mais triste/grotesco é permanecer no palco, ator único, sem papel, quando o público já virou as costas e somente baratas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte no Avião](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-morte-no-aviao/): Acordo para a morte.Barbeio-me, visto-me, calço-me.É meu último dia: um diacortado de nenhum pressentimento.Tudo funciona como sempre.Saio para a rua. Vou morrer. Não morrerei agora. Um diainteiro se desata à minha frente.Um dia como é longo. Quantos passosna rua, que atravesso. E quantas coisasno tempo, acumuladas. Sem reparar,sigo meu caminho. Muitas facescomprimem-se no caderno de […]
- [Violeta de Outono - Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/03/20/violeta-de-outono-outono/): No percurso rumo ao prédio oculto Desolado o sol se põe a oeste Lua em gancho, triste, sons do vento Parte o coração o frio do outono Canto do extremo do mundo Espero em silêncio profundo No jardim noturno o esquecimento Velha árvore espera o julgamento Nada explicará meu sentimento Está em meu coração […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Uma Hora e mais Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-uma-hora-e-mais-outra/): Há uma hora triste que tu não conheces. Não é a da tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança; não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol antecipando outro mais gelado pano; e também não é a do nascer do sol enquanto enfastiado assistes […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Coisa Miserável](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-coisa-miseravel/): Coisa miserável, suspiro de angústia enchendo o espaço, vontade de chorar, coisa miserável, miserável. Senhor, piedade de mim, olhos misericordiosos pousando nos meus, braços divinos cingindo meu peito, coisa miserável no pó sem consolo, consolai-me. Mas de nada vele gemer ou chorar, de nada vale erguer as mãos e olhos para um céu tão longe, […]
- [Chico Buarque e Francis Hime - Amor Barato](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-e-francis-hime-amor-barato/): Eu queria serUm tipo de compositorCapaz de cantar nosso amorModesto Um tipo de amorQue é de mendigar cafunéQue é pobre e às vezes nem éHonesto Pechincha de amorMas que eu faço tanta questãoQue se tiver precisãoEu furto Vem cá, meu amorAguenta o teu cantadorMe esquenta porque o cobertor é curto Mas levo esse amorCom […]
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-pedaco-de-mim/): Oh, pedaço de mim Oh, metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior do que o esquecimento É pior do que se entrevar Oh, pedaço de mim Oh, metade exilada de mim Leva os teus sinais Que a saudade dói como um barco Que aos poucos […]
- [Haroldo Barbosa e Luis Reis - Notícia de Jornal](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/haroldo-barbosa-e-luis-reis-noticia-de-jornal1/): “Tentou contra a existência Num humilde barracão Joana de Tal, por causa de um tal João. Depois de medicada, Retirou-se pro seu lar.” Aí a notícia carece de exatidão. O lar não mais existe. Ninguém volta ao que acabou. Joana é mais uma mulata triste que errou. Errou na dose, errou no amor, Joana errou […]
- [Caetano Veloso - Como Dois e Dois](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/caetano-veloso-como-dois-e-dois/): Quando você me ouvir cantar Venha, não creia, eu não corro perigo Digo, não digo, não ligo, deixo no ar Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar… Tudo vai mal, tudo Tudo é igual quando eu canto e sou mudo Mas eu não minto, não minto, estou longe e perto Sinto alegrias, tristezas e […]
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura-2/)
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura/): Sei de uma criatura antiga e formidável, que a si mesma devora os membros e as entranhas, com a sofreguidão da fome insaciável. Habita juntamente os vales e as montanhas; e no mar, que se rasga, à maneira de abismo, espreguiça-se toda em convulsões estranhas. Traz impresso na fronte o obscuro despotismo. cada olhar que […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/caetano-veloso-o-homem-velho/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero - Inverno](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/adriana-calcanhotto-inverno/): No dia em que fui mais feliz Eu vi um avião Se espelhar no seu olhar até sumir De lá pra cá não sei Caminho ao longo do canal Faço longas cartas pra ninguém E o inverno no Leblon é quase glacial Há algo que jamais se esclareceu: Onde foi exatamente que larguei Naquele […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Versos à Boca da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/03/11/carlos-drummond-de-andrade-versos-a-boca-da-noite/): Sinto que o tempo sobre mim abatesua mão pesada. Rugas, dentes, calva.Uma aceitação maior de tudo,e o medo de novas descobertas. Escreverei sonetos de madureza?Darei aos outros a ilusão de calma?Serei sempre louco? Sempre mentiroso?Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? Há muito suspeitei o velho em mim.Ainda criança, já me atormentava.Hoje estou só. Nenhum menino […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Que País é Este?](https://singularidadepoetica.art/2016/03/10/affonso-romano-de-santanna-que-pais-e-este/): Que País é Este?, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, realiza uma vasta investigação poética sobre a formação histórica, cultural e política do Brasil.
- [Giacomo Leopardi - Opúsculos Morais (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-opusculos-morais-excerto/): “Cada parte do universo apressa-se, infatigavelmente, para a morte com solicitude e celeridade admiráveis. Apenas o próprio planeta parece imune à decadência e ao declínio. Contudo, se no outono e no inverno mostra-se quase enfermo e velho, não menos, na nova estação, rejuvenesce sempre. Mas como os mortais no primeiro momento de cada dia readquirem […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito-2-poema/): Sempre me foi cara esta colina erma E esta sebe, que de muitos lados Exclui a visão do último horizonte. Mas sentado, contemplando, infindáveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e a mais profunda calma Eu no pensar imagino; e por pouco Não se amedronta o coração. E o Vento Ouvindo sussurrar entre essas plantas, […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito/): Sempre cara me foi esta colina Erma, e esta sebe, que de tanta parte Do último horizonte, o olhar exclui. Mas sentado a mirar, intermináveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e uma calma profundíssima Eu crio em pensamentos, onde por pouco Não treme o coração. E como o vento Ouço fremir entre essas folhas, […]
- [Adriana Calcanhotto - Estrelas](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-estrelas/): estrelas para mim para mim estrelas são para mim estrelas para mim estrelas estrelas para quê? para quê? para quê? estrelas para mim só para mim. para mim para mim para mim e a treva entre as estrelas só para mim.
- [Adriana Calcanhotto - Jovens e Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-jovens-e-velhos/): Antes de mim vieram os velhos Os jovens vieram depois de mim E estamos todos aqui No meio do caminho dessa vida Vinda antes de nós E estamos todos a sós No meio do caminho dessa vida E estamos todos no meio Quem chegou e quem faz tempo que veio Ninguém no início ou no […]
- [Giuseppe Ungaretti - Daquela Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/giuseppe-ungaretti-daquela-estrela-a-outra/): Trad.: Haroldo de Campos
- [Arnaldo Antunes - O Que](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/arnaldo-antunes-o-que/)
- [Manuel Bandeira - O Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/manuel-bandeira-o-rio/): Ser como o rio que deflui Silencioso dentro da noite. Não temer as trevas da noite. Se há estrelas nos céus, refleti-las. E se os céus se pejam de nuvens, Como o rio as nuvens são água, Refleti-las também sem mágoa Nas profundidades tranquilas.
- [Andrew Marvell - To His Coy Mistress, em 5 traduções](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/andrew-marvell-to-his-coy-mistress-em-5-traducoes/): PARA SUA DAMA RECATADA. trad. Matheus “Mavericco”. Houvesse tempo e espaço e então de fato Não seria um delito este recato. Sentados, nós iríamos pensar Em só pensar no outro, e assim passar. Você, do lado indígena do Ganges, Achando rubis, e eu, pois me confrange A dor, junto ao Humber. Décadas antes Do Dilúvio […]
- [W. H. Auden - Ao Descer a Rua Bristol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/w-h-auden-ao-descer-a-rua-bristol/): Ao descer a rua Bristol uma tarde, eu vi os demais que eram como, antes da ceifa, os já maduros trigais. E ouvi junto ao rio, debaixo da ponte da ferrovia, um namorado cantando como ele sempre amaria: “Vou te amar, meu bem, até que a África se junte à China, que o rio salte […]
- [Jorge Luis Borges - Aqui. Hoje.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-aqui-hoje/): Já somos o esquecimento que seremos. A poeira elementar que nos ignora e que foi o ruivo Adão e que é agora todos os homens e que não veremos. Já somos na tumba as duas datas do princípio e do término, o esquife, a obscena corrupção e a mortalha, os ritos da morte e as […]
- [Jorge Luis Borges - São os Rios](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-sao-os-rios/): Somos o tempo. Somos a famosa parábola de Heráclito o Obscuro. Somos a água, não o diamante duro, a que se perde, não a que repousa. Somos o rio e somos aquele grego que se olha no rio. Seu semblante muda na água do espelho mutante, no cristal que muda como o fogo. Somos o […]
- [Jorge Luis Borges - As Coisas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-as-coisas/): A bengala, as moedas, o chaveiro, a fechadura dócil, as tardias notas que não lerão os poucos dias que me restam, o naipe, o tabuleiro, um livro e dentro dele a emurchecida violeta, monumento de uma tarde por certo inesquecível já esquecida, o rubro espelho ocidental em que arde uma aurora ilusória. Quantas coisas, atlas, […]
- [W. H. Auden - Musée des Beaux-Arts](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/w-h-auden-musee-des-beaux-arts/): Sobre o sofrimento jamais se enganaram os velhos Mestres: eles bem compreenderam a condição humana, viram como certas coisas acontecem enquanto alguém por aí está comendo ou abrindo a janela ou apenas caminhando sem pressa. Sabem que, enquanto os mais velhos es- tão, reverentemente, apaixo- nadamente, à espera do “birth” […]
- [Samuraitiger19 - Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/samuraitiger19-nos-minutos-finais-de-sua-vida-calvin-teve-uma-ultima-conversa-com-haroldo/): “Calvin? Calvin, querido?” No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Corrente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-a-corrente/): Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos, amarelos, e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.
- [Mário Quintana - Os Degraus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mario-quintana-os-degraus/): Não desças os degraus do sonho Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos – onde Os deuses, por trás das suas máscaras, Ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo…
- [Bertolt Brecht - Lista de Preferências](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/bertolt-brecht-lista-de-preferencias/): Alegrias, as desmedidas. Dores, as não curtidas. Casos, os inconcebíveis. Conselhos, os inexequíveis. Meninas, as veras. Mulheres, insinceras. Orgasmos, os múltiplos. Ódios, os mútuos. Domicílios, os passageiros. Adeuses, os bem ligeiros. Artes, as não rentáveis. Professores, os enterráveis. Prazeres, os transparentes. Projetos, os contingentes. Inimigos, os delicados. Amigos, os estouvados. Cores, o rubro. Meses, outubro. […]
- [John Keats - Ode sobre uma Urna Grega](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/john-keats-ode-sobre-uma-urna-grega/): I Inviolada noiva de quietude e paz, Filha do tempo lento e da muda harmonia, Silvestre historiadora que em silêncio dás Uma lição floral mais doce que a poesia: Que lenda flor-franjada envolve tua imagem De homens ou divindades, para sempre errantes. Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo? Que deuses ou mortais? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tarde de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-tarde-de-maio/): Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio, quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra, outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora, surdamente lavrava sob meus traços cômicos, e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes e condenadas, no […]
- [Rogério Nascente - Às Vezes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/rogerio-nascente-as-vezes/)
- [Múcio Góes - A Dor Meço](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mucio-goes-a-dor-meco/)
- [Arthur Schopenhauer - Fisicamente, o andar...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/926-2/)
- [Arthur Schopenhauer - Bolhas de Sabão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-bolhas-de-sabao-excerto/): O homem só vive no presente, que se converte no passado, e afunda-se na morte. Exceto as consequências que podem influir no presente, e que são filhas de sua vontade, ou de seus atos, a sua vida passada já não existe. Devia portanto ser-lhe indiferente que esse passado fosse de prazeres ou tristezas. O presente […]
- [Jorge Luis Borges - Outras Inquisições (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jorge-luis-borges-outras-inquisicoes-excerto/): Negar a sucessão temporal, negar o Eu, negar o universo astronômico, são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino não é assustador por ser irreal; é assustador porque é irreversível e ferrenho. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é […]
- [José Paulo Paes - Auto-Epitáfio n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2/)
- [Jules Laforgue - Mediocridade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jules-laforgue-mediocridade/): No infinito coberto de eternas belezas, Como átomo perdido, incerto, solitário, Um planeta chamado Terra, dias contados, Voa com os seus vermes sobre as profundezas. Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho, Marchando, indiferentes ao grande mistério, E quando um dos seus é enterrado, já sérios, Saúdam-no. Do torpor não são arrancados. Viver, morrer, […]
- [Richard Dawkins - Todos Vamos Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/richard-dawkins-todos-vamos-morrer/): Arte: Gavin Aung – 2012
- [William Shakespeare - do Macbeth (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/william-shakespeare-do-macbeth-excerto/): Amanhã amanhã amanhã amanhã Rasteja em passo parco dia a dia Até a última sílaba do Tempo. E os ontens, todos, só nos alumiam O fim no pó. Apaga, apaga, vela Breve! A vida é só uma sombra movel. Pobre ator Que freme e treme o seu papel no palco E logo sai de cena. […]
- [Edgar Allan Poe - Berenice](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/edgar-allan-poe-berenice/): A DESGRAÇA É VARIADA. O infortúnio da terra é multiforme. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris! Como de um exemplo de beleza, derivei eu uma imagem de desencanto? Da aliança da paz, uma […]
- [Arthur Schopenhauer - A Vida é Dor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-a-vida-e-dor/): Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor. Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre. A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos. A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em […]
- [Décio Pignatari - Cri$to](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/decio-pignatari-crito/)
- [D. H. Lawrence - Bons Maridos Fazem Mulheres Infelizes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/d-h-lawrence-bons-maridos-fazem-mulheres-infelizes/): Bons maridos fazem mulheres infelizes e maus maridos também fazem; mas a infelicidade de uma mulher de marido bom é muito mais arrasadora que a infelicidade de uma mulher de marido ruim. Trad.: Jorge Wanderley
- [Arnaldo Antunes - Sol To](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-sol-to/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Isabel Allende - Ruído](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/isabel-allende-ruido/): A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte.
- [António Lobo Antunes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/antonio-lobo-antunes/): Com os anos a morte vai-se tornando familiar. Quero dizer não a ideia da morte, não o medo da morte: a realidade dela. As pessoas de quem gostamos e partiram amputam-nos cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por dentro. Parece que sobrevivemos não aos outros mas a nós mesmos, […]
- [Anatol Knotek - Bye](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/anatol-knotek-bye/)
- [Arnaldo Antunes - A Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-a-eternidade/)
- [Arnaldo Antunes - faltaratéfartar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-faltaratefartar/)
- [Arnaldo Antunes - Pensa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-pensa/)
- [Arnaldo Antunes - Aquilo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-aquilo/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume-2/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume/): Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia Só vigia um ponto negro: o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Quem nem alegre, nem triste, nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski-2/): Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakósvki. Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem. Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski/)
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/ferreira-gullar-os-mortos/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Jorge de Sena - Conheço o Sal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/jorge-de-sena-conheco-o-sal-poema/): Conheço o sal, um poema de Jorge de Sena
- [Ian Hamilton - Os quarenta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/12/ian-hamilton-os-quarenta/): “O eu que sobreviveu àqueles anos desprezíveis”,Sua “virtude austera” incrivelmente preservada. Pois bem,Terá se perguntado, isto éO “é isso”?; esta Vida resumidaQue nunca pensei encontrarE nunca procurei: que começa no meioDe tal modo que no fimO dano perdura mais do que a reparação? Aos quarenta e cincoAgora sou o patriarca da casa e ao entardecerVocê […]
- [Eugénio de Andrade - Sou fiel ao ardor...](https://singularidadepoetica.art/2019/08/11/eugenio-de-andrade-sou-fiel-ao-ardor/): Sou fiel ao ardor, amo esta espécie de verão que de longe me vem morrer às mãos, e juro que ao fazer da palavra morada do silêncio não há outra razão.
- [Joan Margarit - Vida Social](https://singularidadepoetica.art/2019/08/10/joan-margarit-vida-social/): Idealizavas esta solidãopara ouvir música ou ler,e caminhar no inverno junto ao mar.Mas a solidão é uma chuvaque suja as janelas deste trem dos anos.A solidão é a palavra crueldo acre ressentimento familiar.É a lei do acaso, um labirinto injusto.É não ter dinheiro, é ter medo.É o sexo, uma estranha pista falsaque conduz ao mais […]
- [Manuel António Pina - A avó](https://singularidadepoetica.art/2019/08/09/manuel-antonio-pina-a-avo/): Tinha ao colo o gato velho cansadamente passando a sua branca mão pelo pelo dele preto e brando Sentada ao pé da janela olhando a rua ou sonhando-a todo o passado passando a passos lentos por ela Dormiam ambos enquanto a tarde se ia acabando o gato dormindo por fora a avó dormindo por dentro
- [Gregory Corso - Tenho 25](https://singularidadepoetica.art/2019/08/08/gregory-corso-tenho-25/): Com um amor louco por Shelley Chatterton Rimbaud e o ganido carente de minha juventude passou de orelha a orelha: EU ODEIO OS VELHOS POETAS! Especialmente velhos poetas que se retratam que consultam outros velhos poetas que falam de suas juventudes em sussurros, dizendo: – Eu fiz mas isso é passado isso é passado […]
- [Armando Silva Carvalho - Struggle for life](https://singularidadepoetica.art/2019/08/07/armando-silva-carvalho-struggle-for-life/): Cheguei há muito à idade filosófica, Secaram-me os sonetos na tão nervosa pena dos sentidos. As aves lânguidas e longas do desejo – Que não eram lânguidas Nem longas – Voaram dos meus sonhos para nunca mais. Houve quem ouvisse os seus gritos românticos, Seguisse o seu devaneio em círculos voláteis, Em versos de dez […]
- [Oscar Wilde - Da vaidade](https://singularidadepoetica.art/2019/08/06/oscar-wilde-da-vaidade/): “Por que você chora?”, perguntaram as Oreiades. “Choro por Narciso”. “Ah, não nos espanta que você chore por Narciso”, continuaram elas. “Afinal de contas, todas nós sempre corremos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza”. “Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago. “Quem […]
- [André Oviedo - Caixa-Preta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/05/andre-oviedo-caixa-preta/): em algum lugar depois do fim flutuando entre os destroços encontraremos a caixa-preta e poderemos finalmente restituir o passado palavra por palavra como chaves perdidas no tempo a reabrirem as portas que nos trouxeram até aqui
- [Walter Savage Landor - Rose Aylmer](https://singularidadepoetica.art/2019/08/04/walter-savage-landor-rose-aylmer/): Ah, de que vale a régia raça! E esta forma celeste! Toda virtude, toda graça! Rose Aylmer, tudo o que foste. Rose Aylmer, meus olhos despertos Eles choram, mas não veem, Uma noite de dor te oferto, E de lembranças também. Trad.: Nelson Santander Rose Aylmer Ah, what avails the sceptred race! Ah, what the […]
- [François Villon - Balada dos Enforcados](https://singularidadepoetica.art/2019/08/03/francois-villon-balada-dos-enforcados/): Irmãos humanos que ao redor viveis, Não nos olheis com duro coração, Pois se aos pobres de nós absolveis Também a vós Deus vos dará perdão. Aqui nos vedes presos, cinco, seis: Quanto era cara viva que comia Foi devorado e em pouco apodrecia. Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós. Que de nossa aflição […]
- [Nelson Santander - Impermanência](https://singularidadepoetica.art/2019/08/03/nelson-santander-impermanencia/): Impermanência, uma crônica de Nelson Santander
- [Delmore Schwartz – Calmamente caminhamos neste dia de abril](https://singularidadepoetica.art/2019/08/02/delmore-schwartz-calmamente-passeamos-neste-dia-de-abril/): Calmamente caminhamos neste dia de abril,Poesia urbana por todo lado,No parque sentam-se indigentes e usurários,As crianças gritando, o carroEm fuga que passa correndo por nós,Entre o trabalhador e o milionárioOs números expressam as distâncias,Estamos em mil novecentos e trinta e sete agora,Muitos camaradas foram levados para longe,O que será de você e de mim(Esta é […]
- [José Miguel Silva - Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)](https://singularidadepoetica.art/2019/08/01/jose-miguel-silva-morangos-silvestres-ingmar-bergman-1957/): Um ser humano é um combinado de egoísmo, sofrimento e necessidade. Não comove ninguém. Uma pedra não comove ninguém. A beleza é um acidente banal e pressupõe a morte; muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala, chega a ser assustador. A inteligência, refrescante como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora, […]
- [Eugénio de Andrade - De "As mãos e os frutos"](https://singularidadepoetica.art/2019/07/31/eugenio-de-andrade-de-as-maos-e-os-frutos/): XIX Terra: se um dia lhe tocares o corpo adormecido, põe folhas verdes onde pões silêncio, sê leve para quem o foi contigo. Dá-lhe o meu cabelo para sonho, e deixa as minhas mãos para tecer a mágoa infinita das raízes que no seu corpo um dia hão-de beber
- [Joan Margarit - El Primer Frío](https://singularidadepoetica.art/2019/07/30/joan-margarit-el-primer-frio/): Acompanhei-te até o museu, no parque,em uma manhã de inverno. Detivemo-nosdiante daquela escultura: El primer frío.Era de mármore cinzento: um velho, nu,olha ao longe, entre as folhas mortasque o vento carrega.A arte não é diferente da vida,lembro que disseste. Mas euvia apenas um mármore frio,um tanto retórico, e pensava em garotas.Entre aquele dia e hoje, […]
- [Manuel António Pina - Extrema-unção](https://singularidadepoetica.art/2019/07/29/manuel-antonio-pina-extrema-uncao/): Uma breve, amável mágoa à flor dos olhos, um distante desapontamento, morrias como se pedisses desculpa por nos fazeres perder tempo. Tinhas pressa mas não o mostravas, receavas que não estivéssemos preparados, e, suspenso sobre nós, esperavas que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado. Morrer não é motivo de orgulho, mas estavas cansado demais para […]
- [Ferreira Gullar - Notícia da Morte de Alberto da Silva](https://singularidadepoetica.art/2019/07/28/ferreira-gullar-noticia-da-morte-de-alberto-da-silva/): (Poema Dramático para Muitas Vozes) I Eis aqui o morto chegado a bom porto Eis aqui o morto como um rei deposto Eis aqui o morto com seu terno curto Eis aqui o morto com seu corpo duro Eis aqui o morto enfim no seguro II De barba feita, cabelo penteado jamais esteve tão bem […]
- [Robert Penn Warren – Conta-me uma história](https://singularidadepoetica.art/2019/07/27/robert-penn-warren-conte-me-uma-historia/): A Há muito tempo, no Kentucky, eu, apenas um rapaz, estavaEm uma estrada de terra, ao anoitecer, e ouviA algaravia dos gansos que rumavam para o norte. Não pude vê-los, pois não havia lua,E escassos eram os astros. Eu os ouvi. Não sabia o que se passava em meu coração. Era a estação antes dos […]
- [William Ernest Henley - Invictus](https://singularidadepoetica.art/2019/07/26/william-ernest-henley-invictus/): No meio da noite que me abraça, Negra como um Poço em sua inteireza, Agradeço a cada Deus pela graça De minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstâncias Não recuei nem alteei meu pranto. Debaixo dos golpes das contingências Minha fronte sangra – altiva, no entanto. Além deste lugar de desenganos, Somente o Horror […]
- [Ángel González - O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado](https://singularidadepoetica.art/2019/07/25/angel-gonzalez-o-amanha-e-um-mar-profundo-que-precisamos-atravessar-a-nado/): Queria ser alga, alga enredada na parte suave de tuas coxas. Sopro de brisa nas tuas bochechas. Leve areia sob tua pegada. Queria ser água, água salgada quando corres nua no litoral. Sol cortando em sombra tua banal Silhueta virgem recém-molhada. Tudo quisera ser, indefinido, ao teu redor: vista, luz, ambiente gaivota, céu, navio, vela, […]
- [António Barahona - Memórias](https://singularidadepoetica.art/2019/07/24/antonio-barahona-memorias/): Da minha vida, os anos que passaram não os quero de volta: só agora me basta pra viver, a toda a hora, os momentos que em mim se eternizaram. Caminho pesaroso, entre destroços de lutas amorosas, sem ter tréguas. Vão às cegas, meus passos pelas trevas de sombras movediças feitas de ossos. Lembro os que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Nosso Tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/23/carlos-drummond-de-andrade-nosso-tempo/): I Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te […]
- [A. M. Pires Cabral - Folha rubra](https://singularidadepoetica.art/2019/07/22/a-m-pires-cabral-folha-rubra/): É bom sermos como essas folhas verdes que prolongam todo o ano a Primavera. Mas melhor do que isso é sermos como aquela folha rubra que antes das outras pressentiu o Outono e vestiu para ele a sua melhor cor, mesmo sabendo que o Inverno tem um plano para em breve a dissolver no chão.
- [Eugénio de Andrade - Quando em silêncio passas entre as folhas...](https://singularidadepoetica.art/2019/07/21/eugenio-de-andrade-quando-em-silencio-passas-entre-as-folhas/): Quando em silêncio passas entre as folhas, uma ave renasce da sua morte e agita as asas de repente; tremem maduras todas as espigas como se o próprio dia as inclinasse, e gravemente, comedidas, param as fontes a beber-te a face. Conheça outros livros de Eugénio de Andrade clicando aqui
- [Mario Quintana - Poema da gare de Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/20/mario-quintana-poema-da-gare-de-astapovo/): O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos E foi morrer na gare de Astapovo! Com certeza sentou-se a um velho banco, Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo Contra uma parede nua… Sentou-se …e sorriu amargamente Pensando que Em toda a sua vida […]
- [Joan Margarit - Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/19/joan-margarit-astapovo/): De madrugada, quando só se ouvemrelógios no escuro,eu o imagino, com seus oitenta anos,fugindo em um trem russo que ia para o sul,de lugar nenhum, para onde os velhos sonham ir.Tolstói temia aquele invernoque o acompanhou durante a velhiceaté o leito de morte ferroviário,na noite em que o telégrafotransmitiu a mais breve e cruelde todas […]
- [Manuel António Pina - Quinquagésimo ano](https://singularidadepoetica.art/2019/07/18/manuel-antonio-pina-quinquagesimo-ano/): São muitos dias (e alguns nem tantos como isso…) e começa a fazer-se tarde de um modo menos literário do que soía, (um modo literal e inerte que, no entanto, não posso dizer-te senão literariamente). Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr; a única coisa que corre é o tempo, do lado […]
- [Emily Dickinson - de "Não sou ninguém"](https://singularidadepoetica.art/2019/07/17/emily-dickinson-de-nao-sou-ninguem/): 27 Poetas mártires — não clamam — A Dor em sílabas transmudam — Falam por eles seus poemas — Quando já estejam mudos. Pintores mártires — Não falam — Com sua Obra eles almejam Que quando já não sejam mais — Alguns busquem na Arte — a Paz — Trad.: Augusto de Campos The Martyr […]
- [Vasco Gato - Repara nos velhos](https://singularidadepoetica.art/2019/07/16/vasco-gato-repara-nos-velhos/): Repara nos velhos. Dementes, doridos, restos de casas. Vivem agora a lepra de todos nós. Não lhes chegamos. Tresandam. Esquecem. Apoderam-se do nada. E nós, capitosos, brindamos com o vinho que também eles sorveram, desdenhando a morte que, amarga como a nossa indiferença, haveremos de provar.
- [William Butler Yeats - As quatro idades do homem](https://singularidadepoetica.art/2019/07/15/william-butler-yeats-as-quatro-idades-do-homem-poema/): As quatro idades do homem, um poema de William Butler Yeates: Com seu corpo principiou uma rinha O corpo venceu; ereto ele caminha. Ele lutou então com o coração; Sua inocência e sua paz já se vão.
- [A. A. Milne – Narciso](https://singularidadepoetica.art/2019/07/14/a-a-milne-narciso/): Ela vestiu seu chapéu-de-sol,E pôs o seu mais verde vestido;Virou-se para o vento australE prestou-lhe o cortejo devido.Virou-se então para a luz do solE os cabelos louros agitou,E sussurrou para o seu vizinho:“O inverno acabou” Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em […]
- [Nelson Ascher - Saudade](https://singularidadepoetica.art/2019/07/13/nelson-ascher-saudade/): Posto que nem é de bom-tom falar sobre a tristeza insossa cujo vaivém, quando se apossa de mim, me embala como o som sem fim das ondas do Leblon, dispondo-me a curtir a fossa a sós, pus na vitrola a bossa nova de João, Vinícius, Tom, menos pra ouvir o que ela tem, porque talvez […]
- [José Paulo Paes - Borboleta](https://singularidadepoetica.art/2019/07/12/jose-paulo-paes-borboleta/): Mal saíra do casulo para mostrar ao sol o esplendor de suas asas um pé distraído a pisou. (A visão de beleza dura um só instante inesquecível.)
- [Joseph Stroud - Tributo a Rolf Jacobsen](https://singularidadepoetica.art/2019/07/11/joseph-stroud-tributo-a-rolf-jacobsen/): A jaqueta amarela fica batendo contra a vidraça tentando sair. Desde o começo era apenas uma questão de abrir a janela, encontrar as palavras, e você por aí – em um outro, maior mundo. Para os mortos, o paraíso é a calçada na qual você caminha olhando as janelas, cantarolando, parando para um café. Trad.: […]
- [Maria do Rosário Pedreira - Onde quer que o encontres](https://singularidadepoetica.art/2019/07/10/maria-do-rosario-pedreira-onde-quer-que-o-encontres/): Onde quer que o encontres – escrito, rasgado ou desenhado: na areia, no papel, na casca de uma árvore, na pele de um muro, no ar que atravessar de repente a tua voz, na terra apodrecida sobre o meu corpo – é teu, para sempre, o meu nome.
- [Ferreira Gullar - Pela rua](https://singularidadepoetica.art/2019/07/09/ferreira-gullar-pela-rua/): Sem qualquer esperança detenho-me diante de uma vitrina de bolsas na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo, enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro. Sem qualquer esperança te espero. Na multidão que vai e vem entra e sai dos bares e cinemas surge teu rosto e some num vislumbre e o coração dispara. Te […]
- [Wisława Szymborska - Desatenção](https://singularidadepoetica.art/2019/07/08/wislawa-szymborska-desatencao/): Ontem me comportei mal no universo. Vivi o dia inteiro sem indagar nada, sem estranhar nada. Executei as tarefas diárias como se isso fosse tudo o que devia fazer. Inspirar, expirar, um passo, outro passo, obrigações, mas sem um pensamento que fosse além de sair de casa e voltar para casa. O mundo podia ter […]
- [Czeslaw Milosz - A queda](https://singularidadepoetica.art/2019/07/07/czeslaw-milosz-a-queda/): A morte de um homem é como a queda de uma poderosa nação Que teve valentes exércitos, capitães e profetas, E ricos portos e barcos em todos os mares, Mas agora não socorrerá nenhuma cidade sitiada, Não entrará em nenhuma aliança, Porque suas cidades estão vazias, sua população dispersa, Sua terra que certa vez proveu […]
- [Daniel Faria - Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2019/07/06/daniel-faria-itaca/): O que dói É não poder apagar a tua ausência e repetir dia após dia os mesmos gestos O que dói é o teu nome que ficou como mendigo Descoberto em cada esquina dos meus versos O que dói é tudo e mais aquilo que desteço Ao tecer para ti novos regressos
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Quando](https://singularidadepoetica.art/2019/07/05/sophia-de-mello-breyner-andresen-quando/): Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje igualmente hão-de bailar As quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomar Em que eu tantas vezes passei, Haverá longos poentes sobre o mar, Outros amarão as coisas que eu amei. Será […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O desjejum](https://singularidadepoetica.art/2019/07/04/luis-alberto-de-cuenca-o-desjejum/): Gosto quando dizes disparates, quando fazes asneiras, quando mentes, quando vais às compras com tua mãe e chego atrasado ao cinema por tua culpa. Gosto mais quando é meu aniversário e me cobres de beijos e bolos, ou quando estás feliz e dá para notar, ou quando és genial com uma frase que resume tudo, […]
- [Nuno Júdice – Fábula industrial](https://singularidadepoetica.art/2019/07/03/nuno-judice-fabula-industrial/): As chaminés das fábricas tinham pescoços de cegonha, e quando deitavam fumo era como se as cegonhas abrissem as asas. Quando o fumo era preto, porém, as cegonhas transformavam-se em corvos de grandes pescoços feitos de tijolo; e ao contrário das cegonhas não voavam, mas faziam soar as sirenes com os bicos metálicos, para que […]
- [Adelaide Ivánova - os anos noventa](https://singularidadepoetica.art/2019/07/02/adelaide-ivanova-os-anos-noventa/): você não estava lá nas coisas mais decisivas da minha vida mas é assim mesmo: historiadores e arqueólogos nunca estiveram presentes pra testemunhar os levantes coletivos isso fazem os jornalistas e os videntes você era apenas um menino quando kurt cobain morreu nem poderia ainda saber o dano que causaria sua existência de crisálida taurino […]
- [Ian Hamilton - Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2019/07/01/ian-hamilton-fantasmas/): O caixão lustroso e suntuosamente adornadoDesliza como um novo navio para as profundezas em chamas.Na terra firme,A congregação se ajoelha em murmúrios. Do meu banco no cantoTenho uma visão livre e desimpedidade sua partida.Se você estivesse deitada de ladoTalvez pudesse captar seu olhar insuspeito. No pátio, ao anoitecer,Os tributos florais. Eu poderia jurarTer visto vocêAspirando […]
- [Eugénio de Andrade - Com o tempo aproximar-se-ão os rios...](https://singularidadepoetica.art/2019/06/30/eugenio-de-andrade-com-o-tempo-aproximar-se-ao-os-rios/): Com o tempo aproximar-se-ão os rios e os montes, com o tempo acabará por te vir comer à mão e fazer ninho na tua cama o silêncio.
- [Joan Margarit - Banheiro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/29/joan-margarit-banheiro/): Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos […]
- [Manuel António Pina - Todas as palavras](https://singularidadepoetica.art/2019/06/28/manuel-antonio-pina-todas-as-palavras/): As que procurei em vão, principalmente as que estiveram muito perto, como uma respiração, e não reconheci, ou desistiram e partiram para sempre, deixando no poema uma espécie de mágoa como uma marca de água impresente; as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te nem foram capazes de dizer-me; as que calei por serem muito […]
- [Heinrich Heine - Chegou a morte](https://singularidadepoetica.art/2019/06/27/heinrich-heine-chegou-a-morte/): Chegou a morte – agora vou Dizer o que o orgulho não Me permitiu: meu coração Tão só por ti pulsou, pulsou. Já estou fechado no ataúde, Descem-me à cova. A calmaria Me abraça enfim, mas tu, Maria, Por mim irás, muito amiúde, Chorar, e pra quê, afinal? Consola-te, este é o destino Humano: o […]
- [Jorge Luis Borges - O cego](https://singularidadepoetica.art/2019/06/26/jorge-luis-borges-o-cego/): I Foi despojado do diverso mundo, Dos rostos, que ainda são o que eram antes, Das ruas próximas, hoje distantes, E do côncavo azul, ontem profundo. Dos livros lhe restou só o que deixa A memória, essa fórmula do olvido Que o formato retém, não o sentido, E que apenas os títulos enfeixa. O desnível […]
- [José Paulo Paes - Declaração de bens](https://singularidadepoetica.art/2019/06/25/jose-paulo-paes-declaracao-de-bens/): meu deus minha pátria minha família minha casa meu clube meu carro minha mulher minha escova de dentes meus calos minha vida meu câncer meus vermes
- [Joseph Stroud - Lázaro em Varanasi](https://singularidadepoetica.art/2019/06/24/joseph-stroud-lazaro-em-varanasi/): De uma pira no flamejante ghat,um cadáver se ergue lentamente entre as chamas.Como se lembrasse de algo importante.Como se quisesse olhar ao redor uma última vez.Como se finalmente tivesse algo a dizer.Como se houvesse uma saída para isso. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a […]
- [Joseph Stroud - Lendo Kaváfis sozinho na cama](https://singularidadepoetica.art/2019/06/23/joseph-stroud-lendo-kavafis-sozinho-na-cama/): Eu, também, me lembro do passado, meu quarto iluminado por velas, e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto com seu rosto, com boca e língua e lábios, do pomar à noite, do odor das frutas, seus seios – lembra, corpo? – aquele quarto, lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes? Trad.: […]
- [Konstantinos Kaváfis - Lembra, corpo...](https://singularidadepoetica.art/2019/06/22/konstantinos-kavafis-lembra-corpo/): Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,não só os leitos onde repousaste,mas também os desejos que brilharampor ti em outros olhos, claramente,e que tornaram a voz trêmula – e que algumobstáculo casual fez malograr.Agora que isso tudo perdeu-se no passado,é quase como se a tais desejoste entregaras – e como brilhavam,lembra, nos olhos que […]
- [Pedro Mexia - "O fogo, o ferro, o futuro"](https://singularidadepoetica.art/2019/06/21/pedro-mexia-o-fogo-o-ferro-o-futuro/): Eras um sustento, eras um segredo, uma feroz tentativa. Eras a roupa do corpo feito estandarte a caminho de casa e as tuas mãos metade das minhas. Eras um fascínio, eras um fracasso, eras a chama que nunca te queimou, o sul, o sufoco, a madrugada. Eras um tumulto de éguas e galgos, a minha […]
- [Wislawa Szymborska - Mapa](https://singularidadepoetica.art/2019/06/20/wislawa-szymborska-mapa/): Plano como a mesa na qual está colocado. Debaixo dele nada se move nem busca vazão. Sobre ele – meu hálito humano não cria vórtices de ar e deixa toda a sua superfície em silêncio. Suas planícies, vales, são sempre verdes, os planaltos, montanhas, amarelos e marrons e os mares, oceanos, de um azul delicado […]
- [Jorge Sousa Braga - Litania](https://singularidadepoetica.art/2019/06/19/jorge-sousa-braga-litania/): Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparente Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos ainda escorrendo sangue Uma pequena construção toda em pedra com divisões de tijolo e cal hidráulica e janelas abrindo para […]
- [Nuno Júdice - Nostalgia de setembro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/18/nuno-judice-nostalgia-de-setembro/): Quando vinham as nuvens de setembro, já os pássaros tinham emigrado para além dos mares, o campo ficava em longos silêncios que só a passagem dos rebanhos, a caminho do matadouro, cortava num tropel que ecoava ainda, depois da paisagem, com os gritos do pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvens quando […]
- [A. M. Pires Cabral - O Vento](https://singularidadepoetica.art/2019/06/17/a-m-pires-cabral-o-vento/): É fácil dizer que o vento tem gatos na voz enfurecidos. Que afaga e despenteia, traz a chuva. Que levanta as telhas, exercita na noite os nossos mais pesados pesadelos. É fácil ser poeta à custa do vento. Fingir que não sabemos que o vento não é senão o vazio que muda de lugar.
- [Carlos Bousoño - À distância](https://singularidadepoetica.art/2019/06/16/carlos-bousono-a-distancia/): Passa a juventude, e passa a vida, passa o amor, a morte também passa, o vento, a amargura que trespassa a pátria espessa, hirta e adormecida. Adormecida, em sonho eterno, olvida. Mortos e vivos na mesma argamassa dormem igual sina e alegria escassa. Pátria, profundeza, pedra perdida. Pedra perdida, imersa, vivos, mortos. Toda Espanha dorme […]
- [David Teles Pereira - Tractatus de Legibus ac Deo Legislatore (Livro III, Capítulo II)](https://singularidadepoetica.art/2019/06/15/david-teles-pereira-tractatus-de-legibus-ac-deo-legislatore-livro-iii-capitulo-ii/): Ao meu avô Nunca mais me irás interromper ao comentar uma passagem do de Legibus de Francisco Suárez, mas, por agora, a nuvem castanha que te ocupa o peito sufoca-me a voz. As nossas leis não chegam para acalmar todos os vícios e o pior de todos é chorar-te por não te poder dizer, seguindo […]
- [Maria do Rosário Pedreira - À avó](https://singularidadepoetica.art/2019/06/14/maria-do-rosario-pedreira-a-avo/): Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a […]
- [Helder Moura Pereira - "Eras mesmo a fonte de tudo..."](https://singularidadepoetica.art/2019/06/13/helder-moura-pereira-eras-mesmo-a-fonte-de-tudo/): Eras mesmo a fonte de tudo, pelo menos naquele dia a que chamamos perfeito. Os dias tinham-se entranhado nos dias, a tal ponto que a vida era só dias, dias a seguir uns aos outros. Apenas dias. De olhos vendados e sem bater numa única parede, pegados a isto, ao cheiro reconhecido só quando um […]
- [Andreia C. Faria - "Espero o dia em que possa..."](https://singularidadepoetica.art/2019/06/12/andreia-c-faria-espero-o-dia-em-que-possa/): Espero o dia em que possa deixar crescer as unhas as meias por cerzir a boca sem propósito de beijar. O dia que misture à noite uma respiração de espelhos, um registro acidental, mortificado, ou o livro que se leu na tarde até perder a luz. Que a natureza avance em mim sem esperança de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Confissão do fugitivo](https://singularidadepoetica.art/2019/06/11/juan-vicente-piqueras-confissao-do-fugitivo/): Só sou feliz partindo. Não entre quatro paredes, à mercê das espadas, mas entre aqui e ali, uma e outra casa, ambas de preferência alheias. Já não posso, nem quero, estar quieto. Nem agora nem depois. Nem aqui nem ali. Em todo caso aí, onde tu estás, seja tu quem fores, põe o teu nome […]
- [Ferreira Gullar - Verão](https://singularidadepoetica.art/2019/06/10/ferreira-gullar-verao/): Este fevereiro azul como a chama da paixão nascido com a morte certa com prevista duração deflagra suas manhãs sobre as montanhas e o mar com o desatino de tudo que está para se acabar. A carne de fevereiro tem o sabor suicida de coisa que está vivendo vivendo mas já perdida. Mas como tudo […]
- [Czesław Miłosz - Uma descrição honesta de mim mesmo com um copo de whisky num aeroporto, digamos, em Minneapolis](https://singularidadepoetica.art/2019/06/09/czelaw-milosz-uma-descricao-honesta-de-mim-mesmo-com-um-copo-de-whisky-num-aeroporto-digamos-em-minneapolis/): Meus ouvidos captam cada vez menos as conversas, meus olhos vêm se tornando fracos, embora sigam insaciáveis. Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas, em tecidos ondulantes, Observo uma a uma, separadamente, suas bundas e coxas, acalentado por sonhos pornô. Velho depravado, é chegada a hora da cova, não dos jogos e folguedos da […]
- [Walt Whitman – Aos que Falharam](https://singularidadepoetica.art/2019/06/08/walt-whitman-aos-que-falharam/): Aos que falharam, grandes na aspiração, aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate, aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos, aos super-ardorosos viajantes, a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento – eu gostaria de erguer um momento coberto de louros alto, bem alto, acima dos demais: A todos os truncados […]
- [Adelaide Ivánova - um poema pra italo](https://singularidadepoetica.art/2019/06/07/adelaide-ivanova-um-poema-pra-italo/): a vida tem estado mesmo dura vou poupar-te da ladainha sobre temer AfD #voltadilma e o caralho não ganhamos dos bancos em caruaru ou karlsruhe meu dinheiro e endereço: bloqueados a moça do balcão cagou pra mim ser cidadão não significa merda nenhuma mas é privilégio nessa europa genocida (e quando é que ela não […]
- [Nicolás Guillén - Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2019/06/06/nicolas-guillen-um-poema-de-amor/): Não sei. Ignoro-o.Desconheço todo o tempo que andeisem encontrá-la novamente.Quem sabe um século? Talvez.Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.Ou um mês. Poderia ser. De qualquer formaum tempo enorme, enorme, enorme.Ao fim como uma rosa súbita,repentina campânula tremendo,a notícia.Saber de prontoque ia voltar a vê-lá, que a teriaperto, tangível, real, como nos sonhos.Que troar […]
- [Ian Hamilton - Vizinhos](https://singularidadepoetica.art/2019/06/05/ian-hamilton-vizinhos/): Das janelasDo decadente hotel do outro lado da ruaMisteriosos hóspedes noturnos emergemEm suas varandasPara aspirar o ar fresco da noite. Nós os deixamos nos observarEm nossas vidas pacatas.Eles nos permitem imaginaro que o destino lhes reservou. Trad.: Nelson Santander Neighbours From the bay windowsOf the mouldering hotel across the road from usMysterious, one-night itinerants emergeOn […]
- [Eugénio de Andrade - Ver claro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/04/eugenio-de-andrade-ver-claro-2/): Toda poesia é luminosa, até A mais obscura. O leitor é que tem às vezes, Em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver o claro. Se regressar Outra vez e outra vez E outra vez A essas sílabas acesas Ficará cego de tanta claridade Abençoado seja se lá chegar.
- [Joan Margarit - Por que fomos covardes](https://singularidadepoetica.art/2019/06/03/joan-margarit-por-que-fomos-covardes/): Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil. Sempre farás amor com uma sombra de olhos azuis, e estarás tão só como em uma vingança. Ao longe, as luzes de Roses cintilam assim como a minha memória. Há uma fúria triste, mas ninguém no final. Perdemos o cavalo sem cavaleiro que nunca passa uma segunda […]
- [Manuel António Pina - Café do molhe](https://singularidadepoetica.art/2019/06/02/manuel-antonio-pina-cafe-do-molhe/): Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) por que a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe) […]
- [Konstantinos Kaváfis - Velas](https://singularidadepoetica.art/2019/06/01/konstantinos-kavafis-velas/): Os dias futuros se erguem diante de nós como uma fileira de velas acesas – douradas, vivazes, cálidas velas. Os dias do passado ficaram tão para trás, fúnebre fileira consumida onde as mais próximas ainda fumam, velas frias, retorcidas e desfeitas. Não quero vê-las; seu aspecto me aflige, me aflige recordar sua luz primeira. Vejo […]
- [Idea Vilariño - Não mais](https://singularidadepoetica.art/2019/05/31/idea-vilarino-nao-mais/): Não mais será não mais não viveremos juntos não criarei teu filho não coserei tua roupa não te terei à noite não te beijarei ao partir nunca saberás quem fui por que outros me amaram. Não chegarei a saber por que nem porque nunca nem se era verdadeiro o que disseste que era nem quem […]
- [Nâzim Hikmet - O último ônibus](https://singularidadepoetica.art/2019/05/30/nazim-hikmet-o-ultimo-onibus/): Meia-noite. O último ônibus.O condutor rasga os bilhetes.Não me esperam em casa nem uma má notícianem a fartura da bebida.Para mim, é a partida que espera.Caminho em direção a ela sem medoou tristeza. A escuridão imensa se aproxima de mim.Posso olhar para o mundocalma e serenamente, agora.Já não me surpreende a traição de um amigo,a […]
- [Daniel Faria - Infância](https://singularidadepoetica.art/2019/05/29/daniel-faria-infancia/): e jogava o pião com Deus enquanto minha mãe estendia roupa e o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempo era muito próxima da dos meninos e de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro: o pião ou Deus apenas sei que Deus continua a jogar com outros meninos […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Não te esqueças nunca](https://singularidadepoetica.art/2019/05/28/sophia-de-mello-breyner-andresen-nao-te-esquecas-nunca/): Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina O pinhal a coluna a veemência divina O templo o teatro o rolar de uma pinha O ar cheirava a mel e a pedra a resina Na estátua morava tua nudez marinha Sob o sol azul e a veemência divina Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O véu protetor](https://singularidadepoetica.art/2019/05/27/luis-alberto-de-cuenca-o-veu-protetor/): Amanheceu e nós estávamos dentro da vil realidade, o que não pode ser bom. Melhor seria que passassem logo as horas inúteis em que o dia proscreve a aventura com as normas do tédio laboral, e que voltassem a noite e as suas estrelas a envolver-nos no seu véu fantástico e a dar-nos a inútil […]
- [Yehuda Amichai - 1924](https://singularidadepoetica.art/2019/05/26/yehuda-amichai-1924/): Nasci em 1924. Se eu fosse um violino da minha idade não seria dos melhores. Como vinho seria um cinco estrelas ou vinagre. Como cachorro estaria morto. Como um livro estaria me tornando caro, ou estaria abandonado num sebo qualquer. Como uma floresta eu seria jovem; como uma máquina, ridículo. Como uma criatura humana, estou […]
- [Walt Whitman - Pleno de vida agora](https://singularidadepoetica.art/2019/05/25/walt-whitman-pleno-de-vida-agora-poema/): Pleno de vida agora, consistente, visível, Eu, quarenta anos vividos, no ano oitenta e três anos dos Estados, Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for, A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto. Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível, Enquanto tu […]
- [Miguel-Manso – No número de outubro da revista Wire](https://singularidadepoetica.art/2019/05/24/miguel-manso-no-numero-de-outubro-da-revista-wire/): frente ao fotógrafo e ao leitor o homem envelhecido parece que já não olha Mitra o deus sol dos psicadélicos noutra foto no interior da revista o poeta está sentado a uma pequena mesa de frente para a janela onde as cortinas brancas filtram a luz e o ruído da rua sentado na cadeira de […]
- [Andreia C. Faria - San Cibrán de Las](https://singularidadepoetica.art/2019/05/23/andreia-c-faria-san-cibran-de-las/): Ainda aos sábados os homens passeiam pelo que resta das muralhas e as mulheres procuram vestígios – os pulsos nus, a canteira e a nascente de água, a paciência necessária a quem se alimentava desse pão É também este o meu plano para a velhice: ervas de que não sei o nome, a ruína interior […]
- [Gonçalo M. Tavares - uma síntese disto tudo](https://singularidadepoetica.art/2019/05/22/goncalo-m-tavares-uma-sintese-disto-tudo/): é porque existe o desejo, o olfato, e o medo, e os vivos apaixonam-se por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos, e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho, e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um […]
- [Adelaide Ivánova - o elefante](https://singularidadepoetica.art/2019/05/21/adelaide-ivanova-o-elefante/): quando johanna morreu tinha um ano e oito meses foi encontrada na piscina apertava um elefante na mão que sua mãe até hoje aperta muito embora o alzheimer lhe impeça de lembrar por que ela a mãe pulou na piscina ao ver johanna à deriva no ventinho do norte da renânia boiando na piscina que […]
- [Goliarda Sapienza - Sem título](https://singularidadepoetica.art/2019/05/20/goliarda-sapienza-sem-titulo/): Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se. Consumiu-se o incêndio. Findou-se. Fechou-se o círculo petrificado. Findou-se o tempo. Consumiu-se o delito. Queimou-se a lembrança. Cessou a angústia. Um manto de lava interditou todo crânio toda órbita esvaziada. Toda boca no grito interditou. Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar o silêncio de lava. As formigas rodeiam o fogo gasto […]
- [Ian Hamilton - Última Valsa](https://singularidadepoetica.art/2019/05/19/ian-hamilton-ultima-valsa/): De onde estamos quase que podemos identificar Os rostos destas pessoas que não conhecemos: Um semi-círculo sombreado Ao redor do enorme aparelho de TV doado Que domina nossa ala. A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre eles Iluminando Amistosos, exaustos sorrisos. E nós, Como se nos importássemos, também sorrimos. Para cada alma perdida, nesta hora tardia Um […]
- [Jaime Gil de Biedma - Depois da morte de Jaime Gil de Biedma](https://singularidadepoetica.art/2019/05/18/jaime-gil-de-biedma-depois-da-morte-de-jaime-gil-de-biedma/): No jardim, lendo, a sombra da casa tolda as páginas e o frio repentino do final de agosto faz-me pensar em ti. O jardim e a casa vizinha onde piam os pássaros nas trepadeiras, uma tarde de agosto, quando começa a anoitecer e tem-se ainda o livro nas mãos, eram, lembro-me, teu símbolo da morte. […]
- [Vicente Gaos - Homem Total](https://singularidadepoetica.art/2019/05/17/vicente-gaos-homem-total/): "Homem Total", um poema de Vicente Gaos que homenageia Lope de Vega ao revisitar suas paixões e musas, refletindo sobre a intensidade do amor, a fugacidade dos anos e a elevação espiritual que transcende os gozos e pesares da experiência humana.
- [Helena Zelic - Gaveta de Casa](https://singularidadepoetica.art/2019/05/16/helena-zelic-gaveta-de-casa/): Nossas fotos de infância boletins de nota azul três diários à chave hoje abertos duzentos milhões de pequenos museus da desimportância
- [Eugénio de Andrade - Ao fim da tarde](https://singularidadepoetica.art/2019/05/15/eugenio-de-andrade-ao-fim-da-tarde/): Ninguém esperava ver o mar naquele dia mas era o mar que estava ali, à porta naqueles olhos.
- [Giuseppe Ungaretti - Sentimento do tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/05/14/giuseppe-ungaretti-sentimento-do-tempo/): Sentimento do tempo1931 E à luz mais própria,Deixando apenas uma sombra violácea,Sobre os cimos mais baixos,A distância aberta ao alcance,Cada batida, como usa o coração,Agora escuto,Apressa-te, tempo, a por-me sobre os lábiosTeu último beijo. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sentimento del tempo1931 E per la luce giusta,Cadendo solo un ombra violaSopra il […]
- [Raymond Carver - Fragmento final](https://singularidadepoetica.art/2019/05/13/raymond-carver-fragmento-final/): E você teve o que queriadesta vida, apesar de tudo?Tive.E o que você queria?Dizer que fui amado, me sentiramado sobre a terra. Trad.: Cide Piquet Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Raymond Carver – Late Fragment And did you get whatyou wanted […]
- [Joan Margarit - Monumentos](https://singularidadepoetica.art/2019/05/12/joan-margarit-monumentos/): O vazio que sentes, cada vez com mais força,é o dos traidores.Também os monumentos, por dentro, são vazios,com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:escuros e corroídos pela história,é tão sinistro seu interiorcomo arrogante o gesto que no ardesenha a personagem.À medida que os amigos nos traem– e a morte é também uma traição […]
- [Manuel António Pina - Sérgio](https://singularidadepoetica.art/2019/05/11/manuel-antonio-pina-sergio/): Onde agora estás não alcançam o clamor dos magistrados nem a faca do assassino. A tua própria morte não te pertence já, é assunto nosso, desprovido e inerte. Que faremos nós com o teu inúmero corpo, como te diremos o que está a acontecer-te? Fechou-se qualquer coisa qualquer porta espessa e desabitada, a faca pôs […]
- [Andreia C. Faria - As mulheres têm formas mais curiosas](https://singularidadepoetica.art/2019/05/10/andreia-c-faria-as-mulheres-tem-formas-mais-curiosas/): As mulheres têm formas mais curiosas Se eu montasse um circo, em vez de elefantes teria Senhoras com os seus diferentes peitos coxas e rabos, todo o corpo fingimento, adereço Senhoras com os seus diferentes almoços, amantes e diferentes níveis de tonificação da alma, rivais dos tigres desdenhosos, dos leões emparedados Em vez de macacos […]
- [Adelaide Ivánova - pro meu amante, quando atinge a maioridade](https://singularidadepoetica.art/2019/05/09/adelaide-ivanova-pro-meu-amante-quando-atinge-a-maioridade/): “Pro meu amante, quando atinge a maioridade”, um poema de Adelaide Ivanova que entrelaça amor, memória e consciência do tempo em uma celebração agridoce do amadurecimento.
- [A. M. Pires Cabral - Não me mostres nenhum norte](https://singularidadepoetica.art/2019/05/08/a-m-pires-cabral-nao-me-mostres-nenhum-norte/): Não me mostres nenhum norte nem estradas para lá: são tudo embustes. Mostra-me antes pedras, folhas mortas de Outono atapetando o chão das matas, voos de libelinha rasando o sol poente, cândidas risadas infantis. Quero eu dizer: mostra-me coisas daquelas que se corrompem sem pressa.
- [Ian Hamilton - Lamento](https://singularidadepoetica.art/2019/05/07/ian-hamilton-lamento/): Fiz o que pude. Meus garotos correm soltos agora.Eles buscam oportunidades enquanto a mãe deles apodrece aqui.E rua acima, o homem,Meu único homem, que me tocou em todos os lugares,Desmancha-se sob a terra. Sou triste, obtusa, velha e alienada.À noite, sinto minhas mãos vagando sobre mim,Sondando meus seios, meus joelhos,As dobras do meu ventre,Vez ou […]
- [Gonçalo M. Tavares - Palavras, Atos](https://singularidadepoetica.art/2019/05/06/goncalo-m-tavares-palavras-atos/): A ironia ensina a sabotar uma frase Como se faz a um motor de automóvel: Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres No verbo ou numa letra do substantivo A frase trágica torna-se divertida, E a divertida, trágica. Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me, Desde novo, daquilo que ainda hoje […]
- [Merrit Malloy - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2020/03/02/merrit-malloy-epitafio/): Quando eu morrerDoa o que restar de mimÀs criançasE aos idosos que esperam para morrer. E se precisares chorar,Chora por teu irmãoQue caminha pela rua ao teu lado.E quando precisares de mim,Põe teus braçosEm volta de alguémE dá-lhe o que tens a me oferecer. Quero deixar-te algo,Algo melhorQue palavrasOu sons. Busca por mimNas pessoas que […]
- [José Emílio Pacheco - Crianças e adultos](https://singularidadepoetica.art/2020/03/01/jose-emilio-pacheco-criancas-e-adultos/): Aos dez anos, acreditavaque o mundo era dos adultos.Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,ir aonde quisessem.Sobretudo, nos esmagar com seu poder indomável. Agora sei, por vasta experiência, o lugar-comum:em verdade, não há adultos,apenas crianças envelhecidas. Desejam o que não têm:o brinquedo do outro.Sentem medo de tudo.Obedecem sempre a alguém.Não governam a própria existência.Choram por […]
- [Juan Vicente Piqueras - Papoulas](https://singularidadepoetica.art/2020/02/29/juan-vicente-piqueras-papoulas/): No antigo campo de batalha onde morreram milhares de meninos cresce novamente o trigo, salpicado aqui e ali de ardentes papoulas. E dois amantes, que terão mais ou menos a idade dos soldados que aqui então morreram, hoje fazem amor no semeado. Deitam o trigo. Calcam as papoulas. Trad.: Nelson Santander Amapolas Sobre el antiguo […]
- [Louise Glück - Outubro](https://singularidadepoetica.art/2020/02/28/louise-gluck-outubro/): 1. É inverno outra vez, faz frio outra vez, Frank não escorregou no gelo, ele não se curou, não se plantaram as sementes da primavera a noite não terminou, o gelo derretido não inundou as calhas estreitas meu corpo não foi resgatado, não era seguro não se formou a cicatriz, invisível sobre a lesão terror […]
- [Raquel Lanseros - A propósito de Eros](https://singularidadepoetica.art/2020/02/27/raquel-lanseros-a-proposito-de-eros/): De todas as terrenas servidões que aprisionam meu afã neste cárcere confesso-me devedora da carne e de todos os seus íntimos vaivéns que me fazem mais feliz e menos livre. Às vezes, porém, a escravidão se mostra soberana e me sinto senhora do destino. Porque sei amar, porque provei da fruta e nunca maldisse o […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - O material do relâmpago](https://singularidadepoetica.art/2020/02/26/jorge-valdes-diaz-velez-o-material-do-relampago/): Calculaste em detalhes cada passo, sutil, há muitos séculos. Finalmente teu marido viajou e as crianças foram dormir com os avós. Estás agora sozinha e eufórica voltaste-te a se maquiar e vestiste-te de preto rigoroso e perfumaste tua mínima porção de lingerie. Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada te fará voltar atrás. Olhas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Dentaduras duplas](https://singularidadepoetica.art/2020/02/25/carlos-drummond-de-andrade-dentaduras-duplas/): Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos… Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. (Coroas sem reino, os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura, dentadura múltipla, a serra mecânica, sempre desejada, jamais possuída, que acabará com o tédio da boca, a boca que beija, a boca […]
- [T. S. Eliot - A Viagem dos Magos](https://singularidadepoetica.art/2020/02/24/t-s-eliot-a-viagem-dos-magos/): “Foi um frio que nos colheu Na pior quadra do ano Para uma viagem, e longa era a viagem: Os caminhos enlameados e o tempo adverso Em pleno coração do inverno.” E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis, Jaziam em meio à neve derretida. Foram momentos em que recordamos Os palácios estivais sobre […]
- [Blas de Otero - Ímpeto](https://singularidadepoetica.art/2020/02/23/blas-de-otero-impeto/): Mas nem tudo há de ser ruína e vazioE nem tudo escombro ou descongelação.Por cima deste ombro levo o céu,e por cima deste outro, um vasto rio de entusiasmo. E meu corpo no meio,árvore luzente gritando do chão.E, entre raízes mortais, sofreguidão,meu coração desperto, raio sombrio. Somente o anseio me vence. Mas avançosem duvidar, sobre […]
- [Mary Oliver - O quarto signo do zodíaco](https://singularidadepoetica.art/2020/02/22/mary-oliver-o-quarto-signo-do-zodiaco/): 1. Porque eu deveria ter ficado surpresa? Caçadores percorrem a floresta sem um som. O caçador, armado com seu rifle, a raposa com seus pés de seda, a serpente em seu império de músculos — todos se movem em silêncio, famintos, cuidadosos, atentos. Exatamente como o câncer entrou na floresta do meu corpo, sem um […]
- [Robert Hayden - Aqueles domingos de inverno](https://singularidadepoetica.art/2020/02/21/robert-hayden-aqueles-domingos-de-inverno/): Também aos domingos meu pai acordava cedo e vestia suas roupas no frio azul escuro, depois, com as mãos rachadas doloridas do trabalho no tempo durante a semana, ele fazia os fogos empilhados arderem. Ninguém nunca o agradeceu. Eu acordava e ouvia o frio se partindo em fragmentos. Quando as salas ficavam aquecidas, ele me […]
- [Marisa de la Peña - O tempo que nos resta](https://singularidadepoetica.art/2020/02/20/marisa-de-la-pena-o-tempo-que-nos-resta/): “Somos o tempo que nos resta” J. M. Caballero Bonald. É isso o que somos: o tempo que nos resta, o último batimento interrompido, a palavra não dita, o deserto cruzado, e o caminho sem nome que deixamos para trás. Somos o abandono, a intempérie, as luzes apagadas, e as portas, fechadas para sempre, ao […]
- [Ricardo Aleixo - Geral](https://singularidadepoetica.art/2020/02/19/ricardo-aleixo-geral/): O jo go é tão sujo e você (entre bis onho e biz arro) torce justo para o juiz?
- [André Vallias - as instituições estão funcionando](https://singularidadepoetica.art/2020/02/18/andre-vallias-as-instituicoes-estao-funcionando/)
- [Rubén Darío - Quando vieres a amar](https://singularidadepoetica.art/2020/02/17/ruben-dario-quando-chegares-a-amar/): "Quando vieres a amar", um poema de Rubén Darío que apresenta o amor como experiência paradoxal de luz e sombra, felicidade e dor, afirmando sua natureza inevitável e a impossibilidade de viver plenamente sem ele.
- [Juan Vicente Piqueras - Ristorante dal 1882–](https://singularidadepoetica.art/2020/02/16/juan-vicente-piqueras-ristorante-dal-1882/): Ristorante dal 1882–leio no cardápio e me ponho a pensarque numa noite, há mais de um século,numa noite igual a esta,houve um grupo de amigos que aqui jantou,como nós fazemos agora,e riram, conversaram, passaram o sal,mais ou menos felizes, fugazes, encantadosde estarem juntos rindocomo nós fazemos agora,e que nenhum deles vive maise agora somos nós,os […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - O primeiro homem](https://singularidadepoetica.art/2020/02/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-o-primeiro-homem/): Era como uma árvore da terra nascida Confundindo com o ardor da terra a sua vida, E no vasto cantar das marés cheias Continuava o bater das suas veias. Criados à medida dos elementos A alma e os sentimentos Em si não eram tormentos Mas graves, grandes, vagos, Lagos Refletindo o mundo, E o eco […]
- [Alfonso Brezmes - Notas marginais](https://singularidadepoetica.art/2020/02/14/alfonso-brezmes-notas-marginais/): Leia "Notas marginais", de Alfonso Brezmes, um poema delicado sobre memória, releitura e as transformações silenciosas provocadas pelo tempo.
- [Wislawa Szymborska - Para o meu próprio poema](https://singularidadepoetica.art/2020/02/13/wislawa-szymborska-para-o-meu-proprio-poema/): Na melhor das hipóteses, meu poema, você será lido atentamente, comentado e lembrado. Na pior das hipóteses somente lido. Terceira possibilidade – embora escrito, logo jogado no lixo. Você pode se valer ainda de uma quarta saída – desaparecer não escrito murmurando satisfeito algo para si mesmo. Trad.: Regina Przybycien Do własnego wiersza W najlepszym […]
- [Carlos Montemayor - Memória](https://singularidadepoetica.art/2020/02/12/carlos-montemayor-memoria/): Estou aqui, em casa, a sós.Aqui estão os móveis, o ar, os ruídos.Tenho um sentimento tão transparentequanto a vidraça de uma janela.É como a janela pela qual olhava a neve ao amanhecer,há muitos anos, quando criança,e colava o rosto contra o vidro e compreendia toda a vida.É um desejo calmo, como a tarde.É estar como […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - S.T.T.R. Sit Tibi Terra Levis](https://singularidadepoetica.art/2020/02/11/jorge-valdes-diaz-velez-s-t-t-r-sit-tibi-terra-levis/): Hoje lembro os mortos da minha casaOctavio Paz De todos os nossos mortos, jamais esqueceremoso primeiro. O meu habita a raiz do outono,sob os álamos. Sua memóriame oferece uma murta enquanto se inclinacom os braços abertos de outros dias. Lembrode sua estatura nas sombras, prestes a afastar-sedo espelho, seu rosto velado, o ornamentodas obstinadas lições […]
- [Gonçalo M. Tavares - O idiota](https://singularidadepoetica.art/2020/02/10/goncalo-m-tavares-o-idiota/): Os irmãos com saúde,os meus pais vivos,um pouco deprimidos, mas lúcidos e vivos.Uma mulher que me espera à porta, e sorri,um bebê com um ano e meio, uma rapariga, vem aí outra;quando regresso a minha mulher recebe-me a sorrir com uma barriga grande. Um café, outro,o caderno preto à minha frente, o tempo,nada para fazer a não ser […]
- [T. E. Hulme - Outono](https://singularidadepoetica.art/2020/02/09/t-e-hulme-outono/): Um fio de frio na noite outonal —Fui para o quintalE vi a lua rubra inclinar-se sobre o folharalComo um rancheiro de rosto rosado.Não parei para falar, mas dei aval,E ao redor estavam as tristes estrelasCom pálidas faces como crianças da cidade. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e […]
- [Charles Simic - O dicionário](https://singularidadepoetica.art/2020/02/08/charles-simic-o-dicionario/): Talvez haja uma palavra em algum lugarpara descrever o mundo nesta manhã,uma palavra para o jeito como a primeira luzse deleita em perseguir as sombraspelas vitrines e entradas das lojas. Outra palavra para o modo como ela se detémsobre um par de óculos de aros finosque alguém deixou cair na calçadana noite passada e cambaleou […]
- [Lope de Vega - Desmaiar, ousar, ficar furioso](https://singularidadepoetica.art/2020/02/07/lope-de-vega-desmaiar-ousar-ficar-furioso/): Desmaiar, ousar, ficar furioso,áspero, terno, generoso, esquivo,entretido, mortal, defunto, vivo,leal, falso, covarde e corajoso; não achar, para além, paz e repouso,mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,irritado, valente, fugitivo,satisfeito, ofendido, receoso; furtar o rosto ao claro desengano,sorver veneno por licor suave,esquecer o proveito, amar o dano; crer que um céu em um inferno cabe,dar a vida e […]
- [Juan Vicente Piqueras - História universal](https://singularidadepoetica.art/2020/02/06/juan-vicente-piqueras-historia-universal/): Um homem nasce chora cresce risofre e faz sofrer caminha cantatem sede fome frio medose perde extravasa arde sorri. Um homem sozinho no meio da noiteassobia para domar as bestas que o habitam. Abraça empurra mata beija morrese cansa de si mesmo se apaixonase entrega à vida sabe que se findaque o que é escoa […]
- [Hugo Mujica – Há escassos dias](https://singularidadepoetica.art/2020/02/05/hugo-mujica-ha-escassos-dias/): Há escassos dias morreu meu pai,há muito tempo atrás. Caiu suavemente,como as pálpebras ao chegara noite, ou uma folhaque o vento não arranca, embala. Hoje não é como outras chuvas,hoje chove pela primeira vezsobre o mármore de sua lápide. Sob cada chuvapoderia ser eu quem jaz, agora eu sei,agora que morri em outro. Trad.: Nelson […]
- [Joan Margarit - A aventura](https://singularidadepoetica.art/2020/02/04/joan-margarit-a-aventura/): Quando me ausento por um momento, ao finalizaruma inspeção de obra em algum bairro estranhoe entro para tomar café em um pequeno baronde não me conhecem, penso que soualguém que parte para não mais voltar.Quando me refugio no vaziode um entreato e procuro a escadaque leva aos banheiros,sinto que ali poderia começar minha ausência.Instantes que […]
- [Ernesto Pérez Vallejo – A garota de preto](https://singularidadepoetica.art/2020/02/03/ernesto-perez-vallejo-a-garota-de-preto/): Hoje eu podia ter-me apaixonado por ti, apesar de tuas botas sem salto, podia até ter-te beijado assim, com o mar ao fundo, os beijos aos domingos têm um sabor distinto, mais intenso. Podia ter-te levado pelas mãos até a praia e ter-te despido docemente enquanto me ajoelhava na terra e perfumava o meu nariz. […]
- [Wislawa Szymborska - Metafísica](https://singularidadepoetica.art/2020/02/02/wislawa-szymborska-metafisica/): Foi-se, acabou-se. Foi-se, então acabou-se. Numa sequência sempre irreversível, pois essa é a regra desse jogo perdido. Conclusão banal, que já não vale escrever, não fosse um fato incontestável, um fato pelos séculos dos séculos, por todo o cosmos, como é e será, de que algo realmente foi, até que se acabou, menos isso de […]
- [Jenny Joseph - Advertência](https://singularidadepoetica.art/2020/02/01/jenny-joseph-advertencia/): Quando estiver velha, usarei roxoCom um chapéu vermelho que não combina e que não me cai bem.E torrarei minha aposentadoria em conhaques e luvas de verãoe sandálias de cetim, e direi que não temos dinheiro para manteiga.Sentarei na calçada quando me cansarE provarei amostras nas lojas e tocarei as campainhasE correrei minha bengala pelas grades […]
- [Hugo Vera Miranda – Os cavaleiros do apocalipse](https://singularidadepoetica.art/2020/01/31/hugo-vera-miranda-os-cavaleiros-do-apocalipse/): Como defender-se dos furtivos invernos que aninham as moradas obscuras do desejo? Como voltar por um instante ao tempo feroz da infância onde um velho com cara de sapo solta pombas enquanto o trem passa? Como decifrar a carícia longínqua que agora atormenta a insônia? Vamos ficando sozinhos, cercados por demônios dançarinos e um tiro […]
- [Joan Margarit - Noite escura na rua Balmes](https://singularidadepoetica.art/2020/01/30/joan-margarit-noite-escura-na-rua-balmes/): Cumpridas as ameaças e temores — hoje já todas as ruas levam à velhice —, passo defronte à clínica em que tu nasceste, vinte e seis anos atrás, em uma noite de corredores feridos pela luz. Aqui foi a tua chegada, pequena e indefesa, à praia feliz do teu sorriso, à dificuldade da palavra, às […]
- [Marianne Moore - Uma água-viva](https://singularidadepoetica.art/2020/01/29/marianne-moore-uma-agua-viva/): Visível, invisível, uma flutuante sedução que uma ametista cor de âmbar habita, se aproximam seus tentáculos, abrem e fecham; você pretendia pega-los e eles tremem; você abandona este intento. Trad.: Nelson Santander A Jelly-Fish Visible, invisible, a fluctuating charm an amber-tinctured amethyst inhabits it, your arm approaches and it opens and it closes; you had […]
- [Antonia Pozzi - Erros](https://singularidadepoetica.art/2020/01/28/antonia-pozzi-erros/): Cai graciosamente a neve sobre os cestos das floristas: embranquece os junquilhos e as violetas, as delicadas frésias vindas dos países do sol. Ao vê-las pensamos nos muitos destinos errados que sofrem pelos caminhos da terra e um furor nostálgico investe pelos caminhos de ouro da alma aonde não chega a neve. Trad.: Inês Dias […]
- [Rodrigo da Silva - Chegará um dia em que o seu coração parará de bater](https://singularidadepoetica.art/2020/01/27/rodrigo-da-silva-chegara-um-dia-em-que-o-seu-coracao-parara-de-bater/): Chegará um dia em que o seu coração parará de bater. A sua pupila dilatará. A sua pele ficará pálida e a sua temperatura corporal esfriará. Você ficará inteiramente esquálido; e então roxo. O seu sangue se tornará mais ácido com o acúmulo de dióxido de carbono. E as suas células começarão a se dividir, […]
- [Eloy Sánchez Rosillo – O segredo](https://singularidadepoetica.art/2020/01/26/eloy-sanchez-rosillo-o-segredo/): Se por acaso a alegria se assuste e se apresse em me deixar, eu a escondo das pessoas e não digo a ninguém que veio à minha casa depois de muito tempo. Falo com ela, e com frequência vê-la de novo tão próxima me faz chorar, e rio. Depois a deixo sozinha e vou para […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Naquele agora](https://singularidadepoetica.art/2020/01/25/jorge-valdes-diaz-velez-naquele-agora/): As chances de encontrar-te novamente eram remotas. Uma em um bilhão. E havendo infinitos lugares dispersos pelos números de um cálculo improvável, quem imaginaria que eu te veria naquela cantina, transformando-te na luz daqueles tempos felizes, ou isso quiseram crer, anos atrás, aqueles dois que fomos. Estavas ali, de repente e sem aviso prévio, com […]
- [Wislawa Szymborska - Terroristas](https://singularidadepoetica.art/2020/01/24/wislawa-szymborska-terroristas/): Dias inteiros eles ficam pensando como matar, para matar, e quantos matar para matar muitos. Fora isso comem com apetite, rezam, lavam os pés, alimentam os pássaros, dão telefonemas coçando o sovaco, estancam o sangue quando machucam o dedo, se são mulheres, compram absorventes, sombra para as pálpebras, flores para os vasos, todos gracejam um […]
- [Ivan Junqueira – Vésperas](https://singularidadepoetica.art/2020/01/23/ivan-junqueira-vesperas/): A tarde descortina uma paisagem híspida: no galho seco, o ninho é uma inútil relíquia que a luz do sol calcina até a estrita cinza. Gota a gota, o alambique das horas se esvazia, e dilui-se a vertigem do álcool que lhe mordia as veias retorcidas. Êxtase da agonia no crepúsculo a pino. Sob o […]
- [Rui Caeiro - Espero um dia](https://singularidadepoetica.art/2020/01/22/rui-caeiro-espero-um-dia/): Espero um dia ter de esperar-te, com a ansiedade dos que perderam tudo ou quase, menos talvez a memória E espero humildemente vir a merece-te, cometer um ato heroico e merecer-te, ser outra e a mesma pessoa – e merecer-te Espero estar bem triste para quando enfim chegares poder dar-te o mais autêntico: a memória, […]
- [Geruza Zelnys - descomedimentos](https://singularidadepoetica.art/2020/01/21/geruza-zelnys-descomedimentos/): que venha abaixo tudo que venha abaixo o que é tempestade e destruição que não sobre embarcação e vela que os raios queimem plantações e trovões arrebentem toda a terra e teu corpo se deite sobre o meu e tua boca mate toda fome minha e que versos & palavras do amor sejam ditos bem […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Só o silêncio salva](https://singularidadepoetica.art/2020/01/20/luis-alberto-de-cuenca-so-o-silencio-salva/): Só o silêncio salva, companheiro. Só o silêncio salva. Se tiveste uma noite gloriosa em que Afrodite sorriu para ti e Baco encheu-te a taça sem cessar, pensa que em breve, quando e noite se for, teus amigos voltarem para casa e começar a amanhecer, só o silêncio te salvará, rapaz. Tem isso em conta. […]
- [Arnaldo Antunes, Fernando Laszlo e Walter Silveira - Fome de Sede](https://singularidadepoetica.art/2020/01/19/arnaldo-antunes-fernando-laszlo-e-walter-silveira-fome-de-sede/)
- [Antonia Pozzi - Morte de uma estação](https://singularidadepoetica.art/2020/01/18/antonia-pozzi-morte-de-uma-estacao-2/): Choveu toda a noite sobre as memórias do verão. Ao anoitecer saímos no meio de um ribombar lúgubre de pedras e, parados na margem, levantamos as lanternas para explorar o perigo das pontes. Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas ensopadas e pousadas sobre os fios à espreita de indícios secretos de partida – e refletiam-nas […]
- [Dan Fante - [Eu conheci o mais faminto]](https://singularidadepoetica.art/2020/01/17/dan-fante-eu-conheci-o-mais-faminto/): Eu conheci o mais faminto e desprezível dos gatos enquanto sentava com um livro e meio maço de cigarros num banco em Venice Beach Ele me viu e apareceu branco sujo com um olho verde e outro amarelo e um corte recente em sua orelha desfigurada Furioso como um lobo ferido ele estabeleceu uma distância […]
- [Dylan Thomas - Colina de samambaias](https://singularidadepoetica.art/2020/01/16/dylan-thomas-colina-de-samambaias/): Quando, junto à casa em festa, sob os ramos da macieira, Eu era lépido e jovem, e feliz como era verde a relva, A noite suspensa sobre as estrelas do desfiladeiro, O tempo a permitir que eu gritasse e me erguesse, Dourado, no fulgurante apogeu de seus olhos, Eu, venerado entre as carroças, era o […]
- [Wislawa Szymborska - Vida difícil com a memória](https://singularidadepoetica.art/2020/01/15/wislawa-szymborska-vida-dificil-com-a-memoria/): Sou um péssimo público para a minha memória.Ela quer que eu ouça sua voz incessantemente,mas eu me agito, tusso,ouço e não ouço,saio, volto e saio de novo. Ela requer todo o meu tempo e atenção.Quando durmo, é fácil para ela.De dia já nem tanto, o que a magoa. Me propõe zelosamente velhas cartas, fotos,revolve fatos […]
- [A Íris Selvagem, de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2020/01/14/a-iris-selvagem-sumario/): Há livros que não se deixam atravessar como uma sequência de poemas isolados. A Íris Selvagem, de Louise Glück, é um deles. O livro se passa num jardim, mas esse jardim não é cenário. É um lugar de vozes. Flores falam. Uma consciência humana pergunta, insiste, se cansa. Uma presença divina responde, se afasta, corrige, […]
- [Louise Glück - Os lírios brancos](https://singularidadepoetica.art/2020/01/14/louise-gluck-os-lirios-brancos/): Como um homem e uma mulher fazemde um jardim entre elesum leito de estrelas, aquieles permanecem na noite de verãoe a noite se tornafria com seu pavor: tudopode acabar, tudo é capazde devastação. Tudo, tudose pode perder, pelo ar perfumadodas colunas estreitasse elevando inutilmente, e mais além,um agitado mar de papoulas — Silêncio, amada. Não […]
- [Louise Glück - O lírio dourado](https://singularidadepoetica.art/2020/01/13/louise-gluck-o-lirio-dourado/): Como percebo,estou morrendo agora e seique não falarei novamente,não sobreviverei à terra, serei convocadodela uma vez mais, ainda nãouma flor, apenas uma espinha, terra cruaaderindo às minhas costelas, eu o invoco,pai e mestre: ao redor,meus companheiras estão fraquejando, pensandoque você não os vê. Comoeles poderão saber que você os enxergaa menos que os salve?No crepúsculo […]
- [Louise Glück - Crepúsculo de Setembro](https://singularidadepoetica.art/2020/01/12/louise-gluck-setembro-crepuscular/): Eu os reuni,eu posso dispensa-los — Estou farto de vocês, do caosdo mundo dos vivos —Eu só posso me estenderpor tanto tempo a algo vivo. Convoquei-os à existênciaao abrir minha boca, ao erguermeu dedo mínimo, cintilando azuis deaster selvagem, florde lírio, imensa,com veias douradas — Vocês vêm e vão; eventualmenteesqueço seus nomes.Vocês vêm e vão, […]
- [Louise Glück - O lírio prateado](https://singularidadepoetica.art/2020/01/11/louise-gluck-o-lirio-prateado/): As noites esfriaram novamente, como as noitesdo início da primavera, e estão silenciosas outra vez. Incomoda-oconversarmos? Estamossozinhos agora; não há razão para o silêncio. Você pode ver, sobre o jardim — a lua cheia nasce.Eu não verei a próxima lua cheia. Na primavera, quando a lua surgia, significavaque o tempo era infindo. Campainhas-brancasabriam e fechavam, […]
- [Louise Glück - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2020/01/05/louise-gluck-acalanto/): Hora de descansar agora; vocêjá teve emoção suficiente por ora. Crepúsculo, depois início da noite. Vaga-lumesno quarto, cintilando aqui e ali, aqui e ali,e a profunda doçura do verão inundando através da janela aberta. Não pense mais nessas coisas.Escute minha respiração, sua própria respiraçãocomo os vaga-lumes, cada pequena respiraçãouma centelha na qual o mundo se […]
- [Louise Glück - Ocaso](https://singularidadepoetica.art/2020/01/04/louise-gluck-crepusculo/): Minha maior alegriaé o som que sua voz produzme chamando mesmo no desespero; meu desgostoé não poder responderem uma fala que você reconheça como minha. Você não tem fé em sua própria linguagem.Por isso investea reputação em sinaisque não consegue ler com precisão. E ainda assim sua voz sempre me alcança.E eu respondo incessantemente,minha raiva […]
- [Louise Glück - Vésperas (10)](https://singularidadepoetica.art/2020/01/03/louise-gluck-vesperas-10/): Fim de agosto. Calorcomo em uma estufa sobre ahorta do John. E algumas coisastêm a coragem de começar,cachos de tomates, talhõesde lírios tardios – otimismodas grandes hastes – ouroe prata imperiais: mas por queiniciar algotão perto do fim?Tomates que nunca amadurecerão, líriosque o inverno matará, que nãoretornarão na primavera. Ouvocê acha queeu passo tempo demaispensando […]
- [Rebecca Elson – Antídotos para o medo da morte](https://singularidadepoetica.art/2020/01/03/rebecca-elson-antidotos-para-o-medo-da-morte-poema/): Às vezes, como um antídotoPara o medo da morte,Eu como as estrelas. Nessas noites, deitada de costas,Eu as sorvo da escuridão que se dissipaAté que estejam todas, todas elas dentro de mim,Fortes e picantes. Às vezes, ao invés disso, eu me entregoA um universo ainda jovem,Ainda quente como o sangue: Nenhum espaço sideral, apenas o […]
- [Louise Glück - Vésperas (9)](https://singularidadepoetica.art/2020/01/02/louise-gluck-vesperas-9/): Sua voz se foi agora; mal consigo ouvi-la.Sua voz estrelada é apenas sombra agorae a terra está escura novamentecom suas grandes transformações. E de dia a grama fica parda em alguns pontossob as amplas sombras dos carvalhos.Agora, por toda parte, sou assunto para o silêncio, então está claro que não tenho acesso a você;Não existo […]
- [Louise Glück - Vésperas: Parousia](https://singularidadepoetica.art/2020/01/01/louise-gluck-vesperas-parousia/): Amor da minha vida, vocêEstá perdido e eu souJovem novamente. Alguns anos se passaram.O ar se encheCom música de meninas;No jardim da frenteA macieiraSe cobre de flores. Eu tento reconquista-lo.É esse o propósitoDa escrita.Mas você se foi para sempre.Como nos romances russos, dizendoAlgumas palavras das quais não me lembro – Quão exuberante é o mundo,Quão […]
- [Louise Glück - Vésperas (7)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/31/louise-gluck-vesperas-7/): Eu sei o que você planejou, o que pretendia ao me ensinara amar o mundo, tornando impossívelvirar completamente as costas, excluí-lo completamente para sempre –está por toda parte; quando fecho os olhos,no canto dos pássaros, no aroma de lilases no início da primavera, no aroma de rosas no verão:você quer arrancar de mim cada flor, […]
- [Louise Glück - Luz em retirada](https://singularidadepoetica.art/2019/12/30/louise-gluck-luz-em-retirada/): Vocês eram como crianças pequenas,sempre esperando por uma história.E eu já havia passado por tudo aquilo muitas vezes;eu estava cansado de contar histórias.Então eu lhes dei papel e lápis.Eu lhes dei canetas feitas de juncos queeu mesmo havia reunido, à tarde, nos densos prados.E lhes disse: escrevam sua própria história. Depois de todos estes anos […]
- [Louise Glück - Presque Isle](https://singularidadepoetica.art/2019/12/29/louise-gluck-presque-isle/): Em cada vida, há um momento ou dois.Em cada vida, um quarto em algum lugar, à beira-mar ou nas montanhas. Sobre a mesa, um prato de damascos. Caroços em um cinzeiro branco. Como todas as imagens, essas foram as condições de um pacto:em seu rosto, o tremor da luz do sol,meu dedo pressionando seus lábios.As […]
- [Louise Glück - Ipomoea](https://singularidadepoetica.art/2019/12/28/louise-gluck-ipomoea/): Qual foi o meu crime em outra vida,como nesta vida meu crimeé a dor, de modo que não me épermitido ascender novamente,nunca em nenhum sentidome é permitido repetir minha vida,ferida no espinheiro, todabeleza terrena um castigotão meu quanto seu —Fonte do meu sofrimento, por quevocê tirou de mimestas flores celestes, salvopara me marcar como partedo […]
- [Louise Glück - A rosa branca](https://singularidadepoetica.art/2019/12/27/louise-gluck-a-rosa-branca/): É esta a terra? Entãoeu não pertenço a este lugar. Quem é você na janela acesa,sombreado agora pelas folhas trêmulasde uma viburnum lantana1?Você pode sobreviver onde eu não durareialém do primeiro verão? Ao longo da noite, os ramos finos da árvoremovem-se e farfalham na janela iluminada.Explique minha vida para mim, você que não faz sinal […]
- [Louise Glück - Colheita](https://singularidadepoetica.art/2019/12/26/louise-gluck-safra/): Entristece-me pensar em vocês no passado — Olhe para vocês, agarrando-se cegamente à terracomo se fossem os vinhedos do paraísoenquanto os campos ardem ao redor — Ah, pequeninos, como são pouco sutis:isso é ao mesmo tempo o dom e o tormento. Se o que temem na morteé uma punição além disso, não precisamtemer a morte: […]
- [Louise Glück - Escuridão Inicial](https://singularidadepoetica.art/2019/12/25/louise-gluck-trevas-primitivas/): Como podem afirmarque a terra deveria me dar alegria? Cada coisanascida é meu fardo; não posso prosperarcom todos vocês. E vocês gostariam de ditar para mim,gostariam de me dizerquem entre vocês é mais valioso,quem mais se assemelha a mim.E apresentam como exemploa vida pura, o desapegoque lutam para alcançar — Como vocês podem me entenderquando […]
- [Louise Glück - Vésperas (6)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/24/louise-gluck-vesperas-6/): Você pensou que nós não soubéssemos. Mas nós sabíamos,as crianças sabem dessas coisas. Não vire as costas agora – nós habitávamosuma mentira para apaziguá-lo. Eu me lembroda luz do sol do início da primavera, os taludesreticulados por vincas roxas. Eu me lembrode me deitar em um campo, roçando o corpo de meu irmão.Não vire as costas […]
- [Louise Glück - Vésperas (5)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/23/louise-gluck-vesperas-5/): Assim como você apareceu para Moisés, porqueeu necessito de você, você aparece para mim,raramente, porém. Eu vivo essencialmentenas trevas. Você talvez esteja me treinando para sermais responsiva ao menor clarão. Ou, como os poetas,será que o desespero o estimula, o sofrimentoo leva a revelar sua natureza? Esta tarde,no mundo material ao qual você normalmentecontribui com […]
- [Louise Glück - Vésperas (4)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/22/louise-gluck-vesperas-4/): Eu não me pergunto mais onde você está.Você está no jardim; você está onde John está,na terra, absorto, segurando sua pequena pá verde.É assim que ele jardina: quinze minutos de intenso esforço,quinze minutos de estática contemplação. Às vezes,trabalho ao lado dele, fazendo as tarefas à sombra,capinando, esfolhando as alfaces; às vezes, o observodo alpendre próximo […]
- [Louise Glück - Fim de verão](https://singularidadepoetica.art/2019/12/21/louise-gluck-fim-de-verao/): Depois de tudo o que me ocorreu,o vazio me ocorreu. Há um limitepara o prazer que tive na forma — Eu não sou como vocês nisso,Não tenho liberdade em outro corpo, Não precisode abrigo fora de mim — Minha pobre inspiradacriação, vocês sãodistrações, enfim,meras limitações; no final,vocês são muito pouco parecidas comigopara me agradar. E […]
- [Louise Glück - Margaridas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/20/louise-gluck-margaridas/): Vá em frente: diga o que está pensando. O jardimnão é o mundo real. As máquinassão o mundo real. Diga francamente o que qualquer tolo podeler em seu rosto: faz todo sentidoevitar-nos, resistirà nostalgia. Não ésuficientemente moderno, o som que o vento produzagitando um campo de margaridas: a mentenão pode brilhar ao segui-lo. E a […]
- [Louise Glück - Vésperas (3)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/19/louise-gluck-vesperas-3/): Para além de mim, muito provavelmentevocê ama ainda mais as criaturas do campo; talvez, até o próprio campo, pontilhado em agostode chicórias-bravas e ásteres.Eu sei. Eu me compareia essas flores, com seu leque de sentimentostão menores e sem problemas; assim como à ovelha branca,na verdade, cinzenta: eu sou particularmenteapta a louva-lo. Então por quevocê me […]
- [Louise Glück - Vésperas (2)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/18/louise-gluck-vesperas-2/): Em sua prolongada ausência, você me permiteusar a terra, antecipandoalgum retorno sobre o investimento. Devo reportarque falhei em minha missão, principalmenteem relação à plantação de tomates.Acho que não devo ser encorajada a cultivartomates. Ou, se o for, você você deveria reteras fortes chuvas, as gélidas noites que sãotão comuns por aqui, enquanto outras regiões desfrutamde […]
- [Louise Glück – Vésperas (1)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/17/louise-gluck-vesperas-1/): Uma vez acreditei em você; plantei uma figueira.Aqui, em Vermont, uma terraque desconhece o verão. Era um teste: se a árvore sobrevivesse,isso provaria que você existe. Segundo essa lógica, você não existe. Ou existeexclusivamente em climas mais quentes,na fervorosa Sicília, no México e na Califórnia,onde crescem o inimagináveldamasco e o vulnerável pêssego. Talvezvejam sua face […]
- [Louise Glück - Solstício de verão](https://singularidadepoetica.art/2019/12/16/louise-gluck-solsticio-de-verao/): Como posso ajuda-los quando todos desejamcoisas distintas — luz do sol e sombra,tempo seco e umidade sombria — Ouçam a si próprios, competindo uns com os outros — E se perguntampor que desespero por vocês,achando que algo pode fundi-los em um todo — o ar imóvel do auge do verãoentrelaçado com mil vozes cada qual […]
- [Louise Glück - A porta de entrada](https://singularidadepoetica.art/2019/12/15/louise-gluck-a-entrada/): Eu queria permanecer como eu era,imóvel como o mundo raramente fica,não no solstício de verão, mas no momento anteriorà flor fundamental se formar, o momentoem que nada ainda é passado — não o solstício de verão, intoxicante,mas a tardia primavera, a grama ainda nãoalta nos limites do jardim, as primeiras tulipascomeçando a desabrochar — como […]
- [Louise Glück - Céu e terra](https://singularidadepoetica.art/2019/12/14/louise-gluck-ceu-e-terra/): Onde um acaba, a outra começa.No alto, uma faixa de azul; abaixo,uma faixa de verde e dourado, verde e rosa profundo. John está no horizonte: ele querambos ao mesmo tempo, ele quertudo de uma vez. Os extremos são fáceis. Apenaso meio é um enigma. Meio do verão —tudo é possível. Significado: a vida nunca mais […]
- [Louise Glück - Matinas (7)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/13/louise-gluck-matinas-7/): Não apenas o sol mas a própriaterra brilha, fogo brancoirrompendo das imponentes montanhase da estrada planatremeluzindo nas primeiras horas da manhã: será issoapenas para nós, para provocar umaresposta, ou você tambémfica mexido, incapazde se conterna presença da terra? Sinto vergonhado que eu pensava que você fosse,distante de nós, nos observandocomo um experimento: éamargo sero animal […]
- [Louise Glück - Trevo](https://singularidadepoetica.art/2019/12/12/louise-gluck-trevo/): O que está dispersoentre nós, que você chamade sinal de bem-aventurança,embora seja, como nós,uma erva daninha, uma coisapara ser extirpada — qual lógicao faz reterum único brotode algo que desejamorto? Se há alguma presença entre nóstão poderosa, não deveria elase multiplicar, a serviçodo adorado jardim? Você mesmo deveriaestar fazendo essas perguntas,não deixando-aspara suas vítimas. Você […]
- [Louise Glück - A papoula vermelha](https://singularidadepoetica.art/2019/12/11/louise-gluck-a-papoula-vermelha/): O melhor de tudoé não teruma mente. Sentimentos:oh, eu os tenho; elesme governam. Tenhoum senhor no céuchamado sol, e me abroa ele, mostrando-lheo fogo do meu próprio coração, ardentecomo a sua presença.O que poderia ser tal glóriase não um coração? Oh meus irmãos e irmãs,vocês já foram como eu, tempos atrás,antes de se tornarem humanos?Já […]
- [Louise Glück - Campo de flores](https://singularidadepoetica.art/2019/12/10/louise-gluck-campo-de-flores/): O que você está dizendo? Que desejavida eterna? Seus pensamentos realmentesão tão convincentes assim? Certamentevocê não nos vê, não nos ouve,mancha de solem sua pele, póde ranúnculos amarelos: estoufalando com você, aí, olhando fixamenteatravés das barras de grama alta que agitamseus pequenos chocalhos — Óalma! a alma! É suficienteapenas olhar para dentro? O desprezopela humanidade […]
- [Louise Glück - Canção](https://singularidadepoetica.art/2019/12/09/louise-gluck-cancao/): Como um coração blindado,o botão vermelho-vivoda rosa silvestre começaa desabrochar no ramo mais baixo,sustentado pela malhareticulada de um arbusto robusto:ela floresce contra a escuridão,que é o cenário constante do coração, enquanto as floresmais acima murcham ou apodrecem;sobreviverà adversidade apenasacentua sua cor. Mas Johnobjeta, ele acredita quese isto não fosse um poema, massim um jardim de […]
- [Louise Glück - Matinas (6)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/08/louise-gluck-matinas-6/): O que é o meu coração para vocêque precisa parti-lo repetidas vezescomo um jardineiro testandosua nova espécie? Pratiqueem algo diferente: como posso viverem colônias, como você prefere, se impõeuma quarentena de aflição, apartando-mede membros saudáveis deminha própria tribo? Você não faz issono jardim, não segregaa rosa doente; permite que ela balance suas sociáveisfolhas infestadas nosrostos […]
- [Louise Glück - Matinas (5)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/07/louise-gluck-matinas-5/): Quer saber como passo o meu tempo?Eu caminho pelo jardim, fingindoque estou capinando. Deve saberque nunca estou capinando, de joelhos, extirpandotufos de trevos dos canteiros de flores: na verdade,estou em busca de coragem, de alguma evidênciade que minha vida irá mudar, ainda queisso leve uma eternidade, verificandocada touceira em busca da folhasimbólica, e logo o […]
- [Louise Glück - A Escada de Jacó](https://singularidadepoetica.art/2019/12/06/louise-gluck-a-escada-de-jaco/): Preso à terra,você também não gostaria dealcançar o céu? Eu habitoo jardim de uma senhora. Perdoe-me senhora;o anseio roubou minha graça. Não souo que você esperava. Mascomo homens e mulheres parecemdesejar uns aos outros, também desejoconhecer o paraíso — e agorasua dor, uma haste nuaalcançando a vidraça da varanda.E no final, o quê? Uma pequena […]
- [Louise Glück - Capim-das-bruxas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/05/louise-gluck-witchgrass/): Algoindesejado chega ao mundoclamando desordem, desordem — Se você me odeia tantonão se dê ao trabalho de me darum nome: você precisade mais um insultoem sua língua, outramaneira de culparuma tribo por tudo — pois ambos sabemos,se você cultuaum deus, só precisade um inimigo — Eu não sou o inimigo.Apenas um pretexto para ignoraro que […]
- [Louise Glück - Violetas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/04/louise-gluck-violetas/): Porque em nosso mundosempre há algo oculto,pequeno e branco,pequeno e o que você chama depuro, nós não lamentamoscomo você, caromestre sofredor; vocênão está mais perdidodo que nós, sobo espinheiro, o espinheiro segurandobandejas equilibradas de pérolas: o queo trouxe até nóspara que possamos ensina-lo, sevocê se ajoelhar e chorar,apertando suas grandes mãos,em toda sua grandeza, sem […]
- [Louise Glück - Abril](https://singularidadepoetica.art/2019/12/03/louise-gluck-abril/): O desespero de mais ninguém é como o meu desespero — Vocês não têm lugar neste jardimpensando em tais coisas, emitindocansativos sinais exteriores; o homemdesmatando intencionalmente uma floresta inteira,a mulher mancando e se recusando a trocar de roupasou lavar os cabelos. Acham que eu me importose vocês conversarem um com o outro?Mas quero que saibamque […]
- [Louise Glück - Amor ao luar](https://singularidadepoetica.art/2019/12/02/louise-gluck-amor-ao-luar/): Às vezes, um homem ou uma mulher impõe seu desesperoa outra pessoa, o que é chamado deabrir o coração, ou alternativamente, desnudar a alma —o que significa que, neste momento, eles adquiriram almas —lá fora, em uma noite de verão, um mundo inteiroderramado sobre a lua: grupos de formas prateadasque podem ser edifícios ou árvores, […]
- [Louise Glück - O espinheiro](https://singularidadepoetica.art/2019/12/01/louise-gluck-o-espinheiro/): Lado a lado, não demãos dadas: eu os observocaminhando no jardim de verão — coisasque não podem se moveraprendem a ver; não é necessáriopersegui-los pelojardim; seres humanos deixamsinais de sentimentospor toda parte, floresespalhadas no caminho de terra, todasbrancas e douradas, algumaslevemente erguidas pelosventos da tarde; não é necessáriosegui-los até onde vocês estão agora,nas profundezas do […]
- [Louise Glück - O jardim](https://singularidadepoetica.art/2019/11/30/louise-gluck-o-jardim/): Eu não poderia fazê-lo de novo,Mal posso olhar para isso — no jardim, sob a chuva leve,o jovem casal plantauma fieira de ervilhas,como se ninguém jamais o tivesse feito antes,as grandes dificuldades ainda nãoforam enfrentadas e resolvidas — Eles não conseguem se ver,na terra fresca, começandosem perspectiva,as colinas verde-claras atrás deles, encobertas pelas flores — […]
- [Louise Glück - Vento em retirada](https://singularidadepoetica.art/2019/11/29/louise-gluck-vento-em-retirada/): Quando os criei, eu os amava.Agora sinto pena de vocês. Dei-lhes tudo o que precisavam:leito de terra, manto de ar azul — À medida que me afasto de vocês,vejo-os com mais clareza.Suas almas deveriam ser vastas agora,não o que são,pequenas criaturas tagarelas — Dei a vocês todas as dádivas,o azul das manhãs de primavera,o tempo […]
- [Louise Glück - Scilla](https://singularidadepoetica.art/2019/11/28/louise-gluck-scilla/): Não eu, seu tolo, não eu-mesma, mas nós, nós – ondasde céu azul comouma crítica do firmamento: por quevocês valorizam tanto suas vozesquando ser algoé ser quase nada?Por que olham para cima? Para ouvirum eco como a vozde deus? Vocês são todos iguais para nós,solitários, pairando acima de nós, planejandosuas vidas tolas: vocês vãoonde são […]
- [Louise Glück - Matinas (4)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/27/louise-gluck-matinas-4/): Percebo que com você é como com as bétulas:não posso lhe falarde maneira pessoal. Muitose passou entre nós. Ousempre foi apenas de um lado? Euerrei, eu errei, eu lhe pedipara ser humano – não sou mais carentedo que as outras pessoas. Mas a ausênciade todo sentimento, da menorpreocupação por mim – poderia muito bem continuardirigindo-me […]
- [Louise Glück - Matinas (3)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/26/louise-gluck-matinas-3/): Perdoe-me se eu disser que o amo: os poderosossempre são enganados, já que os fracos são sempreguiados pelo pânico. Não posso amaro que não consigo conceber, e você revelapraticamente nada: é como o espinheiro,sempre a mesma coisa no mesmo lugar,ou está mais para a dedaleira, inconstante, brotando primeiroum espigão rosa na encosta atrás das margaridas,e […]
- [Louise Glück - Fim de inverno](https://singularidadepoetica.art/2019/11/25/louise-gluck-fim-de-inverno/): Sobre o mundo ainda, um pássaro cantadespertando solitário entre ramos escuros. Vocês desejaram nascer; eu permiti que nascessem.Quando minha dor alguma vezinterferiu em seu prazer? Mergulhandona escuridão e na luz ao mesmo tempo,sedentos por sensações como se fossem algo novo, querendose expressar com todo brilho, toda vivacidade nunca imaginandoque isso lhes custaria algo,nunca concebendo o […]
- [Louise Glück - Neve de primavera](https://singularidadepoetica.art/2019/11/24/louise-gluck-neve-de-primavera/): Olhe para o céu noturno:tenho dois eus, duas formas de poder. Estou aqui com você, à janela,observando sua reação. Ontema lua se ergueu sobre a terra úmida no jardim de baixo.Agora a terra reluz como a lua,como matéria morta crivada de luz. Você pode fechar os olhos agora.Ouvi seus clamores, e os clamores antes dos […]
- [Louise Glück - Manhã clara](https://singularidadepoetica.art/2019/11/23/louise-gluck-manha-clara/): Eu já os observei por tempo suficiente,posso me dirigir a vocês do jeito que eu quiser — Tenho me submetido às suas preferências, observando pacientementeas coisa que vocês amam, comunicando-me apenas através de veículos, emdetalhes da terra, como preferem, gavinhasde clematis azul, luz de fim de tarde —vocês jamais aceitariam uma voz como a minha, […]
- [Louise Glück - Flores-de-neve](https://singularidadepoetica.art/2019/11/22/louise-gluck-snowdrops/): Você sabe o que eu era, como eu vivia? Você sabeo que é o desespero? Entãoo inverno deve ter um significado para você. Eu não esperava sobreviver,a terra me sufocando. Não esperavadespertar outra vez, sentirna terra úmida meu corpocapaz de responder outra vez, lembrandoapós tanto tempo como brotar outra vezna luz friada primavera mais precoce […]
- [Louise Glück - Lamium](https://singularidadepoetica.art/2019/11/21/louise-gluck-lamium/): Assim se vive quando se tem um coração frio.Como eu: nas sombras, arrastando-se sobre a rocha fria,sob os grandes carvalhos. O sol mal me toca.Às vezes o avisto no início da primavera, surgindo muito distante.Então as folhas crescem sobre ele, ocultando-o completamente. Eu o sintobrilhando por entre aas folhas, errático,como alguém batendo na lateral de […]
- [Manuel António Pina - Sob Escombros](https://singularidadepoetica.art/2018/10/20/manuel-antonio-pina-sob-escombros/): Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir o silêncio do mundo pulsando onde tu também eras mundo, coisa pulsante. Extinguiu-se esse canto não na morte mas na vida excluída da clarividência da infância e de tudo o que pulsa, fins e começos, e corrompida pela estridência e pela heterogeneidade. Agora respondes […]
- [John Mateer - s/ título](https://singularidadepoetica.art/2018/10/19/john-mateer-a-sede-entre-os-limites/): Este poema vai ser escrito com um livro de fotografias em mente, comemorando esse retrato da jovem estudante de história de arte que se tornaria a mulher do fotógrafo, a mãe do seu filho, ela que se atiraria de uma janela do apartamento deles, e que, por ter existido, proliferaria, como tudo o que pode […]
- [Jaime Sabines - Algo sobre a Morte do Major Sabines](https://singularidadepoetica.art/2018/10/18/jaime-sabines-algo-sobre-a-morte-do-major-sabines/): Primeira Parte I Deixa-me repousar, relaxar os músculos do coração e colocar a alma para dormir para poder falar, para poder recordar estes dias, os mais longos dos tempos. Mal convalescemos da angústia e estamos fracos, assustados, despertando duas ou três vezes do nosso escasso sonho para ver-te na noite e saber que respiras. Precisamos […]
- [Vitor Nogueira - Domingo](https://singularidadepoetica.art/2018/10/17/vitor-nogueira-domingo/): Acordamos com o céu encostado no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam o domingo, a partir do alto das montanhas. E aqui continuamos, agarrados a nós próprios, como dois miúdos que não têm para onde ir. Estamos presos ao sofá unicamente porque sim, nem tristes nem alegres, metidos no roupão e nos chinelos, pequenos cadeados […]
- [Antonia Pozzi - Desalento](https://singularidadepoetica.art/2018/10/16/antonia-pozzi-desalento/): Tristeza destas minhas mãos demasiado pesadas para não abrirem feridas, demasiado leves para deixarem marca – tristeza desta minha boca que diz as mesmas palavras que tu – significando outras coisas – e esta é a expressão da mais desesperada distância. Trad.: Inês Dias Sfiducia Tristezza di queste mie mani troppo pesanti per non aprire […]
- [Nuno Júdice - Outra Imagem](https://singularidadepoetica.art/2018/10/15/nuno-judice-outra-imagem/): Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terra Por cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos. Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomes Familiares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros – música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campas ao fim da tarde, com […]
- [Joan Margarit - A moça do semáforo](https://singularidadepoetica.art/2018/10/14/joan-margarit-a-moca-do-semaforo/): Tens a mesma idade que eu tinha quando comecei a sonhar em encontrar-te. Então ignorava, assim como tu o ignoras, que o amor se transforma na arma carregada de solidão e de melancolia que agora está apontada para ti nos meus olhos. Tu és a moça que busquei durante tanto tempo quando ainda não existias. […]
- [Manuel António Pina - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2018/10/13/manuel-antonio-pina-os-mortos/): Eu sei, é preciso esquecer, desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los, os nossos mortos anseiam por morrer e só a nossa dor pode matá-los. Tanta memória! O frenesim escuro das suas palavras comendo-me a boca, a minha voz numerosa e rouca de todos eles desprendendo-se de mim. Porém como esquecer? Com que palavras […]
- [Alfonsina Storni - Leva-me](https://singularidadepoetica.art/2018/10/12/alfonsina-storni-leva-me/): Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar; Ata-me a tua alma; a alva a brilhar. Toma-me pelas mãos como em um branco casulo E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho. Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!… A morte caça pelo mundo tal qual harpia. Faz-me esquecer o muito que me […]
- [Mário Cesariny - "de profundis amamus"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/11/mario-cesariny-de-profundis-amamus/): Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidos por natureza própria Andámos dez quilómetros a pé ninguém nos viu passar excepto claro os porteiros é da natureza das coisas ser-se visto pelos porteiros Olha como só tu sabes olhar a rua os costumes O […]
- [Rui Pires Cabral – Nunca se Sabe](https://singularidadepoetica.art/2018/10/10/rui-pires-cabral-nunca-se-sabe/): Papéis velhos com poemas: são o joio das gavetas. Relê-los causa aversão e uma espécie de tristeza arrependida – são tão nossos como as más recordações e ainda vemos a circunstância precisa, a causa, a ferida, por detrás de cada um. Mas na altura havia esperança: é isso que representam. Não pelas coisas que dizem […]
- [Amalia Bautista – Ver o Sol](https://singularidadepoetica.art/2018/10/09/amalia-bautista-ver-o-sol/): Leia "Ver o Sol", de Amalia Bautista, um poema breve e intenso sobre desilusão amorosa, percepção e as difíceis verdades da experiência humana.
- [José Mateos - Caminhantes na Neblina](https://singularidadepoetica.art/2018/10/08/jose-mateos-caminhantes-na-neblina/): Símbolo da morte é esta neblina que hoje me envolve nos ecos do bosque solitário, que apaga os caminhos e tudo iguala, que faz mais longe o próximo? Assim será a morte? Ouvir ao lado as pessoas que amamos e não vê-las? Saber que em nossa casa nos aguardam, e não poder, e não saber […]
- [José Tolentino Mendonça – Calle Principe, 25](https://singularidadepoetica.art/2018/10/07/jose-tolentino-mendonca-calle-principe-25/): Perdemos repentinamente a profundidade dos campos os enigmas singulares a claridade que juramos conservar mas levamos anos a esquecer alguém que apenas nos olhou
- [Angela Figuera Aymerich - Princípio e Fim (na morte de minha mãe)](https://singularidadepoetica.art/2018/10/06/angela-figuera-aymerich-principio-e-fim-na-morte-de-minha-mae/): Já tenho minha raiz debaixo da terra. Já um pouco morta contigo, mãe, há algo da minha vida que se decompõe contigo, com teus ossos delicados, com tuas veias azuis, com teu ventre que côncavo sofreu, dando-me forma. Na ignorância, mãe, não no pecado mostraste-me como a vida brota. Como a carne cresce e se […]
- [Spencer Reece - Portofino](https://singularidadepoetica.art/2018/10/05/spencer-reece-portofino/): Prometa-me que você não esquecerá Portofino. Prometa-me que você encontrará o trompe l’oeil nas paredes daquele quarto no Splendido. As paredes que criam um cenário em que você não pode entrar. Talvez então você compreenda esse anseio por permanência do qual sempre lhe falei. Além do porto? Uma capela amarela. Um penhasco. Prometa-me que você […]
- [Jesús Jiménez Domínguez - A Ponte no Nevoeiro](https://singularidadepoetica.art/2018/10/04/jesus-jimenez-dominguez-a-ponte-no-nevoeiro/): Detenho-me a meio do caminho e ouço. Num extremo aquele que fui grita-me: Espera-me! No outro, aquele que serei sussurra-me: Segue-me. E a ponte, eterna, não aguenta o peso dos três. Trad.: Maria Sousa El Puente en la Niebla Me detengo a mitad del recorrido y escucho. En un extremo aquel que fui me grita: […]
- [José Gomes Ferreira - Viver Sempre Também Cansa!](https://singularidadepoetica.art/2018/10/03/jose-gomes-ferreira-viver-sempre-tambem-cansa/): Viver sempre também cansa! O sol é sempre o mesmo e o céu azul ora é azul, nitidamente azul, ora é cinza, negro, quase verde… Mas nunca tem a cor inesperada. O Mundo não se modifica. As árvores dão flores, folhas, frutos e pássaros como máquinas verdes. As paisagens não se transformam Não cai neve […]
- [Chico Amaral e Samuel Rosa - As Noites](https://singularidadepoetica.art/2018/10/02/chico-amaral-e-samuel-rosa-as-noites-2/): As ruas desse lugar Conhecem bem As noites longas, as noites pálidas Quando eu te procurava As casas desse lugar Se lembrarão Do nosso abraço, da sombra insólita Espelho azul no chão As ruas desse lugar Agora eu sei Sempre escutaram a nossa música Quando eu te respirava As pedras municipais Se impregnaram Da dupla […]
- [Pierre de Ronsard - Quando fores bem velha...](https://singularidadepoetica.art/2018/10/01/pierre-de-ronsard-quando-fores-bem-velha/): Quando fores bem velha, à noite junto à vela, Sentada ao pé do fogo, enovelando e fiando, Dirás, cantando os versos meus e te enlevando: “Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela”. Então nem haverá, ouvindo o recital, Serva, ao fim do trabalho e semi-sonolenta, Que, com som do meu nome, não desperte […]
- [Joan Margarit - Era Rubra](https://singularidadepoetica.art/2018/09/30/joan-margarit-era-rubra/): A Àlex Susanna Tanto tempo demoraste a aprender que estás atrasado para o grande amor: que nunca viveste uma era de ouro. As rosas de Ronsard jamais serão perfume em teu olhar, nenhum outono haverá de desfolhar morosas pétalas nos braços de ninguém. Com negligência tapas os espelhos como era costume em casas onde havia […]
- [Joan Margarit - A partida](https://singularidadepoetica.art/2018/09/29/joan-margarit-a-partida/): Definitivamente, este é o meu Outono, um tempo de alianças impossíveis, a era rubra de todos os perigos para homens maduros e mulheres solitárias. A idade do adultério e da desmemória sem nenhuma esperança, a era do gelo, a partida final contra mim mesmo. Mantenho-me à mesa, sem esperar pela sorte, já não há chances […]
- [Manuel António Pina - Estarei ainda muito perto da luz?](https://singularidadepoetica.art/2018/09/28/manuel-antonio-pina-estarei-ainda-muito-perto-da-luz/): Estarei ainda muito perto da luz? Poderei esquecer estes rostos,estas vozes, e ficar diante do meu rosto? Às vezes,como num sonho, vejo formas como um rosto e pergunto: “De quem é este rosto?” E ainda: “Quem pergunta isto?” E: “E com quem fala?” Estarei ainda longe de Ti, quem quer que sejas ou eu seja? […]
- [Maria do Rosário Pedreira – O Último Abraço](https://singularidadepoetica.art/2018/09/27/maria-do-rosario-pedreira-o-ultimo-abraco/): Este foi o nosso último abraço. E quando, daqui a nada, deixares o chão desta casa encostarei amorosamente os lábios ao teu copo para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos. E então, sim, poderei também eu partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida foi mais, muito mais, do que mereci.
- [Bruno Gouveia e Miguel Cunha – Impossível](https://singularidadepoetica.art/2018/09/26/bruno-gouveia-e-miguel-cunha-impossivel/): Biquíni Cavadão Tudo bem quando termina bem E os seus olhos, e os seus olhos não estão rasos d’água Mas eu sei que no coração ficaram muitas palavras Um vocabulário inteiro de ilusão Tudo que viceja também pode agonizar E perder seu brilho em poucas semanas E não podemos evitar que a vida trabalhe com […]
- [Giuseppe Ghiaroni – A máquina de escrever](https://singularidadepoetica.art/2018/09/25/giuseppe-ghiaroni-a-maquina-de-escrever/): Mãe, se eu morrer de um repentino mal, vende meus bens a bem dos meus credores: a fantasia de festivas cores que usei no derradeiro Carnaval. Vende esse rádio que ganhei de prêmio por um concurso num jornal do povo, e aquele terno novo, ou quase novo, com poucas manchas de café boêmio. Vende também […]
- [Pedro Mexia – Paráfrase](https://singularidadepoetica.art/2018/09/24/pedro-mexia-parafrase/): Este poema começa por te comparar com as constelações, com os seus nomes mágicos e desenhos precisos, e depois um jogo de palavras indica que sem ti a astronomia é uma ciência infeliz. Em seguida, duas metáforas introduzem o tema da luz e dos contrastes petrarquistas que existem na mulher amada, no refúgio triste da […]
- [David Mourão-Ferreira - Praia do Paraíso](https://singularidadepoetica.art/2018/09/23/david-mourao-ferreira-praia-do-paraiso/): Era a primeira Vez que nus os nossos corpos Apesar da penumbra à vontade se olhavam Surpresos de saber que tinham tantos olhos Que podiam ser luz de tantos candelabros Era a primeira vez cerrados os estores Só o rumor do mar permanecera em casa E sabias a sal, e cheiravas a limos Que tivesses […]
- [Antonia Pozzi - Canto da Minha Nudez](https://singularidadepoetica.art/2018/09/22/antonia-pozzi-canto-da-minha-nudez/): Olha para mim: estou nua. Da inquieta languidez da minha cabeleira até à tensão fina do meu pé, sou toda de uma magreza amarga envolta numa cor de marfim. Olha: como é pálida a minha carne. Dir-se-ia que o sangue não a percorre. O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida pulsação azul se esbate no […]
- [Amalia Bautista – Contra 'Remedia Amoris'](https://singularidadepoetica.art/2018/09/21/amalia-bautista-contra-remedia-amoris/): Não sou desse género de mulheresincapazes de amor e de ternura.Odeio o sacrifício e repugna-mea vaidade que nasce da violência,mas sei o que é valor e o que é sangue.Quero ser a mulher de um mercenário,de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.Porque sei olhar nos olhos dos homens.Conheço quem merece a minha ternura. […]
- [Eugénio de Andrade – As Mãos](https://singularidadepoetica.art/2018/09/20/eugenio-de-andrade-as-maos/): Que tristeza tão inútil essas mãos que nem sequer são flores que se dêem: abertas são apenas abandono, fechadas são pálpebras imensas carregadas de sono.
- [João Cabral de Melo Neto – de "Os Três Mal Amados"](https://singularidadepoetica.art/2018/09/19/joao-cabral-de-melo-neto-de-os-tres-mal-amados/): Trecho de “Os Três Mal Amados”, de João Cabral de Melo Neto, em que o amor surge como força devoradora que corrói identidade, memória e futuro, deixando o sujeito reduzido à própria perda.
- [Rui Pires Cabral - «He loved beauty that looked kind of destroyed»](https://singularidadepoetica.art/2018/09/18/rui-pires-cabral-he-loved-beauty-that-looked-kind-of-destroyed/): Gostava dessa espécie de beleza que podemos surpreender a cada passo, desvelada pelo acaso numa esquina de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta que foi toda a infância de alguém, com visitas ao domingo e tardes no quintal depois da escola; a beleza crepuscular de alguns rostos num retrato de família a preto e […]
- [Nuno Júdice - Como Aves, Cuja Passagem](https://singularidadepoetica.art/2018/09/17/nuno-judice-como-aves-cuja-passagem/): Como sombras passaram entre nós, como sombras. Uma vez perante alguns amigos e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei os seus nomes. Mas o que não correspondia a um acto heroico, nada significava hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. Só se eu próprio me tornar uma sombra, e também eu passar a uma outra vida. Durante […]
- [Hilda Hilst : Dez chamamentos ao amigo](https://singularidadepoetica.art/2018/09/16/hilda-hilst-dez-chamamentos-ao-amigo/): I Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. E era como se a água Desejasse Escapar de sua casa que é o rio E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há um tempo Entendo que sou terra. Há tanto […]
- [Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe](https://singularidadepoetica.art/2018/09/15/tamara-kamenszain-o-eco-de-minha-mae/): Não posso narrar. Que pretérito me serviria se minha mãe já não se afasta mais de mim? Exúbere então me detenho ante um estado de coisas demasiado presente: ser a descuidada que dela cuida enquanto outros a negligenciam por mim. São as pessoas que me restaram e a gramática se torna um escândalo quando ela […]
- [Anna Akhmátova – Último Brinde](https://singularidadepoetica.art/2018/09/14/anna-akhmatova-ultimo-brinde/): Bebo ao lar em pedaços,À minha vida feroz,À solidão dos abraçosE a ti, num brinde, ergo a voz… Ao lábio que me traiu,Aos mortos que nada veem,Ao mundo, estúpido e vil,A Deus, por não salvar ninguém. Trad.: Rubens Figueiredo Последний тост Я пью за разоренный дом,За злую жизнь мою,За одиночество вдвоем,И за тебя я […]
- [Rui Lage - EN 314](https://singularidadepoetica.art/2018/09/13/rui-lage-en-314/): Ardidas há muito as velas de ignição que davam centelha ao meu antigo e primeiro coração. Agora sou apenas um ponto morto, sem tração: rolo sem atrito mas também sem aflição. A estrada adormece em bosques propícios a emboscadas, mas já não tenho crenças que mereçam ser cobiçadas. E os meus sonhos, até os meus […]
- [Albano Martins - Haicais](https://singularidadepoetica.art/2018/09/12/albano-martins-haicais/): Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por […]
- [Manuel António Pina - de "Cuidados Intensivos"](https://singularidadepoetica.art/2018/09/11/manuel-antonio-pina-cuidados-intensivos/): I “A esta hora e neste sítio (miocárdio ventricular esquerdo) é a abstracta vida que me assalta. Eles não sabem que o seu coração pulsa, ferido, no meu coração, que a minha dor alheia vagarosamente mata os seus sonhos, os seus sentidos, os seus dias visíveis e invisíveis, a linha dos telhados ao longe sobre […]
- [Eunice de Souza – Convite](https://singularidadepoetica.art/2018/09/10/eunice-de-souza-convite/): Tenta-me com uma visão de colinas relva que é verde pavões tão vulgares como pardais. Podemos ler no pátio, diz ela, ouvindo o picapau às voltas com a sua árvore, admirar as rosas, colher fruta, contar estrelas. Traga a tia, os cães, o periquito, diz, escreva um ou dois poemas felizes. De vez em quando, […]
- [José Mateos - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2018/09/09/jose-mateos-in-memoriam/): Para Pedro Sevilla Sempre, frente à dor, estamos sozinhos, não se quer viver, e tu sabes disso. Há um instante viste, na penumbra de um quarto de hospital, a mão hirta, seu rosto naufragado que o lençol cobriu. E era como mirar-se em um espelho e ver que somos menos que essa ausência, menos que […]
- [Elisa Lucinda - Do Efêmero Presente](https://singularidadepoetica.art/2018/09/08/elisa-lucinda-do-efemero-presente/): Às vezes passo um dia e sinto que o perdi. Um dia sem importâncias dentro dele, sem fruto, sem feito, metade avião, metade hotel. Mas que mania é essa de querer que o pobre do dia seja sempre cheio de tarefas? Um dia escravinho, sofrendo na senzala calendário. Ora essa, tem gente que dorme quase […]
- [Paulo Henriques Britto - Entrevista](https://singularidadepoetica.art/2018/09/08/paulo-henriques-britto-entrevista/): Ótima entrevista concedida por Paulo Henriques Britto (para mim, o melhor poeta brasileiro vivo) a Ramon Ramos, e publicada no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco. Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1952), além de poeta, é contista, tradutor e professor da PUC-Rio. Sua obra poética, desde a estreia em Liturgia da […]
- [Joan Margarit - Ulisses nas Águas de Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2018/09/07/joan-margarit-ulisses-nas-aguas-de-itaca/): Estás chegando a ilha e agora sabes o que é o acaso. Viver, o que significa. Teu arco será poeira em uma estante. Poeira será o tear e a peça que ele tece. Os pretendentes, que no pátio acampam, são sombras dos sonhos de Penélope. Estás chegando a ilha enquanto explode o mar contra as […]
- [Vitor Nogueira - Formol](https://singularidadepoetica.art/2018/09/06/vitor-nogueira-formol/): A casa por sob o sótão. O sótão por sobre a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre o mundo. À volta desta praça, quis o tempo conservados em formol os edifícios, esquinas de onde surgem cada vez mais perguntas sem aviso. Escondida pela fachada do liceu há-de estar ainda a […]
- [Kenneth Rexroth – Leão](https://singularidadepoetica.art/2018/09/05/kenneth-rexroth-leao/): O leão é chamado de rei Dos animais. Atualmente existem Quase tantos leões Em jaulas quanto fora delas. Se te oferecerem uma coroa, recusa. Trad.: José Antônio Cavalcanti Lion The lion is called the king Of beasts. Nowadays there are Almost as many lions In cages as out of them. If offered a crown, refuse.
- [Ruy Belo – Através da chuva e da névoa](https://singularidadepoetica.art/2018/09/04/ruy-belo-atraves-da-chuva-e-da-nevoa/): Chovia e vi-te entrar no mar longe de aqui há muito tempo já ó meu amor o teu olhar o meu olhar o teu amor Mais tarde olhei-te e nem te conhecia Agora aqui relembro e pergunto: Qual é a realidade de tudo isto? Afinal onde é que as coisas continuam e como continuam se […]
- [João Luís Barreto Guimarães - Um Quarto de Hotel em Madrid](https://singularidadepoetica.art/2018/09/04/joao-luis-barreto-guimaraes-um-quarto-de-hotel-em-madrid/): Não se chega a pertencer nunca a um quarto de hotel. Não se lhe ganha afecto (não é nosso por inteiro) se é certo que amanhã outro dono estará emoldurado ao espelho. Não se chega a confiar nele (não se lhe lega segredos) sequer a palavra impudica expurgada da pele pela toalha de banho. Não […]
- [Henri Michaux – Nós dois ainda](https://singularidadepoetica.art/2018/09/02/henri-michaux-nos-dois-ainda/): 1948 Música do fogo, tu não soubeste tocar. Lançaste sobre a minha casa um pano negro. O que é este opaco em toda a parte? É o opaco que tapou o meu céu. O que é este silêncio em toda a parte? É o silêncio que calou o meu canto. * De esperança tinha-me bastado […]
- [Amalia Bautista - Nada Sabemos](https://singularidadepoetica.art/2018/09/01/amalia-bautista-nada-sabemos/): Nunca saberemos se os enganadossão os sentidos ou os sentimentos,se viaja o comboio ou a nossa ânsia,se as cidades mudam de lugarou se todas as casas são a mesma.Nunca saberemos se quem nos esperaé quem deve esperar-nos, nem sequerquem temos de esperar no meio de umaplataforma fria. Nada sabemos.Avançamos às cegas, perguntandose isto que se […]
- [Maria Lúcia Alvim - Nosferatu](https://singularidadepoetica.art/2018/08/31/maria-lucia-alvim-nosferatu/): Não era bem isso que eu queria, no entanto, ele veio. Olho de vidro, dente de espada, sopro de guerreiro afeito à noite. – Por que tarda tanto o teu amanhecer sob a capa? – Porque veio? perguntei. E ele debruçava, derramava sobre mim um jeito de morrer.
- [Luís Felipe Castro Mendes – Estóicos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/30/luis-felipe-castro-mendes-estoicos/): Deixa-te ficar comigo à beira do rio. Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza nem a sedução da mocidade. Se te falarem dos deuses, finge entender. E se chamarem poeta ao dono do circo, concorda gravemente.
- [Víctor Botas - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/29/victor-botas-collige-virgo-rosas/): Não falta quem suponha que em sessenta bilhões de anos voltaremos a ser como agora (aparentemente o Espaço se dilata para logo, elástico, encolher-se e novamente outra vez dilatar-se), repetindo tu, as profundidades desses olhos, eu, este esperar a morte de tua mão agônica nas minhas, aqui mesmo, neste lugar. Mas, caso seja tudo uma […]
- [Luis Alberto de Cuenca - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/28/luis-alberto-de-cuenca-collige-virgo-rosas/): Moça, colhe as rosas, não esperes a manhã. Corta-as velozmente, desaforadamente, sem parar para pensar se elas são más ou boas. Que não sobre nenhuma. Poliniza os rosais que encontrares em teu caminho e deixa os espinhos para tuas colegas do colégio. Desfruta da luz e do ouro enquanto podes e consagra tua beleza a […]
- [Felipe Benitez Reyes - "Collige Rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/27/felipe-benitez-reyes-collige-rosas/): Consumir este dia como se fosse o último. Queima-lo como o último cigarro que restou ao insone. Retarda-lo nos lábios como a sílaba última de uma fórmula mágica. Que dependa dele – como a moeda que o suicida reticente lança ao ar – o exato sentido da vida essa confusão de quimeras que morrem nas […]
- [Francisco Brines - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/26/francisco-brines-collige-virgo-rosas/): Estás já com quem queres. Ri e goza. Ama. E anima-te na noite que agora começa, e entre tantos amigos (e comigo) abre os grandes olhos para a vida com a avidez preciosa de tua idade. A noite, longa, há de acabar ao amanhecer, e virão esquadrões de espiões com a luz, apagar-se-ão as estrelas, […]
- [Garcilaso de la Vega - Soneto XXIII](https://singularidadepoetica.art/2018/08/25/garcilaso-de-la-vega-soneto-xxiii/): Enquanto que de rosa e de açucena se mostra toda a cor neste teu rosto, enquanto o teu olhar ardente, honesto, acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjas do ouro se escolheu, com voo presto, sobre o formoso colo branco, ereto, o vento move, espalha e desarranja: colhe […]
- [Jorge Luis Borges - Cristo na Cruz](https://singularidadepoetica.art/2018/08/24/jorge-luis-borges-cristo-na-cruz/): Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.Os três madeiros são de igual altura.Cristo não é o do meio. É o terceiro.A negra barba pende sobre o peito.O rosto não é este das gravuras.É áspero e judeu. Mas não o vejoE vou buscá-lo sempre até o diaDe meu último passo sobre a terra.O homem alquebrado […]
- [Francisco Brines - Os Prazeres Inferiores](https://singularidadepoetica.art/2018/08/23/francisco-brines-os-prazeres-inferiores/): Não desdenhes as paixões vulgares Tens os anos necessários para saber que elas se correspondem exatamente com a vida. Não reduzas sua ação, pois se do breve tempo em que consistes as retiras, é ainda o existir mais imperfeito. Descobre sua verdade por trás da aparência, e assim não haverá falsidade, não poderás fingir que […]
- [Amalia Bautista - Os Teus Olhos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/22/amalia-bautista-os-teus-olhos/): Quando já se esgotaram os caminhos que a razão poderia aconselhar-nos abrem-se os teus olhos: com eles tudo volta a inundar-se da luz escura que dá sentido ao mundo e à minha vida. Trad.: Inês Dias Tus Ojos Cuando se han agotado los caminos que la razón podría aconsejarnos se abren tus ojos, y con […]
- [Joan Margarit - Espaço e Tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/08/21/joan-margarit-espaco-e-tempo/): E de repente a casa é demasiado grande. Tua mãe e eu esvaziamos teus armários e seguimos por mesas e prateleiras, de retrato em retrato, teus sorrisos. À noite os espelhos, sob a luz elétrica, expõem com mais ênfase o teu vazio. Os móveis são agora mais escuros. Pela escada desce a cálida balaustrada que […]
- [Manuel António Pina - Amor como em Casa](https://singularidadepoetica.art/2018/08/20/manuel-antonio-pina-amor-como-em-casa/): Amor como em casa, um poema de Manuel António Pina
- [Antonia Pozzi – Grito](https://singularidadepoetica.art/2018/08/19/antonia-pozzi-grito/): Não ter um Deus não ter um túmulo não ter nada de certo mas apenas coisas vivas que nos fogem – existir sem ontem existir sem amanhã e cegar no vazio – socorro – pelo sofrimento que não tem fim – 10 de fevereiro de 1932 Trad.: Inês Dias Grido Non avere un Dio non […]
- [Miguel Torga – Sísifo](https://singularidadepoetica.art/2018/08/18/miguel-torga-sisifo-poema/): Sísifo, um poema de Miguel Torga
- [Rainer Maria Rilke – O Poeta](https://singularidadepoetica.art/2018/08/17/rainer-maria-rilke-o-poeta/): Já te despedes de mim, Hora. Teu golpe de asa é o meu açoite. Só: da boca o que faço agora? Que faço do dia, da noite? Sem paz, sem amor, sem teto, caminho pela vida afora. Tudo aquilo em que ponho afeto fica mais rico e me devora. Trad.: Augusto de Campos Der Dichter […]
- [Jane Hirshfield - O Homem Gentil](https://singularidadepoetica.art/2018/08/16/jane-hirshfield-o-homem-gentil/): Eu vendi o relógio do meu avô, seu ouro nacarado e padrões pontilhados, para ser derretido. Engrenagem condenada. Tampa faltando. Corrente — deve ter havido uma — faltando. Números que foram pintados com um única e hábil cerda. Dei corda na coroa antes de entrega-lo por sobre o balcão. O homem gentil agarrou o que […]
- [Rui Pires Cabral - "Are Others Happier?"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/15/rui-pires-cabral-are-others-happier-poema/): "Are Others Happier?", um poema de Rui Pires Cabral
- [Joan Margarit - Despedir-se](https://singularidadepoetica.art/2018/08/14/joan-margarit-despedir-se/): Removi tapetes e cortinas, todas as mesas em que há tempos não como nem escrevo. Tirei os quadros e pintei as paredes para apagar os sinais dos anos. Guardo uns poucos livros. Sei bem quais. Destruí cartas de amor que não me amavam mais. Silenciosos, agora, os amores são icebergs errantes do pensamento. A casa, […]
- [Manuel António Pina - Os Gatos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/13/manuel-antonio-pina-os-gatos/): Há um deus único e secretoem cada gato inconcretogovernando um mundo efémeroonde estamos de passagem Um deus que nos hospedanos seus vastos aposentosde nervos, ausências, pressentimentos,e de longe nos observa Somos intrusos, bárbaros amigáveis,e compassivo o deuspermite que o sirvamose a ilusão de que o tocamos
- [Stein Mehren – Grandes Perguntas](https://singularidadepoetica.art/2018/08/12/stein-mehren-grandes-perguntas/): As grandes perguntas não têm soluções, não têm resposta Grandes perguntas não são feitas para serem respondidas Mas para serem vividas Os maiores mistérios continuam sendo mistérios. E na condição de mistérios permitem apreender nosso lugar no mundo, posto que inevitavelmente nos colocam em nossos devidos lugares dentro de nós mesmos. Trad.: Ana Cristina de […]
- [Ruy Belo – Muriel](https://singularidadepoetica.art/2018/08/11/ruy-belo-muriel/): Às vezes se te lembras procurava-te retinha-te esgotava-te e se te não perdia era só por haver-te já perdido ao encontrar-te Nada no fundo tinha que dizer-te e para ver-te verdadeiramente e na tua visão me comprazer indispensável era evitar ter-te Era tudo tão simples quando te esperava tão disponível como então eu estava Mas […]
- [Lêdo Ivo – O Dia dos Homens](https://singularidadepoetica.art/2018/08/10/ledo-ivo-o-dia-dos-homens/): Viver é preciso. Não existe inferno nem paraíso. Apenas o chão. E uma persistente chuva de verão.
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Apesar das ruínas e da morte](https://singularidadepoetica.art/2018/08/09/sophia-de-mello-breyner-andresen-apesar-das-ruinas-e-da-morte/): Apesar das ruínas e da morte,Onde sempre acabou cada ilusão,A força dos meus sonhos é tão forte,Que de tudo renasce a exaltaçãoE nunca as minhas mãos ficam vazias. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ryane Leão – "Você é uma frase bonita"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/08/ryane-leao-voce-e-uma-frase-bonita/): você é uma frase bonita dessas que a gente sublinha no livro faz tatuagem, conta pra todo mundo dessas que dividem a gente em antes e depois
- [Sonja Åkesson – Primavera e Outono, Verão e Inverno](https://singularidadepoetica.art/2018/08/07/sonja-akesson-primavera-e-outono-verao-e-inverno/): A grade que enferrujou. O pão que empedrou. O vento que correu em busca de uma caixa d’água. Primavera e outono, verão e inverno. Isso foi tudo. E é claro, a morte também sonolenta e bem empanturrada como um gato castrado bocejando enquanto as estações do ano vão e voltam deixando um gosto amargo em […]
- [Nuno Júdice – Carpe Diem](https://singularidadepoetica.art/2018/08/06/nuno-judice-carpe-diem/): Confias no incerto amanhã? Entregas às sombras do acaso a resposta inadiável? Aceitas que a diurna inquietação da alma substitua o riso claro de um corpo que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos, os instantes; e nos lábios dessa que amaste morre um fim de frase, deixando a dúvida definitiva. Um nome […]
- [Manuel António Pina - Farewell Happy Fields - IV](https://singularidadepoetica.art/2018/08/05/manuel-antonio-pina-farewell-happy-fields-iv-poema/): Farewell Happy Fields - IV, um poema de Manuel António Pina
- [Ivan Junqueira – Hoje](https://singularidadepoetica.art/2018/08/04/ivan-junqueira-hoje/): A sensação oca de que tudo acabou o pânico impresso na face dos nervos o solitário inverno da carne a lágrima, a doce lágrima impossível… e a chuva soluçando devagar sobre o esqueleto tortuoso das árvores
- [Assionara Souza – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/03/assionara-souza-a-mulher-de-lot/): Um passo atrás Enquanto a cidade desaba Todos correndo Um tumulto dos diabos O filho, a filha, o marido A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz Como se ela não soubesse Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida Ele […]
- [Wislawa Szymborska – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/02/wislawa-szymborska-a-mulher-de-lot/): Dizem que olhei para trás curiosa. Mas quem sabe eu também tinha outras razões. Olhei para trás de pena pela tigela de prata. Por distração – amarrando a tira da sandália. Para não olhar mais para a nuca virtuosa do meu marido Lot. Pela súbita certeza de que se eu morresse ele nem diminuiria o […]
- [Anna Akhmátova – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/01/anna-akhmatova-a-mulher-de-lot/): A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás e transformou-se numa estátua de sal. Gênesis E o homem justo seguiu o enviado de Deus, alto e brilhante, pelas negras montanhas. Mas a angústia falava bem alto à sua mulher: “Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar as rubras torres da […]
- [Arnaldo Antunes – Lugar Nenhum](https://singularidadepoetica.art/2018/07/31/titas-lugar-nenhum-2/): [youtube https://www.youtube.com/watch?v=E5iMIFJ-vLU&w=560&h=315] Não sou brasileiro Não sou estrangeiro Não sou brasileiro Não sou estrangeiro Eu não sou de nenhum lugar Sou de lugar nenhum Sou de lugar nenhum Não sou de São Paulo Não sou japonês Não sou carioca Não sou português Não sou de Brasília Não sou do Brasil Nenhuma pátria me pariu Eu […]
- [Francisco José Viegas – O Estoril](https://singularidadepoetica.art/2018/07/30/francisco-jose-viegas-o-estoril-poema/): O Estoril, um poema de Francisco José Viegas
- [Knut Hamsun – Em cem anos, tudo estará esquecido](https://singularidadepoetica.art/2018/07/29/knut-hamsun-em-cem-anos-tudo-estara-esquecido/): Reviro-me insone por noites a fio, qual náufrago num barco adernando, e tudo por que tanto tenho sofrido ao fim sempre vem dar em pranto. Mas por que sofrer tanto? Em cem anos, tudo estará esquecido. Num sobressalto me vejo cantando personagem da própria labuta. Comungo com Deus qual gigante desperto e a mesa com […]
- [Vitor Nogueira - Sala](https://singularidadepoetica.art/2018/07/28/vitor-nogueira-sala-poema/): Sala, um poema de Vitor Nogueira
- [Miriam Reyes - Imóvel](https://singularidadepoetica.art/2018/07/27/miriam-reyes-imovel/): abandonado a teu peso de homem imóvel olhas-me com antiquíssimos ressentimentos. Ouve-me bem: sou inocente de teu passado não sou a tua puta mãe nem a tua enferma mãe nem a tua louca mãe embora seja uma puta louca. Não mereço receber agressões alheias, atrasadas e caducas. Não projetes em mim os fantasmas de tua […]
- [Joan Margarit - Um pobre instante](https://singularidadepoetica.art/2018/07/26/joan-margarit-um-pobre-instante/): A morte não é mais do que isto: um quarto, a luminosa tarde na janela, e este toca-fitas na mesinha tão desligado como o teu coração com todas as tuas canções cantadas para sempre. Teu último suspiro segue dentro de mim, todavia em suspenso: não deixo que termine. Sabes qual é, Joana, o próximo concerto? […]
- [Manuel António Pina - Teoria das Cordas](https://singularidadepoetica.art/2018/07/25/manuel-antonio-pina-teoria-das-cordas-poema/): Teoria das Cordas, um poema de Manuel António Pina
- [Josep M. Rodríguez – Equação](https://singularidadepoetica.art/2018/07/24/josep-m-rodriguez-equacao/): De pé neste penhasco, aceito a mentira da paisagem. Tudo é inacessível: o orvalho – que é suor vegetal – e o comboio que passa. Uma cegonha voa a preto e branco. Tem o seu ninho no cimo da igreja que fica junto ao cemitério. Estranho paradoxo, a pedra testemunha a fugacidade, a carne é […]
- [Renato Russo – Música Urbana 2](https://singularidadepoetica.art/2018/07/23/legiao-urbana-musica-urbana-2/): [wpvideo ktLJm0wd] Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana Motocicletas querendo atenção às três da manhã É só música urbana Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música […]
- [Miquel Martí i Pol - Tua Solidão](https://singularidadepoetica.art/2018/07/22/miquel-marti-i-pol-tua-solidao/): Enquanto puderes, não desperdices tua solidão, dedicando-a a uma absurda busca do nada, nem persigas a ti próprio obsessivamente por escuras galerias. Assustado pela luz dos preceitos. Sai no sol a pino e olha para as coisas difíceis. Considera que o jogo desmedido das palavras não te servirá de nada se não te apoiares naquilo […]
- [Jorge Luis Borges - Elogio da Sombra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/21/jorge-luis-borges-elogio-da-sombra/): A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade. O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e sua alma. Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão. Buenos Aires, que antes se espalhava em subúrbios em direção à planície incessante, […]
- [Joan Margarit - Quando se perde o sinal](https://singularidadepoetica.art/2018/07/20/joan-margarit-quando-se-perde-o-sinal/): À noite, em um pequeno aeroporto, vês um avião que está decolando. Vai-se perdendo o sinal. Sem nenhuma piedade pelo que foste, pois a piedade é demasiado efêmera e não há tempo para construir nada sobre ela, convences-te de que vives, embora sem esperanças, uma época que é a mais feliz de tua vida. Há […]
- [Stein Mehren - A Pedra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/19/stein-mehren-a-pedra/): Eu acumulei tanto tempo em cada grama de matéria, diz a pedra que milhões de anos são um mero piscar de olhos em mim Eu conheço a dor do mundo continua a pedra. O peso que é necessário carregar. Peso que é o sofrimento do mundo em espaços banhados de luz Se ficares totalmente calado […]
- [Doris Lessing - Fábula](https://singularidadepoetica.art/2018/07/18/doris-lessing-fabula/): Quando olho para trás me parece recordar o canto, embora sempre houvesse silêncio naquele largo e cálido salão. Impenetráveis, essas paredes, acreditávamos, escuras como escudos antigos. A luz brilhava na cabeça ou nas pernas esparramadas com indolência por uma menina. E as vozes baixas subiam no silêncio a se perder como a água. Assim, tudo […]
- [Jane Hirshfield - Alzheimer](https://singularidadepoetica.art/2018/07/17/jane-hirshfield-alzheimer/): Quando os ratos roem um tapete velho e de boa qualidade, as cores e os padrões do que resta não se alteram. Como um leito de rocha, inclinado, continua um leito de rocha, as estrias roxas e vermelhas por interromper. Grandeza inata que se não pode roubar. “Como está?”, perguntei, sem saber o que esperar. […]
- [Nuno Júdice – Fotografia](https://singularidadepoetica.art/2018/07/16/nuno-judice-fotografia/): Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso deatget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,e olha para trás, de esguelha, como se quisessemostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-sede nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-seum sorriso que, não se sabe porquê, se esbate comessa espécie de névoa […]
- [Werner Aspenström – Domingo](https://singularidadepoetica.art/2018/07/15/werner-aspenstrom-domingo/): Pela simples razão de que nunca mais voltará hoje é um dia memorável. O sol nasceu no leste e se pôs no oeste, deixou o céu para as estrelas e uma nave espacial nadando no espaço. O rádio falava e cantava através da janela aberta atrás dos pelargônios vermelhos imutáveis. Uma mulher colhia cachos de […]
- [Andreia C. Faria - Descarnação](https://singularidadepoetica.art/2018/07/14/andreia-c-faria-descarnacao/): Até aos trinta anos tens a cara que Deus te deu. Depois tens a cara que mereces. É uma promessa de ironia, uma sentença sem recurso. É-te assim dito: estás entregue ao labor íntimo do que comes, ao número de horas que dormes, àquilo que fazes e sobretudo àquilo em que pensas. Deus (perdoa-lhe a […]
- [Francisco Brines - Ardemos na floresta](https://singularidadepoetica.art/2020/11/15/francisco-brines-ardemos-na-floresta-poema/): Mas como conhecer, sem o olhar,a beleza da floresta, a grandeza do mar? A floresta estava atrás de mim; meus ouvidosa conheciam: o farfalhar de suas folhas,a confusão do canto de seus pássaros.Sons que vinham de um remoto lugar.E o mar do outro lado, golpeandosua fronte, sem roça-la,cobrindo-a de gotas. Era minha peleque descobria seu […]
- [Mary Oliver - Nenhuma viagem](https://singularidadepoetica.art/2020/11/13/mary-oliver-nenhuma-viagem-poema/): Eu acordo mais cedo, agora que os pássaros chegaram E cantam nas árvores inabaláveis. Em um catre junto a uma janela aberta Eu me estendo como campo consumido, enquanto desabrocha a primavera. Agora, de todos os viajantes de que me lembro, quem dentre eles Não embarcou com pesar em seus mapas? — Até parece que […]
- [Matthew Arnold - Praia de Dover](https://singularidadepoetica.art/2020/11/11/matthew-arnold-praia-de-dover-poema/): O mar esta noite descansa.A maré está cheia, a lua, maravilhosaSobre os estreitos; a luz na costa da FrançaCintila e se vai; as falésias da Inglaterra se elevam,Cintilantes e vastas, na baía sem agitação.Venha para a janela, doce é a noturna brisa!Apenas, da longa linha de aspersãoOnde o mar e a lua se encontram,Escute! ouça […]
- [Margaret Atwood - Muitíssimo](https://singularidadepoetica.art/2020/11/09/margaret-atwood-muitissimo-poema/): Muitíssimo É uma antiga palavra perdendo o brilho.Eu queria muitíssimo.Eu desejava muitíssimo.Eu o amava muitíssimo. Eu percorro cautelosamente a calçadapor causa dos meus joelhos feridos,com os quais eu me importo menosdo que você possa imaginarjá que há outras coisas, mais importantes –espere e verá – carregando um café pela metadeem um copo de papel com […]
- [Juan Vicente Piqueras - Proposta de epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2020/11/07/juan-vicente-piqueras-proposta-de-epitafio-poema/): "Proposta de epitáfio", um poema de Juan Vicente Piqueras Quando criança, eu era imortal. Adolescente, me rebelei contra o que agora sou. Quando jovem, eu era selvagem. Fiz sofrer e sofri muito mais do que eu queria.
- [Robert Frost - Diretriz](https://singularidadepoetica.art/2020/11/05/robert-frost-diretriz-poema/): Diretriz, um poema de Robert Frost Voltar para isso tudo agora é demais para nós, Voltar para um tempo simplificado pela perda De detalhe, crestado, dissolvido, e fraturado Como uma escultura de mármore de cemitério ao relento
- [Philip Larkin - Um túmulo Arundel](https://singularidadepoetica.art/2020/11/03/philip-larkin-um-tumulo-arundel-poema/): Um túmulo Arundel, um poema de Philip Larkin
- [Philip Roth – [Quando se visita uma sepultura]](https://singularidadepoetica.art/2020/11/02/philip-roth-quando-se-visita-uma-sepultura/): Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério, […]
- [Joan Margarit - Perdidos em um conto](https://singularidadepoetica.art/2020/11/01/joan-margarit-perdidos-em-um-conto-poema/): Perdidos em um conto, um poema de Joan Margarit
- [Javier Salvago - Tesouro divino](https://singularidadepoetica.art/2020/10/30/javier-salvago-tesouro-divino-poema/): A juventude passou.Tudo está bem quando acaba.Não voltaria a ser jovemnem que me pagassem. Começar a andar de novopelo caminho trilhadodos sonhos ilusóriose das verdades vagas? Começar de novocom as velhas batalhase suas velhas feridas?Voltar aos velhos hábitos, à noite, ao inferno,ao gosto pela vidamá? Fazer de tudoo que é comédia um drama? Voltar a […]
- [Ana Martins Marques - [Você se dá conta]](https://singularidadepoetica.art/2020/10/28/ana-martins-marques-voce-se-da-conta-poema/): Leia "[Você se dá conta]", de Ana Martins Marques, um poema fascinante sobre tradução, linguagem, leitura e os tradutores que moldam nossa experiência da literatura.
- [Elizabeth Jennings - Em memória de alguém que desconheço](https://singularidadepoetica.art/2020/10/26/elizabeth-jennings-em-memoria-de-alguem-que-desconheco-poema/): "Em memória de alguém que desconheço", um poema de Elizabeth Jennings
- [Nelson Santander - A elite oitocentista pela ótica de Machado de Assis: a violação da norma como norma](https://singularidadepoetica.art/2020/10/24/nelson-santander-a-elite-oitocentista-pela-otica-de-machado-de-assis-a-violacao-da-norma-como-norma/): O artigo que segue, de minha autoria, foi publicado na obra coletiva “Direito e desenvolvimento: estudos sobre a questão ambiental e a sustentabilidade – Homenagem ao Prof. Márcio Teixeira”, organizada por Caio Henrique Lopes Ramiro e Lis Maria Bonadio Precipito (São Paulo: LiberArs, 2015, 308p.). Fortemente influenciado pela obra “Um mestre na periferia do capitalismo”, […]
- [Nelson Santander - [secos são os homens sem sonhos]](https://singularidadepoetica.art/2020/10/22/nelson-santander-secos-sao-os-homens-sem-sonhos-poema/): "secos são os homens sem sonhos", um poema de Nelson Santander secos são os homens sem sonhos desertos rios de margens estreitas trilham apenas os caminhos que a terra dita
- [Óscar Hahn - Abalo sísmico](https://singularidadepoetica.art/2020/10/20/oscar-hahn-abalo-sismico-poema/): "Abalo Sísmico", um poema de Óscar Hahn Tive uma vez um grande amor que derrubou minha casa trincou minhas pontes e me fez perder o equilíbrio. Depois, vieram as réplicas:
- [Antonio Pérez Morte - Para Berta](https://singularidadepoetica.art/2020/10/18/antonio-perez-morte-para-berta-poema/): "Para Berta", um poema de Antonio Pérez Morte Para restabelecer a infância, uma bola de gude. Para a adolescência um beijo, um verso, uma esperança.
- [Joshua Jennifer Espinoza - Isto é o que faz de nós Mundos](https://singularidadepoetica.art/2020/10/16/joshua-jennifer-espinoza-isto-e-o-que-faz-de-nos-mundos-poema/): Como a luz, masao contrário, nós ondulamos. Dobramos a esquinae fazemos desapareceras colinas. Você rearranja meus pedaços até nãodoer mais. Fim do medo noturnoentranhado na pele. Fim da morte inocente. Meus cabelos perdem seus átomos.Meu corpo brilhano escuro. Planetas são esmagadosno esquecimento,despojados do seu poderde nomear as coisas. Nosso amor ocupa o ar. Nosso amor […]
- [Jane Kenyon - Discutindo com a melancolia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/14/jane-kenyon-discutindo-a-melancolia-poema/): "Discutindo a melancolia", um poema de Jane Kenyon sobre a depressão 1 DO BERÇÁRIO Quando eu nasci, você esperava atrás de uma pilha de lençóis no berçário e, quando ficamos a sós, você se deitou sobre mim, espremendo a bile da desolação em cada poro.
- [Louise Glück - Uma fantasia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/12/louise-gluck-uma-fantasia-poema/): Vou lhe dizer uma coisa: todos os diaspessoas morrem. E isso é só o começo.Todos os dias, nas funerárias, nascem novas viúvas,novos órfãos. Eles se sentam com as mãos cruzadas,tentando decidir sobre esta nova vida. Depois eles estão no cemitério, alguns delespela primeira vez. Eles têm medo de chorar,às vezes de não chorar. Alguém se […]
- [Eugénio de Andrade - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/10/eugenio-de-andrade-elegia-poema/): Às vezes era bom que tu viesses. Falavas de tudo com modos naturais: em ti havia a harmonia dos frutos e dos animais. Maio trouxe cravos como outrora, cravos morenos, como tu dizias, mas cada hora passa e não se demora na tristeza das nossas alegrias. Ainda sabemos cantar, só a nossa voz é que […]
- [Robinson Jeffers - A canção da quietude](https://singularidadepoetica.art/2020/10/08/robinson-jeffers-a-cancao-da-quietude-poema/): Bebe, bebe profundamente da quietude, E às margens do mar-imensidãoEsquece de tua aflição, amiúde, E de todas as misérias que virão.Mais calmo e frio do que a neblina,Que se desdobra e se inclinaSobre o vale escuro, e se rebobina, Aprende a ser. O Passado — foi um sonho ardente, Um […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "The Wild Iris", de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2020/10/08/apresentacao-de-the-wild-iris-de-louise-gluck/): Atualizado em 08/10/2020
- [Ferreira Gullar - Poema sujo](https://singularidadepoetica.art/2020/10/06/ferreira-gullar-poema-sujo/): "Poema sujo", de Ferreira Gullar turvo turvo a turva mão do sopro contra o muro escuro menos menos menos que escuro menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo escuro mais que escuro:
- [Alberto Pucheu - Poema para a catástrofe do nosso tempo](https://singularidadepoetica.art/2020/10/04/alberto-pucheu-poema-para-a-catastrofe-do-nosso-tempo/): Leia "Poema para a catástrofe do nosso tempo," de Alberto Pucheu, uma poderosa reflexão poética sobre a tragédia bolsonarista, memória, democracia, pandemia, violência política e resistência coletiva.
- [Germana Zanettini - Centésimo trigésimo nono](https://singularidadepoetica.art/2020/10/02/germana-zanettini-centesimo-trigesimo-nono-poema/): Centésimo trigésimo nono, um poema de Germana Zanettini
- [Javier Salvago - Quinta-feira Santa](https://singularidadepoetica.art/2020/09/30/javier-salvago-quinta-feira-santa-poema/): "Quinta-feira Santa", um poema de Javier Salvago.
- [Miller Williams - Poema de amor com torrada](https://singularidadepoetica.art/2020/09/28/miller-williams-poema-de-amor-com-torrada/): "Poema de amor com torrada", um poema de Miller Williams
- [Jane Hirshfield - Um destino algodoado](https://singularidadepoetica.art/2020/09/26/jane-hirshfield-um-destino-algodoado/): "Um destino algodoado", um poema de Jane Hirshfield.
- [Leslie McGrath – Corpus](https://singularidadepoetica.art/2020/09/24/leslie-mcgrath-corpus-poema/): Corpus, um poema de Leslie McGrath. Depois que lavaram meu corpo e enfiaram meus braços nas mangas de um vestido que comprei nos anos trinta em um mercado de Cuernavaca, eles circundaram um rosário em minhas mãos postas. (...)
- [Edgar Allan Poe - "O corvo" e "A filosofia da composição"](https://singularidadepoetica.art/2020/09/22/edgar-allan-poe-o-corvo-e-a-filosofia-da-composicao-poema/): Leia "O Corvo", o clássico poema de Edgar Allan Poe (na genial tradução de Milton Amado), e, na sequência, "A Filosofia da Composição", o ensaio fundamental no qual o autor desvenda, passo a passo, os caminhos percorridos desde a ideia inicial até os detalhes que emprestam coerência e sentido ao texto poético.
- [William Butler Yeats - "When you are old" em 4 traduções](https://singularidadepoetica.art/2020/09/20/william-butler-yeats-when-you-are-old-and-grey-and-full-of-sleep-em-4-traducoes-poema/): "When you are old and grey and full of sleep", poema de William Butler Yeats, nas traduções de José Agostinho Baptista, Adriano Nunes, Paulo Vizioli e Jorge Wanderley
- [Jorge Valdés Días-Vélez - O olival](https://singularidadepoetica.art/2020/09/18/jorge-valdes-dias-velez-o-olival-poema/): "O olival", um poema de Jorge Valdés Días-Vélez Não direi a oração que se pronuncia em outras ocasiões como esta. Eu vim para enterrar-te. E o meu silêncio é o outro lugar para onde foste. Porque não há mais verdade do que a tua memória e nada a dizer que tu não saibas (...)
- [William Stafford - No monumento não-nacional ao longo da fronteira canadense](https://singularidadepoetica.art/2020/09/16/william-stafford-no-monumento-nao-nacional-ao-longo-da-fronteira-canadense-poema/): No monumento não-nacional ao longo da fronteira canadense, um poema de William Stafford
- [Louise Glück - Paisagem](https://singularidadepoetica.art/2020/09/14/louise-gluck-paisagem-poema/): Paisagem, um poema de Louise Glück
- [Joan Margarit – Dignidade](https://singularidadepoetica.art/2020/09/12/joan-margarit-dignidade-poema/): Dignidade, um poema de Joan Margarit
- [Andrew Hudgins - No poço](https://singularidadepoetica.art/2020/09/10/andrew-hudgins-no-poco-poema/): No poço, um poema de Andrew Hudgins
- [Edna St. Vincent Millay - dois poemas de "A few Figs from Thistles"](https://singularidadepoetica.art/2020/09/08/edna-st-vincent-millay-dois-poemas-de-a-few-figs-from-thistles-poema/): Dois poemas de "A few Figs from Thistles", de Edna St. Vincent Millay
- [Ted Kooser - Sobrevivendo](https://singularidadepoetica.art/2020/09/06/ted-kooser-sobrevivendo/): "Sobrevivendo", um poema de Ted Kooser
- [Angélica Freitas - Pós](https://singularidadepoetica.art/2020/09/04/angelica-freitas-pos-poema/): Pós, um poema de Angélica Freitas
- [Walter de la Mare - Chapim](https://singularidadepoetica.art/2020/09/02/walter-de-la-mare-chapim-poema/): Chapim, um poema de Walter de la Mare
- [Tomas Tranströmer - Kyrie](https://singularidadepoetica.art/2020/08/31/tomas-transtromer-kyrie-poema/): Kyrie, um poema de Tomas Tranströmer
- [Marta Magalhães - Urbanismo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/29/marta-magalhaes-urbanismo-poema/): Urbanismo, um poema de Marta Magalhães
- [Nuno Júdice - Jogo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/27/nuno-judice-jogo-poema/): Jogo, um poema de Nuno Júdice
- [Friedrich Hölderlin - As Parcas](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-as-parcas-2/): Republicação: “As parcas”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-a-brevidade-2/): Republicação: “A brevidade”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-outrora-e-agora-2/): Republicação: “Outrora e Agora”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Margarida Vale de Gato - Psyché a Eros](https://singularidadepoetica.art/2020/08/25/margarida-vale-de-gato-psyche-a-eros-poema/): Psyché a Eros, um poema de Margarida Vale de Gato
- [Jorge de Sena - Carta a meus filhos sobre o fuzilamento de Goya](https://singularidadepoetica.art/2020/08/23/jorge-de-sena-carta-a-meus-filhos-sobre-o-fuzilamento-de-goya-poema/): Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, […]
- [Alfonso Brezmes – Os outros](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/alfonso-brezmes-os-outros-poema/): Os outros, um poema de Alfonso Brezmes
- [Robinson Jeffers - The Inhumanist (Parte II de "The Double Axe") (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/robinson-jeffers-the-inhumanist-parte-ii-de-the-double-axe-excerto/): Republicação: “The Inhumanist (Parte II de “The Double Axe”)”, excerto de um poema de Robinson Jeffers
- [Cassiano Ricardo - Ode Pastoril](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/cassiano-ricardo-ode-pastoril-2/): Republicação: “Ode pastoril”, um poema de Cassiano Ricardo
- [John Donne - Em despedida: proibindo o pranto](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/john-donne-em-despedida-proibindo-o-pranto-2/): Republicação: “Em despedida: proibindo o pranto”, poema de John Donne, em tradução de Augusto de Campos
- [Mary Oliver - Nos bosques de Blackwater](https://singularidadepoetica.art/2020/08/19/mary-oliver-nos-bosques-de-blackwater-poema/): "Nos bosques de Blackwater", um poema de Mary Oliver
- [Jane Kenyon - Poderia ter sido diferente](https://singularidadepoetica.art/2020/08/17/jane-kenyon-poderia-ter-sido-diferente/): "Poderia ter sido diferente", um poema de Jane Kenyon
- [Vinicius de Moraes - Cemitério Marinho](https://singularidadepoetica.art/2020/08/16/vinicius-de-moraes-cemiterio-marinho/): Cemitério Marinho, um poema de Vinicius de Moraes Tal como anjos em decúbito A conversar com o céu baixinho Existem cerca de cem túmulos Num lindo cemiteriozinho Que eu, a passeio, descobri Um dia em Sidi Bou Said. Mal defendidos por uns muros Erguidos ao sabor da morte Eu nunca vi mortos tão puros Mortos […]
- [Billy Collins - A respiração](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/billy-collins-a-respiracao-poema/): A respiração, um poema de Billy Collins Assim como nos filmes de terror, quando alguém descobre que as ligações telefônicas estão vindo de dentro da casa, eu também percebi que nossa tenra sobreposição vem ocorrendo apenas dentro de mim.
- [Carlos Drummond de Andrade - Palavras no Mar](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar-2/): Republicação: “Palavras ao mar”, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Homenagem a Ricardo Reis](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-homenagem-a-ricardo-reis-2/): Republicação: “Homenagem a Ricardo Reis”, um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
- [Jorge de Lima - A Divisão de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/jorge-de-lima-a-divisao-de-cristo-2/): Republicação: “A divisão de Cristo”, um poema de Jorge de Lima
- [Arnaldo Antunes - Saudades](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/arnaldo-antunes-saudades-2/): Republicação: “Saudades”, um poema de Arnaldo Antunes
- [Vinicius de Moraes - Ternura](https://singularidadepoetica.art/2020/08/14/vinicius-de-moraes-ternura-poema/): Ternura - um poema de Vinicius de Moraes
- [Javier Salvago - Retrato](https://singularidadepoetica.art/2020/08/13/javier-salvago-retrato/): Retrato, um poema de Javier Salvago
- [Carlos Drummond de Andrade - Mãos dadas](https://singularidadepoetica.art/2020/08/12/carlos-drummond-de-andrade-maos-dadas/): Mãos Dadas, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Eugénio de Andrade - Não é verdade](https://singularidadepoetica.art/2020/08/11/eugenio-de-andrade-nao-e-verdade/): Cai, como antigamente, das estrelas um frio que se espalha na cidade. Não é noite nem dia, é o tempo ardente da memória das coisas sem idade. O que sonhei cabe nas tuas mãos gastas a tecer melancolia: um país crescendo em liberdade, entre medas de trigo e de alegria. Porém a morte passeia nos […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2020/08/10/cassiano-ricardo-a-graca-triste-2/): A graça triste, um poema de Cassiano Ricardo
- [Miguel Torga - Rogo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/09/miguel-torga-rogo/): Não, não rezes por mim. Nenhum deus me perdoa a humanidade. Vim sem vontade E vou desesperado. Mas assinei a vida que vivi. Doeu-me o que sofri. Fui sempre o senhorio do meu fado. Por isso, quero a morte que mereço. A morte natural, Solitária e maldita De quem não acredita Em nenhuma oração De […]
- [Konstantinos Kaváfis - Um velho](https://singularidadepoetica.art/2020/08/07/konstantinos-kavafis-um-velho/): No meio do café ruidoso, sem ninguém, por companhia, está sentado um velho. Tem à frente um jornal e se inclina sobre a mesa. Imerso na velhice aviltada e sombria, pensa quão pouco desfrutou as alegrias dos anos de vigor, eloqüência, beleza. Sabe que envelheceu bastante. Vê, conhece. No entanto, o seu tempo de moço […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do mar](https://singularidadepoetica.art/2020/08/05/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar-2/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja […]
- [Susan Mitchell - Os mortos](https://singularidadepoetica.art/2020/08/03/susan-mitchell-os-mortos/): À noite, os mortos descem até o rio para beber.Livram-se dos medos e de suas preocupaçõespor nós. Tiram dos bolsos as velhas fotografias.Alisam as linhas de nossas mãos e leem nosso futuro,rachado e amarelado.Alguns mortos encontram o caminho até nossas casas.Sobem aos sótãos.Leem as cartas que nos enviaram, insaciáveispor vestígios de seu amor.Contam histórias uns […]
- [Eduardo Affonso - Labereda temporã](https://singularidadepoetica.art/2020/08/02/eduardo-affonso-labereda-tempora/): É possível voltar a se apaixonar com meio século de vida? Acreditar em amor eterno depois de amores eternos terem durado tão pouco? Em amor sem traição depois de ter traído tanto? E por que querer de novo a ansiedade diante do telefone que não toca, da carta que não chega, da campainha que não […]
- [Dana Gioia - Obrigado por se lembrar de nós](https://singularidadepoetica.art/2020/08/01/dana-gioia-obrigado-por-se-lembrar-de-nos/): As flores enviadas para cá por engano,assinadas com um nome que ninguém conhece,estão murchando. O que faremos?Nossa vizinha diz que não são para ela,e ninguém está perto de fazer aniversário.Deveríamos agradecer a alguém pelo equívoco.Será que um de nós está tendo um caso?A princípio rimos, depois nos perguntamos. A íris foi a primeira a morrer,envolta […]
- [Gonçalo M. Tavares - Do "Diário da Peste", 27/04/2020](https://singularidadepoetica.art/2020/08/01/goncalo-m-tavares-de-diario-da-peste-27-04-2020/): Passados sete anos, duas semanas ou dois meses. Sairá à rua uma nova espécie humana. Cheia de vontade de construção; cheia de vontade de destruição. Humanos 2.0. Dois médicos beijam-se em Madrid com a máscara posta. Os amantes, quadro de René Magritte: uma mulher e um homem beijam-se com um pano na cabeça. A mãe […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Com vista para dentro](https://singularidadepoetica.art/2020/07/30/ernesto-perez-vallejo-com-vista-para-dentro/): Não sou o melhor homem que já conheceste,nem metade do bom que ainda te falta descobrir por aí,nem sequer tenho estudos, e minha voztreme diante de qualquer um que me olha nos olhos.Minha tristeza pesa mais aos domingos,mas na verdade é meu estado mais corriqueiro.Às vezes, tenho crises de ansiedade,às vezes, de raiva;tenho uns vinte […]
- [Jeffrey Harrison - Nossa outra irmã](https://singularidadepoetica.art/2020/07/28/jeffrey-harrison-nossa-outra-irma/): Nossa outra irmã para EllenA coisa mais cruel que fiz à minha irmã mais novanão foi disparar um dardo caseiro em seu joelho,onde ficou pendurado por um ofegante momentoantes de cair, mas sim contar que tínhamosoutra irmã, mais velha, que havia ido embora.Quais foram meus motivos não consigo lembrar: um capricho,ou talvez uma necessidade de […]
- [Robert Creeley – O fim](https://singularidadepoetica.art/2020/07/26/robert-creeley-o-fim/): Quando percebo o que as pessoas pensam de mim fico imerso em minha solidão. O cinza chapéu previamente adquirido enjoa. Não tenho mais nenhum propósito identificável. Uma sensação de estar sendo sufocado penetra em minha garganta. Trad.: Nelson Santander The End When I know what people think of me I am plunged into my loneliness. […]
- [David Mourão-Ferreira - Herança](https://singularidadepoetica.art/2020/07/24/david-mourao-ferreira-heranca/): Ouvir, ouvir de noite uma ambulância, E desejar que estejas a morrer; Fechar a porta à minha própria infância; Amigos, conhecidos, nem os ver; Quebrar nas mãos o aro da esperança; Mas de mim para mim depois dizer: “Calma! Quem nada espera tudo alcança…”; E guardar o revólver; e beber, A sós, o vinho que […]
- [Konstantinos Kaváfis - Vozes](https://singularidadepoetica.art/2020/07/22/konstantinos-kavafis-vozes/): Vozes queridas, vozes ideais daqueles que morreram ou daqueles que estão perdidos para nós, como se mortos. Eles nos falam em sonho, algumas vezes; outras vezes, em pensamento as escutamos. E, quando soam, por um instante eis que retornam os sons da poesia primeva em nossa vida, qual música distante que se perde noite afora. […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - O fotógrafo e a modelo](https://singularidadepoetica.art/2020/07/20/jorge-valdes-diaz-velez-o-fotografo-e-a-modelo/): O tempo que foi sempre teu inimigo se deteve em tua imagem. Já és aquela garota do calendário, a princesa sem fábulas, o anjo que consigo pendurar em qualquer nuvem. De ouro e trigo a luz encaracolada em tua cabeça, a areia que acaba onde começa a linha de teu sexo. Estás comigo e não […]
- [Adriano Nunes - Cantar é preciso](https://singularidadepoetica.art/2020/07/18/adriano-nunes-cantar-e-preciso/): para Antonio Cicero Cantar é preciso, Ainda que seja O vazio, o nada, A tristeza, a perda, O que quer que até Alcance a cabeça. Cantar e cantar, Mesmo que depois O existir se perca Na eterna estranheza Da cantiga, para Que o agora exerça A sua potência De luz, porque já Pouquíssimo importa Senão […]
- [Doug Dorph - Planeta esquecido](https://singularidadepoetica.art/2020/07/16/doug-dorph-planeta-esquecido/): Peço à minha filha que diga os nomes dos planetas.“Vênus… Marte… e Plunis!”, ela responde.Quando eu tinha seis ou sete anos, meu paime acordou no meio da noite.Descemos até o playground e deitamosde costas no concreto, olhando para cimaà espera das estrelas cadentes que a TV prometera. Não me lembro de nenhuma estrela cadente. Lembrode […]
- [Juan Vicente Piqueras - Lázaro se recusa a ressuscitar](https://singularidadepoetica.art/2020/07/14/juan-vicente-piqueras-lazaro-se-recusa-a-ressuscitar-i/): Um dia ouvi vozes que vinham de fora.Finalmente!, vozes de fora, pensei – vozes de outrosque levam a luz dentro de si e a revelam,que vem até mim do ar, e não de mim. Vozes que ao se aproximarem, viraram sussurros.Passos que pararam diante da minha porta.Alguém disse: Aqui jaz, como se lesse.Os demais ficaram […]
- [Joan Margarit - Último trem](https://singularidadepoetica.art/2020/07/12/joan-margarit-ultimo-trem/): Último tremCrematório de Collserola Se visses a chuva que envernizao verde escuro e espesso do jardim.Teu vagão solitário está chegandoà sala espaçosa, sem adornos,mobiliário, ou luminárias,da Estación de Francia da morte.Só se escuta o murmúrio do motorque arrasta o pesoda infância e da juventude– de teu anônimo tempo, já perdido,que nunca mais será reclamado –,rumo […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Vers de circonstance"](https://singularidadepoetica.art/2020/07/10/paulo-henriques-britto-vers-de-circonstance/): I. Imunidade de Rebanho A estupidez é sua própria recompensa. Graças a ela, o mundo faz sentido, um só, que é fácil de identificar. E só o fácil satisfaz a quem não pensa. Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância é o sumo bem dos cidadãos de bem, é a verdadeira marca dos eleitos. Ter sucesso […]
- [Wendell Berry - De "Sabbaths" (2001)](https://singularidadepoetica.art/2020/07/08/wendell-berry-de-sabbaths-2001/): […] III Peça ao mundo que revele sua quietude —não o silêncio das máquinas quando cessam,mas a verdadeira quietude onde os cantos das aves,as árvores, os sinos-das-sombras, os caracóis, as nuvens, as tempestadesse tornam o que são – e nada além disso. […] V O vento do outono chegou.Está por toda parte. Movecada folha de […]
- [Eamon Grennan - Uma manhã](https://singularidadepoetica.art/2020/07/06/eamon-grennan-uma-manha/): Procurando pedras raras, dei com a lontra mortaapodrecendo na linha da maré, e carreguei pelo resto do dia o odor desta brutaldespedida. Aquele som lancinante e agudo do ostraceiroecoava pela enseada rochosaonde um cormorão se alimentava e submergia na baíae de onde uma garça-real alçou voo de um rochedo onde estivera invisível,pairou um tempo, e […]
- [David Mourão-Ferreira - Soneto do cativo](https://singularidadepoetica.art/2020/07/04/david-mourao-ferreira-soneto-do-cativo/): Se é sem dúvida Amor esta explosão De tantas sensações contraditórias; A sórdida mistura das memórias, Tão longe da verdade e da invenção; O espelho deformante; a profusão De frases insensatas, incensórias; A cúmplice partilha nas histórias Do que os outros dirão ou não dirão; Se é sem dúvida Amor a cobardia De buscar nos […]
- [William Butler Yeats - Leda e o cisne](https://singularidadepoetica.art/2020/07/02/william-butler-yeats-leda-e-o-cisne/): Súbito, um baque: as grandes asas brancas Pousam sobre a jovem, e a agarram com jeito, As patas negras lhe afagam as ancas E a estreitam, impotente, contra o peito. Com dedos trêmulos, como afastar Das coxas fracas o esplendor plumado? E como não sentir a palpitar O estranho coração, desabalado? Um espasmo ― e […]
- [Ted Kooser - Depois de anos](https://singularidadepoetica.art/2020/06/30/ted-kooser-depois-de-anos/): Hoje, de longe, eu a vi se afastando, e, sem nenhum som, a fronte brilhante de um glaciar deslizou para o mar. Um antigo carvalho tombou na Cumberlands, mantendo apenas um punhado de folhas, e uma idosa espalhando milho para suas galinhas olhou para cima por um instante. No outro lado da galáxia, uma estrela […]
- [Dorianne Laux - Interstício](https://singularidadepoetica.art/2020/06/19/dorianne-laux-intersticio/): Nós montamos o quebra-cabeça peça por peça, apreciando como um entalhe curvo se insere tão suavemente no outro. Uma mancha amarela se transforma na palha de uma vassoura, e duas peças azuis completam o último pedaço do céu. Juntos, remendamos as cadeiras de balanço e as árvores do outono, combinando ouro com ouro. Temos nas […]
- [Fernando Pessoa - [Tenho tanto sentimento]](https://singularidadepoetica.art/2020/06/18/fernando-pessoa-tenho-tanto-sentimento/): Tenho tanto sentimento Que é frequente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a […]
- [Marie Howe - Quantas vezes](https://singularidadepoetica.art/2020/06/17/marie-howe-quantas-vezes/): Não importa quantas vezes eu tente, não consigo impedir meu pai de entrar no quarto da minha irmã e não consigo ver melhor, inclinando-me daqui para olhar em seus olhos. Está escuro no corredor e todos estão dormindo. Este é o passado onde tudo já está perfeito e nada muda, onde o copo de água […]
- [Kevin Hart - Noites](https://singularidadepoetica.art/2020/06/16/kevin-hart-noites/): Não há nada que eu realmente queira: As estrelas hoje à noite são profusas e frias Acima da minha casa que vagamente paira em uma via logo perdida nas trevas. Meu prato raso está todo lascado (o que indica que mudei bastante); Meu copo está rachado de um lado (isso mostra que há um rumo […]
- [Steve Kowit - Algumas nuvens](https://singularidadepoetica.art/2020/06/15/steve-kowit-algumas-nuvens/): Agora que desliguei o telefone, ninguém poderá me encontrar – Ao menos por esta tarde eles terão que passar sem meus conselhos e opiniões. Agora ninguém mais vai ligar & perguntar com uma voz vacilante se eu ainda não ouvi que ela está morta, a mulher que eu amei uma vez – nada além de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Wuang Shi, pirata aposentado, fala em sua festa de aniversário no hospital de Ching Pei para seus amigos e convidados imaginários](https://singularidadepoetica.art/2020/06/14/juan-vicente-piqueras-wuang-shi-pirata-aposentado-fala-em-sua-festa-de-aniversario-no-hospital-de-ching-pei-para-seus-amigos-e-convidados-imaginarios/): Wuang Shi, pirata aposentado, fala em sua festa de aniversário no hospital de Ching Pei para seus amigos e convidados imaginários para Rafa Rodríguez Perdeu-se a honra. Como se fosse o tempo, a vida, o rumo ou a paciência perdeu-se a honra. E aqui estamos. Todos sabeis quem sou e não direi meu nome nem […]
- [Connie Wanek - Depois de nós](https://singularidadepoetica.art/2020/06/13/connie-wanek-depois-de-nos/): Depois de nós Não sei se estamos no início ou na fase final. Tomas Tranströmer A chuva está caindo através do telhado. E tudo o que prosperou debaixo do sol, os livros que se abriram de manhã e se fecharam à noite, e o dia inteiro viraram suas páginas para a luz; os esboços de […]
- [Jane Kenyon - A tigela azul](https://singularidadepoetica.art/2020/06/12/jane-kenyon-a-tigela-azul/): Como primitivos, enterramos o gato com seu prato. Com as mãos nuas raspamos areia e cascalho de volta para o buraco. Caíram com um silvo e um baque ao lado dele, em seu longo pelo vermelho, o branco pelame entre seus dedos, e seu longo, para não dizer aquilino, nariz. Nós nos levantamos e nos […]
- [Forrest Hamer - Lição](https://singularidadepoetica.art/2020/06/11/forrest-hamer-licao/): Foi no verão de 63 ou 64, e meu pai estava transportando nossa família de Ft. Hood para a Carolina do Norte em nosso Buick 56. Tínhamos ouvido falar dos ataques da Klan, e sabíamos que no Mississippi estava mais perigoso do que o habitual. A escuridão pendurava-se às arvores como musgo, e sempre que […]
- [Brian Turner - Quão brilhante é abril](https://singularidadepoetica.art/2020/06/10/brian-turner-quao-brilhante-e-abril/): E o ar, seco,Como as espáduas de um búfalo-d’água. Gafanhotos arranham a terra,roçam as asas com pernas finas,irrompendo à frente dos soldadosem voos rasantes em arco, as asas um borrão. Os soldados já não percebem,veem apenas os escombros das ruas,corpos cobertos por lençóis, e o sol,quão brilhante é, quão duro e plano e branco. Serão […]
- [David Ignatow - Para a minha filha](https://singularidadepoetica.art/2020/06/09/david-ignatow-para-a-minha-filha/): Quando eu morrer, escolhe uma estrelae dá-lhe o meu nomepara que saibas quenão te abandoneinem te esqueci.Foste para mim uma estrela,guiando-me pelo teu nascimentoe infância, minha mãona tua mão. Quando eu morrer,escolhe uma estrela e dá-lheo meu nome para que eu possa brilharsobre ti, até que te juntes a mimna escuridão e no silênciojuntos. Trad.: […]
- [Robinson Jeffers - Falcão ferido](https://singularidadepoetica.art/2020/06/08/robinson-jeffers-falcao-ferido/): Falcão Ferido I O pilar quebrado da asa se projeta da espádua coagulada,A asa arrasta-se como um estandarte no fracasso,Não mais para usar o céu, apenas para viver com fomeE dor por uns poucos dias: nem gato nem coioteAbreviarão a semana de espera pela morte: há caça sem garras.Ele permanece sob o carvalho e esperaOs […]
- [Jorge Luis Borges - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-arte-poetica/): Fitar o rio feito de tempo e águae recordar que o tempo é outro rio,saber que nos perdemos como o rioE que os rostos passam como a água. Sentir que a vigília é outro sonhoque sonha não sonhar e que a morteque teme nossa carne é essa mortede cada noite, que se chama sonho. No […]
- [Rainer Maria Rilke - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/rainer-maria-rilke-solidao/): A solidão é como uma chuva. Ergue-se do mar ao encontro das noites; de planícies distantes e remotas sobe ao céu, que sempre a guarda. E do céu tomba sobre a cidade. Cai como chuva nas horas ambíguas, quando todas as vielas se voltam para a manhã e quando os corpos, que nada encontraram, desiludidos […]
- [Cassiano Ricardo - Ladainha](https://singularidadepoetica.art/2016/06/25/cassiano-ricardo-ladainha/): Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso. Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- corporal? Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por […]
- [Gil Jorge - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/gil-jorge-so/)
- [Heinrich Heine - “Larga as parábolas sagradas”](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/heinrich-heine-larga-as-parabolas-sagradas/): Larga as parábolas sagradas, Deixa as hipóteses devotas, E põe-te em busca das respostas Para as questões mais complicadas. Por que se arrasta miserável O justo carregando a cruz, Enquanto, impune, em seu cavalo, Desfila o ímpio de arcabuz? De quem é a culpa? Jeová Talvez não seja assim tão forte? Ou será Ele o […]
- [Heinrich Heine - Morfina](https://singularidadepoetica.art/2016/06/15/heinrich-heine-morfina/): É grande a semelhança desses dois jovens e belos vultos, muito embora um pareça mais pálido e severo ou, posso até dizer, bem mais distinto do que o outro, o que, terno, me abraçava. Havia em seu sorriso tanto afeto, carinho e, nos seus olhos,tanta paz! Ornada de papoulas, sua fronte tocava a minha, às […]
- [Friedrich Hölderlin - As Parcas](https://singularidadepoetica.art/2016/06/14/friedrich-holderlin-as-parcas/): Dai-me, Potestades, mais um verão apenas, Apenas um outono de maduro canto, Que de bom grado, o coração já farto Do suave jogo, morrerei então. A alma que em vida nunca desfrutou os seus Direitos divinos nem no Orco acha repouso; Mas se eu lograr o que é sagrado, o que Trago em meu coração, […]
- [William Butler Yeats - Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/06/09/william-butler-yeats-bizancio/): As imagens febris do dia se desfazem; Os guardas imperiais, bêbados, jazem; Noite sem som, sombras noctívagas se alongam Da catedral e do seu gongo; À luz de estrela ou lua um domo desmerece Tudo o que é humanidade, Mera complexidade As veias, fúria e lama, em toda humana espécie. Diante de mim a imagem, […]
- [John Keats - Ode a um Rouxinol](https://singularidadepoetica.art/2016/06/05/john-keats-ode-a-um-rouxinol/): Meu peito dói; um sono insano sobre mim Pesa, como se eu me tivesse intoxicado De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim, Há um só minuto, e após no Letes me abismado: Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte, É do excesso de ser que aspiro em tua paz […]
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento-2/)
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento/)
- [Carlos Nejar - José Mora](https://singularidadepoetica.art/2016/06/03/carlos-nejar-jose-mora/): Eu retornei. A morte imensa, tão imensa que não tocava mais os seus limites, os feudos. E eu, aos poucos, fui vencendo, fui desembaraçando seus cordames, o mortal peso, a superfície desamparada e vasta como se num escafandro viesse lentamente ao som das águas e fosse uma cítara tangida entre duas espigas de penumbra e […]
- [Goethe - Canção Noturna do Andarilho](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/goethe-cancao-noturna-do-andarilho/): No alto das colinas há paz; não se ouve, ali nas frondes, mais que um sopro manso. Nem há no bosque um trino. Aguarda: tampouco tarda o teu descanso. Trad.: Nelson Ascher
- [Carlos Drummond de Andrade - Congresso Internacional do Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-congresso-internacional-do-medo/): Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-o-medo/): Em verdade temos medo. Nascemos escuro. As existências são poucas: Carteiro, ditador, soldado. Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos. Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas, Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor, este […]
- [Edgar Allan Poe - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/edgar-allan-poe-so/): Desde criança nunca fui como outros foram Nem meus olhos nunca viram o que outros viram, Já que minhas paixões não têm a mesma origem Não vêm da mesma fonte as dores que me afligem. Também o prazer era de outra natureza – Tudo que amei ninguém amou, tenho certeza. Lá – no despontar de […]
- [Rainer Maria Rilke - Morgue](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/rainer-maria-rilke-morgue/): Estão prontos, ali, como a esperar que um gesto só, ainda que tardio, possa reconciliar com tanto frio os corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim. Que nome no seu bolso já vazio há por achar? Alguém procura, enfim, enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só […]
- [Ruy Proença - Tiranias](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/ruy-proenca-tiranias/): antigamente diziam: cuidado, as paredes têm ouvidos então falávamos baixo nos policiávamos hoje as coisas mudaram: os ouvidos têm paredes de nada adianta gritar Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui
- [Nelson Santander - Saindo do Armário da Sacristia](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/nelson-santander-saindo-do-armario-da-sacristia/): Saindo do armário da sacristia, por Nelson Santander: ateísmo, humanismo secular e outras questões
- [Gastão Debreix - Por do Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/05/27/gastao-debreix-por-do-sol/)
- [Itamar Assumpção - Noite Torta](https://singularidadepoetica.art/2016/05/21/itamar-assumpcao-noite-torta/): Intérprete: Zeca Baleiro Na sala numa fruteira a natureza está morta laranjas, maçãs e pêras bananas, figos de cera decoram a noite torta Sob a janela do quarto a cama dorme vazia encaro nosso retrato sorrindo sobre o criado no meio da noite fria Está pingando o chuveiro que banho mais apressado molhado caíste fora […]
- [Georg Trakl - De Profundis](https://singularidadepoetica.art/2016/05/20/georg-trakl-de-profundis/): Há um restolhal, onde cai uma chuva negra. Há uma árvore marrom, ali solitária. Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias. Como é triste o entardecer Passando pela aldeia A terra órfã recolhe ainda raras espigas. Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo, E seu colo espera o noivo divino. Na volta Os […]
- [Ovídio - A Morte de Narciso](https://singularidadepoetica.art/2016/05/16/ovidio-a-morte-de-narciso/): Fonte sem limo, pura prata em ondas límpidas, jorrava. Nem pastor se achega, nem pastando seu rebanho montês, ou gado avulso, acode. Nem pássaro, nem fera, nem, tombando, um ramo perturba a úmida grama que o frescor irriga. O bosque impede o sol de aquentar este sítio. Da caça e do calor exausto, aqui vem […]
- [Jorge Luis Borges — Pátio](https://singularidadepoetica.art/2016/05/14/jorge-luis-borges-patio/): Com a tarde Cansaram-se as duas ou três cores do pátio. A grande franqueza da lua cheia Já não entusiasma o seu habitual firmamento. Hoje que o céu está frisado, Dirá a crendice que morreu um anjinho. Pátio, céu canalizado. O pátio é a janela por onde Deus olha as almas. O pátio é o […]
- [Humberto Gessinger - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/humberto-gessinger-novos-horizontes/)
- [Engenheiros do Hawaii - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-novos-horizontes/): Corpos em movimento O universo em expansão E o apartamento que era tão pequeno Não acaba mais “Vamos dar um tempo” Não sei quem deu a sugestão E aquele sentimento que era passageiro Não acaba mais Quero explodir as grades E voar Não tenho pra onde ir Mas não quero ficar Novos horizontes Se não […]
- [Humberto Gessinger - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre-2/)
- [Engenheiros do Hawaii - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre/): http://h.saavncdn.com/737/UMG_00602498011737_01_011.mp3 Nem tudo está perdido Nem sinal de pedra no peito O horóscopo do jornal Arriscou “um belo dia” Liguei o rádio na hora certa Era a canção que eu queria Nem tudo está perdido Tudo em paz no reino da química Ninguém me telefonou Enquanto eu dormia Sonhei com meu pai e ele sorria […]
- [Nelson Santander - Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2016/05/08/nelson-santander-singularidade-2-poema/): Singularidade, um poema de Nelson Santander
- [Augusto de Campos - Desgrafite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/augusto-de-campos-desgrafite/)
- [William Butler Yeats - O Prazer do Difícil](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/william-butler-yeats-o-prazer-do-dificio/): O prazer do difícil tem secado A seiva em minhas veias. A alegria Espontânea se foi. O fogo esfria No coração. Algo mantém cerceado Meu potro, como se o divino passo Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço, Sob o chicote, trêmulo, prostrado, E carregasse pedras. Diabos levem As peças de sucesso que […]
- [André Ladeia - Efêmera](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/andre-ladeia-efemera/): A terra boia no oceano negro E estrelado Ela dança e rodopia; Ah! Como é bela E frágil… A Terra é uma bolha de sabão. http://antoniocicero.blogspot.com.br/2016/05/andre-ladeia-efemera.html
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras-2/)
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras/): https://youtu.be/dg4pbf0kcXk Eu insisto em cantar Diferente do que ouvi Seja como for recomeçar Nada há, mais há de vir Me disseram que sonhar Era ingênuo, e daí? Nossa geração não quer sonhar Pois que sonhe a que há de vir Eu preciso é te provar Que ainda sou o mesmo menino Que não dorme […]
- [Humberto Gessinger - Além da Máscara](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/humberto-gessinger-alem-da-mascara/): https://youtu.be/UclZRlPUyuA Intérprete: Pouca Vogal Agora que a terra é redonda E o centro do universo é outro lugar É hora de rever os planos O mundo não é plano, não pára de girar Agora que tudo é relativo Não há tempo perdido, não há tempo a perder Num piscar de olhos tudo se transforma Tá […]
- [Augusto de Campos - Pulsar (1975)](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/augusto-de-campos-pulsar-1975/): Intérprete: Caetano Veloso
- [José Paulo Paes - Seu Metaléxico](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/jose-paulo-paes-seu-metalexico/): Conheça outros livros de José Paulo Paes clicando aqui
- [Ivan Junqueira - O Aeroplano](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/ivan-junqueira-o-aeroplano/): Quando eu fiz cinco anos, meu pai deu-me de presente um aeroplano que ele próprio construíra com finas hastes de bambu e papel de seda. Tão leve quanto uma libélula, o frágil engenho voou até desaparecer por detrás do muro do quintal e dos últimos reflexos de um poente de verão. Ninguém jamais o encontrou. […]
- [Dante Milano - Princípio da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/dante-milano-principio-da-noite/)
- [Darcy Ribeiro - Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/darcy-ribeiro-mim/)
- [Darcy Ribeiro - A Indesejada](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-a-indesejada/): Aí estão eles, os da terceira idade. Gregários, vivem aos bandos. Sentados, jogando cartas, andando devagar. Conversando pretéritos assuntos. Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos. Hoje, são sogros, os chatos dos sogros. Uns são viúvos, outros largados, poucos. Muitos deles, os mais, ainda casados. As mulheres duram demais. Órfãos de seus […]
- [Darcy Ribeiro - Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-amor-poema/): "Amor", um poema de Darcy Ribeiro Quero um amor alucinado, depravado, tarado. Amor inteiro, de corpo-a-corpo, enlaçados. Amor sem reserva, que a tudo se entrega, lancinante. (...)
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/vinicius-de-moraes-soneto-de-maio/): Suavemente Maio se insinua Por entre os véus de Abril, o mês cruel E lava o ar de anil, alegra a rua Alumbra os astros e aproxima o céu. Até a lua, a casta e branca lua Esquecido o pudor, baixa o dossel E em seu leito de plumas fica nua A destilar seu luminoso […]
- [Jim Holt - Por que o Mundo Existe? (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/jim-holt-por-que-o-mundo-existe-excerto/): Já se disse que a pergunta Por que existe algo e não apenas o nada? é tão profunda que só ocorreria a um metafísico, mas também é tão simples que só ocorreria a uma criança. Na época, eu não tinha idade para ser metafísico. Mas por que a pergunta não me ocorreu na infância? Revendo a questão, […]
- [Manuel Bandeira - O Último Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/manuel-bandeira-o-ultimo-poema/): Assim eu quereria meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
- [Søren Kierkegaard - O Prazer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/soren-kierkegaard-o-prazer/)
- [Blaise Pascal - de Pensamentos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/blaise-pascal-de-pensamentos/)
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-3-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-2-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Pedro Paulo de Sena Madureira - Matsuo Basho, Uma Garça](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/pedro-paulo-de-sena-madureira-matsuo-basho-uma-garca/)
- [Sílvia Rocha - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/silvia-rocha-solidao-2/)
- [Salvatore Quasimodo - E De Repente é Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite-2/)
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antônio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre-2/)
- [James Agee - Sim, Todas as Crianças...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/james-agee-sim-todas-as-criancas/)
- [Cristina Lemos - O Amor Sempre Falha](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cristina-lemos-o-amor-sempre-falha/)
- [Chico Buarque e Francis Hime - Trocando em Miúdos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/chico-buarque-e-francis-homem-trocando-em-miudos/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4-2/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4/): Nada vos oferto além destas mortes de que me alimento Caminhos não há Mas os pés na grama os inventarão Aqui se inicia uma viagem clara para a encantação Fonte, flor em fogo, quem é que nos espera por detrás da noite ? Nada vos sovino: com a minha incerteza vos ilumino
- [Chico Buarque - O Meu Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/22/chico-buarque-o-meu-amor/)
- [Philip Larkin - Por Que Sonhei Contigo a Noite Passada?](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-por-que-sonhei-contigo-a-passada/): Por que sonhei contigo a noite passada? Agora a manhã empurra cabelos para trás [com uma luz grisalha Lembranças batem de volta, como tapas na cara; Apoiado no cotovelo, eu fito o branco nevoeiro Além da janela. Tantas coisas que eu pensava esquecidas Voltam agora à mente numa estranha dor: Como cartas que chegam para […]
- [Philip Larkin - Ignorância](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-ignorancia/): Estranho nada saber, nunca ter a certeza Do que é verdadeiro, certo ou real, Forçado então a dizer pelo menos é o que sinto Ou Bom, é o que parece: Alguém deve saber. Estranho ignorar o modo como as coisas funcionam: A sua capacidade de encontrar o que necessitam, O seu sentido de forma, e […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/caetano-veloso-o-homem-velho-2/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Chico Buarque - Olhos nos Olhos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-olhos-nos-olhos/)
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-pedaco-de-mim-2/)
- [Cassiano Ricardo - O Relógio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/17/cassiano-ricardo-o-relogio/): Diante de coisa tão doída conservemo-nos serenos. Cada minuto de vida nunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma face Do não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nasce já se começa a morrer.
- [José Paulo Paes - Auto-epitáfio n° 2](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2-2/)
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/machado-de-assis-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Veja também: https://nsantand.wordpress.com/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/
- [Silvio Rodriguez e Pablo Milanés - Por Quem Merece Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-e-pablo-milanes-por-quem-merece-amor/): (intérpretes: MPB4) Te perturba esse amor? Amor de juventude Meu amor é amor de virtude Te perturba esse amor? Sem máscaras por trás Meu amor é uma arte de paz Te perturba esse amor? Amor de humanidade Meu amor é amor de verdade Te perturba esse amor? Com todos ao redor Meu amor é uma […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna-2/): (intérprete: Silvio Rodriguez) Vivo en un país libre cual solamente puede ser libre en esta tierra, en este instante yo soy feliz porque soy gigante. Amo a una mujer clara que amo y me ama sin pedir nada o casi nada, que no es lo mismo pero es igual Y si esto fuera poco, tengo […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna/)
- [Chico Buarque e Edu Lobo - Valsa Brasileira](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/chico-buarque-e-edu-lobo-valsa-brasileira/)
- [Eclesiastes (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/eclesiaste-excerto/): “Acumulei também prata e ouro, as riquezas dos reis e das províncias. Escolhi cantores e cantoras e todas as delícias dos homens, toda a abundância dos cofres. Ultrapassei e avantajei-me a todos quantos me precederam em Jerusalém, e a sabedoria permanecia junto a mim. Então examinei todas as obras de minhas mãos e o trabalho […]
- [Chico Buarque e Edu Lobo - A Moça do Sonho (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/chico-buarque-e-edu-lobo-a-moca-do-sonho-excerto/)
- [Nelson Santander - Renata Maria](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/nelson-santander-renata-maria/): Renata Maria, por Nelson Santander: uma análise da letra da canção de Chico Buarque
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/1517-2/)
- [Carlos Drummond de Andrade - A um Ausente](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/carlos-drummond-de-andrade-a-um-ausente/): Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de […]
- [Bertolt Brecht - Tudo Muda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/bertolt-brecht-tudo-muda/): Tudo muda. De novo começar podes, com o último alento. O que acontece, porém, fica acontecido: e a água que pões no vinho, não podes mais separar. O que acontece, fica acontecido: a água que pões no vinho, não podes mais separar. Porém, tudo muda: com o último alento podes de novo começar. Tradução: Geir […]
- [Ferreira Gullar - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/ferreira-gullar-ano-novo/): Meia-noite. Fim de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício. Olho o céu: o abismo vence o olhar. O mesmo espantoso silêncio da Via-Láctea feito um ectoplasma sobre a minha cabeça nada ali indica que um ano novo começa. E não começa nem no céu nem no chão do planeta: começa no […]
- [Jorge de Lima - A Divisão de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/jorge-de-lima-a-divisao-de-cristo/): Dividamos o mundo em duas partes iguais: uma para portugueses, outra para espanhóis. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus: a metade morreu na viagem do oceano. Dividamos o mundo entre as pátrias. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras: a metade morreu nos campos de batalha. Dividamos o mundo entra as máquinas. […]
- [Clarice Lispector - Acredito...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/clarice-lispector-acredito/)
- [Do Remorso Pela Traição](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/do-remorso-pela-traicao/): Não existe sentimento de culpa quando o assunto é traição amorosa. Se vemos alguém se lamentando, arrependido da traição descoberta, isso não é remorso, mas auto-piedade pela súbita constatação de que seus atos trar-lhe-ão consequências indesejáveis. Não se espere daquele que há meia hora delirava nos braços de um amante que experimente algo além de […]
- [Torquato Neto - Cogito](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/torquato-neto-cogito/): eu sou como eu sou pronome pessoal intransferível do homem que iniciei na medida do impossível eu sou como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem novos secretos dentes nesta hora eu sou como eu sou presente desferrolhado indecente feito um pedaço de mim eu sou como eu sou vidente e vivo tranqüilamente todas […]
- [Manuel Bandeira - Versos de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/manuel-bandeira-versos-de-natal/): Espelho, amigo verdadeiro, Tu refletes as minhas rugas, Os meus cabelos brancos, Os meus olhos míopes e cansados. Espelho, amigo verdadeiro, Mestre do realismo exato e minucioso, Obrigado, obrigado! Mas se fosses mágico, Penetrarias até o fundo desse homem triste, Descobririas o menino que sustenta esse homem, O menino que não quer morrer, Que não […]
- [Carlos Rennó - Todas Juntas Num Só Ser](https://singularidadepoetica.art/2016/04/07/carlos-renno-todas-juntas-num-so-ser/): Intérprete: Lenine Não canto mais Bebete nem DomingasNem Xica nem Tereza, de Ben Jor;Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;Nem Ana nem Luiza, do maior;Já não homenageio Januária,Joana, Ana, Bárbara, de Chico;Nem Yoko, a nipônica de Lennon;Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico; Nem a tigresa, nem a vera gata,Nem a camaleoa, de […]
- [Nelson Santander - Sonho Sertanejo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/nelson-santander-sonho-sertanejo/): Sonho Sertanejo, uma crônica de Nelson Santander sobre sonhos, subconsciente e gosto musical
- [Philip Larkin - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-aubade/): De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara. Olho o negror sem som, me levantando às quatro. Em tempo, a borda da cortina vai estar clara. Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato: A morte infatigável, um dia mais perto, Tornando inviável todo pensamento, exceto O de onde, como e […]
- [Philip Larkin - Eu Comecei a Dizer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-eu-comecei-a-dizer/): Eu comecei a dizer “Um quarto de século” Ou “trinta anos atrás” Sobre minha própria vida. Isso me deixa sem fôlego É como despencar e arremeter Acenando em largos giros Através do céu vazio. Tudo o que resta acontecer São algumas mortes (incluindo a minha). Em que ordem, e de que maneira, É o que […]
- [Philip Larkin - As Árvores](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/philip-larkin-as-arvores/): As árvores se põem a enfolhar Como algo quase expresso. Seus brotos, Tenros, estão se estendendo, soltos; Seu verde é uma espécie de pesar. Renascem, ou é a gente que vem a Envelhecer? Não, morrem, por certo. O truque anual de um novo aspecto Está inscrito nos anéis da lenha. E cada castelo móvel, no […]
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda-2/)
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda/): Folheio a vida Num calendário velho. Dias riscados, como contas pagas. Domingos de repouso, Segundas de trabalho Sábados de cansaço, Sem nenhum sentido. No abismo do nada, O nada, apenas. Quem sofreu nestas páginas vazias, Tão frias, Tão serenas?
- [William Carlos Williams - Estas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/william-carlos-williams-estas/): ESTAS são as semanas desoladas, sombrias em que na sua aridez a natureza rivaliza com a estupidez humana. O ano despenha-se na noite e o coração é um abismo mais fundo que a noite nesse vazio varrido pelo vento sem sol, sem lua nem estrelas apenas uma estranha luz do pensamento que lança um tenebroso […]
- [Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto - Paulista](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/eduardo-gudin-e-j-c-costa-netto-paulista/): (intérprete: Leila Pinheiro) Na Paulista os faróis já vão abrir E um milhão de estrelas prontas pra invadir Os jardins onde a gente aqueceu uma paixão Manhãs frias de abril Se a avenida exilou seus casarões Quem reconstruiria nossas ilusões? Me lembrei de contar prá você nessa canção Que o amor conseguiu Você sabe quantas […]
- [Arnaldo Antunes - Saiba](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/arnaldo-antunes-saiba/): (intérprete: Adriana Calcanhoto/Partimpim) Saiba Todo mundo foi neném Einstein, Freud e Platão, também Hitler, Bush e Saddam Hussein Quem tem grana e quem não tem… Saiba Todo mundo teve infância Maomé já foi criança Arquimedes, Buda, Galileu E também você e eu… Saiba Todo mundo teve medo Mesmo que seja segredo Nietzsche e Simone […]
- [Belchior - Velha Roupa Colorida](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/belchior-velha-roupa-colorida/): Você não sente e nem vê Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, Que uma nova mudança em breve vai acontecer E o que há algum tempo era jovem, novo, Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer Nunca mais meu pai falou: “She’s leaving home”, E meteu o pé na estrada “Like a […]
- [Humberto Gessinger - Terceira do Plural](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/humberto-gessinger-terceira-do-plural/): Corrida pra vender cigarro Cigarro pra vender remédio Remédio pra curar a tosse Tossir, cuspir, jogar pra fora Corrida pra vender os carros Pneu, cerveja e gasolina Cabeça pra usar boné E professar a fé de quem patrocina Eles querem te vender… Eles querem te comprar… Querem te matar (a sede) Eles querem te sedar! […]
- [Konstantinos Kaváfis - Desejos (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-desejos-em-3-traducoes/): DESEJOS – Trad. José Paulo Paes Belos corpos de mortos que nunca envelheceram, com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes, jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas – assim são os desejos que um dia feneceram sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes o prazer de uma noite ou a manhã luminosa. DESEJOS – Trad. […]
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-2/): DER PANTHER Rainer Maria Rilke Im Jardin des Plantes, Paris Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe so müd geworden,dass er nichts mehr hält. Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe und hinter tausend Stäben keine Welt. Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte, der sich im allerkleinsten Kreise dreht, ist wie ein Tanz von […]
- [William Blake - O Ti(y)gre (em 4 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/william-blake-o-tiygre-em-4-traducoes/): O TYGRE – Trad. Augusto de Campos Tygre! Tygre! Brilho, brasa que a furna noturna abrasa, que olho ou mão armaria tua feroz symmetrya? Em que céu se foi forjar o fogo do teu olhar? Em que asas veio a chamma? Que mão colheu esta flamma? Que força fez retorcer em nervos todo o teu […]
- [Augusto de Campos - O Vivo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/augusto-de-campos-o-vivo/): Não queiras ser mais vivo do que és morto. As sempre-vivas morrem diariamente Pisadas por teus pés enquanto nasces. Não queiras ser mais morto do que és vivo. As mortas-vivas rompem as mortalhas Miram-se umas nas outras e retornam (Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!) Para amassar o pão da própria carne. Ó vivo-morto […]
- [Louise Glück - Trillium*](https://singularidadepoetica.art/2019/11/20/louise-gluck-trillium/): Quando acordei, estava em uma floresta. A escuridãoparecia natural, o céu entre os pinheirosrepleto de muitas luzes. Eu não sabia nada; eu não podia fazer nada além de olhar.E enquanto observava, todas as luzes do céuse apagaram para formar uma única coisa, um fogoardendo por entre os frescos abetos.Então, não era mais possível olharpara o […]
- [Louise Glück - Matinas (2)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/19/louise-gluck-matinas-2/): Pai inalcançável, quando fomos, pela primeira vez,exilados do paraíso, criasteuma réplica, um lugar em certo sentidodiferente do paraíso,concebido para ensinar uma lição: de outro modo,o mesmo – beleza em ambos os lados, belezasem alternativa – Excetoque não sabíamos qual era a lição. Deixados sozinhos,nos consumimos. Anosde escuridão se seguiram; nos revezávamoscuidando do jardim, as primeiras […]
- [Louise Glück - Matinas* (1)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/18/louise-gluck-matinas-1/): Brilha o sol; perto da caixa de correio, folhasde uma bétula dividida, dobradas, plissadas como barbatanas.Abaixo, hastes ocas de narcisos brancos, Tulipas,Cantatrice**; folhasescuras de violetas selvagens. Noah dizque os depressivos odeiam a primavera, desequilíbrioentre o mundo interior e exterior. Eu defendooutra perspectiva – deprimida, sim, mas de alguma forma apaixonadamenteunida à árvore viva, meu corporealmente […]
- [Louise Glück - A íris selvagem](https://singularidadepoetica.art/2019/11/17/louise-gluck-a-iris-selvagem/): No fim do meu sofrimentohavia uma saída. Ouça-me: aquilo que você chama de morteeu me recordo. Acima, ruídos, ramos de pinheiros se movendo.Depois, nada. O sol fracocintilava sobre a superfície ressequida. É terrível sobrevivercomo consciênciaenterrada na terra escura. E então acabou: aquilo que você teme, sendouma alma e incapazde falar, terminando abruptamente, a terra duracedendo […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "The Wild Iris", de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2019/11/16/nelson-santander-apresentacao-de-the-wild-iris-de-louise-gluck/): Atualizado em 08/10/2020: tive contato com a obra de Louise Glück no ano passado. Como narrado na apresentação que segue, fui tão impactado pela qualidade de seus poemas que me vi na contingência de traduzir, na íntegra, um de seus principais trabalhos – The Wild Iris. E desde então, tenho traduzido diversos outros grandes poemas […]
- [Wendell Berry - Antes do Anoitecer](https://singularidadepoetica.art/2019/11/15/wendell-berry-antes-do-anoitecer/): Da varanda no crepúsculo, observeium martim-pescador selvagem em um vooque ele só poderia estar realizando por deleite. Ele desceu pelo rio, chapinhandocontra o rosto turvo da águacomo uma pedra saltitante, passando rio abaixo até sumir de vista. E aindaeu podia ouvir o chapinharcada vez mais distante à medida que escurecia. Ele voltoupelo mesmo caminho, escuro […]
- [Joseph Stroud - Primeira Canção](https://singularidadepoetica.art/2019/11/14/joseph-stroud-primeira-cancao/): Naquela distante manhã na fazenda de Ruthquando me escondi entre as glicíniase observei os beija-flores. Eu penseique o rubi ou o ouro que reluzia em seus pescoçosfosse o sangue adocicado das flores.Eles mergulhavam seus bicos perfurantesem uma coroa de pétalas até suas cabeçasdesaparecerem. As flores se confundiam com as asas,e a respiração que eu ouviavinha […]
- [Wislawa Szymborska - Adolescente](https://singularidadepoetica.art/2019/11/13/wislawa-szymborska-adolescente/): Eu — adolescente? Se de repente ela me aparecesse aqui, agora, deveria saudá-la como a uma pessoa próxima, mesmo que me pareça estranha e distante? Derramar uma lágrima, beijar a testa somente pelo motivo de termos a mesma data de nascimento? Tanta dessemelhança entre nós que talvez só os ossos sejam os mesmos, o formato […]
- [Joan Margarit - Água-forte](https://singularidadepoetica.art/2019/11/12/joan-margarit-agua-forte/): O granizo metralha as vidraças,as rajadas arrasam as calçadas.E tu e eu aqui, onde o mau temporesume os obstáculos que às vezesnos levam à beira do abismo.Olhos brilhantes de desacertos,mãos queimadas por se salvarem agarradasaos gelados corrimãos do inferno.Que o acaso continue disparandosem razão, como sempre, nas vidraças.Além do amor – desse nosso amor –nada […]
- [Paul Verlaine – Colóquio sentimental](https://singularidadepoetica.art/2019/11/11/paul-verlaine-coloquio-sentimental/): No velho parque frio e abandonado Duas formas passaram lado a lado. Olhos sem vida já, lábios tremendo, Apenas se ouve o que elas vão dizendo. No velho parque frio e abandonado, Dois vultos evocaram o passado. – Lembras-te bem do nosso amor de outrora? – Por que é que hei de lembrar-me disso agora? […]
- [Tarso de Melo – Raiz e minério](https://singularidadepoetica.art/2019/11/10/tarso-de-melo-raiz-e-minerio/): ainda é possível ouvir (mais fundo, mais fundo,você encontra) o som da lama se arrastando por baixodas portas e aos pés do sofá (o que há é o homem,esse bicho) nos vãos da estante e no meio dos livrosnas gavetas da geladeira (que invade a terra procurandooutro homem) na altura do peito e entre os […]
- [Manuel Vilas - Delia's Gone](https://singularidadepoetica.art/2019/11/09/manuel-vilas-delias-gone/): "Delia's Gone", um poema de Manuel Vilas que aborda de forma provocativa e irônica a relação entre amor, abandono e suicídio, evocando figuras como Ian Curtis, Mariano José de Larra e Sylvia Plath para refletir sobre a idealização trágica da morte por amor e o vazio deixado pela perda.
- [Wislawa Szymborska - Bagagem de volta](https://singularidadepoetica.art/2019/11/08/wislawa-szymborska-bagagem-de-volta/): Uma quadra de pequenas tumbas no cemitério. Nós, que vivemos muito, passamos furtivamente, como os ricos passam pelos bairros dos pobres. Aqui jazem a Zosia, o Jacek, o Dominik, prematuramente tirados do sol, da lua, da mudança das estações, das nuvens. Não juntaram muito na bagagem de volta. Fragmentos de vista não muito no plural. […]
- [Ferreira Gullar - Morrer no Rio de Janeiro](https://singularidadepoetica.art/2019/11/07/ferreira-gullar-morrer-no-rio-de-janeiro/): Se for março quando o verão esmerila a grossa luz nas montanhas do Rio teu coração estará funcionando normalmente entre tantas outras coisas que pulsam na manhã ainda que possam de repente enguiçar. Se for março e de manhã as brisas cheirando a maresia quando uma lancha deixa seu rastro de espumas no dorso da […]
- [Joan Margarit - Anos Sessenta](https://singularidadepoetica.art/2019/11/06/joan-margarit-anos-sessenta/): Lento, muito mais lento, tempo meu: falemos sobre o amor mesmo que as rosas tenham que acabar sempre na lixeira. Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro? Sem esperança alguma, críamos em algo, ou, porque era difícil a fé em algo, nunca perdemos a esperança. Restam as bandeiras vermelhas de perigo defronte ao mar bravio. Lembro-me de […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Nos veremos novamente](https://singularidadepoetica.art/2019/11/05/luis-alberto-de-cuenca-nos-veremos-novamente-poema/): Nos veremos novamente onde sempre é de dia e os feios são bonitos e eternamente jovens, onde os poderosos não abusam dos mais fracos e, das árvores, pendem brinquedos e gibis. Nesta morada de luz que não fere os olhos Voltaremos, tu e eu, a dizer-nos bobagens de mãos dadas, contemplando as ondas a morrer […]
- [Jules Laforgue – O silêncio azul](https://singularidadepoetica.art/2019/11/04/jules-laforgue-o-silencio-azul/): Por todo o transcorrido eterno e no vindouro, A Noite universal povoa-se infinita E cegamente em coágulos onde se agita A vida que rabisca em arabescos de ouro. Eis que um daqueles, tão desassistido e só, Junto a seus deuses, artes, erros e mania, Seu lodaçal, miséria e cantos de ironia, Escreve história, grita ao […]
- [Karmelo C. Iribarren - A herança](https://singularidadepoetica.art/2019/11/03/karmelo-c-iribarren-a-heranca/): Ultimamente,quando me vejo no espelho,é meu avô quem me encara,mais que meu pai. Cinquenta anospara começar a entrar na posseda única herança que ele me deixou, e que acabará me matando. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog La herencia […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Dia dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2019/11/02/jorge-valdes-diaz-velez-dia-dos-mortos/): Dia dos mortos, um poema de Jorge Valdés Díaz-Vélez
- [Jaime Gil de Biedma - Canção de aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/11/01/jaime-gil-de-biedma-cancao-de-aniversario/): Porque são já seis anos desde então, porque não há na terra, ainda, nada tão doce quanto um quarto para dois, se for teu e meu; porque até o tempo, esse parente pobre que conheceu dias melhores, parece hoje partidário da felicidade, cantemos, alegria! E, depois, levantemo-nos mais tarde, como no domingo. Que a manhã […]
- [Wislawa Szymborska - Sobre a morte sem exagero](https://singularidadepoetica.art/2019/10/31/wislawa-szymborska-sobre-a-morte-sem-exagero/): Não entende de piadas,de estrelas, de pontes,de tecer, minerar, lavrar a terra,de construir navios e assar bolos. Quando falamos de planos para amanhãintromete sua última palavrasem nada a ver com o assunto. Não sabe sequer as coisasdiretamente ligadas ao seu ofício:nem cavar uma cova,nem fazer um caixão,nem arrumar a desordem que deixa. Ocupada em matar,o […]
- [Ferreira Gullar - Reflexão](https://singularidadepoetica.art/2019/10/30/ferreira-gullar-reflexao/): Está fora de meu alcance o meu fim Sei só até onde sou contemporâneo de mim
- [Joan Margarit - Inverno de 95](https://singularidadepoetica.art/2019/10/29/joan-margarit-inverno-de-95/): Esta carta a escrevo para alguémque está em um barco pelo nortede Tenerife, em cinquenta e sete.Um rapaz que, da amurada,mira o duro poente sobre o mare estuda arquitetura em Barcelona,para onde retorna agora. Aviso-tecom um sinal de alerta: a alegriaque sentes ao deixar teu pai para trásrevela a solidão sob uma luz dourada.Teu pai […]
- [Manuel António Pina - Eugénio de Andrade no seu leito de morte](https://singularidadepoetica.art/2019/10/28/manuel-antonio-pina-eugenio-de-andrade-no-seu-leito-de-morte/): Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um […]
- [Henry Reed – A nomeação das peças](https://singularidadepoetica.art/2019/10/27/henry-reed-nomeacao-das-pecas/): Hoje temos a nomeação das peças. OntemTivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonicaArde como coral em todos os jardins adjacentes,E hoje nós temos a nomeação das peças. Isto é o zarelho móvel inferior. E istoÉ o […]
- [Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Antonio Carlos Santos de Freitas – Infinito particular](https://singularidadepoetica.art/2019/10/26/marisa-monte-arnaldo-antunes-antonio-carlos-santos-de-freitas-infinito-particular/): Eis o melhor e o pior de mim No meu termômetro o meu quilate Vem, cara, me retrate Não é impossível Eu não sou difícil de ler Faça sua parte Eu sou daqui, eu não sou de Marte Vem, cara, me repara Não vê, ‘tá na cara Eu sou porta-bandeira de mim Só não se […]
- [Braulio Tavares - [para mim tanto faz]](https://singularidadepoetica.art/2019/10/25/braulio-tavares-para-mim-tanto-faz/): para mim tanto fazestar alegre ou tristeeu preciso é que o tempo voe,que o tempo viva a gente só lembraque o segundo existequando vê um relógioem contagem regressiva
- [Francisco Alvim – Nada, mas nada mesmo](https://singularidadepoetica.art/2019/10/24/francisco-alvim-nada-mas-nada-mesmo/): Nada, mas nada mesmo tem a menor importância Nem antesNem depoisNem durante
- [Francisco Brines - Métodos de conhecimento](https://singularidadepoetica.art/2019/10/23/francisco-brines-metodos-de-conhecimento/): No cansaço da noite, penetrando a mais sombria canção, recobrei por trás de meus olhos cegos o frágil testemunho de uma cena remota. Recendia o mar, e a aurora era a ladra dos céus; tornava fantasmagóricas as luzes da casa. Os comensais eram jovens, e fartos e sem sede, no naufrágio do banquete, buscavam a […]
- [João Cabral de Melo Neto - Uma faca só lâmina](https://singularidadepoetica.art/2019/10/22/joao-cabral-de-melo-neto-uma-faca-so-lamina/): Assim como uma balaenterrada no corpo,fazendo mais espessoum dos lados do morto; assim como uma balado chumbo pesado,no músculo de um homempesando-o mais de um lado qual bala que tivesseum vivo mecanismo,bala que possuísseum coração ativo igual ao de um relógiosubmerso em algum corpo,ao de um relógio vivoe também revoltoso, relógio que tivesseo gume de […]
- [António Ramos Rosa - O jardim](https://singularidadepoetica.art/2019/10/21/antonio-ramos-rosa-o-jardim/): Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Anúncio de pedra](https://singularidadepoetica.art/2019/10/20/hans-magnus-enzensberger-anuncio-de-pedra/): Perdem-se o cabelo, os nervos, vocês entendem, o tempo precioso, perde-se altura no posto perdido, brilho, sinto muito, não faz mal, por pontos, não me interrompam, perde-se sangue, pai e mãe, o coração perdido de Heidelberg, sem pestanejar perdem-se, de novo, os encantos da novidade, passe-se um esponja, os direitos civis, oh sim, a cabeça, […]
- [Wislawa Szymborska - Visto do alto](https://singularidadepoetica.art/2019/10/19/wislawa-szymborska-visto-do-alto/): Um besouro morto num caminho campestre. Três pares de perninhas dobradas sobre o ventre. Ao invés da desordem da morte – ordem e limpeza. O horror da cena é moderado, o âmbito estritamente local, da tiririca à menta. A tristeza não se transmite. O céu está azul. Para nosso sossego, os animais não falecem, morrem […]
- [José Paulo Paes - Dúvida](https://singularidadepoetica.art/2019/10/18/jose-paulo-paes-duvida/): Não há nada mais triste do que um cão em guarda ao cadáver do seu dono. Eu não tenho cão. Será que ainda estou vivo? data da última gravação: 8/10/98, 17h09 Na “Apresentação” de Socráticas – obra da qual foi extraído o poema acima – Alfredo Bosi esclarece: As Socráticas, publicadas postumamente, soam como um […]
- [Ferreira Gullar - Lições de um gato siamês](https://singularidadepoetica.art/2019/10/17/ferreira-gullar-licoes-de-um-gato-siames/): Só agora sei que existe a eternidade: é a duração finita da minha precariedade O tempo fora de mim é relativo mas não o tempo vivo: esse é eterno porque afetivo — dura eternamente enquanto vivo E como não vivo além do que vivo não é tempo relativo: dura em si mesmo eterno (e transitivo)
- [Joan Margarit - Piscina](https://singularidadepoetica.art/2019/10/16/joan-margarit-piscina/): Não temia a água, mas a ti,era teu medo o que eu temia,e o lugar mais profundo,em que não se veem os azulejos do fundo.Arrastaste-me até lá, lembro aindaa força de teus braços obrigando-me,enquanto tentava abraçar-me a ti.Não aprendi a nadar até muito tempo depois,e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.Agora que já nunca voltarás a […]
- [Manuel António Pina - Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte](https://singularidadepoetica.art/2019/10/15/manuel-antonio-pina-carta-a-mario-cesariny-no-dia-da-sua-morte/): Hoje soube-se uma coisa extraordinária, que morreste. Talvez já to tenham dito, embora o caso verdadeiramente não te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo. Algo, de fato, deve ter acontecido porque nada acontece, a não ser o costume, amor e estrume; quanto ao resto tudo prossegue de acordo com o Plano. Há apenas agora […]
- [Paulo Henriques Britto - O aqualouco](https://singularidadepoetica.art/2019/10/14/paulo-henriques-britto-o-aqualouco/): A verdadeira diferençasó se sente depois do frio.Antes é só um salto, um mergulho imprudente,como se eternidade fosse água gelada,como se o nada não fosse mais que um rio. Depois somem as palavras fáceis(“eternidade” etc.; v. acima),fica só o fundamental:o vômito, o medo, o adeus,a vontade de assassinar todos os recém-nascidosdo Egito, como se alguém […]
- [Chacal - como era bom](https://singularidadepoetica.art/2019/10/13/chacal-como-era-bom/): o tempo em que marx explicava que tudo era luta de classes como era simples o tempo em que freud explicava que édipo tudo explicava tudo era clarinho limpinho explicadinho tudo muito mais asséptico do que era quando nasci hoje rodado sambado pirado descobri que é preciso aprender a nascer todo dia
- [Wislawa Szymborska - Autotomia](https://singularidadepoetica.art/2019/10/12/wislawa-szymborska-autotomia/): Em perigo, a holotúria se divide em duas:com uma metade se entrega à voracidade do mundo,com a outra foge. Desintegra-se violentamente em ruína e salvação,em multa e prêmio, no que foi e no que será. No meio do corpo da holotúria se abre um abismocom duas margens subitamente estranhas. Em uma margem a morte, na […]
- [Antonio Colinas - Envio](https://singularidadepoetica.art/2019/10/11/antonio-colinas-envio/): Lembras-te ainda do débil cantodo rouxinol perdido na ramagem?Viste farfalhar comigo naquela noitea copa do cipreste. Desfez-seo céu em fios de luar sobre teu rosto.Mas depois do pássaro e da luaapagaram-se os astros. Vi passarnão sei que brisa estranha pelo teu corpo.Lembras-te das nossas mãos na água?Lembras-te do silêncio sobre o campoe, como um deus exangue, do […]
- [Meira Delmar – Hóspede sem sombra](https://singularidadepoetica.art/2019/10/10/meira-delmar-hospede-sem-sombra/): Nada deixam meus passos sobre a terra. No momento do último passeio hei de levar o que ao nascer me veio: o rosto em paz e o coração em guerra. Nenhuma voz repetirá a minha de saudoso ardor e fiel espanto. A voz estremecida com que canto o mar, a rosa, a melancolia. Não ressuscitará […]
- [Théodore Fraenckel - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2019/10/09/theodore-fraenckel-elegia/): X. não compreendeu ainda como lhe resta pouco tempo de vida. Outrora, os grandes lagos eram a esperança querida de um abrigo. Da infância, o que nos resta é esta visão acadêmica quando, suave, no tom do quadro, leve se sente o esboroar do espírito… Contudo, a vida nem sempre é uma constante aventura. Por […]
- [José Paulo Paes - De malas prontas](https://singularidadepoetica.art/2019/10/08/jose-paulo-paes-de-malas-prontas/): Vários dos seus amigos mortos dão hoje nome a ruas e praças. Ele próprio se sente um pouco póstumo quando conversa com gente jovem. Dos passeios, raros, a melhor parte é a volta para casa. As pessoas lhe parecem barulhentas e vulgares. Ele sabe de antemão tudo quanto possam dizer. Nos sonhos, os dias da […]
- [Ivan Junqueira - Estamos indo embora](https://singularidadepoetica.art/2019/10/07/ivan-junqueira-estamos-indo-embora/): Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia, por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico, os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios, com suas patas de veludo, silenciosas, que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis. Os tapetes abafam seus passos ociosos, como se faz quando se acolhem […]
- [Ferreira Gullar - Fim](https://singularidadepoetica.art/2019/10/06/ferreira-gullar-fim/): Como não havia ninguém na casa aquela terça-feira tudo é suposição: teria tomado seu costumeiro banho de imersão por volta de meio-dia e trinta e de cabelos ainda úmidos deitou-se na cama para descansar não para morrer queria dormir um pouco apenas isso e assim não lhe terá passado pela mente – até aquele último […]
- [Joan Margarit - Alguém](https://singularidadepoetica.art/2019/10/05/joan-margarit-alguem/): Tinha que salvar-me com seus olhos azuis cravados ainda em uma lembrança da adolescência, a estranha fase de precipitar-se, sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo. Do bonde, a fugaz imagem de uma garota em uma varanda, e o número de um telefone anotado como uma cicatriz na memória. Nunca estive a seu lado, inventava […]
- [Wislawa Szymborska - Fotografia de 11 de setembro](https://singularidadepoetica.art/2019/10/04/wislawa-szymborska-fotografia-de-11-de-setembro/): Saltaram dos andares em chamas —um, dois, alguns maisacima, abaixo. A fotografia os susteve em vidae agora os mantémsobre a terra em direção à terra. Cada um ainda é um todocom um rosto próprioe o sangue bem escondido. Há bastante tempopara os cabelos se soltareme dos bolsos caíremchaves, dinheiro trocado. Ainda estão ao alcance do […]
- [Delmore Schwartz - All night, all night](https://singularidadepoetica.art/2019/10/03/delmore-schwartz-all-night-all-night/): I have been one acquainted whit the night – Robert Frost Viajou de trem a noite inteira, sob uma luz agoureira. Uma ave Voou em paralelo com singular determinação. Em ações e anseios de devaneios Os demais passageiros curvados, deitados, lendo, dormindo, Esperando, e esperando um local para se deslocar, Para a correta rota da […]
- [Armando Freitas Filho - Autobiografia até agora](https://singularidadepoetica.art/2019/10/02/armando-freitas-filho-autobiografia-ate-agora/): No Cineac antes da descoberta do Brasil com a mãe a tiracolo vendo o Arqueiro Verde (um Robin Hood de segunda mão) disparando suas flechas morais. Depois, punhetas, colégios, lápis a primeira caneta, poesia, pin-ups futebol, jogo de botão e puteiros: a sessão começa quando você chega. Agora, no escuro, meio Zé Carioca trocando de […]
- [Miguel Martins - [Do lado de fora, tudo parece pouco]](https://singularidadepoetica.art/2019/10/01/miguel-martins-do-lado-de-fora-tudo-parece-pouco/): Do lado de fora, tudo parece pouco. Borborinho. Intemperança. Sono. O rosto não faz prova da memória mas a memória testemunha a evolução do rosto, os pares de óculos que por ali passaram, a fome e o consolo, o medo, a morte de cada beijo, o milagre do seu renascimento e, por fim, o extremo […]
- [Théodore Fraenckel - Meditação do fim de Agosto](https://singularidadepoetica.art/2019/09/30/theodore-fraenckel-meditacao-do-fim-de-agosto/): Mal as árvores se abatem, o que resta da floresta? Resistirá a madeira a ser moldada pelo acréscimo de formas que lhe vem da literatura? E no entanto a natureza nada tem de humano e dela não se pode dizer que prescinde de crescer e se aquieta nos limites de uma forma que a torna […]
- [Henry Scott Holland - [A morte não é nada]](https://singularidadepoetica.art/2019/09/29/henry-scott-holland-a-morte-nao-e-nada/): A morte não é nada*. Ela não conta. Eu apenas passei para a sala vizinha. Nada aconteceu. Tudo permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, e você é você, e a velha vida que vivemos carinhosamente juntos permanece intocada, inalterada. O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda o somos. Chame-me […]
- [José Paulo Paes - Glauco](https://singularidadepoetica.art/2019/09/28/jose-paulo-paes-glauco/): Nas duas vezes que voltei a Curitiba não o encontrei. Numa tinha viajado para o Rio na outra tinha viajado para a morte. E nem havia mais onde encontrá-lo: o Belas Artes fechara a redação de O Dia sumira-se no ar as pensões eram terrenos baldios. Desarvorado me sentei à mesa de uma confeitaria na […]
- [Ruy Belo – Uma vez que já tudo se perdeu](https://singularidadepoetica.art/2019/09/27/ruy-belo-uma-vez-que-ja-tudo-se-perdeu/): Que o medo não te tolha a tua mão Nenhuma ocasião vale o temor Ergue a cabeça dignamente irmão falo-te em nome seja de quem for No princípio de tudo o coração como o fogo alastrava em redor Uma nuvem qualquer toldou então céus de canção promessa e amor Mas tudo é apenas o que […]
- [Mário de Sá-Carneiro – Além-Tédio](https://singularidadepoetica.art/2019/09/26/mario-de-sa-carneiro-alem-tedio/): Nada me expira já, nada me vive – Nem a tristeza nem as horas belas. De as não ter e de nunca vir a tê-las, Fartam-me até as coisas que não tive. Como eu quisera, enfim d’alma esquecida, Dormir em paz num leito de hospital… Cansei dentro de mim, cansei a vida De tanto a […]
- [A. M. Pires Cabral — Confesso que voei](https://singularidadepoetica.art/2019/09/25/a-m-pires-cabral-confesso-que-voei/): 1 Mas, se nestas seis décadas e meia eu fui capaz de algum voo — concedo: semelhante ao das galinhas, isto é, rudimentar, desgracioso, com muitíssimo dispêndio de energia para pouca ascensão, breve e apenas em desespero de causa; em todo o caso uma forma de voo pelo qual me sustentei no ar em horas […]
- [Tristan Corbière - Paisagem má](https://singularidadepoetica.art/2019/09/24/tristan-corbiere-paisagem-ma/): Praias de ossos. A onda estertora Seus dobres, som a som, na areia. Palude pálido. O luar devora Grandes vermes – é a sua ceia. Torpor de peste: somente a febre Coze… O duende danado dorme. A erva que fede vomita a lebre, Bruxa medrosa que se some. A lavadeira branca junta os Trapos surrados […]
- [Ivan Junqueira - O que sabemos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/23/ivan-junqueira-o-que-sabemos/): É quase nada o que sabemos de nós, do que somos, do frêmito que nos empurra, débeis duendes, à cena ambígua da existência. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos moldou à sua esplêndida imagem, se a mão não lhe vemos? Será mesmo que o fez, consciente do risco que estava correndo, da imperdoável […]
- [Goethe - Aos leitores amigos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/22/goethe-aos-leitores-amigos/): Poetas não podem calar-se, Querem às turbas mostrar-se. Há-de haver louvores, censuras! Quem vai confessar-se em prosa? Mas abrimo-nos sub rosa No calmo bosque das Musas. Quanto errei, quanto vivi, Quanto aspirei e sofri, Só flores num ramo – aí estão; E a velhice e a juventude, E o erro e a virtude Ficam bem […]
- [Margaret Atwood - O momento](https://singularidadepoetica.art/2019/09/21/margaret-atwood-o-momento/): O momento em que, depois de muitos anos de trabalho duro e de uma longa jornada, encontras-te no centro do teu quarto, casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país, sabendo por fim como lá chegaste, e dizes: tudo isso me pertence, é o mesmo momento em que as árvores desatam seus braços macios ao teu […]
- [Michael Krüger - À primeira vista](https://singularidadepoetica.art/2019/09/20/michael-kruger-a-primeira-vista/): Na verdade, nada mudou: o castanheiro diante da casa, martirizado pela hera, as ameixeiras sobre o seu tapete azul, o doce perfume da infância e da decadência. Do vale, rugem os caminhões, e a sombra se apressa em redor da casa em sentido anti-horário, perscrutando a dor. Até o poço ainda está lá como um […]
- [Ferreira Gullar - Thereza](https://singularidadepoetica.art/2019/09/19/ferreira-gullar-thereza/): Sem apelo no vórtice do dia no abandono do chão na lâmina da luz feroz fora da vida desfaz-se agora a minha doída desavinda companheira
- [Eugénio de Andrade - Canção Breve](https://singularidadepoetica.art/2019/09/18/eugenio-de-andrade-cancao-breve/): Tudo me prende à terra onde me dei: o rio subitamente adolescente, a luz tropeçando nas esquinas, as areias onde ardi impaciente. Tudo me prende do mesmo triste amor que há em saber que a vida pouco dura, e nela ponho a esperança ou o calor de uns dedos com restos de ternura. Dizem que […]
- [Joan Margarit - De repente está claro](https://singularidadepoetica.art/2019/09/17/joan-margarit-de-repente-esta-claro/): De repente está claro. O amor é a vitória que irá me destruir. Como me gangrena o coração a solidão, como me destroça nas janelas do crepúsculo a hiena desolada e exangue. Na era rubra só o amor nos livra da gélida gruta do tempo. Conheci a glória de estar desesperado e a miséria do […]
- [Manuel António Pina - As escadas](https://singularidadepoetica.art/2019/09/16/manuel-antonio-pina-as-escadas/): Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas em direção à tua escuridão, deixando-me, ou a alguma coisa menos tangível, no seu lugar. Também elas envelheceram, as escadas, também, como eu, desabitadas. Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus, e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras.
- [Francisco Brines - Deitado](https://singularidadepoetica.art/2019/09/15/francisco-brines-deitado/): Chove, e amo. Pulsam, em alongada sombra, duas sombras vivas, sondam o nada, e nele se alimentam. São farrapos de luz, e à sua luz se veem olhos, músculos, cabelos, enquanto a sombra se extingue em mais sombra, e o repouso nos lençóis das fúrias do corpo é a gratidão de quem há de morrer, […]
- [Jaime Gil de Biedma - Valsa de Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/09/14/jaime-gil-de-biedma-valsa-de-aniversario/): Não há nada tão doce como um quarto para dois (quando já não nos amamos tanto) fora da cidade, em um hotel tranquilo, e casais duvidosos e alguma criança com caxumba, não fosse esta ligeira sensação de irrealidade. Algo como o verão na casa de meus pais, há tempos, como viajar de trem à noite. […]
- [Vasco Miranda - de "Invenção da Manhã"](https://singularidadepoetica.art/2019/09/13/vasco-miranda-de-invencao-da-manha/): 20 Olha Jorge quando vier a morte E virá cedo “Não deixes fechar-me os olhos” Eflorescências salitrosas me rebentarão das órbitas Para queimar as mãos que fechar-mos queiram – Não pode a luz negar-se a quem bêbado dela Inventou em cada dia uma madrugada E eis tudo quanto deixo a quem me herde Não Jorge […]
- [Joseph Stroud - A mais difícil tradução do amor](https://singularidadepoetica.art/2019/09/12/joseph-stroud-a-mais-dificil-traducao-do-amor/): “A mais difícil tradução do amor”, um poema de Joseph Stroud que compara o matrimônio a um filme estrangeiro, revelando com humor a ilusão momentânea de compreender plenamente o outro.
- [José Agostinho Baptista - É a prata da minha amada](https://singularidadepoetica.art/2019/09/11/jose-agostinho-baptista-e-a-prata-da-minha-amada/): “É a prata da minha amada”, um poema de José Agostinho Baptista que encena uma despedida crepuscular onde amor e morte se entrelaçam num silêncio maior que o mar.
- [José Paulo Paes - Elogio da Memória](https://singularidadepoetica.art/2019/09/10/jose-paulo-paes-elogio-da-memoria/): O funil da ampulhetaapressa, retardando-a,a quedada areia. Nisso imita o jogomanhosode certos momentosque se vão emboraquando mais queríamosque ficassem. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ruy Belo – Missa de aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/09/09/ruy-belo-missa-de-aniversario/): Há um ano que os teus gestos andam ausentes da nossa freguesia Tu que eras destes campos onde de novo a seara amadurece donde és hoje? Que nome novo tens? Haverá mais singular fim de semana do que um sábado assim que nunca mais tem fim? Que ocupação é agora a tua que tens todo […]
- [Luis Cernuda - Os espinhos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/08/luis-cernuda-os-espinhos/): Possuem já os espinhos verdor novo na colina, toda de púrpura e neve pelo ar estremecida. Quantos céus em flor já viste? Embora ao encontro eles serão sempre devotados, tu não o serás um dia. Antes que a penumbra caia, sabe o que a alegria é junto aos espinhos vermelhos e alvos em flor. Olha. […]
- [Luís de Góngora - Estamos desperdiçando a páscoa, moças](https://singularidadepoetica.art/2019/09/07/luis-de-gongora-estamos-desperdicando-a-pascoa-mocas/): Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Moçoilas do meu distrito, Louquinhas e confiantes, Que não vos engane o tempo, a idade e a confiança. Não deixeis cortejar-vos o frescor da juventude, porque de flores caducas tece o tempo suas grinaldas. Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Voam os velozes […]
- [José Régio – Cântico Negro](https://singularidadepoetica.art/2019/09/06/jose-regio-cantico-negro/): “Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui!” Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali… A minha glória é esta: […]
- [Javier Salvago - No verso de uma velha fotografia](https://singularidadepoetica.art/2019/09/05/javier-salvago-no-verso-de-uma-velha-fotografia/): Os Beatles ainda não tinham surgido, nem haviam abatido Che Guevara. Nat King Cole cantava ansiedad de tenerte en mis brazos ou solamente una vez se entrega el alma. e no cinema talvez exibissem Sete noivas para sete irmãos. O comandante Armstrong ainda não havia deixado sua profana pegada no rosto esburacado da lua. Os […]
- [Ferreira Gullar - Aqui e agora](https://singularidadepoetica.art/2019/09/04/ferreira-gullar-aqui-e-agora/): 1 Que faz a defunta manhã na manhã nova? Que sois vós hoje alegria de outrora riso extinta palavra de afeto? que sois vós senão fantasmas senão miasmas a infectar de morte o que está vivo? 2 Se há sol no pátio e um carro penetra nele e estaciona e o chofer desce bate a […]
- [Eugénio de Andrade - O sal da língua](https://singularidadepoetica.art/2019/09/03/eugenio-de-andrade-o-sal-da-lingua/): Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem […]
- [Joan Margarit - No álbum](https://singularidadepoetica.art/2019/09/02/joan-margarit-no-album/): És tu antes de partir,quando ainda vivias em casa.O olhar brilhante que nos recompensava.Teu nome foi ficando para trás,na foto de onde ainda nos sorriscomo se tudo fosse para sempree nada tivesse acontecido em outro lugar,nem no sorriso que hoje desconhecemos,longe do que teu rosto exibe neste álbum.Este sorriso, agora, é só para nós:convive com […]
- [Manuel António Pina - As Coisas](https://singularidadepoetica.art/2019/09/01/manuel-antonio-pina-as-coisas/): Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certas tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência […]
- [Páladas - da Antologia Palatina, 10.45](https://singularidadepoetica.art/2019/08/31/paladas-da-antologia-palatina-10-45/): Caso te lembres, humano, de como o teu pai ao gerá-lo te semeou, cessarás com toda tua arrogância. Só que Platão sonhador te implantou ilusões de grandeza, ao te chamar de imortal, planta provinda do céu. Vindo do barro, por que pensas grande? Por essa maneira, age somente quem quer dar-se aparência solene. Eis a […]
- [Maria Mercedes Carranza - Kavafiana](https://singularidadepoetica.art/2019/08/30/maria-mercedes-carranza-kavafiana/): O desejo aparece de repente,em qualquer sítio, a propósito de nada.Na cozinha, caminhando pela rua.Basta um olhar, um aceno, um roçar.Mas dois corpostêm também o seu amanhecer e o seu acaso,a sua rotina de amor e de sonhos,de gestos sabidos até ao cansaço.Dispersam-se os risos, deformam-se.Há cinzas nas bocase o íntimo desdém.Dois corpos têm a […]
- [Amalia Bautista - A pesagem do coração](https://singularidadepoetica.art/2019/08/29/amalia-bautista-a-pesagem-do-coracao/): Leia "A pesagem do coração", de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre ética, compaixão e o legado que deixamos após a morte.
- [Jules Laforgue - Penúltima palavra](https://singularidadepoetica.art/2019/08/28/jules-laforgue-penultima-palavra/): O Espaço? – A vida Ida Sem traço. O amor? – Seu preço: Desprezo E dor. O sonho? – Infindo, É lindo (Suponho). Que vou Fazer Do ser Que sou? Isto, Aquilo, Aqui, Ali. Trad.: Augusto de Campos Avant-dernier mot L’Espace? – Mon Coeur Y meurt Sans traces… La Femme? – J’en sors, La […]
- [Tristan Corbière - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2019/08/27/tristan-corbiere-epitafio/): Epitáfio Salvo os amorosos principiantes ou findos que querem principiar pelo fim há tantas coisas que findam pelo princípio que o princípio principia a findar por estar no fim o fim disso é que os amorosos e outros findarão por principiar a reprincipiar por esse princípio que terá findo por não ser mais que o […]
- [Ivan Junqueira - O tempo que me resta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/26/ivan-junqueira-o-tempo-que-me-resta/): Qual o tempo que me resta? Poderei medi-lo em pétalas de alguma flor que fenece, a última da sua espécie? Poderei fazê-lo em décimos de um segundo que parece durar mais do que uma década ou quem sabe todo um século? O que é o tempo? Uma névoa que na ampulheta escorrega, ou algo que […]
- [Jack Kerouac - Richmond Hill Tree Poem](https://singularidadepoetica.art/2019/08/25/jack-kerouac-richmond-hill-tree-poem/): Amontoadas, amarelas folhas de novembro De uma distinta árvore nua e envergonhadamente castrada fazem um minúsculo e manso PLICK ao se roçar umas nas outras preparando-se para morrer – Quando vejo uma folha cair Eu sempre digo adeus. Richmond Hill Tree Poem A cluster of yellow November leaves in an otherwise bare and sheepish castrated […]
- [Amalia Bautista - S.O.S.](https://singularidadepoetica.art/2019/08/24/amalia-bautista-s-o-s/): Protege-me do medo e das sombrasdefende-me de todas as tristezas,exila de minha vida o desconsolo,se puderes, com teu amor, se nãocom o fim do mundo ou com a minha morte. Trad.: Nelson Santander S.O.S Protégeme del miedo y de las sombras,defiéndeme de todas las tristezas,destierra de mi vida el desconsuelo.si puedes, con tu amor, y […]
- [Eugénia de Vasconcellos – Lembra](https://singularidadepoetica.art/2019/08/23/eugenia-de-vasconcellos-lembra/): Digo-te isto para que saibas quem és, às vezes, esquecemos, confundimos, desconseguimos e ao fim, desacreditamos, colam-se-nos os fantasmas dos vivos e as memórias dos mortos e da voz faz-se um fio à míngua de palavras – e onde a palavra não chega, o pensamento não cria o ato e morre-se, morre-se, morre-se um dia […]
- [Tarso de Melo - Hoje](https://singularidadepoetica.art/2019/08/22/tarso-de-melo-hoje/): Amanhã vai chover mais forte, todos nós já sabemos. E é estranha a calma dos rios Os guarda-chuvas seguem fechados, os meteorologistas fingem não ter nada com isso, o barro não demonstra qualquer apreensão, o vento lambe as roupas secas no varal, nenhuma janela ainda se fechou. A água vai vir, forte, como sempre, engolindo […]
- [Danusha Laméris - Pequenas Gentilezas](https://singularidadepoetica.art/2019/08/21/danusha-lameris-pequenas-gentilezas/): Estive pensando na maneira como, quando você caminhapor um corredor lotado, as pessoas recolhem suas pernaspara deixar você passar. Ou como estranhos ainda dizem “Deus te abençoe”quando alguém espirra, um resquícioda Peste Bubônica. “Não morra”, estamos dizendo.E das vezes que, ao derrubar limõesde sua sacola de compras, outra pessoa o ajudaa recolhê-los. Na maioria das […]
- [Leila Guenther - Amuleto](https://singularidadepoetica.art/2019/08/20/leila-guenther-amuleto/): nem trevo de quatro folhas foto de filho, mãe ou marido medalhinha da Virgem lentilha do ano novo passado bilhete de loteria moeda furada origami de pássaro cordão umbilical oração da prosperidade mensagem de biscoito chinês pirâmide de cristal fitinha do senhor do Bonfim folha de arruda caroço de romã olho grego sachê de sal […]
- [Joan Brossa - O tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/08/19/joan-brossa-o-tempo/): Este verso é o presente. O verso que você leu é o passado – já envelheceu depois da leitura. O que resta do poema é o futuro, que existe fora da sua percepção. As palavras estão aqui, se você as leu ou não. E todo o poder terrestre não pode mudar isso. Trad.: Guilherme Gontijo […]
- [Iberê Schvartz - Das beiradas](https://singularidadepoetica.art/2019/08/18/ibere-schvartz-das-beiradas/)
- [Filipa Leal - Estátua da Liberdade](https://singularidadepoetica.art/2019/08/17/filipa-leal-estatua-da-liberdade/): E ali estava – nós a atravessarmos de barco a alegria: o pai ainda de bigode, de chapéu castanho, a mãe de óculos e echarpe, a Marta que em breve seria mãe também mas não sabia que transportava no útero mais um passageiro, o Miguel, pequenino e corajoso, sempre a tentar que os pés não […]
- [Joseph Stroud - Perdido](https://singularidadepoetica.art/2019/08/16/joseph-stroud-perdido/): O cervo se distancia de mim e continua sem pressaao longo da colina sem sequer olhar para trás,para onde estou, e de onde começo a cruzarum campo de neve dentro do meu corpo e me percoenquanto uma cinza branca cai do céu encobrindo meus rastrose não há como encontrar o caminho de volta. Trad.: Nelson […]
- [José Hierro - Réquiem](https://singularidadepoetica.art/2019/08/15/jose-hierro-requiem/): Manuel del Río, naturalda Espanha, faleceu no sábado,onze de maio, em consequênciade um acidente. Seu cadáverestá estendido na funerária D´Agostino. Haskell. Nova Jersey.Uma missa cantada será celebradaàs nove e meia, em St. Francis. É uma história que começacom sol e pedra, e que terminasobre uma mesa, no D’Agostino,com flores e círios elétricos.É uma história que […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O Sagrado](https://singularidadepoetica.art/2019/08/14/luis-alberto-de-cuenca-o-sagrado/): A maquiagem é suspeita, sempre.Tu, recém-saída da cama,sem nada além do teu gloriosocorpo desgastado pelas decepçõese pelos desenganos, mas eretocomo uma árvore ao vento da vidaque arrasta tudo pela frente:essa é minha religião, a únicavisão do sagrado que conheço. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter […]
- [Adelaide Ivánova - sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015](https://singularidadepoetica.art/2019/08/13/adelaide-ivanova-sobre-uma-foto-no-huffington-post-em-01-de-novembro-de-2015/): “Sobre uma foto no Huffington Post, em 01 de novembro de 2015”, um poema de Adelaide Ivanova que confronta a violência extrema contra mulheres com os limites da linguagem, da arte e da ação política.
- [Jacques Prévert - Bárbara](https://singularidadepoetica.art/2020/06/07/jacques-prevert-barbara/): Lembra-te BárbaraChovia em Brestsem cessar naquele diaCaminhavas à chuvasorridenteradiosa encantadora deslumbranteLembra-te Bárbarachovia em Brestsem cessare eu passei por tina Rua do Sião.Sorriase eu sorriaLembra-te Bárbaratu a quem não conheciatu que não me conheciasLembra-teLembra-te mesmo assimdaquele diaNão te esqueçasSob um pórticoabrigava-se um homemque gritou o teu nomeBárbaraCorreste para eleà chuvadeslumbrante encantadoraradiosalançaste-te nos seus braçosLembra-te BárbaraE não […]
- [Joan Margarit - A senha](https://singularidadepoetica.art/2020/06/06/joan-margarit-a-senha/): Sozinho entre dois infernos— o da liberdade e o da idade —,já não consigo abrir nosso cofre.A porta com seus dígitos giratóriosé a roleta na qual já não aposto.Desde o primeiro suspiro conserveia blindada clarezadaquela rosa.Agora, nu em nosso quarto,a janela aberta e a luz apagada,ouço o rumor urbano da noite,enquanto a leve brisa me […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Décima Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/05/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-decima-elegia/): Que um dia, ao emergir da terrível intuição, ascenda meu canto de júbilo e glória até os Anjos aprovadores! Que nenhum claro golpe dos malhos do coração desentoe sobre cordas frouxas, vacilantes ou desgarradas! Que meu rosto se ilumine sob o pranto! Que a obscura lágrima floresça! Oh, como então vos amaria, noites de aflição! […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Nona Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/04/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-nona-elegia/): Por que, sendo possível o prazo da existência levar como o loureiro, de um verde mais sombrio que todos os outros verdes, com leves ondulações no contorno das folhas (como um sorriso do vento) – por que então, escravos do humano, anelar pelo destino fugindo ao destino?… Oh, não porque a felicidade exista, essa prematura […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Oitava Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/03/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-oitava-elegia/): Oitava elegia dedicada a Rudolf Kassner Com todos os seus olhos, a criatura vê o Aberto.Nosso olhar, porém, foi revertido e como armadilhase oculta em torno do livre caminho.O que está além, pressentimos apenasna expressão do animal; pois desde a infânciadesviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos,ah, esse espaço profundo que há […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Sétima Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/02/rainer-maria-rilke-elegia-de-duino-setima-elegia/): Não, não mais buscar: que seja esta, voz da madurez, a essência do teu grito. Gritaste, em verdade, com a pureza do pássaro, quando erguido pela estação que ascende, quase esquece que é um ser desamparado, coração solitário lançado às alturas, na intimidade do céu. Como ele, buscavas a amiga invisível que te pressentisse, a […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Sexta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/01/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-sexta-elegia/): Figueira, há muito que te vejo esquecer quase inteiramente a floração, precipitando no fruto prematuro, incompreendido, teu puro segredo. Como o canal de uma fonte teus ramos sinuosos impelem para a luz a seiva adormecida, abandonando-a, ainda sonolenta ao seu doce destino: como o deus em cisne transformado. Nós porém que nos detemos, gloriosos de […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Quinta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/31/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-quinta-elegia/): Quinta elegia dedicada a Frau Hertha von Kœnig Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância por alguém torcidos – por amor de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce, curva-os, entretece-os, vibra-os, atira-os e os toma de volta! Do ar untado e mais liso, […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Quarta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/30/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-quarta-elegia/): Ó árvores da vida, quando atingireis o inverno? Ignoramos a unidade. Não somos lúcidos como as aves migradoras. Precipitados ou vagarosos nos impomos repentinamente aos ventos e tornamos a cair num lago indiferente. Conhecemos igualmente o florescer e o murchar. No entanto, em alguma parte, vagueiam leões ainda, alheios ao desamparo enquanto vivem seu esplendor. […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Terceira Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/29/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-terceira-elegia/): Uma coisa é cantar a amada. Outra, ai de mim, é cantar o culpado e oculto Deus-Rio do sangue. Aquele que a amada reconhece de longe, seu amante, que sabe ele do Senhor da Volúpia que tantas vezes o assaltava em plena solidão, antes que a mulher amada o abrandasse, como se nem mesmo ela […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Segunda Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/28/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-segunda-elegia/): Todo Anjo é terrível. No entanto, ai de mim, eu vos invoco, pássaros quase mortais da alma, sabendo quem sois. Tempos remotos de Tobias, em que o mais radiante dentre vós aparecia no limiar da casa humilde, sem intimidar, para a viagem levemente disfarçado (jovem que outro jovem, curioso, contemplava). Adiantasse agora o Arcanjo, ameaça […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Primeira Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/27/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-primeira-elegia/): Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjosme ouviria? E mesmo que um deles me tomasseinesperadamente em seu coração, aniquilar-me-iasua existência demasiado forte. Pois que é o Belosenão o grau do Terrível que ainda suportamose que admiramos porque, impassível, desdenhadestruir-nos? Todo Anjo é terrível.E eu me contenho, pois, e reprimo o apelodo meu soluço […]
- [Federico Garcia Lorca - Pranto por Ignacio Sánchez Mejías](https://singularidadepoetica.art/2020/05/26/federico-garcia-lorca-pranto-por-ignacio-sanchez-mejias/): 1. A captura e a morte Às cinco da tarde.Eram as cinco em ponto dessa tarde Um menino trouxe o lençol brancoàs cinco da tarde. Uma alcofa de cal já prevenidaàs cinco da tarde.O mais era só morte e apenas morteàs cinco da tarde. O vento arrebatou os algodõesàs cinco da tarde.E o óxido semeou […]
- [John Ashbery - Medo da morte](https://singularidadepoetica.art/2020/05/25/john-ashbery-medo-da-morte/): Que há comigo agora, é assim que eu fiquei? Não há estado livre dos limites do antes e depois? Hoje a janela está aberta e o ar jorra para dentro com notas de piano nas suas saias, como a dizer, “Olha, John, eu trouxe isso e aquilo” – ou seja, alguns Beethovens, uns Brahms, umas […]
- [Álvaro de Campos - Tabacaria](https://singularidadepoetica.art/2020/05/25/alvaro-de-campos-tabacaria/): Leia "Tabacaria", de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), um dos maiores poemas do modernismo português sobre identidade, fracasso, sonho e existência.
- [Horácio - Ode 1/11](https://singularidadepoetica.art/2020/05/24/horacio-ode-1-11-poema/): Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe, os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo da babilônia e aceita: o que há de ser, será, quer nos dê Jove mais invernos, quer só este que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos. Enquanto […]
- [Attila József - Dói demais](https://singularidadepoetica.art/2020/05/23/attila-jozsef-doi-demais/): A morte atenta de dentro e fora te afugenta (ratinho oculto com receio) e, enquanto arderes, vais procurar junto às mulheres refúgio em braço, joelho e seio. Mais que o calor do colo afável, mais que o ardor, precisar muito é que te apressa; assim, quem quer que possa abraça uma mulher até que a […]
- [Eugenio Montale - Xenia I](https://singularidadepoetica.art/2020/05/22/eugenio-montale-xenia-i/): 1 Querido pequeno inseto que chamavam de mosca, não sei por quê, esta tarde quase ao escurecer enquanto lia o Segundo Livro de Isaías reapareceste ao meu lado, mas não tinhas óculos, não podias me ver nem podia eu sem aquela centelha reconhecer-te no escuro. 2 Sem óculos nem antenas pobre inseto que asas só […]
- [Basil Bunting - O que o diretor disse a Tom](https://singularidadepoetica.art/2020/05/21/basil-bunting-o-que-o-diretor-disse-a-tom/): Poesia? É um hobby O meu são trens elétricos. O sr. Shaw ali cria pombos. Não é trabalho. Você não sua a camisa. Ninguém paga. Tente anunciar sabão. Ópera é que é arte; ou o teatro. A Canção do Deserto. Nancy era do coro. Mas pedir doze libras por semana – casado, não? – isso […]
- [Mary Oliver - O dia de verão](https://singularidadepoetica.art/2020/05/20/mary-oliver-o-dia-de-verao/): Quem criou o mundo?Quem fez o cisne e o urso-negro?Quem fez o gafanhoto?Digo, aquele gafanhoto –aquele que saltou da grama,aquele que agora come açúcar na minha mão,aquele que move as mandíbulas para frente e para trás, não de cima para baixo –aquele que olha ao redor com seus olhos enormes e complexos.Agora ele ergue os […]
- [Raúl Ferruz - Com os olhos bem abertos](https://singularidadepoetica.art/2020/05/19/raul-ferruz-com-os-olhos-bem-abertos/): Quando meu avô sorria depois de cada gole de água,isso significava. Não sabes o que é beber o próprio mijo.Quando desenhava uma parábola no ar que só ele via,isso significava. Fogo cruzado.Quando tapava o rosto para que não o víssemos chorar,isso significava. Os alemães nos infligiram horrores.Quando fechava a porta do banheiro para que não […]
- [Anne Sexton - A noite estrelada](https://singularidadepoetica.art/2020/05/18/anne-sexton-a-noite-estrelada/): A noite estrelada Isso não me impede de ter uma terrível necessidade de — devo dizer a palavra — religião. Então, saio à noite para pintar as estrelas. – Vincent Van Gogh, em uma carta ao seu irmão A cidade não existe,exceto onde uma árvore de cabelos negros deslizacomo uma mulher afogada no ar abrasador.A […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Cruzeiro do Sul](https://singularidadepoetica.art/2020/05/17/jorge-valdes-diaz-velez-cruzeiro-do-sul/): Ardem as folhas do outono na umidade crepuscular de Buenos Aires. Contra um parque dividido por três colinas, a opacidade de sua beleza procura nas folhagens o olhar que acompanhou a luz. As lâmpadas douradas mantêm suas memórias e acendem sombras no gramado. Ao entardecer, se organizam o horizonte de troncos e o suave tato […]
- [James Elroy Flecker - A um poeta daqui a mil anos](https://singularidadepoetica.art/2020/05/16/james-elroy-flecker-a-um-poeta-daqui-a-mil-anos/): Eu, que há mil anos concluí meu percurso,E escrevi esta doce e arcaica canção,Por arautos te envio este discursoPor estradas que meus pés não trilharão. Não me importa se os mares tu transpões,Ou se galgas em segurança um céu mau,Se eriges exímias fortificaçõesFeitas de alvenaria ou de metal. Mas ainda tens canções e o hidromel,E […]
- [Augusto de Campos - Viv (1992)](https://singularidadepoetica.art/2020/05/15/augusto-de-campos-viv/): Viv (1992), “viver é defender uma forma” (hoelderlin via Webern)
- [Juan Vicente Piqueras - Oração do incrédulo](https://singularidadepoetica.art/2020/05/14/juan-vicente-piqueras-oracao-do-incredulo/): O importante é rezar, não importa a quem,que as perguntas sejam as oraçõesdo pensamento, plantem sua sementeem nossa solidão, e que não exista pazque, à força de insistir, seja capazde não existir, não tenha remédiosenão atender à voz de quem a chama. Que deus não exista, acasoé razão para nele não crer? Deus é o […]
- [Eugenio Montale - A enguia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/13/eugenio-montale-a-enguia/): A enguia, a sereia dos mares frios que deixa o Báltico para alcançar os nossos mares, nossos estuários, os rios que sobe pelas profundezas, contra a enxurrada, de braço em braço e depois de veio em veio, cada vez mais delgados, sempre mais dentro, sempre mais perto do coração da rocha, filtrando-se por regos de […]
- [Eavan Boland - Quarentena](https://singularidadepoetica.art/2020/05/12/eavan-boland-quarentena/): Na pior hora da pior estação do pior ano de todo um povo um homem partiu do internato com a mulher Ele andava – ambos andavam – para o norte Ela tinha a febre da fome e não se aguentava. Ele a ergueu e a pôs nas costas. Andou assim para oeste e oeste e […]
- [Aldir Blanc - Valsa pra Leila](https://singularidadepoetica.art/2020/05/11/aldir-blanc-valsa-pra-leila/): Tu te esfumarásme neblinareisobre os telhadosgaláxias azuis.Sonambularáste volteareigatos lambendo as estrelasWendy e Peter Pansem o amanhãnunca, pra nós dois, é sempre cedo.Marietarás,eu Buarquireiem dois cavaloscom asas de luz.Tu te nublarás,me eclipsareinuvens em nossa cabeça.Toma, Peter Pan,só um lexotanpra que tanto amor não te enlouqueça.Vagalumarás por sobre o campo,eu virei do mar, teu pirilampo.Como um circo […]
- [Paul Celan - O companheiro de viagem](https://singularidadepoetica.art/2020/05/10/paul-celan-o-companheiro-de-viagem-poema/): A alma da tua mãe flutua adiante.A alma da tua mãe ajuda a noite a navegar, escolho após escolho.A alma da tua mãe fustiga os tubarões à tua frente. Esta palavra é a disciplina da tua mãe.A discípula da tua mãe partilha o teu jazigo, pedra a pedra.A discípula da tua mãe inclina-se para a […]
- [Charles Bukowski - oh, sim](https://singularidadepoetica.art/2020/05/09/charles-bukowiski-oh-sim/): há coisas piores do que estar sozinho mas muitas vezes leva décadas para perceber isso e na maioria das vezes quando você percebe é tarde demais e não há nada pior do que tarde demais Trad.: Nelson Santander oh, yes there are worse things than being alone but it often takes decades to realize this […]
- [Emily Dickinson - Após grande dor sobrevém um sentimento austero](https://singularidadepoetica.art/2020/05/08/emily-dickinson-apos-grande-dor-sobrevem-um-sentimento-austero/): Após grande dor sobrevém um sentimento austero –Os Nervos ficam cerimoniosos como um cemitério –Indaga o rijo Coração se foi Ele que sofreu,Se Ontem, ou Séculos antes aconteceu? Os pés, mecânicos, circundam sem cessar –Nos Sopés, no Ar, em qualquer Lugar –Um caminho de madeiraQue indiferentemente medraUm contentamento de Quartzo, uma pedra – A Hora […]
- [William Carlos Williams - Nevasca](https://singularidadepoetica.art/2020/05/07/william-carlos-williams-nevasca/): Neve:anos de fúria seguindohoras que flutuam indolentes —a nevascadeposita seu fardocada vez mais fundo por três diasou sessenta anos, não? Entãoo sol! um tumulto deflocos amarelos e azuis —Árvores de aparência hirsuta destacam-seem longas alamedassobre uma selvagem solidão.O homem se vira e lá —seu solitário rastro estendendo-sesobre o mundo. Trad.: Nelson Santander Mais do que […]
- [Nuno Júdice – Epidemia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/06/nuno-judice-epidemia/): Passa de um para o outro através do olhar, de uma palavra, de um toque de mãos; por vezes, basta um leve suspiro para adivinhar a febre, e atrás dele descobre-se que não é preciso cura nem tratamento. Instala-se na cabeça, no corpo, na boca, nos dedos, sem dor nem cansaço, apenas aquela ânsia a […]
- [Susana Cattaneo - Quando já não estiver...](https://singularidadepoetica.art/2020/05/05/susana-cattaneo-quando-ja-nao-estiver/): Quem porá o pésobre a marca que o meu deixou?Quem olhará estas árvoresonde meus olhos deixaram sinais?Alguém ouvirá cantar um pássaroque será outro.Alguém respirará os mesmos pinheirosde um verde mais cansado.A vida será uma folha em brancoe não poderei timbrá-la com minha palavra. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre […]
- [William Butler Yeats - A torre](https://singularidadepoetica.art/2020/05/04/william-butler-yeats-a-torre/): 1 O que farei com esta absurdidade, Esta caricatura, coração? Decrepitude atada à minha idade Como à cauda de um cão? Jamais terei sentido Tão grande, tão apaixonada, tão incrível A fantasia, nem houve olho e ouvido Que mais quisessem o impossível – Não, nem quando menino, com inseto e anzol, Ou mais humilde verme, […]
- [Joan Margarit - Despedidas](https://singularidadepoetica.art/2020/05/03/joan-margarit-despedidas/): Ela o acompanhava até o primeiro trem que partia às segundas antes do amanhecer, e naquele bar costumavam despedir-se, o mais próximo da Estación de Francia. Evoco os invernos detidos atrás das vidraças da infância. E talvez esta seja sua mesa, onde agora lembro-me de que, naquela mesma hora, eu estava na penumbra do meu […]
- [Paul Verlaine - Arte poética](https://singularidadepoetica.art/2020/05/02/paul-verlaine-arte-poetica/): Arte Poética A Charles Morice Antes de tudo, a Música. Preza Portanto o Ímpar. Só cabe usar O que é mais vago e solúvel no ar, Sem nada em si que pousa ou que pesa. Pesar palavras será preciso, Mas com algum desdém pela pinça: Nada melhor do que a canção cinza Onde o Indeciso […]
- [Laurie Lee – A sombra abandonada](https://singularidadepoetica.art/2020/05/01/laurie-lee-a-sombra-abandonada/): Percorrendo a sombra abandonadadas habitações da minha infância,meus ouvidos relembram o badalar,ouvindo suas vozes soterradas. Ouço o verão primordial,as margens da aurora iluminadas por aves,o pulsar de sangue da escrevedeira-amareladourando meus olhos de berço. Ouço a lua-de-estanho subire a moeda do crepúsculo cair,o rastejar da geada e o gemidodo degelo e o pio dos piscos […]
- [Jorge Luis Borges - Mortes de Buenos Aires](https://singularidadepoetica.art/2020/04/30/jorge-luis-borges-mortes-de-buenos-aires/): I La Chacarita Porque a entranha do cemitério do Sul foi saciada pela febre amarela até dizer basta; porque os tugúrios fundos do Sul lançaram morte sobre a face de Buenos Aires e porque Buenos Aires não pôde encarar essa morte, golpes de pá te abriram na ponta perdida do Oeste, atrás das tempestades de […]
- [Fernando Pessoa - No Túmulo de Christian Rosencreutz](https://singularidadepoetica.art/2020/04/29/fernando-pessoa-no-tumulo-de-christian-rosencreutz/): NO TÚMULO DE CHRISTIAN ROSENCREUTZ Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastámos para um lado o altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto…, e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a […]
- [César Vallejo - Os passos distantes](https://singularidadepoetica.art/2020/04/28/cesar-vallejo-os-passos-distantes/): Meu pai dorme. Seu semblante augusto exprime um tranquilo coração; está agora tão doce… se há algo nele de amargo, serei eu. Há solidão no lar; se reza; e não há notícias das crianças hoje. Meu pai desperta, ausculta a fuga para o Egito, o último adeus. Está agora tão perto; se há algo nele […]
- [Rainer Maria Rilke - Torso arcaico de Apolo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/27/rainer-maria-rilke-torso-arcaico-de-apolo/): Não conhecemos sua cabeça inaudita Onde as pupilas amadureciam. Mas Seu torso brilha ainda como um candelabro No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado Detém-se e brilha. Do contrário não poderia Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva Dos rins poderia chegar um sorriso Até aquele centro, donde o sexo pendia. De […]
- [Jorge Luis Borges - A noite que no sul o velaram](https://singularidadepoetica.art/2020/04/26/jorge-luis-borges-a-noite-que-no-sul-o-velaram/): A noite que no sul o velaram para Letizia Álvarez de Toledo Pelo passamento de alguém — mistério cujo desconhecido nome possuo e cuja realidade não abarcamos — há até o alvorecer uma casa aberta no Sul, uma casa ignorada que não estou destinado a […]
- [Charles Bukowski - Manual de Combate](https://singularidadepoetica.art/2020/04/25/poesia-vim-buscar-te/): Eles chamaram Celine de nazista eles chamaram Pound de fascista eles chamaram Hamsun de nazista eles puseram Dostoiévski diante de um esquadrão de fuzilamento e você sabe que eles atiraram em Lorca submeteram Hemingway a tratamento de choque e você sabe que ele se matou e eles levaram Villon para fora da cidade (Paris) e […]
- [Ferreira Gullar - Reflexão sobre o osso da minha perna](https://singularidadepoetica.art/2020/04/24/ferreira-gullar-reflexao-sobre-o-osso-da-minha-perna/): A parte mais durável de mim são os ossos e a mais dura também como, por exemplo, este osso da perna que apalpo sob a macia cobertura ativa de carne e pele que o veste e inteiro me reveste dos pés à cabeça esta vestimenta fugaz e viva sim, este osso a mais dura parte […]
- [Jane Hirshfield - Meu esqueleto](https://singularidadepoetica.art/2020/04/23/jane-hirschfield-meu-esqueleto/): Meu esqueleto, que um dia doeu com o próprio crescimento, está agora, a cada ano imperceptivelmente menor, mais leve, absorvido por sua própria concentração. Quando eu dancei, você dançou. Quando você quebrou, eu. E assim foi, deitando, caminhando, subindo os fatigantes degraus. Seus maxilares. Meu pão. Algum dia você, o que resta de você, será […]
- [Louise Glück - Nostos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/22/louise-gluck-nostos/): Havia uma macieira no quintal – isso teria sido há quarenta anos – nos fundos, apenas prados. Excesso de crocus na relva úmida Eu estava naquela janela: fim de abril. Flores da primavera no quintal do vizinho. Quantas vezes, realmente, a árvore floresceu no meu aniversário, no dia exato, nem antes nem depois? Substituição do […]
- [Denise Levertov - Naquele dia](https://singularidadepoetica.art/2020/04/21/denise-levertov-naquele-dia/): Do outro lado de um lago na Suíça, cinquenta anos atrás, a luz duelava com uma longa lança, esgrimindo com sabres de um lado para o outro entre picos nublados e colinas. Observávamos de um pequeno pavilhão, minha mãe e eu, fascinadas. E então, eis que um feixe, uma coluna, um corpo definido, não de […]
- [Richard Eberhart - A marmota](https://singularidadepoetica.art/2020/04/20/richard-eberhart-a-marmota/): Em junho, entre os campos dourados, Avistei uma marmota morta. Morta ela estava; meu juízo se abalou, E a mente projetou a nossa fragilidade nua. Lá embaixo, humilde no vigoroso verão, Sua forma iniciou sua mudança sem sentido, E fez oscilar meus sentidos para o sombrio Vendo a natureza feroz que nela havia. Inspecionando de […]
- [Jane Hirshfield - Dentro desta árvore](https://singularidadepoetica.art/2020/04/19/jane-hirshfield-dentro-desta-arvore/): Dentro desta árvore outra árvore habita o mesmo tronco; dentro desta pedra outra pedra descansa, com muitos tons de cinza iguais, com superfície e peso idênticos. E dentro do meu corpo, outro corpo, cuja história, à espera, canta; não há outro corpo, ela canta, não há outro mundo. Trad.: Nelson Santander Within this tree Within […]
- [Gonçalo M. Tavares - Sobre o mundo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/18/goncalo-m-tavares-sobre-o-mundo/): O telescópio não alcança sequer a tua alma; Imprecisão exata de um instrumento instintivo. Mas repara: não há instrumentos instintivos ou máquinas espontâneas. Dois terços do amor estão na mulher, qualquer que seja o casal. As evidências abrem falência em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam ciências viris. Indispensáveis, de facto: ciências […]
- [Alberto Szpunberg - De "Sol de noche"](https://singularidadepoetica.art/2020/04/17/alberto-szpunberg-de-sol-de-noche/): XIV Embora já saibas que nada volta, volta para casa, aceita a pequena mentira como um lapso antes que o inverno te surpreenda sob uma árvore de ramos despojados: aqui termina o bosque, o que cresceu em teus sonhos antes mesmo de tuas mãos roçarem os troncos: a pradaria que se estende perante teus olhos […]
- [Ana Martins Marques - [Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano]](https://singularidadepoetica.art/2020/04/16/ana-martins-marques-pense-em-quantos-anos-foram-necessarios-para-chegarmos-a-este-ano/): Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano quantas cidades para chegarmos a esta cidade e quantas mães, todas mortas, até tua mãe quantas línguas até que a língua fosse esta e quantos verões até precisamente este verão este em que nos encontramos neste sítio exato à beira de um mar rigorosamente […]
- [Marie Howe - Meus amigos mortos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/15/marie-howe-meus-amigos-mortos/): Comecei, quando estou cansada e não consigo decidir a resposta que devo dar a uma pergunta desconcertante, a pedir a opinião dos meus amigos mortos e frequentemente a resposta é imediata e clara. Devo aceitar o emprego? Mudar-me para a cidade? Devo tentar conceber um filho em minha meia idade? Em uníssono, eles balançam suas […]
- [Emily Dickinson - Poema 1.222](https://singularidadepoetica.art/2020/04/14/emily-dickinson-poema-1-222/): O Enigma decifrado Despreza-se com pressa — A Surpresa de Ontem Já não nos interessa — Trad.: Augusto de Campos Poem 1.222 The Riddle we can guess We speedily despise — Not anything is stale so long As Yesterday’s surprise —
- [Robert Bly - Pessoas como nós](https://singularidadepoetica.art/2020/04/13/robert-bly-pessoas-como-nos/): Pessoas como nós para James Wright Há mais como nós. Em toda parte Há pessoas confusas, que não conseguem lembrar O nome do próprio cão quando acordam, e pessoas Que amam a Deus mas não se lembram onde Ele estava quando foram dormir. Não Tem problema. O mundo se purifica desta forma. Um número errado […]
- [Juan Vicente Piqueras - Taças de sede](https://singularidadepoetica.art/2020/04/12/juan-vicente-piqueras-tacas-de-sede/): Se duvidas de tua sede, se não te atreves a questiona-la ou a dar-lhe um nome, se só sabes que buscas uma água que a sacie e não achas senão poços, e neles ecos que te chamam, bebe. Se ao beber a sede desaparece é que era só sede. Segue buscando. Mas se cresce em […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Canção de fevereiro](https://singularidadepoetica.art/2020/04/11/jorge-valdes-diaz-velez-cancao-de-fevereiro/): Canção de fevereiro no peito do céu, palpitando Jaime Gil de Biedma Leve e triste, a tarde se retira contigo até o crepúsculo e as horas começam a doer nas dobras distantes do lençol. Subitamente a noite regressou e é difícil não pensar em teus efêmeros lábios ou nas altas regiões do teu corpo glorificando […]
- [Iracema Macedo - Dandara](https://singularidadepoetica.art/2020/04/10/iracema-macedo-dandara/): Eu só acreditava em Drummond: ‘o amor chega tarde’ Não conhecia o amor que fulgura sem aviso esse que se sabe proibido o amor que já se sabe perdido desde o início Eu não acreditava no impossível vinha tão sóbria, tão cheia de medidas não conhecia o esplendor da queda nem a violência dos abismos
- [José Miguel Silva - Tudo coisas mortais para a poesia](https://singularidadepoetica.art/2020/04/09/jose-miguel-silva-tudo-coisas-mortais-para-a-poesia/): A casa, o lume, o sono dobrado do corpo feliz, a cesta de figos, a curva do rio, a fotografia no cimo do monte, a veracidade das glicínias, o rosto da mãe, a fava no bolo, o trunfo de copas, o filme da tarde, a música nova, o rasto da chuva por entre os pinheiros, […]
- [Juan Vicente Piqueras - Lençóis herdados](https://singularidadepoetica.art/2020/04/09/juan-vicente-piqueras-lencois-herdados/): A ferida mais íntima é herdada. O onde, o como, o quando,a morte, o nascimento,língua, família, deus, tempo, amor:o decisivo do que nos acontece,e quem somos,não é algo desejado nem escolhido. E passamos a vida, a despeito disso, ou por isso,crendo que o desejo é nosso deus,e não uma rosa rara que em nós cultivao […]
- [Czeslaw Milosz - Sobre anjos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/08/czeslaw-milosz-sobre-anjos/): Tudo foi tirado de vocês: túnica branca, asas, até mesmo a existência. Contudo, ainda acredito em vocês, mensageiros. Aqui, onde o mundo está virado do avesso, uma trama maciça bordada com astros e bestas, vocês passeiam, inspecionando as suturas confiáveis. Curta é sua estadia neste lugar: às vezes na hora matinal, se o céu está […]
- [Joan Margarit - Ela me disse](https://singularidadepoetica.art/2020/04/07/joan-margarit-ela-me-disse/): Procuremos uma casa para morrer. Por exemplo, aquele apartamento onde começamos a nossa história: arquitetura vulgar dos anos sessenta, mas arejado e com flores. Um bom lugar – e alegre – para nele morrer: Talvez na sala, sempre com música e a luz que chegava do mar. Ou na cozinha, em que recebia as ordens […]
- [W. S. Merwin - A estrada](https://singularidadepoetica.art/2020/04/06/w-s-merwin-a-estrada/): Parece grande demais para que apenas um homemCaminhe sobre ela Como se ela e o dia vazioFossem tudo o que existisse. E um cachorrinhoTrotando no compasso das ondas de calor, pertoDo horizonte, parecendo nunca avançar.O sol e todas as coisasEstão empoçados nos mesmos lugares, e a valaÉ sempre a mesma, repleta de todo tipo deOsso, […]
- [Mary Oliver - Quando a morte chegar](https://singularidadepoetica.art/2020/04/05/mary-oliver-quando-a-morte-vier/): Quando a morte chegarcomo um urso faminto no outono;Quando a morte chegar e tirar todas as moedas brilhantes de sua bolsa para me comprar, e fechá-la com um estalo;quando a morte chegarcomo o sarampo-varíola quando a morte chegarcomo um iceberg entre as omoplatas, quero atravessar o portal cheia de curiosidade, perguntando:como será essa sombria cabana? […]
- [Rainer Maria Rilke - A Morte da Amada](https://singularidadepoetica.art/2020/04/04/rainer-maria-rilker-a-morte-da-amada/): Da morte ele sabia quase nada: que nos toma e nos cala de repente. Como a amada não fora arrebatada, antes se desprendera docemente do seu olhar para a morada escura, e como percebeu que à outra vida como uma lua plena a formosura da visitante fora concedida, dos mortos se tornou tão familiar que […]
- [Robert Graves – Através do pesadelo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/03/robert-graves-atraves-do-pesadelo/): Jamais se desencante daquele Lugar no qual algumas vezes você sonha estar, Deitada muito além de todo sonho, Ou daqueles que você lá encontra, embora raramente se sente na companhia deles. O indomável, o vivo, o gentil. Você não os conhece? Quem? Eles transportam O tempo circular como um sábio-rio ao redor de suas casas […]
- [Alberto Bresciani – Bisões](https://singularidadepoetica.art/2020/04/02/aberto-bresciani-bisoes/): Leia "Bisões", de Alberto Bresciani, um poema sobre pertencimento, deslocamento e a busca humana por direção e sentido.
- [Jane Hirshfield - O emissário](https://singularidadepoetica.art/2020/04/01/jane-hirshfield-o-enviado/): Um dia, naquele quarto, um pequeno rato. Dois dias depois, uma cobra. Que, vendo-me entrar, serpenteou a longa listra de seu corpo para baixo da cama, e depois se enrolou como um dócil animal doméstico. Não sei como veio ou saiu. Mais tarde, a lanterna nada encontrou. Por um ano, eu observei como alguma coisa […]
- [May Swenson - Indagações](https://singularidadepoetica.art/2020/03/31/may-swenson-indagacoes/): Corpo minha casameu cavalo meu cão de caçao que fareiquando você ruir? Onde vou dormirComo vou montarO que vou caçar? Onde posso irsem minha montariarápida e impaciente?Como sabereise na mata à frentehá perigos ou tesourosquando o corpo, meu cãobom e fiel, estiver morto Como serájazer no céusem teto ou portae vento por visão? Com a […]
- [Mary Oliver - A jornada](https://singularidadepoetica.art/2020/03/30/mary-oliver-a-jornada/): Um dia você finalmente soubeo que precisava fazer e começou,embora as vozes à sua voltacontinuassem gritandoseus maus conselhos –embora a casa todacomeçasse a tremere você sentisse o velho apeloem seus tornozelos.“Remende minha vida!”,cada voz clamava.Mas você não parou.Você sabia o que precisava fazer,embora o vento tateassecom seus dedos rijosas próprias fundações,e embora a melancolia delesfosse […]
- [William Stafford - O sonho de agora](https://singularidadepoetica.art/2020/03/29/william-stafford-o-sonho-de-agora/): Quando acorda, da noite e dos outros sonhos, para o sonho de agora, você conduz o dia para fora das trevas como a uma chama. Quando a primavera acontece no norte e as flores desabrocham no solo e até adormecem, você alteia o verão com sua respiração para que ele não se perca jamais tão […]
- [Mary Oliver - Gansos selvagens](https://singularidadepoetica.art/2020/03/28/mary-oliver-gansos-selvagens/): Você não precisa ser bom.Você não precisa atravessar o deserto de joelhos,por cem milhas, em penitência.Você só precisa deixar o suave animal do seu corpoamar o que ele ama.Fale-me sobre o desespero, o seu, e eu lhe direi o meu.Enquanto isso, o mundo continua.Enquanto isso, o sol e os translúcidos seixos da chuvamovem-se por entre […]
- [Juan Vicente Piqueras - A sala vazia](https://singularidadepoetica.art/2020/03/27/juan-vicente-piqueras-a-sala-vazia/): a Carlos Edmundo de Ory Era um de teus jogos favoritos. O que há em uma sala vazia?, perguntavas. Mantínhamo-nos em silêncio. O que há em uma sala vazia? Os que não conheciam o jogo às vezes diziam: nada, e tu dizias: não. Nada é nada, e eu disse o quê. Até que alguém dizia, […]
- [Chico Buarque e Cristovão Bastos - Todo sentimento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/26/chico-buarque-e-cristovao-bastos-todo-sentimento/): [youtube https://www.youtube.com/watch?v=WyZuJ337Y3w&w=560&h=315] Preciso não dormir Até se consumar O tempo Da gente Preciso conduzir Um tempo de te amar Te amando devagar E urgentemente Pretendo descobrir No último momento Um tempo que refaz o que desfez Que recolhe todo o sentimento E bota no corpo uma outra vez Prometo te querer Até o amor cair […]
- [Raquel Lanseros - Oração](https://singularidadepoetica.art/2020/03/25/raquel-lanseros-oracao/): Que não cresça jamais em minhas entranhasessa paz aparente chamada ceticismoFuja eu do amargor, do cinismo, da imparcialidade de ombros encolhidos.Creia eu sempre na vidaCreia eu sempre nas mil infinitas possibilidades.Que me enganem os cantos das sereias,que minha alma guarde sempre um toque de ingenuidade.Que nunca se pareça minha pelecom a de um imóvel e […]
- [Camille Dungy – Para entrar em nossa própria casa vazia](https://singularidadepoetica.art/2020/03/25/camille-dungy-para-entrar-em-nossa-propria-casa-vazia-poema/): Ela estava com sete anos quando paramosde usar chaves. Menos uma coisa para se perder.Agora nós usamos uma senha —simples, mas espero que não tão simples queum estranho possa adivinhar. É aqui queeu deveria parar. Eles se veriam obrigadosa ficar irritados — meus amados.Estou revelando todos os nossos segredosnovamente. Esta vulnerabilidadeé a raiz de muita […]
- [Juan Vicente Piqueras - Visível e Invisível](https://singularidadepoetica.art/2020/03/24/juan-vicente-piqueras-visivel-e-invisivel/): (Para os amigos que ainda estão vivos, mas desapareceram, onde quer que estejam, com um abraço póstumo) As pessoas tendem a desaparecer. Um dia te fazem rir e no seguinte já não estão. Um dia te ligavam todos os diaspara saber como estavas,e agora já nem te lembras de suas vozes. Um dia disseram sempree sempre acabou […]
- [Fernando Assis Pacheco - Tentas, de longe](https://singularidadepoetica.art/2020/03/23/fernando-assis-pacheco-tentas-de-longe/): Tentas, de longe, dizer que estás aqui. Com peso triste caminha na rua o Outono. O meu coração debruça-se à janela a ver pessoas e carros, e as folhas caindo. Mastigo esta solidão como quando era pequeno e jantava diante dos pais zangados: devagar, ausente.
- [Sharon Olds - Uma semana depois](https://singularidadepoetica.art/2020/03/22/sharon-olds-uma-semana-depois/): Uma semana depois, eu disse a um amigo: acho quenunca poderia escrever sobre isso.Talvez daqui a um ano eu consiga escrever alguma coisa.Há algo em mim que talvez algumdia possa ser escrito; por ora está dobrado, e redobrado,como um bilhete da escola. E em meu sonhoalguém jogava jacks, e no ar havia umjack arremessado, enorme, […]
- [William Stafford - Uma cópia de arquivo](https://singularidadepoetica.art/2020/03/21/william-stafford-uma-copia-de-arquivo/): Deus tira seu retrato: não desvie o olhar –agora, neste quarto, seu rosto inclinadoexatamente como é, antes de você pensarou controla-lo. Vá em frente, deixe-se trair portodas as urgências secretas e ainda mantenhaaquele disfarce parcial que você chama de caráter. Mesmo o seu lábio, dizem, o modo como ele arqueiaou não, ou hesita, entregarávolumes de […]
- [Dylan Thomas - Poema de outubro](https://singularidadepoetica.art/2020/03/20/dylan-thomas-poema-de-outubro/): Era o meu trigésimo ano rumo ao céu Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto e do bosque ao lado, E da praia empoçada de mexilhões E sacralizada pelas garças O aceno da manhã Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas E o chocar-se dos barcos contra o muro […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A flor e a náusea](https://singularidadepoetica.art/2020/03/19/carlos-drummond-de-andrade-a-flor-e-a-nausea/): Preso à minha classe e a algumas roupas, Vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o […]
- [Czeslaw Milosz - Onde quer que esteja](https://singularidadepoetica.art/2020/03/18/czeslaw-milosz-onde-quer-que-esteja/): Onde quer que esteja, em qualquer lugar na Terra, escondo dos outros a certeza de que n ã o s o u d a q u i. Como se tivesse sido enviado para absorver o máximo das cores, sons, cheiros, sabores, provar de tudo o que é reservado ao Homem, converter o vivido num registo […]
- [Nicanor Parra - Último brinde](https://singularidadepoetica.art/2020/03/17/nicanos-parra-ultimo-brinde/): Querendo ou não,só temos três alternativas:o ontem, o presente e o amanhã. E nem sequer três,pois, como diz o filósofo,ontem é ontem,é nosso apenas na memória:à rosa que já se desbastounão se pode arrancar outra pétala. As cartas por jogarsão apenas duas:o presente e o dia de amanhã. E nem sequer duas,porque é um fato […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Ishmar](https://singularidadepoetica.art/2020/03/16/jorge-valdes-diaz-velez-ishmar/): para Martha Iga A maneira de pentear-te nua diante do espelho úmido do banheiro, de prender na palma teus cabelos para fazer correr a água e de agachar-te no meio de palavras que não entendo; o ato de secar tua pele, a forma de sentir com os dedos uma ruga que ontem não estava, ou […]
- [Lisel Mueller - Quando me perguntam](https://singularidadepoetica.art/2020/03/15/lisel-mueller-quando-me-perguntam/): Quando me perguntamcomo comecei a escrever poesia,eu falo da indiferença da natureza. Foi logo depois que minha mãe faleceu,um dia radiante de junhoem que tudo florescia. Sentei-me em um banco de pedra acinzentadoem um jardim carinhosamente cultivado,mas os lírios eram tão surdosquanto os bêbados adormecidose as rosas curvadas para dentro.Nada estava enlutado ou quebrado,nem uma […]
- [Lawrence Ferlinghetti - Allen Ginsberg morrendo](https://singularidadepoetica.art/2020/03/14/lawrence-ferlinghetti-allen-ginsberg-morrendo/): Allen Ginsberg está morrendoEstá em todos os jornaisEstá no noticiário noturnoUm grande poeta está morrendoMas sua voznão vai morrerSua voz está na terraNo Baixo Manhattanna sua camaele está morrendoNão há nadaa fazer sobre issoEle está morrendo a morte que todos enfrentamEle está morrendo a morte do poetaEle tem um telefone em sua mãoe liga para […]
- [Billy Collins - Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/13/billy-collins-esquecimento/): O nome do autor é o primeiro a desaparecerseguido obedientemente pelo título, a trama,a conclusão comovente, o romance inteiroque subitamente se torna algo que você nunca leu,nunca sequer ouviu falar, como se, uma a uma, as memórias que você costumava abrigardecidissem se aposentar no hemisfério sul do cérebro,em uma pequena aldeia de pescadores onde não […]
- [Alberto Pucheu - A luta antes da luta](https://singularidadepoetica.art/2020/03/12/alberto-pucheu-a-luta-antes-da-luta/): Você sabe, de nada adianta rezar no canto do ringue. Aquele que nele sobe, sobe sozinho. As bravatas lançadas na hora da pesagem e o peso da multidão colado em sua carne, você sabe, lá em cima, só aumentarão seu abandono. Você sabe também o preço que terá de pagar se deixar que qualquer vagabundo […]
- [Bertrand Russell - de "No que acredito"](https://singularidadepoetica.art/2020/03/11/bertrand-russell-de-no-que-acredito/): “Acredito que ao morrer apodrecerei e nada do meu eu sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenho tremer de terror à ideia do aniquilamento. A felicidade não se torna menos verdadeira por ter que chegar ao fim, e o pensamento e o amor não perdem o seu valor por não durarem para […]
- [Ernesto Cardenal - de "Epigramas"](https://singularidadepoetica.art/2020/03/10/ernesto-cardenal-de-epigramas/): de "Epigramas", Um poema de Ernesto Cardenal
- [Carlos Drummond de Andrade - A bruxa](https://singularidadepoetica.art/2020/03/09/carlos-drummond-de-andrade-a-bruxa/): Nesta cidade do Rio,de dois milhões de habitantes,estou sozinho no quarto,estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho?Ainda há pouco um ruídoanunciou vida ao meu lado.Certo não é vida humana,mas é vida. E sinto a bruxapresa na zona de luz. De dois milhões de habitantes!E nem precisava tanto…Precisava de um amigo,desses calados, distantes,que leem verso de […]
- [Joan Margarit - No museu](https://singularidadepoetica.art/2020/03/08/joan-margarit-no-museu/): Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro.Com um gesto solene, comprime o punhoe tenta explicar a força queacredita ver na pintura.Esta velha obsessão de transmitiraos pequenos nossos pobres recursos.Atento, o menino observa com temor.Talvez pressinta a solidão que se ocultanos gestos, na retórica da arte.Temos sempre a verdade diante de nós,mas, assim como […]
- [Michael Krüger - Discurso do homem lento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/07/michael-kruger-discurso-do-homem-lento/): A história acelera,logo nos alcança,precedendo-nos com passos ligeiros.Vemos então por trása Era Glacial, Grécia,Roma, a Revolução francesa,a nuca de Stalin, as luzes traseirasdo carro de Hitler.Estranho que não se cansenem esmoreça.Às vezes se virae nos mostra sua caracom a boca escancaradae os dentes podres. Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução para o italiano feita […]
- [Louise Glück - Under Taurus](https://singularidadepoetica.art/2020/03/06/louise-gluck-under-taurus/): Estávamos no píer, e você desejavaque eu visse as Plêiades. Eu podia vertudo, menos o que você desejava. Agora o seguirei. Não há uma única nuvem; as estrelasaparecem, até mesmo a irmã invisível. Mostre-me onde olhar,como se elas fossem ficar onde estão. Instrua-me na escuridão. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. […]
- [Dan Fante - [Agora que eu já escrevi]](https://singularidadepoetica.art/2020/03/05/dan-fante-agora-que-eu-ja-escrevi/): Agora que eu já escrevi dez anos de livros e peças e abandonei álcool e cigarros e a gloriosa pornografia suja e minhas roupas não fedem por passar a noite dormindo no velho Pontiac e meu cabelo está caindo e estou dez quilos mais gordo Aos meus cinquenta anos com ligações a retornar e responsabilidades […]
- [Roberto Juarroz - Assim como não podemos](https://singularidadepoetica.art/2020/03/04/roberto-juarroz-assim-como-nao-podemos/): Assim como não podemos sustentar por muito tempo um olhar, também não podemos sustentar por muito tempo a alegria, a espiral do amor, a gratuidade do pensamento, a terra em suspensão do cântico. Não podemos sequer sustentar por muito tempo as proporções do silêncio quando algo o visita. E menos ainda quando nada o visita. […]
- [T. S. Eliot - A Terra Desolada](https://singularidadepoetica.art/2020/03/03/t-s-eliot-a-terra-desolada/): A TERRA DESOLADA 1922 Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse oculis meis vidi in ampulla pendere, et cum illi pueri dicerent: Σίβνλλα τί ϴέλεις; respondebat illa: άπο ϴανεΐν ϴέλω.* A Ezra Paound Il miglior fabbro I. O ENTERRO DOS MORTOS Abril é o mais cruel dos meses, germinando Lilases da terra morta, misturando Memória e […]
- [rocío - "não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses..."](https://singularidadepoetica.art/2019/01/27/rocio-nao-e-que-me-sinta-mais-velha-mae-e-que-todos-esses-meses/): não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses todos os dias tendo que ser forte, fico cansada pela manhã, acordo abraçada ao travesseiro e às vezes não sei o que dizer pra mim mesma para levantar de minha pequena e solitária cama em alguns meio-dias, se tomo cerveja, sinto-me um […]
- [Paulo Henriques Britto - À margem do Douro](https://singularidadepoetica.art/2019/01/26/paulo-henriques-britto-a-margem-do-douro/): Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que […]
- [Joan Margarit - Professor Bonaventura Bassegoda](https://singularidadepoetica.art/2019/01/25/joan-margarit-professor-bonaventura-bassegoda/): Recordo-o alto e gordo, atrevido, sentimental. Você, então, era uma autoridade em Alicerces Profundos. Sempre iniciava suas aulas assim: “Senhores, bom dia. Hoje faz tantos anos, tantos meses e tantos dias que minha filha morreu”. E costumava secar algumas lágrimas. Tínhamos vinte anos, mais ou menos, e o homem corpulento que você era, chorando no […]
- [Rui Knopfli – Fim de tarde no café](https://singularidadepoetica.art/2019/01/24/rui-knopfli-fim-de-tarde-no-cafe/): Na tarde cor de azebre falávamos de coisas amargas. Ali, na mesa triste do café com moscas adejando sobre restos de açúcar e um copo de água morna de esquecida, falávamos da amargura das coisas, entre rostos graníticos e enxovalhados, entre estranhos e estranhos de estranhos e os que, nada tendo de estranhos, cuidam de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Os deuses Internos](https://singularidadepoetica.art/2019/01/23/juan-vicente-piqueras-os-deuses-internos/): Os deuses sabem mais e melhor do que nósdo que precisamos. Pedimos-lhes um filho,e nos enviam um lobo, e não os compreendemos. A vida diariamente os esquece.A morte à noite os inventa. E as doenças, como diz o sábio,são deuses que agonizam dentro de nosso corpo,seu último templo em ruínas,seu refúgio sem fé. Imploram compaixão. […]
- [Vladimir Holan - A Neve](https://singularidadepoetica.art/2019/01/22/vladimir-holan-a-neve/): A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvida de que o melhor para o homem é estar sentado na cozinha, ainda que seja a da insônia. Ali faz calor, preparas-te algo, bebes vinho e contemplas pela vidraça a eternidade familiar. Por que te atormentarias querendo saber se nascimento e morte são apenas […]
- [Bruno Darcoleto Malavolta - Epicurus Revisited](https://singularidadepoetica.art/2019/01/21/bruno-darcoleto-malavolta-epicurus-revisited/): disco, agulha, caixas onde ouço os sonhos de coltrane e duke ellington o velho violão em que aprendi os primeiros acordes o novo violão, superior, trincado poemas que li, poemas que escrevi, por todos os lados uma cadeira, uma mesa, um cigarro, um filtro de água o meu corpo cercado por gatos neste exato ponto […]
- [Juan Luis Panero - Mensagem de Antonio a Cleópatra](https://singularidadepoetica.art/2019/01/20/juan-luis-panero-mensagem-de-antonio-a-cleopatra/): Mensagem de Antonio a Cleópatra I Elogiem outros tua adormecida beleza, a suavidade de tua pele em repouso, a medida perfeição de teus membros. Eu não vim para isso, vim somente para te penetrar pela frente e por detrás como um punhal atravessa a água transparente e afunda e se perde no poço sombrio. Mensagem […]
- [José Asunción Silva - Obra Humana](https://singularidadepoetica.art/2019/01/19/jose-asuncion-silva-obra-humana/): No interior da floresta intocada em que, uma noite, no início de maio, tocou a velha ramagem folhada da pálida lua o primeiro raio, poucos meses depois a luz de gás da aurora na estação iluminou o curso da locomotiva audaz que por trilhos duríssimos cruzou. E onde fora certa vez um abrigo, porto seguro […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Desfile](https://singularidadepoetica.art/2019/01/18/carlos-drummond-de-andrade-desfile/): O rosto no travesseiro, escuto o tempo fluindo no mais completo silêncio. Como remédio entornado em camisa de doente; como na penugem de braço de namorada; como vento no cabelo, fluindo: fiquei mais moço. Já não tenho cicatriz. Vejo-me noutra cidade. Sem mar nem derivativo, o corpo era bem pequeno para tanta insubmissão. E tento […]
- [Paul Valéry - Cemitério Marinho](https://singularidadepoetica.art/2019/01/17/paul-valery-cemiterio-marinho/): Ó min’alma não aspires A uma existência imortal, Mas goza plenamente Tudo o que estiver ao teu alcance. Píndaro Píticas III Este teto tranquilo, onde caminham pombas,Palpita entre pinheiros e tumbas;Compõe-lhe de luz o meio dia justoO mar, o mar, sempre recomeçado!Que recompensa após meditaçãoN’um longo olhar sobre a calma dos deuses! Puro lavor de finos lampejos consumaTanto diamante de […]
- [Berta Piñán - Duas Garças](https://singularidadepoetica.art/2019/01/16/berta-pinan-duas-garcas/): Chegaram no sábado. Vimo-las cedo porque nesse dia chegou também o frio e passamos a manhã falando do tempo. São duas, e me pergunto que destino imprevisto as trouxe a esta árvore precisa, a este lugar exato em que o tempo delas cruza, como um sinal confuso, nosso tempo. De tarde falamos sobre elas: “Esta […]
- [Vasco Gato - Eterno Outono](https://singularidadepoetica.art/2019/01/15/vasco-gato-eterno-outono/): Estou com a idade pousada nas mãos. Explico-me com dedicação aos berços fundos onde cada coisa dorme o seu medo de morrer. Há na tristeza um perigo de terminar: o eterno outono parece belo a quem perdeu todas as sementes. Pergunta-se um nome e ninguém responde. Onde fica essa ilha a que só chegamos por […]
- [Nuno Júdice - Poema (Arredores)](https://singularidadepoetica.art/2019/01/14/nuno-judice-poema-arredores/): A brancura dos ossos, em contraste com a terra argilosa, com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar leite, papel, cal, e também as tuas mãos – frias. Bebo o seu brilho numa noturna memória. Uma contaminação de corpos não reduz a minha solidão; nem a música, nem o riso, nem o vinho. Lágrimas […]
- [Helder Moura Pereira - "Eu não tinha nada de felino..."](https://singularidadepoetica.art/2019/01/13/helder-moura-pereira-eu-nao-tinha-nada-de-felino/): Eu não tinha nada de felino, tu sabias que eu não tinha nada de felino. Nenhum de nós se admirou quando medi mal a distância e falhei o salto. Enquanto ia no ar parecia que era um salto bom, porém houve qualquer coisa que correu mal e caí com estrondo no chão. Ninguém riu. Não […]
- [Filipa Leal - Entrevista de Emprego](https://singularidadepoetica.art/2019/01/12/filipa-leal-entrevista-de-emprego/): Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse umaspecto impeditivo,prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro,ao nosso relacionamentoprofissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras,sim,e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menoscuidado com elas,e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as comrespeito,o senhor sabe pontuar […]
- [César Vallejo - Paris, Outubro de 1936](https://singularidadepoetica.art/2019/01/11/cesar-vallejo-paris-outubro-de-1936/): De tudo isto eu sou o único que parte. Deste banco eu me vou, de meus calções, de minha grande situação, de minhas ações, de meu número dividido de lado a lado, de tudo isto eu sou o único que parte. Dos Campos Elísios ou ao dar a volta à estranha viela de la Luna, […]
- [Maria do Rosário Pedreira – Ondas](https://singularidadepoetica.art/2019/01/10/maria-do-rosario-pedreira-ondas/): Dei-te o meu corpo como quem estende um mapa antes de viagem, para que nele descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses os dedos devagar, como fazem as aves quando encontram o verão. Se me tivesses tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços como uma escarpa pronta a desabar, ou uma cidade do litoral a definhar […]
- [Denise Emmer - Da Morte](https://singularidadepoetica.art/2019/01/09/denise-emmer-da-morte/): Os mortos não sobem aos céus nem elevam-se abstratos tornam-se apenas retratos lado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvel austero e silencioso do tio tuberculoso que esquivo me espia. A avó já está fria mas me olha com ternura tece uma colcha escura para as bodas da família, Mortos não sobem trilhas de […]
- [Roger Wolfe - O amor, suponho](https://singularidadepoetica.art/2019/01/08/roger-wolfe-o-amor-suponho/): "O amor, suponho", um poema de Roger Wolfe que reflete sobre a dificuldade de escrever um poema de amor para a própria esposa, associando o amor a raros instantes de felicidade e questionando se vale a pena desperdiçá-los tentando transformá-los em versos.
- [Ian Hamilton - Pai, Morrendo](https://singularidadepoetica.art/2019/01/07/ian-hamilton-pai-morrendo/): Seus dedos, tufos de pelos de cobertor Debaixo das unhas, estendem-se para tocar As rosas ao lado da cama despetalando com o calor. Caem pétalas brancas. Aprisionadas em suas mão Elas escurecem, empapadas em suor, depois enrolam, Desidratam-se e desmoronam. Hora após hora Elas gotejam do ramo. Por fim Ele está limpo e, quando você […]
- [Paulo Henriques Britto - Heraclitus meets Pascal](https://singularidadepoetica.art/2019/01/06/paulo-henriques-britto-heraclitus-meets-pascal/): Ninguém se molha duas vezes na mesma tempestade. Mudam você, a água, nem é o mesmo, na sua mão, o guarda-chuva; muda o motivo pelo qual você houve por bem molhar-se, oferecendo ao temporal – por assim dizer – a outra face; não muda, porém, a consciência de que os sapatos encharcados e a calça […]
- [Manuel António Pina - A Canção dos Adultos](https://singularidadepoetica.art/2019/01/05/manuel-antonio-pina-a-cancao-dos-adultos/): Parece que crescemos mas não.Somos sempre do mesmo tamanho.as coisas que à volta estãoé que mudam de tamanho. Parece que crescemos mas não crescemos.São as coisas grandes que há,o amor que há, a alegria que há,que estão a ficar mais pequenos. Ficam de nós distantesque às vezes já mal os vemos.Por isso parece que crescemose […]
- [Rui Pires Cabral - Recomeço](https://singularidadepoetica.art/2019/01/04/rui-pires-cabral-recomeco/): O primeiro cigarro do dia é na varanda quando faz sol: misteriosamente o terraço do vizinho continua a concentrar a tristeza do bairro inteiro. Mal acordado, juntas as linhas que te permitem perceber quem és, onde estás, o que terás de fazer a seguir. E a angústia que te abraça é a memória mais antiga […]
- [Francisco Brines - Os Verões](https://singularidadepoetica.art/2019/01/03/francisco-brines-os-veroes/): A Carmen Marí Foram longos e ardentes os verões! Ficamos nus juntos ao mar, e o mar ainda mais nu. Com os olhos, e em corpos ágeis, praticamos a mais prazerosa posse do mundo. Soavam para nós as vozes iluminadas de lua, e era a vida abrasadora e violenta, ingratos com o sonho, fluíamos. O […]
- [Abel Silva – O Poço](https://singularidadepoetica.art/2019/01/02/abel-silva-o-poco/): A moeda do Acaso cai tão fundo no Poço dos Destinos que vivemos descolados do viver do outro, como num contrato de comportamento. O milagre do viver nos entorpece. Então a notícia da doença de um amigo, o convite para a missa de um outro, um susto, um alarme, uma suspeita nos vareja no rosto […]
- [Javier Salvago - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2019/01/01/javier-salvago-ano-novo/): Como as coisas não podiam ficar pior – escreveu Kafka, em seu Diário – melhoraram. Como eu gostaria, ante este negro e inóspito horizonte que se abre, diante de mim – como mais um ano, ou como menos um ano -, de poder dizer o mesmo. Mas sinto que ainda não cheguei ao fundo, que […]
- [Manuel António Pina – KM 82](https://singularidadepoetica.art/2018/12/31/manuel-antonio-pina-km-82/): I’m on the highway to hell a 170 à hora no CD, ou então o rádio para sempre sintonizado na final da Taça. Nunca saberás o resultado, Faéton, hey, mumma, look at me, I’m on may way to the promised land e está visto que uma ligação directa não chega para pôr em marcha uma […]
- [The White Buffalo – This Year](https://singularidadepoetica.art/2018/12/31/the-white-buffalo-this-year/): Acho que toda mensagem de “Feliz Ano Novo” se resume à ideia contida na letra desta música: tente melhorar sempre e sempre. Se não der, tente de novo no ano que vem. E no outro. E no outro. Uma hora dá certo. Ou não. Feliz 2019! [wpvideo 7QK0XJOX] The White Buffalo – This Year (Tradução […]
- [Joan Margarit - Canção de Ninar](https://singularidadepoetica.art/2018/12/30/joan-margarit-cancao-de-ninar/): Dorme, Joana. E que este Loverman obscuro e trágico do sax de teu irmão em Montjuïc possa acompanhar-te toda a eternidade pelos caminhos que são bem conhecidos pela música. Dorme, Joana, dorme. E de preferência não esqueças de teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste. Enquanto envelhecemos, conservaremos todas as cores que […]
- [José Mateos - Canção 10](https://singularidadepoetica.art/2018/12/29/jose-mateos-cancao-10/): Canção 10 (Ruínas de Bolonha) Disse o sol do entardecer,aqui, defronte ao mar:Morreré começar a voltar. Trad.: Nelson Santander José Mateos – Canción 10 (Ruinas de Bolonia) Aquí, frente al mar, lo diceel sol del atardecer:Morires empezar a volver.
- [Inês Dias - Um estranho no meu túmulo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/28/ines-dias-um-estranho-no-meu-tumulo/): Chegamos tarde a nós. Eu tinha a pele gasta, o coração no fio. Tu eras um longo muro de cimento areado em que deixava a carne inteira a caminho do encontro. A primavera ficava-nos sempre à esquerda e tu cada vez mais dentro de mim até não sentir nada, até estares já do outro lado. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Procura](https://singularidadepoetica.art/2018/12/27/carlos-drummond-de-andrade-procura/): Procurar sem notícia, nos lugares onde nunca passou; inquirir, gente não, porém textura, chamar à fala muros de nascença, os que não são nem sabem, elementos de uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis, feitos de cimento do impossível, e ao sol-menino opor a antiga busca, e de tal modo revolver a morte que ela […]
- [Táxis Varvitsiótis - Assim também a morte](https://singularidadepoetica.art/2018/12/26/taxis-varvitsiotis-assim-tambem-a-morte/): À memória de Andréa Karandonis Asa ou marfim É tudo espesso Como o ferro e a madeira Como a proa inquebrável De um navio Rumo ao infinito Assim também a morte Espessa impenetrável Como galeria de mina Muro indestrutível Poço sem fundo Carvão aceso Para alcançar-lhe o duro cerne Tons de rasgar O pano entretecidos […]
- [Nuno Júdice - Natal](https://singularidadepoetica.art/2018/12/25/nuno-judice-natal/): Deito-me à sombra da árvore sem sombra – a árvore cujas raízes nascem da infância – e é natal, e nunca mais chega a meia-noite dessa noite sem fim. Rezo pelas mais obscuras incertezas, pelas almas que hesitam nas encruzilhadas, pelos vagabundos que esperam a meia-noite para se sentarem à porta da igreja, na única […]
- [Joan Margarit - Cemitério de Montjuïc](https://singularidadepoetica.art/2018/12/24/joan-margarit-cemiterio-de-montjuic/): Algo permanece das almas, como a brisa que surge depois que alguém passou, e que faz estremecer uma leve cortina na janela. Pelo caminho de pedras ásperas que não esquecem mas calam, severas, o que sabem, o vento deixa um silêncio de lágrimas por vidas como as nossas, perdidas. “Jazigo perpétuo”, a terra sempre dura, […]
- [Amalia Bautista – Noite de São João](https://singularidadepoetica.art/2018/12/23/amalia-bautista-noite-de-sao-joao/): Que queimaremos esta noite, quantasvelhas feridas daremos nós às chamas,de que nos livraremos para não o recordarnem sequer dos piores pesadelos diurnos?Que lançaremos nós ao fogo ou em que fogueiraslimparemos a vida para nos renovarmos,para o tempo que reste, para o que consigamosroubar a tantas mortes?Chega a noite de São João, continuamosvivos e juntos apesar […]
- [Nelson Santander – Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/23/nelson-santander-cinema-paradiso-e-a-visita-cruel-do-tempo/): Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo, uma crônica de Nelson Santander
- [paulo leminski - sossegue coração](https://singularidadepoetica.art/2018/12/22/paulo-leminski-sossegue-coracao/): sossegue coração ainda não é agora a confusão prossegue sonhos afora calma calma logo mais a gente goza perto do osso a carne é mais gostosa
- [Antonio Cicero – Prólogo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/21/antonio-cicero-prologo/): Por onde começar? Pelo começo absoluto, pelo rio Oceano, já que ele é, segundo o poeta cego em cujo canto a terra e o céu escampo e o que é e será e não é mais e longe e perto se abrem para mim, pai das coisas divinas e mortais, seu líquido princípio, fluxo e […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Quando Penso nos Velhos Amigos](https://singularidadepoetica.art/2018/12/20/luis-alberto-de-cuenca-quanto-penso-nos-velhos-amigos/): Quando penso nos velhos amigos que saíram de minha vida, unindo-se a más mulheres que alimentam seu medo e os enchem de filhos para tê-los por perto, controlados e inermes. Quando penso nos velhos amigos que se foram para o país da morte, sem passagem de volta, só porque procuraram o deleite nos corpos e […]
- [Robert Schindel - Réquiem por uma Amizade](https://singularidadepoetica.art/2018/12/19/robert-schindel-requiem-por-uma-amizade/): Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos. E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia O seu eco no coração, morreu o meu hóspede. Um riso, um sapato, o violino de estar aqui Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Espera](https://singularidadepoetica.art/2018/12/18/sophia-de-mello-breyner-andresen-espera/): Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia, No silêncio que apenas quebrava a maré cheia A gritar o seu eterno insulto, Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro.
- [josé luís peixoto - arte poética](https://singularidadepoetica.art/2018/12/16/jose-luis-peixoto-arte-poetica/): o poema não tem mais que o som do seu sentido, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma, poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil […]
- [Ian Hamilton - Poema de Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2018/12/15/ian-hamilton-poema-de-aniversario/): Firme em suas mãos Sua caneca de barbear com a Exposição do Império. Você a conserva agora Como escarradeira, as pombas presunçosas, O 1938 dela Manchados por gotas de seu sangue. Esta noite, Meio sufocado, canceroso, Desiludido, Você bate os dentes contra sua boca dourada de porcelana E espera por um ataque. Trad.: Nelson Santander […]
- [Ivan Junqueira - A tua data](https://singularidadepoetica.art/2018/12/14/ivan-junqueira-a-tua-data/): Alguém só morre em sua data, que é única, ôntica, enfática. Nunca depende de quem vai nem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba, e, se dele a alma se aparta, não cabe a ninguém afirmá-lo, nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas […]
- [Paulo Henriques Britto - Nenhum Mistério](https://singularidadepoetica.art/2018/12/13/paulo-henriques-britto-nenhum-misterio/): I Não chega a ser desespero, mas não por haver esperança. Falta a ênfase, o tempero, o sal da intemperança, sem o qual não é iguaria à altura de grandes gestos. É mais da categoria das migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassa há que se tirar sustância. (Até mesmo na desgraça é pra poucos […]
- [Nuno Júdice - O Eterno Retorno](https://singularidadepoetica.art/2018/12/12/nuno-judice-o-eterno-retorno/): Agora, ao ouvir uma peça de música Barroca, como se isso servisse para alterar A cor do céu ou a cor dos sentimentos, Apercebo-me de que a música é, só, O que ficou de ti. O resto – amor, Corpo, palavras, desejo, um riso – ficou Não sei onde, nem exatamente sei quando: sei só […]
- [Amalia Bautista – Nu de Mulher](https://singularidadepoetica.art/2018/12/11/amalia-bautista-nu-de-mulher/): Para ti nunca passei de um blocode mármore. Esculpiste nele o meu corpo,um corpo de mulher branco e formoso,em que não viste nada a não ser pedrae o orgulho, isso sim, do teu trabalho.Nunca imaginaste que eu te amavae que tremia quando, docemente,me modelavas os seios e os ombros,ou alisavas as coxas e o ventre.Hoje, […]
- [América, Aztecas – O rio passa, passa](https://singularidadepoetica.art/2018/12/10/america-aztecas-o-rio-passa-passa/): O rio passa, passa e nunca cessa. O vento passa, passa e nunca cessa. A vida passa: nunca regressa. Versão: Herberto Helder
- [Ian Hamilton - Memorial](https://singularidadepoetica.art/2018/12/09/ian-hamilton-memorial/): Quatro lápides desgastadas inclinam-se contra a parede do seu hospício Vitoriano. Além dos limites, você se ajoelha na grama alta Decifrando nomes obliterados: Velhos lunáticos que aqui morreram. Trad.: Nelson Santander Ian Hamilton – Memorial Four weathered gravestones tilt against the wall Of your Victorian asylum. Out of bounds, you kneel in the long grass […]
- [Joan Margarit - Tchaicovsky](https://singularidadepoetica.art/2018/12/08/joan-margarit-tchaicovsky/): Não te suicides nunca. Olha a escuridão: nunca poderás saber quem te estende a mão. Lembras-te do inverno de luz nos cristais e a cumplicidade daquela música? Ouço a Patética e me vejo desejando que a morte de Joana nos devolvesse a ordem e a felicidade que acreditamos perder quando ela nasceu. Amor meu, Joana, […]
- [Manuel António Pina - Uma noite com Vladimir](https://singularidadepoetica.art/2018/12/07/manuel-antonio-pina-uma-noite-com-vladimir/): Eu sou mais mortal do que o meu corpo, e as minhas palavras mais mortais do que eu. E o teu silêncio, nenhum leitor, que as minhas palavras avidamente ouvem, mais mortal do que as minhas palavras. Ouvir-me-emos não é a morte o que as palavras procuram? sob tanta terra?
- [José Carlos Soares - Camel Blue](https://singularidadepoetica.art/2018/12/06/jose-carlos-soares-camel-blue/): No pequeno cemitério comovente ninguém, a não ser o latido de algum cão, o canto de um galo vermelho, a tosse de um pequeno deus desempregado. Também pude reparar como saía de uma velha campa abandonada um exército de formigas sob um intenso céu azul que nada respondia.
- [Rui Costa - A Minha Bisavó](https://singularidadepoetica.art/2018/12/05/rui-costa-a-minha-bisavo/): A minha bisavó é um quadro na parede. Roída pela traça, ela sucumbe à dentição do tempo nos seus olhos escuros de discreta bruxa. Um dia a minha bisavó nem quadro há-de ser. Continuará, apesar disso, a beber a água do copo onde lavou as cerejas (fingindo-se distraída) e a arrazoar antes da visita extemporânea […]
- [Rui Pires Cabral - Welcome Break](https://singularidadepoetica.art/2018/12/04/rui-pires-cabral-welcome-break/): Estações de serviço como ilhas de vidro no mar alto dos campos. O acaso governa as estradas e os viajantes que se cruzam despidos da teia do seu passado. Atravesso há horas um país chuvoso: anoiteceu e não se vê ninguém nas aldeias. Contra o seu escuro mistério, estas casas são reais? Nelas nasceu gente […]
- [Eugénio de Andrade – Adeus](https://singularidadepoetica.art/2018/12/03/eugenio-de-andrade-adeus/): Já gastamos as palavras pela rua, meu amor e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silêncio. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas, gastamos as mãos à força de as apertarmos, gastamos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto […]
- [Inês Lourenço – Sala Provisória](https://singularidadepoetica.art/2018/12/02/ines-lourenco-sala-provisoria/): Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez. Numa casa que vai ser demolida, numa sala provisória que vai encerrar, num velho café que mudará de ramo, como página virada jamais reaberta, como canção demasiado gasta, como abraço tornado irrepetível, numa porta a que não voltaremos.
- [Francisco Brines - Sitiado pela Divindade](https://singularidadepoetica.art/2018/12/01/francisco-brines-sitiado-pela-divindade/): Hoje voltas-te para o mar, com o corpo nu como na juventude, e todo o peso de ouro caindo sobre as costas como um interminável falcão que, azul, plana ao largo e pousa no braço, sem emitir sons, e respira. Descubro, com sereno assombro, minha existência, e o mundo então existe – o mar, que […]
- [Luís Falcão – Sabemos que o tempo passou](https://singularidadepoetica.art/2018/11/30/luis-falcao-sabemos-que-o-tempo-passou/): Sabemos que o tempo passou Que alguma coisa deveria ter sido dita (talvez depois, talvez mais tarde) Deixamos atrás de nós Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis E, feridos, Por todas as coisas que poderíamos ter evitado a nós próprios Caminhamos para o silêncio E para a escuridão indefinível dos bosques.
- [Wang Wei – Dedicado a Chang Yin](https://singularidadepoetica.art/2018/11/29/wang-wei-dedicado-a-chang-yin/): Instalar armadilhas e esperar pelas lebres astutas, Lançar uma linha à água e espreitar os peixes, Talvez acalme a boca e a barriga, Mas não é esse o sentido da vida do eremita. Eu amo a tranquilidade, Alimento-me de legumes para me desembaraçar das paixões terrenas Doravante, como tu livre e indiferente Lamento aqueles que […]
- [Halldís Moren Vesaas – Oração à Vida](https://singularidadepoetica.art/2018/11/28/halldis-moren-vesaas-oracao-a-vida/): A vida terrena, única, seja o meu quinhão! Vida minha, tudo o que tenho na tua mão! Toma-me e usa-me e exaure-me nos dias e então me larga alhures, alijada de ti, fria e impotente e condenada a não renascer na noite, na eterna noite sem amanhecer! Trad.: Luciano Dutra BØN TIL LIVET Eitt jordliv, […]
- [Manuel de Freitas – CCB, 2002](https://singularidadepoetica.art/2018/11/27/manuel-de-freitas-ccb-2002/): Abrem-se devagar os túmulos – e entramos neles. É o nosso ofício, talvez o único. Esperamos, anos fartos, o vazio. Não há engano possível, não há regresso. Todas as ilhas devagar nos mentem. Dançava perto de ti, talvez demasiado só, uma estrela d’nada, bo dispidida. Não me digas que não ouviste.
- [José Mateos - Canção 1](https://singularidadepoetica.art/2018/11/26/jose-mateos-cancao-1/): Ainda quase um menino te sentaste a esperar à orla do grande silêncio. Pensavas que estando a sós com tua voz talvez pudesses roubar ao mar seu segredo. Foi-se tua juventude. Mudos passaram os anos e agora estás oco por dentro. Podias, se ao fim soasse a voz do grande silêncio, chegar a cantar seu […]
- [Paulo Henriques Britto - Nenhuma Arte](https://singularidadepoetica.art/2018/11/25/paulo-henriques-britto-nenhuma-arte/): Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, […]
- [Eunice de Souza - Primavera Relutante](https://singularidadepoetica.art/2018/11/24/eunice-de-souza-primavera-relutante/): os corrupiões dourados se foram. as mariquitas estão em silêncio. a última folha vermelha na amendoeira recusa o próprio outono. Trad.: Nelson Santander Reluctant Spring the golden orioles have gone. the warblers are silent. the last red leaf on the almond tree refuses to fall
- [Juan Ramón Jiménez - Com tua Voz](https://singularidadepoetica.art/2018/11/23/juan-ramon-jimenez-com-tua-voz/): Quando eu estiver com as raízes chama-me com tua voz. A mim parecerá que entrou tremendo a luz do sol. Trad.: Nelson Santander Juan Ramón Jiménez – Con tu voz Cuando esté con las raíces llámame tú con tu voz. Me parecerá que entra temblando la luz del sol.
- [André Tecedeiro - de "O Número de Strahler"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/22/andre-tecedeiro-de-o-numero-de-strahler/): nem o poema dá a dimensão da contradição. o tom dizia odeio-te mas o que lhe saía da boca era amo-te. eu sabia que ficar era morte mas o que me dizia era que fugir era morte. a um hematoma eu teria chamado alívio.
- [Yves Bonnefoy – As Árvores](https://singularidadepoetica.art/2018/11/21/yves-bonnefoy-as-arvores/): Olhávamos as árvores, era do alto Do terraço que nos foi caro, o sol Ficava junto a nós mais esta vez ainda Mas retirado, silencioso anfitrião No limiar da casa em ruínas, que deixávamos A seu poder, imensa, iluminada. Vê, dizia-te eu, ele faz deslizar Na pedra desigual, insondável do nosso apoio A sombra do […]
- [Rupi Kaur – Depressão é uma sombra que mora em mim](https://singularidadepoetica.art/2018/11/20/rupi-kaur-depressao-e-uma-sombra-que-mora-em-mim/): ontem quando saí da cama o sol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou fui eu e eu já não sei se isso é vida Trad.: Ana Guadalupe
- [Francisco Brines - O Triunfo do Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/11/19/francisco-brines-o-triunfo-do-amor/): Eu te amei em Queroneia. Vivos estávamos. Entre a tristeza arruinada um sopro mortal: estávamos vivos. Séculos se passaram, e outros olhos contemplam as ruínas, ainda intactas. Quem passou por aqui? Apenas o vazio foi o tecido do tempo nesta planície. Eu te amei em Queroneia. Impalpável era o calor das cinzas humanas, e na […]
- [Nelson Santander - Gene Tierney](https://singularidadepoetica.art/2018/11/18/nelson-santander-gene-tierney/): Gene Tierney, um texto de Nelson Santander
- [Vitorino Nemésio – A Concha](https://singularidadepoetica.art/2018/11/18/vitorino-nemesio-a-concha/): A minha casa é concha. Como os bichos Segreguei-a de mim com paciência: Fachada de marés, a sonho e lixos, O horto e os muros só areia e ausência. Minha casa sou eu e os meus caprichos. O orgulho carregado de inocência Se às vezes dá uma varanda, vence-a O sal que os santos esboroou […]
- [Joan Margarit - Aventura Doméstica](https://singularidadepoetica.art/2018/11/17/joan-margarit-aventura-domestica/): Sozinho em casa e vasculhando os armários. Encontro um antigo mapa rodoviário, contratos vencidos, esferográficas que já não escreverão nenhuma carta, calculadoras com pilhas descarregadas e relógios que o tempo derrotou. No fundo das gavetas, como um rato triste, aninha-se o passado. Vazios, os vestidos pendem como velhas personagens que nos interpretaram. Súbito, encontro também […]
- [Miguel Torga - Princípio](https://singularidadepoetica.art/2018/11/16/miguel-torga-principio/): Não tenho deuses. Vivo Desamparado. Sonhei deuses outrora, Mas acordei. Agora Os acúleos são versos, E tacteiam apenas A ilusão de um suporte. Mas a inércia da morte, O descanso da vide na ramada A contar primaveras uma a uma, Também não me diz nada. A paz possível é não ter nenhuma.
- [Pedro Mexia - Vamos Morrer](https://singularidadepoetica.art/2018/11/15/pedro-mexia-vamos-morrer/): Vamos morrer, mas somos sensatos, e à noite, debaixo da cama, deixamos, simétricos e exactos, o medo e os sapatos.
- [Inês Dias - (Primeira Memória)](https://singularidadepoetica.art/2018/11/13/ines-dias-primeira-memoria/): No ano da morte da última beguina, que nunca precisara do desassossego de ver, chegou finalmente à Terra a primeira luz do mundo. 380 mil anos até comprovarmos, como a História nunca se cansara, aliás, de repetir, que tudo é trevas, instável equilíbrio entre matéria e energia escuras. Em suma, a humanidade devolvida num saco […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vaidade](https://singularidadepoetica.art/2018/11/12/giuseppe-ungaretti-vaidade/): De repente se eleva sobre os escombros a límpida maravilha da imensidão. E o homem curvado sobre a água surpreendida pelo sol se descobre uma sombra Embalada pouco a pouco desfeita Trad : Geraldo Holanda Cavalcanti Vanità D’improvviso è alto sulle macerie il limpido stupore dell’immensità E l’uomo curvato sull’acqua sorpresa dal sole si rinviene […]
- [Ricardo Molina - Convite à Felicidade](https://singularidadepoetica.art/2018/11/11/ricardo-molina-convite-a-felicidade/): Es dulce ser amado pero amar, oh dioses, qué ventura… Goethe Ama-me agora que tenho os cabelos pretos e uma coroa de junco e o perfume da água e da esteva nos braços nus. Ama-me agora que tenho nos olhos a suave chama da tarde e a graça do sorriso e a leve frescura dos […]
- [Helder Moura Pereira - "Chegamos ao fim do dia..."](https://singularidadepoetica.art/2018/11/10/helder-moura-pereira-chegamos-ao-fim-do-dia/): Chegamos ao fim do dia e cada um pensa para seu lado que isto não é vida, deixámos na terra os habituais sinais com tanto de amor como de desespero e, de mãos vazias, de coração ainda com alguma coisa mas quase vazio, batemos com a força que nos resta, pela última vez, à porta […]
- [Josep M. Rodríguez - Talvez Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/11/09/josep-m-rodriguez-talvez-amor/): “Talvez Amor”, um poema de Josep M. Rodríguez que encontra, na banalidade chuvosa da cidade, a possibilidade secreta de encontros que podem transformar-se em amizade, amor ou resistência à dor.
- [Armando Freitas Filho de "Rol"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/08/armando-freitas-filho/): 150 Ontem, foi-se. Amanhã, não há. Ar, somente, o de hoje no presente, desse dia que projeta na respiração sua plataforma insubstituível: peça única com sua aura esplêndida longe de qualquer linha de montagem frágil a qualquer hora, em aberto. No levante, no meio, no fim do seu alento, não em si, mas em mim […]
- [Ana Martins Marques - Caçada](https://singularidadepoetica.art/2018/11/07/ana-martins-marques-cacada/): E o que é o amorsenão a pressada presaem prender-se? A pressada presaemperder-se
- [Rui Costa - Breve](https://singularidadepoetica.art/2018/11/06/rui-costa-breve/): Esta manhã comecei a esquecer-me de ti. Acordei mais cedo que nos outros dias e com o mesmo sono. A tua boca dizia-me “bom dia” mas não: não o teu corpo todo como nos outros dias. As sombras por aqui são lentas e hoje não comprei o jornal: o mundo que se ocupe da sua […]
- [Miguel Martins - Fine](https://singularidadepoetica.art/2018/11/05/miguel-martins-fine/): Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis. Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura. Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem. Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no […]
- [Paulo Henriques Britto - "Da metafísica"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/04/paulo-henriques-britto-da-metafisica/): Ser parte de alguém ou algo tão grande que não se entenda: toda crença, ao fim e ao cabo, se resume a essa lenda – o mais rematado dislate, coisa jamais entendida, que eleva ao sumo quilate o caco mais reles de vida.
- [Marianne Moore - Poesia](https://singularidadepoetica.art/2018/11/03/marianne-moore-poesia/): Eu também não gosto dela: há coisas mais importantes para além de toda esta farsa. Lendo-a, contudo, com absoluto desprezo, descobre-se nela, no fim das contas, um lugar para o autêntico. Mãos que podem agarrar, olhos que podem dilatar-se, pelos que podem eriçar- se necessário, essas coisas são importantes não porque uma grandiloquente interpretação pode […]
- [Miguel-Manso – Na morte da avó](https://singularidadepoetica.art/2018/11/02/miguel-manso-na-morte-da-avo/): não bastasse a humilhação pública de morrer espera-se do corpo que cumpra com indiscutível pompa o intolerável protocolo de ausentar-se a penosa execução circular e noturna do velório a presença inconveniente dos agentes funerários os adereços lutuosos a obscena maquiagem no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa cerimônia (não há muito a dizer, […]
- [Rui Pires Cabral – Morada](https://singularidadepoetica.art/2018/11/01/rui-pires-cabral-morada/): Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos nas nossas pequenas razões. Estas ruas ainda prometem mais do que podem cumprir? A breve epifania do amor ou simplesmente um cúmplice que nos diga, à mesa de um café, que não faz mal, que pouco importam as perdas e danos que sofremos. De qualquer modo o mundo […]
- [Joan Margarit - A Espera](https://singularidadepoetica.art/2018/10/31/joan-margarit-a-espera/): Tantas coisas estão sentindo tua falta. Assim preenchem-se os dias, instantes feitos de esperar por tuas mãos, de sentir falta de tuas pequenas mãos, que pegaram nas minhas tantas vezes. Temos de nos acostumar com tua ausência. Um verão já passou sem teus olhos e o mar também haverá de acostumar-se. Tua rua, ainda por […]
- [Paulus Silentiarius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/30/paulus-silentiarius-da-antologia-grega/): Zeus, em chuva de ouro, atravessou o bronze que guardava Danae e roubou-lhe a virgindade. Moral da história: o ouro tudo domina – paredes e grilhetas de bronze, fechaduras e peias. Foi o ouro que subjugou Danae. Não é necessário rezar a Afrodite; só é preciso dinheiro. Versão: José Alberto Oliveira
- [Páladas - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/29/palladas-da-antologia-grega/): Nascidos nus. Enterrados nus. Qual a azáfama? Toda a vida conduz à primeira nudez. Versão: José Alberto Oliveira
- [Lucilius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/28/lucilius-da-antologia-grega/): Eutychides, o poeta lírico, morreu. Fugi, ó moradores do Hades! – ele transporta odes e ordenou que consigo queimassem vinte liras e vinte e cinco pautas de música, que Caronte terá de transportar. Onde se poderá encontrar refúgio, agora que Eutychides canta pela eternidade? Versão: José Alberto Oliveira
- [Anônimo - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/27/anonimo-da-antologia-grega/): Não esbanjem comigo o odor da mirra, nem ofereçam coroas de flores, nem acendam a pira funerária, tudo isso é desperdício; ofereçam-me presentes, se quiserem, enquanto estiver vivo – mas espalhar cinzas no vinho torná-lo-á lama e dele não beberão os mortos. Versão: José Alberto Oliveira
- [Automedon - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/26/automedon-da-antologia-grega/): Mandaste chamá-la, disseste para vir, preparaste tudo. Mas, se vier, o que farás? Repara no que se passa contigo, Automedon. Esse canalha, que era alegre e firme, está agora flácido, como cenoura cozida, morto e encolhido entre as pernas. Como irão rir se te puseres a navegar de mãos vazias, um remador que perdeu o […]
- [Marcus Argentarius - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/25/marcus-argentarius-sem-titulo/): Psyllas jaz aqui. A sua ocupação proxeneta; mantinha um bando de raparigas e alugava-as para festas. Um negócio pouco simpático, ganhar dinheiro com carne humana e fraca. Mas poupem o seu túmulo, não atirem pedras, agora que está morto e enterrado. Lembrem-se disto: os serviços que prestou convenceram os rapazes a deixarem as nossas mulheres […]
- [Platão - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/24/platao-sem-titulo/): Eu, Lais, que escarneci dos gregos e enxame de amantes retive à porta, ofereço a Afrodite o meu espelho. Não olharei para esta cara e não consigo ver a anterior. Versão: José Alberto Oliveira
- [Zenodotus - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/23/zenodotus-sem-titulo/): Quem esculpiu o Amor e o colocou junto desta fonte, pensaria que poderia subjugar, com água, tal fogo? Versão: José Alberto Oliveira
- [Eunice de Souza – Alvorada 2](https://singularidadepoetica.art/2018/10/22/eunice-de-souza-alvorada-2/): Falamos através de continentes. É pouco provável que nos voltemos a encontrar. Não posso fumar, não posso viajar, nenhuma felicidade claro. Sentindo um vento frio nas costas renunciamos à filosofia. Acabaram os amantes errantes, maridos, passarões não propriamente sensatos. Ainda temos a idade com que nos conhecemos. Trad.: Francisco José Craveiro de Carvalho
- [Eugénio Andrade - Passamos pelas coisas sem as ver](https://singularidadepoetica.art/2018/10/21/eugenio-andrade-passamos-pelas-coisas-sem-as-ver/): Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos.
- [Galway Kinnell - Aquela noite silenciosa](https://singularidadepoetica.art/2021/05/22/galway-kinnell-aquela-noite-silenciosa-poema/): Eu voltarei àquela noite silenciosaem que nos deitamos juntos e conversamos em vozes baixas, silenciosas,enquanto do lado de fora caíam lentos fragmentos de nevesuave, silenciando ao se aproximar do solo,com um incêndio no quarto, onde séculosde árvores evolaram-se em contínuas almas-ausentando-se,sem um estalido, até a luz da manhã.Só dormimos quando o que se apressava mais […]
- [Barbara Crooker - No meio](https://singularidadepoetica.art/2021/05/20/barbara-crooker-no-meio-poema/): de uma vida que é tão complicada quanto a de todo mundo,batalhando por equilíbrio, equilibrando o tempo.O relógio de lareira que foi do meu avôparou às 9:20; não tivemos tempode conserta-lo. O pêndulo de bronze está imóvel,os sinos não soam. Um dia eu olho pela janela,verde verão, no outro, as folhas já caírame um céu […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Ausência](https://singularidadepoetica.art/2021/05/18/sophia-de-mello-breyner-andresen-ausencia-poema/): Num deserto sem águaNuma noite sem luaNum país sem nomeOu numa terra nua Por maior que seja o desesperoNenhuma ausência é mais funda do que a tua. Conheça outros livros de Sophia de Mello Breyner Andresen clicando aqui
- [Juan Vicente Piqueras - O testemunho do gajeiro](https://singularidadepoetica.art/2021/05/16/juan-vicente-piqueras-o-testemunho-do-gajeiro-poema/): Para falar a verdade, pareceu-me outro gesto de presunção,muito dele,aquela urgência com que nos pediuque o amarrássemos ao mastropara escapar do canto das sereias. As sereias estavam cantando, isso é verdade,mas não exatamente para seduzi-lo. E por que não a qualquer um de nós?Por que elas deveriam tentar seduzir alguém?Quem pode garantir que não estavam simplesmente […]
- [Nelson Santander - O dia em que meu pai ouviu a voz de Deus](https://singularidadepoetica.art/2021/05/15/nelson-santander-o-dia-em-que-meu-pai-ouviu-a-voz-de-deus/): O conhecido escritor de ficção científica Arthur C. Clarke formulou três “leis” acerca da relação entre o homem e a tecnologia que ficaram muito famosas. Dentre elas, a mais conhecida é a terceira, que reza: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.” Lembrei dessa Lei quando, em um certo domingo, fui visitar meus pais. […]
- [Gastão Cruz – Pedro Hestnes](https://singularidadepoetica.art/2021/05/14/gastao-cruz-pedro-hestnes-poema/): Passou a alguns metros de onde eu estava; não o via há anos e nem sei qual a última vez que com ele falara Não o reconheci de imediato e bastou essa dúvida para criar um hiato na linha dos olhares de repente cruzados dentro da tarde; receara decerto não ter sido por mim reconhecido […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Ciência](https://singularidadepoetica.art/2021/05/12/carlos-drummond-de-andrade-ciencia-poema/): Começo a ver no escuro um novo tom de escuro. Começo a ver o visto e me incluo no muro. Começo a distinguir um sonilho, se tanto, de ruga. E a esmerilhar a graça da vida, em sua fuga. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [John Keats - Ode a um rouxinol](https://singularidadepoetica.art/2021/05/10/john-keats-ode-a-um-rouxinol-2/): 1.Meu peito dói; um sono insano sobre mimPesa, como se eu me tivesse intoxicadoDe ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim,Há um só minuto, e após no Letes me abismado:Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte,É do excesso de ser que aspiro em tua paz –Quando, Dríade leve-alada em meio […]
- [Denver Butson - Meu irmão](https://singularidadepoetica.art/2021/05/08/denver-butson-meu-irmao-poema/): Para escapar das dores de cabeça e aos medos de uma esposa infielmeu irmão em perpétua reabilitação usuário de drogasmaquinista encrenqueiro preso aos 14 por incêndio premeditadoe encarcerado por algumas semanaspai de um filho e de um feto abortadojogador de boliche ocasional e fã de heavy metalapreciador de ketchup batata chips strombolie cheesesteak usuário de […]
- [Ursula K. Le Guin – Como me parece](https://singularidadepoetica.art/2021/05/06/ursula-k-le-guin-como-me-parece-poema/): No vasto abismo antes do tempo, o eunão existe, e a alma se misturacom a névoa, a rocha e a luz. No tempo certo,a alma atrai o nebuloso eu para o ser.Então, lentamente, o tempo petrifica o euenquanto ilumina a alma,até que a alma perde o controle do eue ambos se libertam e podem retornarà […]
- [Mary Oliver - O véu](https://singularidadepoetica.art/2021/05/04/mary-oliver-o-veu-poema/): Há momentos em que o véu parecequase se levantar, e compreendemos o quea terra significa para nós — asárvores em sua docilidade, as colinas emsua paciência, as flores e asvideiras em sua selvagem, doce vitalidade.A Palavra, então, está em nós, e o Livro, posto de lado. Trad.: Nelson Santander Conheça outros livros de Mary Oliver […]
- [Solmaz Sharif – Treinamento de habilidades sociais](https://singularidadepoetica.art/2021/05/02/solmaz-sharif-treinamento-de-habilidades-sociais-poema/): Estudos sugerem que Como posso ajuda-lo, policial? é a coisa mais desarmante a dizer, e não Qual é o problema? Estudos sugerem que a melhor resposta a um pedido de ajuda é Com prazer e não Sem problema. Estudos sugerem que é melhor não mencionar problema diante do poder, mesmo para dizer que não há […]
- [Louise Glück - Santas](https://singularidadepoetica.art/2021/04/30/louise-gluck-santas-poema/): Em nossa família, havia duas santas,minha tia e minha avó.Mas suas vidas foram diferentes. Minha avó era tranquila, mesmo no final.Ela parecia uma pessoa caminhando em águas calmas;por alguma razãoo mar não conseguiu feri-la.Quando minha tia enveredou pelo mesmo caminho,as ondas quebraram sobre ela, atacaram-na,que é como as Fiandeiras do Destino respondema uma verdadeira natureza […]
- [Mary Oliver - Canção dos construtores](https://singularidadepoetica.art/2021/04/28/mary-oliver-cancao-dos-construtores-poema/): Em uma manhã de verãosentei-meem uma encostapara pensar em Deus— um nobre passatempo.Perto de mim, vium grilo solitário;estava movendo os grãos da encosta de um lado para o outro.Quão grande era sua energia,quão humilde o seu esforço.Esperemos que seja sempre assim,cada um de nós avançandopor nossos inexplicáveis caminhosconstruindo o universo. Trad.: Nelson Santander Conheça outros […]
- [Adrienne Rich - Fotografias do Hubble: Após Sappho](https://singularidadepoetica.art/2021/04/26/adrienne-rich-fotografias-do-hubble-apos-sappho-poema/): Leia Fotografias do Hubble: Após Sappho, de Adrienne Rich, um poema que aproxima amor, desejo e a imensidão do universo visível.
- [Edward Field - Ícaro](https://singularidadepoetica.art/2021/04/24/edward-field-icaro-poema/): Apenas as penas flutuando ao redor do chapéuMostravam que algo mais espetacular havia ocorridoAlém do afogamento habitual. A polícia preferiu ignorarOs aspectos confusos do casoE as testemunhas correram para uma guerra de gangues.Assim, o relatório arquivado e esquecido nos registros dizia simplesmente“Afogado,” mas estava errado: ÍcaroTinha nadado para longe, chegando finalmente à cidadeOnde alugou uma […]
- [Joan Margarit – Separado](https://singularidadepoetica.art/2021/04/22/joan-margarit-separado-poema/): A casa se abre para uma calçadaonde não me espera ninguém.Aqui sem ti. Um estranho.Foi aqui que eu me perdi.Caminho sem mim, contigo.Minha sombra é apenas um erro,vem dos lugares mais gélidos:teu coração e tuas mãos.Por isso eu parti.A vida desconhecidaeu a vivi sem ti.A teu lado. Trad.: Nelson Santander Separado La casa se abre […]
- [Lynn Ungar - Pandemia](https://singularidadepoetica.art/2021/04/20/lynn-ungar-pandemia-poema/): "Pandemia", um poema de Lynn Ungar que propõe encarar o isolamento como um tempo sagrado de pausa e reflexão, convidando à compaixão, à consciência da interconexão humana e à expansão do amor em meio à crise global.
- [Carolyn Forché – Dois poemas](https://singularidadepoetica.art/2021/04/18/carolyn-forche-dois-poemas-poema/): Penso em você naquele mar de túmulos além da cidade,onde muitas pedras foram deixadas, entre elas a minha: uma pequena lasca de dolomita para pesar um pedaço de papel.Eu teria colocado suas luvas e o guarda-chuva no caixão, juntamente com uma manhã em Berlin com Tanya, uma horade pombos ascendendo ao seu redor, lilases embrulhados […]
- [Fleur Adcock - Para uma criança de cinco anos](https://singularidadepoetica.art/2021/04/16/fleur-adcock-para-uma-crianca-de-cinco-anos-poema/): Um caracol escala o peitoril da janelado seu quarto, depois de uma noite dechuva. Você me chama para ver,e eu explico que seria cruel deixa-lo lá: ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar para que ninguém o esmague. Você entende e o carrega para fora, com mão diligente,para comer uma flor amarela. Vejo, então, […]
- [Mark Wunderlich - Peônias](https://singularidadepoetica.art/2021/04/14/mark-wunderlich-peonias-poema/): No pátio, as peônias rebentam em brancos corações,rebordos arredondados que desabrocham apenas para elas.Sua simplicidade, a lâmina disso, fende a manhã. Neste Brooklyn de pátios aureolados por arames farpadose roupas sujas balançando como bandeiras de rendição,vapor de resina flutuando até essas janelas, sombras viajando dos pulmões de um fumante,eu observo o helicóptero da polícia ameaçar […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2021/04/12/carlos-drummond-de-andrade-aniversario-poema/): Um verso, para te salvarde esquecimento sobre a terra?Se é em mim que estás esquecida,o verso lembraria apenasesta força de esquecimento,enquanto a vida, sem memória,vaga atmosfera, se condensana pequena caixa em que morascomo os mortos sabem morar. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Lisel Mueller – Românticos](https://singularidadepoetica.art/2021/04/10/lisel-mueller-romanticos-poema/): Românticos Johannes Brahms e Clara Schumann Os biógrafos modernos se preocupamem “o quão longe” foi sua terna amizade.Eles se perguntam o que exatamente significaquando ele escreve que pensa nela constantemente,seu anjo da guarda, amada amiga.Os biógrafos modernos fazem a rude e irrelevante indagaçãode nossa era como se o eventode dois corpos entrelaçados estabelecesse a medida […]
- [Patricia Hampl - É assim que a memória funciona](https://singularidadepoetica.art/2021/04/08/patricia-hampl-e-assim-que-a-memoria-funciona-poema/): Você está desembarcando de um trem.Uma noite úmida e vazia, o cheiro de cinzas.Uma rajada de vapor vinda da locomotiva rodopiaao redor da bainha do seu sobretudo, ao redorda mão que segura a valise de couro marrom,a mão que, há pouco, penteou para tráso cabelo e em seguida ajeitou o fedoradefronte a um espelho com […]
- [Howard Nemerov – Figuras de pensamento](https://singularidadepoetica.art/2021/04/06/howard-nemerov-figuras-de-pensamento-poema/): Colocar a espiral logarítmica naConcha e no papel, e vê-las se encaixar,Observar a mesma ideia funcionarNa subida do piloto de caça, ajustando a mira Em seu alvo, preparando a matança,E no voo de certos insetos estrábicosQue não conseguem ver que voam para a morteMas têm que lançar nela seu olhar de esguelhaE dirigir-se, mas girando, […]
- [Javier Salvago - Nada, nada importa](https://singularidadepoetica.art/2021/04/04/javier-salvago-nada-nada-importa-poema/): Se os anos ensinam alguma coisaé a pouca importânciaque tudo tem.Tudo,cedo ou tarde, passa.O amor, que vaicomo veio. A vagajuventude, com seus sonhos,suas grandes esperanças.Dias de vinho e de rosas,tempos de abundânciado coração. O brilho.A beleza. A vontadede levar a vidaadiante. As presunçosasilusões— estrelasque subitamente se apagame nos deixam em umanoite escura da alma —.A […]
- [Joan Margarit - Noturno em Solivella](https://singularidadepoetica.art/2021/04/02/joan-margarit-noturno-em-solivella-poema/): Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.Detiveste o trator entre as cercas de arameonde se embalam, verdes e densas, as videiras,e escutaste a terra à tua volta.O restaurante te dá dinheiro,mas de madrugada, com ele já fechado,fazendo um café para ti no balcão,pensas o quanto gostas de, à noite, visitarsozinho os arames do […]
- [William Blake – A mosca](https://singularidadepoetica.art/2021/03/31/william-blake-a-mosca-poema/): Pequena Mosca, Teus jogos de estio Minha irrefletida Mão os destruiu. Pois como tu, Mosca não sou eu? E não és tu Homem como eu? Eu canto e danço e Bebo, até que vem Mão cega arrancar-me As asas também. Se é o pensamento Vida, sopro forte, E a ausência do Pensamento morte, Então eu […]
- [Antonio Carlos Secchin - [Não, não era ainda a era da passagem]](https://singularidadepoetica.art/2021/03/29/antonio-carlos-secchin-nao-nao-era-ainda-a-era-da-passagem-poema/): Não, não era ainda a era da passagem do nada ao nada, e do nada ao seu restante. Viver era tanger o instante, era linguagem de se inventar o visível, e era bastante. Falar é tatear o nome do que se afasta. Além da terra, há só o sonho de perdê-la. Além do céu, o mesmo céu, que se alastra num […]
- [Linda Pastan - Chove sobre a casa de Anne Frank](https://singularidadepoetica.art/2021/03/27/linda-pastan-chove-sobre-a-casa-de-anne-frank-poema/): Chove sobre a casade Anne Franke sobre os turistasamontoados sob a sombrade seus guarda-chuvas,sobre os perfeitamente silenciososturistas que prefeririam estarem outro lugarmas que aqui esperam em escadastão íngremes pelas quais devem subirpara alguma ocasiãono sótão vazio,no banheiro pitoresco,no esqueletode uma cozinhaou no mapa —cada uma de suas setasuma farpa de arame —com todas as datas, […]
- [Robert Morgan - Outono branco](https://singularidadepoetica.art/2021/03/25/robert-morgan-outono-branco-poema/): Ela sempre gostou de ler, inclusivena infância, durante a Guerra da Secessão,e depois desenvolveu o hábito de ficar acordadajunto ao lampião perto da lareira depois que,concluída a faxina, o marido e os filhos iam dormir.Ela alimentou o vício nos anos durosda Reconstrução e mesmo depois queo seu marido morreu e ela foi forçada a prover […]
- [Mary Oliver – Quando estou entre as árvores](https://singularidadepoetica.art/2021/03/23/mary-oliver-quando-estou-entre-as-arvores-poema/): Quando estou entre as árvores,especialmente entre os salgueiros e os espinheiros-da-virgínia,mas também entre as faias, os carvalhos e os pinheiros,elas emitem tantos sinais de alegria.Eu quase diria que elas me salvam, e diariamente.Estou tão distante de minhas expectativas sobre mim mesma,nas quais eu reúno bondade, e discernimento,e nunca me apresso no mundo,mas caminho lentamente, e […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Formas migratórias](https://singularidadepoetica.art/2021/03/21/jorge-valdes-diaz-velez-formas-migratorias-poema/): Formas Migratórias para Katia Alemann Aprendemos a amar a conta-gotasessas pequenas pausas de que se vesteo temporal para inundar a solidãodo lado de fora, o ramo entre violeta e ocre das tardes, o murmúriosemântico do céu. Nesta ordem,temos esmaecido a distância,a longitude sem proporção, as linhasque se relacionam com as coisas. Curtaslacunas de ar, esses […]
- [Leonard Nathan - Brinde](https://singularidadepoetica.art/2021/03/19/leonard-nathan-brinde-poema/): Houve uma mulher em Ithacaque chorou baixinho a noite todano quarto ao lado e desamparadome apaixonei por ela sob o mantode neve que se depositou em todos os telhadosda cidade, preenchendocada escura depressão. Na manhã seguinteno café do motelestudei todas as mulheres de rostosmaquiados. Teria sido a loira de meia idadeque brincou com a garçoneteou a […]
- [James Kirkup – Ursa Maior](https://singularidadepoetica.art/2021/03/17/james-kirkup-ursa-maior-poema/): Suspensa entre os álamos domesticados no fimda avenida familiar, a UrsaMaior, em sua rede iluminada, balança,como um portão abandonado que nem barra nem convida para entrar,e pendura no poste arqueado sua silhueta de sete pontas. Desenhada com a precisão de um problema desconhecidosolucionado na sala de aula mais alta do céu vazio,ela revela sobre o […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - A outra rosa](https://singularidadepoetica.art/2021/03/15/jorge-valdes-diaz-velez-a-outra-rosa-poema/): Ela beijou na rosa(seu nome era um aguilhãofeminino e brutal)a imagem de outra rosa gravada em uma lousade mármore, cristalina.A luz era mais finae, ao tato, tão airosa quanto a flor que ardiasem pausa em sua memória.Em outro meio-dia, a rosa era ilusóriapromessa repartida;e o beijo, a outra vida. Trad.: Nelson Santander La otra rosa […]
- [Donald Hall - Últimos dias](https://singularidadepoetica.art/2021/03/13/donald-hall-ultimos-dias-poema/): “Era razoávelesperar.” Assim ele escreveu. No dia seguinte,em um consultório,a hematologista de Jane, Letha Mills, sentou-se,tensa, sua secretáriaem pé, de costas para a porta.“Trago péssimas notícias,”disse Letha. “A leucemia voltou.Não há nada a fazer.”Os quatro choramos. Ele perguntou há quanto tempo,por que isso aconteceu agora?Jane perguntou apenas: “Posso morrer em casa?” Em casa, naquela tarde,eles […]
- [Louise Glück - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2021/03/11/louise-gluck-acalanto-poema/): Minha mãe é especialista em uma coisa:enviar pessoas que ela ama para o outro mundo.Os pequeninos, os bebês — estesela embala, sussurrando ou cantando baixinho. Não posso dizero que ela fez pelo meu pai;o que quer que tenha sido, tenho certeza de que foi o certo. De fato, é a mesma coisa preparar uma pessoa […]
- [Warsan Shire – para mulheres que são 'difíceis' de amar](https://singularidadepoetica.art/2021/03/08/warsan-shire-para-mulheres-que-sao-dificeis-de-amar/): "para mulheres que são 'difíceis' de amar", um poema de Warsan Shire que aborda a intensidade feminina e a recusa em se diminuir para caber nas expectativas masculinas, celebrando a autonomia, a força e a beleza de mulheres que não aceitam transformar-se para serem amadas.
- [Juan Vicente Piqueras - Museu da Acrópole](https://singularidadepoetica.art/2021/03/07/juan-vicente-piqueras-museu-da-acropole-poema/): Uma mão de mármore, mas apenas os dedos,sobre um ombro de mármore sem cabeça. Um braço erodido que ninguém estende a ninguém. Um cavalo sem patas. Um cavaleiro que é apenas suas coxas. Dionísio aos pedaços, recomposto. Um touro sem chifres que está sendo devoradopor um leão que lá não está,apenas suas garras. Admiramos o […]
- [Javier Salvago - Canção do Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2021/03/05/javier-salvago-cancao-do-esquecimento-poema/): A cor dos olhos daquele paixão juvenil.O calor do primeiro beijo, do qual não melembro, embora saiba que deva ter sidoinesquecível. Tantos colegas e amigosda escola ou de farra, que um dia foram próximos.O latim. Tantos nomes de montanhas e de rios.Tantas duras lições. Tantos e tantos livros, devorados com paixão, sempre abertos, lidose esquecidos, […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Véspera](https://singularidadepoetica.art/2021/03/03/carlos-drummond-de-andrade-vespera-poema/): Amor: em teu regaço as formas sonham o instante de existir: ainda é bem cedo para acordar, sofrer. Nem se conhecem os que se destruirão em teu bruxedo. Nem tu sabes, amor, que te aproximas a passo de veludo. És tão secreto, reticente e ardiloso, que semelhas uma casa fugindo ao arquiteto. Que presságios circulam […]
- [Hannah Sullivan - 3.31 (de "Three Poems")](https://singularidadepoetica.art/2021/03/01/hannah-sullivan-3-31-de-three-poems-poema/): O que subsistirá a nós?Larkin pensava que a resposta poderia ser “amor,”Mas não conseguiu prova-lo. “A pasta de rascunhos era o lugar mais interessante.” “Sempre foi você, no final.”“Ele tentou lhe dizer à sua maneira.” Curtas cadeias de carbono no pó,Esta é a resposta prática.Velhos laptops, marca-passos, parafusos ósseos.Filamentos de DNA revelando a causa da […]
- [Charles Simic - O altar](https://singularidadepoetica.art/2021/02/27/charles-simic-o-altar-poema/): A estátua de plástico da VirgemEm cima de uma penteadeiraCom um espelho enegrecidoDe um salão de beleza de pesadelo. Dois seixos do túmulo de um astro de rock,Um pequeno e sorridente macaco de dar corda,Uma concha, uma moeda egípcia de bronze,E o canhoto vermelho de um ingresso de cinema. Uma mancha de luz solar na […]
- [X. J. Kennedy - O objetivo do tempo é evitar que tudo aconteça de uma só vez](https://singularidadepoetica.art/2021/02/25/x-j-kennedy-o-objetivo-do-tempo-e-evitar-que-tudo-aconteca-de-uma-so-vez-poema/): Imagine que sua vida seja um telescópio dobradoAtemporal, que desmoronou num piscar de olhosDo ventre de sua mãe, você, berrando, caiEm uma casa de repousos. Imagine que você destrói Seu carro, seu casamento — uma criança devastando Um campo de margaridas, estudante, adolescente espinhentoCom a amada, fechando às pressas o zíper das calçasAo ouvir os […]
- [Ross Gay - Tristeza não é o meu nome](https://singularidadepoetica.art/2021/02/23/ross-gay-tristeza-nao-e-o-meu-nome-poema/): — depois de Gwendolyn Brooks Não importa a atração pelo abismo. Pouco importa o sono profundo e florido que o aguarda. Há tempo para tudo. Veja, ainda esta manhã um abutre acenou com a cabeça vermelha e pardacenta para mim, e eu olhei para ele, admirando a foice do seu bico. Então o vento soprou, […]
- [Denise Levertov – Peregrinações no mundo paralelo](https://singularidadepoetica.art/2021/02/21/denise-levertov-peregrinacoes-no-mundo-paralelo-poema/): Vivemos nossas vidas de paixões humanas, crueldades, sonhos, ideias, crimes e o exercício da virtude em e ao lado de um mundo privado de nossas preocupações, isento de nossas apreensões — embora afetado, certamente, por nossas ações. Um mundo paralelo ao nosso, embora a ele sobreposto. Nós o chamamos de “Natureza”; apenas relutantemente admitindo que […]
- [Maggie Smith - O primeiro outono](https://singularidadepoetica.art/2021/02/19/maggie-smith-o-primeiro-outono-poema/): Eu sou sua guia aqui. Nas ruas crepusculares da manhã, eu aponto e nomeio. Veja os sicômoros, suas cascas manchadas, pintadas-por-números. Veja as folhas enferrujando e crepitando nas pontas. Eu caminho pelo Schiller Park com você no meu peito. As estrelas ardem plenamente à luz do dia. Veja o lago, os patos, os cães chapinhando […]
- [Joan Margarit - Manhã no cemitério de Montjuïc](https://singularidadepoetica.art/2021/02/18/joan-margarit-manha-no-cemiterio-de-montjuic-poema/): Fui à colina dos túmulos:lá cheguei cruzando o ermoda Can Tunis, coberto de seringase de plásticos pardacentos, onde tremem, errantes,as estátuas de trapo dos drogados.Corre o boato de que a Prefeiturairá destruí-lo, cobrindo de concretoos terrenos com mato em frente à enorme grade do cemitério, erguida de frente para o mar.Que má companhia será para […]
- [Louis MacNeice - A luz do sol no jardim](https://singularidadepoetica.art/2021/02/17/louis-macneice-a-luz-do-sol-no-jardim-poema/): A luz do sol no jardimEndurece e esmorece,Não podemos enjaular o minutoEm suas malhas de ouro;Quando tudo é proclamadoNão podemos implorar por perdão. Nossa liberdade, como soldados a soldo,Avança em direção ao seu fim;A mundo compele, nele Baixam sonetos e pássaros; E em breve, meu amigo,Não teremos tempo para danças. O céu estava bom para […]
- [Mary Oliver - Os usos da tristeza](https://singularidadepoetica.art/2021/02/15/mary-oliver-os-usos-da-tristeza-poema/): (enquanto dormia, sonhei este poema) Alguém que amei uma vez me deuuma caixa cheia de escuridão. Levei anos para entenderque isto, também, foi uma dádiva. Trad.: Nelson Santander The uses of sorrow (In my sleep I dreamed this poem) Someone I loved once gave mea box full of darkness. It took me years to understandthat […]
- [Gil Jorge - Augusto 90's](https://singularidadepoetica.art/2021/02/14/gil-jorge-augusto-90s/)
- [Lêdo Ivo – Achamento e duração dos mortos](https://singularidadepoetica.art/2021/02/13/ledo-ivo-achamento-e-duracao-dos-mortos-poema/): És o cemitério. Os mortos não jazem debaixo da terra. Não estão ocultos num lençol de relva mas sob tua pele. Tuas veias são ruas onde os mortos passeiam fagueiros, e em férias percorrem, turistas do eterno, os museus do éter. E nas terras velhas de tua memória almas veraneiam. Meu filho, viver é comerciar […]
- [Jane Hirshfield – Jasmim](https://singularidadepoetica.art/2021/02/11/jane-hirshfield-jasmim-poema/): Quase o século vinte e um —quão rapidamente o pensamento ficará datado,até mesmo pitoresco? Nossas esperanças, nosso futuro,passarão como as esperanças e futuros dos outros. E todas as nossas ansiedades e terrores,noites de insônia,pesares,se apresentarão então como realmente são — Abelhas delirantes e trôpegas pelo aroma do chá de jasmim. In “The lives of the […]
- [Seán Hewitt - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2021/02/09/sean-hewitt-fantasma-poema/): i. Despertando, quase de manhã, mas aindade um escuro metálico, fechado, no quarto: um som dentro do meu sonho, apenas um lamentono início, que depois se torna humano, um uivoque se eleva na rua do lado de fora, fica sem respostae então se eleva novamente. De cueca, tremendojunto à janela de uma só vidraça, mas […]
- [Edward Field - Máscara mortuária](https://singularidadepoetica.art/2021/02/07/edward-field-mascara-mortuaria-poema/): Máscara mortuária “A velhice é a mais inesperada de todas as coisas que acontecem a um homem.“ –Leon Trotsky. “Não me falem Da sabedoria dos velhos, mas antes de […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Nudez](https://singularidadepoetica.art/2021/02/05/carlos-drummond-de-andrade-nudez-poema/): Não cantarei amores que não tenho, e, quando tive, nunca celebrei. Não cantarei o riso que não rira e que, se risse, ofertaria a pobres. Minha matéria é o nada. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada, é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa, nem […]
- [David Whyte – Algumas vezes](https://singularidadepoetica.art/2021/02/04/david-whyte-algumas-vezes-poema/): Algumas vezes,se você se mover cuidadosamentepela floresta,respirandocomo osdas velhas histórias,que podiam atravessarum resplandescente leito de folhassem um som,você chega a um lugar cuja única missão é incomoda-locom ínfimas mas assustadoras exigências,concebidas do nadamas neste lugarque começa a leva-lo para todos os lugares.Exigências para que você pareo que está fazendo agora,e pare o que você está […]
- [Paul Tran - A caverna](https://singularidadepoetica.art/2021/02/02/paul-tran-a-caverna-poema/): Alguém que estava na abertura teve a ideia de entrar. Ir além do ponto onde a luz ou a linguagem poderiam ir. À medida que ele seguia a ideia, luz e linguagem o acompanhavam como dois lobos — ofegantes, ouvindo o próprio resfolegar. Um aroma informe no ar úmido… Prossiga, disse a ideia. Alguém prosseguiu. […]
- [Maya Angelou – Uma verdade corajosa e surpreendente](https://singularidadepoetica.art/2021/01/31/maya-angelou-uma-verdade-corajosa-e-surpreendente-poema/): Nós, este povo, em um pequeno e solitário planetaViajando através do espaço acidentalPassando por estrelas distantes, cruzando o caminho de indiferentes sóisPara um destino onde todos os sinais nos advertem queÉ possível e imperativo que aprendamosUma verdade corajosa e surpreendente E quando chegarmos a isso, Ao dia da pacificaçãoQuando libertarmos nossos dedosDos punhos da hostilidadeE […]
- [Eavan Boland - O barógrafo](https://singularidadepoetica.art/2021/01/29/eavan-boland-o-barografo-poema/): Encontrei-o no cais,um retângulo de madeira,um barógrafo, a pena de sua haste rabiscando o papel. Eu o trouxe para casa para serum registro dos ventos,da pressão crescente, apto a escrever a sina barométricado nosso cotidianoem um mundo onde carrinhos de livros levados pelo vento junto ao rioprometiam palavras selvagensmas obedeciam ao censor. Os Bancos em […]
- [Anna Belle Kaufman – Frio conforto](https://singularidadepoetica.art/2021/01/27/anna-belle-kaufman-frio-conforto-poema/): Quando minha mãe morreu,um dos seus bolos de mel permaneceu no freezer.Eu não poderia suportar o seu desaparecimento,então, abandonado, ele esperou em sua caverna de gelo atrás das bandejas de metal por mais dois anos. No meu quadragésimo primeiro aniversário,retirei-o de lá,uma ressurreição retangular,e sopesei o fardo morto na palma da mão. Antes que ele […]
- [Stephen Dunn – Felicidade](https://singularidadepoetica.art/2021/01/25/stephen-dunn-felicidade-poema/): Felicidade Um estado em que não se deve ousar entrar com a esperança de lá permanecer, areia movediça nos pântanos, e todos os caminhos que conduzem a um castelo que não existe. Mas lá está ele, como prometido, com sua ponte perfeita sobre os crocodilos, e suas portas perpetuamente abertas. Trad.: Nelson Santander Happiness A […]
- [Ana Martins Marques - A porta de saída](https://singularidadepoetica.art/2021/01/23/ana-martins-marques-a-porta-de-saida-poema/): “Eu vou morrer, masisso é tudo o que farei pela Morte”Edna St. Vincent Millay, Objeção de consciência “Alô, iniludível” Manuel Bandeira, Consoada A porta de saída Mas não serei eua colocar-lhe a mesa– quando chegarencontrará a casa como sempreem desordemcheia de livros e discoscom plantas e gatos ao sole os papéis em órbitaem torno da camae […]
- [David Mourão-Ferreira - E por vezes](https://singularidadepoetica.art/2021/01/21/david-mourao-ferreira-e-por-vezes-poema/): E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por […]
- [José Miguel Silva - Desculpas não faltam](https://singularidadepoetica.art/2021/01/19/jose-miguel-silva-desculpas-nao-faltam-poema/): Uma casa junto ao Vouga,rio de água suficiente,onde apenas se mergulhaaté à cintura, a pequena hortade Virgílio, o amor robustecidopor nenhuma esperançae tantos livros para ler– que desculpa vou agora darpara não ser feliz?
- [Germana Zanettini – bem-me-quer](https://singularidadepoetica.art/2021/01/17/germana-zanettini-bem-me-quer-poema/): bem-me-quer e quando a morteme desfolharnum sopro de outonoe súbito cessar o peito virarei pó e voltareipólenno vento
- [Wendell Berry - O desejo de ser generoso](https://singularidadepoetica.art/2021/01/15/wendell-berry-o-desejo-de-ser-generoso-poema/): Tudo a que sirvo morrerá, todos os meus deleites,a carne acesa de minha carne, jardim e campo,os lírios silenciosos que se encontram na floresta, as florestas, a colina, a terra toda, tudoarderá na maldade humana, ou encolherána própria velhice. Que o mundo me proporcioneo sono das trevas sem estrelas, para que eu possa conhecerminha pequena […]
- [Robyn Sarah - Rebitados](https://singularidadepoetica.art/2021/01/13/robyn-sarah-rebitados-poema/): É possível que as coisas não fiquem melhoresdo que estão agora, ou como imaginamos que estejam.É possível que já tenhamos ultrapassado o meio agora.É possível que tenhamos cruzado as Grandes Águassem sabe-lo, e que agora estejamos do outro lado. Sim, acho que já as atravessamos. Agora estamos recebendo ingressos, e eles não são ingressos para […]
- [Una Mannion – Sepultado agachado](https://singularidadepoetica.art/2021/01/11/una-mannion-sepultado-agachado-poema/): Eles deslocam a terra com pequenas espátulas e pincéis epor toda a semana as focas entoam um refrão desolado como se fosse para você.Primeiro, o pé de uma pequena criança,movimentos lentos do pincel em seus ossinhos,sua forma na vala ganhando definição, um lento nascimentono canto do campo à beira da água. Você está deitado de […]
- [Lisel Mueller – Imortalidade](https://singularidadepoetica.art/2021/01/09/lisel-mueller-imortalidade-poema/): No castelo da Bela Adormecidao relógio bate cem anose a garota na torre volta ao mundo.O mesmo ocorre com os criados na cozinha,que nem sequer esfregam os olhos.A mão direita do cozinheiro, levantadahá exatamente um século,completa seu arco descendenteaté a orelha esquerda do ajudante de cozinha;as tensas cordas vocais do garotolibertam finalmenteo sofrido lamento aprisionado,e […]
- [Jeanne Marie Beaumont - Receio que sim](https://singularidadepoetica.art/2021/01/07/jeanne-marie-beaumont-receio-que-sim-poema/): Está começando a chover?O cheque foi devolvido?Estamos sem café?Vai doer?Você pode perder seu emprego?O vidro quebrou?A bagagem foi extraviada?Vai ficar na minha ficha?Você está perdendo muito dinheiro?Alguém ficou ferido? O trânsito está pesado?Eu tenho que tirar minhas roupas?Vai deixar uma cicatriz?Você tem que ir?Isso sairá nos jornais?Meu tempo já acabou?Veremos o substituto?Afetará a minha visão?Todos […]
- [Frank O’Hara - Animais](https://singularidadepoetica.art/2021/01/05/frank-ohara-animais-poema/): Você já se esqueceu de como éramos quando éramos de primeira linhae o dia vinha gordo com uma maçã em sua boca não vale a pena se preocupar com o Tempo mas nós tínhamos alguns truques nas mangase dobramos algumas esquinas afiadas todo pasto parecia nossa refeiçãonão precisávamos de velocímetrospodíamos gerenciar coquetéis sem gelo e […]
- [Ellen Bass – O panorama geral](https://singularidadepoetica.art/2021/01/03/ellen-bass-o-panorama-geral-poema/): Eu tento ver o panorama geral.O sol, língua ardenteque nos lambe como uma mãe encantada por sua nova cria, se consumirá.Tudo é transitório.Pense no meteoro que aniquilou os dinossauros.E antes disso, nos vulcõesdo Permiano — todas aquelas samambaias e répteis, tubarões e peixes ósseos queimados —que foram extintos em uma escalaque faz com que nossas […]
- [W. S. Merwin - Ao Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2021/01/01/w-s-merwin-ao-ano-novo-poema/): Ao Ano Novo, um poema de W. S. Merwin
- [Nelson Santander - O ano novo inalcançável](https://singularidadepoetica.art/2020/12/31/nelson-santander-o-ano-novo-inalcancavel/): Meu xará Nelson Motta costuma afirmar, sem firulas, que a música americana é a melhor do mundo. O jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical, teatrólogo e letrista paulista radicado no Rio de Janeiro dispensa apresentações: sua extensa produção em todos os quadrantes da atividade musical – da produção à composição, passando pela crítica e história […]
- [Ada Limón - O fim da poesia](https://singularidadepoetica.art/2020/12/30/ada-limon-o-fim-da-poesia-poema/): “O fim da poesia”, um poema de Ada Limon que questiona a suficiência da própria linguagem poética diante da experiência concreta da vulnerabilidade humana.
- [Louise Glück – Encruzilhada](https://singularidadepoetica.art/2020/12/29/louise-gluck-encruzilhada/): No poema Encruzilhada, Louise Glück apresenta uma reflexão íntima sobre a relação entre corpo e alma diante da finitude. Com linguagem delicada e confessional, o eu lírico reconhece a fragilidade da existência, revisita o amor da juventude e expressa ternura pelo próprio corpo como morada transitória. O texto aborda mortalidade, impermanência e reconciliação interior em uma meditação poética profunda sobre a despedida da vida.
- [David Mourão-Ferreira – Testamento](https://singularidadepoetica.art/2020/12/27/david-mourao-ferreira-testamento/): Que fique só da minha vida um monumento de palavras Mas não de prata Nem de cinza Antes de lava Antes de nada Daquele nada que se aviva quando se arrisca uma viagem por entre os pântanos da ira além do sol das barricadas Ou quando um poço que cintila parece o tecto de uma […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2020/12/26/giuseppe-ungaretti-natal-3/): Republicação: “Natal”, um poema de Giuseppe Ungaretti
- [Eugénio de Andrade – Último Poema](https://singularidadepoetica.art/2020/12/24/eugenio-de-andrade-ultimo-poema/): Último Poema, um poema de Eugénio de Andrade sobre o Natal
- [Philip Larkin - Canções de amor na velhice](https://singularidadepoetica.art/2020/12/23/philip-larkin-cancoes-de-amor-na-velhice/): Ela guardou canções, tomavam pouco espaçoE as capas lhe eram belas:Uma que apanhou sol e de matizes baços;Uma cheia de círculos de jarra d´água;Uma colada, num “acesso de ordem” dela,E colorida, pela filha – aguar-daram assim, até que em sua viuvez asAchou, procurando algo, e pôs-se dessa vez a Reaprender como cada acorde, obedienteE franco, […]
- [Neil Gaiman – As coletoras de cogumelos](https://singularidadepoetica.art/2020/12/21/neil-gaiman-as-coletoras-de-cogumelos/): Como você sabe, meu pequeno, a ciência é o estudoda natureza e do comportamento do universo.Ela se baseia na observação, na experimentação e na medição,e na formulação de leis para descrever os fatos revelados. Nos velhos tempos, dizem, os homens já vinham equipados com cérebrosprojetados para seguir cárneas-feras em uma corrida,para se lançarem cegamente no […]
- [Joan Margarit – Nada engrandece um velho](https://singularidadepoetica.art/2020/12/19/joan-margarit-nada-engrandece-um-velho/): Nem essa violência com a qual desejoter sempre razão.Nem tampouco crer que a felicidadetem uma relação, sutil, com a mentira.Nem chegar a tero coração tão sujo como o meu,apesar de ter sido a guerra que o sujou.Minha paz deve ser uma falsa paz.Tampouco não abjurar a luxúriae a vaidade.Como podemos ser vaidosos, os velhos? Essa […]
- [Javier Salvago - Variações sobre um velho tema](https://singularidadepoetica.art/2020/12/17/javier-salvago-variacoes-sobre-um-velho-tema-poema/): Os violinos de Verlaine. Os sonhados caminhos da tarde, de don Antonio.* Um velho cheiro de campo. Um velho cheiro de lápis e cadernos. O céu cinzento. O vento entre as árvores. A carícia das primeiras chuvas. A tristeza sem causa. A solidão sonora. A noite, cada vez mais escura e prolongada. Um cigarro que, […]
- [Wendell Berry – Questionário](https://singularidadepoetica.art/2020/12/15/wendell-berry-questionario-poema/): 1. Quanto veneno você está dispostoa consumir para o sucesso do livremercado e do comércio internacional? Por favor,indique seus venenos preferidos. 2. Em nome do bem, quantomal você está disposto a praticar?Preencha os campos abaixocom os nomes de suas maldades eatos de ódio favoritos. 3. Que sacrifícios você está dispostoa fazer pela cultura e pela […]
- [Audre Lorde – As abelhas](https://singularidadepoetica.art/2020/12/13/audre-lorde-as-abelhas-poema/): Na rua, em frente a uma escola,o que as crianças aprenderamas possui.Garotos gritam enquanto apedrejam um enxame de abelhasque tenta se reunirentre a janela do refeitório e uma grade de ferro.Os garotos arremessam pedras furiosasdespedaçando as janelas.As abelhas, zumbindo sua raiva,demoram a atacar.Então, um dos meninos é picadoem uma destruição mais rápidae os inspetores escolares […]
- [Barbara Ras - Você não pode ter tudo](https://singularidadepoetica.art/2020/12/11/barbara-ras-voce-nao-pode-ter-tudo-poema/): Mas você pode ter a figueira e suas folhas fartas como mãos de palhaçoenluvadas de verde. Você pode ter o toque de um único dedo de onze anos de idadeem seu rosto, acordando-a à uma da madrugada para dizer que o hamster reapareceu.Você pode ter o ronronar do gato e o olhar comovente do cachorro […]
- [Ursula K. Le Guin – Hino ao tempo](https://singularidadepoetica.art/2020/12/09/ursula-k-le-guin-hino-ao-tempo-poema/): O Tempo diz “Que haja”e instantaneamente, a todo instante,existe espaço e o esplendorde cada galáxia brilhante. E olhos contemplando o céu cintilante.E a dança dos mosquitos, tremulante.E a extensão do mar.E a morte, e o azar. O tempo deixa espaçopara ir e voltar para casae no ventre do tempotudo começa e acaba. Tempo é ser […]
- [Jane Hirshfield – Encantamento para se recitar contra o ódio](https://singularidadepoetica.art/2020/12/07/jane-hirshfield-encantamento-para-se-recitar-contra-o-odio-poema/): Até que cada respiração repudie eles, aqueles, outros.Até que a Dramatis Personae da primeira página do livro diga: “Cada um deles é você.”Até que a esperança se dobre à sua desesperança apenas quando um ser se dobrar para outro.Até que a crueldade se dobre às suas ações e subitamente perceba: eu.Até que a raiva e […]
- [Warsan Shire – Casa](https://singularidadepoetica.art/2020/12/05/warsan-shire-casa-poema/): ninguém sai de casa a não ser que a casa seja a boca de um tubarãovocê só corre para a fronteiraquando vê a cidade inteira correndo também seus vizinhos correm mais rápidos do que vocêrespiram o sangue em suas gargantaso menino com quem você ia para a escola eque a beijou atordoada atrás da velha […]
- [Louise Glück - Viúvas](https://singularidadepoetica.art/2020/12/03/louise-gluck-viuvas-poema/): Minha mãe está jogando cartas com minha tia,Spite and Malice*, o passatempo da família, o jogoque minha vó ensinava a todas as suas filhas. É o auge do verão: quente demais para sair.Hoje minha tia está em vantagem; ela está recebendo as cartas boas.Minha mãe está se arrastando, com problemas em se concentrar.Ela não consegue […]
- [Nelson Santander - Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/12/01/nelson-santander-singularidade-poema/): Logo no início do blog, publiquei alguns poemas de minha autoria, não tanto pelo valor intrínseco que cada um deles dificilmente possa ter, mas para deixa-los “arquivados” nesse grande arquivo virtual que é a internet. Dentre eles, o poema que segue é aquele que considero o menos ruim de todos os que cometi. Como minhas […]
- [Marissa Davis – Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/11/29/marissa-davis-singularidade-poema/): Singularidade (depois de Marie Howe) no início sem verboiguana & mirramagma & mariposa-fantasma do recife& os cordyceps fazendo cócegas em seus nervos& cedro & arquipélago & anêmonapássaro dodo & cardeal esperando por seu salvermelho do oceano & óleo cru agora lama preta agora o mais naïve plâncton hesitantecada ovo agarrado à cópia maleávelde mim não-mulher […]
- [Marie Howe – Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/11/27/marie-howe-singularidade-poema/): Singularidade (depois de Stephen Hawking) Você às vezes não gostaria de acordar para a singularidadeque um dia fomos? tão compactos ninguémprecisava de cama, ou comida, ou dinheiro — ninguém se escondendo no banheiro da escolaou sozinho em casa abrindo a gavetaonde os comprimidos são guardados. Pois cada átomo que pertence a mimPertence a você. Lembra-se? […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Ex libris](https://singularidadepoetica.art/2020/11/25/jorge-valdes-diaz-velez-ex-libris-poema/): Eu reli novamente aqueles versosque falavam de amor e que lemosna noite em que ardeu Troia e nos perdemosno fundo de seus negros universos. Ouvi em cada folha os maciosrelevos de tua pele em que achamoshaver bebido ao sol em seus racemose ao mar que refletia em seus cicios fartos nossa ascensão ao precipício.Fareja-se a […]
- [Louise Glück – Abundância](https://singularidadepoetica.art/2020/11/23/louise-gluck-abundancia-poema/): Um vento frio sopra nas noites de verão, agitando o trigo.O trigo se curva, as folhas dos pessegueirosfarfalham noite afora. No escuro, um menino cruza o campo:pela primeira vez, ele tocou uma garotae então volta para casa como um homem, com a fome de um homem. Lentamente, as frutas amadurecem —cestas e mais cestas delas […]
- [Edna St. Vincent Millay - Até tarde](https://singularidadepoetica.art/2020/11/21/edna-st-vincent-millay-ate-tarde-poema/): Com a faca cega do Sono, se quiser,Corte cada dia pela metade, amado —Os anos que o Tempo tira do meu viver,Ele deduzirá daquele outro lado! Trad.: Nelson Santander Midnight Oil * Cut if you will, with Sleep’s dull knife,Each day to half its length, my friend,—The years that Time takes off my life,He’ll […]
- [Derek Mahon - Tudo vai ficar bem](https://singularidadepoetica.art/2020/11/19/derek-mahon-tudo-vai-ficar-bem-poema/): Como eu não ficaria feliz em contemplaras nuvens que se dissipam além da janela do sótãoe a maré alta refletida no teto?Haverá mortes, haverá mortes,mas não há necessidade de falar sobre isso.Os poemas fluem espontaneamente da mãoe a fonte oculta é o coração vigilante.O sol se levanta, apesar de tudo,e as distantes cidades são belas […]
- [Linda Hogan – Cruzamentos](https://singularidadepoetica.art/2020/11/17/linda-hogan-cruzamentos-poema/): Há um lugar no centro da terraonde um oceano se dissolve dentro de outroem um amor negro e sacro;É por isso que as baleias de um oceanoconhecem as canções que vem de outro,porque uma coisa se torna outrae a areia escorre da ampulhetapara um outro tempo.Vi uma vez um feto de baleiaem um breu de […]
- [Paulo Henriques Britto - Balanços](https://singularidadepoetica.art/2017/01/10/paulo-henriques-britto-balancos/): II Como saber sem tentar? Como tentar se é tão fácil conformar-se de saída com a ideia de fracasso? Pois fracassar justifica o não se ter nem sequer admitido não querer-se aquilo que mais se quer. É um beco sem saída, mas sempre é melhor que a rua: mais estreito. Acolhedor. Vem, entra. A casa […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Quarta Feira de Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/vinicius-de-moraes-soneto-de-quarta-feira-de-cinzas/): Por seres quem me foste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Malgrado a vida dura e atormentada Por seres mais que a simples aventura E menos que a constante namorada Porque te vi nascer de mim […]
- [Wislawa Szymborska - Discurso do Nobel 1996 (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/wislawa-szymborska-discurso-do-nobel-1996-excerto/)
- [Paulo Henriques Britto - Mínima Poética](https://singularidadepoetica.art/2017/01/08/paulo-henriques-britto-minima-poetica/): Poesia como forma de dizer o que de outras formas é omitido— não de calar o que se vive e vê e sente por vergonha do sentido. Poesia como discurso completo, ao mesmo tempo trama de fonemas, artesanato de éter, e projeto sobre a coisa que transborda o poema (se bem que dele próprio projetada). […]
- [Paulo Henriques Britto - Circular](https://singularidadepoetica.art/2017/01/07/paulo-henriques-britto-circular/): Neste mesmo instante, em algum lugar, alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer. Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar. O que você fizer não muda coisa alguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a […]
- [Paulo Henriques Britto - Biodiversidade](https://singularidadepoetica.art/2017/01/06/paulo-henriques-britto-biodiversidade/): Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, que não requerem prática, oficina, suor. Maneiras mais simpáticas de pagar mico e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, como há quem não se vexe de ler e decifrar essas palavras bestas estrebuchando […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/05/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos/): III Mesmo o mais sólido some sem deixar nenhum vestígio, sem nem se ter (como exige o costume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido — que se dá a posteriori, antes que se deteriore de todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculo ângulo do evento único […]
- [Paulo Henriques Britto - Mosaico](https://singularidadepoetica.art/2017/01/04/paulo-henriques-britto-mosaico/): Os dias a amontoar-se como se rumo a um sentido, algo que se assemelhasse a uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo, claro — o que sabem os dias?) uma estrutura em relevo, espécie de marchetaria, com padrão indecifrável (por não seguir um projeto), mas assim mesmo um resguardo, um remédio […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/03/paulo-henriques-britto-de-biographias-literarias/): V Céu azul. Cores vivas. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo. É talvez domingo. É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagem extremamente, absurdamente nítida. E se fosse menor a claridade, ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Seis Sonetos Soturnos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/02/paulo-henriques-britto-de-seis-sonetos-soturnos/): I A qualquer hora, o que se chama vida pode mudar da água pro vinho. Ou vice- -versa. Cada palavra proferida — uma sentença grave, uma tolice — pode retornar feito um bumerangue capaz de destruir o que encontrar. E nada que se funde em carne e sangue escapa dessas bólides de ar: o amor […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Vai, Ano Velho](https://singularidadepoetica.art/2017/01/01/affonso-romano-de-santanna-vai-ano-velho/): Leia Vai, Ano Velho, de Affonso Romano de Sant'Anna, um poema sobre renovação, esperança e a persistente necessidade humana de sonhar.
- [Paulo Henriques Britto - Madrigal](https://singularidadepoetica.art/2016/12/31/paulo-henriques-britto-madrigal/): Desista: não vai dar certo. O mundo é o mesmo de sempre, desejo é uma coisa cega. Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam, os pés vão aonde não sabem. As cartas estão marcadas: vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo, desejo é uma porta aberta. Desista, […]
- [Paulo Henriques Britto - Cuidado Poeta...](https://singularidadepoetica.art/2016/12/30/paulo-henriques-britto-cuidado-poeta/): Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma. Depois de um certo número de páginas anjos não pousam mais nas entrelinhas. E até a lucidez, essa moderna, também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado, não se resolve com um só lance de dados. Não basta a precisão do gesto […]
- [Paulo Henriques Britto - Soneto Inglês](https://singularidadepoetica.art/2016/12/29/paulo-henriques-britto-soneto-ingles/): A surpresa do amor — quando já não se espera do mundo nada em especial, e a evidência de que os anos vão se acumulando sem nenhum sinal de sentido já não dói nem comove — quando em matéria de felicidade não se deseja mais que uns nove metros quadrados de privacidade para abrigar os […]
- [Paulo Henriques Britto - Crepuscular](https://singularidadepoetica.art/2016/12/28/paulo-henriques-britto-crepuscular/): 1. Chegamos tarde. (Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidade aberta, e uma loucura provisória era a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todo atento, em transe, em trânsito, no assédio a um ou outro flanco do […]
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori II](https://singularidadepoetica.art/2016/12/27/paulo-henriques-britto-memento-mori-ii/): Luz frágil que brota no breu e num rápido relance dá forma e cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que pode às aparências, acredita piamente no sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forças contra o conforto de apagar-se enfim por trás de duas implacáveis pálpebras.
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori I](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-memento-mori-i/): Nenhum sinal da solidão se vê lá onde o amor corrói a carne a fundo. Dentro da pele, no entanto, você é só você contra o mundo. Esta felicidade que abastece seu organismo, feito um combustível, é volátil. Tudo que sobe desce. Tudo que dói é possível.
- [Paulo Henriques Britto - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-acalanto/): Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Três Epifanias Triviais"](https://singularidadepoetica.art/2016/12/25/paulo-henrique-brittos-de-tres-epifanias-triviais/): As coisas que te cercam, até onde alcança tua vista, tão passivas em sua opacidade, que te impedem de enxergar o (inexistente) horizonte, que justamente por não serem vivas se prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção, essas coisas que você usa e esquece assim que larga na primeira mesa — […]
- [Patrícia Pinheiro - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/12/12/patricia-pinheiro-sem-titulo/)
- [Cecília Meireles - De que são feitos os dias?](https://singularidadepoetica.art/2016/12/09/cecilia-meireles-de-que-sao-feitos-os-dias/): De que são feitos os dias? – De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Entre mágoas sombrias, momentâneos lampejos: vagas felicidades, inactuais esperanças. De loucuras, de crimes, de pecados, de glórias – do medo que encadeia todas essas mudanças. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alianças…
- [Nelson Santander - Limiar](https://singularidadepoetica.art/2016/11/21/nelson-santander-limiar-poema/): Limiar, um poema de Nelson Santander
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/ferreira-gullar-os-mortos-2/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Carlos Drummond de Andrade - Retrato de Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/carlos-drummond-de-andrade-retrato-de-familia/): Este retrato de família Está um tanto empoeirado. Já não se vê no rosto do pai Quanto dinheiro ele ganhou. Nas mãos dos tios não se percebem As viagens que ambos fizeram. A avó ficou lisa, amarela, Sem memórias da monarquia. Os meninos, como estão mudados. O rosto de Pedro é tranquilo, Usou os melhores […]
- [Ferreira Gullar - Redundâncias](https://singularidadepoetica.art/2016/11/19/ferreira-gullar-redundancias/): Ter medo da morteé coisa dos vivoso morto está livrede tudo o que é vida Ter apego ao mundoé coisa dos vivospara o morto não há(não houve)raios rios risos E ninguém vive a mortequer morto quer vivomera noção que existesó enquanto existo
- [Ferreira Gullar - Visita](https://singularidadepoetica.art/2016/11/18/ferreira-gullar-visita/): no dia de finados ele foi ao cemitério porque era o único lugar do mundo onde podia estar perto do filho mas diante daquele bloco negro de pedra impenetrável entendeu que nunca mais poderia alcançá-lo Então apanhou do chão um pedaço amarrotado de papel escreveu eu te amo filho pôs em cima do mármore sob […]
- [Ferreira Gullar - A Alegria](https://singularidadepoetica.art/2016/11/17/ferreira-gullar-a-alegria/): O sofrimento não tem nenhum valor. Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança ou a ilusão de uma alegria). Sofres tu, sofre um cachorro ferido, um inseto que o inseticida envenena. Será maior a tua dor que a […]
- [Marcelo Tápia - a pedra volátil](https://singularidadepoetica.art/2016/11/16/marcelo-tapia-a-pedra-volatil-poema/): a pedra volátil, um poema de marcelo tápia
- [Antonio Cicero - Cidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/15/antonio-cicero-cidade/): Para Arthur Nestrovsky Lembro que o futuro era uma cidade nebulosa da qual eu esperava tudo e que, sendo uma cidade, nada esperava de ninguém. Ah, cidade sonhada de avenidas macadâmicas, turbas febris e prédios de granito: o que era que eu perdera e que, perdido e em cacos, buscava nas tuas áridas calçadas e […]
- [Antonio Cicero - Virgem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/14/antonio-cicero-virgem/): Música: Marina Lima As coisas não precisam de você:Quem disse que eu tinha que precisar?As luzes brilham no VidigalE não precisam de você;Os Dois IrmãosTambém não.O Hotel Marina quando acendeNão é por nós doisNem lembra o nosso amor.Os inocentes do Leblon,Esses nem sabem de vocêNem vão querer saberE o farol da Ilha só gira agoraPor […]
- [Jorge Wanderley - Acerto de Contas](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/jorge-wanderlei-acerto-de-contas/): quando a geração de meu pai batia na minha a minha achava que era normal que a geração de cima só podia educar a de baixo batendo quando a minha geração batia na de vocês ainda não sabia que estava errado mas a geração de vocês já sabia e cresceu odiando a geração de cima […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Fragilidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/carlos-drummond-de-andrade-fragilidade/): Este verso, apenas um arabesco em torno do elemento essencial – inatingível. Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas, e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento, ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades de sono se depositam sobre a terra esfacelada. Não mais o desejo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Ontem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/12/carlos-drummond-de-andrade-ontem/): Até hoje perplexo ante o que murchou e não eram pétalas. De como este banco não reteve forma, cor ou lembrança. Nem esta árvore balança o galho que balançava. Tudo foi breve e definitivo. Eis está gravado não no ar, em mim, que por minha vez, escrevo, dissipo.
- [Carlos Drummond de Andrade - Viagem na Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/11/carlos-drummond-de-andrade-viagem-na-familia/): A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabira a sombra de meu pai tomou-me pela mão. Tanto tempo perdido. Porém nada dizia. Não era dia nem noite. Suspiro? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Noite Dissolve os Homens](https://singularidadepoetica.art/2016/11/10/carlos-drummond-de-andrade-a-noite-dissolve-os-homens/): A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão. A noite caiu. Tremenda, sem esperança… Os suspiros acusam a presença negra que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/11/09/carlos-drummond-de-andrade-os-ombros-suportam-o-mundo/): Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Inocentes do Leblon](https://singularidadepoetica.art/2016/11/08/carlos-drummond-de-andrade-inocentes-do-leblon/): Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Cassiano Ricardo - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2016/11/07/cassiano-ricardo-testamento/): Deixo os meus olhos ao cego que mora nesta rua. Deixo a minha esperança ao primeiro suicida. Deixo à polícia meu rasto, a Deus o meu último eco. Deixo o meu fogo-fátuo ao mais triste viandante que se perder sem lanterna numa noite de chuva. Deixo o meu suor ao fisco que me cobriu de […]
- [Cassiano Ricardo - Morrer não será dormir](https://singularidadepoetica.art/2016/11/06/cassiano-ricardo-morrer-nao-sera-dormir/): Morrer não será dormir, pois não existe horizonte para poder haver sono. Será ser indiferente. Apenas indiferente. Que tanto faça haver sol como o sol não seja mais do que um simples girassol. Não será, só, o morrer porque se deixou de ser. Será – por indiferença – tanto estar o mundo morto como imundo […]
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa-2/)
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa/): I A cidade chora lágrimas elétricas sobre o corpo anônimo do eletrocutado. As figuras tétricas que residem, mudas, na parede do templo, me cercam, na rua. Como se eu fosse, acaso, o culpado de algum acontecimento na noite confusa. II O deus unicórnio que há no escudo do rei, e que lhe defende a coroa, […]
- [Álvaro de Campos - Lisbon Revisited (1926)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/03/alvaro-de-campos-lisbon-revisited-1926/): Nada me prende a nada. Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. Anseio com uma angústia de fome de carne O que não sei que seja – Definidamente pelo indefinido… Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias. Correram cortinas de todas as […]
- [Thomas Mann - Morte em Veneza (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/thomas-mann-morte-em-veneza-excerto/): “(…) Gustav von Aschenbach era de estatura um pouco abaixo da média, moreno, rosto inteiramente barbeado. A cabeça parecia um pouco grande demais em relação à sua figura quase franzina. O cabelo, penteado para trás, escasso no alto da cabeça, abundante e já bem grisalho nas têmporas, enquadrava uma testa alta, cheia de rugas que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - José](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/carlos-drummond-de-andrade-jose/): E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não […]
- [Mário Chamie - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/mario-chamie-fantasma/): Um fantasma ausente põe tijolo sobre tijolo ao seu redor. Primeiro mede o terreno Divide o espaço. Calca com o pé a planta que não floresce. Mas que cresce sob estacas de cimento. Depois, a ausência se preenche. O fantasma move a cal, a pedra, a pá. O fantasma move o corpo já presente do […]
- [Cecilia Meireles - Cantarão os Galos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/cecilia-meireles-cantarao-os-galos/): Cantarão os galos, quando morrermos, e uma brisa leve, de mãos delicadas, tocará nas franjas, nas sedas mortuárias. E o sono da noite irá transpirando sobre as claras vidraças. E os grilos, ao longe, serrarão silêncios, talos de cristal, frios, longos ermos, e o enorme aroma das árvores. Ah, que doce lua verá nossa calma […]
- [Cecília Meireles - Epigrama nº 7](https://singularidadepoetica.art/2016/10/18/cecilia-meireles-epigrama-no-7/): A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. Conheça outros livros de Cecília Meireles clicando aqui
- [Cecília Meireles - O Jardim](https://singularidadepoetica.art/2016/10/15/cecilia-meireles-o-jardim/): O jardim é verde, encarnado e amarelo.Nas alamedas de cimento,movem-se os arabescos do solque a folhagem recortae o vento abana. A luz revela orvalhos no fundo das flores,nas asas tênues das borboletas,-e ensina a cintilar a mais ignorada areia,perdida nas sombras,submersas nos limos. Ensina a cintilar tambémos insetos mínimos,-alada areia dos ares, que se elevaaté […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Um Bruxo Com Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/carlos-drummond-de-andrade-a-um-bruxo-com-amor/): Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te; e me recebes na sala trastejada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro. Daí esse cansaço nos gestos e, […]
- [Mário de Andrade - Poema da Amiga (VIII)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/mario-de-andrade-poema-da-amiga-viii/): Gosto de estar a teu lado, Sem brilho. Tua presença é uma carne de peixe, De resistência mansa e de um branco Ecoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti. Anoiteço feito um bairro, Sem brilho algum. Estamos no interior duma asa Que fechou. Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/philip-roth-a-marca-humana-excerto/): “Porque não sabemos, não é? Todo mundo sabe… Como é que as coisas acontecem do jeito que acontecem? O que está por trás da anarquia da seqüência de eventos, as incertezas, os infortúnios, a incoerência, as irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. ‘Todo mundo sabe’ é a invocação do clichê e o início da […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Carta aos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/affonso-romano-de-santanna-carta-aos-mortos/): Carta aos Mortos, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, reflete sobre a aparente marcha do progresso e as surpreendentes permanências da experiência humana.
- [Machado de Assis - Bagatela (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/05/machado-de-assis-bagatela-excerto/)
- [Machado de Assis - Epitáfios](https://singularidadepoetica.art/2016/09/30/machado-de-assis-epitafios/)
- [Stephen King - Não pedimos...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/26/stephen-king-nao-pedimos/)
- [José Luís Peixoto - na hora de pôr a mesa...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/jose-luis-peixoto-na-hora-de-por-a-mesa/): na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está […]
- [José Luís Peixoto - Explicação da Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/2263-2/)
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Eu me Perdi](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-eu-me-perdi/): Eu me perdi na sordidez de um mundo Onde era preciso ser Polícia agiota fariseu Ou cocote Eu me perdi na sordidez do mundo Eu me salvei na limpidez da terra Eu me busquei no vento e me encontrei no mar E nunca Um navio da costa se afastou Sem me levar
- [Eugénio de Andrade - Quase Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/eugenio-de-andrade-quase-epitafio/): O outro sabia. Tinha uma certeza. Sou eterno, dizia. Eu não tenho nada. Amei o desejo com o corpo todo. Ah, tapai-me depressa. A terra me basta. Ou o lodo.
- [W. H. Auden - Funeral Blues](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/w-h-auden-funeral-blues/): BLUES FÚNEBRE Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto — um laço no […]
- [Mia Couto - Falta de Reza](https://singularidadepoetica.art/2016/09/10/mia-couto-falta-de-reza/): Por insuficiência de reza, por falsidade de crença meu anjo me culpou e vaticinou eterna penitência. Mas não ajoelho nem peço desculpa. Não quero um deus que vigie os vivos e peça contas aos mortos. Um deus amigo que me chame por tu e que espere por mim para um copo de riso e abraços: […]
- [João Cabral de Melo Neto - A Viagem](https://singularidadepoetica.art/2016/09/09/joao-cabral-de-melo-neto-a-viagem/): Quem é alguém que caminha toda manhã com tristeza dentro de minhas roupas, perdido além do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendo como se levassem nos bolsos doces geografias, pensamentos de além do sonho e da rua? Alguém a cada momento vem morrer no longe horizonte de meu quarto, onde esse alguém […]
- [José Saramago - Demissão](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/mario-quintana-demissao/): Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo demais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos tudo De morder os mais fracos, se mandamos, E de lamber as mãos se dependentes.
- [Lewis Carroll - Jaguadarte](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/lewis-carrol-jaguadarte/): Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo. […]
- [Shirley Jackson - A Assombração na Casa da Colina (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/09/04/shirley-jackson-a-assombracao-na-casa-da-colina-excerto/): “NENHUM ORGANISMO vivo pode existir com sanidade por longo tempo em condições de realidade absoluta; até as cotovias e os gafanhotos, pelo que alguns dizem, sonham. A Casa da Colina nada sã, erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas; existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais outros […]
- [Cassiano Ricardo - Jogo de Xadrez](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/cassiano-ricardo-jogo-de-xadrez/): 1 Não posso, sem remorso, ver uma criatura dormindo. Tão sincera, dá-se tanto (tão f o t o g ê n i c a- m e n t e) que me arrependo de não lhe haver sido mais puro quando falávamos, há pouco. A morte, se igual ao sono, absolvido, já, da luta, deverá ser […]
- [Richard Rorty - O Fogo da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/richard-rorty-o-fogo-da-vida/): Tradução por Igor de C. e S.C. (Publicado originalmente em Poetry Foundation, o pequeno ensaio foi o último publicado durante a vida do filósofo norte americano Richard Rorty (1931 – 2007).) Em um ensaio chamado “Pragmatismo e Romantismo” tentei revalidar o argumento de “Defesa da Poesia”, de Shelley. No coração do romantismo, eu disse, estava a tese de que a […]
- [Roberto e Erasmo Carlos - Detalhes (trecho)](https://singularidadepoetica.art/2016/08/28/roberto-e-erasmo-carlos-detalhes-trecho/)
- [Pedro Abrunhosa - Quem me Leva os meus Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2016/08/26/pedro-abrunhosa-quem-me-leva-os-meus-fantasmas/): https://youtu.be/w4ldfmoMoZk Intérprete: Maria Bethânia “De que serve ter o mapa Se o fim está traçado, De que serve a terra à vista Se o barco está parado, De que serve ter a chave Se a porta está aberta, De que servem as palavras Se a casa está deserta?” Aquele era o tempo em que as […]
- [Emil Cioran - Deus é um desespero...](https://singularidadepoetica.art/2016/08/24/2122-2/)
- [Páladas - Epigrama V, 72](https://singularidadepoetica.art/2016/08/22/paladas-epigrama-v-72/)
- [Arnaldo Antunes - Saudades](https://singularidadepoetica.art/2016/08/21/arnaldo-antunes-saudades/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Livro da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/08/19/livro-da-vida/)
- [Ricardo Silvestrin - Dança](https://singularidadepoetica.art/2016/08/18/ricardo-silvestrin-danca/): Sim, existe a dança: o corpo solto avança e recua leve nos passos matemáticos, um, dois, um, como se fosse mais fácil viver num tempo menor, brincadeira de criança que sabe de cor o roteiro e ri na hora marcada. Fora da dança, o infinito nos convida, nos seduz com passos improváveis, mas temos dois […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2016/08/14/carlos-drummond-de-andrade-a-mesa-2/): E não gostavas de festa. . . Ó velho, que festa grande hoje te faria a gente. E teus filhos que não bebem e o que gosta de beber, em torno da mesa larga, largavam as tristes dietas, esqueciam seus fricotes, e tudo era farra honesta acabando em confidência. Ai, velho, ouvirias coisas de arrepiar […]
- [William Carlos Williams - Entre Muros](https://singularidadepoetica.art/2016/08/11/william-carlos-wiliams-entre-muros/): alas traseiras do hospital onde nada medra jazem cinzas nas quais cacos verdes brilham garrafa Trad.: Haroldo de Campos
- [Robinson Jeffers - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/08/07/robinson-jefferson-sem-titulo/): Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com […]
- [Jules Laforgue - Spleen](https://singularidadepoetica.art/2016/08/03/jules-laforgue-spleen/): Tudo é tédio. Manhã. Olho pela janela. No alto, risca-se o céu no giz da chuva fria. Em baixo, a rua. Sob a cerração sombria Vultos deslizam na água turva de barrela. Olho sem ver (até meu cérebro regela) Maquinalmente sobre o vidro que embacia Meu dedo faz rabiscos de caligrafia. Bah! Saiamos. Quem sabe, […]
- [Guenádi Aigui - Nuvens](https://singularidadepoetica.art/2016/07/28/guenadi-aigui-nuvens/): Trad.: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman
- [William Carlos Williams - Carrinho de Mão Vermelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/22/william-carlos-williams-carrinho-de-mao-vermelho/): tanto depende de um carrinho de mão vermelho vidrado pela água da chuva perto das galinhas brancas. Trad.: Haroldo de Campos
- [William Carlos Williams - As Árvores de Botticelli](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-as-arvores-de-botticelli/): O alfabeto das árvores se esfuma no canto das folhas os entre- laços de finas letras que soletram inverno e o frio são iluminados em apontos de verde por chuva e sol – Os princípios simples estritos de justos ramos são tangidos por beliscões afãs de cor, devotas condições os sorrisos de amor – ……………. […]
- [William Carlos Williams - O Vento Aumenta](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-o-vento-aumenta/): A saqueada terra está varrida As árvores o brilho da tulipa desponta dobram-se e dançam – Desata teu amor para fluir Florir! Bom Cristo o que é um poeta – se algum existe? um homem cujas palavras irão morder sua trilha de retorno – ser atual tendo a forma. do movimento Em cada ramo-em-ponta novo […]
- [E. E. Cummings - “o amor é mais muito que olvido”](https://singularidadepoetica.art/2016/07/11/e-e-cummings-o-amor-e-mais-muito-que-olvido/): o amor é mais muito que olvido mais pouco que memória mais raro que onda ser aguada mais comum que dar foras é mais lunar, demente por menos nem falar que o mar todo somente mais fundo do que o mar é menos sempre que sucesso menos jamais que ao vivo menos maior que um […]
- [Emily Dickinson - Nesta Vida Tão Breve...](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/emily-dickinson-nesta-vida-tao-breve/)
- [Rudyard Kipling - Se](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/rudyard-kipling-se/): Se és capaz de manter a tua calma quando Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa; De crer em ti quando estão todos duvidando, E para esses no entanto achar uma desculpa; Se és capaz de esperar sem te desesperares, Ou, enganado, não mentir ao mentiroso, Ou, sendo odiado, sempre […]
- [William Butler Yeats - Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/william-butler-yeats-morte-poema/): Um bicho à morte ignora ânsia e temor; contudo um homem, quando é hora, anseia e teme tudo; morreu vezes sem conta e ergueu-se redivivo. Um grande homem confronta gente homicida, altivo, escarnecendo o corte do alento. Convivera com a morte a vida inteira: o homem criou a morte. Trad.: Nelson Ascher
- [T. S. Eliot - Morte Pela Água](https://singularidadepoetica.art/2016/07/04/t-s-eliot-morte-pela-agua/): Flibas, o Fenício, há quinze dias morto, Deixou o grito das gaivotas, e a funda onda do mar E o lucro e a perda. Uma corrente submarina Roeu seus ossos em sussurros. Como subiu caiu Varando o palco da velhice e juventude Rompendo os vagalhões. Gentio ou Judeu Ó tu que giras o leme e miras […]
- [Rainer Maria Rilke - Conclusão](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/rainer-maria-rilke-conclusao-poema/): A Morte é grande. Nós, sua presa, vamos sem receio. Quando rimos, indo, em meio à correnteza, chora de surpresa em nosso meio. Trad.: Augusto de Campos
- [Sérgio Sant'Anna - Heavy Metal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/sergio-santanna-heavy-metal/): Escombros. Um odor de carne chamuscada. Porém não se detecta a presença de cadáveres. Aqui e ali, como sombras, algumas paredes e edificações remanescentes. A torre caída de uma catedral gótica sobre fragmentos de vitrais estilhaçados. A reverberação de suas cores projetando castelos abstratos. Um bando de delinquentes juvenis, com as mãos nos bolsos, atravessa […]
- [Cassiano Ricardo - Ode Pastoril](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-ode-pastoril/): A paisagem é minha só porque tenho olhos. O pássaro é meu só porque tenho ouvidos. Amo com a mão as coisas que o estar aqui me deu. No universal verde, sou meu ser, não sou eu. Em meu léxico lírico só existem duas palavras, e uma é irmã da outra: a manhã e o […]
- [Laura Amélia Damous - Brevíssima Canção do Amor Constante](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/laura-amelia-damous-brevissima-cancao-do-amor-constante/): Ferindo o tempo Vestindo eternidade O meu amor tranqüilo e mudo Vive em ti Tão leve e manso Que tu não o sentes Tu
- [Carlos Nejar - Gazel do Universo Começando](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/carlos-nejar-gazel-do-universo-comecando/): "Gazel do Universo Começando", um poema de Carlos Nejar que funde amor e cosmos em imagens circulares de vento, trigo e mar, sugerindo que o universo inteiro começa no encontro amoroso e no movimento compartilhado dos amantes.
- [Cassiano Ricardo - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-o-espelho/): Um meio-dia nu, numa enorme moldura de prata. Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo. Mas não é nada. É apenas um espelho. Um rico espelho. De extraordinário fulgor. Próprio pra ser colocado à parede de um ministério da Fazenda, ou de uma casa de jogo. Toda a cidade cabe dentro dele. Árvores, […]
- [William Blake - Londres](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-londres/): Em cada rua escriturada em que ando, Onde o Tâmisa escriturado passa, Eu nos rostos que encontro vou notando Os sinais da doença e da desgraça. Ouço nos gritos que os adultos dão, E nos gritos de medo do inocente, Em cada voz, em cada interdição, As algemas forjadas pela mente Se o Limpa-Chaminés acaso […]
- [William Blake - London (c.1790)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-london-c-1790/): Perambulo por todas as ruas com barreiras Vizinhas de onde o próprio Tâmisa Entre barreiras flui, e em cada face que encontro Marco marcas de fraqueza, marcas de pesar. Ouço o ruído dos grilhões mentais apostos Em cada alocução de cada homem No grito de temor de cada infante Nas vozes todas, em cada interdição. […]
- [William Blake - A Tirzah](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-a-tirzah/): Tudo que nasceu para morrer Deve-se a terra misturar Para da geração se libertar: Então, que tenho eu a ver contigo? Do orgulho e da vergonha nasce o sexo Pela manhã florido, à tarde morto. Mas a piedade faz da Morte sono E os sexos se levantam para o trabalho e o pranto. Tu, mãe […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/giuseppe-ungaretti-natal-2/): Natal Não tenho vontade de mergulhar-me em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixai-me assim como uma coisa colocada em um canto e esquecida Aqui não se sente outra presença que o calor bom Estou com as quatro cabriolas de fumaça da lareira. Trad.: Luigi Lucchesi
- [João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/01/joao-guimaraes-rosa-grande-sertao-veredas-excerto/)
- [Lêdo Ivo - A Queimada](https://singularidadepoetica.art/2016/06/29/ledo-ivo-a-queimada/): Queime tudo o que puder: as cartas de amor as contas telefônicas o rol de roupas sujas as escrituras e certidões as inconfidências dos confrades ressentidos a confissão interrompida o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose os recortes antigos e as fotografias amareladas. Não deixe aos herdeiros esfaimados nenhuma herança de […]
- [Jorge Luis Borges - Poema dos Dons](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-borges-poema-dos-dons/): Ninguém rebaixe a lágrima ou censura Esta declaração da maestria De Deus, que com magnífica ironia Me deu mil livros e uma noite escura. Desta terra de livros fez senhores A olhos sem luz, que apenas se concedem Sonhar com bibliotecas e com cores De insensatos parágrafos que cedem As manhãs ao seu fim. Em […]
- [Merrit Malloy - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2020/03/02/merrit-malloy-epitafio/): Quando eu morrerDoa o que restar de mimÀs criançasE aos idosos que esperam para morrer. E se precisares chorar,Chora por teu irmãoQue caminha pela rua ao teu lado.E quando precisares de mim,Põe teus braçosEm volta de alguémE dá-lhe o que tens a me oferecer. Quero deixar-te algo,Algo melhorQue palavrasOu sons. Busca por mimNas pessoas que […]
- [José Emílio Pacheco - Crianças e adultos](https://singularidadepoetica.art/2020/03/01/jose-emilio-pacheco-criancas-e-adultos/): Aos dez anos, acreditavaque o mundo era dos adultos.Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,ir aonde quisessem.Sobretudo, nos esmagar com seu poder indomável. Agora sei, por vasta experiência, o lugar-comum:em verdade, não há adultos,apenas crianças envelhecidas. Desejam o que não têm:o brinquedo do outro.Sentem medo de tudo.Obedecem sempre a alguém.Não governam a própria existência.Choram por […]
- [Juan Vicente Piqueras - Papoulas](https://singularidadepoetica.art/2020/02/29/juan-vicente-piqueras-papoulas/): No antigo campo de batalha onde morreram milhares de meninos cresce novamente o trigo, salpicado aqui e ali de ardentes papoulas. E dois amantes, que terão mais ou menos a idade dos soldados que aqui então morreram, hoje fazem amor no semeado. Deitam o trigo. Calcam as papoulas. Trad.: Nelson Santander Amapolas Sobre el antiguo […]
- [Louise Glück - Outubro](https://singularidadepoetica.art/2020/02/28/louise-gluck-outubro/): 1. É inverno outra vez, faz frio outra vez, Frank não escorregou no gelo, ele não se curou, não se plantaram as sementes da primavera a noite não terminou, o gelo derretido não inundou as calhas estreitas meu corpo não foi resgatado, não era seguro não se formou a cicatriz, invisível sobre a lesão terror […]
- [Raquel Lanseros - A propósito de Eros](https://singularidadepoetica.art/2020/02/27/raquel-lanseros-a-proposito-de-eros/): De todas as terrenas servidões que aprisionam meu afã neste cárcere confesso-me devedora da carne e de todos os seus íntimos vaivéns que me fazem mais feliz e menos livre. Às vezes, porém, a escravidão se mostra soberana e me sinto senhora do destino. Porque sei amar, porque provei da fruta e nunca maldisse o […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - O material do relâmpago](https://singularidadepoetica.art/2020/02/26/jorge-valdes-diaz-velez-o-material-do-relampago/): Calculaste em detalhes cada passo, sutil, há muitos séculos. Finalmente teu marido viajou e as crianças foram dormir com os avós. Estás agora sozinha e eufórica voltaste-te a se maquiar e vestiste-te de preto rigoroso e perfumaste tua mínima porção de lingerie. Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada te fará voltar atrás. Olhas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Dentaduras duplas](https://singularidadepoetica.art/2020/02/25/carlos-drummond-de-andrade-dentaduras-duplas/): Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos… Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. (Coroas sem reino, os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura, dentadura múltipla, a serra mecânica, sempre desejada, jamais possuída, que acabará com o tédio da boca, a boca que beija, a boca […]
- [T. S. Eliot - A Viagem dos Magos](https://singularidadepoetica.art/2020/02/24/t-s-eliot-a-viagem-dos-magos/): “Foi um frio que nos colheu Na pior quadra do ano Para uma viagem, e longa era a viagem: Os caminhos enlameados e o tempo adverso Em pleno coração do inverno.” E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis, Jaziam em meio à neve derretida. Foram momentos em que recordamos Os palácios estivais sobre […]
- [Blas de Otero - Ímpeto](https://singularidadepoetica.art/2020/02/23/blas-de-otero-impeto/): Mas nem tudo há de ser ruína e vazioE nem tudo escombro ou descongelação.Por cima deste ombro levo o céu,e por cima deste outro, um vasto rio de entusiasmo. E meu corpo no meio,árvore luzente gritando do chão.E, entre raízes mortais, sofreguidão,meu coração desperto, raio sombrio. Somente o anseio me vence. Mas avançosem duvidar, sobre […]
- [Mary Oliver - O quarto signo do zodíaco](https://singularidadepoetica.art/2020/02/22/mary-oliver-o-quarto-signo-do-zodiaco/): 1. Porque eu deveria ter ficado surpresa? Caçadores percorrem a floresta sem um som. O caçador, armado com seu rifle, a raposa com seus pés de seda, a serpente em seu império de músculos — todos se movem em silêncio, famintos, cuidadosos, atentos. Exatamente como o câncer entrou na floresta do meu corpo, sem um […]
- [Robert Hayden - Aqueles domingos de inverno](https://singularidadepoetica.art/2020/02/21/robert-hayden-aqueles-domingos-de-inverno/): Também aos domingos meu pai acordava cedo e vestia suas roupas no frio azul escuro, depois, com as mãos rachadas doloridas do trabalho no tempo durante a semana, ele fazia os fogos empilhados arderem. Ninguém nunca o agradeceu. Eu acordava e ouvia o frio se partindo em fragmentos. Quando as salas ficavam aquecidas, ele me […]
- [Marisa de la Peña - O tempo que nos resta](https://singularidadepoetica.art/2020/02/20/marisa-de-la-pena-o-tempo-que-nos-resta/): “Somos o tempo que nos resta” J. M. Caballero Bonald. É isso o que somos: o tempo que nos resta, o último batimento interrompido, a palavra não dita, o deserto cruzado, e o caminho sem nome que deixamos para trás. Somos o abandono, a intempérie, as luzes apagadas, e as portas, fechadas para sempre, ao […]
- [Ricardo Aleixo - Geral](https://singularidadepoetica.art/2020/02/19/ricardo-aleixo-geral/): O jo go é tão sujo e você (entre bis onho e biz arro) torce justo para o juiz?
- [André Vallias - as instituições estão funcionando](https://singularidadepoetica.art/2020/02/18/andre-vallias-as-instituicoes-estao-funcionando/)
- [Rubén Darío - Quando vieres a amar](https://singularidadepoetica.art/2020/02/17/ruben-dario-quando-chegares-a-amar/): "Quando vieres a amar", um poema de Rubén Darío que apresenta o amor como experiência paradoxal de luz e sombra, felicidade e dor, afirmando sua natureza inevitável e a impossibilidade de viver plenamente sem ele.
- [Juan Vicente Piqueras - Ristorante dal 1882–](https://singularidadepoetica.art/2020/02/16/juan-vicente-piqueras-ristorante-dal-1882/): Ristorante dal 1882–leio no cardápio e me ponho a pensarque numa noite, há mais de um século,numa noite igual a esta,houve um grupo de amigos que aqui jantou,como nós fazemos agora,e riram, conversaram, passaram o sal,mais ou menos felizes, fugazes, encantadosde estarem juntos rindocomo nós fazemos agora,e que nenhum deles vive maise agora somos nós,os […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - O primeiro homem](https://singularidadepoetica.art/2020/02/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-o-primeiro-homem/): Era como uma árvore da terra nascida Confundindo com o ardor da terra a sua vida, E no vasto cantar das marés cheias Continuava o bater das suas veias. Criados à medida dos elementos A alma e os sentimentos Em si não eram tormentos Mas graves, grandes, vagos, Lagos Refletindo o mundo, E o eco […]
- [Alfonso Brezmes - Notas marginais](https://singularidadepoetica.art/2020/02/14/alfonso-brezmes-notas-marginais/): Leia "Notas marginais", de Alfonso Brezmes, um poema delicado sobre memória, releitura e as transformações silenciosas provocadas pelo tempo.
- [Wislawa Szymborska - Para o meu próprio poema](https://singularidadepoetica.art/2020/02/13/wislawa-szymborska-para-o-meu-proprio-poema/): Na melhor das hipóteses, meu poema, você será lido atentamente, comentado e lembrado. Na pior das hipóteses somente lido. Terceira possibilidade – embora escrito, logo jogado no lixo. Você pode se valer ainda de uma quarta saída – desaparecer não escrito murmurando satisfeito algo para si mesmo. Trad.: Regina Przybycien Do własnego wiersza W najlepszym […]
- [Carlos Montemayor - Memória](https://singularidadepoetica.art/2020/02/12/carlos-montemayor-memoria/): Estou aqui, em casa, a sós.Aqui estão os móveis, o ar, os ruídos.Tenho um sentimento tão transparentequanto a vidraça de uma janela.É como a janela pela qual olhava a neve ao amanhecer,há muitos anos, quando criança,e colava o rosto contra o vidro e compreendia toda a vida.É um desejo calmo, como a tarde.É estar como […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - S.T.T.R. Sit Tibi Terra Levis](https://singularidadepoetica.art/2020/02/11/jorge-valdes-diaz-velez-s-t-t-r-sit-tibi-terra-levis/): Hoje lembro os mortos da minha casaOctavio Paz De todos os nossos mortos, jamais esqueceremoso primeiro. O meu habita a raiz do outono,sob os álamos. Sua memóriame oferece uma murta enquanto se inclinacom os braços abertos de outros dias. Lembrode sua estatura nas sombras, prestes a afastar-sedo espelho, seu rosto velado, o ornamentodas obstinadas lições […]
- [Gonçalo M. Tavares - O idiota](https://singularidadepoetica.art/2020/02/10/goncalo-m-tavares-o-idiota/): Os irmãos com saúde,os meus pais vivos,um pouco deprimidos, mas lúcidos e vivos.Uma mulher que me espera à porta, e sorri,um bebê com um ano e meio, uma rapariga, vem aí outra;quando regresso a minha mulher recebe-me a sorrir com uma barriga grande. Um café, outro,o caderno preto à minha frente, o tempo,nada para fazer a não ser […]
- [T. E. Hulme - Outono](https://singularidadepoetica.art/2020/02/09/t-e-hulme-outono/): Um fio de frio na noite outonal —Fui para o quintalE vi a lua rubra inclinar-se sobre o folharalComo um rancheiro de rosto rosado.Não parei para falar, mas dei aval,E ao redor estavam as tristes estrelasCom pálidas faces como crianças da cidade. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e […]
- [Charles Simic - O dicionário](https://singularidadepoetica.art/2020/02/08/charles-simic-o-dicionario/): Talvez haja uma palavra em algum lugarpara descrever o mundo nesta manhã,uma palavra para o jeito como a primeira luzse deleita em perseguir as sombraspelas vitrines e entradas das lojas. Outra palavra para o modo como ela se detémsobre um par de óculos de aros finosque alguém deixou cair na calçadana noite passada e cambaleou […]
- [Lope de Vega - Desmaiar, ousar, ficar furioso](https://singularidadepoetica.art/2020/02/07/lope-de-vega-desmaiar-ousar-ficar-furioso/): Desmaiar, ousar, ficar furioso,áspero, terno, generoso, esquivo,entretido, mortal, defunto, vivo,leal, falso, covarde e corajoso; não achar, para além, paz e repouso,mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,irritado, valente, fugitivo,satisfeito, ofendido, receoso; furtar o rosto ao claro desengano,sorver veneno por licor suave,esquecer o proveito, amar o dano; crer que um céu em um inferno cabe,dar a vida e […]
- [Juan Vicente Piqueras - História universal](https://singularidadepoetica.art/2020/02/06/juan-vicente-piqueras-historia-universal/): Um homem nasce chora cresce risofre e faz sofrer caminha cantatem sede fome frio medose perde extravasa arde sorri. Um homem sozinho no meio da noiteassobia para domar as bestas que o habitam. Abraça empurra mata beija morrese cansa de si mesmo se apaixonase entrega à vida sabe que se findaque o que é escoa […]
- [Hugo Mujica – Há escassos dias](https://singularidadepoetica.art/2020/02/05/hugo-mujica-ha-escassos-dias/): Há escassos dias morreu meu pai,há muito tempo atrás. Caiu suavemente,como as pálpebras ao chegara noite, ou uma folhaque o vento não arranca, embala. Hoje não é como outras chuvas,hoje chove pela primeira vezsobre o mármore de sua lápide. Sob cada chuvapoderia ser eu quem jaz, agora eu sei,agora que morri em outro. Trad.: Nelson […]
- [Joan Margarit - A aventura](https://singularidadepoetica.art/2020/02/04/joan-margarit-a-aventura/): Quando me ausento por um momento, ao finalizaruma inspeção de obra em algum bairro estranhoe entro para tomar café em um pequeno baronde não me conhecem, penso que soualguém que parte para não mais voltar.Quando me refugio no vaziode um entreato e procuro a escadaque leva aos banheiros,sinto que ali poderia começar minha ausência.Instantes que […]
- [Ernesto Pérez Vallejo – A garota de preto](https://singularidadepoetica.art/2020/02/03/ernesto-perez-vallejo-a-garota-de-preto/): Hoje eu podia ter-me apaixonado por ti, apesar de tuas botas sem salto, podia até ter-te beijado assim, com o mar ao fundo, os beijos aos domingos têm um sabor distinto, mais intenso. Podia ter-te levado pelas mãos até a praia e ter-te despido docemente enquanto me ajoelhava na terra e perfumava o meu nariz. […]
- [Wislawa Szymborska - Metafísica](https://singularidadepoetica.art/2020/02/02/wislawa-szymborska-metafisica/): Foi-se, acabou-se. Foi-se, então acabou-se. Numa sequência sempre irreversível, pois essa é a regra desse jogo perdido. Conclusão banal, que já não vale escrever, não fosse um fato incontestável, um fato pelos séculos dos séculos, por todo o cosmos, como é e será, de que algo realmente foi, até que se acabou, menos isso de […]
- [Jenny Joseph - Advertência](https://singularidadepoetica.art/2020/02/01/jenny-joseph-advertencia/): Quando estiver velha, usarei roxoCom um chapéu vermelho que não combina e que não me cai bem.E torrarei minha aposentadoria em conhaques e luvas de verãoe sandálias de cetim, e direi que não temos dinheiro para manteiga.Sentarei na calçada quando me cansarE provarei amostras nas lojas e tocarei as campainhasE correrei minha bengala pelas grades […]
- [Hugo Vera Miranda – Os cavaleiros do apocalipse](https://singularidadepoetica.art/2020/01/31/hugo-vera-miranda-os-cavaleiros-do-apocalipse/): Como defender-se dos furtivos invernos que aninham as moradas obscuras do desejo? Como voltar por um instante ao tempo feroz da infância onde um velho com cara de sapo solta pombas enquanto o trem passa? Como decifrar a carícia longínqua que agora atormenta a insônia? Vamos ficando sozinhos, cercados por demônios dançarinos e um tiro […]
- [Joan Margarit - Noite escura na rua Balmes](https://singularidadepoetica.art/2020/01/30/joan-margarit-noite-escura-na-rua-balmes/): Cumpridas as ameaças e temores — hoje já todas as ruas levam à velhice —, passo defronte à clínica em que tu nasceste, vinte e seis anos atrás, em uma noite de corredores feridos pela luz. Aqui foi a tua chegada, pequena e indefesa, à praia feliz do teu sorriso, à dificuldade da palavra, às […]
- [Marianne Moore - Uma água-viva](https://singularidadepoetica.art/2020/01/29/marianne-moore-uma-agua-viva/): Visível, invisível, uma flutuante sedução que uma ametista cor de âmbar habita, se aproximam seus tentáculos, abrem e fecham; você pretendia pega-los e eles tremem; você abandona este intento. Trad.: Nelson Santander A Jelly-Fish Visible, invisible, a fluctuating charm an amber-tinctured amethyst inhabits it, your arm approaches and it opens and it closes; you had […]
- [Antonia Pozzi - Erros](https://singularidadepoetica.art/2020/01/28/antonia-pozzi-erros/): Cai graciosamente a neve sobre os cestos das floristas: embranquece os junquilhos e as violetas, as delicadas frésias vindas dos países do sol. Ao vê-las pensamos nos muitos destinos errados que sofrem pelos caminhos da terra e um furor nostálgico investe pelos caminhos de ouro da alma aonde não chega a neve. Trad.: Inês Dias […]
- [Rodrigo da Silva - Chegará um dia em que o seu coração parará de bater](https://singularidadepoetica.art/2020/01/27/rodrigo-da-silva-chegara-um-dia-em-que-o-seu-coracao-parara-de-bater/): Chegará um dia em que o seu coração parará de bater. A sua pupila dilatará. A sua pele ficará pálida e a sua temperatura corporal esfriará. Você ficará inteiramente esquálido; e então roxo. O seu sangue se tornará mais ácido com o acúmulo de dióxido de carbono. E as suas células começarão a se dividir, […]
- [Eloy Sánchez Rosillo – O segredo](https://singularidadepoetica.art/2020/01/26/eloy-sanchez-rosillo-o-segredo/): Se por acaso a alegria se assuste e se apresse em me deixar, eu a escondo das pessoas e não digo a ninguém que veio à minha casa depois de muito tempo. Falo com ela, e com frequência vê-la de novo tão próxima me faz chorar, e rio. Depois a deixo sozinha e vou para […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Naquele agora](https://singularidadepoetica.art/2020/01/25/jorge-valdes-diaz-velez-naquele-agora/): As chances de encontrar-te novamente eram remotas. Uma em um bilhão. E havendo infinitos lugares dispersos pelos números de um cálculo improvável, quem imaginaria que eu te veria naquela cantina, transformando-te na luz daqueles tempos felizes, ou isso quiseram crer, anos atrás, aqueles dois que fomos. Estavas ali, de repente e sem aviso prévio, com […]
- [Wislawa Szymborska - Terroristas](https://singularidadepoetica.art/2020/01/24/wislawa-szymborska-terroristas/): Dias inteiros eles ficam pensando como matar, para matar, e quantos matar para matar muitos. Fora isso comem com apetite, rezam, lavam os pés, alimentam os pássaros, dão telefonemas coçando o sovaco, estancam o sangue quando machucam o dedo, se são mulheres, compram absorventes, sombra para as pálpebras, flores para os vasos, todos gracejam um […]
- [Ivan Junqueira – Vésperas](https://singularidadepoetica.art/2020/01/23/ivan-junqueira-vesperas/): A tarde descortina uma paisagem híspida: no galho seco, o ninho é uma inútil relíquia que a luz do sol calcina até a estrita cinza. Gota a gota, o alambique das horas se esvazia, e dilui-se a vertigem do álcool que lhe mordia as veias retorcidas. Êxtase da agonia no crepúsculo a pino. Sob o […]
- [Rui Caeiro - Espero um dia](https://singularidadepoetica.art/2020/01/22/rui-caeiro-espero-um-dia/): Espero um dia ter de esperar-te, com a ansiedade dos que perderam tudo ou quase, menos talvez a memória E espero humildemente vir a merece-te, cometer um ato heroico e merecer-te, ser outra e a mesma pessoa – e merecer-te Espero estar bem triste para quando enfim chegares poder dar-te o mais autêntico: a memória, […]
- [Geruza Zelnys - descomedimentos](https://singularidadepoetica.art/2020/01/21/geruza-zelnys-descomedimentos/): que venha abaixo tudo que venha abaixo o que é tempestade e destruição que não sobre embarcação e vela que os raios queimem plantações e trovões arrebentem toda a terra e teu corpo se deite sobre o meu e tua boca mate toda fome minha e que versos & palavras do amor sejam ditos bem […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Só o silêncio salva](https://singularidadepoetica.art/2020/01/20/luis-alberto-de-cuenca-so-o-silencio-salva/): Só o silêncio salva, companheiro. Só o silêncio salva. Se tiveste uma noite gloriosa em que Afrodite sorriu para ti e Baco encheu-te a taça sem cessar, pensa que em breve, quando e noite se for, teus amigos voltarem para casa e começar a amanhecer, só o silêncio te salvará, rapaz. Tem isso em conta. […]
- [Arnaldo Antunes, Fernando Laszlo e Walter Silveira - Fome de Sede](https://singularidadepoetica.art/2020/01/19/arnaldo-antunes-fernando-laszlo-e-walter-silveira-fome-de-sede/)
- [Antonia Pozzi - Morte de uma estação](https://singularidadepoetica.art/2020/01/18/antonia-pozzi-morte-de-uma-estacao-2/): Choveu toda a noite sobre as memórias do verão. Ao anoitecer saímos no meio de um ribombar lúgubre de pedras e, parados na margem, levantamos as lanternas para explorar o perigo das pontes. Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas ensopadas e pousadas sobre os fios à espreita de indícios secretos de partida – e refletiam-nas […]
- [Dan Fante - [Eu conheci o mais faminto]](https://singularidadepoetica.art/2020/01/17/dan-fante-eu-conheci-o-mais-faminto/): Eu conheci o mais faminto e desprezível dos gatos enquanto sentava com um livro e meio maço de cigarros num banco em Venice Beach Ele me viu e apareceu branco sujo com um olho verde e outro amarelo e um corte recente em sua orelha desfigurada Furioso como um lobo ferido ele estabeleceu uma distância […]
- [Dylan Thomas - Colina de samambaias](https://singularidadepoetica.art/2020/01/16/dylan-thomas-colina-de-samambaias/): Quando, junto à casa em festa, sob os ramos da macieira, Eu era lépido e jovem, e feliz como era verde a relva, A noite suspensa sobre as estrelas do desfiladeiro, O tempo a permitir que eu gritasse e me erguesse, Dourado, no fulgurante apogeu de seus olhos, Eu, venerado entre as carroças, era o […]
- [Wislawa Szymborska - Vida difícil com a memória](https://singularidadepoetica.art/2020/01/15/wislawa-szymborska-vida-dificil-com-a-memoria/): Sou um péssimo público para a minha memória.Ela quer que eu ouça sua voz incessantemente,mas eu me agito, tusso,ouço e não ouço,saio, volto e saio de novo. Ela requer todo o meu tempo e atenção.Quando durmo, é fácil para ela.De dia já nem tanto, o que a magoa. Me propõe zelosamente velhas cartas, fotos,revolve fatos […]
- [A Íris Selvagem, de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2020/01/14/a-iris-selvagem-sumario/): Há livros que não se deixam atravessar como uma sequência de poemas isolados. A Íris Selvagem, de Louise Glück, é um deles. O livro se passa num jardim, mas esse jardim não é cenário. É um lugar de vozes. Flores falam. Uma consciência humana pergunta, insiste, se cansa. Uma presença divina responde, se afasta, corrige, […]
- [Louise Glück - Os lírios brancos](https://singularidadepoetica.art/2020/01/14/louise-gluck-os-lirios-brancos/): Como um homem e uma mulher fazemde um jardim entre elesum leito de estrelas, aquieles permanecem na noite de verãoe a noite se tornafria com seu pavor: tudopode acabar, tudo é capazde devastação. Tudo, tudose pode perder, pelo ar perfumadodas colunas estreitasse elevando inutilmente, e mais além,um agitado mar de papoulas — Silêncio, amada. Não […]
- [Louise Glück - O lírio dourado](https://singularidadepoetica.art/2020/01/13/louise-gluck-o-lirio-dourado/): Como percebo,estou morrendo agora e seique não falarei novamente,não sobreviverei à terra, serei convocadodela uma vez mais, ainda nãouma flor, apenas uma espinha, terra cruaaderindo às minhas costelas, eu o invoco,pai e mestre: ao redor,meus companheiras estão fraquejando, pensandoque você não os vê. Comoeles poderão saber que você os enxergaa menos que os salve?No crepúsculo […]
- [Louise Glück - Crepúsculo de Setembro](https://singularidadepoetica.art/2020/01/12/louise-gluck-setembro-crepuscular/): Eu os reuni,eu posso dispensa-los — Estou farto de vocês, do caosdo mundo dos vivos —Eu só posso me estenderpor tanto tempo a algo vivo. Convoquei-os à existênciaao abrir minha boca, ao erguermeu dedo mínimo, cintilando azuis deaster selvagem, florde lírio, imensa,com veias douradas — Vocês vêm e vão; eventualmenteesqueço seus nomes.Vocês vêm e vão, […]
- [Louise Glück - O lírio prateado](https://singularidadepoetica.art/2020/01/11/louise-gluck-o-lirio-prateado/): As noites esfriaram novamente, como as noitesdo início da primavera, e estão silenciosas outra vez. Incomoda-oconversarmos? Estamossozinhos agora; não há razão para o silêncio. Você pode ver, sobre o jardim — a lua cheia nasce.Eu não verei a próxima lua cheia. Na primavera, quando a lua surgia, significavaque o tempo era infindo. Campainhas-brancasabriam e fechavam, […]
- [Louise Glück - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2020/01/05/louise-gluck-acalanto/): Hora de descansar agora; vocêjá teve emoção suficiente por ora. Crepúsculo, depois início da noite. Vaga-lumesno quarto, cintilando aqui e ali, aqui e ali,e a profunda doçura do verão inundando através da janela aberta. Não pense mais nessas coisas.Escute minha respiração, sua própria respiraçãocomo os vaga-lumes, cada pequena respiraçãouma centelha na qual o mundo se […]
- [Louise Glück - Ocaso](https://singularidadepoetica.art/2020/01/04/louise-gluck-crepusculo/): Minha maior alegriaé o som que sua voz produzme chamando mesmo no desespero; meu desgostoé não poder responderem uma fala que você reconheça como minha. Você não tem fé em sua própria linguagem.Por isso investea reputação em sinaisque não consegue ler com precisão. E ainda assim sua voz sempre me alcança.E eu respondo incessantemente,minha raiva […]
- [Louise Glück - Vésperas (10)](https://singularidadepoetica.art/2020/01/03/louise-gluck-vesperas-10/): Fim de agosto. Calorcomo em uma estufa sobre ahorta do John. E algumas coisastêm a coragem de começar,cachos de tomates, talhõesde lírios tardios – otimismodas grandes hastes – ouroe prata imperiais: mas por queiniciar algotão perto do fim?Tomates que nunca amadurecerão, líriosque o inverno matará, que nãoretornarão na primavera. Ouvocê acha queeu passo tempo demaispensando […]
- [Rebecca Elson – Antídotos para o medo da morte](https://singularidadepoetica.art/2020/01/03/rebecca-elson-antidotos-para-o-medo-da-morte-poema/): Às vezes, como um antídotoPara o medo da morte,Eu como as estrelas. Nessas noites, deitada de costas,Eu as sorvo da escuridão que se dissipaAté que estejam todas, todas elas dentro de mim,Fortes e picantes. Às vezes, ao invés disso, eu me entregoA um universo ainda jovem,Ainda quente como o sangue: Nenhum espaço sideral, apenas o […]
- [Louise Glück - Vésperas (9)](https://singularidadepoetica.art/2020/01/02/louise-gluck-vesperas-9/): Sua voz se foi agora; mal consigo ouvi-la.Sua voz estrelada é apenas sombra agorae a terra está escura novamentecom suas grandes transformações. E de dia a grama fica parda em alguns pontossob as amplas sombras dos carvalhos.Agora, por toda parte, sou assunto para o silêncio, então está claro que não tenho acesso a você;Não existo […]
- [Louise Glück - Vésperas: Parousia](https://singularidadepoetica.art/2020/01/01/louise-gluck-vesperas-parousia/): Amor da minha vida, vocêEstá perdido e eu souJovem novamente. Alguns anos se passaram.O ar se encheCom música de meninas;No jardim da frenteA macieiraSe cobre de flores. Eu tento reconquista-lo.É esse o propósitoDa escrita.Mas você se foi para sempre.Como nos romances russos, dizendoAlgumas palavras das quais não me lembro – Quão exuberante é o mundo,Quão […]
- [Louise Glück - Vésperas (7)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/31/louise-gluck-vesperas-7/): Eu sei o que você planejou, o que pretendia ao me ensinara amar o mundo, tornando impossívelvirar completamente as costas, excluí-lo completamente para sempre –está por toda parte; quando fecho os olhos,no canto dos pássaros, no aroma de lilases no início da primavera, no aroma de rosas no verão:você quer arrancar de mim cada flor, […]
- [Louise Glück - Luz em retirada](https://singularidadepoetica.art/2019/12/30/louise-gluck-luz-em-retirada/): Vocês eram como crianças pequenas,sempre esperando por uma história.E eu já havia passado por tudo aquilo muitas vezes;eu estava cansado de contar histórias.Então eu lhes dei papel e lápis.Eu lhes dei canetas feitas de juncos queeu mesmo havia reunido, à tarde, nos densos prados.E lhes disse: escrevam sua própria história. Depois de todos estes anos […]
- [Louise Glück - Presque Isle](https://singularidadepoetica.art/2019/12/29/louise-gluck-presque-isle/): Em cada vida, há um momento ou dois.Em cada vida, um quarto em algum lugar, à beira-mar ou nas montanhas. Sobre a mesa, um prato de damascos. Caroços em um cinzeiro branco. Como todas as imagens, essas foram as condições de um pacto:em seu rosto, o tremor da luz do sol,meu dedo pressionando seus lábios.As […]
- [Louise Glück - Ipomoea](https://singularidadepoetica.art/2019/12/28/louise-gluck-ipomoea/): Qual foi o meu crime em outra vida,como nesta vida meu crimeé a dor, de modo que não me épermitido ascender novamente,nunca em nenhum sentidome é permitido repetir minha vida,ferida no espinheiro, todabeleza terrena um castigotão meu quanto seu —Fonte do meu sofrimento, por quevocê tirou de mimestas flores celestes, salvopara me marcar como partedo […]
- [Louise Glück - A rosa branca](https://singularidadepoetica.art/2019/12/27/louise-gluck-a-rosa-branca/): É esta a terra? Entãoeu não pertenço a este lugar. Quem é você na janela acesa,sombreado agora pelas folhas trêmulasde uma viburnum lantana1?Você pode sobreviver onde eu não durareialém do primeiro verão? Ao longo da noite, os ramos finos da árvoremovem-se e farfalham na janela iluminada.Explique minha vida para mim, você que não faz sinal […]
- [Louise Glück - Colheita](https://singularidadepoetica.art/2019/12/26/louise-gluck-safra/): Entristece-me pensar em vocês no passado — Olhe para vocês, agarrando-se cegamente à terracomo se fossem os vinhedos do paraísoenquanto os campos ardem ao redor — Ah, pequeninos, como são pouco sutis:isso é ao mesmo tempo o dom e o tormento. Se o que temem na morteé uma punição além disso, não precisamtemer a morte: […]
- [Louise Glück - Escuridão Inicial](https://singularidadepoetica.art/2019/12/25/louise-gluck-trevas-primitivas/): Como podem afirmarque a terra deveria me dar alegria? Cada coisanascida é meu fardo; não posso prosperarcom todos vocês. E vocês gostariam de ditar para mim,gostariam de me dizerquem entre vocês é mais valioso,quem mais se assemelha a mim.E apresentam como exemploa vida pura, o desapegoque lutam para alcançar — Como vocês podem me entenderquando […]
- [Louise Glück - Vésperas (6)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/24/louise-gluck-vesperas-6/): Você pensou que nós não soubéssemos. Mas nós sabíamos,as crianças sabem dessas coisas. Não vire as costas agora – nós habitávamosuma mentira para apaziguá-lo. Eu me lembroda luz do sol do início da primavera, os taludesreticulados por vincas roxas. Eu me lembrode me deitar em um campo, roçando o corpo de meu irmão.Não vire as costas […]
- [Louise Glück - Vésperas (5)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/23/louise-gluck-vesperas-5/): Assim como você apareceu para Moisés, porqueeu necessito de você, você aparece para mim,raramente, porém. Eu vivo essencialmentenas trevas. Você talvez esteja me treinando para sermais responsiva ao menor clarão. Ou, como os poetas,será que o desespero o estimula, o sofrimentoo leva a revelar sua natureza? Esta tarde,no mundo material ao qual você normalmentecontribui com […]
- [Louise Glück - Vésperas (4)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/22/louise-gluck-vesperas-4/): Eu não me pergunto mais onde você está.Você está no jardim; você está onde John está,na terra, absorto, segurando sua pequena pá verde.É assim que ele jardina: quinze minutos de intenso esforço,quinze minutos de estática contemplação. Às vezes,trabalho ao lado dele, fazendo as tarefas à sombra,capinando, esfolhando as alfaces; às vezes, o observodo alpendre próximo […]
- [Louise Glück - Fim de verão](https://singularidadepoetica.art/2019/12/21/louise-gluck-fim-de-verao/): Depois de tudo o que me ocorreu,o vazio me ocorreu. Há um limitepara o prazer que tive na forma — Eu não sou como vocês nisso,Não tenho liberdade em outro corpo, Não precisode abrigo fora de mim — Minha pobre inspiradacriação, vocês sãodistrações, enfim,meras limitações; no final,vocês são muito pouco parecidas comigopara me agradar. E […]
- [Louise Glück - Margaridas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/20/louise-gluck-margaridas/): Vá em frente: diga o que está pensando. O jardimnão é o mundo real. As máquinassão o mundo real. Diga francamente o que qualquer tolo podeler em seu rosto: faz todo sentidoevitar-nos, resistirà nostalgia. Não ésuficientemente moderno, o som que o vento produzagitando um campo de margaridas: a mentenão pode brilhar ao segui-lo. E a […]
- [Louise Glück - Vésperas (3)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/19/louise-gluck-vesperas-3/): Para além de mim, muito provavelmentevocê ama ainda mais as criaturas do campo; talvez, até o próprio campo, pontilhado em agostode chicórias-bravas e ásteres.Eu sei. Eu me compareia essas flores, com seu leque de sentimentostão menores e sem problemas; assim como à ovelha branca,na verdade, cinzenta: eu sou particularmenteapta a louva-lo. Então por quevocê me […]
- [Louise Glück - Vésperas (2)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/18/louise-gluck-vesperas-2/): Em sua prolongada ausência, você me permiteusar a terra, antecipandoalgum retorno sobre o investimento. Devo reportarque falhei em minha missão, principalmenteem relação à plantação de tomates.Acho que não devo ser encorajada a cultivartomates. Ou, se o for, você você deveria reteras fortes chuvas, as gélidas noites que sãotão comuns por aqui, enquanto outras regiões desfrutamde […]
- [Louise Glück – Vésperas (1)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/17/louise-gluck-vesperas-1/): Uma vez acreditei em você; plantei uma figueira.Aqui, em Vermont, uma terraque desconhece o verão. Era um teste: se a árvore sobrevivesse,isso provaria que você existe. Segundo essa lógica, você não existe. Ou existeexclusivamente em climas mais quentes,na fervorosa Sicília, no México e na Califórnia,onde crescem o inimagináveldamasco e o vulnerável pêssego. Talvezvejam sua face […]
- [Louise Glück - Solstício de verão](https://singularidadepoetica.art/2019/12/16/louise-gluck-solsticio-de-verao/): Como posso ajuda-los quando todos desejamcoisas distintas — luz do sol e sombra,tempo seco e umidade sombria — Ouçam a si próprios, competindo uns com os outros — E se perguntampor que desespero por vocês,achando que algo pode fundi-los em um todo — o ar imóvel do auge do verãoentrelaçado com mil vozes cada qual […]
- [Louise Glück - A porta de entrada](https://singularidadepoetica.art/2019/12/15/louise-gluck-a-entrada/): Eu queria permanecer como eu era,imóvel como o mundo raramente fica,não no solstício de verão, mas no momento anteriorà flor fundamental se formar, o momentoem que nada ainda é passado — não o solstício de verão, intoxicante,mas a tardia primavera, a grama ainda nãoalta nos limites do jardim, as primeiras tulipascomeçando a desabrochar — como […]
- [Louise Glück - Céu e terra](https://singularidadepoetica.art/2019/12/14/louise-gluck-ceu-e-terra/): Onde um acaba, a outra começa.No alto, uma faixa de azul; abaixo,uma faixa de verde e dourado, verde e rosa profundo. John está no horizonte: ele querambos ao mesmo tempo, ele quertudo de uma vez. Os extremos são fáceis. Apenaso meio é um enigma. Meio do verão —tudo é possível. Significado: a vida nunca mais […]
- [Louise Glück - Matinas (7)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/13/louise-gluck-matinas-7/): Não apenas o sol mas a própriaterra brilha, fogo brancoirrompendo das imponentes montanhase da estrada planatremeluzindo nas primeiras horas da manhã: será issoapenas para nós, para provocar umaresposta, ou você tambémfica mexido, incapazde se conterna presença da terra? Sinto vergonhado que eu pensava que você fosse,distante de nós, nos observandocomo um experimento: éamargo sero animal […]
- [Louise Glück - Trevo](https://singularidadepoetica.art/2019/12/12/louise-gluck-trevo/): O que está dispersoentre nós, que você chamade sinal de bem-aventurança,embora seja, como nós,uma erva daninha, uma coisapara ser extirpada — qual lógicao faz reterum único brotode algo que desejamorto? Se há alguma presença entre nóstão poderosa, não deveria elase multiplicar, a serviçodo adorado jardim? Você mesmo deveriaestar fazendo essas perguntas,não deixando-aspara suas vítimas. Você […]
- [Louise Glück - A papoula vermelha](https://singularidadepoetica.art/2019/12/11/louise-gluck-a-papoula-vermelha/): O melhor de tudoé não teruma mente. Sentimentos:oh, eu os tenho; elesme governam. Tenhoum senhor no céuchamado sol, e me abroa ele, mostrando-lheo fogo do meu próprio coração, ardentecomo a sua presença.O que poderia ser tal glóriase não um coração? Oh meus irmãos e irmãs,vocês já foram como eu, tempos atrás,antes de se tornarem humanos?Já […]
- [Louise Glück - Campo de flores](https://singularidadepoetica.art/2019/12/10/louise-gluck-campo-de-flores/): O que você está dizendo? Que desejavida eterna? Seus pensamentos realmentesão tão convincentes assim? Certamentevocê não nos vê, não nos ouve,mancha de solem sua pele, póde ranúnculos amarelos: estoufalando com você, aí, olhando fixamenteatravés das barras de grama alta que agitamseus pequenos chocalhos — Óalma! a alma! É suficienteapenas olhar para dentro? O desprezopela humanidade […]
- [Louise Glück - Canção](https://singularidadepoetica.art/2019/12/09/louise-gluck-cancao/): Como um coração blindado,o botão vermelho-vivoda rosa silvestre começaa desabrochar no ramo mais baixo,sustentado pela malhareticulada de um arbusto robusto:ela floresce contra a escuridão,que é o cenário constante do coração, enquanto as floresmais acima murcham ou apodrecem;sobreviverà adversidade apenasacentua sua cor. Mas Johnobjeta, ele acredita quese isto não fosse um poema, massim um jardim de […]
- [Louise Glück - Matinas (6)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/08/louise-gluck-matinas-6/): O que é o meu coração para vocêque precisa parti-lo repetidas vezescomo um jardineiro testandosua nova espécie? Pratiqueem algo diferente: como posso viverem colônias, como você prefere, se impõeuma quarentena de aflição, apartando-mede membros saudáveis deminha própria tribo? Você não faz issono jardim, não segregaa rosa doente; permite que ela balance suas sociáveisfolhas infestadas nosrostos […]
- [Louise Glück - Matinas (5)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/07/louise-gluck-matinas-5/): Quer saber como passo o meu tempo?Eu caminho pelo jardim, fingindoque estou capinando. Deve saberque nunca estou capinando, de joelhos, extirpandotufos de trevos dos canteiros de flores: na verdade,estou em busca de coragem, de alguma evidênciade que minha vida irá mudar, ainda queisso leve uma eternidade, verificandocada touceira em busca da folhasimbólica, e logo o […]
- [Louise Glück - A Escada de Jacó](https://singularidadepoetica.art/2019/12/06/louise-gluck-a-escada-de-jaco/): Preso à terra,você também não gostaria dealcançar o céu? Eu habitoo jardim de uma senhora. Perdoe-me senhora;o anseio roubou minha graça. Não souo que você esperava. Mascomo homens e mulheres parecemdesejar uns aos outros, também desejoconhecer o paraíso — e agorasua dor, uma haste nuaalcançando a vidraça da varanda.E no final, o quê? Uma pequena […]
- [Louise Glück - Capim-das-bruxas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/05/louise-gluck-witchgrass/): Algoindesejado chega ao mundoclamando desordem, desordem — Se você me odeia tantonão se dê ao trabalho de me darum nome: você precisade mais um insultoem sua língua, outramaneira de culparuma tribo por tudo — pois ambos sabemos,se você cultuaum deus, só precisade um inimigo — Eu não sou o inimigo.Apenas um pretexto para ignoraro que […]
- [Louise Glück - Violetas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/04/louise-gluck-violetas/): Porque em nosso mundosempre há algo oculto,pequeno e branco,pequeno e o que você chama depuro, nós não lamentamoscomo você, caromestre sofredor; vocênão está mais perdidodo que nós, sobo espinheiro, o espinheiro segurandobandejas equilibradas de pérolas: o queo trouxe até nóspara que possamos ensina-lo, sevocê se ajoelhar e chorar,apertando suas grandes mãos,em toda sua grandeza, sem […]
- [Louise Glück - Abril](https://singularidadepoetica.art/2019/12/03/louise-gluck-abril/): O desespero de mais ninguém é como o meu desespero — Vocês não têm lugar neste jardimpensando em tais coisas, emitindocansativos sinais exteriores; o homemdesmatando intencionalmente uma floresta inteira,a mulher mancando e se recusando a trocar de roupasou lavar os cabelos. Acham que eu me importose vocês conversarem um com o outro?Mas quero que saibamque […]
- [Louise Glück - Amor ao luar](https://singularidadepoetica.art/2019/12/02/louise-gluck-amor-ao-luar/): Às vezes, um homem ou uma mulher impõe seu desesperoa outra pessoa, o que é chamado deabrir o coração, ou alternativamente, desnudar a alma —o que significa que, neste momento, eles adquiriram almas —lá fora, em uma noite de verão, um mundo inteiroderramado sobre a lua: grupos de formas prateadasque podem ser edifícios ou árvores, […]
- [Louise Glück - O espinheiro](https://singularidadepoetica.art/2019/12/01/louise-gluck-o-espinheiro/): Lado a lado, não demãos dadas: eu os observocaminhando no jardim de verão — coisasque não podem se moveraprendem a ver; não é necessáriopersegui-los pelojardim; seres humanos deixamsinais de sentimentospor toda parte, floresespalhadas no caminho de terra, todasbrancas e douradas, algumaslevemente erguidas pelosventos da tarde; não é necessáriosegui-los até onde vocês estão agora,nas profundezas do […]
- [Louise Glück - O jardim](https://singularidadepoetica.art/2019/11/30/louise-gluck-o-jardim/): Eu não poderia fazê-lo de novo,Mal posso olhar para isso — no jardim, sob a chuva leve,o jovem casal plantauma fieira de ervilhas,como se ninguém jamais o tivesse feito antes,as grandes dificuldades ainda nãoforam enfrentadas e resolvidas — Eles não conseguem se ver,na terra fresca, começandosem perspectiva,as colinas verde-claras atrás deles, encobertas pelas flores — […]
- [Louise Glück - Vento em retirada](https://singularidadepoetica.art/2019/11/29/louise-gluck-vento-em-retirada/): Quando os criei, eu os amava.Agora sinto pena de vocês. Dei-lhes tudo o que precisavam:leito de terra, manto de ar azul — À medida que me afasto de vocês,vejo-os com mais clareza.Suas almas deveriam ser vastas agora,não o que são,pequenas criaturas tagarelas — Dei a vocês todas as dádivas,o azul das manhãs de primavera,o tempo […]
- [Louise Glück - Scilla](https://singularidadepoetica.art/2019/11/28/louise-gluck-scilla/): Não eu, seu tolo, não eu-mesma, mas nós, nós – ondasde céu azul comouma crítica do firmamento: por quevocês valorizam tanto suas vozesquando ser algoé ser quase nada?Por que olham para cima? Para ouvirum eco como a vozde deus? Vocês são todos iguais para nós,solitários, pairando acima de nós, planejandosuas vidas tolas: vocês vãoonde são […]
- [Louise Glück - Matinas (4)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/27/louise-gluck-matinas-4/): Percebo que com você é como com as bétulas:não posso lhe falarde maneira pessoal. Muitose passou entre nós. Ousempre foi apenas de um lado? Euerrei, eu errei, eu lhe pedipara ser humano – não sou mais carentedo que as outras pessoas. Mas a ausênciade todo sentimento, da menorpreocupação por mim – poderia muito bem continuardirigindo-me […]
- [Louise Glück - Matinas (3)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/26/louise-gluck-matinas-3/): Perdoe-me se eu disser que o amo: os poderosossempre são enganados, já que os fracos são sempreguiados pelo pânico. Não posso amaro que não consigo conceber, e você revelapraticamente nada: é como o espinheiro,sempre a mesma coisa no mesmo lugar,ou está mais para a dedaleira, inconstante, brotando primeiroum espigão rosa na encosta atrás das margaridas,e […]
- [Louise Glück - Fim de inverno](https://singularidadepoetica.art/2019/11/25/louise-gluck-fim-de-inverno/): Sobre o mundo ainda, um pássaro cantadespertando solitário entre ramos escuros. Vocês desejaram nascer; eu permiti que nascessem.Quando minha dor alguma vezinterferiu em seu prazer? Mergulhandona escuridão e na luz ao mesmo tempo,sedentos por sensações como se fossem algo novo, querendose expressar com todo brilho, toda vivacidade nunca imaginandoque isso lhes custaria algo,nunca concebendo o […]
- [Louise Glück - Neve de primavera](https://singularidadepoetica.art/2019/11/24/louise-gluck-neve-de-primavera/): Olhe para o céu noturno:tenho dois eus, duas formas de poder. Estou aqui com você, à janela,observando sua reação. Ontema lua se ergueu sobre a terra úmida no jardim de baixo.Agora a terra reluz como a lua,como matéria morta crivada de luz. Você pode fechar os olhos agora.Ouvi seus clamores, e os clamores antes dos […]
- [Louise Glück - Manhã clara](https://singularidadepoetica.art/2019/11/23/louise-gluck-manha-clara/): Eu já os observei por tempo suficiente,posso me dirigir a vocês do jeito que eu quiser — Tenho me submetido às suas preferências, observando pacientementeas coisa que vocês amam, comunicando-me apenas através de veículos, emdetalhes da terra, como preferem, gavinhasde clematis azul, luz de fim de tarde —vocês jamais aceitariam uma voz como a minha, […]
- [Louise Glück - Flores-de-neve](https://singularidadepoetica.art/2019/11/22/louise-gluck-snowdrops/): Você sabe o que eu era, como eu vivia? Você sabeo que é o desespero? Entãoo inverno deve ter um significado para você. Eu não esperava sobreviver,a terra me sufocando. Não esperavadespertar outra vez, sentirna terra úmida meu corpocapaz de responder outra vez, lembrandoapós tanto tempo como brotar outra vezna luz friada primavera mais precoce […]
- [Louise Glück - Lamium](https://singularidadepoetica.art/2019/11/21/louise-gluck-lamium/): Assim se vive quando se tem um coração frio.Como eu: nas sombras, arrastando-se sobre a rocha fria,sob os grandes carvalhos. O sol mal me toca.Às vezes o avisto no início da primavera, surgindo muito distante.Então as folhas crescem sobre ele, ocultando-o completamente. Eu o sintobrilhando por entre aas folhas, errático,como alguém batendo na lateral de […]
- [Francisco Brines - Ardemos na floresta](https://singularidadepoetica.art/2020/11/15/francisco-brines-ardemos-na-floresta-poema/): Mas como conhecer, sem o olhar,a beleza da floresta, a grandeza do mar? A floresta estava atrás de mim; meus ouvidosa conheciam: o farfalhar de suas folhas,a confusão do canto de seus pássaros.Sons que vinham de um remoto lugar.E o mar do outro lado, golpeandosua fronte, sem roça-la,cobrindo-a de gotas. Era minha peleque descobria seu […]
- [Mary Oliver - Nenhuma viagem](https://singularidadepoetica.art/2020/11/13/mary-oliver-nenhuma-viagem-poema/): Eu acordo mais cedo, agora que os pássaros chegaram E cantam nas árvores inabaláveis. Em um catre junto a uma janela aberta Eu me estendo como campo consumido, enquanto desabrocha a primavera. Agora, de todos os viajantes de que me lembro, quem dentre eles Não embarcou com pesar em seus mapas? — Até parece que […]
- [Matthew Arnold - Praia de Dover](https://singularidadepoetica.art/2020/11/11/matthew-arnold-praia-de-dover-poema/): O mar esta noite descansa.A maré está cheia, a lua, maravilhosaSobre os estreitos; a luz na costa da FrançaCintila e se vai; as falésias da Inglaterra se elevam,Cintilantes e vastas, na baía sem agitação.Venha para a janela, doce é a noturna brisa!Apenas, da longa linha de aspersãoOnde o mar e a lua se encontram,Escute! ouça […]
- [Margaret Atwood - Muitíssimo](https://singularidadepoetica.art/2020/11/09/margaret-atwood-muitissimo-poema/): Muitíssimo É uma antiga palavra perdendo o brilho.Eu queria muitíssimo.Eu desejava muitíssimo.Eu o amava muitíssimo. Eu percorro cautelosamente a calçadapor causa dos meus joelhos feridos,com os quais eu me importo menosdo que você possa imaginarjá que há outras coisas, mais importantes –espere e verá – carregando um café pela metadeem um copo de papel com […]
- [Juan Vicente Piqueras - Proposta de epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2020/11/07/juan-vicente-piqueras-proposta-de-epitafio-poema/): "Proposta de epitáfio", um poema de Juan Vicente Piqueras Quando criança, eu era imortal. Adolescente, me rebelei contra o que agora sou. Quando jovem, eu era selvagem. Fiz sofrer e sofri muito mais do que eu queria.
- [Robert Frost - Diretriz](https://singularidadepoetica.art/2020/11/05/robert-frost-diretriz-poema/): Diretriz, um poema de Robert Frost Voltar para isso tudo agora é demais para nós, Voltar para um tempo simplificado pela perda De detalhe, crestado, dissolvido, e fraturado Como uma escultura de mármore de cemitério ao relento
- [Philip Larkin - Um túmulo Arundel](https://singularidadepoetica.art/2020/11/03/philip-larkin-um-tumulo-arundel-poema/): Um túmulo Arundel, um poema de Philip Larkin
- [Philip Roth – [Quando se visita uma sepultura]](https://singularidadepoetica.art/2020/11/02/philip-roth-quando-se-visita-uma-sepultura/): Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério, […]
- [Joan Margarit - Perdidos em um conto](https://singularidadepoetica.art/2020/11/01/joan-margarit-perdidos-em-um-conto-poema/): Perdidos em um conto, um poema de Joan Margarit
- [Javier Salvago - Tesouro divino](https://singularidadepoetica.art/2020/10/30/javier-salvago-tesouro-divino-poema/): A juventude passou.Tudo está bem quando acaba.Não voltaria a ser jovemnem que me pagassem. Começar a andar de novopelo caminho trilhadodos sonhos ilusóriose das verdades vagas? Começar de novocom as velhas batalhase suas velhas feridas?Voltar aos velhos hábitos, à noite, ao inferno,ao gosto pela vidamá? Fazer de tudoo que é comédia um drama? Voltar a […]
- [Ana Martins Marques - [Você se dá conta]](https://singularidadepoetica.art/2020/10/28/ana-martins-marques-voce-se-da-conta-poema/): Leia "[Você se dá conta]", de Ana Martins Marques, um poema fascinante sobre tradução, linguagem, leitura e os tradutores que moldam nossa experiência da literatura.
- [Elizabeth Jennings - Em memória de alguém que desconheço](https://singularidadepoetica.art/2020/10/26/elizabeth-jennings-em-memoria-de-alguem-que-desconheco-poema/): "Em memória de alguém que desconheço", um poema de Elizabeth Jennings
- [Nelson Santander - A elite oitocentista pela ótica de Machado de Assis: a violação da norma como norma](https://singularidadepoetica.art/2020/10/24/nelson-santander-a-elite-oitocentista-pela-otica-de-machado-de-assis-a-violacao-da-norma-como-norma/): O artigo que segue, de minha autoria, foi publicado na obra coletiva “Direito e desenvolvimento: estudos sobre a questão ambiental e a sustentabilidade – Homenagem ao Prof. Márcio Teixeira”, organizada por Caio Henrique Lopes Ramiro e Lis Maria Bonadio Precipito (São Paulo: LiberArs, 2015, 308p.). Fortemente influenciado pela obra “Um mestre na periferia do capitalismo”, […]
- [Nelson Santander - [secos são os homens sem sonhos]](https://singularidadepoetica.art/2020/10/22/nelson-santander-secos-sao-os-homens-sem-sonhos-poema/): "secos são os homens sem sonhos", um poema de Nelson Santander secos são os homens sem sonhos desertos rios de margens estreitas trilham apenas os caminhos que a terra dita
- [Óscar Hahn - Abalo sísmico](https://singularidadepoetica.art/2020/10/20/oscar-hahn-abalo-sismico-poema/): "Abalo Sísmico", um poema de Óscar Hahn Tive uma vez um grande amor que derrubou minha casa trincou minhas pontes e me fez perder o equilíbrio. Depois, vieram as réplicas:
- [Antonio Pérez Morte - Para Berta](https://singularidadepoetica.art/2020/10/18/antonio-perez-morte-para-berta-poema/): "Para Berta", um poema de Antonio Pérez Morte Para restabelecer a infância, uma bola de gude. Para a adolescência um beijo, um verso, uma esperança.
- [Joshua Jennifer Espinoza - Isto é o que faz de nós Mundos](https://singularidadepoetica.art/2020/10/16/joshua-jennifer-espinoza-isto-e-o-que-faz-de-nos-mundos-poema/): Como a luz, masao contrário, nós ondulamos. Dobramos a esquinae fazemos desapareceras colinas. Você rearranja meus pedaços até nãodoer mais. Fim do medo noturnoentranhado na pele. Fim da morte inocente. Meus cabelos perdem seus átomos.Meu corpo brilhano escuro. Planetas são esmagadosno esquecimento,despojados do seu poderde nomear as coisas. Nosso amor ocupa o ar. Nosso amor […]
- [Jane Kenyon - Discutindo com a melancolia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/14/jane-kenyon-discutindo-a-melancolia-poema/): "Discutindo a melancolia", um poema de Jane Kenyon sobre a depressão 1 DO BERÇÁRIO Quando eu nasci, você esperava atrás de uma pilha de lençóis no berçário e, quando ficamos a sós, você se deitou sobre mim, espremendo a bile da desolação em cada poro.
- [Louise Glück - Uma fantasia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/12/louise-gluck-uma-fantasia-poema/): Vou lhe dizer uma coisa: todos os diaspessoas morrem. E isso é só o começo.Todos os dias, nas funerárias, nascem novas viúvas,novos órfãos. Eles se sentam com as mãos cruzadas,tentando decidir sobre esta nova vida. Depois eles estão no cemitério, alguns delespela primeira vez. Eles têm medo de chorar,às vezes de não chorar. Alguém se […]
- [Eugénio de Andrade - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/10/eugenio-de-andrade-elegia-poema/): Às vezes era bom que tu viesses. Falavas de tudo com modos naturais: em ti havia a harmonia dos frutos e dos animais. Maio trouxe cravos como outrora, cravos morenos, como tu dizias, mas cada hora passa e não se demora na tristeza das nossas alegrias. Ainda sabemos cantar, só a nossa voz é que […]
- [Robinson Jeffers - A canção da quietude](https://singularidadepoetica.art/2020/10/08/robinson-jeffers-a-cancao-da-quietude-poema/): Bebe, bebe profundamente da quietude, E às margens do mar-imensidãoEsquece de tua aflição, amiúde, E de todas as misérias que virão.Mais calmo e frio do que a neblina,Que se desdobra e se inclinaSobre o vale escuro, e se rebobina, Aprende a ser. O Passado — foi um sonho ardente, Um […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "The Wild Iris", de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2020/10/08/apresentacao-de-the-wild-iris-de-louise-gluck/): Atualizado em 08/10/2020
- [Ferreira Gullar - Poema sujo](https://singularidadepoetica.art/2020/10/06/ferreira-gullar-poema-sujo/): "Poema sujo", de Ferreira Gullar turvo turvo a turva mão do sopro contra o muro escuro menos menos menos que escuro menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo escuro mais que escuro:
- [Alberto Pucheu - Poema para a catástrofe do nosso tempo](https://singularidadepoetica.art/2020/10/04/alberto-pucheu-poema-para-a-catastrofe-do-nosso-tempo/): Leia "Poema para a catástrofe do nosso tempo," de Alberto Pucheu, uma poderosa reflexão poética sobre a tragédia bolsonarista, memória, democracia, pandemia, violência política e resistência coletiva.
- [Germana Zanettini - Centésimo trigésimo nono](https://singularidadepoetica.art/2020/10/02/germana-zanettini-centesimo-trigesimo-nono-poema/): Centésimo trigésimo nono, um poema de Germana Zanettini
- [Javier Salvago - Quinta-feira Santa](https://singularidadepoetica.art/2020/09/30/javier-salvago-quinta-feira-santa-poema/): "Quinta-feira Santa", um poema de Javier Salvago.
- [Miller Williams - Poema de amor com torrada](https://singularidadepoetica.art/2020/09/28/miller-williams-poema-de-amor-com-torrada/): "Poema de amor com torrada", um poema de Miller Williams
- [Jane Hirshfield - Um destino algodoado](https://singularidadepoetica.art/2020/09/26/jane-hirshfield-um-destino-algodoado/): "Um destino algodoado", um poema de Jane Hirshfield.
- [Leslie McGrath – Corpus](https://singularidadepoetica.art/2020/09/24/leslie-mcgrath-corpus-poema/): Corpus, um poema de Leslie McGrath. Depois que lavaram meu corpo e enfiaram meus braços nas mangas de um vestido que comprei nos anos trinta em um mercado de Cuernavaca, eles circundaram um rosário em minhas mãos postas. (...)
- [Edgar Allan Poe - "O corvo" e "A filosofia da composição"](https://singularidadepoetica.art/2020/09/22/edgar-allan-poe-o-corvo-e-a-filosofia-da-composicao-poema/): Leia "O Corvo", o clássico poema de Edgar Allan Poe (na genial tradução de Milton Amado), e, na sequência, "A Filosofia da Composição", o ensaio fundamental no qual o autor desvenda, passo a passo, os caminhos percorridos desde a ideia inicial até os detalhes que emprestam coerência e sentido ao texto poético.
- [William Butler Yeats - "When you are old" em 4 traduções](https://singularidadepoetica.art/2020/09/20/william-butler-yeats-when-you-are-old-and-grey-and-full-of-sleep-em-4-traducoes-poema/): "When you are old and grey and full of sleep", poema de William Butler Yeats, nas traduções de José Agostinho Baptista, Adriano Nunes, Paulo Vizioli e Jorge Wanderley
- [Jorge Valdés Días-Vélez - O olival](https://singularidadepoetica.art/2020/09/18/jorge-valdes-dias-velez-o-olival-poema/): "O olival", um poema de Jorge Valdés Días-Vélez Não direi a oração que se pronuncia em outras ocasiões como esta. Eu vim para enterrar-te. E o meu silêncio é o outro lugar para onde foste. Porque não há mais verdade do que a tua memória e nada a dizer que tu não saibas (...)
- [William Stafford - No monumento não-nacional ao longo da fronteira canadense](https://singularidadepoetica.art/2020/09/16/william-stafford-no-monumento-nao-nacional-ao-longo-da-fronteira-canadense-poema/): No monumento não-nacional ao longo da fronteira canadense, um poema de William Stafford
- [Louise Glück - Paisagem](https://singularidadepoetica.art/2020/09/14/louise-gluck-paisagem-poema/): Paisagem, um poema de Louise Glück
- [Joan Margarit – Dignidade](https://singularidadepoetica.art/2020/09/12/joan-margarit-dignidade-poema/): Dignidade, um poema de Joan Margarit
- [Andrew Hudgins - No poço](https://singularidadepoetica.art/2020/09/10/andrew-hudgins-no-poco-poema/): No poço, um poema de Andrew Hudgins
- [Edna St. Vincent Millay - dois poemas de "A few Figs from Thistles"](https://singularidadepoetica.art/2020/09/08/edna-st-vincent-millay-dois-poemas-de-a-few-figs-from-thistles-poema/): Dois poemas de "A few Figs from Thistles", de Edna St. Vincent Millay
- [Ted Kooser - Sobrevivendo](https://singularidadepoetica.art/2020/09/06/ted-kooser-sobrevivendo/): "Sobrevivendo", um poema de Ted Kooser
- [Angélica Freitas - Pós](https://singularidadepoetica.art/2020/09/04/angelica-freitas-pos-poema/): Pós, um poema de Angélica Freitas
- [Walter de la Mare - Chapim](https://singularidadepoetica.art/2020/09/02/walter-de-la-mare-chapim-poema/): Chapim, um poema de Walter de la Mare
- [Tomas Tranströmer - Kyrie](https://singularidadepoetica.art/2020/08/31/tomas-transtromer-kyrie-poema/): Kyrie, um poema de Tomas Tranströmer
- [Marta Magalhães - Urbanismo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/29/marta-magalhaes-urbanismo-poema/): Urbanismo, um poema de Marta Magalhães
- [Nuno Júdice - Jogo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/27/nuno-judice-jogo-poema/): Jogo, um poema de Nuno Júdice
- [Friedrich Hölderlin - As Parcas](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-as-parcas-2/): Republicação: “As parcas”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-a-brevidade-2/): Republicação: “A brevidade”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-outrora-e-agora-2/): Republicação: “Outrora e Agora”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Margarida Vale de Gato - Psyché a Eros](https://singularidadepoetica.art/2020/08/25/margarida-vale-de-gato-psyche-a-eros-poema/): Psyché a Eros, um poema de Margarida Vale de Gato
- [Jorge de Sena - Carta a meus filhos sobre o fuzilamento de Goya](https://singularidadepoetica.art/2020/08/23/jorge-de-sena-carta-a-meus-filhos-sobre-o-fuzilamento-de-goya-poema/): Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, […]
- [Alfonso Brezmes – Os outros](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/alfonso-brezmes-os-outros-poema/): Os outros, um poema de Alfonso Brezmes
- [Robinson Jeffers - The Inhumanist (Parte II de "The Double Axe") (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/robinson-jeffers-the-inhumanist-parte-ii-de-the-double-axe-excerto/): Republicação: “The Inhumanist (Parte II de “The Double Axe”)”, excerto de um poema de Robinson Jeffers
- [Cassiano Ricardo - Ode Pastoril](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/cassiano-ricardo-ode-pastoril-2/): Republicação: “Ode pastoril”, um poema de Cassiano Ricardo
- [John Donne - Em despedida: proibindo o pranto](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/john-donne-em-despedida-proibindo-o-pranto-2/): Republicação: “Em despedida: proibindo o pranto”, poema de John Donne, em tradução de Augusto de Campos
- [Mary Oliver - Nos bosques de Blackwater](https://singularidadepoetica.art/2020/08/19/mary-oliver-nos-bosques-de-blackwater-poema/): "Nos bosques de Blackwater", um poema de Mary Oliver
- [Jane Kenyon - Poderia ter sido diferente](https://singularidadepoetica.art/2020/08/17/jane-kenyon-poderia-ter-sido-diferente/): "Poderia ter sido diferente", um poema de Jane Kenyon
- [Vinicius de Moraes - Cemitério Marinho](https://singularidadepoetica.art/2020/08/16/vinicius-de-moraes-cemiterio-marinho/): Cemitério Marinho, um poema de Vinicius de Moraes Tal como anjos em decúbito A conversar com o céu baixinho Existem cerca de cem túmulos Num lindo cemiteriozinho Que eu, a passeio, descobri Um dia em Sidi Bou Said. Mal defendidos por uns muros Erguidos ao sabor da morte Eu nunca vi mortos tão puros Mortos […]
- [Billy Collins - A respiração](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/billy-collins-a-respiracao-poema/): A respiração, um poema de Billy Collins Assim como nos filmes de terror, quando alguém descobre que as ligações telefônicas estão vindo de dentro da casa, eu também percebi que nossa tenra sobreposição vem ocorrendo apenas dentro de mim.
- [Carlos Drummond de Andrade - Palavras no Mar](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar-2/): Republicação: “Palavras ao mar”, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Homenagem a Ricardo Reis](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-homenagem-a-ricardo-reis-2/): Republicação: “Homenagem a Ricardo Reis”, um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
- [Jorge de Lima - A Divisão de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/jorge-de-lima-a-divisao-de-cristo-2/): Republicação: “A divisão de Cristo”, um poema de Jorge de Lima
- [Arnaldo Antunes - Saudades](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/arnaldo-antunes-saudades-2/): Republicação: “Saudades”, um poema de Arnaldo Antunes
- [Vinicius de Moraes - Ternura](https://singularidadepoetica.art/2020/08/14/vinicius-de-moraes-ternura-poema/): Ternura - um poema de Vinicius de Moraes
- [Javier Salvago - Retrato](https://singularidadepoetica.art/2020/08/13/javier-salvago-retrato/): Retrato, um poema de Javier Salvago
- [Carlos Drummond de Andrade - Mãos dadas](https://singularidadepoetica.art/2020/08/12/carlos-drummond-de-andrade-maos-dadas/): Mãos Dadas, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Eugénio de Andrade - Não é verdade](https://singularidadepoetica.art/2020/08/11/eugenio-de-andrade-nao-e-verdade/): Cai, como antigamente, das estrelas um frio que se espalha na cidade. Não é noite nem dia, é o tempo ardente da memória das coisas sem idade. O que sonhei cabe nas tuas mãos gastas a tecer melancolia: um país crescendo em liberdade, entre medas de trigo e de alegria. Porém a morte passeia nos […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2020/08/10/cassiano-ricardo-a-graca-triste-2/): A graça triste, um poema de Cassiano Ricardo
- [Miguel Torga - Rogo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/09/miguel-torga-rogo/): Não, não rezes por mim. Nenhum deus me perdoa a humanidade. Vim sem vontade E vou desesperado. Mas assinei a vida que vivi. Doeu-me o que sofri. Fui sempre o senhorio do meu fado. Por isso, quero a morte que mereço. A morte natural, Solitária e maldita De quem não acredita Em nenhuma oração De […]
- [Konstantinos Kaváfis - Um velho](https://singularidadepoetica.art/2020/08/07/konstantinos-kavafis-um-velho/): No meio do café ruidoso, sem ninguém, por companhia, está sentado um velho. Tem à frente um jornal e se inclina sobre a mesa. Imerso na velhice aviltada e sombria, pensa quão pouco desfrutou as alegrias dos anos de vigor, eloqüência, beleza. Sabe que envelheceu bastante. Vê, conhece. No entanto, o seu tempo de moço […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do mar](https://singularidadepoetica.art/2020/08/05/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar-2/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja […]
- [Susan Mitchell - Os mortos](https://singularidadepoetica.art/2020/08/03/susan-mitchell-os-mortos/): À noite, os mortos descem até o rio para beber.Livram-se dos medos e de suas preocupaçõespor nós. Tiram dos bolsos as velhas fotografias.Alisam as linhas de nossas mãos e leem nosso futuro,rachado e amarelado.Alguns mortos encontram o caminho até nossas casas.Sobem aos sótãos.Leem as cartas que nos enviaram, insaciáveispor vestígios de seu amor.Contam histórias uns […]
- [Eduardo Affonso - Labereda temporã](https://singularidadepoetica.art/2020/08/02/eduardo-affonso-labereda-tempora/): É possível voltar a se apaixonar com meio século de vida? Acreditar em amor eterno depois de amores eternos terem durado tão pouco? Em amor sem traição depois de ter traído tanto? E por que querer de novo a ansiedade diante do telefone que não toca, da carta que não chega, da campainha que não […]
- [Dana Gioia - Obrigado por se lembrar de nós](https://singularidadepoetica.art/2020/08/01/dana-gioia-obrigado-por-se-lembrar-de-nos/): As flores enviadas para cá por engano,assinadas com um nome que ninguém conhece,estão murchando. O que faremos?Nossa vizinha diz que não são para ela,e ninguém está perto de fazer aniversário.Deveríamos agradecer a alguém pelo equívoco.Será que um de nós está tendo um caso?A princípio rimos, depois nos perguntamos. A íris foi a primeira a morrer,envolta […]
- [Gonçalo M. Tavares - Do "Diário da Peste", 27/04/2020](https://singularidadepoetica.art/2020/08/01/goncalo-m-tavares-de-diario-da-peste-27-04-2020/): Passados sete anos, duas semanas ou dois meses. Sairá à rua uma nova espécie humana. Cheia de vontade de construção; cheia de vontade de destruição. Humanos 2.0. Dois médicos beijam-se em Madrid com a máscara posta. Os amantes, quadro de René Magritte: uma mulher e um homem beijam-se com um pano na cabeça. A mãe […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Com vista para dentro](https://singularidadepoetica.art/2020/07/30/ernesto-perez-vallejo-com-vista-para-dentro/): Não sou o melhor homem que já conheceste,nem metade do bom que ainda te falta descobrir por aí,nem sequer tenho estudos, e minha voztreme diante de qualquer um que me olha nos olhos.Minha tristeza pesa mais aos domingos,mas na verdade é meu estado mais corriqueiro.Às vezes, tenho crises de ansiedade,às vezes, de raiva;tenho uns vinte […]
- [Jeffrey Harrison - Nossa outra irmã](https://singularidadepoetica.art/2020/07/28/jeffrey-harrison-nossa-outra-irma/): Nossa outra irmã para EllenA coisa mais cruel que fiz à minha irmã mais novanão foi disparar um dardo caseiro em seu joelho,onde ficou pendurado por um ofegante momentoantes de cair, mas sim contar que tínhamosoutra irmã, mais velha, que havia ido embora.Quais foram meus motivos não consigo lembrar: um capricho,ou talvez uma necessidade de […]
- [Robert Creeley – O fim](https://singularidadepoetica.art/2020/07/26/robert-creeley-o-fim/): Quando percebo o que as pessoas pensam de mim fico imerso em minha solidão. O cinza chapéu previamente adquirido enjoa. Não tenho mais nenhum propósito identificável. Uma sensação de estar sendo sufocado penetra em minha garganta. Trad.: Nelson Santander The End When I know what people think of me I am plunged into my loneliness. […]
- [David Mourão-Ferreira - Herança](https://singularidadepoetica.art/2020/07/24/david-mourao-ferreira-heranca/): Ouvir, ouvir de noite uma ambulância, E desejar que estejas a morrer; Fechar a porta à minha própria infância; Amigos, conhecidos, nem os ver; Quebrar nas mãos o aro da esperança; Mas de mim para mim depois dizer: “Calma! Quem nada espera tudo alcança…”; E guardar o revólver; e beber, A sós, o vinho que […]
- [Konstantinos Kaváfis - Vozes](https://singularidadepoetica.art/2020/07/22/konstantinos-kavafis-vozes/): Vozes queridas, vozes ideais daqueles que morreram ou daqueles que estão perdidos para nós, como se mortos. Eles nos falam em sonho, algumas vezes; outras vezes, em pensamento as escutamos. E, quando soam, por um instante eis que retornam os sons da poesia primeva em nossa vida, qual música distante que se perde noite afora. […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - O fotógrafo e a modelo](https://singularidadepoetica.art/2020/07/20/jorge-valdes-diaz-velez-o-fotografo-e-a-modelo/): O tempo que foi sempre teu inimigo se deteve em tua imagem. Já és aquela garota do calendário, a princesa sem fábulas, o anjo que consigo pendurar em qualquer nuvem. De ouro e trigo a luz encaracolada em tua cabeça, a areia que acaba onde começa a linha de teu sexo. Estás comigo e não […]
- [Adriano Nunes - Cantar é preciso](https://singularidadepoetica.art/2020/07/18/adriano-nunes-cantar-e-preciso/): para Antonio Cicero Cantar é preciso, Ainda que seja O vazio, o nada, A tristeza, a perda, O que quer que até Alcance a cabeça. Cantar e cantar, Mesmo que depois O existir se perca Na eterna estranheza Da cantiga, para Que o agora exerça A sua potência De luz, porque já Pouquíssimo importa Senão […]
- [Doug Dorph - Planeta esquecido](https://singularidadepoetica.art/2020/07/16/doug-dorph-planeta-esquecido/): Peço à minha filha que diga os nomes dos planetas.“Vênus… Marte… e Plunis!”, ela responde.Quando eu tinha seis ou sete anos, meu paime acordou no meio da noite.Descemos até o playground e deitamosde costas no concreto, olhando para cimaà espera das estrelas cadentes que a TV prometera. Não me lembro de nenhuma estrela cadente. Lembrode […]
- [Juan Vicente Piqueras - Lázaro se recusa a ressuscitar](https://singularidadepoetica.art/2020/07/14/juan-vicente-piqueras-lazaro-se-recusa-a-ressuscitar-i/): Um dia ouvi vozes que vinham de fora.Finalmente!, vozes de fora, pensei – vozes de outrosque levam a luz dentro de si e a revelam,que vem até mim do ar, e não de mim. Vozes que ao se aproximarem, viraram sussurros.Passos que pararam diante da minha porta.Alguém disse: Aqui jaz, como se lesse.Os demais ficaram […]
- [Joan Margarit - Último trem](https://singularidadepoetica.art/2020/07/12/joan-margarit-ultimo-trem/): Último tremCrematório de Collserola Se visses a chuva que envernizao verde escuro e espesso do jardim.Teu vagão solitário está chegandoà sala espaçosa, sem adornos,mobiliário, ou luminárias,da Estación de Francia da morte.Só se escuta o murmúrio do motorque arrasta o pesoda infância e da juventude– de teu anônimo tempo, já perdido,que nunca mais será reclamado –,rumo […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Vers de circonstance"](https://singularidadepoetica.art/2020/07/10/paulo-henriques-britto-vers-de-circonstance/): I. Imunidade de Rebanho A estupidez é sua própria recompensa. Graças a ela, o mundo faz sentido, um só, que é fácil de identificar. E só o fácil satisfaz a quem não pensa. Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância é o sumo bem dos cidadãos de bem, é a verdadeira marca dos eleitos. Ter sucesso […]
- [Wendell Berry - De "Sabbaths" (2001)](https://singularidadepoetica.art/2020/07/08/wendell-berry-de-sabbaths-2001/): […] III Peça ao mundo que revele sua quietude —não o silêncio das máquinas quando cessam,mas a verdadeira quietude onde os cantos das aves,as árvores, os sinos-das-sombras, os caracóis, as nuvens, as tempestadesse tornam o que são – e nada além disso. […] V O vento do outono chegou.Está por toda parte. Movecada folha de […]
- [Eamon Grennan - Uma manhã](https://singularidadepoetica.art/2020/07/06/eamon-grennan-uma-manha/): Procurando pedras raras, dei com a lontra mortaapodrecendo na linha da maré, e carreguei pelo resto do dia o odor desta brutaldespedida. Aquele som lancinante e agudo do ostraceiroecoava pela enseada rochosaonde um cormorão se alimentava e submergia na baíae de onde uma garça-real alçou voo de um rochedo onde estivera invisível,pairou um tempo, e […]
- [David Mourão-Ferreira - Soneto do cativo](https://singularidadepoetica.art/2020/07/04/david-mourao-ferreira-soneto-do-cativo/): Se é sem dúvida Amor esta explosão De tantas sensações contraditórias; A sórdida mistura das memórias, Tão longe da verdade e da invenção; O espelho deformante; a profusão De frases insensatas, incensórias; A cúmplice partilha nas histórias Do que os outros dirão ou não dirão; Se é sem dúvida Amor a cobardia De buscar nos […]
- [William Butler Yeats - Leda e o cisne](https://singularidadepoetica.art/2020/07/02/william-butler-yeats-leda-e-o-cisne/): Súbito, um baque: as grandes asas brancas Pousam sobre a jovem, e a agarram com jeito, As patas negras lhe afagam as ancas E a estreitam, impotente, contra o peito. Com dedos trêmulos, como afastar Das coxas fracas o esplendor plumado? E como não sentir a palpitar O estranho coração, desabalado? Um espasmo ― e […]
- [Ted Kooser - Depois de anos](https://singularidadepoetica.art/2020/06/30/ted-kooser-depois-de-anos/): Hoje, de longe, eu a vi se afastando, e, sem nenhum som, a fronte brilhante de um glaciar deslizou para o mar. Um antigo carvalho tombou na Cumberlands, mantendo apenas um punhado de folhas, e uma idosa espalhando milho para suas galinhas olhou para cima por um instante. No outro lado da galáxia, uma estrela […]
- [Dorianne Laux - Interstício](https://singularidadepoetica.art/2020/06/19/dorianne-laux-intersticio/): Nós montamos o quebra-cabeça peça por peça, apreciando como um entalhe curvo se insere tão suavemente no outro. Uma mancha amarela se transforma na palha de uma vassoura, e duas peças azuis completam o último pedaço do céu. Juntos, remendamos as cadeiras de balanço e as árvores do outono, combinando ouro com ouro. Temos nas […]
- [Fernando Pessoa - [Tenho tanto sentimento]](https://singularidadepoetica.art/2020/06/18/fernando-pessoa-tenho-tanto-sentimento/): Tenho tanto sentimento Que é frequente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a […]
- [Marie Howe - Quantas vezes](https://singularidadepoetica.art/2020/06/17/marie-howe-quantas-vezes/): Não importa quantas vezes eu tente, não consigo impedir meu pai de entrar no quarto da minha irmã e não consigo ver melhor, inclinando-me daqui para olhar em seus olhos. Está escuro no corredor e todos estão dormindo. Este é o passado onde tudo já está perfeito e nada muda, onde o copo de água […]
- [Kevin Hart - Noites](https://singularidadepoetica.art/2020/06/16/kevin-hart-noites/): Não há nada que eu realmente queira: As estrelas hoje à noite são profusas e frias Acima da minha casa que vagamente paira em uma via logo perdida nas trevas. Meu prato raso está todo lascado (o que indica que mudei bastante); Meu copo está rachado de um lado (isso mostra que há um rumo […]
- [Steve Kowit - Algumas nuvens](https://singularidadepoetica.art/2020/06/15/steve-kowit-algumas-nuvens/): Agora que desliguei o telefone, ninguém poderá me encontrar – Ao menos por esta tarde eles terão que passar sem meus conselhos e opiniões. Agora ninguém mais vai ligar & perguntar com uma voz vacilante se eu ainda não ouvi que ela está morta, a mulher que eu amei uma vez – nada além de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Wuang Shi, pirata aposentado, fala em sua festa de aniversário no hospital de Ching Pei para seus amigos e convidados imaginários](https://singularidadepoetica.art/2020/06/14/juan-vicente-piqueras-wuang-shi-pirata-aposentado-fala-em-sua-festa-de-aniversario-no-hospital-de-ching-pei-para-seus-amigos-e-convidados-imaginarios/): Wuang Shi, pirata aposentado, fala em sua festa de aniversário no hospital de Ching Pei para seus amigos e convidados imaginários para Rafa Rodríguez Perdeu-se a honra. Como se fosse o tempo, a vida, o rumo ou a paciência perdeu-se a honra. E aqui estamos. Todos sabeis quem sou e não direi meu nome nem […]
- [Connie Wanek - Depois de nós](https://singularidadepoetica.art/2020/06/13/connie-wanek-depois-de-nos/): Depois de nós Não sei se estamos no início ou na fase final. Tomas Tranströmer A chuva está caindo através do telhado. E tudo o que prosperou debaixo do sol, os livros que se abriram de manhã e se fecharam à noite, e o dia inteiro viraram suas páginas para a luz; os esboços de […]
- [Jane Kenyon - A tigela azul](https://singularidadepoetica.art/2020/06/12/jane-kenyon-a-tigela-azul/): Como primitivos, enterramos o gato com seu prato. Com as mãos nuas raspamos areia e cascalho de volta para o buraco. Caíram com um silvo e um baque ao lado dele, em seu longo pelo vermelho, o branco pelame entre seus dedos, e seu longo, para não dizer aquilino, nariz. Nós nos levantamos e nos […]
- [Forrest Hamer - Lição](https://singularidadepoetica.art/2020/06/11/forrest-hamer-licao/): Foi no verão de 63 ou 64, e meu pai estava transportando nossa família de Ft. Hood para a Carolina do Norte em nosso Buick 56. Tínhamos ouvido falar dos ataques da Klan, e sabíamos que no Mississippi estava mais perigoso do que o habitual. A escuridão pendurava-se às arvores como musgo, e sempre que […]
- [Brian Turner - Quão brilhante é abril](https://singularidadepoetica.art/2020/06/10/brian-turner-quao-brilhante-e-abril/): E o ar, seco,Como as espáduas de um búfalo-d’água. Gafanhotos arranham a terra,roçam as asas com pernas finas,irrompendo à frente dos soldadosem voos rasantes em arco, as asas um borrão. Os soldados já não percebem,veem apenas os escombros das ruas,corpos cobertos por lençóis, e o sol,quão brilhante é, quão duro e plano e branco. Serão […]
- [David Ignatow - Para a minha filha](https://singularidadepoetica.art/2020/06/09/david-ignatow-para-a-minha-filha/): Quando eu morrer, escolhe uma estrelae dá-lhe o meu nomepara que saibas quenão te abandoneinem te esqueci.Foste para mim uma estrela,guiando-me pelo teu nascimentoe infância, minha mãona tua mão. Quando eu morrer,escolhe uma estrela e dá-lheo meu nome para que eu possa brilharsobre ti, até que te juntes a mimna escuridão e no silênciojuntos. Trad.: […]
- [Robinson Jeffers - Falcão ferido](https://singularidadepoetica.art/2020/06/08/robinson-jeffers-falcao-ferido/): Falcão Ferido I O pilar quebrado da asa se projeta da espádua coagulada,A asa arrasta-se como um estandarte no fracasso,Não mais para usar o céu, apenas para viver com fomeE dor por uns poucos dias: nem gato nem coioteAbreviarão a semana de espera pela morte: há caça sem garras.Ele permanece sob o carvalho e esperaOs […]
- [Manuel de Freitas - Nada de nada](https://singularidadepoetica.art/2019/05/05/manuel-de-freitas-nada-de-nada/): para o José Carlos Soares Um dia, logo de manhã, entraremos num cemitério e perguntarás a Antonia Pozzi se estar morto é mais ou menos triste do que estes dias arduamente sepultados. Receando que saibas a resposta, beberei com Lowry a primeira ou a última tequila, na certeza de que ambos os adjetivos estarão certos […]
- [José Miguel Silva - Desculpas não faltam](https://singularidadepoetica.art/2019/05/04/jose-miguel-silva-desculpas-nao-faltam/): Uma casa junto ao Vouga, rio de água suficiente, onde apenas se mergulha até à cintura, a pequena horta de Virgílio, o amor robustecido por nenhuma esperança e tantos livros para ler — que desculpa vou agora dar para não ser feliz?
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/03/herberto-helder-de-poemas-canhotos-4/): o António Ramos Rosa estava deitado na cama contra a parede e deu meia volta sobre si mesmo e ficou de cara voltada contra a parede e fechou os olhos e fechou a boca e ficou todo fechado e então morreu todo fundo e completo de uma só vez e apenas ele no tempo e […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/02/herberto-helder-de-poemas-canhotos-3/): fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são inteligentes tão subis no súbito entendimento das intenções segundas que temos em relação a eles se lhes dessem a ler bons poemas maior proveito teriam aqueles que os escrevem do que tem com A ou B eu cá por mim estou certo de que nenhum golfinho […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/01/herberto-helder-de-poemas-canhotos-2/): escrever poemas não é boa maneira de atordoar os tempos do verbo, não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio, nem perder algures uma perna e lembrar-me depois de perder ainda a outra: ninguém ganha assim uma barra de ouro, ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro, ninguém transforma assim […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/04/30/herberto-helder-de-poemas-canhotos/): em boa verdade houve tempo em que tive uma ou duas artes poéticas, agora não tenho nada: sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas: as vezes apenas duas ou três linhas; outras, vinte ou trinta: houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei a encher umas quantas […]
- [Goliarda Sapienza – Para minha mãe](https://singularidadepoetica.art/2019/04/29/goliarda-sapienza-para-minha-mae/): Quando eu voltarserá noite fechadaQuando eu voltaras coisas estarão quietasNinguém vai me esperarnaquele leito de terraNinguém vai me acolhernaquele silêncio de terra Ninguém vai me consolarpor todas as partes já mortasque carrego em mimcom resignada impotênciaNinguém vai me consolarpelos instantes perdidospelos sons esquecidosque há tempoviajam ao meu lado e tornam densoo respiro, lamacenta a língua […]
- [Mário Cesariny – Em todas as ruas te encontro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/28/mario-cesariny-em-todas-as-ruas-te-encontro/): Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real que […]
- [Walt Whitman - Canção de mim mesmo, 48](https://singularidadepoetica.art/2019/04/27/walt-whitman-cancao-de-mim-mesmo-48/): 48 Eu disse que a alma não é mais do que o corpo, e disse que o corpo não é mais do que a alma, e nada, nem Deus, é maior para um ser do que esse ser para si mesmo, e quem quer que ande um estádio sem solidariedade caminha para seu próprio funeral […]
- [Joan Margarit - Ela](https://singularidadepoetica.art/2019/04/26/joan-margarit-ela/): É tempo de não esperar por ninguém. Passa o amor, fugaz e silencioso, como, na distância, um trem noturno. Não resta ninguém. É hora de voltar ao desolado reino do absurdo, ao sentimento de culpa, ao medo vulgar de perder o que estava, já, perdido. Ao inútil e sórdido tempo moral. É hora já de […]
- [Paulo Henriques Britto - Lacrimæ rerum](https://singularidadepoetica.art/2019/04/25/paulo-henriques-britto-lacrimae-rerum/): É o lamento das coisas, a desdita da matéria. Não tem nada a ver conosco, com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo. É uma questão de moléculas, que antecede a biologia por coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcana nosso entendimento pasma. Nem tudo está a vosso alcance, ó seres de protoplasma.
- [Philip Roth - Patrimônio (excerto 2)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/25/philip-roth-patrimonio-excerto-2/): Ele morreu três semanas depois. Durante uma provação de doze horas, que começou pouco antes da meia-noite de 24 doutubro de 1989 e terminou logo após o meio-dia, ele lutou por cada sorvo de ar com uma erupção impressionante, uma derradeira exibição da tenacidade férrea que havia demonstrado ao longo da vida. Algo digno de […]
- [Fernando Assis Pacheco - R., 1992](https://singularidadepoetica.art/2019/04/24/fernando-assis-pacheco-r-1992/): Quando os anos passarem sobre esse teu desgosto vais ver que te curaste não de vez mas um pouco pois o que a gente busca nas dobras do amor é a cura para a morte que não tem consolo e por falar em f’ridas até as que mais doem acabam por fechar só ela vence […]
- [Vasco Gato - Fera Oculta](https://singularidadepoetica.art/2019/04/23/vasco-gato-fera-oculta/): com a Inês para o Rodrigo I Durante essa tua natação de fera ocultahá um papiro que se desdobra na minha bocae nunca o futuro teve o saborde palavras tão sobejamente pronunciadasfamília rapaz umbigopalavras com que se poderia redigirtão pouca coisase não fosse a reinvenção da tua chegadainscrita no mundo como pedra preciosaque não é pedraantes […]
- [José Manuel Caballero Bonald - Transfiguração do perdido](https://singularidadepoetica.art/2019/04/22/jose-manuel-caballero-bonald-transfiguracao-do-perdido/): A música convoca as imagens degradadas do tempo. De onde estão me chamando, de qual penumbra, quando retornam para mim? Nada me pertence senão aquilo que perdi. Máscara do passado, a memória conflui para um fundo difuso de alegrias em que tudo soçobra e se reduz a nada, onde está minha verdade tornando-se mais crédula. […]
- [Rafael Montesinos - Vida](https://singularidadepoetica.art/2019/04/21/rafael-montesinos-vida/): Nasceu. Viveu feliz. Sorveu a vida de um só e belo trago adolescente. Buscou a solidão, e se viu frente a uma atroz, inesperada ferida. Em desvario, deu para crer em tudo. “Oh sensatez de não se crer em nada!”, disse, e depois a alma, entusiasmada quis sentir a vida de um outro modo. Farto […]
- [Philip Roth - Patrimônio (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/20/philip-roth-patrimonio-excerto/): “Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério, […]
- [Manuel António Pina - Sexta-feira Santa](https://singularidadepoetica.art/2019/04/19/manuel-antonio-pina-sexta-feira-santa/): A conversa era sobre Deus, embora o teólogo estivesse inclinado a pensar que fosse sobre outra coisa, pois era hora de jantar. Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar. Tinha devorado o pargo com honesto apetite e elogiava as virtudes do cozinheiro. Só Deus, algures, chorava sobre os despojos da sua pequena […]
- [Ian Hamilton - Admissão](https://singularidadepoetica.art/2019/04/18/ian-hamilton-admissao/): Os lábios rachados do porteiro noturno uniformizadoMurmuram horrivelmente contra o vidro embaçadoDe nossa ambulância escura.Nossa afliçãoInspira um único olhar marcial de desdémE logo ele nos indica o caminho, para a “Pátria”. Trad.: Nelson Santander Admission The chapped lips of the uniformed night-porterMumble horribly against the misted glassOf our black ambulance.Our plightInspires a single, soldierly, contemptuous […]
- [Manuel Halpern - Domingo de manhã](https://singularidadepoetica.art/2019/04/17/manuel-halpern-domingo-de-manha/): Quantos homens se apaixonam por ti ao sábado à tarde enquanto passeiam os filhos no parque e se distraem do balanço do baloiço na adivinhação das partes do corpo que trazes tapadas Mal sabem que a tua solidão não se preenche com a desventura erótica de um corpo que te cubra sem consolo Não há […]
- [Miguel Martins - Sou eu](https://singularidadepoetica.art/2019/04/16/miguel-martins-sou-eu/): são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral sou eu agora em espasmos, assemelhando-me […]
- [Ángel González - Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/04/15/angel-gonzalez-aniversario/): Eu percebo: como estou me tornandomais incerto, confuso,dissolvendo-me no arcotidiano, brutopedaço de mim, desgastadoe em frangalhos. Eu compreendo: vivimais um ano, e isso é muito duro.Pulsar o coração todos os diasquase cem vezes por minuto! Viver um ano requermorrer muito muitas vezes. Trad.: Nelson Santander Cumpleaños Yo lo noto: cómo me voy volviendomenos cierto, confuso,disolviéndome […]
- [William Butler Yeats - Um aviador irlandês prevê a morte](https://singularidadepoetica.art/2019/04/14/william-butler-yeats-um-aviador-irlandes-preve-a-morte/): Encontrarei meu fim no meio das nuvens de algum céu sobejo; os que combato, eu não odeio, também não amo os que protejo; Kiltartan Cross é meu país, seus pobres são a minha gente, nada a fará mais infeliz do que já era, ou mais contente. Não é por lei ou por dever, turba ou […]
- [Jaime Gil de Biedma - Pandêmia e Celeste](https://singularidadepoetica.art/2019/04/13/jaime-gil-de-biedma-pandemia-e-celeste/): Quan magnus numerus Libyssae arenae …………………………….. Aut quam sidera multa, cum tacet nox, Furtiuos hominum uident amores. CATULO, VII Imagina agora que tu e eu muito tarde da noite falamos de homem para homem, enfim. Imagina-o, em uma dessas noites memoráveis de rara comunhão, com a garrafa meio vazia, os cinzeiros sujos, depois de esgotado […]
- [Eugénio de Andrade - Mulheres de preto](https://singularidadepoetica.art/2019/04/12/eugenio-de-andrade-mulheres-de-preto/): Há muito que são velhas, vestidas de preto até a alma. Contra o muro defendem-se do sol de pedra; ao lume furtam-se ao frio do mundo. Ainda têm nome? Ninguém pergunta, ninguém responde. A língua, pedra também.
- [Giuseppe Ungaretti - Céu claro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/11/giuseppe-ungaretti-ceu-claro/): Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tanta névoa uma a uma se desvelam as estrelas Respiro o frescor que me deixa a cor do céu Me reconheço imagem passageira Presa de um ciclo imortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sereno Bosco di Courton luglio 1918 Dopo tanta nebbia a una a […]
- [Raymond Carver - A cabine telefônica](https://singularidadepoetica.art/2019/04/10/raymond-carver-a-cabine-telefonica/): Ela desaba na cabine, chorando no telefone. Perguntando uma coisa ou outra, e chorando um pouco mais. Seu companheiro, um camarada mais velho, usando jeans e camiseta, aguarda em pé a sua vez de falar, e chorar. Ela passa o telefone para ele. Por um minuto eles ficam juntos na minúscula cabine, as lágrimas dele […]
- [Joan Margarit - O ano em que ela morreu](https://singularidadepoetica.art/2019/04/09/joan-margarit-o-ano-em-que-ela-morreu/): Na fotografia em sépiaés jovem e sorri. Faz-me lembraras mulheres dos filmes de guerrada minha infância:barcos na neblina, trens noturnose grandes cidades sob o alarme aéreo.Na lápide está escrito que ela se foino inverno de 44,aos vinte anos, quando me apaixonavapela sufocante escuridãocruzada por um raio de luz, a heroínados sonhos de amor de minha […]
- [Manuel António Pina - Corpo presente](https://singularidadepoetica.art/2019/04/08/manuel-antonio-pina-corpo-presente/): Toda a casa suspendera a respiração incapaz de conter tamanha desproporção, e eu próprio desaparecera algures na sala, entre a tua vida e a tua morte. Atenderam o telefone falando baixo, temendo que regressasse cada coisa do teu lugar sem estar prontos ainda para a tua solidão. Faltava muito para podermos perceber, muitos passos para […]
- [Paulo Henriques Britto - Plaudite, amici](https://singularidadepoetica.art/2019/04/07/paulo-henriques-britto-plaudite-amici/): Seria muito bom saber sair de cena sem fazer cenas, sem roubar a cena, sem atropelar sequer um figurante. Pena que nessas horas se improvisa, e que ninguém respeita nada quando foge do roteiro. Mesmo os maiores canastrões têm seu momento de glória, de prima-donismo o mais rasteiro e o mais justificável. Pois na vida […]
- [Nuno Júdice - É isto o amor](https://singularidadepoetica.art/2019/04/06/nuno-judice-e-isto-o-amor/): Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me a sermos dois; e a […]
- [Luís García Montero - Resumo dos fatos](https://singularidadepoetica.art/2019/04/05/luis-garcia-montero-resumo-dos-fatos/): Falei com a morte por telefonee recebi e-mails de amor que foram apagadossem deixar uma única lágrima em papel amarelo.Ninguém esqueça os tempos, mas ninguém se engane:no final, apenas o amor e a morte importam. Trad.: Nelson Santander Resumen de los hechos He hablado con la muerte por teléfonoy he recibido e-mails de amor que […]
- [Fernando Assis Pacheco - Respiração Assistida](https://singularidadepoetica.art/2019/04/04/fernando-assis-pacheco-respiracao-assistida/): Eu vi a morte de noite – névoa branca – entre os frascos do soro rondar a minha cama era um trasgo e como tal metera-se pelas frinchas; noutra versão coando-se através dos nós da madeira ou noutra ainda imitando à perfeição o gorgolejar da água nos ralos: eu tremia covardemente enquanto ela raspava a […]
- [Carlos Poças Falcão - A luz coada num pano negro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/03/carlos-pocas-falcao-a-luz-coada-num-pano-negro/): Lamenta-te, pois já não é alegre o vento sobre os campos. Não há descoberta nem transfiguração quando o calendário vem com as primícias. Lamenta-te, lamenta-te. Já não tens a nudez certa nem a fragrância antiga.
- [Paul Verlaine – Chanson D'Automne (em seis traduções)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/02/paul-verlaine-chanson-dautomne-em-seis-traducoes/): Canção do Outono (Trad.: Alphonsus de Guimaraens) Os soluços graves Dos violinos suaves Do outono Ferem a minh’alma Num langor de calma E sono. Sufocado, em ânsia, Ai! quando à distância Soa a hora, Meu peito magoado Relembra o passado E chora. Daqui, dali, pelo Vento em atropelo Seguido, Vou de porta em porta, Como […]
- [Vicente Gaos - Esquecei](https://singularidadepoetica.art/2019/04/01/vicente-gaos-esquecei/): Esquece, homem… Esquece que és cinzase em cinzas te tornarás. Esquece esta quarta-feirae o in pulvis reverteris. Pois embora sejas cinza e pó,há vida, amor, beleza ao redor. É verdade: beleza, amor, vida,fugazes flores de um dia. Mas flores, sim. Enquanto durara magia verdadeira de seu perfume, esquece o pó e a morte.É melhor não lembrar […]
- [Helena Zelic - Bem-vinda](https://singularidadepoetica.art/2019/03/31/helena-zelic-bem-vinda/): em uma casa desconhecidaé preciso observar os movimentos das coisas: o gás se vem da rua ou botijãoas árduas relações entre tomadas e eletrodomésticosbotões de liga e desligaa política da limpezase toda sujeira é política.as cores das chaves, as trancas trocadasencaixar, tirar e encaixar de novona busca do que é espontâneo.entrar na casa como se […]
- [Eugénio de Andrade - Fim de tarde em S Lázaro](https://singularidadepoetica.art/2019/03/30/eugenio-de-andrade-fim-de-tarde-em-s-lazaro/): Estou sozinho. Nas estantes, restos da minha vida. É quase noite sobre os telhados. No livro abandonado nas mãos corre um rio: à deriva duas ou três coisas que foram minhas: um punhado de amoras, a porosa delícia do barro, essas nuvens, essas aves num céu branco de trigo, um sorriso que também era um […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Mal de ausência](https://singularidadepoetica.art/2019/03/29/luis-alberto-de-cuenca-mal-de-ausencia/): Desde que partiste, não sabes como devagar passa o tempo em Madrid. Vi um filme que terminou apenas há um século. Não sabes que lento corre o mundo sem ti, noiva distante. Os amigos pedem-me que volte a ser o mesmo que o coração apodrece de tanta melancolia, que a tua ausência não vale tanta […]
- [Francisco Brines - Última declaração de amor](https://singularidadepoetica.art/2019/03/28/francisco-brines-ultima-declaracao-de-amor/): Oh Vida, que tudo me deste. Agora já sei que, sendo isto verdade, nada me deste. Mas deixa-me olhar-te ainda com amor, mesmo que eu já não mais deseje abraçar-te. E embora saibas que eu não te abandono podes tu abandonar-me. Trad.: Nelson Santander Última declaración de amor Oh Vida, que todo me lo has […]
- [José Fernando Guedes - Os pássaros cantam forte](https://singularidadepoetica.art/2019/03/27/jose-fernando-guedes-os-passaros-cantam-forte/): Os pássaros cantam forte, um poema de José Fernando Guedes
- [Giuseppe Ungaretti - Sou uma criatura](https://singularidadepoetica.art/2019/03/26/giuseppe-ungaretti-sou-uma-criatura-poema/): Valloncello di Cima Quattro, 5 de agosto de 1916 Como esta pedra de S. Michele tão fria tão dura tão seca tão indiferente tão completamente sem ânimo Como esta pedra é meu pranto que não se vê A morte se expia vivendo Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sono una creatura Valloncello di Cima […]
- [Raymond Carver - Esta manhã](https://singularidadepoetica.art/2019/03/25/raymond-carver-esta-manha/): Esta manhã foi especial. Um pouco de neve cobria o chão. O sol flutuava num claro céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado, até onde o olho podia enxergar. Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti e saí para caminhar – decidido a não voltar até receber o que a Natureza tivesse a oferecer. […]
- [Paulo Henriques Britto - Da irresolução](https://singularidadepoetica.art/2019/03/24/paulo-henriques-britto-da-irresolucao/): Por não se estar preparadoperde-se a vida inteira.A preparação, porém,pra ser completa e certeira, exigiria no mínimouma existência e meia.Compreende-se, portanto,aquele que titubeia ao se ver face a facecom tamanho compromissoe termina decidindoviver mesmo de improviso.
- [Joan Margarit - Helena](https://singularidadepoetica.art/2019/03/23/joan-margarit-helena/): O ontem é teu inferno. É cada instanteem que, sem sabê-lo, te perdestee também cada instante em que foste salvo.Quando o jovem que foste está muito distante,o amor é vingança do passado.Vens de uma guerra em que foste vencido,de armas e acampamentos abandonadosna Troia que levas dentro de ti.Buscar-te-ão de noite os aqueose estreitarão o […]
- [Manuel António Pina - Café Orfeu](https://singularidadepoetica.art/2019/03/22/manuel-antonio-pina-cafe-orfeu/): Nunca tinha caído de tamanha altura em mim antes de ter subido às alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorriso como de uma súbita ausência ou como se tivesse lá ficado e outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorriso a minha vida parecia a vida de outra pessoa que fora de mim […]
- [Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave](https://singularidadepoetica.art/2019/03/21/fernando-pinto-do-amaral-por-causa-de-uma-ave/): para a minha mãe Cada vez gosto menos de saborearo travo tão pastoso da morte, o murmúriosecreto dos seus olhos invisíveisdentro de mim. Porém, há pouco tempo,num fim de tarde deste fim de julho,passou-me um episódio que rompeude repente na alma todas as comportasque fingem proteger os ópios tranquilosa que chamamos vida. Aconteceudepois de ter […]
- [Rui Caeiro - Sabem que mais?](https://singularidadepoetica.art/2019/03/20/rui-caeiro-sabem-que-mais/): Sou um homem dado ao álcool e a eternas dúvidas e que na rua ou lá onde seja a todo o momento pode tropeçar ou morrer: voar é que é muito mais improvável Sou um homem de áridas certezas e uma esperança a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas paro escuto e olho […]
- [Diogo Vaz Pinto – Guilty pleasures](https://singularidadepoetica.art/2019/03/19/diogo-vaz-pinto-guilty-pleasures/): No princípio correram ainda uns dias sem que o desencanto desse pela nossa falta. Seja como for, não fomos muito longe. Íamos mais era ao cinema mas aí eu já olhava menos para o lado, apaixonava-me pelas tipas que enchiam o ecrã, para depois, com o sexo aceso e louco por se molhar entre quaisquer […]
- [Vicente Gaos - A vida](https://singularidadepoetica.art/2019/03/18/vicente-gaos-a-vida/): Os ardorosos signos da vidapulsam na atmosfera do verão.O mar respira tal como um varão,como uma criatura enfurecida. Oh gozo e amor, sangue furioso,cósmica vibração de um mundo arcano.Mundo que sinto ao tatear teu crâniofrágil quando nele minha mão pouso. Te amo, sim, te amo, sonho forte,Fecho os olhos e te sinto inteira– Oh luz […]
- [Rui Diniz - O desaguar dos crepúsculos no Ebro](https://singularidadepoetica.art/2019/03/17/rui-diniz-o-desaguar-dos-crepusculos-no-ebro/): Eu estava presente quando o corpo do hernandez deu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamente roxo, evocava os últimos dias da sua vida, quando se demorava o menos possível nos cafés de barcelona, perseguido até por si próprio. De facto a loucura procurava-o lentamente. Durante a noite, em tempo de lua cheia, a […]
- [Ramón de Garciasol - Ávila do Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2019/03/16/ramon-de-garciasol-avila-do-silencio/): Silêncio: cala-me até as raízes, lava minha carne, meu suor de morte, a caspa cotidiana. Quero ver-te, Senhor, em paz, pelo que me dizes sem esta feroz contenda confusa, extinta a chama, pedra pura de eternidade sem fim, viva verdura sem o sal da dor e das cinzas. Silêncio: chove mais. A terra dura está […]
- [Ian Hamilton - Legado](https://singularidadepoetica.art/2019/03/15/ian-hamilton-legado/): Estamos no inverno agora e estou aquecido, Acamado, feliz por ter sobrevivido. Minha mobília Me cerca. Eu posso alcançar meus livros. E você, noite após noite, Até “o fim” Ficará comigo. Entre nós Há lenitivos, esta dor E estes poemas inacabados eu lego a você. Muitas vezes deve ser assim. Escurecemos suavemente enquanto você conta […]
- [Carmen Conde - [Declaro que morreu e que seu túmulo]](https://singularidadepoetica.art/2019/03/14/carmen-conde-declaro-que-morreu-e-que-seu-tumulo/): Declaro que morreu e que seu túmuloestá dentro de mim; sou seu sudário.A ninguém se enterrou porque seu trânsitono tempo foi de loucas esperanças. Circundam o contorno desta cova– quente é a vinha que escala as paredes –os pâmpanos mais tenros e suculentosque arrancam do silêncio seu tumulto. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma […]
- [Mario Benedetti - Currículo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/13/mario-benedetti-curriculo/): A história é muito simplesvocê nascecontempla aturdidoo vermelho-azul do céuo pássaro que emigrao desajeitado besouroque seu sapato esmagarádestemido você sofrereclama por comidae por hábitopor obrigaçãochora isento de culpasexaustoaté que o sonho o desqualifique você amase transfigura e amapor uma eternidade tão efêmeraque até o orgulho se torna ternoe o coração proféticose converte em escombros você […]
- [Nicanor Parra - Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2019/03/12/nicanor-parra-esquecimento/): Juro que não me lembro nem do seu nome,Mas morrerei chamando-a de Maria,Não por mero capricho de poeta,Pela sua aura de praça de província.Que tempos aqueles!, eu, um esquisitão,Ela, jovem pálida e sombria.Ao voltar certa tarde do LiceuSoube de sua morte imerecida,Notícia que me causou tal desalentoQue derramei uma lágrima ao ouvi-la.Uma lágrima, sim, quem […]
- [Luis Alberto de Cuenca - A casa da minha infância](https://singularidadepoetica.art/2019/03/11/luis-alberto-de-cuenca-a-casa-da-minha-infancia/): Fui feliz naquela casa repleta de flores e de livros proibidos. A casa em que tu eras Ginevra nos nossos jogos, e eu era o rei Artur (não havia Lancelote para arruinar tudo). A casa onde foste donzela das minhas ânsias, senhora dos meus suspiros, muralha em meu peito, cofre do meu tesouro, brinde dos […]
- [José Fernando Guedes - Coeso é o tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/10/jose-fernando-guedes-coeso-e-o-tempo/): Coeso é o tempo em cada tênue segundo Que logo se desfaz e se reconstrói Como uma linguagem de gestos que o universo Elabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundo Há suficiente espaço para se fazer o bem ou o mal Porque é assim mesmo que acontece: o mal ou o […]
- [Giuseppe Ungaretti - Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2019/03/09/giuseppe-ungaretti-silencio/): Mariano, 27 de junho de 1916 Conheço uma cidade que cada dia se enche de sol e tudo é arrebatado nessa hora Dela parti uma tarde No coração perdurava o limar das cigarras Do navio laqueado de branco vi minha cidade sumir deixando por um instante no ar toldado um abraço de luzes suspensas Trad.: […]
- [Raymond Carver - A carteira do meu pai](https://singularidadepoetica.art/2019/03/08/raymond-carver-a-carteira-do-meu-pai/): Muito antes de pensar em sua própria morte meu pai dizia que gostaria de descansar perto dos seus pais. Sentia muita falta deles desde que tinham partido. Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse, e eu me lembrasse. Mas quando o ar deixou seus pulmões e todo sinal de vida se extinguiu, […]
- [Francisco Brines - A Piedade do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/07/francisco-brines-a-piedade-do-tempo/): Em que escuro recanto do tempo que morreu vivem ainda, a arder, aqueles coxas? Dão luz ainda a estes olhos tão velhos e enganados, que voltam agora a ser o milagre que foram: desejo de uma carne, e a alegria do que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagem que […]
- [Paulo Henriques Britto - Uma nova teoria de tudo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/06/paulo-henriques-britto-uma-nova-teoria-de-tudo/): Todas as coisas que existem no mundo fazem sentido. Senão não teria sentido elas serem. Ou estarem. Tudo mais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nunca faz parte de sempre, assim como zero é apenas um número entre outros números. Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é […]
- [Rui Chafes](https://singularidadepoetica.art/2019/03/05/rui-chafes/): “Só a forma e o vazio são universais; tudo o resto é pó e cinzas.”
- [Helena Zelic - Dimensões](https://singularidadepoetica.art/2019/03/04/helena-zelic-dimensoes/): “dimensões”, um poema de Helena Zelic que desloca a história e a experiência humana para a vertigem de uma hipótese radical: e se tudo não passar do sonho de outro ser, à margem de um mundo desconhecido?
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - 25 de abril](https://singularidadepoetica.art/2019/03/03/sophia-mello-breyner-andresen-25-de-abril/): Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo
- [Rainer Maria Rilke - Tira-me a luz dos olhos](https://singularidadepoetica.art/2019/03/02/rainer-maria-rilke-tira-me-a-luz-dos-olhos/): Tira-me a luz dos olhos; continuarei a ver-te. Tapa-me os ouvidos; continuarei a ouvir-te. E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti. E, mesmo sem boca, posso chamar por ti. Arranca-me os braços e tocar-te-ei Com o meu coração como com uma mão… Despedaça-me o coração; e o meu cérebro baterá E, mesmo que faças […]
- [Eugénio de Andrade - O Amigo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/01/eugenio-de-andrade-o-amigo/): Não voltará – o que dele me ficou é como no inverno entre cortinas de chuva um tímido fio de sol: ilumina mas não aquece as mãos.
- [Joan Margarit - Esboço para um Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/28/joan-margarit-esboco-para-um-epilogo/): Diante de ti sentes um rumor de passosque vem do futuro, essa torredemolida antes de ser construída.Só existe a dúvida moral: ama,não penses na camada de póa que tanto aludes, ostensivamente,quando dizes: “minha vida”.E, do prestígio das negações,desconfia: a vida representanão só a vitória dos anossobre nós. Também nos ensinaquão gloriosa foinossa primeira inicial sobre […]
- [Israel Zangwill - Um dia, estando entre nós dois o Atlântico...](https://singularidadepoetica.art/2019/02/27/israel-zangwill-um-dia-estando-entre-nos-dois-o-atlantico/): Um dia, estando entre nós dois o Atlântico, senti a tua mão na minha; Agora, tendo a tua mão na minha, sinto entre nós dois o Atlântico. Trad.: Cecília Meireles
- [Manuel António Pina - Numa Estação de Metrô](https://singularidadepoetica.art/2019/02/26/manuel-antonio-pina-numa-estacao-de-metro/): A minha juventude passou e eu não estava lá. Pensava em outra coisa, olhava noutra direção. Os melhores anos da minha vida perdidos por distração! Rosalinda, a das róseas coxas, onde está? Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão? Provavelmente professoras de Alemão em colégios fora do tempo e do espa- ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-ia amado […]
- [Ezra Pound - Metrô](https://singularidadepoetica.art/2019/02/25/ezra-pound-metro/): A visão destas faces dentre a turba: Pétalas num ramo úmido, escuro. Trad.: Augusto de Campos In a station of the metro The apparition of these faces in the crowd; petals on a wet, black bough.
- [Konstantinos Kaváfis – Coisas Ocultas](https://singularidadepoetica.art/2019/02/24/konstantinos-kavafis-coisas-ocultas/): De tudo quanto fiz e quanto disse, não procurem saber quem eu era. Um obstáculo havia e transformou os meus atos e o meu modo de viver. Um obstáculo havia e me deteve cada vez em que eu ia falar. Os mais despercebidos dos meus atos, e, de meus escritos, os mais dissimulados – só […]
- [Rupi Kaur - preliminares](https://singularidadepoetica.art/2019/02/23/rupi-kaur-preliminares/): você envolve meu cabelo com os dedos e puxa é assim que você tira música de mim — preliminares Trad.: Ana Guadalupe You wrap you fingers around my hair and pull this is how you make music out of me — foreplay
- [Bruna Beber - Romance em doze linhas](https://singularidadepoetica.art/2019/02/22/bruna-beber-romance-em-doze-linhas/): quanto falta pra gente se ver hoje quanto falta pra gente se ver logo quanto falta pra gente se ver todo dia quanto falta pra gente se ver pra sempre quanto falta pra gente se ver dia sim dia não quanto falta pra gente se ver às vezes quanto falta pra gente se ver cada […]
- [Sérgio Jockyman - Os votos](https://singularidadepoetica.art/2019/02/21/sergio-jockyman-os-votos/): Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado. E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa. Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e […]
- [Felipe Benítez Reyes - O desenho na água](https://singularidadepoetica.art/2019/02/20/felipe-benitez-reyes-o-desenho-na-agua/): Bem sabes que estes anos passarão,que tudo terminará em literatura:a imagem das noites, as lendasda triunfante juventude e as cidadesvividas como corpos. Que estes anospassarão tu já sabes, pois são teuscomo se possuísses a neve e a neblina,como é do mar a bruma, ou do ara cor da tarde fugidia:pertences de ninguém e do nadasurgidos, […]
- [Nelson Santander - Clint Eastwood](https://singularidadepoetica.art/2019/02/19/nelson-santander-clint-eastwood/): Clint Eastwood, por Nelson Santander
- [Juan Luis Panero - Palavras e presságios](https://singularidadepoetica.art/2019/02/19/juan-luis-panero-palavras-e-pressagios/): Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.Repetir as sílabas, iluminar os símboloscomo cerradas salas, janelas empoeiradasque ocultam um jardim perdido, árvores da morte.Melancolia do regresso e medo do vazio,rangidos de madeira, agitar de sombras,e, de repente, em um quarto, perdidacomo um velho copo ou […]
- [José Fernando Guedes - Adeus meu pai](https://singularidadepoetica.art/2019/02/18/jose-fernando-guedes-adeus-meu-pai/): Continuo a vislumbrar o olhar que meu pai Me lançou, há tantos anos, lá da janela De onde morava. Eu realmente não vi com precisão Esse derradeiro olhar para mim. Era mais como um grito para dentro Que ele lançava. Meu nome talvez. Me acenou e foi o último acenar seu. Nessa despedida que eu […]
- [Raymond Carver - Um passeio](https://singularidadepoetica.art/2019/02/17/raymond-carver-um-passeio/): Saí para caminhar pelos trilhos do trem.Caminhei algum tempo por elese cheguei ao cemitério do povoado,onde um homem descansa entreduas esposas. Emily van der Zee,Mãe e Esposa Amada,está à direita de John van der Zee.Mary, a segunda senhora Van der Zee,também uma Esposa Amada, à sua esquerda.Primeiro Emily se foi, depois Mary.Anos mais tarde, foi […]
- [Ian Hamilton - A Tempestade](https://singularidadepoetica.art/2019/02/16/ian-hamilton-a-tempestade/): Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um ladoDo teu rosto, tua boca contraída, teu assustado.Voltas-te para mim e quando chamo, tu vensE ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tomeTua cabeça entre minhas mãos, como se fosseUma delicada tigela que a […]
- [Francisco Brines - Aquele verão de minha juventude](https://singularidadepoetica.art/2019/02/15/francisco-brines-aquele-verao-de-minha-juventude/): E o que restou daquele distante verãonas costas da Grécia?O que resta em mim do único verão de minha vida?Se pudesse escolher, de todos em que vivi,algum lugar, e o tempo que o ata,sua milagrosa companhia me arrasta até lá,onde ser feliz era a razão natural de existir. Perdura a experiência, como um quarto fechado […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Duas autotraduções"](https://singularidadepoetica.art/2019/02/14/paulo-henriques-britto-de-duas-autotraducoes/): (CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como […]
- [Joan Margarit - Amor e tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/13/joan-margarit-amor-e-tempo/): Lembras quando ainda desconheciasque a vida não teria piedade de ti?Amor e tempo: o tempo nos habitacomo a areia do rio que, lentamente,vai moldando a forma da margem.O amor, que refletiu em teu olharo esplendor da ilha do tesouro.Sensual, solitária, cercadapela sonora senectude do mare os gritos militares das gaivotas.O sonho clandestino dos cinquenta anos. […]
- [Manuel António Pina - As vozes](https://singularidadepoetica.art/2019/02/12/manuel-antonio-pina-as-vozes/): A infância vem pé ante pé sobe as escadas e bate à porta – Quem é? – É a mãe morta – São coisas passadas – Não é ninguém Tantas vozes fora de nós! E se somos nós quem está lá fora e bate à porta? E se nos fomos embora? E se ficamos sós?
- [William Soares dos Santos – A força do desejo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/11/william-soares-dos-santos-a-forca-do-desejo/): A força do desejo se desfaz tão logo se saciam as tensões ferozes do corpo e dos hemisférios e no destino dos braços do tempo os amantes se perdem em mistérios
- [Manuel Vilas - O último Elvis](https://singularidadepoetica.art/2019/02/10/manuel-vilas-o-ultimo-elvis/): Respeita sempre a decadência das mulherese dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amara vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.Respeita todos os sagrados e humildes naufrágiosdos seres humanos. Respeita aqueles que se suicidaram. Respeita aqueles que se […]
- [Walter Savage Landor - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2019/02/09/walter-savage-landor-epitafio-2/): Não lutei com ninguém; nada valia a lida.Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;As mãos, estas aqueci no fogo da vidaQue naufraga; estou pronto para o desate. Trad.: Nelson Santander Walter Savage Landor – Dying Speech of an Old Philosopher I strove with none, for none was worth my strife:Nature I loved, and, next […]
- [Giuseppe Ungaretti - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2019/02/08/giuseppe-ungaretti-in-memoriam/): Locvizza, 30 de setembro de 1916 Chamava-seMoammed Sceab Descendentede emires de nômadessuicidaporque não tinha maisPátria Amou a Françae mudou de nome Foi Marcelmas não era francêse já não sabiaviverna tenda dos seusonde se escuta a cantilenado Alcorãosaboreando um café E não sabiadesataro cantodo seu abandono Acompanhei-ojunto com a dona da pensãoonde vivíamosem Parisdo número 5 […]
- [Raymond Carver - Vocês não sabem o que é o amor (uma noite com Charles Bukowski)](https://singularidadepoetica.art/2019/02/07/raymond-carver-voces-nao-sabem-o-que-e-o-amor-uma-noite-com-charles-bukowski/): Vocês não sabem o que é o amor disse BukowskiEu tenho 51 anos e olhem pra mimestou apaixonado por essa garotaestou louco por ela mas ela também estáentão tudo bem cara é assim que deve serEu entro no sangue delas e elas não conseguem se livrarElas tentam de tudo pra se afastar de mimmas no […]
- [Wilfred Owen - Futilidade](https://singularidadepoetica.art/2019/02/05/wilfred-owen-futilidade/): Coloquem-no à luz do sol… Em casa Seu toque gentil o acordava com a lembrança De campos ainda por plantar… O sol o acordou sempre, até na França, Até chegarem a manhã de hoje e a neve que aí está. Se alguma coisa pode acorda-lo agora, Só o velho sol saberá. Lembrem que também acorda […]
- [Andreia C. Faria - "Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada"](https://singularidadepoetica.art/2019/02/04/andreia-c-faria-tenho-a-pedir-vos-que-nao-reutilizeis-mais-nada/): "Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada", um poema de Andreia C. Faria
- [Adam Zagajewski - Conversa com Friedrich Nietzsche](https://singularidadepoetica.art/2019/02/04/adam-zagajewski-conversa-com-friedrich-nietzsche/): “Conversa com Friedrich Nietzsche”, um poema de Adam Zagajewski que imagina um diálogo com o filósofo alemão para investigar algumas das questões mais profundas da existência humana.
- [Jorge Luis Borges - João 1,14](https://singularidadepoetica.art/2019/02/03/jorge-luis-borges-joao-114/): Não será menos enigmática esta páginaque as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetemas bocas ignorantes,por julgá-las de um homem, não espelhosobscuros do Espírito.Eu que sou o É, o Foi e o Serátorno a condescender com a linguagem,que é tempo sucessivo e emblema.Quem brinca com um menino brinca com algopróximo e misterioso;eu quis […]
- [Ian Hamilton - Despertar](https://singularidadepoetica.art/2019/02/02/ian-hamilton-despertar/): Sua cabeça, tão enferma, repousa junto à minha.Tão sensível. Você não consegue lembrarPor que está aqui, nem reconheceEstas mãos prestativas.Meu amor,O mundo nos encurrala. Estamos perdendo terreno. Trad.: Nelson Santander Awakening Your head, so sick, is leaning against mine,So sensible. You can’t rememberWhy you’re here, nor do you recognizeThese helping hands.My love,The world encircles us. […]
- [Manuel António Pina - Gare du Sud](https://singularidadepoetica.art/2019/02/01/manuel-antonio-pina-gare-du-sud/): Tudo o que temos pertence a outros, desconhecidos de nós, e ainda a outros, e temo-lo como se o perdêssemos ficando uma sombra, a nossa sombra. Estamos longe de casa e essa sombra é a única morada a que podemos acolher-nos. A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante; e se a ouvíssemos […]
- [José María Cumbreño - Identidade](https://singularidadepoetica.art/2019/01/31/jose-maria-cumbreno-identidade/): Durante anos, a roupa que usei foi herdada de meu irmão mais velho.Meu nome me foi dado em homenagem ao meu avô.O primeiro carro que conduzi era de segunda mão.A primeira mulher que me beijou já havia beijado outros.A casa em que habito é alugada.Tudo o que escrevo já foi escrito por alguém há muito […]
- [Billy Collins - As cadeiras em que ninguém se senta](https://singularidadepoetica.art/2019/01/30/billy-collins-as-cadeiras-em-que-ninguem-se-senta/): Vêem-se em varandas e em relvados mesmo à beira do lago, geralmente dispostas em pares indicando que um casal se poderá sentar ali e olhar para a água ou para as grandes árvores frondosas. O problema é que nunca se vê ninguém sentado nessas cadeiras abandonadas embora a dada altura deva ter parecido um bom […]
- [José Luis García Martín - Em algum lugar](https://singularidadepoetica.art/2019/01/29/jose-luis-garcia-martin-em-algum-lugar/): Logo, depois, mais tarde, quando nunca,meus passos se afastaram dos meus passose em algum lugar, não sei se dentro ou fora,ouviu-se uma voz que repetia um nome.Uma voz, apenas um eco, quase nada,talvez a voz do vento entre as árvoresonde árvores sequer existiam.Tremiam os alicerces da terraou seria eu quem tremia naquele instantequando um sol […]
- [Walter de la Mare - Os que ouviam](https://singularidadepoetica.art/2019/01/28/walter-de-la-mare-os-que-ouviam-2/): “Está aí alguém?”, disse o Viajante Batendo à porta de luar; A relva, chão de fetos da floresta, Pôs-se o cavalo a devorar. Sobre a cabeça do Viajante, um pássaro Voou da torre para além. E ele feriu a porta uma outra vez, Dizendo: “Está aí alguém?” Do peitoril da janela, ninguém Desceu até o […]
- [Joan Margarit - Pilhagem](https://singularidadepoetica.art/2021/11/20/joan-margarit-pilhagem-poema/): Hoje és outra.A morte, como um vento do deserto,sopra e abandona teu rostoressecado pela morfina.Passa uma andorinha com seu rápido vooe reluz ao cruzar a luz laranjada janela aberta de teu quarto.Talvez com teu voo também cheguesao claro terraço onde tua voz risonhaprateava o crepúsculo. Foste-te e só restaum corpo que uma pilhagem devastoue que […]
- [Joan Margarit - Mãe e filha](https://singularidadepoetica.art/2021/11/19/joan-margarit-mae-e-filha-poema/): Hoje tuas mãos são todo o passado dela:há trinta anos de amor no fundo de tuas palmas.Velaste-a durante toda a noite:deitas-te na cama ao lado dela,teu peito quente contra suas costas,seus cansados cabelos em teu rosto.Tu a abraças murmurando em seu ouvidoe, enquanto isso, a acaricias.São as últimas noites, e sentes o calorde seu esgotado […]
- [Joan Margarit - Água](https://singularidadepoetica.art/2021/11/18/joan-margarit-agua-poema/): Poderíamos falar da água ou da menina,porque a água e a menina permanecemjuntas na minha memória.A menina é a água, é a liberdadede um dorso que tem,sob a pele, a rigidez de um tirante.A ternura da água salvou suas pernas débeis:vejo novamente o azul das piscinasna temperatura de sua alma,tão distantes agora nos invernosque se […]
- [Joan Margarit - História natural](https://singularidadepoetica.art/2021/11/17/joan-margarit-historia-natural-poema/): Meu trato com a morte.Ouço-a colidir como uma moscana luz da vidraça, e posso vê-laascender ao céu vespertinoem seu sereno anil. Encontro como médico durante a protocolarvisita noturna.Não quero falar e concordo com tudo o que ele diz.Somos parte do fundo escurode uma pintura em que surgea janela iluminada deste quartoonde nossa Joana está chegando […]
- [Joan Margarit - Oceano Atlântico, 1956](https://singularidadepoetica.art/2021/11/16/joan-margarit-oceano-atlantico-1956-poema/): Preferia o mercante, sua solidão. Estavaenvolto em silêncio. Pareciaque navegava sem tripulação,e que o mar era um navio,maior ainda, de mármore, que o balançava.Era maravilhoso subir ao convés,entre caixas de bananas: o peso delasafundava o navio até a linha d’águaem meio às ondas como montanhas.O navio, às vezes, adernava:parecia atender a alguma voz do mar.Havia […]
- [Joan Margarit - A felicidade](https://singularidadepoetica.art/2021/11/15/joan-margarit-a-felicidade-poema/): O vento do norte varre o mar,prata plana perto da praiae agitada junto ao horizonte:é como se, com seu pincel, o ventopintasse um quadro da costa: o mar,o porto e aquela barraca solitáriaque abre todo inverno.As gaivotas planam e suas asasindiferentes e confiantesse adaptam às rajadas de ventocomo foices imóveis.Mas a noite tudo apagou:os postes […]
- [Joan Margarit - Sant Just, 2 de março de 2001](https://singularidadepoetica.art/2021/11/14/joan-margarit-sant-just-2-de-marco-de-2001-poema/): Suavemente, as rodas da cadeirate levam para casa. As nuvens violáceasacumulam-se atrás dos telhados.Todas te dizem coisas: tu, tímida, respondessorrindo, mas às vezescom um vazio dentro dos olhosque reflete a luz da tempestade. E a chuva começa a falar contigocomo uma mãe perigosa e acolhedora,pedindo de longe que regresses.Buscas — molhada, absorta — no umbralos […]
- [Joan Margarit - Pai e filha](https://singularidadepoetica.art/2021/11/13/joan-margarit-pai-e-filha-poema/): Diante das janelas que se abrem para o pátioele adormeceu na poltrona,ao lado do sofá onde ela descansava.O jovem rostoque a morfina havia endurecido,tinha aos poucos deixado seu sorrisono ontem que guardam os retratos.À noite, ele a carregou para o quarto,colocou-a para dormir e fechou as persianas. E se deu conta, diante do sofá vazio,de […]
- [Joan Margarit - Metrô Fontana](https://singularidadepoetica.art/2021/11/12/joan-margarit-metro-fontana-poema/): Começava a noite nas estreitasruas de Gràcia, todas com as luzesde natal mesclando-se à multidão.Dos bares repletos nos chegavamas vozes altas e alegres dos rapazes e das moças.Cercavam-nos sorridentes os casacos,os faróis e flashes de luz do comércio,os casais fugazes em suas motoscom os rostos ocultos pelo capacete.Via Joana por toda parte:surgia por toda parte […]
- [Joan Margarit - Manhã de domingo com a música de Lluís Claret](https://singularidadepoetica.art/2021/11/11/joan-margarit-manha-de-domingo-com-a-musica-de-lluis-claret-poema/): Na hospitalidade do sol de invernode domingos passados,estávamos muito tristes com o que desconhecias.Já os aplausos — como gostavas,tão séria, dos aplausos — cediamà peça solene de Berlioz.A viola — nunca o saberás — já eraa voz acolhedora da Morte. Lluís subiu ao palco comseu violoncelo. Não tarda o ouviremostocar a «Aria pastoral» de Bachpara […]
- [Joan Margarit - Às quatro da madrugada](https://singularidadepoetica.art/2021/11/10/joan-margarit-as-quatro-da-madrugada/): Uiva o primeiro cão, e imediatamentehá um eco em um pátio, outros ressoamao mesmo tempo em um único latido,acerbo, sem ritmo nenhum.Ladram com seus focinhos levantados.Oh, cães, de onde viestes?Que manhã me evoca vossa noturna queixa?Ouço como acossais o sonho de minha filhade vosso catre, em meio aos excrementoscom os quais demarcastes um territóriode becos, […]
- [Joan Margarit - Luzes de natal em Sant Just](https://singularidadepoetica.art/2021/11/09/joan-margarit-luzes-de-natal-em-sant-just-poema/): ILâmpadas tremeluzentes se iluminamcomo as lágrimas de alguém nas ruas.Encontro nosso pátio cinza e friosob este céu lilás do crepúsculoonde se desenham, negro e fino estampado,à contraluz, as folhas do loureiro.E tua mãe me diz:Tu e eu, algumas vezes, perdemos tudo.Tremeluzentes, as luzes nas ruas:todas se apagaram, de repente, por ti. IIHoje todas as cores […]
- [Joan Margarit - Amanhecer em Cádiz](https://singularidadepoetica.art/2021/11/08/joan-margarit-amanhecer-em-cadiz-poema/): Em frente ao hotel, o mar enevoado.As longas linhas da espuma cinzadesenham uma barreira de recifediante da balaustrada da praia.Ouvi teu nome pronunciado na línguado mar. E ele diz que estás partindo. Repetem-no as negras, solitárias cegonhasque em silêncio planam sobre a água.Nunca saberei o que sabes tu de mim,ou em que verdade estivemos juntos,ou […]
- [Joan Margarit - Riera Pahissa](https://singularidadepoetica.art/2021/11/07/joan-margarit-riera-pahissa-poema/): RIERA PAHISSA […] why abandon a belief merely because it ceases to be true?ROBERT FROST Deixava-te na entrada da escola,em frente ao estreito portão daquele muro que, encerrando a horta de um convento,seguia o leito seco de um riacho.Por uma pequena ponte de ferro com tábuascruzava-se a ravina sobre o brilhode algumas poucas poças como […]
- [Joan Margarit - Não há milagres](https://singularidadepoetica.art/2021/11/06/joan-margarit-nao-ha-milagres-poema/): Chovia preguiçosamente.Dezenove de outubro, nove da noite.Joana foi assustada para a sala de cirurgiaem nossa companhia.Quando entrou, ficamos esperandona sala mal iluminada ao lado dos elevadores.Contam que, em uma tentativade se salvar, ela disse um eu te amo ao cirurgião.Acreditávamos que uma fada poderia nos devolverJoana, calma, como sempre,com seus confiantes olhos cintilantes.Às onze, observamosas […]
- [Joan Margarit - Enquanto tu dormes](https://singularidadepoetica.art/2021/11/05/joan-margarit-enquanto-tu-dormes-poema/): Na praça tomada pela chuvaobservo a alta janela iluminadaque não quero perder: não hei de render-meà condenação da vida.Este lugar não mais pertence à cidade:uma praça vazia com a luzdo hospital refletindo nas poças.As portas automáticasse abrem de vez em quando e dão lugara uma obscura figura corriqueira.Muletas cruzam, invisíveis, a ruae se aproximam de […]
- [Pere Rovira - Oração para J. M. R.](https://singularidadepoetica.art/2021/11/04/pere-rovira-oracao-para-j-m-r-poema/): Música do amor, que te escondesem lugares escuros, doces, como rosas do jazz,ilumina o dia azul, espalha-te sob os pinheirose faz brilhar as flores, as paredes e a terra.Sê aquela água secreta que esperávamos,e, por um momento, devolve-nosa eterna criança que hoje abandonamosem poços invisíveis.Um pouco de um instante, para que nos ajudea não chorar […]
- [Joan Margarit - Joana (Prólogo)](https://singularidadepoetica.art/2021/11/03/joan-margarit-joana-prologo/): PRÓLOGO Do que sinto sobre o amanhã, o que mais se parece com uma certeza é que Joana e eu nunca mais voltaremos a nos ver. Quão diferente seria a vida se a morte fosse esperar muitos milhões de anos para podermos nos encontrar novamente, ainda que só por alguns breves instantes. Mas o abismo […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "Joana", de Joan Margarit](https://singularidadepoetica.art/2021/11/02/apresentacao-de-joana-de-joan-margarit-poema/): Em 16 de fevereiro deste ano, falecia, aos 82 anos de idade, vítima de um câncer, Juan Margarit I Consarnau, o grande poeta, arquiteto e catedrático catalão (foi professor da disciplina Cálculos Estruturais da Escola Superior de Arquitetura de Barcelona, de 1964 até sua aposentadoria, em 1998), vencedor do Prêmio Miguel de Cervantes (2019), dentre […]
- [Charles Simic - Igreja de madeira](https://singularidadepoetica.art/2021/10/30/charles-simic-igreja-de-madeira-poema/): É só uma choupana fechada com uma torreSob o céu de um verão escaldanteEm uma estrada secundária percorrida raramenteOnde as sombras de árvores grandesRoçam-se tranquilamente como forcas enfileiradas,E corvos privados de carniçaGrasnam uns com os outros sobre dias melhores. A congregação talvez ainda esteja em oração.Das fotos salpicadas, famílias de fazendeiros Enfileiradas com suas cabeças […]
- [Ada Limón – Mar aberto](https://singularidadepoetica.art/2021/10/26/ada-limon-mar-aberto-poema/): “Mar aberto”, um poema de Ada Limon que transforma uma lembrança de despedida em uma meditação delicada sobre perda, identidade e permanência.
- [Maggie Smith - Boa Base](https://singularidadepoetica.art/2021/10/24/maggie-smith-boa-estrutura-poema/): A vida é curta, embora eu esconda isso de meus filhos.A vida é curta, e eu encurtei a minhade mil maneiras deliciosas e imprudentes,mil maneiras deliciosamente imprudentesque esconderei dos meus filhos. O mundo é, no mínimo,cinquenta por cento terrível, e essa é uma estimativaconservadora, embora eu esconda isso de meus filhos.Para cada pássaro, há uma […]
- [Stephen Dobyns - Percepções](https://singularidadepoetica.art/2021/10/22/stephen-dobyns-percepcoes-poema/): O terrível desequilíbrio que ocorre com a idadequando você de repente vê que, de suas amizades, mais morreram do que restaram vivos. E que ocasionalmentesuas lembranças são tão reais que a morte mais recente pode-se tornar uma segunda morte menor. Todasaquelas conversas no meio de uma frase cessadas. Todos aqueles planos atirados na lixeira. O […]
- [Richard Brautigan – Buu, para sempre](https://singularidadepoetica.art/2021/10/20/richard-brautigan-buu-para-sempre-poema/): Girando como um fantasmana base de um pião,sou assombrado por todoespaço em quevou viver sem você. Trad.: Nelson Santander Boo, Forever Spinning like a ghoston the bottom of a top,I’m haunted by allthe space that Iwill live without you.
- [Daniel Jonas - Ossétia](https://singularidadepoetica.art/2021/10/18/daniel-jonas-ossetia-poema/): Ou como uma foto de Karpukhina Madonna ampara com o braço umdos lados do triânguloe deixa um derradeiro beijo escorrer por eleaté à cabeça mortado seu menino no catre. Uma cena difícil: a contençãodas sombras, do chiaroscuro,o profundo luto quando a lutacedeu a sua luz. De preto elaemoldurando a palidez do seu querido,o crânio envolto […]
- [W. S. Merwin – Juventude](https://singularidadepoetica.art/2021/10/16/w-s-merwin-juventude-poema/): Durante toda a juventude estive procurando por vocêsem saber o que eu procurava ou de como chama-la acho que eu nem mesmo sabia o que estava procurando como poderia reconhece-la quando a visse como fizvezes sem conta quando você apareceu para mim como apareceu nua oferecendo-seinteiramente naquele momento e deixou- me respira-la toca-la prova-la sabendonão […]
- [Jane Kenyon - A pera](https://singularidadepoetica.art/2021/10/14/jane-kenyon-a-pera-poema/): Há um momento na meia idadeem que você fica entediado, irritadopor sua mente medíocre, assustado. Neste dia, o solarde forte e brilhante,deixando-o mais desolado. Acontece sutilmente, como quando uma peraapodrece de dentro para fora,e você talvez não percebaaté que as coisas tenham ido longe demais. Trad.: Nelson Santander The Pear There is a moment in […]
- [Eavan Boland - E alma](https://singularidadepoetica.art/2021/10/12/eavan-boland-e-alma-poema/): Minha mãe morreu em um verão —o mais úmido nos registros do Estado.Safras apodreciam no oeste.Toalhas de mesa xadrez dissolviam-se nos jardins.Cadeiras de praia vazias recolhiam a chuva.Enquanto eu me dirigia até elano trânsito, por entre lilases que gotejavam sombriamenteatrás das casase nas calçadas, para prestar-lhea última homenagem de uma filha, pensei em algoque lembrei […]
- [Francisco Brines - Últimos dias](https://singularidadepoetica.art/2021/10/10/francisco-brines-ultimos-dias-poema/): Na herdade ele confina a memóriae o corpo que declina. Tudo morresobre este mundo vivo; e a laranjeira,e o voo do pombo, são traspassadospor um raio outonal de azul.Acompanham-lhe os livros; as caminhadastrazem até ele o odor de rosas abertas,e o suave abatimento dos dias.Ele ardeu na solidão, e agora escutaa primavera viva dos melros.Dias […]
- [Suzannah Evans - Um plano de contingência](https://singularidadepoetica.art/2021/10/08/suzannah-evans-um-plano-de-contingencia-poema/): E se estivermos separados quando chegar o asteroideou a tempestade magnética que colapsará a energia? Talvez você esteja então esperando por um trem enquanto a luz do solse extingue, bem acima dos painéis de vidro do telhado. Eu estarei no trabalho. Perderemos nossas linhas telefônicase o sistema da porta de entrada ficará maluco. Comerei da […]
- [Donald Hall - Afirmação](https://singularidadepoetica.art/2021/10/06/donald-hall-afirmacao-poema/): Envelhecer é perder tudo.Velhice, todos a conhecemos.Mesmo quando somos jovens,às vezes a vislumbramos, e acenamos-lhe com a cabeçaquando perdemos um avô.Depois remamos durante anos na lagoados verões plenos, ignorantes e satisfeitos. Mas um casamento,que começou sem causar danos, se dispersaem destroços na praiae um amigo da escola caiduro em uma costa rochosa.Se um novo amor […]
- [Camille Dungy – Deixe-me](https://singularidadepoetica.art/2021/10/04/camille-dungy-deixe-me-poema/): Deixe-me dizer-lhe, América, esta última coisa.Eu nunca vou deixar de sonhar o seu sonho.Eu tive um amante uma vez. Se é que podemos chama-lo assim.Dirigi-me até o apartamento dele em uma cidade distante,como aquela ursa perdida que vagueou até o nosso becono verão em que a fumaça das montanhas em chamasalterou nosso ar. Não sei […]
- [Mary Oliver - O martim-pescador](https://singularidadepoetica.art/2021/10/02/mary-oliver-o-martim-pescador-poema/): O martim-pescador surge da onda negracomo uma flor azul, em seu bicoele carrega uma folha prateada. Acredito ser esteo mundo mais bonito – desde que você não se importede morrer um pouco, como pode, em toda vida, haver um diaque não tenha sua gota de felicidade?Há mais peixes do que folhasem mil árvores, e, de […]
- [Luis Dolhnikoff – Samba](https://singularidadepoetica.art/2021/09/30/luis-dolhnikoff-samba-poema/)
- [Juan Vicente Piqueras - Palmeiras](https://singularidadepoetica.art/2021/09/28/juan-vicente-piqueras-palmeiras-poema/): Nascemos da sede. Somos palmeirasque crescem à força de perderseus ramos. Nossos troncos são feridas,cicatrizes que o vento e a luz dissipam,quando o tempo, o que faz e o que passa,ocupa o coração e dele faz um ninhode perdas, erigenele seu templo, sua áspera coluna. Por isso as palmeiras são alegrescomo os que sabem sofrer […]
- [Mark Wunderlich - O Deus do Nada](https://singularidadepoetica.art/2021/09/26/mark-wunderlich-o-deus-do-nada-poema/): Meu pai caiu do barco.Seu equilíbrio já era precário há algum tempo.Ele havia saído de barco com seu cachorro paracaçar patos em um pântano perto de Trempealeau, Wisconsin. Ninguém mais estava por pertosalvo o fazendeiro que raspava as calhas do curral das vacas,surdo de um dos ouvidos pelos anos em máquinas —e ele estava a […]
- [Ellen Bass - O importante é](https://singularidadepoetica.art/2021/09/24/ellen-bass-o-importante-e-poema/): O importante é amar a vida, ama-la mesmoquando você não tem estômago para issoe tudo o que você guardou afetuosamentese desfaz feito papel queimado em suas mãos,sua garganta repleta desse lodo.Quando a dor se senta ao seu lado, seu calor tropicalcondensando o ar, pesado como água, mais apto para guelras do que para pulmões;quando a […]
- [Abû Al‑Qâsim Ash‑Shâbbî - o coração do poeta](https://singularidadepoetica.art/2021/09/22/abu-alqasim-ashshabbi-o-coracao-do-poeta-poema/): tudo o que voa, trepa, se alça e plana sobre o Universoaves, flores, perfumes, fontes, ramos dobrados,mares, grutas, cumes, lugares habitados, vulcões, desertossombra e luz, noite e estações, nuvens, trovões,neve e bruma passageira, furacões, chuvas generosas,religião e ensinamentos, visões, sensações, silêncio e canto,tudo isso vive e mexe em meu coração: uma liberdadeirmã da sutil magia […]
- [Barbara Crooker - Vida comum](https://singularidadepoetica.art/2021/09/20/barbara-crooker-vida-comum/): Este foi um dia em que nada aconteceu,as crianças foram para a escolasem esquecer de seus livros, lanches, luvas.Por toda a manhã, o bebê e eu amontoamos pilhas de blocosno chão de ladrilhos iluminados.E ao almoço seguiu-se a hora da sesta,limpei os armários da cozinha,uma dessas tarefas que nunca realizamos,e me sentei em um círculo […]
- [Joan Margarit – Faróis na noite](https://singularidadepoetica.art/2021/09/18/joan-margarit-farois-na-noite/): Tento seduzir-te no passado.As mãos ao volante e esta luzde boate no painel me permitem– fantasia invernal – dançar contigo.Atrás de mim, como um grande caminhão,o amanhã fabrica explosões de luzes.Ninguém o conduz e ele me ultrapassa,mas agora tu e eu viajamos juntose a carruagem pode ser a dos cavalosdos anos sessenta para Paris.“Je ne […]
- [Czesław Miłosz – Elegia para N. N.](https://singularidadepoetica.art/2021/09/16/czeslaw-milosz-elegia-para-n-n-poema/): Diga-me se é muito longe para você.Você poderia vir sobre as ondas mansas do Bálticopassando pelos campos da Dinamarca, atravessando um bosque de faias,poderia se voltar para o oceano, e de lá, logo estaria emLabrador, branca nesta época do ano.E se você, que sonhava com uma ilha deserta,tivesse medo das cidades e das luzes piscando […]
- [David Ignatow - Para minha filha, em resposta a uma pergunta](https://singularidadepoetica.art/2021/09/14/david-ignatow-para-minha-filha-em-resposta-a-uma-pergunta-poema/): Não, não vamos morrer,vamos encontrar uma saída.Respiraremos profundamentee comeremos com cuidado.Pensaremos sempre na vida.Não nos desvaneceremos, nem eu nem você.Seremos os primeirose não riremos de nós mesmos jamaise seus filhos serão meus netos.Nada terá mudado,exceto por acréscimo.Nunca haverá outra como vocêe nunca outro como eu.Ninguém jamais a confundiránem me confundirá com outro.Nós não seremos esquecidos […]
- [Robinson Jeffers – Carmel Point](https://singularidadepoetica.art/2021/09/12/robinson-jeffers-carmel-point-poema/): A extraordinária paciência das coisas!Este belo lugar desfigurado por uma safra de casas suburbanas —Quão belo quando o vimos pela primeira vez,Um campo intacto de papoulas e tremoceiros cercado por límpidas falésias;Nenhuma intrusão, salvo dois ou três cavalos pastando,Ou algumas vacas leiteiras esfregando seus flancos nos afloramentos rochosos —Então chega o espoliador: elas se importam?Francamente, […]
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – Bessboro](https://singularidadepoetica.art/2021/09/10/eilean-ni-chuilleanain-bessboro-poema/): Eis o que herdei —Nunca foi minha própria vida,Mas o nome de uma casa que ouviE outros ouviram como advertênciaDo que poderia acontecer a uma garotaOusada e apanhada pela má-sorte:Um fragmento de um destinoDesolador, uma nota-marreta de medo — Mas eu nunca vi o lugar.Agora que estou em frente ao portãoE aquele tempo há muito […]
- [Miguel Martins - Para o meu pai](https://singularidadepoetica.art/2021/09/08/miguel-martins-para-o-meu-pai-poema/): Muito poucos foram os dias cuja acidez não tragaste do princípio ao fim,vinho branco retintado pela morte dos teus sonhos, um a um,e uma bola de fogo a crescer-te no estômago, uma inteireza brutal,virada do avesso, como se uma queda tão lenta, tão evidentementequeda, tão claramente desesperada do futuro, pudesse ser exemplopara quem nem sequer […]
- [Francisco Brines - Discurso pagão](https://singularidadepoetica.art/2021/09/06/francisco-brines-discurso-pagao-poema/): Achais, por acaso, que por crerdesna imortalidadeela vos deve ser dada?Ela é obra da fé, do egoísmoou da desolação.E, se existe, não importa não haverdes nela acreditado:respostas ignorantes são todas humanasse a morte interroga. Continuai com vossos faustosos ritos, oferendas aos deuses,ou grandes monumentos funerários,as acolhedoras preces, vossa esperança cega.Ou aceitai o vazio que virá,onde […]
- [Jane Hirshfield – Sopesagem](https://singularidadepoetica.art/2021/09/04/jane-hirshfield-sopesagem-poema/): As razões do coraçãovistas com clareza,inclusive as mais duras,carregarãosuas marcas de chicote e tristezase devem ser perdoadas. Como a elande famintapela seca que perdoao leão faminto pela secaque finalmente a arrebata,e entra em seguida de bom gradona vida que ela não pode recusar,e torna-se leão, está alimentada,e não se lembra da anterior. Tão poucos grãos […]
- [Marilyn Nelson – Mais rápido que a luz](https://singularidadepoetica.art/2021/09/02/marilyn-nelson-mais-rapido-que-a-luz/): Eu não queria pagar para estacionar meu carro,por isso peguei um táxi para a estação ferroviária.New London fica a uma hora de carro,mas aquela foi a melhor solução que pude encontrar.Depois de mais ou menos dez milhas de conversa fiadaem que acabei confessando meu ofício,o motorista disse que ele era um físico —Como hobby, ele […]
- [Régis Bonvicino - Suor](https://singularidadepoetica.art/2021/08/31/regis-bonvicino-suor/): O mar o mormaço o meio-diaum cão se delicianas ondas do marverde, a mata verde avançano rochedoo esqueleto de um peixena areia da praia a brisao que tenho a dizer?o que ela diz o rouco marulho das ondassime nada além de ser
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - A última vez de Casanova](https://singularidadepoetica.art/2021/08/29/jorge-valdes-diaz-velez-a-ultima-vez-de-casanova-poema/): Giacomo se envolve no crepúsculo do Florian Perguntas-me, Lesbia, quantos dos teus beijosseriam suficientes para me satisfazer.Catulo Enquanto beijo tua boca, docedonzela na conquista, mordoas comissuras de tua mãee os lábios que tuas irmãscedem ao peso do desejo;beijo as próximas mulheresdistantes e ainda desconhecidaspor minha cobiça, aquelasque um dia serão tu em outratu, que agora […]
- [Natalie Diaz – Meu irmão às 3 da manhã](https://singularidadepoetica.art/2021/08/27/natalie-diaz-meu-irmao-as-3-da-manha-poema/): Ele se sentou de pernas cruzadas, chorando nos degraus,quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente. Meu Deus, ele disse. Meu Deus. Ele quer me matar, mamãe. Quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente,às 3 da manhã, ela estava de camisola, e […]
- [Louise Glück - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2021/08/25/louise-gluck-aubade/): Hoje, acima do canto da gaivota,ouvi você me acordar novamentepara ver aquela ave, voandotão estranhamente sobre a cidade,não querendo parar, desejandoa desolação azul do mar — Agora ela contorna o subúrbio;contra si, a luz violenta do meio-dia: Eu sinto a fome delacomo sua mão dentro de mim, um gritotão comum, desafinado — O nosso não […]
- [Javier Salvago - Outra idade](https://singularidadepoetica.art/2021/08/23/javier-salvago-outra-idade-poema/): Já passou a idade de ser poetaporque tudo passa, é a lei da vida;embora eu continue, por dependência ou vício, falando a um pedaço de papel, a poesiajá não é mais minha pátria, nem meu território.Só regresso às vezes, de visita, como quem volta para onde foi feliz. Trad.: Nelson Santander Otra edad Se me […]
- [Dan Gerber – Frequentemente, imagino a terra](https://singularidadepoetica.art/2021/08/21/dan-gerber-frequentemente-poema/): Frequentemente, imagino a terracom o olhar dos átomos de que somos feitos —átomos, peculiaresátomos por toda parte —sem eu, sem você, sem opiniões,sem princípio, sem meio, sem fim,planando juntos como aquelesantigos pássaros chinesesnascidos milagrosamente com apenas uma asa,ajudando uns aos outros a voar para casa. Trad.: Nelson Santander Often I Imagine the Earth Often I […]
- [Dorianne Laux - Histórias de família](https://singularidadepoetica.art/2021/08/20/dorianne-laux-historias-de-familia/): Tive um namorado que me contava histórias sobre sua família,como a de certa vez em que uma discussão terminou quando seu paiagarrou um pedaço aceso de um bolo de aniversário com ambas as mãose o arremessou pela janela do segundo andar. Isso,eu pensava, era como uma família normal era: raivaenviada através do peitoril, aterrissando como […]
- [Sara Teasdale - Chuvas suaves chegarão](https://singularidadepoetica.art/2021/08/18/sara-teasdale-chegarao-chuvas-suaves-poema/): (Tempos de Guerra) Chuvas suaves chegarão e o cheiro de chão,E andorinhas revoando, seus rútilos sons; E sapos nos brejos cantarolando na noite,E ameixeiras silvestres em seu branco oscilante, Tordos trajarão incandescentes ornamentosTrinando seus caprichos em baixos tapamentos; E ninguém então saberá da guerra, ninguémSe importará quando ela terminar enfim. Ninguém se importaria, nem árvore […]
- [Linda Pastan - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2021/08/16/linda-pastan-elegia-poema/): Nosso último corniso se inclinasobre o solo da floresta oferecendo frutosaos pássaros, aos esquilos. É uma relíquiados dias em que os cornisos floresciam — renda natada em abril,leite derramado em maio — sua beleza delicadamas comum. Quando eu dava como certoque o mundo permaneceria como era, e eupermaneceria com ele. Trad.: Nelson Santander Mais do […]
- [Kirsten Dierking - Afortunada](https://singularidadepoetica.art/2021/08/14/kirsten-dierking-afortunada-poema/): Todo esse tempo,a vida que você deveria vivertem-se erguido ao seu redorcomo as paredes de uma casaprojetada com aconcheganteslinhas harmoniosas. Como se você realmente tivesseplanejado desta forma. Como se você tivesseempilhado tijolosao acaso,e criado por enganouma estrela da sorte. Trad.: Nelson Santander Lucky All this time,the life you weresupposed to livehas been rising around youlike […]
- [Denise Levertov - Conversando com a dor](https://singularidadepoetica.art/2021/08/12/denise-levertov-conversando-com-a-dor-poema/): Ah, dor, eu não deveria trata-la como um cão vira-latasque vem à porta dos fundospor uma migalha, por um osso descarnado.Eu deveria confiar em você. Eu deveria persuadi-laa entrar em casa e dar-lheo seu próprio canto,um tapete usado para se deitar,sua própria tigela de água. Você pensa que eu não sei que você está morandoembaixo […]
- [Juan Vicente Piqueras - A praga de Tebas](https://singularidadepoetica.art/2021/08/10/juan-vicente-piqueras-a-praga-de-tebas-poema/): A praga de Tebas E o que quer que eu faça se torna para sempre o que eu fiz.Wisława Szymborska Quando a tragédia começouo crime já havia sido cometido.A tragédia era, agora, descobrir o delitoe o culpado. Eu teria preferido a ignorância.Tu optaste por indagar contra ti. O passado é mais forteque Deus. Ninguém, nem […]
- [Joseph Stroud - Nós](https://singularidadepoetica.art/2021/08/08/joseph-stroud-nos-poema/): Tentando amarrar meus sapatos, desajeitado, incapaz de descobrira lógica disso, atrapalhado, enquanto meu pai fica ali,sua raiva crescendo por um filho que não consegue fazer nemessa coisa mais simples pela primeira vez, não consegue nem mesmo dar o nó para manter seus sapatos nos pés — Você acha que alguémvai amarrar seus sapatos para você […]
- [Jeannine Hall Gailey – Eu não paro](https://singularidadepoetica.art/2021/08/06/jeannine-hall-gailey-eu-nao-paro-poema/): Eu não paro De ser alguém que busca o lado escuro.Que procura as estatísticas criminais da Disneylândia.Que procura por monstros sob a cama.Além disso, não paro de tirar fotos de floresembora tenhamos nove meses de chuva.Não paro de me perguntar se os colibris daquiestão condenados, se os gansos-das-neves serão envenenadosem um abandonado lago de mina […]
- [David Budhill - O lenhador muda de ideia](https://singularidadepoetica.art/2021/08/04/david-budhill-o-lenhador-muda-de-ideia-poema/): Quando eu era jovem, cortei as árvores maiores e mais velhas para lenha, aquelaspodres em seu cerne, de galhos mortos e partidos, as mutiladas e deformadas porque, raciocinei, elas tombariam logo de qualquer forma, epor isso, eu deveria dar às mais jovens mais luz e espaço para vicejarem. Agora que estou velho derrubo as árvores […]
- [Ricardo Silvestrin – Sacos](https://singularidadepoetica.art/2021/08/02/ricardo-silvestrin-sacos-poema/): Estamos repletos de inutilidades,suas, minhas,inutilidades de família,de valor inestimável. Quinquilharias, ninharias,boiando no pó, atiradas em caixas,envelopes rasgados, gavetas. Ninguém se arrisca a botar foraesses tesouros de um reino perdidoentre os guardados. Em quantos sacos de lixo,sacos grandes de cem litros,vai caber todo o passado? Adquira outras obras de Ricardo Silvestrin clicando aqui
- [Lisel Mueller – Desenhos de criança](https://singularidadepoetica.art/2021/07/31/lisel-mueller-desenhos-de-crianca-poema/): 1 O sol pode estar visível ou não(pode estar atrás de você,o expectador dessas imagens)mas o céu é sempre azulse é dia. Se não,as estrelas estão quase ao seu alcance;inclinadas, elas chegam até você,na iminência de cair.Nunca é nascer ou pôr do sol;não há nenhum olho ensanguentadoespiando você no horizonte.É claramente dia ou noite,é brilhante […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Relógio do Rosário](https://singularidadepoetica.art/2021/07/29/carlos-drummond-de-andrade-relogio-do-rosario-poema/): Era tão claro o dia, mas a treva, do som baixando, em seu baixar me leva pelo âmago de tudo, e no mais fundo decifro o choro pânico do mundo, que se entrelaça no meu próprio choro, e compomos os dois um vasto coro. Oh dor individual, afrodisíaco sêlo gravado em plano dionisíaco, a desdobrar-se, […]
- [Joyce Carol Oates - Este não é um poema](https://singularidadepoetica.art/2021/07/27/joyce-carol-oates-este-nao-e-um-poema-poema/): Este não é um poema em que o poeta descobredelicados ossos branco-ressequidosde uma pequena criaturaem uma margem do Grande Lagoou os restos desidratadosdos mais grotescos atropelamentosao lado da apressada rodovia. Nem é um poema em queum espelho partido concebeuma face assustada,ou gramas secas sibi-lando como consoantesem uma língua estrangeira.Álbum de fotos de famíliarepleto de saudososestranhos […]
- [Miguel D'Ors – Variações sobre um tema de Stevens](https://singularidadepoetica.art/2021/07/25/miguel-dors-variacoes-sobre-um-tema-de-stevens-poema/): Não é o canto do melro:é o silêncioque nos deixa, um silêncioque é algo diferente do silêncioporque nele ainda soaa memória do cantodo melro. Nem silêncio,nem canto: o que ocorrequando o cantoterminae ainda não começou o silêncio.Podes chamar-lhe de alma. Trad.: Nelson Santander Variaciones sobre un tema de Stevens No es el canto del mirlo:es […]
- [Seamus Heaney - [Como todo mundo]](https://singularidadepoetica.art/2021/07/23/seamus-heaney-como-todo-mundo-poema/): Como todo mundo, inclinei minha cabeçadurante a consagração do pão e do vinho,elevei meus olhos para a hóstia e para o cálice levantados,acreditei (seja lá o que isso signifique) que uma mudança ocorrera. Fui ao genuflexório e recebi o mistérioem minha língua, voltei para o meu lugar, fechei meus olhos depressa,fiz um ato de ação […]
- [Pattiann Rogers – Perspectiva de alcance](https://singularidadepoetica.art/2021/07/21/pattiann-rogers-perspectiva-de-alcance-poema/): Lá em cima, longe desta estrada,Longe das partículas de geadaQue revestem a casca de cada gravanço,E do rijo inseto arqueiro em seu avançoNa escuridão da manhã, pata farpada por pata farpada,Subindo pela haste do trillium,Diretamente ao longo do céu sobre esta estrada agora,As galáxias do aglomerado de Cygnus AEstão colidindo umas com as outras em […]
- [Wendy Cope - Para minha irmã, emigrando](https://singularidadepoetica.art/2021/07/19/wendy-cope-para-minha-irma-emigrando-poema/): "Para minha irmã, emigrando", um poema de Wendy Cope que retrata a complexidade do vínculo entre irmãs diante da separação, usando objetos deixados para trás como símbolo de afeto contido, conflitos familiares e amor que só se revela plenamente na ausência.
- [Stephen Dunn - O não dito](https://singularidadepoetica.art/2021/07/17/stephen-dunn-o-nao-dito-poema/): Uma noite, ambos precisaram de coisas diferentesdo mesmo tipo; ela, de consolo; ele, ser consolado.Assim, depois de um jantar regado a vinho,quando eles chegaram em casa separadosno mesmo carro, cada um já havia falhado como outro com o que pareciaum insuportável atraso do que sentiam lhes ser devido.Consolo significava para ela ser compreendidatão bem que […]
- [Pádraig Ó Tuama – Como [não] ser sozinho](https://singularidadepoetica.art/2021/07/15/padraig-o-tuama-como-nao-ser-sozinho-poema/): Como não ser sozinho Tudo começa com a compreensãode que nada dura para sempre.Por isso, é melhor você começar a fazer as malas agora.Mas, nesse meio tempo,pratique estar vivo. Haverá uma festaem que você sentiráque ninguém está prestando atenção em você.E haverá outraem que atenção é tudo o que você receberá.O que você precisa fazeré […]
- [Stevie Smith – Sozinha na floresta](https://singularidadepoetica.art/2021/07/13/stevie-smith-sozinha-na-floresta-poema/): Sozinha na floresta, sentiA amarga hostilidade do céu e das árvoresA Natureza ensinou suas criaturas a odiar oHomem que ferve e fumegaInquieto homemComo a seiva sobe nas árvoresComo a seiva pinta as árvores de um verde violentoAssim cresce a ira das criaturas da NaturezaContra o homemAssim pinta-se a face da Natureza de um verde violento.A […]
- [Jennifer Maier - Uma história verdadeira](https://singularidadepoetica.art/2021/07/11/jennifer-maier-uma-historia-verdadeira-poema/): Um homem idoso estava morrendo em um hospital,contou-me um amigo médico. Estava com oitenta e nove anos, e a vida toda fora um alfaiate em uma lojaembaixo do quarto onde nasceu. Ele não tinha ninguém, então uma bondosa enfermeira de Ganasentou-se com ele, uma mão sobre a sua, segurando um sanduíche. As ondasno monitor desaceleraram. […]
- [Daniel Jonas - Roma](https://singularidadepoetica.art/2021/07/09/daniel-jonas-roma/): “Roma”, um poema de Daniel Jonas que converte a cidade eterna em metáfora da relação desfeita, onde a beleza persiste como ruína exposta ao tempo.
- [Karl Shapiro – Inverno na Califórnia](https://singularidadepoetica.art/2021/07/07/karl-shapiro-inverno-na-california-poema/): É inverno na Califórnia, e no exteriorÉ como o interior de uma floricultura:Uma fresca e úmida culturaDe camélias rosas delimita a vertente;E que raras rosas para um banquete ou um amor,Tão numerosas que semelham uma enchente! Uma fileira de lesmas cruza o verde gramadoDas roseiras ao canteiro de heras;Um composto arsênico é distribuído para elas;O […]
- [Philip Larkin - O cortador](https://singularidadepoetica.art/2021/07/05/philip-larkin-o-cortador-poema/): O cortador parou, duas vezes; ajoelhado, descubro Um ouriço preso entre as lâminas,Morto. Estava na grama crescida. Já o havia visto antes, e até o alimentara uma vez. Agora eu havia maltratado seu discreto mundo de forma Irremediável. O enterro não ajudou: Na manhã seguinte eu me levantei e ele não.No primeiro dia após a morte, a nova […]
- [Donizete Galvão - Não sabe](https://singularidadepoetica.art/2021/07/03/donizete-galvao-nao-sabe-poema/): O amor que não sabe morrerpersiste no olhar do cãoabandonado que,ao menor gesto,abana o rabona espera do afago.Está no vaso de plantaesquecido no sobradosem moradores. O amor que não sabe morrernão pretende tocar o céu.Quer ficar aqui mesmo –pedestre, incauto e reles.Não ouve a ladainha dos mortos.Nem quer a extrema-unção.
- [Maya Angelou – Quando as grandes árvores caem](https://singularidadepoetica.art/2021/07/01/maya-angelou-quando-as-grandes-arvores-caem-poema/): Quando as grandes árvores caem,rochas de colinas distantes estremecem,leões se escondemna relva alta,e até os elefantesarrastam-se em busca de segurança. Quando as grandes árvores caemna floresta,pequenas coisas recolhem-se ao silêncio,seus sentidoserodidos para além do medo. Quando grandes almas morrem,o ar ao nosso redor se tornaleve, raro, estéril.Nós respiramos, brevemente.Nossos olhos, brevemente,enxergam comuma dolorosa nitidez.Nossa memória, […]
- [Joyce Sutphen - Como acabamos juntos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/29/joyce-sutphen-como-acabamos-juntos-poema/): Ele era bom em uma emergência, calmono meio de uma tormenta. Acidentesnão o surpreendiam; ele estava sempre pronto para o que quer que surgisse. Vocêpodia contar com ele; você podia fazerum acordo que ele cumpriria, mesmo se você não pudesse. Os acordos dele eram impossíveis;os acordos dele eram feitos para você falhar,e ao falhar você […]
- [anatol knotek – how quickly things can change](https://singularidadepoetica.art/2021/06/27/anatol-knotek-how-quickly-things-can-change-poema/)
- [Eugénio de Andrade - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2021/06/25/eugenio-de-andrade-despedida/): Junho chegara ao fim, a magoada luz dos jacarandás, que me pousava nos ombros, era agora o que tinha para repartir contigo, e um coração desmantelado que só aos gatos servirá de abrigo
- [Daniel Filipe - A invenção do amor](https://singularidadepoetica.art/2021/06/23/daniel-filipe-a-invencao-do-amor-poema/): “A invenção do amor”, um poema de Daniel Filipe que transforma o gesto íntimo de amar em ato subversivo, expondo a violência dos sistemas que temem a liberdade mais simples: dois seres que se escolhem.
- [Billy Collins – Como se para demonstrar um eclipse](https://singularidadepoetica.art/2021/06/21/billy-collins-como-se-para-demonstrar-um-eclipse-poema/): Pego uma laranja de um cesto de vimee a coloco na mesapara representar o sol.Depois, na outra ponta,uma bola de gude azul e brancase torna a terra perto da qual eu coloco a pequena lua de uma aspirina. Pego uma taça no armário,abro uma garrafa de vinho,sento-me em uma cadeira de espaldar alto,um deus benevolente […]
- [Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894](https://singularidadepoetica.art/2021/06/19/joan-margarit-arcadi-volodos-sonata-d894-poema/): É uma música modestacomo um jantar na cozinha,hospitaleira como ter tido filhos.Compadece-se do corpoque a maré arrastaà praia invernal de cada um.Que franqueza nas notas mais abruptasdizendo-me: é amortambém aquilo que parece hostil.Quando se extingue o eco do piano,o que escutei ainda me estremece.A música de Schuberté uma forma de caridade. Trad.: Nelson Santander Arkadi […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Matzhevá](https://singularidadepoetica.art/2021/06/17/jorge-valdes-diaz-velez-matzheva-poema/): / Em um livro do meu pai, leioa frase: «A ti, que me lês».É o título de uma elegiaescrita há dois séculos, ou um soprode solitude que se elevouao leitor imaginário de fora dos círculos do tempo.Essa linha guarda em cada sílabaa fresca impressão de sua veemência:ser uma semente indócil em algum dialimítrofe ao de agora, […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Os mortos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/15/carlos-drummond-de-andrade-os-mortos-poema/): Na ambígua intimidade que nos concedem podemos andar nus diante de seus retratos. Não reprovam nem sorriem como se neles a nudez fosse maior. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Jane Routh — Um lugar](https://singularidadepoetica.art/2021/06/13/jane-routh-um-lugar-poema/): Quando você viveu toda sua vida adulta em um só lugar,você derrubou árvores. Você as plantou muito próximasou bloqueavam a visão ou algumas adoeceram. Como nós, elas crescem até os vinte anos, e depois engrossam. Isso se aplicaaos freixos e às bétulas, mas não aos carvalhos: eles sãoatrofiados. Você nunca sabe a forma que um […]
- [Ana Martins Marques - Relâmpagos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/12/ana-martins-marques-relampagos/): O pensamento é um pornógrafo e quase só de palavras se faz o amor e no entanto não se embaraça o pensamento com os cabelos como os meus cabelos se embaraçavam nos seus e não se misturam as palavras com as palavras como na boca a saliva se mistura com a saliva nem as […]
- [Louis Jenkins - O casal](https://singularidadepoetica.art/2021/06/11/louis-jenkins-o-casal-poema/): Eles já não dormem tão bem comoquando eram jovens. Ele fica desperto pensandoem coisas que aconteceram anos atrás, virandodesconfortavelmente de vez em quando, puxando ocobertor. Ela se preocupa com dinheiro. Primeiro ume depois o outro ficam ambos acordados durante a noite,em turnos como se estivessem de guarda, embora não consigamver muito no escuro e esteja […]
- [Ada Limón – O ano dos pintassilgos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/09/ada-limon-o-ano-dos-pintassilgos-poema/): Eram dois pendendo e pairando próximosda poça de lama e do cardo almiscarado.Esvoaçando de um poste partidopara outro, banhando-se no reflexo da água da chuvacomo se fosse um espelho para algum outro universoonde as coisas fossem mais aceitáveis, mais fáceisdo que no lugar onde eu vivia. Eu os observaria:o exibido macho brilhante, a mirradafêmea, em […]
- [Wendell Berry - Tudo de que precisamos está aqui](https://singularidadepoetica.art/2021/06/07/wendell-berry-aquilo-de-que-precisamos-esta-aqui-poema/): Gansos surgem bem acima de nós,passam, e o céu se fecha. O abandono,como no amor ou no sono, os mantémno seu caminho, clarona antiga fé: tudo de que precisamosestá aqui. E oramos, nãopor uma terra ou um céu novos, mas para termoscalma no coração, e no olhar,clareza. Tudo de que precisamos está aqui. Trad.: Nelson […]
- [Lisel Mueller - Coisas](https://singularidadepoetica.art/2021/06/05/lisel-mueller-coisas-poema/): O que aconteceu é que nos sentimos solitáriosvivendo entre as coisas,por isso demos ao relógio um rosto,à cadeira um encosto,à mesa quatro pernas robustasque jamais sofrerão fadiga. Calçamos nossos sapatos que têm línguastão macias quanto as nossase penduramos linguetas dentro dos sinospara podermos ouvirsua linguagem emocional, e porque adoramos perfis elegantesa jarra recebeu boca,a garrafa […]
- [Noël Coward - Nada se perde](https://singularidadepoetica.art/2021/06/03/noel-coward-nada-esta-perdido-poema/): No fundo do nosso subconsciente, nos é dito,Repousam todas as nossas memórias, todas as notasDe toda música que já ouvimos,E o que disseram os que amamos, cada frase pronunciada,Tristezas e perdas que desde então o tempo tem consolado,Piadas de família, caquéticas anedotasCada souvenir sentimental e cadaSímbolo de tudo o que já vimos e vivemos,Cada palavra […]
- [Claudia Rankine - Intempérie](https://singularidadepoetica.art/2021/06/01/claudia-rankine-intemperie-poema/): Em um pedaço do papel no arquivo está escritoesqueci minha sombrinha. Acontece queem uma pandemia todos, não só o filósofo,estamos sem uma. Nós batalhamos na seca de informaçõesretidas por investidores privilegiados. Gota a gota. Protegendoo rosto? Sim. Distanciamento social? Sete palmossob a terra por condições subjacentes. Pretos.Apenas nós e os azuis ajoelhados em um pescoçocom […]
- [R S Thomas - Charneca](https://singularidadepoetica.art/2021/05/30/r-s-thomas-charneca-poema/): É bela e calma; o ar rarefeitocomo o interior de uma catedral esperando uma presença. É também onde ocorre o tartaranhão,materializando-se do nada, neve- suave, mas com garras de fogo, […]
- [Antonio Cicero - O livro de sombras de Luciano Figueiredo](https://singularidadepoetica.art/2021/05/28/antonio-cicero-o-livro-de-sombras-de-luciano-figueiredo-poema/): O livro de sombras de Luciano Figueiredo 1 Para onde vou, de onde vim? Não sei se me acho ou me extravio. Ariadne não fia o seu fio à frente, mas sim atrás de mim. Não será a saída um desvio e o caminho o verdadeiro fim ? 2 Não é hora de regressos Não […]
- [Jane Hirshfield – Hoje, outro universo](https://singularidadepoetica.art/2021/05/26/jane-hirshfield-hoje-outro-universo-poema/): O arborista determinou:senescência pragas cancroacelerado pela seca| mas, em qualquer caso,não podável não tratável não passível de escoras. E assim. O ramo de onde gritam o gavião-miúdo e […]
- [Ahmad 'Abd al-Mu'ti Hijazi - Morte súbita](https://singularidadepoetica.art/2021/05/24/ahmad-abd-al-muti-hijazi-morte-subita-poema/): trago comigo o meu número de telefoneo meu nome e endereçoe assim se de súbito cair mortopodereis identificar-mee meus amigos virão Fancy, aconteça o que acontecernão venhas.ficarei na morgue duas longas noitesfrios fios de telefone agitar-se-ão na noite.a campainha começará.sem resposta… uma vez… duas. alguém irá ter com a minha mãee lhe dirá que eu […]
- [José Saramago - Ouvindo Beethoven](https://singularidadepoetica.art/2017/09/11/jose-saramago-ouvindo-beethoven/): Venham leis e homens de balanças, Mandamentos daquém e dalém mundo, Venham ordens, decretos e vinganças, Desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos todos da cidade, Brilhe, vermelha, a luz inquisidora, Risquem no chão os dentes da vaidade E mandem que os lavemos a vassoura. A quantas mãos existam, peçam dedos, Para […]
- [Fernando Moreira Salles - Legado](https://singularidadepoetica.art/2017/09/10/fernando-moreira-salles-legado/): Não há dor partilhável nem lamento que se ouça É pequeno o destino do teu sonho e do meu Se alguém te viu passar se o caminho te pertence segue e sorri
- [Ana Martins Marques - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2017/09/09/ana-martins-marques-interiores/): AÇUCAREIRO De amargo basta o amor Agridoce, ela disse Mas a mim pareceu amargo CADEIRA I Repetes diariamente os gestos do primeiro homem que se sentou numa tarde quente olhando as savanas II Pouso de gigantescos pássaros cansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesa essas doces evidências da morte? CRISTALEIRA Guarda e […]
- [Ana Martins Marques - entre a casa/ e o acaso,](https://singularidadepoetica.art/2017/09/08/ana-martins-marques-entre-a-casa-e-o-acaso/): entre a casa e o acaso entre a jura e os jogos entre a volta e as voltas a morada e o mar penélopes e circes entre a ilha e o ir-se
- [Gregório de Matos - Nasce o Sol e Não Dura mais que um Dia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/07/gregorio-de-matos-nasce-o-sol-e-nao-dura-mais-que-um-dia/): Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se formosa a Luz é, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto […]
- [Paulo Nunes - A um antianjo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/06/paulo-nunes-a-um-antianjo/): Em memória de Júlio Caixeta A mais longa distância que pode haver, esta que agora vai dos teus pés ao chão, não te fez mais leve: foi o mundo e nossas vidas que se soltaram.
- [Eucanaã Ferraz - De "Orelhas" (1)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/05/eucanaa-ferraz-de-orelhas-1/): Estão certas todas as canções banais letras convencionais seus corações como são de praxe; estão certos os poemas enfáticos inchados de artifícios à luz óbvia da lua ou de estúpidos crepúsculos; os sonetos mal alinhavados toscos estão certos bem como as confissões íntimas não lapidadas reles nem polidas; ouçamos o que dizem sobre qualquer coisa; […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/09/04/mia-couto-o-espelho/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me, a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mia Couto - A Luz da Dor](https://singularidadepoetica.art/2017/09/03/mia-couto-a-luz-da-dor/): O meu modo de saber é adoecendo. A uns, a ideia surge em luz. A mim, se declara uma pontada no peito. O advento da dor, o deflagrar da súbita febre e eu sei que o meu corpo sabe. Um dia destes me desconhecerei vivo desfalecido de aguda sapiência. Até lá repartirei com um anjo […]
- [Armando Freitas Filho - Escritor, Escritório](https://singularidadepoetica.art/2017/09/02/armando-freitas-filho-escritor-escritorio/): Não transponho Camões, mas me empenho. Não atravesso seu mar manuscrito porque me afogo na incompreensão no enfado, no palavreado castiço na análise sintática dos seus versos onde erro na prova urgente, aflita sem ouvi-los soar na página a pleno de difícil lida, da ilimitada luta na travessia da linha, da estrofe empolgante, empolada, que […]
- [Armando Freitas Filho - Antiquário](https://singularidadepoetica.art/2017/09/01/armando-freitas-filho-antiquario/): Mil folhas. Mesmo em algumas das mais passadas, um pouco do sabor, um risco de doçura e amargo, é remanescente. Anamnésia construída pelo fato e pela imaginação: vai do anátema ao enaltecimento, expressos em alta voz até ao murmúrio cifrado no coração. O acervo de uma vida se dispersará depois de ela parar: alguma coisa […]
- [W. H. Auden - Aquele que Ama Mais](https://singularidadepoetica.art/2017/08/28/w-h-auden-aquele-que-ama-mais/): Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais […]
- [Ricardo Silvestrin - Bilhete](https://singularidadepoetica.art/2017/08/26/ricardo-silvestrin-bilhete/): Não me parecias frágil, via-te doce. Talvez fosses mesmo forte, é preciso ser valente pra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo. Que rio obscuro e discreto te puxava para o fundo, sem saber nadar, sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta, um poema, um bilhete de suicida. Como se quisesses dizer que […]
- [Jaime Sabines - Te Amo às Dez da Manhã](https://singularidadepoetica.art/2017/08/10/jaime-sabines-te-amo-as-dez-da-manha/): Te amo às dez da manhã, e às onze, e ao meio-dia. Te amo com toda a minha alma e com todo o meu corpo, às vezes, em tardes chuvosas. Mas às duas da tarde, ou às três, quando eu me perco em pensar em nós dois, e tu pensas em comida ou nas tarefas […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Meio-dia](https://singularidadepoetica.art/2017/08/09/sophia-de-mello-breyner-andresen-meio-dia/): Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém. O sol no alto, fundo, enorme, aberto, Tornou o céu de todo o deus deserto. A luz cai implacável como um castigo. Não há fantasmas nem alvas, E o mar imenso solitário e antigo, Parece bater palmas.
- [Paul Auster - Fragmento de Frio](https://singularidadepoetica.art/2017/08/08/paul-auster-fragmento-de-frio/): Porque ficamos cegos no dia que se esvai conosco, e porque vimos nossa respiração nublar o espelho de ar, o olho do ar vai se abrir para nada mais que a palavra a que renunciamos: o inverno terá sido lugar de madureza. Nós que viramos os mortos de uma vida que não a nossa. Trad.: […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/08/07/alice-ruiz/): noite gelada a cidade toda coberta denso nevoeiro
- [Zulmira Ribeiro Tavares - Após o inverno](https://singularidadepoetica.art/2017/08/06/zulmira-ribeiro-tavares-apos-o-inverno-poema/): Desarrumação em setembro. O vento batendo as portas e a floração rebentando nas cercas vivas. O céu por vezes de terracota bem acima das cabeças, mas também finas agulhas de gelo imiscuindo-se pelas frinchas, noite alta. Era em São Paulo. Então se entende: o mato bravo torcido pela chuva, o prédio em demolição pingando água […]
- [Rainer Maria Rilke - Hora Grave](https://singularidadepoetica.art/2017/08/04/rainer-maria-rilke-hora-grave/): Quem agora chora em algum lugar do mundo, Sem razão chora no mundo, Chora por mim. Quem agora ri em algum lugar na noite, Sem razão ri dentro da noite, Ri-se de mim. Quem agora caminha em algum lugar no mundo, Sem razão caminha no mundo, Vem a mim. Quem agora morre em algum lugar […]
- [Rainer Maria Rilke - O Mundo Estava no Rosto da Amada](https://singularidadepoetica.art/2017/08/03/rainer-maria-rilke-o-mundo-estava-no-rosto-da-amada/): O mundo estava no rosto da amada – e logo converteu-se em nada, em mundo fora do alcance, mundo-além. Por que não o bebi quando o encontrei no rosto amado, um mundo à mão, ali, aroma em minha boca, eu só seu rei? Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi. Mas eu também estava […]
- [Wislawa Szymborska - Engano](https://singularidadepoetica.art/2017/08/02/wislawa-szymborska-engano/): Soou o telefone na galeria de arte, soou à meia-noite na sala quieta; se houvesse gente dormindo, acordaria na certa, mas aqui há somente insones profetas, somente reis empalidecem de luar e olham indiferentes o que há para olhar, e a mulher do usurário, agitada na aparência, fita justo essa coisa sonante na lareira, mas […]
- [Paulo Henriques Britto - Envoi](https://singularidadepoetica.art/2017/08/01/paulo-henriques-britto-envoi/): O tempo, que a tudo distorce, às vezes alisa, conserta, e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morse de instantes sem rumo e roteiro então dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquiva a gente retoca e remenda até ser coisa que se entenda, mas algo que na […]
- [Wislawa Szymborska - As três Palavras mais Estranhas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/31/wislawa-szymborska-as-tres-palavras-mais-estranhas/): Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já se perde no passado. Quando pronuncio a palavra Silêncio, suprimo-o. Quando pronuncio a palavra Nada, crio algo que não cabe em nenhum não ser. Trad.: Regina Przybycien
- [Paulo Henriques Britto - Três Peças Dispépticas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/30/paulo-henriques-britto-tres-pecas-dispepticas/): I É aqui mesmo, sim. Você era esperado. E por falar nisso, chegou atrasado. Não peça desculpas: não adianta nada. O atraso será contabilizado. Não há a menor dúvida; é este o endereço. Mas fique sabendo: tudo aqui tem preço. Não esteja à vontade. A casa não é sua. E se não gostar, por ali […]
- [Wislawa Szymborska - Entre Muitos](https://singularidadepoetica.art/2017/07/29/wislawa-szymborska-entre-muitos/): Sou quem sou. Inconcebível acaso como todos os acasos Fossem outros os meus antepassados e de outro ninho eu voaria ou de sob outro tronco coberta de escamas eu rastejaria. No guarda-roupa da natureza há trajes de sobra. O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo. Cada um cai como uma luva e […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/28/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-3/): IV Acrescentar ao mundo um morto a mais é só o que a vida garante. O resto é risco, é vai da valsa. Tanto faz improvisar ou decorar o texto, ser pedra ou imitar os animais, correr atrás de lucro ou prejuízo. Dá no que der. E, seja lá o que for, terá sido o […]
- [Wislawa Szymborska - Fim e Começo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/27/wislawa-szymborska-fim-e-comeco/): Depois de cada guerraalguém tem que fazer a faxina.Colocar uma certa ordemque afinal não se faz sozinha. Alguém tem que jogar o entulhopara o lado da estradapara que possam passaros carros carregando os corpos. Alguém tem que se atolarno lodo e nas cinzasem molas de sofásem cacos de vidroe em trapos ensanguentados. Alguém tem que […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/26/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-3/): V Súbito? Não. A coisa morre à míngua, um risco vira traço e o traço, ponto. Por exemplo: uma manhã de domingo, a mesa posta pro café, tudo pronto pra não se fazer nada – ou então a noite de uma terça-feira inane, sob o quebranto da televisão – mas isso não importa; que se […]
- [Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”](https://singularidadepoetica.art/2017/07/23/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-2/): IV Até onde a vista alcança é real todo o visível. Como dançarina e dança formam um todo indistinguível, assim também não há esperança de se atingir algum nível em que uma e outra substância se separem, dando alívio à consciência inquietante de que no próximo instante o erro vai ser dissipado. Não vai. O […]
- [Wislawa Szymborska - Ocaso do Século](https://singularidadepoetica.art/2017/07/20/wislawa-szymborska-ocaso-do-seculo/): Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX. Agora já não tem mais jeito, os anos estão contados, os passos vacilantes, a respiração curta. Coisas demais aconteceram, que não eram para acontecer, e o que era para ter sido não foi. Era para se chegar à primavera e à felicidade, entre […]
- [Mario Quintana - O Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/15/mario-quintana-o-tempo/): A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal… Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora […]
- [Ch'ang Wu Chien - Poema Chinês do Século VIII](https://singularidadepoetica.art/2017/07/14/chang-wu-chien-poema-chines-do-seculo-viii/): Praguejei contra a chuva Que tamborilando no telhado Não me deixou dormir. Praguejei contra o vento Que destruía todo o jardim. Mas você chegou de surpresa E agradeci à tempestade Que te fez despir A roupa molhada. Agradeci à ventania Por ter soprado, Apagado a vela. via Carlito Azevedo (https://www.facebook.com/profile.php?id=100007266525928)
- [Cacaso – Jogos Florais](https://singularidadepoetica.art/2017/07/05/cacaso-jogos-florais/): I Minha terra tem palmeiras onde canta o tico-tico. Enquanto isso o sabiá vive comendo o meu fubá. Ficou moderno o Brasil ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre. II Minha terra tem Palmares memória cala-te já. Peço licença poética Belém capital Pará. Bem, meus prezados senhores dado o […]
- [Armando Freitas Filho - Sibilante](https://singularidadepoetica.art/2017/07/03/armando-freitas-filho-sibilante/): Cego aço doce corte de navalha ou de folha de papel: só sangra bem depois da ação, da posse do sentido e sentimento que o amor concede não isento do ciúme.
- [Wislawa Szymborska - Amor à Primeira Vista](https://singularidadepoetica.art/2017/07/02/wislawa-szymborska-amor-a-primeira-vista/): Ambos estão certos de que uma paixão súbita os uniu. É bela esta certeza, mas é ainda mais bela a incerteza. Acham que por não terem se encontrado antes nunca havia se passado nada entre eles. Mas e as ruas, escadas, corredores nos quais há muito talvez se tenham cruzado? Queria lhes perguntar, se não […]
- [Eucanaã Ferraz - Sob a luz feroz do teu rosto](https://singularidadepoetica.art/2017/07/01/eucanaa-ferraz-sob-a-luz-feroz-do-teu-rosto/): “Sob a luz feroz do teu rosto”, um poema de Eucanaã Ferraz que transforma o amor impossível em metáfora selvagem: amar é desejar o que não pode ser tocado sem risco ou recusa.
- [Nelson Santander - Postudo (pós-"Pós-Tudo", Augusto de Campos e Os Hawaianos)](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/nelson-santander-postudo-poema/): Postudo, de Nelson Santander, paródia do famoso Pós-Tudo, de Augusto de Campos, atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Augusto de Campos - Pós-Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/augusto-de-campos-pos-tudo/)
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2017/06/16/jorge-luis-borges-labirinto/): Não haverá uma porta. Já estás dentro, Mas o alcácer abarca o universo E não tem nem anverso nem reverso Nem muro externo nem secreto centro. Não penses que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro o teu destino Como […]
- [Francis J. Quirós - Efêmero](https://singularidadepoetica.art/2017/06/05/efimero/): Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia: […]
- [Vinicius de Moraes - O poeta Hart Crane suicida-se no mar](https://singularidadepoetica.art/2017/05/23/vinicius-de-moraes-o-poeta-hart-crane-suicida-se-no-mar/): Quando mergulhaste na água Não sentiste como é fria Como é fria assim na noite Como é fria, como é fria? E ao teu medo que por certo Te acordou da nostalgia (Essa incrível nostalgia Dos que vivem no deserto…) Que te disse a Poesia? Que te disse a Poesia Quando Vênus que luzia No […]
- [Carlos Rennó - O Momento](https://singularidadepoetica.art/2017/05/15/carlos-renno-o-momento/): Tem um momento (que de todos é diverso) Em que você se une ao todo, ao universo O tempo então congela (feito lá no pólo) Seu ego some, seu eu ergue-se do solo E sai voando entre as estrelas na amplidão Você se torna uma delas na explosão Dentro de si você vê uma […]
- [Bill Knott - Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/05/09/bill-knott-morte/): Morte Perto de dormir, cruzo as mãos sobre o peito. Colocarão minhas mãos assim. Parecerá que estou a voar para dentro de mim mesmo. Death Going to sleep, I cross my hands on my chest. They will place my hands like this. It will look as though I am flying into myself. Trad.: Antonio Cicero […]
- [Abel Silva - Navegações](https://singularidadepoetica.art/2017/05/07/abel-silva-navegacoes/): Minha casa está calma, eu é que sou turbulento, o país navega, dizem, eu é que me arrebento eu é que sempre invento toda esta ventania eu é que não me contento com o rumo da romaria não sei se a sorte é cega ou eu que vivo a teimar: sei que eu sou o […]
- [Hilda Hilst - Roteiro do Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/05/03/roteiro-do-silencio/): Não há silêncio bastantePara o meu silêncio.Nas prisões e nos conventosNas igrejas e na noiteNão há silêncio bastantePara o meu silêncio.Os amantes no quarto.Os ratos no muro.A meninaNos longos corredores do colégio.Todos os cães perdidosPelos quais tenho sofrido:O meu silêncio é maiorQue toda solidão.E que todo silêncio.
- [Nelson Santander - Que a Terra lhe seja Leve](https://singularidadepoetica.art/2017/04/30/nelson-santander-que-a-terra-lhe-seja-leve/): "Que a terra lhe seja leve", uma crônica de Nelson Santander
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Gregorianos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/10/carlos-drummond-de-andrade-os-gregorianos/): Um amigo que tem consciência exacerbada do tempo confia-me que, depois de certo ponto (ele não usa a palavra idade), a vida já não oferece acontecimentos, e sim comemorações. — Por mais que o sujeito faça, não consegue realmente mover-se. Fica parado diante de formas movediças, como naquele romance do Zé Lins do Rego, que […]
- [Philip Larkin - Conversar na Cama](https://singularidadepoetica.art/2017/04/09/philip-larkin-conversar-na-cama/): Conversar na cama devia ser mais fácil Dois deitados juntos — é desde há muito Um símbolo de duas pessoas sendo francas. Ainda que mais e mais tempo passe em silêncio. Lá fora, a intérmina inquietação do vento Amontoa e dispersa nuvens pelo céu. E cidades escuras se empilham no horizonte. Nada disso se importa […]
- [Philip Larkin - A Primeira Coisa](https://singularidadepoetica.art/2017/04/08/philip-larkin-a-primeira-coisa/): A primeira coisa Que entendi foi esta: Tempo é o eco de um machado Dentro da floresta. Trad.: Luiz Roberto Guedes
- [Philip Larkin - A Igreja Indo-se...](https://singularidadepoetica.art/2017/04/06/philip-larkin-a-igreja-indo-se/): Quando estou certo de que nada está ocorrendo, Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta. Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dos Livrinhos; as juncadas secas, que se cortam Para o domingo; bronze e objetos a cobrir o Altar; um órgão impecável e pequeno; Silêncio tenso, de bolor, que […]
- [T. S. Eliot - Os Homens Ocos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/04/t-s-eliot-os-homens-ocos/): “A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada, […]
- [Álvaro de Campos - Poema em Linha Reta](https://singularidadepoetica.art/2017/04/03/alvaro-de-campos-poema-em-linha-reta/): Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado […]
- [José Saramago - Não me Peçam Razões](https://singularidadepoetica.art/2017/04/02/jose-saramago-nao-me-pecam-razoes-poema/): Não me peçam razões… Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos. Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não […]
- [Fernando Pessoa - Autopsicografia](https://singularidadepoetica.art/2017/04/01/fernando-pessoa-autopsicografia/): O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a […]
- [Joaquim Cardozo - Canção Elegíaca](https://singularidadepoetica.art/2017/03/29/joaquim-cardozo-cancao-elegiaca/): Quando os teus olhos fecharem Para o esplendor deste mundo, Num chão de cinza e fadigas Hei de ficar de joelhos; Quando os teus olhos fecharem Hão de murchar as espigas, Hão de cegar os espelhos. Quando os teus olhos fecharem E as tuas mãos repousarem No peito frio e deserto, Hão de morrer as […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Luis Mauricio, Infante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/28/carlos-drummond-de-andrade-a-luis-mauricio-infante/): Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo, se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho. Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário? Os olhos se […]
- [Neil Gaiman - A Escuridão Está à Espera](https://singularidadepoetica.art/2017/03/27/neil-gaiman-a-escuridao-esta-a-espera/): a chama vermelha bruxuleante no muro da caverna pintada de ocre, corante, carvão vegetal fazendo o alce se mover, fazendo o mastodonte respirar fazendo o caçador correr e matar. veja como procuram apaziguar e entender o mundo acima isso eles sabem isso eles entendem há escuridão por toda a parte lá fora o escuro está […]
- [Angela Melim - Meu pai nos abandonou](https://singularidadepoetica.art/2017/03/26/angela-melim-meu-pai-nos-abandonou/): Meu pai nos abandonou. Minha mãe casou e mudou. Vovó morreu. Os irmãos sumiram no mundo ou submundo. Sem explicação Yvonne nunca mais falou comigo e, para Ronaldo, sou fantasma do passado. Vejo meus filhos já voando. Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html
- [Luiz Olavo Fontes - Meu Amor de Soslaio](https://singularidadepoetica.art/2017/03/25/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio/): Faz tanto calor no Rio de Janeiro que é bom sentir essa neve partir de seu olhar in http://antoniocicero.blogspot.com.br/2008/07/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio.html
- [Emily Dickinson - Dizem que "O Tempo Consola"](https://singularidadepoetica.art/2017/03/22/emily-dickinson-dizem-que-o-tempo-consola/): Dizem que “O Tempo consola” — Mas não — na realidade, A vera dor, como um Tendão, Se fortalece, com a idade — O Tempo testa a Tristeza — Porém não a remedia — Se cura o Mal, prova apenas Que Mal deveras não havia — Trad.: Paulo Henriques Britto They say that “Time assuages” […]
- [Walter Savage Landor – Sobre a Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/03/20/walter-savage-landor-sobre-a-morte-poema/): "Sobre a morte", um poema de Walter Savage Landor
- [Samuel Taylor Coleridge – Kubla Khan](https://singularidadepoetica.art/2017/03/19/kubla-khan-samuel-taylor-coleridge/): Em Xanadu, um palácio de prazer Comanda-o Kubla Khan como um farol Onde Alph, rio sagrado, vem correr Através de cavernas sem mais ver Ao ser humano até um mar sem sol. Assim, milhas e milhas de bom solo, Cerca de muro e torres polo a polo: E lá jardins luzentes em ribeiros Curvos e […]
- [Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu](https://singularidadepoetica.art/2017/03/18/paulo-henriques-britto-geracao-paissandu/): Vim, como todo mundo do quarto escuro da infância, mundo de coisas e ânsias indecifráveis, de só desejo e repulsa. Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos, em tempo de seco fascismo. Por isso não tive pátria, só discos. Amei, como todos pensam. Troquei carícias cegas nos cinemas, li […]
- [Alberto da Cunha Melo - Lendo Emile Zola](https://singularidadepoetica.art/2017/03/17/alberto-da-cunha-melo-lendo-emile-zola/): O sol esgota os objetos: não me deixa dizer mais nada. Transforma em plantas os fantasmas que ontem dançavam no quintal. Mostra a burra realidade das coisas, o preço dos sonhos; água laminada levando, em ondas, o último mistério. Tudo foi dito da maneira mais cruel: um micro de sol escreveu em poucos segundos todos […]
- [Guillaume Apollinaire - A Ponte Mirabeau](https://singularidadepoetica.art/2017/03/16/guillaume-apollinaire-a-ponte-mirabeau/): Na Ponte Mirabeau, desliza o Sena E nossos amores E a memória acena: Alegria vem sempre após a pena Vem a noite, soa a hora Os dias vão, eu me demoro As mãos nas mãos, fiquemos face a face Enquanto abaixo Pela ponte dos nossos braços, passa. De olhar eterno a onda tão lassa. Vem […]
- [José Ángel Buesa - Ela Amará a Outro Homem](https://singularidadepoetica.art/2017/03/15/jose-angel-buesa-ela-amara-a-outro-homem-poema/): "Ela amará a outro homem", poema de José Ángel Buesa Ela amará a outro homem. Eu estarei longe, caminhando para o olvido. E pode ocorrer que alguém lembre meu nome, mas ela fingirá não tê-lo ouvido. (...)
- [Adriano Espínola - "Lamas" - Bar e Restaurante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/14/adriano-espinola-lamas-bar-e-restaurante/): A Horácio Dídimo À noite todos os lépidos são larápios, todos os otários são notórios, todas as lânguidas são lésbicas todas as cópulas são cédulas, todos os lúcidos são trágicos todos os bêbados são sábios.
- [Charles Bukowski - Feras Saltando Através do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/03/13/charles-bukowski-feras-saltando-atraves-do-tempo/): Van Gogh escrevendo para seu irmão pedindo tintas Hemingway testando seu rifle Céline fracassando como médico a impossibilidade de ser humano Villon expulso de Paris por ser um ladrão Faulkner bêbado pelas sarjetas da cidade a impossibilidade de ser humano Burroughs assassinando sua mulher com um tiro Mailer apunhalando a sua impossibilidade de ser humano […]
- [Wislawa Szymborska - As Cartas dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2017/03/12/wislawa-szymborska-as-cartas-dos-mortos/): Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes, mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores. Sabemos quais dívidas não foram pagas. Com quem as viúvas rapidamente se casaram. Pobres mortos, mortos cegos, enganados, falíveis, canhestramente previdentes. Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas. Capturamos o som de testamentos sendo rasgados. Sentados […]
- [Wislawa Szymborska - Bodas de Ouro](https://singularidadepoetica.art/2017/03/11/wislawa-szymborska-bodas-de-ouro/): Devem ter sido diferentes um dia, fogo e água, diferindo com veemência, sequestrando e se doando no desejo, no assalto à dessemelhança. Abraçados, apropriaram-se e expropriaram por tanto tempo, que nos braços restou o ar translúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta. Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outro […]
- [Wislawa Szymborska - Natureza-morta com um Balãozinho](https://singularidadepoetica.art/2017/03/10/wislawa-szymborska-natureza-morta-com-um-balaozinho/): Em vez da volta das lembranças na hora de morrer quero ter de volta as coisas perdidas. Pela porta, janela, malas, sombrinhas, luvas, casaco, para que eu possa dizer: Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente, rosa de papel, barbante, faca, para que eu possa dizer: Nada disto me faz falta. Esteja onde […]
- [Wislawa Szymborska - Nada Duas Vezes](https://singularidadepoetica.art/2017/03/09/wislawa-szymborska-nada-duas-vezes/): Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela […]
- [Wislawa Szymborska - A Cada Cem Pessoas](https://singularidadepoetica.art/2017/03/08/wislawa-szymborska-a-cada-cem-pessoas/): A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros: – cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo: – quase todas as outras. estão prontas a ajudar desde é claro que isso não lhes tome muito tempo: – quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas […]
- [Jaroslav Seifert - Vi Apenas uma Vez](https://singularidadepoetica.art/2017/03/01/jaroslav-seifert-vi-apenas-uma-vez/): Vi apenas uma vez um sol tão ensanguentado. E nunca mais Descia funesto sobre o horizonte e parecia que alguém havia escancarado as portas do inferno. Perguntei pelo observatório astronômico e hoje sei o porquê. O inferno, conhecemos: está em toda parte e caminha sobre duas pernas. […]
- [Gary Snyder - Dezembro em Yase](https://singularidadepoetica.art/2017/02/20/gary-snyder-dezembro-em-yase/): Naquele Outubro em que escolheu ser livre na grama alta e seca junto ao pomar você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te vi só mais uma vez. Você estava estranha. E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anos e até mais um […]
- [Yehuda Amichai - O Corpo é a Causa do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/02/19/yehuda-amichai-o-corpo-e-a-causa-do-amor/): Primeiro o corpo é a causa do amor depois a fortaleza que o protege por fim seu cárcere. E quando o corpo morre, o amor jorra caudalosamente como de um caça-níqueis clandestino quebrado jorram de súbito com estrondo todas as moedas de gerações e gerações entregues à própria sorte.
- [William Shakespeare - Romeu e Julieta (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/02/18/william-shakespeare-romeu-e-julieta-excerto/): “Esses prazeres violentos têm fins violentos e morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, que, ao se beijarem, se consomem. O mais doce mel repugna por sua própria doçura, e seu sabor confunde o paladar. Portanto, ama com moderação. O amor duradouro é moderado. Quem corre demais chega tão atrasado como aquele […]
- [Nicanor Parra - O que ganha um velho ao fazer ginástica?](https://singularidadepoetica.art/2017/02/11/nicanor-parra-o-que-ganha-um-velho-ao-fazer-ginastica/): e o que ganha falando ao telefone? e o que ganha ficando famoso? e o que ganha um velho olhando-se no espelho? Nada afundar cada vez mais na lama Já são três ou quatro da madrugada – por que não trata de dormir? mas não – tome ginástica tome ligações de longa distância tome Bach […]
- [Wislawa Szymborska -Retornos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/10/wislawa-szymborska-retornos/): Voltou. Não disse nada. Mas estava claro que teve algum desgosto. Deitou-se vestido. Cobriu a cabeça com o cobertor. Encolheu as pernas. Tem uns quarenta anos, mas não agora. Existe – mas só como na barriga da mãe na escuridão protetora, debaixo de sete peles. Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica. […]
- [Jorge Luis Borges - Os Justos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/09/jorge-luis-borges-os-justos/): Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra exista música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não […]
- [Antero de Quental - Nox](https://singularidadepoetica.art/2017/02/08/antero-de-quental-nox/): Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos… Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia… O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece alguns momentos… Oh! Antes tu também […]
- [John Keats - Ode sobre a Indolência](https://singularidadepoetica.art/2017/02/07/john-keats-ode-sobre-a-indolencia/): I Numa certa manhã eu vi as três as figuras, Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,Seguindo atrás da outra, mudas e seguras, Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;Como formas de mármore em alto-relevo Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,Mostraram-se mais uma vez como […]
- [John Keats - Do Endymion](https://singularidadepoetica.art/2017/02/06/john-keats-do-endymion/): O que é belo há de ser eternamente Uma alegria, e há de seguir presente. Não morre; onde quer que a vida breve Nos leve, há de nos dar um sono leve, Cheio de sonhos e de calmo alento. Assim, cabe tecer cada momento Nessa grinalda que nos entretece À terra, apesar da pouca messe […]
- [Yehuda Amichai - Outra Vez o Amor Terminou](https://singularidadepoetica.art/2017/02/05/yehuda-amichai-outra-vez-o-amor-terminou/): Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas, ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezas coisas comovidas que buscavam o esquecimento. Outra vez o amor terminou. E como depois de se demolir uma casa grande e retirar os escombros, visitamos o terreno vazio e quadrado e dizemos: como […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Nenhuma Arte"](https://singularidadepoetica.art/2017/02/04/paulo-henriques-britto-sem-titulo/): Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada, não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, […]
- [Konstantinos Kaváfis - A Origem](https://singularidadepoetica.art/2017/02/03/konstantinos-kavafis-a-origem/): “A Origem”, um poema de Konstantinos Kaváfis que revela como o instante clandestino do desejo se transmuta, no tempo, em matéria secreta da poesia.
- [Ezra Pound - E os dias...](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/ezra-pound-e-os-dias/)
- [Walter de la Mare - Os que Ouviam](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/walter-de-la-mare-os-que-ouviam/): ‘Tem alguém em casa?’ indagou o Viajante Defronte à porta enluarada; Seu cavalo no silêncio ruminava o capim Da forragem fértil e enfolhada: E uma ave voou para muito além da torre, Acima de sua cabeça: E de novo a porta ele outra vez castigou; ‘Tem alguém em casa?’ ele disse. Mas ninguém desceu para […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Eppur Si Muove](https://singularidadepoetica.art/2017/02/01/affonso-romano-de-santanna-eppur-si-muove/): Não se pode calar um homem Tirem-lhe a voz, restará o nome. Tirem-lhe o nome e em nossa boca restará a sua antiga fome. Matar, sim, se pode. Se pode matar um homem. Mas sua voz, como os peixes, nada contra a corrente a procriar verdades novas na direção contrária à foz. Mente quem fala […]
- [Ricardo Silvestrin - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/01/31/ricardo-silvestrin-sem-titulo/): ruas têm coração de pedra não espere nada do seu amor por elas a não ser cimento, asfalto e uma família nova na casa de um velho conhecido quando menos se espera uma rua muda de sentido
- [Bertolt Brecht - Se fôssemos infinitos...](https://singularidadepoetica.art/2017/01/29/bertolt-brecht-se-fossemos-infinitos/)
- [Domingos Pellegrini - Com Brecht](https://singularidadepoetica.art/2017/01/28/domingos-pellegrini-com-brecht/)
- [Domingos Pellegrini - Mudanças](https://singularidadepoetica.art/2017/01/27/domingos-pellegrini-mudancas/)
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/17/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere-2/): IV Só não dói mais porque não é preciso. Se fosse o caso, a dor era pior. Não há nada nisso de extraordinário: A natureza odeia o desperdício, tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr. É exatamente a conta necessária, até que alguma solução se encontre. O que aliás não acontece nunca. E isso […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/16/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere/): I A seletividade da memória — a cor exata da pele, a textura, o odor de cada côncavo e orifício, o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e a saliva, a coxa arisca, a dobra escura, o beijo salobro, o sabor difícil, a carne assombrada, o esperma […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetóides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/15/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos/): IV Também já estive aí, no não lugar onde você agora não se encontra. Também não me encontrei. Aliás, foi justamente contra a tal necessidade de seguir alguma rota que jurei lutar. Lutei, perdi, e pronto: agora estou aqui, a alguns centímetros do meu próprio umbigo Se tudo correr bem, também a tua derrota vai […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/14/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-2/): ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porém só surge em pleno ar. E não renego a rota tonta que segui. Ninguém se faz em linhas retas. Todo porto a que se chega é a meta desejada. E o caminho tomado, por mais torto, acaba sempre sendo a exata […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Duas Bagatelas"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/13/paulo-henriques-britto-de-duas-bagatelas/): II Então viver é isso, é essa obrigação de ser feliz a todo custo, mesmo que doa, de amar alguma coisa, qualquer coisa, uma causa, um corpo, o papel em que se escreve, a mão, a caneta até, amar até a negação de amar, mesmo que doa, então viver é só esse compromisso com a […]
- [Paulo Henriques Britto - Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2017/01/12/paulo-henriques-britto-epilogo/): Finda a leitura, o livro está completo em sua solidão mais-que-perfeita de couro falso e íntimo papel. Lá fora, o mundo segue, arquitetando as mesmas contingências costumeiras que nunca esbarram numa irrefutável conclusão que se possa resumir em três letras letais, inalienáveis. Que paz será possível nessa selva sem índices, prefácios, rodapés? indaga, da estante […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/11/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria/): VII Nada disso foi do jeito que eu quis. Se fosse como eu quis, não haveria de ser tão sofrido, tão infeliz. Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sinto como quem tem não o que foi pedido, e sim o que, guiado pelo instinto, […]
- [Jacques Prévert - Bárbara](https://singularidadepoetica.art/2020/06/07/jacques-prevert-barbara/): Lembra-te BárbaraChovia em Brestsem cessar naquele diaCaminhavas à chuvasorridenteradiosa encantadora deslumbranteLembra-te Bárbarachovia em Brestsem cessare eu passei por tina Rua do Sião.Sorriase eu sorriaLembra-te Bárbaratu a quem não conheciatu que não me conheciasLembra-teLembra-te mesmo assimdaquele diaNão te esqueçasSob um pórticoabrigava-se um homemque gritou o teu nomeBárbaraCorreste para eleà chuvadeslumbrante encantadoraradiosalançaste-te nos seus braçosLembra-te BárbaraE não […]
- [Joan Margarit - A senha](https://singularidadepoetica.art/2020/06/06/joan-margarit-a-senha/): Sozinho entre dois infernos— o da liberdade e o da idade —,já não consigo abrir nosso cofre.A porta com seus dígitos giratóriosé a roleta na qual já não aposto.Desde o primeiro suspiro conserveia blindada clarezadaquela rosa.Agora, nu em nosso quarto,a janela aberta e a luz apagada,ouço o rumor urbano da noite,enquanto a leve brisa me […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Décima Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/05/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-decima-elegia/): Que um dia, ao emergir da terrível intuição, ascenda meu canto de júbilo e glória até os Anjos aprovadores! Que nenhum claro golpe dos malhos do coração desentoe sobre cordas frouxas, vacilantes ou desgarradas! Que meu rosto se ilumine sob o pranto! Que a obscura lágrima floresça! Oh, como então vos amaria, noites de aflição! […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Nona Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/04/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-nona-elegia/): Por que, sendo possível o prazo da existência levar como o loureiro, de um verde mais sombrio que todos os outros verdes, com leves ondulações no contorno das folhas (como um sorriso do vento) – por que então, escravos do humano, anelar pelo destino fugindo ao destino?… Oh, não porque a felicidade exista, essa prematura […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Oitava Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/03/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-oitava-elegia/): Oitava elegia dedicada a Rudolf Kassner Com todos os seus olhos, a criatura vê o Aberto.Nosso olhar, porém, foi revertido e como armadilhase oculta em torno do livre caminho.O que está além, pressentimos apenasna expressão do animal; pois desde a infânciadesviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos,ah, esse espaço profundo que há […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Sétima Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/02/rainer-maria-rilke-elegia-de-duino-setima-elegia/): Não, não mais buscar: que seja esta, voz da madurez, a essência do teu grito. Gritaste, em verdade, com a pureza do pássaro, quando erguido pela estação que ascende, quase esquece que é um ser desamparado, coração solitário lançado às alturas, na intimidade do céu. Como ele, buscavas a amiga invisível que te pressentisse, a […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Sexta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/01/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-sexta-elegia/): Figueira, há muito que te vejo esquecer quase inteiramente a floração, precipitando no fruto prematuro, incompreendido, teu puro segredo. Como o canal de uma fonte teus ramos sinuosos impelem para a luz a seiva adormecida, abandonando-a, ainda sonolenta ao seu doce destino: como o deus em cisne transformado. Nós porém que nos detemos, gloriosos de […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Quinta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/31/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-quinta-elegia/): Quinta elegia dedicada a Frau Hertha von Kœnig Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância por alguém torcidos – por amor de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce, curva-os, entretece-os, vibra-os, atira-os e os toma de volta! Do ar untado e mais liso, […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Quarta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/30/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-quarta-elegia/): Ó árvores da vida, quando atingireis o inverno? Ignoramos a unidade. Não somos lúcidos como as aves migradoras. Precipitados ou vagarosos nos impomos repentinamente aos ventos e tornamos a cair num lago indiferente. Conhecemos igualmente o florescer e o murchar. No entanto, em alguma parte, vagueiam leões ainda, alheios ao desamparo enquanto vivem seu esplendor. […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Terceira Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/29/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-terceira-elegia/): Uma coisa é cantar a amada. Outra, ai de mim, é cantar o culpado e oculto Deus-Rio do sangue. Aquele que a amada reconhece de longe, seu amante, que sabe ele do Senhor da Volúpia que tantas vezes o assaltava em plena solidão, antes que a mulher amada o abrandasse, como se nem mesmo ela […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Segunda Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/28/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-segunda-elegia/): Todo Anjo é terrível. No entanto, ai de mim, eu vos invoco, pássaros quase mortais da alma, sabendo quem sois. Tempos remotos de Tobias, em que o mais radiante dentre vós aparecia no limiar da casa humilde, sem intimidar, para a viagem levemente disfarçado (jovem que outro jovem, curioso, contemplava). Adiantasse agora o Arcanjo, ameaça […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Primeira Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/27/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-primeira-elegia/): Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjosme ouviria? E mesmo que um deles me tomasseinesperadamente em seu coração, aniquilar-me-iasua existência demasiado forte. Pois que é o Belosenão o grau do Terrível que ainda suportamose que admiramos porque, impassível, desdenhadestruir-nos? Todo Anjo é terrível.E eu me contenho, pois, e reprimo o apelodo meu soluço […]
- [Federico Garcia Lorca - Pranto por Ignacio Sánchez Mejías](https://singularidadepoetica.art/2020/05/26/federico-garcia-lorca-pranto-por-ignacio-sanchez-mejias/): 1. A captura e a morte Às cinco da tarde.Eram as cinco em ponto dessa tarde Um menino trouxe o lençol brancoàs cinco da tarde. Uma alcofa de cal já prevenidaàs cinco da tarde.O mais era só morte e apenas morteàs cinco da tarde. O vento arrebatou os algodõesàs cinco da tarde.E o óxido semeou […]
- [John Ashbery - Medo da morte](https://singularidadepoetica.art/2020/05/25/john-ashbery-medo-da-morte/): Que há comigo agora, é assim que eu fiquei? Não há estado livre dos limites do antes e depois? Hoje a janela está aberta e o ar jorra para dentro com notas de piano nas suas saias, como a dizer, “Olha, John, eu trouxe isso e aquilo” – ou seja, alguns Beethovens, uns Brahms, umas […]
- [Álvaro de Campos - Tabacaria](https://singularidadepoetica.art/2020/05/25/alvaro-de-campos-tabacaria/): Leia "Tabacaria", de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), um dos maiores poemas do modernismo português sobre identidade, fracasso, sonho e existência.
- [Horácio - Ode 1/11](https://singularidadepoetica.art/2020/05/24/horacio-ode-1-11-poema/): Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe, os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo da babilônia e aceita: o que há de ser, será, quer nos dê Jove mais invernos, quer só este que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos. Enquanto […]
- [Attila József - Dói demais](https://singularidadepoetica.art/2020/05/23/attila-jozsef-doi-demais/): A morte atenta de dentro e fora te afugenta (ratinho oculto com receio) e, enquanto arderes, vais procurar junto às mulheres refúgio em braço, joelho e seio. Mais que o calor do colo afável, mais que o ardor, precisar muito é que te apressa; assim, quem quer que possa abraça uma mulher até que a […]
- [Eugenio Montale - Xenia I](https://singularidadepoetica.art/2020/05/22/eugenio-montale-xenia-i/): 1 Querido pequeno inseto que chamavam de mosca, não sei por quê, esta tarde quase ao escurecer enquanto lia o Segundo Livro de Isaías reapareceste ao meu lado, mas não tinhas óculos, não podias me ver nem podia eu sem aquela centelha reconhecer-te no escuro. 2 Sem óculos nem antenas pobre inseto que asas só […]
- [Basil Bunting - O que o diretor disse a Tom](https://singularidadepoetica.art/2020/05/21/basil-bunting-o-que-o-diretor-disse-a-tom/): Poesia? É um hobby O meu são trens elétricos. O sr. Shaw ali cria pombos. Não é trabalho. Você não sua a camisa. Ninguém paga. Tente anunciar sabão. Ópera é que é arte; ou o teatro. A Canção do Deserto. Nancy era do coro. Mas pedir doze libras por semana – casado, não? – isso […]
- [Mary Oliver - O dia de verão](https://singularidadepoetica.art/2020/05/20/mary-oliver-o-dia-de-verao/): Quem criou o mundo?Quem fez o cisne e o urso-negro?Quem fez o gafanhoto?Digo, aquele gafanhoto –aquele que saltou da grama,aquele que agora come açúcar na minha mão,aquele que move as mandíbulas para frente e para trás, não de cima para baixo –aquele que olha ao redor com seus olhos enormes e complexos.Agora ele ergue os […]
- [Raúl Ferruz - Com os olhos bem abertos](https://singularidadepoetica.art/2020/05/19/raul-ferruz-com-os-olhos-bem-abertos/): Quando meu avô sorria depois de cada gole de água,isso significava. Não sabes o que é beber o próprio mijo.Quando desenhava uma parábola no ar que só ele via,isso significava. Fogo cruzado.Quando tapava o rosto para que não o víssemos chorar,isso significava. Os alemães nos infligiram horrores.Quando fechava a porta do banheiro para que não […]
- [Anne Sexton - A noite estrelada](https://singularidadepoetica.art/2020/05/18/anne-sexton-a-noite-estrelada/): A noite estrelada Isso não me impede de ter uma terrível necessidade de — devo dizer a palavra — religião. Então, saio à noite para pintar as estrelas. – Vincent Van Gogh, em uma carta ao seu irmão A cidade não existe,exceto onde uma árvore de cabelos negros deslizacomo uma mulher afogada no ar abrasador.A […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Cruzeiro do Sul](https://singularidadepoetica.art/2020/05/17/jorge-valdes-diaz-velez-cruzeiro-do-sul/): Ardem as folhas do outono na umidade crepuscular de Buenos Aires. Contra um parque dividido por três colinas, a opacidade de sua beleza procura nas folhagens o olhar que acompanhou a luz. As lâmpadas douradas mantêm suas memórias e acendem sombras no gramado. Ao entardecer, se organizam o horizonte de troncos e o suave tato […]
- [James Elroy Flecker - A um poeta daqui a mil anos](https://singularidadepoetica.art/2020/05/16/james-elroy-flecker-a-um-poeta-daqui-a-mil-anos/): Eu, que há mil anos concluí meu percurso,E escrevi esta doce e arcaica canção,Por arautos te envio este discursoPor estradas que meus pés não trilharão. Não me importa se os mares tu transpões,Ou se galgas em segurança um céu mau,Se eriges exímias fortificaçõesFeitas de alvenaria ou de metal. Mas ainda tens canções e o hidromel,E […]
- [Augusto de Campos - Viv (1992)](https://singularidadepoetica.art/2020/05/15/augusto-de-campos-viv/): Viv (1992), “viver é defender uma forma” (hoelderlin via Webern)
- [Juan Vicente Piqueras - Oração do incrédulo](https://singularidadepoetica.art/2020/05/14/juan-vicente-piqueras-oracao-do-incredulo/): O importante é rezar, não importa a quem,que as perguntas sejam as oraçõesdo pensamento, plantem sua sementeem nossa solidão, e que não exista pazque, à força de insistir, seja capazde não existir, não tenha remédiosenão atender à voz de quem a chama. Que deus não exista, acasoé razão para nele não crer? Deus é o […]
- [Eugenio Montale - A enguia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/13/eugenio-montale-a-enguia/): A enguia, a sereia dos mares frios que deixa o Báltico para alcançar os nossos mares, nossos estuários, os rios que sobe pelas profundezas, contra a enxurrada, de braço em braço e depois de veio em veio, cada vez mais delgados, sempre mais dentro, sempre mais perto do coração da rocha, filtrando-se por regos de […]
- [Eavan Boland - Quarentena](https://singularidadepoetica.art/2020/05/12/eavan-boland-quarentena/): Na pior hora da pior estação do pior ano de todo um povo um homem partiu do internato com a mulher Ele andava – ambos andavam – para o norte Ela tinha a febre da fome e não se aguentava. Ele a ergueu e a pôs nas costas. Andou assim para oeste e oeste e […]
- [Aldir Blanc - Valsa pra Leila](https://singularidadepoetica.art/2020/05/11/aldir-blanc-valsa-pra-leila/): Tu te esfumarásme neblinareisobre os telhadosgaláxias azuis.Sonambularáste volteareigatos lambendo as estrelasWendy e Peter Pansem o amanhãnunca, pra nós dois, é sempre cedo.Marietarás,eu Buarquireiem dois cavaloscom asas de luz.Tu te nublarás,me eclipsareinuvens em nossa cabeça.Toma, Peter Pan,só um lexotanpra que tanto amor não te enlouqueça.Vagalumarás por sobre o campo,eu virei do mar, teu pirilampo.Como um circo […]
- [Paul Celan - O companheiro de viagem](https://singularidadepoetica.art/2020/05/10/paul-celan-o-companheiro-de-viagem-poema/): A alma da tua mãe flutua adiante.A alma da tua mãe ajuda a noite a navegar, escolho após escolho.A alma da tua mãe fustiga os tubarões à tua frente. Esta palavra é a disciplina da tua mãe.A discípula da tua mãe partilha o teu jazigo, pedra a pedra.A discípula da tua mãe inclina-se para a […]
- [Charles Bukowski - oh, sim](https://singularidadepoetica.art/2020/05/09/charles-bukowiski-oh-sim/): há coisas piores do que estar sozinho mas muitas vezes leva décadas para perceber isso e na maioria das vezes quando você percebe é tarde demais e não há nada pior do que tarde demais Trad.: Nelson Santander oh, yes there are worse things than being alone but it often takes decades to realize this […]
- [Emily Dickinson - Após grande dor sobrevém um sentimento austero](https://singularidadepoetica.art/2020/05/08/emily-dickinson-apos-grande-dor-sobrevem-um-sentimento-austero/): Após grande dor sobrevém um sentimento austero –Os Nervos ficam cerimoniosos como um cemitério –Indaga o rijo Coração se foi Ele que sofreu,Se Ontem, ou Séculos antes aconteceu? Os pés, mecânicos, circundam sem cessar –Nos Sopés, no Ar, em qualquer Lugar –Um caminho de madeiraQue indiferentemente medraUm contentamento de Quartzo, uma pedra – A Hora […]
- [William Carlos Williams - Nevasca](https://singularidadepoetica.art/2020/05/07/william-carlos-williams-nevasca/): Neve:anos de fúria seguindohoras que flutuam indolentes —a nevascadeposita seu fardocada vez mais fundo por três diasou sessenta anos, não? Entãoo sol! um tumulto deflocos amarelos e azuis —Árvores de aparência hirsuta destacam-seem longas alamedassobre uma selvagem solidão.O homem se vira e lá —seu solitário rastro estendendo-sesobre o mundo. Trad.: Nelson Santander Mais do que […]
- [Nuno Júdice – Epidemia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/06/nuno-judice-epidemia/): Passa de um para o outro através do olhar, de uma palavra, de um toque de mãos; por vezes, basta um leve suspiro para adivinhar a febre, e atrás dele descobre-se que não é preciso cura nem tratamento. Instala-se na cabeça, no corpo, na boca, nos dedos, sem dor nem cansaço, apenas aquela ânsia a […]
- [Susana Cattaneo - Quando já não estiver...](https://singularidadepoetica.art/2020/05/05/susana-cattaneo-quando-ja-nao-estiver/): Quem porá o pésobre a marca que o meu deixou?Quem olhará estas árvoresonde meus olhos deixaram sinais?Alguém ouvirá cantar um pássaroque será outro.Alguém respirará os mesmos pinheirosde um verde mais cansado.A vida será uma folha em brancoe não poderei timbrá-la com minha palavra. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre […]
- [William Butler Yeats - A torre](https://singularidadepoetica.art/2020/05/04/william-butler-yeats-a-torre/): 1 O que farei com esta absurdidade, Esta caricatura, coração? Decrepitude atada à minha idade Como à cauda de um cão? Jamais terei sentido Tão grande, tão apaixonada, tão incrível A fantasia, nem houve olho e ouvido Que mais quisessem o impossível – Não, nem quando menino, com inseto e anzol, Ou mais humilde verme, […]
- [Joan Margarit - Despedidas](https://singularidadepoetica.art/2020/05/03/joan-margarit-despedidas/): Ela o acompanhava até o primeiro trem que partia às segundas antes do amanhecer, e naquele bar costumavam despedir-se, o mais próximo da Estación de Francia. Evoco os invernos detidos atrás das vidraças da infância. E talvez esta seja sua mesa, onde agora lembro-me de que, naquela mesma hora, eu estava na penumbra do meu […]
- [Paul Verlaine - Arte poética](https://singularidadepoetica.art/2020/05/02/paul-verlaine-arte-poetica/): Arte Poética A Charles Morice Antes de tudo, a Música. Preza Portanto o Ímpar. Só cabe usar O que é mais vago e solúvel no ar, Sem nada em si que pousa ou que pesa. Pesar palavras será preciso, Mas com algum desdém pela pinça: Nada melhor do que a canção cinza Onde o Indeciso […]
- [Laurie Lee – A sombra abandonada](https://singularidadepoetica.art/2020/05/01/laurie-lee-a-sombra-abandonada/): Percorrendo a sombra abandonadadas habitações da minha infância,meus ouvidos relembram o badalar,ouvindo suas vozes soterradas. Ouço o verão primordial,as margens da aurora iluminadas por aves,o pulsar de sangue da escrevedeira-amareladourando meus olhos de berço. Ouço a lua-de-estanho subire a moeda do crepúsculo cair,o rastejar da geada e o gemidodo degelo e o pio dos piscos […]
- [Jorge Luis Borges - Mortes de Buenos Aires](https://singularidadepoetica.art/2020/04/30/jorge-luis-borges-mortes-de-buenos-aires/): I La Chacarita Porque a entranha do cemitério do Sul foi saciada pela febre amarela até dizer basta; porque os tugúrios fundos do Sul lançaram morte sobre a face de Buenos Aires e porque Buenos Aires não pôde encarar essa morte, golpes de pá te abriram na ponta perdida do Oeste, atrás das tempestades de […]
- [Fernando Pessoa - No Túmulo de Christian Rosencreutz](https://singularidadepoetica.art/2020/04/29/fernando-pessoa-no-tumulo-de-christian-rosencreutz/): NO TÚMULO DE CHRISTIAN ROSENCREUTZ Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastámos para um lado o altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto…, e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a […]
- [César Vallejo - Os passos distantes](https://singularidadepoetica.art/2020/04/28/cesar-vallejo-os-passos-distantes/): Meu pai dorme. Seu semblante augusto exprime um tranquilo coração; está agora tão doce… se há algo nele de amargo, serei eu. Há solidão no lar; se reza; e não há notícias das crianças hoje. Meu pai desperta, ausculta a fuga para o Egito, o último adeus. Está agora tão perto; se há algo nele […]
- [Rainer Maria Rilke - Torso arcaico de Apolo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/27/rainer-maria-rilke-torso-arcaico-de-apolo/): Não conhecemos sua cabeça inaudita Onde as pupilas amadureciam. Mas Seu torso brilha ainda como um candelabro No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado Detém-se e brilha. Do contrário não poderia Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva Dos rins poderia chegar um sorriso Até aquele centro, donde o sexo pendia. De […]
- [Jorge Luis Borges - A noite que no sul o velaram](https://singularidadepoetica.art/2020/04/26/jorge-luis-borges-a-noite-que-no-sul-o-velaram/): A noite que no sul o velaram para Letizia Álvarez de Toledo Pelo passamento de alguém — mistério cujo desconhecido nome possuo e cuja realidade não abarcamos — há até o alvorecer uma casa aberta no Sul, uma casa ignorada que não estou destinado a […]
- [Charles Bukowski - Manual de Combate](https://singularidadepoetica.art/2020/04/25/poesia-vim-buscar-te/): Eles chamaram Celine de nazista eles chamaram Pound de fascista eles chamaram Hamsun de nazista eles puseram Dostoiévski diante de um esquadrão de fuzilamento e você sabe que eles atiraram em Lorca submeteram Hemingway a tratamento de choque e você sabe que ele se matou e eles levaram Villon para fora da cidade (Paris) e […]
- [Ferreira Gullar - Reflexão sobre o osso da minha perna](https://singularidadepoetica.art/2020/04/24/ferreira-gullar-reflexao-sobre-o-osso-da-minha-perna/): A parte mais durável de mim são os ossos e a mais dura também como, por exemplo, este osso da perna que apalpo sob a macia cobertura ativa de carne e pele que o veste e inteiro me reveste dos pés à cabeça esta vestimenta fugaz e viva sim, este osso a mais dura parte […]
- [Jane Hirshfield - Meu esqueleto](https://singularidadepoetica.art/2020/04/23/jane-hirschfield-meu-esqueleto/): Meu esqueleto, que um dia doeu com o próprio crescimento, está agora, a cada ano imperceptivelmente menor, mais leve, absorvido por sua própria concentração. Quando eu dancei, você dançou. Quando você quebrou, eu. E assim foi, deitando, caminhando, subindo os fatigantes degraus. Seus maxilares. Meu pão. Algum dia você, o que resta de você, será […]
- [Louise Glück - Nostos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/22/louise-gluck-nostos/): Havia uma macieira no quintal – isso teria sido há quarenta anos – nos fundos, apenas prados. Excesso de crocus na relva úmida Eu estava naquela janela: fim de abril. Flores da primavera no quintal do vizinho. Quantas vezes, realmente, a árvore floresceu no meu aniversário, no dia exato, nem antes nem depois? Substituição do […]
- [Denise Levertov - Naquele dia](https://singularidadepoetica.art/2020/04/21/denise-levertov-naquele-dia/): Do outro lado de um lago na Suíça, cinquenta anos atrás, a luz duelava com uma longa lança, esgrimindo com sabres de um lado para o outro entre picos nublados e colinas. Observávamos de um pequeno pavilhão, minha mãe e eu, fascinadas. E então, eis que um feixe, uma coluna, um corpo definido, não de […]
- [Richard Eberhart - A marmota](https://singularidadepoetica.art/2020/04/20/richard-eberhart-a-marmota/): Em junho, entre os campos dourados, Avistei uma marmota morta. Morta ela estava; meu juízo se abalou, E a mente projetou a nossa fragilidade nua. Lá embaixo, humilde no vigoroso verão, Sua forma iniciou sua mudança sem sentido, E fez oscilar meus sentidos para o sombrio Vendo a natureza feroz que nela havia. Inspecionando de […]
- [Jane Hirshfield - Dentro desta árvore](https://singularidadepoetica.art/2020/04/19/jane-hirshfield-dentro-desta-arvore/): Dentro desta árvore outra árvore habita o mesmo tronco; dentro desta pedra outra pedra descansa, com muitos tons de cinza iguais, com superfície e peso idênticos. E dentro do meu corpo, outro corpo, cuja história, à espera, canta; não há outro corpo, ela canta, não há outro mundo. Trad.: Nelson Santander Within this tree Within […]
- [Gonçalo M. Tavares - Sobre o mundo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/18/goncalo-m-tavares-sobre-o-mundo/): O telescópio não alcança sequer a tua alma; Imprecisão exata de um instrumento instintivo. Mas repara: não há instrumentos instintivos ou máquinas espontâneas. Dois terços do amor estão na mulher, qualquer que seja o casal. As evidências abrem falência em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam ciências viris. Indispensáveis, de facto: ciências […]
- [Alberto Szpunberg - De "Sol de noche"](https://singularidadepoetica.art/2020/04/17/alberto-szpunberg-de-sol-de-noche/): XIV Embora já saibas que nada volta, volta para casa, aceita a pequena mentira como um lapso antes que o inverno te surpreenda sob uma árvore de ramos despojados: aqui termina o bosque, o que cresceu em teus sonhos antes mesmo de tuas mãos roçarem os troncos: a pradaria que se estende perante teus olhos […]
- [Ana Martins Marques - [Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano]](https://singularidadepoetica.art/2020/04/16/ana-martins-marques-pense-em-quantos-anos-foram-necessarios-para-chegarmos-a-este-ano/): Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano quantas cidades para chegarmos a esta cidade e quantas mães, todas mortas, até tua mãe quantas línguas até que a língua fosse esta e quantos verões até precisamente este verão este em que nos encontramos neste sítio exato à beira de um mar rigorosamente […]
- [Marie Howe - Meus amigos mortos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/15/marie-howe-meus-amigos-mortos/): Comecei, quando estou cansada e não consigo decidir a resposta que devo dar a uma pergunta desconcertante, a pedir a opinião dos meus amigos mortos e frequentemente a resposta é imediata e clara. Devo aceitar o emprego? Mudar-me para a cidade? Devo tentar conceber um filho em minha meia idade? Em uníssono, eles balançam suas […]
- [Emily Dickinson - Poema 1.222](https://singularidadepoetica.art/2020/04/14/emily-dickinson-poema-1-222/): O Enigma decifrado Despreza-se com pressa — A Surpresa de Ontem Já não nos interessa — Trad.: Augusto de Campos Poem 1.222 The Riddle we can guess We speedily despise — Not anything is stale so long As Yesterday’s surprise —
- [Robert Bly - Pessoas como nós](https://singularidadepoetica.art/2020/04/13/robert-bly-pessoas-como-nos/): Pessoas como nós para James Wright Há mais como nós. Em toda parte Há pessoas confusas, que não conseguem lembrar O nome do próprio cão quando acordam, e pessoas Que amam a Deus mas não se lembram onde Ele estava quando foram dormir. Não Tem problema. O mundo se purifica desta forma. Um número errado […]
- [Juan Vicente Piqueras - Taças de sede](https://singularidadepoetica.art/2020/04/12/juan-vicente-piqueras-tacas-de-sede/): Se duvidas de tua sede, se não te atreves a questiona-la ou a dar-lhe um nome, se só sabes que buscas uma água que a sacie e não achas senão poços, e neles ecos que te chamam, bebe. Se ao beber a sede desaparece é que era só sede. Segue buscando. Mas se cresce em […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Canção de fevereiro](https://singularidadepoetica.art/2020/04/11/jorge-valdes-diaz-velez-cancao-de-fevereiro/): Canção de fevereiro no peito do céu, palpitando Jaime Gil de Biedma Leve e triste, a tarde se retira contigo até o crepúsculo e as horas começam a doer nas dobras distantes do lençol. Subitamente a noite regressou e é difícil não pensar em teus efêmeros lábios ou nas altas regiões do teu corpo glorificando […]
- [Iracema Macedo - Dandara](https://singularidadepoetica.art/2020/04/10/iracema-macedo-dandara/): Eu só acreditava em Drummond: ‘o amor chega tarde’ Não conhecia o amor que fulgura sem aviso esse que se sabe proibido o amor que já se sabe perdido desde o início Eu não acreditava no impossível vinha tão sóbria, tão cheia de medidas não conhecia o esplendor da queda nem a violência dos abismos
- [José Miguel Silva - Tudo coisas mortais para a poesia](https://singularidadepoetica.art/2020/04/09/jose-miguel-silva-tudo-coisas-mortais-para-a-poesia/): A casa, o lume, o sono dobrado do corpo feliz, a cesta de figos, a curva do rio, a fotografia no cimo do monte, a veracidade das glicínias, o rosto da mãe, a fava no bolo, o trunfo de copas, o filme da tarde, a música nova, o rasto da chuva por entre os pinheiros, […]
- [Juan Vicente Piqueras - Lençóis herdados](https://singularidadepoetica.art/2020/04/09/juan-vicente-piqueras-lencois-herdados/): A ferida mais íntima é herdada. O onde, o como, o quando,a morte, o nascimento,língua, família, deus, tempo, amor:o decisivo do que nos acontece,e quem somos,não é algo desejado nem escolhido. E passamos a vida, a despeito disso, ou por isso,crendo que o desejo é nosso deus,e não uma rosa rara que em nós cultivao […]
- [Czeslaw Milosz - Sobre anjos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/08/czeslaw-milosz-sobre-anjos/): Tudo foi tirado de vocês: túnica branca, asas, até mesmo a existência. Contudo, ainda acredito em vocês, mensageiros. Aqui, onde o mundo está virado do avesso, uma trama maciça bordada com astros e bestas, vocês passeiam, inspecionando as suturas confiáveis. Curta é sua estadia neste lugar: às vezes na hora matinal, se o céu está […]
- [Joan Margarit - Ela me disse](https://singularidadepoetica.art/2020/04/07/joan-margarit-ela-me-disse/): Procuremos uma casa para morrer. Por exemplo, aquele apartamento onde começamos a nossa história: arquitetura vulgar dos anos sessenta, mas arejado e com flores. Um bom lugar – e alegre – para nele morrer: Talvez na sala, sempre com música e a luz que chegava do mar. Ou na cozinha, em que recebia as ordens […]
- [W. S. Merwin - A estrada](https://singularidadepoetica.art/2020/04/06/w-s-merwin-a-estrada/): Parece grande demais para que apenas um homemCaminhe sobre ela Como se ela e o dia vazioFossem tudo o que existisse. E um cachorrinhoTrotando no compasso das ondas de calor, pertoDo horizonte, parecendo nunca avançar.O sol e todas as coisasEstão empoçados nos mesmos lugares, e a valaÉ sempre a mesma, repleta de todo tipo deOsso, […]
- [Mary Oliver - Quando a morte chegar](https://singularidadepoetica.art/2020/04/05/mary-oliver-quando-a-morte-vier/): Quando a morte chegarcomo um urso faminto no outono;Quando a morte chegar e tirar todas as moedas brilhantes de sua bolsa para me comprar, e fechá-la com um estalo;quando a morte chegarcomo o sarampo-varíola quando a morte chegarcomo um iceberg entre as omoplatas, quero atravessar o portal cheia de curiosidade, perguntando:como será essa sombria cabana? […]
- [Rainer Maria Rilke - A Morte da Amada](https://singularidadepoetica.art/2020/04/04/rainer-maria-rilker-a-morte-da-amada/): Da morte ele sabia quase nada: que nos toma e nos cala de repente. Como a amada não fora arrebatada, antes se desprendera docemente do seu olhar para a morada escura, e como percebeu que à outra vida como uma lua plena a formosura da visitante fora concedida, dos mortos se tornou tão familiar que […]
- [Robert Graves – Através do pesadelo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/03/robert-graves-atraves-do-pesadelo/): Jamais se desencante daquele Lugar no qual algumas vezes você sonha estar, Deitada muito além de todo sonho, Ou daqueles que você lá encontra, embora raramente se sente na companhia deles. O indomável, o vivo, o gentil. Você não os conhece? Quem? Eles transportam O tempo circular como um sábio-rio ao redor de suas casas […]
- [Alberto Bresciani – Bisões](https://singularidadepoetica.art/2020/04/02/aberto-bresciani-bisoes/): Leia "Bisões", de Alberto Bresciani, um poema sobre pertencimento, deslocamento e a busca humana por direção e sentido.
- [Jane Hirshfield - O emissário](https://singularidadepoetica.art/2020/04/01/jane-hirshfield-o-enviado/): Um dia, naquele quarto, um pequeno rato. Dois dias depois, uma cobra. Que, vendo-me entrar, serpenteou a longa listra de seu corpo para baixo da cama, e depois se enrolou como um dócil animal doméstico. Não sei como veio ou saiu. Mais tarde, a lanterna nada encontrou. Por um ano, eu observei como alguma coisa […]
- [May Swenson - Indagações](https://singularidadepoetica.art/2020/03/31/may-swenson-indagacoes/): Corpo minha casameu cavalo meu cão de caçao que fareiquando você ruir? Onde vou dormirComo vou montarO que vou caçar? Onde posso irsem minha montariarápida e impaciente?Como sabereise na mata à frentehá perigos ou tesourosquando o corpo, meu cãobom e fiel, estiver morto Como serájazer no céusem teto ou portae vento por visão? Com a […]
- [Mary Oliver - A jornada](https://singularidadepoetica.art/2020/03/30/mary-oliver-a-jornada/): Um dia você finalmente soubeo que precisava fazer e começou,embora as vozes à sua voltacontinuassem gritandoseus maus conselhos –embora a casa todacomeçasse a tremere você sentisse o velho apeloem seus tornozelos.“Remende minha vida!”,cada voz clamava.Mas você não parou.Você sabia o que precisava fazer,embora o vento tateassecom seus dedos rijosas próprias fundações,e embora a melancolia delesfosse […]
- [William Stafford - O sonho de agora](https://singularidadepoetica.art/2020/03/29/william-stafford-o-sonho-de-agora/): Quando acorda, da noite e dos outros sonhos, para o sonho de agora, você conduz o dia para fora das trevas como a uma chama. Quando a primavera acontece no norte e as flores desabrocham no solo e até adormecem, você alteia o verão com sua respiração para que ele não se perca jamais tão […]
- [Mary Oliver - Gansos selvagens](https://singularidadepoetica.art/2020/03/28/mary-oliver-gansos-selvagens/): Você não precisa ser bom.Você não precisa atravessar o deserto de joelhos,por cem milhas, em penitência.Você só precisa deixar o suave animal do seu corpoamar o que ele ama.Fale-me sobre o desespero, o seu, e eu lhe direi o meu.Enquanto isso, o mundo continua.Enquanto isso, o sol e os translúcidos seixos da chuvamovem-se por entre […]
- [Juan Vicente Piqueras - A sala vazia](https://singularidadepoetica.art/2020/03/27/juan-vicente-piqueras-a-sala-vazia/): a Carlos Edmundo de Ory Era um de teus jogos favoritos. O que há em uma sala vazia?, perguntavas. Mantínhamo-nos em silêncio. O que há em uma sala vazia? Os que não conheciam o jogo às vezes diziam: nada, e tu dizias: não. Nada é nada, e eu disse o quê. Até que alguém dizia, […]
- [Chico Buarque e Cristovão Bastos - Todo sentimento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/26/chico-buarque-e-cristovao-bastos-todo-sentimento/): [youtube https://www.youtube.com/watch?v=WyZuJ337Y3w&w=560&h=315] Preciso não dormir Até se consumar O tempo Da gente Preciso conduzir Um tempo de te amar Te amando devagar E urgentemente Pretendo descobrir No último momento Um tempo que refaz o que desfez Que recolhe todo o sentimento E bota no corpo uma outra vez Prometo te querer Até o amor cair […]
- [Raquel Lanseros - Oração](https://singularidadepoetica.art/2020/03/25/raquel-lanseros-oracao/): Que não cresça jamais em minhas entranhasessa paz aparente chamada ceticismoFuja eu do amargor, do cinismo, da imparcialidade de ombros encolhidos.Creia eu sempre na vidaCreia eu sempre nas mil infinitas possibilidades.Que me enganem os cantos das sereias,que minha alma guarde sempre um toque de ingenuidade.Que nunca se pareça minha pelecom a de um imóvel e […]
- [Camille Dungy – Para entrar em nossa própria casa vazia](https://singularidadepoetica.art/2020/03/25/camille-dungy-para-entrar-em-nossa-propria-casa-vazia-poema/): Ela estava com sete anos quando paramosde usar chaves. Menos uma coisa para se perder.Agora nós usamos uma senha —simples, mas espero que não tão simples queum estranho possa adivinhar. É aqui queeu deveria parar. Eles se veriam obrigadosa ficar irritados — meus amados.Estou revelando todos os nossos segredosnovamente. Esta vulnerabilidadeé a raiz de muita […]
- [Juan Vicente Piqueras - Visível e Invisível](https://singularidadepoetica.art/2020/03/24/juan-vicente-piqueras-visivel-e-invisivel/): (Para os amigos que ainda estão vivos, mas desapareceram, onde quer que estejam, com um abraço póstumo) As pessoas tendem a desaparecer. Um dia te fazem rir e no seguinte já não estão. Um dia te ligavam todos os diaspara saber como estavas,e agora já nem te lembras de suas vozes. Um dia disseram sempree sempre acabou […]
- [Fernando Assis Pacheco - Tentas, de longe](https://singularidadepoetica.art/2020/03/23/fernando-assis-pacheco-tentas-de-longe/): Tentas, de longe, dizer que estás aqui. Com peso triste caminha na rua o Outono. O meu coração debruça-se à janela a ver pessoas e carros, e as folhas caindo. Mastigo esta solidão como quando era pequeno e jantava diante dos pais zangados: devagar, ausente.
- [Sharon Olds - Uma semana depois](https://singularidadepoetica.art/2020/03/22/sharon-olds-uma-semana-depois/): Uma semana depois, eu disse a um amigo: acho quenunca poderia escrever sobre isso.Talvez daqui a um ano eu consiga escrever alguma coisa.Há algo em mim que talvez algumdia possa ser escrito; por ora está dobrado, e redobrado,como um bilhete da escola. E em meu sonhoalguém jogava jacks, e no ar havia umjack arremessado, enorme, […]
- [William Stafford - Uma cópia de arquivo](https://singularidadepoetica.art/2020/03/21/william-stafford-uma-copia-de-arquivo/): Deus tira seu retrato: não desvie o olhar –agora, neste quarto, seu rosto inclinadoexatamente como é, antes de você pensarou controla-lo. Vá em frente, deixe-se trair portodas as urgências secretas e ainda mantenhaaquele disfarce parcial que você chama de caráter. Mesmo o seu lábio, dizem, o modo como ele arqueiaou não, ou hesita, entregarávolumes de […]
- [Dylan Thomas - Poema de outubro](https://singularidadepoetica.art/2020/03/20/dylan-thomas-poema-de-outubro/): Era o meu trigésimo ano rumo ao céu Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto e do bosque ao lado, E da praia empoçada de mexilhões E sacralizada pelas garças O aceno da manhã Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas E o chocar-se dos barcos contra o muro […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A flor e a náusea](https://singularidadepoetica.art/2020/03/19/carlos-drummond-de-andrade-a-flor-e-a-nausea/): Preso à minha classe e a algumas roupas, Vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o […]
- [Czeslaw Milosz - Onde quer que esteja](https://singularidadepoetica.art/2020/03/18/czeslaw-milosz-onde-quer-que-esteja/): Onde quer que esteja, em qualquer lugar na Terra, escondo dos outros a certeza de que n ã o s o u d a q u i. Como se tivesse sido enviado para absorver o máximo das cores, sons, cheiros, sabores, provar de tudo o que é reservado ao Homem, converter o vivido num registo […]
- [Nicanor Parra - Último brinde](https://singularidadepoetica.art/2020/03/17/nicanos-parra-ultimo-brinde/): Querendo ou não,só temos três alternativas:o ontem, o presente e o amanhã. E nem sequer três,pois, como diz o filósofo,ontem é ontem,é nosso apenas na memória:à rosa que já se desbastounão se pode arrancar outra pétala. As cartas por jogarsão apenas duas:o presente e o dia de amanhã. E nem sequer duas,porque é um fato […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Ishmar](https://singularidadepoetica.art/2020/03/16/jorge-valdes-diaz-velez-ishmar/): para Martha Iga A maneira de pentear-te nua diante do espelho úmido do banheiro, de prender na palma teus cabelos para fazer correr a água e de agachar-te no meio de palavras que não entendo; o ato de secar tua pele, a forma de sentir com os dedos uma ruga que ontem não estava, ou […]
- [Lisel Mueller - Quando me perguntam](https://singularidadepoetica.art/2020/03/15/lisel-mueller-quando-me-perguntam/): Quando me perguntamcomo comecei a escrever poesia,eu falo da indiferença da natureza. Foi logo depois que minha mãe faleceu,um dia radiante de junhoem que tudo florescia. Sentei-me em um banco de pedra acinzentadoem um jardim carinhosamente cultivado,mas os lírios eram tão surdosquanto os bêbados adormecidose as rosas curvadas para dentro.Nada estava enlutado ou quebrado,nem uma […]
- [Lawrence Ferlinghetti - Allen Ginsberg morrendo](https://singularidadepoetica.art/2020/03/14/lawrence-ferlinghetti-allen-ginsberg-morrendo/): Allen Ginsberg está morrendoEstá em todos os jornaisEstá no noticiário noturnoUm grande poeta está morrendoMas sua voznão vai morrerSua voz está na terraNo Baixo Manhattanna sua camaele está morrendoNão há nadaa fazer sobre issoEle está morrendo a morte que todos enfrentamEle está morrendo a morte do poetaEle tem um telefone em sua mãoe liga para […]
- [Billy Collins - Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/13/billy-collins-esquecimento/): O nome do autor é o primeiro a desaparecerseguido obedientemente pelo título, a trama,a conclusão comovente, o romance inteiroque subitamente se torna algo que você nunca leu,nunca sequer ouviu falar, como se, uma a uma, as memórias que você costumava abrigardecidissem se aposentar no hemisfério sul do cérebro,em uma pequena aldeia de pescadores onde não […]
- [Alberto Pucheu - A luta antes da luta](https://singularidadepoetica.art/2020/03/12/alberto-pucheu-a-luta-antes-da-luta/): Você sabe, de nada adianta rezar no canto do ringue. Aquele que nele sobe, sobe sozinho. As bravatas lançadas na hora da pesagem e o peso da multidão colado em sua carne, você sabe, lá em cima, só aumentarão seu abandono. Você sabe também o preço que terá de pagar se deixar que qualquer vagabundo […]
- [Bertrand Russell - de "No que acredito"](https://singularidadepoetica.art/2020/03/11/bertrand-russell-de-no-que-acredito/): “Acredito que ao morrer apodrecerei e nada do meu eu sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenho tremer de terror à ideia do aniquilamento. A felicidade não se torna menos verdadeira por ter que chegar ao fim, e o pensamento e o amor não perdem o seu valor por não durarem para […]
- [Ernesto Cardenal - de "Epigramas"](https://singularidadepoetica.art/2020/03/10/ernesto-cardenal-de-epigramas/): de "Epigramas", Um poema de Ernesto Cardenal
- [Carlos Drummond de Andrade - A bruxa](https://singularidadepoetica.art/2020/03/09/carlos-drummond-de-andrade-a-bruxa/): Nesta cidade do Rio,de dois milhões de habitantes,estou sozinho no quarto,estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho?Ainda há pouco um ruídoanunciou vida ao meu lado.Certo não é vida humana,mas é vida. E sinto a bruxapresa na zona de luz. De dois milhões de habitantes!E nem precisava tanto…Precisava de um amigo,desses calados, distantes,que leem verso de […]
- [Joan Margarit - No museu](https://singularidadepoetica.art/2020/03/08/joan-margarit-no-museu/): Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro.Com um gesto solene, comprime o punhoe tenta explicar a força queacredita ver na pintura.Esta velha obsessão de transmitiraos pequenos nossos pobres recursos.Atento, o menino observa com temor.Talvez pressinta a solidão que se ocultanos gestos, na retórica da arte.Temos sempre a verdade diante de nós,mas, assim como […]
- [Michael Krüger - Discurso do homem lento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/07/michael-kruger-discurso-do-homem-lento/): A história acelera,logo nos alcança,precedendo-nos com passos ligeiros.Vemos então por trása Era Glacial, Grécia,Roma, a Revolução francesa,a nuca de Stalin, as luzes traseirasdo carro de Hitler.Estranho que não se cansenem esmoreça.Às vezes se virae nos mostra sua caracom a boca escancaradae os dentes podres. Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução para o italiano feita […]
- [Louise Glück - Under Taurus](https://singularidadepoetica.art/2020/03/06/louise-gluck-under-taurus/): Estávamos no píer, e você desejavaque eu visse as Plêiades. Eu podia vertudo, menos o que você desejava. Agora o seguirei. Não há uma única nuvem; as estrelasaparecem, até mesmo a irmã invisível. Mostre-me onde olhar,como se elas fossem ficar onde estão. Instrua-me na escuridão. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. […]
- [Dan Fante - [Agora que eu já escrevi]](https://singularidadepoetica.art/2020/03/05/dan-fante-agora-que-eu-ja-escrevi/): Agora que eu já escrevi dez anos de livros e peças e abandonei álcool e cigarros e a gloriosa pornografia suja e minhas roupas não fedem por passar a noite dormindo no velho Pontiac e meu cabelo está caindo e estou dez quilos mais gordo Aos meus cinquenta anos com ligações a retornar e responsabilidades […]
- [Roberto Juarroz - Assim como não podemos](https://singularidadepoetica.art/2020/03/04/roberto-juarroz-assim-como-nao-podemos/): Assim como não podemos sustentar por muito tempo um olhar, também não podemos sustentar por muito tempo a alegria, a espiral do amor, a gratuidade do pensamento, a terra em suspensão do cântico. Não podemos sequer sustentar por muito tempo as proporções do silêncio quando algo o visita. E menos ainda quando nada o visita. […]
- [T. S. Eliot - A Terra Desolada](https://singularidadepoetica.art/2020/03/03/t-s-eliot-a-terra-desolada/): A TERRA DESOLADA 1922 Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse oculis meis vidi in ampulla pendere, et cum illi pueri dicerent: Σίβνλλα τί ϴέλεις; respondebat illa: άπο ϴανεΐν ϴέλω.* A Ezra Paound Il miglior fabbro I. O ENTERRO DOS MORTOS Abril é o mais cruel dos meses, germinando Lilases da terra morta, misturando Memória e […]
- [Galway Kinnell - Aquela noite silenciosa](https://singularidadepoetica.art/2021/05/22/galway-kinnell-aquela-noite-silenciosa-poema/): Eu voltarei àquela noite silenciosaem que nos deitamos juntos e conversamos em vozes baixas, silenciosas,enquanto do lado de fora caíam lentos fragmentos de nevesuave, silenciando ao se aproximar do solo,com um incêndio no quarto, onde séculosde árvores evolaram-se em contínuas almas-ausentando-se,sem um estalido, até a luz da manhã.Só dormimos quando o que se apressava mais […]
- [Barbara Crooker - No meio](https://singularidadepoetica.art/2021/05/20/barbara-crooker-no-meio-poema/): de uma vida que é tão complicada quanto a de todo mundo,batalhando por equilíbrio, equilibrando o tempo.O relógio de lareira que foi do meu avôparou às 9:20; não tivemos tempode conserta-lo. O pêndulo de bronze está imóvel,os sinos não soam. Um dia eu olho pela janela,verde verão, no outro, as folhas já caírame um céu […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Ausência](https://singularidadepoetica.art/2021/05/18/sophia-de-mello-breyner-andresen-ausencia-poema/): Num deserto sem águaNuma noite sem luaNum país sem nomeOu numa terra nua Por maior que seja o desesperoNenhuma ausência é mais funda do que a tua. Conheça outros livros de Sophia de Mello Breyner Andresen clicando aqui
- [Juan Vicente Piqueras - O testemunho do gajeiro](https://singularidadepoetica.art/2021/05/16/juan-vicente-piqueras-o-testemunho-do-gajeiro-poema/): Para falar a verdade, pareceu-me outro gesto de presunção,muito dele,aquela urgência com que nos pediuque o amarrássemos ao mastropara escapar do canto das sereias. As sereias estavam cantando, isso é verdade,mas não exatamente para seduzi-lo. E por que não a qualquer um de nós?Por que elas deveriam tentar seduzir alguém?Quem pode garantir que não estavam simplesmente […]
- [Nelson Santander - O dia em que meu pai ouviu a voz de Deus](https://singularidadepoetica.art/2021/05/15/nelson-santander-o-dia-em-que-meu-pai-ouviu-a-voz-de-deus/): O conhecido escritor de ficção científica Arthur C. Clarke formulou três “leis” acerca da relação entre o homem e a tecnologia que ficaram muito famosas. Dentre elas, a mais conhecida é a terceira, que reza: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.” Lembrei dessa Lei quando, em um certo domingo, fui visitar meus pais. […]
- [Gastão Cruz – Pedro Hestnes](https://singularidadepoetica.art/2021/05/14/gastao-cruz-pedro-hestnes-poema/): Passou a alguns metros de onde eu estava; não o via há anos e nem sei qual a última vez que com ele falara Não o reconheci de imediato e bastou essa dúvida para criar um hiato na linha dos olhares de repente cruzados dentro da tarde; receara decerto não ter sido por mim reconhecido […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Ciência](https://singularidadepoetica.art/2021/05/12/carlos-drummond-de-andrade-ciencia-poema/): Começo a ver no escuro um novo tom de escuro. Começo a ver o visto e me incluo no muro. Começo a distinguir um sonilho, se tanto, de ruga. E a esmerilhar a graça da vida, em sua fuga. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [John Keats - Ode a um rouxinol](https://singularidadepoetica.art/2021/05/10/john-keats-ode-a-um-rouxinol-2/): 1.Meu peito dói; um sono insano sobre mimPesa, como se eu me tivesse intoxicadoDe ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim,Há um só minuto, e após no Letes me abismado:Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte,É do excesso de ser que aspiro em tua paz –Quando, Dríade leve-alada em meio […]
- [Denver Butson - Meu irmão](https://singularidadepoetica.art/2021/05/08/denver-butson-meu-irmao-poema/): Para escapar das dores de cabeça e aos medos de uma esposa infielmeu irmão em perpétua reabilitação usuário de drogasmaquinista encrenqueiro preso aos 14 por incêndio premeditadoe encarcerado por algumas semanaspai de um filho e de um feto abortadojogador de boliche ocasional e fã de heavy metalapreciador de ketchup batata chips strombolie cheesesteak usuário de […]
- [Ursula K. Le Guin – Como me parece](https://singularidadepoetica.art/2021/05/06/ursula-k-le-guin-como-me-parece-poema/): No vasto abismo antes do tempo, o eunão existe, e a alma se misturacom a névoa, a rocha e a luz. No tempo certo,a alma atrai o nebuloso eu para o ser.Então, lentamente, o tempo petrifica o euenquanto ilumina a alma,até que a alma perde o controle do eue ambos se libertam e podem retornarà […]
- [Mary Oliver - O véu](https://singularidadepoetica.art/2021/05/04/mary-oliver-o-veu-poema/): Há momentos em que o véu parecequase se levantar, e compreendemos o quea terra significa para nós — asárvores em sua docilidade, as colinas emsua paciência, as flores e asvideiras em sua selvagem, doce vitalidade.A Palavra, então, está em nós, e o Livro, posto de lado. Trad.: Nelson Santander Conheça outros livros de Mary Oliver […]
- [Solmaz Sharif – Treinamento de habilidades sociais](https://singularidadepoetica.art/2021/05/02/solmaz-sharif-treinamento-de-habilidades-sociais-poema/): Estudos sugerem que Como posso ajuda-lo, policial? é a coisa mais desarmante a dizer, e não Qual é o problema? Estudos sugerem que a melhor resposta a um pedido de ajuda é Com prazer e não Sem problema. Estudos sugerem que é melhor não mencionar problema diante do poder, mesmo para dizer que não há […]
- [Louise Glück - Santas](https://singularidadepoetica.art/2021/04/30/louise-gluck-santas-poema/): Em nossa família, havia duas santas,minha tia e minha avó.Mas suas vidas foram diferentes. Minha avó era tranquila, mesmo no final.Ela parecia uma pessoa caminhando em águas calmas;por alguma razãoo mar não conseguiu feri-la.Quando minha tia enveredou pelo mesmo caminho,as ondas quebraram sobre ela, atacaram-na,que é como as Fiandeiras do Destino respondema uma verdadeira natureza […]
- [Mary Oliver - Canção dos construtores](https://singularidadepoetica.art/2021/04/28/mary-oliver-cancao-dos-construtores-poema/): Em uma manhã de verãosentei-meem uma encostapara pensar em Deus— um nobre passatempo.Perto de mim, vium grilo solitário;estava movendo os grãos da encosta de um lado para o outro.Quão grande era sua energia,quão humilde o seu esforço.Esperemos que seja sempre assim,cada um de nós avançandopor nossos inexplicáveis caminhosconstruindo o universo. Trad.: Nelson Santander Conheça outros […]
- [Adrienne Rich - Fotografias do Hubble: Após Sappho](https://singularidadepoetica.art/2021/04/26/adrienne-rich-fotografias-do-hubble-apos-sappho-poema/): Leia Fotografias do Hubble: Após Sappho, de Adrienne Rich, um poema que aproxima amor, desejo e a imensidão do universo visível.
- [Edward Field - Ícaro](https://singularidadepoetica.art/2021/04/24/edward-field-icaro-poema/): Apenas as penas flutuando ao redor do chapéuMostravam que algo mais espetacular havia ocorridoAlém do afogamento habitual. A polícia preferiu ignorarOs aspectos confusos do casoE as testemunhas correram para uma guerra de gangues.Assim, o relatório arquivado e esquecido nos registros dizia simplesmente“Afogado,” mas estava errado: ÍcaroTinha nadado para longe, chegando finalmente à cidadeOnde alugou uma […]
- [Joan Margarit – Separado](https://singularidadepoetica.art/2021/04/22/joan-margarit-separado-poema/): A casa se abre para uma calçadaonde não me espera ninguém.Aqui sem ti. Um estranho.Foi aqui que eu me perdi.Caminho sem mim, contigo.Minha sombra é apenas um erro,vem dos lugares mais gélidos:teu coração e tuas mãos.Por isso eu parti.A vida desconhecidaeu a vivi sem ti.A teu lado. Trad.: Nelson Santander Separado La casa se abre […]
- [Lynn Ungar - Pandemia](https://singularidadepoetica.art/2021/04/20/lynn-ungar-pandemia-poema/): "Pandemia", um poema de Lynn Ungar que propõe encarar o isolamento como um tempo sagrado de pausa e reflexão, convidando à compaixão, à consciência da interconexão humana e à expansão do amor em meio à crise global.
- [Carolyn Forché – Dois poemas](https://singularidadepoetica.art/2021/04/18/carolyn-forche-dois-poemas-poema/): Penso em você naquele mar de túmulos além da cidade,onde muitas pedras foram deixadas, entre elas a minha: uma pequena lasca de dolomita para pesar um pedaço de papel.Eu teria colocado suas luvas e o guarda-chuva no caixão, juntamente com uma manhã em Berlin com Tanya, uma horade pombos ascendendo ao seu redor, lilases embrulhados […]
- [Fleur Adcock - Para uma criança de cinco anos](https://singularidadepoetica.art/2021/04/16/fleur-adcock-para-uma-crianca-de-cinco-anos-poema/): Um caracol escala o peitoril da janelado seu quarto, depois de uma noite dechuva. Você me chama para ver,e eu explico que seria cruel deixa-lo lá: ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar para que ninguém o esmague. Você entende e o carrega para fora, com mão diligente,para comer uma flor amarela. Vejo, então, […]
- [Mark Wunderlich - Peônias](https://singularidadepoetica.art/2021/04/14/mark-wunderlich-peonias-poema/): No pátio, as peônias rebentam em brancos corações,rebordos arredondados que desabrocham apenas para elas.Sua simplicidade, a lâmina disso, fende a manhã. Neste Brooklyn de pátios aureolados por arames farpadose roupas sujas balançando como bandeiras de rendição,vapor de resina flutuando até essas janelas, sombras viajando dos pulmões de um fumante,eu observo o helicóptero da polícia ameaçar […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2021/04/12/carlos-drummond-de-andrade-aniversario-poema/): Um verso, para te salvarde esquecimento sobre a terra?Se é em mim que estás esquecida,o verso lembraria apenasesta força de esquecimento,enquanto a vida, sem memória,vaga atmosfera, se condensana pequena caixa em que morascomo os mortos sabem morar. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Lisel Mueller – Românticos](https://singularidadepoetica.art/2021/04/10/lisel-mueller-romanticos-poema/): Românticos Johannes Brahms e Clara Schumann Os biógrafos modernos se preocupamem “o quão longe” foi sua terna amizade.Eles se perguntam o que exatamente significaquando ele escreve que pensa nela constantemente,seu anjo da guarda, amada amiga.Os biógrafos modernos fazem a rude e irrelevante indagaçãode nossa era como se o eventode dois corpos entrelaçados estabelecesse a medida […]
- [Patricia Hampl - É assim que a memória funciona](https://singularidadepoetica.art/2021/04/08/patricia-hampl-e-assim-que-a-memoria-funciona-poema/): Você está desembarcando de um trem.Uma noite úmida e vazia, o cheiro de cinzas.Uma rajada de vapor vinda da locomotiva rodopiaao redor da bainha do seu sobretudo, ao redorda mão que segura a valise de couro marrom,a mão que, há pouco, penteou para tráso cabelo e em seguida ajeitou o fedoradefronte a um espelho com […]
- [Howard Nemerov – Figuras de pensamento](https://singularidadepoetica.art/2021/04/06/howard-nemerov-figuras-de-pensamento-poema/): Colocar a espiral logarítmica naConcha e no papel, e vê-las se encaixar,Observar a mesma ideia funcionarNa subida do piloto de caça, ajustando a mira Em seu alvo, preparando a matança,E no voo de certos insetos estrábicosQue não conseguem ver que voam para a morteMas têm que lançar nela seu olhar de esguelhaE dirigir-se, mas girando, […]
- [Javier Salvago - Nada, nada importa](https://singularidadepoetica.art/2021/04/04/javier-salvago-nada-nada-importa-poema/): Se os anos ensinam alguma coisaé a pouca importânciaque tudo tem.Tudo,cedo ou tarde, passa.O amor, que vaicomo veio. A vagajuventude, com seus sonhos,suas grandes esperanças.Dias de vinho e de rosas,tempos de abundânciado coração. O brilho.A beleza. A vontadede levar a vidaadiante. As presunçosasilusões— estrelasque subitamente se apagame nos deixam em umanoite escura da alma —.A […]
- [Joan Margarit - Noturno em Solivella](https://singularidadepoetica.art/2021/04/02/joan-margarit-noturno-em-solivella-poema/): Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.Detiveste o trator entre as cercas de arameonde se embalam, verdes e densas, as videiras,e escutaste a terra à tua volta.O restaurante te dá dinheiro,mas de madrugada, com ele já fechado,fazendo um café para ti no balcão,pensas o quanto gostas de, à noite, visitarsozinho os arames do […]
- [William Blake – A mosca](https://singularidadepoetica.art/2021/03/31/william-blake-a-mosca-poema/): Pequena Mosca, Teus jogos de estio Minha irrefletida Mão os destruiu. Pois como tu, Mosca não sou eu? E não és tu Homem como eu? Eu canto e danço e Bebo, até que vem Mão cega arrancar-me As asas também. Se é o pensamento Vida, sopro forte, E a ausência do Pensamento morte, Então eu […]
- [Antonio Carlos Secchin - [Não, não era ainda a era da passagem]](https://singularidadepoetica.art/2021/03/29/antonio-carlos-secchin-nao-nao-era-ainda-a-era-da-passagem-poema/): Não, não era ainda a era da passagem do nada ao nada, e do nada ao seu restante. Viver era tanger o instante, era linguagem de se inventar o visível, e era bastante. Falar é tatear o nome do que se afasta. Além da terra, há só o sonho de perdê-la. Além do céu, o mesmo céu, que se alastra num […]
- [Linda Pastan - Chove sobre a casa de Anne Frank](https://singularidadepoetica.art/2021/03/27/linda-pastan-chove-sobre-a-casa-de-anne-frank-poema/): Chove sobre a casade Anne Franke sobre os turistasamontoados sob a sombrade seus guarda-chuvas,sobre os perfeitamente silenciososturistas que prefeririam estarem outro lugarmas que aqui esperam em escadastão íngremes pelas quais devem subirpara alguma ocasiãono sótão vazio,no banheiro pitoresco,no esqueletode uma cozinhaou no mapa —cada uma de suas setasuma farpa de arame —com todas as datas, […]
- [Robert Morgan - Outono branco](https://singularidadepoetica.art/2021/03/25/robert-morgan-outono-branco-poema/): Ela sempre gostou de ler, inclusivena infância, durante a Guerra da Secessão,e depois desenvolveu o hábito de ficar acordadajunto ao lampião perto da lareira depois que,concluída a faxina, o marido e os filhos iam dormir.Ela alimentou o vício nos anos durosda Reconstrução e mesmo depois queo seu marido morreu e ela foi forçada a prover […]
- [Mary Oliver – Quando estou entre as árvores](https://singularidadepoetica.art/2021/03/23/mary-oliver-quando-estou-entre-as-arvores-poema/): Quando estou entre as árvores,especialmente entre os salgueiros e os espinheiros-da-virgínia,mas também entre as faias, os carvalhos e os pinheiros,elas emitem tantos sinais de alegria.Eu quase diria que elas me salvam, e diariamente.Estou tão distante de minhas expectativas sobre mim mesma,nas quais eu reúno bondade, e discernimento,e nunca me apresso no mundo,mas caminho lentamente, e […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Formas migratórias](https://singularidadepoetica.art/2021/03/21/jorge-valdes-diaz-velez-formas-migratorias-poema/): Formas Migratórias para Katia Alemann Aprendemos a amar a conta-gotasessas pequenas pausas de que se vesteo temporal para inundar a solidãodo lado de fora, o ramo entre violeta e ocre das tardes, o murmúriosemântico do céu. Nesta ordem,temos esmaecido a distância,a longitude sem proporção, as linhasque se relacionam com as coisas. Curtaslacunas de ar, esses […]
- [Leonard Nathan - Brinde](https://singularidadepoetica.art/2021/03/19/leonard-nathan-brinde-poema/): Houve uma mulher em Ithacaque chorou baixinho a noite todano quarto ao lado e desamparadome apaixonei por ela sob o mantode neve que se depositou em todos os telhadosda cidade, preenchendocada escura depressão. Na manhã seguinteno café do motelestudei todas as mulheres de rostosmaquiados. Teria sido a loira de meia idadeque brincou com a garçoneteou a […]
- [James Kirkup – Ursa Maior](https://singularidadepoetica.art/2021/03/17/james-kirkup-ursa-maior-poema/): Suspensa entre os álamos domesticados no fimda avenida familiar, a UrsaMaior, em sua rede iluminada, balança,como um portão abandonado que nem barra nem convida para entrar,e pendura no poste arqueado sua silhueta de sete pontas. Desenhada com a precisão de um problema desconhecidosolucionado na sala de aula mais alta do céu vazio,ela revela sobre o […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - A outra rosa](https://singularidadepoetica.art/2021/03/15/jorge-valdes-diaz-velez-a-outra-rosa-poema/): Ela beijou na rosa(seu nome era um aguilhãofeminino e brutal)a imagem de outra rosa gravada em uma lousade mármore, cristalina.A luz era mais finae, ao tato, tão airosa quanto a flor que ardiasem pausa em sua memória.Em outro meio-dia, a rosa era ilusóriapromessa repartida;e o beijo, a outra vida. Trad.: Nelson Santander La otra rosa […]
- [Donald Hall - Últimos dias](https://singularidadepoetica.art/2021/03/13/donald-hall-ultimos-dias-poema/): “Era razoávelesperar.” Assim ele escreveu. No dia seguinte,em um consultório,a hematologista de Jane, Letha Mills, sentou-se,tensa, sua secretáriaem pé, de costas para a porta.“Trago péssimas notícias,”disse Letha. “A leucemia voltou.Não há nada a fazer.”Os quatro choramos. Ele perguntou há quanto tempo,por que isso aconteceu agora?Jane perguntou apenas: “Posso morrer em casa?” Em casa, naquela tarde,eles […]
- [Louise Glück - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2021/03/11/louise-gluck-acalanto-poema/): Minha mãe é especialista em uma coisa:enviar pessoas que ela ama para o outro mundo.Os pequeninos, os bebês — estesela embala, sussurrando ou cantando baixinho. Não posso dizero que ela fez pelo meu pai;o que quer que tenha sido, tenho certeza de que foi o certo. De fato, é a mesma coisa preparar uma pessoa […]
- [Warsan Shire – para mulheres que são 'difíceis' de amar](https://singularidadepoetica.art/2021/03/08/warsan-shire-para-mulheres-que-sao-dificeis-de-amar/): "para mulheres que são 'difíceis' de amar", um poema de Warsan Shire que aborda a intensidade feminina e a recusa em se diminuir para caber nas expectativas masculinas, celebrando a autonomia, a força e a beleza de mulheres que não aceitam transformar-se para serem amadas.
- [Juan Vicente Piqueras - Museu da Acrópole](https://singularidadepoetica.art/2021/03/07/juan-vicente-piqueras-museu-da-acropole-poema/): Uma mão de mármore, mas apenas os dedos,sobre um ombro de mármore sem cabeça. Um braço erodido que ninguém estende a ninguém. Um cavalo sem patas. Um cavaleiro que é apenas suas coxas. Dionísio aos pedaços, recomposto. Um touro sem chifres que está sendo devoradopor um leão que lá não está,apenas suas garras. Admiramos o […]
- [Javier Salvago - Canção do Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2021/03/05/javier-salvago-cancao-do-esquecimento-poema/): A cor dos olhos daquele paixão juvenil.O calor do primeiro beijo, do qual não melembro, embora saiba que deva ter sidoinesquecível. Tantos colegas e amigosda escola ou de farra, que um dia foram próximos.O latim. Tantos nomes de montanhas e de rios.Tantas duras lições. Tantos e tantos livros, devorados com paixão, sempre abertos, lidose esquecidos, […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Véspera](https://singularidadepoetica.art/2021/03/03/carlos-drummond-de-andrade-vespera-poema/): Amor: em teu regaço as formas sonham o instante de existir: ainda é bem cedo para acordar, sofrer. Nem se conhecem os que se destruirão em teu bruxedo. Nem tu sabes, amor, que te aproximas a passo de veludo. És tão secreto, reticente e ardiloso, que semelhas uma casa fugindo ao arquiteto. Que presságios circulam […]
- [Hannah Sullivan - 3.31 (de "Three Poems")](https://singularidadepoetica.art/2021/03/01/hannah-sullivan-3-31-de-three-poems-poema/): O que subsistirá a nós?Larkin pensava que a resposta poderia ser “amor,”Mas não conseguiu prova-lo. “A pasta de rascunhos era o lugar mais interessante.” “Sempre foi você, no final.”“Ele tentou lhe dizer à sua maneira.” Curtas cadeias de carbono no pó,Esta é a resposta prática.Velhos laptops, marca-passos, parafusos ósseos.Filamentos de DNA revelando a causa da […]
- [Charles Simic - O altar](https://singularidadepoetica.art/2021/02/27/charles-simic-o-altar-poema/): A estátua de plástico da VirgemEm cima de uma penteadeiraCom um espelho enegrecidoDe um salão de beleza de pesadelo. Dois seixos do túmulo de um astro de rock,Um pequeno e sorridente macaco de dar corda,Uma concha, uma moeda egípcia de bronze,E o canhoto vermelho de um ingresso de cinema. Uma mancha de luz solar na […]
- [X. J. Kennedy - O objetivo do tempo é evitar que tudo aconteça de uma só vez](https://singularidadepoetica.art/2021/02/25/x-j-kennedy-o-objetivo-do-tempo-e-evitar-que-tudo-aconteca-de-uma-so-vez-poema/): Imagine que sua vida seja um telescópio dobradoAtemporal, que desmoronou num piscar de olhosDo ventre de sua mãe, você, berrando, caiEm uma casa de repousos. Imagine que você destrói Seu carro, seu casamento — uma criança devastando Um campo de margaridas, estudante, adolescente espinhentoCom a amada, fechando às pressas o zíper das calçasAo ouvir os […]
- [Ross Gay - Tristeza não é o meu nome](https://singularidadepoetica.art/2021/02/23/ross-gay-tristeza-nao-e-o-meu-nome-poema/): — depois de Gwendolyn Brooks Não importa a atração pelo abismo. Pouco importa o sono profundo e florido que o aguarda. Há tempo para tudo. Veja, ainda esta manhã um abutre acenou com a cabeça vermelha e pardacenta para mim, e eu olhei para ele, admirando a foice do seu bico. Então o vento soprou, […]
- [Denise Levertov – Peregrinações no mundo paralelo](https://singularidadepoetica.art/2021/02/21/denise-levertov-peregrinacoes-no-mundo-paralelo-poema/): Vivemos nossas vidas de paixões humanas, crueldades, sonhos, ideias, crimes e o exercício da virtude em e ao lado de um mundo privado de nossas preocupações, isento de nossas apreensões — embora afetado, certamente, por nossas ações. Um mundo paralelo ao nosso, embora a ele sobreposto. Nós o chamamos de “Natureza”; apenas relutantemente admitindo que […]
- [Maggie Smith - O primeiro outono](https://singularidadepoetica.art/2021/02/19/maggie-smith-o-primeiro-outono-poema/): Eu sou sua guia aqui. Nas ruas crepusculares da manhã, eu aponto e nomeio. Veja os sicômoros, suas cascas manchadas, pintadas-por-números. Veja as folhas enferrujando e crepitando nas pontas. Eu caminho pelo Schiller Park com você no meu peito. As estrelas ardem plenamente à luz do dia. Veja o lago, os patos, os cães chapinhando […]
- [Joan Margarit - Manhã no cemitério de Montjuïc](https://singularidadepoetica.art/2021/02/18/joan-margarit-manha-no-cemiterio-de-montjuic-poema/): Fui à colina dos túmulos:lá cheguei cruzando o ermoda Can Tunis, coberto de seringase de plásticos pardacentos, onde tremem, errantes,as estátuas de trapo dos drogados.Corre o boato de que a Prefeiturairá destruí-lo, cobrindo de concretoos terrenos com mato em frente à enorme grade do cemitério, erguida de frente para o mar.Que má companhia será para […]
- [Louis MacNeice - A luz do sol no jardim](https://singularidadepoetica.art/2021/02/17/louis-macneice-a-luz-do-sol-no-jardim-poema/): A luz do sol no jardimEndurece e esmorece,Não podemos enjaular o minutoEm suas malhas de ouro;Quando tudo é proclamadoNão podemos implorar por perdão. Nossa liberdade, como soldados a soldo,Avança em direção ao seu fim;A mundo compele, nele Baixam sonetos e pássaros; E em breve, meu amigo,Não teremos tempo para danças. O céu estava bom para […]
- [Mary Oliver - Os usos da tristeza](https://singularidadepoetica.art/2021/02/15/mary-oliver-os-usos-da-tristeza-poema/): (enquanto dormia, sonhei este poema) Alguém que amei uma vez me deuuma caixa cheia de escuridão. Levei anos para entenderque isto, também, foi uma dádiva. Trad.: Nelson Santander The uses of sorrow (In my sleep I dreamed this poem) Someone I loved once gave mea box full of darkness. It took me years to understandthat […]
- [Gil Jorge - Augusto 90's](https://singularidadepoetica.art/2021/02/14/gil-jorge-augusto-90s/)
- [Lêdo Ivo – Achamento e duração dos mortos](https://singularidadepoetica.art/2021/02/13/ledo-ivo-achamento-e-duracao-dos-mortos-poema/): És o cemitério. Os mortos não jazem debaixo da terra. Não estão ocultos num lençol de relva mas sob tua pele. Tuas veias são ruas onde os mortos passeiam fagueiros, e em férias percorrem, turistas do eterno, os museus do éter. E nas terras velhas de tua memória almas veraneiam. Meu filho, viver é comerciar […]
- [Jane Hirshfield – Jasmim](https://singularidadepoetica.art/2021/02/11/jane-hirshfield-jasmim-poema/): Quase o século vinte e um —quão rapidamente o pensamento ficará datado,até mesmo pitoresco? Nossas esperanças, nosso futuro,passarão como as esperanças e futuros dos outros. E todas as nossas ansiedades e terrores,noites de insônia,pesares,se apresentarão então como realmente são — Abelhas delirantes e trôpegas pelo aroma do chá de jasmim. In “The lives of the […]
- [Seán Hewitt - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2021/02/09/sean-hewitt-fantasma-poema/): i. Despertando, quase de manhã, mas aindade um escuro metálico, fechado, no quarto: um som dentro do meu sonho, apenas um lamentono início, que depois se torna humano, um uivoque se eleva na rua do lado de fora, fica sem respostae então se eleva novamente. De cueca, tremendojunto à janela de uma só vidraça, mas […]
- [Edward Field - Máscara mortuária](https://singularidadepoetica.art/2021/02/07/edward-field-mascara-mortuaria-poema/): Máscara mortuária “A velhice é a mais inesperada de todas as coisas que acontecem a um homem.“ –Leon Trotsky. “Não me falem Da sabedoria dos velhos, mas antes de […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Nudez](https://singularidadepoetica.art/2021/02/05/carlos-drummond-de-andrade-nudez-poema/): Não cantarei amores que não tenho, e, quando tive, nunca celebrei. Não cantarei o riso que não rira e que, se risse, ofertaria a pobres. Minha matéria é o nada. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada, é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa, nem […]
- [David Whyte – Algumas vezes](https://singularidadepoetica.art/2021/02/04/david-whyte-algumas-vezes-poema/): Algumas vezes,se você se mover cuidadosamentepela floresta,respirandocomo osdas velhas histórias,que podiam atravessarum resplandescente leito de folhassem um som,você chega a um lugar cuja única missão é incomoda-locom ínfimas mas assustadoras exigências,concebidas do nadamas neste lugarque começa a leva-lo para todos os lugares.Exigências para que você pareo que está fazendo agora,e pare o que você está […]
- [Paul Tran - A caverna](https://singularidadepoetica.art/2021/02/02/paul-tran-a-caverna-poema/): Alguém que estava na abertura teve a ideia de entrar. Ir além do ponto onde a luz ou a linguagem poderiam ir. À medida que ele seguia a ideia, luz e linguagem o acompanhavam como dois lobos — ofegantes, ouvindo o próprio resfolegar. Um aroma informe no ar úmido… Prossiga, disse a ideia. Alguém prosseguiu. […]
- [Maya Angelou – Uma verdade corajosa e surpreendente](https://singularidadepoetica.art/2021/01/31/maya-angelou-uma-verdade-corajosa-e-surpreendente-poema/): Nós, este povo, em um pequeno e solitário planetaViajando através do espaço acidentalPassando por estrelas distantes, cruzando o caminho de indiferentes sóisPara um destino onde todos os sinais nos advertem queÉ possível e imperativo que aprendamosUma verdade corajosa e surpreendente E quando chegarmos a isso, Ao dia da pacificaçãoQuando libertarmos nossos dedosDos punhos da hostilidadeE […]
- [Eavan Boland - O barógrafo](https://singularidadepoetica.art/2021/01/29/eavan-boland-o-barografo-poema/): Encontrei-o no cais,um retângulo de madeira,um barógrafo, a pena de sua haste rabiscando o papel. Eu o trouxe para casa para serum registro dos ventos,da pressão crescente, apto a escrever a sina barométricado nosso cotidianoem um mundo onde carrinhos de livros levados pelo vento junto ao rioprometiam palavras selvagensmas obedeciam ao censor. Os Bancos em […]
- [Anna Belle Kaufman – Frio conforto](https://singularidadepoetica.art/2021/01/27/anna-belle-kaufman-frio-conforto-poema/): Quando minha mãe morreu,um dos seus bolos de mel permaneceu no freezer.Eu não poderia suportar o seu desaparecimento,então, abandonado, ele esperou em sua caverna de gelo atrás das bandejas de metal por mais dois anos. No meu quadragésimo primeiro aniversário,retirei-o de lá,uma ressurreição retangular,e sopesei o fardo morto na palma da mão. Antes que ele […]
- [Stephen Dunn – Felicidade](https://singularidadepoetica.art/2021/01/25/stephen-dunn-felicidade-poema/): Felicidade Um estado em que não se deve ousar entrar com a esperança de lá permanecer, areia movediça nos pântanos, e todos os caminhos que conduzem a um castelo que não existe. Mas lá está ele, como prometido, com sua ponte perfeita sobre os crocodilos, e suas portas perpetuamente abertas. Trad.: Nelson Santander Happiness A […]
- [Ana Martins Marques - A porta de saída](https://singularidadepoetica.art/2021/01/23/ana-martins-marques-a-porta-de-saida-poema/): “Eu vou morrer, masisso é tudo o que farei pela Morte”Edna St. Vincent Millay, Objeção de consciência “Alô, iniludível” Manuel Bandeira, Consoada A porta de saída Mas não serei eua colocar-lhe a mesa– quando chegarencontrará a casa como sempreem desordemcheia de livros e discoscom plantas e gatos ao sole os papéis em órbitaem torno da camae […]
- [David Mourão-Ferreira - E por vezes](https://singularidadepoetica.art/2021/01/21/david-mourao-ferreira-e-por-vezes-poema/): E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por […]
- [José Miguel Silva - Desculpas não faltam](https://singularidadepoetica.art/2021/01/19/jose-miguel-silva-desculpas-nao-faltam-poema/): Uma casa junto ao Vouga,rio de água suficiente,onde apenas se mergulhaaté à cintura, a pequena hortade Virgílio, o amor robustecidopor nenhuma esperançae tantos livros para ler– que desculpa vou agora darpara não ser feliz?
- [Germana Zanettini – bem-me-quer](https://singularidadepoetica.art/2021/01/17/germana-zanettini-bem-me-quer-poema/): bem-me-quer e quando a morteme desfolharnum sopro de outonoe súbito cessar o peito virarei pó e voltareipólenno vento
- [Wendell Berry - O desejo de ser generoso](https://singularidadepoetica.art/2021/01/15/wendell-berry-o-desejo-de-ser-generoso-poema/): Tudo a que sirvo morrerá, todos os meus deleites,a carne acesa de minha carne, jardim e campo,os lírios silenciosos que se encontram na floresta, as florestas, a colina, a terra toda, tudoarderá na maldade humana, ou encolherána própria velhice. Que o mundo me proporcioneo sono das trevas sem estrelas, para que eu possa conhecerminha pequena […]
- [Robyn Sarah - Rebitados](https://singularidadepoetica.art/2021/01/13/robyn-sarah-rebitados-poema/): É possível que as coisas não fiquem melhoresdo que estão agora, ou como imaginamos que estejam.É possível que já tenhamos ultrapassado o meio agora.É possível que tenhamos cruzado as Grandes Águassem sabe-lo, e que agora estejamos do outro lado. Sim, acho que já as atravessamos. Agora estamos recebendo ingressos, e eles não são ingressos para […]
- [Una Mannion – Sepultado agachado](https://singularidadepoetica.art/2021/01/11/una-mannion-sepultado-agachado-poema/): Eles deslocam a terra com pequenas espátulas e pincéis epor toda a semana as focas entoam um refrão desolado como se fosse para você.Primeiro, o pé de uma pequena criança,movimentos lentos do pincel em seus ossinhos,sua forma na vala ganhando definição, um lento nascimentono canto do campo à beira da água. Você está deitado de […]
- [Lisel Mueller – Imortalidade](https://singularidadepoetica.art/2021/01/09/lisel-mueller-imortalidade-poema/): No castelo da Bela Adormecidao relógio bate cem anose a garota na torre volta ao mundo.O mesmo ocorre com os criados na cozinha,que nem sequer esfregam os olhos.A mão direita do cozinheiro, levantadahá exatamente um século,completa seu arco descendenteaté a orelha esquerda do ajudante de cozinha;as tensas cordas vocais do garotolibertam finalmenteo sofrido lamento aprisionado,e […]
- [Jeanne Marie Beaumont - Receio que sim](https://singularidadepoetica.art/2021/01/07/jeanne-marie-beaumont-receio-que-sim-poema/): Está começando a chover?O cheque foi devolvido?Estamos sem café?Vai doer?Você pode perder seu emprego?O vidro quebrou?A bagagem foi extraviada?Vai ficar na minha ficha?Você está perdendo muito dinheiro?Alguém ficou ferido? O trânsito está pesado?Eu tenho que tirar minhas roupas?Vai deixar uma cicatriz?Você tem que ir?Isso sairá nos jornais?Meu tempo já acabou?Veremos o substituto?Afetará a minha visão?Todos […]
- [Frank O’Hara - Animais](https://singularidadepoetica.art/2021/01/05/frank-ohara-animais-poema/): Você já se esqueceu de como éramos quando éramos de primeira linhae o dia vinha gordo com uma maçã em sua boca não vale a pena se preocupar com o Tempo mas nós tínhamos alguns truques nas mangase dobramos algumas esquinas afiadas todo pasto parecia nossa refeiçãonão precisávamos de velocímetrospodíamos gerenciar coquetéis sem gelo e […]
- [Ellen Bass – O panorama geral](https://singularidadepoetica.art/2021/01/03/ellen-bass-o-panorama-geral-poema/): Eu tento ver o panorama geral.O sol, língua ardenteque nos lambe como uma mãe encantada por sua nova cria, se consumirá.Tudo é transitório.Pense no meteoro que aniquilou os dinossauros.E antes disso, nos vulcõesdo Permiano — todas aquelas samambaias e répteis, tubarões e peixes ósseos queimados —que foram extintos em uma escalaque faz com que nossas […]
- [W. S. Merwin - Ao Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2021/01/01/w-s-merwin-ao-ano-novo-poema/): Ao Ano Novo, um poema de W. S. Merwin
- [Nelson Santander - O ano novo inalcançável](https://singularidadepoetica.art/2020/12/31/nelson-santander-o-ano-novo-inalcancavel/): Meu xará Nelson Motta costuma afirmar, sem firulas, que a música americana é a melhor do mundo. O jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical, teatrólogo e letrista paulista radicado no Rio de Janeiro dispensa apresentações: sua extensa produção em todos os quadrantes da atividade musical – da produção à composição, passando pela crítica e história […]
- [Ada Limón - O fim da poesia](https://singularidadepoetica.art/2020/12/30/ada-limon-o-fim-da-poesia-poema/): “O fim da poesia”, um poema de Ada Limon que questiona a suficiência da própria linguagem poética diante da experiência concreta da vulnerabilidade humana.
- [Louise Glück – Encruzilhada](https://singularidadepoetica.art/2020/12/29/louise-gluck-encruzilhada/): No poema Encruzilhada, Louise Glück apresenta uma reflexão íntima sobre a relação entre corpo e alma diante da finitude. Com linguagem delicada e confessional, o eu lírico reconhece a fragilidade da existência, revisita o amor da juventude e expressa ternura pelo próprio corpo como morada transitória. O texto aborda mortalidade, impermanência e reconciliação interior em uma meditação poética profunda sobre a despedida da vida.
- [David Mourão-Ferreira – Testamento](https://singularidadepoetica.art/2020/12/27/david-mourao-ferreira-testamento/): Que fique só da minha vida um monumento de palavras Mas não de prata Nem de cinza Antes de lava Antes de nada Daquele nada que se aviva quando se arrisca uma viagem por entre os pântanos da ira além do sol das barricadas Ou quando um poço que cintila parece o tecto de uma […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2020/12/26/giuseppe-ungaretti-natal-3/): Republicação: “Natal”, um poema de Giuseppe Ungaretti
- [Eugénio de Andrade – Último Poema](https://singularidadepoetica.art/2020/12/24/eugenio-de-andrade-ultimo-poema/): Último Poema, um poema de Eugénio de Andrade sobre o Natal
- [Philip Larkin - Canções de amor na velhice](https://singularidadepoetica.art/2020/12/23/philip-larkin-cancoes-de-amor-na-velhice/): Ela guardou canções, tomavam pouco espaçoE as capas lhe eram belas:Uma que apanhou sol e de matizes baços;Uma cheia de círculos de jarra d´água;Uma colada, num “acesso de ordem” dela,E colorida, pela filha – aguar-daram assim, até que em sua viuvez asAchou, procurando algo, e pôs-se dessa vez a Reaprender como cada acorde, obedienteE franco, […]
- [Neil Gaiman – As coletoras de cogumelos](https://singularidadepoetica.art/2020/12/21/neil-gaiman-as-coletoras-de-cogumelos/): Como você sabe, meu pequeno, a ciência é o estudoda natureza e do comportamento do universo.Ela se baseia na observação, na experimentação e na medição,e na formulação de leis para descrever os fatos revelados. Nos velhos tempos, dizem, os homens já vinham equipados com cérebrosprojetados para seguir cárneas-feras em uma corrida,para se lançarem cegamente no […]
- [Joan Margarit – Nada engrandece um velho](https://singularidadepoetica.art/2020/12/19/joan-margarit-nada-engrandece-um-velho/): Nem essa violência com a qual desejoter sempre razão.Nem tampouco crer que a felicidadetem uma relação, sutil, com a mentira.Nem chegar a tero coração tão sujo como o meu,apesar de ter sido a guerra que o sujou.Minha paz deve ser uma falsa paz.Tampouco não abjurar a luxúriae a vaidade.Como podemos ser vaidosos, os velhos? Essa […]
- [Javier Salvago - Variações sobre um velho tema](https://singularidadepoetica.art/2020/12/17/javier-salvago-variacoes-sobre-um-velho-tema-poema/): Os violinos de Verlaine. Os sonhados caminhos da tarde, de don Antonio.* Um velho cheiro de campo. Um velho cheiro de lápis e cadernos. O céu cinzento. O vento entre as árvores. A carícia das primeiras chuvas. A tristeza sem causa. A solidão sonora. A noite, cada vez mais escura e prolongada. Um cigarro que, […]
- [Wendell Berry – Questionário](https://singularidadepoetica.art/2020/12/15/wendell-berry-questionario-poema/): 1. Quanto veneno você está dispostoa consumir para o sucesso do livremercado e do comércio internacional? Por favor,indique seus venenos preferidos. 2. Em nome do bem, quantomal você está disposto a praticar?Preencha os campos abaixocom os nomes de suas maldades eatos de ódio favoritos. 3. Que sacrifícios você está dispostoa fazer pela cultura e pela […]
- [Audre Lorde – As abelhas](https://singularidadepoetica.art/2020/12/13/audre-lorde-as-abelhas-poema/): Na rua, em frente a uma escola,o que as crianças aprenderamas possui.Garotos gritam enquanto apedrejam um enxame de abelhasque tenta se reunirentre a janela do refeitório e uma grade de ferro.Os garotos arremessam pedras furiosasdespedaçando as janelas.As abelhas, zumbindo sua raiva,demoram a atacar.Então, um dos meninos é picadoem uma destruição mais rápidae os inspetores escolares […]
- [Barbara Ras - Você não pode ter tudo](https://singularidadepoetica.art/2020/12/11/barbara-ras-voce-nao-pode-ter-tudo-poema/): Mas você pode ter a figueira e suas folhas fartas como mãos de palhaçoenluvadas de verde. Você pode ter o toque de um único dedo de onze anos de idadeem seu rosto, acordando-a à uma da madrugada para dizer que o hamster reapareceu.Você pode ter o ronronar do gato e o olhar comovente do cachorro […]
- [Ursula K. Le Guin – Hino ao tempo](https://singularidadepoetica.art/2020/12/09/ursula-k-le-guin-hino-ao-tempo-poema/): O Tempo diz “Que haja”e instantaneamente, a todo instante,existe espaço e o esplendorde cada galáxia brilhante. E olhos contemplando o céu cintilante.E a dança dos mosquitos, tremulante.E a extensão do mar.E a morte, e o azar. O tempo deixa espaçopara ir e voltar para casae no ventre do tempotudo começa e acaba. Tempo é ser […]
- [Jane Hirshfield – Encantamento para se recitar contra o ódio](https://singularidadepoetica.art/2020/12/07/jane-hirshfield-encantamento-para-se-recitar-contra-o-odio-poema/): Até que cada respiração repudie eles, aqueles, outros.Até que a Dramatis Personae da primeira página do livro diga: “Cada um deles é você.”Até que a esperança se dobre à sua desesperança apenas quando um ser se dobrar para outro.Até que a crueldade se dobre às suas ações e subitamente perceba: eu.Até que a raiva e […]
- [Warsan Shire – Casa](https://singularidadepoetica.art/2020/12/05/warsan-shire-casa-poema/): ninguém sai de casa a não ser que a casa seja a boca de um tubarãovocê só corre para a fronteiraquando vê a cidade inteira correndo também seus vizinhos correm mais rápidos do que vocêrespiram o sangue em suas gargantaso menino com quem você ia para a escola eque a beijou atordoada atrás da velha […]
- [Louise Glück - Viúvas](https://singularidadepoetica.art/2020/12/03/louise-gluck-viuvas-poema/): Minha mãe está jogando cartas com minha tia,Spite and Malice*, o passatempo da família, o jogoque minha vó ensinava a todas as suas filhas. É o auge do verão: quente demais para sair.Hoje minha tia está em vantagem; ela está recebendo as cartas boas.Minha mãe está se arrastando, com problemas em se concentrar.Ela não consegue […]
- [Nelson Santander - Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/12/01/nelson-santander-singularidade-poema/): Logo no início do blog, publiquei alguns poemas de minha autoria, não tanto pelo valor intrínseco que cada um deles dificilmente possa ter, mas para deixa-los “arquivados” nesse grande arquivo virtual que é a internet. Dentre eles, o poema que segue é aquele que considero o menos ruim de todos os que cometi. Como minhas […]
- [Marissa Davis – Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/11/29/marissa-davis-singularidade-poema/): Singularidade (depois de Marie Howe) no início sem verboiguana & mirramagma & mariposa-fantasma do recife& os cordyceps fazendo cócegas em seus nervos& cedro & arquipélago & anêmonapássaro dodo & cardeal esperando por seu salvermelho do oceano & óleo cru agora lama preta agora o mais naïve plâncton hesitantecada ovo agarrado à cópia maleávelde mim não-mulher […]
- [Marie Howe – Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/11/27/marie-howe-singularidade-poema/): Singularidade (depois de Stephen Hawking) Você às vezes não gostaria de acordar para a singularidadeque um dia fomos? tão compactos ninguémprecisava de cama, ou comida, ou dinheiro — ninguém se escondendo no banheiro da escolaou sozinho em casa abrindo a gavetaonde os comprimidos são guardados. Pois cada átomo que pertence a mimPertence a você. Lembra-se? […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Ex libris](https://singularidadepoetica.art/2020/11/25/jorge-valdes-diaz-velez-ex-libris-poema/): Eu reli novamente aqueles versosque falavam de amor e que lemosna noite em que ardeu Troia e nos perdemosno fundo de seus negros universos. Ouvi em cada folha os maciosrelevos de tua pele em que achamoshaver bebido ao sol em seus racemose ao mar que refletia em seus cicios fartos nossa ascensão ao precipício.Fareja-se a […]
- [Louise Glück – Abundância](https://singularidadepoetica.art/2020/11/23/louise-gluck-abundancia-poema/): Um vento frio sopra nas noites de verão, agitando o trigo.O trigo se curva, as folhas dos pessegueirosfarfalham noite afora. No escuro, um menino cruza o campo:pela primeira vez, ele tocou uma garotae então volta para casa como um homem, com a fome de um homem. Lentamente, as frutas amadurecem —cestas e mais cestas delas […]
- [Edna St. Vincent Millay - Até tarde](https://singularidadepoetica.art/2020/11/21/edna-st-vincent-millay-ate-tarde-poema/): Com a faca cega do Sono, se quiser,Corte cada dia pela metade, amado —Os anos que o Tempo tira do meu viver,Ele deduzirá daquele outro lado! Trad.: Nelson Santander Midnight Oil * Cut if you will, with Sleep’s dull knife,Each day to half its length, my friend,—The years that Time takes off my life,He’ll […]
- [Derek Mahon - Tudo vai ficar bem](https://singularidadepoetica.art/2020/11/19/derek-mahon-tudo-vai-ficar-bem-poema/): Como eu não ficaria feliz em contemplaras nuvens que se dissipam além da janela do sótãoe a maré alta refletida no teto?Haverá mortes, haverá mortes,mas não há necessidade de falar sobre isso.Os poemas fluem espontaneamente da mãoe a fonte oculta é o coração vigilante.O sol se levanta, apesar de tudo,e as distantes cidades são belas […]
- [Linda Hogan – Cruzamentos](https://singularidadepoetica.art/2020/11/17/linda-hogan-cruzamentos-poema/): Há um lugar no centro da terraonde um oceano se dissolve dentro de outroem um amor negro e sacro;É por isso que as baleias de um oceanoconhecem as canções que vem de outro,porque uma coisa se torna outrae a areia escorre da ampulhetapara um outro tempo.Vi uma vez um feto de baleiaem um breu de […]
- [Ian Hamilton - Os quarenta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/12/ian-hamilton-os-quarenta/): “O eu que sobreviveu àqueles anos desprezíveis”,Sua “virtude austera” incrivelmente preservada. Pois bem,Terá se perguntado, isto éO “é isso”?; esta Vida resumidaQue nunca pensei encontrarE nunca procurei: que começa no meioDe tal modo que no fimO dano perdura mais do que a reparação? Aos quarenta e cincoAgora sou o patriarca da casa e ao entardecerVocê […]
- [Eugénio de Andrade - Sou fiel ao ardor...](https://singularidadepoetica.art/2019/08/11/eugenio-de-andrade-sou-fiel-ao-ardor/): Sou fiel ao ardor, amo esta espécie de verão que de longe me vem morrer às mãos, e juro que ao fazer da palavra morada do silêncio não há outra razão.
- [Joan Margarit - Vida Social](https://singularidadepoetica.art/2019/08/10/joan-margarit-vida-social/): Idealizavas esta solidãopara ouvir música ou ler,e caminhar no inverno junto ao mar.Mas a solidão é uma chuvaque suja as janelas deste trem dos anos.A solidão é a palavra crueldo acre ressentimento familiar.É a lei do acaso, um labirinto injusto.É não ter dinheiro, é ter medo.É o sexo, uma estranha pista falsaque conduz ao mais […]
- [Manuel António Pina - A avó](https://singularidadepoetica.art/2019/08/09/manuel-antonio-pina-a-avo/): Tinha ao colo o gato velho cansadamente passando a sua branca mão pelo pelo dele preto e brando Sentada ao pé da janela olhando a rua ou sonhando-a todo o passado passando a passos lentos por ela Dormiam ambos enquanto a tarde se ia acabando o gato dormindo por fora a avó dormindo por dentro
- [Gregory Corso - Tenho 25](https://singularidadepoetica.art/2019/08/08/gregory-corso-tenho-25/): Com um amor louco por Shelley Chatterton Rimbaud e o ganido carente de minha juventude passou de orelha a orelha: EU ODEIO OS VELHOS POETAS! Especialmente velhos poetas que se retratam que consultam outros velhos poetas que falam de suas juventudes em sussurros, dizendo: – Eu fiz mas isso é passado isso é passado […]
- [Armando Silva Carvalho - Struggle for life](https://singularidadepoetica.art/2019/08/07/armando-silva-carvalho-struggle-for-life/): Cheguei há muito à idade filosófica, Secaram-me os sonetos na tão nervosa pena dos sentidos. As aves lânguidas e longas do desejo – Que não eram lânguidas Nem longas – Voaram dos meus sonhos para nunca mais. Houve quem ouvisse os seus gritos românticos, Seguisse o seu devaneio em círculos voláteis, Em versos de dez […]
- [Oscar Wilde - Da vaidade](https://singularidadepoetica.art/2019/08/06/oscar-wilde-da-vaidade/): “Por que você chora?”, perguntaram as Oreiades. “Choro por Narciso”. “Ah, não nos espanta que você chore por Narciso”, continuaram elas. “Afinal de contas, todas nós sempre corremos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza”. “Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago. “Quem […]
- [André Oviedo - Caixa-Preta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/05/andre-oviedo-caixa-preta/): em algum lugar depois do fim flutuando entre os destroços encontraremos a caixa-preta e poderemos finalmente restituir o passado palavra por palavra como chaves perdidas no tempo a reabrirem as portas que nos trouxeram até aqui
- [Walter Savage Landor - Rose Aylmer](https://singularidadepoetica.art/2019/08/04/walter-savage-landor-rose-aylmer/): Ah, de que vale a régia raça! E esta forma celeste! Toda virtude, toda graça! Rose Aylmer, tudo o que foste. Rose Aylmer, meus olhos despertos Eles choram, mas não veem, Uma noite de dor te oferto, E de lembranças também. Trad.: Nelson Santander Rose Aylmer Ah, what avails the sceptred race! Ah, what the […]
- [François Villon - Balada dos Enforcados](https://singularidadepoetica.art/2019/08/03/francois-villon-balada-dos-enforcados/): Irmãos humanos que ao redor viveis, Não nos olheis com duro coração, Pois se aos pobres de nós absolveis Também a vós Deus vos dará perdão. Aqui nos vedes presos, cinco, seis: Quanto era cara viva que comia Foi devorado e em pouco apodrecia. Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós. Que de nossa aflição […]
- [Nelson Santander - Impermanência](https://singularidadepoetica.art/2019/08/03/nelson-santander-impermanencia/): Impermanência, uma crônica de Nelson Santander
- [Delmore Schwartz – Calmamente caminhamos neste dia de abril](https://singularidadepoetica.art/2019/08/02/delmore-schwartz-calmamente-passeamos-neste-dia-de-abril/): Calmamente caminhamos neste dia de abril,Poesia urbana por todo lado,No parque sentam-se indigentes e usurários,As crianças gritando, o carroEm fuga que passa correndo por nós,Entre o trabalhador e o milionárioOs números expressam as distâncias,Estamos em mil novecentos e trinta e sete agora,Muitos camaradas foram levados para longe,O que será de você e de mim(Esta é […]
- [José Miguel Silva - Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)](https://singularidadepoetica.art/2019/08/01/jose-miguel-silva-morangos-silvestres-ingmar-bergman-1957/): Um ser humano é um combinado de egoísmo, sofrimento e necessidade. Não comove ninguém. Uma pedra não comove ninguém. A beleza é um acidente banal e pressupõe a morte; muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala, chega a ser assustador. A inteligência, refrescante como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora, […]
- [Eugénio de Andrade - De "As mãos e os frutos"](https://singularidadepoetica.art/2019/07/31/eugenio-de-andrade-de-as-maos-e-os-frutos/): XIX Terra: se um dia lhe tocares o corpo adormecido, põe folhas verdes onde pões silêncio, sê leve para quem o foi contigo. Dá-lhe o meu cabelo para sonho, e deixa as minhas mãos para tecer a mágoa infinita das raízes que no seu corpo um dia hão-de beber
- [Joan Margarit - El Primer Frío](https://singularidadepoetica.art/2019/07/30/joan-margarit-el-primer-frio/): Acompanhei-te até o museu, no parque,em uma manhã de inverno. Detivemo-nosdiante daquela escultura: El primer frío.Era de mármore cinzento: um velho, nu,olha ao longe, entre as folhas mortasque o vento carrega.A arte não é diferente da vida,lembro que disseste. Mas euvia apenas um mármore frio,um tanto retórico, e pensava em garotas.Entre aquele dia e hoje, […]
- [Manuel António Pina - Extrema-unção](https://singularidadepoetica.art/2019/07/29/manuel-antonio-pina-extrema-uncao/): Uma breve, amável mágoa à flor dos olhos, um distante desapontamento, morrias como se pedisses desculpa por nos fazeres perder tempo. Tinhas pressa mas não o mostravas, receavas que não estivéssemos preparados, e, suspenso sobre nós, esperavas que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado. Morrer não é motivo de orgulho, mas estavas cansado demais para […]
- [Ferreira Gullar - Notícia da Morte de Alberto da Silva](https://singularidadepoetica.art/2019/07/28/ferreira-gullar-noticia-da-morte-de-alberto-da-silva/): (Poema Dramático para Muitas Vozes) I Eis aqui o morto chegado a bom porto Eis aqui o morto como um rei deposto Eis aqui o morto com seu terno curto Eis aqui o morto com seu corpo duro Eis aqui o morto enfim no seguro II De barba feita, cabelo penteado jamais esteve tão bem […]
- [Robert Penn Warren – Conta-me uma história](https://singularidadepoetica.art/2019/07/27/robert-penn-warren-conte-me-uma-historia/): A Há muito tempo, no Kentucky, eu, apenas um rapaz, estavaEm uma estrada de terra, ao anoitecer, e ouviA algaravia dos gansos que rumavam para o norte. Não pude vê-los, pois não havia lua,E escassos eram os astros. Eu os ouvi. Não sabia o que se passava em meu coração. Era a estação antes dos […]
- [William Ernest Henley - Invictus](https://singularidadepoetica.art/2019/07/26/william-ernest-henley-invictus/): No meio da noite que me abraça, Negra como um Poço em sua inteireza, Agradeço a cada Deus pela graça De minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstâncias Não recuei nem alteei meu pranto. Debaixo dos golpes das contingências Minha fronte sangra – altiva, no entanto. Além deste lugar de desenganos, Somente o Horror […]
- [Ángel González - O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado](https://singularidadepoetica.art/2019/07/25/angel-gonzalez-o-amanha-e-um-mar-profundo-que-precisamos-atravessar-a-nado/): Queria ser alga, alga enredada na parte suave de tuas coxas. Sopro de brisa nas tuas bochechas. Leve areia sob tua pegada. Queria ser água, água salgada quando corres nua no litoral. Sol cortando em sombra tua banal Silhueta virgem recém-molhada. Tudo quisera ser, indefinido, ao teu redor: vista, luz, ambiente gaivota, céu, navio, vela, […]
- [António Barahona - Memórias](https://singularidadepoetica.art/2019/07/24/antonio-barahona-memorias/): Da minha vida, os anos que passaram não os quero de volta: só agora me basta pra viver, a toda a hora, os momentos que em mim se eternizaram. Caminho pesaroso, entre destroços de lutas amorosas, sem ter tréguas. Vão às cegas, meus passos pelas trevas de sombras movediças feitas de ossos. Lembro os que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Nosso Tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/23/carlos-drummond-de-andrade-nosso-tempo/): I Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te […]
- [A. M. Pires Cabral - Folha rubra](https://singularidadepoetica.art/2019/07/22/a-m-pires-cabral-folha-rubra/): É bom sermos como essas folhas verdes que prolongam todo o ano a Primavera. Mas melhor do que isso é sermos como aquela folha rubra que antes das outras pressentiu o Outono e vestiu para ele a sua melhor cor, mesmo sabendo que o Inverno tem um plano para em breve a dissolver no chão.
- [Eugénio de Andrade - Quando em silêncio passas entre as folhas...](https://singularidadepoetica.art/2019/07/21/eugenio-de-andrade-quando-em-silencio-passas-entre-as-folhas/): Quando em silêncio passas entre as folhas, uma ave renasce da sua morte e agita as asas de repente; tremem maduras todas as espigas como se o próprio dia as inclinasse, e gravemente, comedidas, param as fontes a beber-te a face. Conheça outros livros de Eugénio de Andrade clicando aqui
- [Mario Quintana - Poema da gare de Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/20/mario-quintana-poema-da-gare-de-astapovo/): O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos E foi morrer na gare de Astapovo! Com certeza sentou-se a um velho banco, Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo Contra uma parede nua… Sentou-se …e sorriu amargamente Pensando que Em toda a sua vida […]
- [Joan Margarit - Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/19/joan-margarit-astapovo/): De madrugada, quando só se ouvemrelógios no escuro,eu o imagino, com seus oitenta anos,fugindo em um trem russo que ia para o sul,de lugar nenhum, para onde os velhos sonham ir.Tolstói temia aquele invernoque o acompanhou durante a velhiceaté o leito de morte ferroviário,na noite em que o telégrafotransmitiu a mais breve e cruelde todas […]
- [Manuel António Pina - Quinquagésimo ano](https://singularidadepoetica.art/2019/07/18/manuel-antonio-pina-quinquagesimo-ano/): São muitos dias (e alguns nem tantos como isso…) e começa a fazer-se tarde de um modo menos literário do que soía, (um modo literal e inerte que, no entanto, não posso dizer-te senão literariamente). Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr; a única coisa que corre é o tempo, do lado […]
- [Emily Dickinson - de "Não sou ninguém"](https://singularidadepoetica.art/2019/07/17/emily-dickinson-de-nao-sou-ninguem/): 27 Poetas mártires — não clamam — A Dor em sílabas transmudam — Falam por eles seus poemas — Quando já estejam mudos. Pintores mártires — Não falam — Com sua Obra eles almejam Que quando já não sejam mais — Alguns busquem na Arte — a Paz — Trad.: Augusto de Campos The Martyr […]
- [Vasco Gato - Repara nos velhos](https://singularidadepoetica.art/2019/07/16/vasco-gato-repara-nos-velhos/): Repara nos velhos. Dementes, doridos, restos de casas. Vivem agora a lepra de todos nós. Não lhes chegamos. Tresandam. Esquecem. Apoderam-se do nada. E nós, capitosos, brindamos com o vinho que também eles sorveram, desdenhando a morte que, amarga como a nossa indiferença, haveremos de provar.
- [William Butler Yeats - As quatro idades do homem](https://singularidadepoetica.art/2019/07/15/william-butler-yeats-as-quatro-idades-do-homem-poema/): As quatro idades do homem, um poema de William Butler Yeates: Com seu corpo principiou uma rinha O corpo venceu; ereto ele caminha. Ele lutou então com o coração; Sua inocência e sua paz já se vão.
- [A. A. Milne – Narciso](https://singularidadepoetica.art/2019/07/14/a-a-milne-narciso/): Ela vestiu seu chapéu-de-sol,E pôs o seu mais verde vestido;Virou-se para o vento australE prestou-lhe o cortejo devido.Virou-se então para a luz do solE os cabelos louros agitou,E sussurrou para o seu vizinho:“O inverno acabou” Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em […]
- [Nelson Ascher - Saudade](https://singularidadepoetica.art/2019/07/13/nelson-ascher-saudade/): Posto que nem é de bom-tom falar sobre a tristeza insossa cujo vaivém, quando se apossa de mim, me embala como o som sem fim das ondas do Leblon, dispondo-me a curtir a fossa a sós, pus na vitrola a bossa nova de João, Vinícius, Tom, menos pra ouvir o que ela tem, porque talvez […]
- [José Paulo Paes - Borboleta](https://singularidadepoetica.art/2019/07/12/jose-paulo-paes-borboleta/): Mal saíra do casulo para mostrar ao sol o esplendor de suas asas um pé distraído a pisou. (A visão de beleza dura um só instante inesquecível.)
- [Joseph Stroud - Tributo a Rolf Jacobsen](https://singularidadepoetica.art/2019/07/11/joseph-stroud-tributo-a-rolf-jacobsen/): A jaqueta amarela fica batendo contra a vidraça tentando sair. Desde o começo era apenas uma questão de abrir a janela, encontrar as palavras, e você por aí – em um outro, maior mundo. Para os mortos, o paraíso é a calçada na qual você caminha olhando as janelas, cantarolando, parando para um café. Trad.: […]
- [Maria do Rosário Pedreira - Onde quer que o encontres](https://singularidadepoetica.art/2019/07/10/maria-do-rosario-pedreira-onde-quer-que-o-encontres/): Onde quer que o encontres – escrito, rasgado ou desenhado: na areia, no papel, na casca de uma árvore, na pele de um muro, no ar que atravessar de repente a tua voz, na terra apodrecida sobre o meu corpo – é teu, para sempre, o meu nome.
- [Ferreira Gullar - Pela rua](https://singularidadepoetica.art/2019/07/09/ferreira-gullar-pela-rua/): Sem qualquer esperança detenho-me diante de uma vitrina de bolsas na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo, enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro. Sem qualquer esperança te espero. Na multidão que vai e vem entra e sai dos bares e cinemas surge teu rosto e some num vislumbre e o coração dispara. Te […]
- [Wisława Szymborska - Desatenção](https://singularidadepoetica.art/2019/07/08/wislawa-szymborska-desatencao/): Ontem me comportei mal no universo. Vivi o dia inteiro sem indagar nada, sem estranhar nada. Executei as tarefas diárias como se isso fosse tudo o que devia fazer. Inspirar, expirar, um passo, outro passo, obrigações, mas sem um pensamento que fosse além de sair de casa e voltar para casa. O mundo podia ter […]
- [Czeslaw Milosz - A queda](https://singularidadepoetica.art/2019/07/07/czeslaw-milosz-a-queda/): A morte de um homem é como a queda de uma poderosa nação Que teve valentes exércitos, capitães e profetas, E ricos portos e barcos em todos os mares, Mas agora não socorrerá nenhuma cidade sitiada, Não entrará em nenhuma aliança, Porque suas cidades estão vazias, sua população dispersa, Sua terra que certa vez proveu […]
- [Daniel Faria - Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2019/07/06/daniel-faria-itaca/): O que dói É não poder apagar a tua ausência e repetir dia após dia os mesmos gestos O que dói é o teu nome que ficou como mendigo Descoberto em cada esquina dos meus versos O que dói é tudo e mais aquilo que desteço Ao tecer para ti novos regressos
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Quando](https://singularidadepoetica.art/2019/07/05/sophia-de-mello-breyner-andresen-quando/): Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje igualmente hão-de bailar As quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomar Em que eu tantas vezes passei, Haverá longos poentes sobre o mar, Outros amarão as coisas que eu amei. Será […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O desjejum](https://singularidadepoetica.art/2019/07/04/luis-alberto-de-cuenca-o-desjejum/): Gosto quando dizes disparates, quando fazes asneiras, quando mentes, quando vais às compras com tua mãe e chego atrasado ao cinema por tua culpa. Gosto mais quando é meu aniversário e me cobres de beijos e bolos, ou quando estás feliz e dá para notar, ou quando és genial com uma frase que resume tudo, […]
- [Nuno Júdice – Fábula industrial](https://singularidadepoetica.art/2019/07/03/nuno-judice-fabula-industrial/): As chaminés das fábricas tinham pescoços de cegonha, e quando deitavam fumo era como se as cegonhas abrissem as asas. Quando o fumo era preto, porém, as cegonhas transformavam-se em corvos de grandes pescoços feitos de tijolo; e ao contrário das cegonhas não voavam, mas faziam soar as sirenes com os bicos metálicos, para que […]
- [Adelaide Ivánova - os anos noventa](https://singularidadepoetica.art/2019/07/02/adelaide-ivanova-os-anos-noventa/): você não estava lá nas coisas mais decisivas da minha vida mas é assim mesmo: historiadores e arqueólogos nunca estiveram presentes pra testemunhar os levantes coletivos isso fazem os jornalistas e os videntes você era apenas um menino quando kurt cobain morreu nem poderia ainda saber o dano que causaria sua existência de crisálida taurino […]
- [Ian Hamilton - Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2019/07/01/ian-hamilton-fantasmas/): O caixão lustroso e suntuosamente adornadoDesliza como um novo navio para as profundezas em chamas.Na terra firme,A congregação se ajoelha em murmúrios. Do meu banco no cantoTenho uma visão livre e desimpedidade sua partida.Se você estivesse deitada de ladoTalvez pudesse captar seu olhar insuspeito. No pátio, ao anoitecer,Os tributos florais. Eu poderia jurarTer visto vocêAspirando […]
- [Eugénio de Andrade - Com o tempo aproximar-se-ão os rios...](https://singularidadepoetica.art/2019/06/30/eugenio-de-andrade-com-o-tempo-aproximar-se-ao-os-rios/): Com o tempo aproximar-se-ão os rios e os montes, com o tempo acabará por te vir comer à mão e fazer ninho na tua cama o silêncio.
- [Joan Margarit - Banheiro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/29/joan-margarit-banheiro/): Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos […]
- [Manuel António Pina - Todas as palavras](https://singularidadepoetica.art/2019/06/28/manuel-antonio-pina-todas-as-palavras/): As que procurei em vão, principalmente as que estiveram muito perto, como uma respiração, e não reconheci, ou desistiram e partiram para sempre, deixando no poema uma espécie de mágoa como uma marca de água impresente; as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te nem foram capazes de dizer-me; as que calei por serem muito […]
- [Heinrich Heine - Chegou a morte](https://singularidadepoetica.art/2019/06/27/heinrich-heine-chegou-a-morte/): Chegou a morte – agora vou Dizer o que o orgulho não Me permitiu: meu coração Tão só por ti pulsou, pulsou. Já estou fechado no ataúde, Descem-me à cova. A calmaria Me abraça enfim, mas tu, Maria, Por mim irás, muito amiúde, Chorar, e pra quê, afinal? Consola-te, este é o destino Humano: o […]
- [Jorge Luis Borges - O cego](https://singularidadepoetica.art/2019/06/26/jorge-luis-borges-o-cego/): I Foi despojado do diverso mundo, Dos rostos, que ainda são o que eram antes, Das ruas próximas, hoje distantes, E do côncavo azul, ontem profundo. Dos livros lhe restou só o que deixa A memória, essa fórmula do olvido Que o formato retém, não o sentido, E que apenas os títulos enfeixa. O desnível […]
- [José Paulo Paes - Declaração de bens](https://singularidadepoetica.art/2019/06/25/jose-paulo-paes-declaracao-de-bens/): meu deus minha pátria minha família minha casa meu clube meu carro minha mulher minha escova de dentes meus calos minha vida meu câncer meus vermes
- [Joseph Stroud - Lázaro em Varanasi](https://singularidadepoetica.art/2019/06/24/joseph-stroud-lazaro-em-varanasi/): De uma pira no flamejante ghat,um cadáver se ergue lentamente entre as chamas.Como se lembrasse de algo importante.Como se quisesse olhar ao redor uma última vez.Como se finalmente tivesse algo a dizer.Como se houvesse uma saída para isso. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a […]
- [Joseph Stroud - Lendo Kaváfis sozinho na cama](https://singularidadepoetica.art/2019/06/23/joseph-stroud-lendo-kavafis-sozinho-na-cama/): Eu, também, me lembro do passado, meu quarto iluminado por velas, e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto com seu rosto, com boca e língua e lábios, do pomar à noite, do odor das frutas, seus seios – lembra, corpo? – aquele quarto, lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes? Trad.: […]
- [Konstantinos Kaváfis - Lembra, corpo...](https://singularidadepoetica.art/2019/06/22/konstantinos-kavafis-lembra-corpo/): Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,não só os leitos onde repousaste,mas também os desejos que brilharampor ti em outros olhos, claramente,e que tornaram a voz trêmula – e que algumobstáculo casual fez malograr.Agora que isso tudo perdeu-se no passado,é quase como se a tais desejoste entregaras – e como brilhavam,lembra, nos olhos que […]
- [Pedro Mexia - "O fogo, o ferro, o futuro"](https://singularidadepoetica.art/2019/06/21/pedro-mexia-o-fogo-o-ferro-o-futuro/): Eras um sustento, eras um segredo, uma feroz tentativa. Eras a roupa do corpo feito estandarte a caminho de casa e as tuas mãos metade das minhas. Eras um fascínio, eras um fracasso, eras a chama que nunca te queimou, o sul, o sufoco, a madrugada. Eras um tumulto de éguas e galgos, a minha […]
- [Wislawa Szymborska - Mapa](https://singularidadepoetica.art/2019/06/20/wislawa-szymborska-mapa/): Plano como a mesa na qual está colocado. Debaixo dele nada se move nem busca vazão. Sobre ele – meu hálito humano não cria vórtices de ar e deixa toda a sua superfície em silêncio. Suas planícies, vales, são sempre verdes, os planaltos, montanhas, amarelos e marrons e os mares, oceanos, de um azul delicado […]
- [Jorge Sousa Braga - Litania](https://singularidadepoetica.art/2019/06/19/jorge-sousa-braga-litania/): Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparente Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos ainda escorrendo sangue Uma pequena construção toda em pedra com divisões de tijolo e cal hidráulica e janelas abrindo para […]
- [Nuno Júdice - Nostalgia de setembro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/18/nuno-judice-nostalgia-de-setembro/): Quando vinham as nuvens de setembro, já os pássaros tinham emigrado para além dos mares, o campo ficava em longos silêncios que só a passagem dos rebanhos, a caminho do matadouro, cortava num tropel que ecoava ainda, depois da paisagem, com os gritos do pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvens quando […]
- [A. M. Pires Cabral - O Vento](https://singularidadepoetica.art/2019/06/17/a-m-pires-cabral-o-vento/): É fácil dizer que o vento tem gatos na voz enfurecidos. Que afaga e despenteia, traz a chuva. Que levanta as telhas, exercita na noite os nossos mais pesados pesadelos. É fácil ser poeta à custa do vento. Fingir que não sabemos que o vento não é senão o vazio que muda de lugar.
- [Carlos Bousoño - À distância](https://singularidadepoetica.art/2019/06/16/carlos-bousono-a-distancia/): Passa a juventude, e passa a vida, passa o amor, a morte também passa, o vento, a amargura que trespassa a pátria espessa, hirta e adormecida. Adormecida, em sonho eterno, olvida. Mortos e vivos na mesma argamassa dormem igual sina e alegria escassa. Pátria, profundeza, pedra perdida. Pedra perdida, imersa, vivos, mortos. Toda Espanha dorme […]
- [David Teles Pereira - Tractatus de Legibus ac Deo Legislatore (Livro III, Capítulo II)](https://singularidadepoetica.art/2019/06/15/david-teles-pereira-tractatus-de-legibus-ac-deo-legislatore-livro-iii-capitulo-ii/): Ao meu avô Nunca mais me irás interromper ao comentar uma passagem do de Legibus de Francisco Suárez, mas, por agora, a nuvem castanha que te ocupa o peito sufoca-me a voz. As nossas leis não chegam para acalmar todos os vícios e o pior de todos é chorar-te por não te poder dizer, seguindo […]
- [Maria do Rosário Pedreira - À avó](https://singularidadepoetica.art/2019/06/14/maria-do-rosario-pedreira-a-avo/): Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a […]
- [Helder Moura Pereira - "Eras mesmo a fonte de tudo..."](https://singularidadepoetica.art/2019/06/13/helder-moura-pereira-eras-mesmo-a-fonte-de-tudo/): Eras mesmo a fonte de tudo, pelo menos naquele dia a que chamamos perfeito. Os dias tinham-se entranhado nos dias, a tal ponto que a vida era só dias, dias a seguir uns aos outros. Apenas dias. De olhos vendados e sem bater numa única parede, pegados a isto, ao cheiro reconhecido só quando um […]
- [Andreia C. Faria - "Espero o dia em que possa..."](https://singularidadepoetica.art/2019/06/12/andreia-c-faria-espero-o-dia-em-que-possa/): Espero o dia em que possa deixar crescer as unhas as meias por cerzir a boca sem propósito de beijar. O dia que misture à noite uma respiração de espelhos, um registro acidental, mortificado, ou o livro que se leu na tarde até perder a luz. Que a natureza avance em mim sem esperança de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Confissão do fugitivo](https://singularidadepoetica.art/2019/06/11/juan-vicente-piqueras-confissao-do-fugitivo/): Só sou feliz partindo. Não entre quatro paredes, à mercê das espadas, mas entre aqui e ali, uma e outra casa, ambas de preferência alheias. Já não posso, nem quero, estar quieto. Nem agora nem depois. Nem aqui nem ali. Em todo caso aí, onde tu estás, seja tu quem fores, põe o teu nome […]
- [Ferreira Gullar - Verão](https://singularidadepoetica.art/2019/06/10/ferreira-gullar-verao/): Este fevereiro azul como a chama da paixão nascido com a morte certa com prevista duração deflagra suas manhãs sobre as montanhas e o mar com o desatino de tudo que está para se acabar. A carne de fevereiro tem o sabor suicida de coisa que está vivendo vivendo mas já perdida. Mas como tudo […]
- [Czesław Miłosz - Uma descrição honesta de mim mesmo com um copo de whisky num aeroporto, digamos, em Minneapolis](https://singularidadepoetica.art/2019/06/09/czelaw-milosz-uma-descricao-honesta-de-mim-mesmo-com-um-copo-de-whisky-num-aeroporto-digamos-em-minneapolis/): Meus ouvidos captam cada vez menos as conversas, meus olhos vêm se tornando fracos, embora sigam insaciáveis. Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas, em tecidos ondulantes, Observo uma a uma, separadamente, suas bundas e coxas, acalentado por sonhos pornô. Velho depravado, é chegada a hora da cova, não dos jogos e folguedos da […]
- [Walt Whitman – Aos que Falharam](https://singularidadepoetica.art/2019/06/08/walt-whitman-aos-que-falharam/): Aos que falharam, grandes na aspiração, aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate, aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos, aos super-ardorosos viajantes, a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento – eu gostaria de erguer um momento coberto de louros alto, bem alto, acima dos demais: A todos os truncados […]
- [Adelaide Ivánova - um poema pra italo](https://singularidadepoetica.art/2019/06/07/adelaide-ivanova-um-poema-pra-italo/): a vida tem estado mesmo dura vou poupar-te da ladainha sobre temer AfD #voltadilma e o caralho não ganhamos dos bancos em caruaru ou karlsruhe meu dinheiro e endereço: bloqueados a moça do balcão cagou pra mim ser cidadão não significa merda nenhuma mas é privilégio nessa europa genocida (e quando é que ela não […]
- [Nicolás Guillén - Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2019/06/06/nicolas-guillen-um-poema-de-amor/): Não sei. Ignoro-o.Desconheço todo o tempo que andeisem encontrá-la novamente.Quem sabe um século? Talvez.Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.Ou um mês. Poderia ser. De qualquer formaum tempo enorme, enorme, enorme.Ao fim como uma rosa súbita,repentina campânula tremendo,a notícia.Saber de prontoque ia voltar a vê-lá, que a teriaperto, tangível, real, como nos sonhos.Que troar […]
- [Ian Hamilton - Vizinhos](https://singularidadepoetica.art/2019/06/05/ian-hamilton-vizinhos/): Das janelasDo decadente hotel do outro lado da ruaMisteriosos hóspedes noturnos emergemEm suas varandasPara aspirar o ar fresco da noite. Nós os deixamos nos observarEm nossas vidas pacatas.Eles nos permitem imaginaro que o destino lhes reservou. Trad.: Nelson Santander Neighbours From the bay windowsOf the mouldering hotel across the road from usMysterious, one-night itinerants emergeOn […]
- [Eugénio de Andrade - Ver claro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/04/eugenio-de-andrade-ver-claro-2/): Toda poesia é luminosa, até A mais obscura. O leitor é que tem às vezes, Em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver o claro. Se regressar Outra vez e outra vez E outra vez A essas sílabas acesas Ficará cego de tanta claridade Abençoado seja se lá chegar.
- [Joan Margarit - Por que fomos covardes](https://singularidadepoetica.art/2019/06/03/joan-margarit-por-que-fomos-covardes/): Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil. Sempre farás amor com uma sombra de olhos azuis, e estarás tão só como em uma vingança. Ao longe, as luzes de Roses cintilam assim como a minha memória. Há uma fúria triste, mas ninguém no final. Perdemos o cavalo sem cavaleiro que nunca passa uma segunda […]
- [Manuel António Pina - Café do molhe](https://singularidadepoetica.art/2019/06/02/manuel-antonio-pina-cafe-do-molhe/): Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) por que a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe) […]
- [Konstantinos Kaváfis - Velas](https://singularidadepoetica.art/2019/06/01/konstantinos-kavafis-velas/): Os dias futuros se erguem diante de nós como uma fileira de velas acesas – douradas, vivazes, cálidas velas. Os dias do passado ficaram tão para trás, fúnebre fileira consumida onde as mais próximas ainda fumam, velas frias, retorcidas e desfeitas. Não quero vê-las; seu aspecto me aflige, me aflige recordar sua luz primeira. Vejo […]
- [Idea Vilariño - Não mais](https://singularidadepoetica.art/2019/05/31/idea-vilarino-nao-mais/): Não mais será não mais não viveremos juntos não criarei teu filho não coserei tua roupa não te terei à noite não te beijarei ao partir nunca saberás quem fui por que outros me amaram. Não chegarei a saber por que nem porque nunca nem se era verdadeiro o que disseste que era nem quem […]
- [Nâzim Hikmet - O último ônibus](https://singularidadepoetica.art/2019/05/30/nazim-hikmet-o-ultimo-onibus/): Meia-noite. O último ônibus.O condutor rasga os bilhetes.Não me esperam em casa nem uma má notícianem a fartura da bebida.Para mim, é a partida que espera.Caminho em direção a ela sem medoou tristeza. A escuridão imensa se aproxima de mim.Posso olhar para o mundocalma e serenamente, agora.Já não me surpreende a traição de um amigo,a […]
- [Daniel Faria - Infância](https://singularidadepoetica.art/2019/05/29/daniel-faria-infancia/): e jogava o pião com Deus enquanto minha mãe estendia roupa e o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempo era muito próxima da dos meninos e de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro: o pião ou Deus apenas sei que Deus continua a jogar com outros meninos […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Não te esqueças nunca](https://singularidadepoetica.art/2019/05/28/sophia-de-mello-breyner-andresen-nao-te-esquecas-nunca/): Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina O pinhal a coluna a veemência divina O templo o teatro o rolar de uma pinha O ar cheirava a mel e a pedra a resina Na estátua morava tua nudez marinha Sob o sol azul e a veemência divina Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O véu protetor](https://singularidadepoetica.art/2019/05/27/luis-alberto-de-cuenca-o-veu-protetor/): Amanheceu e nós estávamos dentro da vil realidade, o que não pode ser bom. Melhor seria que passassem logo as horas inúteis em que o dia proscreve a aventura com as normas do tédio laboral, e que voltassem a noite e as suas estrelas a envolver-nos no seu véu fantástico e a dar-nos a inútil […]
- [Yehuda Amichai - 1924](https://singularidadepoetica.art/2019/05/26/yehuda-amichai-1924/): Nasci em 1924. Se eu fosse um violino da minha idade não seria dos melhores. Como vinho seria um cinco estrelas ou vinagre. Como cachorro estaria morto. Como um livro estaria me tornando caro, ou estaria abandonado num sebo qualquer. Como uma floresta eu seria jovem; como uma máquina, ridículo. Como uma criatura humana, estou […]
- [Walt Whitman - Pleno de vida agora](https://singularidadepoetica.art/2019/05/25/walt-whitman-pleno-de-vida-agora-poema/): Pleno de vida agora, consistente, visível, Eu, quarenta anos vividos, no ano oitenta e três anos dos Estados, Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for, A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto. Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível, Enquanto tu […]
- [Miguel-Manso – No número de outubro da revista Wire](https://singularidadepoetica.art/2019/05/24/miguel-manso-no-numero-de-outubro-da-revista-wire/): frente ao fotógrafo e ao leitor o homem envelhecido parece que já não olha Mitra o deus sol dos psicadélicos noutra foto no interior da revista o poeta está sentado a uma pequena mesa de frente para a janela onde as cortinas brancas filtram a luz e o ruído da rua sentado na cadeira de […]
- [Andreia C. Faria - San Cibrán de Las](https://singularidadepoetica.art/2019/05/23/andreia-c-faria-san-cibran-de-las/): Ainda aos sábados os homens passeiam pelo que resta das muralhas e as mulheres procuram vestígios – os pulsos nus, a canteira e a nascente de água, a paciência necessária a quem se alimentava desse pão É também este o meu plano para a velhice: ervas de que não sei o nome, a ruína interior […]
- [Gonçalo M. Tavares - uma síntese disto tudo](https://singularidadepoetica.art/2019/05/22/goncalo-m-tavares-uma-sintese-disto-tudo/): é porque existe o desejo, o olfato, e o medo, e os vivos apaixonam-se por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos, e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho, e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um […]
- [Adelaide Ivánova - o elefante](https://singularidadepoetica.art/2019/05/21/adelaide-ivanova-o-elefante/): quando johanna morreu tinha um ano e oito meses foi encontrada na piscina apertava um elefante na mão que sua mãe até hoje aperta muito embora o alzheimer lhe impeça de lembrar por que ela a mãe pulou na piscina ao ver johanna à deriva no ventinho do norte da renânia boiando na piscina que […]
- [Goliarda Sapienza - Sem título](https://singularidadepoetica.art/2019/05/20/goliarda-sapienza-sem-titulo/): Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se. Consumiu-se o incêndio. Findou-se. Fechou-se o círculo petrificado. Findou-se o tempo. Consumiu-se o delito. Queimou-se a lembrança. Cessou a angústia. Um manto de lava interditou todo crânio toda órbita esvaziada. Toda boca no grito interditou. Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar o silêncio de lava. As formigas rodeiam o fogo gasto […]
- [Ian Hamilton - Última Valsa](https://singularidadepoetica.art/2019/05/19/ian-hamilton-ultima-valsa/): De onde estamos quase que podemos identificar Os rostos destas pessoas que não conhecemos: Um semi-círculo sombreado Ao redor do enorme aparelho de TV doado Que domina nossa ala. A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre eles Iluminando Amistosos, exaustos sorrisos. E nós, Como se nos importássemos, também sorrimos. Para cada alma perdida, nesta hora tardia Um […]
- [Jaime Gil de Biedma - Depois da morte de Jaime Gil de Biedma](https://singularidadepoetica.art/2019/05/18/jaime-gil-de-biedma-depois-da-morte-de-jaime-gil-de-biedma/): No jardim, lendo, a sombra da casa tolda as páginas e o frio repentino do final de agosto faz-me pensar em ti. O jardim e a casa vizinha onde piam os pássaros nas trepadeiras, uma tarde de agosto, quando começa a anoitecer e tem-se ainda o livro nas mãos, eram, lembro-me, teu símbolo da morte. […]
- [Vicente Gaos - Homem Total](https://singularidadepoetica.art/2019/05/17/vicente-gaos-homem-total/): "Homem Total", um poema de Vicente Gaos que homenageia Lope de Vega ao revisitar suas paixões e musas, refletindo sobre a intensidade do amor, a fugacidade dos anos e a elevação espiritual que transcende os gozos e pesares da experiência humana.
- [Helena Zelic - Gaveta de Casa](https://singularidadepoetica.art/2019/05/16/helena-zelic-gaveta-de-casa/): Nossas fotos de infância boletins de nota azul três diários à chave hoje abertos duzentos milhões de pequenos museus da desimportância
- [Eugénio de Andrade - Ao fim da tarde](https://singularidadepoetica.art/2019/05/15/eugenio-de-andrade-ao-fim-da-tarde/): Ninguém esperava ver o mar naquele dia mas era o mar que estava ali, à porta naqueles olhos.
- [Giuseppe Ungaretti - Sentimento do tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/05/14/giuseppe-ungaretti-sentimento-do-tempo/): Sentimento do tempo1931 E à luz mais própria,Deixando apenas uma sombra violácea,Sobre os cimos mais baixos,A distância aberta ao alcance,Cada batida, como usa o coração,Agora escuto,Apressa-te, tempo, a por-me sobre os lábiosTeu último beijo. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sentimento del tempo1931 E per la luce giusta,Cadendo solo un ombra violaSopra il […]
- [Raymond Carver - Fragmento final](https://singularidadepoetica.art/2019/05/13/raymond-carver-fragmento-final/): E você teve o que queriadesta vida, apesar de tudo?Tive.E o que você queria?Dizer que fui amado, me sentiramado sobre a terra. Trad.: Cide Piquet Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Raymond Carver – Late Fragment And did you get whatyou wanted […]
- [Joan Margarit - Monumentos](https://singularidadepoetica.art/2019/05/12/joan-margarit-monumentos/): O vazio que sentes, cada vez com mais força,é o dos traidores.Também os monumentos, por dentro, são vazios,com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:escuros e corroídos pela história,é tão sinistro seu interiorcomo arrogante o gesto que no ardesenha a personagem.À medida que os amigos nos traem– e a morte é também uma traição […]
- [Manuel António Pina - Sérgio](https://singularidadepoetica.art/2019/05/11/manuel-antonio-pina-sergio/): Onde agora estás não alcançam o clamor dos magistrados nem a faca do assassino. A tua própria morte não te pertence já, é assunto nosso, desprovido e inerte. Que faremos nós com o teu inúmero corpo, como te diremos o que está a acontecer-te? Fechou-se qualquer coisa qualquer porta espessa e desabitada, a faca pôs […]
- [Andreia C. Faria - As mulheres têm formas mais curiosas](https://singularidadepoetica.art/2019/05/10/andreia-c-faria-as-mulheres-tem-formas-mais-curiosas/): As mulheres têm formas mais curiosas Se eu montasse um circo, em vez de elefantes teria Senhoras com os seus diferentes peitos coxas e rabos, todo o corpo fingimento, adereço Senhoras com os seus diferentes almoços, amantes e diferentes níveis de tonificação da alma, rivais dos tigres desdenhosos, dos leões emparedados Em vez de macacos […]
- [Adelaide Ivánova - pro meu amante, quando atinge a maioridade](https://singularidadepoetica.art/2019/05/09/adelaide-ivanova-pro-meu-amante-quando-atinge-a-maioridade/): “Pro meu amante, quando atinge a maioridade”, um poema de Adelaide Ivanova que entrelaça amor, memória e consciência do tempo em uma celebração agridoce do amadurecimento.
- [A. M. Pires Cabral - Não me mostres nenhum norte](https://singularidadepoetica.art/2019/05/08/a-m-pires-cabral-nao-me-mostres-nenhum-norte/): Não me mostres nenhum norte nem estradas para lá: são tudo embustes. Mostra-me antes pedras, folhas mortas de Outono atapetando o chão das matas, voos de libelinha rasando o sol poente, cândidas risadas infantis. Quero eu dizer: mostra-me coisas daquelas que se corrompem sem pressa.
- [Ian Hamilton - Lamento](https://singularidadepoetica.art/2019/05/07/ian-hamilton-lamento/): Fiz o que pude. Meus garotos correm soltos agora.Eles buscam oportunidades enquanto a mãe deles apodrece aqui.E rua acima, o homem,Meu único homem, que me tocou em todos os lugares,Desmancha-se sob a terra. Sou triste, obtusa, velha e alienada.À noite, sinto minhas mãos vagando sobre mim,Sondando meus seios, meus joelhos,As dobras do meu ventre,Vez ou […]
- [Gonçalo M. Tavares - Palavras, Atos](https://singularidadepoetica.art/2019/05/06/goncalo-m-tavares-palavras-atos/): A ironia ensina a sabotar uma frase Como se faz a um motor de automóvel: Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres No verbo ou numa letra do substantivo A frase trágica torna-se divertida, E a divertida, trágica. Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me, Desde novo, daquilo que ainda hoje […]
- [Octavio Paz – Pedra de sol](https://singularidadepoetica.art/2022/03/06/octavio-paz-pedra-de-sol-poema/): Pedra de sol La treizième revient… c’est encor la première;et c’est toujours la seule – ou c’est le seul moment;car es-tu reine, ô toi, la première ou dernière?es-tu roi, toi le seul ou le dernier amant? GÉRARD DE NERVAL, Arthémis. Um salgueiro de cristal, um choupo de água,um alto repuxo que o vento arqueja,uma árvore […]
- [Nelson Santander - Renata Maria](https://singularidadepoetica.art/2022/03/05/nelson-santander-renata-maria-2/): Renata Maria, por Nelson Santander: uma análise da letra da canção de Chico Buarque
- [Miller Williams - Um poema para Emily](https://singularidadepoetica.art/2022/03/04/miller-williams-um-poema-para-emily-poema/): Fatos e dedos pequenos e o mais distante de minha vezna terra, a um palmo e duas gerações de mim afastada,neste ainda presente eu tenho cinquenta e três.Você, nem vinte e quatro horas completadas. Quando eu tiver sessenta e três, e você, dez completos,e você não estiver nem longe nem perto de mimseus braços se […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A um Ausente](https://singularidadepoetica.art/2022/03/03/carlos-drummond-de-andrade-a-um-ausente-2/): Tenho razão de sentir saudade,tenho razão de te acusar.Houve um pacto implícito que rompestee sem te despedires foste embora.Detonaste o pacto.Detonaste a vida geral, a comum aquiescênciade viver e explorar os rumos de obscuridadesem prazo sem consulta sem provocaçãoaté o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora.Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas […]
- [Dan Gerber – Para Deneb](https://singularidadepoetica.art/2022/03/02/dan-gerber-para-deneb-poema/): Tão impossivelmente distante,dizem os eruditos astrônomos,mais remotado que qualquer outra Coisa queeu já tenha visto,calorosa companheira de uma noite de verão,um quarto de milhão de vezesa luz do nosso sol,obliterando os quatrilhõesde milhas da escuridão à sua volta,ainda assim tão familiar,tão em casa com as estrelas do nosso bairro,aqui na cauda do Cisne,tão serena em […]
- [Ferreira Gullar - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/01/ferreira-gullar-ano-novo-2/): Meia-noite. Fimde um ano, iníciode outro. Olho o céu:nenhum indício. Olho o céu:o abismo vence oolhar. O mesmoespantoso silêncioda Via-Láctea feitoum ectoplasmasobre a minha cabeçanada ali indicaque um ano novo começa. E não começanem no céu nem no chãodo planeta:começa no coração. Começa como a esperançade vida melhorque entre os astrosnão se escutanem se vênem […]
- [Joan Margarit - Ser velho](https://singularidadepoetica.art/2022/02/28/joan-margarit-ser-velho-poema/): Entre as sombras dos galose dos cachorros dos pátios e curraisde Sanaüja, abre-se um buracoque se enche de tempo perdido e chuva sujaenquanto as crianças caminham para a morte.Ser velho é uma espécie de pós-guerra.Sentados à mesa da cozinha,limpando as lentilhasao anoitecer do braseiro,vejo os que me amaram.Tão pobres que no fim daquela guerrativeram que […]
- [Philip Larkin - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2022/02/27/philip-larkin-aubade-2/): De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara.Olho o negror sem som, me levantando às quatro.Em tempo, a borda da cortina vai estar clara.Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato:A morte infatigável, um dia mais perto,Tornando inviável todo pensamento, excetoO de onde, como e quando a minha vai chegar.Uma pergunta […]
- [Jane Hirshfield – Otimismo](https://singularidadepoetica.art/2022/02/26/jane-hirshfield-otimismo-poema/): Tenho admirado a resiliência cada vez mais.Não a simples resistência de um travesseiro, cuja espumasempre volta ao mesmo formato, mas a sinuosatenacidade de uma árvore: ao encontrar a luz recém-bloqueada em um dos lados,ela se volta para o outro. Uma inteligência cega, é verdade.Mas de tal persistência surgiram tartarugas, rios,mitocôndrias, figos — todo este resinoso […]
- [Konstantinos Kaváfis - À Espera dos Bárbaros](https://singularidadepoetica.art/2022/02/25/konstantinos-kavafis-a-espera-dos-barbaros-2/): O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado?Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje.Que leis hão de fazer os senadores?Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se ergueu tão cedoe de coroa solene se assentouem seu trono, à […]
- [Moya Cannon – Mãos](https://singularidadepoetica.art/2022/02/24/moya-cannon-maos-poema/): Mãos para Eamonn and Kathleen Estava em algum lugar sobre a costa nordeste do Brasil,sobre Fortaleza, uma cidade da qual nada sei,exceto que é cheia de pessoas —a vida de cada uma delas um mistériomaior do que a Amazônia —foi lá, enquanto o avião de brinquedo no monitor de voosobrevoava a linha do equadore se […]
- [Ferreira Gullar - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2022/02/23/ferreira-gullar-despedida-2/): Eu deixarei o mundo com fúria.Não importa o que aparentemente aconteça,se docemente me retiro. De fato,nesse momentoestarão de mim se arrebentandoraízes tão fundasquanto estes céus brasileiros.Num alarido de gente e ventaniaolhos que ameirostos amigos tardes e verões vividosestarão gritando a meus ouvidospara que eu fiquepara que eu fique Não chorarei.Não há soluço maior que despedir-se […]
- [Dylan Thomas - Não vás tão docilmente](https://singularidadepoetica.art/2022/02/22/dylan-thomas-nao-vas-tao-docilmente/): Não vás tão docilmente nessa noite linda;Que a velhice arda e brade ao término do dia;Clama, clama contra o apagar da luz que finda. Embora o sábio entenda que a treva é bem-vindaQuando a palavra já perdeu toda a magia,Não vai tão docilmente nessa noite linda. O justo, à última onda, ao entrever, ainda,Seus débeis […]
- [Ferreira Gullar - Praia do Caju](https://singularidadepoetica.art/2022/02/21/ferreira-gullar-praia-do-caju-2/): Escuta:o que passou passoue não há forçacapaz de mudar isto. Nesta tarde de férias, disponível, podes,se quiseres, relembrar.Mas nada acenderá de novoo lumeque na carne das horas se perdeu. Ah, se perdeu!Nas águas da piscina se perdeusob as folhas da tardenas vozes conversando na varandano riso de Marília no vermelhoguarda-sol esquecido na calçada. O que […]
- [Ada Limón – Estrelas extintas](https://singularidadepoetica.art/2022/02/20/ada-limon-estrelas-mortas-poema/): Aqui fora, até as árvores se curvam. A mão gelada do inverno nas costas de todos nós.Casca escura, folhas amarelas escorregadias, uma espécie de quietudetão silenciosa que parece pertencer a outra era.Ultimamente, sou uma morada de aranhas: um ninho de tentativas.Apontamos para as estrelas que compõem Órion enquanto levamos o lixo pra fora, os contêineres […]
- [Ferreira Gullar - O Que Se Foi](https://singularidadepoetica.art/2022/02/19/ferreira-gullar-o-que-se-foi-2/): “O Que Se Foi”, um poema de Ferreira Gullar que confronta a irreversibilidade do passado e revela a contradição íntima entre a lucidez da perda e o coração que insiste em pulsar pelo que não volta.
- [Robert Frost - Nada que é de ouro pode permanecer](https://singularidadepoetica.art/2022/02/18/robert-frost-nada-que-e-de-ouro-pode-permanecer-poema/): No mundo, o ouro é o verde elementar,Sua matiz mais difícil de conservar.A flor é a sua inaugural semente;Não obstante por um instante somente. Depois, folha desaparece sob folha.E assim, no pesar o Paraíso mergulha,E a aurora se transforma em amanhecer.Nada que é de ouro pode permanecer. Trad.: Nelson Santander Nothing gold can stay Nature’s […]
- [Bei Dao - Resposta](https://singularidadepoetica.art/2022/02/16/bei-dao-resposta-2/): A degradação é o passaporte do vilão,A nobreza é epitáfio do nobre.Olhe: como o céu dourado é inundadodo reflexo das sombras torcidas dos mortos. Passada a época do gelo,Por que ainda há gelo em toda a parte?Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança,por que mil velas ainda competem no Mar Morto? Eu vim para […]
- [Mary Oliver - A serpente negra](https://singularidadepoetica.art/2022/02/15/mary-oliver-a-serpente-negra-poema/): Foi quando a serpente negraapareceu na estrada de manhã,e o caminhão não conseguiu desviar –morte, é assim que acontece. Agora ela jaz enrolada e inútilcomo um velho pneu de bicicleta.Eu paro o carroe a levo para o mato. Ela é fria e reluzentecomo um chicote trançado, bela e tranquilacomo um irmão que morreu.Eu a deixo […]
- [Wendell Berry – A cobra](https://singularidadepoetica.art/2022/02/14/wendell-berry-a-cobra-poema/): No final de outubroencontrei no chão da florestauma pequena cobra cujas costastinham o padrão da escuridãodas folhas mortas em que ela estava deitada.Seu corpo fora engrossado por um ratoou um pequeno pássaro. Ela estava fria,tão entorpecida com a barriga cheiae o ar do outono que mal se dava ao trabalho de mexer a língua.Eu a […]
- [William Butler Yeats - A Segunda Vinda](https://singularidadepoetica.art/2022/02/13/william-butler-yeats-a-segunda-vinda-2/): Girando em círculos sempre maioresJá não ouve o falcão ao falcoeiro;Tudo desaba; o próprio centro hesita;Livre, a anarquia reina sobre o mundo,Livre a maré sanguinolenta: em tudoSe afogam os rituais da inocência;Os melhores vacilam e os pioresÀ intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia,Eis que a Segunda Vinda se anuncia,A Segunda […]
- [Györy Somlyó - Fábula da dupla-hélice](https://singularidadepoetica.art/2022/02/12/gyory-somlyo-fabula-da-dupla-helice-poema/): Filho dos meus paispai do meu filhogeraram-mee procrieicriaram-mee crieiherdeie legueisepultei eserei sepultadoatinjo aos poucoso atingívelna corrente de cristalou nas ligações alcalinasda vida singularfeita de duaso tempocondecora-mecom todas as distinçõesatando-mecom todas as valênciasMas minhas célulasnem suspeitamaté onde podematravés delaschegar as célulaspelos obscurosdegraus restantesda escada de caracolou escada de Jacóna abóboda celesteou cavidade cranianado ácido desoxi—ribonucléico. Trad.: […]
- [Cassiano Ricardo - O Cacto](https://singularidadepoetica.art/2022/02/11/cassiano-ricardo-o-cacto-2/): This is cactus land.Here the stone imagesare raised…T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cactona areia da nossa tristeza.Uma folha sobre outra,em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros,um braço a nascer de outro braço,uma folha sobre outra,formaremos um grande cacto. De cada braço, já no espaço,nascerá mais um braço, e desteoutros braços, […]
- [Ellen Bass - Ode à repetição](https://singularidadepoetica.art/2022/02/10/ellen-bass-ode-a-repeticao-poema/): Gosto de fazer a mesma caminhadapela vasta extensão da Woodrow* até o oceanoe na maioria das vezes viro à esquerda em direção ao farol.O mar é sempre diferente. Em alguns dias oníricos,ondas que mal ondulam, apenas uma extensa ondulaçãosem nenhuma pressa de chegar. Em outros, a rebentação está bêbada,colidindo contra os rochedos como um acidente […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2022/02/09/giacomo-leopardi-o-infinito-2/): Sempre me foi cara esta colina ermaE esta sebe, que de muitos ladosExclui a visão do último horizonte.Mas sentado, contemplando, infindáveisEspaços além dela, e sobre-humanosSilêncios, e a mais profunda calmaEu no pensar imagino; e por poucoNão se amedronta o coração. E o VentoOuvindo sussurrar entre essas plantas,Aquele infinito silêncio a esta vozVou comparando: e lembra-me […]
- [Marie Howe – O que os vivos fazem](https://singularidadepoetica.art/2022/02/08/marie-howe-o-que-os-vivos-fazem-poema/): Johnny, a pia da cozinha está entupida há dias, algum utensílio provavelmente caiu lá embaixo. E o Drano não está resolvendo mas cheira perigosamente, e a louça incrustada se amontoou esperando pelo encanador que eu ainda não chamei. Este é o dia a dia de que falávamos. Estamos no inverno de novo: o céu é […]
- [Giuseppe Ungaretti - De uma Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2022/02/07/giuseppe-ungaretti-de-uma-estrela-a-outra-2/): Daquela estrela à outraA noite se encarceraEm turbinosa vazia desmesura, Daquela solidão de estrelaÀquela solidão de estrela Trad: Haroldo de Campos REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016 Da quella stella all’altra Da quella stella all’altraSi carcera la notteIn turbinante vuota dismisura, Da quella solitudine di stellaA quella solitudine di stella.
- [Ted Kooser - Voo noturno](https://singularidadepoetica.art/2022/02/06/ted-kooser-voo-noturno-poema/): Sobre nós, estrelas. Sob nós, constelações.A cinco bilhões de milhas de distância, uma galáxia morrecomo um floco de neve desfazendo-se na água. Abaixo de nós,algum fazendeiro, sentindo o calafrio dessa morte distante,acende suas luzes de quintal, deslocando seu celeiro e galpãode volta para o pequeno sistema sob seus cuidados.Por toda a noite, as cidades, como […]
- [Salvatore Quasimodo - E de repente é noite](https://singularidadepoetica.art/2022/02/05/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite-3/): Cada um está só no coração da terratraspassado por um raio de sol:e de repente é noite. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016. Ed è subito sera Ognuno sta solo sul cuor della terratrafitto da un raggio di sole:ed è subito sera
- [Juan Vicente Piqueras - Sai de ti](https://singularidadepoetica.art/2022/02/04/juan-vicente-piqueras-sai-de-ti-poema/): Sai de Ti(ou coleção de imperativos primavera-verão para o outono de teu desconcerto) Não fujas do que sentes. Não te escondasno que dizes. Não digas mentiras.Sê tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes.Não sofras por medo de sofrer mais.Não mendigues jamais o que mereces.Por exemplo, o amor. Fá-lo e o terás.Funda no fogo firme de […]
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2022/02/03/friedrich-holderlin-outrora-e-agora-3/): De manhã era feliz, quando jovem,E à noite chorava; já hoje, mais velho,Começo meu dia em dúvida, porémSeu fim é para mim sagrado e sereno. Trad.: Antonio Cicero Ehmals und jetzt In jüngern Tagen war ich des Morgens froh,Des Abends weint’ich; jetzt, da ich älter bin,Beginn ich zweifelnd meinen Tag, dochHeilig und heiter ist mir […]
- [Ana Luísa Amaral - Silogismos](https://singularidadepoetica.art/2022/02/02/ana-luisa-amaral-silogismos-poema/): “Silogismos”, um poema de Ana Luísa Amaral que confronta a inocência da infância com o abismo do tempo, revelando a ternura e o limite das palavras diante do infinito.
- [Linda Pastan - Considere o espaço entre as estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/02/01/linda-pastan-considere-o-espaco-entre-as-estrelas-poema/): Considere o espaço brancoentre as palavras em uma página, não sóas margens ao redor delas.Ou o espaço entre pensamentos:instantes em que a mente está inventandoexatamente o que pensae a boca esperapara ser preenchida com linguagem.Considere o espaçoentre os amantes após uma discussão,o lençol branco uma fria metáforaentre eles.Agora imagine o breve espaçoantes que a morte […]
- [Jorge Luis Borges - Limites](https://singularidadepoetica.art/2022/01/31/jorge-luis-borges-limites-2/): Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar,Há uma rua próxima que está vedada a meus passos,Há um espelho que me viu pela última vez,Há uma porta que fechei até o fim do mundo.Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os)Há algum que já nunca abrirei.Este verão cumprirei cinqüenta anos:A morte me desgasta, […]
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2022/01/30/friedrich-holderlin-a-brevidade-3/): “Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora,O canto? Quando jovem, não chegavas,Nos dias de esperança,Nunca ao fim, quando cantavas!” Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebolBanhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está friaE o pássaro da noite esvoaçaincomodamente aos olhos teus. Trad. Antonio Cícero REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente […]
- [Nicholas Christopher – Terminus](https://singularidadepoetica.art/2022/01/29/nicholas-christopher-terminus-poema/): Terminus Eis uma leitura obrigatóriano final do nosso séculoo final de um milênio que começou com as cruzadas A transcrição de uma entrevistaentre um médico da Cruz Vermelhae uma menina muçulmana de doze anosna Bósniaque descreveu os estupros que sofreu nas mãos de homensque se autodenominavam soldadosdiferentes homens todas as noites um após o outroseis […]
- [Wislawa Szymborska - O primeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2022/01/28/wislawa-szymborska-o-primeiro-amor-2/): Dizemque o primeiro amor é o mais importante.Isso é muito romântico,mas não é o meu caso.Algo entre nós houve e não houve,se deu e se perdeu.Não me tremem as mãosquando encontro as pequenas lembrançase o maço de cartas atadas com barbantese ao menos fosse uma fita.Nosso único encontro depois de anosfoi um diálogo de duas […]
- [Stanley Kunitz - O retrato](https://singularidadepoetica.art/2022/01/27/stanley-kunitz-o-retrato-poema/): Minha mãe nunca perdoou meu paipor ter-se suicidado,especialmente em um momento tão estranhoe em um parque público,naquela primaveraquando eu estava esperando para nascer.Ela encarcerou o nome deleem seu armário mais profundoe não o deixou mais sair,embora eu pudesse ouvi-lo batendo.Quando desci do sótão, trazendona mão o retrato em tons pastéisde um estranho de lábios compridos,bigode […]
- [Ian Hamilton - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2022/01/26/ian-hamilton-epitafio-2/): O aroma de rosas velhas e tabacoFaz-me regressar.Há quase vinte anosQue não nos vemosE a nossa desapegada paixão continua. Foi isto que me deixaste:A mão, entreaberta, imóvelSobre uma colcha verde.O bastante para erguerAlguns poemas melancólicos. Se então eu te houvesse tocadoUm de nós podia ter sobrevivido. Trad. Nuno Vidal REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Polaroide](https://singularidadepoetica.art/2022/01/25/jorge-valdes-diaz-velez-polaroide-poema/): Polaroide para Eugenio Montejo São sete contra a parede, em pé, e um sentado.Mal conservam os traços desbotados pelos anos. Os rostos resistem ao desgaste,embora já não possuam as cores vivasque ontem os distinguiram. Entre livros e taças,os olhares sorridentes, as mãos dadascelebrando a vida na prata e gelatina*se apagam na sépia de sua jovem […]
- [Pedro Salinas - Não Te Vejo](https://singularidadepoetica.art/2022/01/24/pedro-salinas-nao-te-vejo-2/): Não te vejo. Bem seique estás aqui, atrásde uma frágil paredede ladrilhos e cal, bem ao alcanceda minha voz, se chamasse.Mas não chamarei.Chamarei amanhã,quando, ao não te ver maisimagine que continuasaqui perto, ao meu lado,e que basta hoje a vozque ontem eu não quis dar.Amanhã… quando estivereslá atrás de umafrágil parede de ventos,de céus e […]
- [Tomas Tranströmer - Neve Cai](https://singularidadepoetica.art/2022/01/23/tomas-transtromer-neve-cai-poema/): Enterros chegammais e mais pertocomo placas na estradaao se aproximar a cidade. Milhares de olhares humanosna longa terra das sombras. Uma ponte apontadevagarbem longe no espaço. Trad.: Marcia Sá Cavalcante Schuback SNÖ FALLER Begravningarna kommertätare och tätaresom vägskyltarnanär man närmar sig en stad. Tusentals människors blickari de långa skuggornas land. En bro bygger siglångsamtrakt ut […]
- [William Butler Yeats - Viajando para Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2022/01/22/william-butler-yeats-viajando-para-bizancio/): Aquela não é terra para velhos. Gentejovem, de braços dados, pássaros nas ramas— gerações de mortais — cantando alegremente,salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,peixe, ave ou carne glorificam ao sol quentetudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.Ao som da música sensual, o mundo esqueceas obras do intelecto que nunca envelhece. […]
- [Robinson Jeffers – Pecado original](https://singularidadepoetica.art/2022/01/21/robinson-jeffers-pecado-original-poema/): O símio-terrestre com seu cérebro e mãos de homem, fisicamenteO mais repulsivo de todos os animais de sangue quenteDa terra até então: eles cavaram uma armadilhaE capturaram um mamute, mas como poderiam seus paus e pedrasAtingir a vida naquela tocaia? Eles dançaram ao redor do poço, guinchandoCom excitação de macaco, arremessando pedras afiadas em vão, […]
- [Vinicius de Moraes - Poema de Natal](https://singularidadepoetica.art/2022/01/20/vinicius-de-moraes-poema-de-natal-2/): Para isso fomos feitos:Para lembrar e ser lembradosPara chorar e fazer chorarPara enterrar os nossos mortos —Por isso temos braços longos para os adeusesMãos para colher o que foi dadoDedos para cavar a terra. Assim será nossa vida:Uma tarde sempre a esquecerUma estrela a se apagar na trevaUm caminho entre dois túmulos —Por isso precisamos […]
- [John Keats – Ode sobre a melancolia](https://singularidadepoetica.art/2022/01/19/john-keats-ode-sobre-a-melancolia-poema/): Não! Não vás para o Letes, nem tristes raízes Tortures para obter o vinho que te acena;Nem no pálido rosto os beijos cicatrizes Da beladona, que Prosérpina envenena.Não faças teu rosário com amoras parcas, Nem permitas que o escaravelho ou a falena Sejam tua Psique, nem que o mocho do abandonoPartilhe dos mistérios do teu […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2022/01/18/cassiano-ricardo-a-graca-triste-3/): Só me resta agoraEsta graça tristeDe te haver esperadoAdormecer primeiro.Ouço agora o rumorDas raízes da noite,Também o das formigasImensas, numerosas,Que estão, todas, corroendoAs rosas e as espigas. Sou um ramo secoOnde duas palavrasGorjeiam. Mais nada.E sei que já não ouvesEstas vãs palavras.Um universo espessoDói em mim com raízesDe tristeza e alegria.Mas só lhe vejo a […]
- [Algernon Charles Swinburne - O Jardim de Proserpina](https://singularidadepoetica.art/2022/01/17/algernon-charles-swinburne-o-jardim-de-proserpina/): Leia "O Jardim de Proserpina", de Algernon Charles Swinburne, um clássico da poesia vitoriana sobre morte, esquecimento e o anseio pelo repouso eterno.
- [Reginald Gibbons - O que remanesce](https://singularidadepoetica.art/2022/01/16/reginald-gibbons-o-que-remanesce-poema/): Sim, o pão está envenenado. E não há sequer um gole de ar.Como é difícil curar a ferida da vida.O próprio José, vendido ao Egito como escravo,não poderia ter ficado mais profundamente magoado. Então, sob o enxame de estrelas do céu, chegam os Beduínos.Eles acalmam seus cavalos. Então, por turnos, com olhos fechados,cada um inventa […]
- [Óssip Mandelstam - O ar foi todo bebido e o pão, corrompido...](https://singularidadepoetica.art/2022/01/15/osip-mandelstam-o-ar-foi-todo-bebido-e-o-pao-corrompido-poema/): O ar foi todo bebido e o pão, corrompido.Cicatrizar as feridas é tão custoso!O jovem José, ao Egito vendido,Não poderia estar mais desgostoso! Os beduínos, sob a abóboda estrelada,A cavalo, e de olhos semicerrados,Concebem sagas improvisadasSobre seu dia vagamente vivenciado. De quase nada precisam que lhes dê alento:Um perdeu sua aljava no arenoso chão;Outro trocou […]
- [Thiago de Mello - Madrugada camponesa](https://singularidadepoetica.art/2022/01/14/thiago-de-mello-madrugada-camponesa/): para os trabalhadores do MST, em 1999 Madrugada camponesa,faz escuro ainda no chão,mas é preciso plantar.A noite já foi mais noite,a manhã já vai chegar. Não vale mais a cançãofeita de medo e arremedopara enganar solidão.Agora vale a verdadecantada simples e sempre,agora vale a alegriaque se constrói dia a diafeita de canto e de pão. […]
- [Antonio Cicero - Nihil](https://singularidadepoetica.art/2022/01/14/antonio-cicero-nihil-2/): nada sustenta no nada esta terranada este ser que sou eunada a beleza que o dia descerranada a que a noite acendeunada esse sol que ilumina enquanto errapelas estradas do breunada o poema que breve se encerrae que do nada nasceu REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog em 24/02/2016
- [Heather McHugh – O que ele pensou](https://singularidadepoetica.art/2022/01/13/heather-mchugh-o-que-ele-pensou-poema/): O que ele pensou para Fabio Doplicher Teríamos que fazer um trabalho na Itáliae, repletos dos nossos sentimentos pornós mesmos (nossa sensação de sermosPoetas da América) fomosde Roma a Fano, conhecemoso prefeito, refletimossobre alguns assuntos (o que éuma piriguete, eles nos perguntaram; o que écerveja sem colarinho). Entre os literatos italianos conseguíamos reconhecer nossos homólogos:o […]
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2022/01/12/konstantinos-kavafis-itaca-em-tres-traducoes-2/): ÍTACA(Trad. José Paulo Paes) Se partires um dia rumo a Ítaca,faz votos de que o caminho seja longo,repleto de aventuras, repleto de saber.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o colérico Posídon te intimidem;eles no teu caminho jamais encontrarásse altivo for teu pensamento, se sutilemoção teu corpo e teu espírito tocar.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o bravio […]
- [Agi Mishol - A mártir](https://singularidadepoetica.art/2022/01/11/agi-mishol-a-martir-poema/): Leia A Mártir, de Agi Mishol, um poema impactante sobre terrorismo, desumanização e as tragédias humanas geradas pelo conflito.
- [Jane Kenyon – Desmontando a árvore](https://singularidadepoetica.art/2022/01/10/jane-kenyon-desmontando-a-arvore-poema/): “Deem-me um pouco de luz!” grita o tiode Hamlet em meio ao assassinatode Gonzaga. “Luz! Luz!” choram as cortesãsem dispersão. Aqui, como na Dinamarca,é escuro às quatro, e até a lua brilha apenas com a metade de um coração. Os enfeites vão para a caixa:o spaniel prateado – com Meu amorna coleira – da infância […]
- [Samuraitiger19 - Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…](https://singularidadepoetica.art/2022/01/09/samuraitiger19-nos-minutos-finais-de-sua-vida-calvin-teve-uma-ultima-conversa-com-haroldo-2/): “Calvin? Calvin, querido?” No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin […]
- [Henri Cole – Cerejeiras choronas](https://singularidadepoetica.art/2022/01/09/henri-cole-cerejeiras-choronas-poema/): Em um platô, com pequenas montanhas,um rio lamacento, perigoso quando a neve derretia,um vale fértil, criadores de gado, e um conservatório musical,um povo alto, belo, ágil, de negros cabelos lisose um espírito empreendedor, vivia pacificamente. Emboranunca tenha havido ódio entre as raças,após uma discussão sobre questões locais, massacres ocorreram.Homens, mulheres & crianças pilhados & deportados […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Consolo na Praia](https://singularidadepoetica.art/2022/01/08/carlos-drummond-de-andrade-consolo-na-praia-2/): Vamos, não chores.A infância está perdida.A mocidade está perdida.Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou.O segundo amor passou.O terceiro amor passou.Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo.Não tentaste qualquer viagem.Não possuis carro, navio, terra.Mas tens um cão. Algumas palavras duras,em voz mansa, te golpearam.Nunca, nunca cicatrizam.Mas, e o humour? A injustiça […]
- [Robyn Sarah - Ao fechar o apartamento dos meus avós de abençoada memória](https://singularidadepoetica.art/2022/01/07/robyn-sarah-ao-fechar-o-apartamento-dos-meus-avos-de-abencoada-memoria-poema/): E então eu me vi naquela sala pela vez final.Mantive-me firme, com a chave em minha mão,e ouvi o silêncio que era como um som,e percebi como o longo sol da tarde invernalbaixava de maneira oblíqua ao chão fazendo florir os veios do assoalho. (Tudo o que eles um diapossuíram estava guardado aqui.) Na janela […]
- [Jorge de Sena - Conheço o Sal](https://singularidadepoetica.art/2022/01/06/jorge-de-sena-conheco-o-sal/): “Conheço o Sal”, um poema de Jorge de Sena que transforma a intimidade dos corpos em matéria sensorial e simbólica, onde o sal do encontro amoroso se torna marca indelével da fusão entre dois seres.
- [Robin Myers - O retorno](https://singularidadepoetica.art/2022/01/05/robin-myers-o-retorno-poema/): Esta é a rua ondevocê nasceu. Esta é a chave que você perdeu na neve,e este é o casaco que vestiu para ir buscá-la.Este é o céu visto da janelinha do avião na manhã em que deixouo país. Este é o lugar aonde você pensou que jamais iria.Este é o sanduíche que você comeu na […]
- [William Ernest Henley - Invictus](https://singularidadepoetica.art/2022/01/04/william-ernest-henley-invictus-2/): No meio da noite que me abraça,Negra como um Poço em sua inteireza,Agradeço a cada Deus pela graçaDe minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstânciasNão recuei nem alteei meu pranto.Debaixo dos golpes das contingênciasMinha fronte sangra – altiva, no entanto. Além deste lugar de desenganos,Somente o Horror das sombras desponta,E entretanto a ameaça dos […]
- [Lisel Mueller – De passagem](https://singularidadepoetica.art/2022/01/03/lisel-mueller-de-passagem-poema/): A rapidez com que o mel filtradoda luz da tardeflui para a escuridão e o fechado broto livra-sede seu singular mistérioa fim de desabrochar: como se o que existe, existapara poder perder-see tornar-se precioso. Trad.: Nelson Santander In Passing How swiftly the strained honeyof afternoon lightflows into darkness and the closed bud shrugs offits special […]
- [Bertolt Brecht - Lista de preferências](https://singularidadepoetica.art/2022/01/01/bertolt-brecht-lista-de-preferencias-poema/): Dia desses, minha mulher encasquetou que eu precisava arrumar a bagunça do meu escritório. Papéis diversos, contas pagas, declarações de imposto de renda de 10 anos atrás, antigos bilhetes que minha filha me escreveu quando criança – estava tudo junto e misturado, naquela bagunça típica dos procrastinadores. Urgia enfrentar o problema. E lá fui eu, […]
- [Retrospectiva 2021](https://singularidadepoetica.art/2021/12/31/retrospectiva-2021/): O ano de 2021 foi marcado pelo recrudescimento da pandemia no início do ano, o avanço da vacinação pelo país a partir de abril, pelo declínio do número de casos e mortes causados pela doença à medida em que um número maior de pessoas foram sendo vacinadas e o surgimento de uma nova variante do […]
- [Jane Hirshfield – Um dia é vasto](https://singularidadepoetica.art/2021/12/30/jane-hirshfield-um-dia-e-vasto-poema/): Um dia é vasto.Até o meio-dia.Depois acaba.A água da lagoa de ontem, entrelaçada,ainda está molhada em meus cabelos.Eu não sei o que é o tempo.Você nunca pode encontra-lo.Mas você pode perde-lo. Trad.: Nelson Santander A Day Is VastA day is vast.Until noon.Then it’s over.Yesterday’s pondwaterbraided still wet in my hair.I don’t know what time is.You […]
- [Diane di Prima - Poema de aniversário pro meu avô no dia da mentira](https://singularidadepoetica.art/2021/12/29/diane-di-prima-poema-de-aniversario-pro-meu-avo-no-dia-da-mentira-poema/): Hoje é o seuaniversário e eu tenteiescrever essas coisas antes,mas agoraem meio à loucura crescente, eu queroagradecê-lopor me dizer o que esperarpor não pouparas palavras, lá naquela sala encerada do Bronxagradecê-lopor chorar abertamente duranteas inúmeras óperas italianasdesoladoras obrigadapor puxar meu cabelo quandoeu puxava as folhas das árvores assimeu saberia o que elas sentiam, nós estamosenvolvidos […]
- [Anabel Torres - Quando meu corpo e minha cabeça](https://singularidadepoetica.art/2021/12/28/anabel-torres-quando-meu-corpo-e-minha-cabeca-poema/): Quando meu corpo e minha cabeçacomeçaram a arder e a provocar incêndios,minha mãe, como bombeiro enlouquecido,me perseguia por toda a casa. Apontava contra mim, implacávelo poderoso jorro de seu medoe tratava de me enterrar. Assim cresci. Meu pai era diferente. Defendia diante de mim, por igual, e com igual veemência e convicçãoas vantagens do gelo […]
- [Mary Oliver - Primavera](https://singularidadepoetica.art/2021/12/27/mary-oliver-primavera-poema/): Em algum lugar,uma ursa-negraacaba de despertare lança seu olhar para baixo na montanha.A noite toda,na inquietude vivaz e superficialdo início da primavera, eu penso nela,suas quatro patas pretasesparramando o cascalho,sua língua como uma chama rubratocando a relva,a água fria.Só há uma questão: como amar este mundo?Eu penso nelaerguendo-secomo um rochedo negro e musgoso para afiar […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - As flores do mall](https://singularidadepoetica.art/2021/12/26/jorge-valdes-diaz-velez-as-flores-do-mall-poema/): As jovens deusas, noturnasaparições (roupas escuras,prata queimando seus umbigos)na cadência da pista,começam a desbotarcom a premência dos anos,os problemas, talvez os filhosque ainda não têm. Olhamagora para os teus olhos com clarodesprezo (já tens quarenta)e pensas em certas palavrasde Baudelaire que lhes dariascomo se fossem teus frutos(se ao menos se aproximassem), sesoubessem quem foi o […]
- [Henry Wadsworth Longfellow - A reunião](https://singularidadepoetica.art/2021/12/25/henry-wadsworth-longfellow-a-reuniao/): Depois de uma longa ausência Nos vemos de novo, afinal:O encontro nos dá prazer, Ou, ao contrário, aflição?A Árvore foi chacoalhada, E poucos de nós perduramos,Como os tais frutos do profeta, No topo mais alto dos ramos.Saudamos-nos cordialmente No velho tom familiar;E pensamos, mas só conosco, Quão velho e grisalho ele está!Falamos de um bom […]
- [David Mourão-Ferreira - Ladainha dos Póstumos Natais](https://singularidadepoetica.art/2021/12/24/david-mourao-ferreira-ladainha-dos-postumos-natais-poema/): Ladainha dos Póstumos Natais, um poema de David Mourão-Ferreira sobre o Natal
- [Charles Simic - Medo](https://singularidadepoetica.art/2021/12/23/charles-simic-medo-poema/): O medo passa de homem para homemInconscientemente,Como uma folha passa o seu estremecimentoPara outra. De repente, a árvore toda está tremendo,E não há nenhum sinal do vento. Trad.: Nelson Santander Fear Fear passes from man to manUnknowing,As one leaf passes its shudderTo another. All at once the whole tree is trembling,And there is no sign […]
- [Linda Pastan - As Íris de Monet](https://singularidadepoetica.art/2021/12/22/linda-pastan-as-iris-de-monet-poema/): Estas floresse sonharamde volta à cor pura –os verdesda água indivisa,os verdesinformes do pradoassim como Deus disse:Que hajaÍris. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Monet’s Irises These flowershave dreamed themselvesback into pure color—the greensof undivided water,the formlessgreens of meadowjust […]
- [Danusha Laméris – Vestindo-se para o enterro](https://singularidadepoetica.art/2021/12/21/danusha-lameris-vestindo-se-para-o-enterro-poema/): Ninguém fala sobre a hilaridade após a morte —a forma como na semana em que o meu irmão se matoua esposa dele e eu caímos na cama gargalhandoporque ela não conseguia decidir sobre o que vestir para o grande dia,e me perguntou, “Eu quero ser sexy ou Amish?” Eu respondi: sexy.E nós rolamos sobre o […]
- [Kenneth Rexroth - Delia Rexroth](https://singularidadepoetica.art/2021/12/20/kenneth-rexroth-delia-rexroth-poema/): A Califórnia entra numVerão modorrento, e o arEstá repleto da agridoceFumaça de relva queimandoNas colinas de São Francisco.A carne arde assim, as pirâmidesIdem, assim como as estrelas em combustão.Cansado esta noite, em uma cidadeDe arrivistas, no desumanoOeste, no mais sangrento dos anos,Peguei um livro de poemasDe que você costumava gostar, com Aquela música que você […]
- [Joana, de Joan Margarit](https://singularidadepoetica.art/2021/12/13/joana-sumario/): Há livros que não devem ser lidos às pressas. Joana, de Joan Margarit, é um deles. Esta página reúne, no Singularidade Poética, a tradução da obra publicada em sequência. Mais do que um conjunto de poemas, Joana é um livro: tem uma respiração própria, uma ordem interna, uma dor que retorna em imagens, vozes, lugares […]
- [Joan Margarit - No final da noite](https://singularidadepoetica.art/2021/12/12/joan-margarit-no-final-da-noite-poema/): O ar está congelando.Até o rouxinol mantém-se em silêncio.Com a testa apoiada na vidraçapeço perdão às minhas filhas mortas,porque já quase nunca penso nelas.O tempo passou, deixando sobre a cicatrizsua argila empoeirada, e ocorre que, mesmoquando se ama alguém, sobrevém o esquecimento.A luz tem a mesma aspereza das gotasque vão, com o degelo, caindo dos […]
- [Joan Margarit - Um lugar perdido](https://singularidadepoetica.art/2021/12/11/joan-margarit-um-lugar-perdido-poema/): UM LUGAR PERDIDOIn memoriamMarta Ribalta i Taltavull (17-VIII-1946, 11-V-1999)Joana Margarit i Ribalta (20-VIII-1970, 2-VI-2001) Reluz o sol do conto de fadasque para Marta foi esta casapequena e luminosa em frente aos campos.Ninguém tocou em um único troncoda lenha cortada e ordenada.Joana fez um desenho para elaonde lhe dizia: Que sejas muito feliz.Quando Joana tinha dois anos […]
- [Joan Margarit - A espera](https://singularidadepoetica.art/2021/12/10/joan-margarit-a-espera-poema/): Muitas coisas estão sentindo a tua falta.Cada dia é repleto de momentos que esperamaquelas pequenas mãosque seguraram as minhas tantas vezes.Teremos de nos habituar à tua ausência.Um verão já passou sem teus olhose o mar também terá que se acostumar.Por muito tempo ainda,a rua esperará diante de nossa porta,pacientemente, pelos teus passos.Não se cansará nunca […]
- [Joan Margarit - Lápide](https://singularidadepoetica.art/2021/12/09/joan-margarit-lapide-poema/): LÁPIDEANNA, 1967; JOANA, 1970-2001 Nossa memória guarda vossos nomesem uma pequena praia que jamaisfigurará nos mapas dos navios.Quão próximas estais aqui, uma da outra,minhas filhas, depois de tanto tempo.Tão unidas agora, atrás de vossos nomes,que olham para o mare que o sol lê a cada amanhecer. Trad.: Nelson Santander LÁPIDAANNA, 1967; JOANA, 1970-2001 Nuestra memoria […]
- [Joan Margarit - Quadro com pássaros](https://singularidadepoetica.art/2021/12/08/joan-margarit-quadro-com-passaros-poema/): A parede é, deste lado, escura e triste,como naquela históriaque um dia te contei. Fosse de verdade,todos os pássaros que pintasteestariam a tua espera do outro ladocantando para ti:acolher-te-ia aquela parte clarade que falava a históriacomo o faríamos tua mãe e euse pudesses voltar para casa novamente. Conto para mim mesmo esta históriaenquanto olho para […]
- [Joan Margarit - O primeiro verão sem ti](https://singularidadepoetica.art/2021/12/07/joan-margarit-o-primeiro-verao-sem-ti-poema/): IPenhascos de um cinza esverdeado,como grandes machados pré-históricos,mergulham na água.Como alguém descascando frutas,a estrada recorta suas curvasatravés das velhas colinas calcinadas. O carro estaciona próximo ao mare no retrovisor não estão teus olhos.Em frente, branco, La Gambinacom seu letreiro — HOTEL — azulno alto, no telhado, mirando o amanhã. IISentada diante das ondas:as nuvens se […]
- [Joan Margarit - Professor Bonaventura Bassegoda](https://singularidadepoetica.art/2021/12/06/joan-margarit-professor-bonaventura-bassegoda-poema/): Lembrei-me de você, alto e corpulento,atrevido, sentimental. Na época, vocêera uma autoridade em Alicerces Profundos.Iniciava as aulas sempre assim:Senhores, bom dia.Hoje faz tantos anos, tantos mesese tantos dias que minha filha morreu.E costumava secar algumas lágrimas.Tínhamos vinte anos, mais ou menos,e o homem corpulento que você era,chorando durante a aula,nunca nos fez sorrir.Há quanto tempo […]
- [Joan Margarit - O presente e Forès](https://singularidadepoetica.art/2021/12/05/joan-margarit-o-presente-e-fores-poema/): IManhã de verão nos campos.E Mariona, com seu avental,cavando no jardim, sob as rosas.Mònica — aos doze — anda de bicicletana estrada para a aldeia,e Joana e Carles — ambos com cinco — dormem.Reluz o ar do feriado:pela janela aberta para as árvores,entre as folhas sopradas pela brisa,escapa o piano das «Suites inglesas»,e de repente […]
- [Joan Margarit - Canção de ninar](https://singularidadepoetica.art/2021/12/04/joan-margarit-cancao-de-ninar-poema/): Dorme, Joana.E que este «Loverman» — sombrio e trágicodo sax do teu irmão em Montjuïc —possa acompanhar-te por toda a eternidade pelos caminhosque só a música conhece.Dorme, Joana, dorme.E, se possível, não te esqueçasde teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste.Envelhecer será também reteras cores que um dia brilharam em teus olhos.Dorme, […]
- [Joan Margarit - Recordações militares](https://singularidadepoetica.art/2021/12/03/joan-margarit-recordacoes-militares-poema/): Ao crepúsculo, algumas centenasde homens em formação,silenciosos, imóveis, ouvíamosum solo de trompete. Além das noitesde sentinela sob a estreladaescuridão do acampamento,acho que do meu tempo sentirei faltade tudo o que não se podia comprar. Das sensaçõesao falar sobre a morte. E da honra.A honra, um céu distante. Deficiente, andavas de muletas:nunca houve para mim garota […]
- [Joan Margarit - Passageira](https://singularidadepoetica.art/2021/12/02/joan-margarit-passageira-poema/): Na grande janela do aeroportoum amanhecer de luz branca, entre a névoa,se ergue diante da garota com um livroque ela nunca chegará a ler.Minha juventude está ali também,naquelas páginas de papel bíbliados russos do século dezenove.Um tomo grosso encadernado em couro. Natashas e Nastenkas, silenciosasamigas de quem aprendia esperar, na neve e na nevasca,uma acolhedora […]
- [Joan Margarit - Uma fotografia pendurada na parede](https://singularidadepoetica.art/2021/12/01/joan-margarit-uma-fotografia-pendurada-na-parede-poema/): Uma fotografia pendurada na paredeXavier Miserachs Paseo de Gracia,o inverno em que, sob a neve, tu e eu nos conhecemos.Em primeiro plano, de costas para mim,alguns transeuntes que se afastam:talvez seja eu aquele homem com o guarda-chuva,e talvez a mulher com um gorrode lã sejas tu.O fundo se desvanecepor trás dos flocos que caem,nublando o […]
- [Joan Margarit - Uma história](https://singularidadepoetica.art/2021/11/30/joan-margarit-uma-historia-poema/): Não digas nada, Joana,apenas escuta-o e não digas nada.Caminhávamos na chuvosamanhã pela cidade adormecida,e entrávamos lentamenteem uma via calçadaque não levava a lugar nenhum.Algumas crianças, com gritos e canções,queriam que nos aproximássemos do canal,para que víssemos sua casa refletida na água.Gostaste, lembra-te?,de observar as crianças. Quando partimossuas carinhas estavam grudadas nas vidraças,suas vozes dissipando-se na […]
- [Joan Margarit - Espaço e tempo](https://singularidadepoetica.art/2021/11/29/joan-margarit-espaco-e-tempo-poema/): E de repente a casa ficou grande demais.Tua mãe e eu esvaziamos teus roupeirose seguimos por mesas e prateleiras,de retrato em retrato, teus sorrisos.À noite, os espelhos, sob a luz elétrica,exibem com mais relevo o teu vazio.Os móveis estão agora mais escuros.Descem pelas escadaso cálido balaústre que se lembrade tua pequena mão,e os degraus que […]
- [Joan Margarit - Noite de junho](https://singularidadepoetica.art/2021/11/28/joan-margarit-noite-de-junho-poema/): Quando saí do cinema já fazia escuro.Naquele velho estacionamento, sem iluminação,subi a rampa áspera e sujaporque havia estacionado no terraço.Dentro de mim também era dura a ladeira:os primeiros dias sem ti.Mas ao chegar no topo, ao ar livre,um cálido silêncioenvolvia a sombra dos carros:os ladrilhos avermelhados, as gradesde ferro, singelas e delicadas,e os vasos com […]
- [Joan Margarit - Final](https://singularidadepoetica.art/2021/11/27/joan-margarit-final-poema/): Teu enterro, na primavera: foi essaa mensagem final de tua bondade.Nada melhor em torno de ti do que o ruídodesta cidade e, em frente,a eternidade do mar.Que rude fachada a do Montjuïc: vaiaté onde o pensamento deseja. O carrinho sobe os caminhos de areiae os automóveis o seguem,fazendo crepitar o cascalho ao pédos ciprestes na […]
- [Joan Margarit - Teu lobo](https://singularidadepoetica.art/2021/11/26/joan-margarit-teu-lobo-poema/): Mira-o antes de ir-tee dize-lhe adeus: ele foipreso outras vezessem jamais se render.Contempla-o, amarradono pátio nevado:a corrente lhe roçao pescoço, já sem pelos,do qual pendem aindacordas gastas,as que outrora ele partiuem outros cativeiros. Ele dorme quaseo tempo todo.Tem manchas escurascomo de quando caio reboco de uma parede.Infestado de pulgas,na rosada línguaque pende avidamentehá pretas estriasdeixadas […]
- [Joan Margarit - O dia depois da morte](https://singularidadepoetica.art/2021/11/25/joan-margarit-o-dia-depois-da-morte-poema/): Hoje te vi e levavas tuas muletas azuis,feliz como sempre e protegidapor aquele jovem pai entre as tensascordas do enorme violoncelo da chuva.Jamais tu e eu lembraremosde termos sido pai e filhaneste mesmo pátio, onde o loureiromolhado balança ao anoitecer. Trad.: Nelson Santander EL DÍA DESPUÉS DE LA MUERTE Hoy te he visto y llevabas […]
- [Joan Margarit - Um pobre instante](https://singularidadepoetica.art/2021/11/24/joan-margarit-um-pobre-instante-poema/): A morte nada mais é do que isto: o quarto,a luminosa tarde na janela,e este toca-fitas na mesinha– tão silencioso como o teu coração –com todas as tuas canções tocadas para sempre.Teu último suspiro segue dentro de mimainda em suspenso: não deixo que acabe.Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?Ouves como brincam as crianças no […]
- [Joan Margarit - Última caminhada](https://singularidadepoetica.art/2021/11/23/joan-margarit-ultima-caminhada-poema/): Já não comia. Caíam meus cabelos.Ficava o dia todo de olhos fechados.Mas saí para a varanda de madrugadae alguém da calçada, sob uma árvore,falou-me com uma voz como a de minha mãe,que dormia em sua cama ao lado da minha.De repente, não estava mais cansadae desci sem muletas até a rua.Nunca fora capaz de andar […]
- [Joan Margarit - Mari](https://singularidadepoetica.art/2021/11/22/joan-margarit-mari-poema/): Ela te acompanhou por muito tempo,todas as tardes, na natação e na escola.Foi tua amiga e também a confidentedaquela dolorosa adolescênciade lua de hospital e das tardes azuisda lenta juventude. Foi a tua Mari,as últimas visitas, quando teus olhospesavam-te interiormente como a morteque apagou todo o brilho por trás das friasvidraças embaçadas de passado.Tu e […]
- [Joan Margarit - Súplica](https://singularidadepoetica.art/2021/11/21/joan-margarit-suplica-poema/): Desta manhã invernal, morna e aprazível,por favor, não te vás.Fica submersa neste pátiocomo se houvesses naufragadodentro de nossa vida.Sob o loureiro, entre as aspidistrasde folhas românticas, verdes e largas,por favor, não te vás, não te vás. Tudo está preparado para ti.Fica, por favor, e não te vás.Diz-me se te lembras: preciso dealgumas palavras com a […]
- [Amalia Bautista – Os meus melhores desejos](https://singularidadepoetica.art/2018/01/07/amalia-bautista-os-meus-melhores-desejos/): Que a vida te pareça suportável.Que a culpa não afogue a esperança.Que não te rendas nunca.Que o caminho que sigas seja sempre escolhidoentre dois pelo menos.Que te interesse a vida tanto como tu a ela.Que não te apanhe o víciode prolongar as despedidas.E que o peso da terra seja levesobre os teus pobres ossos.Que a […]
- [Amalia Bautista – O que fazes aqui](https://singularidadepoetica.art/2018/01/06/amalia-bautista-o-que-fazes-aqui/): Pensei que havia-te dito adeus,um adeus definitivo, ao deitar-mequando pude finalmente fechar meus olhose esquecer-me de ti e de tuas artimanhasde tua insistência, de tua baba ruim,da tua capacidade de anular-me.Pensei que havia-te dito adeuspara todo o sempre, e eu acordoe te encontro novamente junto a mim,dentro de mim, me envolvendo, ao meu lado,invadindo-me, sufocando-me, […]
- [Tomas Tranströmer – Minnena Ser Mig (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/05/tomas-transtromer-duas-traducoes-de-um-mesmo-poema/): Memórias que me Observam Manhã de Junho, cedo demais para acordar, tarde demais para adormecer. Tenho de sair – é densa a folhagem das memórias, perseguem-me com o seu olhar. Não se deixam ver, misturam-se todas com o fundo, verdadeiros camaleões. Tão perto estão que as ouço respirarem aqui onde o canto do pássaro ensurdece. […]
- [João Cabral de Melo Neto - Como a Morte se Infiltra](https://singularidadepoetica.art/2018/01/04/joao-cabral-de-melo-neto-como-a-morte-se-infiltra/): Certo dia, não se levanta porque quer demorar na cama. No outro dia ele diz por que: é porque lhe dói algum pé. No outro dia o que dói é a perna, E nem pode apoiar-se nela. Dia a dia lhe cresce um não, um enrodilhar-se de cão. Dia a dia ele aprende o jeito […]
- [Amalia Bautista – Al Cabo (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/03/amalia-bautista-ao-fim/): No fim de contas No fim de contas são poucas as palavrasque nos doem de verdade, e muito poucasas que conseguem alegrar a alma.E são também muito poucas as pessoasque nos fazem bater o coração, e menosainda com o correr do tempo.No fim de contas, são pouquíssimas as coisasque na verdade importam nesta vida:poder amar […]
- [Vicente de Carvalho – Velho Tema I](https://singularidadepoetica.art/2018/01/02/vicente-de-carvalho-velho-tema-i/): Só a leve esperança, em toda a vida, Disfarça a pena de viver, mais nada; Nem é mais a existência, resumida, Que uma grande esperança malograda. O eterno sonho da alma desterrada Sonho que a traz ansiosa e embevecida, É uma hora feliz, sempre adiada E que não chega nunca em toda a vida. Essa […]
- [Amalia Bautista – Façamos uma limpeza geral](https://singularidadepoetica.art/2018/01/01/amalia-bautista-facamos-uma-limpeza-geral/): Leia "Façamos uma limpeza geral", de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre memória, desapego e a coragem de recomeçar.
- [Carlos Drummond de Andrade - Receita de Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2017/12/31/carlos-drummond-de-andrade-receita-de-ano-novo/): Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das […]
- [Laura Liuzzi - Fio Sem Fim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/30/laura-liuzzi-fio-sem-fim/): Chega-se, enfim, à última página embora deixe claro: não se chega ao fim. Um mesmo fio fino frágil mas firme, da mesma fibra de rio conduz memória e história: storage — está estendido para sempre e para sempre soará, suará a cada renovação do sol, mesmo quando atingirmos o final — mesmo assim não se […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/12/29/alice-ruiz-s/): último dia ainda parece novo o ano que passou
- [Rainer Maria Rilke – Para recitar antes de adormecer](https://singularidadepoetica.art/2017/12/28/rainer-maria-rilke-para-recitar-antes-de-adormecer/): Eu queria cantar para dentro de alguém, sentar-me junto de alguém e estar aí. Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres. Queria ser o único na casa a saber: a noite estava fria. E queria escutar dentro e fora de ti, do mundo, da floresta. Os relógios chamam-se anunciando […]
- [Rainer Maria Rilke – Fonte Romana](https://singularidadepoetica.art/2017/12/27/rainer-maria-rilke-fonte-romana/): Vila Borghese Duas velhas bacias sobrepondo suas bordas de mármore redondo. Do alto a água fluindo, devagar, sobre a água, mais embaixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto, como que só no côncavo da mão, entremostrando um singular objeto: o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia, em […]
- [Adélia Prado – A Treva](https://singularidadepoetica.art/2017/12/26/adelia-prado-a-treva/): Me escolhem os claros do sono engastados na madrugada, a hora do Getsêmani. São cruas claras visões às vezes pacificadas, às vezes o terror puro sem o suporte dos ossos, que o dia pleno me dá. A alma desce aos infernos, a morte tem seu festim. Até que todos despertem e eu mesma possa dormir, […]
- [Anne Sexton – Frágil Fio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/25/anne-sexton-fragil-fio/): Minha fé é um grande peso suspenso por um frágil fio, como a aranha suspende seu bebê em uma fina teia, como a videira, galhos finos e madeira, sustenta as uvas como globos oculares, como muitos anjos dançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisa de muito fio para manter-Se lá, apenas uma veia […]
- [Laura Riding – Uma Gentileza](https://singularidadepoetica.art/2017/12/24/laura-riding-uma-gentileza/): Estar viva é estar curiosa. Quando perder interesse pelas coisas E não estiver mais atenta, álacre Por fatos, acabo este minguado inquérito. A morte é a condição do supremo tédio. Vou deixar que me desintegre E aí, por saber da paz que a morte traz, Seria bom seguir convencendo o destino A ser mais generoso, […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vigília](https://singularidadepoetica.art/2017/12/22/giuseppe-ungaretti-vigilia/): Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915 Toda uma noite em claro caído ao lado de um companheiro massacrado com sua boca arreganhada exposta à lua cheia com o hematoma de suas mãos cravado em meu silêncio escrevi cartas cheias de amor Não tinha nunca estado tão aferrado à vida Trad.: Nelson Ascher
- [Giuseppe Ungaretti – Não gritem mais](https://singularidadepoetica.art/2017/12/21/giuseppe-ungaretti-nao-gritem-mais/): Parem de matar os mortos, Não gritem mais, não gritem Se ouvir ainda os quiserem, Se imperecer ainda esperam. Eles, sussurro imperceptível, Não fazem mais ruído Que o mato quando cresce, Alegre, onde homem não passa. Trad.: Aurora Bernardini
- [Giuseppe Ungaretti – Peso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/20/giuseppe-ungaretti-peso/): Mariano, 29 de junho de 1916 Aquele camponês se fia na medalha de Santo Antonio e segue tranquilo Mas bem só e bem nua sem qualquer miragem carrego minha alma Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Georg Trakl – Ocaso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/19/georg-trakl-ocaso/): A Karl Borromäus Heinrich Por sobre o lago branco Partiram os pássaros selvagens. No crepúsculo sopra de nossas estrelas um vento gelado. Por sobre os nossos túmulos Inclina-se a fronte despedaçada das trevas. Sob carvalhos, balançamos numa barca prateada. Sempre ressoam os muros brancos da cidade. Sob arcos de espinhos Oh, irmão, ponteiros cegos, escalamos […]
- [Georg Trakl – Olhando um velho álbum](https://singularidadepoetica.art/2017/12/18/georg-trakl-olhando-um-velho-album/): Sempre voltas, melancolia, Mansidão da alma solitária. Por fim arde um dia dourado. Com humildade curva-se à dor o paciente Ressoando harmonia e suave loucura. Olha! Já escurece. Volta de novo a noite e um mortal lamenta-se E com ele sofre um outro. Arrepiada sob estrelas de outono, A cabeça mais baixa a cada ano.
- [Federico García Lorca – E Depois...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/17/federico-garcia-lorca-e-depois/): Os labirintos que criam o tempo se desvanecem. (Só fica o deserto.) O coração, fonte do desejo, se desvanece. (Só fica o deserto) A ilusão da aurora e os beijos se desvanecem. Só fica o deserto. Um ondulado deserto. Conheça outros livros de Federico García Lorca clicando aqui
- [Eugénio de Andrade – Adágio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/16/eugenio-de-andrade-adagio/): O Outono é isto – apodrecer de um fruto entre folhas esquecido. Água escorrendo, quem sabe donde, ocasional e fria e sem sentido.
- [José Saramago – É tão fundo o silêncio...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/15/3933-2/): É tão fundo o silêncio entre as estrelas. Nem o som da palavra se propaga, Nem o canto das aves milagrosas. Mas lá, entre as estrelas, onde somos Um astro recriado, é que se ouve O íntimo rumor que abre as rosas.
- [José Saramago – Diz tu por mim, silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/14/jose-saramago-diz-tu-por-mim-silencio/): Não era hoje um dia de palavras, Intenções de poemas ou discursos, Nem qualquer dos caminhos era nosso. A definir-nos bastava um acto só, E já que nas palavras me não salvo, Diz tu por mim, silêncio, o que não posso. Conheça outros livros de José Saramago clicando aqui
- [José Saramago – As Palavras de Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/12/13/jose-saramago-as-palavras-de-amor/): Esqueçamos as palavras, as palavras: As ternas, caprichosas, violentas, As suaves de mel, as obscenas, As de febre, as famintas e sedentas. Deixemos que o silêncio dê sentido Ao pulsar do meu sangue no teu ventre: Que palavra ou discurso poderia Dizer amar na língua da semente?
- [Ronaldo Costa Fernandes – Férias](https://singularidadepoetica.art/2017/12/12/ronaldo-costa-fernandes-ferias/): Aqui, quieto em meu canto sem mexer-me, olhando a luz higiênica do sol, penso na inutilidade cansativa de malas e hotéis para divertir-me nas férias estrangeiras. Não, só preciso da vontade, nem sempre firme, um vento estradeiro, um alarde distante de pássaros e nada além do meu corpo.
- [Dylan Thomas – E a Morte não terá nenhum Domínio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/11/dylan-thomas-e-a-morte-nao-tera-nenhum-dominio/): E a morte não terá nenhum domínio. Nus, os mortos irão se confundir Com o homem no vento e a lua no poente; Quando seus alvos ossos descarnados se tornarem pó, Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos; Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos, Ainda que submersos pelo mar, haverão de ressurgir; Ainda […]
- [Emmanuel Santiago – Lembro-me das Madrugadas](https://singularidadepoetica.art/2017/12/10/emmanuel-santiago-lembro-me-das-madrugadas/): Lembro-me das madrugadas de Minas, quando o frio era vidro moído na carne e, lívido, o orvalho lustrava o gume das estrelas, que luziam no brilho sombrio do céu noturno (negro veludo). Através da neblina, em dança imóvel e milenar, tremulava o vulto oblíquo das montanhas. E aquilo era tudo que eu sabia do horizonte […]
- [Mario Cesariny – Os Pássaros de Londres](https://singularidadepoetica.art/2017/12/09/mario-cesariny-os-passaros-de-londres/): Os pássaros de Londres cantam todo o inverno como se o frio fosse o maior aconchego nos parques arrancados ao trânsito automóvel nas ruas da neve negra sob um céu sempre duro os pássaros de Londres falam de esplendor com que se ergue o estio e a lua se derrama por praças tão sem cor […]
- [Ruy Espinheira Filho – Canção de Depois de Tanto](https://singularidadepoetica.art/2017/12/08/ruy-espinheira-filho-cancao-de-depois-de-tanto/): a Roniwalter Jatobá Vamos beber qualquer coisa, que a vida está um deserto e o coração só me pulsa sombras de Ido e do Incerto. Vamos beber qualquer coisa, que a lua avança no mar e há salobros fantasmas que não quero visitar. Vamos beber […]
- [Ricardo Silvestrin – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/12/07/ricardo-silvestrin-sem-titulo-2/): Lá no horizonte, o ar frio. Mais perto de você, a saudade. Fotografias. Um quadro completo. Vale a pena ver só. A verdade é uma escultura, se você quiser anunciar.
- [Ruy Espinheira Filho – Canção](https://singularidadepoetica.art/2017/12/06/ruy-espinheira-filho-cancao/): Morri de pena de ti porque foi tudo outra história – não a que hoje poderias viver em minha memória. Coisas da vida. Outro conto se contou então. E, enfim, vejo que foste feliz. Morro de pena de mim.
- [Hilda Hilst – Poemas aos homens do nosso tempo III](https://singularidadepoetica.art/2017/12/05/hilda-hilst-poemas-aos-homens-do-nosso-tempo-iii/): homenagem a Natalia Gorbanievskaya Sobre o vosso jazigo — Homem político — Nem compaixão, nem flores. Apenas o escuro grito Dos homens. Sobre os vossos filhos — Homem político — A desventura Do vosso nome. E enquanto estiverdes À frente da Pátria Sobre nós, a mordaça. E sobre as vossas vidas — Homem político — […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Retrato Malsim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/04/carlos-drummond-de-andrade-o-retrato-malsim/): O inimigo maduro a cada manhã se vai formando no espelho de onde deserta a mocidade. Onde estava ele, talvez escondido em castelos escoceses, em cacheados cabelos de primeira comunhão? Onde, que lentamente grava sua presença por cima de outra, hoje desintegrada? Ah, sim: estava na rigidez das horas de tenência orgulhosa, no morrer em […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Instante](https://singularidadepoetica.art/2017/12/03/sophia-de-mello-breyner-andresen-instante/): Deixai-me limpo O ar dos quartos E liso O branco das paredes Deixai-me com as coisas Fundadas no silêncio
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do Mar](https://singularidadepoetica.art/2017/12/02/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja […]
- [José Paulo Paes - Epitáfio para um banqueiro](https://singularidadepoetica.art/2017/12/01/jose-paulo-paes-epitafio-para-um-banqueiro/): Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [João Cabral de Melo Neto - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/30/joao-cabral-de-melo-neto-a-mesa/): O jornal dobrado sobre a mesa simples; a toalha limpa, a louça branca e fresca como o pão. A laranja verde: tua paisagem sempre, teu ar livre, sol tuas praias; clara e fresca como o pão. A faca que aparou teu lápis gasto; teu primeiro livro cuja capa é branca e fresca como o pão. […]
- [Pós-Tudo (Augusto de Campos) e Postudo (Nelson Santander)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/pos-tudo-augusto-de-campos-e-postudo-nelson-santander-poesia/): Pós-Tudo, poema visual de Augusto de Campos e Postudo, de Nelson Santander, sua paródia atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Carlos Drummond de Andrade - Quero](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/carlos-drummond-de-andrade-quero/): Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. Ouvindo-te dizer: Eu te amo, creio, no momento, que sou amado. No momento anterior e no seguinte, como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Escada](https://singularidadepoetica.art/2017/11/28/carlos-drummond-de-andrade-escada-poema/): Escada, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Guilherme de Almeida - Soneto XXVII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/27/guilherme-de-almeida-soneto-xxvii/): Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto. E assim fazemos, como se com isto pudéssemos varrer nosso passado. Passo, esquecido de teu olhar — coitado! Vais — coitada! — esquecida de que existo: como se nunca tu me houvesses visto, como se eu sempre […]
- [Goethe – Um Igual](https://singularidadepoetica.art/2017/11/21/goethe-um-igual/): Sobre cada monte A calma, Em cada fronde Nem sinal De brisa; calam- -se os pássaros na floresta. Espera! Em breve Descansas em paz. Trad.: André Vallias
- [Angela Lago - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/20/angela-lago-sem-titulo/): a pedra estará aqui daqui a vinte anos quem sabe mais polida embora não se veja ou mais recortada pelo vento a árvore terá crescido com sua sombra nem o céu permanece azul ou cinza rubro dorado negro no entanto tem essa criança que busca colo – que seja um cão que vem ao teu […]
- [Ana Martins Marques - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/19/ana-martins-marques-sem-titulo/): Porque sua camiseta secou ao sol ela tem a cor do sol porque seus cabelos secaram ao vento seus pensamentos têm a velocidade do vento porque você disse “noite” sua boca terá o gosto do mar noturno porque você não conheceu meu avô você me amará menos porque não te conheci quando criança eu te […]
- [Petrarca - Soneto CXXXIII ("O Amor me Assinalou com sua Seta")](https://singularidadepoetica.art/2017/11/18/petrarca-soneto-cxxxiii-o-amor-me-assinalou-com-tua-seta/): O amor me assinalou com sua seta,como a neve ao sol, como a cera ao fogo,como névoa ao vento; e já estou rouco,dama, de humilhar-me, feito um pateta. De teus olhos o golpe mortal veio,contra o qual tempo e espaço nada são;Vêm de ti, e vês como diversão,o sol, o fogo e o vento aos […]
- [Petrarca - Soneto CCLXXII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/17/petrarca-soneto-cclxxii/): A vida foge e não recua um passoE a morte, em grande marcha, vai em frente;As coisas do passado e do presente,Ao futuro reclamam meu espaço. A jornada que nesta vida eu traçoNa espera e na lembrança inutilmente,Por pena de mim mesmo descontenteEste caminho que ora fiz, desfaço. Se à lembrança me vem algum desejoDo […]
- [Lucrécio - Da Natureza das Coisas (de rerum natura) (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/16/lucrecio-da-natureza-das-coisas-de-rerum-natura-excerto/): Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui. Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescem Até que as conhecemos e nomeamos. Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos. Formados dos átomos que caem velozes ou lentos Vejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem; É sólido que a natureza está em nós até […]
- [Federico García Lorca - 1910 (Intermezzo)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/15/federico-garcia-lorca-1910-intermezzo/): “1910 (Intermezzo)”, um poema de Federico García Lorca que revisita o olhar inaugural da infância para revelar, entre imagens oníricas e presságios, o vazio oculto no curso inevitável das coisas.
- [Charles Baudelaire - A Giganta](https://singularidadepoetica.art/2017/11/14/charles-baudelaire-a-giganta/): Pois quando a Natureza, em seu capricho exato, Gerava estranhos seres raros, dia a dia, Uma giganta moça – eis do eu gostaria, Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato. Ver seu corpo florir com a flor de sua alma E crescer livremente em seus terríveis jogos; Ver se não teria no […]
- [Goethe - Pensamentos Noturnos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/13/goethe-pensamentos-noturnos/): Tão belas na rútila luz soberana, Guia do navegante aflito, sem norte (E sem recompensa, divina ou humana), – Tenho dó de vocês, estrelas sem sorte, Sem jamais amar e sem saber do amor! Tangendo, incansáveis, as horas eternas Na ronda do tempo das vastas esferas, Vocês vão cumprindo percursos sem conta. Mas eu, se […]
- [Thomas Hardy - Acaso](https://singularidadepoetica.art/2017/11/12/thomas-hardy-acaso/): Se ao menos do alto me chamasse um deus De ódio, e risse: “Ó homem coisa-dor, Teu sofrimento é o júbilo dos céus, Teu deve-amor é o meu haver-rancor”, Eu me conformaria, indo ao extremo De não dobrar-me, réu de um juiz verdugo, Mas orgulhoso que um poder sumpremo Me obrigasse a gemer sob o […]
- [Giacomo Leopardi - A Noite do Dia de Festa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/11/giacomo-leopardi-a-noite-do-dia-de-festa-poema/): A Noite do Dia de Festa, um poema de Giacomo Leopardi
- [William Carlos Williams - A Árvore sem Folhas](https://singularidadepoetica.art/2017/11/10/william-carlos-williams-a-arvore-sem-folhas/): A cerejeira sem folhas mais alta que o teto deu ano passado muita fruta. Como falar porém de fruta diante desse esqueleto? Embora possa estar vivo não há fruta nele. Por isso derrubem-no e usem a lenha contra este frio cortante. Trad.: José Paulo Paes The bare tree The bare cherry tree higher than […]
- [Ivan Junqueira - No Leito Fundo](https://singularidadepoetica.art/2017/11/09/ivan-junqueira-no-leito-fundo/): No leito fundo em que descansas, em meio às larvas e aos livores, longe do mundo e dos terrores que te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhores que te esqueceram nas andanças, longe das taças e das danças, e dos feéricos rumores; longe das cálidas crianças que ateavam fogo aos […]
- [Ivan Junqueira - de "Três Meditações na Corda Lírica"](https://singularidadepoetica.art/2017/11/08/ivan-junqueira-de-tres-meditacoes-na-corda-lirica/): Only through time time is conquered. T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terra e escuta a voz escura das raízes, do limo primitivo, da limalha fina do que […]
- [Ivan Junqueira - Lição](https://singularidadepoetica.art/2017/11/07/ivan-junqueira-licao/): À beira do claustro o monge se inclina e na pedra aprende o que a pedra ensina: que a vida é nada com a morte por cima, que o tempo apenas este fim lhe adia e que o ser carece de não ser ainda, pois à luz se esquiva do que o purifica: a doce […]
- [Ivan Junqueira - Antes que o Sol se Ponha](https://singularidadepoetica.art/2017/11/06/ivan-junqueira-antes-que-o-sol-se-ponha/): Antes que o sol se ponha e seja tarde, e o azul crepuscular me deite a garra, e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra ou mortalha que o corpo me resguarde; antes que murche a pétala na jarra, e eu cale, para sempre, sem alarde, e tudo o que me coube, por covarde, não […]
- [Attila József - Dois Fragmentos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/05/attila-jozsef-dois-fragmentos/): Igual motor já engatado, mas sem caminho a ser seguido, sou assim, e se fosse mais ousado só diria palavras sem sentido. ***** Quando se escreve um verso, ação diversa nos convém, o mar em vez de firme chão, navio em vez de trem. Quando se escreve em verso, não escrever nos convém. Trad.: Nelson […]
- [José Jorge Letria - Meditação sobre os Poderes](https://singularidadepoetica.art/2017/11/04/jose-jorge-letria-meditacao-sobre-os-poderes/): Rubricavam os decretos, as folhas tristes sobre a mesa dos seus poderes efémeros. Queriam ser reis, czares, tantas coisas, e rodeavam-se de pequenos corvos, palradores e reverentes, dos que repetem: és grande, ninguém te iguala, ninguém. Repartiam entre si os tesouros e as dádivas, murmurando forjadas confidências, não amando ninguém, nada respeitando. Encantavam-se com o […]
- [Haroldo de Campos – Ex/plicação](https://singularidadepoetica.art/2017/11/03/haroldo-de-campos-explicacao/): não há um sentido único num poema quando alguém começa a ex- plicá-lo e chega ao fim en- tão só fica o ex do ponto de partida beco (tente outra vez) sem saída
- [Charles Bukowski - Encurralado](https://singularidadepoetica.art/2017/11/02/charles-bukowski-encurralado/): bem, eles diziam que tudo terminaria assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca da palavra ouvindo os passos na escuridão, volto-me para olhar atrás de mim… ainda não, velho cão… logo em breve. agora eles se sentam falando sobre mim: “sim, acontece, ele já era… é triste…” “ele nunca teve muito, não […]
- [Charles Bukowski - Poema nos meus 43 anos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/01/charles-bukowski-poema-nos-meus-43-anos/): terminar sozinho no túmulo de um quarto sem cigarros nem bebida — careca como uma lâmpada, barrigudo, grisalho, e feliz por ter um quarto. …de manhã eles estão lá fora ganhando dinheiro: juízes, carpinteiros, encanadores , médicos, jornaleiros, guardas, barbeiros, lavadores de carro, dentistas, floristas, garçonetes, cozinheiros, motoristas de táxi… e você se vira para […]
- [Cecilia Meireles - Cântico VI](https://singularidadepoetica.art/2017/10/31/cecilia-meireles-cantico-vi/): Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de […]
- [Ferreira Gullar - Traduzir-se](https://singularidadepoetica.art/2017/10/30/ferreira-gullar-traduzir-se/): Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe […]
- [Orides Fontela - Kant (relido)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/29/orides-fontela-kant-relido/): Duas coisas admiro: a dura lei cobrindo-me e o estrelado céu dentro de mim.
- [Frank O'Hara - Autobiographia Literaria](https://singularidadepoetica.art/2017/10/28/frank-ohara-autobiographia-literaria/): Quando era menino eu brincava sozinho num canto do pátio da escola sem ninguém. Odiava bonecas e odiava jogos, os bichos eram hostis e os pássaros fugiam. Se alguém me procurava eu me escondia atrás de uma árvore e gritava “Sou um órfão.” E olha eu aqui, o centro de toda beleza! escrevendo estes versos! […]
- [Maya Angelou - Ainda assim me Levanto](https://singularidadepoetica.art/2017/10/27/maya-angelou-ainda-assim-me-levanto/): Você pode me inscrever na história Com as mentiras amargas que contar Você pode me arrastar no pó, Ainda assim, como pó, vou me levantar Minha elegância o perturba? Por que você afunda no pesar? Porque eu caminho como se eu tivesse Petróleo jorrando na sala de estar Assim como a lua ou o sol […]
- [Emily Dickinson - Morri pela Beleza](https://singularidadepoetica.art/2017/10/26/emily-dickinson-morri-pela-beleza/): Morri pela Beleza – e assim que no Jazigo Meu Corpo foi fechado, Um outro Morto foi depositado Num Túmulo contíguo – “Por que morreu?” murmurou sua voz. “Pela Beleza” – retruquei – “Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. Nós Somos Irmãos. É uma só lei” – E assim Parentes pela Noite, […]
- [Wislawa Szymborska - O Terrorista, Ele Observa](https://singularidadepoetica.art/2017/10/25/wislawa-szymborska-o-terrorista-ele-observa/): A bomba vai explodir no bar às treze e vinte. Agora são só treze e dezesseis. Alguns ainda terão tempo de entrar; alguns de sair. O terrorista já passou para o outro lado da rua. A distância o livra de todo mal e a vista, bom, é como no cinema: Uma mulher de jaqueta amarela, […]
- [Ana Martins Marques - Penélope (I)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/24/ana-martins-marques-penelope-i/): O que o dia tece, a noite esquece. O que o dia traça, a noite esgarça. De dia, tramas, de noite, traças. De dia, sedas, de noite, perdas. De dia, malhas, de noite, falhas.
- [Ana Martins Marques - Batata Quente](https://singularidadepoetica.art/2017/10/23/ana-martins-marques-batata-quente/): Se eu te entregasse agora o meu amor aceso como ele está, como ele está, pesado, você o trocaria rapidamente de mão, você o guardaria um pouco na esquerda, um pouco na direita, por quanto tempo antes de o passar adiante?
- [Raymond Carver - O que o Médico Disse](https://singularidadepoetica.art/2017/10/22/raymond-carver-o-que-o-medico-disse/): Ele disse não parece bom ele disse parece mau aliás muito mau ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes de parar de contar eu disse fico feliz não ia querer saber que tem mais do que isso lá ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha em bosques […]
- [Raymond Carver – Medo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/21/raymond-carver-medo/): Medo de ver a polícia estacionar à minha porta. Medo de dormir à noite. Medo de não dormir. Medo de que o passado desperte. Medo de que o presente alce voo. Medo do telefone que toca no silêncio da noite. Medo de tempestades elétricas. Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo! Medo de […]
- [Maria Cecilia Brandi – A Dança](https://singularidadepoetica.art/2017/10/20/maria-cecilia-brandi-a-danca/): Se a festa começou às dez e meia e terminou por volta das quatro teve trezentos e trinta minutos e como foram setenta e dois convidados neste meu aniversário de trinta e oito anos tive menos de cinco minutos para conversar com cada um na verdade ainda menos pois poucos chegaram no início e saíram […]
- [Cassiano Ricardo - Depois de Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/19/cassiano-ricardo-depois-de-tudo/): Mas tudo passou tão depressa Não consigo dormir agora. Nunca o silêncio gritou tanto Nas ruas da minha memória. Como agarrar líquido o tempo Que pelos vãos dos dedos flui? Meu coração é hoje um pássaro Pousado na árvore que eu fui.
- [Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer](https://singularidadepoetica.art/2017/10/17/stig-dagerman-a-nossa-necessidade-de-consolo-e-impossivel-de-satisfazer/): Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tampouco me legaram o disfarçado furor do cético, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso […]
- [Pedro Salinas - de "Presságios"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/16/pedro-salinas-de-pressagios/): 41 Estas frases de amor que se repetem tantonão são nunca as mesmas.Todas tem idêntico som,mas uma vida anima cada uma,virgem e só, se é que a percebes.E não te canses nuncade repetir as palavras iguais:sentirás a emoção que sente a almaao ver nascer a estrela primeirae ao ver que ela se multiplica, conforme a […]
- [Pedro Salinas - Não Quero que te Vás](https://singularidadepoetica.art/2017/10/15/pedro-salinas-nao-quero-que-te-vas/): Não quero que te vás,dor, última formade amar. Sinto-me vivoquando me dóis,não em ti, nem aqui,mais longe: na terra, no anode onde tu vens,no amor com elae tudo o que foi.Nessa realidadesubmersa que se negaa si mesma e insisteem nunca ter existido,que foi apenas um pretextoque encontrei para viver.Se tu não me restasses,ó dor irrefutável,até […]
- [Nicanor Parra - Perguntas e Respostas](https://singularidadepoetica.art/2017/10/14/nicanor-parra-perguntas-e-respostas/): então, tu achas que vale a pena assassinar deus se o mundo puder ser salvo? – é claro que vale a pena e vale a pena arriscar a vida por uma ideia que pode resultar falsa? – é claro que vale a pena pergunto se valerá a pena comer siri se vale a pena criar […]
- [Derek Walcott - O Amor Depois do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/10/13/derek-walcott-o-amor-depois-do-amor/): Um dia viráem que, eufórico,você cumprimentará a si próprio chegandoà sua porta, em seu espelhoe cada um dará ao outro um sorriso de boas-vindas, e você dirá, sente-se aqui. Coma.Você amará outra vez o estranho que foi.Sirva vinho. Reparta o pão. Restituao seu coraçãopara ele mesmo, para o estranho que um dia você amou por […]
- [Rainer Maria Rilke - A nós nos cabe andar](https://singularidadepoetica.art/2017/10/12/rainer-maria-rilke-a-nos-nos-cabe-andar/): I.22 A nós, nos cabe andar. Mas o tempo, os seus passos, são mínimos pedaços do que há de ficar. É perda pura tudo o que é pressa; só nos interessa o que sempre dura. Jovem, não há virtude na velocidade e no voo aonde for. Tudo é quietude: escuro e claridade, livro e flor. […]
- [Roger Wolfe - Pálpebra](https://singularidadepoetica.art/2017/10/11/roger-wolfe-palpebra/): Pedro Salinas disse num poema que não quer deixar de sentir a dor da ausência da mulher que ama porque isso é tudo o que dela fica: a dor. Não me recordo das suas palavras exactas. Ele di-lo melhor do que eu. Eram outros tempos. Salinas está morto. A mulher que ele amava também. Em […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/10/10/mia-couto-o-espelho-2/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mario Benedetti - Em Pé](https://singularidadepoetica.art/2017/10/08/mario-benedetti-em-pe/): Continuo em pé por pulsar por costume por não abrir a janela decisiva e olhar de uma vez a insolente morte essa mansa dona da espera continuo em pé por preguiça nas despedidas no fechamento e demolição da memória não é um mérito outros desafiam a claridade o caos ou a tortura continuar em pé […]
- [Octavio Paz - Irmandade](https://singularidadepoetica.art/2017/10/07/octavio-paz-irmandade/): Homenagem a Claudio Ptolomeo Sou homem: duro pouco E é enorme a noite. Mas olho para cima: As estrelas escrevem. Sem entender, compreendo: Também fui escrito E neste mesmo instante Alguém me soletra.
- [Pablo Neruda - De "Cem Sonetos de Amor"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/pablo-neruda-de-cem-sonetos-de-amor/): XII Plena mulher, maçã carnal, lua quente, Espesso aroma de algas, lodo e luz pisados, Que obscura claridade se abre entre tuas colunas? Que antiga noite o homem toca com seus sentidos? Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas, com ar opresso e bruscas tempestades de farinha: amar é um combate de […]
- [Mario Benedetti – Lento mas vem](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/mario-benedetti-lento-mas-vem/): Lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem hoje está mais além das nuvens que escolhe e mais além do trovão e da terra firme demorando-se vem qual flor desconfiada que vigila ao sol sem perguntar-lhe nada iluminando vem as últimas janelas lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem já […]
- [Ferreira Gullar – Digo Sim](https://singularidadepoetica.art/2017/10/03/ferreira-gullar-digo-sim/): Poderia dizer que a vida é bela, e muito, e que a revolução caminha com pés de flor nos campos de meu país, com pés de borracha nas grandes cidades brasileiras e que meu coração é um sol de esperança entre pulmões e nuvens Poderia dizer que meu povo é uma festa só na voz […]
- [Adilia Lopes - Absolver (com algumas coisas de Helberto Hélder)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/25/adilia-lopes-absolver-com-algumas-coisas-de-helberto-helder/): “Mas Maria guardava todas essas coisas, conferindo-as em seu coração” Lc 2,19 Chama-se sexo a uma parte do corpo como se todo o corpo as mãos os pés a cabeça não fossem também sexo o pênis a vagina os testículos as maminhas são frágeis vulneráveis estão expostos à crueldade são flores ou musgos posso estar […]
- [Mário Chamie - Cervo, Servo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/21/mario-chamie-cervo-servo/): 1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas, […]
- [Elizabeth Bishop - A Arte de Perder](https://singularidadepoetica.art/2017/09/20/elizabeth-bishop-a-arte-de-perder/): A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetoides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/09/19/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos-2/): VI Nada de mergulhos. É na superfície que o real, minúsculo plâncton, se trai. Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneira do funcional. E o sofrimento, ai, esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti- nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, […]
- [Bertolt Brecht – Prazeres](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/bertolt-brecht-prazeres/): O primeiro olhar da janela de manhã O velho livro de novo encontrado Rostos animados Neve, o mudar das estações O jornal O cão A dialéctica Tomar duche, nadar Velha música Sapatos cómodos Compreender Música nova Escrever, plantar Viajar, cantar Ser amável. Trad.: Paulo César de Souza
- [Vinícius de Moraes – O Verbo no Infinito](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/vinicius-de-moraes-o-verbo-no-infinito/): Ser criado, gerar-se, transformar O amor em carne e a carne em amor; nascer Respirar, e chorar, e adormecer E se nutrir para poder chorar Para poder nutrir-se; e despertar Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir E começar a amar e então sorrir E então sorrir para poder chorar. E crescer, […]
- [Manuel Bandeira – Renúncia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/17/manuel-bandeira-renuncia/): Chora de manso e no íntimo… Procura Curtir sem queixa o mal que te crucia: O mundo é sem piedade e até riria Da tua inconsolável amargura. Só a dor enobrece e é grande e é pura. Aprende a amá-la que a amarás um dia. Então ela será tua alegria, E será, ela só, tua […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Encontro](https://singularidadepoetica.art/2017/09/16/carlos-drumond-de-andrade-encontro/): Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho. Se a noite me atribui poder de fuga, sinto logo meu pai e nele ponho o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madruga e seu rosto, nem triste nem risonho, é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga suor […]
- [Sylvia Plath - A Redoma de Vidro (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/14/sylvia-plath-a-redoma-de-vidro-excerto/): “Eu vi minha vida estendendo seus galhos em minha frente como a figueira verde da história. Da ponta de cada ramo, como um figo roxo e grande, um maravilhoso futuro acenava e piscava. Um figo era um marido e um lar feliz e filhos, e outro figo era uma famosa poetisa e outro figo era […]
- [Nicanor Parra – Cartas a uma Desconhecida](https://singularidadepoetica.art/2017/09/13/nicanor-parra-cartas-a-uma-desconhecida/): Quando passarem os anos, quando passarem os anos e o ar tenha cavado um fosso entre tua alma e a minha; quando passarem os anos e eu só seja um homem que amou, um ser que se deteve um instante diante de teus lábios, um pobre homem cansado de andar pelos jardins, onde estarás tu? […]
- [Nicanor Parra – Acácias](https://singularidadepoetica.art/2017/09/12/nicanor-parra-acacias/): Passeando anos atrás por uma rua cheia de acácias em flor soube por um amigo bem informado que você tinha acabado de se casar. Respondi que por certo eu não tinha nada a ver com o assunto. Mas apesar de nunca ter amado você – e disso você sabe melhor do que eu – cada […]
- [Francisco Brines - Ardemos na floresta](https://singularidadepoetica.art/2020/11/15/francisco-brines-ardemos-na-floresta-poema/): Mas como conhecer, sem o olhar,a beleza da floresta, a grandeza do mar? A floresta estava atrás de mim; meus ouvidosa conheciam: o farfalhar de suas folhas,a confusão do canto de seus pássaros.Sons que vinham de um remoto lugar.E o mar do outro lado, golpeandosua fronte, sem roça-la,cobrindo-a de gotas. Era minha peleque descobria seu […]
- [Mary Oliver - Nenhuma viagem](https://singularidadepoetica.art/2020/11/13/mary-oliver-nenhuma-viagem-poema/): Eu acordo mais cedo, agora que os pássaros chegaram E cantam nas árvores inabaláveis. Em um catre junto a uma janela aberta Eu me estendo como campo consumido, enquanto desabrocha a primavera. Agora, de todos os viajantes de que me lembro, quem dentre eles Não embarcou com pesar em seus mapas? — Até parece que […]
- [Matthew Arnold - Praia de Dover](https://singularidadepoetica.art/2020/11/11/matthew-arnold-praia-de-dover-poema/): O mar esta noite descansa.A maré está cheia, a lua, maravilhosaSobre os estreitos; a luz na costa da FrançaCintila e se vai; as falésias da Inglaterra se elevam,Cintilantes e vastas, na baía sem agitação.Venha para a janela, doce é a noturna brisa!Apenas, da longa linha de aspersãoOnde o mar e a lua se encontram,Escute! ouça […]
- [Margaret Atwood - Muitíssimo](https://singularidadepoetica.art/2020/11/09/margaret-atwood-muitissimo-poema/): Muitíssimo É uma antiga palavra perdendo o brilho.Eu queria muitíssimo.Eu desejava muitíssimo.Eu o amava muitíssimo. Eu percorro cautelosamente a calçadapor causa dos meus joelhos feridos,com os quais eu me importo menosdo que você possa imaginarjá que há outras coisas, mais importantes –espere e verá – carregando um café pela metadeem um copo de papel com […]
- [Juan Vicente Piqueras - Proposta de epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2020/11/07/juan-vicente-piqueras-proposta-de-epitafio-poema/): "Proposta de epitáfio", um poema de Juan Vicente Piqueras Quando criança, eu era imortal. Adolescente, me rebelei contra o que agora sou. Quando jovem, eu era selvagem. Fiz sofrer e sofri muito mais do que eu queria.
- [Robert Frost - Diretriz](https://singularidadepoetica.art/2020/11/05/robert-frost-diretriz-poema/): Diretriz, um poema de Robert Frost Voltar para isso tudo agora é demais para nós, Voltar para um tempo simplificado pela perda De detalhe, crestado, dissolvido, e fraturado Como uma escultura de mármore de cemitério ao relento
- [Philip Larkin - Um túmulo Arundel](https://singularidadepoetica.art/2020/11/03/philip-larkin-um-tumulo-arundel-poema/): Um túmulo Arundel, um poema de Philip Larkin
- [Philip Roth – [Quando se visita uma sepultura]](https://singularidadepoetica.art/2020/11/02/philip-roth-quando-se-visita-uma-sepultura/): Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério, […]
- [Joan Margarit - Perdidos em um conto](https://singularidadepoetica.art/2020/11/01/joan-margarit-perdidos-em-um-conto-poema/): Perdidos em um conto, um poema de Joan Margarit
- [Javier Salvago - Tesouro divino](https://singularidadepoetica.art/2020/10/30/javier-salvago-tesouro-divino-poema/): A juventude passou.Tudo está bem quando acaba.Não voltaria a ser jovemnem que me pagassem. Começar a andar de novopelo caminho trilhadodos sonhos ilusóriose das verdades vagas? Começar de novocom as velhas batalhase suas velhas feridas?Voltar aos velhos hábitos, à noite, ao inferno,ao gosto pela vidamá? Fazer de tudoo que é comédia um drama? Voltar a […]
- [Ana Martins Marques - [Você se dá conta]](https://singularidadepoetica.art/2020/10/28/ana-martins-marques-voce-se-da-conta-poema/): Leia "[Você se dá conta]", de Ana Martins Marques, um poema fascinante sobre tradução, linguagem, leitura e os tradutores que moldam nossa experiência da literatura.
- [Elizabeth Jennings - Em memória de alguém que desconheço](https://singularidadepoetica.art/2020/10/26/elizabeth-jennings-em-memoria-de-alguem-que-desconheco-poema/): "Em memória de alguém que desconheço", um poema de Elizabeth Jennings
- [Nelson Santander - A elite oitocentista pela ótica de Machado de Assis: a violação da norma como norma](https://singularidadepoetica.art/2020/10/24/nelson-santander-a-elite-oitocentista-pela-otica-de-machado-de-assis-a-violacao-da-norma-como-norma/): O artigo que segue, de minha autoria, foi publicado na obra coletiva “Direito e desenvolvimento: estudos sobre a questão ambiental e a sustentabilidade – Homenagem ao Prof. Márcio Teixeira”, organizada por Caio Henrique Lopes Ramiro e Lis Maria Bonadio Precipito (São Paulo: LiberArs, 2015, 308p.). Fortemente influenciado pela obra “Um mestre na periferia do capitalismo”, […]
- [Nelson Santander - [secos são os homens sem sonhos]](https://singularidadepoetica.art/2020/10/22/nelson-santander-secos-sao-os-homens-sem-sonhos-poema/): "secos são os homens sem sonhos", um poema de Nelson Santander secos são os homens sem sonhos desertos rios de margens estreitas trilham apenas os caminhos que a terra dita
- [Óscar Hahn - Abalo sísmico](https://singularidadepoetica.art/2020/10/20/oscar-hahn-abalo-sismico-poema/): "Abalo Sísmico", um poema de Óscar Hahn Tive uma vez um grande amor que derrubou minha casa trincou minhas pontes e me fez perder o equilíbrio. Depois, vieram as réplicas:
- [Antonio Pérez Morte - Para Berta](https://singularidadepoetica.art/2020/10/18/antonio-perez-morte-para-berta-poema/): "Para Berta", um poema de Antonio Pérez Morte Para restabelecer a infância, uma bola de gude. Para a adolescência um beijo, um verso, uma esperança.
- [Joshua Jennifer Espinoza - Isto é o que faz de nós Mundos](https://singularidadepoetica.art/2020/10/16/joshua-jennifer-espinoza-isto-e-o-que-faz-de-nos-mundos-poema/): Como a luz, masao contrário, nós ondulamos. Dobramos a esquinae fazemos desapareceras colinas. Você rearranja meus pedaços até nãodoer mais. Fim do medo noturnoentranhado na pele. Fim da morte inocente. Meus cabelos perdem seus átomos.Meu corpo brilhano escuro. Planetas são esmagadosno esquecimento,despojados do seu poderde nomear as coisas. Nosso amor ocupa o ar. Nosso amor […]
- [Jane Kenyon - Discutindo com a melancolia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/14/jane-kenyon-discutindo-a-melancolia-poema/): "Discutindo a melancolia", um poema de Jane Kenyon sobre a depressão 1 DO BERÇÁRIO Quando eu nasci, você esperava atrás de uma pilha de lençóis no berçário e, quando ficamos a sós, você se deitou sobre mim, espremendo a bile da desolação em cada poro.
- [Louise Glück - Uma fantasia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/12/louise-gluck-uma-fantasia-poema/): Vou lhe dizer uma coisa: todos os diaspessoas morrem. E isso é só o começo.Todos os dias, nas funerárias, nascem novas viúvas,novos órfãos. Eles se sentam com as mãos cruzadas,tentando decidir sobre esta nova vida. Depois eles estão no cemitério, alguns delespela primeira vez. Eles têm medo de chorar,às vezes de não chorar. Alguém se […]
- [Eugénio de Andrade - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/10/eugenio-de-andrade-elegia-poema/): Às vezes era bom que tu viesses. Falavas de tudo com modos naturais: em ti havia a harmonia dos frutos e dos animais. Maio trouxe cravos como outrora, cravos morenos, como tu dizias, mas cada hora passa e não se demora na tristeza das nossas alegrias. Ainda sabemos cantar, só a nossa voz é que […]
- [Robinson Jeffers - A canção da quietude](https://singularidadepoetica.art/2020/10/08/robinson-jeffers-a-cancao-da-quietude-poema/): Bebe, bebe profundamente da quietude, E às margens do mar-imensidãoEsquece de tua aflição, amiúde, E de todas as misérias que virão.Mais calmo e frio do que a neblina,Que se desdobra e se inclinaSobre o vale escuro, e se rebobina, Aprende a ser. O Passado — foi um sonho ardente, Um […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "The Wild Iris", de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2020/10/08/apresentacao-de-the-wild-iris-de-louise-gluck/): Atualizado em 08/10/2020
- [Ferreira Gullar - Poema sujo](https://singularidadepoetica.art/2020/10/06/ferreira-gullar-poema-sujo/): "Poema sujo", de Ferreira Gullar turvo turvo a turva mão do sopro contra o muro escuro menos menos menos que escuro menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo escuro mais que escuro:
- [Alberto Pucheu - Poema para a catástrofe do nosso tempo](https://singularidadepoetica.art/2020/10/04/alberto-pucheu-poema-para-a-catastrofe-do-nosso-tempo/): Leia "Poema para a catástrofe do nosso tempo," de Alberto Pucheu, uma poderosa reflexão poética sobre a tragédia bolsonarista, memória, democracia, pandemia, violência política e resistência coletiva.
- [Germana Zanettini - Centésimo trigésimo nono](https://singularidadepoetica.art/2020/10/02/germana-zanettini-centesimo-trigesimo-nono-poema/): Centésimo trigésimo nono, um poema de Germana Zanettini
- [Javier Salvago - Quinta-feira Santa](https://singularidadepoetica.art/2020/09/30/javier-salvago-quinta-feira-santa-poema/): "Quinta-feira Santa", um poema de Javier Salvago.
- [Miller Williams - Poema de amor com torrada](https://singularidadepoetica.art/2020/09/28/miller-williams-poema-de-amor-com-torrada/): "Poema de amor com torrada", um poema de Miller Williams
- [Jane Hirshfield - Um destino algodoado](https://singularidadepoetica.art/2020/09/26/jane-hirshfield-um-destino-algodoado/): "Um destino algodoado", um poema de Jane Hirshfield.
- [Leslie McGrath – Corpus](https://singularidadepoetica.art/2020/09/24/leslie-mcgrath-corpus-poema/): Corpus, um poema de Leslie McGrath. Depois que lavaram meu corpo e enfiaram meus braços nas mangas de um vestido que comprei nos anos trinta em um mercado de Cuernavaca, eles circundaram um rosário em minhas mãos postas. (...)
- [Edgar Allan Poe - "O corvo" e "A filosofia da composição"](https://singularidadepoetica.art/2020/09/22/edgar-allan-poe-o-corvo-e-a-filosofia-da-composicao-poema/): Leia "O Corvo", o clássico poema de Edgar Allan Poe (na genial tradução de Milton Amado), e, na sequência, "A Filosofia da Composição", o ensaio fundamental no qual o autor desvenda, passo a passo, os caminhos percorridos desde a ideia inicial até os detalhes que emprestam coerência e sentido ao texto poético.
- [William Butler Yeats - "When you are old" em 4 traduções](https://singularidadepoetica.art/2020/09/20/william-butler-yeats-when-you-are-old-and-grey-and-full-of-sleep-em-4-traducoes-poema/): "When you are old and grey and full of sleep", poema de William Butler Yeats, nas traduções de José Agostinho Baptista, Adriano Nunes, Paulo Vizioli e Jorge Wanderley
- [Jorge Valdés Días-Vélez - O olival](https://singularidadepoetica.art/2020/09/18/jorge-valdes-dias-velez-o-olival-poema/): "O olival", um poema de Jorge Valdés Días-Vélez Não direi a oração que se pronuncia em outras ocasiões como esta. Eu vim para enterrar-te. E o meu silêncio é o outro lugar para onde foste. Porque não há mais verdade do que a tua memória e nada a dizer que tu não saibas (...)
- [William Stafford - No monumento não-nacional ao longo da fronteira canadense](https://singularidadepoetica.art/2020/09/16/william-stafford-no-monumento-nao-nacional-ao-longo-da-fronteira-canadense-poema/): No monumento não-nacional ao longo da fronteira canadense, um poema de William Stafford
- [Louise Glück - Paisagem](https://singularidadepoetica.art/2020/09/14/louise-gluck-paisagem-poema/): Paisagem, um poema de Louise Glück
- [Joan Margarit – Dignidade](https://singularidadepoetica.art/2020/09/12/joan-margarit-dignidade-poema/): Dignidade, um poema de Joan Margarit
- [Andrew Hudgins - No poço](https://singularidadepoetica.art/2020/09/10/andrew-hudgins-no-poco-poema/): No poço, um poema de Andrew Hudgins
- [Edna St. Vincent Millay - dois poemas de "A few Figs from Thistles"](https://singularidadepoetica.art/2020/09/08/edna-st-vincent-millay-dois-poemas-de-a-few-figs-from-thistles-poema/): Dois poemas de "A few Figs from Thistles", de Edna St. Vincent Millay
- [Ted Kooser - Sobrevivendo](https://singularidadepoetica.art/2020/09/06/ted-kooser-sobrevivendo/): "Sobrevivendo", um poema de Ted Kooser
- [Angélica Freitas - Pós](https://singularidadepoetica.art/2020/09/04/angelica-freitas-pos-poema/): Pós, um poema de Angélica Freitas
- [Walter de la Mare - Chapim](https://singularidadepoetica.art/2020/09/02/walter-de-la-mare-chapim-poema/): Chapim, um poema de Walter de la Mare
- [Tomas Tranströmer - Kyrie](https://singularidadepoetica.art/2020/08/31/tomas-transtromer-kyrie-poema/): Kyrie, um poema de Tomas Tranströmer
- [Marta Magalhães - Urbanismo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/29/marta-magalhaes-urbanismo-poema/): Urbanismo, um poema de Marta Magalhães
- [Nuno Júdice - Jogo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/27/nuno-judice-jogo-poema/): Jogo, um poema de Nuno Júdice
- [Friedrich Hölderlin - As Parcas](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-as-parcas-2/): Republicação: “As parcas”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-a-brevidade-2/): Republicação: “A brevidade”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-outrora-e-agora-2/): Republicação: “Outrora e Agora”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Margarida Vale de Gato - Psyché a Eros](https://singularidadepoetica.art/2020/08/25/margarida-vale-de-gato-psyche-a-eros-poema/): Psyché a Eros, um poema de Margarida Vale de Gato
- [Jorge de Sena - Carta a meus filhos sobre o fuzilamento de Goya](https://singularidadepoetica.art/2020/08/23/jorge-de-sena-carta-a-meus-filhos-sobre-o-fuzilamento-de-goya-poema/): Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, […]
- [Alfonso Brezmes – Os outros](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/alfonso-brezmes-os-outros-poema/): Os outros, um poema de Alfonso Brezmes
- [Robinson Jeffers - The Inhumanist (Parte II de "The Double Axe") (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/robinson-jeffers-the-inhumanist-parte-ii-de-the-double-axe-excerto/): Republicação: “The Inhumanist (Parte II de “The Double Axe”)”, excerto de um poema de Robinson Jeffers
- [Cassiano Ricardo - Ode Pastoril](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/cassiano-ricardo-ode-pastoril-2/): Republicação: “Ode pastoril”, um poema de Cassiano Ricardo
- [John Donne - Em despedida: proibindo o pranto](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/john-donne-em-despedida-proibindo-o-pranto-2/): Republicação: “Em despedida: proibindo o pranto”, poema de John Donne, em tradução de Augusto de Campos
- [Mary Oliver - Nos bosques de Blackwater](https://singularidadepoetica.art/2020/08/19/mary-oliver-nos-bosques-de-blackwater-poema/): "Nos bosques de Blackwater", um poema de Mary Oliver
- [Jane Kenyon - Poderia ter sido diferente](https://singularidadepoetica.art/2020/08/17/jane-kenyon-poderia-ter-sido-diferente/): "Poderia ter sido diferente", um poema de Jane Kenyon
- [Vinicius de Moraes - Cemitério Marinho](https://singularidadepoetica.art/2020/08/16/vinicius-de-moraes-cemiterio-marinho/): Cemitério Marinho, um poema de Vinicius de Moraes Tal como anjos em decúbito A conversar com o céu baixinho Existem cerca de cem túmulos Num lindo cemiteriozinho Que eu, a passeio, descobri Um dia em Sidi Bou Said. Mal defendidos por uns muros Erguidos ao sabor da morte Eu nunca vi mortos tão puros Mortos […]
- [Billy Collins - A respiração](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/billy-collins-a-respiracao-poema/): A respiração, um poema de Billy Collins Assim como nos filmes de terror, quando alguém descobre que as ligações telefônicas estão vindo de dentro da casa, eu também percebi que nossa tenra sobreposição vem ocorrendo apenas dentro de mim.
- [Carlos Drummond de Andrade - Palavras no Mar](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar-2/): Republicação: “Palavras ao mar”, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Homenagem a Ricardo Reis](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-homenagem-a-ricardo-reis-2/): Republicação: “Homenagem a Ricardo Reis”, um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
- [Jorge de Lima - A Divisão de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/jorge-de-lima-a-divisao-de-cristo-2/): Republicação: “A divisão de Cristo”, um poema de Jorge de Lima
- [Arnaldo Antunes - Saudades](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/arnaldo-antunes-saudades-2/): Republicação: “Saudades”, um poema de Arnaldo Antunes
- [Vinicius de Moraes - Ternura](https://singularidadepoetica.art/2020/08/14/vinicius-de-moraes-ternura-poema/): Ternura - um poema de Vinicius de Moraes
- [Javier Salvago - Retrato](https://singularidadepoetica.art/2020/08/13/javier-salvago-retrato/): Retrato, um poema de Javier Salvago
- [Carlos Drummond de Andrade - Mãos dadas](https://singularidadepoetica.art/2020/08/12/carlos-drummond-de-andrade-maos-dadas/): Mãos Dadas, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Eugénio de Andrade - Não é verdade](https://singularidadepoetica.art/2020/08/11/eugenio-de-andrade-nao-e-verdade/): Cai, como antigamente, das estrelas um frio que se espalha na cidade. Não é noite nem dia, é o tempo ardente da memória das coisas sem idade. O que sonhei cabe nas tuas mãos gastas a tecer melancolia: um país crescendo em liberdade, entre medas de trigo e de alegria. Porém a morte passeia nos […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2020/08/10/cassiano-ricardo-a-graca-triste-2/): A graça triste, um poema de Cassiano Ricardo
- [Miguel Torga - Rogo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/09/miguel-torga-rogo/): Não, não rezes por mim. Nenhum deus me perdoa a humanidade. Vim sem vontade E vou desesperado. Mas assinei a vida que vivi. Doeu-me o que sofri. Fui sempre o senhorio do meu fado. Por isso, quero a morte que mereço. A morte natural, Solitária e maldita De quem não acredita Em nenhuma oração De […]
- [Konstantinos Kaváfis - Um velho](https://singularidadepoetica.art/2020/08/07/konstantinos-kavafis-um-velho/): No meio do café ruidoso, sem ninguém, por companhia, está sentado um velho. Tem à frente um jornal e se inclina sobre a mesa. Imerso na velhice aviltada e sombria, pensa quão pouco desfrutou as alegrias dos anos de vigor, eloqüência, beleza. Sabe que envelheceu bastante. Vê, conhece. No entanto, o seu tempo de moço […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do mar](https://singularidadepoetica.art/2020/08/05/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar-2/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja […]
- [Susan Mitchell - Os mortos](https://singularidadepoetica.art/2020/08/03/susan-mitchell-os-mortos/): À noite, os mortos descem até o rio para beber.Livram-se dos medos e de suas preocupaçõespor nós. Tiram dos bolsos as velhas fotografias.Alisam as linhas de nossas mãos e leem nosso futuro,rachado e amarelado.Alguns mortos encontram o caminho até nossas casas.Sobem aos sótãos.Leem as cartas que nos enviaram, insaciáveispor vestígios de seu amor.Contam histórias uns […]
- [Eduardo Affonso - Labereda temporã](https://singularidadepoetica.art/2020/08/02/eduardo-affonso-labereda-tempora/): É possível voltar a se apaixonar com meio século de vida? Acreditar em amor eterno depois de amores eternos terem durado tão pouco? Em amor sem traição depois de ter traído tanto? E por que querer de novo a ansiedade diante do telefone que não toca, da carta que não chega, da campainha que não […]
- [Dana Gioia - Obrigado por se lembrar de nós](https://singularidadepoetica.art/2020/08/01/dana-gioia-obrigado-por-se-lembrar-de-nos/): As flores enviadas para cá por engano,assinadas com um nome que ninguém conhece,estão murchando. O que faremos?Nossa vizinha diz que não são para ela,e ninguém está perto de fazer aniversário.Deveríamos agradecer a alguém pelo equívoco.Será que um de nós está tendo um caso?A princípio rimos, depois nos perguntamos. A íris foi a primeira a morrer,envolta […]
- [Gonçalo M. Tavares - Do "Diário da Peste", 27/04/2020](https://singularidadepoetica.art/2020/08/01/goncalo-m-tavares-de-diario-da-peste-27-04-2020/): Passados sete anos, duas semanas ou dois meses. Sairá à rua uma nova espécie humana. Cheia de vontade de construção; cheia de vontade de destruição. Humanos 2.0. Dois médicos beijam-se em Madrid com a máscara posta. Os amantes, quadro de René Magritte: uma mulher e um homem beijam-se com um pano na cabeça. A mãe […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Com vista para dentro](https://singularidadepoetica.art/2020/07/30/ernesto-perez-vallejo-com-vista-para-dentro/): Não sou o melhor homem que já conheceste,nem metade do bom que ainda te falta descobrir por aí,nem sequer tenho estudos, e minha voztreme diante de qualquer um que me olha nos olhos.Minha tristeza pesa mais aos domingos,mas na verdade é meu estado mais corriqueiro.Às vezes, tenho crises de ansiedade,às vezes, de raiva;tenho uns vinte […]
- [Jeffrey Harrison - Nossa outra irmã](https://singularidadepoetica.art/2020/07/28/jeffrey-harrison-nossa-outra-irma/): Nossa outra irmã para EllenA coisa mais cruel que fiz à minha irmã mais novanão foi disparar um dardo caseiro em seu joelho,onde ficou pendurado por um ofegante momentoantes de cair, mas sim contar que tínhamosoutra irmã, mais velha, que havia ido embora.Quais foram meus motivos não consigo lembrar: um capricho,ou talvez uma necessidade de […]
- [Robert Creeley – O fim](https://singularidadepoetica.art/2020/07/26/robert-creeley-o-fim/): Quando percebo o que as pessoas pensam de mim fico imerso em minha solidão. O cinza chapéu previamente adquirido enjoa. Não tenho mais nenhum propósito identificável. Uma sensação de estar sendo sufocado penetra em minha garganta. Trad.: Nelson Santander The End When I know what people think of me I am plunged into my loneliness. […]
- [David Mourão-Ferreira - Herança](https://singularidadepoetica.art/2020/07/24/david-mourao-ferreira-heranca/): Ouvir, ouvir de noite uma ambulância, E desejar que estejas a morrer; Fechar a porta à minha própria infância; Amigos, conhecidos, nem os ver; Quebrar nas mãos o aro da esperança; Mas de mim para mim depois dizer: “Calma! Quem nada espera tudo alcança…”; E guardar o revólver; e beber, A sós, o vinho que […]
- [Konstantinos Kaváfis - Vozes](https://singularidadepoetica.art/2020/07/22/konstantinos-kavafis-vozes/): Vozes queridas, vozes ideais daqueles que morreram ou daqueles que estão perdidos para nós, como se mortos. Eles nos falam em sonho, algumas vezes; outras vezes, em pensamento as escutamos. E, quando soam, por um instante eis que retornam os sons da poesia primeva em nossa vida, qual música distante que se perde noite afora. […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - O fotógrafo e a modelo](https://singularidadepoetica.art/2020/07/20/jorge-valdes-diaz-velez-o-fotografo-e-a-modelo/): O tempo que foi sempre teu inimigo se deteve em tua imagem. Já és aquela garota do calendário, a princesa sem fábulas, o anjo que consigo pendurar em qualquer nuvem. De ouro e trigo a luz encaracolada em tua cabeça, a areia que acaba onde começa a linha de teu sexo. Estás comigo e não […]
- [Adriano Nunes - Cantar é preciso](https://singularidadepoetica.art/2020/07/18/adriano-nunes-cantar-e-preciso/): para Antonio Cicero Cantar é preciso, Ainda que seja O vazio, o nada, A tristeza, a perda, O que quer que até Alcance a cabeça. Cantar e cantar, Mesmo que depois O existir se perca Na eterna estranheza Da cantiga, para Que o agora exerça A sua potência De luz, porque já Pouquíssimo importa Senão […]
- [Doug Dorph - Planeta esquecido](https://singularidadepoetica.art/2020/07/16/doug-dorph-planeta-esquecido/): Peço à minha filha que diga os nomes dos planetas.“Vênus… Marte… e Plunis!”, ela responde.Quando eu tinha seis ou sete anos, meu paime acordou no meio da noite.Descemos até o playground e deitamosde costas no concreto, olhando para cimaà espera das estrelas cadentes que a TV prometera. Não me lembro de nenhuma estrela cadente. Lembrode […]
- [Juan Vicente Piqueras - Lázaro se recusa a ressuscitar](https://singularidadepoetica.art/2020/07/14/juan-vicente-piqueras-lazaro-se-recusa-a-ressuscitar-i/): Um dia ouvi vozes que vinham de fora.Finalmente!, vozes de fora, pensei – vozes de outrosque levam a luz dentro de si e a revelam,que vem até mim do ar, e não de mim. Vozes que ao se aproximarem, viraram sussurros.Passos que pararam diante da minha porta.Alguém disse: Aqui jaz, como se lesse.Os demais ficaram […]
- [Joan Margarit - Último trem](https://singularidadepoetica.art/2020/07/12/joan-margarit-ultimo-trem/): Último tremCrematório de Collserola Se visses a chuva que envernizao verde escuro e espesso do jardim.Teu vagão solitário está chegandoà sala espaçosa, sem adornos,mobiliário, ou luminárias,da Estación de Francia da morte.Só se escuta o murmúrio do motorque arrasta o pesoda infância e da juventude– de teu anônimo tempo, já perdido,que nunca mais será reclamado –,rumo […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Vers de circonstance"](https://singularidadepoetica.art/2020/07/10/paulo-henriques-britto-vers-de-circonstance/): I. Imunidade de Rebanho A estupidez é sua própria recompensa. Graças a ela, o mundo faz sentido, um só, que é fácil de identificar. E só o fácil satisfaz a quem não pensa. Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância é o sumo bem dos cidadãos de bem, é a verdadeira marca dos eleitos. Ter sucesso […]
- [Wendell Berry - De "Sabbaths" (2001)](https://singularidadepoetica.art/2020/07/08/wendell-berry-de-sabbaths-2001/): […] III Peça ao mundo que revele sua quietude —não o silêncio das máquinas quando cessam,mas a verdadeira quietude onde os cantos das aves,as árvores, os sinos-das-sombras, os caracóis, as nuvens, as tempestadesse tornam o que são – e nada além disso. […] V O vento do outono chegou.Está por toda parte. Movecada folha de […]
- [Eamon Grennan - Uma manhã](https://singularidadepoetica.art/2020/07/06/eamon-grennan-uma-manha/): Procurando pedras raras, dei com a lontra mortaapodrecendo na linha da maré, e carreguei pelo resto do dia o odor desta brutaldespedida. Aquele som lancinante e agudo do ostraceiroecoava pela enseada rochosaonde um cormorão se alimentava e submergia na baíae de onde uma garça-real alçou voo de um rochedo onde estivera invisível,pairou um tempo, e […]
- [David Mourão-Ferreira - Soneto do cativo](https://singularidadepoetica.art/2020/07/04/david-mourao-ferreira-soneto-do-cativo/): Se é sem dúvida Amor esta explosão De tantas sensações contraditórias; A sórdida mistura das memórias, Tão longe da verdade e da invenção; O espelho deformante; a profusão De frases insensatas, incensórias; A cúmplice partilha nas histórias Do que os outros dirão ou não dirão; Se é sem dúvida Amor a cobardia De buscar nos […]
- [William Butler Yeats - Leda e o cisne](https://singularidadepoetica.art/2020/07/02/william-butler-yeats-leda-e-o-cisne/): Súbito, um baque: as grandes asas brancas Pousam sobre a jovem, e a agarram com jeito, As patas negras lhe afagam as ancas E a estreitam, impotente, contra o peito. Com dedos trêmulos, como afastar Das coxas fracas o esplendor plumado? E como não sentir a palpitar O estranho coração, desabalado? Um espasmo ― e […]
- [Ted Kooser - Depois de anos](https://singularidadepoetica.art/2020/06/30/ted-kooser-depois-de-anos/): Hoje, de longe, eu a vi se afastando, e, sem nenhum som, a fronte brilhante de um glaciar deslizou para o mar. Um antigo carvalho tombou na Cumberlands, mantendo apenas um punhado de folhas, e uma idosa espalhando milho para suas galinhas olhou para cima por um instante. No outro lado da galáxia, uma estrela […]
- [Dorianne Laux - Interstício](https://singularidadepoetica.art/2020/06/19/dorianne-laux-intersticio/): Nós montamos o quebra-cabeça peça por peça, apreciando como um entalhe curvo se insere tão suavemente no outro. Uma mancha amarela se transforma na palha de uma vassoura, e duas peças azuis completam o último pedaço do céu. Juntos, remendamos as cadeiras de balanço e as árvores do outono, combinando ouro com ouro. Temos nas […]
- [Fernando Pessoa - [Tenho tanto sentimento]](https://singularidadepoetica.art/2020/06/18/fernando-pessoa-tenho-tanto-sentimento/): Tenho tanto sentimento Que é frequente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a […]
- [Marie Howe - Quantas vezes](https://singularidadepoetica.art/2020/06/17/marie-howe-quantas-vezes/): Não importa quantas vezes eu tente, não consigo impedir meu pai de entrar no quarto da minha irmã e não consigo ver melhor, inclinando-me daqui para olhar em seus olhos. Está escuro no corredor e todos estão dormindo. Este é o passado onde tudo já está perfeito e nada muda, onde o copo de água […]
- [Kevin Hart - Noites](https://singularidadepoetica.art/2020/06/16/kevin-hart-noites/): Não há nada que eu realmente queira: As estrelas hoje à noite são profusas e frias Acima da minha casa que vagamente paira em uma via logo perdida nas trevas. Meu prato raso está todo lascado (o que indica que mudei bastante); Meu copo está rachado de um lado (isso mostra que há um rumo […]
- [Steve Kowit - Algumas nuvens](https://singularidadepoetica.art/2020/06/15/steve-kowit-algumas-nuvens/): Agora que desliguei o telefone, ninguém poderá me encontrar – Ao menos por esta tarde eles terão que passar sem meus conselhos e opiniões. Agora ninguém mais vai ligar & perguntar com uma voz vacilante se eu ainda não ouvi que ela está morta, a mulher que eu amei uma vez – nada além de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Wuang Shi, pirata aposentado, fala em sua festa de aniversário no hospital de Ching Pei para seus amigos e convidados imaginários](https://singularidadepoetica.art/2020/06/14/juan-vicente-piqueras-wuang-shi-pirata-aposentado-fala-em-sua-festa-de-aniversario-no-hospital-de-ching-pei-para-seus-amigos-e-convidados-imaginarios/): Wuang Shi, pirata aposentado, fala em sua festa de aniversário no hospital de Ching Pei para seus amigos e convidados imaginários para Rafa Rodríguez Perdeu-se a honra. Como se fosse o tempo, a vida, o rumo ou a paciência perdeu-se a honra. E aqui estamos. Todos sabeis quem sou e não direi meu nome nem […]
- [Connie Wanek - Depois de nós](https://singularidadepoetica.art/2020/06/13/connie-wanek-depois-de-nos/): Depois de nós Não sei se estamos no início ou na fase final. Tomas Tranströmer A chuva está caindo através do telhado. E tudo o que prosperou debaixo do sol, os livros que se abriram de manhã e se fecharam à noite, e o dia inteiro viraram suas páginas para a luz; os esboços de […]
- [Jane Kenyon - A tigela azul](https://singularidadepoetica.art/2020/06/12/jane-kenyon-a-tigela-azul/): Como primitivos, enterramos o gato com seu prato. Com as mãos nuas raspamos areia e cascalho de volta para o buraco. Caíram com um silvo e um baque ao lado dele, em seu longo pelo vermelho, o branco pelame entre seus dedos, e seu longo, para não dizer aquilino, nariz. Nós nos levantamos e nos […]
- [Forrest Hamer - Lição](https://singularidadepoetica.art/2020/06/11/forrest-hamer-licao/): Foi no verão de 63 ou 64, e meu pai estava transportando nossa família de Ft. Hood para a Carolina do Norte em nosso Buick 56. Tínhamos ouvido falar dos ataques da Klan, e sabíamos que no Mississippi estava mais perigoso do que o habitual. A escuridão pendurava-se às arvores como musgo, e sempre que […]
- [Brian Turner - Quão brilhante é abril](https://singularidadepoetica.art/2020/06/10/brian-turner-quao-brilhante-e-abril/): E o ar, seco,Como as espáduas de um búfalo-d’água. Gafanhotos arranham a terra,roçam as asas com pernas finas,irrompendo à frente dos soldadosem voos rasantes em arco, as asas um borrão. Os soldados já não percebem,veem apenas os escombros das ruas,corpos cobertos por lençóis, e o sol,quão brilhante é, quão duro e plano e branco. Serão […]
- [David Ignatow - Para a minha filha](https://singularidadepoetica.art/2020/06/09/david-ignatow-para-a-minha-filha/): Quando eu morrer, escolhe uma estrelae dá-lhe o meu nomepara que saibas quenão te abandoneinem te esqueci.Foste para mim uma estrela,guiando-me pelo teu nascimentoe infância, minha mãona tua mão. Quando eu morrer,escolhe uma estrela e dá-lheo meu nome para que eu possa brilharsobre ti, até que te juntes a mimna escuridão e no silênciojuntos. Trad.: […]
- [Robinson Jeffers - Falcão ferido](https://singularidadepoetica.art/2020/06/08/robinson-jeffers-falcao-ferido/): Falcão Ferido I O pilar quebrado da asa se projeta da espádua coagulada,A asa arrasta-se como um estandarte no fracasso,Não mais para usar o céu, apenas para viver com fomeE dor por uns poucos dias: nem gato nem coioteAbreviarão a semana de espera pela morte: há caça sem garras.Ele permanece sob o carvalho e esperaOs […]
- [Joan Margarit - Pilhagem](https://singularidadepoetica.art/2021/11/20/joan-margarit-pilhagem-poema/): Hoje és outra.A morte, como um vento do deserto,sopra e abandona teu rostoressecado pela morfina.Passa uma andorinha com seu rápido vooe reluz ao cruzar a luz laranjada janela aberta de teu quarto.Talvez com teu voo também cheguesao claro terraço onde tua voz risonhaprateava o crepúsculo. Foste-te e só restaum corpo que uma pilhagem devastoue que […]
- [Joan Margarit - Mãe e filha](https://singularidadepoetica.art/2021/11/19/joan-margarit-mae-e-filha-poema/): Hoje tuas mãos são todo o passado dela:há trinta anos de amor no fundo de tuas palmas.Velaste-a durante toda a noite:deitas-te na cama ao lado dela,teu peito quente contra suas costas,seus cansados cabelos em teu rosto.Tu a abraças murmurando em seu ouvidoe, enquanto isso, a acaricias.São as últimas noites, e sentes o calorde seu esgotado […]
- [Joan Margarit - Água](https://singularidadepoetica.art/2021/11/18/joan-margarit-agua-poema/): Poderíamos falar da água ou da menina,porque a água e a menina permanecemjuntas na minha memória.A menina é a água, é a liberdadede um dorso que tem,sob a pele, a rigidez de um tirante.A ternura da água salvou suas pernas débeis:vejo novamente o azul das piscinasna temperatura de sua alma,tão distantes agora nos invernosque se […]
- [Joan Margarit - História natural](https://singularidadepoetica.art/2021/11/17/joan-margarit-historia-natural-poema/): Meu trato com a morte.Ouço-a colidir como uma moscana luz da vidraça, e posso vê-laascender ao céu vespertinoem seu sereno anil. Encontro como médico durante a protocolarvisita noturna.Não quero falar e concordo com tudo o que ele diz.Somos parte do fundo escurode uma pintura em que surgea janela iluminada deste quartoonde nossa Joana está chegando […]
- [Joan Margarit - Oceano Atlântico, 1956](https://singularidadepoetica.art/2021/11/16/joan-margarit-oceano-atlantico-1956-poema/): Preferia o mercante, sua solidão. Estavaenvolto em silêncio. Pareciaque navegava sem tripulação,e que o mar era um navio,maior ainda, de mármore, que o balançava.Era maravilhoso subir ao convés,entre caixas de bananas: o peso delasafundava o navio até a linha d’águaem meio às ondas como montanhas.O navio, às vezes, adernava:parecia atender a alguma voz do mar.Havia […]
- [Joan Margarit - A felicidade](https://singularidadepoetica.art/2021/11/15/joan-margarit-a-felicidade-poema/): O vento do norte varre o mar,prata plana perto da praiae agitada junto ao horizonte:é como se, com seu pincel, o ventopintasse um quadro da costa: o mar,o porto e aquela barraca solitáriaque abre todo inverno.As gaivotas planam e suas asasindiferentes e confiantesse adaptam às rajadas de ventocomo foices imóveis.Mas a noite tudo apagou:os postes […]
- [Joan Margarit - Sant Just, 2 de março de 2001](https://singularidadepoetica.art/2021/11/14/joan-margarit-sant-just-2-de-marco-de-2001-poema/): Suavemente, as rodas da cadeirate levam para casa. As nuvens violáceasacumulam-se atrás dos telhados.Todas te dizem coisas: tu, tímida, respondessorrindo, mas às vezescom um vazio dentro dos olhosque reflete a luz da tempestade. E a chuva começa a falar contigocomo uma mãe perigosa e acolhedora,pedindo de longe que regresses.Buscas — molhada, absorta — no umbralos […]
- [Joan Margarit - Pai e filha](https://singularidadepoetica.art/2021/11/13/joan-margarit-pai-e-filha-poema/): Diante das janelas que se abrem para o pátioele adormeceu na poltrona,ao lado do sofá onde ela descansava.O jovem rostoque a morfina havia endurecido,tinha aos poucos deixado seu sorrisono ontem que guardam os retratos.À noite, ele a carregou para o quarto,colocou-a para dormir e fechou as persianas. E se deu conta, diante do sofá vazio,de […]
- [Joan Margarit - Metrô Fontana](https://singularidadepoetica.art/2021/11/12/joan-margarit-metro-fontana-poema/): Começava a noite nas estreitasruas de Gràcia, todas com as luzesde natal mesclando-se à multidão.Dos bares repletos nos chegavamas vozes altas e alegres dos rapazes e das moças.Cercavam-nos sorridentes os casacos,os faróis e flashes de luz do comércio,os casais fugazes em suas motoscom os rostos ocultos pelo capacete.Via Joana por toda parte:surgia por toda parte […]
- [Joan Margarit - Manhã de domingo com a música de Lluís Claret](https://singularidadepoetica.art/2021/11/11/joan-margarit-manha-de-domingo-com-a-musica-de-lluis-claret-poema/): Na hospitalidade do sol de invernode domingos passados,estávamos muito tristes com o que desconhecias.Já os aplausos — como gostavas,tão séria, dos aplausos — cediamà peça solene de Berlioz.A viola — nunca o saberás — já eraa voz acolhedora da Morte. Lluís subiu ao palco comseu violoncelo. Não tarda o ouviremostocar a «Aria pastoral» de Bachpara […]
- [Joan Margarit - Às quatro da madrugada](https://singularidadepoetica.art/2021/11/10/joan-margarit-as-quatro-da-madrugada/): Uiva o primeiro cão, e imediatamentehá um eco em um pátio, outros ressoamao mesmo tempo em um único latido,acerbo, sem ritmo nenhum.Ladram com seus focinhos levantados.Oh, cães, de onde viestes?Que manhã me evoca vossa noturna queixa?Ouço como acossais o sonho de minha filhade vosso catre, em meio aos excrementoscom os quais demarcastes um territóriode becos, […]
- [Joan Margarit - Luzes de natal em Sant Just](https://singularidadepoetica.art/2021/11/09/joan-margarit-luzes-de-natal-em-sant-just-poema/): ILâmpadas tremeluzentes se iluminamcomo as lágrimas de alguém nas ruas.Encontro nosso pátio cinza e friosob este céu lilás do crepúsculoonde se desenham, negro e fino estampado,à contraluz, as folhas do loureiro.E tua mãe me diz:Tu e eu, algumas vezes, perdemos tudo.Tremeluzentes, as luzes nas ruas:todas se apagaram, de repente, por ti. IIHoje todas as cores […]
- [Joan Margarit - Amanhecer em Cádiz](https://singularidadepoetica.art/2021/11/08/joan-margarit-amanhecer-em-cadiz-poema/): Em frente ao hotel, o mar enevoado.As longas linhas da espuma cinzadesenham uma barreira de recifediante da balaustrada da praia.Ouvi teu nome pronunciado na línguado mar. E ele diz que estás partindo. Repetem-no as negras, solitárias cegonhasque em silêncio planam sobre a água.Nunca saberei o que sabes tu de mim,ou em que verdade estivemos juntos,ou […]
- [Joan Margarit - Riera Pahissa](https://singularidadepoetica.art/2021/11/07/joan-margarit-riera-pahissa-poema/): RIERA PAHISSA […] why abandon a belief merely because it ceases to be true?ROBERT FROST Deixava-te na entrada da escola,em frente ao estreito portão daquele muro que, encerrando a horta de um convento,seguia o leito seco de um riacho.Por uma pequena ponte de ferro com tábuascruzava-se a ravina sobre o brilhode algumas poucas poças como […]
- [Joan Margarit - Não há milagres](https://singularidadepoetica.art/2021/11/06/joan-margarit-nao-ha-milagres-poema/): Chovia preguiçosamente.Dezenove de outubro, nove da noite.Joana foi assustada para a sala de cirurgiaem nossa companhia.Quando entrou, ficamos esperandona sala mal iluminada ao lado dos elevadores.Contam que, em uma tentativade se salvar, ela disse um eu te amo ao cirurgião.Acreditávamos que uma fada poderia nos devolverJoana, calma, como sempre,com seus confiantes olhos cintilantes.Às onze, observamosas […]
- [Joan Margarit - Enquanto tu dormes](https://singularidadepoetica.art/2021/11/05/joan-margarit-enquanto-tu-dormes-poema/): Na praça tomada pela chuvaobservo a alta janela iluminadaque não quero perder: não hei de render-meà condenação da vida.Este lugar não mais pertence à cidade:uma praça vazia com a luzdo hospital refletindo nas poças.As portas automáticasse abrem de vez em quando e dão lugara uma obscura figura corriqueira.Muletas cruzam, invisíveis, a ruae se aproximam de […]
- [Pere Rovira - Oração para J. M. R.](https://singularidadepoetica.art/2021/11/04/pere-rovira-oracao-para-j-m-r-poema/): Música do amor, que te escondesem lugares escuros, doces, como rosas do jazz,ilumina o dia azul, espalha-te sob os pinheirose faz brilhar as flores, as paredes e a terra.Sê aquela água secreta que esperávamos,e, por um momento, devolve-nosa eterna criança que hoje abandonamosem poços invisíveis.Um pouco de um instante, para que nos ajudea não chorar […]
- [Joan Margarit - Joana (Prólogo)](https://singularidadepoetica.art/2021/11/03/joan-margarit-joana-prologo/): PRÓLOGO Do que sinto sobre o amanhã, o que mais se parece com uma certeza é que Joana e eu nunca mais voltaremos a nos ver. Quão diferente seria a vida se a morte fosse esperar muitos milhões de anos para podermos nos encontrar novamente, ainda que só por alguns breves instantes. Mas o abismo […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "Joana", de Joan Margarit](https://singularidadepoetica.art/2021/11/02/apresentacao-de-joana-de-joan-margarit-poema/): Em 16 de fevereiro deste ano, falecia, aos 82 anos de idade, vítima de um câncer, Juan Margarit I Consarnau, o grande poeta, arquiteto e catedrático catalão (foi professor da disciplina Cálculos Estruturais da Escola Superior de Arquitetura de Barcelona, de 1964 até sua aposentadoria, em 1998), vencedor do Prêmio Miguel de Cervantes (2019), dentre […]
- [Charles Simic - Igreja de madeira](https://singularidadepoetica.art/2021/10/30/charles-simic-igreja-de-madeira-poema/): É só uma choupana fechada com uma torreSob o céu de um verão escaldanteEm uma estrada secundária percorrida raramenteOnde as sombras de árvores grandesRoçam-se tranquilamente como forcas enfileiradas,E corvos privados de carniçaGrasnam uns com os outros sobre dias melhores. A congregação talvez ainda esteja em oração.Das fotos salpicadas, famílias de fazendeiros Enfileiradas com suas cabeças […]
- [Ada Limón – Mar aberto](https://singularidadepoetica.art/2021/10/26/ada-limon-mar-aberto-poema/): “Mar aberto”, um poema de Ada Limon que transforma uma lembrança de despedida em uma meditação delicada sobre perda, identidade e permanência.
- [Maggie Smith - Boa Base](https://singularidadepoetica.art/2021/10/24/maggie-smith-boa-estrutura-poema/): A vida é curta, embora eu esconda isso de meus filhos.A vida é curta, e eu encurtei a minhade mil maneiras deliciosas e imprudentes,mil maneiras deliciosamente imprudentesque esconderei dos meus filhos. O mundo é, no mínimo,cinquenta por cento terrível, e essa é uma estimativaconservadora, embora eu esconda isso de meus filhos.Para cada pássaro, há uma […]
- [Stephen Dobyns - Percepções](https://singularidadepoetica.art/2021/10/22/stephen-dobyns-percepcoes-poema/): O terrível desequilíbrio que ocorre com a idadequando você de repente vê que, de suas amizades, mais morreram do que restaram vivos. E que ocasionalmentesuas lembranças são tão reais que a morte mais recente pode-se tornar uma segunda morte menor. Todasaquelas conversas no meio de uma frase cessadas. Todos aqueles planos atirados na lixeira. O […]
- [Richard Brautigan – Buu, para sempre](https://singularidadepoetica.art/2021/10/20/richard-brautigan-buu-para-sempre-poema/): Girando como um fantasmana base de um pião,sou assombrado por todoespaço em quevou viver sem você. Trad.: Nelson Santander Boo, Forever Spinning like a ghoston the bottom of a top,I’m haunted by allthe space that Iwill live without you.
- [Daniel Jonas - Ossétia](https://singularidadepoetica.art/2021/10/18/daniel-jonas-ossetia-poema/): Ou como uma foto de Karpukhina Madonna ampara com o braço umdos lados do triânguloe deixa um derradeiro beijo escorrer por eleaté à cabeça mortado seu menino no catre. Uma cena difícil: a contençãodas sombras, do chiaroscuro,o profundo luto quando a lutacedeu a sua luz. De preto elaemoldurando a palidez do seu querido,o crânio envolto […]
- [W. S. Merwin – Juventude](https://singularidadepoetica.art/2021/10/16/w-s-merwin-juventude-poema/): Durante toda a juventude estive procurando por vocêsem saber o que eu procurava ou de como chama-la acho que eu nem mesmo sabia o que estava procurando como poderia reconhece-la quando a visse como fizvezes sem conta quando você apareceu para mim como apareceu nua oferecendo-seinteiramente naquele momento e deixou- me respira-la toca-la prova-la sabendonão […]
- [Jane Kenyon - A pera](https://singularidadepoetica.art/2021/10/14/jane-kenyon-a-pera-poema/): Há um momento na meia idadeem que você fica entediado, irritadopor sua mente medíocre, assustado. Neste dia, o solarde forte e brilhante,deixando-o mais desolado. Acontece sutilmente, como quando uma peraapodrece de dentro para fora,e você talvez não percebaaté que as coisas tenham ido longe demais. Trad.: Nelson Santander The Pear There is a moment in […]
- [Eavan Boland - E alma](https://singularidadepoetica.art/2021/10/12/eavan-boland-e-alma-poema/): Minha mãe morreu em um verão —o mais úmido nos registros do Estado.Safras apodreciam no oeste.Toalhas de mesa xadrez dissolviam-se nos jardins.Cadeiras de praia vazias recolhiam a chuva.Enquanto eu me dirigia até elano trânsito, por entre lilases que gotejavam sombriamenteatrás das casase nas calçadas, para prestar-lhea última homenagem de uma filha, pensei em algoque lembrei […]
- [Francisco Brines - Últimos dias](https://singularidadepoetica.art/2021/10/10/francisco-brines-ultimos-dias-poema/): Na herdade ele confina a memóriae o corpo que declina. Tudo morresobre este mundo vivo; e a laranjeira,e o voo do pombo, são traspassadospor um raio outonal de azul.Acompanham-lhe os livros; as caminhadastrazem até ele o odor de rosas abertas,e o suave abatimento dos dias.Ele ardeu na solidão, e agora escutaa primavera viva dos melros.Dias […]
- [Suzannah Evans - Um plano de contingência](https://singularidadepoetica.art/2021/10/08/suzannah-evans-um-plano-de-contingencia-poema/): E se estivermos separados quando chegar o asteroideou a tempestade magnética que colapsará a energia? Talvez você esteja então esperando por um trem enquanto a luz do solse extingue, bem acima dos painéis de vidro do telhado. Eu estarei no trabalho. Perderemos nossas linhas telefônicase o sistema da porta de entrada ficará maluco. Comerei da […]
- [Donald Hall - Afirmação](https://singularidadepoetica.art/2021/10/06/donald-hall-afirmacao-poema/): Envelhecer é perder tudo.Velhice, todos a conhecemos.Mesmo quando somos jovens,às vezes a vislumbramos, e acenamos-lhe com a cabeçaquando perdemos um avô.Depois remamos durante anos na lagoados verões plenos, ignorantes e satisfeitos. Mas um casamento,que começou sem causar danos, se dispersaem destroços na praiae um amigo da escola caiduro em uma costa rochosa.Se um novo amor […]
- [Camille Dungy – Deixe-me](https://singularidadepoetica.art/2021/10/04/camille-dungy-deixe-me-poema/): Deixe-me dizer-lhe, América, esta última coisa.Eu nunca vou deixar de sonhar o seu sonho.Eu tive um amante uma vez. Se é que podemos chama-lo assim.Dirigi-me até o apartamento dele em uma cidade distante,como aquela ursa perdida que vagueou até o nosso becono verão em que a fumaça das montanhas em chamasalterou nosso ar. Não sei […]
- [Mary Oliver - O martim-pescador](https://singularidadepoetica.art/2021/10/02/mary-oliver-o-martim-pescador-poema/): O martim-pescador surge da onda negracomo uma flor azul, em seu bicoele carrega uma folha prateada. Acredito ser esteo mundo mais bonito – desde que você não se importede morrer um pouco, como pode, em toda vida, haver um diaque não tenha sua gota de felicidade?Há mais peixes do que folhasem mil árvores, e, de […]
- [Luis Dolhnikoff – Samba](https://singularidadepoetica.art/2021/09/30/luis-dolhnikoff-samba-poema/)
- [Juan Vicente Piqueras - Palmeiras](https://singularidadepoetica.art/2021/09/28/juan-vicente-piqueras-palmeiras-poema/): Nascemos da sede. Somos palmeirasque crescem à força de perderseus ramos. Nossos troncos são feridas,cicatrizes que o vento e a luz dissipam,quando o tempo, o que faz e o que passa,ocupa o coração e dele faz um ninhode perdas, erigenele seu templo, sua áspera coluna. Por isso as palmeiras são alegrescomo os que sabem sofrer […]
- [Mark Wunderlich - O Deus do Nada](https://singularidadepoetica.art/2021/09/26/mark-wunderlich-o-deus-do-nada-poema/): Meu pai caiu do barco.Seu equilíbrio já era precário há algum tempo.Ele havia saído de barco com seu cachorro paracaçar patos em um pântano perto de Trempealeau, Wisconsin. Ninguém mais estava por pertosalvo o fazendeiro que raspava as calhas do curral das vacas,surdo de um dos ouvidos pelos anos em máquinas —e ele estava a […]
- [Ellen Bass - O importante é](https://singularidadepoetica.art/2021/09/24/ellen-bass-o-importante-e-poema/): O importante é amar a vida, ama-la mesmoquando você não tem estômago para issoe tudo o que você guardou afetuosamentese desfaz feito papel queimado em suas mãos,sua garganta repleta desse lodo.Quando a dor se senta ao seu lado, seu calor tropicalcondensando o ar, pesado como água, mais apto para guelras do que para pulmões;quando a […]
- [Abû Al‑Qâsim Ash‑Shâbbî - o coração do poeta](https://singularidadepoetica.art/2021/09/22/abu-alqasim-ashshabbi-o-coracao-do-poeta-poema/): tudo o que voa, trepa, se alça e plana sobre o Universoaves, flores, perfumes, fontes, ramos dobrados,mares, grutas, cumes, lugares habitados, vulcões, desertossombra e luz, noite e estações, nuvens, trovões,neve e bruma passageira, furacões, chuvas generosas,religião e ensinamentos, visões, sensações, silêncio e canto,tudo isso vive e mexe em meu coração: uma liberdadeirmã da sutil magia […]
- [Barbara Crooker - Vida comum](https://singularidadepoetica.art/2021/09/20/barbara-crooker-vida-comum/): Este foi um dia em que nada aconteceu,as crianças foram para a escolasem esquecer de seus livros, lanches, luvas.Por toda a manhã, o bebê e eu amontoamos pilhas de blocosno chão de ladrilhos iluminados.E ao almoço seguiu-se a hora da sesta,limpei os armários da cozinha,uma dessas tarefas que nunca realizamos,e me sentei em um círculo […]
- [Joan Margarit – Faróis na noite](https://singularidadepoetica.art/2021/09/18/joan-margarit-farois-na-noite/): Tento seduzir-te no passado.As mãos ao volante e esta luzde boate no painel me permitem– fantasia invernal – dançar contigo.Atrás de mim, como um grande caminhão,o amanhã fabrica explosões de luzes.Ninguém o conduz e ele me ultrapassa,mas agora tu e eu viajamos juntose a carruagem pode ser a dos cavalosdos anos sessenta para Paris.“Je ne […]
- [Czesław Miłosz – Elegia para N. N.](https://singularidadepoetica.art/2021/09/16/czeslaw-milosz-elegia-para-n-n-poema/): Diga-me se é muito longe para você.Você poderia vir sobre as ondas mansas do Bálticopassando pelos campos da Dinamarca, atravessando um bosque de faias,poderia se voltar para o oceano, e de lá, logo estaria emLabrador, branca nesta época do ano.E se você, que sonhava com uma ilha deserta,tivesse medo das cidades e das luzes piscando […]
- [David Ignatow - Para minha filha, em resposta a uma pergunta](https://singularidadepoetica.art/2021/09/14/david-ignatow-para-minha-filha-em-resposta-a-uma-pergunta-poema/): Não, não vamos morrer,vamos encontrar uma saída.Respiraremos profundamentee comeremos com cuidado.Pensaremos sempre na vida.Não nos desvaneceremos, nem eu nem você.Seremos os primeirose não riremos de nós mesmos jamaise seus filhos serão meus netos.Nada terá mudado,exceto por acréscimo.Nunca haverá outra como vocêe nunca outro como eu.Ninguém jamais a confundiránem me confundirá com outro.Nós não seremos esquecidos […]
- [Robinson Jeffers – Carmel Point](https://singularidadepoetica.art/2021/09/12/robinson-jeffers-carmel-point-poema/): A extraordinária paciência das coisas!Este belo lugar desfigurado por uma safra de casas suburbanas —Quão belo quando o vimos pela primeira vez,Um campo intacto de papoulas e tremoceiros cercado por límpidas falésias;Nenhuma intrusão, salvo dois ou três cavalos pastando,Ou algumas vacas leiteiras esfregando seus flancos nos afloramentos rochosos —Então chega o espoliador: elas se importam?Francamente, […]
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – Bessboro](https://singularidadepoetica.art/2021/09/10/eilean-ni-chuilleanain-bessboro-poema/): Eis o que herdei —Nunca foi minha própria vida,Mas o nome de uma casa que ouviE outros ouviram como advertênciaDo que poderia acontecer a uma garotaOusada e apanhada pela má-sorte:Um fragmento de um destinoDesolador, uma nota-marreta de medo — Mas eu nunca vi o lugar.Agora que estou em frente ao portãoE aquele tempo há muito […]
- [Miguel Martins - Para o meu pai](https://singularidadepoetica.art/2021/09/08/miguel-martins-para-o-meu-pai-poema/): Muito poucos foram os dias cuja acidez não tragaste do princípio ao fim,vinho branco retintado pela morte dos teus sonhos, um a um,e uma bola de fogo a crescer-te no estômago, uma inteireza brutal,virada do avesso, como se uma queda tão lenta, tão evidentementequeda, tão claramente desesperada do futuro, pudesse ser exemplopara quem nem sequer […]
- [Francisco Brines - Discurso pagão](https://singularidadepoetica.art/2021/09/06/francisco-brines-discurso-pagao-poema/): Achais, por acaso, que por crerdesna imortalidadeela vos deve ser dada?Ela é obra da fé, do egoísmoou da desolação.E, se existe, não importa não haverdes nela acreditado:respostas ignorantes são todas humanasse a morte interroga. Continuai com vossos faustosos ritos, oferendas aos deuses,ou grandes monumentos funerários,as acolhedoras preces, vossa esperança cega.Ou aceitai o vazio que virá,onde […]
- [Jane Hirshfield – Sopesagem](https://singularidadepoetica.art/2021/09/04/jane-hirshfield-sopesagem-poema/): As razões do coraçãovistas com clareza,inclusive as mais duras,carregarãosuas marcas de chicote e tristezase devem ser perdoadas. Como a elande famintapela seca que perdoao leão faminto pela secaque finalmente a arrebata,e entra em seguida de bom gradona vida que ela não pode recusar,e torna-se leão, está alimentada,e não se lembra da anterior. Tão poucos grãos […]
- [Marilyn Nelson – Mais rápido que a luz](https://singularidadepoetica.art/2021/09/02/marilyn-nelson-mais-rapido-que-a-luz/): Eu não queria pagar para estacionar meu carro,por isso peguei um táxi para a estação ferroviária.New London fica a uma hora de carro,mas aquela foi a melhor solução que pude encontrar.Depois de mais ou menos dez milhas de conversa fiadaem que acabei confessando meu ofício,o motorista disse que ele era um físico —Como hobby, ele […]
- [Régis Bonvicino - Suor](https://singularidadepoetica.art/2021/08/31/regis-bonvicino-suor/): O mar o mormaço o meio-diaum cão se delicianas ondas do marverde, a mata verde avançano rochedoo esqueleto de um peixena areia da praia a brisao que tenho a dizer?o que ela diz o rouco marulho das ondassime nada além de ser
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - A última vez de Casanova](https://singularidadepoetica.art/2021/08/29/jorge-valdes-diaz-velez-a-ultima-vez-de-casanova-poema/): Giacomo se envolve no crepúsculo do Florian Perguntas-me, Lesbia, quantos dos teus beijosseriam suficientes para me satisfazer.Catulo Enquanto beijo tua boca, docedonzela na conquista, mordoas comissuras de tua mãee os lábios que tuas irmãscedem ao peso do desejo;beijo as próximas mulheresdistantes e ainda desconhecidaspor minha cobiça, aquelasque um dia serão tu em outratu, que agora […]
- [Natalie Diaz – Meu irmão às 3 da manhã](https://singularidadepoetica.art/2021/08/27/natalie-diaz-meu-irmao-as-3-da-manha-poema/): Ele se sentou de pernas cruzadas, chorando nos degraus,quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente. Meu Deus, ele disse. Meu Deus. Ele quer me matar, mamãe. Quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente,às 3 da manhã, ela estava de camisola, e […]
- [Louise Glück - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2021/08/25/louise-gluck-aubade/): Hoje, acima do canto da gaivota,ouvi você me acordar novamentepara ver aquela ave, voandotão estranhamente sobre a cidade,não querendo parar, desejandoa desolação azul do mar — Agora ela contorna o subúrbio;contra si, a luz violenta do meio-dia: Eu sinto a fome delacomo sua mão dentro de mim, um gritotão comum, desafinado — O nosso não […]
- [Javier Salvago - Outra idade](https://singularidadepoetica.art/2021/08/23/javier-salvago-outra-idade-poema/): Já passou a idade de ser poetaporque tudo passa, é a lei da vida;embora eu continue, por dependência ou vício, falando a um pedaço de papel, a poesiajá não é mais minha pátria, nem meu território.Só regresso às vezes, de visita, como quem volta para onde foi feliz. Trad.: Nelson Santander Otra edad Se me […]
- [Dan Gerber – Frequentemente, imagino a terra](https://singularidadepoetica.art/2021/08/21/dan-gerber-frequentemente-poema/): Frequentemente, imagino a terracom o olhar dos átomos de que somos feitos —átomos, peculiaresátomos por toda parte —sem eu, sem você, sem opiniões,sem princípio, sem meio, sem fim,planando juntos como aquelesantigos pássaros chinesesnascidos milagrosamente com apenas uma asa,ajudando uns aos outros a voar para casa. Trad.: Nelson Santander Often I Imagine the Earth Often I […]
- [Dorianne Laux - Histórias de família](https://singularidadepoetica.art/2021/08/20/dorianne-laux-historias-de-familia/): Tive um namorado que me contava histórias sobre sua família,como a de certa vez em que uma discussão terminou quando seu paiagarrou um pedaço aceso de um bolo de aniversário com ambas as mãose o arremessou pela janela do segundo andar. Isso,eu pensava, era como uma família normal era: raivaenviada através do peitoril, aterrissando como […]
- [Sara Teasdale - Chuvas suaves chegarão](https://singularidadepoetica.art/2021/08/18/sara-teasdale-chegarao-chuvas-suaves-poema/): (Tempos de Guerra) Chuvas suaves chegarão e o cheiro de chão,E andorinhas revoando, seus rútilos sons; E sapos nos brejos cantarolando na noite,E ameixeiras silvestres em seu branco oscilante, Tordos trajarão incandescentes ornamentosTrinando seus caprichos em baixos tapamentos; E ninguém então saberá da guerra, ninguémSe importará quando ela terminar enfim. Ninguém se importaria, nem árvore […]
- [Linda Pastan - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2021/08/16/linda-pastan-elegia-poema/): Nosso último corniso se inclinasobre o solo da floresta oferecendo frutosaos pássaros, aos esquilos. É uma relíquiados dias em que os cornisos floresciam — renda natada em abril,leite derramado em maio — sua beleza delicadamas comum. Quando eu dava como certoque o mundo permaneceria como era, e eupermaneceria com ele. Trad.: Nelson Santander Mais do […]
- [Kirsten Dierking - Afortunada](https://singularidadepoetica.art/2021/08/14/kirsten-dierking-afortunada-poema/): Todo esse tempo,a vida que você deveria vivertem-se erguido ao seu redorcomo as paredes de uma casaprojetada com aconcheganteslinhas harmoniosas. Como se você realmente tivesseplanejado desta forma. Como se você tivesseempilhado tijolosao acaso,e criado por enganouma estrela da sorte. Trad.: Nelson Santander Lucky All this time,the life you weresupposed to livehas been rising around youlike […]
- [Denise Levertov - Conversando com a dor](https://singularidadepoetica.art/2021/08/12/denise-levertov-conversando-com-a-dor-poema/): Ah, dor, eu não deveria trata-la como um cão vira-latasque vem à porta dos fundospor uma migalha, por um osso descarnado.Eu deveria confiar em você. Eu deveria persuadi-laa entrar em casa e dar-lheo seu próprio canto,um tapete usado para se deitar,sua própria tigela de água. Você pensa que eu não sei que você está morandoembaixo […]
- [Juan Vicente Piqueras - A praga de Tebas](https://singularidadepoetica.art/2021/08/10/juan-vicente-piqueras-a-praga-de-tebas-poema/): A praga de Tebas E o que quer que eu faça se torna para sempre o que eu fiz.Wisława Szymborska Quando a tragédia começouo crime já havia sido cometido.A tragédia era, agora, descobrir o delitoe o culpado. Eu teria preferido a ignorância.Tu optaste por indagar contra ti. O passado é mais forteque Deus. Ninguém, nem […]
- [Joseph Stroud - Nós](https://singularidadepoetica.art/2021/08/08/joseph-stroud-nos-poema/): Tentando amarrar meus sapatos, desajeitado, incapaz de descobrira lógica disso, atrapalhado, enquanto meu pai fica ali,sua raiva crescendo por um filho que não consegue fazer nemessa coisa mais simples pela primeira vez, não consegue nem mesmo dar o nó para manter seus sapatos nos pés — Você acha que alguémvai amarrar seus sapatos para você […]
- [Jeannine Hall Gailey – Eu não paro](https://singularidadepoetica.art/2021/08/06/jeannine-hall-gailey-eu-nao-paro-poema/): Eu não paro De ser alguém que busca o lado escuro.Que procura as estatísticas criminais da Disneylândia.Que procura por monstros sob a cama.Além disso, não paro de tirar fotos de floresembora tenhamos nove meses de chuva.Não paro de me perguntar se os colibris daquiestão condenados, se os gansos-das-neves serão envenenadosem um abandonado lago de mina […]
- [David Budhill - O lenhador muda de ideia](https://singularidadepoetica.art/2021/08/04/david-budhill-o-lenhador-muda-de-ideia-poema/): Quando eu era jovem, cortei as árvores maiores e mais velhas para lenha, aquelaspodres em seu cerne, de galhos mortos e partidos, as mutiladas e deformadas porque, raciocinei, elas tombariam logo de qualquer forma, epor isso, eu deveria dar às mais jovens mais luz e espaço para vicejarem. Agora que estou velho derrubo as árvores […]
- [Ricardo Silvestrin – Sacos](https://singularidadepoetica.art/2021/08/02/ricardo-silvestrin-sacos-poema/): Estamos repletos de inutilidades,suas, minhas,inutilidades de família,de valor inestimável. Quinquilharias, ninharias,boiando no pó, atiradas em caixas,envelopes rasgados, gavetas. Ninguém se arrisca a botar foraesses tesouros de um reino perdidoentre os guardados. Em quantos sacos de lixo,sacos grandes de cem litros,vai caber todo o passado? Adquira outras obras de Ricardo Silvestrin clicando aqui
- [Lisel Mueller – Desenhos de criança](https://singularidadepoetica.art/2021/07/31/lisel-mueller-desenhos-de-crianca-poema/): 1 O sol pode estar visível ou não(pode estar atrás de você,o expectador dessas imagens)mas o céu é sempre azulse é dia. Se não,as estrelas estão quase ao seu alcance;inclinadas, elas chegam até você,na iminência de cair.Nunca é nascer ou pôr do sol;não há nenhum olho ensanguentadoespiando você no horizonte.É claramente dia ou noite,é brilhante […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Relógio do Rosário](https://singularidadepoetica.art/2021/07/29/carlos-drummond-de-andrade-relogio-do-rosario-poema/): Era tão claro o dia, mas a treva, do som baixando, em seu baixar me leva pelo âmago de tudo, e no mais fundo decifro o choro pânico do mundo, que se entrelaça no meu próprio choro, e compomos os dois um vasto coro. Oh dor individual, afrodisíaco sêlo gravado em plano dionisíaco, a desdobrar-se, […]
- [Joyce Carol Oates - Este não é um poema](https://singularidadepoetica.art/2021/07/27/joyce-carol-oates-este-nao-e-um-poema-poema/): Este não é um poema em que o poeta descobredelicados ossos branco-ressequidosde uma pequena criaturaem uma margem do Grande Lagoou os restos desidratadosdos mais grotescos atropelamentosao lado da apressada rodovia. Nem é um poema em queum espelho partido concebeuma face assustada,ou gramas secas sibi-lando como consoantesem uma língua estrangeira.Álbum de fotos de famíliarepleto de saudososestranhos […]
- [Miguel D'Ors – Variações sobre um tema de Stevens](https://singularidadepoetica.art/2021/07/25/miguel-dors-variacoes-sobre-um-tema-de-stevens-poema/): Não é o canto do melro:é o silêncioque nos deixa, um silêncioque é algo diferente do silêncioporque nele ainda soaa memória do cantodo melro. Nem silêncio,nem canto: o que ocorrequando o cantoterminae ainda não começou o silêncio.Podes chamar-lhe de alma. Trad.: Nelson Santander Variaciones sobre un tema de Stevens No es el canto del mirlo:es […]
- [Seamus Heaney - [Como todo mundo]](https://singularidadepoetica.art/2021/07/23/seamus-heaney-como-todo-mundo-poema/): Como todo mundo, inclinei minha cabeçadurante a consagração do pão e do vinho,elevei meus olhos para a hóstia e para o cálice levantados,acreditei (seja lá o que isso signifique) que uma mudança ocorrera. Fui ao genuflexório e recebi o mistérioem minha língua, voltei para o meu lugar, fechei meus olhos depressa,fiz um ato de ação […]
- [Pattiann Rogers – Perspectiva de alcance](https://singularidadepoetica.art/2021/07/21/pattiann-rogers-perspectiva-de-alcance-poema/): Lá em cima, longe desta estrada,Longe das partículas de geadaQue revestem a casca de cada gravanço,E do rijo inseto arqueiro em seu avançoNa escuridão da manhã, pata farpada por pata farpada,Subindo pela haste do trillium,Diretamente ao longo do céu sobre esta estrada agora,As galáxias do aglomerado de Cygnus AEstão colidindo umas com as outras em […]
- [Wendy Cope - Para minha irmã, emigrando](https://singularidadepoetica.art/2021/07/19/wendy-cope-para-minha-irma-emigrando-poema/): "Para minha irmã, emigrando", um poema de Wendy Cope que retrata a complexidade do vínculo entre irmãs diante da separação, usando objetos deixados para trás como símbolo de afeto contido, conflitos familiares e amor que só se revela plenamente na ausência.
- [Stephen Dunn - O não dito](https://singularidadepoetica.art/2021/07/17/stephen-dunn-o-nao-dito-poema/): Uma noite, ambos precisaram de coisas diferentesdo mesmo tipo; ela, de consolo; ele, ser consolado.Assim, depois de um jantar regado a vinho,quando eles chegaram em casa separadosno mesmo carro, cada um já havia falhado como outro com o que pareciaum insuportável atraso do que sentiam lhes ser devido.Consolo significava para ela ser compreendidatão bem que […]
- [Pádraig Ó Tuama – Como [não] ser sozinho](https://singularidadepoetica.art/2021/07/15/padraig-o-tuama-como-nao-ser-sozinho-poema/): Como não ser sozinho Tudo começa com a compreensãode que nada dura para sempre.Por isso, é melhor você começar a fazer as malas agora.Mas, nesse meio tempo,pratique estar vivo. Haverá uma festaem que você sentiráque ninguém está prestando atenção em você.E haverá outraem que atenção é tudo o que você receberá.O que você precisa fazeré […]
- [Stevie Smith – Sozinha na floresta](https://singularidadepoetica.art/2021/07/13/stevie-smith-sozinha-na-floresta-poema/): Sozinha na floresta, sentiA amarga hostilidade do céu e das árvoresA Natureza ensinou suas criaturas a odiar oHomem que ferve e fumegaInquieto homemComo a seiva sobe nas árvoresComo a seiva pinta as árvores de um verde violentoAssim cresce a ira das criaturas da NaturezaContra o homemAssim pinta-se a face da Natureza de um verde violento.A […]
- [Jennifer Maier - Uma história verdadeira](https://singularidadepoetica.art/2021/07/11/jennifer-maier-uma-historia-verdadeira-poema/): Um homem idoso estava morrendo em um hospital,contou-me um amigo médico. Estava com oitenta e nove anos, e a vida toda fora um alfaiate em uma lojaembaixo do quarto onde nasceu. Ele não tinha ninguém, então uma bondosa enfermeira de Ganasentou-se com ele, uma mão sobre a sua, segurando um sanduíche. As ondasno monitor desaceleraram. […]
- [Daniel Jonas - Roma](https://singularidadepoetica.art/2021/07/09/daniel-jonas-roma/): “Roma”, um poema de Daniel Jonas que converte a cidade eterna em metáfora da relação desfeita, onde a beleza persiste como ruína exposta ao tempo.
- [Karl Shapiro – Inverno na Califórnia](https://singularidadepoetica.art/2021/07/07/karl-shapiro-inverno-na-california-poema/): É inverno na Califórnia, e no exteriorÉ como o interior de uma floricultura:Uma fresca e úmida culturaDe camélias rosas delimita a vertente;E que raras rosas para um banquete ou um amor,Tão numerosas que semelham uma enchente! Uma fileira de lesmas cruza o verde gramadoDas roseiras ao canteiro de heras;Um composto arsênico é distribuído para elas;O […]
- [Philip Larkin - O cortador](https://singularidadepoetica.art/2021/07/05/philip-larkin-o-cortador-poema/): O cortador parou, duas vezes; ajoelhado, descubro Um ouriço preso entre as lâminas,Morto. Estava na grama crescida. Já o havia visto antes, e até o alimentara uma vez. Agora eu havia maltratado seu discreto mundo de forma Irremediável. O enterro não ajudou: Na manhã seguinte eu me levantei e ele não.No primeiro dia após a morte, a nova […]
- [Donizete Galvão - Não sabe](https://singularidadepoetica.art/2021/07/03/donizete-galvao-nao-sabe-poema/): O amor que não sabe morrerpersiste no olhar do cãoabandonado que,ao menor gesto,abana o rabona espera do afago.Está no vaso de plantaesquecido no sobradosem moradores. O amor que não sabe morrernão pretende tocar o céu.Quer ficar aqui mesmo –pedestre, incauto e reles.Não ouve a ladainha dos mortos.Nem quer a extrema-unção.
- [Maya Angelou – Quando as grandes árvores caem](https://singularidadepoetica.art/2021/07/01/maya-angelou-quando-as-grandes-arvores-caem-poema/): Quando as grandes árvores caem,rochas de colinas distantes estremecem,leões se escondemna relva alta,e até os elefantesarrastam-se em busca de segurança. Quando as grandes árvores caemna floresta,pequenas coisas recolhem-se ao silêncio,seus sentidoserodidos para além do medo. Quando grandes almas morrem,o ar ao nosso redor se tornaleve, raro, estéril.Nós respiramos, brevemente.Nossos olhos, brevemente,enxergam comuma dolorosa nitidez.Nossa memória, […]
- [Joyce Sutphen - Como acabamos juntos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/29/joyce-sutphen-como-acabamos-juntos-poema/): Ele era bom em uma emergência, calmono meio de uma tormenta. Acidentesnão o surpreendiam; ele estava sempre pronto para o que quer que surgisse. Vocêpodia contar com ele; você podia fazerum acordo que ele cumpriria, mesmo se você não pudesse. Os acordos dele eram impossíveis;os acordos dele eram feitos para você falhar,e ao falhar você […]
- [anatol knotek – how quickly things can change](https://singularidadepoetica.art/2021/06/27/anatol-knotek-how-quickly-things-can-change-poema/)
- [Eugénio de Andrade - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2021/06/25/eugenio-de-andrade-despedida/): Junho chegara ao fim, a magoada luz dos jacarandás, que me pousava nos ombros, era agora o que tinha para repartir contigo, e um coração desmantelado que só aos gatos servirá de abrigo
- [Daniel Filipe - A invenção do amor](https://singularidadepoetica.art/2021/06/23/daniel-filipe-a-invencao-do-amor-poema/): “A invenção do amor”, um poema de Daniel Filipe que transforma o gesto íntimo de amar em ato subversivo, expondo a violência dos sistemas que temem a liberdade mais simples: dois seres que se escolhem.
- [Billy Collins – Como se para demonstrar um eclipse](https://singularidadepoetica.art/2021/06/21/billy-collins-como-se-para-demonstrar-um-eclipse-poema/): Pego uma laranja de um cesto de vimee a coloco na mesapara representar o sol.Depois, na outra ponta,uma bola de gude azul e brancase torna a terra perto da qual eu coloco a pequena lua de uma aspirina. Pego uma taça no armário,abro uma garrafa de vinho,sento-me em uma cadeira de espaldar alto,um deus benevolente […]
- [Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894](https://singularidadepoetica.art/2021/06/19/joan-margarit-arcadi-volodos-sonata-d894-poema/): É uma música modestacomo um jantar na cozinha,hospitaleira como ter tido filhos.Compadece-se do corpoque a maré arrastaà praia invernal de cada um.Que franqueza nas notas mais abruptasdizendo-me: é amortambém aquilo que parece hostil.Quando se extingue o eco do piano,o que escutei ainda me estremece.A música de Schuberté uma forma de caridade. Trad.: Nelson Santander Arkadi […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Matzhevá](https://singularidadepoetica.art/2021/06/17/jorge-valdes-diaz-velez-matzheva-poema/): / Em um livro do meu pai, leioa frase: «A ti, que me lês».É o título de uma elegiaescrita há dois séculos, ou um soprode solitude que se elevouao leitor imaginário de fora dos círculos do tempo.Essa linha guarda em cada sílabaa fresca impressão de sua veemência:ser uma semente indócil em algum dialimítrofe ao de agora, […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Os mortos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/15/carlos-drummond-de-andrade-os-mortos-poema/): Na ambígua intimidade que nos concedem podemos andar nus diante de seus retratos. Não reprovam nem sorriem como se neles a nudez fosse maior. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Jane Routh — Um lugar](https://singularidadepoetica.art/2021/06/13/jane-routh-um-lugar-poema/): Quando você viveu toda sua vida adulta em um só lugar,você derrubou árvores. Você as plantou muito próximasou bloqueavam a visão ou algumas adoeceram. Como nós, elas crescem até os vinte anos, e depois engrossam. Isso se aplicaaos freixos e às bétulas, mas não aos carvalhos: eles sãoatrofiados. Você nunca sabe a forma que um […]
- [Ana Martins Marques - Relâmpagos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/12/ana-martins-marques-relampagos/): O pensamento é um pornógrafo e quase só de palavras se faz o amor e no entanto não se embaraça o pensamento com os cabelos como os meus cabelos se embaraçavam nos seus e não se misturam as palavras com as palavras como na boca a saliva se mistura com a saliva nem as […]
- [Louis Jenkins - O casal](https://singularidadepoetica.art/2021/06/11/louis-jenkins-o-casal-poema/): Eles já não dormem tão bem comoquando eram jovens. Ele fica desperto pensandoem coisas que aconteceram anos atrás, virandodesconfortavelmente de vez em quando, puxando ocobertor. Ela se preocupa com dinheiro. Primeiro ume depois o outro ficam ambos acordados durante a noite,em turnos como se estivessem de guarda, embora não consigamver muito no escuro e esteja […]
- [Ada Limón – O ano dos pintassilgos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/09/ada-limon-o-ano-dos-pintassilgos-poema/): Eram dois pendendo e pairando próximosda poça de lama e do cardo almiscarado.Esvoaçando de um poste partidopara outro, banhando-se no reflexo da água da chuvacomo se fosse um espelho para algum outro universoonde as coisas fossem mais aceitáveis, mais fáceisdo que no lugar onde eu vivia. Eu os observaria:o exibido macho brilhante, a mirradafêmea, em […]
- [Wendell Berry - Tudo de que precisamos está aqui](https://singularidadepoetica.art/2021/06/07/wendell-berry-aquilo-de-que-precisamos-esta-aqui-poema/): Gansos surgem bem acima de nós,passam, e o céu se fecha. O abandono,como no amor ou no sono, os mantémno seu caminho, clarona antiga fé: tudo de que precisamosestá aqui. E oramos, nãopor uma terra ou um céu novos, mas para termoscalma no coração, e no olhar,clareza. Tudo de que precisamos está aqui. Trad.: Nelson […]
- [Lisel Mueller - Coisas](https://singularidadepoetica.art/2021/06/05/lisel-mueller-coisas-poema/): O que aconteceu é que nos sentimos solitáriosvivendo entre as coisas,por isso demos ao relógio um rosto,à cadeira um encosto,à mesa quatro pernas robustasque jamais sofrerão fadiga. Calçamos nossos sapatos que têm línguastão macias quanto as nossase penduramos linguetas dentro dos sinospara podermos ouvirsua linguagem emocional, e porque adoramos perfis elegantesa jarra recebeu boca,a garrafa […]
- [Noël Coward - Nada se perde](https://singularidadepoetica.art/2021/06/03/noel-coward-nada-esta-perdido-poema/): No fundo do nosso subconsciente, nos é dito,Repousam todas as nossas memórias, todas as notasDe toda música que já ouvimos,E o que disseram os que amamos, cada frase pronunciada,Tristezas e perdas que desde então o tempo tem consolado,Piadas de família, caquéticas anedotasCada souvenir sentimental e cadaSímbolo de tudo o que já vimos e vivemos,Cada palavra […]
- [Claudia Rankine - Intempérie](https://singularidadepoetica.art/2021/06/01/claudia-rankine-intemperie-poema/): Em um pedaço do papel no arquivo está escritoesqueci minha sombrinha. Acontece queem uma pandemia todos, não só o filósofo,estamos sem uma. Nós batalhamos na seca de informaçõesretidas por investidores privilegiados. Gota a gota. Protegendoo rosto? Sim. Distanciamento social? Sete palmossob a terra por condições subjacentes. Pretos.Apenas nós e os azuis ajoelhados em um pescoçocom […]
- [R S Thomas - Charneca](https://singularidadepoetica.art/2021/05/30/r-s-thomas-charneca-poema/): É bela e calma; o ar rarefeitocomo o interior de uma catedral esperando uma presença. É também onde ocorre o tartaranhão,materializando-se do nada, neve- suave, mas com garras de fogo, […]
- [Antonio Cicero - O livro de sombras de Luciano Figueiredo](https://singularidadepoetica.art/2021/05/28/antonio-cicero-o-livro-de-sombras-de-luciano-figueiredo-poema/): O livro de sombras de Luciano Figueiredo 1 Para onde vou, de onde vim? Não sei se me acho ou me extravio. Ariadne não fia o seu fio à frente, mas sim atrás de mim. Não será a saída um desvio e o caminho o verdadeiro fim ? 2 Não é hora de regressos Não […]
- [Jane Hirshfield – Hoje, outro universo](https://singularidadepoetica.art/2021/05/26/jane-hirshfield-hoje-outro-universo-poema/): O arborista determinou:senescência pragas cancroacelerado pela seca| mas, em qualquer caso,não podável não tratável não passível de escoras. E assim. O ramo de onde gritam o gavião-miúdo e […]
- [Ahmad 'Abd al-Mu'ti Hijazi - Morte súbita](https://singularidadepoetica.art/2021/05/24/ahmad-abd-al-muti-hijazi-morte-subita-poema/): trago comigo o meu número de telefoneo meu nome e endereçoe assim se de súbito cair mortopodereis identificar-mee meus amigos virão Fancy, aconteça o que acontecernão venhas.ficarei na morgue duas longas noitesfrios fios de telefone agitar-se-ão na noite.a campainha começará.sem resposta… uma vez… duas. alguém irá ter com a minha mãee lhe dirá que eu […]
- [Louise Glück - Trillium*](https://singularidadepoetica.art/2019/11/20/louise-gluck-trillium/): Quando acordei, estava em uma floresta. A escuridãoparecia natural, o céu entre os pinheirosrepleto de muitas luzes. Eu não sabia nada; eu não podia fazer nada além de olhar.E enquanto observava, todas as luzes do céuse apagaram para formar uma única coisa, um fogoardendo por entre os frescos abetos.Então, não era mais possível olharpara o […]
- [Louise Glück - Matinas (2)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/19/louise-gluck-matinas-2/): Pai inalcançável, quando fomos, pela primeira vez,exilados do paraíso, criasteuma réplica, um lugar em certo sentidodiferente do paraíso,concebido para ensinar uma lição: de outro modo,o mesmo – beleza em ambos os lados, belezasem alternativa – Excetoque não sabíamos qual era a lição. Deixados sozinhos,nos consumimos. Anosde escuridão se seguiram; nos revezávamoscuidando do jardim, as primeiras […]
- [Louise Glück - Matinas* (1)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/18/louise-gluck-matinas-1/): Brilha o sol; perto da caixa de correio, folhasde uma bétula dividida, dobradas, plissadas como barbatanas.Abaixo, hastes ocas de narcisos brancos, Tulipas,Cantatrice**; folhasescuras de violetas selvagens. Noah dizque os depressivos odeiam a primavera, desequilíbrioentre o mundo interior e exterior. Eu defendooutra perspectiva – deprimida, sim, mas de alguma forma apaixonadamenteunida à árvore viva, meu corporealmente […]
- [Louise Glück - A íris selvagem](https://singularidadepoetica.art/2019/11/17/louise-gluck-a-iris-selvagem/): No fim do meu sofrimentohavia uma saída. Ouça-me: aquilo que você chama de morteeu me recordo. Acima, ruídos, ramos de pinheiros se movendo.Depois, nada. O sol fracocintilava sobre a superfície ressequida. É terrível sobrevivercomo consciênciaenterrada na terra escura. E então acabou: aquilo que você teme, sendouma alma e incapazde falar, terminando abruptamente, a terra duracedendo […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "The Wild Iris", de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2019/11/16/nelson-santander-apresentacao-de-the-wild-iris-de-louise-gluck/): Atualizado em 08/10/2020: tive contato com a obra de Louise Glück no ano passado. Como narrado na apresentação que segue, fui tão impactado pela qualidade de seus poemas que me vi na contingência de traduzir, na íntegra, um de seus principais trabalhos – The Wild Iris. E desde então, tenho traduzido diversos outros grandes poemas […]
- [Wendell Berry - Antes do Anoitecer](https://singularidadepoetica.art/2019/11/15/wendell-berry-antes-do-anoitecer/): Da varanda no crepúsculo, observeium martim-pescador selvagem em um vooque ele só poderia estar realizando por deleite. Ele desceu pelo rio, chapinhandocontra o rosto turvo da águacomo uma pedra saltitante, passando rio abaixo até sumir de vista. E aindaeu podia ouvir o chapinharcada vez mais distante à medida que escurecia. Ele voltoupelo mesmo caminho, escuro […]
- [Joseph Stroud - Primeira Canção](https://singularidadepoetica.art/2019/11/14/joseph-stroud-primeira-cancao/): Naquela distante manhã na fazenda de Ruthquando me escondi entre as glicíniase observei os beija-flores. Eu penseique o rubi ou o ouro que reluzia em seus pescoçosfosse o sangue adocicado das flores.Eles mergulhavam seus bicos perfurantesem uma coroa de pétalas até suas cabeçasdesaparecerem. As flores se confundiam com as asas,e a respiração que eu ouviavinha […]
- [Wislawa Szymborska - Adolescente](https://singularidadepoetica.art/2019/11/13/wislawa-szymborska-adolescente/): Eu — adolescente? Se de repente ela me aparecesse aqui, agora, deveria saudá-la como a uma pessoa próxima, mesmo que me pareça estranha e distante? Derramar uma lágrima, beijar a testa somente pelo motivo de termos a mesma data de nascimento? Tanta dessemelhança entre nós que talvez só os ossos sejam os mesmos, o formato […]
- [Joan Margarit - Água-forte](https://singularidadepoetica.art/2019/11/12/joan-margarit-agua-forte/): O granizo metralha as vidraças,as rajadas arrasam as calçadas.E tu e eu aqui, onde o mau temporesume os obstáculos que às vezesnos levam à beira do abismo.Olhos brilhantes de desacertos,mãos queimadas por se salvarem agarradasaos gelados corrimãos do inferno.Que o acaso continue disparandosem razão, como sempre, nas vidraças.Além do amor – desse nosso amor –nada […]
- [Paul Verlaine – Colóquio sentimental](https://singularidadepoetica.art/2019/11/11/paul-verlaine-coloquio-sentimental/): No velho parque frio e abandonado Duas formas passaram lado a lado. Olhos sem vida já, lábios tremendo, Apenas se ouve o que elas vão dizendo. No velho parque frio e abandonado, Dois vultos evocaram o passado. – Lembras-te bem do nosso amor de outrora? – Por que é que hei de lembrar-me disso agora? […]
- [Tarso de Melo – Raiz e minério](https://singularidadepoetica.art/2019/11/10/tarso-de-melo-raiz-e-minerio/): ainda é possível ouvir (mais fundo, mais fundo,você encontra) o som da lama se arrastando por baixodas portas e aos pés do sofá (o que há é o homem,esse bicho) nos vãos da estante e no meio dos livrosnas gavetas da geladeira (que invade a terra procurandooutro homem) na altura do peito e entre os […]
- [Manuel Vilas - Delia's Gone](https://singularidadepoetica.art/2019/11/09/manuel-vilas-delias-gone/): "Delia's Gone", um poema de Manuel Vilas que aborda de forma provocativa e irônica a relação entre amor, abandono e suicídio, evocando figuras como Ian Curtis, Mariano José de Larra e Sylvia Plath para refletir sobre a idealização trágica da morte por amor e o vazio deixado pela perda.
- [Wislawa Szymborska - Bagagem de volta](https://singularidadepoetica.art/2019/11/08/wislawa-szymborska-bagagem-de-volta/): Uma quadra de pequenas tumbas no cemitério. Nós, que vivemos muito, passamos furtivamente, como os ricos passam pelos bairros dos pobres. Aqui jazem a Zosia, o Jacek, o Dominik, prematuramente tirados do sol, da lua, da mudança das estações, das nuvens. Não juntaram muito na bagagem de volta. Fragmentos de vista não muito no plural. […]
- [Ferreira Gullar - Morrer no Rio de Janeiro](https://singularidadepoetica.art/2019/11/07/ferreira-gullar-morrer-no-rio-de-janeiro/): Se for março quando o verão esmerila a grossa luz nas montanhas do Rio teu coração estará funcionando normalmente entre tantas outras coisas que pulsam na manhã ainda que possam de repente enguiçar. Se for março e de manhã as brisas cheirando a maresia quando uma lancha deixa seu rastro de espumas no dorso da […]
- [Joan Margarit - Anos Sessenta](https://singularidadepoetica.art/2019/11/06/joan-margarit-anos-sessenta/): Lento, muito mais lento, tempo meu: falemos sobre o amor mesmo que as rosas tenham que acabar sempre na lixeira. Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro? Sem esperança alguma, críamos em algo, ou, porque era difícil a fé em algo, nunca perdemos a esperança. Restam as bandeiras vermelhas de perigo defronte ao mar bravio. Lembro-me de […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Nos veremos novamente](https://singularidadepoetica.art/2019/11/05/luis-alberto-de-cuenca-nos-veremos-novamente-poema/): Nos veremos novamente onde sempre é de dia e os feios são bonitos e eternamente jovens, onde os poderosos não abusam dos mais fracos e, das árvores, pendem brinquedos e gibis. Nesta morada de luz que não fere os olhos Voltaremos, tu e eu, a dizer-nos bobagens de mãos dadas, contemplando as ondas a morrer […]
- [Jules Laforgue – O silêncio azul](https://singularidadepoetica.art/2019/11/04/jules-laforgue-o-silencio-azul/): Por todo o transcorrido eterno e no vindouro, A Noite universal povoa-se infinita E cegamente em coágulos onde se agita A vida que rabisca em arabescos de ouro. Eis que um daqueles, tão desassistido e só, Junto a seus deuses, artes, erros e mania, Seu lodaçal, miséria e cantos de ironia, Escreve história, grita ao […]
- [Karmelo C. Iribarren - A herança](https://singularidadepoetica.art/2019/11/03/karmelo-c-iribarren-a-heranca/): Ultimamente,quando me vejo no espelho,é meu avô quem me encara,mais que meu pai. Cinquenta anospara começar a entrar na posseda única herança que ele me deixou, e que acabará me matando. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog La herencia […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Dia dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2019/11/02/jorge-valdes-diaz-velez-dia-dos-mortos/): Dia dos mortos, um poema de Jorge Valdés Díaz-Vélez
- [Jaime Gil de Biedma - Canção de aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/11/01/jaime-gil-de-biedma-cancao-de-aniversario/): Porque são já seis anos desde então, porque não há na terra, ainda, nada tão doce quanto um quarto para dois, se for teu e meu; porque até o tempo, esse parente pobre que conheceu dias melhores, parece hoje partidário da felicidade, cantemos, alegria! E, depois, levantemo-nos mais tarde, como no domingo. Que a manhã […]
- [Wislawa Szymborska - Sobre a morte sem exagero](https://singularidadepoetica.art/2019/10/31/wislawa-szymborska-sobre-a-morte-sem-exagero/): Não entende de piadas,de estrelas, de pontes,de tecer, minerar, lavrar a terra,de construir navios e assar bolos. Quando falamos de planos para amanhãintromete sua última palavrasem nada a ver com o assunto. Não sabe sequer as coisasdiretamente ligadas ao seu ofício:nem cavar uma cova,nem fazer um caixão,nem arrumar a desordem que deixa. Ocupada em matar,o […]
- [Ferreira Gullar - Reflexão](https://singularidadepoetica.art/2019/10/30/ferreira-gullar-reflexao/): Está fora de meu alcance o meu fim Sei só até onde sou contemporâneo de mim
- [Joan Margarit - Inverno de 95](https://singularidadepoetica.art/2019/10/29/joan-margarit-inverno-de-95/): Esta carta a escrevo para alguémque está em um barco pelo nortede Tenerife, em cinquenta e sete.Um rapaz que, da amurada,mira o duro poente sobre o mare estuda arquitetura em Barcelona,para onde retorna agora. Aviso-tecom um sinal de alerta: a alegriaque sentes ao deixar teu pai para trásrevela a solidão sob uma luz dourada.Teu pai […]
- [Manuel António Pina - Eugénio de Andrade no seu leito de morte](https://singularidadepoetica.art/2019/10/28/manuel-antonio-pina-eugenio-de-andrade-no-seu-leito-de-morte/): Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um […]
- [Henry Reed – A nomeação das peças](https://singularidadepoetica.art/2019/10/27/henry-reed-nomeacao-das-pecas/): Hoje temos a nomeação das peças. OntemTivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonicaArde como coral em todos os jardins adjacentes,E hoje nós temos a nomeação das peças. Isto é o zarelho móvel inferior. E istoÉ o […]
- [Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Antonio Carlos Santos de Freitas – Infinito particular](https://singularidadepoetica.art/2019/10/26/marisa-monte-arnaldo-antunes-antonio-carlos-santos-de-freitas-infinito-particular/): Eis o melhor e o pior de mim No meu termômetro o meu quilate Vem, cara, me retrate Não é impossível Eu não sou difícil de ler Faça sua parte Eu sou daqui, eu não sou de Marte Vem, cara, me repara Não vê, ‘tá na cara Eu sou porta-bandeira de mim Só não se […]
- [Braulio Tavares - [para mim tanto faz]](https://singularidadepoetica.art/2019/10/25/braulio-tavares-para-mim-tanto-faz/): para mim tanto fazestar alegre ou tristeeu preciso é que o tempo voe,que o tempo viva a gente só lembraque o segundo existequando vê um relógioem contagem regressiva
- [Francisco Alvim – Nada, mas nada mesmo](https://singularidadepoetica.art/2019/10/24/francisco-alvim-nada-mas-nada-mesmo/): Nada, mas nada mesmo tem a menor importância Nem antesNem depoisNem durante
- [Francisco Brines - Métodos de conhecimento](https://singularidadepoetica.art/2019/10/23/francisco-brines-metodos-de-conhecimento/): No cansaço da noite, penetrando a mais sombria canção, recobrei por trás de meus olhos cegos o frágil testemunho de uma cena remota. Recendia o mar, e a aurora era a ladra dos céus; tornava fantasmagóricas as luzes da casa. Os comensais eram jovens, e fartos e sem sede, no naufrágio do banquete, buscavam a […]
- [João Cabral de Melo Neto - Uma faca só lâmina](https://singularidadepoetica.art/2019/10/22/joao-cabral-de-melo-neto-uma-faca-so-lamina/): Assim como uma balaenterrada no corpo,fazendo mais espessoum dos lados do morto; assim como uma balado chumbo pesado,no músculo de um homempesando-o mais de um lado qual bala que tivesseum vivo mecanismo,bala que possuísseum coração ativo igual ao de um relógiosubmerso em algum corpo,ao de um relógio vivoe também revoltoso, relógio que tivesseo gume de […]
- [António Ramos Rosa - O jardim](https://singularidadepoetica.art/2019/10/21/antonio-ramos-rosa-o-jardim/): Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Anúncio de pedra](https://singularidadepoetica.art/2019/10/20/hans-magnus-enzensberger-anuncio-de-pedra/): Perdem-se o cabelo, os nervos, vocês entendem, o tempo precioso, perde-se altura no posto perdido, brilho, sinto muito, não faz mal, por pontos, não me interrompam, perde-se sangue, pai e mãe, o coração perdido de Heidelberg, sem pestanejar perdem-se, de novo, os encantos da novidade, passe-se um esponja, os direitos civis, oh sim, a cabeça, […]
- [Wislawa Szymborska - Visto do alto](https://singularidadepoetica.art/2019/10/19/wislawa-szymborska-visto-do-alto/): Um besouro morto num caminho campestre. Três pares de perninhas dobradas sobre o ventre. Ao invés da desordem da morte – ordem e limpeza. O horror da cena é moderado, o âmbito estritamente local, da tiririca à menta. A tristeza não se transmite. O céu está azul. Para nosso sossego, os animais não falecem, morrem […]
- [José Paulo Paes - Dúvida](https://singularidadepoetica.art/2019/10/18/jose-paulo-paes-duvida/): Não há nada mais triste do que um cão em guarda ao cadáver do seu dono. Eu não tenho cão. Será que ainda estou vivo? data da última gravação: 8/10/98, 17h09 Na “Apresentação” de Socráticas – obra da qual foi extraído o poema acima – Alfredo Bosi esclarece: As Socráticas, publicadas postumamente, soam como um […]
- [Ferreira Gullar - Lições de um gato siamês](https://singularidadepoetica.art/2019/10/17/ferreira-gullar-licoes-de-um-gato-siames/): Só agora sei que existe a eternidade: é a duração finita da minha precariedade O tempo fora de mim é relativo mas não o tempo vivo: esse é eterno porque afetivo — dura eternamente enquanto vivo E como não vivo além do que vivo não é tempo relativo: dura em si mesmo eterno (e transitivo)
- [Joan Margarit - Piscina](https://singularidadepoetica.art/2019/10/16/joan-margarit-piscina/): Não temia a água, mas a ti,era teu medo o que eu temia,e o lugar mais profundo,em que não se veem os azulejos do fundo.Arrastaste-me até lá, lembro aindaa força de teus braços obrigando-me,enquanto tentava abraçar-me a ti.Não aprendi a nadar até muito tempo depois,e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.Agora que já nunca voltarás a […]
- [Manuel António Pina - Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte](https://singularidadepoetica.art/2019/10/15/manuel-antonio-pina-carta-a-mario-cesariny-no-dia-da-sua-morte/): Hoje soube-se uma coisa extraordinária, que morreste. Talvez já to tenham dito, embora o caso verdadeiramente não te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo. Algo, de fato, deve ter acontecido porque nada acontece, a não ser o costume, amor e estrume; quanto ao resto tudo prossegue de acordo com o Plano. Há apenas agora […]
- [Paulo Henriques Britto - O aqualouco](https://singularidadepoetica.art/2019/10/14/paulo-henriques-britto-o-aqualouco/): A verdadeira diferençasó se sente depois do frio.Antes é só um salto, um mergulho imprudente,como se eternidade fosse água gelada,como se o nada não fosse mais que um rio. Depois somem as palavras fáceis(“eternidade” etc.; v. acima),fica só o fundamental:o vômito, o medo, o adeus,a vontade de assassinar todos os recém-nascidosdo Egito, como se alguém […]
- [Chacal - como era bom](https://singularidadepoetica.art/2019/10/13/chacal-como-era-bom/): o tempo em que marx explicava que tudo era luta de classes como era simples o tempo em que freud explicava que édipo tudo explicava tudo era clarinho limpinho explicadinho tudo muito mais asséptico do que era quando nasci hoje rodado sambado pirado descobri que é preciso aprender a nascer todo dia
- [Wislawa Szymborska - Autotomia](https://singularidadepoetica.art/2019/10/12/wislawa-szymborska-autotomia/): Em perigo, a holotúria se divide em duas:com uma metade se entrega à voracidade do mundo,com a outra foge. Desintegra-se violentamente em ruína e salvação,em multa e prêmio, no que foi e no que será. No meio do corpo da holotúria se abre um abismocom duas margens subitamente estranhas. Em uma margem a morte, na […]
- [Antonio Colinas - Envio](https://singularidadepoetica.art/2019/10/11/antonio-colinas-envio/): Lembras-te ainda do débil cantodo rouxinol perdido na ramagem?Viste farfalhar comigo naquela noitea copa do cipreste. Desfez-seo céu em fios de luar sobre teu rosto.Mas depois do pássaro e da luaapagaram-se os astros. Vi passarnão sei que brisa estranha pelo teu corpo.Lembras-te das nossas mãos na água?Lembras-te do silêncio sobre o campoe, como um deus exangue, do […]
- [Meira Delmar – Hóspede sem sombra](https://singularidadepoetica.art/2019/10/10/meira-delmar-hospede-sem-sombra/): Nada deixam meus passos sobre a terra. No momento do último passeio hei de levar o que ao nascer me veio: o rosto em paz e o coração em guerra. Nenhuma voz repetirá a minha de saudoso ardor e fiel espanto. A voz estremecida com que canto o mar, a rosa, a melancolia. Não ressuscitará […]
- [Théodore Fraenckel - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2019/10/09/theodore-fraenckel-elegia/): X. não compreendeu ainda como lhe resta pouco tempo de vida. Outrora, os grandes lagos eram a esperança querida de um abrigo. Da infância, o que nos resta é esta visão acadêmica quando, suave, no tom do quadro, leve se sente o esboroar do espírito… Contudo, a vida nem sempre é uma constante aventura. Por […]
- [José Paulo Paes - De malas prontas](https://singularidadepoetica.art/2019/10/08/jose-paulo-paes-de-malas-prontas/): Vários dos seus amigos mortos dão hoje nome a ruas e praças. Ele próprio se sente um pouco póstumo quando conversa com gente jovem. Dos passeios, raros, a melhor parte é a volta para casa. As pessoas lhe parecem barulhentas e vulgares. Ele sabe de antemão tudo quanto possam dizer. Nos sonhos, os dias da […]
- [Ivan Junqueira - Estamos indo embora](https://singularidadepoetica.art/2019/10/07/ivan-junqueira-estamos-indo-embora/): Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia, por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico, os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios, com suas patas de veludo, silenciosas, que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis. Os tapetes abafam seus passos ociosos, como se faz quando se acolhem […]
- [Ferreira Gullar - Fim](https://singularidadepoetica.art/2019/10/06/ferreira-gullar-fim/): Como não havia ninguém na casa aquela terça-feira tudo é suposição: teria tomado seu costumeiro banho de imersão por volta de meio-dia e trinta e de cabelos ainda úmidos deitou-se na cama para descansar não para morrer queria dormir um pouco apenas isso e assim não lhe terá passado pela mente – até aquele último […]
- [Joan Margarit - Alguém](https://singularidadepoetica.art/2019/10/05/joan-margarit-alguem/): Tinha que salvar-me com seus olhos azuis cravados ainda em uma lembrança da adolescência, a estranha fase de precipitar-se, sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo. Do bonde, a fugaz imagem de uma garota em uma varanda, e o número de um telefone anotado como uma cicatriz na memória. Nunca estive a seu lado, inventava […]
- [Wislawa Szymborska - Fotografia de 11 de setembro](https://singularidadepoetica.art/2019/10/04/wislawa-szymborska-fotografia-de-11-de-setembro/): Saltaram dos andares em chamas —um, dois, alguns maisacima, abaixo. A fotografia os susteve em vidae agora os mantémsobre a terra em direção à terra. Cada um ainda é um todocom um rosto próprioe o sangue bem escondido. Há bastante tempopara os cabelos se soltareme dos bolsos caíremchaves, dinheiro trocado. Ainda estão ao alcance do […]
- [Delmore Schwartz - All night, all night](https://singularidadepoetica.art/2019/10/03/delmore-schwartz-all-night-all-night/): I have been one acquainted whit the night – Robert Frost Viajou de trem a noite inteira, sob uma luz agoureira. Uma ave Voou em paralelo com singular determinação. Em ações e anseios de devaneios Os demais passageiros curvados, deitados, lendo, dormindo, Esperando, e esperando um local para se deslocar, Para a correta rota da […]
- [Armando Freitas Filho - Autobiografia até agora](https://singularidadepoetica.art/2019/10/02/armando-freitas-filho-autobiografia-ate-agora/): No Cineac antes da descoberta do Brasil com a mãe a tiracolo vendo o Arqueiro Verde (um Robin Hood de segunda mão) disparando suas flechas morais. Depois, punhetas, colégios, lápis a primeira caneta, poesia, pin-ups futebol, jogo de botão e puteiros: a sessão começa quando você chega. Agora, no escuro, meio Zé Carioca trocando de […]
- [Miguel Martins - [Do lado de fora, tudo parece pouco]](https://singularidadepoetica.art/2019/10/01/miguel-martins-do-lado-de-fora-tudo-parece-pouco/): Do lado de fora, tudo parece pouco. Borborinho. Intemperança. Sono. O rosto não faz prova da memória mas a memória testemunha a evolução do rosto, os pares de óculos que por ali passaram, a fome e o consolo, o medo, a morte de cada beijo, o milagre do seu renascimento e, por fim, o extremo […]
- [Théodore Fraenckel - Meditação do fim de Agosto](https://singularidadepoetica.art/2019/09/30/theodore-fraenckel-meditacao-do-fim-de-agosto/): Mal as árvores se abatem, o que resta da floresta? Resistirá a madeira a ser moldada pelo acréscimo de formas que lhe vem da literatura? E no entanto a natureza nada tem de humano e dela não se pode dizer que prescinde de crescer e se aquieta nos limites de uma forma que a torna […]
- [Henry Scott Holland - [A morte não é nada]](https://singularidadepoetica.art/2019/09/29/henry-scott-holland-a-morte-nao-e-nada/): A morte não é nada*. Ela não conta. Eu apenas passei para a sala vizinha. Nada aconteceu. Tudo permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, e você é você, e a velha vida que vivemos carinhosamente juntos permanece intocada, inalterada. O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda o somos. Chame-me […]
- [José Paulo Paes - Glauco](https://singularidadepoetica.art/2019/09/28/jose-paulo-paes-glauco/): Nas duas vezes que voltei a Curitiba não o encontrei. Numa tinha viajado para o Rio na outra tinha viajado para a morte. E nem havia mais onde encontrá-lo: o Belas Artes fechara a redação de O Dia sumira-se no ar as pensões eram terrenos baldios. Desarvorado me sentei à mesa de uma confeitaria na […]
- [Ruy Belo – Uma vez que já tudo se perdeu](https://singularidadepoetica.art/2019/09/27/ruy-belo-uma-vez-que-ja-tudo-se-perdeu/): Que o medo não te tolha a tua mão Nenhuma ocasião vale o temor Ergue a cabeça dignamente irmão falo-te em nome seja de quem for No princípio de tudo o coração como o fogo alastrava em redor Uma nuvem qualquer toldou então céus de canção promessa e amor Mas tudo é apenas o que […]
- [Mário de Sá-Carneiro – Além-Tédio](https://singularidadepoetica.art/2019/09/26/mario-de-sa-carneiro-alem-tedio/): Nada me expira já, nada me vive – Nem a tristeza nem as horas belas. De as não ter e de nunca vir a tê-las, Fartam-me até as coisas que não tive. Como eu quisera, enfim d’alma esquecida, Dormir em paz num leito de hospital… Cansei dentro de mim, cansei a vida De tanto a […]
- [A. M. Pires Cabral — Confesso que voei](https://singularidadepoetica.art/2019/09/25/a-m-pires-cabral-confesso-que-voei/): 1 Mas, se nestas seis décadas e meia eu fui capaz de algum voo — concedo: semelhante ao das galinhas, isto é, rudimentar, desgracioso, com muitíssimo dispêndio de energia para pouca ascensão, breve e apenas em desespero de causa; em todo o caso uma forma de voo pelo qual me sustentei no ar em horas […]
- [Tristan Corbière - Paisagem má](https://singularidadepoetica.art/2019/09/24/tristan-corbiere-paisagem-ma/): Praias de ossos. A onda estertora Seus dobres, som a som, na areia. Palude pálido. O luar devora Grandes vermes – é a sua ceia. Torpor de peste: somente a febre Coze… O duende danado dorme. A erva que fede vomita a lebre, Bruxa medrosa que se some. A lavadeira branca junta os Trapos surrados […]
- [Ivan Junqueira - O que sabemos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/23/ivan-junqueira-o-que-sabemos/): É quase nada o que sabemos de nós, do que somos, do frêmito que nos empurra, débeis duendes, à cena ambígua da existência. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos moldou à sua esplêndida imagem, se a mão não lhe vemos? Será mesmo que o fez, consciente do risco que estava correndo, da imperdoável […]
- [Goethe - Aos leitores amigos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/22/goethe-aos-leitores-amigos/): Poetas não podem calar-se, Querem às turbas mostrar-se. Há-de haver louvores, censuras! Quem vai confessar-se em prosa? Mas abrimo-nos sub rosa No calmo bosque das Musas. Quanto errei, quanto vivi, Quanto aspirei e sofri, Só flores num ramo – aí estão; E a velhice e a juventude, E o erro e a virtude Ficam bem […]
- [Margaret Atwood - O momento](https://singularidadepoetica.art/2019/09/21/margaret-atwood-o-momento/): O momento em que, depois de muitos anos de trabalho duro e de uma longa jornada, encontras-te no centro do teu quarto, casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país, sabendo por fim como lá chegaste, e dizes: tudo isso me pertence, é o mesmo momento em que as árvores desatam seus braços macios ao teu […]
- [Michael Krüger - À primeira vista](https://singularidadepoetica.art/2019/09/20/michael-kruger-a-primeira-vista/): Na verdade, nada mudou: o castanheiro diante da casa, martirizado pela hera, as ameixeiras sobre o seu tapete azul, o doce perfume da infância e da decadência. Do vale, rugem os caminhões, e a sombra se apressa em redor da casa em sentido anti-horário, perscrutando a dor. Até o poço ainda está lá como um […]
- [Ferreira Gullar - Thereza](https://singularidadepoetica.art/2019/09/19/ferreira-gullar-thereza/): Sem apelo no vórtice do dia no abandono do chão na lâmina da luz feroz fora da vida desfaz-se agora a minha doída desavinda companheira
- [Eugénio de Andrade - Canção Breve](https://singularidadepoetica.art/2019/09/18/eugenio-de-andrade-cancao-breve/): Tudo me prende à terra onde me dei: o rio subitamente adolescente, a luz tropeçando nas esquinas, as areias onde ardi impaciente. Tudo me prende do mesmo triste amor que há em saber que a vida pouco dura, e nela ponho a esperança ou o calor de uns dedos com restos de ternura. Dizem que […]
- [Joan Margarit - De repente está claro](https://singularidadepoetica.art/2019/09/17/joan-margarit-de-repente-esta-claro/): De repente está claro. O amor é a vitória que irá me destruir. Como me gangrena o coração a solidão, como me destroça nas janelas do crepúsculo a hiena desolada e exangue. Na era rubra só o amor nos livra da gélida gruta do tempo. Conheci a glória de estar desesperado e a miséria do […]
- [Manuel António Pina - As escadas](https://singularidadepoetica.art/2019/09/16/manuel-antonio-pina-as-escadas/): Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas em direção à tua escuridão, deixando-me, ou a alguma coisa menos tangível, no seu lugar. Também elas envelheceram, as escadas, também, como eu, desabitadas. Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus, e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras.
- [Francisco Brines - Deitado](https://singularidadepoetica.art/2019/09/15/francisco-brines-deitado/): Chove, e amo. Pulsam, em alongada sombra, duas sombras vivas, sondam o nada, e nele se alimentam. São farrapos de luz, e à sua luz se veem olhos, músculos, cabelos, enquanto a sombra se extingue em mais sombra, e o repouso nos lençóis das fúrias do corpo é a gratidão de quem há de morrer, […]
- [Jaime Gil de Biedma - Valsa de Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/09/14/jaime-gil-de-biedma-valsa-de-aniversario/): Não há nada tão doce como um quarto para dois (quando já não nos amamos tanto) fora da cidade, em um hotel tranquilo, e casais duvidosos e alguma criança com caxumba, não fosse esta ligeira sensação de irrealidade. Algo como o verão na casa de meus pais, há tempos, como viajar de trem à noite. […]
- [Vasco Miranda - de "Invenção da Manhã"](https://singularidadepoetica.art/2019/09/13/vasco-miranda-de-invencao-da-manha/): 20 Olha Jorge quando vier a morte E virá cedo “Não deixes fechar-me os olhos” Eflorescências salitrosas me rebentarão das órbitas Para queimar as mãos que fechar-mos queiram – Não pode a luz negar-se a quem bêbado dela Inventou em cada dia uma madrugada E eis tudo quanto deixo a quem me herde Não Jorge […]
- [Joseph Stroud - A mais difícil tradução do amor](https://singularidadepoetica.art/2019/09/12/joseph-stroud-a-mais-dificil-traducao-do-amor/): “A mais difícil tradução do amor”, um poema de Joseph Stroud que compara o matrimônio a um filme estrangeiro, revelando com humor a ilusão momentânea de compreender plenamente o outro.
- [José Agostinho Baptista - É a prata da minha amada](https://singularidadepoetica.art/2019/09/11/jose-agostinho-baptista-e-a-prata-da-minha-amada/): “É a prata da minha amada”, um poema de José Agostinho Baptista que encena uma despedida crepuscular onde amor e morte se entrelaçam num silêncio maior que o mar.
- [José Paulo Paes - Elogio da Memória](https://singularidadepoetica.art/2019/09/10/jose-paulo-paes-elogio-da-memoria/): O funil da ampulhetaapressa, retardando-a,a quedada areia. Nisso imita o jogomanhosode certos momentosque se vão emboraquando mais queríamosque ficassem. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ruy Belo – Missa de aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/09/09/ruy-belo-missa-de-aniversario/): Há um ano que os teus gestos andam ausentes da nossa freguesia Tu que eras destes campos onde de novo a seara amadurece donde és hoje? Que nome novo tens? Haverá mais singular fim de semana do que um sábado assim que nunca mais tem fim? Que ocupação é agora a tua que tens todo […]
- [Luis Cernuda - Os espinhos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/08/luis-cernuda-os-espinhos/): Possuem já os espinhos verdor novo na colina, toda de púrpura e neve pelo ar estremecida. Quantos céus em flor já viste? Embora ao encontro eles serão sempre devotados, tu não o serás um dia. Antes que a penumbra caia, sabe o que a alegria é junto aos espinhos vermelhos e alvos em flor. Olha. […]
- [Luís de Góngora - Estamos desperdiçando a páscoa, moças](https://singularidadepoetica.art/2019/09/07/luis-de-gongora-estamos-desperdicando-a-pascoa-mocas/): Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Moçoilas do meu distrito, Louquinhas e confiantes, Que não vos engane o tempo, a idade e a confiança. Não deixeis cortejar-vos o frescor da juventude, porque de flores caducas tece o tempo suas grinaldas. Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Voam os velozes […]
- [José Régio – Cântico Negro](https://singularidadepoetica.art/2019/09/06/jose-regio-cantico-negro/): “Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui!” Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali… A minha glória é esta: […]
- [Javier Salvago - No verso de uma velha fotografia](https://singularidadepoetica.art/2019/09/05/javier-salvago-no-verso-de-uma-velha-fotografia/): Os Beatles ainda não tinham surgido, nem haviam abatido Che Guevara. Nat King Cole cantava ansiedad de tenerte en mis brazos ou solamente una vez se entrega el alma. e no cinema talvez exibissem Sete noivas para sete irmãos. O comandante Armstrong ainda não havia deixado sua profana pegada no rosto esburacado da lua. Os […]
- [Ferreira Gullar - Aqui e agora](https://singularidadepoetica.art/2019/09/04/ferreira-gullar-aqui-e-agora/): 1 Que faz a defunta manhã na manhã nova? Que sois vós hoje alegria de outrora riso extinta palavra de afeto? que sois vós senão fantasmas senão miasmas a infectar de morte o que está vivo? 2 Se há sol no pátio e um carro penetra nele e estaciona e o chofer desce bate a […]
- [Eugénio de Andrade - O sal da língua](https://singularidadepoetica.art/2019/09/03/eugenio-de-andrade-o-sal-da-lingua/): Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem […]
- [Joan Margarit - No álbum](https://singularidadepoetica.art/2019/09/02/joan-margarit-no-album/): És tu antes de partir,quando ainda vivias em casa.O olhar brilhante que nos recompensava.Teu nome foi ficando para trás,na foto de onde ainda nos sorriscomo se tudo fosse para sempree nada tivesse acontecido em outro lugar,nem no sorriso que hoje desconhecemos,longe do que teu rosto exibe neste álbum.Este sorriso, agora, é só para nós:convive com […]
- [Manuel António Pina - As Coisas](https://singularidadepoetica.art/2019/09/01/manuel-antonio-pina-as-coisas/): Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certas tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência […]
- [Páladas - da Antologia Palatina, 10.45](https://singularidadepoetica.art/2019/08/31/paladas-da-antologia-palatina-10-45/): Caso te lembres, humano, de como o teu pai ao gerá-lo te semeou, cessarás com toda tua arrogância. Só que Platão sonhador te implantou ilusões de grandeza, ao te chamar de imortal, planta provinda do céu. Vindo do barro, por que pensas grande? Por essa maneira, age somente quem quer dar-se aparência solene. Eis a […]
- [Maria Mercedes Carranza - Kavafiana](https://singularidadepoetica.art/2019/08/30/maria-mercedes-carranza-kavafiana/): O desejo aparece de repente,em qualquer sítio, a propósito de nada.Na cozinha, caminhando pela rua.Basta um olhar, um aceno, um roçar.Mas dois corpostêm também o seu amanhecer e o seu acaso,a sua rotina de amor e de sonhos,de gestos sabidos até ao cansaço.Dispersam-se os risos, deformam-se.Há cinzas nas bocase o íntimo desdém.Dois corpos têm a […]
- [Amalia Bautista - A pesagem do coração](https://singularidadepoetica.art/2019/08/29/amalia-bautista-a-pesagem-do-coracao/): Leia "A pesagem do coração", de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre ética, compaixão e o legado que deixamos após a morte.
- [Jules Laforgue - Penúltima palavra](https://singularidadepoetica.art/2019/08/28/jules-laforgue-penultima-palavra/): O Espaço? – A vida Ida Sem traço. O amor? – Seu preço: Desprezo E dor. O sonho? – Infindo, É lindo (Suponho). Que vou Fazer Do ser Que sou? Isto, Aquilo, Aqui, Ali. Trad.: Augusto de Campos Avant-dernier mot L’Espace? – Mon Coeur Y meurt Sans traces… La Femme? – J’en sors, La […]
- [Tristan Corbière - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2019/08/27/tristan-corbiere-epitafio/): Epitáfio Salvo os amorosos principiantes ou findos que querem principiar pelo fim há tantas coisas que findam pelo princípio que o princípio principia a findar por estar no fim o fim disso é que os amorosos e outros findarão por principiar a reprincipiar por esse princípio que terá findo por não ser mais que o […]
- [Ivan Junqueira - O tempo que me resta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/26/ivan-junqueira-o-tempo-que-me-resta/): Qual o tempo que me resta? Poderei medi-lo em pétalas de alguma flor que fenece, a última da sua espécie? Poderei fazê-lo em décimos de um segundo que parece durar mais do que uma década ou quem sabe todo um século? O que é o tempo? Uma névoa que na ampulheta escorrega, ou algo que […]
- [Jack Kerouac - Richmond Hill Tree Poem](https://singularidadepoetica.art/2019/08/25/jack-kerouac-richmond-hill-tree-poem/): Amontoadas, amarelas folhas de novembro De uma distinta árvore nua e envergonhadamente castrada fazem um minúsculo e manso PLICK ao se roçar umas nas outras preparando-se para morrer – Quando vejo uma folha cair Eu sempre digo adeus. Richmond Hill Tree Poem A cluster of yellow November leaves in an otherwise bare and sheepish castrated […]
- [Amalia Bautista - S.O.S.](https://singularidadepoetica.art/2019/08/24/amalia-bautista-s-o-s/): Protege-me do medo e das sombrasdefende-me de todas as tristezas,exila de minha vida o desconsolo,se puderes, com teu amor, se nãocom o fim do mundo ou com a minha morte. Trad.: Nelson Santander S.O.S Protégeme del miedo y de las sombras,defiéndeme de todas las tristezas,destierra de mi vida el desconsuelo.si puedes, con tu amor, y […]
- [Eugénia de Vasconcellos – Lembra](https://singularidadepoetica.art/2019/08/23/eugenia-de-vasconcellos-lembra/): Digo-te isto para que saibas quem és, às vezes, esquecemos, confundimos, desconseguimos e ao fim, desacreditamos, colam-se-nos os fantasmas dos vivos e as memórias dos mortos e da voz faz-se um fio à míngua de palavras – e onde a palavra não chega, o pensamento não cria o ato e morre-se, morre-se, morre-se um dia […]
- [Tarso de Melo - Hoje](https://singularidadepoetica.art/2019/08/22/tarso-de-melo-hoje/): Amanhã vai chover mais forte, todos nós já sabemos. E é estranha a calma dos rios Os guarda-chuvas seguem fechados, os meteorologistas fingem não ter nada com isso, o barro não demonstra qualquer apreensão, o vento lambe as roupas secas no varal, nenhuma janela ainda se fechou. A água vai vir, forte, como sempre, engolindo […]
- [Danusha Laméris - Pequenas Gentilezas](https://singularidadepoetica.art/2019/08/21/danusha-lameris-pequenas-gentilezas/): Estive pensando na maneira como, quando você caminhapor um corredor lotado, as pessoas recolhem suas pernaspara deixar você passar. Ou como estranhos ainda dizem “Deus te abençoe”quando alguém espirra, um resquícioda Peste Bubônica. “Não morra”, estamos dizendo.E das vezes que, ao derrubar limõesde sua sacola de compras, outra pessoa o ajudaa recolhê-los. Na maioria das […]
- [Leila Guenther - Amuleto](https://singularidadepoetica.art/2019/08/20/leila-guenther-amuleto/): nem trevo de quatro folhas foto de filho, mãe ou marido medalhinha da Virgem lentilha do ano novo passado bilhete de loteria moeda furada origami de pássaro cordão umbilical oração da prosperidade mensagem de biscoito chinês pirâmide de cristal fitinha do senhor do Bonfim folha de arruda caroço de romã olho grego sachê de sal […]
- [Joan Brossa - O tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/08/19/joan-brossa-o-tempo/): Este verso é o presente. O verso que você leu é o passado – já envelheceu depois da leitura. O que resta do poema é o futuro, que existe fora da sua percepção. As palavras estão aqui, se você as leu ou não. E todo o poder terrestre não pode mudar isso. Trad.: Guilherme Gontijo […]
- [Iberê Schvartz - Das beiradas](https://singularidadepoetica.art/2019/08/18/ibere-schvartz-das-beiradas/)
- [Filipa Leal - Estátua da Liberdade](https://singularidadepoetica.art/2019/08/17/filipa-leal-estatua-da-liberdade/): E ali estava – nós a atravessarmos de barco a alegria: o pai ainda de bigode, de chapéu castanho, a mãe de óculos e echarpe, a Marta que em breve seria mãe também mas não sabia que transportava no útero mais um passageiro, o Miguel, pequenino e corajoso, sempre a tentar que os pés não […]
- [Joseph Stroud - Perdido](https://singularidadepoetica.art/2019/08/16/joseph-stroud-perdido/): O cervo se distancia de mim e continua sem pressaao longo da colina sem sequer olhar para trás,para onde estou, e de onde começo a cruzarum campo de neve dentro do meu corpo e me percoenquanto uma cinza branca cai do céu encobrindo meus rastrose não há como encontrar o caminho de volta. Trad.: Nelson […]
- [José Hierro - Réquiem](https://singularidadepoetica.art/2019/08/15/jose-hierro-requiem/): Manuel del Río, naturalda Espanha, faleceu no sábado,onze de maio, em consequênciade um acidente. Seu cadáverestá estendido na funerária D´Agostino. Haskell. Nova Jersey.Uma missa cantada será celebradaàs nove e meia, em St. Francis. É uma história que começacom sol e pedra, e que terminasobre uma mesa, no D’Agostino,com flores e círios elétricos.É uma história que […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O Sagrado](https://singularidadepoetica.art/2019/08/14/luis-alberto-de-cuenca-o-sagrado/): A maquiagem é suspeita, sempre.Tu, recém-saída da cama,sem nada além do teu gloriosocorpo desgastado pelas decepçõese pelos desenganos, mas eretocomo uma árvore ao vento da vidaque arrasta tudo pela frente:essa é minha religião, a únicavisão do sagrado que conheço. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter […]
- [Adelaide Ivánova - sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015](https://singularidadepoetica.art/2019/08/13/adelaide-ivanova-sobre-uma-foto-no-huffington-post-em-01-de-novembro-de-2015/): “Sobre uma foto no Huffington Post, em 01 de novembro de 2015”, um poema de Adelaide Ivanova que confronta a violência extrema contra mulheres com os limites da linguagem, da arte e da ação política.
- [Paulo Henriques Britto - Mosaico](https://singularidadepoetica.art/2022/06/10/paulo-henriques-britto-mosaico-2/): Os dias a amontoar-secomo se rumo a um sentido,algo que se assemelhassea uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo,claro — o que sabem os dias?)uma estrutura em relevo,espécie de marchetaria, com padrão indecifrável(por não seguir um projeto),mas assim mesmo um resguardo,um remédio contra o medo de nada haver — nem […]
- [Roderick Ford – Giuseppe](https://singularidadepoetica.art/2022/06/09/roderick-ford-giuseppe/): Meu tio Giuseppe me contouque na Sicília, durante a 2ª Guerra Mundial,no pátio atrás do aquário,onde a buganvília crescia tão bem,a única sereia cativa do mundofoi esquartejada no solo seco e empoeiradopor um médico e um peixeiro, dentre outros.Ela, aquilo, nunca aprendera a falarporque era simplória, ou assim diziam.Mas o padre que segurou uma de […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/08/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-4/): V Céu azul. Cores vivas. Você rindode alguma coisa ou alguém que está à esquerdado fotógrafo. É talvez domingo.É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagemextremamente, absurdamente nítida.E se fosse menor a claridade,ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou se fosse em sépia, ou preto […]
- [R. S. Thomas – O campo brilhante](https://singularidadepoetica.art/2022/06/07/r-s-thomas-o-campo-brilhante/): Eu vi o sol avançar atéiluminar um pequeno campopor um momento, segui meu caminhoe o esqueci. Mas aquela era umapérola de grande valor, o único campo comum tesouro dentro dele. Agora perceboque devo dar tudo o que tenhopara possuí-lo. A vida não está em lançar-se para um futuro que se afasta, nem ansiar por um […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Seis Sonetos Soturnos"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/06/paulo-henriques-britto-de-seis-sonetos-soturnos-2/): I A qualquer hora, o que se chama vidapode mudar da água pro vinho. Ou vice--versa. Cada palavra proferida —uma sentença grave, uma tolice —pode retornar feito um bumeranguecapaz de destruir o que encontrar.E nada que se funde em carne e sangueescapa dessas bólides de ar:o amor e demais estados de graça,reputações, ações, fazendas, gado,longos […]
- [Craig Santos Perez — Amor em tempos de mudanças climáticas](https://singularidadepoetica.art/2022/06/05/craig-santos-perez-amor-em-tempos-de-mudancas-climaticas/): Amor em tempos de mudanças climáticas reciclando o “Sonnet XVII”1 de Pablo Neruda Não te amo como se fosses metais raros da terra,diamantes de sangue ou reservas de petróleo bruto que provocama guerra. Eu te amo como amamos as espécies mais vulneráveis: urgentemente, entre o habitat e a sua perda. Eu te amo como se […]
- [Paulo Henriques Britto - Madrigal](https://singularidadepoetica.art/2022/06/04/paulo-henriques-britto-madrigal-2/): Desista: não vai dar certo.O mundo é o mesmo de sempre,desejo é uma coisa cega.Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam,os pés vão aonde não sabem.As cartas estão marcadas:vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo,desejo é uma porta aberta.Desista, que a vida é incerta.Ou insista. Dá no […]
- [Lucille Clifton - o poema do bebê perdido](https://singularidadepoetica.art/2022/06/03/lucille-clifton-o-poema-do-bebe-perdido/): na vez em que deixei cair seu quase corpopara encontrar as águas sob a cidadee nelas fluir com o esgoto para o maro que sabia eu sobre águas correndo de voltao que sabia eu sobre afogamentoou sobre ser afogada você teria nascido no invernono ano do gás desligadoe sem carro teríamos feito a singularcaminhada pela […]
- [Gwendolyn Brooks – a mãe](https://singularidadepoetica.art/2022/06/02/gwendolyn-brooks-a-mae/): “A mãe”, um poema de Gwendolyn Brooks que aborda a experiência do aborto a partir da perspectiva íntima e emocional de uma mulher que recorda os filhos que não chegaram a nascer.
- [Paulo Henriques Britto - Cuidado Poeta...](https://singularidadepoetica.art/2022/06/01/paulo-henriques-britto-cuidado-poeta-2/): Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.Depois de um certo número de páginasanjos não pousam mais nas entrelinhas.E até a lucidez, essa moderna,também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado,não se resolve com um só lance de dados.Não basta a precisão do gesto apenas.O gesto mais felino é quase […]
- [Victoria Kennefick – Monte submarino](https://singularidadepoetica.art/2022/05/31/victoria-kennefick-monte-submarino/): Da areia, você aponta onde ficava a loja,os correios, o bar;você me conta que caminhou até o vilarejo quando meninopara ficar nas esquinas, farejar o ar salgado. Tocos se erguem da argila na maré baixa,alinham-se como soldados derrotados, inclinam-se ao vento.Eles já foram árvores, agora lembram apenas ramos,esquecidos do verde vivo das folhas na primavera. […]
- [Paulo Henriques Britto - Soneto Inglês](https://singularidadepoetica.art/2022/05/30/paulo-henriques-britto-soneto-ingles-2/): A surpresa do amor — quando já não seespera do mundo nada em especial,e a evidência de que os anos vão seacumulando sem nenhum sinalde sentido já não dói nem comove —quando em matéria de felicidadenão se deseja mais que uns novemetros quadrados de privacidadepara abrigar os prazeres amenosdo sexo fácil e da literaturadifícil — […]
- [Daniel Filipe - Réquiem para um defunto vulgar](https://singularidadepoetica.art/2022/05/29/daniel-filipe-requiem-para-um-defunto-vulgar/): Antoninho morreu. Seu corpo resignadoé como um rio incolor, regressando à nascentenum silêncio de espanto e mistério revelado.Está ali – estando ausente. Jaz de corpo inteiro e fato preto.Ele, da cabeça aos pés,trivial e completo,estátua de proa e moço de convés. Jaz como se dormisse (pelo menosé o que dizem as velhas carpideiras).Jaz imóvel, sem […]
- [Paulo Henriques Britto - Crepuscular](https://singularidadepoetica.art/2022/05/28/paulo-henriques-britto-crepuscular-2/): 1.Chegamos tarde. (Era sempre maio,sempre madrugada. Tudo era turvo.Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidadeaberta, e uma loucura provisóriaera a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todoatento, em transe, em trânsito, no assédioa um ou outro flanco do lobo, fugindo de junho, perseguindo o agora,correndo […]
- [Joan Margarit - Amar é onde](https://singularidadepoetica.art/2022/05/27/joan-margarit-amar-e-onde/): “Amar é onde”, um poema de Joan Margarit que transforma o amor em território íntimo e duradouro, um lugar invisível onde a vida encontra sua origem e sua permanência.
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori II](https://singularidadepoetica.art/2022/05/26/paulo-henriques-britto-memento-mori-ii-2/): Luz frágil que brota no breue num rápido relance dá formae cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que podeàs aparências, acredita piamenteno sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forçascontra o conforto de apagar-se enfimpor trás de duas implacáveis pálpebras. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente […]
- [Laura Gilpin – O bezerro de duas cabeças](https://singularidadepoetica.art/2022/05/25/laura-gilpin-o-bezerro-de-duas-cabecas/): Amanhã, quando os rapazes da fazenda encontrarem estaaberração da natureza, eles envolverão seu corpo em jornal e o levarão para o museu. Mas esta noite ele está vivo e no campoao norte, com sua mãe. É uma noite perfeita de verão: a lua crescente sobreo pomar, o vento na grama. Equando ele olha para o […]
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori I](https://singularidadepoetica.art/2022/05/24/paulo-henriques-britto-memento-mori-i-2/): Nenhum sinal da solidão se vêlá onde o amor corrói a carne a fundo.Dentro da pele, no entanto, vocêé só você contra o mundo. Esta felicidade que abasteceseu organismo, feito um combustível,é volátil. Tudo que sobe desce.Tudo que dói é possível. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/12/2022
- [Gabrielle Calvocoressi – Sinto a sua falta. Gostaria de dar um passeio com você.](https://singularidadepoetica.art/2022/05/23/gabrielle-calvocoressi-sinto-a-sua-falta-gostaria-de-dar-um-passeio-com-voce/): Não importa se você acabou de chegar em seu esqueleto.Adoraria dar um passeio com você. Sinto a sua falta.Adoraria preparar um camarão saganaki para você.Como você costumava me fazer quando estava viva.Adoraria alimenta-la. Sentarmo-nos com uma fumegantetigela de pilaf. Pequenos tomates tostadoscobertos de pimenta e noz-moscada. Sinto a sua falta.Adoraria caminhar até os correios com […]
- [Paulo Henriques Britto - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2022/05/22/paulo-henriques-britto-acalanto-2/): Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a […]
- [Sahar Romani - Tarde na Andaluzia](https://singularidadepoetica.art/2022/05/21/sahar-romani-tarde-na-andaluzia/): E por que a geometria não seria igual à divindade 1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé senão a confiança no uno & infinito Uma vez em Granada observei um muro de polígonos ou eram estrelas ou abelhas ou por um segundo um fulgor de gladíolos em um campo até […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Três Epifanias Triviais"](https://singularidadepoetica.art/2022/05/20/paulo-henriques-britto-de-tres-epifanias-triviais/): As coisas que te cercam, até ondealcança tua vista, tão passivasem sua opacidade, que te impedemde enxergar o (inexistente) horizonte,que justamente por não serem vivasse prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção,essas coisas que você usa e esqueceassim que larga na primeira mesa —pois bem: elas vão ficar. Você, não.Tudo que […]
- [Ellen Bass – A dor de deus](https://singularidadepoetica.art/2022/05/19/ellen-bass-a-dor-de-deus/): Grande paique deve ter começadocom tantas expectativas.Que magnitude de sofrimento,imensidão de culpa,desconcertante desespero.Uma mente do tamanho do sol,ardendo em nostalgia,um coração enorme como o de uma baleia-cinzentarompendo, fluindona água do mar contra o céu claro.Deus homem ou deus animal,deus que respira em cada folha plissada,saco vocal de sapo, penugem e raque —deus do plutônio e […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Fragilidade](https://singularidadepoetica.art/2022/05/18/carlos-drummond-de-andrade-fragilidade-2/): Este verso, apenas um arabescoem torno do elemento essencial – inatingível.Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidadesde sono se depositam sobre a terra esfacelada.Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em […]
- [Sean Thomas Dougherty – Por que se importar?](https://singularidadepoetica.art/2022/05/17/sean-thomas-dougherty-por-que-se-importar/): Por que se importar?Porque agora há alguémlá fora com um machucado no formato exato de suas palavras. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Why Bother? Because right now, there is someone out there with a wound in the […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Ontem](https://singularidadepoetica.art/2022/05/16/carlos-drummond-de-andrade-ontem-2/): Até hoje perplexoante o que murchoue não eram pétalas. De como este banconão reteve forma,cor ou lembrança. Nem esta árvorebalança o galhoque balançava. Tudo foi brevee definitivo.Eis está gravado não no ar, em mim,que por minha vez,escrevo, dissipo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/11/2016
- [Steve Scafidi – Para o último búfalo americano](https://singularidadepoetica.art/2022/05/15/steve-scafidi-para-o-ultimo-bufalo-americano/): Porque as palavras fascinam sob a luz vertiginosa das coisase a alma é como um animal – caçada e lenta –este búfalo passeia por mim todas as noites como se eu fossealgum tipo de pradaria e se agacha contra a escuridão fria,bufando sob as estrelas enquanto a névoa de sua respiraçãoeleva-se no ar, e é […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Viagem na Família](https://singularidadepoetica.art/2022/05/14/carlos-drummond-de-andrade-viagem-na-familia-2/): A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabiraa sombra de meu paitomou-me pela mão.Tanto tempo perdido.Porém nada dizia.Não era dia nem noite.Suspiro? Voo de pássaro?Porém nada dizia. Longamente caminhamos.Aqui havia uma casa.A montanha era maior.Tantos mortos amontoados,o tempo roendo os mortos.E nas casas em ruína,desprezo frio, umidade.Porém nada dizia. A rua que atravessavaa cavalo, […]
- [Ada Limón – Viaduto](https://singularidadepoetica.art/2022/05/13/ada-limon-viaduto/): “Viaduto”, um poema de Ada Limon que revisita uma lembrança da infância para explorar a relação entre fascínio, natureza e mortalidade.
- [Carlos Drummond de Andrade - A Noite Dissolve os Homens](https://singularidadepoetica.art/2022/05/12/carlos-drummond-de-andrade-a-noite-dissolve-os-homens-2/): A noite desceu. Que noite!Já não enxergo meus irmãos.E nem tão pouco os rumoresque outrora me perturbavam.A noite desceu. Nas casas,nas ruas onde se combate,nos campos desfalecidos,a noite espalhou o medoe a total incompreensão.A noite caiu. Tremenda,sem esperança… Os suspirosacusam a presença negraque paralisa os guerreiros.E o amor não abre caminhona noite. A noite é […]
- [Robert Hayden – A nevasca](https://singularidadepoetica.art/2022/05/11/robert-hayden-a-nevasca/): Incapaz de dormir ou rezar, permaneçoao lado da janela olhando para as aluadas árvores envergadas pelo gelo de uma tempestade de dezembro. Bordo e freixo da montanha se curvamsob seu peso vítreo,seus galhos fendidos caindo sobrea neve congelada. As árvores em si, como nos invernos passados,sobreviverão a este fardo,quebradas florescerão. E eu sou menos para […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo](https://singularidadepoetica.art/2022/05/10/carlos-drummond-de-andrade-os-ombros-suportam-o-mundo-2/): Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.Tempo de absoluta depuração.Tempo em que não se diz mais: meu amor.Porque o amor resultou inútil.E os olhos não choram.E as mãos tecem apenas o rude trabalho.E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.Ficaste sozinho, a luz apagou-se,mas na sombra […]
- [Kelli Russell Agodon - Capelas imaginárias](https://singularidadepoetica.art/2022/05/09/kelli-russell-agodon-capelas-imaginarias/): Sento-me no chão de um museu com um homemque não conheço. Estamos contemplando um quadrode 1508. Maria parece triste mas não está chorando.Outro homem se senta à minha esquerda e encosta sua cabeçacontra a parede. Atrás de mim, uma mulher estáchorando. Eu me levanto e caminho em direção a um estranhoque está dizendo, Está tudo […]
- [Alan Jenkins – Pertences](https://singularidadepoetica.art/2022/05/08/alan-jenkins-pertences/): Leia Pertences, de Alan Jenkins, um poema comovente sobre luto, memória familiar e os vestígios materiais deixados pelos mortos.
- [Stanley Plumly – Rinoceronte branco](https://singularidadepoetica.art/2022/05/07/stanley-plumly-rinoceronte-branco/): O último da minha espécie, um dos últimos apreciadores das florese da grama das pastagens do norte, e certamenteum dos poucos habilitados a esfregar as costas no baobáe no carvalho centenário que ainda sobrevive no quintal. O truque está na pedra, parecer algo que se soltoude uma montanha, algo tão sobrante a ponto de nãoestar […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Inocentes do Leblon](https://singularidadepoetica.art/2022/05/06/carlos-drummond-de-andrade-inocentes-do-leblon-2/): Os inocentes do Leblonnão viram o navio entrar.Trouxe bailarinas?trouxe imigrantes?trouxe um grama de rádio?Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,mas a areia é quente, e há um óleo suaveque eles passam nas costas, e esquecem. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 08/11/2016 Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Robinson Jeffers - Regresso](https://singularidadepoetica.art/2022/05/05/robinson-jeffers-regresso/): Um pouco abstratos e um pouco sábios demais,É tempo de beijarmos a terra novamente,É tempo de deixar que as folhas chovam dos céus,Deixar que a rica vida corra para as raízes novamente.Eu irei para os Sur Rivers feiticeiros,E neles mergulharei meus braços até o peito.Encontrarei minha contabilidade onde treme a folha dos amieirosCom o vento […]
- [Cassiano Ricardo - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2022/05/04/cassiano-ricardo-testamento-2/): Deixo os meus olhos ao cegoque mora nesta rua.Deixo a minha esperançaao primeiro suicida.Deixo à polícia meu rasto,a Deus o meu último eco.Deixo o meu fogo-fátuoao mais triste viandanteque se perder sem lanternanuma noite de chuva.Deixo o meu suor ao fiscoque me cobriu de impostos;e a tíbia da perna esquerdaa um tocador de flautapara, com […]
- [Abdellatif Laâbi - Por que esta folha?](https://singularidadepoetica.art/2022/05/03/abdellatif-laabi-por-que-esta-folha/): Por que esta folha?Salvo por um detalhe,o mundo não mudouem tão pouco tempoSalvo por um detalheesta manhã é uma réplicacinzentada anteriorSalvo por um detalheo peso esmagador do peitonão se reduziu nem um gramaSalvo por um detalhesentimo-nos ainda vivosum pouco maisum pouco menosO mesmo equilíbriofrágil ou nãoSalvo por um detalheo de uma pergunta desconcertante:Por que esta […]
- [Jorge Valdés Días-Vélez - Pro nobis](https://singularidadepoetica.art/2022/05/02/jorge-valdes-dias-velez-pro-nobis/): Pro nobis para José Emilio Pacheco Uma vez mais, abriu o Averno suas mandíbulas escaldantes. Assomam os pesadelos e o terror da morte se o sono o invade e se transforma em chama negra, se, ao dormir, o levam até ele, ao lagar luxurioso dos demônios. O menino, mudo, contempla sua silhueta e chora. Na […]
- [Carlos Drummond de Andrade - José](https://singularidadepoetica.art/2022/05/01/carlos-drummond-de-andrade-jose-2/): E agora, José?A festa acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou,e agora, José?e agora, você?você que é sem nome,que zomba dos outros,você que faz versos,que ama, protesta?e agora, José? Está sem mulher,está sem discurso,está sem carinho,já não pode beber,já não pode fumar,cuspir já não pode,a noite esfriou,o dia não veio,o bonde não veio,o riso não […]
- [Mário Chamie - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2022/05/01/mario-chamie-fantasma-2/): Um fantasma ausentepõe tijolo sobretijolo ao seu redor. Primeiro mede o terrenoDivide o espaço.Calca com o péa plantaque não floresce.Mas que crescesob estacasde cimento. Depois, a ausênciase preenche.O fantasma movea cal, a pedra, a pá.O fantasma moveo corpo já presentedo lugar em que está. Presente e ausente,um fantasma se acasalaMove seu corpode carne e osso.Come […]
- [Cecília Meireles - Epigrama nº 7](https://singularidadepoetica.art/2022/04/30/cecilia-meireles-epigrama-no-7-2/): A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente no blog em 18/10/2016 Conheça outros livros de Cecília […]
- [Dilruba Ahmed – Fase um](https://singularidadepoetica.art/2022/04/29/dilruba-ahmed-fase-um/): Por ter deixado a geladeira abertaontem à noite, eu a perdoo.Por conjurar cortinas brancasem vez de viver a sua vida. Pelas mudas que murcham, agora,em pequenos potes, eu a perdoo.Por dizer não num primeiro momento,mas sim como uma reflexão tardia. Eu a perdoo pelas visões horrendasapós o parto, provocadas pela perdade sono. E quando o […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Um Bruxo Com Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/04/28/carlos-drummond-de-andrade-a-um-bruxo-com-amor-2/): “A Um Bruxo Com Amor”, um poema de Carlos Drummond de Andrade que convoca a sombra de Machado de Assis para celebrar, entre ironia e assombro, a permanência inquieta da literatura sobre o tempo e a morte.
- [Ted Kooser - Luz das estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/27/ted-kooser-luz-das-estrelas/): A noite toda, essa chuva suave do passado distante.Não admira que às vezes eu desperte como uma criança. Trad.: Nelson Santander Starlight All night, this soft rain from the distant past.No wonder I sometimes waken as a child.
- [Mário de Andrade - Poema da Amiga (VIII)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/26/mario-de-andrade-poema-da-amiga-viii-2/): Gosto de estar a teu lado,Sem brilho.Tua presença é uma carne de peixe,De resistência mansa e de um brancoEcoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti.Anoiteço feito um bairro,Sem brilho algum. Estamos no interior duma asaQue fechou. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 14/10/2016 Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
- [Sharon Olds - A corrida](https://singularidadepoetica.art/2022/04/25/sharon-olds-a-corrida/): Quando cheguei no aeroporto, corri até o guichê,comprei uma passagem, dez minutos depois me disseram que o voo tinha sido cancelado, os médicostinham dito que meu pai não sobreviveria àquela noitee o voo fora cancelado. Um jovemde bigode castanho-escuro me disseque de outra companhia aérea partiria um voosem escalas em sete minutos. Pegueaquele elevador, desça […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Carta aos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/04/24/affonso-romano-de-santanna-carta-aos-mortos-2/): Carta aos Mortos, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, reflete sobre a aparente marcha do progresso e as surpreendentes permanências da experiência humana.
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – A torre da dama](https://singularidadepoetica.art/2022/04/23/eilean-ni-chuilleanain-a-torre-da-dama/): Vazia, minha alta torre inclina-se Para trás no penhasco; meu colmo Conversa com a amplidão dispersa, Garças. A parede cinza Corta para baixo e encontra Um instável córrego inundado Por seixos, pequenas aves Mergulhadoras. Lá embaixo, meus porões sondam. Atrás de mim, as oblíquas veias da colina Se deslocam; úmida está minha cozinha, Aranhas escondidas […]
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – O quarto de um cavalheiro](https://singularidadepoetica.art/2022/04/23/eilean-ni-chuilleanain-o-quarto-de-um-cavalheiro/): Essas compridas sombras recuando,Um rio de telhados inclinando-se Do lado do vale.Frontões e chaminésE torres, com árvores aninhadas entre elas:Todas as formas de um cemitérioVistas do alto de sua janela. Um espelho em forma de caixão responde,Luz suave, polido, liso como a pele,Azul como grama cortada no gramado,Gravatas retorcidas dobradas sobre ele. Abrindo a porta, […]
- [José Luís Peixoto - na hora de pôr a mesa...](https://singularidadepoetica.art/2022/04/22/jose-luis-peixoto-na-hora-de-por-a-mesa-2/): na hora de pôr a mesa, éramos cinco:o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãse eu. depois, a minha irmã mais velhacasou-se. depois, a minha irmã mais novacasou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,na hora de pôr a mesa, somos cinco,menos a minha irmã mais velha que estána casa dela, menos a minha irmã […]
- [Francisco Brines - A realidade não permanece](https://singularidadepoetica.art/2022/04/21/francisco-brines-a-realidade-nao-permanece/): Esta tarde rebelde me leva a Bathe a ti, mas não à cidade de ruastranquilas, nem a quem tu deves ser hoje.O quarto fica maior na penumbraenquanto chove suavemente na rua.Há, na lareira, um fogo que aquecenossos corpos nus, e que iluminao vasto espaço de forma insuficiente.És a luz que o fogo de teus cabelose […]
- [José Luís Peixoto - Explicação da Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2022/04/20/jose-luis-peixoto-explicacao-da-eternidade/): REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 20/09/2016
- [Linda Pastan - Dor](https://singularidadepoetica.art/2022/04/19/linda-pastan-dor/): Mais fieldo que um amante ou maridoela se apega a ti,dando a si própria o teu sobrenomecomo se uma cerimônia tivesse acontecido. À noite, viras e revirasprocurando pela únicaposição suportável,mas mesmo que finalmente consigas dormir,ela acorda antes de ti. Como é pesada,desalojando com seu volumetoda tua energia vital.Antes tu parecias não pesar nada,teus braços poderiam […]
- [W. H. Auden - Blues Fúnebre (em duas traduções de Nelson Ascher)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/18/w-h-auden-blues-funebre-em-duas-traducoes-de-nelson-ascher/): BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto — […]
- [Brigit Pegeen Kelly – A partida](https://singularidadepoetica.art/2022/04/17/brigit-pegeen-kelly-a-partida/): Meu pai disse que eu não conseguiria fazê-lo,mas por toda noite eu colhi os pêssegos.O pomar estava silencioso, os canais funcionavam incessantemente.Eu era uma menina na época, meu peito era seu próprio jardim murado.Quantas são as escadas para a colheita em um pomar?Eu tinha apenas uma e uma grande paciência com as mãos acesase o […]
- [João Cabral de Melo Neto - A Viagem](https://singularidadepoetica.art/2022/04/16/joao-cabral-de-melo-neto-a-viagem-2/): Quem é alguém que caminhatoda manhã com tristezadentro de minhas roupas, perdidoalém do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendocomo se levassem nos bolsosdoces geografias, pensamentosde além do sonho e da rua? Alguém a cada momentovem morrer no longe horizontede meu quarto, onde esse alguémé vento, barco, continente. Alguém me diz toda a […]
- [Ellen Bass – Pelo tempo que quiser](https://singularidadepoetica.art/2022/04/15/ellen-bass-pelo-tempo-que-quiser/): No caminho para o cemitério, eu dormi.Não na limusine que levava o caixão da minha mãe,mas apagada em uma van, a família toda falando ao meu redor.Eu estava exausta do sofrimento dela, de seus apelos —me ajuda e chega, chega —e tentando fazer com que a morfina permanecesse na vala de suas gengivas.Como pude não ter estudado […]
- [Lewis Carroll - Jaguadarte](https://singularidadepoetica.art/2022/04/14/lewis-carroll-jaguadarte/): Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo. […]
- [Ellen Bass – Pinheiros de Ponary](https://singularidadepoetica.art/2022/04/13/ellen-bass-pinheiros-de-ponary/): Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles […]
- [Ada Limón - Instruções para não desistir](https://singularidadepoetica.art/2022/04/13/ada-limon-instrucoes-para-nao-desistir/): Mais do que os funis fúcsia rompendoda macieira, mais do que a exibição quaseobscena dos galhos da cerejeira do vizinho enfiandosuas flores cor de algodão doce no céu ardósiadas chuvas de primavera, é o verdejar das árvoresque realmente me comove. Quando todo o embate de brancoe caramelo e os berloques e bugigangas do mundo deixam,de […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2022/04/12/carlos-drummond-de-andrade-a-mesa/): E não gostavas de festa. . .Ó velho, que festa grandehoje te faria a gente.E teus filhos que não bebeme o que gosta de beber,em torno da mesa larga,largavam as tristes dietas,esqueciam seus fricotes,e tudo era farra honestaacabando em confidência.Ai, velho, ouvirias coisasde arrepiar teus noventa.E daí, não te assustávamos,porque, com riso na boca,e a […]
- [Jo Shapcott – Observadora de estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/11/jo-shapcott-observadora-de-estrelas/): Se eu não estou olhando para você, me perdoe; se pareçoestar esqudrinhando o céu,cabeça jogada para trás, curiosa,extática, reservada, andandoaleatoriamente no chãoà sua frente, meu público,me perdoe, e esqueça o que estáacontecendo em minhas células.É em você que estou pensandoe, voz lançada para o alto,é com você que estou falando, você. Estou tentando manter tudo […]
- [Robinson Jeffers - Cremação](https://singularidadepoetica.art/2022/04/10/robinson-jeffers-cremacao/): Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com […]
- [Geoffrey A. Landis – Ondulações no mar de Dirac](https://singularidadepoetica.art/2022/04/09/geoffrey-a-landis-ondulacoes-no-mar-de-dirac/): Trabalho vencedor do Prêmio Nebula de melhor conto de Ficção Científica de 1989.
- [Cynthia Huntington – O arrebatamento](https://singularidadepoetica.art/2022/04/09/cynthia-huntington-o-arrebatamento-poema/): Lembro-me de estar na cozinha, misturando ossos para a sopa,e de que, naquele momento, me tornei outra pessoa. Era uma noite de início de primavera, o ar da Califórnia estava ameno.Lá fora, o eucalipto se curvava compulsivamente sobre o trailer do vizinho, estacionado na entrada da garagem.A rua estava tranquila, pra variar, e todas as […]
- [Jaime Gil de Biedma - Lembre-se](https://singularidadepoetica.art/2022/04/08/jaime-gil-de-biedma-lembre-se-2/): Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo em sonhos na memória: estremece eterno o tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado rumo a um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre submergindo o passado. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no […]
- [Nelson Ascher - Visita ao asilo](https://singularidadepoetica.art/2022/04/07/nelson-ascher-visita-ao-asilo-poema/): Subsistem devagar nojardim da última infânciasorvendo desdentadosde vida (além de dentes) o caldo-de-galinhahospitalar dos dias.Opacas as retinase os tímpanos à prova de som, eles combinamremorsos de placentadensos de urina e restosmortais que, amortalhados folgadamente em peloacima do seu número,apegam-se obsessivosaos ossos descalci- ficados como, à ideiade podre, os urubus.Sinapse piedosaque, entre neurônios secos, censura todo […]
- [Jaime Gil de Biedma - Não Voltarei a ser Jovem](https://singularidadepoetica.art/2022/04/06/jaime-gil-de-biedma-nao-voltarei-a-ser-jovem-2/): Que é certo a vida passasó se começa a compreender mais tarde— como todos os jovens, decidilevar a minha vida por diante. Deixar marca eu queriae partir entre aplausos— envelhecer, morrer, eram somenteas dimensões do teatro. Porém, passou o tempoe a verdade mais amarga assoma:envelhecer, morrer,é o argumento único da obra. Trad.: José Bento REPUBLICAÇÃO: […]
- [Henry Wadsworth Longfellow - Casas assombradas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/05/henry-wadsworth-longfellow-casas-assombradas/): Todas as casas onde homens viveram e morreram São casas mal-assombradas. Pelo aberto portãoAs inofensivas almas, em suas tarefas, pairam, Com pés que quase nenhum ruído produzem no chão. Nós as encontramos na escadaria, no corredor, Pelas passagens através das quais elas vêm e vão,impalpável impressão no ar ao nosso derredor, Sensação de algo em […]
- [Cassiano Ricardo - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2022/04/04/cassiano-ricardo-o-espelho-2/): Um meio-dia nu, numa enorme moldurade prata.Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo.Mas não é nada. É apenas um espelho.Um rico espelho. De extraordinário fulgor.Próprio pra ser colocado à paredede um ministério da Fazenda, ou de uma casade jogo. Toda a cidade cabe dentro dele.Árvores, automóveis, povo, casas de comércioe vendedores de jornais, […]
- [Andrea Cohen - Recusa em lamentar](https://singularidadepoetica.art/2022/04/03/andrea-cohen-recusa-em-lamentar-poema/): Em vez de flores, mande- o de volta.Trad.: Nelson Santander Refusal to Mourn In lieu of flowers, send him back.
- [William Blake - London (c.1790)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/02/william-blake-london-c-1790-2/): Perambulo por todas as ruas com barreirasVizinhas de onde o próprio TâmisaEntre barreiras flui, e em cada face que encontroMarco marcas de fraqueza, marcas de pesar. Ouço o ruído dos grilhões mentais apostosEm cada alocução de cada homemNo grito de temor de cada infanteNas vozes todas, em cada interdição. Como o grito dos meninos que […]
- [Joan Margarit – Coisas em comum](https://singularidadepoetica.art/2022/04/01/joan-margarit-coisas-em-comum-poema/): Ter-nos conhecidoem um outono num trem que ia vazio;A radiante, embora cruel,promessa do desejo.A cicatriz da melancoliae o velho afeto com o qual compreendemosos motivos do lobo.A lua que acompanha o trem noturnoBarcelona-Paris.Uma faca de luz para os crimesque por amor devemos cometer.Nossa maldita e inocente sorte.A voz do mar, que sempre te diráonde estou, […]
- [William Blake - A Tirzah](https://singularidadepoetica.art/2022/03/31/william-blake-a-tirzah-2/): Tudo que nasceu para morrerDeve-se a terra misturarPara da geração se libertar:Então, que tenho eu a ver contigo? Do orgulho e da vergonha nasce o sexoPela manhã florido, à tarde morto.Mas a piedade faz da Morte sonoE os sexos se levantam para o trabalho e o pranto. Tu, mãe da minha mortal parteQue cruelmente meu […]
- [Nickole Brown - Susto](https://singularidadepoetica.art/2022/03/30/nickole-brown-susto-poema/): Deixe-me dizer-lhe — nenhum animal de longe é o mesmoque de perto. Ou seja, uma baleia em uma revista podeparecer majestosa e livre, mas o que você não vê équão perto da superfície ela adormece,como a luz a empola deixando-a em carne viva e comoas gaivotas rasgam sua pele queimada pelo sol, alçando ao aros […]
- [Lêdo Ivo - A Queimada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/29/ledo-ivo-a-queimada-2/): Queime tudo o que puder:as cartas de amoras contas telefônicaso rol de roupas sujasas escrituras e certidõesas inconfidências dos confrades ressentidosa confissão interrompidao poema erótico que ratifica a impotênciae anuncia a arterioscleroseos recortes antigos e as fotografias amareladas.Não deixe aos herdeiros esfaimadosnenhuma herança de papel. Seja como os lobos: more num covile só mostre à […]
- [Victoria Kennefick – Depoimento](https://singularidadepoetica.art/2022/03/28/victoria-kennefick-depoimento-poema/): Eu te amo como as ondas amam os penhascos.Elas lançam saias de rendas contra os rochedos,pernadas de dançarinas do can-can escalam até o topo,e voltam para o mesmo lugar; espuma se agarra – um beijo.Algumas vezes, elas levam coisas usadas para a praia;em outras, deslizam em silêncio, sem nada dizer,cavam, escondem-se no eco-escuro –esperam até […]
- [Cassiano Ricardo - Ladainha](https://singularidadepoetica.art/2022/03/27/cassiano-ricardo-ladainha-2/): Por que o raciocínio,os músculos, os ossos?A automação, ócio dourado.O cérebro eletrônico, o músculomecânicomais fáceis que um sorriso. Por que o coração?O de metal não tornará o homemmais cordial,dando-lhe um ritmo extra-corporal? Por que levantar o braçopara colher o fruto?A máquina o fará por nós.Por que labutar no campo, na cidade?A máquina o fará por […]
- [David Whyte - O verdadeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2022/03/26/david-whyte-o-verdadeiro-amor-poema/): “O verdadeiro amor”, um poema de David Whyte que apresenta o amor como travessia íntima e corajosa, onde dizer “sim” à mão estendida é escolher viver depois de anos à deriva.
- [Heinrich Heine - Morfina](https://singularidadepoetica.art/2022/03/25/heinrich-heine-morfina-2/): É grande a semelhança desses doisjovens e belos vultos, muito emboraum pareça mais pálido e severoou, posso até dizer, bem mais distintodo que o outro, o que, terno, me abraçava.Havia em seu sorriso tanto afeto,carinho e, nos seus olhos,tanta paz!Ornada de papoulas, sua frontetocava a minha, às vezes – e seu raroodor me dissipava a […]
- [Lucille Clifton – o que eu sei é isso](https://singularidadepoetica.art/2022/03/24/lucille-clifton-e-isso-o-que-eu-sei-poema/): o que eu sei é isso:minha mãe enlouqueceuna casa dos meus paispor falta de carinho o que eu sei é isso:os dias de algumas mulheressão desperdiçadosnas cozinhas de suas vidasé por isso que eu sei:os deusessão homens Trad.: Nelson Santander this is what i know this is what i know my mother went mad in […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Congresso Internacional do Medo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/23/carlos-drummond-de-andrade-congresso-internacional-do-medo-2/): Provisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,não cantaremos o ódio porque esse não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores, […]
- [Czesław Miłosz – Dádiva](https://singularidadepoetica.art/2022/03/22/czeslaw-milosz-dadiva-poema/): Um dia tão feliz.O nevoeiro cedo dissipou-se, e eu trabalhei no jardim.Os Beija-Flores se detinham sobre as flores de madressilva.Não havia nada na terra que eu quisesse possuir.Eu não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.Qualquer mal que eu tivesse sofrido, esqueci.Pensar que uma vez eu fui o mesmo homem não me envergonhava.Em meu corpo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Medo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/21/carlos-drummond-de-andrade-o-medo-2/): Em verdade temos medo.Nascemos escuro.As existências são poucas:Carteiro, ditador, soldado.Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo.Cheiramos flores de medo.Vestimos panos de medo.De medo, vermelhos riosvadeamos. Somos apenas uns homense a natureza traiu-nos.Há as árvores, as fábricas,Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor,este célebre sentimento,e o amor faltou: chovia,ventava, fazia frio em São Paulo. Fazia […]
- [Linda Pastan - Estou aprendendo a abandonar este mundo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/20/linda-pastan-estou-aprendendo-a-abandonar-o-mundo-poema/): Estou aprendendo a abandonar este mundoantes que ele possa me abandonar.Já renunciei à luae à neve, fechando minhas persianascontra as reivindicações do branco.E o mundo levoumeu pai, meus amigos.Abandonei as linhas melódicas das colinas,mudando para uma paisagem plana, dissonante.E toda noite abandono meu corpo,membro por membro, seguindoatravés dos ossos, em direção ao coração.Mas a manhã […]
- [Rainer Maria Rilke - Morgue](https://singularidadepoetica.art/2022/03/19/rainer-maria-rilke-morgue-2/): Estão prontos, ali, como a esperarque um gesto só, ainda que tardio,possa reconciliar com tanto frioos corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim.Que nome no seu bolso já vaziohá por achar? Alguém procura, enfim,enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só ficam mais polidos.A barba está mais […]
- [Dan Gerber – Cinema Paradiso](https://singularidadepoetica.art/2022/03/18/dan-gerber-cinema-paradiso-poema/): No final de novembropalavras apareceram na ponta da minha canetacomo a resposta a uma pergunta queeu ainda não havia feito.Uma tornou-se um condor; outra,uma nuvem,enquanto uma terceira palavra, espinhosidade,ganhou vida no sonho de um cardo.O que é mais real,a neve ou a bola de neve,a palavra ou as letras que acompõe?Eu empacotei a neve, uma […]
- [Ruy Proença - Tiranias](https://singularidadepoetica.art/2022/03/17/ruy-proenca-tiranias-2/): antigamentediziam: cuidado,as paredes têm ouvidos entãofalávamos baixonos policiávamos hojeas coisas mudaram:os ouvidos têm paredes de nadaadiantagritar REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/05/2016 Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui
- [Billy Collins - O desfile](https://singularidadepoetica.art/2022/03/16/billy-collins-o-desfile-poema/): Que emocionante foi marcharao longo das grandes avenidasdebaixo do clarão das trombetase sob todas as bandeiras tremulantes —a bandeira da ambição, a bandeira do amor. Tantos de nós fluindo ao longo do caminho —toda a humanidade, na verdade —movendo-se em perfeita sintonia,mas cada qual perdido no quarto de um sonho particular. Como é estimulante a […]
- [Darcy Ribeiro - A Indesejada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/15/darcy-ribeiro-a-indesejada-2/): Aí estão eles, os da terceira idade.Gregários, vivem aos bandos.Sentados, jogando cartas, andando devagar.Conversando pretéritos assuntos.Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos.Hoje, são sogros, os chatos dos sogros.Uns são viúvos, outros largados, poucos.Muitos deles, os mais, ainda casados.As mulheres duram demais. Órfãos de seus filhos, ocupadíssimos.Não reclamam, resmungam disfarçados.Estão todos aflitos, na […]
- [Carolyn Creedon – Mulher, minada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/14/carolyn-creedon-mulher-minada-poema/): Na seção de cosméticos da Lord & Tayloreles a levarão para um lugar bem exposto, claro como o dia, e a fotografarão com uma câmera ultravioleta,mostrando-lhe o que você fez com sua pele apenaspor viver, seu rosto subitamente exposto, como aquilo querealmente está acontecendo sob uma tora levantada, a verdadeira vocêque você é, capturada e […]
- [Darcy Ribeiro - Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/03/13/darcy-ribeiro-amor/): “Amor”, um poema de Darcy Ribeiro que assume a paixão como força carnal absoluta, onde dois corpos se afirmam contra o mundo na vertigem do desejo.
- [Donizete Galvão - Ruminações](https://singularidadepoetica.art/2022/03/12/donizete-galvao-ruminacoes-poema/): Nunca saí dessa roceira Minasque nos dá aflição e dor como herança.Lamaçal de bosta de vacano curral bem em frente da casa.Cheiro de leite azedo nos latõese de óleo queimado para expulsar bernes.Jardins de dália e corações magoados,chás de consolda e escaldados de quirera.A avó socando o arroz no pilão,preparando decoada para o sabãoou com […]
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2022/03/11/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4-3/): Nada vos ofertoalém destas mortesde que me alimento Caminhos não háMas os pés na gramaos inventarão Aqui se iniciauma viagem clarapara a encantação Fonte, flor em fogo,quem é que nos esperapor detrás da noite ? Nada vos sovino:com a minha incertezavos ilumino REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 23/04/2016
- [Ellen Bass – Pinheiros de Ponary](https://singularidadepoetica.art/2022/03/10/ellen-bass-pinheiros-de-ponary-poema/): Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2022/03/09/caetano-veloso-o-homem-velho-3/): O homem velho deixa a vida e morte para trásCabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca maisO grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinaisO homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao solAs linhas do destino nas mãos a mão apagouEle já tem […]
- [Anne Sexton – Para um amigo que alcançou o sucesso no trabalho](https://singularidadepoetica.art/2022/03/08/anne-sexton-para-um-amigo-cujo-trabalho-alcancou-o-trinfo/): Considere Ícaro, colando aquelas asas viscosas,experimentando aquele estranho puxão em suas omoplatas,e pense naquele primeiro impecável momento sobre o gramadodo labirinto. Pense em como isso fez diferença!Lá embaixo encontram-se as árvores, tão desajeitadas quanto os camelos;e aqui, os estupefatos estorninhos que passame pensam que o inocente Ícaro está indo muito bem:maior do que uma vela […]
- [Cassiano Ricardo - O Relógio](https://singularidadepoetica.art/2022/03/07/cassiano-ricardo-o-relogio-2/): Diante de coisa tão doídaconservemo-nos serenos. Cada minuto de vidanunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma faceDo não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nascejá se começa a morrer. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 17/04/2016
- [Otto Renê Castillo – Os Amantes](https://singularidadepoetica.art/2018/04/10/otto-rene-castilho-os-amantes/): "Os Amantes", um poema de Otto René Castillo que retrata um encontro breve e uma separação dolorosa, transformando o último beijo dos amantes em metáfora cósmica — um planeta azul cuja luz continua a sustentar suas vidas mesmo na ausência.
- [Charles Bukowski – Para Jane Cooney Baker, morta em 22/01/1962](https://singularidadepoetica.art/2018/04/09/charles-bukowski-para-jane-cooney-baker-morta-em-22-01-1962/): e então você se foime deixando aquinum quarto com uma cortina rasgadae o Idílio de Siegfried tocando no radinho vermelho. e então você se foi tão rápidoquanto quando você veio pra mim,e nós tínhamos dito adeus antes,e quando eu estava limpando seu rosto e lábiosvocê abriu os maiores olhos que eu já tinha vistoe disse […]
- [Manuel António Pina - Talvez de noite (1)](https://singularidadepoetica.art/2018/04/08/manuel-antonio-pina-talvez-de-noite-1/): À minha volta tudo envelheceu como se fosse eu, e no entanto uma casa, ou um espaço em branco entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido. Pois nada surge com a sua própria forma. Digo “casa”, mas refiro-me a luas e umbrais, a lembranças extenuadas, às trevas do corpo, lúcidas, latejando na obscuridade de […]
- [Francisca Aguirre – E se, depois de tudo](https://singularidadepoetica.art/2018/04/07/francisca-aguirre-e-se-depois-de-tudo/): E se, depois de tudo, fosse o resto um ir morrendo para ao fim morrermos por este louco afã de convertermo-nos em contadores de um momento lesto. E se afigura que o correto era este sermão que vem nos repetir que avança o furacão de nos ferir, e é vã e absurda esta carreira. Então […]
- [Hilda Hilst - de "Do Desejo"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/06/hilda-hilst-de-do-desejo/)
- [Yehuda Amichai – Na história do nosso amor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/05/yehuda-amichai-na-historia-do-nosso-amor/): Na história do nosso amor, um foi sempre Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo. Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado. O tempo passará por nós, como paisagens Passam por trás de atores parados em suas marcas Quando se roda um filme. As palavras Passarão por nossos lábios, até as lágrimas […]
- [Miguel Torga – Comunicado](https://singularidadepoetica.art/2018/04/04/miguel-torga-comunicado/): Na frente ocidental nada de novo. O povo Continua a resistir. Sem ninguém que lhe valha, Geme e trabalha Até cair.
- [Pedro Salinas - De "La voz a ti debida" [39]](https://singularidadepoetica.art/2018/04/03/pedro-salinas-de-la-voz-a-ti-debida-39/): A tua forma de amaré deixar-me que te queiras.O sim com que tu te rendesé o silêncio. Teus beijossão oferecer-me os lábiospara que eu possa beija-los.Jamais palavras, abraços,me dirão que existias,que me quiseste: jamais.Dizem-mo as folhas brancas,mapas, augúrios, chamadas;tu, não.E fico abraçado a tisem perguntar-te, de medoque não seja verdadeiroque tu vives e me ama.E […]
- [Júlio Mendonça - Galáxias](https://singularidadepoetica.art/2018/04/02/julio-mendonca-galaxias/)
- [Sylvia Plath – Limite](https://singularidadepoetica.art/2018/04/01/sylvia-plath-limite/): A mulher está perfeita. Seu corpo Morto enverga o sorriso de completude, A ilusão de necessidade Grega voga pelos veios da sua toga, Seus pés Nus parecem dizer: Já caminhamos tanto, acabou. Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca, Uma para cada pequena Tigela de leite vazia. Ela recolheu-as todas Em seu corpo, como pétalas Da […]
- [Manuel António Pina – Depois](https://singularidadepoetica.art/2018/03/31/manuel-antonio-pina-depois/): Primeiro sabem-se as respostas. As perguntas chegam depois, como aves voltando a casa ao fim da tarde e pousando, uma a uma, no coração quando o coração já se recolheu de perguntas e de respostas. Que coração, no entanto, pode repousar com o restolhar de asas no telhado? A dúvida agita os cortinados e nos […]
- [Mary Oliver – Como é conosco, e como é com eles](https://singularidadepoetica.art/2018/03/30/mary-oliver-como-e-conosco-e-como-e-com-eles/): Nós nos tornamos religiosos, depois nos afastamos disso, depois ficamos carentes e talvez voltemos atrás. Nos dedicamos a ganhar dinheiro, depois nos voltamos para a vida moral, depois pensamos novamente em dinheiro. Conhecemos pessoas maravilhosas, mas as perdemos para os nossos negócios. Estamos, como diz o refrão, por toda parte. A constância, aparentemente, tem mais […]
- [Laia Noguera i Clofent – Sem título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/29/laia-noguera-i-clofent-sem-titulo/): Amo a vida simples, sentar-me à entrada para ver o ir e vir das pessoas, como se move um pardal, como se inclina a tarde nas casas do corpo. Já sei que morrerei muito antes de morrerem as árvores que amo. Mas nada me preocupa, porque no instante em que se me romper o último […]
- [Nicanor Parra – Composições](https://singularidadepoetica.art/2018/03/28/nicanor-parra-composicoes/): I Cuidado, todos mentimos Mas eu proclamo a verdade. A matemática enfada Mas nos dá o de comer. Por outro lado, se escreve Poema para viver Ninguém gosta de assumir Culpa por vidros quebrados. Se escreve contra si mesmo Em virtude dos demais Que indecente é fazer versos! Quando menos se esperar Darei um tiro […]
- [Anne Sexton – A Terra Desmorona](https://singularidadepoetica.art/2018/03/27/anne-sexton-a-terra-desmorona/): Se eu pudesse culpar o clima por tudo, a neve como a mesa de dissecação, as árvores que se tornam agulhas de tricô, o chão, tão rijo como uma arinca congelada, o lago vestindo seu bigode de geada. Se eu pudesse culpar tais circunstâncias, se eu pudesse culpar os corações de estranhos descendo as ruas […]
- [Aldo Oliva – O Elevador de Hera](https://singularidadepoetica.art/2018/03/26/aldo-oliva-o-elevador-de-hera/): Dizem os insetos sensatos e sensíveis que as paredes e os grandes muros são apenas um hausto veemente conjurando o nada, o infinito. Por estes ladrilhos de não-ser ascendem, como habitáculos de fúria, os corpos corrompidos das palavras. Quem me impôs, rasgando minha inocência animal na base da minha profundidade biológica, esta ascensão conjetural? Só […]
- [Carlos Saraiva Pinto – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/25/carlos-saraiva-pinto-sem-titulo-poema/): Sem Título, um poema de Carlos Saraiva Pinto
- [José Lino Grünewald - Soneto Burocrático](https://singularidadepoetica.art/2018/03/24/jose-lino-grunewald-soneto-burocratico-poema/): Salvo melhor juízo doravante, Dessarte, data vênia, por suposto, Por outro lado, maximé, isso posto, Todavia deveras, não obstante Pelo presente, atenciosamente, Pede deferimento sobretudo, Nestes termos, quiçá, aliás, contudo Cordialmente alhures entrementes Sub-roga ao alvedrio ou outrossim Amiúde nesse ínterim, senão Mediante qual mormente, oxalá quão Via de regra te-lo-ão enfim Ipso facto outorgado, […]
- [Marcelo Montenegro - Forte Apache](https://singularidadepoetica.art/2018/03/23/marcelo-montenegro-forte-apache/): Noel Rosa dizia que era universal sem sair de seu quarto. Elvis Costello disse que o rock ‘n’ roll não morrerá porque sempre vai ter um garoto trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém nunca viu. Laura Riding, por seu turno, falava da pretensão de “escrever sobre um assunto/ que tocasse todos os assuntos/ […]
- [Charles Bukowski – Agarre o Escuro](https://singularidadepoetica.art/2018/03/22/charles-bukowski-agarre-o-escuro/): estou sentado aqui agora bêbado escutando as mesmas sinfonias que me deram a vontade de seguir em frente quando eu tinha 22 anos. 40 anos depois elas e eu já não somos mais tão mágicos. você deveria ter-me visto tão esbelto sem barriga eu era um pedaço de homem: flamejante, forte, insano. dissesse uma palavra […]
- [Antonia Pozzi – Pausa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/21/antonia-pozzi-morte-de-uma-estacao/): Parecia-me que este dia sem ti devia ser inquieto, escuro. Em vez disso está repleto de uma estranha doçura, que aumenta com o passar das horas – quase como a terra após um aguaceiro, que fica sozinha no silêncio a beber a água caída e pouco a pouco nas veias mais profundas se sente penetrada. […]
- [Marcelo Montenegro - Três Pensatos](https://singularidadepoetica.art/2018/03/20/marcelo-montenegro-tres-pensatos/): 1. penso naquela única gota gelada do chuveiro quente. Nas ilíadas clandestinas que a febre percorre até virar suor. Penso nas caretas que os músicos fazem quando estão solando. No meu pai me dizendo que tudo isso aqui era mato. Penso na imagem exata de uma aurora indecisa. Penso em calços de papelão para pianos […]
- [Ana Martins Marques – História](https://singularidadepoetica.art/2018/03/19/ana-martins-marques-historia/): Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem um história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma […]
- [Charles Bukowski – Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/03/18/charles-bukowski-um-poema-de-amor/): “Um poema de amor”, um poema de Charles Bukowski que atravessa corpos e quartos para revelar, sob a crueza do desejo, a necessidade humana de afeto que sustenta e inquieta.
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Os Erros](https://singularidadepoetica.art/2018/03/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-2/): A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a […]
- [Ricardo Domeneck – Doentes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ricardo-domeneck-doentes/): Doentes. Nós, todos doentes. Há tanto doentes todos. Nós. Pungidos, conquanto impunes. Não, não impunes. Não se constrói impune a casa sobre covas. Não se ergue o prédio em grão-cemitério. Não sem velar e lavar carinhosos e doridos os ossos e os dentes. Não impunes. Doentes de cada gota derramada. Por nós ou avós. Os […]
- [Ana Martins Marques – a parte que me cabe](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ana-martins-marques-a-parte-que-me-cabe/): a parte do teu corpo que procura pelo sol como os gatos pela casa a parte que permanece imóvel quando cantas, aquela que se move quando estás parado a parte que apenas a mim e de relance, por descuido revelaste a parte onde guardas as memórias de infância, a parte que ainda anseia pelo futuro […]
- [Charles Bukowski – Os Gênios da Raça](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/charles-bukowski-os-genios-da-raca/): não há nada a discutir não há nada a lembrar não há nada a esquecer é triste e não é triste parece que a coisa mais sensata que uma pessoa pode fazer é se sentar com uma bebida na mão enquanto as paredes acenam seus sorrisos de adeus alguns passam por tudo isso com uma […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Escuto](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-escuto/): Escuto mas não sei Se o que ouço é silêncio Ou deus Escuto sem saber se estou ouvindo O ressoar das planícies do vazio Ou a consciência atenta Que nos confins do universo Me decifra e fita Apenas sei que caminho como quem É olhado, amado e conhecido E por isso em cada gesto ponho […]
- [Charles Bukowski – Outra Cama](https://singularidadepoetica.art/2018/03/14/charles-bukowski-outra-cama/): outra cama outra mulher mais cortinas outro banheiro outra cozinha outros olhos outro cabelo outros pés e dedos. todos à procura. a busca eterna. você fica na cama ela se veste para o trabalho e você se pergunta o que aconteceu à última e à outra antes dela… é tudo tão confortável — esse fazer […]
- [Eloy Sánchez Rosillo - Aviso aos Caminhantes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/13/eloy-sanchez-rosillo-aviso-aos-caminhantes/): Na soma de dias indeterminados que a vida dá ao homem, talvez exista um em que o destino, trágico e belo, passe ao nosso lado e o acaso acenda uma insólita luz, um incomum fulgor inconfundível. Mas não hesites. Tem coragem, quando chegar o momento, de abandonares as coisas com que os hábitos sempre te […]
- [Marcia Vinci – Mãe Solteira](https://singularidadepoetica.art/2018/03/12/marcia-vinci-mae-solteira/): dadeira parideira nutriz criadeira toda mãe é sozinha toda mãe é solteira
- [Vicente Gaos - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2018/03/11/vicente-gaos-testamento/): Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil anos de idade, de estado civil solitário, instável domiciliado/refugiado em um canto do cosmos, profissão náufrago na sombra, sem documento de identidade, sem títulos, condecorações nem diplomas de qualquer tipo, nenhum sinal particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo, sem nenhuma cicatriz além […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Perdão, falava em voz alta](https://singularidadepoetica.art/2018/03/10/ernesto-perez-vallejo-perdao-falava-em-voz-alta/): Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguém Nunca poderão decepcioná-la. A esperança é aquele relógio que sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezes como diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes. Mas, quando tristes, […]
- [Javier Salvago - Fim de Festa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/09/javier-salvago-fim-de-festa/): Enfim sós, vida. A festa acabou e não há mais ninguém que possa nos obrigar a forçar sorrisos, ou a inventar incômodas mentiras piedosas. Todos sumiram. Despe-te sem medo. Conheço as velhas rugas de tua carne triste. Acariciei-as. Sei o que teu rosto oculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncio […]
- [Luis Cernuda – No Meio da Multidão](https://singularidadepoetica.art/2018/03/08/luis-cernuda-no-meio-da-multidao/): Em meio à multidão a vi passar, com seus olhos tão dourados quanto seus cabelos. Caminhava cortando o ar e os corpos; uma mulher se ajoelhou em seu caminho. Senti como o sangue desertava de minhas veias gota a gota. Vazio, andei sem rumo pela cidade. Gente estranha passava a meu lado sem me ver. […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Insônia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/07/luis-alberto-de-cuenca-insonia/): A vida dura muito pouco. Não dá tempo de se fazer nada. Não há meios de reunir dias suficientes para aprender algo. Levantas, abraças tua namorada, tomas teu café da manhã, trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema, e nem sequer tens um momento para ler Sêneca e acreditar que tudo neste mundo tem conserto. A […]
- [Charles Bukowski – Até](https://singularidadepoetica.art/2018/03/06/charles-bukowski-ate/): Nós temos que viver com a perda e talvez jogar com uma mão de cartas ruim e nós sabemos o tempo todo qual é o placar. Nós o suportamos como Hemingway ou o descartamos como Camus mas nós sabemos nós sabemos. É assim que funciona e damos corda no relógio e esperamos pela madrugada ou […]
- [Manuel António Pina - Sétimo Dia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/05/manuel-antonio-pina-setimo-dia/): Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua morte para a nossa vida como quem regressa a casa de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países, e agora é como se te tivéssemos sonhado. A voz que, diante da escuridão, suspendemos quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti erguemo-la de […]
- [A. M. Pires Cabral – Pirilampos III](https://singularidadepoetica.art/2018/03/04/a-m-pires-cabral-pirilampos-iii/): Mas também estes negadores das trevas desertaram: Já não se vêem pirilampos, o seu lume deixou de desmentir a escuridão. Apagaram a lanterna, retiraram para um lugar qualquer onde talvez já não valha a pena alumiar – algures entre o frio e o esquecimento (se é que frio e esquecimento não são nomes alternativos da […]
- [Josep M. Rodríguez - Primeira Visita ao Zoológico](https://singularidadepoetica.art/2018/03/03/josep-m-rodriguez-primeira-visita-ao-zoologico/): Tinha doze anos e a minha mãe me presenteava com um mundo só para mim: – Se a tristeza fosse um animal? – Se a tristeza fosse um animal… seria um besouro. E dizia-lhe então que havia dias em que esse besouro fabricava uma bola muito grande na minha garganta. Os olhos da minha mãe […]
- [Joaquín Benito de Lucas – Elegia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/02/joaquin-benito-de-lucas-elegia/): Quando agora retorno à minha cidade, não posso conter a emoção de saber que não me esperam. Não me espera meu pai, que desceu rio abaixo muito lentamente entre os juncos, sob pontes de névoa. Não me espera meu irmão, que me esperava sempre ao lado de um balcão qualquer, em uma rua qualquer brindando […]
- [Rosario Castellanos - Destino](https://singularidadepoetica.art/2018/03/01/rosario-castellanos-destino/): Matamos o que amamos. O resto nunca esteve vivo. Ninguém está tão perto. A nenhum outro fere um esquecimento, uma ausência, às vezes menos. Matamos o que amamos. Que cesse esta asfixia de respirar por um pulmão distante! O ar não é suficiente para os dois. E não basta a terra para os corpos juntos […]
- [Charles Bukowski – O Matador Sorri](https://singularidadepoetica.art/2018/02/28/charles-bukowski-o-matador-sorri/): as antigas namoradas ainda telefonam algumas do ano passado algumas do ano retrasado algumas de anos atrás é bom poder por um fim nas coisas que não funcionam também é bom não odiar ou mesmo esquecer a pessoas com quem você falhou. aprecio quando elas me dizem que estão tendo sorte com um homem sorte […]
- [Carlos Alberto Machado – Chegaste à Idade da Morte](https://singularidadepoetica.art/2018/02/27/carlos-alberto-machado-chegaste-a-idade-da-morte/): Chegaste à idade da morte dos teus amigos também agora começas a distingui-los cai um e depois outro e tu apressas o passo desta vez vais discutir o terreno palmo a palmo não saberias o que fazer se a solidão se despovoasse.
- [Albano Martins – A Dor](https://singularidadepoetica.art/2018/02/26/albano-martins-a-dor/): Não ponhas o dedo na ferida. Deixa a dor respirar em segredo. L delor Nun pongas l dedo na frida. Deixa l delor ceçar an segredo.
- [Germana Zanettini - Leia Antes de Usar](https://singularidadepoetica.art/2018/02/25/germana-zanettini-leia-antes-de-usar/): não, aqui não há lugares reservados [de antemão já lhe adianto: nem adianta olhar para os lados] o ambiente não é climatizado os assentos não são flutuantes e máscaras de oxigênio não cairão sobre suas cabeças para sua segurança e conveniência informamos que a vida não vem equipada com saídas de emergência
- [Margareta Ekström - O Funeral](https://singularidadepoetica.art/2018/02/24/margareta-ekstrom-o-funeral/): Na noite do funeral eles abraçaram-me, beijaram-me, mesmo esses que habitualmente não beijam. Apoiaram-me e perguntaram se precisava de soporíferos, estimulantes, um xerez ou companhia para a noite. Cada noite é um funeral mas ninguém vem para me abraçar. Ninguém pergunta como as coisas vão se preciso de companhia para a noite, um xerez, um […]
- [Juan Luis Panero - Epitáfio diante de um Espelho](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-luis-panero-epitafio-diante-de-um-espelho/): Dura há de ser a vida para ti, que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez, para ti, cuja única certeza é tua memória e, por isso, teu sepulcro mais infausto. Dura há de ser a vida, quando os anos passarem e destruírem por fim a ilusória pátria da tua adolescência, quando vires, como hoje, […]
- [Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-vicente-piqueras-nomes-borrados/): A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiosnem os pronomes nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o […]
- [Diego Moraes - Já se passaram dez anos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/22/diego-moraes-ja-se-passaram-dez-anos/): Já se passaram dez anos Acabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal que seu tio ficou bêbado de vinho dom bosco e disse na frente dos filhos e da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaro em Londres Já se passaram dez anos Os poemas que escrevi quando […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/21/luis-alberto-de-cuenca-abre-todas-as-portas/): Abre todas as portas, a que conduz ao ouro, a que leva ao poder, a que esconde o mistério do amor; a que oculta o segredo insondável da felicidade, a que a vida te oferta para sempre no gozo de uma visão sublime. Abre todas as portas, sem te mostrares curioso, nem dar importância às […]
- [Jorge de Sena - Suma Teológica](https://singularidadepoetica.art/2018/02/20/jorge-de-sena-suma-teologica/): Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram navios no alto mar, quando nasci. Nada mudou. Continuaram as guerras; continuou a subir o preço do pão; continuaram os poetas, uma vez por outra, a perguntar por ti. É certo que, então, imensa gente envelheceu instantânea e misteriosamente. Mas até isso, meu amor, se não sabe […]
- [Ángel González - Todos vocês parecem felizes...](https://singularidadepoetica.art/2018/02/19/angel-gonzalez-todos-voces-parecem-felizes/): … e sorriem, às vezes, quando falam. E até dizem uns aos outros palavras de amor. Mas amam-se de dois em dois para odiar de mil em mil. E guardam toneladas de asco por cada milímetro de felicidade. E parecem – nada mais que parecem – felizes, e falam com o fim de ocultar essa […]
- [Maria Teresa Horta - Poema sobre a Recusa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/18/maria-teresa-horta-poema-sobre-a-recusa/): Como é possível perder-te sem nunca te ter achado nem na polpa dos meus dedos se ter formado o afago Sem termos sido a cidade nem termos rasgado pedras sem descobrirmos a cor nem o interior da erva Como é possível perder-te sem nunca te ter achado minha raiva de ternura meu ódio de conhecer-te […]
- [César Cantoni - O Tempo Irreparável](https://singularidadepoetica.art/2018/02/17/cesar-cantoni-o-tempo-irreparavel/): Quem, então, poderia imaginar? O certo é que meu pai está morto como se nunca houvesse estado vivo. Um dia gelaram suas mãos e os pés, e a casa se encheu de parentes, e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito. Ainda lembro. Meu pai está morto ou já não existe, e não é […]
- [Mário Cesariny - Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/02/16/mario-cesariny-lembra-te/): Lembra-te que todos os momentos que nos coroaram todas as estradas radiosas que abrimos irão achando sem fim seu ansioso lugar seu botão de florir o horizonte e que dessa procura extenuante e precisa não teremos sinal senão o de saber que irá por onde fomos um para o outro vividos
- [Gonçalo M. Tavares - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/15/goncalo-m-tavares-os-mortos/): Não há mortos que morram tanto como os nossos. Se um daqueles que nos pertence morre sete ou setenta vezes no coração, de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data, e os que sempre viveram longe morrem-nos metade ou um oitavo. E metade de uma morte é quase nada, são casas decimais […]
- [Charles Bukowski – Foda](https://singularidadepoetica.art/2018/02/14/charles-bukowski-foda/): foda ela tirou o vestido por sobre a cabeça e eu vi a calcinha um tanto enterrada em suas carnes. é simplesmente humano. agora teremos que fazê-lo. eu terei que fazê-lo depois de todo esse logro. é como uma festa – dois idiotas numa cilada. debaixo dos lençóis depois que apaguei as luzes suas calcinhas […]
- [Isabel Bono - O Futuro Acabará Chegando](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/isabel-bono-o-futuro-acabara-chegando/): perdemos tempo ordenando em um álbum as fotos do verão para olhá-las algum dia com nostalgia guardamos bolinhas de gude pedras livros cartas poemas adiamos assim a felicidade, a vida ainda não sei por quê ainda não sei para quando Trad.: Nelson Santander Isabel Bono – El Futuro Acabará por Llegar malgastábamos el tiempo ordenando […]
- [José Lino Grünewald – Sombra (1957)](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/jose-lino-grunewald-sombra-1957/)
- [Mário Dionísio – Elegia ao Companheiro Morto](https://singularidadepoetica.art/2018/02/12/mario-dionisio-elegia-ao-companheiro-morto/): Meu companheiro morreu às cinco da manhã Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã Ah antes fosse noite noite apenas noite sem a promessa da manhã Ah antes fosse noite noite noite apenas noite e não houvesse em tudo a promessa da manhã Deitado para sempre às cinco da […]
- [Alberto Caeiro - Poema XLIII ("Antes o voo da ave")](https://singularidadepoetica.art/2018/02/11/alberto-caeiro-poema-xliii-antes-o-voo-da-ave/): Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto, Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. A ave passa e esquece, e assim deve ser. O animal, onde já não está e por isso de nada serve, Mostra que já esteve, o que não serve para nada. A recordação é […]
- [Bruna Kalil - Paleativa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/10/bruna-kalil-paleativa/): Você é rebelde só da cintura para baixo 1984, George Orwell busco prazer sendo profana para que o físico compense o descompasso do meu interior tão triste e tão mole. fujo dos sentimentos justamente por ter a plena consciência de que sou sentimental dem- ais. tenho medo, pavor, fobia de apaixonar-me outra vez, dói […]
- [Rui Pires Cabral - Cartas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/09/rui-pires-cabral-cartas/): Escreves-me cartas, sou o destinatário da tua solidão. E sempre compreendo tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge as entrelinhas de um branco desespero que é tanto teu como meu: não tens quem te salve, envelheceste, trataste mal de um jardim que não chegou a vingar. Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade […]
- [Gil T. Sousa - Maré](https://singularidadepoetica.art/2018/02/08/gil-t-sousa-mare/): quando a maré se afasta é possível escrever tudo outra vez
- [Jorge Luis Borges - A Chuva](https://singularidadepoetica.art/2018/02/07/jorge-luis-borges-a-chuva/): A tarde subitamente clareou Porque já cai a chuva minuciosa. Ou caiu. A chuva é coisa curiosa Que acontece no tempo que passou. Quem a ouve cair já recobrou O tempo em que a fortuna venturosa Revelou-lhe uma flor chamada rosa E a encarnada cor com que se corou. Que esta chuva que já cega […]
- [César Cantoni - Álbum de Família](https://singularidadepoetica.art/2018/02/06/cesar-cantoni-album-de-familia/): Morreu meu pai, morreram meus avós, morreram meus tios de sangue e por afinidade. Uma família inteira de ferreiros, marceneiros, curtidores, pedreiros, jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos, o que não sabe fazer nada com as mãos, logrei sobreviver impunemente para chorar diante de uma foto o […]
- [Octavio Paz - Antes do Começo](https://singularidadepoetica.art/2018/02/05/octavio-paz-antes-do-comeco/): Ruídos confusos, claridade incerta. Outro dia começa. Um quarto em penumbra e dois corpos estendidos. Em minha fronte me perco numa planície vazia. E as horas afiam suas navalhas. Mas a meu lado tu respiras; íntima e longínqua fluis e não te moves. Inacessível se te penso, com os olhos te apalpo, te vejo com […]
- [Hagar Peeters - Esta Noite Cruzei-me com meus Pais](https://singularidadepoetica.art/2018/02/04/hagar-peeters-esta-noite-cruzei-me-com-meus-pais/): Esta noite cruzei-me com os meus pais, duas sombras pálidas reciprocamente atraídas, à luz branca de um candeeiro. Tendo em conta a felicidade demonstrada, eu ainda não era nascida. Eram jovens e muito apaixonados. Uma grande tristeza anuviou-me porque eu sabia a continuação da história. Ela soltava gargalhadas por causa de algo que ele lhe […]
- [Fernando Sabino - Certeza](https://singularidadepoetica.art/2018/02/03/fernando-sabino-certeza/): De tudo, ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando. A certeza de que precisamos continuar. A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança. Do medo, uma escada. Do sonho, uma ponte. Da procura, um encontro.
- [António Franco Alexandre - Quero dizer-te: não morras](https://singularidadepoetica.art/2018/02/02/antonio-franco-alexandre-quero-dizer-te-nao-morras/): quero dizer-te: não morras. Nem me digas quem és, quem foste, como sabes a língua que se fala sobre a terra. Ao lume lanço toda a vontade de viver, ser vivo, a cautela do ar, ardendo em torno. Passarei, terás passado em mim, só quero dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.
- [Carlos Edmundo de Ory – Dá-me](https://singularidadepoetica.art/2018/02/01/carlos-edmundo-de-ory-da-me/): dá-me algo mais que silêncio ou doçura algo que tenhas e não saibas não quero dádivas raras dá-me uma pedra não fiques imóvel fitando-me como se quisesses dizer que há muitas coisas mudas ocultas no que se diz dá-me algo lento e fino como uma faca nas costas e se nada tens para dar-me dá-me […]
- [António Reis – Mudamos esta Noite](https://singularidadepoetica.art/2018/01/31/antonio-reis-mudamos-esta-noite/): Mudamos esta noite E como tu eu penso no fogão a lenha e nos colchões onde levar as plantas e como disfarçar os móveis velhos Mudamos esta noite e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam e que os filhos dormem sempre nos quartos onde nascem Vai descendo tu Eu só quero ouvir os […]
- [Luljeta Lleshanaku – O Mistério das Orações](https://singularidadepoetica.art/2018/01/30/luljeta-lleshanaku-o-misterio-das-oracoes/): Na minha família as orações eram rezadas secretamente, em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor; quase murmuradas, com um suspiro no princípio e no fim, fino e limpo como uma gaze. Junto à casa havia apenas uma escada para subir, de madeira, encostada à parede o ano inteiro, de modo a reparar o […]
- [Albano Martins – Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/01/29/albano-martins-lembra-te/): Leia "Lembra-te", de Albano Martins, um poema breve e intenso sobre memória, passagem do tempo e os caminhos inevitáveis da existência.
- [Ana Goês - Convida-me só para jantar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/ana-goes-convida-me-so-para-jantar/): E não queiras depois fazer amor. Convida-me só para jantar num restaurante sossegado numa mesa de canto e fala devagar e fala devagar eu quero comer uma sopa quente não quero comer mariscos os mariscos atravancam-me o prato e estou cansada para os afastar fala assim devagar devagar não é preciso dizeres que sou bonita […]
- [Chacal – EXP](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/chacal-exp/)
- [Sylvia Plath - Achava que não Podia ser Magoada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/sylvia-plath-achava-que-nao-podia-ser-magoada/): Achava que não podia ser magoada; achava que com certeza era imune ao sofrimento — imune às dores do espírito ou à agonia. Meu mundo tinha o calor do sol de abril Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro. Minha alma em êxtase, ainda assim conheceu a dor suave e aguda que só o prazer […]
- [Anatol Knotek – Time is running out](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/anatol-knotek-time-is-running-out/)
- [César Cantoni - O mais digno em nós](https://singularidadepoetica.art/2018/01/26/cesar-cantoni-o-mais-digno-de-nos/): Eu sempre pensei que os ossos, com seu brilho mineral de pedra polida pela chuva, são o que há de mais digno em nós: sobrevivem largamente à putrefação indecorosa da carne e não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander César Cantoni – Lo más digno de nosotros Siempre pensé […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Terror de te Amar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/25/sophia-de-mello-breyner-andresen-terror-de-te-amar/): Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. […]
- [Mario Benedetti - Angelus](https://singularidadepoetica.art/2018/01/24/mario-benedetti-angelus/): Quem me diria que o destino era isso Vejo a chuva através de letras invertidas Uma parede com manchas que parecem homens Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes E essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu, Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braços E uma cadeira […]
- [Hilda Hilst - Obriga-me](https://singularidadepoetica.art/2018/01/23/hilda-hilst-obriga-me/): E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo, prazer, lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de […]
- [Charles Bukowski - A Retirada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/22/charles-bukowski-a-retirada/): desta vez o negócio acabou comigo. me sinto como as tropas alemãs açoitadas pela neve e pelos comunistas caminhando curvadas as botas gastas forradas com papel jornal. minha condição é tão terrível quanto. talvez até pior. a vitória estava tão perto a vitória estava logo ali. enquanto ela estava ali diante de meu espelho mais […]
- [Paola Rodrigues - Vida Lúcida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/21/paola-rodrigues-vida-lucida/): Assim como ninguém explicou o início As ondas continuam a chegar na costa Tudo corre sempre em direção ao fim Os copos caem e as cidades se amontoam em nossas costas Amar o perdido deixa confundido este coração Ainda que os dias continuem a nascer Os ônibus andem, os outros durmam Meus pés tropeçam em […]
- [Mikhail Svetlov - Dois](https://singularidadepoetica.art/2018/01/20/mikhail-svetlov-dois-poema/): Dois, um poema de Mikhail Svetlov
- [Miquel Martí i Pol - No ano que vem](https://singularidadepoetica.art/2018/01/19/miquel-marti-i-pol-no-ano-que-vem/): No ano que vem já ninguém reparará em nós. Agora somos recém-chegados e fitam-nos com desprezo até mesmo os que andam por cá há quarenta anos e já nada os muda. Temos um ar aturdido e tenaz que faz rir as mulheres e quase nem nos atrevemos a mexer a cabeça por temor a perder […]
- [Manuel de Freitas - "Pela manhã o gato..."](https://singularidadepoetica.art/2018/01/18/manuel-de-freitas-pela-manha-o-gato/): Pela manhã o gato estende-se vagaroso nesse impreciso lugar em que luz e sombra se entretecem. Nas pedras rondantes do que sempre chamámos a nossa casa, esse sonho de irmos por detrás das janelas encarcerados nas agrestes paredes do amor. Todas as manhãs, enquanto a escola me espera, o gato é tão certo como os […]
- [César Cantoni - Uma Arte Invisível](https://singularidadepoetica.art/2018/01/17/cesar-cantoni-uma-arte-invisivel/): O poeta caminha nu pelas ruas, mas ninguém o vê. O poeta vai ao cinema, desvia de putas, anda de ônibus, sempre nu, mas as pessoas olham para outro lado. O poeta não tem meios de chamar a atenção porque a poesia é uma arte invisível. A poesia se escreve sem palavras. Trad.: Nelson Santander […]
- [Carlos Marzal – Estranha Forma de Vida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/16/carlos-marzal-estranha-forma-de-vida/): A Vicente Gallego Sob a bigorna de fogo que o sol de agosto acende no muro caiado, derretem-se as pétalas de uma sedenta buganvília grená. Que estranha esta beleza moribunda, esta desaforada desnudez grandiosa, esta sílaba breve do milagre. Trad.: Inês Dias Carlos Marzal – Extraña Forma de Vida Bajo el yunque de […]
- [Billy Collins – Pardal de Natal](https://singularidadepoetica.art/2018/01/15/billy-collins-pardal-de-natal/): A primeira coisa que ouvi esta manhã foi um rápido bater de asas, suave, insistente – asas contra vidro, como se percebeu depois, lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro agitando-se na moldura de uma janela alta, tentando lançar-se através do enigma de vidro até a ampla luz. E então um ruído na garganta […]
- [Ana Hatherly - A Verdadeira Mão](https://singularidadepoetica.art/2018/01/14/ana-hatherly-a-verdadeira-mao/): A verdadeira mão que o poeta estende não tem dedos: é um gesto que se perde no próprio ato de dar-se O poeta desaparece na verdade da sua ausência dissolve-se no biombo da escrita O poema é a única a verdadeira mão que o poeta estende E quando o poema é bom não te aperta […]
- [Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ines-lourenco-balada-dos-amores-dificeis/): Não me refiro aos trágicos Romeu e Julieta Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-me aos que se buscam sem saber nada do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavos e convexos se combinam cruzando genes e transitórios tempos […]
- [Ana Martins Marques - Religião](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ana-martins-marques-religiao/): ‘If I were called in to construct a religion I should make use of water’ – Philip Larkin Inaugurar uma religião: adorar os pontos em que se formam as estações do ano os gestos de desnudar-se o dia depois da chuva a distância: entre uma árvore e outra árvore, entre cidades com o mesmo nome […]
- [Inês Lourenço – As Coisa que Cessam](https://singularidadepoetica.art/2018/01/12/ines-lourenco-as-coisa-que-cessam/): Tanto desprezo pelo que é transitório e finito. Não servirei senhor que possa morrer. Mas passamos a vida a amar todas as fragilidades das coisas que cessam. Há coisa mais breve do que um sorriso? Coisa mais curta que a alegria de um reencontro? Tudo o que amamos é passageiro e frágil ou as duas […]
- [Amalia Bautista – O Anjo Perplexo](https://singularidadepoetica.art/2018/01/11/amalia-bautista-o-anjo-perplexo/): Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, nem ídolo que proteja, nem oração que console; nunca houve milagres ou maravilhas, nem a salvação da alma, nem a vida eterna; nem palavras mágicas, nenhum bálsamo eficaz contra a dor que não desaparece nunca; nem luz do outro lado das sombras, nem saída do túnel, nem esperança. […]
- [Mario Quintana – Envelhecer](https://singularidadepoetica.art/2018/01/10/mario-quintana-envelhecer/): Antes, todos os caminhos iam. Agora todos os caminhos vêm. A casa é acolhedora, os livros poucos. E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
- [Amalia Bautista – Agora](https://singularidadepoetica.art/2018/01/09/amalia-bautista-agora/): Agora que a estrada que devo percorreré um viaduto por sobre uma rodoviado qual dá medo de olhar, porque o abismoimplacável me chama.Agora que morreu a esperançacomo um pássaro jogado de seu ninhopor irmãos mais fortes.Agora que é noite todo dia,inverno todo anoe as semanas só têm segundas-feiras,para onde olhar, para onde voltar os olhos,que […]
- [Marina Tzvietáieva – Você me Amava](https://singularidadepoetica.art/2018/01/08/marina-tsvietaieva-voce-me-amava-poema/): Você me Amava, um poema de Marina Tsvetáieva
- [Galway Kinnell - Aquela noite silenciosa](https://singularidadepoetica.art/2021/05/22/galway-kinnell-aquela-noite-silenciosa-poema/): Eu voltarei àquela noite silenciosaem que nos deitamos juntos e conversamos em vozes baixas, silenciosas,enquanto do lado de fora caíam lentos fragmentos de nevesuave, silenciando ao se aproximar do solo,com um incêndio no quarto, onde séculosde árvores evolaram-se em contínuas almas-ausentando-se,sem um estalido, até a luz da manhã.Só dormimos quando o que se apressava mais […]
- [Barbara Crooker - No meio](https://singularidadepoetica.art/2021/05/20/barbara-crooker-no-meio-poema/): de uma vida que é tão complicada quanto a de todo mundo,batalhando por equilíbrio, equilibrando o tempo.O relógio de lareira que foi do meu avôparou às 9:20; não tivemos tempode conserta-lo. O pêndulo de bronze está imóvel,os sinos não soam. Um dia eu olho pela janela,verde verão, no outro, as folhas já caírame um céu […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Ausência](https://singularidadepoetica.art/2021/05/18/sophia-de-mello-breyner-andresen-ausencia-poema/): Num deserto sem águaNuma noite sem luaNum país sem nomeOu numa terra nua Por maior que seja o desesperoNenhuma ausência é mais funda do que a tua. Conheça outros livros de Sophia de Mello Breyner Andresen clicando aqui
- [Juan Vicente Piqueras - O testemunho do gajeiro](https://singularidadepoetica.art/2021/05/16/juan-vicente-piqueras-o-testemunho-do-gajeiro-poema/): Para falar a verdade, pareceu-me outro gesto de presunção,muito dele,aquela urgência com que nos pediuque o amarrássemos ao mastropara escapar do canto das sereias. As sereias estavam cantando, isso é verdade,mas não exatamente para seduzi-lo. E por que não a qualquer um de nós?Por que elas deveriam tentar seduzir alguém?Quem pode garantir que não estavam simplesmente […]
- [Nelson Santander - O dia em que meu pai ouviu a voz de Deus](https://singularidadepoetica.art/2021/05/15/nelson-santander-o-dia-em-que-meu-pai-ouviu-a-voz-de-deus/): O conhecido escritor de ficção científica Arthur C. Clarke formulou três “leis” acerca da relação entre o homem e a tecnologia que ficaram muito famosas. Dentre elas, a mais conhecida é a terceira, que reza: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.” Lembrei dessa Lei quando, em um certo domingo, fui visitar meus pais. […]
- [Gastão Cruz – Pedro Hestnes](https://singularidadepoetica.art/2021/05/14/gastao-cruz-pedro-hestnes-poema/): Passou a alguns metros de onde eu estava; não o via há anos e nem sei qual a última vez que com ele falara Não o reconheci de imediato e bastou essa dúvida para criar um hiato na linha dos olhares de repente cruzados dentro da tarde; receara decerto não ter sido por mim reconhecido […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Ciência](https://singularidadepoetica.art/2021/05/12/carlos-drummond-de-andrade-ciencia-poema/): Começo a ver no escuro um novo tom de escuro. Começo a ver o visto e me incluo no muro. Começo a distinguir um sonilho, se tanto, de ruga. E a esmerilhar a graça da vida, em sua fuga. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [John Keats - Ode a um rouxinol](https://singularidadepoetica.art/2021/05/10/john-keats-ode-a-um-rouxinol-2/): 1.Meu peito dói; um sono insano sobre mimPesa, como se eu me tivesse intoxicadoDe ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim,Há um só minuto, e após no Letes me abismado:Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte,É do excesso de ser que aspiro em tua paz –Quando, Dríade leve-alada em meio […]
- [Denver Butson - Meu irmão](https://singularidadepoetica.art/2021/05/08/denver-butson-meu-irmao-poema/): Para escapar das dores de cabeça e aos medos de uma esposa infielmeu irmão em perpétua reabilitação usuário de drogasmaquinista encrenqueiro preso aos 14 por incêndio premeditadoe encarcerado por algumas semanaspai de um filho e de um feto abortadojogador de boliche ocasional e fã de heavy metalapreciador de ketchup batata chips strombolie cheesesteak usuário de […]
- [Ursula K. Le Guin – Como me parece](https://singularidadepoetica.art/2021/05/06/ursula-k-le-guin-como-me-parece-poema/): No vasto abismo antes do tempo, o eunão existe, e a alma se misturacom a névoa, a rocha e a luz. No tempo certo,a alma atrai o nebuloso eu para o ser.Então, lentamente, o tempo petrifica o euenquanto ilumina a alma,até que a alma perde o controle do eue ambos se libertam e podem retornarà […]
- [Mary Oliver - O véu](https://singularidadepoetica.art/2021/05/04/mary-oliver-o-veu-poema/): Há momentos em que o véu parecequase se levantar, e compreendemos o quea terra significa para nós — asárvores em sua docilidade, as colinas emsua paciência, as flores e asvideiras em sua selvagem, doce vitalidade.A Palavra, então, está em nós, e o Livro, posto de lado. Trad.: Nelson Santander Conheça outros livros de Mary Oliver […]
- [Solmaz Sharif – Treinamento de habilidades sociais](https://singularidadepoetica.art/2021/05/02/solmaz-sharif-treinamento-de-habilidades-sociais-poema/): Estudos sugerem que Como posso ajuda-lo, policial? é a coisa mais desarmante a dizer, e não Qual é o problema? Estudos sugerem que a melhor resposta a um pedido de ajuda é Com prazer e não Sem problema. Estudos sugerem que é melhor não mencionar problema diante do poder, mesmo para dizer que não há […]
- [Louise Glück - Santas](https://singularidadepoetica.art/2021/04/30/louise-gluck-santas-poema/): Em nossa família, havia duas santas,minha tia e minha avó.Mas suas vidas foram diferentes. Minha avó era tranquila, mesmo no final.Ela parecia uma pessoa caminhando em águas calmas;por alguma razãoo mar não conseguiu feri-la.Quando minha tia enveredou pelo mesmo caminho,as ondas quebraram sobre ela, atacaram-na,que é como as Fiandeiras do Destino respondema uma verdadeira natureza […]
- [Mary Oliver - Canção dos construtores](https://singularidadepoetica.art/2021/04/28/mary-oliver-cancao-dos-construtores-poema/): Em uma manhã de verãosentei-meem uma encostapara pensar em Deus— um nobre passatempo.Perto de mim, vium grilo solitário;estava movendo os grãos da encosta de um lado para o outro.Quão grande era sua energia,quão humilde o seu esforço.Esperemos que seja sempre assim,cada um de nós avançandopor nossos inexplicáveis caminhosconstruindo o universo. Trad.: Nelson Santander Conheça outros […]
- [Adrienne Rich - Fotografias do Hubble: Após Sappho](https://singularidadepoetica.art/2021/04/26/adrienne-rich-fotografias-do-hubble-apos-sappho-poema/): Leia Fotografias do Hubble: Após Sappho, de Adrienne Rich, um poema que aproxima amor, desejo e a imensidão do universo visível.
- [Edward Field - Ícaro](https://singularidadepoetica.art/2021/04/24/edward-field-icaro-poema/): Apenas as penas flutuando ao redor do chapéuMostravam que algo mais espetacular havia ocorridoAlém do afogamento habitual. A polícia preferiu ignorarOs aspectos confusos do casoE as testemunhas correram para uma guerra de gangues.Assim, o relatório arquivado e esquecido nos registros dizia simplesmente“Afogado,” mas estava errado: ÍcaroTinha nadado para longe, chegando finalmente à cidadeOnde alugou uma […]
- [Joan Margarit – Separado](https://singularidadepoetica.art/2021/04/22/joan-margarit-separado-poema/): A casa se abre para uma calçadaonde não me espera ninguém.Aqui sem ti. Um estranho.Foi aqui que eu me perdi.Caminho sem mim, contigo.Minha sombra é apenas um erro,vem dos lugares mais gélidos:teu coração e tuas mãos.Por isso eu parti.A vida desconhecidaeu a vivi sem ti.A teu lado. Trad.: Nelson Santander Separado La casa se abre […]
- [Lynn Ungar - Pandemia](https://singularidadepoetica.art/2021/04/20/lynn-ungar-pandemia-poema/): "Pandemia", um poema de Lynn Ungar que propõe encarar o isolamento como um tempo sagrado de pausa e reflexão, convidando à compaixão, à consciência da interconexão humana e à expansão do amor em meio à crise global.
- [Carolyn Forché – Dois poemas](https://singularidadepoetica.art/2021/04/18/carolyn-forche-dois-poemas-poema/): Penso em você naquele mar de túmulos além da cidade,onde muitas pedras foram deixadas, entre elas a minha: uma pequena lasca de dolomita para pesar um pedaço de papel.Eu teria colocado suas luvas e o guarda-chuva no caixão, juntamente com uma manhã em Berlin com Tanya, uma horade pombos ascendendo ao seu redor, lilases embrulhados […]
- [Fleur Adcock - Para uma criança de cinco anos](https://singularidadepoetica.art/2021/04/16/fleur-adcock-para-uma-crianca-de-cinco-anos-poema/): Um caracol escala o peitoril da janelado seu quarto, depois de uma noite dechuva. Você me chama para ver,e eu explico que seria cruel deixa-lo lá: ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar para que ninguém o esmague. Você entende e o carrega para fora, com mão diligente,para comer uma flor amarela. Vejo, então, […]
- [Mark Wunderlich - Peônias](https://singularidadepoetica.art/2021/04/14/mark-wunderlich-peonias-poema/): No pátio, as peônias rebentam em brancos corações,rebordos arredondados que desabrocham apenas para elas.Sua simplicidade, a lâmina disso, fende a manhã. Neste Brooklyn de pátios aureolados por arames farpadose roupas sujas balançando como bandeiras de rendição,vapor de resina flutuando até essas janelas, sombras viajando dos pulmões de um fumante,eu observo o helicóptero da polícia ameaçar […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2021/04/12/carlos-drummond-de-andrade-aniversario-poema/): Um verso, para te salvarde esquecimento sobre a terra?Se é em mim que estás esquecida,o verso lembraria apenasesta força de esquecimento,enquanto a vida, sem memória,vaga atmosfera, se condensana pequena caixa em que morascomo os mortos sabem morar. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Lisel Mueller – Românticos](https://singularidadepoetica.art/2021/04/10/lisel-mueller-romanticos-poema/): Românticos Johannes Brahms e Clara Schumann Os biógrafos modernos se preocupamem “o quão longe” foi sua terna amizade.Eles se perguntam o que exatamente significaquando ele escreve que pensa nela constantemente,seu anjo da guarda, amada amiga.Os biógrafos modernos fazem a rude e irrelevante indagaçãode nossa era como se o eventode dois corpos entrelaçados estabelecesse a medida […]
- [Patricia Hampl - É assim que a memória funciona](https://singularidadepoetica.art/2021/04/08/patricia-hampl-e-assim-que-a-memoria-funciona-poema/): Você está desembarcando de um trem.Uma noite úmida e vazia, o cheiro de cinzas.Uma rajada de vapor vinda da locomotiva rodopiaao redor da bainha do seu sobretudo, ao redorda mão que segura a valise de couro marrom,a mão que, há pouco, penteou para tráso cabelo e em seguida ajeitou o fedoradefronte a um espelho com […]
- [Howard Nemerov – Figuras de pensamento](https://singularidadepoetica.art/2021/04/06/howard-nemerov-figuras-de-pensamento-poema/): Colocar a espiral logarítmica naConcha e no papel, e vê-las se encaixar,Observar a mesma ideia funcionarNa subida do piloto de caça, ajustando a mira Em seu alvo, preparando a matança,E no voo de certos insetos estrábicosQue não conseguem ver que voam para a morteMas têm que lançar nela seu olhar de esguelhaE dirigir-se, mas girando, […]
- [Javier Salvago - Nada, nada importa](https://singularidadepoetica.art/2021/04/04/javier-salvago-nada-nada-importa-poema/): Se os anos ensinam alguma coisaé a pouca importânciaque tudo tem.Tudo,cedo ou tarde, passa.O amor, que vaicomo veio. A vagajuventude, com seus sonhos,suas grandes esperanças.Dias de vinho e de rosas,tempos de abundânciado coração. O brilho.A beleza. A vontadede levar a vidaadiante. As presunçosasilusões— estrelasque subitamente se apagame nos deixam em umanoite escura da alma —.A […]
- [Joan Margarit - Noturno em Solivella](https://singularidadepoetica.art/2021/04/02/joan-margarit-noturno-em-solivella-poema/): Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.Detiveste o trator entre as cercas de arameonde se embalam, verdes e densas, as videiras,e escutaste a terra à tua volta.O restaurante te dá dinheiro,mas de madrugada, com ele já fechado,fazendo um café para ti no balcão,pensas o quanto gostas de, à noite, visitarsozinho os arames do […]
- [William Blake – A mosca](https://singularidadepoetica.art/2021/03/31/william-blake-a-mosca-poema/): Pequena Mosca, Teus jogos de estio Minha irrefletida Mão os destruiu. Pois como tu, Mosca não sou eu? E não és tu Homem como eu? Eu canto e danço e Bebo, até que vem Mão cega arrancar-me As asas também. Se é o pensamento Vida, sopro forte, E a ausência do Pensamento morte, Então eu […]
- [Antonio Carlos Secchin - [Não, não era ainda a era da passagem]](https://singularidadepoetica.art/2021/03/29/antonio-carlos-secchin-nao-nao-era-ainda-a-era-da-passagem-poema/): Não, não era ainda a era da passagem do nada ao nada, e do nada ao seu restante. Viver era tanger o instante, era linguagem de se inventar o visível, e era bastante. Falar é tatear o nome do que se afasta. Além da terra, há só o sonho de perdê-la. Além do céu, o mesmo céu, que se alastra num […]
- [Linda Pastan - Chove sobre a casa de Anne Frank](https://singularidadepoetica.art/2021/03/27/linda-pastan-chove-sobre-a-casa-de-anne-frank-poema/): Chove sobre a casade Anne Franke sobre os turistasamontoados sob a sombrade seus guarda-chuvas,sobre os perfeitamente silenciososturistas que prefeririam estarem outro lugarmas que aqui esperam em escadastão íngremes pelas quais devem subirpara alguma ocasiãono sótão vazio,no banheiro pitoresco,no esqueletode uma cozinhaou no mapa —cada uma de suas setasuma farpa de arame —com todas as datas, […]
- [Robert Morgan - Outono branco](https://singularidadepoetica.art/2021/03/25/robert-morgan-outono-branco-poema/): Ela sempre gostou de ler, inclusivena infância, durante a Guerra da Secessão,e depois desenvolveu o hábito de ficar acordadajunto ao lampião perto da lareira depois que,concluída a faxina, o marido e os filhos iam dormir.Ela alimentou o vício nos anos durosda Reconstrução e mesmo depois queo seu marido morreu e ela foi forçada a prover […]
- [Mary Oliver – Quando estou entre as árvores](https://singularidadepoetica.art/2021/03/23/mary-oliver-quando-estou-entre-as-arvores-poema/): Quando estou entre as árvores,especialmente entre os salgueiros e os espinheiros-da-virgínia,mas também entre as faias, os carvalhos e os pinheiros,elas emitem tantos sinais de alegria.Eu quase diria que elas me salvam, e diariamente.Estou tão distante de minhas expectativas sobre mim mesma,nas quais eu reúno bondade, e discernimento,e nunca me apresso no mundo,mas caminho lentamente, e […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Formas migratórias](https://singularidadepoetica.art/2021/03/21/jorge-valdes-diaz-velez-formas-migratorias-poema/): Formas Migratórias para Katia Alemann Aprendemos a amar a conta-gotasessas pequenas pausas de que se vesteo temporal para inundar a solidãodo lado de fora, o ramo entre violeta e ocre das tardes, o murmúriosemântico do céu. Nesta ordem,temos esmaecido a distância,a longitude sem proporção, as linhasque se relacionam com as coisas. Curtaslacunas de ar, esses […]
- [Leonard Nathan - Brinde](https://singularidadepoetica.art/2021/03/19/leonard-nathan-brinde-poema/): Houve uma mulher em Ithacaque chorou baixinho a noite todano quarto ao lado e desamparadome apaixonei por ela sob o mantode neve que se depositou em todos os telhadosda cidade, preenchendocada escura depressão. Na manhã seguinteno café do motelestudei todas as mulheres de rostosmaquiados. Teria sido a loira de meia idadeque brincou com a garçoneteou a […]
- [James Kirkup – Ursa Maior](https://singularidadepoetica.art/2021/03/17/james-kirkup-ursa-maior-poema/): Suspensa entre os álamos domesticados no fimda avenida familiar, a UrsaMaior, em sua rede iluminada, balança,como um portão abandonado que nem barra nem convida para entrar,e pendura no poste arqueado sua silhueta de sete pontas. Desenhada com a precisão de um problema desconhecidosolucionado na sala de aula mais alta do céu vazio,ela revela sobre o […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - A outra rosa](https://singularidadepoetica.art/2021/03/15/jorge-valdes-diaz-velez-a-outra-rosa-poema/): Ela beijou na rosa(seu nome era um aguilhãofeminino e brutal)a imagem de outra rosa gravada em uma lousade mármore, cristalina.A luz era mais finae, ao tato, tão airosa quanto a flor que ardiasem pausa em sua memória.Em outro meio-dia, a rosa era ilusóriapromessa repartida;e o beijo, a outra vida. Trad.: Nelson Santander La otra rosa […]
- [Donald Hall - Últimos dias](https://singularidadepoetica.art/2021/03/13/donald-hall-ultimos-dias-poema/): “Era razoávelesperar.” Assim ele escreveu. No dia seguinte,em um consultório,a hematologista de Jane, Letha Mills, sentou-se,tensa, sua secretáriaem pé, de costas para a porta.“Trago péssimas notícias,”disse Letha. “A leucemia voltou.Não há nada a fazer.”Os quatro choramos. Ele perguntou há quanto tempo,por que isso aconteceu agora?Jane perguntou apenas: “Posso morrer em casa?” Em casa, naquela tarde,eles […]
- [Louise Glück - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2021/03/11/louise-gluck-acalanto-poema/): Minha mãe é especialista em uma coisa:enviar pessoas que ela ama para o outro mundo.Os pequeninos, os bebês — estesela embala, sussurrando ou cantando baixinho. Não posso dizero que ela fez pelo meu pai;o que quer que tenha sido, tenho certeza de que foi o certo. De fato, é a mesma coisa preparar uma pessoa […]
- [Warsan Shire – para mulheres que são 'difíceis' de amar](https://singularidadepoetica.art/2021/03/08/warsan-shire-para-mulheres-que-sao-dificeis-de-amar/): "para mulheres que são 'difíceis' de amar", um poema de Warsan Shire que aborda a intensidade feminina e a recusa em se diminuir para caber nas expectativas masculinas, celebrando a autonomia, a força e a beleza de mulheres que não aceitam transformar-se para serem amadas.
- [Juan Vicente Piqueras - Museu da Acrópole](https://singularidadepoetica.art/2021/03/07/juan-vicente-piqueras-museu-da-acropole-poema/): Uma mão de mármore, mas apenas os dedos,sobre um ombro de mármore sem cabeça. Um braço erodido que ninguém estende a ninguém. Um cavalo sem patas. Um cavaleiro que é apenas suas coxas. Dionísio aos pedaços, recomposto. Um touro sem chifres que está sendo devoradopor um leão que lá não está,apenas suas garras. Admiramos o […]
- [Javier Salvago - Canção do Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2021/03/05/javier-salvago-cancao-do-esquecimento-poema/): A cor dos olhos daquele paixão juvenil.O calor do primeiro beijo, do qual não melembro, embora saiba que deva ter sidoinesquecível. Tantos colegas e amigosda escola ou de farra, que um dia foram próximos.O latim. Tantos nomes de montanhas e de rios.Tantas duras lições. Tantos e tantos livros, devorados com paixão, sempre abertos, lidose esquecidos, […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Véspera](https://singularidadepoetica.art/2021/03/03/carlos-drummond-de-andrade-vespera-poema/): Amor: em teu regaço as formas sonham o instante de existir: ainda é bem cedo para acordar, sofrer. Nem se conhecem os que se destruirão em teu bruxedo. Nem tu sabes, amor, que te aproximas a passo de veludo. És tão secreto, reticente e ardiloso, que semelhas uma casa fugindo ao arquiteto. Que presságios circulam […]
- [Hannah Sullivan - 3.31 (de "Three Poems")](https://singularidadepoetica.art/2021/03/01/hannah-sullivan-3-31-de-three-poems-poema/): O que subsistirá a nós?Larkin pensava que a resposta poderia ser “amor,”Mas não conseguiu prova-lo. “A pasta de rascunhos era o lugar mais interessante.” “Sempre foi você, no final.”“Ele tentou lhe dizer à sua maneira.” Curtas cadeias de carbono no pó,Esta é a resposta prática.Velhos laptops, marca-passos, parafusos ósseos.Filamentos de DNA revelando a causa da […]
- [Charles Simic - O altar](https://singularidadepoetica.art/2021/02/27/charles-simic-o-altar-poema/): A estátua de plástico da VirgemEm cima de uma penteadeiraCom um espelho enegrecidoDe um salão de beleza de pesadelo. Dois seixos do túmulo de um astro de rock,Um pequeno e sorridente macaco de dar corda,Uma concha, uma moeda egípcia de bronze,E o canhoto vermelho de um ingresso de cinema. Uma mancha de luz solar na […]
- [X. J. Kennedy - O objetivo do tempo é evitar que tudo aconteça de uma só vez](https://singularidadepoetica.art/2021/02/25/x-j-kennedy-o-objetivo-do-tempo-e-evitar-que-tudo-aconteca-de-uma-so-vez-poema/): Imagine que sua vida seja um telescópio dobradoAtemporal, que desmoronou num piscar de olhosDo ventre de sua mãe, você, berrando, caiEm uma casa de repousos. Imagine que você destrói Seu carro, seu casamento — uma criança devastando Um campo de margaridas, estudante, adolescente espinhentoCom a amada, fechando às pressas o zíper das calçasAo ouvir os […]
- [Ross Gay - Tristeza não é o meu nome](https://singularidadepoetica.art/2021/02/23/ross-gay-tristeza-nao-e-o-meu-nome-poema/): — depois de Gwendolyn Brooks Não importa a atração pelo abismo. Pouco importa o sono profundo e florido que o aguarda. Há tempo para tudo. Veja, ainda esta manhã um abutre acenou com a cabeça vermelha e pardacenta para mim, e eu olhei para ele, admirando a foice do seu bico. Então o vento soprou, […]
- [Denise Levertov – Peregrinações no mundo paralelo](https://singularidadepoetica.art/2021/02/21/denise-levertov-peregrinacoes-no-mundo-paralelo-poema/): Vivemos nossas vidas de paixões humanas, crueldades, sonhos, ideias, crimes e o exercício da virtude em e ao lado de um mundo privado de nossas preocupações, isento de nossas apreensões — embora afetado, certamente, por nossas ações. Um mundo paralelo ao nosso, embora a ele sobreposto. Nós o chamamos de “Natureza”; apenas relutantemente admitindo que […]
- [Maggie Smith - O primeiro outono](https://singularidadepoetica.art/2021/02/19/maggie-smith-o-primeiro-outono-poema/): Eu sou sua guia aqui. Nas ruas crepusculares da manhã, eu aponto e nomeio. Veja os sicômoros, suas cascas manchadas, pintadas-por-números. Veja as folhas enferrujando e crepitando nas pontas. Eu caminho pelo Schiller Park com você no meu peito. As estrelas ardem plenamente à luz do dia. Veja o lago, os patos, os cães chapinhando […]
- [Joan Margarit - Manhã no cemitério de Montjuïc](https://singularidadepoetica.art/2021/02/18/joan-margarit-manha-no-cemiterio-de-montjuic-poema/): Fui à colina dos túmulos:lá cheguei cruzando o ermoda Can Tunis, coberto de seringase de plásticos pardacentos, onde tremem, errantes,as estátuas de trapo dos drogados.Corre o boato de que a Prefeiturairá destruí-lo, cobrindo de concretoos terrenos com mato em frente à enorme grade do cemitério, erguida de frente para o mar.Que má companhia será para […]
- [Louis MacNeice - A luz do sol no jardim](https://singularidadepoetica.art/2021/02/17/louis-macneice-a-luz-do-sol-no-jardim-poema/): A luz do sol no jardimEndurece e esmorece,Não podemos enjaular o minutoEm suas malhas de ouro;Quando tudo é proclamadoNão podemos implorar por perdão. Nossa liberdade, como soldados a soldo,Avança em direção ao seu fim;A mundo compele, nele Baixam sonetos e pássaros; E em breve, meu amigo,Não teremos tempo para danças. O céu estava bom para […]
- [Mary Oliver - Os usos da tristeza](https://singularidadepoetica.art/2021/02/15/mary-oliver-os-usos-da-tristeza-poema/): (enquanto dormia, sonhei este poema) Alguém que amei uma vez me deuuma caixa cheia de escuridão. Levei anos para entenderque isto, também, foi uma dádiva. Trad.: Nelson Santander The uses of sorrow (In my sleep I dreamed this poem) Someone I loved once gave mea box full of darkness. It took me years to understandthat […]
- [Gil Jorge - Augusto 90's](https://singularidadepoetica.art/2021/02/14/gil-jorge-augusto-90s/)
- [Lêdo Ivo – Achamento e duração dos mortos](https://singularidadepoetica.art/2021/02/13/ledo-ivo-achamento-e-duracao-dos-mortos-poema/): És o cemitério. Os mortos não jazem debaixo da terra. Não estão ocultos num lençol de relva mas sob tua pele. Tuas veias são ruas onde os mortos passeiam fagueiros, e em férias percorrem, turistas do eterno, os museus do éter. E nas terras velhas de tua memória almas veraneiam. Meu filho, viver é comerciar […]
- [Jane Hirshfield – Jasmim](https://singularidadepoetica.art/2021/02/11/jane-hirshfield-jasmim-poema/): Quase o século vinte e um —quão rapidamente o pensamento ficará datado,até mesmo pitoresco? Nossas esperanças, nosso futuro,passarão como as esperanças e futuros dos outros. E todas as nossas ansiedades e terrores,noites de insônia,pesares,se apresentarão então como realmente são — Abelhas delirantes e trôpegas pelo aroma do chá de jasmim. In “The lives of the […]
- [Seán Hewitt - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2021/02/09/sean-hewitt-fantasma-poema/): i. Despertando, quase de manhã, mas aindade um escuro metálico, fechado, no quarto: um som dentro do meu sonho, apenas um lamentono início, que depois se torna humano, um uivoque se eleva na rua do lado de fora, fica sem respostae então se eleva novamente. De cueca, tremendojunto à janela de uma só vidraça, mas […]
- [Edward Field - Máscara mortuária](https://singularidadepoetica.art/2021/02/07/edward-field-mascara-mortuaria-poema/): Máscara mortuária “A velhice é a mais inesperada de todas as coisas que acontecem a um homem.“ –Leon Trotsky. “Não me falem Da sabedoria dos velhos, mas antes de […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Nudez](https://singularidadepoetica.art/2021/02/05/carlos-drummond-de-andrade-nudez-poema/): Não cantarei amores que não tenho, e, quando tive, nunca celebrei. Não cantarei o riso que não rira e que, se risse, ofertaria a pobres. Minha matéria é o nada. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada, é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa, nem […]
- [David Whyte – Algumas vezes](https://singularidadepoetica.art/2021/02/04/david-whyte-algumas-vezes-poema/): Algumas vezes,se você se mover cuidadosamentepela floresta,respirandocomo osdas velhas histórias,que podiam atravessarum resplandescente leito de folhassem um som,você chega a um lugar cuja única missão é incomoda-locom ínfimas mas assustadoras exigências,concebidas do nadamas neste lugarque começa a leva-lo para todos os lugares.Exigências para que você pareo que está fazendo agora,e pare o que você está […]
- [Paul Tran - A caverna](https://singularidadepoetica.art/2021/02/02/paul-tran-a-caverna-poema/): Alguém que estava na abertura teve a ideia de entrar. Ir além do ponto onde a luz ou a linguagem poderiam ir. À medida que ele seguia a ideia, luz e linguagem o acompanhavam como dois lobos — ofegantes, ouvindo o próprio resfolegar. Um aroma informe no ar úmido… Prossiga, disse a ideia. Alguém prosseguiu. […]
- [Maya Angelou – Uma verdade corajosa e surpreendente](https://singularidadepoetica.art/2021/01/31/maya-angelou-uma-verdade-corajosa-e-surpreendente-poema/): Nós, este povo, em um pequeno e solitário planetaViajando através do espaço acidentalPassando por estrelas distantes, cruzando o caminho de indiferentes sóisPara um destino onde todos os sinais nos advertem queÉ possível e imperativo que aprendamosUma verdade corajosa e surpreendente E quando chegarmos a isso, Ao dia da pacificaçãoQuando libertarmos nossos dedosDos punhos da hostilidadeE […]
- [Eavan Boland - O barógrafo](https://singularidadepoetica.art/2021/01/29/eavan-boland-o-barografo-poema/): Encontrei-o no cais,um retângulo de madeira,um barógrafo, a pena de sua haste rabiscando o papel. Eu o trouxe para casa para serum registro dos ventos,da pressão crescente, apto a escrever a sina barométricado nosso cotidianoem um mundo onde carrinhos de livros levados pelo vento junto ao rioprometiam palavras selvagensmas obedeciam ao censor. Os Bancos em […]
- [Anna Belle Kaufman – Frio conforto](https://singularidadepoetica.art/2021/01/27/anna-belle-kaufman-frio-conforto-poema/): Quando minha mãe morreu,um dos seus bolos de mel permaneceu no freezer.Eu não poderia suportar o seu desaparecimento,então, abandonado, ele esperou em sua caverna de gelo atrás das bandejas de metal por mais dois anos. No meu quadragésimo primeiro aniversário,retirei-o de lá,uma ressurreição retangular,e sopesei o fardo morto na palma da mão. Antes que ele […]
- [Stephen Dunn – Felicidade](https://singularidadepoetica.art/2021/01/25/stephen-dunn-felicidade-poema/): Felicidade Um estado em que não se deve ousar entrar com a esperança de lá permanecer, areia movediça nos pântanos, e todos os caminhos que conduzem a um castelo que não existe. Mas lá está ele, como prometido, com sua ponte perfeita sobre os crocodilos, e suas portas perpetuamente abertas. Trad.: Nelson Santander Happiness A […]
- [Ana Martins Marques - A porta de saída](https://singularidadepoetica.art/2021/01/23/ana-martins-marques-a-porta-de-saida-poema/): “Eu vou morrer, masisso é tudo o que farei pela Morte”Edna St. Vincent Millay, Objeção de consciência “Alô, iniludível” Manuel Bandeira, Consoada A porta de saída Mas não serei eua colocar-lhe a mesa– quando chegarencontrará a casa como sempreem desordemcheia de livros e discoscom plantas e gatos ao sole os papéis em órbitaem torno da camae […]
- [David Mourão-Ferreira - E por vezes](https://singularidadepoetica.art/2021/01/21/david-mourao-ferreira-e-por-vezes-poema/): E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por […]
- [José Miguel Silva - Desculpas não faltam](https://singularidadepoetica.art/2021/01/19/jose-miguel-silva-desculpas-nao-faltam-poema/): Uma casa junto ao Vouga,rio de água suficiente,onde apenas se mergulhaaté à cintura, a pequena hortade Virgílio, o amor robustecidopor nenhuma esperançae tantos livros para ler– que desculpa vou agora darpara não ser feliz?
- [Germana Zanettini – bem-me-quer](https://singularidadepoetica.art/2021/01/17/germana-zanettini-bem-me-quer-poema/): bem-me-quer e quando a morteme desfolharnum sopro de outonoe súbito cessar o peito virarei pó e voltareipólenno vento
- [Wendell Berry - O desejo de ser generoso](https://singularidadepoetica.art/2021/01/15/wendell-berry-o-desejo-de-ser-generoso-poema/): Tudo a que sirvo morrerá, todos os meus deleites,a carne acesa de minha carne, jardim e campo,os lírios silenciosos que se encontram na floresta, as florestas, a colina, a terra toda, tudoarderá na maldade humana, ou encolherána própria velhice. Que o mundo me proporcioneo sono das trevas sem estrelas, para que eu possa conhecerminha pequena […]
- [Robyn Sarah - Rebitados](https://singularidadepoetica.art/2021/01/13/robyn-sarah-rebitados-poema/): É possível que as coisas não fiquem melhoresdo que estão agora, ou como imaginamos que estejam.É possível que já tenhamos ultrapassado o meio agora.É possível que tenhamos cruzado as Grandes Águassem sabe-lo, e que agora estejamos do outro lado. Sim, acho que já as atravessamos. Agora estamos recebendo ingressos, e eles não são ingressos para […]
- [Una Mannion – Sepultado agachado](https://singularidadepoetica.art/2021/01/11/una-mannion-sepultado-agachado-poema/): Eles deslocam a terra com pequenas espátulas e pincéis epor toda a semana as focas entoam um refrão desolado como se fosse para você.Primeiro, o pé de uma pequena criança,movimentos lentos do pincel em seus ossinhos,sua forma na vala ganhando definição, um lento nascimentono canto do campo à beira da água. Você está deitado de […]
- [Lisel Mueller – Imortalidade](https://singularidadepoetica.art/2021/01/09/lisel-mueller-imortalidade-poema/): No castelo da Bela Adormecidao relógio bate cem anose a garota na torre volta ao mundo.O mesmo ocorre com os criados na cozinha,que nem sequer esfregam os olhos.A mão direita do cozinheiro, levantadahá exatamente um século,completa seu arco descendenteaté a orelha esquerda do ajudante de cozinha;as tensas cordas vocais do garotolibertam finalmenteo sofrido lamento aprisionado,e […]
- [Jeanne Marie Beaumont - Receio que sim](https://singularidadepoetica.art/2021/01/07/jeanne-marie-beaumont-receio-que-sim-poema/): Está começando a chover?O cheque foi devolvido?Estamos sem café?Vai doer?Você pode perder seu emprego?O vidro quebrou?A bagagem foi extraviada?Vai ficar na minha ficha?Você está perdendo muito dinheiro?Alguém ficou ferido? O trânsito está pesado?Eu tenho que tirar minhas roupas?Vai deixar uma cicatriz?Você tem que ir?Isso sairá nos jornais?Meu tempo já acabou?Veremos o substituto?Afetará a minha visão?Todos […]
- [Frank O’Hara - Animais](https://singularidadepoetica.art/2021/01/05/frank-ohara-animais-poema/): Você já se esqueceu de como éramos quando éramos de primeira linhae o dia vinha gordo com uma maçã em sua boca não vale a pena se preocupar com o Tempo mas nós tínhamos alguns truques nas mangase dobramos algumas esquinas afiadas todo pasto parecia nossa refeiçãonão precisávamos de velocímetrospodíamos gerenciar coquetéis sem gelo e […]
- [Ellen Bass – O panorama geral](https://singularidadepoetica.art/2021/01/03/ellen-bass-o-panorama-geral-poema/): Eu tento ver o panorama geral.O sol, língua ardenteque nos lambe como uma mãe encantada por sua nova cria, se consumirá.Tudo é transitório.Pense no meteoro que aniquilou os dinossauros.E antes disso, nos vulcõesdo Permiano — todas aquelas samambaias e répteis, tubarões e peixes ósseos queimados —que foram extintos em uma escalaque faz com que nossas […]
- [W. S. Merwin - Ao Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2021/01/01/w-s-merwin-ao-ano-novo-poema/): Ao Ano Novo, um poema de W. S. Merwin
- [Nelson Santander - O ano novo inalcançável](https://singularidadepoetica.art/2020/12/31/nelson-santander-o-ano-novo-inalcancavel/): Meu xará Nelson Motta costuma afirmar, sem firulas, que a música americana é a melhor do mundo. O jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical, teatrólogo e letrista paulista radicado no Rio de Janeiro dispensa apresentações: sua extensa produção em todos os quadrantes da atividade musical – da produção à composição, passando pela crítica e história […]
- [Ada Limón - O fim da poesia](https://singularidadepoetica.art/2020/12/30/ada-limon-o-fim-da-poesia-poema/): “O fim da poesia”, um poema de Ada Limon que questiona a suficiência da própria linguagem poética diante da experiência concreta da vulnerabilidade humana.
- [Louise Glück – Encruzilhada](https://singularidadepoetica.art/2020/12/29/louise-gluck-encruzilhada/): No poema Encruzilhada, Louise Glück apresenta uma reflexão íntima sobre a relação entre corpo e alma diante da finitude. Com linguagem delicada e confessional, o eu lírico reconhece a fragilidade da existência, revisita o amor da juventude e expressa ternura pelo próprio corpo como morada transitória. O texto aborda mortalidade, impermanência e reconciliação interior em uma meditação poética profunda sobre a despedida da vida.
- [David Mourão-Ferreira – Testamento](https://singularidadepoetica.art/2020/12/27/david-mourao-ferreira-testamento/): Que fique só da minha vida um monumento de palavras Mas não de prata Nem de cinza Antes de lava Antes de nada Daquele nada que se aviva quando se arrisca uma viagem por entre os pântanos da ira além do sol das barricadas Ou quando um poço que cintila parece o tecto de uma […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2020/12/26/giuseppe-ungaretti-natal-3/): Republicação: “Natal”, um poema de Giuseppe Ungaretti
- [Eugénio de Andrade – Último Poema](https://singularidadepoetica.art/2020/12/24/eugenio-de-andrade-ultimo-poema/): Último Poema, um poema de Eugénio de Andrade sobre o Natal
- [Philip Larkin - Canções de amor na velhice](https://singularidadepoetica.art/2020/12/23/philip-larkin-cancoes-de-amor-na-velhice/): Ela guardou canções, tomavam pouco espaçoE as capas lhe eram belas:Uma que apanhou sol e de matizes baços;Uma cheia de círculos de jarra d´água;Uma colada, num “acesso de ordem” dela,E colorida, pela filha – aguar-daram assim, até que em sua viuvez asAchou, procurando algo, e pôs-se dessa vez a Reaprender como cada acorde, obedienteE franco, […]
- [Neil Gaiman – As coletoras de cogumelos](https://singularidadepoetica.art/2020/12/21/neil-gaiman-as-coletoras-de-cogumelos/): Como você sabe, meu pequeno, a ciência é o estudoda natureza e do comportamento do universo.Ela se baseia na observação, na experimentação e na medição,e na formulação de leis para descrever os fatos revelados. Nos velhos tempos, dizem, os homens já vinham equipados com cérebrosprojetados para seguir cárneas-feras em uma corrida,para se lançarem cegamente no […]
- [Joan Margarit – Nada engrandece um velho](https://singularidadepoetica.art/2020/12/19/joan-margarit-nada-engrandece-um-velho/): Nem essa violência com a qual desejoter sempre razão.Nem tampouco crer que a felicidadetem uma relação, sutil, com a mentira.Nem chegar a tero coração tão sujo como o meu,apesar de ter sido a guerra que o sujou.Minha paz deve ser uma falsa paz.Tampouco não abjurar a luxúriae a vaidade.Como podemos ser vaidosos, os velhos? Essa […]
- [Javier Salvago - Variações sobre um velho tema](https://singularidadepoetica.art/2020/12/17/javier-salvago-variacoes-sobre-um-velho-tema-poema/): Os violinos de Verlaine. Os sonhados caminhos da tarde, de don Antonio.* Um velho cheiro de campo. Um velho cheiro de lápis e cadernos. O céu cinzento. O vento entre as árvores. A carícia das primeiras chuvas. A tristeza sem causa. A solidão sonora. A noite, cada vez mais escura e prolongada. Um cigarro que, […]
- [Wendell Berry – Questionário](https://singularidadepoetica.art/2020/12/15/wendell-berry-questionario-poema/): 1. Quanto veneno você está dispostoa consumir para o sucesso do livremercado e do comércio internacional? Por favor,indique seus venenos preferidos. 2. Em nome do bem, quantomal você está disposto a praticar?Preencha os campos abaixocom os nomes de suas maldades eatos de ódio favoritos. 3. Que sacrifícios você está dispostoa fazer pela cultura e pela […]
- [Audre Lorde – As abelhas](https://singularidadepoetica.art/2020/12/13/audre-lorde-as-abelhas-poema/): Na rua, em frente a uma escola,o que as crianças aprenderamas possui.Garotos gritam enquanto apedrejam um enxame de abelhasque tenta se reunirentre a janela do refeitório e uma grade de ferro.Os garotos arremessam pedras furiosasdespedaçando as janelas.As abelhas, zumbindo sua raiva,demoram a atacar.Então, um dos meninos é picadoem uma destruição mais rápidae os inspetores escolares […]
- [Barbara Ras - Você não pode ter tudo](https://singularidadepoetica.art/2020/12/11/barbara-ras-voce-nao-pode-ter-tudo-poema/): Mas você pode ter a figueira e suas folhas fartas como mãos de palhaçoenluvadas de verde. Você pode ter o toque de um único dedo de onze anos de idadeem seu rosto, acordando-a à uma da madrugada para dizer que o hamster reapareceu.Você pode ter o ronronar do gato e o olhar comovente do cachorro […]
- [Ursula K. Le Guin – Hino ao tempo](https://singularidadepoetica.art/2020/12/09/ursula-k-le-guin-hino-ao-tempo-poema/): O Tempo diz “Que haja”e instantaneamente, a todo instante,existe espaço e o esplendorde cada galáxia brilhante. E olhos contemplando o céu cintilante.E a dança dos mosquitos, tremulante.E a extensão do mar.E a morte, e o azar. O tempo deixa espaçopara ir e voltar para casae no ventre do tempotudo começa e acaba. Tempo é ser […]
- [Jane Hirshfield – Encantamento para se recitar contra o ódio](https://singularidadepoetica.art/2020/12/07/jane-hirshfield-encantamento-para-se-recitar-contra-o-odio-poema/): Até que cada respiração repudie eles, aqueles, outros.Até que a Dramatis Personae da primeira página do livro diga: “Cada um deles é você.”Até que a esperança se dobre à sua desesperança apenas quando um ser se dobrar para outro.Até que a crueldade se dobre às suas ações e subitamente perceba: eu.Até que a raiva e […]
- [Warsan Shire – Casa](https://singularidadepoetica.art/2020/12/05/warsan-shire-casa-poema/): ninguém sai de casa a não ser que a casa seja a boca de um tubarãovocê só corre para a fronteiraquando vê a cidade inteira correndo também seus vizinhos correm mais rápidos do que vocêrespiram o sangue em suas gargantaso menino com quem você ia para a escola eque a beijou atordoada atrás da velha […]
- [Louise Glück - Viúvas](https://singularidadepoetica.art/2020/12/03/louise-gluck-viuvas-poema/): Minha mãe está jogando cartas com minha tia,Spite and Malice*, o passatempo da família, o jogoque minha vó ensinava a todas as suas filhas. É o auge do verão: quente demais para sair.Hoje minha tia está em vantagem; ela está recebendo as cartas boas.Minha mãe está se arrastando, com problemas em se concentrar.Ela não consegue […]
- [Nelson Santander - Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/12/01/nelson-santander-singularidade-poema/): Logo no início do blog, publiquei alguns poemas de minha autoria, não tanto pelo valor intrínseco que cada um deles dificilmente possa ter, mas para deixa-los “arquivados” nesse grande arquivo virtual que é a internet. Dentre eles, o poema que segue é aquele que considero o menos ruim de todos os que cometi. Como minhas […]
- [Marissa Davis – Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/11/29/marissa-davis-singularidade-poema/): Singularidade (depois de Marie Howe) no início sem verboiguana & mirramagma & mariposa-fantasma do recife& os cordyceps fazendo cócegas em seus nervos& cedro & arquipélago & anêmonapássaro dodo & cardeal esperando por seu salvermelho do oceano & óleo cru agora lama preta agora o mais naïve plâncton hesitantecada ovo agarrado à cópia maleávelde mim não-mulher […]
- [Marie Howe – Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/11/27/marie-howe-singularidade-poema/): Singularidade (depois de Stephen Hawking) Você às vezes não gostaria de acordar para a singularidadeque um dia fomos? tão compactos ninguémprecisava de cama, ou comida, ou dinheiro — ninguém se escondendo no banheiro da escolaou sozinho em casa abrindo a gavetaonde os comprimidos são guardados. Pois cada átomo que pertence a mimPertence a você. Lembra-se? […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Ex libris](https://singularidadepoetica.art/2020/11/25/jorge-valdes-diaz-velez-ex-libris-poema/): Eu reli novamente aqueles versosque falavam de amor e que lemosna noite em que ardeu Troia e nos perdemosno fundo de seus negros universos. Ouvi em cada folha os maciosrelevos de tua pele em que achamoshaver bebido ao sol em seus racemose ao mar que refletia em seus cicios fartos nossa ascensão ao precipício.Fareja-se a […]
- [Louise Glück – Abundância](https://singularidadepoetica.art/2020/11/23/louise-gluck-abundancia-poema/): Um vento frio sopra nas noites de verão, agitando o trigo.O trigo se curva, as folhas dos pessegueirosfarfalham noite afora. No escuro, um menino cruza o campo:pela primeira vez, ele tocou uma garotae então volta para casa como um homem, com a fome de um homem. Lentamente, as frutas amadurecem —cestas e mais cestas delas […]
- [Edna St. Vincent Millay - Até tarde](https://singularidadepoetica.art/2020/11/21/edna-st-vincent-millay-ate-tarde-poema/): Com a faca cega do Sono, se quiser,Corte cada dia pela metade, amado —Os anos que o Tempo tira do meu viver,Ele deduzirá daquele outro lado! Trad.: Nelson Santander Midnight Oil * Cut if you will, with Sleep’s dull knife,Each day to half its length, my friend,—The years that Time takes off my life,He’ll […]
- [Derek Mahon - Tudo vai ficar bem](https://singularidadepoetica.art/2020/11/19/derek-mahon-tudo-vai-ficar-bem-poema/): Como eu não ficaria feliz em contemplaras nuvens que se dissipam além da janela do sótãoe a maré alta refletida no teto?Haverá mortes, haverá mortes,mas não há necessidade de falar sobre isso.Os poemas fluem espontaneamente da mãoe a fonte oculta é o coração vigilante.O sol se levanta, apesar de tudo,e as distantes cidades são belas […]
- [Linda Hogan – Cruzamentos](https://singularidadepoetica.art/2020/11/17/linda-hogan-cruzamentos-poema/): Há um lugar no centro da terraonde um oceano se dissolve dentro de outroem um amor negro e sacro;É por isso que as baleias de um oceanoconhecem as canções que vem de outro,porque uma coisa se torna outrae a areia escorre da ampulhetapara um outro tempo.Vi uma vez um feto de baleiaem um breu de […]
- [Octavio Paz – Pedra de sol](https://singularidadepoetica.art/2022/03/06/octavio-paz-pedra-de-sol-poema/): Pedra de sol La treizième revient… c’est encor la première;et c’est toujours la seule – ou c’est le seul moment;car es-tu reine, ô toi, la première ou dernière?es-tu roi, toi le seul ou le dernier amant? GÉRARD DE NERVAL, Arthémis. Um salgueiro de cristal, um choupo de água,um alto repuxo que o vento arqueja,uma árvore […]
- [Nelson Santander - Renata Maria](https://singularidadepoetica.art/2022/03/05/nelson-santander-renata-maria-2/): Renata Maria, por Nelson Santander: uma análise da letra da canção de Chico Buarque
- [Miller Williams - Um poema para Emily](https://singularidadepoetica.art/2022/03/04/miller-williams-um-poema-para-emily-poema/): Fatos e dedos pequenos e o mais distante de minha vezna terra, a um palmo e duas gerações de mim afastada,neste ainda presente eu tenho cinquenta e três.Você, nem vinte e quatro horas completadas. Quando eu tiver sessenta e três, e você, dez completos,e você não estiver nem longe nem perto de mimseus braços se […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A um Ausente](https://singularidadepoetica.art/2022/03/03/carlos-drummond-de-andrade-a-um-ausente-2/): Tenho razão de sentir saudade,tenho razão de te acusar.Houve um pacto implícito que rompestee sem te despedires foste embora.Detonaste o pacto.Detonaste a vida geral, a comum aquiescênciade viver e explorar os rumos de obscuridadesem prazo sem consulta sem provocaçãoaté o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora.Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas […]
- [Dan Gerber – Para Deneb](https://singularidadepoetica.art/2022/03/02/dan-gerber-para-deneb-poema/): Tão impossivelmente distante,dizem os eruditos astrônomos,mais remotado que qualquer outra Coisa queeu já tenha visto,calorosa companheira de uma noite de verão,um quarto de milhão de vezesa luz do nosso sol,obliterando os quatrilhõesde milhas da escuridão à sua volta,ainda assim tão familiar,tão em casa com as estrelas do nosso bairro,aqui na cauda do Cisne,tão serena em […]
- [Ferreira Gullar - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/01/ferreira-gullar-ano-novo-2/): Meia-noite. Fimde um ano, iníciode outro. Olho o céu:nenhum indício. Olho o céu:o abismo vence oolhar. O mesmoespantoso silêncioda Via-Láctea feitoum ectoplasmasobre a minha cabeçanada ali indicaque um ano novo começa. E não começanem no céu nem no chãodo planeta:começa no coração. Começa como a esperançade vida melhorque entre os astrosnão se escutanem se vênem […]
- [Joan Margarit - Ser velho](https://singularidadepoetica.art/2022/02/28/joan-margarit-ser-velho-poema/): Entre as sombras dos galose dos cachorros dos pátios e curraisde Sanaüja, abre-se um buracoque se enche de tempo perdido e chuva sujaenquanto as crianças caminham para a morte.Ser velho é uma espécie de pós-guerra.Sentados à mesa da cozinha,limpando as lentilhasao anoitecer do braseiro,vejo os que me amaram.Tão pobres que no fim daquela guerrativeram que […]
- [Philip Larkin - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2022/02/27/philip-larkin-aubade-2/): De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara.Olho o negror sem som, me levantando às quatro.Em tempo, a borda da cortina vai estar clara.Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato:A morte infatigável, um dia mais perto,Tornando inviável todo pensamento, excetoO de onde, como e quando a minha vai chegar.Uma pergunta […]
- [Jane Hirshfield – Otimismo](https://singularidadepoetica.art/2022/02/26/jane-hirshfield-otimismo-poema/): Tenho admirado a resiliência cada vez mais.Não a simples resistência de um travesseiro, cuja espumasempre volta ao mesmo formato, mas a sinuosatenacidade de uma árvore: ao encontrar a luz recém-bloqueada em um dos lados,ela se volta para o outro. Uma inteligência cega, é verdade.Mas de tal persistência surgiram tartarugas, rios,mitocôndrias, figos — todo este resinoso […]
- [Konstantinos Kaváfis - À Espera dos Bárbaros](https://singularidadepoetica.art/2022/02/25/konstantinos-kavafis-a-espera-dos-barbaros-2/): O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado?Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje.Que leis hão de fazer os senadores?Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se ergueu tão cedoe de coroa solene se assentouem seu trono, à […]
- [Moya Cannon – Mãos](https://singularidadepoetica.art/2022/02/24/moya-cannon-maos-poema/): Mãos para Eamonn and Kathleen Estava em algum lugar sobre a costa nordeste do Brasil,sobre Fortaleza, uma cidade da qual nada sei,exceto que é cheia de pessoas —a vida de cada uma delas um mistériomaior do que a Amazônia —foi lá, enquanto o avião de brinquedo no monitor de voosobrevoava a linha do equadore se […]
- [Ferreira Gullar - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2022/02/23/ferreira-gullar-despedida-2/): Eu deixarei o mundo com fúria.Não importa o que aparentemente aconteça,se docemente me retiro. De fato,nesse momentoestarão de mim se arrebentandoraízes tão fundasquanto estes céus brasileiros.Num alarido de gente e ventaniaolhos que ameirostos amigos tardes e verões vividosestarão gritando a meus ouvidospara que eu fiquepara que eu fique Não chorarei.Não há soluço maior que despedir-se […]
- [Dylan Thomas - Não vás tão docilmente](https://singularidadepoetica.art/2022/02/22/dylan-thomas-nao-vas-tao-docilmente/): Não vás tão docilmente nessa noite linda;Que a velhice arda e brade ao término do dia;Clama, clama contra o apagar da luz que finda. Embora o sábio entenda que a treva é bem-vindaQuando a palavra já perdeu toda a magia,Não vai tão docilmente nessa noite linda. O justo, à última onda, ao entrever, ainda,Seus débeis […]
- [Ferreira Gullar - Praia do Caju](https://singularidadepoetica.art/2022/02/21/ferreira-gullar-praia-do-caju-2/): Escuta:o que passou passoue não há forçacapaz de mudar isto. Nesta tarde de férias, disponível, podes,se quiseres, relembrar.Mas nada acenderá de novoo lumeque na carne das horas se perdeu. Ah, se perdeu!Nas águas da piscina se perdeusob as folhas da tardenas vozes conversando na varandano riso de Marília no vermelhoguarda-sol esquecido na calçada. O que […]
- [Ada Limón – Estrelas extintas](https://singularidadepoetica.art/2022/02/20/ada-limon-estrelas-mortas-poema/): Aqui fora, até as árvores se curvam. A mão gelada do inverno nas costas de todos nós.Casca escura, folhas amarelas escorregadias, uma espécie de quietudetão silenciosa que parece pertencer a outra era.Ultimamente, sou uma morada de aranhas: um ninho de tentativas.Apontamos para as estrelas que compõem Órion enquanto levamos o lixo pra fora, os contêineres […]
- [Ferreira Gullar - O Que Se Foi](https://singularidadepoetica.art/2022/02/19/ferreira-gullar-o-que-se-foi-2/): “O Que Se Foi”, um poema de Ferreira Gullar que confronta a irreversibilidade do passado e revela a contradição íntima entre a lucidez da perda e o coração que insiste em pulsar pelo que não volta.
- [Robert Frost - Nada que é de ouro pode permanecer](https://singularidadepoetica.art/2022/02/18/robert-frost-nada-que-e-de-ouro-pode-permanecer-poema/): No mundo, o ouro é o verde elementar,Sua matiz mais difícil de conservar.A flor é a sua inaugural semente;Não obstante por um instante somente. Depois, folha desaparece sob folha.E assim, no pesar o Paraíso mergulha,E a aurora se transforma em amanhecer.Nada que é de ouro pode permanecer. Trad.: Nelson Santander Nothing gold can stay Nature’s […]
- [Bei Dao - Resposta](https://singularidadepoetica.art/2022/02/16/bei-dao-resposta-2/): A degradação é o passaporte do vilão,A nobreza é epitáfio do nobre.Olhe: como o céu dourado é inundadodo reflexo das sombras torcidas dos mortos. Passada a época do gelo,Por que ainda há gelo em toda a parte?Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança,por que mil velas ainda competem no Mar Morto? Eu vim para […]
- [Mary Oliver - A serpente negra](https://singularidadepoetica.art/2022/02/15/mary-oliver-a-serpente-negra-poema/): Foi quando a serpente negraapareceu na estrada de manhã,e o caminhão não conseguiu desviar –morte, é assim que acontece. Agora ela jaz enrolada e inútilcomo um velho pneu de bicicleta.Eu paro o carroe a levo para o mato. Ela é fria e reluzentecomo um chicote trançado, bela e tranquilacomo um irmão que morreu.Eu a deixo […]
- [Wendell Berry – A cobra](https://singularidadepoetica.art/2022/02/14/wendell-berry-a-cobra-poema/): No final de outubroencontrei no chão da florestauma pequena cobra cujas costastinham o padrão da escuridãodas folhas mortas em que ela estava deitada.Seu corpo fora engrossado por um ratoou um pequeno pássaro. Ela estava fria,tão entorpecida com a barriga cheiae o ar do outono que mal se dava ao trabalho de mexer a língua.Eu a […]
- [William Butler Yeats - A Segunda Vinda](https://singularidadepoetica.art/2022/02/13/william-butler-yeats-a-segunda-vinda-2/): Girando em círculos sempre maioresJá não ouve o falcão ao falcoeiro;Tudo desaba; o próprio centro hesita;Livre, a anarquia reina sobre o mundo,Livre a maré sanguinolenta: em tudoSe afogam os rituais da inocência;Os melhores vacilam e os pioresÀ intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia,Eis que a Segunda Vinda se anuncia,A Segunda […]
- [Györy Somlyó - Fábula da dupla-hélice](https://singularidadepoetica.art/2022/02/12/gyory-somlyo-fabula-da-dupla-helice-poema/): Filho dos meus paispai do meu filhogeraram-mee procrieicriaram-mee crieiherdeie legueisepultei eserei sepultadoatinjo aos poucoso atingívelna corrente de cristalou nas ligações alcalinasda vida singularfeita de duaso tempocondecora-mecom todas as distinçõesatando-mecom todas as valênciasMas minhas célulasnem suspeitamaté onde podematravés delaschegar as célulaspelos obscurosdegraus restantesda escada de caracolou escada de Jacóna abóboda celesteou cavidade cranianado ácido desoxi—ribonucléico. Trad.: […]
- [Cassiano Ricardo - O Cacto](https://singularidadepoetica.art/2022/02/11/cassiano-ricardo-o-cacto-2/): This is cactus land.Here the stone imagesare raised…T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cactona areia da nossa tristeza.Uma folha sobre outra,em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros,um braço a nascer de outro braço,uma folha sobre outra,formaremos um grande cacto. De cada braço, já no espaço,nascerá mais um braço, e desteoutros braços, […]
- [Ellen Bass - Ode à repetição](https://singularidadepoetica.art/2022/02/10/ellen-bass-ode-a-repeticao-poema/): Gosto de fazer a mesma caminhadapela vasta extensão da Woodrow* até o oceanoe na maioria das vezes viro à esquerda em direção ao farol.O mar é sempre diferente. Em alguns dias oníricos,ondas que mal ondulam, apenas uma extensa ondulaçãosem nenhuma pressa de chegar. Em outros, a rebentação está bêbada,colidindo contra os rochedos como um acidente […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2022/02/09/giacomo-leopardi-o-infinito-2/): Sempre me foi cara esta colina ermaE esta sebe, que de muitos ladosExclui a visão do último horizonte.Mas sentado, contemplando, infindáveisEspaços além dela, e sobre-humanosSilêncios, e a mais profunda calmaEu no pensar imagino; e por poucoNão se amedronta o coração. E o VentoOuvindo sussurrar entre essas plantas,Aquele infinito silêncio a esta vozVou comparando: e lembra-me […]
- [Marie Howe – O que os vivos fazem](https://singularidadepoetica.art/2022/02/08/marie-howe-o-que-os-vivos-fazem-poema/): Johnny, a pia da cozinha está entupida há dias, algum utensílio provavelmente caiu lá embaixo. E o Drano não está resolvendo mas cheira perigosamente, e a louça incrustada se amontoou esperando pelo encanador que eu ainda não chamei. Este é o dia a dia de que falávamos. Estamos no inverno de novo: o céu é […]
- [Giuseppe Ungaretti - De uma Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2022/02/07/giuseppe-ungaretti-de-uma-estrela-a-outra-2/): Daquela estrela à outraA noite se encarceraEm turbinosa vazia desmesura, Daquela solidão de estrelaÀquela solidão de estrela Trad: Haroldo de Campos REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016 Da quella stella all’altra Da quella stella all’altraSi carcera la notteIn turbinante vuota dismisura, Da quella solitudine di stellaA quella solitudine di stella.
- [Ted Kooser - Voo noturno](https://singularidadepoetica.art/2022/02/06/ted-kooser-voo-noturno-poema/): Sobre nós, estrelas. Sob nós, constelações.A cinco bilhões de milhas de distância, uma galáxia morrecomo um floco de neve desfazendo-se na água. Abaixo de nós,algum fazendeiro, sentindo o calafrio dessa morte distante,acende suas luzes de quintal, deslocando seu celeiro e galpãode volta para o pequeno sistema sob seus cuidados.Por toda a noite, as cidades, como […]
- [Salvatore Quasimodo - E de repente é noite](https://singularidadepoetica.art/2022/02/05/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite-3/): Cada um está só no coração da terratraspassado por um raio de sol:e de repente é noite. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016. Ed è subito sera Ognuno sta solo sul cuor della terratrafitto da un raggio di sole:ed è subito sera
- [Juan Vicente Piqueras - Sai de ti](https://singularidadepoetica.art/2022/02/04/juan-vicente-piqueras-sai-de-ti-poema/): Sai de Ti(ou coleção de imperativos primavera-verão para o outono de teu desconcerto) Não fujas do que sentes. Não te escondasno que dizes. Não digas mentiras.Sê tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes.Não sofras por medo de sofrer mais.Não mendigues jamais o que mereces.Por exemplo, o amor. Fá-lo e o terás.Funda no fogo firme de […]
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2022/02/03/friedrich-holderlin-outrora-e-agora-3/): De manhã era feliz, quando jovem,E à noite chorava; já hoje, mais velho,Começo meu dia em dúvida, porémSeu fim é para mim sagrado e sereno. Trad.: Antonio Cicero Ehmals und jetzt In jüngern Tagen war ich des Morgens froh,Des Abends weint’ich; jetzt, da ich älter bin,Beginn ich zweifelnd meinen Tag, dochHeilig und heiter ist mir […]
- [Ana Luísa Amaral - Silogismos](https://singularidadepoetica.art/2022/02/02/ana-luisa-amaral-silogismos-poema/): “Silogismos”, um poema de Ana Luísa Amaral que confronta a inocência da infância com o abismo do tempo, revelando a ternura e o limite das palavras diante do infinito.
- [Linda Pastan - Considere o espaço entre as estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/02/01/linda-pastan-considere-o-espaco-entre-as-estrelas-poema/): Considere o espaço brancoentre as palavras em uma página, não sóas margens ao redor delas.Ou o espaço entre pensamentos:instantes em que a mente está inventandoexatamente o que pensae a boca esperapara ser preenchida com linguagem.Considere o espaçoentre os amantes após uma discussão,o lençol branco uma fria metáforaentre eles.Agora imagine o breve espaçoantes que a morte […]
- [Jorge Luis Borges - Limites](https://singularidadepoetica.art/2022/01/31/jorge-luis-borges-limites-2/): Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar,Há uma rua próxima que está vedada a meus passos,Há um espelho que me viu pela última vez,Há uma porta que fechei até o fim do mundo.Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os)Há algum que já nunca abrirei.Este verão cumprirei cinqüenta anos:A morte me desgasta, […]
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2022/01/30/friedrich-holderlin-a-brevidade-3/): “Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora,O canto? Quando jovem, não chegavas,Nos dias de esperança,Nunca ao fim, quando cantavas!” Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebolBanhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está friaE o pássaro da noite esvoaçaincomodamente aos olhos teus. Trad. Antonio Cícero REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente […]
- [Nicholas Christopher – Terminus](https://singularidadepoetica.art/2022/01/29/nicholas-christopher-terminus-poema/): Terminus Eis uma leitura obrigatóriano final do nosso séculoo final de um milênio que começou com as cruzadas A transcrição de uma entrevistaentre um médico da Cruz Vermelhae uma menina muçulmana de doze anosna Bósniaque descreveu os estupros que sofreu nas mãos de homensque se autodenominavam soldadosdiferentes homens todas as noites um após o outroseis […]
- [Wislawa Szymborska - O primeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2022/01/28/wislawa-szymborska-o-primeiro-amor-2/): Dizemque o primeiro amor é o mais importante.Isso é muito romântico,mas não é o meu caso.Algo entre nós houve e não houve,se deu e se perdeu.Não me tremem as mãosquando encontro as pequenas lembrançase o maço de cartas atadas com barbantese ao menos fosse uma fita.Nosso único encontro depois de anosfoi um diálogo de duas […]
- [Stanley Kunitz - O retrato](https://singularidadepoetica.art/2022/01/27/stanley-kunitz-o-retrato-poema/): Minha mãe nunca perdoou meu paipor ter-se suicidado,especialmente em um momento tão estranhoe em um parque público,naquela primaveraquando eu estava esperando para nascer.Ela encarcerou o nome deleem seu armário mais profundoe não o deixou mais sair,embora eu pudesse ouvi-lo batendo.Quando desci do sótão, trazendona mão o retrato em tons pastéisde um estranho de lábios compridos,bigode […]
- [Ian Hamilton - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2022/01/26/ian-hamilton-epitafio-2/): O aroma de rosas velhas e tabacoFaz-me regressar.Há quase vinte anosQue não nos vemosE a nossa desapegada paixão continua. Foi isto que me deixaste:A mão, entreaberta, imóvelSobre uma colcha verde.O bastante para erguerAlguns poemas melancólicos. Se então eu te houvesse tocadoUm de nós podia ter sobrevivido. Trad. Nuno Vidal REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Polaroide](https://singularidadepoetica.art/2022/01/25/jorge-valdes-diaz-velez-polaroide-poema/): Polaroide para Eugenio Montejo São sete contra a parede, em pé, e um sentado.Mal conservam os traços desbotados pelos anos. Os rostos resistem ao desgaste,embora já não possuam as cores vivasque ontem os distinguiram. Entre livros e taças,os olhares sorridentes, as mãos dadascelebrando a vida na prata e gelatina*se apagam na sépia de sua jovem […]
- [Pedro Salinas - Não Te Vejo](https://singularidadepoetica.art/2022/01/24/pedro-salinas-nao-te-vejo-2/): Não te vejo. Bem seique estás aqui, atrásde uma frágil paredede ladrilhos e cal, bem ao alcanceda minha voz, se chamasse.Mas não chamarei.Chamarei amanhã,quando, ao não te ver maisimagine que continuasaqui perto, ao meu lado,e que basta hoje a vozque ontem eu não quis dar.Amanhã… quando estivereslá atrás de umafrágil parede de ventos,de céus e […]
- [Tomas Tranströmer - Neve Cai](https://singularidadepoetica.art/2022/01/23/tomas-transtromer-neve-cai-poema/): Enterros chegammais e mais pertocomo placas na estradaao se aproximar a cidade. Milhares de olhares humanosna longa terra das sombras. Uma ponte apontadevagarbem longe no espaço. Trad.: Marcia Sá Cavalcante Schuback SNÖ FALLER Begravningarna kommertätare och tätaresom vägskyltarnanär man närmar sig en stad. Tusentals människors blickari de långa skuggornas land. En bro bygger siglångsamtrakt ut […]
- [William Butler Yeats - Viajando para Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2022/01/22/william-butler-yeats-viajando-para-bizancio/): Aquela não é terra para velhos. Gentejovem, de braços dados, pássaros nas ramas— gerações de mortais — cantando alegremente,salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,peixe, ave ou carne glorificam ao sol quentetudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.Ao som da música sensual, o mundo esqueceas obras do intelecto que nunca envelhece. […]
- [Robinson Jeffers – Pecado original](https://singularidadepoetica.art/2022/01/21/robinson-jeffers-pecado-original-poema/): O símio-terrestre com seu cérebro e mãos de homem, fisicamenteO mais repulsivo de todos os animais de sangue quenteDa terra até então: eles cavaram uma armadilhaE capturaram um mamute, mas como poderiam seus paus e pedrasAtingir a vida naquela tocaia? Eles dançaram ao redor do poço, guinchandoCom excitação de macaco, arremessando pedras afiadas em vão, […]
- [Vinicius de Moraes - Poema de Natal](https://singularidadepoetica.art/2022/01/20/vinicius-de-moraes-poema-de-natal-2/): Para isso fomos feitos:Para lembrar e ser lembradosPara chorar e fazer chorarPara enterrar os nossos mortos —Por isso temos braços longos para os adeusesMãos para colher o que foi dadoDedos para cavar a terra. Assim será nossa vida:Uma tarde sempre a esquecerUma estrela a se apagar na trevaUm caminho entre dois túmulos —Por isso precisamos […]
- [John Keats – Ode sobre a melancolia](https://singularidadepoetica.art/2022/01/19/john-keats-ode-sobre-a-melancolia-poema/): Não! Não vás para o Letes, nem tristes raízes Tortures para obter o vinho que te acena;Nem no pálido rosto os beijos cicatrizes Da beladona, que Prosérpina envenena.Não faças teu rosário com amoras parcas, Nem permitas que o escaravelho ou a falena Sejam tua Psique, nem que o mocho do abandonoPartilhe dos mistérios do teu […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2022/01/18/cassiano-ricardo-a-graca-triste-3/): Só me resta agoraEsta graça tristeDe te haver esperadoAdormecer primeiro.Ouço agora o rumorDas raízes da noite,Também o das formigasImensas, numerosas,Que estão, todas, corroendoAs rosas e as espigas. Sou um ramo secoOnde duas palavrasGorjeiam. Mais nada.E sei que já não ouvesEstas vãs palavras.Um universo espessoDói em mim com raízesDe tristeza e alegria.Mas só lhe vejo a […]
- [Algernon Charles Swinburne - O Jardim de Proserpina](https://singularidadepoetica.art/2022/01/17/algernon-charles-swinburne-o-jardim-de-proserpina/): Leia "O Jardim de Proserpina", de Algernon Charles Swinburne, um clássico da poesia vitoriana sobre morte, esquecimento e o anseio pelo repouso eterno.
- [Reginald Gibbons - O que remanesce](https://singularidadepoetica.art/2022/01/16/reginald-gibbons-o-que-remanesce-poema/): Sim, o pão está envenenado. E não há sequer um gole de ar.Como é difícil curar a ferida da vida.O próprio José, vendido ao Egito como escravo,não poderia ter ficado mais profundamente magoado. Então, sob o enxame de estrelas do céu, chegam os Beduínos.Eles acalmam seus cavalos. Então, por turnos, com olhos fechados,cada um inventa […]
- [Óssip Mandelstam - O ar foi todo bebido e o pão, corrompido...](https://singularidadepoetica.art/2022/01/15/osip-mandelstam-o-ar-foi-todo-bebido-e-o-pao-corrompido-poema/): O ar foi todo bebido e o pão, corrompido.Cicatrizar as feridas é tão custoso!O jovem José, ao Egito vendido,Não poderia estar mais desgostoso! Os beduínos, sob a abóboda estrelada,A cavalo, e de olhos semicerrados,Concebem sagas improvisadasSobre seu dia vagamente vivenciado. De quase nada precisam que lhes dê alento:Um perdeu sua aljava no arenoso chão;Outro trocou […]
- [Thiago de Mello - Madrugada camponesa](https://singularidadepoetica.art/2022/01/14/thiago-de-mello-madrugada-camponesa/): para os trabalhadores do MST, em 1999 Madrugada camponesa,faz escuro ainda no chão,mas é preciso plantar.A noite já foi mais noite,a manhã já vai chegar. Não vale mais a cançãofeita de medo e arremedopara enganar solidão.Agora vale a verdadecantada simples e sempre,agora vale a alegriaque se constrói dia a diafeita de canto e de pão. […]
- [Antonio Cicero - Nihil](https://singularidadepoetica.art/2022/01/14/antonio-cicero-nihil-2/): nada sustenta no nada esta terranada este ser que sou eunada a beleza que o dia descerranada a que a noite acendeunada esse sol que ilumina enquanto errapelas estradas do breunada o poema que breve se encerrae que do nada nasceu REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog em 24/02/2016
- [Heather McHugh – O que ele pensou](https://singularidadepoetica.art/2022/01/13/heather-mchugh-o-que-ele-pensou-poema/): O que ele pensou para Fabio Doplicher Teríamos que fazer um trabalho na Itáliae, repletos dos nossos sentimentos pornós mesmos (nossa sensação de sermosPoetas da América) fomosde Roma a Fano, conhecemoso prefeito, refletimossobre alguns assuntos (o que éuma piriguete, eles nos perguntaram; o que écerveja sem colarinho). Entre os literatos italianos conseguíamos reconhecer nossos homólogos:o […]
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2022/01/12/konstantinos-kavafis-itaca-em-tres-traducoes-2/): ÍTACA(Trad. José Paulo Paes) Se partires um dia rumo a Ítaca,faz votos de que o caminho seja longo,repleto de aventuras, repleto de saber.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o colérico Posídon te intimidem;eles no teu caminho jamais encontrarásse altivo for teu pensamento, se sutilemoção teu corpo e teu espírito tocar.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o bravio […]
- [Agi Mishol - A mártir](https://singularidadepoetica.art/2022/01/11/agi-mishol-a-martir-poema/): Leia A Mártir, de Agi Mishol, um poema impactante sobre terrorismo, desumanização e as tragédias humanas geradas pelo conflito.
- [Jane Kenyon – Desmontando a árvore](https://singularidadepoetica.art/2022/01/10/jane-kenyon-desmontando-a-arvore-poema/): “Deem-me um pouco de luz!” grita o tiode Hamlet em meio ao assassinatode Gonzaga. “Luz! Luz!” choram as cortesãsem dispersão. Aqui, como na Dinamarca,é escuro às quatro, e até a lua brilha apenas com a metade de um coração. Os enfeites vão para a caixa:o spaniel prateado – com Meu amorna coleira – da infância […]
- [Samuraitiger19 - Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…](https://singularidadepoetica.art/2022/01/09/samuraitiger19-nos-minutos-finais-de-sua-vida-calvin-teve-uma-ultima-conversa-com-haroldo-2/): “Calvin? Calvin, querido?” No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin […]
- [Henri Cole – Cerejeiras choronas](https://singularidadepoetica.art/2022/01/09/henri-cole-cerejeiras-choronas-poema/): Em um platô, com pequenas montanhas,um rio lamacento, perigoso quando a neve derretia,um vale fértil, criadores de gado, e um conservatório musical,um povo alto, belo, ágil, de negros cabelos lisose um espírito empreendedor, vivia pacificamente. Emboranunca tenha havido ódio entre as raças,após uma discussão sobre questões locais, massacres ocorreram.Homens, mulheres & crianças pilhados & deportados […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Consolo na Praia](https://singularidadepoetica.art/2022/01/08/carlos-drummond-de-andrade-consolo-na-praia-2/): Vamos, não chores.A infância está perdida.A mocidade está perdida.Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou.O segundo amor passou.O terceiro amor passou.Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo.Não tentaste qualquer viagem.Não possuis carro, navio, terra.Mas tens um cão. Algumas palavras duras,em voz mansa, te golpearam.Nunca, nunca cicatrizam.Mas, e o humour? A injustiça […]
- [Robyn Sarah - Ao fechar o apartamento dos meus avós de abençoada memória](https://singularidadepoetica.art/2022/01/07/robyn-sarah-ao-fechar-o-apartamento-dos-meus-avos-de-abencoada-memoria-poema/): E então eu me vi naquela sala pela vez final.Mantive-me firme, com a chave em minha mão,e ouvi o silêncio que era como um som,e percebi como o longo sol da tarde invernalbaixava de maneira oblíqua ao chão fazendo florir os veios do assoalho. (Tudo o que eles um diapossuíram estava guardado aqui.) Na janela […]
- [Jorge de Sena - Conheço o Sal](https://singularidadepoetica.art/2022/01/06/jorge-de-sena-conheco-o-sal/): “Conheço o Sal”, um poema de Jorge de Sena que transforma a intimidade dos corpos em matéria sensorial e simbólica, onde o sal do encontro amoroso se torna marca indelével da fusão entre dois seres.
- [Robin Myers - O retorno](https://singularidadepoetica.art/2022/01/05/robin-myers-o-retorno-poema/): Esta é a rua ondevocê nasceu. Esta é a chave que você perdeu na neve,e este é o casaco que vestiu para ir buscá-la.Este é o céu visto da janelinha do avião na manhã em que deixouo país. Este é o lugar aonde você pensou que jamais iria.Este é o sanduíche que você comeu na […]
- [William Ernest Henley - Invictus](https://singularidadepoetica.art/2022/01/04/william-ernest-henley-invictus-2/): No meio da noite que me abraça,Negra como um Poço em sua inteireza,Agradeço a cada Deus pela graçaDe minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstânciasNão recuei nem alteei meu pranto.Debaixo dos golpes das contingênciasMinha fronte sangra – altiva, no entanto. Além deste lugar de desenganos,Somente o Horror das sombras desponta,E entretanto a ameaça dos […]
- [Lisel Mueller – De passagem](https://singularidadepoetica.art/2022/01/03/lisel-mueller-de-passagem-poema/): A rapidez com que o mel filtradoda luz da tardeflui para a escuridão e o fechado broto livra-sede seu singular mistérioa fim de desabrochar: como se o que existe, existapara poder perder-see tornar-se precioso. Trad.: Nelson Santander In Passing How swiftly the strained honeyof afternoon lightflows into darkness and the closed bud shrugs offits special […]
- [Bertolt Brecht - Lista de preferências](https://singularidadepoetica.art/2022/01/01/bertolt-brecht-lista-de-preferencias-poema/): Dia desses, minha mulher encasquetou que eu precisava arrumar a bagunça do meu escritório. Papéis diversos, contas pagas, declarações de imposto de renda de 10 anos atrás, antigos bilhetes que minha filha me escreveu quando criança – estava tudo junto e misturado, naquela bagunça típica dos procrastinadores. Urgia enfrentar o problema. E lá fui eu, […]
- [Retrospectiva 2021](https://singularidadepoetica.art/2021/12/31/retrospectiva-2021/): O ano de 2021 foi marcado pelo recrudescimento da pandemia no início do ano, o avanço da vacinação pelo país a partir de abril, pelo declínio do número de casos e mortes causados pela doença à medida em que um número maior de pessoas foram sendo vacinadas e o surgimento de uma nova variante do […]
- [Jane Hirshfield – Um dia é vasto](https://singularidadepoetica.art/2021/12/30/jane-hirshfield-um-dia-e-vasto-poema/): Um dia é vasto.Até o meio-dia.Depois acaba.A água da lagoa de ontem, entrelaçada,ainda está molhada em meus cabelos.Eu não sei o que é o tempo.Você nunca pode encontra-lo.Mas você pode perde-lo. Trad.: Nelson Santander A Day Is VastA day is vast.Until noon.Then it’s over.Yesterday’s pondwaterbraided still wet in my hair.I don’t know what time is.You […]
- [Diane di Prima - Poema de aniversário pro meu avô no dia da mentira](https://singularidadepoetica.art/2021/12/29/diane-di-prima-poema-de-aniversario-pro-meu-avo-no-dia-da-mentira-poema/): Hoje é o seuaniversário e eu tenteiescrever essas coisas antes,mas agoraem meio à loucura crescente, eu queroagradecê-lopor me dizer o que esperarpor não pouparas palavras, lá naquela sala encerada do Bronxagradecê-lopor chorar abertamente duranteas inúmeras óperas italianasdesoladoras obrigadapor puxar meu cabelo quandoeu puxava as folhas das árvores assimeu saberia o que elas sentiam, nós estamosenvolvidos […]
- [Anabel Torres - Quando meu corpo e minha cabeça](https://singularidadepoetica.art/2021/12/28/anabel-torres-quando-meu-corpo-e-minha-cabeca-poema/): Quando meu corpo e minha cabeçacomeçaram a arder e a provocar incêndios,minha mãe, como bombeiro enlouquecido,me perseguia por toda a casa. Apontava contra mim, implacávelo poderoso jorro de seu medoe tratava de me enterrar. Assim cresci. Meu pai era diferente. Defendia diante de mim, por igual, e com igual veemência e convicçãoas vantagens do gelo […]
- [Mary Oliver - Primavera](https://singularidadepoetica.art/2021/12/27/mary-oliver-primavera-poema/): Em algum lugar,uma ursa-negraacaba de despertare lança seu olhar para baixo na montanha.A noite toda,na inquietude vivaz e superficialdo início da primavera, eu penso nela,suas quatro patas pretasesparramando o cascalho,sua língua como uma chama rubratocando a relva,a água fria.Só há uma questão: como amar este mundo?Eu penso nelaerguendo-secomo um rochedo negro e musgoso para afiar […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - As flores do mall](https://singularidadepoetica.art/2021/12/26/jorge-valdes-diaz-velez-as-flores-do-mall-poema/): As jovens deusas, noturnasaparições (roupas escuras,prata queimando seus umbigos)na cadência da pista,começam a desbotarcom a premência dos anos,os problemas, talvez os filhosque ainda não têm. Olhamagora para os teus olhos com clarodesprezo (já tens quarenta)e pensas em certas palavrasde Baudelaire que lhes dariascomo se fossem teus frutos(se ao menos se aproximassem), sesoubessem quem foi o […]
- [Henry Wadsworth Longfellow - A reunião](https://singularidadepoetica.art/2021/12/25/henry-wadsworth-longfellow-a-reuniao/): Depois de uma longa ausência Nos vemos de novo, afinal:O encontro nos dá prazer, Ou, ao contrário, aflição?A Árvore foi chacoalhada, E poucos de nós perduramos,Como os tais frutos do profeta, No topo mais alto dos ramos.Saudamos-nos cordialmente No velho tom familiar;E pensamos, mas só conosco, Quão velho e grisalho ele está!Falamos de um bom […]
- [David Mourão-Ferreira - Ladainha dos Póstumos Natais](https://singularidadepoetica.art/2021/12/24/david-mourao-ferreira-ladainha-dos-postumos-natais-poema/): Ladainha dos Póstumos Natais, um poema de David Mourão-Ferreira sobre o Natal
- [Charles Simic - Medo](https://singularidadepoetica.art/2021/12/23/charles-simic-medo-poema/): O medo passa de homem para homemInconscientemente,Como uma folha passa o seu estremecimentoPara outra. De repente, a árvore toda está tremendo,E não há nenhum sinal do vento. Trad.: Nelson Santander Fear Fear passes from man to manUnknowing,As one leaf passes its shudderTo another. All at once the whole tree is trembling,And there is no sign […]
- [Linda Pastan - As Íris de Monet](https://singularidadepoetica.art/2021/12/22/linda-pastan-as-iris-de-monet-poema/): Estas floresse sonharamde volta à cor pura –os verdesda água indivisa,os verdesinformes do pradoassim como Deus disse:Que hajaÍris. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Monet’s Irises These flowershave dreamed themselvesback into pure color—the greensof undivided water,the formlessgreens of meadowjust […]
- [Danusha Laméris – Vestindo-se para o enterro](https://singularidadepoetica.art/2021/12/21/danusha-lameris-vestindo-se-para-o-enterro-poema/): Ninguém fala sobre a hilaridade após a morte —a forma como na semana em que o meu irmão se matoua esposa dele e eu caímos na cama gargalhandoporque ela não conseguia decidir sobre o que vestir para o grande dia,e me perguntou, “Eu quero ser sexy ou Amish?” Eu respondi: sexy.E nós rolamos sobre o […]
- [Kenneth Rexroth - Delia Rexroth](https://singularidadepoetica.art/2021/12/20/kenneth-rexroth-delia-rexroth-poema/): A Califórnia entra numVerão modorrento, e o arEstá repleto da agridoceFumaça de relva queimandoNas colinas de São Francisco.A carne arde assim, as pirâmidesIdem, assim como as estrelas em combustão.Cansado esta noite, em uma cidadeDe arrivistas, no desumanoOeste, no mais sangrento dos anos,Peguei um livro de poemasDe que você costumava gostar, com Aquela música que você […]
- [Joana, de Joan Margarit](https://singularidadepoetica.art/2021/12/13/joana-sumario/): Há livros que não devem ser lidos às pressas. Joana, de Joan Margarit, é um deles. Esta página reúne, no Singularidade Poética, a tradução da obra publicada em sequência. Mais do que um conjunto de poemas, Joana é um livro: tem uma respiração própria, uma ordem interna, uma dor que retorna em imagens, vozes, lugares […]
- [Joan Margarit - No final da noite](https://singularidadepoetica.art/2021/12/12/joan-margarit-no-final-da-noite-poema/): O ar está congelando.Até o rouxinol mantém-se em silêncio.Com a testa apoiada na vidraçapeço perdão às minhas filhas mortas,porque já quase nunca penso nelas.O tempo passou, deixando sobre a cicatrizsua argila empoeirada, e ocorre que, mesmoquando se ama alguém, sobrevém o esquecimento.A luz tem a mesma aspereza das gotasque vão, com o degelo, caindo dos […]
- [Joan Margarit - Um lugar perdido](https://singularidadepoetica.art/2021/12/11/joan-margarit-um-lugar-perdido-poema/): UM LUGAR PERDIDOIn memoriamMarta Ribalta i Taltavull (17-VIII-1946, 11-V-1999)Joana Margarit i Ribalta (20-VIII-1970, 2-VI-2001) Reluz o sol do conto de fadasque para Marta foi esta casapequena e luminosa em frente aos campos.Ninguém tocou em um único troncoda lenha cortada e ordenada.Joana fez um desenho para elaonde lhe dizia: Que sejas muito feliz.Quando Joana tinha dois anos […]
- [Joan Margarit - A espera](https://singularidadepoetica.art/2021/12/10/joan-margarit-a-espera-poema/): Muitas coisas estão sentindo a tua falta.Cada dia é repleto de momentos que esperamaquelas pequenas mãosque seguraram as minhas tantas vezes.Teremos de nos habituar à tua ausência.Um verão já passou sem teus olhose o mar também terá que se acostumar.Por muito tempo ainda,a rua esperará diante de nossa porta,pacientemente, pelos teus passos.Não se cansará nunca […]
- [Joan Margarit - Lápide](https://singularidadepoetica.art/2021/12/09/joan-margarit-lapide-poema/): LÁPIDEANNA, 1967; JOANA, 1970-2001 Nossa memória guarda vossos nomesem uma pequena praia que jamaisfigurará nos mapas dos navios.Quão próximas estais aqui, uma da outra,minhas filhas, depois de tanto tempo.Tão unidas agora, atrás de vossos nomes,que olham para o mare que o sol lê a cada amanhecer. Trad.: Nelson Santander LÁPIDAANNA, 1967; JOANA, 1970-2001 Nuestra memoria […]
- [Joan Margarit - Quadro com pássaros](https://singularidadepoetica.art/2021/12/08/joan-margarit-quadro-com-passaros-poema/): A parede é, deste lado, escura e triste,como naquela históriaque um dia te contei. Fosse de verdade,todos os pássaros que pintasteestariam a tua espera do outro ladocantando para ti:acolher-te-ia aquela parte clarade que falava a históriacomo o faríamos tua mãe e euse pudesses voltar para casa novamente. Conto para mim mesmo esta históriaenquanto olho para […]
- [Joan Margarit - O primeiro verão sem ti](https://singularidadepoetica.art/2021/12/07/joan-margarit-o-primeiro-verao-sem-ti-poema/): IPenhascos de um cinza esverdeado,como grandes machados pré-históricos,mergulham na água.Como alguém descascando frutas,a estrada recorta suas curvasatravés das velhas colinas calcinadas. O carro estaciona próximo ao mare no retrovisor não estão teus olhos.Em frente, branco, La Gambinacom seu letreiro — HOTEL — azulno alto, no telhado, mirando o amanhã. IISentada diante das ondas:as nuvens se […]
- [Joan Margarit - Professor Bonaventura Bassegoda](https://singularidadepoetica.art/2021/12/06/joan-margarit-professor-bonaventura-bassegoda-poema/): Lembrei-me de você, alto e corpulento,atrevido, sentimental. Na época, vocêera uma autoridade em Alicerces Profundos.Iniciava as aulas sempre assim:Senhores, bom dia.Hoje faz tantos anos, tantos mesese tantos dias que minha filha morreu.E costumava secar algumas lágrimas.Tínhamos vinte anos, mais ou menos,e o homem corpulento que você era,chorando durante a aula,nunca nos fez sorrir.Há quanto tempo […]
- [Joan Margarit - O presente e Forès](https://singularidadepoetica.art/2021/12/05/joan-margarit-o-presente-e-fores-poema/): IManhã de verão nos campos.E Mariona, com seu avental,cavando no jardim, sob as rosas.Mònica — aos doze — anda de bicicletana estrada para a aldeia,e Joana e Carles — ambos com cinco — dormem.Reluz o ar do feriado:pela janela aberta para as árvores,entre as folhas sopradas pela brisa,escapa o piano das «Suites inglesas»,e de repente […]
- [Joan Margarit - Canção de ninar](https://singularidadepoetica.art/2021/12/04/joan-margarit-cancao-de-ninar-poema/): Dorme, Joana.E que este «Loverman» — sombrio e trágicodo sax do teu irmão em Montjuïc —possa acompanhar-te por toda a eternidade pelos caminhosque só a música conhece.Dorme, Joana, dorme.E, se possível, não te esqueçasde teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste.Envelhecer será também reteras cores que um dia brilharam em teus olhos.Dorme, […]
- [Joan Margarit - Recordações militares](https://singularidadepoetica.art/2021/12/03/joan-margarit-recordacoes-militares-poema/): Ao crepúsculo, algumas centenasde homens em formação,silenciosos, imóveis, ouvíamosum solo de trompete. Além das noitesde sentinela sob a estreladaescuridão do acampamento,acho que do meu tempo sentirei faltade tudo o que não se podia comprar. Das sensaçõesao falar sobre a morte. E da honra.A honra, um céu distante. Deficiente, andavas de muletas:nunca houve para mim garota […]
- [Joan Margarit - Passageira](https://singularidadepoetica.art/2021/12/02/joan-margarit-passageira-poema/): Na grande janela do aeroportoum amanhecer de luz branca, entre a névoa,se ergue diante da garota com um livroque ela nunca chegará a ler.Minha juventude está ali também,naquelas páginas de papel bíbliados russos do século dezenove.Um tomo grosso encadernado em couro. Natashas e Nastenkas, silenciosasamigas de quem aprendia esperar, na neve e na nevasca,uma acolhedora […]
- [Joan Margarit - Uma fotografia pendurada na parede](https://singularidadepoetica.art/2021/12/01/joan-margarit-uma-fotografia-pendurada-na-parede-poema/): Uma fotografia pendurada na paredeXavier Miserachs Paseo de Gracia,o inverno em que, sob a neve, tu e eu nos conhecemos.Em primeiro plano, de costas para mim,alguns transeuntes que se afastam:talvez seja eu aquele homem com o guarda-chuva,e talvez a mulher com um gorrode lã sejas tu.O fundo se desvanecepor trás dos flocos que caem,nublando o […]
- [Joan Margarit - Uma história](https://singularidadepoetica.art/2021/11/30/joan-margarit-uma-historia-poema/): Não digas nada, Joana,apenas escuta-o e não digas nada.Caminhávamos na chuvosamanhã pela cidade adormecida,e entrávamos lentamenteem uma via calçadaque não levava a lugar nenhum.Algumas crianças, com gritos e canções,queriam que nos aproximássemos do canal,para que víssemos sua casa refletida na água.Gostaste, lembra-te?,de observar as crianças. Quando partimossuas carinhas estavam grudadas nas vidraças,suas vozes dissipando-se na […]
- [Joan Margarit - Espaço e tempo](https://singularidadepoetica.art/2021/11/29/joan-margarit-espaco-e-tempo-poema/): E de repente a casa ficou grande demais.Tua mãe e eu esvaziamos teus roupeirose seguimos por mesas e prateleiras,de retrato em retrato, teus sorrisos.À noite, os espelhos, sob a luz elétrica,exibem com mais relevo o teu vazio.Os móveis estão agora mais escuros.Descem pelas escadaso cálido balaústre que se lembrade tua pequena mão,e os degraus que […]
- [Joan Margarit - Noite de junho](https://singularidadepoetica.art/2021/11/28/joan-margarit-noite-de-junho-poema/): Quando saí do cinema já fazia escuro.Naquele velho estacionamento, sem iluminação,subi a rampa áspera e sujaporque havia estacionado no terraço.Dentro de mim também era dura a ladeira:os primeiros dias sem ti.Mas ao chegar no topo, ao ar livre,um cálido silêncioenvolvia a sombra dos carros:os ladrilhos avermelhados, as gradesde ferro, singelas e delicadas,e os vasos com […]
- [Joan Margarit - Final](https://singularidadepoetica.art/2021/11/27/joan-margarit-final-poema/): Teu enterro, na primavera: foi essaa mensagem final de tua bondade.Nada melhor em torno de ti do que o ruídodesta cidade e, em frente,a eternidade do mar.Que rude fachada a do Montjuïc: vaiaté onde o pensamento deseja. O carrinho sobe os caminhos de areiae os automóveis o seguem,fazendo crepitar o cascalho ao pédos ciprestes na […]
- [Joan Margarit - Teu lobo](https://singularidadepoetica.art/2021/11/26/joan-margarit-teu-lobo-poema/): Mira-o antes de ir-tee dize-lhe adeus: ele foipreso outras vezessem jamais se render.Contempla-o, amarradono pátio nevado:a corrente lhe roçao pescoço, já sem pelos,do qual pendem aindacordas gastas,as que outrora ele partiuem outros cativeiros. Ele dorme quaseo tempo todo.Tem manchas escurascomo de quando caio reboco de uma parede.Infestado de pulgas,na rosada línguaque pende avidamentehá pretas estriasdeixadas […]
- [Joan Margarit - O dia depois da morte](https://singularidadepoetica.art/2021/11/25/joan-margarit-o-dia-depois-da-morte-poema/): Hoje te vi e levavas tuas muletas azuis,feliz como sempre e protegidapor aquele jovem pai entre as tensascordas do enorme violoncelo da chuva.Jamais tu e eu lembraremosde termos sido pai e filhaneste mesmo pátio, onde o loureiromolhado balança ao anoitecer. Trad.: Nelson Santander EL DÍA DESPUÉS DE LA MUERTE Hoy te he visto y llevabas […]
- [Joan Margarit - Um pobre instante](https://singularidadepoetica.art/2021/11/24/joan-margarit-um-pobre-instante-poema/): A morte nada mais é do que isto: o quarto,a luminosa tarde na janela,e este toca-fitas na mesinha– tão silencioso como o teu coração –com todas as tuas canções tocadas para sempre.Teu último suspiro segue dentro de mimainda em suspenso: não deixo que acabe.Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?Ouves como brincam as crianças no […]
- [Joan Margarit - Última caminhada](https://singularidadepoetica.art/2021/11/23/joan-margarit-ultima-caminhada-poema/): Já não comia. Caíam meus cabelos.Ficava o dia todo de olhos fechados.Mas saí para a varanda de madrugadae alguém da calçada, sob uma árvore,falou-me com uma voz como a de minha mãe,que dormia em sua cama ao lado da minha.De repente, não estava mais cansadae desci sem muletas até a rua.Nunca fora capaz de andar […]
- [Joan Margarit - Mari](https://singularidadepoetica.art/2021/11/22/joan-margarit-mari-poema/): Ela te acompanhou por muito tempo,todas as tardes, na natação e na escola.Foi tua amiga e também a confidentedaquela dolorosa adolescênciade lua de hospital e das tardes azuisda lenta juventude. Foi a tua Mari,as últimas visitas, quando teus olhospesavam-te interiormente como a morteque apagou todo o brilho por trás das friasvidraças embaçadas de passado.Tu e […]
- [Joan Margarit - Súplica](https://singularidadepoetica.art/2021/11/21/joan-margarit-suplica-poema/): Desta manhã invernal, morna e aprazível,por favor, não te vás.Fica submersa neste pátiocomo se houvesses naufragadodentro de nossa vida.Sob o loureiro, entre as aspidistrasde folhas românticas, verdes e largas,por favor, não te vás, não te vás. Tudo está preparado para ti.Fica, por favor, e não te vás.Diz-me se te lembras: preciso dealgumas palavras com a […]
- [Merrit Malloy - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2020/03/02/merrit-malloy-epitafio/): Quando eu morrerDoa o que restar de mimÀs criançasE aos idosos que esperam para morrer. E se precisares chorar,Chora por teu irmãoQue caminha pela rua ao teu lado.E quando precisares de mim,Põe teus braçosEm volta de alguémE dá-lhe o que tens a me oferecer. Quero deixar-te algo,Algo melhorQue palavrasOu sons. Busca por mimNas pessoas que […]
- [José Emílio Pacheco - Crianças e adultos](https://singularidadepoetica.art/2020/03/01/jose-emilio-pacheco-criancas-e-adultos/): Aos dez anos, acreditavaque o mundo era dos adultos.Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,ir aonde quisessem.Sobretudo, nos esmagar com seu poder indomável. Agora sei, por vasta experiência, o lugar-comum:em verdade, não há adultos,apenas crianças envelhecidas. Desejam o que não têm:o brinquedo do outro.Sentem medo de tudo.Obedecem sempre a alguém.Não governam a própria existência.Choram por […]
- [Juan Vicente Piqueras - Papoulas](https://singularidadepoetica.art/2020/02/29/juan-vicente-piqueras-papoulas/): No antigo campo de batalha onde morreram milhares de meninos cresce novamente o trigo, salpicado aqui e ali de ardentes papoulas. E dois amantes, que terão mais ou menos a idade dos soldados que aqui então morreram, hoje fazem amor no semeado. Deitam o trigo. Calcam as papoulas. Trad.: Nelson Santander Amapolas Sobre el antiguo […]
- [Louise Glück - Outubro](https://singularidadepoetica.art/2020/02/28/louise-gluck-outubro/): 1. É inverno outra vez, faz frio outra vez, Frank não escorregou no gelo, ele não se curou, não se plantaram as sementes da primavera a noite não terminou, o gelo derretido não inundou as calhas estreitas meu corpo não foi resgatado, não era seguro não se formou a cicatriz, invisível sobre a lesão terror […]
- [Raquel Lanseros - A propósito de Eros](https://singularidadepoetica.art/2020/02/27/raquel-lanseros-a-proposito-de-eros/): De todas as terrenas servidões que aprisionam meu afã neste cárcere confesso-me devedora da carne e de todos os seus íntimos vaivéns que me fazem mais feliz e menos livre. Às vezes, porém, a escravidão se mostra soberana e me sinto senhora do destino. Porque sei amar, porque provei da fruta e nunca maldisse o […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - O material do relâmpago](https://singularidadepoetica.art/2020/02/26/jorge-valdes-diaz-velez-o-material-do-relampago/): Calculaste em detalhes cada passo, sutil, há muitos séculos. Finalmente teu marido viajou e as crianças foram dormir com os avós. Estás agora sozinha e eufórica voltaste-te a se maquiar e vestiste-te de preto rigoroso e perfumaste tua mínima porção de lingerie. Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada te fará voltar atrás. Olhas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Dentaduras duplas](https://singularidadepoetica.art/2020/02/25/carlos-drummond-de-andrade-dentaduras-duplas/): Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos… Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. (Coroas sem reino, os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura, dentadura múltipla, a serra mecânica, sempre desejada, jamais possuída, que acabará com o tédio da boca, a boca que beija, a boca […]
- [T. S. Eliot - A Viagem dos Magos](https://singularidadepoetica.art/2020/02/24/t-s-eliot-a-viagem-dos-magos/): “Foi um frio que nos colheu Na pior quadra do ano Para uma viagem, e longa era a viagem: Os caminhos enlameados e o tempo adverso Em pleno coração do inverno.” E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis, Jaziam em meio à neve derretida. Foram momentos em que recordamos Os palácios estivais sobre […]
- [Blas de Otero - Ímpeto](https://singularidadepoetica.art/2020/02/23/blas-de-otero-impeto/): Mas nem tudo há de ser ruína e vazioE nem tudo escombro ou descongelação.Por cima deste ombro levo o céu,e por cima deste outro, um vasto rio de entusiasmo. E meu corpo no meio,árvore luzente gritando do chão.E, entre raízes mortais, sofreguidão,meu coração desperto, raio sombrio. Somente o anseio me vence. Mas avançosem duvidar, sobre […]
- [Mary Oliver - O quarto signo do zodíaco](https://singularidadepoetica.art/2020/02/22/mary-oliver-o-quarto-signo-do-zodiaco/): 1. Porque eu deveria ter ficado surpresa? Caçadores percorrem a floresta sem um som. O caçador, armado com seu rifle, a raposa com seus pés de seda, a serpente em seu império de músculos — todos se movem em silêncio, famintos, cuidadosos, atentos. Exatamente como o câncer entrou na floresta do meu corpo, sem um […]
- [Robert Hayden - Aqueles domingos de inverno](https://singularidadepoetica.art/2020/02/21/robert-hayden-aqueles-domingos-de-inverno/): Também aos domingos meu pai acordava cedo e vestia suas roupas no frio azul escuro, depois, com as mãos rachadas doloridas do trabalho no tempo durante a semana, ele fazia os fogos empilhados arderem. Ninguém nunca o agradeceu. Eu acordava e ouvia o frio se partindo em fragmentos. Quando as salas ficavam aquecidas, ele me […]
- [Marisa de la Peña - O tempo que nos resta](https://singularidadepoetica.art/2020/02/20/marisa-de-la-pena-o-tempo-que-nos-resta/): “Somos o tempo que nos resta” J. M. Caballero Bonald. É isso o que somos: o tempo que nos resta, o último batimento interrompido, a palavra não dita, o deserto cruzado, e o caminho sem nome que deixamos para trás. Somos o abandono, a intempérie, as luzes apagadas, e as portas, fechadas para sempre, ao […]
- [Ricardo Aleixo - Geral](https://singularidadepoetica.art/2020/02/19/ricardo-aleixo-geral/): O jo go é tão sujo e você (entre bis onho e biz arro) torce justo para o juiz?
- [André Vallias - as instituições estão funcionando](https://singularidadepoetica.art/2020/02/18/andre-vallias-as-instituicoes-estao-funcionando/)
- [Rubén Darío - Quando vieres a amar](https://singularidadepoetica.art/2020/02/17/ruben-dario-quando-chegares-a-amar/): "Quando vieres a amar", um poema de Rubén Darío que apresenta o amor como experiência paradoxal de luz e sombra, felicidade e dor, afirmando sua natureza inevitável e a impossibilidade de viver plenamente sem ele.
- [Juan Vicente Piqueras - Ristorante dal 1882–](https://singularidadepoetica.art/2020/02/16/juan-vicente-piqueras-ristorante-dal-1882/): Ristorante dal 1882–leio no cardápio e me ponho a pensarque numa noite, há mais de um século,numa noite igual a esta,houve um grupo de amigos que aqui jantou,como nós fazemos agora,e riram, conversaram, passaram o sal,mais ou menos felizes, fugazes, encantadosde estarem juntos rindocomo nós fazemos agora,e que nenhum deles vive maise agora somos nós,os […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - O primeiro homem](https://singularidadepoetica.art/2020/02/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-o-primeiro-homem/): Era como uma árvore da terra nascida Confundindo com o ardor da terra a sua vida, E no vasto cantar das marés cheias Continuava o bater das suas veias. Criados à medida dos elementos A alma e os sentimentos Em si não eram tormentos Mas graves, grandes, vagos, Lagos Refletindo o mundo, E o eco […]
- [Alfonso Brezmes - Notas marginais](https://singularidadepoetica.art/2020/02/14/alfonso-brezmes-notas-marginais/): Leia "Notas marginais", de Alfonso Brezmes, um poema delicado sobre memória, releitura e as transformações silenciosas provocadas pelo tempo.
- [Wislawa Szymborska - Para o meu próprio poema](https://singularidadepoetica.art/2020/02/13/wislawa-szymborska-para-o-meu-proprio-poema/): Na melhor das hipóteses, meu poema, você será lido atentamente, comentado e lembrado. Na pior das hipóteses somente lido. Terceira possibilidade – embora escrito, logo jogado no lixo. Você pode se valer ainda de uma quarta saída – desaparecer não escrito murmurando satisfeito algo para si mesmo. Trad.: Regina Przybycien Do własnego wiersza W najlepszym […]
- [Carlos Montemayor - Memória](https://singularidadepoetica.art/2020/02/12/carlos-montemayor-memoria/): Estou aqui, em casa, a sós.Aqui estão os móveis, o ar, os ruídos.Tenho um sentimento tão transparentequanto a vidraça de uma janela.É como a janela pela qual olhava a neve ao amanhecer,há muitos anos, quando criança,e colava o rosto contra o vidro e compreendia toda a vida.É um desejo calmo, como a tarde.É estar como […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - S.T.T.R. Sit Tibi Terra Levis](https://singularidadepoetica.art/2020/02/11/jorge-valdes-diaz-velez-s-t-t-r-sit-tibi-terra-levis/): Hoje lembro os mortos da minha casaOctavio Paz De todos os nossos mortos, jamais esqueceremoso primeiro. O meu habita a raiz do outono,sob os álamos. Sua memóriame oferece uma murta enquanto se inclinacom os braços abertos de outros dias. Lembrode sua estatura nas sombras, prestes a afastar-sedo espelho, seu rosto velado, o ornamentodas obstinadas lições […]
- [Gonçalo M. Tavares - O idiota](https://singularidadepoetica.art/2020/02/10/goncalo-m-tavares-o-idiota/): Os irmãos com saúde,os meus pais vivos,um pouco deprimidos, mas lúcidos e vivos.Uma mulher que me espera à porta, e sorri,um bebê com um ano e meio, uma rapariga, vem aí outra;quando regresso a minha mulher recebe-me a sorrir com uma barriga grande. Um café, outro,o caderno preto à minha frente, o tempo,nada para fazer a não ser […]
- [T. E. Hulme - Outono](https://singularidadepoetica.art/2020/02/09/t-e-hulme-outono/): Um fio de frio na noite outonal —Fui para o quintalE vi a lua rubra inclinar-se sobre o folharalComo um rancheiro de rosto rosado.Não parei para falar, mas dei aval,E ao redor estavam as tristes estrelasCom pálidas faces como crianças da cidade. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e […]
- [Charles Simic - O dicionário](https://singularidadepoetica.art/2020/02/08/charles-simic-o-dicionario/): Talvez haja uma palavra em algum lugarpara descrever o mundo nesta manhã,uma palavra para o jeito como a primeira luzse deleita em perseguir as sombraspelas vitrines e entradas das lojas. Outra palavra para o modo como ela se detémsobre um par de óculos de aros finosque alguém deixou cair na calçadana noite passada e cambaleou […]
- [Lope de Vega - Desmaiar, ousar, ficar furioso](https://singularidadepoetica.art/2020/02/07/lope-de-vega-desmaiar-ousar-ficar-furioso/): Desmaiar, ousar, ficar furioso,áspero, terno, generoso, esquivo,entretido, mortal, defunto, vivo,leal, falso, covarde e corajoso; não achar, para além, paz e repouso,mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,irritado, valente, fugitivo,satisfeito, ofendido, receoso; furtar o rosto ao claro desengano,sorver veneno por licor suave,esquecer o proveito, amar o dano; crer que um céu em um inferno cabe,dar a vida e […]
- [Juan Vicente Piqueras - História universal](https://singularidadepoetica.art/2020/02/06/juan-vicente-piqueras-historia-universal/): Um homem nasce chora cresce risofre e faz sofrer caminha cantatem sede fome frio medose perde extravasa arde sorri. Um homem sozinho no meio da noiteassobia para domar as bestas que o habitam. Abraça empurra mata beija morrese cansa de si mesmo se apaixonase entrega à vida sabe que se findaque o que é escoa […]
- [Hugo Mujica – Há escassos dias](https://singularidadepoetica.art/2020/02/05/hugo-mujica-ha-escassos-dias/): Há escassos dias morreu meu pai,há muito tempo atrás. Caiu suavemente,como as pálpebras ao chegara noite, ou uma folhaque o vento não arranca, embala. Hoje não é como outras chuvas,hoje chove pela primeira vezsobre o mármore de sua lápide. Sob cada chuvapoderia ser eu quem jaz, agora eu sei,agora que morri em outro. Trad.: Nelson […]
- [Joan Margarit - A aventura](https://singularidadepoetica.art/2020/02/04/joan-margarit-a-aventura/): Quando me ausento por um momento, ao finalizaruma inspeção de obra em algum bairro estranhoe entro para tomar café em um pequeno baronde não me conhecem, penso que soualguém que parte para não mais voltar.Quando me refugio no vaziode um entreato e procuro a escadaque leva aos banheiros,sinto que ali poderia começar minha ausência.Instantes que […]
- [Ernesto Pérez Vallejo – A garota de preto](https://singularidadepoetica.art/2020/02/03/ernesto-perez-vallejo-a-garota-de-preto/): Hoje eu podia ter-me apaixonado por ti, apesar de tuas botas sem salto, podia até ter-te beijado assim, com o mar ao fundo, os beijos aos domingos têm um sabor distinto, mais intenso. Podia ter-te levado pelas mãos até a praia e ter-te despido docemente enquanto me ajoelhava na terra e perfumava o meu nariz. […]
- [Wislawa Szymborska - Metafísica](https://singularidadepoetica.art/2020/02/02/wislawa-szymborska-metafisica/): Foi-se, acabou-se. Foi-se, então acabou-se. Numa sequência sempre irreversível, pois essa é a regra desse jogo perdido. Conclusão banal, que já não vale escrever, não fosse um fato incontestável, um fato pelos séculos dos séculos, por todo o cosmos, como é e será, de que algo realmente foi, até que se acabou, menos isso de […]
- [Jenny Joseph - Advertência](https://singularidadepoetica.art/2020/02/01/jenny-joseph-advertencia/): Quando estiver velha, usarei roxoCom um chapéu vermelho que não combina e que não me cai bem.E torrarei minha aposentadoria em conhaques e luvas de verãoe sandálias de cetim, e direi que não temos dinheiro para manteiga.Sentarei na calçada quando me cansarE provarei amostras nas lojas e tocarei as campainhasE correrei minha bengala pelas grades […]
- [Hugo Vera Miranda – Os cavaleiros do apocalipse](https://singularidadepoetica.art/2020/01/31/hugo-vera-miranda-os-cavaleiros-do-apocalipse/): Como defender-se dos furtivos invernos que aninham as moradas obscuras do desejo? Como voltar por um instante ao tempo feroz da infância onde um velho com cara de sapo solta pombas enquanto o trem passa? Como decifrar a carícia longínqua que agora atormenta a insônia? Vamos ficando sozinhos, cercados por demônios dançarinos e um tiro […]
- [Joan Margarit - Noite escura na rua Balmes](https://singularidadepoetica.art/2020/01/30/joan-margarit-noite-escura-na-rua-balmes/): Cumpridas as ameaças e temores — hoje já todas as ruas levam à velhice —, passo defronte à clínica em que tu nasceste, vinte e seis anos atrás, em uma noite de corredores feridos pela luz. Aqui foi a tua chegada, pequena e indefesa, à praia feliz do teu sorriso, à dificuldade da palavra, às […]
- [Marianne Moore - Uma água-viva](https://singularidadepoetica.art/2020/01/29/marianne-moore-uma-agua-viva/): Visível, invisível, uma flutuante sedução que uma ametista cor de âmbar habita, se aproximam seus tentáculos, abrem e fecham; você pretendia pega-los e eles tremem; você abandona este intento. Trad.: Nelson Santander A Jelly-Fish Visible, invisible, a fluctuating charm an amber-tinctured amethyst inhabits it, your arm approaches and it opens and it closes; you had […]
- [Antonia Pozzi - Erros](https://singularidadepoetica.art/2020/01/28/antonia-pozzi-erros/): Cai graciosamente a neve sobre os cestos das floristas: embranquece os junquilhos e as violetas, as delicadas frésias vindas dos países do sol. Ao vê-las pensamos nos muitos destinos errados que sofrem pelos caminhos da terra e um furor nostálgico investe pelos caminhos de ouro da alma aonde não chega a neve. Trad.: Inês Dias […]
- [Rodrigo da Silva - Chegará um dia em que o seu coração parará de bater](https://singularidadepoetica.art/2020/01/27/rodrigo-da-silva-chegara-um-dia-em-que-o-seu-coracao-parara-de-bater/): Chegará um dia em que o seu coração parará de bater. A sua pupila dilatará. A sua pele ficará pálida e a sua temperatura corporal esfriará. Você ficará inteiramente esquálido; e então roxo. O seu sangue se tornará mais ácido com o acúmulo de dióxido de carbono. E as suas células começarão a se dividir, […]
- [Eloy Sánchez Rosillo – O segredo](https://singularidadepoetica.art/2020/01/26/eloy-sanchez-rosillo-o-segredo/): Se por acaso a alegria se assuste e se apresse em me deixar, eu a escondo das pessoas e não digo a ninguém que veio à minha casa depois de muito tempo. Falo com ela, e com frequência vê-la de novo tão próxima me faz chorar, e rio. Depois a deixo sozinha e vou para […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Naquele agora](https://singularidadepoetica.art/2020/01/25/jorge-valdes-diaz-velez-naquele-agora/): As chances de encontrar-te novamente eram remotas. Uma em um bilhão. E havendo infinitos lugares dispersos pelos números de um cálculo improvável, quem imaginaria que eu te veria naquela cantina, transformando-te na luz daqueles tempos felizes, ou isso quiseram crer, anos atrás, aqueles dois que fomos. Estavas ali, de repente e sem aviso prévio, com […]
- [Wislawa Szymborska - Terroristas](https://singularidadepoetica.art/2020/01/24/wislawa-szymborska-terroristas/): Dias inteiros eles ficam pensando como matar, para matar, e quantos matar para matar muitos. Fora isso comem com apetite, rezam, lavam os pés, alimentam os pássaros, dão telefonemas coçando o sovaco, estancam o sangue quando machucam o dedo, se são mulheres, compram absorventes, sombra para as pálpebras, flores para os vasos, todos gracejam um […]
- [Ivan Junqueira – Vésperas](https://singularidadepoetica.art/2020/01/23/ivan-junqueira-vesperas/): A tarde descortina uma paisagem híspida: no galho seco, o ninho é uma inútil relíquia que a luz do sol calcina até a estrita cinza. Gota a gota, o alambique das horas se esvazia, e dilui-se a vertigem do álcool que lhe mordia as veias retorcidas. Êxtase da agonia no crepúsculo a pino. Sob o […]
- [Rui Caeiro - Espero um dia](https://singularidadepoetica.art/2020/01/22/rui-caeiro-espero-um-dia/): Espero um dia ter de esperar-te, com a ansiedade dos que perderam tudo ou quase, menos talvez a memória E espero humildemente vir a merece-te, cometer um ato heroico e merecer-te, ser outra e a mesma pessoa – e merecer-te Espero estar bem triste para quando enfim chegares poder dar-te o mais autêntico: a memória, […]
- [Geruza Zelnys - descomedimentos](https://singularidadepoetica.art/2020/01/21/geruza-zelnys-descomedimentos/): que venha abaixo tudo que venha abaixo o que é tempestade e destruição que não sobre embarcação e vela que os raios queimem plantações e trovões arrebentem toda a terra e teu corpo se deite sobre o meu e tua boca mate toda fome minha e que versos & palavras do amor sejam ditos bem […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Só o silêncio salva](https://singularidadepoetica.art/2020/01/20/luis-alberto-de-cuenca-so-o-silencio-salva/): Só o silêncio salva, companheiro. Só o silêncio salva. Se tiveste uma noite gloriosa em que Afrodite sorriu para ti e Baco encheu-te a taça sem cessar, pensa que em breve, quando e noite se for, teus amigos voltarem para casa e começar a amanhecer, só o silêncio te salvará, rapaz. Tem isso em conta. […]
- [Arnaldo Antunes, Fernando Laszlo e Walter Silveira - Fome de Sede](https://singularidadepoetica.art/2020/01/19/arnaldo-antunes-fernando-laszlo-e-walter-silveira-fome-de-sede/)
- [Antonia Pozzi - Morte de uma estação](https://singularidadepoetica.art/2020/01/18/antonia-pozzi-morte-de-uma-estacao-2/): Choveu toda a noite sobre as memórias do verão. Ao anoitecer saímos no meio de um ribombar lúgubre de pedras e, parados na margem, levantamos as lanternas para explorar o perigo das pontes. Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas ensopadas e pousadas sobre os fios à espreita de indícios secretos de partida – e refletiam-nas […]
- [Dan Fante - [Eu conheci o mais faminto]](https://singularidadepoetica.art/2020/01/17/dan-fante-eu-conheci-o-mais-faminto/): Eu conheci o mais faminto e desprezível dos gatos enquanto sentava com um livro e meio maço de cigarros num banco em Venice Beach Ele me viu e apareceu branco sujo com um olho verde e outro amarelo e um corte recente em sua orelha desfigurada Furioso como um lobo ferido ele estabeleceu uma distância […]
- [Dylan Thomas - Colina de samambaias](https://singularidadepoetica.art/2020/01/16/dylan-thomas-colina-de-samambaias/): Quando, junto à casa em festa, sob os ramos da macieira, Eu era lépido e jovem, e feliz como era verde a relva, A noite suspensa sobre as estrelas do desfiladeiro, O tempo a permitir que eu gritasse e me erguesse, Dourado, no fulgurante apogeu de seus olhos, Eu, venerado entre as carroças, era o […]
- [Wislawa Szymborska - Vida difícil com a memória](https://singularidadepoetica.art/2020/01/15/wislawa-szymborska-vida-dificil-com-a-memoria/): Sou um péssimo público para a minha memória.Ela quer que eu ouça sua voz incessantemente,mas eu me agito, tusso,ouço e não ouço,saio, volto e saio de novo. Ela requer todo o meu tempo e atenção.Quando durmo, é fácil para ela.De dia já nem tanto, o que a magoa. Me propõe zelosamente velhas cartas, fotos,revolve fatos […]
- [A Íris Selvagem, de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2020/01/14/a-iris-selvagem-sumario/): Há livros que não se deixam atravessar como uma sequência de poemas isolados. A Íris Selvagem, de Louise Glück, é um deles. O livro se passa num jardim, mas esse jardim não é cenário. É um lugar de vozes. Flores falam. Uma consciência humana pergunta, insiste, se cansa. Uma presença divina responde, se afasta, corrige, […]
- [Louise Glück - Os lírios brancos](https://singularidadepoetica.art/2020/01/14/louise-gluck-os-lirios-brancos/): Como um homem e uma mulher fazemde um jardim entre elesum leito de estrelas, aquieles permanecem na noite de verãoe a noite se tornafria com seu pavor: tudopode acabar, tudo é capazde devastação. Tudo, tudose pode perder, pelo ar perfumadodas colunas estreitasse elevando inutilmente, e mais além,um agitado mar de papoulas — Silêncio, amada. Não […]
- [Louise Glück - O lírio dourado](https://singularidadepoetica.art/2020/01/13/louise-gluck-o-lirio-dourado/): Como percebo,estou morrendo agora e seique não falarei novamente,não sobreviverei à terra, serei convocadodela uma vez mais, ainda nãouma flor, apenas uma espinha, terra cruaaderindo às minhas costelas, eu o invoco,pai e mestre: ao redor,meus companheiras estão fraquejando, pensandoque você não os vê. Comoeles poderão saber que você os enxergaa menos que os salve?No crepúsculo […]
- [Louise Glück - Crepúsculo de Setembro](https://singularidadepoetica.art/2020/01/12/louise-gluck-setembro-crepuscular/): Eu os reuni,eu posso dispensa-los — Estou farto de vocês, do caosdo mundo dos vivos —Eu só posso me estenderpor tanto tempo a algo vivo. Convoquei-os à existênciaao abrir minha boca, ao erguermeu dedo mínimo, cintilando azuis deaster selvagem, florde lírio, imensa,com veias douradas — Vocês vêm e vão; eventualmenteesqueço seus nomes.Vocês vêm e vão, […]
- [Louise Glück - O lírio prateado](https://singularidadepoetica.art/2020/01/11/louise-gluck-o-lirio-prateado/): As noites esfriaram novamente, como as noitesdo início da primavera, e estão silenciosas outra vez. Incomoda-oconversarmos? Estamossozinhos agora; não há razão para o silêncio. Você pode ver, sobre o jardim — a lua cheia nasce.Eu não verei a próxima lua cheia. Na primavera, quando a lua surgia, significavaque o tempo era infindo. Campainhas-brancasabriam e fechavam, […]
- [Louise Glück - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2020/01/05/louise-gluck-acalanto/): Hora de descansar agora; vocêjá teve emoção suficiente por ora. Crepúsculo, depois início da noite. Vaga-lumesno quarto, cintilando aqui e ali, aqui e ali,e a profunda doçura do verão inundando através da janela aberta. Não pense mais nessas coisas.Escute minha respiração, sua própria respiraçãocomo os vaga-lumes, cada pequena respiraçãouma centelha na qual o mundo se […]
- [Louise Glück - Ocaso](https://singularidadepoetica.art/2020/01/04/louise-gluck-crepusculo/): Minha maior alegriaé o som que sua voz produzme chamando mesmo no desespero; meu desgostoé não poder responderem uma fala que você reconheça como minha. Você não tem fé em sua própria linguagem.Por isso investea reputação em sinaisque não consegue ler com precisão. E ainda assim sua voz sempre me alcança.E eu respondo incessantemente,minha raiva […]
- [Louise Glück - Vésperas (10)](https://singularidadepoetica.art/2020/01/03/louise-gluck-vesperas-10/): Fim de agosto. Calorcomo em uma estufa sobre ahorta do John. E algumas coisastêm a coragem de começar,cachos de tomates, talhõesde lírios tardios – otimismodas grandes hastes – ouroe prata imperiais: mas por queiniciar algotão perto do fim?Tomates que nunca amadurecerão, líriosque o inverno matará, que nãoretornarão na primavera. Ouvocê acha queeu passo tempo demaispensando […]
- [Rebecca Elson – Antídotos para o medo da morte](https://singularidadepoetica.art/2020/01/03/rebecca-elson-antidotos-para-o-medo-da-morte-poema/): Às vezes, como um antídotoPara o medo da morte,Eu como as estrelas. Nessas noites, deitada de costas,Eu as sorvo da escuridão que se dissipaAté que estejam todas, todas elas dentro de mim,Fortes e picantes. Às vezes, ao invés disso, eu me entregoA um universo ainda jovem,Ainda quente como o sangue: Nenhum espaço sideral, apenas o […]
- [Louise Glück - Vésperas (9)](https://singularidadepoetica.art/2020/01/02/louise-gluck-vesperas-9/): Sua voz se foi agora; mal consigo ouvi-la.Sua voz estrelada é apenas sombra agorae a terra está escura novamentecom suas grandes transformações. E de dia a grama fica parda em alguns pontossob as amplas sombras dos carvalhos.Agora, por toda parte, sou assunto para o silêncio, então está claro que não tenho acesso a você;Não existo […]
- [Louise Glück - Vésperas: Parousia](https://singularidadepoetica.art/2020/01/01/louise-gluck-vesperas-parousia/): Amor da minha vida, vocêEstá perdido e eu souJovem novamente. Alguns anos se passaram.O ar se encheCom música de meninas;No jardim da frenteA macieiraSe cobre de flores. Eu tento reconquista-lo.É esse o propósitoDa escrita.Mas você se foi para sempre.Como nos romances russos, dizendoAlgumas palavras das quais não me lembro – Quão exuberante é o mundo,Quão […]
- [Louise Glück - Vésperas (7)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/31/louise-gluck-vesperas-7/): Eu sei o que você planejou, o que pretendia ao me ensinara amar o mundo, tornando impossívelvirar completamente as costas, excluí-lo completamente para sempre –está por toda parte; quando fecho os olhos,no canto dos pássaros, no aroma de lilases no início da primavera, no aroma de rosas no verão:você quer arrancar de mim cada flor, […]
- [Louise Glück - Luz em retirada](https://singularidadepoetica.art/2019/12/30/louise-gluck-luz-em-retirada/): Vocês eram como crianças pequenas,sempre esperando por uma história.E eu já havia passado por tudo aquilo muitas vezes;eu estava cansado de contar histórias.Então eu lhes dei papel e lápis.Eu lhes dei canetas feitas de juncos queeu mesmo havia reunido, à tarde, nos densos prados.E lhes disse: escrevam sua própria história. Depois de todos estes anos […]
- [Louise Glück - Presque Isle](https://singularidadepoetica.art/2019/12/29/louise-gluck-presque-isle/): Em cada vida, há um momento ou dois.Em cada vida, um quarto em algum lugar, à beira-mar ou nas montanhas. Sobre a mesa, um prato de damascos. Caroços em um cinzeiro branco. Como todas as imagens, essas foram as condições de um pacto:em seu rosto, o tremor da luz do sol,meu dedo pressionando seus lábios.As […]
- [Louise Glück - Ipomoea](https://singularidadepoetica.art/2019/12/28/louise-gluck-ipomoea/): Qual foi o meu crime em outra vida,como nesta vida meu crimeé a dor, de modo que não me épermitido ascender novamente,nunca em nenhum sentidome é permitido repetir minha vida,ferida no espinheiro, todabeleza terrena um castigotão meu quanto seu —Fonte do meu sofrimento, por quevocê tirou de mimestas flores celestes, salvopara me marcar como partedo […]
- [Louise Glück - A rosa branca](https://singularidadepoetica.art/2019/12/27/louise-gluck-a-rosa-branca/): É esta a terra? Entãoeu não pertenço a este lugar. Quem é você na janela acesa,sombreado agora pelas folhas trêmulasde uma viburnum lantana1?Você pode sobreviver onde eu não durareialém do primeiro verão? Ao longo da noite, os ramos finos da árvoremovem-se e farfalham na janela iluminada.Explique minha vida para mim, você que não faz sinal […]
- [Louise Glück - Colheita](https://singularidadepoetica.art/2019/12/26/louise-gluck-safra/): Entristece-me pensar em vocês no passado — Olhe para vocês, agarrando-se cegamente à terracomo se fossem os vinhedos do paraísoenquanto os campos ardem ao redor — Ah, pequeninos, como são pouco sutis:isso é ao mesmo tempo o dom e o tormento. Se o que temem na morteé uma punição além disso, não precisamtemer a morte: […]
- [Louise Glück - Escuridão Inicial](https://singularidadepoetica.art/2019/12/25/louise-gluck-trevas-primitivas/): Como podem afirmarque a terra deveria me dar alegria? Cada coisanascida é meu fardo; não posso prosperarcom todos vocês. E vocês gostariam de ditar para mim,gostariam de me dizerquem entre vocês é mais valioso,quem mais se assemelha a mim.E apresentam como exemploa vida pura, o desapegoque lutam para alcançar — Como vocês podem me entenderquando […]
- [Louise Glück - Vésperas (6)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/24/louise-gluck-vesperas-6/): Você pensou que nós não soubéssemos. Mas nós sabíamos,as crianças sabem dessas coisas. Não vire as costas agora – nós habitávamosuma mentira para apaziguá-lo. Eu me lembroda luz do sol do início da primavera, os taludesreticulados por vincas roxas. Eu me lembrode me deitar em um campo, roçando o corpo de meu irmão.Não vire as costas […]
- [Louise Glück - Vésperas (5)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/23/louise-gluck-vesperas-5/): Assim como você apareceu para Moisés, porqueeu necessito de você, você aparece para mim,raramente, porém. Eu vivo essencialmentenas trevas. Você talvez esteja me treinando para sermais responsiva ao menor clarão. Ou, como os poetas,será que o desespero o estimula, o sofrimentoo leva a revelar sua natureza? Esta tarde,no mundo material ao qual você normalmentecontribui com […]
- [Louise Glück - Vésperas (4)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/22/louise-gluck-vesperas-4/): Eu não me pergunto mais onde você está.Você está no jardim; você está onde John está,na terra, absorto, segurando sua pequena pá verde.É assim que ele jardina: quinze minutos de intenso esforço,quinze minutos de estática contemplação. Às vezes,trabalho ao lado dele, fazendo as tarefas à sombra,capinando, esfolhando as alfaces; às vezes, o observodo alpendre próximo […]
- [Louise Glück - Fim de verão](https://singularidadepoetica.art/2019/12/21/louise-gluck-fim-de-verao/): Depois de tudo o que me ocorreu,o vazio me ocorreu. Há um limitepara o prazer que tive na forma — Eu não sou como vocês nisso,Não tenho liberdade em outro corpo, Não precisode abrigo fora de mim — Minha pobre inspiradacriação, vocês sãodistrações, enfim,meras limitações; no final,vocês são muito pouco parecidas comigopara me agradar. E […]
- [Louise Glück - Margaridas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/20/louise-gluck-margaridas/): Vá em frente: diga o que está pensando. O jardimnão é o mundo real. As máquinassão o mundo real. Diga francamente o que qualquer tolo podeler em seu rosto: faz todo sentidoevitar-nos, resistirà nostalgia. Não ésuficientemente moderno, o som que o vento produzagitando um campo de margaridas: a mentenão pode brilhar ao segui-lo. E a […]
- [Louise Glück - Vésperas (3)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/19/louise-gluck-vesperas-3/): Para além de mim, muito provavelmentevocê ama ainda mais as criaturas do campo; talvez, até o próprio campo, pontilhado em agostode chicórias-bravas e ásteres.Eu sei. Eu me compareia essas flores, com seu leque de sentimentostão menores e sem problemas; assim como à ovelha branca,na verdade, cinzenta: eu sou particularmenteapta a louva-lo. Então por quevocê me […]
- [Louise Glück - Vésperas (2)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/18/louise-gluck-vesperas-2/): Em sua prolongada ausência, você me permiteusar a terra, antecipandoalgum retorno sobre o investimento. Devo reportarque falhei em minha missão, principalmenteem relação à plantação de tomates.Acho que não devo ser encorajada a cultivartomates. Ou, se o for, você você deveria reteras fortes chuvas, as gélidas noites que sãotão comuns por aqui, enquanto outras regiões desfrutamde […]
- [Louise Glück – Vésperas (1)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/17/louise-gluck-vesperas-1/): Uma vez acreditei em você; plantei uma figueira.Aqui, em Vermont, uma terraque desconhece o verão. Era um teste: se a árvore sobrevivesse,isso provaria que você existe. Segundo essa lógica, você não existe. Ou existeexclusivamente em climas mais quentes,na fervorosa Sicília, no México e na Califórnia,onde crescem o inimagináveldamasco e o vulnerável pêssego. Talvezvejam sua face […]
- [Louise Glück - Solstício de verão](https://singularidadepoetica.art/2019/12/16/louise-gluck-solsticio-de-verao/): Como posso ajuda-los quando todos desejamcoisas distintas — luz do sol e sombra,tempo seco e umidade sombria — Ouçam a si próprios, competindo uns com os outros — E se perguntampor que desespero por vocês,achando que algo pode fundi-los em um todo — o ar imóvel do auge do verãoentrelaçado com mil vozes cada qual […]
- [Louise Glück - A porta de entrada](https://singularidadepoetica.art/2019/12/15/louise-gluck-a-entrada/): Eu queria permanecer como eu era,imóvel como o mundo raramente fica,não no solstício de verão, mas no momento anteriorà flor fundamental se formar, o momentoem que nada ainda é passado — não o solstício de verão, intoxicante,mas a tardia primavera, a grama ainda nãoalta nos limites do jardim, as primeiras tulipascomeçando a desabrochar — como […]
- [Louise Glück - Céu e terra](https://singularidadepoetica.art/2019/12/14/louise-gluck-ceu-e-terra/): Onde um acaba, a outra começa.No alto, uma faixa de azul; abaixo,uma faixa de verde e dourado, verde e rosa profundo. John está no horizonte: ele querambos ao mesmo tempo, ele quertudo de uma vez. Os extremos são fáceis. Apenaso meio é um enigma. Meio do verão —tudo é possível. Significado: a vida nunca mais […]
- [Louise Glück - Matinas (7)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/13/louise-gluck-matinas-7/): Não apenas o sol mas a própriaterra brilha, fogo brancoirrompendo das imponentes montanhase da estrada planatremeluzindo nas primeiras horas da manhã: será issoapenas para nós, para provocar umaresposta, ou você tambémfica mexido, incapazde se conterna presença da terra? Sinto vergonhado que eu pensava que você fosse,distante de nós, nos observandocomo um experimento: éamargo sero animal […]
- [Louise Glück - Trevo](https://singularidadepoetica.art/2019/12/12/louise-gluck-trevo/): O que está dispersoentre nós, que você chamade sinal de bem-aventurança,embora seja, como nós,uma erva daninha, uma coisapara ser extirpada — qual lógicao faz reterum único brotode algo que desejamorto? Se há alguma presença entre nóstão poderosa, não deveria elase multiplicar, a serviçodo adorado jardim? Você mesmo deveriaestar fazendo essas perguntas,não deixando-aspara suas vítimas. Você […]
- [Louise Glück - A papoula vermelha](https://singularidadepoetica.art/2019/12/11/louise-gluck-a-papoula-vermelha/): O melhor de tudoé não teruma mente. Sentimentos:oh, eu os tenho; elesme governam. Tenhoum senhor no céuchamado sol, e me abroa ele, mostrando-lheo fogo do meu próprio coração, ardentecomo a sua presença.O que poderia ser tal glóriase não um coração? Oh meus irmãos e irmãs,vocês já foram como eu, tempos atrás,antes de se tornarem humanos?Já […]
- [Louise Glück - Campo de flores](https://singularidadepoetica.art/2019/12/10/louise-gluck-campo-de-flores/): O que você está dizendo? Que desejavida eterna? Seus pensamentos realmentesão tão convincentes assim? Certamentevocê não nos vê, não nos ouve,mancha de solem sua pele, póde ranúnculos amarelos: estoufalando com você, aí, olhando fixamenteatravés das barras de grama alta que agitamseus pequenos chocalhos — Óalma! a alma! É suficienteapenas olhar para dentro? O desprezopela humanidade […]
- [Louise Glück - Canção](https://singularidadepoetica.art/2019/12/09/louise-gluck-cancao/): Como um coração blindado,o botão vermelho-vivoda rosa silvestre começaa desabrochar no ramo mais baixo,sustentado pela malhareticulada de um arbusto robusto:ela floresce contra a escuridão,que é o cenário constante do coração, enquanto as floresmais acima murcham ou apodrecem;sobreviverà adversidade apenasacentua sua cor. Mas Johnobjeta, ele acredita quese isto não fosse um poema, massim um jardim de […]
- [Louise Glück - Matinas (6)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/08/louise-gluck-matinas-6/): O que é o meu coração para vocêque precisa parti-lo repetidas vezescomo um jardineiro testandosua nova espécie? Pratiqueem algo diferente: como posso viverem colônias, como você prefere, se impõeuma quarentena de aflição, apartando-mede membros saudáveis deminha própria tribo? Você não faz issono jardim, não segregaa rosa doente; permite que ela balance suas sociáveisfolhas infestadas nosrostos […]
- [Louise Glück - Matinas (5)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/07/louise-gluck-matinas-5/): Quer saber como passo o meu tempo?Eu caminho pelo jardim, fingindoque estou capinando. Deve saberque nunca estou capinando, de joelhos, extirpandotufos de trevos dos canteiros de flores: na verdade,estou em busca de coragem, de alguma evidênciade que minha vida irá mudar, ainda queisso leve uma eternidade, verificandocada touceira em busca da folhasimbólica, e logo o […]
- [Louise Glück - A Escada de Jacó](https://singularidadepoetica.art/2019/12/06/louise-gluck-a-escada-de-jaco/): Preso à terra,você também não gostaria dealcançar o céu? Eu habitoo jardim de uma senhora. Perdoe-me senhora;o anseio roubou minha graça. Não souo que você esperava. Mascomo homens e mulheres parecemdesejar uns aos outros, também desejoconhecer o paraíso — e agorasua dor, uma haste nuaalcançando a vidraça da varanda.E no final, o quê? Uma pequena […]
- [Louise Glück - Capim-das-bruxas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/05/louise-gluck-witchgrass/): Algoindesejado chega ao mundoclamando desordem, desordem — Se você me odeia tantonão se dê ao trabalho de me darum nome: você precisade mais um insultoem sua língua, outramaneira de culparuma tribo por tudo — pois ambos sabemos,se você cultuaum deus, só precisade um inimigo — Eu não sou o inimigo.Apenas um pretexto para ignoraro que […]
- [Louise Glück - Violetas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/04/louise-gluck-violetas/): Porque em nosso mundosempre há algo oculto,pequeno e branco,pequeno e o que você chama depuro, nós não lamentamoscomo você, caromestre sofredor; vocênão está mais perdidodo que nós, sobo espinheiro, o espinheiro segurandobandejas equilibradas de pérolas: o queo trouxe até nóspara que possamos ensina-lo, sevocê se ajoelhar e chorar,apertando suas grandes mãos,em toda sua grandeza, sem […]
- [Louise Glück - Abril](https://singularidadepoetica.art/2019/12/03/louise-gluck-abril/): O desespero de mais ninguém é como o meu desespero — Vocês não têm lugar neste jardimpensando em tais coisas, emitindocansativos sinais exteriores; o homemdesmatando intencionalmente uma floresta inteira,a mulher mancando e se recusando a trocar de roupasou lavar os cabelos. Acham que eu me importose vocês conversarem um com o outro?Mas quero que saibamque […]
- [Louise Glück - Amor ao luar](https://singularidadepoetica.art/2019/12/02/louise-gluck-amor-ao-luar/): Às vezes, um homem ou uma mulher impõe seu desesperoa outra pessoa, o que é chamado deabrir o coração, ou alternativamente, desnudar a alma —o que significa que, neste momento, eles adquiriram almas —lá fora, em uma noite de verão, um mundo inteiroderramado sobre a lua: grupos de formas prateadasque podem ser edifícios ou árvores, […]
- [Louise Glück - O espinheiro](https://singularidadepoetica.art/2019/12/01/louise-gluck-o-espinheiro/): Lado a lado, não demãos dadas: eu os observocaminhando no jardim de verão — coisasque não podem se moveraprendem a ver; não é necessáriopersegui-los pelojardim; seres humanos deixamsinais de sentimentospor toda parte, floresespalhadas no caminho de terra, todasbrancas e douradas, algumaslevemente erguidas pelosventos da tarde; não é necessáriosegui-los até onde vocês estão agora,nas profundezas do […]
- [Louise Glück - O jardim](https://singularidadepoetica.art/2019/11/30/louise-gluck-o-jardim/): Eu não poderia fazê-lo de novo,Mal posso olhar para isso — no jardim, sob a chuva leve,o jovem casal plantauma fieira de ervilhas,como se ninguém jamais o tivesse feito antes,as grandes dificuldades ainda nãoforam enfrentadas e resolvidas — Eles não conseguem se ver,na terra fresca, começandosem perspectiva,as colinas verde-claras atrás deles, encobertas pelas flores — […]
- [Louise Glück - Vento em retirada](https://singularidadepoetica.art/2019/11/29/louise-gluck-vento-em-retirada/): Quando os criei, eu os amava.Agora sinto pena de vocês. Dei-lhes tudo o que precisavam:leito de terra, manto de ar azul — À medida que me afasto de vocês,vejo-os com mais clareza.Suas almas deveriam ser vastas agora,não o que são,pequenas criaturas tagarelas — Dei a vocês todas as dádivas,o azul das manhãs de primavera,o tempo […]
- [Louise Glück - Scilla](https://singularidadepoetica.art/2019/11/28/louise-gluck-scilla/): Não eu, seu tolo, não eu-mesma, mas nós, nós – ondasde céu azul comouma crítica do firmamento: por quevocês valorizam tanto suas vozesquando ser algoé ser quase nada?Por que olham para cima? Para ouvirum eco como a vozde deus? Vocês são todos iguais para nós,solitários, pairando acima de nós, planejandosuas vidas tolas: vocês vãoonde são […]
- [Louise Glück - Matinas (4)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/27/louise-gluck-matinas-4/): Percebo que com você é como com as bétulas:não posso lhe falarde maneira pessoal. Muitose passou entre nós. Ousempre foi apenas de um lado? Euerrei, eu errei, eu lhe pedipara ser humano – não sou mais carentedo que as outras pessoas. Mas a ausênciade todo sentimento, da menorpreocupação por mim – poderia muito bem continuardirigindo-me […]
- [Louise Glück - Matinas (3)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/26/louise-gluck-matinas-3/): Perdoe-me se eu disser que o amo: os poderosossempre são enganados, já que os fracos são sempreguiados pelo pânico. Não posso amaro que não consigo conceber, e você revelapraticamente nada: é como o espinheiro,sempre a mesma coisa no mesmo lugar,ou está mais para a dedaleira, inconstante, brotando primeiroum espigão rosa na encosta atrás das margaridas,e […]
- [Louise Glück - Fim de inverno](https://singularidadepoetica.art/2019/11/25/louise-gluck-fim-de-inverno/): Sobre o mundo ainda, um pássaro cantadespertando solitário entre ramos escuros. Vocês desejaram nascer; eu permiti que nascessem.Quando minha dor alguma vezinterferiu em seu prazer? Mergulhandona escuridão e na luz ao mesmo tempo,sedentos por sensações como se fossem algo novo, querendose expressar com todo brilho, toda vivacidade nunca imaginandoque isso lhes custaria algo,nunca concebendo o […]
- [Louise Glück - Neve de primavera](https://singularidadepoetica.art/2019/11/24/louise-gluck-neve-de-primavera/): Olhe para o céu noturno:tenho dois eus, duas formas de poder. Estou aqui com você, à janela,observando sua reação. Ontema lua se ergueu sobre a terra úmida no jardim de baixo.Agora a terra reluz como a lua,como matéria morta crivada de luz. Você pode fechar os olhos agora.Ouvi seus clamores, e os clamores antes dos […]
- [Louise Glück - Manhã clara](https://singularidadepoetica.art/2019/11/23/louise-gluck-manha-clara/): Eu já os observei por tempo suficiente,posso me dirigir a vocês do jeito que eu quiser — Tenho me submetido às suas preferências, observando pacientementeas coisa que vocês amam, comunicando-me apenas através de veículos, emdetalhes da terra, como preferem, gavinhasde clematis azul, luz de fim de tarde —vocês jamais aceitariam uma voz como a minha, […]
- [Louise Glück - Flores-de-neve](https://singularidadepoetica.art/2019/11/22/louise-gluck-snowdrops/): Você sabe o que eu era, como eu vivia? Você sabeo que é o desespero? Entãoo inverno deve ter um significado para você. Eu não esperava sobreviver,a terra me sufocando. Não esperavadespertar outra vez, sentirna terra úmida meu corpocapaz de responder outra vez, lembrandoapós tanto tempo como brotar outra vezna luz friada primavera mais precoce […]
- [Louise Glück - Lamium](https://singularidadepoetica.art/2019/11/21/louise-gluck-lamium/): Assim se vive quando se tem um coração frio.Como eu: nas sombras, arrastando-se sobre a rocha fria,sob os grandes carvalhos. O sol mal me toca.Às vezes o avisto no início da primavera, surgindo muito distante.Então as folhas crescem sobre ele, ocultando-o completamente. Eu o sintobrilhando por entre aas folhas, errático,como alguém batendo na lateral de […]
- [Matthew Sweeney - Crucificação](https://singularidadepoetica.art/2022/09/15/matthew-sweeney-crucificacao/): Eu cozinhava uma beterraba quando a campainha tocou.‘Quem será a essa hora?’, murmurei, marchandopara a porta. Quando a abri, o sol brilhavatanto que só vi silhuetas, mas discernique pairava sobre tudo uma grande cruz preta.Havia dois homens, um com cara de bode,o outro um sujeito enorme com um cigarrona boca e suor no rosto de […]
- [Derek Walcott - O Amor Depois do Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/09/14/derek-walcott-o-amor-depois-do-amor-2/): “O Amor Depois do Amor”, um poema de Derek Walcott que celebra o reencontro consigo mesmo como a mais profunda forma de amor, quando finalmente nos sentamos à mesa da própria vida.
- [Gillian Clarke – Advento](https://singularidadepoetica.art/2022/09/13/gillian-clarke-advento/): Tempos sombrios. Dezembro.O eixo da terra inclinadoe os minutos caem do diaum pouco de cada vez. Assim, dormimos além da escuridão,sonâmbulos das horas cinzentas.Impossível crer na luz,ou em um nascimento, até esta alvorada invernal, a raposavoltando para casa com sangue na boca,todos os elementos químicos da aurora em seus olhos,e o céu abismado. Trad.: Nelson […]
- [Roger Wolfe - Pálpebra](https://singularidadepoetica.art/2022/09/12/roger-wolfe-palpebra-2/): Pedro Salinasdisse num poema1que não quer deixar de sentira dor da ausênciada mulher que amaporque isso é tudoo que dela fica:a dor.Não me recordo das suas palavras exactas.Ele di-lo melhor do que eu.Eram outros tempos.Salinas está morto.A mulher que ele amava também.Em breve o estaremos todos.A vida é uma simples pálpebra.Abre os olhose fecha-os. Trad.: […]
- [Jack Gilbert - Fracasso e voo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/11/jack-gilbert-fracasso-e-voo/): O fracasso não encerra a experiência: dele pode nascer uma forma inesperada de grandeza. Jack Gilbert aproxima amor, casamento e mortalidade para observar como a vida se eleva justamente quando aceita risco e imperfeição.
- [Pedro Salinas - Não quero que te vás](https://singularidadepoetica.art/2022/09/10/pedro-salinas-nao-quero-que-te-vas-2/): Não quero que te vás,dor, última formade amar. Sinto-me vivoquando me dóis,não em ti, nem aqui,mais longe: na terra, no anode onde tu vens,no amor com elae tudo o que foi.Nessa realidadesubmersa que se negaa si mesma e insisteem nunca ter existido,que foi apenas um pretextoque encontrei para viver.Se tu não me restasses,ó dor irrefutável,até […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Romaria](https://singularidadepoetica.art/2022/09/09/carlos-drummond-de-andrade-romaria/): Romaria A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos, cheia de pedras,sobem a ladeira que leva a Deuse vão deixando culpas no caminho. Os sinos tocam, chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados.Já estamos puros, sino, obrigados,mas trazemos flores, prendas e rezas. No alto do morro chega a procissão.Um leproso de […]
- [Octavio Paz - Irmandade](https://singularidadepoetica.art/2022/09/08/octavio-paz-irmandade-2/): Homenagem a Claudio Ptolomeo Sou homem: duro poucoe enorme é a noite.Mas olho para cima:as estrelas escrevem.Sem entender, compreendo:também sou escritae neste exato instantealguém me soletra. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: Poema publicado no blog originalmente em 07/10/2017 – agora traduzido por mim Hermandad Homenaje a Claudio Ptolomeo Soy hombre: duro […]
- [Joan Margarit - Cumprimentar-se](https://singularidadepoetica.art/2022/09/07/joan-margarit-cumprimentar-se/): Aprendeste o gesto com os anos.Encontras o vizinho, vos cumprimentais,lado a lado, dois velhos na calçadacada um fechando a própria porta.As casas. E a convenção generosade algumas palavras na rua.Para além, já nada mais restaque esta paixão final, a calmasolitária e feroz das recordaçõessob um pedaço de azul nítido como um cálculo.Em seu quintal, cada […]
- [Ferreira Gullar – Digo Sim](https://singularidadepoetica.art/2022/09/06/ferreira-gullar-digo-sim-2/): Poderia dizerque a vida é bela, e muito,e que a revolução caminha com pés de flornos campos de meu país,com pés de borrachanas grandes cidades brasileirase que meu coraçãoé um sol de esperança entre pulmõese nuvens Poderia dizer que meu povoé uma festa só na vozde Clara Nunesno rodardas cabrochas no Carnavalda Avenida.Mas não. O […]
- [Ada Limón – O que eu quero lembrar](https://singularidadepoetica.art/2022/09/05/ada-limon-o-que-eu-quero-lembrar/): Logo antes da casa do general Vallejo,com suas imponentes pedras e paredes amarelas, há um campo ao longo do caminhopara o qual as chuvas de primavera conduzem os sapos, toda uma sinfonia deles, inaugurandoas horas logo após o sol afundar no Oceano Pacífico, a apenasuma hora de distância. Por que estou colocando você aqui? Estou […]
- [Mário Chamie - Cervo, Servo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/04/mario-chamie-cervo-servo-2/): 1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas, […]
- [Hart Crane - Louvor a uma urna](https://singularidadepoetica.art/2022/09/03/hart-crane-louvor-a-uma-urna/): Louvor a uma urna In Memoriam: Ernest Nelson Era do norte o rosto ternoDe falso exilado, juntandoDe Pierrô o olhar eternoE a gargalhada de Gargantua. Os sonhos que me confiavaDo travesseiro branco, insone,Agora eu sei, eram heranças –Corcéis suaves do ciclone. No monte oblíquo a lua oblíquaNos deu presságios indistintosDo que ainda vivo o morto […]
- [Elizabeth Bishop - A Arte de Perder](https://singularidadepoetica.art/2022/09/02/elizabeth-bishop-a-arte-de-perder-2/): A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não […]
- [Lew Welch – Pequena oração para manter-se são](https://singularidadepoetica.art/2022/09/01/lew-welch-pequena-oracao-para-manter-se-sao/)
- [Adam Zagajewski - Os três anjos](https://singularidadepoetica.art/2022/09/01/adam-zagajewski-os-tres-anjos/): “Os três anjos”, um poema de Adam Zagajewski que encena um diálogo entre o humano e o transcendente para refletir sobre medo, sofrimento, beleza e esperança.
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetoides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2022/08/31/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos-3/): VI Nada de mergulhos. É na superfícieque o real, minúsculo plâncton, se trai.Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneirado funcional. E o sofrimento, ai,esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti-nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, meufilho. Só o raso é […]
- [Brigit Pegeen Kelly – Canção](https://singularidadepoetica.art/2022/08/30/brigit-pegeen-kelly-cancao/): Ouça: havia uma cabeça de cabra suspensa por cordas em uma árvore.Por toda noite ela ficou lá pendurada e cantou. E aqueles que a ouviramSentiram um aperto em seus corações e pensaram que estavam ouvindoO canto de uma ave noturna. Eles se sentaram em suas camas e depoisSe deitaram novamente. Na brisa noturna, a cabeça […]
- [Manuel Bandeira - Poema Só Para Jaime Ovalle](https://singularidadepoetica.art/2022/08/29/manuel-bandeira-poema-so-para-jaime-ovalle-2/): Quando hoje acordei, ainda fazia escuro(Embora a manhã já estivesse avançada).Chovia.Chovia uma triste chuva de resignaçãoComo contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.Então me levantei,Bebi o café que eu mesmo preparei,Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog […]
- [Lawrence Ferlinghetti – Receita para a felicidade em Khabarovsk ou em qualquer lugar](https://singularidadepoetica.art/2022/08/28/lawrence-ferlinghetti-receita-para-a-felicidade-em-khabarovsk-ou-em-qualquer-lugar/): Uma grande avenida arborizadacom uma grande cafeteria ao solcom café preto forte em xícaras muito pequenas. Uma mulher ou um homem não necessariamentemuito bonito(a) que te ame. Um dia aprazível. Trad.: Nelson Santander Recipe For Happiness in Khabarovsk Or Anyplace One grand boulevard with treeswith one grand cafe in sunwith strong black coffee in very […]
- [Manuel Bandeira - Profundamente](https://singularidadepoetica.art/2022/08/27/manuel-bandeira-profundamente-2/): Quando ontem adormeciNa noite de São JoãoHavia alegria e rumorEstrondos de bombas luzes de BengalaVozes, cantigas e risosAo pé das fogueiras acesas. No meio da noite desperteiNão ouvi mais vozes nem risosApenas balõesPassavam errantesSilenciosamenteApenas de vez em quandoO ruído de um bondeCortava o silêncioComo um túnel.Onde estavam os que há poucoDançavamCantavamE riamAo pé das fogueiras […]
- [Garrett Hongo – Mendocino Rose](https://singularidadepoetica.art/2022/08/26/garrett-hongo-mendocino-rose/): Na Califórnia, ao norte da Golden Gate,a vinha cresce por quase todos os cantos, brotando de pastagens,de baixo das sombras dos eucaliptos à beira da estrada,ultrapassando todos os casebres fantasmas e cercas quebradas que se desintegram de podres,encharcadas pelas chuvas frescas. Ela mimetiza, em suas réplicas firmes, parecidas com nuvens, a forma de tudo o que asfixia,uma delicada vegetação treliçada […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Encontro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/25/carlos-drumond-de-andrade-encontro-2/): Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.Se a noite me atribui poder de fuga,sinto logo meu pai e nele ponhoo olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madrugae seu rosto, nem triste nem risonho,é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxugasuor algum, na calma de meu sonho. […]
- [Donizete Galvão - Solitude](https://singularidadepoetica.art/2022/08/24/donizete-galvao-solitude/): Juntos, em solitude. Cada qual com sua chaga. Cada qual com sua cruz. Dois corpos ardentes tão próximos, separados pela geografia que a mágoa desenha. Entre os braços, interpõem-se desertos, salinas e dunas. O amor morreu? Não. Condenou-se. Soterrou-se em veios de duro e negro minério. Duas árvores cujas raízes trançaram-se rumo ao fundo. Que […]
- [Giuseppe Ungaretti - Céu Claro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/23/giuseppe-ungaretti-ceu-claro-2/): Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tantanévoaumaa umase desvelamas estrelas Respiroo frescorque me deixaa cor do céu Me reconheçoimagempassageira Presa de um cicloimortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/09/2017 Sereno Bosco di Courton Iuglio 1918 Dopo tantanebbiaa unaa unasi svelanole stelle. Respiroil frescoche mi lasciail colore del […]
- [Alison C. Rollins - Para quem me lê agora](https://singularidadepoetica.art/2022/08/22/alison-c-rollins-para-quem-me-le-agora/): Para quem me lê agora depois de Jorge Luis Borges Você é invulnerável.A única constante é a mudança.Tal repetição leva à nostalgiado presente. Tenso e tímidovocê recita este livro de cor. Àscegas, você me confia à memória.O calvo e impertinente filósofosabe que o caráter do homem é o seu destino.Este poema – não vivo, mas […]
- [Nicanor Parra – Acácias](https://singularidadepoetica.art/2022/08/21/nicanor-parra-acacias-2/): Passeando anos atráspor uma rua cheia de acácias em florsoube por um amigo bem informadoque você tinha acabado de se casar.Respondi que por certoeu não tinha nada a ver com o assunto.Mas apesar de nunca ter amado você– e disso você sabe melhor do que eu –cada vez que florescem as acácias– imagina só –sinto […]
- [Tyree Daye - Rio Neuse](https://singularidadepoetica.art/2022/08/20/tyree-daye-rio-neuse/): Diga-lhes para não iremà orla sozinhos. Diga-lhes ondepodem beber sem precisar olharpor cima dos ombros. Diga-lhes que o afogamentoestá em terceiro em sua lista de preocupações.A primeira é deite-se, a segunda, vem cá.Mesmo a água em que fui batizadonão é segura. Eu sabia que Deusera homem porque ele pôsum bebê em Maria sem a per-missão […]
- [Ana Martins Marques - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2022/08/19/ana-martins-marques-interiores-2/): AÇUCAREIRO De amargobastao amor Agridoce,ela disse Mas a mimpareceuamargo CADEIRA I Repetesdiariamenteos gestosdo primeiro homemque se sentounuma tarde quenteolhando as savanas II Pousode gigantescos pássaroscansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesaessas doces evidênciasda morte? CRISTALEIRA Guardae revelaa nudezbrancada louçao incêndiodespareadodos cristais TALHERES Colher Se o sol nelabatesseem cheiopor exemplonuma mesa postano jardimimediatamente […]
- [Lisel Mueller – Há manhãs](https://singularidadepoetica.art/2022/08/18/lisel-mueller-ha-manhas/): Mesmo agora, em que o enredopede que eu me torne pedra,o sol intervém. Em algumas manhãsde verão eu saioe o céu se abree se derrama sobre mimcomo se eu fosse um santoprestes a morrer. Mas o enredopede que eu viva,seja comum, diga nadaa ninguém. Dentro de casaos espelhos queimam quando eu passo. Trad.: Nelson Santander […]
- [W. H. Auden - Aquele que Ama Mais](https://singularidadepoetica.art/2022/08/17/w-h-auden-aquele-que-ama-mais-2/): Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais […]
- [John Murillo – Variações sobre um tema de Elizabeth Bishop](https://singularidadepoetica.art/2022/08/16/john-murillo-variacao-sobre-um-tema-de-elizabeth-bishop/): Comece com a perda. Perca tudo. Então perca tudo outra vez.Perca uma boa mulher em um dia ruim. Encontre uma mulher melhor,e depois perca cinco amigos correndo atrás dela. Aprenda a perder como sesua vida dependesse disso. Aprenda que sua vida depende disso.Aprenda como se aprende caratê, ou a andar de bicicleta. Aprenda-o, domine-o.Perca dinheiro, […]
- [Ricardo Silvestrin - Bilhete](https://singularidadepoetica.art/2022/08/15/ricardo-silvestrin-bilhete-2/): Não me parecias frágil,via-te doce.Talvez fosses mesmo forte,é preciso ser valentepra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo.Que rio obscuro e discretote puxava para o fundo,sem saber nadar,sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta,um poema, um bilhete de suicida.Como se quisesses dizerque a mortenão deve explicações à vida REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog […]
- [Timothy Liu - Os restos](https://singularidadepoetica.art/2022/08/14/timothy-liu-os-restos-mortais/): Os restos —Wuxi, China Saindo do novo cemitério, meu paipegou a minha mão, tendo acabado de reenterrar os restosmortais de seu próprio pai e suas duas esposas —sua mãe morrera de tuberculose quando ele tinha dez anos. Ele pegou a minha mão e disse: Agora posso morrer em pazmesmo que não tenhamos os ossos verdadeiros. Os […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Meio-dia](https://singularidadepoetica.art/2022/08/13/sophia-de-mello-breyner-andresen-meio-dia-2/): Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.O sol no alto, fundo, enorme, aberto,Tornou o céu de todo o deus deserto.A luz cai implacável como um castigo.Não há fantasmas nem alvas,E o mar imenso solitário e antigo,Parece bater palmas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/08/2017
- [Jean Sprackland – Perdendo o escuro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/12/jean-sprackland-perdendo-o-escuro/): Novembro, quando o dia deveria terminar mais cedocomo um livro maçante. Mas naquela tardeuma pequena nuvem em forma de ponto de interrogaçãopassou sobre o sol e se dissolveu.Seis horas; oito; dez. E a luz do diaainda inundava a rua espantada. Uma dádiva. Como uma daquelas noites de verãoem que nos sentamos, copo na mão,sob a […]
- [Rainer Maria Rilke - O Mundo Estava no Rosto da Amada](https://singularidadepoetica.art/2022/08/11/rainer-maria-rilke-o-mundo-estava-no-rosto-da-amada-2/): “O Mundo Estava no Rosto da Amada”, um poema de Rainer Maria Rilke que concentra o infinito no rosto amado e revela o amor como excesso que nos transborda e nos desfaz.
- [W. S. Merwin — Um aniversário](https://singularidadepoetica.art/2022/08/10/w-s-merwin-um-aniversario/): Algo continua e eu não sei como chamá-loembora o idioma esteja cheio de sugestõesem termos de linguagem mas elas todas são anônimase é quase seu aniversário música junto aos meus ossosnestas noites ouvimos os cavalos correndo na chuvaao parar a lua aparece e nós ainda estamos aquias goteiras no telhado continuam pingando depois que a […]
- [Paulo Henriques Britto - Envoi](https://singularidadepoetica.art/2022/08/09/paulo-henriques-britto-envoi-2/): O tempo, que a tudo distorce,às vezes alisa, conserta,e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morsede instantes sem rumo e roteiroentão dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquivaa gente retoca e remendaaté ser coisa que se entenda, mas algo que na carne vivase esboça, se traça, se […]
- [Sara Teasdale - Eu não sou tua](https://singularidadepoetica.art/2022/08/08/sara-teasdale-eu-nao-sou-tua/): Eu não sou tua, e não estou perdida em ti,Não estou perdida embora deseje estarPerdida como uma vela acesa ao meio-dia,Perdida como um floco de neve no mar. Tu me amas, e eu ainda te consideroUma alma com brilho e beleza incontroversa,Contudo, eu sou eu, que anseia por estarPerdida como uma luz que na luz […]
- [Francis J. Quirós - Efêmero](https://singularidadepoetica.art/2022/08/07/francis-j-quiros-efemero/): Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia: […]
- [Linda Pastan - Chegamos ao silêncio](https://singularidadepoetica.art/2022/08/06/linda-pastan-chegamos-ao-silencio/): Chegamos ao silêncio lentamente. Tragados para o mundoem uma onda de somdele saímos mais tarde com as bocas fechadas,nossas línguas tornadas pesadas como pedras para nos ancorarna terra. Agora ouvimoso vento nas folhas farfalhantes,um burburinho de águasobre as pedras,a batalha musicaldos pássaros.Considere a orelhaem forma de clave de fá,mas vazia.Considere os espaços entre as estrelas,solilóquios […]
- [Vinicius de Moraes - O poeta Hart Crane suicida-se no mar](https://singularidadepoetica.art/2022/08/05/vinicius-de-moraes-o-poeta-hart-crane-suicida-se-no-mar-2/): Quando mergulhaste na águaNão sentiste como é friaComo é fria assim na noiteComo é fria, como é fria?E ao teu medo que por certoTe acordou da nostalgia(Essa incrível nostalgiaDos que vivem no deserto…)Que te disse a Poesia? Que te disse a PoesiaQuando Vênus que luziaNo céu tão perto (tão longeDa tua melancolia…)Brilhou na tua agoniaDe […]
- [Faith Shearin - Cinzas, cinzas](https://singularidadepoetica.art/2022/08/04/faith-shearin-cinzas-cinzas/): O inverno é a morte pela qual todos temos esperado.Mesmo nas Festas, em que o ano novo é louvado,os galhos se quebram sob o peso da neve.Conhecemos esta estação como reconheceremos o fimde nossas vidas quando a vida estiver na metade.Os anos seguem o caminho dos dentes da infância: premidos tãoesperançosamente sob travesseiros limpos. Pele […]
- [Abel Silva - Navegações](https://singularidadepoetica.art/2022/08/03/abel-silva-navegacoes-2/): Minha casa está calma,eu é que sou turbulento,o país navega, dizem,eu é que me arrebentoeu é que sempre inventotoda esta ventaniaeu é que não me contentocom o rumo da romaria não sei se a sorte é cegaou eu que vivo a teimar:sei que eu sou o barcoo marinheiroe o mar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog […]
- [Juan Vicente Piqueras - O barbeiro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/02/juan-vicente-piqueras-o-barbeiro/): Nos últimos meses, olhava-se no espelhoe via um intruso. Irritava-se com ele. Já estás aqui outra vez? Será possível?Sai daqui agora mesmo.Para a rua, vagabundo, dizia-lhe. Era-lhe doloroso, era-nos doloroso,toda vez que ele tinha que ir ao banheiro.Tínhamos que conduzi-lo pelo braço, convence-lodo porquê. Ele se tornou o dono desse lugar, dizia,quem lhe deu as […]
- [Philip Larkin - A Igreja Indo-se...](https://singularidadepoetica.art/2022/08/01/philip-larkin-a-igreja-indo-se-2/): Quando estou certo de que nada está ocorrendo,Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta.Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dosLivrinhos; as juncadas secas, que se cortamPara o domingo; bronze e objetos a cobrir oAltar; um órgão impecável e pequeno;Silêncio tenso, de bolor, que salta à vista,Há muito fermentado. Sem […]
- [Suzanne Buffam – Basta](https://singularidadepoetica.art/2022/07/31/suzanne-buffam-basta/): Estou usando óculos escuros dentro de casaPara combinar com meu baixo astral. Eu deixei todo o açúcar de fora da torta.Minha raiva é uma espécie de raiva doméstica. Aprendi com minha mãeQue aprendeu com a mãe dela antes dela E assim por diante.Certamente os gregos tinham uma palavra para isso. E hoje com certeza os […]
- [T. S. Eliot - Os Homens Ocos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/30/t-s-eliot-os-homens-ocos-2/): “A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada, […]
- [Gregory Fraser - Depois do fogo](https://singularidadepoetica.art/2022/07/29/gregory-fraser-depois-do-fogo/): Ouvi dizer que você está indo para a Itália, ele disse1. Você ouviu corretamente, ela respondeu.Você finalmente conseguiu, disse ele, estou feliz por você. Estou feliz por mim mesma, ela falou.Uma sonata de Scarlatti jorrou através das amplas portas francesase um brinde foi feito aos anfitriões, que disseram ter sidoinspirados pelos espíritos para dar aquele […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Luis Mauricio, Infante](https://singularidadepoetica.art/2022/07/28/carlos-drummond-de-andrade-a-luis-mauricio-infante-2/): Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?Os olhos se inflamam depressa, e […]
- [Ada Limón – O que eu não sabia antes](https://singularidadepoetica.art/2022/07/27/ada-limon-o-que-eu-nao-sabia-antes/): era como os cavalos simplesmente davam à luz outroscavalos. Não um bebê de qualquer jeito, nãouma criatura de espaços limiares, mas um animalde quatro patas decidido a andar, correndo atrásda mãe. Um cavalo dá lugar a outrocavalo e, de repente, há dois cavalos,simples assim. Foi como eu te amei. Você,descendo do longo trem na Red […]
- [Angela Melim - Meu pai nos abandonou](https://singularidadepoetica.art/2022/07/26/angela-melim-meu-pai-nos-abandonou-2/): Meu pai nos abandonou.Minha mãe casou e mudou.Vovó morreu.Os irmãos sumiram no mundoou submundo.Sem explicaçãoYvonne nunca mais falou comigoe, para Ronaldo,sou fantasma do passado.Vejo meus filhos já voando.Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/03/2017
- [Linda Gregg – Ardendo e distante](https://singularidadepoetica.art/2022/07/25/linda-gregg-mantida-ardendo-e-distante/): Você retorna quando quer,como a chuva. E é terno como a chuva,tem a ternura inepta da chuva.Uma paixão tão universal que poderia acontecer em qualquer lugar.Você me carrega para o ar úmido.Você me deita sobre as folhase o mais marcante não é o sexoe sim acordar sozinha depois sob as árvores. Trad.: Nelson Santander Kept […]
- [Emily Dickinson - Dizem que "O Tempo Consola"](https://singularidadepoetica.art/2022/07/24/emily-dickinson-dizem-que-o-tempo-consola-2/): Dizem que “O Tempo consola” —Mas não — na realidade,A vera dor, como um Tendão,Se fortalece, com a idade — O Tempo testa a Tristeza —Porém não a remedia —Se cura o Mal, prova apenasQue Mal deveras não havia — Trad.: Paulo Henriques Britto REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 22/03/2017 They say that […]
- [Dennis O'Driscoll – Fora de controle](https://singularidadepoetica.art/2022/07/23/dennis-odriscoll-fora-de-controle/): Preocupem-se, mães: vocês têmboas razões para perder o sono,para deixar a imaginação correr soltaenquanto se deitam na cama, sem contar carneirosmas vendo filhos e filhaslevados para o abate como cordeirosna carnificina das noites de sexta. Fiquem de prontidão, mães –nunca se sabe sua sorte –para a batida que quebraria o silêncio como o choquede um […]
- [Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu](https://singularidadepoetica.art/2022/07/22/paulo-henriques-britto-geracao-paissandu-2/): Vim, como todo mundodo quarto escuro da infância,mundo de coisas e ânsias indecifráveis,de só desejo e repulsa.Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos,em tempo de seco fascismo.Por isso não tive pátria, só discos.Amei, como todos pensam.Troquei carícias cegas nos cinemas,li todos os livros, acrediteiem quase tudo por ao menos […]
- [Anne Sexton – Coragem](https://singularidadepoetica.art/2022/07/21/anne-sexton-coragem/): É nas pequenas coisas que a vemos.O primeiro passo da criança,tão espantoso quanto um terremoto.A primeira vez que você andou de bicicleta,tateando na calçada.A primeira palmada, quando seu coraçãopartiu em uma viagem sozinho.Quando eles o chamaram de bebezãoou pobre ou gordo ou doidoe o transformaram num alienígena, você sorveu o ácido delese o escondeu. Mais […]
- [José Ángel Buesa - Ela amará a outro homem](https://singularidadepoetica.art/2022/07/20/jose-angel-buesa-ela-amara-a-outro-homem/): “Ela amará a outro homem”, um poema de José Ángel Buesa que aceita a perda com resignação, mas afirma a permanência secreta do amor na memória que o tempo não consegue apagar.
- [Rosanna Warren – Comparação](https://singularidadepoetica.art/2022/07/19/rosanna-warren-comparacao/): Como quando seu amigo, excelente esquiador austríaco, na históriaque ela sempre nos contava, teve que encararseu primeiro salto olímpico de esqui e, darampa de largada sobre o desfiladeiro que mergulhavatão vertiginosamente que sua borda inferiordesaparecia de vista, olhoupara um horizonte de Alpes que nadava e balançava ao seu redorcomo barcos de brinquedo em uma banheira, […]
- [Wislawa Szymborska - As Cartas dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/18/wislawa-szymborska-as-cartas-dos-mortos-2/): Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes,mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores.Sabemos quais dívidas não foram pagas.Com quem as viúvas rapidamente se casaram.Pobres mortos, mortos cegos,enganados, falíveis, canhestramente previdentes.Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas.Capturamos o som de testamentos sendo rasgados.Sentados comicamente diante de nós como no pão com […]
- [Annie Dillard – Como consumimos nossos dias](https://singularidadepoetica.art/2022/07/17/annie-dillard-como-consumimos-nossos-dias/): Como consumimos nossos diasé, evidentemente,como consumimos nossas vidas. O que fazemos com esta hora,e com aquela,é aquilo que fazemos. Um calendárioprotege do caos e do arbítrio. É uma redepara capturar dias.É um andaime sobre o qual um trabalhadorpode ficar em pée laborar com ambas as mãos em espaços de tempo.Um calendário é uma maqueteda razão […]
- [Wislawa Szymborska - Bodas de Ouro](https://singularidadepoetica.art/2022/07/16/wislawa-szymborska-bodas-de-ouro-2/): Devem ter sido diferentes um dia,fogo e água, diferindo com veemência,sequestrando e se doandono desejo, no assalto à dessemelhança.Abraçados, apropriaram-se e expropriarampor tanto tempo,que nos braços restou o artranslúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta.Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outropelo tipo de silêncio, no escuro. O sexo fenece, […]
- [Ada Limón, poeta laureada](https://singularidadepoetica.art/2022/07/15/ada-limon-poeta-laureada/): Ada Limón, uma legítima representante da novíssima geração de poetas norte-americanos, e de quem venho traduzindo alguns poemas para o blog desde 2020, acaba de ser eleita a nova poeta laureada dos Estados Unidos, a comenda de maior prestígio do campo da poesia daquele país. O cargo de poeta laureado – que tradicionalmente é conferida […]
- [Jim Harrison – Água](https://singularidadepoetica.art/2022/07/15/jim-harrison-agua/): Antes de nascer eu era água.Pensei nisso sentado em uma cadeiraazul cercado por malvas rosas, vermelhas,e brancas no jardim em frenteao meu estúdio verde. Há conclusões aquia tirar, mas eu não posso mais fazer isso. O homem nasce, cresce, canta, dança, ama, envelhece,agoniza. Isto é um rio circulare nós somos seus peixes que se tornam água. Trad.: […]
- [Wislawa Szymborska - Natureza-morta com um Balãozinho](https://singularidadepoetica.art/2022/07/14/wislawa-szymborska-natureza-morta-com-um-balaozinho-2/): Em vez da volta das lembrançasna hora de morrerquero ter de voltaas coisas perdidas. Pela porta, janela, malas,sombrinhas, luvas, casaco,para que eu possa dizer:Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente,rosa de papel, barbante, faca,para que eu possa dizer:Nada disto me faz falta. Esteja onde estiver, chave,tente chegar a tempo,para que eu possa dizer:Ferrugem, […]
- [Eavan Boland – Cartas aos mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/13/eavan-boland-cartas-aos-mortos/): I Estudiosos do Império Antigo encontraram cerâmicasgravadas por toda parte com marcas e sinais. II Escritos em louças de lodo. Nas bordas dos vasos.Colocados na entrada dos túmulos.O vermelho do ferro de um mundo.Postado no limiar de outro.Chamaram-nas de cartas aos mortos. III Eles não choravam ou se lamentavam por meio destas marcas e sinais.Eles […]
- [Wislawa Szymborska - Nada Duas Vezes](https://singularidadepoetica.art/2022/07/12/wislawa-szymborska-nada-duas-vezes-2/): Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela […]
- [Tarde na Andaluzia, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher](https://singularidadepoetica.art/2022/07/11/tarde-na-andaluzia-de-sahar-romani-lido-por-sandra-daher/): Sandra Daher, uma generosa seguidora do blog, publica em seu perfil no Facebook a leitura que faz de poemas que a inspiram. Em sua postagem mais recente, ela surge lendo o belíssimo “Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, traduzido por mim e publicado há algum tempo no blog. Confiram o resultado clicando no link que […]
- [Stephen Dunn - Ignorância](https://singularidadepoetica.art/2022/07/11/stephen-dunn-ignorancia/): O sonho antigo de voar se tornou realidadee eu olho para cima, sem espanto.Por que não cai?Uma pergunta de criança que eu não sei responder.Eu visto minha ignorância naquilo que eu sei.Uma vez houve pterodátilos, eu digo.Uma vez o céu era presságios e pássaros. Ele é imenso e diminuto e tão altoque não emite nem […]
- [Wislawa Szymborska - A Cada Cem Pessoas](https://singularidadepoetica.art/2022/07/10/wislawa-szymborska-a-cada-cem-pessoas-2/): A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros:– cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo:– quase todas as outras. estão prontas a ajudardesde é claro que isso não lhes tome muito tempo:– quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas porque incapazes de ser […]
- [Linda Pastan - Por trás do](https://singularidadepoetica.art/2022/07/09/linda-pastan-por-tras-do/): "Busco pelo que está por trás das palavras que são ditas..." – William Stafford Por trás do “Eu te amo”reside um “adeus”.Por trás do“adeus”mora um “foi maravilhosoali no gramado, encharcadosde tanto verde,juntos”.Palavras que esperamsão escuras como sombrasnos quartos dos fundos dos espelhos:quando você levantasua mão direitaem saudação,elas levantam a esquerdaem despedida. Trad.: Nelson Santander Mais […]
- [Gary Snyder - Dezembro em Yase](https://singularidadepoetica.art/2022/07/08/gary-snyder-dezembro-em-yase-2/): Naquele Outubroem que escolheu ser livrena grama alta e seca junto ao pomarvocê disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te visó mais uma vez. Você estava estranha.E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anose até mais um pouco: eu sempre soubeonde você estava […]
- [Pat Boran - Desde que você se foi...](https://singularidadepoetica.art/2022/07/07/pat-boran-desde-que-voce-partiu/): Desde que você se foi… os dias aprenderam um novo idioma,as noites falam em línguas – as vozes da chuva na janela do quarto, do vento sussurrando na rua varrida pela chuva, os canos da casa chamando,tina após tina de água. A perda descobre novas cançõesem antigos instrumentos. Trad.: Nelson Santander Since You Left… the […]
- [Yehuda Amichai - O Corpo é a Causa do Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/07/06/yehuda-amichai-o-corpo-e-a-causa-do-amor-2/): Primeiro o corpo é a causa do amordepois a fortaleza que o protegepor fim seu cárcere.E quando o corpo morre, o amor jorracaudalosamentecomo de um caça-níqueis clandestino quebradojorram de súbitocom estrondotodas as moedas de geraçõese gerações entregues à própria sorte. Trad.: ? REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/02/2017
- [Joseph Hillman – Para capturar a mim mesmo](https://singularidadepoetica.art/2022/07/05/joseph-hillman-para-capturar-a-mim-mesmo/): Para capturar a mim mesmoeu devo cavar um buraco Perfurar a película quesepara a vida da morteCom pá, pá de corteou mãos afiadas Fazer a terra desabrocharEm uma floração de preto e ocre Permitir que os muros se ergamao meu redor comodesmoronadoscortinadosengolindo-me inteiroenquantovou maisfundo Mais fundonaquele buraco Tão fundo quenão posso sairnovamentee tenho queviver oresto […]
- [Wislawa Szymborska - Retornos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/04/wislawa-szymborska-retornos-2/): Voltou. Não disse nada.Mas estava claro que teve algum desgosto.Deitou-se vestido.Cobriu a cabeça com o cobertor.Encolheu as pernas.Tem uns quarenta anos, mas não agora.Existe – mas só como na barriga da mãena escuridão protetora, debaixo de sete peles.Amanhã fará uma palestra sobre a homeostasena cosmonáutica metagaláctica.Por ora dorme, todo enrodilhado. Trad.: Regina Przybycien REPUBLICAÇÃO: poema […]
- [Mary Oliver – Pesado](https://singularidadepoetica.art/2022/07/03/mary-oliver-pesado/): Naquela épocaEu pensei que não poderiame aproximar mais da dorsem morrer eu me aproximeie não morri.Certamente tevea mão de Deus nisso, assim como as dos amigos.Ainda assim, eu estava curvada,e meu riso,como disse o poeta, havia desaparecido.Então disse o meu amigo Daniel(valente mesmo entre os leões):“Não é o peso que você carrega mas como você […]
- [John Keats - Ode sobre a Indolência](https://singularidadepoetica.art/2022/07/02/john-keats-ode-sobre-a-indolencia-2/): I Numa certa manhã eu vi as três as figuras, Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,Seguindo atrás da outra, mudas e seguras, Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;Como formas de mármore em alto-relevo Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,Mostraram-se mais uma vez como […]
- [Ciaran O’Driscoll – Por favor, permaneça na linha](https://singularidadepoetica.art/2022/07/01/ciaran-odriscoll-por-favor-permaneca-na-linha/): Este é o futuro, minha esposa diz.Nós já estamos lá, e é exatamente como o presente. Seu futuro, aqui, ela diz.E estou falando com um robô ao telefone.O robô está me dando inúmeras opções,nenhuma das quais atende às minhas necessidades.Ótimo, diz o robôquando eu lhe dou o número do meu telefone.E Excelente, diz o robôquando […]
- [Yehuda Amichai - Outra Vez o Amor Terminou](https://singularidadepoetica.art/2022/06/30/yehuda-amichai-outra-vez-o-amor-terminou-2/): Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas,ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezascoisas comovidas que buscavam o esquecimento. Outra vez o amor terminou. E como depois de se demoliruma casa grande e retirar os escombros, visitamoso terreno vazio e quadrado e dizemos: como era pequenoo lugar onde […]
- [Francisco Brines - Esplendor negro](https://singularidadepoetica.art/2022/06/29/francisco-brines-esplendor-negro/): Somente uma vez experimentaste aquele Esplendor negro,e intermitentemente recordas a experiência com imprecisão,aproximações difusas, iminências,e assim, desde a tua juventude, arrastas frioum invisível manto escarlate de cinzas.E não foi necessário cegar os olhos,pois das brancas luzes das estrelaschegou aquele delírio, a possibilidade mais exata e singela:em vez de Deus ou do mundoaquele negro Esplendor,que nem […]
- [Alberto Ríos – Coelhos e fogo](https://singularidadepoetica.art/2022/06/27/alberto-rios-coelhos-e-fogo/): Leia "Coelhos e fogo", de Alberto Ríos, um poema impactante sobre sofrimento, compaixão e a vulnerabilidade de todos os seres vivos.
- [Paulo Henriques Britto - de "Nenhuma Arte"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/26/paulo-henriques-britto-de-nenhuma-arte/): Os deuses do acaso dão, a quem nadalhes pediu, o que um dia levam embora;e se não foi pedida a coisa dadanão cabe se queixar da perda agora.Mas não ter tido nunca nada, nãoseria bem melhor — ou menos mau?Mesmo sabendo que uma solidãocompleta era o capítulo final,a anestesia valeria o preço?(Rememorar o que não […]
- [Lynn Emanuel – Minha vida](https://singularidadepoetica.art/2022/06/25/lynn-emanuel-minha-vida/): Como Jonas pelo peixe, eu fui por ela recebida,revirada e varrida por suas águas escuras,por ela conduzida para as profundezas e para além de incontáveis rochas.Sem ser tocada por seus dentes, caí nelasem um esforço maior que um grão de areiaentrando pela porta de uma catedral, tão largas eram suas mandíbulas.Desci, de cabeça e calcanhar,pela […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/24/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere-3/): I A seletividade da memória —a cor exata da pele, a textura,o odor de cada côncavo e orifício,o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e asaliva, a coxa arisca, a dobra escura,o beijo salobro, o sabor difícil,a carne assombrada, o esperma perplexo — falsa perfeição, mero artifíciodo […]
- [Billy Collins – A vida após a morte](https://singularidadepoetica.art/2022/06/23/billy-collins-a-vida-apos-a-morte/): Enquanto você se prepara para dormir, escovando os dentes,ou folheando uma revista na cama,os defuntos do dia estão iniciando sua jornada. Eles se movem em todas as direções imagináveis,cada qual de acordo com sua crença pessoal,e este é o segredo que o silencioso Lázaro não quis revelar:todos estão certos, no fim das contas.Você vai para […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/22/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-6/): (…) ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porémsó surge em pleno ar. E não renegoa rota tonta que segui. Ninguémse faz em linhas retas. Todo portoa que se chega é a meta desejada.E o caminho tomado, por mais torto,acaba sempre sendo a exata estradaa dar naquilo que, afinal, […]
- [Dorianne Laux – No limite](https://singularidadepoetica.art/2022/06/21/dorianne-laux-no-limite/): Depois que sua mãe morrer, você aprenderá a viverno limite da vida, a se segurarcomo ela fazia, uma mão no painel,a outra agarrando sua bolsa enquanto vocêpassa pelo sinal de pare, ombros tensos,olhos totalmente fechados, esperando pela colisãoque não vem. Você aprenderáa ficar acordada a noite toda sabendo que ela se foi,vendo a manhã se […]
- [Abdellatif Laâbi (Marrocos, 1942)](https://singularidadepoetica.art/2022/06/20/abdellatif-laabi-marrocos-1942/)
- [Paulo Henriques Britto - De "Duas Bagatelas"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/20/paulo-henriques-britto-de-duas-bagatelas-2/): (…) II Então viver é isso,é essa obrigação de ser feliza todo custo, mesmo que doa,de amar alguma coisa, qualquer coisa,uma causa, um corpo, o papelem que se escreve,a mão, a caneta até,amar até a negação de amar,mesmo que doa,então viver é sóesse compromisso com a coisa,esse contrato, esse cálculoexato e preciso, esse vicio,só isso. […]
- [Nâzim Hikmet - O otimista](https://singularidadepoetica.art/2022/06/19/nazim-hikmet-o-otimista/): quando criança ele nunca arrancou as asas das moscasele não atava latas nos rabos dos gatosnão prendia besouros em caixas de fósforosnem esmagava formigueirosele cresceue todas estas coisas foram feitas com eleeu estava ao lado de sua cama quando ele morreuele disse leia para mim um poemasobre o sol e o oceanosobre satélites e reatores […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/18/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-5/): VII Nada disso foi do jeito que eu quis.Se fosse como eu quis, não haveriade ser tão sofrido, tão infeliz.Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sintocomo quem tem não o que foi pedido,e sim o que, guiado pelo instinto,não pelo querer, teria querido. O […]
- [Andrea Cohen - O comitê avalia](https://singularidadepoetica.art/2022/06/17/andrea-cohen-o-comite-avalia/): Digo à minha mãe queganhei o Prêmio Nobel. De novo? ela diz. Em qualcategoria desta vez? É uma brincadeiraque fazemos: eu finjo que sou alguém, elafinge não estar morta. Trad.: Nelson Santander The Committee Weighs In I tell my motherI’ve won the Nobel Prize. Again? she says. Whichdiscipline this time? It’s a little gamewe play: […]
- [Paulo Henriques Britto - Balanços](https://singularidadepoetica.art/2022/06/16/paulo-henriques-britto-balancos-2/): (…) II Como saber sem tentar?Como tentar se é tão fácilconformar-se de saídacom a ideia de fracasso? Pois fracassar justificao não se ter nem sequeradmitido não querer-seaquilo que mais se quer. É um beco sem saída,mas sempre é melhor que a rua:mais estreito. Acolhedor.Vem, entra. A casa é tua. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente […]
- [Sylvia Plath - Estrelas sobre a Dordonha](https://singularidadepoetica.art/2022/06/15/sylvia-plath-estrelas-sobre-a-dordonha/): Estrelas caem densas como rochas na linhaEnfolhada de árvores cuja silhueta é mais escuraDo que o breu do céu porque não tem estrelas.O bosque é um poço. As estrelas caem silenciosamente.Parecem grandes, mas caem, e nenhuma lacuna é visível.Elas tampouco emitem fogos de onde caemOu qualquer sinal de angústia ou ansiedade.Elas são imediatamente devoradas pelos […]
- [Paulo Henriques Britto - Circular](https://singularidadepoetica.art/2022/06/14/paulo-henriques-britto-circular-2/): Neste mesmo instante, em algum lugar,alguém está pensando a mesma coisaque você estava prestes a dizer.Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vezneste mundo, nem tempo, nem lugar.O que você fizer não muda coisaalguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a dizer.Mesmo parecendo que desta vezalgo de […]
- [Jack Gilbert - O vale abandonado](https://singularidadepoetica.art/2022/06/13/jack-gilbert-o-vale-abandonado/): O retorno imaginado a um vale vazio revela o que a passagem do tempo retirou da paisagem e de quem a habitou. Ausência e memória transformam o lugar abandonado em medida de uma vida desaparecida.
- [Paulo Henriques Britto - De "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/12/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-4/): (…) III Mesmo o mais sólido somesem deixar nenhum vestígio,sem nem se ter (como exige ocostume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido —que se dá a posteriori,antes que se deteriorede todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculoângulo do evento únicoque só durou um segundo Entrementes, coisas […]
- [Jane Kenyon - O pretendente](https://singularidadepoetica.art/2022/06/11/jane-kenyon-o-pretendente/): Repousamos de costas um para o outro. As cortinassobem e descem,como o peito de alguém dormindo.Os ventos movem as folhas do bordo;elas expõem seus lados iluminados,girando todas de uma vezcomo um cardume de peixes.Subitamente, compreendo que estou feliz.Por meses esse sentimentotem-se aproximado, parandopara curtas visitas, como um tímido pretendente. Trad.: Nelson Santander The Suitor We […]
- [Nelson Santander - Mudança Singular](https://singularidadepoetica.art/2018/07/14/nelson-santander-mudanca-singular/): Resolvi mudar o blog. De hoje em diante, além de umas perfumarias que fiz na página, o blog passará a se chamar “singularidade”. Por quê? Primeiro, porque o nome anterior era muito feio. A ideia de criar um blog para divulgar poemas (principalmente), textos, vídeos, traduções e outras coisas de que gosto, veio meio de […]
- [Piedad Bonnett - Volta à Poesia](https://singularidadepoetica.art/2018/07/13/piedad-bonnett-volta-a-poesia/): Outra vez volto a ti. Cansada venho, definitivamente solitária. Minha bolsa cheia de tristeza trago, carregada de penas infinitas, de dor. Dos desertos venho com os lábios ardentes e o olhar cego pelo vento forte e a dura areia. Abrasada de sede, venho beber de teus profundos mananciais, render-me em teus braços, fundos braços de […]
- [Inês Dias - Linhas de Torres](https://singularidadepoetica.art/2018/07/12/ines-dias-linhas-de-torres-poema/): Linhas de Torres, um poema de Inês Dias
- [Manuel António Pina - M., A Última Palavra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/11/manuel-antonio-pina-m-a-ultima-palavra-poema/): M., A Última Palavra, um poema de Manuel António Pina
- [Joan Margarit - Vozes de Crianças](https://singularidadepoetica.art/2018/07/10/joan-margarit-vozes-de-criancas/): O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste, é uma teia de luz cansada onde recordo quando iam dormir. Ainda lhes leio naquele quarto, debaixo da lâmpada ao lado da cama, os contos com capas duras de cores brilhantes. De súbito, em alguma madrugada, ouço uma criança que me chama e incorporo-me, mas […]
- [Jorge Luis Borges - James Joyce (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/07/09/jorge-luis-borges-james-joyce-em-tres-traducoes/): Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os diasdo tempo, desde o inconcebíveldia inicial do tempo, em que um terrívelDeus prefixou os dias e agonias,até aquele outro em que o ubíquo riodo tempo terrenal torne a sua fonte,que é o […]
- [Emily Dickinson - "Senti um Féretro em meu Cérebro..."](https://singularidadepoetica.art/2018/07/08/emily-dickinson-senti-um-feretro-em-meu-cerebro/): Senti um Féretro em meu Cérebro,E Carpideiras indo e vindoA pisar — a pisar — até eu sonharMeus sentidos fugindo — E quando tudo se sentou,O Tambor de um Ofício —Bateu — bateu — até eu sentirInerte o meu Juízo E eu os ouvi — erguida a Tampa —Rangerem por minha Alma comTodo o Chumbo […]
- [Herberto Helder - A Paixão Grega](https://singularidadepoetica.art/2018/07/07/herberto-helder-a-paixao-grega/): Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,quando alguém morria perguntavam apenas:tinha paixão?quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:se tinha paixão pelas coisas gerais,água,música,pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,paixão pela paixão,tinha?e então indago de mim se […]
- [Manuel de Freitas - Pompe Inutili](https://singularidadepoetica.art/2018/07/06/manuel-de-freitas-pompe-inutili-poema/): Pompe Inutili, um poema de Manuel de Freitas
- [Carlos Alberto Machado – Mapa de Desencontros](https://singularidadepoetica.art/2018/07/05/carlos-alberto-machado-mapa-de-desencontros/): I Abrigo-te mais uma vez há muito tempo disseste aqui hei-de morrer voltas sempre a esta morada ris-te e partes no telhado frágil caem as primeiras águas de Inverno. II Deus encontrou-te eu sei apaixonou-se pelos teus olhos verdes (há fados assim) à sombra das velhas árvores dás-lhe a mão e passeiam deve ser em […]
- [Edna St. Vincent Millay – Objeção de Consciência](https://singularidadepoetica.art/2018/07/04/edna-st-vincent-millay-objecao-de-consciencia/): Eu vou morrer, mas isso é tudo o que farei pela Morte. Eu a ouço tirar seu cavalo da baia; Eu ouço pisadas no chão do celeiro. Ela tem pressa; ela tem negócios em Cuba e nos Bálcãs, muitas ligações a fazer na manhã. Mas eu não vou segurar a rédea enquanto ela ajusta a […]
- [Manuel António Pina - Forma, só Forma](https://singularidadepoetica.art/2018/07/03/manuel-antonio-pina-forma-so-forma-poema/): Forma, só Forma, um poema de Manuel António Pina
- [Alejandra Pizarnik - Capítulos Principais](https://singularidadepoetica.art/2018/07/02/alejandra-pizarnik-capitulos-principais/): Chega a morte com sua manada de ossos sorrio submissa a uma menina idiota que implora em meu nome juntas (a morte, a menina e eu) não encontramos outro ofício para execrar. No final todos se casam: o mar e as ondas, a noite e a escuridão, a taça e o vinho, o anel e […]
- [Georg Trakl – No Outono](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/georg-trakl-no-outono/): Junto à cerca, os girassóis e o seu brilho, Doentes sentados ao sol, sem alento. No campo, as mulheres cantam no trabalho, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Os pássaros contam lendas de encantar, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Há um violino no pátio a gemer. E já o vinho escuro vão […]
- [Joan Margarit - Não jogues fora as cartas de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/joan-margarit-nao-jogues-fora-as-cartas-de-amor/): Elas não te abandonarão. O tempo passará, apagar-se-á o desejo — esta flecha da sombra — e os rostos sensuais, belos e inteligentes, ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho. Passarão os anos. Cansar-te-ão os livros. Decairás ainda mais e perderás até mesmo a poesia. O ruído da cidade nas vidraças acabará por ser […]
- [Tishani Doshi - Poema de Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/06/30/tishani-doshi-poema-de-amor/): No fim, perderemos um ao outro para alguma coisa. Espero que para algo grandioso – morte ou desastre. Mas pode não ser dessa maneira. Pode ser que você saia para comprar cigarros uma manhã depois de termos feito amor e nunca mais retorne, ou eu me apaixone por outro homem. Pode ser uma lenta caminhada […]
- [Emily Dickinson - "Morrer por ti era pouco..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/29/emily-dickinson-morrer-por-ti-era-pouco/): Morrer por ti era pouco.Qualquer grego o fizera.Viver é mais difícil —É esta a minha oferta — Morrer é nada, nemMais. Porém viver importaMorte múltipla — semO Alívio de estar morta. Trad.: Augusto de Campos Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Too […]
- [Antonia Pozzi - Novembro](https://singularidadepoetica.art/2018/06/28/antonia-pozzi-novembro/): E depois – quando eu partir restará alguma coisa de mim no meu mundo – restará um fino rasto de silêncio no meio das vozes – um ténue sopro de branco no coração do azul – E numa noite de Novembro uma menina frágil à esquina de uma rua venderá braçadas de crisântemos e lá […]
- [Jorge Luis Borges - Cambridge](https://singularidadepoetica.art/2018/06/27/jorge-luis-borges-cambridge/): Nova Inglaterra e a manhã. Dobro por Craigie. Penso (já pensei) que o nome Craigie é escocês e que a palavra crag é de origem celta. Penso (já pensei) que neste inverno estão os antigos invernos dos quais deixaram escrito que o caminho está prefixado e que já somos do Amor ou do Fogo. A […]
- [Renata Correia Botelho - O Vento a Rondar os Dragoeiros](https://singularidadepoetica.art/2018/06/26/renata-correia-botelho-o-vento-a-rondar-os-dragoeiros-poema/): O Vento a Rondar os Dragoeiros, um poema de Renata Correia Botelho
- [Felipe Benítez Reyes - Uma Forma de Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2018/06/25/felipe-benitez-reyes-uma-forma-de-eternidade/): Então o medo era isto? Não os assustadores fantasmas do pensamento e da consciência. Não os longos corredores de hospitais com lâmpadas fluorescentes dia e noite. Nem sequer o tremor de irrealidade que permanece na alma se te recordas. O medo, aparentemente, é calmo: Chega quando fechas a janela e compreendes que tudo quanto vês […]
- [Alfredo Buxán - Lápide](https://singularidadepoetica.art/2018/06/24/alfredo-buxan-lapide/): Uma lágrima cai sobre a cal do solo, arde sob meus pés, consome na solidão minha solidão. Trad.: Nelson Santander Alfredo Buxán – Lápida Una lágrima cae sobre la cal del suelo, arde bajo mis pies, abrasa en soledad mi soledad.
- [Manuel de Freitas - Balladen Om Jenny Lind](https://singularidadepoetica.art/2018/06/23/manuel-de-freitas-balladen-om-jenny-lind-poema/): Balladen Om Jenny Lind, um poema de Manuel de Freitas
- [Inês Dias - Passou demasiado tempo...](https://singularidadepoetica.art/2018/06/22/ines-dias-passou-demasiado-tempo-tempo-poema/): Passou demasiado tempo..., um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Shostakovich. Sinfonia "Leningrado"](https://singularidadepoetica.art/2018/06/21/joan-margarit-shostakovich-sinfonia-leningrado/): Lembras-te? Joana havia morrido. Íamos para o norte, tu e eu, no carro, para o apartamento junto ao mar, e ouvíamos esta sinfonia. Iniciamos a viagem em uma manhã luminosa e, dentro da música, o dia era de muros cobertos pelo gelo, vultos carregando sacos meio vazios e, no lago, trenós com cadáveres. Como uma […]
- [Manuel António Pina - Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/manuel-antonio-pina-neste-preciso-momento-neste-preciso-lugar-poema/): Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar, um poema de Manuel António Pina
- [Nelson Santander – Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), por Nelson Santander
- [Alfredo Buxán - A eternidade das Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/19/alfredo-buxan-a-eternidade-das-cinzas/): Leia "A eternidade das cinzas", de Alfredo Buxán, um poema contemplativo sobre mortalidade, silêncio e a fragilidade da existência humana.
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2018/06/18/jorge-luis-borges-labirinto-2/): Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro. E o alcácer abarca o universo E não tem anverso nem reverso Não tem extremo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro teu destino Como […]
- [Manuel de Freitas - Genealogia](https://singularidadepoetica.art/2018/06/17/manuel-de-freitas-genealogia-poema/): Genealogia, um poema de Manuel de Freitas
- [Jorge Sousa Braga - Fogo sobre fogo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/16/jorge-sousa-braga-fogo-sobre-fogo-poema/): Fogo sobre fogo, um poema de Jorge Sousa Braga
- [Rui Caeiro - "Ainda atacas..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/15/rui-caeiro-ainda-atacas-poema/): "Ainda atacas...", um poema de Rui Caeiro
- [Nuno Júdice - Réquiem por Muitos Maios](https://singularidadepoetica.art/2018/06/14/nuno-judice-requiem-por-muitos-maios-poema/): Réquiem por Muitos Maios, um poema de Nuno Júdice Conheci tipos que viveram muito. Estão mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço. de álcool, da obrigação de viver que os consumia [...]
- [Inês Dias - Lapinha](https://singularidadepoetica.art/2018/06/13/ines-dias-lapinha-poema/): Lapinha, um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Não estava longe, não era difícil](https://singularidadepoetica.art/2018/06/12/joan-margarit-nao-estava-longe-nao-era-dificil/): Chegou este tempo em que já não machuca a vida que se perde, em que a luxúria é tão só uma lâmpada inútil, e a inveja se olvida. É um tempo de perdas prudentes, necessárias, e não é um tempo de chegar mas de partir. O amor, agora, por fim coincide com a inteligência. Não […]
- [Machado de Assis - Último Capítulo (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2018/06/11/machado-de-assis-ultimo-capitulo-excerto/): “Há entre os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato […]
- [Manuel António Pina – Esplanada](https://singularidadepoetica.art/2018/06/10/manuel-antonio-pina-esplanada-poema/): Esplanada, um poema de Manuel António Pina
- [Belchior - Comentários a Respeito de John](https://singularidadepoetica.art/2018/06/09/belchior-comentarios-a-respeito-de-john/): Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho Deixem que eu decido a minha vida Não preciso que me digam de que lado nasce o sol Porque bate lá o meu coração Sonho e escrevo em letras grandes de novo pelos muros do país João, o tempo andou mexendo com a gente, sim John, eu […]
- [Joan Margarit - Discurso do Método](https://singularidadepoetica.art/2018/06/07/joan-margarit-discurso-do-metodo/): Já de criança procurava as janelas para pode fugir com o olhar. Desde então, se entro em um lugar, observo com atenção onde deixo meu casaco e onde está a porta de saída. Liberdade, para mim, quer dizer fuga. Há muitas portas no mundo. Inclusive o sexo, em caso de emergência, pode sê-lo, embora todas […]
- [Idea Vilariño - Ou foram nove](https://singularidadepoetica.art/2018/06/06/idea-vilarino-ou-foram-nove/): Talvez tivemos só sete noites não sei não as contei como poderia ter feito. Talvez não mais que seis ou foram nove. Não sei, mas valeram a pena como o amor mais duradouro. Talvez com quatro ou cinco noites dessas, mas precisamente como essas, talvez seja possível viver como de um longo amor uma vida […]
- [Manuel António Pina – Lugares da infância](https://singularidadepoetica.art/2018/06/05/manuel-antonio-pina-lugares-da-infancia/): Lugares da infância onde sem palavras e sem memória alguém, talvez eu, brincou já lá não estão nem lá estou. Onde? Diante de que mistério em que, como num espelho hesitante, o meu rosto, outro rosto, se reflecte? Venderam a casa, as flores do jardim, se lhes toco, ficam hirtas e geladas, e sob os […]
- [Paulo Henriques Britto - Queima de Arquivo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/04/paulo-henriques-britto-queima-de-arquivo/): Houve um tempo em que eu amava em cada corpo o reflexo do que eu queria ter sido. No fundo do sexo eu buscava o meu desejo perdido. Acabei achando o outro que em mim mesmo destruí. Foi fácil reconhecê-lo: de tudo que vi em seu rosto somente o ódio era belo. Esse morto adolescente […]
- [Eduardo Chirinos - O que meu pai realmente quer de mim](https://singularidadepoetica.art/2018/06/03/eduardo-chirinos-o-que-meu-pai-realmente-quer-de-mim/): 1 Esta noite tive um sonho. Seguia com meu pai por uma estrada de terra. Os dois íamos a cavalo e mal trocávamos uma palavra. Ao longe se via a sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoado desconhecido e remoto. De repente, meu pai deteve seu cavalo e perguntou-me se eu sabia para […]
- [Wislawa Szymborska - Gato num apartamento vazio](https://singularidadepoetica.art/2018/06/02/wislawa-szymborska-gato-num-apartamento-vazio/): Morrer — isso não se faz a um gato. Pois o que há de fazer um gato num apartamento vazio. Trepar pelas paredes. Esfregar-se nos móveis. Nada aqui parece mudado e no entanto algo mudou. Nada parece mexido e no entanto está diferente. E à noite a lâmpada já não se acende. Ouvem-se passos na […]
- [Manuel de Freitas - Grand Hotel København, 326](https://singularidadepoetica.art/2018/06/01/manuel-de-freitas-grand-hotel-kobenhavn-326/): Onze horas: a tua mão adormecida marca agora um conto de Karen Blixen – veremos em breve essa casa cinzenta, em Helsingør – enquanto eu ouço uma sonata de Scarlatti tocada por Scott Ross e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca. Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes assim, ignorando a áspera nudez da […]
- [Jaime Gil de Biedma - Happy ending](https://singularidadepoetica.art/2018/05/31/jaime-gil-de-biedma-happy-ending/): Embora, à noite, comigo já não durmas mais, o acaso dirá talvez se é definitivo. Que embora o prazer nunca mais volte a ser o mesmo, na vida o esquecimento não costuma durar. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Happy ending Aunque la noche, conmigo, no la duermas ya, sólo el azar nos dirá […]
- [Javier Salvago - Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos](https://singularidadepoetica.art/2018/05/30/javier-salvago-um-pouco-mais-sabios-um-pouco-mais-cegos/): Quando você não é mais jovem, se convence de que o diabo sabe mais porque é velho e admite que os anos nos ensinam a distinguir a realidade do sonho. Talvez não. Talvez a vida só se nos mostre uma vez – quando temos olhos para aprecia-la – e depois vamos esquecendo seu rosto e […]
- [Inês Dias - Joaquim e Judite](https://singularidadepoetica.art/2018/05/29/ines-dias-joaquim-e-judite/): Fizera toda a viagem com ele ao colo. Queria despedir-se junto ao mar, mas as partidas são tão imperfeitas se o coração é uma caixa de cinzas demasiado enferrujada para abrir ao vento. Mesmo agora, depois de lavada a última partícula que se lhe colara à pele, sabia que o amor passara a ter o […]
- [Manuel António Pina - Ruínas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/28/manuel-antonio-pina-ruinas/): Por onde quer que tenha começado, pelo corpo ou pelo sentido, ficou tudo por fazer, o feito e o não feito, como num sono agitado interrompido. O teu nome tinha alturas inacessíveis e lugares mal iluminados onde se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam, e talvez devesse ter começado por aí. Agora […]
- [Javier Salvago - Convém não esquecer](https://singularidadepoetica.art/2018/05/27/javier-salvago-convem-nao-esquecer/): Por esta via que chamam vida, vamos com cautela devida, tal qual um cego. Mas em cinzas termina todo e qualquer fogo. Trad.: Nelson Santander Javier Salvago – Conviene no Olvidarlo Por esta senda, que llaman vida, todos vamos a tientas, igual que un ciego. En ceniza terminan todos los fuegos.
- [Vítor Nogueira - Gelo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/26/vitor-nogueira-gelo/): Agora é apenas um café com paredes adornadas, imagens retratando destemidos ancestrais. O tempo foi passando, não foi? Um acidente em câmara lenta a uma escala cataclísmica. Grande parte daquilo que fazemos é construir memória, uma promessa frágil ao futuro. E pensar que na vida acumulamos tanta coisa, sobretudo se por hábito não deitamos nada […]
- [Nuno Júdice - Passado](https://singularidadepoetica.art/2018/05/25/nuno-judice-passado/): Passou o vento, passou o dia, passou a noite e a manhã, passou o tempo, passou a gente, passou cada hora de amanhã; passou um canto esquecido nos cantos de cada passo, passou ao dizer que passo sem se lembrar do compasso; passou a vida como se nada fosse, só passou e foi-se embora, passou […]
- [Manuel António Pina - O Regresso](https://singularidadepoetica.art/2018/05/24/manuel-antonio-pina-o-regresso/): Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira […]
- [Inês Dias – Reconquista](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/ines-dias-reconquista/): Do meu bisavô, ferreiro e construtor de pontes, conheci apenas as iniciais, gravadas na pedra com que tomara o último dos elementos. Mas a sul do passado, o meu avô repetia-lhe ainda os gestos, ensinando-me a travar as marés com pequenos diques improvisados – paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel. Nunca mais o futuro […]
- [Nelson Santander - Philip Roth](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/philip-roth/): Morreu Philip Roth, meu último grande herói literário. Sua vasta bibliografia explora uma gama enorme de temas, mas a faceta que mais me impressionou foi a que ele abordou em seus últimos livros: a questão da velhice. A leitura de “Homem Comum” – principal obra de Roth sobre o tema – há cerca de 8 […]
- [Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame](https://singularidadepoetica.art/2018/05/22/lawrence-ferlinghetti-cafe-notre-dame/): Uma espécie de trauma sexual prende um casal abismado Ele está segurando as duas mãos dela nas suas Ela está beijando as mãos dele Estão olhando-se nos olhos de muito perto Ela tem um casaco de peles feito duma centena de coelhos correndo Ele tem um casaco clássico sombrio e calças cinza-de-pardo Agora estão a […]
- [Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções](https://singularidadepoetica.art/2018/05/21/marina-tsvetaieva-um-poema-em-duas-traducoes/): Tentativa de ciúme – Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra? Fácil, não é? — Um golpe de remo! — E de pronto a linha da costa Se foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante (No céu, por certo, não no mar)! Almas! Almas! — antes amar Como […]
- [Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa](https://singularidadepoetica.art/2018/05/20/anne-sexton-para-o-meu-amante-voltando-para-a-esposa/): Ela está bem aqui. Ela foi cuidadosamente esculpida para você saída de sua infância saída dentre seus cem colegas de escola preferidos. Ela sempre esteve aqui, meu bem. Ela é de fato extraordinária. Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro e tão real como uma panela de ferro fundido. Vamos ser sinceros, eu […]
- [Mario Benedetti - Tempo sem Tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/19/mario-benedetti-tempo-sem-tempo/): Preciso de tempo, necessito desse tempo que os outros deixam de lado porque lhes sobra ou já não sabem o que fazer com ele tempo em branco em rubro em verde mesmo em castanho escuro não me importa a cor cândido tempo que eu não posso abrir e fechar como uma porta tempo para olhar […]
- [Manuel António Pina - Luz](https://singularidadepoetica.art/2018/05/18/manuel-antonio-pina-luz/): Talvez que noutro mundo, noutro livro, tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu), e talvez então tu, eu, […]
- [Marina Colasanti - Rota de Colisão](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/marina-colasanti-rota-de-colisao/): De quem é esta pele que cobre a minha mão como uma luva? Que vento é este que sopra sem soprar encrespando a sensível superfície? Por fora a alheia casca dentro a polpa e a distância entre as duas que me atropela. Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas […]
- [Raul de Carvalho – Amiúde](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/raul-de-carvalho-amiude/): No vale dos afetos ninguém está seguro: Míngua a lembrança, Esquece-se o rosto, Retorna-se ao eu, Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo – E apenas as pequenas ilusões – um café, o cigarro, a limonada – imitam dois corações […]
- [Roger Wolfe - A Última Noite da Terra](https://singularidadepoetica.art/2018/05/16/roger-wolfe-a-ultima-noite-da-terra/): O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa E, no entanto, permaneço aqui. Sua melodia não muda, já o escrevi antes. Mas o meu trabalho é constatar o óbvio e é isso que o melro faz-me recordar. O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem por sua própria mão ou com ajuda. As […]
- [João Miguel Fernandes Jorge - Presépio Animado da Ribeira Grande](https://singularidadepoetica.art/2018/05/15/joao-miguel-fernandes-jorge-presepio-animado-da-ribeira-grande/): Ainda todos se lembram do dezembro de 96. Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na berma, um gato de pelagem branca. Parecia ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa de pelo curto, tinha uma chaga na orelha alastrava pelo crânio e pela face e olho. […]
- [Charles Simic - Na Biblioteca](https://singularidadepoetica.art/2018/05/14/charles-simic-na-biblioteca/): Para Octavio Há um livro chamado “Um Dicionário dos Anjos”. Não foi aberto por ninguém em cinquenta anos, Eu sei, porque quando o fiz As capas rangeram, as páginas desintegraram-se. Nele descobri Que os anjos já foram tão abundantes Quanto moscas. O céu ao entardecer Costumava ficar repleto deles. Você precisava agitar ambos os braços […]
- [Inês Dias – Lei Sálica](https://singularidadepoetica.art/2018/05/13/ines-dias-lei-salica/): As mulheres da família sempre tiveram um jeito quase póstumo de existir: guardar o lume em silêncio, comer depois de servir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destino para lerem os caminhos perdidos e coleccionavam a abdicação em caixinhas de folha, entre bilhetes caducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a […]
- [A. M. Pires Cabral – Motes e Voltas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/12/a-m-pires-cabral-motes-e-voltas/): 1 Senhor, vão sendo horas. Sei bem que o teu relógio não tem de regular-se pelo meu nem a tua vontade pela minha. Mas é justo que seja aquele que sofre do tempo os enxovalhos a dizer quando vão sendo horas — e não tu, Senhor, com quem o tempo não colide (decerto porque tu […]
- [Eugénio de Andrade - Ver Claro](https://singularidadepoetica.art/2018/05/11/eugenio-de-andrade-ver-claro/): Toda a poesia é luminosa, até a mais obscura. O leitor é que tem às vezes, em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver claro. Se regressar outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas ficará cego de tanta claridade. Abençoado seja se lá chegar.
- [Adília Lopes - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/adilia-lopes-arte-poetica-poema/): Arte Poética, um poema de Adília Lopes
- [Inês Dias – Your Funeral, my Trial](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/ines-dias-your-funeral-my-trial/): O morto fica mais só quando quem fala lhe rouba a última memória desse barco desmesurado da infância, construído sem vista para o mar. O morto fica mais só ainda, quando quem ouve se esquece da música para escolher o seu próprio funeral, alinhando convidados e preferindo coroas de plástico a condizer com as lágrimas. […]
- [Manuel António Pina - Relatório](https://singularidadepoetica.art/2018/05/09/manuel-antonio-pina-relatorio/): É um mundo pequeno, habitado por animais pequenos – a dúvida, a possibilidade da morte – e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros, os teus passos subindo as escadas, o gato brincando na sala com o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa, um pouco mais […]
- [Vitor Nogueira – Sementes](https://singularidadepoetica.art/2018/05/08/vitor-nogueira-sementes/): É claro que me lembro. Havia dois atalhos pelo meio do pinhal, direcções espantosamente precisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos, havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio para tratar certas lesões, uma peça vital do equipamento. Havia girassóis à volta da casa e as palavras imortais dos […]
- [Jorge Luis Borges - Sobre nós](https://singularidadepoetica.art/2018/05/07/jorge-luis-borges-sobre-nos/): Amamos o que não conhecemos, o já perdido. O bairro que foi periferia. Os antigos, que já não podem nos decepcionar porque são mito e esplendor. Os seis volumes de Schopenhauer, que não acabaremos de ler. A lembrança, não a leitura, da segunda parte do Quixote. O Oriente que, sem dúvida, não existe para o […]
- [Ana Martins Marques - de "Três Postais"](https://singularidadepoetica.art/2018/05/06/ana-martins-marques-de-tres-postais/): São Paulo Depois de um tempo todas as coisas ficam marcadas como se estivessem impregnadas de veneno Há um tempo em que os lugares são limpos e novos abertos como clareiras mas já não é este o tempo Sobre cada lugar se sobrepõe a experiência do lugar como um selo num cartão postal Por exemplo […]
- [Alberto Caeiro - Quando vier a primavera](https://singularidadepoetica.art/2018/05/05/alberto-caeiro-quando-vier-a-primavera/): Quando vier a primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morria E a primavera era […]
- [José Alcaraz - Volta para Casa](https://singularidadepoetica.art/2018/05/04/jose-alcaraz-volta-para-casa/): Atravessa as ruas absorto nos ecos das pessoas, distante inclusive de seus pensamentos. Não chove, não abre seu guarda-chuva, no entanto, como sempre, molham-se não só seus sapatos como a vida também, porque às vezes não recorda que o mundo o reclama. Caminha como quem não sabe para onde, a cada passo crê estar só […]
- [Hans Magnus Enzensberger - A Visita](https://singularidadepoetica.art/2018/05/03/hans-magnus-enzensberger-a-visita/): Quando levantei os olhos da página em branco havia um anjo no quarto. Um anjo bastante comum presumivelmente de menor hierarquia. Você não pode imaginar, ele disse, o tanto que você é dispensável. Dos quinze mil tons de azul, ele disse, cada um faz mais diferença Do que tudo que você possa fazer ou deixar […]
- [Manuel António Pina - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2018/05/02/manuel-antonio-pina-interiores/): Onde estamos agora que não nos vemos, tu sentada diante da TV e eu escrevendo isto, não sei o quê, como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceu do nosso amor como uma inevitabilidade, uma saudade pousada agora na mão de Deus existindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Reza da Manhã de Maio](https://singularidadepoetica.art/2018/05/01/sophia-de-mello-breyner-andresen-reza-da-manha-de-maio/): Senhor, dai-me a inocência dos animais Para que eu possa beber nesta manhã A harmonia e a força das coisas naturais. Apagai a máscara vazia e vã De humanidade, Apagai a vaidade, Para que eu me perca e me dissolva Na perfeição da manhã E para que o vento me devolva A parte de mim […]
- [Jorge Luis Borges – As Causas](https://singularidadepoetica.art/2018/04/30/jorge-luis-borges-as-causas/): Todas as gerações e os poentes. Os dias e nenhum foi o primeiro. A frescura da água na garganta De Adão. O ordenado Paraíso. O olho decifrando a maior treva. O amor dos lobos ao raiar da alba. A palavra. O hexâmetro. Os espelhos. A Torre de Babel e a soberba. A lua que os […]
- [Belchior - Coração Selvagem](https://singularidadepoetica.art/2018/04/30/belchior-coracao-selvagem/): Um ano sem Belchior… Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção Esconda um beijo pra mim Sob as dobras do blusão Eu quero um gole de cerveja No seu copo, no seu colo e nesse bar Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja Não quero o […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Discurso pós-jantar em um noivado](https://singularidadepoetica.art/2018/04/29/hans-magnus-enzensberger-discurso-pos-jantar-em-um-noivado/): Este eu, um invólucro que, contanto que ninguém o abra, parece compacto, regular como um Kinder ovo, quase apetitoso. Só por dentro é escuro. Quem sabe o que estará esperando por você lá. Obsessões, sem dúvida, hábitos enferrujados, medos incompreensíveis, truques de segunda mão, desejos infantis. Que você deseje tê-la, esta caixa de presente, beira […]
- [Juan Vicente Piqueras - Véspera de Permanecer](https://singularidadepoetica.art/2018/04/28/juan-vicente-piqueras-vespera/): Tudo está preparado: a mala, as camisas, os mapas, a tola esperança. Estou tirando o pó das pálpebras. Já pus na lapela a rosa dos ventos. Tudo está pronto: o mar, o ar, o atlas. Só me falta o quando, o onde, um diário de bordo, cartas de navegação, ventos propícios, coragem e alguém que […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Balanço](https://singularidadepoetica.art/2018/04/27/carlos-drummond-de-andrade-balanco/): A pobreza do eu a opulência do mundo A opulência do eu a pobreza do mundo A pobreza de tudo a opulência de tudo A incerteza de tudo na certeza de nada
- [Felipe Benítez Reyes – Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2018/04/26/felipe-benitez-reyes-aniversario-2/): Outro ano que se vai. Os muitos que se foram deixaram-nos um verbo repetido com significados diferentes e o mapa de um tesouro que não está em nenhum mapa, conversas amenas e o silêncio, e luzes que se apagam e sombras que se acendem e o penar de alma em luto pela alma do que […]
- [Jaime Gil de Biedma - Lembre-se](https://singularidadepoetica.art/2018/04/25/jaime-gil-de-biedma-lembre-se/): Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo sonhos na memória: estremece a eternidade do tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado para um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre dissipando-se o passado. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Recuerda […]
- [Haroldo de Campos - Servidão de Passagem](https://singularidadepoetica.art/2018/04/24/haroldo-de-campos-servidao-de-passagem/): forma de fome proêmio mosca ouro?mosca fosca. mosca prata?mosca preta. mosca íris?mosca reles. mosca anil?mosca vil. mosca azul?mosca mosca. mosca branca?poesia pouca. o azul é puro?o azul é pus. de barriga vazia. o verde é vivo?o verde é vírus de barriga vazia. o amarelo é belo?o amarelo é bile de barriga vazia. o vermelho é […]
- [Rocío Wittib - Outra vez olhas o mundo...](https://singularidadepoetica.art/2018/04/23/rocio-wittib-outra-vez-olhas-o-mundo/): outra vez olhas o mundo como se fosse tarde demais te perguntas se o tempo é uma resposta e aceitas a dúvida do talvez como consolo aprendeste a renunciar sempre de algo mas sobretudo a desistir de ti mesmo por isso foges do desejo como um animal ferido te refugias na certeza fiel de alguma […]
- [Manuel António Pina - Instituto de Oncologia](https://singularidadepoetica.art/2018/04/22/manuel-antonio-pina-instituto-de-oncologia/): Estes cumprem o rito antigo mantendo a chama da morte acesa na obscura água da vida e engrossam o rio dos mortos como pura memória sem nome. Nós rebelamo-nos, levantamos as mãos ao céu, e depois fechamo-las para deter o rio da mudança fluindo por entre os dedos, porque éramos os menos fortes e os […]
- [Charles Bukowski – Como ser um grande escritor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/21/charles-bukowski-como-ser-um-grande-escritor/): você tem que trepar com um grande número de mulheres belas mulheres e escrever uns poucos e decentes poemas de amor. não se preocupe com a idade e/ou com os talentos frescos e recém-chegados; apenas beba mais cerveja mais e mais cerveja e vá às corridas pelo menos uma vez por semana e vença se […]
- [Inês Lourenço – Consoantes Átonas](https://singularidadepoetica.art/2018/04/20/ines-lourenco-consoantes-atonas/): Emudecer o afe[c]to português? Amputar a consoante que anima a vibração exa[c]ta do abraço, a urgência tá[c]til do beijo. Eu não nasci nos Trópicos: preciso desta interna consoante para iluminar a névoa do meu dile[c]to norte.
- [Yehuda Amichai – Um homem em sua vida](https://singularidadepoetica.art/2018/04/19/yehuda-amichai-um-homem-em-sua-vida/): Um homem não tem tempo em sua vida para ter tempo para cada coisa. Ele não possui momentos suficientes para ter um momento para cada coisa. O Eclesiastes Estava errado a esse respeito. Um homem precisa amar e odiar no mesmo instante, rir e chorar com os mesmos olhos, com as mesmas mãos atirar e […]
- [Eira Stenberg – Falar de Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/18/eira-stenberg-falar-de-amor/): Falar de amor, do que não se pode falar – desse beco sem saída que é o espelho onde alguém pende de cabeça em uma árvore invisível com as pernas cingindo um ramo como se lutasse contra a gravidade e abrisse a boca sem emitir som algum. Ou falar como se o amor fosse uma […]
- [Fernando Luis Chivite – “Abril é o mês mais cruel”](https://singularidadepoetica.art/2018/04/17/fernando-luis-chivite-abril-e-o-mes-mais-cruel/): Às vezes, sem que nada pareça particularmente favorável – nem lúgubres violinos, nem a tarde tornando-se violeta e perigosa – sente-se que a vida segue sendo estranha, e desenvolve senhas inéditas, desordena papéis, acende cigarros com uma inquietude excessiva, como querendo assegurar-se que o tempo não se deterá, que o olvido é só algo fortuito, […]
- [Mario Montalbetti – Muito menos que uma ideia](https://singularidadepoetica.art/2018/04/16/mario-montalbetti-muito-menos-que-uma-ideia/): Não creias na verdade. Não creias na beleza. Não creias no amor. Senta ao piano sopra a trompa arranha a corda e fiquemos juntos. Não me apanhes um Beserol se me dói a cabeça. Não repitas comigo filme que já viste. Não creias que haja algo importante no que fazes. Nem sequer uma boa ação […]
- [Rocío Wittib - Imprescindível não é a direção...](https://singularidadepoetica.art/2018/04/15/rocio-wittib-imprescindivel-nao-e-a-direcao/): imprescindível não é a direção o caminho no mapa a geografia é apenas um acidente para quem se busca e suspeita que distância não significa quilômetros tampouco importa o destino porque nunca se está em um lugar preciso mas constantemente em uma fronteira entre o desespero do ser e o anseio de resistir não há […]
- [Felipe Fortuna – Samir](https://singularidadepoetica.art/2018/04/14/felipe-fortuna-samir/): Aquele garoto que vê o mercado ficar cheio se chama Samir. Ele crê em Deus de todas as maneiras: como pássaro brilhante, como água fresca entre pedras, como o assobio do vento deserto. Mas agora desmembrado e a cabeça confundida aos estilhaços Samir não vê. Sobre o mercado a bomba apontou o inimigo e levou […]
- [Jorge Teillier – Blue](https://singularidadepoetica.art/2018/04/13/jorge-teillier-blue/): Verei novos rostos Verei novos dias Serei esquecido Terei remembranças Verei sair o sol quando sai o sol Verei cair a chuva quando chove Andarei a esmo De um lado a outro Aborrecerei meio mundo Contando a mesma história Me sentarei para escrever uma carta Que não me interessa enviar Ou para olhar as crianças […]
- [e e cummings - de "xaipe"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/12/e-e-cummings-de-xaipe/): 40 eu estou te pedindo querida é pra que mais poderia um não mas não é o que claro mas você não parece entender que eu não posso ser mais claro a guerra não é o que imaginamos mas por favor pelo amor de Oh que diabo sim é verdade que fui eu mas esse […]
- [Rosa Leveroni i Valls – De "Epigramas e Canções"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/11/rosa-leveroni-i-valls-de-epigramas-e-cancoes-poema/): Eu levo dentro de mim para fazer-me companhia a solidão apenas. A solidão imensa do amor infinito que queria ser terra, ar e sol, mar e estrela, para que fosses mais meu, para que eu fosse mais tua. Trad.: Nelson Santander Rosa Leveroni i Valls – De “Epigrames i cançons” Jo porto dintre meu per […]
- [Joan Margarit - Pilhagem](https://singularidadepoetica.art/2021/11/20/joan-margarit-pilhagem-poema/): Hoje és outra.A morte, como um vento do deserto,sopra e abandona teu rostoressecado pela morfina.Passa uma andorinha com seu rápido vooe reluz ao cruzar a luz laranjada janela aberta de teu quarto.Talvez com teu voo também cheguesao claro terraço onde tua voz risonhaprateava o crepúsculo. Foste-te e só restaum corpo que uma pilhagem devastoue que […]
- [Joan Margarit - Mãe e filha](https://singularidadepoetica.art/2021/11/19/joan-margarit-mae-e-filha-poema/): Hoje tuas mãos são todo o passado dela:há trinta anos de amor no fundo de tuas palmas.Velaste-a durante toda a noite:deitas-te na cama ao lado dela,teu peito quente contra suas costas,seus cansados cabelos em teu rosto.Tu a abraças murmurando em seu ouvidoe, enquanto isso, a acaricias.São as últimas noites, e sentes o calorde seu esgotado […]
- [Joan Margarit - Água](https://singularidadepoetica.art/2021/11/18/joan-margarit-agua-poema/): Poderíamos falar da água ou da menina,porque a água e a menina permanecemjuntas na minha memória.A menina é a água, é a liberdadede um dorso que tem,sob a pele, a rigidez de um tirante.A ternura da água salvou suas pernas débeis:vejo novamente o azul das piscinasna temperatura de sua alma,tão distantes agora nos invernosque se […]
- [Joan Margarit - História natural](https://singularidadepoetica.art/2021/11/17/joan-margarit-historia-natural-poema/): Meu trato com a morte.Ouço-a colidir como uma moscana luz da vidraça, e posso vê-laascender ao céu vespertinoem seu sereno anil. Encontro como médico durante a protocolarvisita noturna.Não quero falar e concordo com tudo o que ele diz.Somos parte do fundo escurode uma pintura em que surgea janela iluminada deste quartoonde nossa Joana está chegando […]
- [Joan Margarit - Oceano Atlântico, 1956](https://singularidadepoetica.art/2021/11/16/joan-margarit-oceano-atlantico-1956-poema/): Preferia o mercante, sua solidão. Estavaenvolto em silêncio. Pareciaque navegava sem tripulação,e que o mar era um navio,maior ainda, de mármore, que o balançava.Era maravilhoso subir ao convés,entre caixas de bananas: o peso delasafundava o navio até a linha d’águaem meio às ondas como montanhas.O navio, às vezes, adernava:parecia atender a alguma voz do mar.Havia […]
- [Joan Margarit - A felicidade](https://singularidadepoetica.art/2021/11/15/joan-margarit-a-felicidade-poema/): O vento do norte varre o mar,prata plana perto da praiae agitada junto ao horizonte:é como se, com seu pincel, o ventopintasse um quadro da costa: o mar,o porto e aquela barraca solitáriaque abre todo inverno.As gaivotas planam e suas asasindiferentes e confiantesse adaptam às rajadas de ventocomo foices imóveis.Mas a noite tudo apagou:os postes […]
- [Joan Margarit - Sant Just, 2 de março de 2001](https://singularidadepoetica.art/2021/11/14/joan-margarit-sant-just-2-de-marco-de-2001-poema/): Suavemente, as rodas da cadeirate levam para casa. As nuvens violáceasacumulam-se atrás dos telhados.Todas te dizem coisas: tu, tímida, respondessorrindo, mas às vezescom um vazio dentro dos olhosque reflete a luz da tempestade. E a chuva começa a falar contigocomo uma mãe perigosa e acolhedora,pedindo de longe que regresses.Buscas — molhada, absorta — no umbralos […]
- [Joan Margarit - Pai e filha](https://singularidadepoetica.art/2021/11/13/joan-margarit-pai-e-filha-poema/): Diante das janelas que se abrem para o pátioele adormeceu na poltrona,ao lado do sofá onde ela descansava.O jovem rostoque a morfina havia endurecido,tinha aos poucos deixado seu sorrisono ontem que guardam os retratos.À noite, ele a carregou para o quarto,colocou-a para dormir e fechou as persianas. E se deu conta, diante do sofá vazio,de […]
- [Joan Margarit - Metrô Fontana](https://singularidadepoetica.art/2021/11/12/joan-margarit-metro-fontana-poema/): Começava a noite nas estreitasruas de Gràcia, todas com as luzesde natal mesclando-se à multidão.Dos bares repletos nos chegavamas vozes altas e alegres dos rapazes e das moças.Cercavam-nos sorridentes os casacos,os faróis e flashes de luz do comércio,os casais fugazes em suas motoscom os rostos ocultos pelo capacete.Via Joana por toda parte:surgia por toda parte […]
- [Joan Margarit - Manhã de domingo com a música de Lluís Claret](https://singularidadepoetica.art/2021/11/11/joan-margarit-manha-de-domingo-com-a-musica-de-lluis-claret-poema/): Na hospitalidade do sol de invernode domingos passados,estávamos muito tristes com o que desconhecias.Já os aplausos — como gostavas,tão séria, dos aplausos — cediamà peça solene de Berlioz.A viola — nunca o saberás — já eraa voz acolhedora da Morte. Lluís subiu ao palco comseu violoncelo. Não tarda o ouviremostocar a «Aria pastoral» de Bachpara […]
- [Joan Margarit - Às quatro da madrugada](https://singularidadepoetica.art/2021/11/10/joan-margarit-as-quatro-da-madrugada/): Uiva o primeiro cão, e imediatamentehá um eco em um pátio, outros ressoamao mesmo tempo em um único latido,acerbo, sem ritmo nenhum.Ladram com seus focinhos levantados.Oh, cães, de onde viestes?Que manhã me evoca vossa noturna queixa?Ouço como acossais o sonho de minha filhade vosso catre, em meio aos excrementoscom os quais demarcastes um territóriode becos, […]
- [Joan Margarit - Luzes de natal em Sant Just](https://singularidadepoetica.art/2021/11/09/joan-margarit-luzes-de-natal-em-sant-just-poema/): ILâmpadas tremeluzentes se iluminamcomo as lágrimas de alguém nas ruas.Encontro nosso pátio cinza e friosob este céu lilás do crepúsculoonde se desenham, negro e fino estampado,à contraluz, as folhas do loureiro.E tua mãe me diz:Tu e eu, algumas vezes, perdemos tudo.Tremeluzentes, as luzes nas ruas:todas se apagaram, de repente, por ti. IIHoje todas as cores […]
- [Joan Margarit - Amanhecer em Cádiz](https://singularidadepoetica.art/2021/11/08/joan-margarit-amanhecer-em-cadiz-poema/): Em frente ao hotel, o mar enevoado.As longas linhas da espuma cinzadesenham uma barreira de recifediante da balaustrada da praia.Ouvi teu nome pronunciado na línguado mar. E ele diz que estás partindo. Repetem-no as negras, solitárias cegonhasque em silêncio planam sobre a água.Nunca saberei o que sabes tu de mim,ou em que verdade estivemos juntos,ou […]
- [Joan Margarit - Riera Pahissa](https://singularidadepoetica.art/2021/11/07/joan-margarit-riera-pahissa-poema/): RIERA PAHISSA […] why abandon a belief merely because it ceases to be true?ROBERT FROST Deixava-te na entrada da escola,em frente ao estreito portão daquele muro que, encerrando a horta de um convento,seguia o leito seco de um riacho.Por uma pequena ponte de ferro com tábuascruzava-se a ravina sobre o brilhode algumas poucas poças como […]
- [Joan Margarit - Não há milagres](https://singularidadepoetica.art/2021/11/06/joan-margarit-nao-ha-milagres-poema/): Chovia preguiçosamente.Dezenove de outubro, nove da noite.Joana foi assustada para a sala de cirurgiaem nossa companhia.Quando entrou, ficamos esperandona sala mal iluminada ao lado dos elevadores.Contam que, em uma tentativade se salvar, ela disse um eu te amo ao cirurgião.Acreditávamos que uma fada poderia nos devolverJoana, calma, como sempre,com seus confiantes olhos cintilantes.Às onze, observamosas […]
- [Joan Margarit - Enquanto tu dormes](https://singularidadepoetica.art/2021/11/05/joan-margarit-enquanto-tu-dormes-poema/): Na praça tomada pela chuvaobservo a alta janela iluminadaque não quero perder: não hei de render-meà condenação da vida.Este lugar não mais pertence à cidade:uma praça vazia com a luzdo hospital refletindo nas poças.As portas automáticasse abrem de vez em quando e dão lugara uma obscura figura corriqueira.Muletas cruzam, invisíveis, a ruae se aproximam de […]
- [Pere Rovira - Oração para J. M. R.](https://singularidadepoetica.art/2021/11/04/pere-rovira-oracao-para-j-m-r-poema/): Música do amor, que te escondesem lugares escuros, doces, como rosas do jazz,ilumina o dia azul, espalha-te sob os pinheirose faz brilhar as flores, as paredes e a terra.Sê aquela água secreta que esperávamos,e, por um momento, devolve-nosa eterna criança que hoje abandonamosem poços invisíveis.Um pouco de um instante, para que nos ajudea não chorar […]
- [Joan Margarit - Joana (Prólogo)](https://singularidadepoetica.art/2021/11/03/joan-margarit-joana-prologo/): PRÓLOGO Do que sinto sobre o amanhã, o que mais se parece com uma certeza é que Joana e eu nunca mais voltaremos a nos ver. Quão diferente seria a vida se a morte fosse esperar muitos milhões de anos para podermos nos encontrar novamente, ainda que só por alguns breves instantes. Mas o abismo […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "Joana", de Joan Margarit](https://singularidadepoetica.art/2021/11/02/apresentacao-de-joana-de-joan-margarit-poema/): Em 16 de fevereiro deste ano, falecia, aos 82 anos de idade, vítima de um câncer, Juan Margarit I Consarnau, o grande poeta, arquiteto e catedrático catalão (foi professor da disciplina Cálculos Estruturais da Escola Superior de Arquitetura de Barcelona, de 1964 até sua aposentadoria, em 1998), vencedor do Prêmio Miguel de Cervantes (2019), dentre […]
- [Charles Simic - Igreja de madeira](https://singularidadepoetica.art/2021/10/30/charles-simic-igreja-de-madeira-poema/): É só uma choupana fechada com uma torreSob o céu de um verão escaldanteEm uma estrada secundária percorrida raramenteOnde as sombras de árvores grandesRoçam-se tranquilamente como forcas enfileiradas,E corvos privados de carniçaGrasnam uns com os outros sobre dias melhores. A congregação talvez ainda esteja em oração.Das fotos salpicadas, famílias de fazendeiros Enfileiradas com suas cabeças […]
- [Ada Limón – Mar aberto](https://singularidadepoetica.art/2021/10/26/ada-limon-mar-aberto-poema/): “Mar aberto”, um poema de Ada Limon que transforma uma lembrança de despedida em uma meditação delicada sobre perda, identidade e permanência.
- [Maggie Smith - Boa Base](https://singularidadepoetica.art/2021/10/24/maggie-smith-boa-estrutura-poema/): A vida é curta, embora eu esconda isso de meus filhos.A vida é curta, e eu encurtei a minhade mil maneiras deliciosas e imprudentes,mil maneiras deliciosamente imprudentesque esconderei dos meus filhos. O mundo é, no mínimo,cinquenta por cento terrível, e essa é uma estimativaconservadora, embora eu esconda isso de meus filhos.Para cada pássaro, há uma […]
- [Stephen Dobyns - Percepções](https://singularidadepoetica.art/2021/10/22/stephen-dobyns-percepcoes-poema/): O terrível desequilíbrio que ocorre com a idadequando você de repente vê que, de suas amizades, mais morreram do que restaram vivos. E que ocasionalmentesuas lembranças são tão reais que a morte mais recente pode-se tornar uma segunda morte menor. Todasaquelas conversas no meio de uma frase cessadas. Todos aqueles planos atirados na lixeira. O […]
- [Richard Brautigan – Buu, para sempre](https://singularidadepoetica.art/2021/10/20/richard-brautigan-buu-para-sempre-poema/): Girando como um fantasmana base de um pião,sou assombrado por todoespaço em quevou viver sem você. Trad.: Nelson Santander Boo, Forever Spinning like a ghoston the bottom of a top,I’m haunted by allthe space that Iwill live without you.
- [Daniel Jonas - Ossétia](https://singularidadepoetica.art/2021/10/18/daniel-jonas-ossetia-poema/): Ou como uma foto de Karpukhina Madonna ampara com o braço umdos lados do triânguloe deixa um derradeiro beijo escorrer por eleaté à cabeça mortado seu menino no catre. Uma cena difícil: a contençãodas sombras, do chiaroscuro,o profundo luto quando a lutacedeu a sua luz. De preto elaemoldurando a palidez do seu querido,o crânio envolto […]
- [W. S. Merwin – Juventude](https://singularidadepoetica.art/2021/10/16/w-s-merwin-juventude-poema/): Durante toda a juventude estive procurando por vocêsem saber o que eu procurava ou de como chama-la acho que eu nem mesmo sabia o que estava procurando como poderia reconhece-la quando a visse como fizvezes sem conta quando você apareceu para mim como apareceu nua oferecendo-seinteiramente naquele momento e deixou- me respira-la toca-la prova-la sabendonão […]
- [Jane Kenyon - A pera](https://singularidadepoetica.art/2021/10/14/jane-kenyon-a-pera-poema/): Há um momento na meia idadeem que você fica entediado, irritadopor sua mente medíocre, assustado. Neste dia, o solarde forte e brilhante,deixando-o mais desolado. Acontece sutilmente, como quando uma peraapodrece de dentro para fora,e você talvez não percebaaté que as coisas tenham ido longe demais. Trad.: Nelson Santander The Pear There is a moment in […]
- [Eavan Boland - E alma](https://singularidadepoetica.art/2021/10/12/eavan-boland-e-alma-poema/): Minha mãe morreu em um verão —o mais úmido nos registros do Estado.Safras apodreciam no oeste.Toalhas de mesa xadrez dissolviam-se nos jardins.Cadeiras de praia vazias recolhiam a chuva.Enquanto eu me dirigia até elano trânsito, por entre lilases que gotejavam sombriamenteatrás das casase nas calçadas, para prestar-lhea última homenagem de uma filha, pensei em algoque lembrei […]
- [Francisco Brines - Últimos dias](https://singularidadepoetica.art/2021/10/10/francisco-brines-ultimos-dias-poema/): Na herdade ele confina a memóriae o corpo que declina. Tudo morresobre este mundo vivo; e a laranjeira,e o voo do pombo, são traspassadospor um raio outonal de azul.Acompanham-lhe os livros; as caminhadastrazem até ele o odor de rosas abertas,e o suave abatimento dos dias.Ele ardeu na solidão, e agora escutaa primavera viva dos melros.Dias […]
- [Suzannah Evans - Um plano de contingência](https://singularidadepoetica.art/2021/10/08/suzannah-evans-um-plano-de-contingencia-poema/): E se estivermos separados quando chegar o asteroideou a tempestade magnética que colapsará a energia? Talvez você esteja então esperando por um trem enquanto a luz do solse extingue, bem acima dos painéis de vidro do telhado. Eu estarei no trabalho. Perderemos nossas linhas telefônicase o sistema da porta de entrada ficará maluco. Comerei da […]
- [Donald Hall - Afirmação](https://singularidadepoetica.art/2021/10/06/donald-hall-afirmacao-poema/): Envelhecer é perder tudo.Velhice, todos a conhecemos.Mesmo quando somos jovens,às vezes a vislumbramos, e acenamos-lhe com a cabeçaquando perdemos um avô.Depois remamos durante anos na lagoados verões plenos, ignorantes e satisfeitos. Mas um casamento,que começou sem causar danos, se dispersaem destroços na praiae um amigo da escola caiduro em uma costa rochosa.Se um novo amor […]
- [Camille Dungy – Deixe-me](https://singularidadepoetica.art/2021/10/04/camille-dungy-deixe-me-poema/): Deixe-me dizer-lhe, América, esta última coisa.Eu nunca vou deixar de sonhar o seu sonho.Eu tive um amante uma vez. Se é que podemos chama-lo assim.Dirigi-me até o apartamento dele em uma cidade distante,como aquela ursa perdida que vagueou até o nosso becono verão em que a fumaça das montanhas em chamasalterou nosso ar. Não sei […]
- [Mary Oliver - O martim-pescador](https://singularidadepoetica.art/2021/10/02/mary-oliver-o-martim-pescador-poema/): O martim-pescador surge da onda negracomo uma flor azul, em seu bicoele carrega uma folha prateada. Acredito ser esteo mundo mais bonito – desde que você não se importede morrer um pouco, como pode, em toda vida, haver um diaque não tenha sua gota de felicidade?Há mais peixes do que folhasem mil árvores, e, de […]
- [Luis Dolhnikoff – Samba](https://singularidadepoetica.art/2021/09/30/luis-dolhnikoff-samba-poema/)
- [Juan Vicente Piqueras - Palmeiras](https://singularidadepoetica.art/2021/09/28/juan-vicente-piqueras-palmeiras-poema/): Nascemos da sede. Somos palmeirasque crescem à força de perderseus ramos. Nossos troncos são feridas,cicatrizes que o vento e a luz dissipam,quando o tempo, o que faz e o que passa,ocupa o coração e dele faz um ninhode perdas, erigenele seu templo, sua áspera coluna. Por isso as palmeiras são alegrescomo os que sabem sofrer […]
- [Mark Wunderlich - O Deus do Nada](https://singularidadepoetica.art/2021/09/26/mark-wunderlich-o-deus-do-nada-poema/): Meu pai caiu do barco.Seu equilíbrio já era precário há algum tempo.Ele havia saído de barco com seu cachorro paracaçar patos em um pântano perto de Trempealeau, Wisconsin. Ninguém mais estava por pertosalvo o fazendeiro que raspava as calhas do curral das vacas,surdo de um dos ouvidos pelos anos em máquinas —e ele estava a […]
- [Ellen Bass - O importante é](https://singularidadepoetica.art/2021/09/24/ellen-bass-o-importante-e-poema/): O importante é amar a vida, ama-la mesmoquando você não tem estômago para issoe tudo o que você guardou afetuosamentese desfaz feito papel queimado em suas mãos,sua garganta repleta desse lodo.Quando a dor se senta ao seu lado, seu calor tropicalcondensando o ar, pesado como água, mais apto para guelras do que para pulmões;quando a […]
- [Abû Al‑Qâsim Ash‑Shâbbî - o coração do poeta](https://singularidadepoetica.art/2021/09/22/abu-alqasim-ashshabbi-o-coracao-do-poeta-poema/): tudo o que voa, trepa, se alça e plana sobre o Universoaves, flores, perfumes, fontes, ramos dobrados,mares, grutas, cumes, lugares habitados, vulcões, desertossombra e luz, noite e estações, nuvens, trovões,neve e bruma passageira, furacões, chuvas generosas,religião e ensinamentos, visões, sensações, silêncio e canto,tudo isso vive e mexe em meu coração: uma liberdadeirmã da sutil magia […]
- [Barbara Crooker - Vida comum](https://singularidadepoetica.art/2021/09/20/barbara-crooker-vida-comum/): Este foi um dia em que nada aconteceu,as crianças foram para a escolasem esquecer de seus livros, lanches, luvas.Por toda a manhã, o bebê e eu amontoamos pilhas de blocosno chão de ladrilhos iluminados.E ao almoço seguiu-se a hora da sesta,limpei os armários da cozinha,uma dessas tarefas que nunca realizamos,e me sentei em um círculo […]
- [Joan Margarit – Faróis na noite](https://singularidadepoetica.art/2021/09/18/joan-margarit-farois-na-noite/): Tento seduzir-te no passado.As mãos ao volante e esta luzde boate no painel me permitem– fantasia invernal – dançar contigo.Atrás de mim, como um grande caminhão,o amanhã fabrica explosões de luzes.Ninguém o conduz e ele me ultrapassa,mas agora tu e eu viajamos juntose a carruagem pode ser a dos cavalosdos anos sessenta para Paris.“Je ne […]
- [Czesław Miłosz – Elegia para N. N.](https://singularidadepoetica.art/2021/09/16/czeslaw-milosz-elegia-para-n-n-poema/): Diga-me se é muito longe para você.Você poderia vir sobre as ondas mansas do Bálticopassando pelos campos da Dinamarca, atravessando um bosque de faias,poderia se voltar para o oceano, e de lá, logo estaria emLabrador, branca nesta época do ano.E se você, que sonhava com uma ilha deserta,tivesse medo das cidades e das luzes piscando […]
- [David Ignatow - Para minha filha, em resposta a uma pergunta](https://singularidadepoetica.art/2021/09/14/david-ignatow-para-minha-filha-em-resposta-a-uma-pergunta-poema/): Não, não vamos morrer,vamos encontrar uma saída.Respiraremos profundamentee comeremos com cuidado.Pensaremos sempre na vida.Não nos desvaneceremos, nem eu nem você.Seremos os primeirose não riremos de nós mesmos jamaise seus filhos serão meus netos.Nada terá mudado,exceto por acréscimo.Nunca haverá outra como vocêe nunca outro como eu.Ninguém jamais a confundiránem me confundirá com outro.Nós não seremos esquecidos […]
- [Robinson Jeffers – Carmel Point](https://singularidadepoetica.art/2021/09/12/robinson-jeffers-carmel-point-poema/): A extraordinária paciência das coisas!Este belo lugar desfigurado por uma safra de casas suburbanas —Quão belo quando o vimos pela primeira vez,Um campo intacto de papoulas e tremoceiros cercado por límpidas falésias;Nenhuma intrusão, salvo dois ou três cavalos pastando,Ou algumas vacas leiteiras esfregando seus flancos nos afloramentos rochosos —Então chega o espoliador: elas se importam?Francamente, […]
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – Bessboro](https://singularidadepoetica.art/2021/09/10/eilean-ni-chuilleanain-bessboro-poema/): Eis o que herdei —Nunca foi minha própria vida,Mas o nome de uma casa que ouviE outros ouviram como advertênciaDo que poderia acontecer a uma garotaOusada e apanhada pela má-sorte:Um fragmento de um destinoDesolador, uma nota-marreta de medo — Mas eu nunca vi o lugar.Agora que estou em frente ao portãoE aquele tempo há muito […]
- [Miguel Martins - Para o meu pai](https://singularidadepoetica.art/2021/09/08/miguel-martins-para-o-meu-pai-poema/): Muito poucos foram os dias cuja acidez não tragaste do princípio ao fim,vinho branco retintado pela morte dos teus sonhos, um a um,e uma bola de fogo a crescer-te no estômago, uma inteireza brutal,virada do avesso, como se uma queda tão lenta, tão evidentementequeda, tão claramente desesperada do futuro, pudesse ser exemplopara quem nem sequer […]
- [Francisco Brines - Discurso pagão](https://singularidadepoetica.art/2021/09/06/francisco-brines-discurso-pagao-poema/): Achais, por acaso, que por crerdesna imortalidadeela vos deve ser dada?Ela é obra da fé, do egoísmoou da desolação.E, se existe, não importa não haverdes nela acreditado:respostas ignorantes são todas humanasse a morte interroga. Continuai com vossos faustosos ritos, oferendas aos deuses,ou grandes monumentos funerários,as acolhedoras preces, vossa esperança cega.Ou aceitai o vazio que virá,onde […]
- [Jane Hirshfield – Sopesagem](https://singularidadepoetica.art/2021/09/04/jane-hirshfield-sopesagem-poema/): As razões do coraçãovistas com clareza,inclusive as mais duras,carregarãosuas marcas de chicote e tristezase devem ser perdoadas. Como a elande famintapela seca que perdoao leão faminto pela secaque finalmente a arrebata,e entra em seguida de bom gradona vida que ela não pode recusar,e torna-se leão, está alimentada,e não se lembra da anterior. Tão poucos grãos […]
- [Marilyn Nelson – Mais rápido que a luz](https://singularidadepoetica.art/2021/09/02/marilyn-nelson-mais-rapido-que-a-luz/): Eu não queria pagar para estacionar meu carro,por isso peguei um táxi para a estação ferroviária.New London fica a uma hora de carro,mas aquela foi a melhor solução que pude encontrar.Depois de mais ou menos dez milhas de conversa fiadaem que acabei confessando meu ofício,o motorista disse que ele era um físico —Como hobby, ele […]
- [Régis Bonvicino - Suor](https://singularidadepoetica.art/2021/08/31/regis-bonvicino-suor/): O mar o mormaço o meio-diaum cão se delicianas ondas do marverde, a mata verde avançano rochedoo esqueleto de um peixena areia da praia a brisao que tenho a dizer?o que ela diz o rouco marulho das ondassime nada além de ser
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - A última vez de Casanova](https://singularidadepoetica.art/2021/08/29/jorge-valdes-diaz-velez-a-ultima-vez-de-casanova-poema/): Giacomo se envolve no crepúsculo do Florian Perguntas-me, Lesbia, quantos dos teus beijosseriam suficientes para me satisfazer.Catulo Enquanto beijo tua boca, docedonzela na conquista, mordoas comissuras de tua mãee os lábios que tuas irmãscedem ao peso do desejo;beijo as próximas mulheresdistantes e ainda desconhecidaspor minha cobiça, aquelasque um dia serão tu em outratu, que agora […]
- [Natalie Diaz – Meu irmão às 3 da manhã](https://singularidadepoetica.art/2021/08/27/natalie-diaz-meu-irmao-as-3-da-manha-poema/): Ele se sentou de pernas cruzadas, chorando nos degraus,quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente. Meu Deus, ele disse. Meu Deus. Ele quer me matar, mamãe. Quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente,às 3 da manhã, ela estava de camisola, e […]
- [Louise Glück - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2021/08/25/louise-gluck-aubade/): Hoje, acima do canto da gaivota,ouvi você me acordar novamentepara ver aquela ave, voandotão estranhamente sobre a cidade,não querendo parar, desejandoa desolação azul do mar — Agora ela contorna o subúrbio;contra si, a luz violenta do meio-dia: Eu sinto a fome delacomo sua mão dentro de mim, um gritotão comum, desafinado — O nosso não […]
- [Javier Salvago - Outra idade](https://singularidadepoetica.art/2021/08/23/javier-salvago-outra-idade-poema/): Já passou a idade de ser poetaporque tudo passa, é a lei da vida;embora eu continue, por dependência ou vício, falando a um pedaço de papel, a poesiajá não é mais minha pátria, nem meu território.Só regresso às vezes, de visita, como quem volta para onde foi feliz. Trad.: Nelson Santander Otra edad Se me […]
- [Dan Gerber – Frequentemente, imagino a terra](https://singularidadepoetica.art/2021/08/21/dan-gerber-frequentemente-poema/): Frequentemente, imagino a terracom o olhar dos átomos de que somos feitos —átomos, peculiaresátomos por toda parte —sem eu, sem você, sem opiniões,sem princípio, sem meio, sem fim,planando juntos como aquelesantigos pássaros chinesesnascidos milagrosamente com apenas uma asa,ajudando uns aos outros a voar para casa. Trad.: Nelson Santander Often I Imagine the Earth Often I […]
- [Dorianne Laux - Histórias de família](https://singularidadepoetica.art/2021/08/20/dorianne-laux-historias-de-familia/): Tive um namorado que me contava histórias sobre sua família,como a de certa vez em que uma discussão terminou quando seu paiagarrou um pedaço aceso de um bolo de aniversário com ambas as mãose o arremessou pela janela do segundo andar. Isso,eu pensava, era como uma família normal era: raivaenviada através do peitoril, aterrissando como […]
- [Sara Teasdale - Chuvas suaves chegarão](https://singularidadepoetica.art/2021/08/18/sara-teasdale-chegarao-chuvas-suaves-poema/): (Tempos de Guerra) Chuvas suaves chegarão e o cheiro de chão,E andorinhas revoando, seus rútilos sons; E sapos nos brejos cantarolando na noite,E ameixeiras silvestres em seu branco oscilante, Tordos trajarão incandescentes ornamentosTrinando seus caprichos em baixos tapamentos; E ninguém então saberá da guerra, ninguémSe importará quando ela terminar enfim. Ninguém se importaria, nem árvore […]
- [Linda Pastan - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2021/08/16/linda-pastan-elegia-poema/): Nosso último corniso se inclinasobre o solo da floresta oferecendo frutosaos pássaros, aos esquilos. É uma relíquiados dias em que os cornisos floresciam — renda natada em abril,leite derramado em maio — sua beleza delicadamas comum. Quando eu dava como certoque o mundo permaneceria como era, e eupermaneceria com ele. Trad.: Nelson Santander Mais do […]
- [Kirsten Dierking - Afortunada](https://singularidadepoetica.art/2021/08/14/kirsten-dierking-afortunada-poema/): Todo esse tempo,a vida que você deveria vivertem-se erguido ao seu redorcomo as paredes de uma casaprojetada com aconcheganteslinhas harmoniosas. Como se você realmente tivesseplanejado desta forma. Como se você tivesseempilhado tijolosao acaso,e criado por enganouma estrela da sorte. Trad.: Nelson Santander Lucky All this time,the life you weresupposed to livehas been rising around youlike […]
- [Denise Levertov - Conversando com a dor](https://singularidadepoetica.art/2021/08/12/denise-levertov-conversando-com-a-dor-poema/): Ah, dor, eu não deveria trata-la como um cão vira-latasque vem à porta dos fundospor uma migalha, por um osso descarnado.Eu deveria confiar em você. Eu deveria persuadi-laa entrar em casa e dar-lheo seu próprio canto,um tapete usado para se deitar,sua própria tigela de água. Você pensa que eu não sei que você está morandoembaixo […]
- [Juan Vicente Piqueras - A praga de Tebas](https://singularidadepoetica.art/2021/08/10/juan-vicente-piqueras-a-praga-de-tebas-poema/): A praga de Tebas E o que quer que eu faça se torna para sempre o que eu fiz.Wisława Szymborska Quando a tragédia começouo crime já havia sido cometido.A tragédia era, agora, descobrir o delitoe o culpado. Eu teria preferido a ignorância.Tu optaste por indagar contra ti. O passado é mais forteque Deus. Ninguém, nem […]
- [Joseph Stroud - Nós](https://singularidadepoetica.art/2021/08/08/joseph-stroud-nos-poema/): Tentando amarrar meus sapatos, desajeitado, incapaz de descobrira lógica disso, atrapalhado, enquanto meu pai fica ali,sua raiva crescendo por um filho que não consegue fazer nemessa coisa mais simples pela primeira vez, não consegue nem mesmo dar o nó para manter seus sapatos nos pés — Você acha que alguémvai amarrar seus sapatos para você […]
- [Jeannine Hall Gailey – Eu não paro](https://singularidadepoetica.art/2021/08/06/jeannine-hall-gailey-eu-nao-paro-poema/): Eu não paro De ser alguém que busca o lado escuro.Que procura as estatísticas criminais da Disneylândia.Que procura por monstros sob a cama.Além disso, não paro de tirar fotos de floresembora tenhamos nove meses de chuva.Não paro de me perguntar se os colibris daquiestão condenados, se os gansos-das-neves serão envenenadosem um abandonado lago de mina […]
- [David Budhill - O lenhador muda de ideia](https://singularidadepoetica.art/2021/08/04/david-budhill-o-lenhador-muda-de-ideia-poema/): Quando eu era jovem, cortei as árvores maiores e mais velhas para lenha, aquelaspodres em seu cerne, de galhos mortos e partidos, as mutiladas e deformadas porque, raciocinei, elas tombariam logo de qualquer forma, epor isso, eu deveria dar às mais jovens mais luz e espaço para vicejarem. Agora que estou velho derrubo as árvores […]
- [Ricardo Silvestrin – Sacos](https://singularidadepoetica.art/2021/08/02/ricardo-silvestrin-sacos-poema/): Estamos repletos de inutilidades,suas, minhas,inutilidades de família,de valor inestimável. Quinquilharias, ninharias,boiando no pó, atiradas em caixas,envelopes rasgados, gavetas. Ninguém se arrisca a botar foraesses tesouros de um reino perdidoentre os guardados. Em quantos sacos de lixo,sacos grandes de cem litros,vai caber todo o passado? Adquira outras obras de Ricardo Silvestrin clicando aqui
- [Lisel Mueller – Desenhos de criança](https://singularidadepoetica.art/2021/07/31/lisel-mueller-desenhos-de-crianca-poema/): 1 O sol pode estar visível ou não(pode estar atrás de você,o expectador dessas imagens)mas o céu é sempre azulse é dia. Se não,as estrelas estão quase ao seu alcance;inclinadas, elas chegam até você,na iminência de cair.Nunca é nascer ou pôr do sol;não há nenhum olho ensanguentadoespiando você no horizonte.É claramente dia ou noite,é brilhante […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Relógio do Rosário](https://singularidadepoetica.art/2021/07/29/carlos-drummond-de-andrade-relogio-do-rosario-poema/): Era tão claro o dia, mas a treva, do som baixando, em seu baixar me leva pelo âmago de tudo, e no mais fundo decifro o choro pânico do mundo, que se entrelaça no meu próprio choro, e compomos os dois um vasto coro. Oh dor individual, afrodisíaco sêlo gravado em plano dionisíaco, a desdobrar-se, […]
- [Joyce Carol Oates - Este não é um poema](https://singularidadepoetica.art/2021/07/27/joyce-carol-oates-este-nao-e-um-poema-poema/): Este não é um poema em que o poeta descobredelicados ossos branco-ressequidosde uma pequena criaturaem uma margem do Grande Lagoou os restos desidratadosdos mais grotescos atropelamentosao lado da apressada rodovia. Nem é um poema em queum espelho partido concebeuma face assustada,ou gramas secas sibi-lando como consoantesem uma língua estrangeira.Álbum de fotos de famíliarepleto de saudososestranhos […]
- [Miguel D'Ors – Variações sobre um tema de Stevens](https://singularidadepoetica.art/2021/07/25/miguel-dors-variacoes-sobre-um-tema-de-stevens-poema/): Não é o canto do melro:é o silêncioque nos deixa, um silêncioque é algo diferente do silêncioporque nele ainda soaa memória do cantodo melro. Nem silêncio,nem canto: o que ocorrequando o cantoterminae ainda não começou o silêncio.Podes chamar-lhe de alma. Trad.: Nelson Santander Variaciones sobre un tema de Stevens No es el canto del mirlo:es […]
- [Seamus Heaney - [Como todo mundo]](https://singularidadepoetica.art/2021/07/23/seamus-heaney-como-todo-mundo-poema/): Como todo mundo, inclinei minha cabeçadurante a consagração do pão e do vinho,elevei meus olhos para a hóstia e para o cálice levantados,acreditei (seja lá o que isso signifique) que uma mudança ocorrera. Fui ao genuflexório e recebi o mistérioem minha língua, voltei para o meu lugar, fechei meus olhos depressa,fiz um ato de ação […]
- [Pattiann Rogers – Perspectiva de alcance](https://singularidadepoetica.art/2021/07/21/pattiann-rogers-perspectiva-de-alcance-poema/): Lá em cima, longe desta estrada,Longe das partículas de geadaQue revestem a casca de cada gravanço,E do rijo inseto arqueiro em seu avançoNa escuridão da manhã, pata farpada por pata farpada,Subindo pela haste do trillium,Diretamente ao longo do céu sobre esta estrada agora,As galáxias do aglomerado de Cygnus AEstão colidindo umas com as outras em […]
- [Wendy Cope - Para minha irmã, emigrando](https://singularidadepoetica.art/2021/07/19/wendy-cope-para-minha-irma-emigrando-poema/): "Para minha irmã, emigrando", um poema de Wendy Cope que retrata a complexidade do vínculo entre irmãs diante da separação, usando objetos deixados para trás como símbolo de afeto contido, conflitos familiares e amor que só se revela plenamente na ausência.
- [Stephen Dunn - O não dito](https://singularidadepoetica.art/2021/07/17/stephen-dunn-o-nao-dito-poema/): Uma noite, ambos precisaram de coisas diferentesdo mesmo tipo; ela, de consolo; ele, ser consolado.Assim, depois de um jantar regado a vinho,quando eles chegaram em casa separadosno mesmo carro, cada um já havia falhado como outro com o que pareciaum insuportável atraso do que sentiam lhes ser devido.Consolo significava para ela ser compreendidatão bem que […]
- [Pádraig Ó Tuama – Como [não] ser sozinho](https://singularidadepoetica.art/2021/07/15/padraig-o-tuama-como-nao-ser-sozinho-poema/): Como não ser sozinho Tudo começa com a compreensãode que nada dura para sempre.Por isso, é melhor você começar a fazer as malas agora.Mas, nesse meio tempo,pratique estar vivo. Haverá uma festaem que você sentiráque ninguém está prestando atenção em você.E haverá outraem que atenção é tudo o que você receberá.O que você precisa fazeré […]
- [Stevie Smith – Sozinha na floresta](https://singularidadepoetica.art/2021/07/13/stevie-smith-sozinha-na-floresta-poema/): Sozinha na floresta, sentiA amarga hostilidade do céu e das árvoresA Natureza ensinou suas criaturas a odiar oHomem que ferve e fumegaInquieto homemComo a seiva sobe nas árvoresComo a seiva pinta as árvores de um verde violentoAssim cresce a ira das criaturas da NaturezaContra o homemAssim pinta-se a face da Natureza de um verde violento.A […]
- [Jennifer Maier - Uma história verdadeira](https://singularidadepoetica.art/2021/07/11/jennifer-maier-uma-historia-verdadeira-poema/): Um homem idoso estava morrendo em um hospital,contou-me um amigo médico. Estava com oitenta e nove anos, e a vida toda fora um alfaiate em uma lojaembaixo do quarto onde nasceu. Ele não tinha ninguém, então uma bondosa enfermeira de Ganasentou-se com ele, uma mão sobre a sua, segurando um sanduíche. As ondasno monitor desaceleraram. […]
- [Daniel Jonas - Roma](https://singularidadepoetica.art/2021/07/09/daniel-jonas-roma/): “Roma”, um poema de Daniel Jonas que converte a cidade eterna em metáfora da relação desfeita, onde a beleza persiste como ruína exposta ao tempo.
- [Karl Shapiro – Inverno na Califórnia](https://singularidadepoetica.art/2021/07/07/karl-shapiro-inverno-na-california-poema/): É inverno na Califórnia, e no exteriorÉ como o interior de uma floricultura:Uma fresca e úmida culturaDe camélias rosas delimita a vertente;E que raras rosas para um banquete ou um amor,Tão numerosas que semelham uma enchente! Uma fileira de lesmas cruza o verde gramadoDas roseiras ao canteiro de heras;Um composto arsênico é distribuído para elas;O […]
- [Philip Larkin - O cortador](https://singularidadepoetica.art/2021/07/05/philip-larkin-o-cortador-poema/): O cortador parou, duas vezes; ajoelhado, descubro Um ouriço preso entre as lâminas,Morto. Estava na grama crescida. Já o havia visto antes, e até o alimentara uma vez. Agora eu havia maltratado seu discreto mundo de forma Irremediável. O enterro não ajudou: Na manhã seguinte eu me levantei e ele não.No primeiro dia após a morte, a nova […]
- [Donizete Galvão - Não sabe](https://singularidadepoetica.art/2021/07/03/donizete-galvao-nao-sabe-poema/): O amor que não sabe morrerpersiste no olhar do cãoabandonado que,ao menor gesto,abana o rabona espera do afago.Está no vaso de plantaesquecido no sobradosem moradores. O amor que não sabe morrernão pretende tocar o céu.Quer ficar aqui mesmo –pedestre, incauto e reles.Não ouve a ladainha dos mortos.Nem quer a extrema-unção.
- [Maya Angelou – Quando as grandes árvores caem](https://singularidadepoetica.art/2021/07/01/maya-angelou-quando-as-grandes-arvores-caem-poema/): Quando as grandes árvores caem,rochas de colinas distantes estremecem,leões se escondemna relva alta,e até os elefantesarrastam-se em busca de segurança. Quando as grandes árvores caemna floresta,pequenas coisas recolhem-se ao silêncio,seus sentidoserodidos para além do medo. Quando grandes almas morrem,o ar ao nosso redor se tornaleve, raro, estéril.Nós respiramos, brevemente.Nossos olhos, brevemente,enxergam comuma dolorosa nitidez.Nossa memória, […]
- [Joyce Sutphen - Como acabamos juntos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/29/joyce-sutphen-como-acabamos-juntos-poema/): Ele era bom em uma emergência, calmono meio de uma tormenta. Acidentesnão o surpreendiam; ele estava sempre pronto para o que quer que surgisse. Vocêpodia contar com ele; você podia fazerum acordo que ele cumpriria, mesmo se você não pudesse. Os acordos dele eram impossíveis;os acordos dele eram feitos para você falhar,e ao falhar você […]
- [anatol knotek – how quickly things can change](https://singularidadepoetica.art/2021/06/27/anatol-knotek-how-quickly-things-can-change-poema/)
- [Eugénio de Andrade - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2021/06/25/eugenio-de-andrade-despedida/): Junho chegara ao fim, a magoada luz dos jacarandás, que me pousava nos ombros, era agora o que tinha para repartir contigo, e um coração desmantelado que só aos gatos servirá de abrigo
- [Daniel Filipe - A invenção do amor](https://singularidadepoetica.art/2021/06/23/daniel-filipe-a-invencao-do-amor-poema/): “A invenção do amor”, um poema de Daniel Filipe que transforma o gesto íntimo de amar em ato subversivo, expondo a violência dos sistemas que temem a liberdade mais simples: dois seres que se escolhem.
- [Billy Collins – Como se para demonstrar um eclipse](https://singularidadepoetica.art/2021/06/21/billy-collins-como-se-para-demonstrar-um-eclipse-poema/): Pego uma laranja de um cesto de vimee a coloco na mesapara representar o sol.Depois, na outra ponta,uma bola de gude azul e brancase torna a terra perto da qual eu coloco a pequena lua de uma aspirina. Pego uma taça no armário,abro uma garrafa de vinho,sento-me em uma cadeira de espaldar alto,um deus benevolente […]
- [Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894](https://singularidadepoetica.art/2021/06/19/joan-margarit-arcadi-volodos-sonata-d894-poema/): É uma música modestacomo um jantar na cozinha,hospitaleira como ter tido filhos.Compadece-se do corpoque a maré arrastaà praia invernal de cada um.Que franqueza nas notas mais abruptasdizendo-me: é amortambém aquilo que parece hostil.Quando se extingue o eco do piano,o que escutei ainda me estremece.A música de Schuberté uma forma de caridade. Trad.: Nelson Santander Arkadi […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Matzhevá](https://singularidadepoetica.art/2021/06/17/jorge-valdes-diaz-velez-matzheva-poema/): / Em um livro do meu pai, leioa frase: «A ti, que me lês».É o título de uma elegiaescrita há dois séculos, ou um soprode solitude que se elevouao leitor imaginário de fora dos círculos do tempo.Essa linha guarda em cada sílabaa fresca impressão de sua veemência:ser uma semente indócil em algum dialimítrofe ao de agora, […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Os mortos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/15/carlos-drummond-de-andrade-os-mortos-poema/): Na ambígua intimidade que nos concedem podemos andar nus diante de seus retratos. Não reprovam nem sorriem como se neles a nudez fosse maior. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Jane Routh — Um lugar](https://singularidadepoetica.art/2021/06/13/jane-routh-um-lugar-poema/): Quando você viveu toda sua vida adulta em um só lugar,você derrubou árvores. Você as plantou muito próximasou bloqueavam a visão ou algumas adoeceram. Como nós, elas crescem até os vinte anos, e depois engrossam. Isso se aplicaaos freixos e às bétulas, mas não aos carvalhos: eles sãoatrofiados. Você nunca sabe a forma que um […]
- [Ana Martins Marques - Relâmpagos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/12/ana-martins-marques-relampagos/): O pensamento é um pornógrafo e quase só de palavras se faz o amor e no entanto não se embaraça o pensamento com os cabelos como os meus cabelos se embaraçavam nos seus e não se misturam as palavras com as palavras como na boca a saliva se mistura com a saliva nem as […]
- [Louis Jenkins - O casal](https://singularidadepoetica.art/2021/06/11/louis-jenkins-o-casal-poema/): Eles já não dormem tão bem comoquando eram jovens. Ele fica desperto pensandoem coisas que aconteceram anos atrás, virandodesconfortavelmente de vez em quando, puxando ocobertor. Ela se preocupa com dinheiro. Primeiro ume depois o outro ficam ambos acordados durante a noite,em turnos como se estivessem de guarda, embora não consigamver muito no escuro e esteja […]
- [Ada Limón – O ano dos pintassilgos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/09/ada-limon-o-ano-dos-pintassilgos-poema/): Eram dois pendendo e pairando próximosda poça de lama e do cardo almiscarado.Esvoaçando de um poste partidopara outro, banhando-se no reflexo da água da chuvacomo se fosse um espelho para algum outro universoonde as coisas fossem mais aceitáveis, mais fáceisdo que no lugar onde eu vivia. Eu os observaria:o exibido macho brilhante, a mirradafêmea, em […]
- [Wendell Berry - Tudo de que precisamos está aqui](https://singularidadepoetica.art/2021/06/07/wendell-berry-aquilo-de-que-precisamos-esta-aqui-poema/): Gansos surgem bem acima de nós,passam, e o céu se fecha. O abandono,como no amor ou no sono, os mantémno seu caminho, clarona antiga fé: tudo de que precisamosestá aqui. E oramos, nãopor uma terra ou um céu novos, mas para termoscalma no coração, e no olhar,clareza. Tudo de que precisamos está aqui. Trad.: Nelson […]
- [Lisel Mueller - Coisas](https://singularidadepoetica.art/2021/06/05/lisel-mueller-coisas-poema/): O que aconteceu é que nos sentimos solitáriosvivendo entre as coisas,por isso demos ao relógio um rosto,à cadeira um encosto,à mesa quatro pernas robustasque jamais sofrerão fadiga. Calçamos nossos sapatos que têm línguastão macias quanto as nossase penduramos linguetas dentro dos sinospara podermos ouvirsua linguagem emocional, e porque adoramos perfis elegantesa jarra recebeu boca,a garrafa […]
- [Noël Coward - Nada se perde](https://singularidadepoetica.art/2021/06/03/noel-coward-nada-esta-perdido-poema/): No fundo do nosso subconsciente, nos é dito,Repousam todas as nossas memórias, todas as notasDe toda música que já ouvimos,E o que disseram os que amamos, cada frase pronunciada,Tristezas e perdas que desde então o tempo tem consolado,Piadas de família, caquéticas anedotasCada souvenir sentimental e cadaSímbolo de tudo o que já vimos e vivemos,Cada palavra […]
- [Claudia Rankine - Intempérie](https://singularidadepoetica.art/2021/06/01/claudia-rankine-intemperie-poema/): Em um pedaço do papel no arquivo está escritoesqueci minha sombrinha. Acontece queem uma pandemia todos, não só o filósofo,estamos sem uma. Nós batalhamos na seca de informaçõesretidas por investidores privilegiados. Gota a gota. Protegendoo rosto? Sim. Distanciamento social? Sete palmossob a terra por condições subjacentes. Pretos.Apenas nós e os azuis ajoelhados em um pescoçocom […]
- [R S Thomas - Charneca](https://singularidadepoetica.art/2021/05/30/r-s-thomas-charneca-poema/): É bela e calma; o ar rarefeitocomo o interior de uma catedral esperando uma presença. É também onde ocorre o tartaranhão,materializando-se do nada, neve- suave, mas com garras de fogo, […]
- [Antonio Cicero - O livro de sombras de Luciano Figueiredo](https://singularidadepoetica.art/2021/05/28/antonio-cicero-o-livro-de-sombras-de-luciano-figueiredo-poema/): O livro de sombras de Luciano Figueiredo 1 Para onde vou, de onde vim? Não sei se me acho ou me extravio. Ariadne não fia o seu fio à frente, mas sim atrás de mim. Não será a saída um desvio e o caminho o verdadeiro fim ? 2 Não é hora de regressos Não […]
- [Jane Hirshfield – Hoje, outro universo](https://singularidadepoetica.art/2021/05/26/jane-hirshfield-hoje-outro-universo-poema/): O arborista determinou:senescência pragas cancroacelerado pela seca| mas, em qualquer caso,não podável não tratável não passível de escoras. E assim. O ramo de onde gritam o gavião-miúdo e […]
- [Ahmad 'Abd al-Mu'ti Hijazi - Morte súbita](https://singularidadepoetica.art/2021/05/24/ahmad-abd-al-muti-hijazi-morte-subita-poema/): trago comigo o meu número de telefoneo meu nome e endereçoe assim se de súbito cair mortopodereis identificar-mee meus amigos virão Fancy, aconteça o que acontecernão venhas.ficarei na morgue duas longas noitesfrios fios de telefone agitar-se-ão na noite.a campainha começará.sem resposta… uma vez… duas. alguém irá ter com a minha mãee lhe dirá que eu […]
- [Paulo Henriques Britto - Mosaico](https://singularidadepoetica.art/2022/06/10/paulo-henriques-britto-mosaico-2/): Os dias a amontoar-secomo se rumo a um sentido,algo que se assemelhassea uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo,claro — o que sabem os dias?)uma estrutura em relevo,espécie de marchetaria, com padrão indecifrável(por não seguir um projeto),mas assim mesmo um resguardo,um remédio contra o medo de nada haver — nem […]
- [Roderick Ford – Giuseppe](https://singularidadepoetica.art/2022/06/09/roderick-ford-giuseppe/): Meu tio Giuseppe me contouque na Sicília, durante a 2ª Guerra Mundial,no pátio atrás do aquário,onde a buganvília crescia tão bem,a única sereia cativa do mundofoi esquartejada no solo seco e empoeiradopor um médico e um peixeiro, dentre outros.Ela, aquilo, nunca aprendera a falarporque era simplória, ou assim diziam.Mas o padre que segurou uma de […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/08/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-4/): V Céu azul. Cores vivas. Você rindode alguma coisa ou alguém que está à esquerdado fotógrafo. É talvez domingo.É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagemextremamente, absurdamente nítida.E se fosse menor a claridade,ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou se fosse em sépia, ou preto […]
- [R. S. Thomas – O campo brilhante](https://singularidadepoetica.art/2022/06/07/r-s-thomas-o-campo-brilhante/): Eu vi o sol avançar atéiluminar um pequeno campopor um momento, segui meu caminhoe o esqueci. Mas aquela era umapérola de grande valor, o único campo comum tesouro dentro dele. Agora perceboque devo dar tudo o que tenhopara possuí-lo. A vida não está em lançar-se para um futuro que se afasta, nem ansiar por um […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Seis Sonetos Soturnos"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/06/paulo-henriques-britto-de-seis-sonetos-soturnos-2/): I A qualquer hora, o que se chama vidapode mudar da água pro vinho. Ou vice--versa. Cada palavra proferida —uma sentença grave, uma tolice —pode retornar feito um bumeranguecapaz de destruir o que encontrar.E nada que se funde em carne e sangueescapa dessas bólides de ar:o amor e demais estados de graça,reputações, ações, fazendas, gado,longos […]
- [Craig Santos Perez — Amor em tempos de mudanças climáticas](https://singularidadepoetica.art/2022/06/05/craig-santos-perez-amor-em-tempos-de-mudancas-climaticas/): Amor em tempos de mudanças climáticas reciclando o “Sonnet XVII”1 de Pablo Neruda Não te amo como se fosses metais raros da terra,diamantes de sangue ou reservas de petróleo bruto que provocama guerra. Eu te amo como amamos as espécies mais vulneráveis: urgentemente, entre o habitat e a sua perda. Eu te amo como se […]
- [Paulo Henriques Britto - Madrigal](https://singularidadepoetica.art/2022/06/04/paulo-henriques-britto-madrigal-2/): Desista: não vai dar certo.O mundo é o mesmo de sempre,desejo é uma coisa cega.Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam,os pés vão aonde não sabem.As cartas estão marcadas:vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo,desejo é uma porta aberta.Desista, que a vida é incerta.Ou insista. Dá no […]
- [Lucille Clifton - o poema do bebê perdido](https://singularidadepoetica.art/2022/06/03/lucille-clifton-o-poema-do-bebe-perdido/): na vez em que deixei cair seu quase corpopara encontrar as águas sob a cidadee nelas fluir com o esgoto para o maro que sabia eu sobre águas correndo de voltao que sabia eu sobre afogamentoou sobre ser afogada você teria nascido no invernono ano do gás desligadoe sem carro teríamos feito a singularcaminhada pela […]
- [Gwendolyn Brooks – a mãe](https://singularidadepoetica.art/2022/06/02/gwendolyn-brooks-a-mae/): “A mãe”, um poema de Gwendolyn Brooks que aborda a experiência do aborto a partir da perspectiva íntima e emocional de uma mulher que recorda os filhos que não chegaram a nascer.
- [Paulo Henriques Britto - Cuidado Poeta...](https://singularidadepoetica.art/2022/06/01/paulo-henriques-britto-cuidado-poeta-2/): Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.Depois de um certo número de páginasanjos não pousam mais nas entrelinhas.E até a lucidez, essa moderna,também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado,não se resolve com um só lance de dados.Não basta a precisão do gesto apenas.O gesto mais felino é quase […]
- [Victoria Kennefick – Monte submarino](https://singularidadepoetica.art/2022/05/31/victoria-kennefick-monte-submarino/): Da areia, você aponta onde ficava a loja,os correios, o bar;você me conta que caminhou até o vilarejo quando meninopara ficar nas esquinas, farejar o ar salgado. Tocos se erguem da argila na maré baixa,alinham-se como soldados derrotados, inclinam-se ao vento.Eles já foram árvores, agora lembram apenas ramos,esquecidos do verde vivo das folhas na primavera. […]
- [Paulo Henriques Britto - Soneto Inglês](https://singularidadepoetica.art/2022/05/30/paulo-henriques-britto-soneto-ingles-2/): A surpresa do amor — quando já não seespera do mundo nada em especial,e a evidência de que os anos vão seacumulando sem nenhum sinalde sentido já não dói nem comove —quando em matéria de felicidadenão se deseja mais que uns novemetros quadrados de privacidadepara abrigar os prazeres amenosdo sexo fácil e da literaturadifícil — […]
- [Daniel Filipe - Réquiem para um defunto vulgar](https://singularidadepoetica.art/2022/05/29/daniel-filipe-requiem-para-um-defunto-vulgar/): Antoninho morreu. Seu corpo resignadoé como um rio incolor, regressando à nascentenum silêncio de espanto e mistério revelado.Está ali – estando ausente. Jaz de corpo inteiro e fato preto.Ele, da cabeça aos pés,trivial e completo,estátua de proa e moço de convés. Jaz como se dormisse (pelo menosé o que dizem as velhas carpideiras).Jaz imóvel, sem […]
- [Paulo Henriques Britto - Crepuscular](https://singularidadepoetica.art/2022/05/28/paulo-henriques-britto-crepuscular-2/): 1.Chegamos tarde. (Era sempre maio,sempre madrugada. Tudo era turvo.Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidadeaberta, e uma loucura provisóriaera a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todoatento, em transe, em trânsito, no assédioa um ou outro flanco do lobo, fugindo de junho, perseguindo o agora,correndo […]
- [Joan Margarit - Amar é onde](https://singularidadepoetica.art/2022/05/27/joan-margarit-amar-e-onde/): “Amar é onde”, um poema de Joan Margarit que transforma o amor em território íntimo e duradouro, um lugar invisível onde a vida encontra sua origem e sua permanência.
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori II](https://singularidadepoetica.art/2022/05/26/paulo-henriques-britto-memento-mori-ii-2/): Luz frágil que brota no breue num rápido relance dá formae cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que podeàs aparências, acredita piamenteno sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forçascontra o conforto de apagar-se enfimpor trás de duas implacáveis pálpebras. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente […]
- [Laura Gilpin – O bezerro de duas cabeças](https://singularidadepoetica.art/2022/05/25/laura-gilpin-o-bezerro-de-duas-cabecas/): Amanhã, quando os rapazes da fazenda encontrarem estaaberração da natureza, eles envolverão seu corpo em jornal e o levarão para o museu. Mas esta noite ele está vivo e no campoao norte, com sua mãe. É uma noite perfeita de verão: a lua crescente sobreo pomar, o vento na grama. Equando ele olha para o […]
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori I](https://singularidadepoetica.art/2022/05/24/paulo-henriques-britto-memento-mori-i-2/): Nenhum sinal da solidão se vêlá onde o amor corrói a carne a fundo.Dentro da pele, no entanto, vocêé só você contra o mundo. Esta felicidade que abasteceseu organismo, feito um combustível,é volátil. Tudo que sobe desce.Tudo que dói é possível. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/12/2022
- [Gabrielle Calvocoressi – Sinto a sua falta. Gostaria de dar um passeio com você.](https://singularidadepoetica.art/2022/05/23/gabrielle-calvocoressi-sinto-a-sua-falta-gostaria-de-dar-um-passeio-com-voce/): Não importa se você acabou de chegar em seu esqueleto.Adoraria dar um passeio com você. Sinto a sua falta.Adoraria preparar um camarão saganaki para você.Como você costumava me fazer quando estava viva.Adoraria alimenta-la. Sentarmo-nos com uma fumegantetigela de pilaf. Pequenos tomates tostadoscobertos de pimenta e noz-moscada. Sinto a sua falta.Adoraria caminhar até os correios com […]
- [Paulo Henriques Britto - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2022/05/22/paulo-henriques-britto-acalanto-2/): Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a […]
- [Sahar Romani - Tarde na Andaluzia](https://singularidadepoetica.art/2022/05/21/sahar-romani-tarde-na-andaluzia/): E por que a geometria não seria igual à divindade 1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé senão a confiança no uno & infinito Uma vez em Granada observei um muro de polígonos ou eram estrelas ou abelhas ou por um segundo um fulgor de gladíolos em um campo até […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Três Epifanias Triviais"](https://singularidadepoetica.art/2022/05/20/paulo-henriques-britto-de-tres-epifanias-triviais/): As coisas que te cercam, até ondealcança tua vista, tão passivasem sua opacidade, que te impedemde enxergar o (inexistente) horizonte,que justamente por não serem vivasse prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção,essas coisas que você usa e esqueceassim que larga na primeira mesa —pois bem: elas vão ficar. Você, não.Tudo que […]
- [Ellen Bass – A dor de deus](https://singularidadepoetica.art/2022/05/19/ellen-bass-a-dor-de-deus/): Grande paique deve ter começadocom tantas expectativas.Que magnitude de sofrimento,imensidão de culpa,desconcertante desespero.Uma mente do tamanho do sol,ardendo em nostalgia,um coração enorme como o de uma baleia-cinzentarompendo, fluindona água do mar contra o céu claro.Deus homem ou deus animal,deus que respira em cada folha plissada,saco vocal de sapo, penugem e raque —deus do plutônio e […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Fragilidade](https://singularidadepoetica.art/2022/05/18/carlos-drummond-de-andrade-fragilidade-2/): Este verso, apenas um arabescoem torno do elemento essencial – inatingível.Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidadesde sono se depositam sobre a terra esfacelada.Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em […]
- [Sean Thomas Dougherty – Por que se importar?](https://singularidadepoetica.art/2022/05/17/sean-thomas-dougherty-por-que-se-importar/): Por que se importar?Porque agora há alguémlá fora com um machucado no formato exato de suas palavras. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Why Bother? Because right now, there is someone out there with a wound in the […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Ontem](https://singularidadepoetica.art/2022/05/16/carlos-drummond-de-andrade-ontem-2/): Até hoje perplexoante o que murchoue não eram pétalas. De como este banconão reteve forma,cor ou lembrança. Nem esta árvorebalança o galhoque balançava. Tudo foi brevee definitivo.Eis está gravado não no ar, em mim,que por minha vez,escrevo, dissipo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/11/2016
- [Steve Scafidi – Para o último búfalo americano](https://singularidadepoetica.art/2022/05/15/steve-scafidi-para-o-ultimo-bufalo-americano/): Porque as palavras fascinam sob a luz vertiginosa das coisase a alma é como um animal – caçada e lenta –este búfalo passeia por mim todas as noites como se eu fossealgum tipo de pradaria e se agacha contra a escuridão fria,bufando sob as estrelas enquanto a névoa de sua respiraçãoeleva-se no ar, e é […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Viagem na Família](https://singularidadepoetica.art/2022/05/14/carlos-drummond-de-andrade-viagem-na-familia-2/): A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabiraa sombra de meu paitomou-me pela mão.Tanto tempo perdido.Porém nada dizia.Não era dia nem noite.Suspiro? Voo de pássaro?Porém nada dizia. Longamente caminhamos.Aqui havia uma casa.A montanha era maior.Tantos mortos amontoados,o tempo roendo os mortos.E nas casas em ruína,desprezo frio, umidade.Porém nada dizia. A rua que atravessavaa cavalo, […]
- [Ada Limón – Viaduto](https://singularidadepoetica.art/2022/05/13/ada-limon-viaduto/): “Viaduto”, um poema de Ada Limon que revisita uma lembrança da infância para explorar a relação entre fascínio, natureza e mortalidade.
- [Carlos Drummond de Andrade - A Noite Dissolve os Homens](https://singularidadepoetica.art/2022/05/12/carlos-drummond-de-andrade-a-noite-dissolve-os-homens-2/): A noite desceu. Que noite!Já não enxergo meus irmãos.E nem tão pouco os rumoresque outrora me perturbavam.A noite desceu. Nas casas,nas ruas onde se combate,nos campos desfalecidos,a noite espalhou o medoe a total incompreensão.A noite caiu. Tremenda,sem esperança… Os suspirosacusam a presença negraque paralisa os guerreiros.E o amor não abre caminhona noite. A noite é […]
- [Robert Hayden – A nevasca](https://singularidadepoetica.art/2022/05/11/robert-hayden-a-nevasca/): Incapaz de dormir ou rezar, permaneçoao lado da janela olhando para as aluadas árvores envergadas pelo gelo de uma tempestade de dezembro. Bordo e freixo da montanha se curvamsob seu peso vítreo,seus galhos fendidos caindo sobrea neve congelada. As árvores em si, como nos invernos passados,sobreviverão a este fardo,quebradas florescerão. E eu sou menos para […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo](https://singularidadepoetica.art/2022/05/10/carlos-drummond-de-andrade-os-ombros-suportam-o-mundo-2/): Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.Tempo de absoluta depuração.Tempo em que não se diz mais: meu amor.Porque o amor resultou inútil.E os olhos não choram.E as mãos tecem apenas o rude trabalho.E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.Ficaste sozinho, a luz apagou-se,mas na sombra […]
- [Kelli Russell Agodon - Capelas imaginárias](https://singularidadepoetica.art/2022/05/09/kelli-russell-agodon-capelas-imaginarias/): Sento-me no chão de um museu com um homemque não conheço. Estamos contemplando um quadrode 1508. Maria parece triste mas não está chorando.Outro homem se senta à minha esquerda e encosta sua cabeçacontra a parede. Atrás de mim, uma mulher estáchorando. Eu me levanto e caminho em direção a um estranhoque está dizendo, Está tudo […]
- [Alan Jenkins – Pertences](https://singularidadepoetica.art/2022/05/08/alan-jenkins-pertences/): Leia Pertences, de Alan Jenkins, um poema comovente sobre luto, memória familiar e os vestígios materiais deixados pelos mortos.
- [Stanley Plumly – Rinoceronte branco](https://singularidadepoetica.art/2022/05/07/stanley-plumly-rinoceronte-branco/): O último da minha espécie, um dos últimos apreciadores das florese da grama das pastagens do norte, e certamenteum dos poucos habilitados a esfregar as costas no baobáe no carvalho centenário que ainda sobrevive no quintal. O truque está na pedra, parecer algo que se soltoude uma montanha, algo tão sobrante a ponto de nãoestar […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Inocentes do Leblon](https://singularidadepoetica.art/2022/05/06/carlos-drummond-de-andrade-inocentes-do-leblon-2/): Os inocentes do Leblonnão viram o navio entrar.Trouxe bailarinas?trouxe imigrantes?trouxe um grama de rádio?Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,mas a areia é quente, e há um óleo suaveque eles passam nas costas, e esquecem. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 08/11/2016 Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Robinson Jeffers - Regresso](https://singularidadepoetica.art/2022/05/05/robinson-jeffers-regresso/): Um pouco abstratos e um pouco sábios demais,É tempo de beijarmos a terra novamente,É tempo de deixar que as folhas chovam dos céus,Deixar que a rica vida corra para as raízes novamente.Eu irei para os Sur Rivers feiticeiros,E neles mergulharei meus braços até o peito.Encontrarei minha contabilidade onde treme a folha dos amieirosCom o vento […]
- [Cassiano Ricardo - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2022/05/04/cassiano-ricardo-testamento-2/): Deixo os meus olhos ao cegoque mora nesta rua.Deixo a minha esperançaao primeiro suicida.Deixo à polícia meu rasto,a Deus o meu último eco.Deixo o meu fogo-fátuoao mais triste viandanteque se perder sem lanternanuma noite de chuva.Deixo o meu suor ao fiscoque me cobriu de impostos;e a tíbia da perna esquerdaa um tocador de flautapara, com […]
- [Abdellatif Laâbi - Por que esta folha?](https://singularidadepoetica.art/2022/05/03/abdellatif-laabi-por-que-esta-folha/): Por que esta folha?Salvo por um detalhe,o mundo não mudouem tão pouco tempoSalvo por um detalheesta manhã é uma réplicacinzentada anteriorSalvo por um detalheo peso esmagador do peitonão se reduziu nem um gramaSalvo por um detalhesentimo-nos ainda vivosum pouco maisum pouco menosO mesmo equilíbriofrágil ou nãoSalvo por um detalheo de uma pergunta desconcertante:Por que esta […]
- [Jorge Valdés Días-Vélez - Pro nobis](https://singularidadepoetica.art/2022/05/02/jorge-valdes-dias-velez-pro-nobis/): Pro nobis para José Emilio Pacheco Uma vez mais, abriu o Averno suas mandíbulas escaldantes. Assomam os pesadelos e o terror da morte se o sono o invade e se transforma em chama negra, se, ao dormir, o levam até ele, ao lagar luxurioso dos demônios. O menino, mudo, contempla sua silhueta e chora. Na […]
- [Carlos Drummond de Andrade - José](https://singularidadepoetica.art/2022/05/01/carlos-drummond-de-andrade-jose-2/): E agora, José?A festa acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou,e agora, José?e agora, você?você que é sem nome,que zomba dos outros,você que faz versos,que ama, protesta?e agora, José? Está sem mulher,está sem discurso,está sem carinho,já não pode beber,já não pode fumar,cuspir já não pode,a noite esfriou,o dia não veio,o bonde não veio,o riso não […]
- [Mário Chamie - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2022/05/01/mario-chamie-fantasma-2/): Um fantasma ausentepõe tijolo sobretijolo ao seu redor. Primeiro mede o terrenoDivide o espaço.Calca com o péa plantaque não floresce.Mas que crescesob estacasde cimento. Depois, a ausênciase preenche.O fantasma movea cal, a pedra, a pá.O fantasma moveo corpo já presentedo lugar em que está. Presente e ausente,um fantasma se acasalaMove seu corpode carne e osso.Come […]
- [Cecília Meireles - Epigrama nº 7](https://singularidadepoetica.art/2022/04/30/cecilia-meireles-epigrama-no-7-2/): A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente no blog em 18/10/2016 Conheça outros livros de Cecília […]
- [Dilruba Ahmed – Fase um](https://singularidadepoetica.art/2022/04/29/dilruba-ahmed-fase-um/): Por ter deixado a geladeira abertaontem à noite, eu a perdoo.Por conjurar cortinas brancasem vez de viver a sua vida. Pelas mudas que murcham, agora,em pequenos potes, eu a perdoo.Por dizer não num primeiro momento,mas sim como uma reflexão tardia. Eu a perdoo pelas visões horrendasapós o parto, provocadas pela perdade sono. E quando o […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Um Bruxo Com Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/04/28/carlos-drummond-de-andrade-a-um-bruxo-com-amor-2/): “A Um Bruxo Com Amor”, um poema de Carlos Drummond de Andrade que convoca a sombra de Machado de Assis para celebrar, entre ironia e assombro, a permanência inquieta da literatura sobre o tempo e a morte.
- [Ted Kooser - Luz das estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/27/ted-kooser-luz-das-estrelas/): A noite toda, essa chuva suave do passado distante.Não admira que às vezes eu desperte como uma criança. Trad.: Nelson Santander Starlight All night, this soft rain from the distant past.No wonder I sometimes waken as a child.
- [Mário de Andrade - Poema da Amiga (VIII)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/26/mario-de-andrade-poema-da-amiga-viii-2/): Gosto de estar a teu lado,Sem brilho.Tua presença é uma carne de peixe,De resistência mansa e de um brancoEcoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti.Anoiteço feito um bairro,Sem brilho algum. Estamos no interior duma asaQue fechou. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 14/10/2016 Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
- [Sharon Olds - A corrida](https://singularidadepoetica.art/2022/04/25/sharon-olds-a-corrida/): Quando cheguei no aeroporto, corri até o guichê,comprei uma passagem, dez minutos depois me disseram que o voo tinha sido cancelado, os médicostinham dito que meu pai não sobreviveria àquela noitee o voo fora cancelado. Um jovemde bigode castanho-escuro me disseque de outra companhia aérea partiria um voosem escalas em sete minutos. Pegueaquele elevador, desça […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Carta aos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/04/24/affonso-romano-de-santanna-carta-aos-mortos-2/): Carta aos Mortos, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, reflete sobre a aparente marcha do progresso e as surpreendentes permanências da experiência humana.
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – A torre da dama](https://singularidadepoetica.art/2022/04/23/eilean-ni-chuilleanain-a-torre-da-dama/): Vazia, minha alta torre inclina-se Para trás no penhasco; meu colmo Conversa com a amplidão dispersa, Garças. A parede cinza Corta para baixo e encontra Um instável córrego inundado Por seixos, pequenas aves Mergulhadoras. Lá embaixo, meus porões sondam. Atrás de mim, as oblíquas veias da colina Se deslocam; úmida está minha cozinha, Aranhas escondidas […]
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – O quarto de um cavalheiro](https://singularidadepoetica.art/2022/04/23/eilean-ni-chuilleanain-o-quarto-de-um-cavalheiro/): Essas compridas sombras recuando,Um rio de telhados inclinando-se Do lado do vale.Frontões e chaminésE torres, com árvores aninhadas entre elas:Todas as formas de um cemitérioVistas do alto de sua janela. Um espelho em forma de caixão responde,Luz suave, polido, liso como a pele,Azul como grama cortada no gramado,Gravatas retorcidas dobradas sobre ele. Abrindo a porta, […]
- [José Luís Peixoto - na hora de pôr a mesa...](https://singularidadepoetica.art/2022/04/22/jose-luis-peixoto-na-hora-de-por-a-mesa-2/): na hora de pôr a mesa, éramos cinco:o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãse eu. depois, a minha irmã mais velhacasou-se. depois, a minha irmã mais novacasou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,na hora de pôr a mesa, somos cinco,menos a minha irmã mais velha que estána casa dela, menos a minha irmã […]
- [Francisco Brines - A realidade não permanece](https://singularidadepoetica.art/2022/04/21/francisco-brines-a-realidade-nao-permanece/): Esta tarde rebelde me leva a Bathe a ti, mas não à cidade de ruastranquilas, nem a quem tu deves ser hoje.O quarto fica maior na penumbraenquanto chove suavemente na rua.Há, na lareira, um fogo que aquecenossos corpos nus, e que iluminao vasto espaço de forma insuficiente.És a luz que o fogo de teus cabelose […]
- [José Luís Peixoto - Explicação da Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2022/04/20/jose-luis-peixoto-explicacao-da-eternidade/): REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 20/09/2016
- [Linda Pastan - Dor](https://singularidadepoetica.art/2022/04/19/linda-pastan-dor/): Mais fieldo que um amante ou maridoela se apega a ti,dando a si própria o teu sobrenomecomo se uma cerimônia tivesse acontecido. À noite, viras e revirasprocurando pela únicaposição suportável,mas mesmo que finalmente consigas dormir,ela acorda antes de ti. Como é pesada,desalojando com seu volumetoda tua energia vital.Antes tu parecias não pesar nada,teus braços poderiam […]
- [W. H. Auden - Blues Fúnebre (em duas traduções de Nelson Ascher)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/18/w-h-auden-blues-funebre-em-duas-traducoes-de-nelson-ascher/): BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto — […]
- [Brigit Pegeen Kelly – A partida](https://singularidadepoetica.art/2022/04/17/brigit-pegeen-kelly-a-partida/): Meu pai disse que eu não conseguiria fazê-lo,mas por toda noite eu colhi os pêssegos.O pomar estava silencioso, os canais funcionavam incessantemente.Eu era uma menina na época, meu peito era seu próprio jardim murado.Quantas são as escadas para a colheita em um pomar?Eu tinha apenas uma e uma grande paciência com as mãos acesase o […]
- [João Cabral de Melo Neto - A Viagem](https://singularidadepoetica.art/2022/04/16/joao-cabral-de-melo-neto-a-viagem-2/): Quem é alguém que caminhatoda manhã com tristezadentro de minhas roupas, perdidoalém do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendocomo se levassem nos bolsosdoces geografias, pensamentosde além do sonho e da rua? Alguém a cada momentovem morrer no longe horizontede meu quarto, onde esse alguémé vento, barco, continente. Alguém me diz toda a […]
- [Ellen Bass – Pelo tempo que quiser](https://singularidadepoetica.art/2022/04/15/ellen-bass-pelo-tempo-que-quiser/): No caminho para o cemitério, eu dormi.Não na limusine que levava o caixão da minha mãe,mas apagada em uma van, a família toda falando ao meu redor.Eu estava exausta do sofrimento dela, de seus apelos —me ajuda e chega, chega —e tentando fazer com que a morfina permanecesse na vala de suas gengivas.Como pude não ter estudado […]
- [Lewis Carroll - Jaguadarte](https://singularidadepoetica.art/2022/04/14/lewis-carroll-jaguadarte/): Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo. […]
- [Ellen Bass – Pinheiros de Ponary](https://singularidadepoetica.art/2022/04/13/ellen-bass-pinheiros-de-ponary/): Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles […]
- [Ada Limón - Instruções para não desistir](https://singularidadepoetica.art/2022/04/13/ada-limon-instrucoes-para-nao-desistir/): Mais do que os funis fúcsia rompendoda macieira, mais do que a exibição quaseobscena dos galhos da cerejeira do vizinho enfiandosuas flores cor de algodão doce no céu ardósiadas chuvas de primavera, é o verdejar das árvoresque realmente me comove. Quando todo o embate de brancoe caramelo e os berloques e bugigangas do mundo deixam,de […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2022/04/12/carlos-drummond-de-andrade-a-mesa/): E não gostavas de festa. . .Ó velho, que festa grandehoje te faria a gente.E teus filhos que não bebeme o que gosta de beber,em torno da mesa larga,largavam as tristes dietas,esqueciam seus fricotes,e tudo era farra honestaacabando em confidência.Ai, velho, ouvirias coisasde arrepiar teus noventa.E daí, não te assustávamos,porque, com riso na boca,e a […]
- [Jo Shapcott – Observadora de estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/11/jo-shapcott-observadora-de-estrelas/): Se eu não estou olhando para você, me perdoe; se pareçoestar esqudrinhando o céu,cabeça jogada para trás, curiosa,extática, reservada, andandoaleatoriamente no chãoà sua frente, meu público,me perdoe, e esqueça o que estáacontecendo em minhas células.É em você que estou pensandoe, voz lançada para o alto,é com você que estou falando, você. Estou tentando manter tudo […]
- [Robinson Jeffers - Cremação](https://singularidadepoetica.art/2022/04/10/robinson-jeffers-cremacao/): Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com […]
- [Geoffrey A. Landis – Ondulações no mar de Dirac](https://singularidadepoetica.art/2022/04/09/geoffrey-a-landis-ondulacoes-no-mar-de-dirac/): Trabalho vencedor do Prêmio Nebula de melhor conto de Ficção Científica de 1989.
- [Cynthia Huntington – O arrebatamento](https://singularidadepoetica.art/2022/04/09/cynthia-huntington-o-arrebatamento-poema/): Lembro-me de estar na cozinha, misturando ossos para a sopa,e de que, naquele momento, me tornei outra pessoa. Era uma noite de início de primavera, o ar da Califórnia estava ameno.Lá fora, o eucalipto se curvava compulsivamente sobre o trailer do vizinho, estacionado na entrada da garagem.A rua estava tranquila, pra variar, e todas as […]
- [Jaime Gil de Biedma - Lembre-se](https://singularidadepoetica.art/2022/04/08/jaime-gil-de-biedma-lembre-se-2/): Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo em sonhos na memória: estremece eterno o tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado rumo a um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre submergindo o passado. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no […]
- [Nelson Ascher - Visita ao asilo](https://singularidadepoetica.art/2022/04/07/nelson-ascher-visita-ao-asilo-poema/): Subsistem devagar nojardim da última infânciasorvendo desdentadosde vida (além de dentes) o caldo-de-galinhahospitalar dos dias.Opacas as retinase os tímpanos à prova de som, eles combinamremorsos de placentadensos de urina e restosmortais que, amortalhados folgadamente em peloacima do seu número,apegam-se obsessivosaos ossos descalci- ficados como, à ideiade podre, os urubus.Sinapse piedosaque, entre neurônios secos, censura todo […]
- [Jaime Gil de Biedma - Não Voltarei a ser Jovem](https://singularidadepoetica.art/2022/04/06/jaime-gil-de-biedma-nao-voltarei-a-ser-jovem-2/): Que é certo a vida passasó se começa a compreender mais tarde— como todos os jovens, decidilevar a minha vida por diante. Deixar marca eu queriae partir entre aplausos— envelhecer, morrer, eram somenteas dimensões do teatro. Porém, passou o tempoe a verdade mais amarga assoma:envelhecer, morrer,é o argumento único da obra. Trad.: José Bento REPUBLICAÇÃO: […]
- [Henry Wadsworth Longfellow - Casas assombradas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/05/henry-wadsworth-longfellow-casas-assombradas/): Todas as casas onde homens viveram e morreram São casas mal-assombradas. Pelo aberto portãoAs inofensivas almas, em suas tarefas, pairam, Com pés que quase nenhum ruído produzem no chão. Nós as encontramos na escadaria, no corredor, Pelas passagens através das quais elas vêm e vão,impalpável impressão no ar ao nosso derredor, Sensação de algo em […]
- [Cassiano Ricardo - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2022/04/04/cassiano-ricardo-o-espelho-2/): Um meio-dia nu, numa enorme moldurade prata.Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo.Mas não é nada. É apenas um espelho.Um rico espelho. De extraordinário fulgor.Próprio pra ser colocado à paredede um ministério da Fazenda, ou de uma casade jogo. Toda a cidade cabe dentro dele.Árvores, automóveis, povo, casas de comércioe vendedores de jornais, […]
- [Andrea Cohen - Recusa em lamentar](https://singularidadepoetica.art/2022/04/03/andrea-cohen-recusa-em-lamentar-poema/): Em vez de flores, mande- o de volta.Trad.: Nelson Santander Refusal to Mourn In lieu of flowers, send him back.
- [William Blake - London (c.1790)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/02/william-blake-london-c-1790-2/): Perambulo por todas as ruas com barreirasVizinhas de onde o próprio TâmisaEntre barreiras flui, e em cada face que encontroMarco marcas de fraqueza, marcas de pesar. Ouço o ruído dos grilhões mentais apostosEm cada alocução de cada homemNo grito de temor de cada infanteNas vozes todas, em cada interdição. Como o grito dos meninos que […]
- [Joan Margarit – Coisas em comum](https://singularidadepoetica.art/2022/04/01/joan-margarit-coisas-em-comum-poema/): Ter-nos conhecidoem um outono num trem que ia vazio;A radiante, embora cruel,promessa do desejo.A cicatriz da melancoliae o velho afeto com o qual compreendemosos motivos do lobo.A lua que acompanha o trem noturnoBarcelona-Paris.Uma faca de luz para os crimesque por amor devemos cometer.Nossa maldita e inocente sorte.A voz do mar, que sempre te diráonde estou, […]
- [William Blake - A Tirzah](https://singularidadepoetica.art/2022/03/31/william-blake-a-tirzah-2/): Tudo que nasceu para morrerDeve-se a terra misturarPara da geração se libertar:Então, que tenho eu a ver contigo? Do orgulho e da vergonha nasce o sexoPela manhã florido, à tarde morto.Mas a piedade faz da Morte sonoE os sexos se levantam para o trabalho e o pranto. Tu, mãe da minha mortal parteQue cruelmente meu […]
- [Nickole Brown - Susto](https://singularidadepoetica.art/2022/03/30/nickole-brown-susto-poema/): Deixe-me dizer-lhe — nenhum animal de longe é o mesmoque de perto. Ou seja, uma baleia em uma revista podeparecer majestosa e livre, mas o que você não vê équão perto da superfície ela adormece,como a luz a empola deixando-a em carne viva e comoas gaivotas rasgam sua pele queimada pelo sol, alçando ao aros […]
- [Lêdo Ivo - A Queimada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/29/ledo-ivo-a-queimada-2/): Queime tudo o que puder:as cartas de amoras contas telefônicaso rol de roupas sujasas escrituras e certidõesas inconfidências dos confrades ressentidosa confissão interrompidao poema erótico que ratifica a impotênciae anuncia a arterioscleroseos recortes antigos e as fotografias amareladas.Não deixe aos herdeiros esfaimadosnenhuma herança de papel. Seja como os lobos: more num covile só mostre à […]
- [Victoria Kennefick – Depoimento](https://singularidadepoetica.art/2022/03/28/victoria-kennefick-depoimento-poema/): Eu te amo como as ondas amam os penhascos.Elas lançam saias de rendas contra os rochedos,pernadas de dançarinas do can-can escalam até o topo,e voltam para o mesmo lugar; espuma se agarra – um beijo.Algumas vezes, elas levam coisas usadas para a praia;em outras, deslizam em silêncio, sem nada dizer,cavam, escondem-se no eco-escuro –esperam até […]
- [Cassiano Ricardo - Ladainha](https://singularidadepoetica.art/2022/03/27/cassiano-ricardo-ladainha-2/): Por que o raciocínio,os músculos, os ossos?A automação, ócio dourado.O cérebro eletrônico, o músculomecânicomais fáceis que um sorriso. Por que o coração?O de metal não tornará o homemmais cordial,dando-lhe um ritmo extra-corporal? Por que levantar o braçopara colher o fruto?A máquina o fará por nós.Por que labutar no campo, na cidade?A máquina o fará por […]
- [David Whyte - O verdadeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2022/03/26/david-whyte-o-verdadeiro-amor-poema/): “O verdadeiro amor”, um poema de David Whyte que apresenta o amor como travessia íntima e corajosa, onde dizer “sim” à mão estendida é escolher viver depois de anos à deriva.
- [Heinrich Heine - Morfina](https://singularidadepoetica.art/2022/03/25/heinrich-heine-morfina-2/): É grande a semelhança desses doisjovens e belos vultos, muito emboraum pareça mais pálido e severoou, posso até dizer, bem mais distintodo que o outro, o que, terno, me abraçava.Havia em seu sorriso tanto afeto,carinho e, nos seus olhos,tanta paz!Ornada de papoulas, sua frontetocava a minha, às vezes – e seu raroodor me dissipava a […]
- [Lucille Clifton – o que eu sei é isso](https://singularidadepoetica.art/2022/03/24/lucille-clifton-e-isso-o-que-eu-sei-poema/): o que eu sei é isso:minha mãe enlouqueceuna casa dos meus paispor falta de carinho o que eu sei é isso:os dias de algumas mulheressão desperdiçadosnas cozinhas de suas vidasé por isso que eu sei:os deusessão homens Trad.: Nelson Santander this is what i know this is what i know my mother went mad in […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Congresso Internacional do Medo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/23/carlos-drummond-de-andrade-congresso-internacional-do-medo-2/): Provisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,não cantaremos o ódio porque esse não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores, […]
- [Czesław Miłosz – Dádiva](https://singularidadepoetica.art/2022/03/22/czeslaw-milosz-dadiva-poema/): Um dia tão feliz.O nevoeiro cedo dissipou-se, e eu trabalhei no jardim.Os Beija-Flores se detinham sobre as flores de madressilva.Não havia nada na terra que eu quisesse possuir.Eu não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.Qualquer mal que eu tivesse sofrido, esqueci.Pensar que uma vez eu fui o mesmo homem não me envergonhava.Em meu corpo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Medo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/21/carlos-drummond-de-andrade-o-medo-2/): Em verdade temos medo.Nascemos escuro.As existências são poucas:Carteiro, ditador, soldado.Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo.Cheiramos flores de medo.Vestimos panos de medo.De medo, vermelhos riosvadeamos. Somos apenas uns homense a natureza traiu-nos.Há as árvores, as fábricas,Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor,este célebre sentimento,e o amor faltou: chovia,ventava, fazia frio em São Paulo. Fazia […]
- [Linda Pastan - Estou aprendendo a abandonar este mundo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/20/linda-pastan-estou-aprendendo-a-abandonar-o-mundo-poema/): Estou aprendendo a abandonar este mundoantes que ele possa me abandonar.Já renunciei à luae à neve, fechando minhas persianascontra as reivindicações do branco.E o mundo levoumeu pai, meus amigos.Abandonei as linhas melódicas das colinas,mudando para uma paisagem plana, dissonante.E toda noite abandono meu corpo,membro por membro, seguindoatravés dos ossos, em direção ao coração.Mas a manhã […]
- [Rainer Maria Rilke - Morgue](https://singularidadepoetica.art/2022/03/19/rainer-maria-rilke-morgue-2/): Estão prontos, ali, como a esperarque um gesto só, ainda que tardio,possa reconciliar com tanto frioos corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim.Que nome no seu bolso já vaziohá por achar? Alguém procura, enfim,enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só ficam mais polidos.A barba está mais […]
- [Dan Gerber – Cinema Paradiso](https://singularidadepoetica.art/2022/03/18/dan-gerber-cinema-paradiso-poema/): No final de novembropalavras apareceram na ponta da minha canetacomo a resposta a uma pergunta queeu ainda não havia feito.Uma tornou-se um condor; outra,uma nuvem,enquanto uma terceira palavra, espinhosidade,ganhou vida no sonho de um cardo.O que é mais real,a neve ou a bola de neve,a palavra ou as letras que acompõe?Eu empacotei a neve, uma […]
- [Ruy Proença - Tiranias](https://singularidadepoetica.art/2022/03/17/ruy-proenca-tiranias-2/): antigamentediziam: cuidado,as paredes têm ouvidos entãofalávamos baixonos policiávamos hojeas coisas mudaram:os ouvidos têm paredes de nadaadiantagritar REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/05/2016 Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui
- [Billy Collins - O desfile](https://singularidadepoetica.art/2022/03/16/billy-collins-o-desfile-poema/): Que emocionante foi marcharao longo das grandes avenidasdebaixo do clarão das trombetase sob todas as bandeiras tremulantes —a bandeira da ambição, a bandeira do amor. Tantos de nós fluindo ao longo do caminho —toda a humanidade, na verdade —movendo-se em perfeita sintonia,mas cada qual perdido no quarto de um sonho particular. Como é estimulante a […]
- [Darcy Ribeiro - A Indesejada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/15/darcy-ribeiro-a-indesejada-2/): Aí estão eles, os da terceira idade.Gregários, vivem aos bandos.Sentados, jogando cartas, andando devagar.Conversando pretéritos assuntos.Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos.Hoje, são sogros, os chatos dos sogros.Uns são viúvos, outros largados, poucos.Muitos deles, os mais, ainda casados.As mulheres duram demais. Órfãos de seus filhos, ocupadíssimos.Não reclamam, resmungam disfarçados.Estão todos aflitos, na […]
- [Carolyn Creedon – Mulher, minada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/14/carolyn-creedon-mulher-minada-poema/): Na seção de cosméticos da Lord & Tayloreles a levarão para um lugar bem exposto, claro como o dia, e a fotografarão com uma câmera ultravioleta,mostrando-lhe o que você fez com sua pele apenaspor viver, seu rosto subitamente exposto, como aquilo querealmente está acontecendo sob uma tora levantada, a verdadeira vocêque você é, capturada e […]
- [Darcy Ribeiro - Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/03/13/darcy-ribeiro-amor/): “Amor”, um poema de Darcy Ribeiro que assume a paixão como força carnal absoluta, onde dois corpos se afirmam contra o mundo na vertigem do desejo.
- [Donizete Galvão - Ruminações](https://singularidadepoetica.art/2022/03/12/donizete-galvao-ruminacoes-poema/): Nunca saí dessa roceira Minasque nos dá aflição e dor como herança.Lamaçal de bosta de vacano curral bem em frente da casa.Cheiro de leite azedo nos latõese de óleo queimado para expulsar bernes.Jardins de dália e corações magoados,chás de consolda e escaldados de quirera.A avó socando o arroz no pilão,preparando decoada para o sabãoou com […]
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2022/03/11/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4-3/): Nada vos ofertoalém destas mortesde que me alimento Caminhos não háMas os pés na gramaos inventarão Aqui se iniciauma viagem clarapara a encantação Fonte, flor em fogo,quem é que nos esperapor detrás da noite ? Nada vos sovino:com a minha incertezavos ilumino REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 23/04/2016
- [Ellen Bass – Pinheiros de Ponary](https://singularidadepoetica.art/2022/03/10/ellen-bass-pinheiros-de-ponary-poema/): Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2022/03/09/caetano-veloso-o-homem-velho-3/): O homem velho deixa a vida e morte para trásCabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca maisO grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinaisO homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao solAs linhas do destino nas mãos a mão apagouEle já tem […]
- [Anne Sexton – Para um amigo que alcançou o sucesso no trabalho](https://singularidadepoetica.art/2022/03/08/anne-sexton-para-um-amigo-cujo-trabalho-alcancou-o-trinfo/): Considere Ícaro, colando aquelas asas viscosas,experimentando aquele estranho puxão em suas omoplatas,e pense naquele primeiro impecável momento sobre o gramadodo labirinto. Pense em como isso fez diferença!Lá embaixo encontram-se as árvores, tão desajeitadas quanto os camelos;e aqui, os estupefatos estorninhos que passame pensam que o inocente Ícaro está indo muito bem:maior do que uma vela […]
- [Cassiano Ricardo - O Relógio](https://singularidadepoetica.art/2022/03/07/cassiano-ricardo-o-relogio-2/): Diante de coisa tão doídaconservemo-nos serenos. Cada minuto de vidanunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma faceDo não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nascejá se começa a morrer. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 17/04/2016
- [Jacques Prévert - Bárbara](https://singularidadepoetica.art/2020/06/07/jacques-prevert-barbara/): Lembra-te BárbaraChovia em Brestsem cessar naquele diaCaminhavas à chuvasorridenteradiosa encantadora deslumbranteLembra-te Bárbarachovia em Brestsem cessare eu passei por tina Rua do Sião.Sorriase eu sorriaLembra-te Bárbaratu a quem não conheciatu que não me conheciasLembra-teLembra-te mesmo assimdaquele diaNão te esqueçasSob um pórticoabrigava-se um homemque gritou o teu nomeBárbaraCorreste para eleà chuvadeslumbrante encantadoraradiosalançaste-te nos seus braçosLembra-te BárbaraE não […]
- [Joan Margarit - A senha](https://singularidadepoetica.art/2020/06/06/joan-margarit-a-senha/): Sozinho entre dois infernos— o da liberdade e o da idade —,já não consigo abrir nosso cofre.A porta com seus dígitos giratóriosé a roleta na qual já não aposto.Desde o primeiro suspiro conserveia blindada clarezadaquela rosa.Agora, nu em nosso quarto,a janela aberta e a luz apagada,ouço o rumor urbano da noite,enquanto a leve brisa me […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Décima Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/05/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-decima-elegia/): Que um dia, ao emergir da terrível intuição, ascenda meu canto de júbilo e glória até os Anjos aprovadores! Que nenhum claro golpe dos malhos do coração desentoe sobre cordas frouxas, vacilantes ou desgarradas! Que meu rosto se ilumine sob o pranto! Que a obscura lágrima floresça! Oh, como então vos amaria, noites de aflição! […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Nona Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/04/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-nona-elegia/): Por que, sendo possível o prazo da existência levar como o loureiro, de um verde mais sombrio que todos os outros verdes, com leves ondulações no contorno das folhas (como um sorriso do vento) – por que então, escravos do humano, anelar pelo destino fugindo ao destino?… Oh, não porque a felicidade exista, essa prematura […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Oitava Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/03/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-oitava-elegia/): Oitava elegia dedicada a Rudolf Kassner Com todos os seus olhos, a criatura vê o Aberto.Nosso olhar, porém, foi revertido e como armadilhase oculta em torno do livre caminho.O que está além, pressentimos apenasna expressão do animal; pois desde a infânciadesviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos,ah, esse espaço profundo que há […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Sétima Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/02/rainer-maria-rilke-elegia-de-duino-setima-elegia/): Não, não mais buscar: que seja esta, voz da madurez, a essência do teu grito. Gritaste, em verdade, com a pureza do pássaro, quando erguido pela estação que ascende, quase esquece que é um ser desamparado, coração solitário lançado às alturas, na intimidade do céu. Como ele, buscavas a amiga invisível que te pressentisse, a […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Sexta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/06/01/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-sexta-elegia/): Figueira, há muito que te vejo esquecer quase inteiramente a floração, precipitando no fruto prematuro, incompreendido, teu puro segredo. Como o canal de uma fonte teus ramos sinuosos impelem para a luz a seiva adormecida, abandonando-a, ainda sonolenta ao seu doce destino: como o deus em cisne transformado. Nós porém que nos detemos, gloriosos de […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Quinta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/31/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-quinta-elegia/): Quinta elegia dedicada a Frau Hertha von Kœnig Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância por alguém torcidos – por amor de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce, curva-os, entretece-os, vibra-os, atira-os e os toma de volta! Do ar untado e mais liso, […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Quarta Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/30/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-quarta-elegia/): Ó árvores da vida, quando atingireis o inverno? Ignoramos a unidade. Não somos lúcidos como as aves migradoras. Precipitados ou vagarosos nos impomos repentinamente aos ventos e tornamos a cair num lago indiferente. Conhecemos igualmente o florescer e o murchar. No entanto, em alguma parte, vagueiam leões ainda, alheios ao desamparo enquanto vivem seu esplendor. […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Terceira Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/29/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-terceira-elegia/): Uma coisa é cantar a amada. Outra, ai de mim, é cantar o culpado e oculto Deus-Rio do sangue. Aquele que a amada reconhece de longe, seu amante, que sabe ele do Senhor da Volúpia que tantas vezes o assaltava em plena solidão, antes que a mulher amada o abrandasse, como se nem mesmo ela […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Segunda Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/28/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-segunda-elegia/): Todo Anjo é terrível. No entanto, ai de mim, eu vos invoco, pássaros quase mortais da alma, sabendo quem sois. Tempos remotos de Tobias, em que o mais radiante dentre vós aparecia no limiar da casa humilde, sem intimidar, para a viagem levemente disfarçado (jovem que outro jovem, curioso, contemplava). Adiantasse agora o Arcanjo, ameaça […]
- [Rainer Maria Rilke - Elegias de Duíno - Primeira Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/27/rainer-maria-rilke-elegias-de-duino-primeira-elegia/): Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjosme ouviria? E mesmo que um deles me tomasseinesperadamente em seu coração, aniquilar-me-iasua existência demasiado forte. Pois que é o Belosenão o grau do Terrível que ainda suportamose que admiramos porque, impassível, desdenhadestruir-nos? Todo Anjo é terrível.E eu me contenho, pois, e reprimo o apelodo meu soluço […]
- [Federico Garcia Lorca - Pranto por Ignacio Sánchez Mejías](https://singularidadepoetica.art/2020/05/26/federico-garcia-lorca-pranto-por-ignacio-sanchez-mejias/): 1. A captura e a morte Às cinco da tarde.Eram as cinco em ponto dessa tarde Um menino trouxe o lençol brancoàs cinco da tarde. Uma alcofa de cal já prevenidaàs cinco da tarde.O mais era só morte e apenas morteàs cinco da tarde. O vento arrebatou os algodõesàs cinco da tarde.E o óxido semeou […]
- [John Ashbery - Medo da morte](https://singularidadepoetica.art/2020/05/25/john-ashbery-medo-da-morte/): Que há comigo agora, é assim que eu fiquei? Não há estado livre dos limites do antes e depois? Hoje a janela está aberta e o ar jorra para dentro com notas de piano nas suas saias, como a dizer, “Olha, John, eu trouxe isso e aquilo” – ou seja, alguns Beethovens, uns Brahms, umas […]
- [Álvaro de Campos - Tabacaria](https://singularidadepoetica.art/2020/05/25/alvaro-de-campos-tabacaria/): Leia "Tabacaria", de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), um dos maiores poemas do modernismo português sobre identidade, fracasso, sonho e existência.
- [Horácio - Ode 1/11](https://singularidadepoetica.art/2020/05/24/horacio-ode-1-11-poema/): Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe, os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo da babilônia e aceita: o que há de ser, será, quer nos dê Jove mais invernos, quer só este que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos. Enquanto […]
- [Attila József - Dói demais](https://singularidadepoetica.art/2020/05/23/attila-jozsef-doi-demais/): A morte atenta de dentro e fora te afugenta (ratinho oculto com receio) e, enquanto arderes, vais procurar junto às mulheres refúgio em braço, joelho e seio. Mais que o calor do colo afável, mais que o ardor, precisar muito é que te apressa; assim, quem quer que possa abraça uma mulher até que a […]
- [Eugenio Montale - Xenia I](https://singularidadepoetica.art/2020/05/22/eugenio-montale-xenia-i/): 1 Querido pequeno inseto que chamavam de mosca, não sei por quê, esta tarde quase ao escurecer enquanto lia o Segundo Livro de Isaías reapareceste ao meu lado, mas não tinhas óculos, não podias me ver nem podia eu sem aquela centelha reconhecer-te no escuro. 2 Sem óculos nem antenas pobre inseto que asas só […]
- [Basil Bunting - O que o diretor disse a Tom](https://singularidadepoetica.art/2020/05/21/basil-bunting-o-que-o-diretor-disse-a-tom/): Poesia? É um hobby O meu são trens elétricos. O sr. Shaw ali cria pombos. Não é trabalho. Você não sua a camisa. Ninguém paga. Tente anunciar sabão. Ópera é que é arte; ou o teatro. A Canção do Deserto. Nancy era do coro. Mas pedir doze libras por semana – casado, não? – isso […]
- [Mary Oliver - O dia de verão](https://singularidadepoetica.art/2020/05/20/mary-oliver-o-dia-de-verao/): Quem criou o mundo?Quem fez o cisne e o urso-negro?Quem fez o gafanhoto?Digo, aquele gafanhoto –aquele que saltou da grama,aquele que agora come açúcar na minha mão,aquele que move as mandíbulas para frente e para trás, não de cima para baixo –aquele que olha ao redor com seus olhos enormes e complexos.Agora ele ergue os […]
- [Raúl Ferruz - Com os olhos bem abertos](https://singularidadepoetica.art/2020/05/19/raul-ferruz-com-os-olhos-bem-abertos/): Quando meu avô sorria depois de cada gole de água,isso significava. Não sabes o que é beber o próprio mijo.Quando desenhava uma parábola no ar que só ele via,isso significava. Fogo cruzado.Quando tapava o rosto para que não o víssemos chorar,isso significava. Os alemães nos infligiram horrores.Quando fechava a porta do banheiro para que não […]
- [Anne Sexton - A noite estrelada](https://singularidadepoetica.art/2020/05/18/anne-sexton-a-noite-estrelada/): A noite estrelada Isso não me impede de ter uma terrível necessidade de — devo dizer a palavra — religião. Então, saio à noite para pintar as estrelas. – Vincent Van Gogh, em uma carta ao seu irmão A cidade não existe,exceto onde uma árvore de cabelos negros deslizacomo uma mulher afogada no ar abrasador.A […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Cruzeiro do Sul](https://singularidadepoetica.art/2020/05/17/jorge-valdes-diaz-velez-cruzeiro-do-sul/): Ardem as folhas do outono na umidade crepuscular de Buenos Aires. Contra um parque dividido por três colinas, a opacidade de sua beleza procura nas folhagens o olhar que acompanhou a luz. As lâmpadas douradas mantêm suas memórias e acendem sombras no gramado. Ao entardecer, se organizam o horizonte de troncos e o suave tato […]
- [James Elroy Flecker - A um poeta daqui a mil anos](https://singularidadepoetica.art/2020/05/16/james-elroy-flecker-a-um-poeta-daqui-a-mil-anos/): Eu, que há mil anos concluí meu percurso,E escrevi esta doce e arcaica canção,Por arautos te envio este discursoPor estradas que meus pés não trilharão. Não me importa se os mares tu transpões,Ou se galgas em segurança um céu mau,Se eriges exímias fortificaçõesFeitas de alvenaria ou de metal. Mas ainda tens canções e o hidromel,E […]
- [Augusto de Campos - Viv (1992)](https://singularidadepoetica.art/2020/05/15/augusto-de-campos-viv/): Viv (1992), “viver é defender uma forma” (hoelderlin via Webern)
- [Juan Vicente Piqueras - Oração do incrédulo](https://singularidadepoetica.art/2020/05/14/juan-vicente-piqueras-oracao-do-incredulo/): O importante é rezar, não importa a quem,que as perguntas sejam as oraçõesdo pensamento, plantem sua sementeem nossa solidão, e que não exista pazque, à força de insistir, seja capazde não existir, não tenha remédiosenão atender à voz de quem a chama. Que deus não exista, acasoé razão para nele não crer? Deus é o […]
- [Eugenio Montale - A enguia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/13/eugenio-montale-a-enguia/): A enguia, a sereia dos mares frios que deixa o Báltico para alcançar os nossos mares, nossos estuários, os rios que sobe pelas profundezas, contra a enxurrada, de braço em braço e depois de veio em veio, cada vez mais delgados, sempre mais dentro, sempre mais perto do coração da rocha, filtrando-se por regos de […]
- [Eavan Boland - Quarentena](https://singularidadepoetica.art/2020/05/12/eavan-boland-quarentena/): Na pior hora da pior estação do pior ano de todo um povo um homem partiu do internato com a mulher Ele andava – ambos andavam – para o norte Ela tinha a febre da fome e não se aguentava. Ele a ergueu e a pôs nas costas. Andou assim para oeste e oeste e […]
- [Aldir Blanc - Valsa pra Leila](https://singularidadepoetica.art/2020/05/11/aldir-blanc-valsa-pra-leila/): Tu te esfumarásme neblinareisobre os telhadosgaláxias azuis.Sonambularáste volteareigatos lambendo as estrelasWendy e Peter Pansem o amanhãnunca, pra nós dois, é sempre cedo.Marietarás,eu Buarquireiem dois cavaloscom asas de luz.Tu te nublarás,me eclipsareinuvens em nossa cabeça.Toma, Peter Pan,só um lexotanpra que tanto amor não te enlouqueça.Vagalumarás por sobre o campo,eu virei do mar, teu pirilampo.Como um circo […]
- [Paul Celan - O companheiro de viagem](https://singularidadepoetica.art/2020/05/10/paul-celan-o-companheiro-de-viagem-poema/): A alma da tua mãe flutua adiante.A alma da tua mãe ajuda a noite a navegar, escolho após escolho.A alma da tua mãe fustiga os tubarões à tua frente. Esta palavra é a disciplina da tua mãe.A discípula da tua mãe partilha o teu jazigo, pedra a pedra.A discípula da tua mãe inclina-se para a […]
- [Charles Bukowski - oh, sim](https://singularidadepoetica.art/2020/05/09/charles-bukowiski-oh-sim/): há coisas piores do que estar sozinho mas muitas vezes leva décadas para perceber isso e na maioria das vezes quando você percebe é tarde demais e não há nada pior do que tarde demais Trad.: Nelson Santander oh, yes there are worse things than being alone but it often takes decades to realize this […]
- [Emily Dickinson - Após grande dor sobrevém um sentimento austero](https://singularidadepoetica.art/2020/05/08/emily-dickinson-apos-grande-dor-sobrevem-um-sentimento-austero/): Após grande dor sobrevém um sentimento austero –Os Nervos ficam cerimoniosos como um cemitério –Indaga o rijo Coração se foi Ele que sofreu,Se Ontem, ou Séculos antes aconteceu? Os pés, mecânicos, circundam sem cessar –Nos Sopés, no Ar, em qualquer Lugar –Um caminho de madeiraQue indiferentemente medraUm contentamento de Quartzo, uma pedra – A Hora […]
- [William Carlos Williams - Nevasca](https://singularidadepoetica.art/2020/05/07/william-carlos-williams-nevasca/): Neve:anos de fúria seguindohoras que flutuam indolentes —a nevascadeposita seu fardocada vez mais fundo por três diasou sessenta anos, não? Entãoo sol! um tumulto deflocos amarelos e azuis —Árvores de aparência hirsuta destacam-seem longas alamedassobre uma selvagem solidão.O homem se vira e lá —seu solitário rastro estendendo-sesobre o mundo. Trad.: Nelson Santander Mais do que […]
- [Nuno Júdice – Epidemia](https://singularidadepoetica.art/2020/05/06/nuno-judice-epidemia/): Passa de um para o outro através do olhar, de uma palavra, de um toque de mãos; por vezes, basta um leve suspiro para adivinhar a febre, e atrás dele descobre-se que não é preciso cura nem tratamento. Instala-se na cabeça, no corpo, na boca, nos dedos, sem dor nem cansaço, apenas aquela ânsia a […]
- [Susana Cattaneo - Quando já não estiver...](https://singularidadepoetica.art/2020/05/05/susana-cattaneo-quando-ja-nao-estiver/): Quem porá o pésobre a marca que o meu deixou?Quem olhará estas árvoresonde meus olhos deixaram sinais?Alguém ouvirá cantar um pássaroque será outro.Alguém respirará os mesmos pinheirosde um verde mais cansado.A vida será uma folha em brancoe não poderei timbrá-la com minha palavra. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre […]
- [William Butler Yeats - A torre](https://singularidadepoetica.art/2020/05/04/william-butler-yeats-a-torre/): 1 O que farei com esta absurdidade, Esta caricatura, coração? Decrepitude atada à minha idade Como à cauda de um cão? Jamais terei sentido Tão grande, tão apaixonada, tão incrível A fantasia, nem houve olho e ouvido Que mais quisessem o impossível – Não, nem quando menino, com inseto e anzol, Ou mais humilde verme, […]
- [Joan Margarit - Despedidas](https://singularidadepoetica.art/2020/05/03/joan-margarit-despedidas/): Ela o acompanhava até o primeiro trem que partia às segundas antes do amanhecer, e naquele bar costumavam despedir-se, o mais próximo da Estación de Francia. Evoco os invernos detidos atrás das vidraças da infância. E talvez esta seja sua mesa, onde agora lembro-me de que, naquela mesma hora, eu estava na penumbra do meu […]
- [Paul Verlaine - Arte poética](https://singularidadepoetica.art/2020/05/02/paul-verlaine-arte-poetica/): Arte Poética A Charles Morice Antes de tudo, a Música. Preza Portanto o Ímpar. Só cabe usar O que é mais vago e solúvel no ar, Sem nada em si que pousa ou que pesa. Pesar palavras será preciso, Mas com algum desdém pela pinça: Nada melhor do que a canção cinza Onde o Indeciso […]
- [Laurie Lee – A sombra abandonada](https://singularidadepoetica.art/2020/05/01/laurie-lee-a-sombra-abandonada/): Percorrendo a sombra abandonadadas habitações da minha infância,meus ouvidos relembram o badalar,ouvindo suas vozes soterradas. Ouço o verão primordial,as margens da aurora iluminadas por aves,o pulsar de sangue da escrevedeira-amareladourando meus olhos de berço. Ouço a lua-de-estanho subire a moeda do crepúsculo cair,o rastejar da geada e o gemidodo degelo e o pio dos piscos […]
- [Jorge Luis Borges - Mortes de Buenos Aires](https://singularidadepoetica.art/2020/04/30/jorge-luis-borges-mortes-de-buenos-aires/): I La Chacarita Porque a entranha do cemitério do Sul foi saciada pela febre amarela até dizer basta; porque os tugúrios fundos do Sul lançaram morte sobre a face de Buenos Aires e porque Buenos Aires não pôde encarar essa morte, golpes de pá te abriram na ponta perdida do Oeste, atrás das tempestades de […]
- [Fernando Pessoa - No Túmulo de Christian Rosencreutz](https://singularidadepoetica.art/2020/04/29/fernando-pessoa-no-tumulo-de-christian-rosencreutz/): NO TÚMULO DE CHRISTIAN ROSENCREUTZ Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastámos para um lado o altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto…, e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a […]
- [César Vallejo - Os passos distantes](https://singularidadepoetica.art/2020/04/28/cesar-vallejo-os-passos-distantes/): Meu pai dorme. Seu semblante augusto exprime um tranquilo coração; está agora tão doce… se há algo nele de amargo, serei eu. Há solidão no lar; se reza; e não há notícias das crianças hoje. Meu pai desperta, ausculta a fuga para o Egito, o último adeus. Está agora tão perto; se há algo nele […]
- [Rainer Maria Rilke - Torso arcaico de Apolo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/27/rainer-maria-rilke-torso-arcaico-de-apolo/): Não conhecemos sua cabeça inaudita Onde as pupilas amadureciam. Mas Seu torso brilha ainda como um candelabro No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado Detém-se e brilha. Do contrário não poderia Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva Dos rins poderia chegar um sorriso Até aquele centro, donde o sexo pendia. De […]
- [Jorge Luis Borges - A noite que no sul o velaram](https://singularidadepoetica.art/2020/04/26/jorge-luis-borges-a-noite-que-no-sul-o-velaram/): A noite que no sul o velaram para Letizia Álvarez de Toledo Pelo passamento de alguém — mistério cujo desconhecido nome possuo e cuja realidade não abarcamos — há até o alvorecer uma casa aberta no Sul, uma casa ignorada que não estou destinado a […]
- [Charles Bukowski - Manual de Combate](https://singularidadepoetica.art/2020/04/25/poesia-vim-buscar-te/): Eles chamaram Celine de nazista eles chamaram Pound de fascista eles chamaram Hamsun de nazista eles puseram Dostoiévski diante de um esquadrão de fuzilamento e você sabe que eles atiraram em Lorca submeteram Hemingway a tratamento de choque e você sabe que ele se matou e eles levaram Villon para fora da cidade (Paris) e […]
- [Ferreira Gullar - Reflexão sobre o osso da minha perna](https://singularidadepoetica.art/2020/04/24/ferreira-gullar-reflexao-sobre-o-osso-da-minha-perna/): A parte mais durável de mim são os ossos e a mais dura também como, por exemplo, este osso da perna que apalpo sob a macia cobertura ativa de carne e pele que o veste e inteiro me reveste dos pés à cabeça esta vestimenta fugaz e viva sim, este osso a mais dura parte […]
- [Jane Hirshfield - Meu esqueleto](https://singularidadepoetica.art/2020/04/23/jane-hirschfield-meu-esqueleto/): Meu esqueleto, que um dia doeu com o próprio crescimento, está agora, a cada ano imperceptivelmente menor, mais leve, absorvido por sua própria concentração. Quando eu dancei, você dançou. Quando você quebrou, eu. E assim foi, deitando, caminhando, subindo os fatigantes degraus. Seus maxilares. Meu pão. Algum dia você, o que resta de você, será […]
- [Louise Glück - Nostos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/22/louise-gluck-nostos/): Havia uma macieira no quintal – isso teria sido há quarenta anos – nos fundos, apenas prados. Excesso de crocus na relva úmida Eu estava naquela janela: fim de abril. Flores da primavera no quintal do vizinho. Quantas vezes, realmente, a árvore floresceu no meu aniversário, no dia exato, nem antes nem depois? Substituição do […]
- [Denise Levertov - Naquele dia](https://singularidadepoetica.art/2020/04/21/denise-levertov-naquele-dia/): Do outro lado de um lago na Suíça, cinquenta anos atrás, a luz duelava com uma longa lança, esgrimindo com sabres de um lado para o outro entre picos nublados e colinas. Observávamos de um pequeno pavilhão, minha mãe e eu, fascinadas. E então, eis que um feixe, uma coluna, um corpo definido, não de […]
- [Richard Eberhart - A marmota](https://singularidadepoetica.art/2020/04/20/richard-eberhart-a-marmota/): Em junho, entre os campos dourados, Avistei uma marmota morta. Morta ela estava; meu juízo se abalou, E a mente projetou a nossa fragilidade nua. Lá embaixo, humilde no vigoroso verão, Sua forma iniciou sua mudança sem sentido, E fez oscilar meus sentidos para o sombrio Vendo a natureza feroz que nela havia. Inspecionando de […]
- [Jane Hirshfield - Dentro desta árvore](https://singularidadepoetica.art/2020/04/19/jane-hirshfield-dentro-desta-arvore/): Dentro desta árvore outra árvore habita o mesmo tronco; dentro desta pedra outra pedra descansa, com muitos tons de cinza iguais, com superfície e peso idênticos. E dentro do meu corpo, outro corpo, cuja história, à espera, canta; não há outro corpo, ela canta, não há outro mundo. Trad.: Nelson Santander Within this tree Within […]
- [Gonçalo M. Tavares - Sobre o mundo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/18/goncalo-m-tavares-sobre-o-mundo/): O telescópio não alcança sequer a tua alma; Imprecisão exata de um instrumento instintivo. Mas repara: não há instrumentos instintivos ou máquinas espontâneas. Dois terços do amor estão na mulher, qualquer que seja o casal. As evidências abrem falência em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam ciências viris. Indispensáveis, de facto: ciências […]
- [Alberto Szpunberg - De "Sol de noche"](https://singularidadepoetica.art/2020/04/17/alberto-szpunberg-de-sol-de-noche/): XIV Embora já saibas que nada volta, volta para casa, aceita a pequena mentira como um lapso antes que o inverno te surpreenda sob uma árvore de ramos despojados: aqui termina o bosque, o que cresceu em teus sonhos antes mesmo de tuas mãos roçarem os troncos: a pradaria que se estende perante teus olhos […]
- [Ana Martins Marques - [Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano]](https://singularidadepoetica.art/2020/04/16/ana-martins-marques-pense-em-quantos-anos-foram-necessarios-para-chegarmos-a-este-ano/): Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano quantas cidades para chegarmos a esta cidade e quantas mães, todas mortas, até tua mãe quantas línguas até que a língua fosse esta e quantos verões até precisamente este verão este em que nos encontramos neste sítio exato à beira de um mar rigorosamente […]
- [Marie Howe - Meus amigos mortos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/15/marie-howe-meus-amigos-mortos/): Comecei, quando estou cansada e não consigo decidir a resposta que devo dar a uma pergunta desconcertante, a pedir a opinião dos meus amigos mortos e frequentemente a resposta é imediata e clara. Devo aceitar o emprego? Mudar-me para a cidade? Devo tentar conceber um filho em minha meia idade? Em uníssono, eles balançam suas […]
- [Emily Dickinson - Poema 1.222](https://singularidadepoetica.art/2020/04/14/emily-dickinson-poema-1-222/): O Enigma decifrado Despreza-se com pressa — A Surpresa de Ontem Já não nos interessa — Trad.: Augusto de Campos Poem 1.222 The Riddle we can guess We speedily despise — Not anything is stale so long As Yesterday’s surprise —
- [Robert Bly - Pessoas como nós](https://singularidadepoetica.art/2020/04/13/robert-bly-pessoas-como-nos/): Pessoas como nós para James Wright Há mais como nós. Em toda parte Há pessoas confusas, que não conseguem lembrar O nome do próprio cão quando acordam, e pessoas Que amam a Deus mas não se lembram onde Ele estava quando foram dormir. Não Tem problema. O mundo se purifica desta forma. Um número errado […]
- [Juan Vicente Piqueras - Taças de sede](https://singularidadepoetica.art/2020/04/12/juan-vicente-piqueras-tacas-de-sede/): Se duvidas de tua sede, se não te atreves a questiona-la ou a dar-lhe um nome, se só sabes que buscas uma água que a sacie e não achas senão poços, e neles ecos que te chamam, bebe. Se ao beber a sede desaparece é que era só sede. Segue buscando. Mas se cresce em […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Canção de fevereiro](https://singularidadepoetica.art/2020/04/11/jorge-valdes-diaz-velez-cancao-de-fevereiro/): Canção de fevereiro no peito do céu, palpitando Jaime Gil de Biedma Leve e triste, a tarde se retira contigo até o crepúsculo e as horas começam a doer nas dobras distantes do lençol. Subitamente a noite regressou e é difícil não pensar em teus efêmeros lábios ou nas altas regiões do teu corpo glorificando […]
- [Iracema Macedo - Dandara](https://singularidadepoetica.art/2020/04/10/iracema-macedo-dandara/): Eu só acreditava em Drummond: ‘o amor chega tarde’ Não conhecia o amor que fulgura sem aviso esse que se sabe proibido o amor que já se sabe perdido desde o início Eu não acreditava no impossível vinha tão sóbria, tão cheia de medidas não conhecia o esplendor da queda nem a violência dos abismos
- [José Miguel Silva - Tudo coisas mortais para a poesia](https://singularidadepoetica.art/2020/04/09/jose-miguel-silva-tudo-coisas-mortais-para-a-poesia/): A casa, o lume, o sono dobrado do corpo feliz, a cesta de figos, a curva do rio, a fotografia no cimo do monte, a veracidade das glicínias, o rosto da mãe, a fava no bolo, o trunfo de copas, o filme da tarde, a música nova, o rasto da chuva por entre os pinheiros, […]
- [Juan Vicente Piqueras - Lençóis herdados](https://singularidadepoetica.art/2020/04/09/juan-vicente-piqueras-lencois-herdados/): A ferida mais íntima é herdada. O onde, o como, o quando,a morte, o nascimento,língua, família, deus, tempo, amor:o decisivo do que nos acontece,e quem somos,não é algo desejado nem escolhido. E passamos a vida, a despeito disso, ou por isso,crendo que o desejo é nosso deus,e não uma rosa rara que em nós cultivao […]
- [Czeslaw Milosz - Sobre anjos](https://singularidadepoetica.art/2020/04/08/czeslaw-milosz-sobre-anjos/): Tudo foi tirado de vocês: túnica branca, asas, até mesmo a existência. Contudo, ainda acredito em vocês, mensageiros. Aqui, onde o mundo está virado do avesso, uma trama maciça bordada com astros e bestas, vocês passeiam, inspecionando as suturas confiáveis. Curta é sua estadia neste lugar: às vezes na hora matinal, se o céu está […]
- [Joan Margarit - Ela me disse](https://singularidadepoetica.art/2020/04/07/joan-margarit-ela-me-disse/): Procuremos uma casa para morrer. Por exemplo, aquele apartamento onde começamos a nossa história: arquitetura vulgar dos anos sessenta, mas arejado e com flores. Um bom lugar – e alegre – para nele morrer: Talvez na sala, sempre com música e a luz que chegava do mar. Ou na cozinha, em que recebia as ordens […]
- [W. S. Merwin - A estrada](https://singularidadepoetica.art/2020/04/06/w-s-merwin-a-estrada/): Parece grande demais para que apenas um homemCaminhe sobre ela Como se ela e o dia vazioFossem tudo o que existisse. E um cachorrinhoTrotando no compasso das ondas de calor, pertoDo horizonte, parecendo nunca avançar.O sol e todas as coisasEstão empoçados nos mesmos lugares, e a valaÉ sempre a mesma, repleta de todo tipo deOsso, […]
- [Mary Oliver - Quando a morte chegar](https://singularidadepoetica.art/2020/04/05/mary-oliver-quando-a-morte-vier/): Quando a morte chegarcomo um urso faminto no outono;Quando a morte chegar e tirar todas as moedas brilhantes de sua bolsa para me comprar, e fechá-la com um estalo;quando a morte chegarcomo o sarampo-varíola quando a morte chegarcomo um iceberg entre as omoplatas, quero atravessar o portal cheia de curiosidade, perguntando:como será essa sombria cabana? […]
- [Rainer Maria Rilke - A Morte da Amada](https://singularidadepoetica.art/2020/04/04/rainer-maria-rilker-a-morte-da-amada/): Da morte ele sabia quase nada: que nos toma e nos cala de repente. Como a amada não fora arrebatada, antes se desprendera docemente do seu olhar para a morada escura, e como percebeu que à outra vida como uma lua plena a formosura da visitante fora concedida, dos mortos se tornou tão familiar que […]
- [Robert Graves – Através do pesadelo](https://singularidadepoetica.art/2020/04/03/robert-graves-atraves-do-pesadelo/): Jamais se desencante daquele Lugar no qual algumas vezes você sonha estar, Deitada muito além de todo sonho, Ou daqueles que você lá encontra, embora raramente se sente na companhia deles. O indomável, o vivo, o gentil. Você não os conhece? Quem? Eles transportam O tempo circular como um sábio-rio ao redor de suas casas […]
- [Alberto Bresciani – Bisões](https://singularidadepoetica.art/2020/04/02/aberto-bresciani-bisoes/): Leia "Bisões", de Alberto Bresciani, um poema sobre pertencimento, deslocamento e a busca humana por direção e sentido.
- [Jane Hirshfield - O emissário](https://singularidadepoetica.art/2020/04/01/jane-hirshfield-o-enviado/): Um dia, naquele quarto, um pequeno rato. Dois dias depois, uma cobra. Que, vendo-me entrar, serpenteou a longa listra de seu corpo para baixo da cama, e depois se enrolou como um dócil animal doméstico. Não sei como veio ou saiu. Mais tarde, a lanterna nada encontrou. Por um ano, eu observei como alguma coisa […]
- [May Swenson - Indagações](https://singularidadepoetica.art/2020/03/31/may-swenson-indagacoes/): Corpo minha casameu cavalo meu cão de caçao que fareiquando você ruir? Onde vou dormirComo vou montarO que vou caçar? Onde posso irsem minha montariarápida e impaciente?Como sabereise na mata à frentehá perigos ou tesourosquando o corpo, meu cãobom e fiel, estiver morto Como serájazer no céusem teto ou portae vento por visão? Com a […]
- [Mary Oliver - A jornada](https://singularidadepoetica.art/2020/03/30/mary-oliver-a-jornada/): Um dia você finalmente soubeo que precisava fazer e começou,embora as vozes à sua voltacontinuassem gritandoseus maus conselhos –embora a casa todacomeçasse a tremere você sentisse o velho apeloem seus tornozelos.“Remende minha vida!”,cada voz clamava.Mas você não parou.Você sabia o que precisava fazer,embora o vento tateassecom seus dedos rijosas próprias fundações,e embora a melancolia delesfosse […]
- [William Stafford - O sonho de agora](https://singularidadepoetica.art/2020/03/29/william-stafford-o-sonho-de-agora/): Quando acorda, da noite e dos outros sonhos, para o sonho de agora, você conduz o dia para fora das trevas como a uma chama. Quando a primavera acontece no norte e as flores desabrocham no solo e até adormecem, você alteia o verão com sua respiração para que ele não se perca jamais tão […]
- [Mary Oliver - Gansos selvagens](https://singularidadepoetica.art/2020/03/28/mary-oliver-gansos-selvagens/): Você não precisa ser bom.Você não precisa atravessar o deserto de joelhos,por cem milhas, em penitência.Você só precisa deixar o suave animal do seu corpoamar o que ele ama.Fale-me sobre o desespero, o seu, e eu lhe direi o meu.Enquanto isso, o mundo continua.Enquanto isso, o sol e os translúcidos seixos da chuvamovem-se por entre […]
- [Juan Vicente Piqueras - A sala vazia](https://singularidadepoetica.art/2020/03/27/juan-vicente-piqueras-a-sala-vazia/): a Carlos Edmundo de Ory Era um de teus jogos favoritos. O que há em uma sala vazia?, perguntavas. Mantínhamo-nos em silêncio. O que há em uma sala vazia? Os que não conheciam o jogo às vezes diziam: nada, e tu dizias: não. Nada é nada, e eu disse o quê. Até que alguém dizia, […]
- [Chico Buarque e Cristovão Bastos - Todo sentimento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/26/chico-buarque-e-cristovao-bastos-todo-sentimento/): [youtube https://www.youtube.com/watch?v=WyZuJ337Y3w&w=560&h=315] Preciso não dormir Até se consumar O tempo Da gente Preciso conduzir Um tempo de te amar Te amando devagar E urgentemente Pretendo descobrir No último momento Um tempo que refaz o que desfez Que recolhe todo o sentimento E bota no corpo uma outra vez Prometo te querer Até o amor cair […]
- [Raquel Lanseros - Oração](https://singularidadepoetica.art/2020/03/25/raquel-lanseros-oracao/): Que não cresça jamais em minhas entranhasessa paz aparente chamada ceticismoFuja eu do amargor, do cinismo, da imparcialidade de ombros encolhidos.Creia eu sempre na vidaCreia eu sempre nas mil infinitas possibilidades.Que me enganem os cantos das sereias,que minha alma guarde sempre um toque de ingenuidade.Que nunca se pareça minha pelecom a de um imóvel e […]
- [Camille Dungy – Para entrar em nossa própria casa vazia](https://singularidadepoetica.art/2020/03/25/camille-dungy-para-entrar-em-nossa-propria-casa-vazia-poema/): Ela estava com sete anos quando paramosde usar chaves. Menos uma coisa para se perder.Agora nós usamos uma senha —simples, mas espero que não tão simples queum estranho possa adivinhar. É aqui queeu deveria parar. Eles se veriam obrigadosa ficar irritados — meus amados.Estou revelando todos os nossos segredosnovamente. Esta vulnerabilidadeé a raiz de muita […]
- [Juan Vicente Piqueras - Visível e Invisível](https://singularidadepoetica.art/2020/03/24/juan-vicente-piqueras-visivel-e-invisivel/): (Para os amigos que ainda estão vivos, mas desapareceram, onde quer que estejam, com um abraço póstumo) As pessoas tendem a desaparecer. Um dia te fazem rir e no seguinte já não estão. Um dia te ligavam todos os diaspara saber como estavas,e agora já nem te lembras de suas vozes. Um dia disseram sempree sempre acabou […]
- [Fernando Assis Pacheco - Tentas, de longe](https://singularidadepoetica.art/2020/03/23/fernando-assis-pacheco-tentas-de-longe/): Tentas, de longe, dizer que estás aqui. Com peso triste caminha na rua o Outono. O meu coração debruça-se à janela a ver pessoas e carros, e as folhas caindo. Mastigo esta solidão como quando era pequeno e jantava diante dos pais zangados: devagar, ausente.
- [Sharon Olds - Uma semana depois](https://singularidadepoetica.art/2020/03/22/sharon-olds-uma-semana-depois/): Uma semana depois, eu disse a um amigo: acho quenunca poderia escrever sobre isso.Talvez daqui a um ano eu consiga escrever alguma coisa.Há algo em mim que talvez algumdia possa ser escrito; por ora está dobrado, e redobrado,como um bilhete da escola. E em meu sonhoalguém jogava jacks, e no ar havia umjack arremessado, enorme, […]
- [William Stafford - Uma cópia de arquivo](https://singularidadepoetica.art/2020/03/21/william-stafford-uma-copia-de-arquivo/): Deus tira seu retrato: não desvie o olhar –agora, neste quarto, seu rosto inclinadoexatamente como é, antes de você pensarou controla-lo. Vá em frente, deixe-se trair portodas as urgências secretas e ainda mantenhaaquele disfarce parcial que você chama de caráter. Mesmo o seu lábio, dizem, o modo como ele arqueiaou não, ou hesita, entregarávolumes de […]
- [Dylan Thomas - Poema de outubro](https://singularidadepoetica.art/2020/03/20/dylan-thomas-poema-de-outubro/): Era o meu trigésimo ano rumo ao céu Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto e do bosque ao lado, E da praia empoçada de mexilhões E sacralizada pelas garças O aceno da manhã Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas E o chocar-se dos barcos contra o muro […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A flor e a náusea](https://singularidadepoetica.art/2020/03/19/carlos-drummond-de-andrade-a-flor-e-a-nausea/): Preso à minha classe e a algumas roupas, Vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o […]
- [Czeslaw Milosz - Onde quer que esteja](https://singularidadepoetica.art/2020/03/18/czeslaw-milosz-onde-quer-que-esteja/): Onde quer que esteja, em qualquer lugar na Terra, escondo dos outros a certeza de que n ã o s o u d a q u i. Como se tivesse sido enviado para absorver o máximo das cores, sons, cheiros, sabores, provar de tudo o que é reservado ao Homem, converter o vivido num registo […]
- [Nicanor Parra - Último brinde](https://singularidadepoetica.art/2020/03/17/nicanos-parra-ultimo-brinde/): Querendo ou não,só temos três alternativas:o ontem, o presente e o amanhã. E nem sequer três,pois, como diz o filósofo,ontem é ontem,é nosso apenas na memória:à rosa que já se desbastounão se pode arrancar outra pétala. As cartas por jogarsão apenas duas:o presente e o dia de amanhã. E nem sequer duas,porque é um fato […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Ishmar](https://singularidadepoetica.art/2020/03/16/jorge-valdes-diaz-velez-ishmar/): para Martha Iga A maneira de pentear-te nua diante do espelho úmido do banheiro, de prender na palma teus cabelos para fazer correr a água e de agachar-te no meio de palavras que não entendo; o ato de secar tua pele, a forma de sentir com os dedos uma ruga que ontem não estava, ou […]
- [Lisel Mueller - Quando me perguntam](https://singularidadepoetica.art/2020/03/15/lisel-mueller-quando-me-perguntam/): Quando me perguntamcomo comecei a escrever poesia,eu falo da indiferença da natureza. Foi logo depois que minha mãe faleceu,um dia radiante de junhoem que tudo florescia. Sentei-me em um banco de pedra acinzentadoem um jardim carinhosamente cultivado,mas os lírios eram tão surdosquanto os bêbados adormecidose as rosas curvadas para dentro.Nada estava enlutado ou quebrado,nem uma […]
- [Lawrence Ferlinghetti - Allen Ginsberg morrendo](https://singularidadepoetica.art/2020/03/14/lawrence-ferlinghetti-allen-ginsberg-morrendo/): Allen Ginsberg está morrendoEstá em todos os jornaisEstá no noticiário noturnoUm grande poeta está morrendoMas sua voznão vai morrerSua voz está na terraNo Baixo Manhattanna sua camaele está morrendoNão há nadaa fazer sobre issoEle está morrendo a morte que todos enfrentamEle está morrendo a morte do poetaEle tem um telefone em sua mãoe liga para […]
- [Billy Collins - Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/13/billy-collins-esquecimento/): O nome do autor é o primeiro a desaparecerseguido obedientemente pelo título, a trama,a conclusão comovente, o romance inteiroque subitamente se torna algo que você nunca leu,nunca sequer ouviu falar, como se, uma a uma, as memórias que você costumava abrigardecidissem se aposentar no hemisfério sul do cérebro,em uma pequena aldeia de pescadores onde não […]
- [Alberto Pucheu - A luta antes da luta](https://singularidadepoetica.art/2020/03/12/alberto-pucheu-a-luta-antes-da-luta/): Você sabe, de nada adianta rezar no canto do ringue. Aquele que nele sobe, sobe sozinho. As bravatas lançadas na hora da pesagem e o peso da multidão colado em sua carne, você sabe, lá em cima, só aumentarão seu abandono. Você sabe também o preço que terá de pagar se deixar que qualquer vagabundo […]
- [Bertrand Russell - de "No que acredito"](https://singularidadepoetica.art/2020/03/11/bertrand-russell-de-no-que-acredito/): “Acredito que ao morrer apodrecerei e nada do meu eu sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenho tremer de terror à ideia do aniquilamento. A felicidade não se torna menos verdadeira por ter que chegar ao fim, e o pensamento e o amor não perdem o seu valor por não durarem para […]
- [Ernesto Cardenal - de "Epigramas"](https://singularidadepoetica.art/2020/03/10/ernesto-cardenal-de-epigramas/): de "Epigramas", Um poema de Ernesto Cardenal
- [Carlos Drummond de Andrade - A bruxa](https://singularidadepoetica.art/2020/03/09/carlos-drummond-de-andrade-a-bruxa/): Nesta cidade do Rio,de dois milhões de habitantes,estou sozinho no quarto,estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho?Ainda há pouco um ruídoanunciou vida ao meu lado.Certo não é vida humana,mas é vida. E sinto a bruxapresa na zona de luz. De dois milhões de habitantes!E nem precisava tanto…Precisava de um amigo,desses calados, distantes,que leem verso de […]
- [Joan Margarit - No museu](https://singularidadepoetica.art/2020/03/08/joan-margarit-no-museu/): Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro.Com um gesto solene, comprime o punhoe tenta explicar a força queacredita ver na pintura.Esta velha obsessão de transmitiraos pequenos nossos pobres recursos.Atento, o menino observa com temor.Talvez pressinta a solidão que se ocultanos gestos, na retórica da arte.Temos sempre a verdade diante de nós,mas, assim como […]
- [Michael Krüger - Discurso do homem lento](https://singularidadepoetica.art/2020/03/07/michael-kruger-discurso-do-homem-lento/): A história acelera,logo nos alcança,precedendo-nos com passos ligeiros.Vemos então por trása Era Glacial, Grécia,Roma, a Revolução francesa,a nuca de Stalin, as luzes traseirasdo carro de Hitler.Estranho que não se cansenem esmoreça.Às vezes se virae nos mostra sua caracom a boca escancaradae os dentes podres. Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução para o italiano feita […]
- [Louise Glück - Under Taurus](https://singularidadepoetica.art/2020/03/06/louise-gluck-under-taurus/): Estávamos no píer, e você desejavaque eu visse as Plêiades. Eu podia vertudo, menos o que você desejava. Agora o seguirei. Não há uma única nuvem; as estrelasaparecem, até mesmo a irmã invisível. Mostre-me onde olhar,como se elas fossem ficar onde estão. Instrua-me na escuridão. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. […]
- [Dan Fante - [Agora que eu já escrevi]](https://singularidadepoetica.art/2020/03/05/dan-fante-agora-que-eu-ja-escrevi/): Agora que eu já escrevi dez anos de livros e peças e abandonei álcool e cigarros e a gloriosa pornografia suja e minhas roupas não fedem por passar a noite dormindo no velho Pontiac e meu cabelo está caindo e estou dez quilos mais gordo Aos meus cinquenta anos com ligações a retornar e responsabilidades […]
- [Roberto Juarroz - Assim como não podemos](https://singularidadepoetica.art/2020/03/04/roberto-juarroz-assim-como-nao-podemos/): Assim como não podemos sustentar por muito tempo um olhar, também não podemos sustentar por muito tempo a alegria, a espiral do amor, a gratuidade do pensamento, a terra em suspensão do cântico. Não podemos sequer sustentar por muito tempo as proporções do silêncio quando algo o visita. E menos ainda quando nada o visita. […]
- [T. S. Eliot - A Terra Desolada](https://singularidadepoetica.art/2020/03/03/t-s-eliot-a-terra-desolada/): A TERRA DESOLADA 1922 Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse oculis meis vidi in ampulla pendere, et cum illi pueri dicerent: Σίβνλλα τί ϴέλεις; respondebat illa: άπο ϴανεΐν ϴέλω.* A Ezra Paound Il miglior fabbro I. O ENTERRO DOS MORTOS Abril é o mais cruel dos meses, germinando Lilases da terra morta, misturando Memória e […]
- [Manuel António Pina - Sob Escombros](https://singularidadepoetica.art/2018/10/20/manuel-antonio-pina-sob-escombros/): Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir o silêncio do mundo pulsando onde tu também eras mundo, coisa pulsante. Extinguiu-se esse canto não na morte mas na vida excluída da clarividência da infância e de tudo o que pulsa, fins e começos, e corrompida pela estridência e pela heterogeneidade. Agora respondes por nomes supostos, habitante de países hábeis e reais, e precisas de ajuda para as coisas mais simples, o pensamento, o sofrimento, a solidão. A música, só voltarás a escutá-la numa noite lívida, uma noite mais vulnerável do que todas (o presente desvanecendo-se, o passado cada […]
- [John Mateer - s/ título](https://singularidadepoetica.art/2018/10/19/john-mateer-a-sede-entre-os-limites/): Este poema vai ser escrito com um livro de fotografias em mente, comemorando esse retrato da jovem estudante de história de arte que se tornaria a mulher do fotógrafo, a mãe do seu filho, ela que se atiraria de uma janela do apartamento deles, e que, por ter existido, proliferaria, como tudo o que pode ser pronunciado pelo Não-Dito. Trad.: Inês Dias in: https://www.facebook.com/oennui/photos/a.286037448227019/1060660157431407/?type=3&theater
- [Jaime Sabines - Algo sobre a Morte do Major Sabines](https://singularidadepoetica.art/2018/10/18/jaime-sabines-algo-sobre-a-morte-do-major-sabines/): Primeira Parte I Deixa-me repousar, relaxar os músculos do coração e colocar a alma para dormir para poder falar, para poder recordar estes dias, os mais longos dos tempos. Mal convalescemos da angústia e estamos fracos, assustados, despertando duas ou três vezes do nosso escasso sonho para ver-te na noite e saber que respiras. Precisamos despertar para estar mais despertos deste pesadelo cheio de gente e de ruídos. Tu eras o tronco invulnerável e nós os galhos, é por isso que este machado nos sacode. Diante de tua morte nunca paramos para pensar na morte, nem te vimos nunca senão com […]
- [Vitor Nogueira - Domingo](https://singularidadepoetica.art/2018/10/17/vitor-nogueira-domingo/): Acordamos com o céu encostado no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam o domingo, a partir do alto das montanhas. E aqui continuamos, agarrados a nós próprios, como dois miúdos que não têm para onde ir. Estamos presos ao sofá unicamente porque sim, nem tristes nem alegres, metidos no roupão e nos chinelos, pequenos cadeados de trazer por casa. O mundo, esse, vem buscar-nos amanhã. Bate-nos à porta, à hora do costume, palitando os dentes com a ponta da navalha.
- [Antonia Pozzi - Desalento](https://singularidadepoetica.art/2018/10/16/antonia-pozzi-desalento/): Tristeza destas minhas mãos demasiado pesadas para não abrirem feridas, demasiado leves para deixarem marca – tristeza desta minha boca que diz as mesmas palavras que tu – significando outras coisas – e esta é a expressão da mais desesperada distância. Trad.: Inês Dias Sfiducia Tristezza di queste mie mani troppo pesanti per non aprire piaghe, troppo leggere per lasciare un’impronta – tristezza di questa mia bocca che dice le stesse parole tue – altre cose intendendo – e questo è il modo della più disperata lontananza.
- [Nuno Júdice - Outra Imagem](https://singularidadepoetica.art/2018/10/15/nuno-judice-outra-imagem/): Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terra Por cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos. Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomes Familiares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros – música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campas ao fim da tarde, com os ouvidos tapados; quem reze, entre lábios, datas estéreis como as antigas pedras; quem persiga a própria sombra, temendo que ela desapareça sob a erva fresca. Memórias vagas e finais, atormentando-me num secreto espelho – no canto de mim, absorto e pálido, quem me diz o […]
- [Joan Margarit - A moça do semáforo](https://singularidadepoetica.art/2018/10/14/joan-margarit-a-moca-do-semaforo/): Tens a mesma idade que eu tinha quando comecei a sonhar em encontrar-te. Então ignorava, assim como tu o ignoras, que o amor se transforma na arma carregada de solidão e de melancolia que agora está apontada para ti nos meus olhos. Tu és a moça que busquei durante tanto tempo quando ainda não existias. E eu o homem a quem quererás que um dia oriente teus passos. Mas estarei tão longe de ti então como estás agora de mim neste semáforo. Trad.: Nelson Santander Joan Margarit – La muchacha del semáforo Tienes la misma edad que yo tenía cuando empecé […]
- [Manuel António Pina - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2018/10/13/manuel-antonio-pina-os-mortos/): Eu sei, é preciso esquecer, desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los, os nossos mortos anseiam por morrer e só a nossa dor pode matá-los. Tanta memória! O frenesim escuro das suas palavras comendo-me a boca, a minha voz numerosa e rouca de todos eles desprendendo-se de mim. Porém como esquecer? Com que palavras e sem que palavras? Tudo isto (eu sei) é antigo e repetido; fez-se tarde no que pode ser dito. Onde estavas quando chamei por ti, literalidade? E todavia em certos dias materiais quase posso tocar os meus sentidos, tão perto estou, e morrer nos meus sentidos, […]
- [Alfonsina Storni - Leva-me](https://singularidadepoetica.art/2018/10/12/alfonsina-storni-leva-me/): Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar; Ata-me a tua alma; a alva a brilhar. Toma-me pelas mãos como em um branco casulo E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho. Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!… A morte caça pelo mundo tal qual harpia. Faz-me esquecer o muito que me pesa nos ombros Esta carga pesada de pesados escombros. Liberta-me! Em tuas mãos quero pesar menos Do que pesam – luzes – os pensamentos serenos. Mais leve do que o ar, do que o ar muito mais leve Como bolha de espuma a voar na manhã […]
- [Mário Cesariny - "de profundis amamus"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/11/mario-cesariny-de-profundis-amamus/): Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidos por natureza própria Andámos dez quilómetros a pé ninguém nos viu passar excepto claro os porteiros é da natureza das coisas ser-se visto pelos porteiros Olha como só tu sabes olhar a rua os costumes O Público o vinco das tuas calças está cheio de frio e há quatro mil pessoas interessadas nisso Não faz mal abracem-me os teus olhos de extremo a extremo azuis vai ser assim durante muito tempo decorrerão muitos séculos antes de nós mas não te importes não […]
- [Rui Pires Cabral – Nunca se Sabe](https://singularidadepoetica.art/2018/10/10/rui-pires-cabral-nunca-se-sabe/): Papéis velhos com poemas: são o joio das gavetas. Relê-los causa aversão e uma espécie de tristeza arrependida – são tão nossos como as más recordações e ainda vemos a circunstância precisa, a causa, a ferida, por detrás de cada um. Mas na altura havia esperança: é isso que representam. Não pelas coisas que dizem – é só descrença e fastio – mas pela simples razão de termos querido guardá-los. Com um pouco mais de alento, de inspiração e trabalho, ainda se endireita isto. Ou seja, os versos. E até a vida.
- [Amalia Bautista – Ver o Sol](https://singularidadepoetica.art/2018/10/09/amalia-bautista-ver-o-sol/): Leia "Ver o Sol", de Amalia Bautista, um poema breve e intenso sobre desilusão amorosa, percepção e as difíceis verdades da experiência humana.
- [José Mateos - Caminhantes na Neblina](https://singularidadepoetica.art/2018/10/08/jose-mateos-caminhantes-na-neblina/): Símbolo da morte é esta neblina que hoje me envolve nos ecos do bosque solitário, que apaga os caminhos e tudo iguala, que faz mais longe o próximo? Assim será a morte? Ouvir ao lado as pessoas que amamos e não vê-las? Saber que em nossa casa nos aguardam, e não poder, e não saber chegar até ela? Onde estais amigos, pai, irmão? E todas essas sombras antes não eram árvores douradas? Trad.: Nelson Santander Paseantes en la Niebla ¿Símbolo de la muerte es esta niebla que hoy me envuelve en los ecos del bosque solitario, que borra sendas y la […]
- [José Tolentino Mendonça – Calle Principe, 25](https://singularidadepoetica.art/2018/10/07/jose-tolentino-mendonca-calle-principe-25/): Perdemos repentinamente a profundidade dos campos os enigmas singulares a claridade que juramos conservar mas levamos anos a esquecer alguém que apenas nos olhou
- [Angela Figuera Aymerich - Princípio e Fim (na morte de minha mãe)](https://singularidadepoetica.art/2018/10/06/angela-figuera-aymerich-principio-e-fim-na-morte-de-minha-mae/): Já tenho minha raiz debaixo da terra. Já um pouco morta contigo, mãe, há algo da minha vida que se decompõe contigo, com teus ossos delicados, com tuas veias azuis, com teu ventre que côncavo sofreu, dando-me forma. Na ignorância, mãe, não no pecado mostraste-me como a vida brota. Como a carne cresce e se divide no centro sagrado da mulher. Pequena e frágil foste. Pesava-te um filho atrás do outro no regaço com um humilde assombro de perceber-te permanentemente repleta e frutificada. E eu saí de ti com outra força. Com uma ardente audácia de perguntas que tu jamais havias […]
- [Spencer Reece - Portofino](https://singularidadepoetica.art/2018/10/05/spencer-reece-portofino/): Prometa-me que você não esquecerá Portofino. Prometa-me que você encontrará o trompe l’oeil nas paredes daquele quarto no Splendido. As paredes que criam um cenário em que você não pode entrar. Talvez então você compreenda esse anseio por permanência do qual sempre lhe falei. Além do porto? Uma capela amarela. Um penhasco. Prometa-me que você assistirá ao dia declinar. E quando o céu escurecer, quando as estrelas se alastrarem até se estilhaçarem no fim do oceano, você saberá que o que eu falei é verdade quando disse que o abandono é lindo. Trad.: Nelson Santander Portofino Promise me you will not […]
- [Jesús Jiménez Domínguez - A Ponte no Nevoeiro](https://singularidadepoetica.art/2018/10/04/jesus-jimenez-dominguez-a-ponte-no-nevoeiro/): Detenho-me a meio do caminho e ouço. Num extremo aquele que fui grita-me: Espera-me! No outro, aquele que serei sussurra-me: Segue-me. E a ponte, eterna, não aguenta o peso dos três. Trad.: Maria Sousa El Puente en la Niebla Me detengo a mitad del recorrido y escucho. En un extremo aquel que fui me grita: ¡Espérame! En el otro, el que seré me susurra: Sígueme. Y el puente, eterno, no aguanta el peso de los tres.
- [José Gomes Ferreira - Viver Sempre Também Cansa!](https://singularidadepoetica.art/2018/10/03/jose-gomes-ferreira-viver-sempre-tambem-cansa/): Viver sempre também cansa! O sol é sempre o mesmo e o céu azul ora é azul, nitidamente azul, ora é cinza, negro, quase verde… Mas nunca tem a cor inesperada. O Mundo não se modifica. As árvores dão flores, folhas, frutos e pássaros como máquinas verdes. As paisagens não se transformam Não cai neve vermelha Não há flores que voem, A lua não tem olhos Ninguém vai pintar olhos à lua Tudo é igual, mecânico e exato Ainda por cima os homens são os homens Soluçam, bebem riem e digerem sem imaginação. E há bairros miseráveis sempre os mesmos discursos […]
- [Chico Amaral e Samuel Rosa - As Noites](https://singularidadepoetica.art/2018/10/02/chico-amaral-e-samuel-rosa-as-noites-2/): As ruas desse lugar Conhecem bem As noites longas, as noites pálidas Quando eu te procurava As casas desse lugar Se lembrarão Do nosso abraço, da sombra insólita Espelho azul no chão As ruas desse lugar Agora eu sei Sempre escutaram a nossa música Quando eu te respirava As pedras municipais Se impregnaram Da dupla imagem, da dupla solidão, A sombra ali no chão E, lá no céu, constelações Num arranjo inusitado O seu nome desenhado – Pelo menos tinha essa ilusão E, lá no céu, os astros Num arranjo surpreendente Se buscavam como a gente – Pelo menos tinha essa […]
- [Pierre de Ronsard - Quando fores bem velha...](https://singularidadepoetica.art/2018/10/01/pierre-de-ronsard-quando-fores-bem-velha/): Quando fores bem velha, à noite junto à vela, Sentada ao pé do fogo, enovelando e fiando, Dirás, cantando os versos meus e te enlevando: “Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela”. Então nem haverá, ouvindo o recital, Serva, ao fim do trabalho e semi-sonolenta, Que, com som do meu nome, não desperte atenta A saudar o teu nome em louvor imortal. Estarei sob a terra e, fantasma sem osso, Pelas sombras dos mirtos terei meu repouso; Tu serás à lareira uma anciã encolhida Chorando o meu amor e o teu fero desdém. Se me crês, não espere o […]
- [Joan Margarit - Era Rubra](https://singularidadepoetica.art/2018/09/30/joan-margarit-era-rubra/): A Àlex Susanna Tanto tempo demoraste a aprender que estás atrasado para o grande amor: que nunca viveste uma era de ouro. As rosas de Ronsard jamais serão perfume em teu olhar, nenhum outono haverá de desfolhar morosas pétalas nos braços de ninguém. Com negligência tapas os espelhos como era costume em casas onde havia um finado. Não voltam as mulheres com as quais permutavas anos de tua solidão por um fugaz momento de ternura. Tão ardente é a vida no outono que nas horas de angústia não poderás amar nem a mulher que já perdeste. Trad.: Nelson Santander Edad roja […]
- [Joan Margarit - A partida](https://singularidadepoetica.art/2018/09/29/joan-margarit-a-partida/): Definitivamente, este é o meu Outono, um tempo de alianças impossíveis, a era rubra de todos os perigos para homens maduros e mulheres solitárias. A idade do adultério e da desmemória sem nenhuma esperança, a era do gelo, a partida final contra mim mesmo. Mantenho-me à mesa, sem esperar pela sorte, já não há chances neste jogo. É o tempo de jogar paciência com as cartas marcadas da vida. Trad.: Nelson Santander La partida Definitivamente se trata de mi otoño, un tiempo de alianzas imposibles, la edad roja de todos los peligros para hombres maduros y chicas solitarias. La edad del […]
- [Manuel António Pina - Estarei ainda muito perto da luz?](https://singularidadepoetica.art/2018/09/28/manuel-antonio-pina-estarei-ainda-muito-perto-da-luz/): Estarei ainda muito perto da luz? Poderei esquecer estes rostos,estas vozes, e ficar diante do meu rosto? Às vezes,como num sonho, vejo formas como um rosto e pergunto: “De quem é este rosto?” E ainda: “Quem pergunta isto?” E: “E com quem fala?” Estarei ainda longe de Ti, quem quer que sejas ou eu seja? Cresce a noite à minha volta, terei palavras para falar-Te? E compreenderás Tu este, não sei qual de nós,que procura a Tua face entre as sombras? Quando eu me calar sabei que estarei diante de uma coisa imensa. E que esta é a minha voz, o […]
- [Maria do Rosário Pedreira – O Último Abraço](https://singularidadepoetica.art/2018/09/27/maria-do-rosario-pedreira-o-ultimo-abraco/): Este foi o nosso último abraço. E quando, daqui a nada, deixares o chão desta casa encostarei amorosamente os lábios ao teu copo para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos. E então, sim, poderei também eu partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida foi mais, muito mais, do que mereci.
- [Bruno Gouveia e Miguel Cunha – Impossível](https://singularidadepoetica.art/2018/09/26/bruno-gouveia-e-miguel-cunha-impossivel/): Biquíni Cavadão Tudo bem quando termina bem E os seus olhos, e os seus olhos não estão rasos d’água Mas eu sei que no coração ficaram muitas palavras Um vocabulário inteiro de ilusão Tudo que viceja também pode agonizar E perder seu brilho em poucas semanas E não podemos evitar que a vida trabalhe com o seu relógio invisível Tirando o tempo de tudo que é perecível É impossível, é impossível esquecer você É impossível esquecer o que vivi É impossível esquecer, o que senti Tudo que morre fica vivo na lembrança Como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça […]
- [Giuseppe Ghiaroni – A máquina de escrever](https://singularidadepoetica.art/2018/09/25/giuseppe-ghiaroni-a-maquina-de-escrever/): Mãe, se eu morrer de um repentino mal, vende meus bens a bem dos meus credores: a fantasia de festivas cores que usei no derradeiro Carnaval. Vende esse rádio que ganhei de prêmio por um concurso num jornal do povo, e aquele terno novo, ou quase novo, com poucas manchas de café boêmio. Vende também meus óculos antigos que me davam uns ares inocentes. Já não precisarei de duas lentes para enxergar os corações amigos. Vende , além das gravatas, do chapéu, meus sapatos rangentes. Sem ruído é mais provável que eu alcance o Céu e logre penetrar despercebido. Vende meu […]
- [Pedro Mexia – Paráfrase](https://singularidadepoetica.art/2018/09/24/pedro-mexia-parafrase/): Este poema começa por te comparar com as constelações, com os seus nomes mágicos e desenhos precisos, e depois um jogo de palavras indica que sem ti a astronomia é uma ciência infeliz. Em seguida, duas metáforas introduzem o tema da luz e dos contrastes petrarquistas que existem na mulher amada, no refúgio triste da imaginação. A segunda estrofe sugere que a diversidade de seres vivos prova a existência de Deus e a tua, ao mesmo tempo que toma um por um os atributos que participam da tua natureza e do espaço criador do teu silêncio. Uma hipérbole, finalmente, diz que […]
- [David Mourão-Ferreira - Praia do Paraíso](https://singularidadepoetica.art/2018/09/23/david-mourao-ferreira-praia-do-paraiso/): Era a primeira Vez que nus os nossos corpos Apesar da penumbra à vontade se olhavam Surpresos de saber que tinham tantos olhos Que podiam ser luz de tantos candelabros Era a primeira vez cerrados os estores Só o rumor do mar permanecera em casa E sabias a sal, e cheiravas a limos Que tivesses ouvido o canto das cigarras Havia mais que céu no céu do teu sorriso Madrugada de tudo em tudo que sonhavas Em teus braços tocar era tocar os ramos Que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo É preciso afinal chegar aos cinquenta anos […]
- [Antonia Pozzi - Canto da Minha Nudez](https://singularidadepoetica.art/2018/09/22/antonia-pozzi-canto-da-minha-nudez/): Olha para mim: estou nua. Da inquieta languidez da minha cabeleira até à tensão fina do meu pé, sou toda de uma magreza amarga envolta numa cor de marfim. Olha: como é pálida a minha carne. Dir-se-ia que o sangue não a percorre. O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida pulsação azul se esbate no meio do peito. Vê como tenho o ventre côncavo. Incerta é a curva das ancas, mas os joelhos e os tornozelos e todas as articulações são escanzelados e duros como os de um puro-sangue. Hoje, deito-me nua, na limpidez da banheira branca e deitar-me-ei nua amanhã […]
- [Amalia Bautista – Contra 'Remedia Amoris'](https://singularidadepoetica.art/2018/09/21/amalia-bautista-contra-remedia-amoris/): Não sou desse género de mulheresincapazes de amor e de ternura.Odeio o sacrifício e repugna-mea vaidade que nasce da violência,mas sei o que é valor e o que é sangue.Quero ser a mulher de um mercenário,de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.Porque sei olhar nos olhos dos homens.Conheço quem merece a minha ternura. Trad.: Inês Dias Luz del medio día Contra ‘Remedia Amoris’ Yo no soy de ese tipo de mujeresincapaces de amor y de ternura.Yo sé lo que es valor y lo que es sangre,aunque odie el sacrificio y me repugnela vanidad que nace en la violencia.Quiero ser […]
- [Eugénio de Andrade – As Mãos](https://singularidadepoetica.art/2018/09/20/eugenio-de-andrade-as-maos/): Que tristeza tão inútil essas mãos que nem sequer são flores que se dêem: abertas são apenas abandono, fechadas são pálpebras imensas carregadas de sono.
- [João Cabral de Melo Neto – de "Os Três Mal Amados"](https://singularidadepoetica.art/2018/09/19/joao-cabral-de-melo-neto-de-os-tres-mal-amados/): Trecho de “Os Três Mal Amados”, de João Cabral de Melo Neto, em que o amor surge como força devoradora que corrói identidade, memória e futuro, deixando o sujeito reduzido à própria perda.
- [Rui Pires Cabral - «He loved beauty that looked kind of destroyed»](https://singularidadepoetica.art/2018/09/18/rui-pires-cabral-he-loved-beauty-that-looked-kind-of-destroyed/): Gostava dessa espécie de beleza que podemos surpreender a cada passo, desvelada pelo acaso numa esquina de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta que foi toda a infância de alguém, com visitas ao domingo e tardes no quintal depois da escola; a beleza crepuscular de alguns rostos num retrato de família a preto e branco, ou a de certos hotéis que conheceram há muito os seus dias de fulgor e foram perdendo estrelas; a beleza condenada que nos toma de repente, como um verso ou o desejo, como um copo que se parte e dispersa no soalho a frágil luz […]
- [Nuno Júdice - Como Aves, Cuja Passagem](https://singularidadepoetica.art/2018/09/17/nuno-judice-como-aves-cuja-passagem/): Como sombras passaram entre nós, como sombras. Uma vez perante alguns amigos e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei os seus nomes. Mas o que não correspondia a um acto heroico, nada significava hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. Só se eu próprio me tornar uma sombra, e também eu passar a uma outra vida. Durante algum tempo alguém falará de mim dizendo “conheci-o”, ou “há tanto tempo falei com ele”. Mas em breve outros se tornarão sombras, e depois outros, até que o meu gesto se confunda com esses, e todos por fim se dissipem na obscuridade do tempo passado.
- [Hilda Hilst : Dez chamamentos ao amigo](https://singularidadepoetica.art/2018/09/16/hilda-hilst-dez-chamamentos-ao-amigo/): I Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. E era como se a água Desejasse Escapar de sua casa que é o rio E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há um tempo Entendo que sou terra. Há tanto tempo Espero Que o teu corpo de água mais fraterno Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta Olha-me de novo. Com menos altivez. E mais atento. II Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me. E eu te direi que o nosso tempo é agora. Esplêndida altivez, vasta […]
- [Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe](https://singularidadepoetica.art/2018/09/15/tamara-kamenszain-o-eco-de-minha-mae/): Não posso narrar. Que pretérito me serviria se minha mãe já não se afasta mais de mim? Exúbere então me detenho ante um estado de coisas demasiado presente: ser a descuidada que dela cuida enquanto outros a negligenciam por mim. São as pessoas que me restaram e a gramática se torna um escândalo quando ela que esqueceu as palavras ultrapassa seu bebê furioso com o fim de dizer tudo embora não se entenda nada. Trad.: Nelson Santander El eco de mi madre No puedo narrar. ¿Qué pretérito me serviría si mi madre ya no me teje más? Desmadrada entonces me […]
- [Anna Akhmátova – Último Brinde](https://singularidadepoetica.art/2018/09/14/anna-akhmatova-ultimo-brinde/): Bebo ao lar em pedaços,À minha vida feroz,À solidão dos abraçosE a ti, num brinde, ergo a voz… Ao lábio que me traiu,Aos mortos que nada veem,Ao mundo, estúpido e vil,A Deus, por não salvar ninguém. Trad.: Rubens Figueiredo Последний тост Я пью за разоренный дом,За злую жизнь мою,За одиночество вдвоем,И за тебя я пью,— За ложь меня предавших губ,За мертвый холод глаз,За то, что мир жесток и груб,За то, что Бог не спас.
- [Rui Lage - EN 314](https://singularidadepoetica.art/2018/09/13/rui-lage-en-314/): Ardidas há muito as velas de ignição que davam centelha ao meu antigo e primeiro coração. Agora sou apenas um ponto morto, sem tração: rolo sem atrito mas também sem aflição. A estrada adormece em bosques propícios a emboscadas, mas já não tenho crenças que mereçam ser cobiçadas. E os meus sonhos, até os meus sonhos me parecem guiados lá do alto por sinais de GPS.
- [Albano Martins - Haicais](https://singularidadepoetica.art/2018/09/12/albano-martins-haicais/): Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por ti. *A andorinha faza sua casano vento. *Quando o verãomorre, as amorasvestem-se de luto. *Nem sempre a nevecai do céu: às vezesexplode numa flor. *Um mar azulpintou de brancoo voo das gaivotas.
- [Manuel António Pina - de "Cuidados Intensivos"](https://singularidadepoetica.art/2018/09/11/manuel-antonio-pina-cuidados-intensivos/): I “A esta hora e neste sítio (miocárdio ventricular esquerdo) é a abstracta vida que me assalta. Eles não sabem que o seu coração pulsa, ferido, no meu coração, que a minha dor alheia vagarosamente mata os seus sonhos, os seus sentidos, os seus dias visíveis e invisíveis, a linha dos telhados ao longe sobre o céu. Como saberiam (com que palavras exteriores?) que existem dentro de mim de um modo fora de mim, os parentes, os amigos, a vaga enfermeira da noite, que enquanto o meu Único coração morre na minha cabeça a luz do quarto se apaga para sempre […]
- [Eunice de Souza – Convite](https://singularidadepoetica.art/2018/09/10/eunice-de-souza-convite/): Tenta-me com uma visão de colinas relva que é verde pavões tão vulgares como pardais. Podemos ler no pátio, diz ela, ouvindo o picapau às voltas com a sua árvore, admirar as rosas, colher fruta, contar estrelas. Traga a tia, os cães, o periquito, diz, escreva um ou dois poemas felizes. De vez em quando, continua, iremos até à aldeia para sabermos como é que o mundo não vai. Trad.: Francisco José Craveiro de Carvalho Invitation She tempts me with the vision of hills grass that’s green peacecocks as common as sparrows We can read in the courtyard, she says, to […]
- [José Mateos - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2018/09/09/jose-mateos-in-memoriam/): Para Pedro Sevilla Sempre, frente à dor, estamos sozinhos, não se quer viver, e tu sabes disso. Há um instante viste, na penumbra de um quarto de hospital, a mão hirta, seu rosto naufragado que o lençol cobriu. E era como mirar-se em um espelho e ver que somos menos que essa ausência, menos que a névoa que o ar entorna. Já sei; sentes que agora a noite somente declara sua absurda palavra, e vês a humilhação, vês o esforço que foi esta despedida. Não obstante, escuta-me: não sofras. Porque sempre – mesmo nos dia nublados, ou quando acontece o inevitável, […]
- [Elisa Lucinda - Do Efêmero Presente](https://singularidadepoetica.art/2018/09/08/elisa-lucinda-do-efemero-presente/): Às vezes passo um dia e sinto que o perdi. Um dia sem importâncias dentro dele, sem fruto, sem feito, metade avião, metade hotel. Mas que mania é essa de querer que o pobre do dia seja sempre cheio de tarefas? Um dia escravinho, sofrendo na senzala calendário. Ora essa, tem gente que dorme quase todos os dias o dia todo, tem gente que passa o dia sequestrado pela tela da televisão, cama, sofá e dor nas costas. Tem gente que nem nota, tem quem vive só no computador, toma remédio para nem sentir passar o dia, e toma outro para […]
- [Paulo Henriques Britto - Entrevista](https://singularidadepoetica.art/2018/09/08/paulo-henriques-britto-entrevista/): Ótima entrevista concedida por Paulo Henriques Britto (para mim, o melhor poeta brasileiro vivo) a Ramon Ramos, e publicada no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco. Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1952), além de poeta, é contista, tradutor e professor da PUC-Rio. Sua obra poética, desde a estreia em Liturgia da matéria (1982), apresenta interesse pelas formas fixas, cujos limites instigam o autor também pelo desafio no instante da criação. Poeta que discute a contenção de versos e emoções, Paulo recebeu os prêmios Alphonsus de Guimaraens, por seu Trovar claro (1997), e Portugal Telecom (atual Oceanos) por […]
- [Joan Margarit - Ulisses nas Águas de Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2018/09/07/joan-margarit-ulisses-nas-aguas-de-itaca/): Estás chegando a ilha e agora sabes o que é o acaso. Viver, o que significa. Teu arco será poeira em uma estante. Poeira será o tear e a peça que ele tece. Os pretendentes, que no pátio acampam, são sombras dos sonhos de Penélope. Estás chegando a ilha enquanto explode o mar contra as rochas da costa, como faz o tempo contra a Odisseia. Ninguém jamais teceu alguma vez tua ausência nem, sem rumores, descoseu o esquecimento. Por mais que, às vezes, a razão o ignore, Penélope é a sombra de teu sonho. Estás chegando a ilha: as gaivotas cobrem […]
- [Vitor Nogueira - Formol](https://singularidadepoetica.art/2018/09/06/vitor-nogueira-formol/): A casa por sob o sótão. O sótão por sobre a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre o mundo. À volta desta praça, quis o tempo conservados em formol os edifícios, esquinas de onde surgem cada vez mais perguntas sem aviso. Escondida pela fachada do liceu há-de estar ainda a velha biblioteca onde Ulisses veio sentar-se à tua frente, cotovelo esquerdo alicerçado no tampo da secretária, braço servindo de coluna, rematado em capitel pelo punho semicerrado que lhe amparava o queixo e, acima do queixo, o olhar e as ideias. Eras demasiado novo para todos aqueles […]
- [Kenneth Rexroth – Leão](https://singularidadepoetica.art/2018/09/05/kenneth-rexroth-leao/): O leão é chamado de rei Dos animais. Atualmente existem Quase tantos leões Em jaulas quanto fora delas. Se te oferecerem uma coroa, recusa. Trad.: José Antônio Cavalcanti Lion The lion is called the king Of beasts. Nowadays there are Almost as many lions In cages as out of them. If offered a crown, refuse.
- [Ruy Belo – Através da chuva e da névoa](https://singularidadepoetica.art/2018/09/04/ruy-belo-atraves-da-chuva-e-da-nevoa/): Chovia e vi-te entrar no mar longe de aqui há muito tempo já ó meu amor o teu olhar o meu olhar o teu amor Mais tarde olhei-te e nem te conhecia Agora aqui relembro e pergunto: Qual é a realidade de tudo isto? Afinal onde é que as coisas continuam e como continuam se é que continuam? Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos a casa povoada o nome no registo uma menção no livro das primeiras letras? Chovia e vi-te entrar no mar ó meu amor o teu olhar o meu olhar o teu amor Que importa que […]
- [João Luís Barreto Guimarães - Um Quarto de Hotel em Madrid](https://singularidadepoetica.art/2018/09/04/joao-luis-barreto-guimaraes-um-quarto-de-hotel-em-madrid/): Não se chega a pertencer nunca a um quarto de hotel. Não se lhe ganha afecto (não é nosso por inteiro) se é certo que amanhã outro dono estará emoldurado ao espelho. Não se chega a confiar nele (não se lhe lega segredos) sequer a palavra impudica expurgada da pele pela toalha de banho. Não chega a ser nossa a cama (não se molda a nosso jeito) melhor que nem te despeças dessa alcova pela manhã quando sabes como é lesta a entregar-se ao próximo viandante por dinheiro.
- [Henri Michaux – Nós dois ainda](https://singularidadepoetica.art/2018/09/02/henri-michaux-nos-dois-ainda/): 1948 Música do fogo, tu não soubeste tocar. Lançaste sobre a minha casa um pano negro. O que é este opaco em toda a parte? É o opaco que tapou o meu céu. O que é este silêncio em toda a parte? É o silêncio que calou o meu canto. * De esperança tinha-me bastado um fio de água. Mas tu levaste tudo. O som que vibra foi-me retirado. * Tu não soubeste tocar. Pegaste nas cordas. Mas não soubeste tocar. Estragaste logo tudo. Partiste o violino. Lançaste sobre a pele de seda uma chama para fazer um horrível pântano de […]
- [Amalia Bautista - Nada Sabemos](https://singularidadepoetica.art/2018/09/01/amalia-bautista-nada-sabemos/): Nunca saberemos se os enganadossão os sentidos ou os sentimentos,se viaja o comboio ou a nossa ânsia,se as cidades mudam de lugarou se todas as casas são a mesma.Nunca saberemos se quem nos esperaé quem deve esperar-nos, nem sequerquem temos de esperar no meio de umaplataforma fria. Nada sabemos.Avançamos às cegas, perguntandose isto que se parece com a alegriaé apenas o sinal inequívocode que nos enganamos novamente. Trad.: Inês Dias Luz del medio día Nada Sabemos Nunca sabremos si los engañadosson los sentidos o los sentimientos,si viaja el tren o viajan nuestras ganas,si las ciudades cambian de lugaro si todas las […]
- [Maria Lúcia Alvim - Nosferatu](https://singularidadepoetica.art/2018/08/31/maria-lucia-alvim-nosferatu/): Não era bem isso que eu queria, no entanto, ele veio. Olho de vidro, dente de espada, sopro de guerreiro afeito à noite. – Por que tarda tanto o teu amanhecer sob a capa? – Porque veio? perguntei. E ele debruçava, derramava sobre mim um jeito de morrer.
- [Luís Felipe Castro Mendes – Estóicos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/30/luis-felipe-castro-mendes-estoicos/): Deixa-te ficar comigo à beira do rio. Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza nem a sedução da mocidade. Se te falarem dos deuses, finge entender. E se chamarem poeta ao dono do circo, concorda gravemente.
- [Víctor Botas - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/29/victor-botas-collige-virgo-rosas/): Não falta quem suponha que em sessenta bilhões de anos voltaremos a ser como agora (aparentemente o Espaço se dilata para logo, elástico, encolher-se e novamente outra vez dilatar-se), repetindo tu, as profundidades desses olhos, eu, este esperar a morte de tua mão agônica nas minhas, aqui mesmo, neste lugar. Mas, caso seja tudo uma mentira e nunca mais a história se repita e, como eu suspeito, o tempo voe – eheu fugaces – para uma noite eterna, me parece que o melhor que faríamos seria (hoje dou uma lição a Horácio) agarrar esse instante que se vai com unhas e […]
- [Luis Alberto de Cuenca - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/28/luis-alberto-de-cuenca-collige-virgo-rosas/): Moça, colhe as rosas, não esperes a manhã. Corta-as velozmente, desaforadamente, sem parar para pensar se elas são más ou boas. Que não sobre nenhuma. Poliniza os rosais que encontrares em teu caminho e deixa os espinhos para tuas colegas do colégio. Desfruta da luz e do ouro enquanto podes e consagra tua beleza a esse deus gordo e melancólico que anda pelos jardins instilando veneno. Goza lábios e línguas, acaba-te com gosto com quem saíres e não permitas que o outono apanhe-te com a pele seca e sem um homem (pelo menos) comendo-te a essência da alma. E que a […]
- [Felipe Benitez Reyes - "Collige Rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/27/felipe-benitez-reyes-collige-rosas/): Consumir este dia como se fosse o último. Queima-lo como o último cigarro que restou ao insone. Retarda-lo nos lábios como a sílaba última de uma fórmula mágica. Que dependa dele – como a moeda que o suicida reticente lança ao ar – o exato sentido da vida essa confusão de quimeras que morrem nas mãos como rosas pisadas, ruborizadas de cor e aturdimento. Trad.: Nelson Santander Collige Rosas Apurar este día como si fuese el último. Quemarlo como el último cigarrillo que le queda al insomne. Demorarlo en los labios como la sílaba última de una fórmula mágica. Que dependa […]
- [Francisco Brines - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/26/francisco-brines-collige-virgo-rosas/): Estás já com quem queres. Ri e goza. Ama. E anima-te na noite que agora começa, e entre tantos amigos (e comigo) abre os grandes olhos para a vida com a avidez preciosa de tua idade. A noite, longa, há de acabar ao amanhecer, e virão esquadrões de espiões com a luz, apagar-se-ão as estrelas, e também a memória, e a alegria acabará em seu nada. Mas, mesmo que isso aconteça, anima-te na noite, pois por trás do esquecimento pode ser que ela renasça, e a recobres pura, e aumentada em beleza, se nela, por acaso, que será uma escolha, cerrares […]
- [Garcilaso de la Vega - Soneto XXIII](https://singularidadepoetica.art/2018/08/25/garcilaso-de-la-vega-soneto-xxiii/): Enquanto que de rosa e de açucena se mostra toda a cor neste teu rosto, enquanto o teu olhar ardente, honesto, acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjas do ouro se escolheu, com voo presto, sobre o formoso colo branco, ereto, o vento move, espalha e desarranja: colhe de tua alegre primavera o doce fruto, antes que o tempo airado recubra de neve o formoso cume; murchará a rosa o vento gelado. Mudará tudo o tempo que não espera, tão só por não mudares teu costume. Trad.: Nelson Santander Soneto XXIII En tanto que […]
- [Jorge Luis Borges - Cristo na Cruz](https://singularidadepoetica.art/2018/08/24/jorge-luis-borges-cristo-na-cruz/): Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.Os três madeiros são de igual altura.Cristo não é o do meio. É o terceiro.A negra barba pende sobre o peito.O rosto não é este das gravuras.É áspero e judeu. Mas não o vejoE vou buscá-lo sempre até o diaDe meu último passo sobre a terra.O homem alquebrado sofre e cala.A coroa de espinhos o castiga.A chacota da plebe não o alcançaJá tantas vezes viu sua agonia.A sua ou a desse outro. Dá no mesmo.Cristo na cruz. DesordenadamentePensa no reino que talvez o espera,Pensa numa mulher que não foi sua.Não lhe foi dado ver […]
- [Francisco Brines - Os Prazeres Inferiores](https://singularidadepoetica.art/2018/08/23/francisco-brines-os-prazeres-inferiores/): Não desdenhes as paixões vulgares Tens os anos necessários para saber que elas se correspondem exatamente com a vida. Não reduzas sua ação, pois se do breve tempo em que consistes as retiras, é ainda o existir mais imperfeito. Descobre sua verdade por trás da aparência, e assim não haverá falsidade, não poderás fingir que foi razão de vida o que foi só passagem. Mas elas evitaram-te o fiel tédio das horas. Exigem lucidez, não em sua experiência, mas em seu escasso ser; dá-lhes seu exato valor, para o que tens de saber o que a vida vale e essa sabedoria […]
- [Amalia Bautista - Os Teus Olhos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/22/amalia-bautista-os-teus-olhos/): Quando já se esgotaram os caminhos que a razão poderia aconselhar-nos abrem-se os teus olhos: com eles tudo volta a inundar-se da luz escura que dá sentido ao mundo e à minha vida. Trad.: Inês Dias Tus Ojos Cuando se han agotado los caminos que la razón podría aconsejarnos se abren tus ojos, y con ellos todo vuelve a inundarse de la luz oscura que da sentido al mundo y a mi vida.
- [Joan Margarit - Espaço e Tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/08/21/joan-margarit-espaco-e-tempo/): E de repente a casa é demasiado grande. Tua mãe e eu esvaziamos teus armários e seguimos por mesas e prateleiras, de retrato em retrato, teus sorrisos. À noite os espelhos, sob a luz elétrica, expõem com mais ênfase o teu vazio. Os móveis são agora mais escuros. Pela escada desce a cálida balaustrada que ainda se lembra de tua pequena mão, e os degraus que ainda sentem o roçar de teus passos. E a casa, grande e vazia agora, mira e remira o seu próprio silêncio. Trad.: Nelson Santander Espacio y Tiempo Y de pronto la casa es demasiado […]
- [Manuel António Pina - Amor como em Casa](https://singularidadepoetica.art/2018/08/20/manuel-antonio-pina-amor-como-em-casa/): Amor como em casa, um poema de Manuel António Pina
- [Antonia Pozzi – Grito](https://singularidadepoetica.art/2018/08/19/antonia-pozzi-grito/): Não ter um Deus não ter um túmulo não ter nada de certo mas apenas coisas vivas que nos fogem – existir sem ontem existir sem amanhã e cegar no vazio – socorro – pelo sofrimento que não tem fim – 10 de fevereiro de 1932 Trad.: Inês Dias Grido Non avere un Dio non avere una tomba non avere nulla di fermo ma solo cose vive che sfuggono – essere senza ieri essere senza domani ed acciecarsi nel nulla – – aiuto – per la miseria che non ha fine – 10 febbraio 1932
- [Miguel Torga – Sísifo](https://singularidadepoetica.art/2018/08/18/miguel-torga-sisifo-poema/): Sísifo, um poema de Miguel Torga
- [Rainer Maria Rilke – O Poeta](https://singularidadepoetica.art/2018/08/17/rainer-maria-rilke-o-poeta/): Já te despedes de mim, Hora. Teu golpe de asa é o meu açoite. Só: da boca o que faço agora? Que faço do dia, da noite? Sem paz, sem amor, sem teto, caminho pela vida afora. Tudo aquilo em que ponho afeto fica mais rico e me devora. Trad.: Augusto de Campos Der Dichter Du entfernst dich von mir, du Stunde, Wunden schlägt mir dein Flügelschlag. Allein: was soll ich mit meinem Munde? mit meiner Nacht? mit meinem Tag? Ich habe keine Geliebte, kein Haus, keine Stelle, auf der ich lebe, Alle Dinge, an die ich mich gebe, werden reich […]
- [Jane Hirshfield - O Homem Gentil](https://singularidadepoetica.art/2018/08/16/jane-hirshfield-o-homem-gentil/): Eu vendi o relógio do meu avô, seu ouro nacarado e padrões pontilhados, para ser derretido. Engrenagem condenada. Tampa faltando. Corrente — deve ter havido uma — faltando. Números que foram pintados com um única e hábil cerda. Dei corda na coroa antes de entrega-lo por sobre o balcão. O homem gentil agarrou o que eu lhe trouxe como se fosse para a Stasi. Ele pesou o mel do tempo. Trad.: Nelson Santander The kind man I sold my grandfather’s watch, its rosy gold and stippled pattern to be melted. Movement unreparable. Lid missing. Chain — there must have been one […]
- [Rui Pires Cabral - "Are Others Happier?"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/15/rui-pires-cabral-are-others-happier-poema/): "Are Others Happier?", um poema de Rui Pires Cabral
- [Joan Margarit - Despedir-se](https://singularidadepoetica.art/2018/08/14/joan-margarit-despedir-se/): Removi tapetes e cortinas, todas as mesas em que há tempos não como nem escrevo. Tirei os quadros e pintei as paredes para apagar os sinais dos anos. Guardo uns poucos livros. Sei bem quais. Destruí cartas de amor que não me amavam mais. Silenciosos, agora, os amores são icebergs errantes do pensamento. A casa, sem desvãos para o medo, deixa meus olhos mais nus. Nada, nem a esperança, pode perturbar já a última morte. Não há outra casa para os que amo. Trad.: Nelson Santander Joan Margarit – Despedirse He retirado alfombras y cortinas, todas las mesas en las que […]
- [Manuel António Pina - Os Gatos](https://singularidadepoetica.art/2018/08/13/manuel-antonio-pina-os-gatos/): Há um deus único e secretoem cada gato inconcretogovernando um mundo efémeroonde estamos de passagem Um deus que nos hospedanos seus vastos aposentosde nervos, ausências, pressentimentos,e de longe nos observa Somos intrusos, bárbaros amigáveis,e compassivo o deuspermite que o sirvamose a ilusão de que o tocamos
- [Stein Mehren – Grandes Perguntas](https://singularidadepoetica.art/2018/08/12/stein-mehren-grandes-perguntas/): As grandes perguntas não têm soluções, não têm resposta Grandes perguntas não são feitas para serem respondidas Mas para serem vividas Os maiores mistérios continuam sendo mistérios. E na condição de mistérios permitem apreender nosso lugar no mundo, posto que inevitavelmente nos colocam em nossos devidos lugares dentro de nós mesmos. Trad.: Ana Cristina de Aguiar STORE SPØRSMÅL De store spørsmål har ingen løsninger, har ingen svar Store spørsmål er ikke til for at vi skal besvare dem Men for at vi skal leve dem De største gåtene forblir gåter. Og det er som gåter de lar oss forstå vår plass […]
- [Ruy Belo – Muriel](https://singularidadepoetica.art/2018/08/11/ruy-belo-muriel/): Às vezes se te lembras procurava-te retinha-te esgotava-te e se te não perdia era só por haver-te já perdido ao encontrar-te Nada no fundo tinha que dizer-te e para ver-te verdadeiramente e na tua visão me comprazer indispensável era evitar ter-te Era tudo tão simples quando te esperava tão disponível como então eu estava Mas hoje há os papéis há as voltas dar há gente à minha volta há a gravata Misturei muitas coisas com a tua imagem Tu és a mesma mas nem imaginas como mudou aquele que te esperava Tu sabes como era se soubesses como é Numa vida […]
- [Lêdo Ivo – O Dia dos Homens](https://singularidadepoetica.art/2018/08/10/ledo-ivo-o-dia-dos-homens/): Viver é preciso. Não existe inferno nem paraíso. Apenas o chão. E uma persistente chuva de verão.
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Apesar das ruínas e da morte](https://singularidadepoetica.art/2018/08/09/sophia-de-mello-breyner-andresen-apesar-das-ruinas-e-da-morte/): Apesar das ruínas e da morte,Onde sempre acabou cada ilusão,A força dos meus sonhos é tão forte,Que de tudo renasce a exaltaçãoE nunca as minhas mãos ficam vazias. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ryane Leão – "Você é uma frase bonita"](https://singularidadepoetica.art/2018/08/08/ryane-leao-voce-e-uma-frase-bonita/): você é uma frase bonita dessas que a gente sublinha no livro faz tatuagem, conta pra todo mundo dessas que dividem a gente em antes e depois
- [Sonja Åkesson – Primavera e Outono, Verão e Inverno](https://singularidadepoetica.art/2018/08/07/sonja-akesson-primavera-e-outono-verao-e-inverno/): A grade que enferrujou. O pão que empedrou. O vento que correu em busca de uma caixa d’água. Primavera e outono, verão e inverno. Isso foi tudo. E é claro, a morte também sonolenta e bem empanturrada como um gato castrado bocejando enquanto as estações do ano vão e voltam deixando um gosto amargo em nossas bocas. Trad.: Fernanda Sarmatz Åkesson VÅR OCH HÖST, SOMMAR OCH VINTER Gallret som rostade. Brödet som bet sig fast. Vinden som sprang och letade efter en vattentunna. Vår och höst, sommar och vinter. Var det allt. Ja, och så döden förstås dåsig som en […]
- [Nuno Júdice – Carpe Diem](https://singularidadepoetica.art/2018/08/06/nuno-judice-carpe-diem/): Confias no incerto amanhã? Entregas às sombras do acaso a resposta inadiável? Aceitas que a diurna inquietação da alma substitua o riso claro de um corpo que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos, os instantes; e nos lábios dessa que amaste morre um fim de frase, deixando a dúvida definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória, para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém, nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias; e abraças a própria figura do vazio. Então, por que esperas para sair ao encontro da vida, do sopro quente da primavera, das margens […]
- [Manuel António Pina - Farewell Happy Fields - IV](https://singularidadepoetica.art/2018/08/05/manuel-antonio-pina-farewell-happy-fields-iv-poema/): Farewell Happy Fields - IV, um poema de Manuel António Pina
- [Ivan Junqueira – Hoje](https://singularidadepoetica.art/2018/08/04/ivan-junqueira-hoje/): A sensação oca de que tudo acabou o pânico impresso na face dos nervos o solitário inverno da carne a lágrima, a doce lágrima impossível… e a chuva soluçando devagar sobre o esqueleto tortuoso das árvores
- [Assionara Souza – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/03/assionara-souza-a-mulher-de-lot/): Um passo atrás Enquanto a cidade desaba Todos correndo Um tumulto dos diabos O filho, a filha, o marido A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz Como se ela não soubesse Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida Ele perguntando se a camisa vermelha — Aquela com um só bolso no lado direito? — Sim. Essa mesma. Se a camisa vermelha não estava limpa e bem passada E o filho indo no mesmo caminho Tratando-a feito lixo — A mãe não sabe pronunciar a palavra […]
- [Wislawa Szymborska – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/02/wislawa-szymborska-a-mulher-de-lot/): Dizem que olhei para trás curiosa. Mas quem sabe eu também tinha outras razões. Olhei para trás de pena pela tigela de prata. Por distração – amarrando a tira da sandália. Para não olhar mais para a nuca virtuosa do meu marido Lot. Pela súbita certeza de que se eu morresse ele nem diminuiria o passo. Pela desobediência dos mansos. Alerta à perseguição. Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia. Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro. Senti em mim a velhice. O afastamento. A futilidade da errância. Sonolência. Olhei para trás enquanto […]
- [Anna Akhmátova – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2018/08/01/anna-akhmatova-a-mulher-de-lot/): A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás e transformou-se numa estátua de sal. Gênesis E o homem justo seguiu o enviado de Deus, alto e brilhante, pelas negras montanhas. Mas a angústia falava bem alto à sua mulher: “Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar as rubras torres da tua Sodoma natal, a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas, as janelas vazias da casa elevada onde destes filhos ao homem amado”. Ela olhou e – paralisada pela dor mortal -, seus olhos nada mais puderam ver. E converte-se o corpo em transparente sal e […]
- [Arnaldo Antunes – Lugar Nenhum](https://singularidadepoetica.art/2018/07/31/titas-lugar-nenhum-2/): [youtube https://www.youtube.com/watch?v=E5iMIFJ-vLU&w=560&h=315] Não sou brasileiro Não sou estrangeiro Não sou brasileiro Não sou estrangeiro Eu não sou de nenhum lugar Sou de lugar nenhum Sou de lugar nenhum Não sou de São Paulo Não sou japonês Não sou carioca Não sou português Não sou de Brasília Não sou do Brasil Nenhuma pátria me pariu Eu não tô nem aí Eu não tô nem aqui Eu não tô nem aí
- [Francisco José Viegas – O Estoril](https://singularidadepoetica.art/2018/07/30/francisco-jose-viegas-o-estoril-poema/): O Estoril, um poema de Francisco José Viegas
- [Knut Hamsun – Em cem anos, tudo estará esquecido](https://singularidadepoetica.art/2018/07/29/knut-hamsun-em-cem-anos-tudo-estara-esquecido/): Reviro-me insone por noites a fio, qual náufrago num barco adernando, e tudo por que tanto tenho sofrido ao fim sempre vem dar em pranto. Mas por que sofrer tanto? Em cem anos, tudo estará esquecido. Num sobressalto me vejo cantando personagem da própria labuta. Comungo com Deus qual gigante desperto e a mesa com o diabo divido. Por que, afinal, tamanha disputa? Em cem anos, tudo estará esquecido. Eis que então cessa enfim o conflito e de alma enlevada ao mar eu me faço. Nas vagas amargas me lanço e assisto a meu mundo ser engolido. Por que preferir um […]
- [Vitor Nogueira - Sala](https://singularidadepoetica.art/2018/07/28/vitor-nogueira-sala-poema/): Sala, um poema de Vitor Nogueira
- [Miriam Reyes - Imóvel](https://singularidadepoetica.art/2018/07/27/miriam-reyes-imovel/): abandonado a teu peso de homem imóvel olhas-me com antiquíssimos ressentimentos. Ouve-me bem: sou inocente de teu passado não sou a tua puta mãe nem a tua enferma mãe nem a tua louca mãe embora seja uma puta louca. Não mereço receber agressões alheias, atrasadas e caducas. Não projetes em mim os fantasmas de tua infância, tenho forma, cor e dimensões próprias. Tampouco venhas para mim chorando como um bebê quando não o és este colo que te acolhe também te deseja. Não exageres, a mim também me expulsaram do paraíso antes do tempo e sem notificação prévia, a quem é […]
- [Joan Margarit - Um pobre instante](https://singularidadepoetica.art/2018/07/26/joan-margarit-um-pobre-instante/): A morte não é mais do que isto: um quarto, a luminosa tarde na janela, e este toca-fitas na mesinha tão desligado como o teu coração com todas as tuas canções cantadas para sempre. Teu último suspiro segue dentro de mim, todavia em suspenso: não deixo que termine. Sabes qual é, Joana, o próximo concerto? Ouves como no pátio da escola as crianças estão brincando? Sabes, ao final da tarde, como será esta noite, noite de primavera? Pessoas virão. A casa acenderá todas as suas luzes. Trad.: Nelson Santander Joan Margarit – Un pobre instante La muerte no es más que […]
- [Manuel António Pina - Teoria das Cordas](https://singularidadepoetica.art/2018/07/25/manuel-antonio-pina-teoria-das-cordas-poema/): Teoria das Cordas, um poema de Manuel António Pina
- [Josep M. Rodríguez – Equação](https://singularidadepoetica.art/2018/07/24/josep-m-rodriguez-equacao/): De pé neste penhasco, aceito a mentira da paisagem. Tudo é inacessível: o orvalho – que é suor vegetal – e o comboio que passa. Uma cegonha voa a preto e branco. Tem o seu ninho no cimo da igreja que fica junto ao cemitério. Estranho paradoxo, a pedra testemunha a fugacidade, a carne é apenas um leito para o tempo. (Cada osso que tenho é uma lápide pelos mortos que escondo no meu íntimo.) Para quê contar o tempo que nos resta? Viver é abraçar escuridões: do que não sabemos ao que não sabemos, de uma distância a outra distância. […]
- [Renato Russo – Música Urbana 2](https://singularidadepoetica.art/2018/07/23/legiao-urbana-musica-urbana-2/): [wpvideo ktLJm0wd] Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana Motocicletas querendo atenção às três da manhã É só música urbana Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana Nos bares os viciados sempre tentam conseguir a música urbana Os uniformes, os cartazes Cinemas e os lares Favelas, coberturas Quase todos os lugares E mais uma criança nasceu Não há mais mentiras nem verdades aqui Só há música urbana
- [Miquel Martí i Pol - Tua Solidão](https://singularidadepoetica.art/2018/07/22/miquel-marti-i-pol-tua-solidao/): Enquanto puderes, não desperdices tua solidão, dedicando-a a uma absurda busca do nada, nem persigas a ti próprio obsessivamente por escuras galerias. Assustado pela luz dos preceitos. Sai no sol a pino e olha para as coisas difíceis. Considera que o jogo desmedido das palavras não te servirá de nada se não te apoiares naquilo que te rodeia. Há as pedras e as árvores e as pessoas e tantas coisas que podes tocar com as mãos! Que não te apercebas algum dia, com sobressalto, que os anos estão passando e te moves ao redor da própria sombra. Trad.: Nelson Santander Tu […]
- [Jorge Luis Borges - Elogio da Sombra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/21/jorge-luis-borges-elogio-da-sombra/): A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade. O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e sua alma. Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão. Buenos Aires, que antes se espalhava em subúrbios em direção à planície incessante, voltou a ser La Recoleta, o Retiro, as imprecisas ruas do Once e as precárias casas velhas que ainda chamamos o Sul. Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas; Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar; o tempo foi meu Demócrito. Esta penumbra […]
- [Joan Margarit - Quando se perde o sinal](https://singularidadepoetica.art/2018/07/20/joan-margarit-quando-se-perde-o-sinal/): À noite, em um pequeno aeroporto, vês um avião que está decolando. Vai-se perdendo o sinal. Sem nenhuma piedade pelo que foste, pois a piedade é demasiado efêmera e não há tempo para construir nada sobre ela, convences-te de que vives, embora sem esperanças, uma época que é a mais feliz de tua vida. Há uma outra poesia, haverá sempre, como há outra música. A de Beethoven surdo. Quando se perde o sinal. Trad.: Nelson Santander Joan Margarit – Se pierde la señal De noche, en un pequeño aeropuerto, ves un avión que va elevándose. Se va perdiendo la señal. Sin […]
- [Stein Mehren - A Pedra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/19/stein-mehren-a-pedra/): Eu acumulei tanto tempo em cada grama de matéria, diz a pedra que milhões de anos são um mero piscar de olhos em mim Eu conheço a dor do mundo continua a pedra. O peso que é necessário carregar. Peso que é o sofrimento do mundo em espaços banhados de luz Se ficares totalmente calado poderás ouvir os gritos de luz tragados para dentro de seus buracos negros em mim e dentro de mim, diz a pedra Trad.: Ana Cristina de Aguiar STEINEN Jeg har samlet så mye tid i hvert gram stoff, sier steinen at årmillionene er ett eneste gnistrende […]
- [Doris Lessing - Fábula](https://singularidadepoetica.art/2018/07/18/doris-lessing-fabula/): Quando olho para trás me parece recordar o canto, embora sempre houvesse silêncio naquele largo e cálido salão. Impenetráveis, essas paredes, acreditávamos, escuras como escudos antigos. A luz brilhava na cabeça ou nas pernas esparramadas com indolência por uma menina. E as vozes baixas subiam no silêncio a se perder como a água. Assim, tudo era manso e morno como uma mão, se algum de nós corresse as cortinas uma chuva espiralada soprava lá fora com descuido. Às vezes serpenteava um vento que fazia dançar as chamas e um jogo de sombras deslizava pelas paredes, ou uivava um lobo lá fora […]
- [Jane Hirshfield - Alzheimer](https://singularidadepoetica.art/2018/07/17/jane-hirshfield-alzheimer/): Quando os ratos roem um tapete velho e de boa qualidade, as cores e os padrões do que resta não se alteram. Como um leito de rocha, inclinado, continua um leito de rocha, as estrias roxas e vermelhas por interromper. Grandeza inata que se não pode roubar. “Como está?”, perguntei, sem saber o que esperar. “O contrário da alegria Keatsiana.” foi a resposta. Trad.: Francisco José Craveiro de Carvalho Alzheimer’s When a fine, old carpet is eaten by mice, the colors and patterns of what’s left behind do not change. As bedrock, tilted, stays bedrock, its purple and red striations unbroken. […]
- [Nuno Júdice – Fotografia](https://singularidadepoetica.art/2018/07/16/nuno-judice-fotografia/): Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso deatget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,e olha para trás, de esguelha, como se quisessemostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-sede nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-seum sorriso que, não se sabe porquê, se esbate comessa espécie de névoa com que o tempo envolveas fotografias antigas, a sépia, em que não épossível disfarçar a certeza que temos de que aquelamulher, hoje, não passa de cinza nalgum cantode cemitério de província. Porém, a sua nudezdesafia a morte; e quase que lhe podíamos pedirque esqueça o fotógrafo, […]
- [Werner Aspenström – Domingo](https://singularidadepoetica.art/2018/07/15/werner-aspenstrom-domingo/): Pela simples razão de que nunca mais voltará hoje é um dia memorável. O sol nasceu no leste e se pôs no oeste, deixou o céu para as estrelas e uma nave espacial nadando no espaço. O rádio falava e cantava através da janela aberta atrás dos pelargônios vermelhos imutáveis. Uma mulher colhia cachos de groselha com uma tesoura e os levava para a cozinha. Lá fora no pátio um rapazinho de joelhos ao lado de sua motoneta divertia-se com as centelhas da bobina. Trad.: Vasco Graça Moura (?)
- [Andreia C. Faria - Descarnação](https://singularidadepoetica.art/2018/07/14/andreia-c-faria-descarnacao/): Até aos trinta anos tens a cara que Deus te deu. Depois tens a cara que mereces. É uma promessa de ironia, uma sentença sem recurso. É-te assim dito: estás entregue ao labor íntimo do que comes, ao número de horas que dormes, àquilo que fazes e sobretudo àquilo em que pensas. Deus (perdoa-lhe a fraqueza) tolera-nos enquanto somos jovens, ampara-nos, alisa-nos a fronte após um desgosto, talvez nos ame, mas deixa-nos sozinhos quando a beleza é terreno pouco firme e assiste de longe ao desafio temerário que lançou a cada filho. Sabes então que o rosto é uma flor plantada […]
- [Matthew Sweeney - Crucificação](https://singularidadepoetica.art/2022/09/15/matthew-sweeney-crucificacao/): Eu cozinhava uma beterraba quando a campainha tocou.‘Quem será a essa hora?’, murmurei, marchandopara a porta. Quando a abri, o sol brilhavatanto que só vi silhuetas, mas discernique pairava sobre tudo uma grande cruz preta.Havia dois homens, um com cara de bode,o outro um sujeito enorme com um cigarrona boca e suor no rosto de carregar a cruz.O primeiro homem sorria, sacudindo seu saco de pregose acariciando o martelo em seu cinto. ‘Viemospara efetuar a sua crucificação.’ Vendo minha reação, ele sorriu, ‘Não se preocupe, está tudo pago.’O outro homem havia posto a cruz no chão, e analisava o gramado para […]
- [Derek Walcott - O Amor Depois do Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/09/14/derek-walcott-o-amor-depois-do-amor-2/): “O Amor Depois do Amor”, um poema de Derek Walcott que celebra o reencontro consigo mesmo como a mais profunda forma de amor, quando finalmente nos sentamos à mesa da própria vida.
- [Gillian Clarke – Advento](https://singularidadepoetica.art/2022/09/13/gillian-clarke-advento/): Tempos sombrios. Dezembro.O eixo da terra inclinadoe os minutos caem do diaum pouco de cada vez. Assim, dormimos além da escuridão,sonâmbulos das horas cinzentas.Impossível crer na luz,ou em um nascimento, até esta alvorada invernal, a raposavoltando para casa com sangue na boca,todos os elementos químicos da aurora em seus olhos,e o céu abismado. Trad.: Nelson Santander Advent Dark times. December. Earth’s axis on the slant and the minutes fall from the day a few at a time. So we outsleep the dark, sleepwalking the grey hours. Impossible to believe in light,or a birth, until this winter sunrise, fox going home with […]
- [Roger Wolfe - Pálpebra](https://singularidadepoetica.art/2022/09/12/roger-wolfe-palpebra-2/): Pedro Salinasdisse num poema1que não quer deixar de sentira dor da ausênciada mulher que amaporque isso é tudoo que dela fica:a dor.Não me recordo das suas palavras exactas.Ele di-lo melhor do que eu.Eram outros tempos.Salinas está morto.A mulher que ele amava também.Em breve o estaremos todos.A vida é uma simples pálpebra.Abre os olhose fecha-os. Trad.: Pedro Gomes Sena O autor se refere ao poema “No quiero que te vayas”, traduzido por mim e já publicado no blog – a última vez no dia 10/09 (“Não quero que te vás”) REPUBLICAÇÃO: Poema publicado no blog originalmente em 11/10/2017 Parpadeo Pedro Salinasdice en […]
- [Jack Gilbert - Fracasso e voo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/11/jack-gilbert-fracasso-e-voo/): O fracasso não encerra a experiência: dele pode nascer uma forma inesperada de grandeza. Jack Gilbert aproxima amor, casamento e mortalidade para observar como a vida se eleva justamente quando aceita risco e imperfeição.
- [Pedro Salinas - Não quero que te vás](https://singularidadepoetica.art/2022/09/10/pedro-salinas-nao-quero-que-te-vas-2/): Não quero que te vás,dor, última formade amar. Sinto-me vivoquando me dóis,não em ti, nem aqui,mais longe: na terra, no anode onde tu vens,no amor com elae tudo o que foi.Nessa realidadesubmersa que se negaa si mesma e insisteem nunca ter existido,que foi apenas um pretextoque encontrei para viver.Se tu não me restasses,ó dor irrefutável,até creria nisso;mas és o que me resta.Tua verdade me asseguraque nada foi mentira.E enquanto eu te sentir,Tu serás pra mim, dor,a prova de outra vidaem que não me doías.A prova indiscutível, ao longe,De que existiu, que existe,De que ela me amou,Sim, de que ainda a amo. […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Romaria](https://singularidadepoetica.art/2022/09/09/carlos-drummond-de-andrade-romaria/): Romaria A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos, cheia de pedras,sobem a ladeira que leva a Deuse vão deixando culpas no caminho. Os sinos tocam, chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados.Já estamos puros, sino, obrigados,mas trazemos flores, prendas e rezas. No alto do morro chega a procissão.Um leproso de opa empunha o estandarte.As coxas das romeiras brincam no vento.Os homens cantam, cantam sem parar. Jesus no lenho expira magoado.Faz tanto calor, há tanta algazarra.Nos olhos do santo há sangue que escorre.Ninguém não percebe, o dia é de festa No adro da igreja há pinga, café,imagens, […]
- [Octavio Paz - Irmandade](https://singularidadepoetica.art/2022/09/08/octavio-paz-irmandade-2/): Homenagem a Claudio Ptolomeo Sou homem: duro poucoe enorme é a noite.Mas olho para cima:as estrelas escrevem.Sem entender, compreendo:também sou escritae neste exato instantealguém me soletra. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: Poema publicado no blog originalmente em 07/10/2017 – agora traduzido por mim Hermandad Homenaje a Claudio Ptolomeo Soy hombre: duro pocoy es enorme la noche.Pero miro hacia arriba:las estrellas escriben.Sin entender comprendo:también soy escrituray en este mismo instantealguien me deletrea.
- [Joan Margarit - Cumprimentar-se](https://singularidadepoetica.art/2022/09/07/joan-margarit-cumprimentar-se/): Aprendeste o gesto com os anos.Encontras o vizinho, vos cumprimentais,lado a lado, dois velhos na calçadacada um fechando a própria porta.As casas. E a convenção generosade algumas palavras na rua.Para além, já nada mais restaque esta paixão final, a calmasolitária e feroz das recordaçõessob um pedaço de azul nítido como um cálculo.Em seu quintal, cada qualse transforma em uma porta.Abre-se pela manhã. Fecha-se ao cair da noite. Trad.: Nelson Santander Saludarse Has aprendido el gesto con los años.Te encuentras al vecino, os saludáis,uno al lado del otro, dos viejos en la aceracerrando cada uno su portal.Las casas. Y el convenio generosode […]
- [Ferreira Gullar – Digo Sim](https://singularidadepoetica.art/2022/09/06/ferreira-gullar-digo-sim-2/): Poderia dizerque a vida é bela, e muito,e que a revolução caminha com pés de flornos campos de meu país,com pés de borrachanas grandes cidades brasileirase que meu coraçãoé um sol de esperança entre pulmõese nuvens Poderia dizer que meu povoé uma festa só na vozde Clara Nunesno rodardas cabrochas no Carnavalda Avenida.Mas não. O poeta mente. A vida nós a amassamos em sanguee sambaenquanto gira inteira a noitesobre a pátria desigual. A vidanós a fazemos nossaalegre e triste, cantandoem meio à fomee dizendo sim– em meio à violência e a solidão dizendosim –pelo espanto da belezapela flama de Therezapelo meu […]
- [Ada Limón – O que eu quero lembrar](https://singularidadepoetica.art/2022/09/05/ada-limon-o-que-eu-quero-lembrar/): Logo antes da casa do general Vallejo,com suas imponentes pedras e paredes amarelas, há um campo ao longo do caminhopara o qual as chuvas de primavera conduzem os sapos, toda uma sinfonia deles, inaugurandoas horas logo após o sol afundar no Oceano Pacífico, a apenasuma hora de distância. Por que estou colocando você aqui? Estou em um avião indo para o oestee todos os humanos são tão barulhentos que chega a doer o sangue. Mas houve uma vez em queme sentei próxima a um caminho que ainda estava quente do calor do dia, pernas cruzadas,com meu amigo chamado Eco que me […]
- [Mário Chamie - Cervo, Servo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/04/mario-chamie-cervo-servo-2/): 1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas, vácuos movidos entre o vasto de onde o vasto cobre casa menor de vista. Contém: surdo gemer, inquietações de choro, tosco pedido entre o salto de onde o salto abre fuga maior de chispa. Fuga: mulo correr, cabritações de gamo, […]
- [Hart Crane - Louvor a uma urna](https://singularidadepoetica.art/2022/09/03/hart-crane-louvor-a-uma-urna/): Louvor a uma urna In Memoriam: Ernest Nelson Era do norte o rosto ternoDe falso exilado, juntandoDe Pierrô o olhar eternoE a gargalhada de Gargantua. Os sonhos que me confiavaDo travesseiro branco, insone,Agora eu sei, eram heranças –Corcéis suaves do ciclone. No monte oblíquo a lua oblíquaNos deu presságios indistintosDo que ainda vivo o morto abriga,Questões da alma e dos instintos, Iguais às que, no crematório,Do alto o relógio remoíaSem poupar nosso obrigatórioLouvor às glórias desse dia. Mas ao lembrar a mecha de ouro,Já não suporto o rosto baçoNem as abelhas, surdo coro,Atravessando a luz do espaço. Espalha a cinza destes […]
- [Elizabeth Bishop - A Arte de Perder](https://singularidadepoetica.art/2022/09/02/elizabeth-bishop-a-arte-de-perder-2/): A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não feita. Nada disso é sério. Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem queroLembrar a perda de três casas excelentes.A arte de perder não é nenhum mistério. Perdi duas cidades lindas. E um impérioQue era meu, dois rios, e mais um continente.Tenho saudade deles. Mas não […]
- [Lew Welch – Pequena oração para manter-se são](https://singularidadepoetica.art/2022/09/01/lew-welch-pequena-oracao-para-manter-se-sao/)
- [Adam Zagajewski - Os três anjos](https://singularidadepoetica.art/2022/09/01/adam-zagajewski-os-tres-anjos/): “Os três anjos”, um poema de Adam Zagajewski que encena um diálogo entre o humano e o transcendente para refletir sobre medo, sofrimento, beleza e esperança.
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetoides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2022/08/31/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos-3/): VI Nada de mergulhos. É na superfícieque o real, minúsculo plâncton, se trai.Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneirado funcional. E o sofrimento, ai,esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti-nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, meufilho. Só o raso é cool. A dor é kitsch. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/09/2017
- [Brigit Pegeen Kelly – Canção](https://singularidadepoetica.art/2022/08/30/brigit-pegeen-kelly-cancao/): Ouça: havia uma cabeça de cabra suspensa por cordas em uma árvore.Por toda noite ela ficou lá pendurada e cantou. E aqueles que a ouviramSentiram um aperto em seus corações e pensaram que estavam ouvindoO canto de uma ave noturna. Eles se sentaram em suas camas e depoisSe deitaram novamente. Na brisa noturna, a cabeça de cabraOscilava para frente e para trás, e de longe brilhava debilmenteComo a luz da lua brilhava nos trilhos do trem, a milhas de distância,Ao lado dos quais o corpo sem cabeça da cabra repousava. Alguns garotosTinham arrancado sua cabeça. Foi um trabalho mais difícil do […]
- [Manuel Bandeira - Poema Só Para Jaime Ovalle](https://singularidadepoetica.art/2022/08/29/manuel-bandeira-poema-so-para-jaime-ovalle-2/): Quando hoje acordei, ainda fazia escuro(Embora a manhã já estivesse avançada).Chovia.Chovia uma triste chuva de resignaçãoComo contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.Então me levantei,Bebi o café que eu mesmo preparei,Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/02/2016 Conheça outros livros de Manuel Bandeira clicando aqui
- [Lawrence Ferlinghetti – Receita para a felicidade em Khabarovsk ou em qualquer lugar](https://singularidadepoetica.art/2022/08/28/lawrence-ferlinghetti-receita-para-a-felicidade-em-khabarovsk-ou-em-qualquer-lugar/): Uma grande avenida arborizadacom uma grande cafeteria ao solcom café preto forte em xícaras muito pequenas. Uma mulher ou um homem não necessariamentemuito bonito(a) que te ame. Um dia aprazível. Trad.: Nelson Santander Recipe For Happiness in Khabarovsk Or Anyplace One grand boulevard with treeswith one grand cafe in sunwith strong black coffee in very small cups. One not necessarily very beautifulman or woman who loves you. One fine day.
- [Manuel Bandeira - Profundamente](https://singularidadepoetica.art/2022/08/27/manuel-bandeira-profundamente-2/): Quando ontem adormeciNa noite de São JoãoHavia alegria e rumorEstrondos de bombas luzes de BengalaVozes, cantigas e risosAo pé das fogueiras acesas. No meio da noite desperteiNão ouvi mais vozes nem risosApenas balõesPassavam errantesSilenciosamenteApenas de vez em quandoO ruído de um bondeCortava o silêncioComo um túnel.Onde estavam os que há poucoDançavamCantavamE riamAo pé das fogueiras acesas?— Estavam todos dormindoEstavam todos deitadosDormindoProfundamente. * Quando eu tinha seis anosNão pude ver o fim da festa de São JoãoPorque adormeci Hoje não ouço mais as vozes daquele tempoMinha avóMeu avôTotônio RodriguesTomásiaRosaOnde estão todos eles? — Estão todos dormindoEstão todos deitadosDormindoProfundamente.
- [Garrett Hongo – Mendocino Rose](https://singularidadepoetica.art/2022/08/26/garrett-hongo-mendocino-rose/): Na Califórnia, ao norte da Golden Gate,a vinha cresce por quase todos os cantos, brotando de pastagens,de baixo das sombras dos eucaliptos à beira da estrada,ultrapassando todos os casebres fantasmas e cercas quebradas que se desintegram de podres,encharcadas pelas chuvas frescas. Ela mimetiza, em suas réplicas firmes, parecidas com nuvens, a forma de tudo o que asfixia,uma delicada vegetação treliçada ao lado de um celeiro ou estação de bombeamento, muito distante dos penhascos acima da Highway 1,florzinhas e flores, da estrada mesmo,parecidas com nós e dreadlocks, efêmeras e gloriosas,suspensas em beirais cobertos de vegetação. Eu ouvia uma fita no som do carro,uma canção que eu tocava e rebobinava, e tocava […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Encontro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/25/carlos-drumond-de-andrade-encontro-2/): Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.Se a noite me atribui poder de fuga,sinto logo meu pai e nele ponhoo olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madrugae seu rosto, nem triste nem risonho,é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxugasuor algum, na calma de meu sonho. Oh meu pai arquiteto e fazendeiro!Faz casas de silêncio, e suas roçasde cinza estão maduras, orvalhadas por um rio que corre o tempo inteiro,e corre além do tempo, enquanto as nossasmurcham num sopro fontes represadas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 16/09/2017
- [Donizete Galvão - Solitude](https://singularidadepoetica.art/2022/08/24/donizete-galvao-solitude/): Juntos, em solitude. Cada qual com sua chaga. Cada qual com sua cruz. Dois corpos ardentes tão próximos, separados pela geografia que a mágoa desenha. Entre os braços, interpõem-se desertos, salinas e dunas. O amor morreu? Não. Condenou-se. Soterrou-se em veios de duro e negro minério. Duas árvores cujas raízes trançaram-se rumo ao fundo. Que frutos falhos e ásperos nessas mãos antes tão íntimas, que, mesmo durante o sono, permanecem bem fechadas.
- [Giuseppe Ungaretti - Céu Claro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/23/giuseppe-ungaretti-ceu-claro-2/): Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tantanévoaumaa umase desvelamas estrelas Respiroo frescorque me deixaa cor do céu Me reconheçoimagempassageira Presa de um cicloimortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/09/2017 Sereno Bosco di Courton Iuglio 1918 Dopo tantanebbiaa unaa unasi svelanole stelle. Respiroil frescoche mi lasciail colore del cielo, mi riconoscoimmaginepasseggera Presa in un giroimmortale
- [Alison C. Rollins - Para quem me lê agora](https://singularidadepoetica.art/2022/08/22/alison-c-rollins-para-quem-me-le-agora/): Para quem me lê agora depois de Jorge Luis Borges Você é invulnerável.A única constante é a mudança.Tal repetição leva à nostalgiado presente. Tenso e tímidovocê recita este livro de cor. Àscegas, você me confia à memória.O calvo e impertinente filósofosabe que o caráter do homem é o seu destino.Este poema – não vivo, mas os vestígiosde um construto conhecido como vontade.Heráclito caminha sobre as águas na Líbiaou: nenhum homem jamais entrou no mesmo rio duas vezes.Desconfie de como o tradutor distorceminhas palavras, estas ruínas que ele interpreta comovivas. Por que você teme ser esquecido?Saiba que de certa formavocê já está […]
- [Nicanor Parra – Acácias](https://singularidadepoetica.art/2022/08/21/nicanor-parra-acacias-2/): Passeando anos atráspor uma rua cheia de acácias em florsoube por um amigo bem informadoque você tinha acabado de se casar.Respondi que por certoeu não tinha nada a ver com o assunto.Mas apesar de nunca ter amado você– e disso você sabe melhor do que eu –cada vez que florescem as acácias– imagina só –sinto de novo a mesma coisa que sentiquanto me atiraram à queima-roupaa notícia devastadorade que você tinha se casado com outro. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/09/2017 Aromos Paseando hace añospor una calle de aromos en florsupe por un amigo bien informadoque acababas de contraer […]
- [Tyree Daye - Rio Neuse](https://singularidadepoetica.art/2022/08/20/tyree-daye-rio-neuse/): Diga-lhes para não iremà orla sozinhos. Diga-lhes ondepodem beber sem precisar olharpor cima dos ombros. Diga-lhes que o afogamentoestá em terceiro em sua lista de preocupações.A primeira é deite-se, a segunda, vem cá.Mesmo a água em que fui batizadonão é segura. Eu sabia que Deusera homem porque ele pôsum bebê em Maria sem a per-missão dela. Trad.: Nelson Santander Neuse River Tell them not to goto the banks alone. Tell them wherethey can drink without watchingover shoulders. Tell them drowningis third on your list of concerns.First is lie down, second, come here.Even the water I was baptized inisn’t safe. I knew […]
- [Ana Martins Marques - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2022/08/19/ana-martins-marques-interiores-2/): AÇUCAREIRO De amargobastao amor Agridoce,ela disse Mas a mimpareceuamargo CADEIRA I Repetesdiariamenteos gestosdo primeiro homemque se sentounuma tarde quenteolhando as savanas II Pousode gigantescos pássaroscansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesaessas doces evidênciasda morte? CRISTALEIRA Guardae revelaa nudezbrancada louçao incêndiodespareadodos cristais TALHERES Colher Se o sol nelabatesseem cheiopor exemplonuma mesa postano jardimimediatamente se formariaum pequeno lagode luz Garfo Em três ramosfloresceo metal Faca Sua fria elegâncianão escamoteiao fato:é ela que melhor se prestaao assassinato CÔMODA E delao que restousenãosobre a cômodaum par de brincosque talvez não sejam dela? ESTANTE Dentro da garrafao navioacaba de partir CORTINA Entre o […]
- [Lisel Mueller – Há manhãs](https://singularidadepoetica.art/2022/08/18/lisel-mueller-ha-manhas/): Mesmo agora, em que o enredopede que eu me torne pedra,o sol intervém. Em algumas manhãsde verão eu saioe o céu se abree se derrama sobre mimcomo se eu fosse um santoprestes a morrer. Mas o enredopede que eu viva,seja comum, diga nadaa ninguém. Dentro de casaos espelhos queimam quando eu passo. Trad.: Nelson Santander There Are Mornings Even now, when the plotcalls for me to turn to stone,the sun intervenes. Some morningsin summer I step outsideand the sky opensand pours itself into meas if I were a saintabout to die. But the plotcalls for me to live,be ordinary, say nothingto […]
- [W. H. Auden - Aquele que Ama Mais](https://singularidadepoetica.art/2022/08/17/w-h-auden-aquele-que-ama-mais-2/): Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais admirador que eu julgue serDe estrelas que de mim não querem saberNão posso dizer, agora que as contemplo,Que lhes tive saudade em algum momento. Se sumissem ou morressem todas elasMe habituaria a um céu sem estrelasE a sentir como sublime a treva totalEmbora isso levasse um […]
- [John Murillo – Variações sobre um tema de Elizabeth Bishop](https://singularidadepoetica.art/2022/08/16/john-murillo-variacao-sobre-um-tema-de-elizabeth-bishop/): Comece com a perda. Perca tudo. Então perca tudo outra vez.Perca uma boa mulher em um dia ruim. Encontre uma mulher melhor,e depois perca cinco amigos correndo atrás dela. Aprenda a perder como sesua vida dependesse disso. Aprenda que sua vida depende disso.Aprenda como se aprende caratê, ou a andar de bicicleta. Aprenda-o, domine-o.Perca dinheiro, perca tempo, perca sua mente natural.Seja abandonado e depois aprenda a abandonar. Perca eperca novamente. Mensure o caixão de um pai em comparação com ascélulas T de um primo. Beije sua irmã através do vidro de uma cela.Saiba por que sua mulher não está atendendo suas […]
- [Ricardo Silvestrin - Bilhete](https://singularidadepoetica.art/2022/08/15/ricardo-silvestrin-bilhete-2/): Não me parecias frágil,via-te doce.Talvez fosses mesmo forte,é preciso ser valentepra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo.Que rio obscuro e discretote puxava para o fundo,sem saber nadar,sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta,um poema, um bilhete de suicida.Como se quisesses dizerque a mortenão deve explicações à vida REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/08/2017
- [Timothy Liu - Os restos](https://singularidadepoetica.art/2022/08/14/timothy-liu-os-restos-mortais/): Os restos —Wuxi, China Saindo do novo cemitério, meu paipegou a minha mão, tendo acabado de reenterrar os restosmortais de seu próprio pai e suas duas esposas —sua mãe morrera de tuberculose quando ele tinha dez anos. Ele pegou a minha mão e disse: Agora posso morrer em pazmesmo que não tenhamos os ossos verdadeiros. Os bandidos da aldeiacontratados pelo meu tio se certificaram de que os túmulosatrás da casa em que meu pai crescera não sentiriam uma única lâmina de pá entrar enquanto eles estivessem alide sentinela com os braços cruzados. A esposa do meu tioteve um sonho em que de […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Meio-dia](https://singularidadepoetica.art/2022/08/13/sophia-de-mello-breyner-andresen-meio-dia-2/): Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.O sol no alto, fundo, enorme, aberto,Tornou o céu de todo o deus deserto.A luz cai implacável como um castigo.Não há fantasmas nem alvas,E o mar imenso solitário e antigo,Parece bater palmas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/08/2017
- [Jean Sprackland – Perdendo o escuro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/12/jean-sprackland-perdendo-o-escuro/): Novembro, quando o dia deveria terminar mais cedocomo um livro maçante. Mas naquela tardeuma pequena nuvem em forma de ponto de interrogaçãopassou sobre o sol e se dissolveu.Seis horas; oito; dez. E a luz do diaainda inundava a rua espantada. Uma dádiva. Como uma daquelas noites de verãoem que nos sentamos, copo na mão,sob a veloz rota de voo dos andorinhões.Descerrou rostos, lojas, portas dos fundos.O sono e os segredos eram como fetiches empoeirados;caminhávamos à meia-noite, fazíamos amor em quartos ensolarados.Até a sétima noite, sem sonhose nervosos, não tínhamos como prever: estes empurrões e pontapés por porõese subterrâneas estações, para longe […]
- [Rainer Maria Rilke - O Mundo Estava no Rosto da Amada](https://singularidadepoetica.art/2022/08/11/rainer-maria-rilke-o-mundo-estava-no-rosto-da-amada-2/): “O Mundo Estava no Rosto da Amada”, um poema de Rainer Maria Rilke que concentra o infinito no rosto amado e revela o amor como excesso que nos transborda e nos desfaz.
- [W. S. Merwin — Um aniversário](https://singularidadepoetica.art/2022/08/10/w-s-merwin-um-aniversario/): Algo continua e eu não sei como chamá-loembora o idioma esteja cheio de sugestõesem termos de linguagem mas elas todas são anônimase é quase seu aniversário música junto aos meus ossosnestas noites ouvimos os cavalos correndo na chuvaao parar a lua aparece e nós ainda estamos aquias goteiras no telhado continuam pingando depois que a chuva passao cheiro das flores de gengibre se espalha pela casa escuraperto do mar o lento coração do farol piscao longo caminho até você ainda está atado a mim mas isso me trouxe até vocêcontinuo querendo lhe dar o que já é seuesta é a manhã […]
- [Paulo Henriques Britto - Envoi](https://singularidadepoetica.art/2022/08/09/paulo-henriques-britto-envoi-2/): O tempo, que a tudo distorce,às vezes alisa, conserta,e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morsede instantes sem rumo e roteiroentão dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquivaa gente retoca e remendaaté ser coisa que se entenda, mas algo que na carne vivase esboça, se traça, se inscrevebem mais a fundo, ainda que breve — pois todo poema é murmúriofrente ao amor e sua fúria. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 01/08/2017
- [Sara Teasdale - Eu não sou tua](https://singularidadepoetica.art/2022/08/08/sara-teasdale-eu-nao-sou-tua/): Eu não sou tua, e não estou perdida em ti,Não estou perdida embora deseje estarPerdida como uma vela acesa ao meio-dia,Perdida como um floco de neve no mar. Tu me amas, e eu ainda te consideroUma alma com brilho e beleza incontroversa,Contudo, eu sou eu, que anseia por estarPerdida como uma luz que na luz se dispersa. Oh, mergulha-me profundamente no amor – sustaMeus sentidos, deixa-me surda e sem visão,Varrida pela tempestade do teu amor,Uma vela em um indomável furacão. Trad.: Nelson Santander I am not yours I am not yours, not lost in you,Not lost, although I long to beLost […]
- [Francis J. Quirós - Efêmero](https://singularidadepoetica.art/2022/08/07/francis-j-quiros-efemero/): Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia: aqueles dias na praia, aquele deus a quem tu rezaste, aquela excitação que sentiste e até a próxima pessoa que irás conhecer. São efêmeros os teus seguidores e os “likes” de teu perfil… O efêmero nos prende, nos apaixona, precisa de nós. Tudo sucumbe ante a […]
- [Linda Pastan - Chegamos ao silêncio](https://singularidadepoetica.art/2022/08/06/linda-pastan-chegamos-ao-silencio/): Chegamos ao silêncio lentamente. Tragados para o mundoem uma onda de somdele saímos mais tarde com as bocas fechadas,nossas línguas tornadas pesadas como pedras para nos ancorarna terra. Agora ouvimoso vento nas folhas farfalhantes,um burburinho de águasobre as pedras,a batalha musicaldos pássaros.Considere a orelhaem forma de clave de fá,mas vazia.Considere os espaços entre as estrelas,solilóquios de luz.É quase horade aquietar as crianças,silenciar os cães.Mesmo nossas palavras se tornam abafadasem meu cabelo, logoserá apenas pelo toqueque o reconhecerei.Estes são os corredoresdo silêncio; entre na ponta dos pés.Aqui Orfeu repousa,sua harpa desencordoada.Aqui os sons queuma folha produzao cair no chãopodem nos ensurdecer. Trad.: […]
- [Vinicius de Moraes - O poeta Hart Crane suicida-se no mar](https://singularidadepoetica.art/2022/08/05/vinicius-de-moraes-o-poeta-hart-crane-suicida-se-no-mar-2/): Quando mergulhaste na águaNão sentiste como é friaComo é fria assim na noiteComo é fria, como é fria?E ao teu medo que por certoTe acordou da nostalgia(Essa incrível nostalgiaDos que vivem no deserto…)Que te disse a Poesia? Que te disse a PoesiaQuando Vênus que luziaNo céu tão perto (tão longeDa tua melancolia…)Brilhou na tua agoniaDe moribundo desperto? Que te disse a PoesiaSobre o líquido desertoAnte o mar boquiabertoIncerto se te engoliaOu ao navio a rumo certoQue na noite se escondia? Temeste a morte, poeta?Temeste a escarpa sombriaQue sob a tua agoniaDescia sem rumo certo?Como sentiste o desertoO deserto absolutoO oceano absolutoImenso, […]
- [Faith Shearin - Cinzas, cinzas](https://singularidadepoetica.art/2022/08/04/faith-shearin-cinzas-cinzas/): O inverno é a morte pela qual todos temos esperado.Mesmo nas Festas, em que o ano novo é louvado,os galhos se quebram sob o peso da neve.Conhecemos esta estação como reconheceremos o fimde nossas vidas quando a vida estiver na metade.Os anos seguem o caminho dos dentes da infância: premidos tãoesperançosamente sob travesseiros limpos. Pele morta.As unhas que crescem sem pulsação.Uma terra que engole bebêsdevolve um erupção de margaridas de olhos brancos. Trad.: Nelson Santander N. do T.: pelo contexto do poema, o seu título pode ser a) a derivação de um dos grandes temas bíblicos (“Ashes to ashes, dust to […]
- [Abel Silva - Navegações](https://singularidadepoetica.art/2022/08/03/abel-silva-navegacoes-2/): Minha casa está calma,eu é que sou turbulento,o país navega, dizem,eu é que me arrebentoeu é que sempre inventotoda esta ventaniaeu é que não me contentocom o rumo da romaria não sei se a sorte é cegaou eu que vivo a teimar:sei que eu sou o barcoo marinheiroe o mar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 07/05/2017
- [Juan Vicente Piqueras - O barbeiro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/02/juan-vicente-piqueras-o-barbeiro/): Nos últimos meses, olhava-se no espelhoe via um intruso. Irritava-se com ele. Já estás aqui outra vez? Será possível?Sai daqui agora mesmo.Para a rua, vagabundo, dizia-lhe. Era-lhe doloroso, era-nos doloroso,toda vez que ele tinha que ir ao banheiro.Tínhamos que conduzi-lo pelo braço, convence-lodo porquê. Ele se tornou o dono desse lugar, dizia,quem lhe deu as chaves? Pouco a pouco o do espelho tornou-se mais um em casa.Chamava-lhe o barbeiro. Em vão, diziam-lhe que aquele homem era ele.Eu nunca tentei porque sabiaque aquele homem era outra pessoa,que em seu delírio ele tinha razão. Pouco a pouco fomo-nos resignandoà invasão do barbeiro. Uma […]
- [Philip Larkin - A Igreja Indo-se...](https://singularidadepoetica.art/2022/08/01/philip-larkin-a-igreja-indo-se-2/): Quando estou certo de que nada está ocorrendo,Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta.Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dosLivrinhos; as juncadas secas, que se cortamPara o domingo; bronze e objetos a cobrir oAltar; um órgão impecável e pequeno;Silêncio tenso, de bolor, que salta à vista,Há muito fermentado. Sem chapéu, retiro —Genuflexão canhestra — os grampos de ciclista, Ando e na pia de água benta esfrego a mão.Vendo daqui, parece quase novo, o teto —Foi limpo, restaurado? Um outro sabe: eu não.Depois que subo até o atril, decifro certoVersículo imperioso, numa letra grande,E digo, sem […]
- [Suzanne Buffam – Basta](https://singularidadepoetica.art/2022/07/31/suzanne-buffam-basta/): Estou usando óculos escuros dentro de casaPara combinar com meu baixo astral. Eu deixei todo o açúcar de fora da torta.Minha raiva é uma espécie de raiva doméstica. Aprendi com minha mãeQue aprendeu com a mãe dela antes dela E assim por diante.Certamente os gregos tinham uma palavra para isso. E hoje com certeza os alemães a têm.Quanto mais palavras uma pessoa conhece Para descrever suas dores privadasMais vagamente ela consegue compreende-las. Repito os nomes de todas as cidades que conheciE observo uma formiga arrastar sua sombra distorcida para casa. O que significa amar a vida que nos foi dada?Representar bem […]
- [T. S. Eliot - Os Homens Ocos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/30/t-s-eliot-os-homens-ocos-2/): “A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada, gesto sem vigor; Aqueles que atravessaramDe olhos retos, para o outro reino da morteNos recordam – se o fazem – não como violentasAlmas danadas, mas apenasComo os homens ocosOs homens empalhados. II Os olhos que temo encontrar em sonhosNo reino de sonho da morteEstes não aparecem:Lá, […]
- [Gregory Fraser - Depois do fogo](https://singularidadepoetica.art/2022/07/29/gregory-fraser-depois-do-fogo/): Ouvi dizer que você está indo para a Itália, ele disse1. Você ouviu corretamente, ela respondeu.Você finalmente conseguiu, disse ele, estou feliz por você. Estou feliz por mim mesma, ela falou.Uma sonata de Scarlatti jorrou através das amplas portas francesase um brinde foi feito aos anfitriões, que disseram ter sidoinspirados pelos espíritos para dar aquele pequeno sarau. Algumas vezes, ele disse, eu me sinto assim, não sei — abatido — quando penso em nós,como uma luva, ele disse, em uma mão sem dedos. Engraçado, ela disse,às vezes eu me sinto como a mão. O vento passou como uma lembrançaatravés de um […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Luis Mauricio, Infante](https://singularidadepoetica.art/2022/07/28/carlos-drummond-de-andrade-a-luis-mauricio-infante-2/): Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.Pois que sejam lépidos, Luís Mauricio, que sejam novos e comovidos. E como há tempo para viver, Luís Mauricio, podes gastá-lo à janelaque dá para a Justicia del Trabajo, onde […]
- [Ada Limón – O que eu não sabia antes](https://singularidadepoetica.art/2022/07/27/ada-limon-o-que-eu-nao-sabia-antes/): era como os cavalos simplesmente davam à luz outroscavalos. Não um bebê de qualquer jeito, nãouma criatura de espaços limiares, mas um animalde quatro patas decidido a andar, correndo atrásda mãe. Um cavalo dá lugar a outrocavalo e, de repente, há dois cavalos,simples assim. Foi como eu te amei. Você,descendo do longo trem na Red Bank carregandoum café do tamanho do seu braço, uma bolsa com doiscomputadores balançando desajeitadamente ao seulado. Lembro-me de termos caído na risadaquando nos vimos. O que houve entrenós não foi uma coisa frágil para ser mimada, murmurada.Já veio totalmente formada, pronta para correr. Trad.: Nelson Santander […]
- [Angela Melim - Meu pai nos abandonou](https://singularidadepoetica.art/2022/07/26/angela-melim-meu-pai-nos-abandonou-2/): Meu pai nos abandonou.Minha mãe casou e mudou.Vovó morreu.Os irmãos sumiram no mundoou submundo.Sem explicaçãoYvonne nunca mais falou comigoe, para Ronaldo,sou fantasma do passado.Vejo meus filhos já voando.Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/03/2017
- [Linda Gregg – Ardendo e distante](https://singularidadepoetica.art/2022/07/25/linda-gregg-mantida-ardendo-e-distante/): Você retorna quando quer,como a chuva. E é terno como a chuva,tem a ternura inepta da chuva.Uma paixão tão universal que poderia acontecer em qualquer lugar.Você me carrega para o ar úmido.Você me deita sobre as folhase o mais marcante não é o sexoe sim acordar sozinha depois sob as árvores. Trad.: Nelson Santander Kept burning and distant You return when you feel like it,like rain. And like rain you are tender,with the rain’s inept tenderness.A passion so general I could be anywhere.You carry me out into the wet air.You lay me down on the leavesand the strong thing is not […]
- [Emily Dickinson - Dizem que "O Tempo Consola"](https://singularidadepoetica.art/2022/07/24/emily-dickinson-dizem-que-o-tempo-consola-2/): Dizem que “O Tempo consola” —Mas não — na realidade,A vera dor, como um Tendão,Se fortalece, com a idade — O Tempo testa a Tristeza —Porém não a remedia —Se cura o Mal, prova apenasQue Mal deveras não havia — Trad.: Paulo Henriques Britto REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 22/03/2017 They say that “Time assuages” They say that “Time assuages” —Time never did assuage —An actual suffering strengthensAs Sinews do, with age — Time is a Test of Trouble —But not a Remedy —If such it prove, it prove tooThere was no Malady —
- [Dennis O'Driscoll – Fora de controle](https://singularidadepoetica.art/2022/07/23/dennis-odriscoll-fora-de-controle/): Preocupem-se, mães: vocês têmboas razões para perder o sono,para deixar a imaginação correr soltaenquanto se deitam na cama, sem contar carneirosmas vendo filhos e filhaslevados para o abate como cordeirosna carnificina das noites de sexta. Fiquem de prontidão, mães –nunca se sabe sua sorte –para a batida que quebraria o silêncio como o choquede um impacto metálico contra os tijolos.Continuem imaginando um giroflex da polícia,uma lua azul rompendo a escuridão. Deitem-se cuidadosamente, mães, onde, dezoito anos atrás, a concepçãoaconteceu na escuridão da noite,uma trama secreta; esperem inquietas,como se fosse um exame médicopara descobrir se vocêsainda estão com as crianças. Trad.: Nelson […]
- [Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu](https://singularidadepoetica.art/2022/07/22/paulo-henriques-britto-geracao-paissandu-2/): Vim, como todo mundodo quarto escuro da infância,mundo de coisas e ânsias indecifráveis,de só desejo e repulsa.Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos,em tempo de seco fascismo.Por isso não tive pátria, só discos.Amei, como todos pensam.Troquei carícias cegas nos cinemas,li todos os livros, acrediteiem quase tudo por ao menos um minuto,provei do que pintou, adolesci. Vi tudo que vi, entendi como pude.Depois, como de direito,endureci. Agora minha bocanão arde tanto de sede.As minhas mãos é que coçam –vontade de destilardepressa, antes que esfrie,esse caldo morno de vida. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 18/03/2017
- [Anne Sexton – Coragem](https://singularidadepoetica.art/2022/07/21/anne-sexton-coragem/): É nas pequenas coisas que a vemos.O primeiro passo da criança,tão espantoso quanto um terremoto.A primeira vez que você andou de bicicleta,tateando na calçada.A primeira palmada, quando seu coraçãopartiu em uma viagem sozinho.Quando eles o chamaram de bebezãoou pobre ou gordo ou doidoe o transformaram num alienígena, você sorveu o ácido delese o escondeu. Mais tarde,quando você enfrentou a morte por bombas e balas,não foi com uma bandeira,mas apenas com um chapéucobrindo seu peito.Você não afagou a fraqueza dentro de si,embora ela estivesse lá.Sua coragem era uma pequena brasaque você continuava ingerindo.Se seu amigo o salvoue morreu no processo,então a coragem […]
- [José Ángel Buesa - Ela amará a outro homem](https://singularidadepoetica.art/2022/07/20/jose-angel-buesa-ela-amara-a-outro-homem/): “Ela amará a outro homem”, um poema de José Ángel Buesa que aceita a perda com resignação, mas afirma a permanência secreta do amor na memória que o tempo não consegue apagar.
- [Rosanna Warren – Comparação](https://singularidadepoetica.art/2022/07/19/rosanna-warren-comparacao/): Como quando seu amigo, excelente esquiador austríaco, na históriaque ela sempre nos contava, teve que encararseu primeiro salto olímpico de esqui e, darampa de largada sobre o desfiladeiro que mergulhavatão vertiginosamente que sua borda inferiordesaparecia de vista, olhoupara um horizonte de Alpes que nadava e balançava ao seu redorcomo barcos de brinquedo em uma banheira, e ele não conseguiu,apesar de toda sua determinação férrea,treinamento e coragem,desaferrar seus dedos da grade do portão de largada, de modo queseus companheiros de equipe tiveram que se juntar para soltarsuas mãos, dedo por dedo,a fim de libertá-lo, também diante da morte minhamãe agarrou as grades […]
- [Wislawa Szymborska - As Cartas dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/18/wislawa-szymborska-as-cartas-dos-mortos-2/): Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes,mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores.Sabemos quais dívidas não foram pagas.Com quem as viúvas rapidamente se casaram.Pobres mortos, mortos cegos,enganados, falíveis, canhestramente previdentes.Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas.Capturamos o som de testamentos sendo rasgados.Sentados comicamente diante de nós como no pão com manteiga,ou correndo atrás do chapéu que o vento lhes arrancou da cabeça.Seu mau gosto, Napoleão, vapor e eletricidade,seus remédios mortíferos para doenças curáveis,seu tolo apocalipse segundo são João,o falso paraíso na terra segundo Jean-Jacques…Observamos em silêncio seus peões no tabuleiro,só que movidos três casas à frente.Tudo […]
- [Annie Dillard – Como consumimos nossos dias](https://singularidadepoetica.art/2022/07/17/annie-dillard-como-consumimos-nossos-dias/): Como consumimos nossos diasé, evidentemente,como consumimos nossas vidas. O que fazemos com esta hora,e com aquela,é aquilo que fazemos. Um calendárioprotege do caos e do arbítrio. É uma redepara capturar dias.É um andaime sobre o qual um trabalhadorpode ficar em pée laborar com ambas as mãos em espaços de tempo.Um calendário é uma maqueteda razão e da ordem – desejado, dissimulado,e por isso concebido;é a paz e o abrigo encravados nas ruínas do tempo;é um bote salva-vidasno qual você se encontra, décadas depois,ainda vivendo.Cada dia é o mesmo, por isso você se lembrada sequência posteriormentecomo um padrão borrado e potente. How […]
- [Wislawa Szymborska - Bodas de Ouro](https://singularidadepoetica.art/2022/07/16/wislawa-szymborska-bodas-de-ouro-2/): Devem ter sido diferentes um dia,fogo e água, diferindo com veemência,sequestrando e se doandono desejo, no assalto à dessemelhança.Abraçados, apropriaram-se e expropriarampor tanto tempo,que nos braços restou o artranslúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta.Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outropelo tipo de silêncio, no escuro. O sexo fenece, os segredos se consomem,na semelhança as diferenças se encontramcomo todas as cores no branco. Qual deles está duplicado e qual aqui está faltando?Qual sorri com um duplo sorriso?A voz de quem ressoa nas duas vozes?Quem assente quando acenam com a cabeça?Com o gesto de quem levam […]
- [Ada Limón, poeta laureada](https://singularidadepoetica.art/2022/07/15/ada-limon-poeta-laureada/): Ada Limón, uma legítima representante da novíssima geração de poetas norte-americanos, e de quem venho traduzindo alguns poemas para o blog desde 2020, acaba de ser eleita a nova poeta laureada dos Estados Unidos, a comenda de maior prestígio do campo da poesia daquele país. O cargo de poeta laureado – que tradicionalmente é conferida pelo Congresso Nacional norte-americano – foi criado em 1937 e, desde então, muitos dos poetas mais conhecidos e respeitados dos EUA foram nomeados para ele, como Philip Levine, Rita Dove, Billy Collins e Tracy K. Smith. Clique aqui para conhecer um pouco do trabalho dessa poeta.
- [Jim Harrison – Água](https://singularidadepoetica.art/2022/07/15/jim-harrison-agua/): Antes de nascer eu era água.Pensei nisso sentado em uma cadeiraazul cercado por malvas rosas, vermelhas,e brancas no jardim em frenteao meu estúdio verde. Há conclusões aquia tirar, mas eu não posso mais fazer isso. O homem nasce, cresce, canta, dança, ama, envelhece,agoniza. Isto é um rio circulare nós somos seus peixes que se tornam água. Trad.: Nelson Santander Water Before I was born I was water.I thought of this sitting on a bluechair surrounded by pink, red, white hollyhocks in the yard in frontof my green studio. There are conclusionsto be drawn but I can’t do it anymore. Born man, child man, singing man, dancing […]
- [Wislawa Szymborska - Natureza-morta com um Balãozinho](https://singularidadepoetica.art/2022/07/14/wislawa-szymborska-natureza-morta-com-um-balaozinho-2/): Em vez da volta das lembrançasna hora de morrerquero ter de voltaas coisas perdidas. Pela porta, janela, malas,sombrinhas, luvas, casaco,para que eu possa dizer:Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente,rosa de papel, barbante, faca,para que eu possa dizer:Nada disto me faz falta. Esteja onde estiver, chave,tente chegar a tempo,para que eu possa dizer:Ferrugem, minha cara, ferrugem. Caia uma nuvem de atestados,licenças, enquetes,para que eu possa dizer:Que lindo o sol se pondo. Relógio, aflore do rioe permita que te segure na mão,para que eu possa dizer:Você finge ser a hora. Vai aparecer também um balãozinholevado pelo vento,para que eu possa […]
- [Eavan Boland – Cartas aos mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/13/eavan-boland-cartas-aos-mortos/): I Estudiosos do Império Antigo encontraram cerâmicasgravadas por toda parte com marcas e sinais. II Escritos em louças de lodo. Nas bordas dos vasos.Colocados na entrada dos túmulos.O vermelho do ferro de um mundo.Postado no limiar de outro.Chamaram-nas de cartas aos mortos. III Eles não choravam ou se lamentavam por meio destas marcas e sinais.Eles eram intimistas, suplicantes, desesperados, locais. IV Aqui, no limiar de uma primavera irlandesaque você não pode mais ver,arbustos de espinheiros com suas pequenas flores de marfimem breve ganharão vida em cada vento. Em breve,cada encosta será uma noiva distante. V Se eu pudesse escreve-la de uma […]
- [Wislawa Szymborska - Nada Duas Vezes](https://singularidadepoetica.art/2022/07/12/wislawa-szymborska-nada-duas-vezes-2/): Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela janela abertacaísse uma rosa do jardim. Hoje que estamos juntos,o nosso caso não medra.Rosa? Como é uma rosa?É uma flor ou é uma pedra? Por que você tem, má hora,que trazer consigo a incerteza?Você vem – mas vai passar.Você passa – eis a beleza. Sorridentes, abraçadostentaremos […]
- [Tarde na Andaluzia, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher](https://singularidadepoetica.art/2022/07/11/tarde-na-andaluzia-de-sahar-romani-lido-por-sandra-daher/): Sandra Daher, uma generosa seguidora do blog, publica em seu perfil no Facebook a leitura que faz de poemas que a inspiram. Em sua postagem mais recente, ela surge lendo o belíssimo “Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, traduzido por mim e publicado há algum tempo no blog. Confiram o resultado clicando no link que segue e aproveitem para vê-la declamando outros grandes poemas. “Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher Tarde na AndaluziaE por que a geometria não seria igual à divindade 1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé senão a confiança […]
- [Stephen Dunn - Ignorância](https://singularidadepoetica.art/2022/07/11/stephen-dunn-ignorancia/): O sonho antigo de voar se tornou realidadee eu olho para cima, sem espanto.Por que não cai?Uma pergunta de criança que eu não sei responder.Eu visto minha ignorância naquilo que eu sei.Uma vez houve pterodátilos, eu digo.Uma vez o céu era presságios e pássaros. Ele é imenso e diminuto e tão altoque não emite nem um som.Se fosse para lançar bombas, se por sorteuns poucos de nós fôssemos salvose tivéssemos que começar de novo, eu não teria nadapara o sofrimento além de palavras. Digo à minha filhaque estive lá em cima, no céu,mas nós dois não ficamos impressionados.Ela viu Star Wars. […]
- [Wislawa Szymborska - A Cada Cem Pessoas](https://singularidadepoetica.art/2022/07/10/wislawa-szymborska-a-cada-cem-pessoas-2/): A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros:– cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo:– quase todas as outras. estão prontas a ajudardesde é claro que isso não lhes tome muito tempo:– quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas porque incapazes de ser de outro modo:– quatro… vá lá, talvez cinco. estão prontas a admirar sem inveja:– dezoito. são induzidas ao erropor uma juventude que passa tão depressa:– umas sessenta. com quem não se pode brincar:– quarenta e quatro. vivem angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:– […]
- [Linda Pastan - Por trás do](https://singularidadepoetica.art/2022/07/09/linda-pastan-por-tras-do/): "Busco pelo que está por trás das palavras que são ditas..." – William Stafford Por trás do “Eu te amo”reside um “adeus”.Por trás do“adeus”mora um “foi maravilhosoali no gramado, encharcadosde tanto verde,juntos”.Palavras que esperamsão escuras como sombrasnos quartos dos fundos dos espelhos:quando você levantasua mão direitaem saudação,elas levantam a esquerdaem despedida. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog In back of "I'm looking for things back of remarks that are said..." – William Stafford In back of “I love you”stands “goodbye.”In back of“goodbye”stands “it was lovelythere […]
- [Gary Snyder - Dezembro em Yase](https://singularidadepoetica.art/2022/07/08/gary-snyder-dezembro-em-yase-2/): Naquele Outubroem que escolheu ser livrena grama alta e seca junto ao pomarvocê disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te visó mais uma vez. Você estava estranha.E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anose até mais um pouco: eu sempre soubeonde você estava – Devia ter ido te vermovido pela esperança de recuperar seu amor.Você continua solteira.Mas não fiz nada disso. Só em sonhos, como esta madrugada,a intensidade terrívelde nosso amor de garotosme ocupa de novo a mente, a carne. Tivemos aquilo que todosse esforçam tanto para ter;e abandonamos […]
- [Pat Boran - Desde que você se foi...](https://singularidadepoetica.art/2022/07/07/pat-boran-desde-que-voce-partiu/): Desde que você se foi… os dias aprenderam um novo idioma,as noites falam em línguas – as vozes da chuva na janela do quarto, do vento sussurrando na rua varrida pela chuva, os canos da casa chamando,tina após tina de água. A perda descobre novas cançõesem antigos instrumentos. Trad.: Nelson Santander Since You Left… the days have learnt a new language,evenings speak in tongues – the voices of rain at the bedroom window,of wind whispering in the rain-swept street, the house pipes calling,bowl to water bowl. Loss discovers new songsin ancient instruments.
- [Yehuda Amichai - O Corpo é a Causa do Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/07/06/yehuda-amichai-o-corpo-e-a-causa-do-amor-2/): Primeiro o corpo é a causa do amordepois a fortaleza que o protegepor fim seu cárcere.E quando o corpo morre, o amor jorracaudalosamentecomo de um caça-níqueis clandestino quebradojorram de súbitocom estrondotodas as moedas de geraçõese gerações entregues à própria sorte. Trad.: ? REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/02/2017
- [Joseph Hillman – Para capturar a mim mesmo](https://singularidadepoetica.art/2022/07/05/joseph-hillman-para-capturar-a-mim-mesmo/): Para capturar a mim mesmoeu devo cavar um buraco Perfurar a película quesepara a vida da morteCom pá, pá de corteou mãos afiadas Fazer a terra desabrocharEm uma floração de preto e ocre Permitir que os muros se ergamao meu redor comodesmoronadoscortinadosengolindo-me inteiroenquantovou maisfundo Mais fundonaquele buraco Tão fundo quenão posso sairnovamentee tenho queviver oresto demeus diasesperandoque o meucaptorme liber-te Trad.: Nelson Santander To capture myself To capture myselfI must dig a hole Puncture the film thatseparates life and deathWith spade or shovelor sharpened hand Make the earth unfoldInto a blossom ofblack and ochre Let the walls risearound me likecrumblingcurtainsswallowingme wholeas […]
- [Wislawa Szymborska - Retornos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/04/wislawa-szymborska-retornos-2/): Voltou. Não disse nada.Mas estava claro que teve algum desgosto.Deitou-se vestido.Cobriu a cabeça com o cobertor.Encolheu as pernas.Tem uns quarenta anos, mas não agora.Existe – mas só como na barriga da mãena escuridão protetora, debaixo de sete peles.Amanhã fará uma palestra sobre a homeostasena cosmonáutica metagaláctica.Por ora dorme, todo enrodilhado. Trad.: Regina Przybycien REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 10/02/2017
- [Mary Oliver – Pesado](https://singularidadepoetica.art/2022/07/03/mary-oliver-pesado/): Naquela épocaEu pensei que não poderiame aproximar mais da dorsem morrer eu me aproximeie não morri.Certamente tevea mão de Deus nisso, assim como as dos amigos.Ainda assim, eu estava curvada,e meu riso,como disse o poeta, havia desaparecido.Então disse o meu amigo Daniel(valente mesmo entre os leões):“Não é o peso que você carrega mas como você o carrega –livros, luto, ladrilhos –tudo está na maneiracomo você o abraça, equilibra, carrega-o quando não pode, e não quer,abandoná-lo.”Então eu fui praticar.Já reparou? Já ouviuo risoque sai, vez ou outra,de minha boca assustadas? Como eu me demoroadmirando, admirando, admirandoas coisas deste mundo que são gentis, […]
- [John Keats - Ode sobre a Indolência](https://singularidadepoetica.art/2022/07/02/john-keats-ode-sobre-a-indolencia-2/): I Numa certa manhã eu vi as três as figuras, Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,Seguindo atrás da outra, mudas e seguras, Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;Como formas de mármore em alto-relevo Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,Mostraram-se mais uma vez como as descrevo, E eram-me tão estranhas como se as achasse Numa ânfora de Fídias um pesquisador. II Como é possível, Sombras, que eu não as conheça, Máscaras mudas que se movem para mim?Que plano silencioso tinham na cabeça Para a minha indolência arrebatar assim?Era a hora madura […]
- [Ciaran O’Driscoll – Por favor, permaneça na linha](https://singularidadepoetica.art/2022/07/01/ciaran-odriscoll-por-favor-permaneca-na-linha/): Este é o futuro, minha esposa diz.Nós já estamos lá, e é exatamente como o presente. Seu futuro, aqui, ela diz.E estou falando com um robô ao telefone.O robô está me dando inúmeras opções,nenhuma das quais atende às minhas necessidades.Ótimo, diz o robôquando eu lhe dou o número do meu telefone.E Excelente, diz o robôquando eu lhe dou o número da minha conta bancária.Eu tenho um ótimo número de telefonee um excelente número de conta bancária,mas não consigo encontrar nada que satisfaça minhas necessidadesno telefone, e por minha conta(que, na verdade, é a conta do robô)passa dinheiro, meu dinheiro, para pagar […]
- [Yehuda Amichai - Outra Vez o Amor Terminou](https://singularidadepoetica.art/2022/06/30/yehuda-amichai-outra-vez-o-amor-terminou-2/): Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas,ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezascoisas comovidas que buscavam o esquecimento. Outra vez o amor terminou. E como depois de se demoliruma casa grande e retirar os escombros, visitamoso terreno vazio e quadrado e dizemos: como era pequenoo lugar onde ficava a casacom tantos andares e tantas pessoas. E dos vales distantes chegao som de um trator solitário,e do passado distante chega o baterdo garfo no prato de porcelana, misturandoe batendo gema de ovo com açúcar para o menino,e bate e bate. Trad.: ? REPUBLICAÇÃO: poema […]
- [Francisco Brines - Esplendor negro](https://singularidadepoetica.art/2022/06/29/francisco-brines-esplendor-negro/): Somente uma vez experimentaste aquele Esplendor negro,e intermitentemente recordas a experiência com imprecisão,aproximações difusas, iminências,e assim, desde a tua juventude, arrastas frioum invisível manto escarlate de cinzas.E não foi necessário cegar os olhos,pois das brancas luzes das estrelaschegou aquele delírio, a possibilidade mais exata e singela:em vez de Deus ou do mundoaquele negro Esplendor,que nem sequer é um ponto, pois não há nele espaço,nem se pode nomear, porque não se expande.Serenidade e Vertigem têm o mesmo valor,pois as palavras já estão ditas desde a aurora da terra,e as palavras são apenas a expressão de um engano.Voltar para o centro daquilo é […]
- [Alberto Ríos – Coelhos e fogo](https://singularidadepoetica.art/2022/06/27/alberto-rios-coelhos-e-fogo/): Leia "Coelhos e fogo", de Alberto Ríos, um poema impactante sobre sofrimento, compaixão e a vulnerabilidade de todos os seres vivos.
- [Paulo Henriques Britto - de "Nenhuma Arte"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/26/paulo-henriques-britto-de-nenhuma-arte/): Os deuses do acaso dão, a quem nadalhes pediu, o que um dia levam embora;e se não foi pedida a coisa dadanão cabe se queixar da perda agora.Mas não ter tido nunca nada, nãoseria bem melhor — ou menos mau?Mesmo sabendo que uma solidãocompleta era o capítulo final,a anestesia valeria o preço?(Rememorar o que não foi não dáem nada. É como enxergar um começono que não pode ser senão o fim.Ontem foi ontem. Amanhã não há.Hoje é só hoje. Os deuses são assim.) REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 04/02/2017
- [Lynn Emanuel – Minha vida](https://singularidadepoetica.art/2022/06/25/lynn-emanuel-minha-vida/): Como Jonas pelo peixe, eu fui por ela recebida,revirada e varrida por suas águas escuras,por ela conduzida para as profundezas e para além de incontáveis rochas.Sem ser tocada por seus dentes, caí nelasem um esforço maior que um grão de areiaentrando pela porta de uma catedral, tão largas eram suas mandíbulas.Desci, de cabeça e calcanhar,pela vasta viela de sua goela, parei no interior do seu peito amplo como um salão, e, como Jonas, me levanteiperguntando onde estava a besta e não a encontrando em lugar nenhum,ali, de gordura e tristeza, construí meu caramanchão.Trad.: Nelson Santander My LifeLike Jonas by the fish […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/24/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere-3/): I A seletividade da memória —a cor exata da pele, a textura,o odor de cada côncavo e orifício,o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e asaliva, a coxa arisca, a dobra escura,o beijo salobro, o sabor difícil,a carne assombrada, o esperma perplexo — falsa perfeição, mero artifíciodo tempo, a desmaiar todos os tonsdo que destoaria do desejo como um menino a retirar sem pejoda caixa que lhe deram os bombonsde que ele abre mão sem nenhum sacrifício. (…) IV Só não dói mais porque não é preciso.Se fosse o caso, a dor era […]
- [Billy Collins – A vida após a morte](https://singularidadepoetica.art/2022/06/23/billy-collins-a-vida-apos-a-morte/): Enquanto você se prepara para dormir, escovando os dentes,ou folheando uma revista na cama,os defuntos do dia estão iniciando sua jornada. Eles se movem em todas as direções imagináveis,cada qual de acordo com sua crença pessoal,e este é o segredo que o silencioso Lázaro não quis revelar:todos estão certos, no fim das contas.Você vai para o lugar que sempre imaginou que iria,o lugar que você manteve aceso em uma alcova em sua cabeça. Alguns estão sendo jogados por um funil de cores cintilantespara uma zona de luz, branca como um sol de janeiro.Outros estão nus diante de um juiz intimidante que […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/22/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-6/): (…) ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porémsó surge em pleno ar. E não renegoa rota tonta que segui. Ninguémse faz em linhas retas. Todo portoa que se chega é a meta desejada.E o caminho tomado, por mais torto,acaba sempre sendo a exata estradaa dar naquilo que, afinal, se é.Assim, todo e qualquer passado, atéo que se esqueceria, se pudesse,vai pouco a pouco virando uma espéciede bala que se chupa com deleite,mesmo se azeda. Isso, chupe. Aproveite. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 14/01/2017
- [Dorianne Laux – No limite](https://singularidadepoetica.art/2022/06/21/dorianne-laux-no-limite/): Depois que sua mãe morrer, você aprenderá a viverno limite da vida, a se segurarcomo ela fazia, uma mão no painel,a outra agarrando sua bolsa enquanto vocêpassa pelo sinal de pare, ombros tensos,olhos totalmente fechados, esperando pela colisãoque não vem. Você aprenderáa ficar acordada a noite toda sabendo que ela se foi,vendo a manhã se abrircomo um cisne de origami, o céu, um caminho se abrindo, a perguntaque você não pode responder. Na prisão, mulheresfazem tatuagens com cinzas de cigarroe xampu. É o que elas têm.Imagine o peixe, escamas cinzase bigodes pretos, crescendo lentamenteem suas costas, seus lábios beijando seu pescoço.Imagine […]
- [Abdellatif Laâbi (Marrocos, 1942)](https://singularidadepoetica.art/2022/06/20/abdellatif-laabi-marrocos-1942/)
- [Paulo Henriques Britto - De "Duas Bagatelas"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/20/paulo-henriques-britto-de-duas-bagatelas-2/): (…) II Então viver é isso,é essa obrigação de ser feliza todo custo, mesmo que doa,de amar alguma coisa, qualquer coisa,uma causa, um corpo, o papelem que se escreve,a mão, a caneta até,amar até a negação de amar,mesmo que doa,então viver é sóesse compromisso com a coisa,esse contrato, esse cálculoexato e preciso, esse vicio,só isso. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 13/01/2017
- [Nâzim Hikmet - O otimista](https://singularidadepoetica.art/2022/06/19/nazim-hikmet-o-otimista/): quando criança ele nunca arrancou as asas das moscasele não atava latas nos rabos dos gatosnão prendia besouros em caixas de fósforosnem esmagava formigueirosele cresceue todas estas coisas foram feitas com eleeu estava ao lado de sua cama quando ele morreuele disse leia para mim um poemasobre o sol e o oceanosobre satélites e reatores nuclearessobre a grandeza da humanidade Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução para o inglês feita por Randy Blasing e Mutlu Konuk) Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Optimistic Man as a child […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/18/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-5/): VII Nada disso foi do jeito que eu quis.Se fosse como eu quis, não haveriade ser tão sofrido, tão infeliz.Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sintocomo quem tem não o que foi pedido,e sim o que, guiado pelo instinto,não pelo querer, teria querido. O que de mais duro a vida me deu– que dura mais quanto mais me custoudele me acostar, e torná-lo meu – o que não escolhi, mas me escolheu,é o que, ao fim e ao cabo, mais eu sou.Não é o eu que eu me quis. Mas […]
- [Andrea Cohen - O comitê avalia](https://singularidadepoetica.art/2022/06/17/andrea-cohen-o-comite-avalia/): Digo à minha mãe queganhei o Prêmio Nobel. De novo? ela diz. Em qualcategoria desta vez? É uma brincadeiraque fazemos: eu finjo que sou alguém, elafinge não estar morta. Trad.: Nelson Santander The Committee Weighs In I tell my motherI’ve won the Nobel Prize. Again? she says. Whichdiscipline this time? It’s a little gamewe play: I pretend I’m somebody, shepretends she isn’t dead.
- [Paulo Henriques Britto - Balanços](https://singularidadepoetica.art/2022/06/16/paulo-henriques-britto-balancos-2/): (…) II Como saber sem tentar?Como tentar se é tão fácilconformar-se de saídacom a ideia de fracasso? Pois fracassar justificao não se ter nem sequeradmitido não querer-seaquilo que mais se quer. É um beco sem saída,mas sempre é melhor que a rua:mais estreito. Acolhedor.Vem, entra. A casa é tua. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 10/01/2017
- [Sylvia Plath - Estrelas sobre a Dordonha](https://singularidadepoetica.art/2022/06/15/sylvia-plath-estrelas-sobre-a-dordonha/): Estrelas caem densas como rochas na linhaEnfolhada de árvores cuja silhueta é mais escuraDo que o breu do céu porque não tem estrelas.O bosque é um poço. As estrelas caem silenciosamente.Parecem grandes, mas caem, e nenhuma lacuna é visível.Elas tampouco emitem fogos de onde caemOu qualquer sinal de angústia ou ansiedade.Elas são imediatamente devoradas pelos pinheiros. Onde me sinto em casa, apenas as estrelas mais esparsasAlcançam o crepúsculo, e depois de algum esforço.E elas chegam abatidas, embotadas por muitas viagens.As menores e mais tímidas nunca aparecemMas permanecem, paradas ao longe, em sua própria poeira.Elas são órfãs. Eu não consigo vê-las. Elas […]
- [Paulo Henriques Britto - Circular](https://singularidadepoetica.art/2022/06/14/paulo-henriques-britto-circular-2/): Neste mesmo instante, em algum lugar,alguém está pensando a mesma coisaque você estava prestes a dizer.Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vezneste mundo, nem tempo, nem lugar.O que você fizer não muda coisaalguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a dizer.Mesmo parecendo que desta vezalgo de importante vai ter lugar,não caia nessa: é sempre a mesma coisa. Sim. Tanto faz dizer coisa com coisaou simplesmente se contradizer.Melhor calar-se para sempre, em vezde ficar o tempo todo a alugar todo mundo, sem sair do lugar,dizendo sempre, sempre, a mesma coisaque nunca foi necessário […]
- [Jack Gilbert - O vale abandonado](https://singularidadepoetica.art/2022/06/13/jack-gilbert-o-vale-abandonado/): O retorno imaginado a um vale vazio revela o que a passagem do tempo retirou da paisagem e de quem a habitou. Ausência e memória transformam o lugar abandonado em medida de uma vida desaparecida.
- [Paulo Henriques Britto - De "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/12/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-4/): (…) III Mesmo o mais sólido somesem deixar nenhum vestígio,sem nem se ter (como exige ocostume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido —que se dá a posteriori,antes que se deteriorede todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculoângulo do evento únicoque só durou um segundo Entrementes, coisas maissurgem, somem, num zás-trás,e agora já é outro o mundo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 05/01/2017
- [Jane Kenyon - O pretendente](https://singularidadepoetica.art/2022/06/11/jane-kenyon-o-pretendente/): Repousamos de costas um para o outro. As cortinassobem e descem,como o peito de alguém dormindo.Os ventos movem as folhas do bordo;elas expõem seus lados iluminados,girando todas de uma vezcomo um cardume de peixes.Subitamente, compreendo que estou feliz.Por meses esse sentimentotem-se aproximado, parandopara curtas visitas, como um tímido pretendente. Trad.: Nelson Santander The Suitor We lie back to back. Curtainslift and fall,like the chest of someone sleeping.Wind moves the leaves of the box elder;they show their light undersides,turning all at oncelike a school of fish.Suddenly I understand that I am happy.For months this feelinghas been coming closer, stoppingfor short visits, like […]
- [Francisco Brines - Ardemos na floresta](https://singularidadepoetica.art/2020/11/15/francisco-brines-ardemos-na-floresta-poema/): Mas como conhecer, sem o olhar,a beleza da floresta, a grandeza do mar? A floresta estava atrás de mim; meus ouvidosa conheciam: o farfalhar de suas folhas,a confusão do canto de seus pássaros.Sons que vinham de um remoto lugar.E o mar do outro lado, golpeandosua fronte, sem roça-la,cobrindo-a de gotas. Era minha peleque descobria seu […]
- [Mary Oliver - Nenhuma viagem](https://singularidadepoetica.art/2020/11/13/mary-oliver-nenhuma-viagem-poema/): Eu acordo mais cedo, agora que os pássaros chegaram E cantam nas árvores inabaláveis. Em um catre junto a uma janela aberta Eu me estendo como campo consumido, enquanto desabrocha a primavera. Agora, de todos os viajantes de que me lembro, quem dentre eles Não embarcou com pesar em seus mapas? — Até parece que […]
- [Matthew Arnold - Praia de Dover](https://singularidadepoetica.art/2020/11/11/matthew-arnold-praia-de-dover-poema/): O mar esta noite descansa.A maré está cheia, a lua, maravilhosaSobre os estreitos; a luz na costa da FrançaCintila e se vai; as falésias da Inglaterra se elevam,Cintilantes e vastas, na baía sem agitação.Venha para a janela, doce é a noturna brisa!Apenas, da longa linha de aspersãoOnde o mar e a lua se encontram,Escute! ouça […]
- [Margaret Atwood - Muitíssimo](https://singularidadepoetica.art/2020/11/09/margaret-atwood-muitissimo-poema/): Muitíssimo É uma antiga palavra perdendo o brilho.Eu queria muitíssimo.Eu desejava muitíssimo.Eu o amava muitíssimo. Eu percorro cautelosamente a calçadapor causa dos meus joelhos feridos,com os quais eu me importo menosdo que você possa imaginarjá que há outras coisas, mais importantes –espere e verá – carregando um café pela metadeem um copo de papel com […]
- [Juan Vicente Piqueras - Proposta de epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2020/11/07/juan-vicente-piqueras-proposta-de-epitafio-poema/): "Proposta de epitáfio", um poema de Juan Vicente Piqueras Quando criança, eu era imortal. Adolescente, me rebelei contra o que agora sou. Quando jovem, eu era selvagem. Fiz sofrer e sofri muito mais do que eu queria.
- [Robert Frost - Diretriz](https://singularidadepoetica.art/2020/11/05/robert-frost-diretriz-poema/): Diretriz, um poema de Robert Frost Voltar para isso tudo agora é demais para nós, Voltar para um tempo simplificado pela perda De detalhe, crestado, dissolvido, e fraturado Como uma escultura de mármore de cemitério ao relento
- [Philip Larkin - Um túmulo Arundel](https://singularidadepoetica.art/2020/11/03/philip-larkin-um-tumulo-arundel-poema/): Um túmulo Arundel, um poema de Philip Larkin
- [Philip Roth – [Quando se visita uma sepultura]](https://singularidadepoetica.art/2020/11/02/philip-roth-quando-se-visita-uma-sepultura/): Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério, […]
- [Joan Margarit - Perdidos em um conto](https://singularidadepoetica.art/2020/11/01/joan-margarit-perdidos-em-um-conto-poema/): Perdidos em um conto, um poema de Joan Margarit
- [Javier Salvago - Tesouro divino](https://singularidadepoetica.art/2020/10/30/javier-salvago-tesouro-divino-poema/): A juventude passou.Tudo está bem quando acaba.Não voltaria a ser jovemnem que me pagassem. Começar a andar de novopelo caminho trilhadodos sonhos ilusóriose das verdades vagas? Começar de novocom as velhas batalhase suas velhas feridas?Voltar aos velhos hábitos, à noite, ao inferno,ao gosto pela vidamá? Fazer de tudoo que é comédia um drama? Voltar a […]
- [Ana Martins Marques - [Você se dá conta]](https://singularidadepoetica.art/2020/10/28/ana-martins-marques-voce-se-da-conta-poema/): Leia "[Você se dá conta]", de Ana Martins Marques, um poema fascinante sobre tradução, linguagem, leitura e os tradutores que moldam nossa experiência da literatura.
- [Elizabeth Jennings - Em memória de alguém que desconheço](https://singularidadepoetica.art/2020/10/26/elizabeth-jennings-em-memoria-de-alguem-que-desconheco-poema/): "Em memória de alguém que desconheço", um poema de Elizabeth Jennings
- [Nelson Santander - A elite oitocentista pela ótica de Machado de Assis: a violação da norma como norma](https://singularidadepoetica.art/2020/10/24/nelson-santander-a-elite-oitocentista-pela-otica-de-machado-de-assis-a-violacao-da-norma-como-norma/): O artigo que segue, de minha autoria, foi publicado na obra coletiva “Direito e desenvolvimento: estudos sobre a questão ambiental e a sustentabilidade – Homenagem ao Prof. Márcio Teixeira”, organizada por Caio Henrique Lopes Ramiro e Lis Maria Bonadio Precipito (São Paulo: LiberArs, 2015, 308p.). Fortemente influenciado pela obra “Um mestre na periferia do capitalismo”, […]
- [Nelson Santander - [secos são os homens sem sonhos]](https://singularidadepoetica.art/2020/10/22/nelson-santander-secos-sao-os-homens-sem-sonhos-poema/): "secos são os homens sem sonhos", um poema de Nelson Santander secos são os homens sem sonhos desertos rios de margens estreitas trilham apenas os caminhos que a terra dita
- [Óscar Hahn - Abalo sísmico](https://singularidadepoetica.art/2020/10/20/oscar-hahn-abalo-sismico-poema/): "Abalo Sísmico", um poema de Óscar Hahn Tive uma vez um grande amor que derrubou minha casa trincou minhas pontes e me fez perder o equilíbrio. Depois, vieram as réplicas:
- [Antonio Pérez Morte - Para Berta](https://singularidadepoetica.art/2020/10/18/antonio-perez-morte-para-berta-poema/): "Para Berta", um poema de Antonio Pérez Morte Para restabelecer a infância, uma bola de gude. Para a adolescência um beijo, um verso, uma esperança.
- [Joshua Jennifer Espinoza - Isto é o que faz de nós Mundos](https://singularidadepoetica.art/2020/10/16/joshua-jennifer-espinoza-isto-e-o-que-faz-de-nos-mundos-poema/): Como a luz, masao contrário, nós ondulamos. Dobramos a esquinae fazemos desapareceras colinas. Você rearranja meus pedaços até nãodoer mais. Fim do medo noturnoentranhado na pele. Fim da morte inocente. Meus cabelos perdem seus átomos.Meu corpo brilhano escuro. Planetas são esmagadosno esquecimento,despojados do seu poderde nomear as coisas. Nosso amor ocupa o ar. Nosso amor […]
- [Jane Kenyon - Discutindo com a melancolia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/14/jane-kenyon-discutindo-a-melancolia-poema/): "Discutindo a melancolia", um poema de Jane Kenyon sobre a depressão 1 DO BERÇÁRIO Quando eu nasci, você esperava atrás de uma pilha de lençóis no berçário e, quando ficamos a sós, você se deitou sobre mim, espremendo a bile da desolação em cada poro.
- [Louise Glück - Uma fantasia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/12/louise-gluck-uma-fantasia-poema/): Vou lhe dizer uma coisa: todos os diaspessoas morrem. E isso é só o começo.Todos os dias, nas funerárias, nascem novas viúvas,novos órfãos. Eles se sentam com as mãos cruzadas,tentando decidir sobre esta nova vida. Depois eles estão no cemitério, alguns delespela primeira vez. Eles têm medo de chorar,às vezes de não chorar. Alguém se […]
- [Eugénio de Andrade - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2020/10/10/eugenio-de-andrade-elegia-poema/): Às vezes era bom que tu viesses. Falavas de tudo com modos naturais: em ti havia a harmonia dos frutos e dos animais. Maio trouxe cravos como outrora, cravos morenos, como tu dizias, mas cada hora passa e não se demora na tristeza das nossas alegrias. Ainda sabemos cantar, só a nossa voz é que […]
- [Robinson Jeffers - A canção da quietude](https://singularidadepoetica.art/2020/10/08/robinson-jeffers-a-cancao-da-quietude-poema/): Bebe, bebe profundamente da quietude, E às margens do mar-imensidãoEsquece de tua aflição, amiúde, E de todas as misérias que virão.Mais calmo e frio do que a neblina,Que se desdobra e se inclinaSobre o vale escuro, e se rebobina, Aprende a ser. O Passado — foi um sonho ardente, Um […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "The Wild Iris", de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2020/10/08/apresentacao-de-the-wild-iris-de-louise-gluck/): Atualizado em 08/10/2020
- [Ferreira Gullar - Poema sujo](https://singularidadepoetica.art/2020/10/06/ferreira-gullar-poema-sujo/): "Poema sujo", de Ferreira Gullar turvo turvo a turva mão do sopro contra o muro escuro menos menos menos que escuro menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo escuro mais que escuro:
- [Alberto Pucheu - Poema para a catástrofe do nosso tempo](https://singularidadepoetica.art/2020/10/04/alberto-pucheu-poema-para-a-catastrofe-do-nosso-tempo/): Leia "Poema para a catástrofe do nosso tempo," de Alberto Pucheu, uma poderosa reflexão poética sobre a tragédia bolsonarista, memória, democracia, pandemia, violência política e resistência coletiva.
- [Germana Zanettini - Centésimo trigésimo nono](https://singularidadepoetica.art/2020/10/02/germana-zanettini-centesimo-trigesimo-nono-poema/): Centésimo trigésimo nono, um poema de Germana Zanettini
- [Javier Salvago - Quinta-feira Santa](https://singularidadepoetica.art/2020/09/30/javier-salvago-quinta-feira-santa-poema/): "Quinta-feira Santa", um poema de Javier Salvago.
- [Miller Williams - Poema de amor com torrada](https://singularidadepoetica.art/2020/09/28/miller-williams-poema-de-amor-com-torrada/): "Poema de amor com torrada", um poema de Miller Williams
- [Jane Hirshfield - Um destino algodoado](https://singularidadepoetica.art/2020/09/26/jane-hirshfield-um-destino-algodoado/): "Um destino algodoado", um poema de Jane Hirshfield.
- [Leslie McGrath – Corpus](https://singularidadepoetica.art/2020/09/24/leslie-mcgrath-corpus-poema/): Corpus, um poema de Leslie McGrath. Depois que lavaram meu corpo e enfiaram meus braços nas mangas de um vestido que comprei nos anos trinta em um mercado de Cuernavaca, eles circundaram um rosário em minhas mãos postas. (...)
- [Edgar Allan Poe - "O corvo" e "A filosofia da composição"](https://singularidadepoetica.art/2020/09/22/edgar-allan-poe-o-corvo-e-a-filosofia-da-composicao-poema/): Leia "O Corvo", o clássico poema de Edgar Allan Poe (na genial tradução de Milton Amado), e, na sequência, "A Filosofia da Composição", o ensaio fundamental no qual o autor desvenda, passo a passo, os caminhos percorridos desde a ideia inicial até os detalhes que emprestam coerência e sentido ao texto poético.
- [William Butler Yeats - "When you are old" em 4 traduções](https://singularidadepoetica.art/2020/09/20/william-butler-yeats-when-you-are-old-and-grey-and-full-of-sleep-em-4-traducoes-poema/): "When you are old and grey and full of sleep", poema de William Butler Yeats, nas traduções de José Agostinho Baptista, Adriano Nunes, Paulo Vizioli e Jorge Wanderley
- [Jorge Valdés Días-Vélez - O olival](https://singularidadepoetica.art/2020/09/18/jorge-valdes-dias-velez-o-olival-poema/): "O olival", um poema de Jorge Valdés Días-Vélez Não direi a oração que se pronuncia em outras ocasiões como esta. Eu vim para enterrar-te. E o meu silêncio é o outro lugar para onde foste. Porque não há mais verdade do que a tua memória e nada a dizer que tu não saibas (...)
- [William Stafford - No monumento não-nacional ao longo da fronteira canadense](https://singularidadepoetica.art/2020/09/16/william-stafford-no-monumento-nao-nacional-ao-longo-da-fronteira-canadense-poema/): No monumento não-nacional ao longo da fronteira canadense, um poema de William Stafford
- [Louise Glück - Paisagem](https://singularidadepoetica.art/2020/09/14/louise-gluck-paisagem-poema/): Paisagem, um poema de Louise Glück
- [Joan Margarit – Dignidade](https://singularidadepoetica.art/2020/09/12/joan-margarit-dignidade-poema/): Dignidade, um poema de Joan Margarit
- [Andrew Hudgins - No poço](https://singularidadepoetica.art/2020/09/10/andrew-hudgins-no-poco-poema/): No poço, um poema de Andrew Hudgins
- [Edna St. Vincent Millay - dois poemas de "A few Figs from Thistles"](https://singularidadepoetica.art/2020/09/08/edna-st-vincent-millay-dois-poemas-de-a-few-figs-from-thistles-poema/): Dois poemas de "A few Figs from Thistles", de Edna St. Vincent Millay
- [Ted Kooser - Sobrevivendo](https://singularidadepoetica.art/2020/09/06/ted-kooser-sobrevivendo/): "Sobrevivendo", um poema de Ted Kooser
- [Angélica Freitas - Pós](https://singularidadepoetica.art/2020/09/04/angelica-freitas-pos-poema/): Pós, um poema de Angélica Freitas
- [Walter de la Mare - Chapim](https://singularidadepoetica.art/2020/09/02/walter-de-la-mare-chapim-poema/): Chapim, um poema de Walter de la Mare
- [Tomas Tranströmer - Kyrie](https://singularidadepoetica.art/2020/08/31/tomas-transtromer-kyrie-poema/): Kyrie, um poema de Tomas Tranströmer
- [Marta Magalhães - Urbanismo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/29/marta-magalhaes-urbanismo-poema/): Urbanismo, um poema de Marta Magalhães
- [Nuno Júdice - Jogo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/27/nuno-judice-jogo-poema/): Jogo, um poema de Nuno Júdice
- [Friedrich Hölderlin - As Parcas](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-as-parcas-2/): Republicação: “As parcas”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-a-brevidade-2/): Republicação: “A brevidade”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2020/08/26/friedrich-holderlin-outrora-e-agora-2/): Republicação: “Outrora e Agora”, um poema de Friedrich Hölderlin
- [Margarida Vale de Gato - Psyché a Eros](https://singularidadepoetica.art/2020/08/25/margarida-vale-de-gato-psyche-a-eros-poema/): Psyché a Eros, um poema de Margarida Vale de Gato
- [Jorge de Sena - Carta a meus filhos sobre o fuzilamento de Goya](https://singularidadepoetica.art/2020/08/23/jorge-de-sena-carta-a-meus-filhos-sobre-o-fuzilamento-de-goya-poema/): Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, […]
- [Alfonso Brezmes – Os outros](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/alfonso-brezmes-os-outros-poema/): Os outros, um poema de Alfonso Brezmes
- [Robinson Jeffers - The Inhumanist (Parte II de "The Double Axe") (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/robinson-jeffers-the-inhumanist-parte-ii-de-the-double-axe-excerto/): Republicação: “The Inhumanist (Parte II de “The Double Axe”)”, excerto de um poema de Robinson Jeffers
- [Cassiano Ricardo - Ode Pastoril](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/cassiano-ricardo-ode-pastoril-2/): Republicação: “Ode pastoril”, um poema de Cassiano Ricardo
- [John Donne - Em despedida: proibindo o pranto](https://singularidadepoetica.art/2020/08/21/john-donne-em-despedida-proibindo-o-pranto-2/): Republicação: “Em despedida: proibindo o pranto”, poema de John Donne, em tradução de Augusto de Campos
- [Mary Oliver - Nos bosques de Blackwater](https://singularidadepoetica.art/2020/08/19/mary-oliver-nos-bosques-de-blackwater-poema/): "Nos bosques de Blackwater", um poema de Mary Oliver
- [Jane Kenyon - Poderia ter sido diferente](https://singularidadepoetica.art/2020/08/17/jane-kenyon-poderia-ter-sido-diferente/): "Poderia ter sido diferente", um poema de Jane Kenyon
- [Vinicius de Moraes - Cemitério Marinho](https://singularidadepoetica.art/2020/08/16/vinicius-de-moraes-cemiterio-marinho/): Cemitério Marinho, um poema de Vinicius de Moraes Tal como anjos em decúbito A conversar com o céu baixinho Existem cerca de cem túmulos Num lindo cemiteriozinho Que eu, a passeio, descobri Um dia em Sidi Bou Said. Mal defendidos por uns muros Erguidos ao sabor da morte Eu nunca vi mortos tão puros Mortos […]
- [Billy Collins - A respiração](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/billy-collins-a-respiracao-poema/): A respiração, um poema de Billy Collins Assim como nos filmes de terror, quando alguém descobre que as ligações telefônicas estão vindo de dentro da casa, eu também percebi que nossa tenra sobreposição vem ocorrendo apenas dentro de mim.
- [Carlos Drummond de Andrade - Palavras no Mar](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar-2/): Republicação: “Palavras ao mar”, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Homenagem a Ricardo Reis](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-homenagem-a-ricardo-reis-2/): Republicação: “Homenagem a Ricardo Reis”, um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
- [Jorge de Lima - A Divisão de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/jorge-de-lima-a-divisao-de-cristo-2/): Republicação: “A divisão de Cristo”, um poema de Jorge de Lima
- [Arnaldo Antunes - Saudades](https://singularidadepoetica.art/2020/08/15/arnaldo-antunes-saudades-2/): Republicação: “Saudades”, um poema de Arnaldo Antunes
- [Vinicius de Moraes - Ternura](https://singularidadepoetica.art/2020/08/14/vinicius-de-moraes-ternura-poema/): Ternura - um poema de Vinicius de Moraes
- [Javier Salvago - Retrato](https://singularidadepoetica.art/2020/08/13/javier-salvago-retrato/): Retrato, um poema de Javier Salvago
- [Carlos Drummond de Andrade - Mãos dadas](https://singularidadepoetica.art/2020/08/12/carlos-drummond-de-andrade-maos-dadas/): Mãos Dadas, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Eugénio de Andrade - Não é verdade](https://singularidadepoetica.art/2020/08/11/eugenio-de-andrade-nao-e-verdade/): Cai, como antigamente, das estrelas um frio que se espalha na cidade. Não é noite nem dia, é o tempo ardente da memória das coisas sem idade. O que sonhei cabe nas tuas mãos gastas a tecer melancolia: um país crescendo em liberdade, entre medas de trigo e de alegria. Porém a morte passeia nos […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2020/08/10/cassiano-ricardo-a-graca-triste-2/): A graça triste, um poema de Cassiano Ricardo
- [Miguel Torga - Rogo](https://singularidadepoetica.art/2020/08/09/miguel-torga-rogo/): Não, não rezes por mim. Nenhum deus me perdoa a humanidade. Vim sem vontade E vou desesperado. Mas assinei a vida que vivi. Doeu-me o que sofri. Fui sempre o senhorio do meu fado. Por isso, quero a morte que mereço. A morte natural, Solitária e maldita De quem não acredita Em nenhuma oração De […]
- [Konstantinos Kaváfis - Um velho](https://singularidadepoetica.art/2020/08/07/konstantinos-kavafis-um-velho/): No meio do café ruidoso, sem ninguém, por companhia, está sentado um velho. Tem à frente um jornal e se inclina sobre a mesa. Imerso na velhice aviltada e sombria, pensa quão pouco desfrutou as alegrias dos anos de vigor, eloqüência, beleza. Sabe que envelheceu bastante. Vê, conhece. No entanto, o seu tempo de moço […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do mar](https://singularidadepoetica.art/2020/08/05/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar-2/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja […]
- [Susan Mitchell - Os mortos](https://singularidadepoetica.art/2020/08/03/susan-mitchell-os-mortos/): À noite, os mortos descem até o rio para beber.Livram-se dos medos e de suas preocupaçõespor nós. Tiram dos bolsos as velhas fotografias.Alisam as linhas de nossas mãos e leem nosso futuro,rachado e amarelado.Alguns mortos encontram o caminho até nossas casas.Sobem aos sótãos.Leem as cartas que nos enviaram, insaciáveispor vestígios de seu amor.Contam histórias uns […]
- [Eduardo Affonso - Labereda temporã](https://singularidadepoetica.art/2020/08/02/eduardo-affonso-labereda-tempora/): É possível voltar a se apaixonar com meio século de vida? Acreditar em amor eterno depois de amores eternos terem durado tão pouco? Em amor sem traição depois de ter traído tanto? E por que querer de novo a ansiedade diante do telefone que não toca, da carta que não chega, da campainha que não […]
- [Dana Gioia - Obrigado por se lembrar de nós](https://singularidadepoetica.art/2020/08/01/dana-gioia-obrigado-por-se-lembrar-de-nos/): As flores enviadas para cá por engano,assinadas com um nome que ninguém conhece,estão murchando. O que faremos?Nossa vizinha diz que não são para ela,e ninguém está perto de fazer aniversário.Deveríamos agradecer a alguém pelo equívoco.Será que um de nós está tendo um caso?A princípio rimos, depois nos perguntamos. A íris foi a primeira a morrer,envolta […]
- [Gonçalo M. Tavares - Do "Diário da Peste", 27/04/2020](https://singularidadepoetica.art/2020/08/01/goncalo-m-tavares-de-diario-da-peste-27-04-2020/): Passados sete anos, duas semanas ou dois meses. Sairá à rua uma nova espécie humana. Cheia de vontade de construção; cheia de vontade de destruição. Humanos 2.0. Dois médicos beijam-se em Madrid com a máscara posta. Os amantes, quadro de René Magritte: uma mulher e um homem beijam-se com um pano na cabeça. A mãe […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Com vista para dentro](https://singularidadepoetica.art/2020/07/30/ernesto-perez-vallejo-com-vista-para-dentro/): Não sou o melhor homem que já conheceste,nem metade do bom que ainda te falta descobrir por aí,nem sequer tenho estudos, e minha voztreme diante de qualquer um que me olha nos olhos.Minha tristeza pesa mais aos domingos,mas na verdade é meu estado mais corriqueiro.Às vezes, tenho crises de ansiedade,às vezes, de raiva;tenho uns vinte […]
- [Jeffrey Harrison - Nossa outra irmã](https://singularidadepoetica.art/2020/07/28/jeffrey-harrison-nossa-outra-irma/): Nossa outra irmã para EllenA coisa mais cruel que fiz à minha irmã mais novanão foi disparar um dardo caseiro em seu joelho,onde ficou pendurado por um ofegante momentoantes de cair, mas sim contar que tínhamosoutra irmã, mais velha, que havia ido embora.Quais foram meus motivos não consigo lembrar: um capricho,ou talvez uma necessidade de […]
- [Robert Creeley – O fim](https://singularidadepoetica.art/2020/07/26/robert-creeley-o-fim/): Quando percebo o que as pessoas pensam de mim fico imerso em minha solidão. O cinza chapéu previamente adquirido enjoa. Não tenho mais nenhum propósito identificável. Uma sensação de estar sendo sufocado penetra em minha garganta. Trad.: Nelson Santander The End When I know what people think of me I am plunged into my loneliness. […]
- [David Mourão-Ferreira - Herança](https://singularidadepoetica.art/2020/07/24/david-mourao-ferreira-heranca/): Ouvir, ouvir de noite uma ambulância, E desejar que estejas a morrer; Fechar a porta à minha própria infância; Amigos, conhecidos, nem os ver; Quebrar nas mãos o aro da esperança; Mas de mim para mim depois dizer: “Calma! Quem nada espera tudo alcança…”; E guardar o revólver; e beber, A sós, o vinho que […]
- [Konstantinos Kaváfis - Vozes](https://singularidadepoetica.art/2020/07/22/konstantinos-kavafis-vozes/): Vozes queridas, vozes ideais daqueles que morreram ou daqueles que estão perdidos para nós, como se mortos. Eles nos falam em sonho, algumas vezes; outras vezes, em pensamento as escutamos. E, quando soam, por um instante eis que retornam os sons da poesia primeva em nossa vida, qual música distante que se perde noite afora. […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - O fotógrafo e a modelo](https://singularidadepoetica.art/2020/07/20/jorge-valdes-diaz-velez-o-fotografo-e-a-modelo/): O tempo que foi sempre teu inimigo se deteve em tua imagem. Já és aquela garota do calendário, a princesa sem fábulas, o anjo que consigo pendurar em qualquer nuvem. De ouro e trigo a luz encaracolada em tua cabeça, a areia que acaba onde começa a linha de teu sexo. Estás comigo e não […]
- [Adriano Nunes - Cantar é preciso](https://singularidadepoetica.art/2020/07/18/adriano-nunes-cantar-e-preciso/): para Antonio Cicero Cantar é preciso, Ainda que seja O vazio, o nada, A tristeza, a perda, O que quer que até Alcance a cabeça. Cantar e cantar, Mesmo que depois O existir se perca Na eterna estranheza Da cantiga, para Que o agora exerça A sua potência De luz, porque já Pouquíssimo importa Senão […]
- [Doug Dorph - Planeta esquecido](https://singularidadepoetica.art/2020/07/16/doug-dorph-planeta-esquecido/): Peço à minha filha que diga os nomes dos planetas.“Vênus… Marte… e Plunis!”, ela responde.Quando eu tinha seis ou sete anos, meu paime acordou no meio da noite.Descemos até o playground e deitamosde costas no concreto, olhando para cimaà espera das estrelas cadentes que a TV prometera. Não me lembro de nenhuma estrela cadente. Lembrode […]
- [Juan Vicente Piqueras - Lázaro se recusa a ressuscitar](https://singularidadepoetica.art/2020/07/14/juan-vicente-piqueras-lazaro-se-recusa-a-ressuscitar-i/): Um dia ouvi vozes que vinham de fora.Finalmente!, vozes de fora, pensei – vozes de outrosque levam a luz dentro de si e a revelam,que vem até mim do ar, e não de mim. Vozes que ao se aproximarem, viraram sussurros.Passos que pararam diante da minha porta.Alguém disse: Aqui jaz, como se lesse.Os demais ficaram […]
- [Joan Margarit - Último trem](https://singularidadepoetica.art/2020/07/12/joan-margarit-ultimo-trem/): Último tremCrematório de Collserola Se visses a chuva que envernizao verde escuro e espesso do jardim.Teu vagão solitário está chegandoà sala espaçosa, sem adornos,mobiliário, ou luminárias,da Estación de Francia da morte.Só se escuta o murmúrio do motorque arrasta o pesoda infância e da juventude– de teu anônimo tempo, já perdido,que nunca mais será reclamado –,rumo […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Vers de circonstance"](https://singularidadepoetica.art/2020/07/10/paulo-henriques-britto-vers-de-circonstance/): I. Imunidade de Rebanho A estupidez é sua própria recompensa. Graças a ela, o mundo faz sentido, um só, que é fácil de identificar. E só o fácil satisfaz a quem não pensa. Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância é o sumo bem dos cidadãos de bem, é a verdadeira marca dos eleitos. Ter sucesso […]
- [Wendell Berry - De "Sabbaths" (2001)](https://singularidadepoetica.art/2020/07/08/wendell-berry-de-sabbaths-2001/): […] III Peça ao mundo que revele sua quietude —não o silêncio das máquinas quando cessam,mas a verdadeira quietude onde os cantos das aves,as árvores, os sinos-das-sombras, os caracóis, as nuvens, as tempestadesse tornam o que são – e nada além disso. […] V O vento do outono chegou.Está por toda parte. Movecada folha de […]
- [Eamon Grennan - Uma manhã](https://singularidadepoetica.art/2020/07/06/eamon-grennan-uma-manha/): Procurando pedras raras, dei com a lontra mortaapodrecendo na linha da maré, e carreguei pelo resto do dia o odor desta brutaldespedida. Aquele som lancinante e agudo do ostraceiroecoava pela enseada rochosaonde um cormorão se alimentava e submergia na baíae de onde uma garça-real alçou voo de um rochedo onde estivera invisível,pairou um tempo, e […]
- [David Mourão-Ferreira - Soneto do cativo](https://singularidadepoetica.art/2020/07/04/david-mourao-ferreira-soneto-do-cativo/): Se é sem dúvida Amor esta explosão De tantas sensações contraditórias; A sórdida mistura das memórias, Tão longe da verdade e da invenção; O espelho deformante; a profusão De frases insensatas, incensórias; A cúmplice partilha nas histórias Do que os outros dirão ou não dirão; Se é sem dúvida Amor a cobardia De buscar nos […]
- [William Butler Yeats - Leda e o cisne](https://singularidadepoetica.art/2020/07/02/william-butler-yeats-leda-e-o-cisne/): Súbito, um baque: as grandes asas brancas Pousam sobre a jovem, e a agarram com jeito, As patas negras lhe afagam as ancas E a estreitam, impotente, contra o peito. Com dedos trêmulos, como afastar Das coxas fracas o esplendor plumado? E como não sentir a palpitar O estranho coração, desabalado? Um espasmo ― e […]
- [Ted Kooser - Depois de anos](https://singularidadepoetica.art/2020/06/30/ted-kooser-depois-de-anos/): Hoje, de longe, eu a vi se afastando, e, sem nenhum som, a fronte brilhante de um glaciar deslizou para o mar. Um antigo carvalho tombou na Cumberlands, mantendo apenas um punhado de folhas, e uma idosa espalhando milho para suas galinhas olhou para cima por um instante. No outro lado da galáxia, uma estrela […]
- [Dorianne Laux - Interstício](https://singularidadepoetica.art/2020/06/19/dorianne-laux-intersticio/): Nós montamos o quebra-cabeça peça por peça, apreciando como um entalhe curvo se insere tão suavemente no outro. Uma mancha amarela se transforma na palha de uma vassoura, e duas peças azuis completam o último pedaço do céu. Juntos, remendamos as cadeiras de balanço e as árvores do outono, combinando ouro com ouro. Temos nas […]
- [Fernando Pessoa - [Tenho tanto sentimento]](https://singularidadepoetica.art/2020/06/18/fernando-pessoa-tenho-tanto-sentimento/): Tenho tanto sentimento Que é frequente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a […]
- [Marie Howe - Quantas vezes](https://singularidadepoetica.art/2020/06/17/marie-howe-quantas-vezes/): Não importa quantas vezes eu tente, não consigo impedir meu pai de entrar no quarto da minha irmã e não consigo ver melhor, inclinando-me daqui para olhar em seus olhos. Está escuro no corredor e todos estão dormindo. Este é o passado onde tudo já está perfeito e nada muda, onde o copo de água […]
- [Kevin Hart - Noites](https://singularidadepoetica.art/2020/06/16/kevin-hart-noites/): Não há nada que eu realmente queira: As estrelas hoje à noite são profusas e frias Acima da minha casa que vagamente paira em uma via logo perdida nas trevas. Meu prato raso está todo lascado (o que indica que mudei bastante); Meu copo está rachado de um lado (isso mostra que há um rumo […]
- [Steve Kowit - Algumas nuvens](https://singularidadepoetica.art/2020/06/15/steve-kowit-algumas-nuvens/): Agora que desliguei o telefone, ninguém poderá me encontrar – Ao menos por esta tarde eles terão que passar sem meus conselhos e opiniões. Agora ninguém mais vai ligar & perguntar com uma voz vacilante se eu ainda não ouvi que ela está morta, a mulher que eu amei uma vez – nada além de […]
- [Juan Vicente Piqueras - Wuang Shi, pirata aposentado, fala em sua festa de aniversário no hospital de Ching Pei para seus amigos e convidados imaginários](https://singularidadepoetica.art/2020/06/14/juan-vicente-piqueras-wuang-shi-pirata-aposentado-fala-em-sua-festa-de-aniversario-no-hospital-de-ching-pei-para-seus-amigos-e-convidados-imaginarios/): Wuang Shi, pirata aposentado, fala em sua festa de aniversário no hospital de Ching Pei para seus amigos e convidados imaginários para Rafa Rodríguez Perdeu-se a honra. Como se fosse o tempo, a vida, o rumo ou a paciência perdeu-se a honra. E aqui estamos. Todos sabeis quem sou e não direi meu nome nem […]
- [Connie Wanek - Depois de nós](https://singularidadepoetica.art/2020/06/13/connie-wanek-depois-de-nos/): Depois de nós Não sei se estamos no início ou na fase final. Tomas Tranströmer A chuva está caindo através do telhado. E tudo o que prosperou debaixo do sol, os livros que se abriram de manhã e se fecharam à noite, e o dia inteiro viraram suas páginas para a luz; os esboços de […]
- [Jane Kenyon - A tigela azul](https://singularidadepoetica.art/2020/06/12/jane-kenyon-a-tigela-azul/): Como primitivos, enterramos o gato com seu prato. Com as mãos nuas raspamos areia e cascalho de volta para o buraco. Caíram com um silvo e um baque ao lado dele, em seu longo pelo vermelho, o branco pelame entre seus dedos, e seu longo, para não dizer aquilino, nariz. Nós nos levantamos e nos […]
- [Forrest Hamer - Lição](https://singularidadepoetica.art/2020/06/11/forrest-hamer-licao/): Foi no verão de 63 ou 64, e meu pai estava transportando nossa família de Ft. Hood para a Carolina do Norte em nosso Buick 56. Tínhamos ouvido falar dos ataques da Klan, e sabíamos que no Mississippi estava mais perigoso do que o habitual. A escuridão pendurava-se às arvores como musgo, e sempre que […]
- [Brian Turner - Quão brilhante é abril](https://singularidadepoetica.art/2020/06/10/brian-turner-quao-brilhante-e-abril/): E o ar, seco,Como as espáduas de um búfalo-d’água. Gafanhotos arranham a terra,roçam as asas com pernas finas,irrompendo à frente dos soldadosem voos rasantes em arco, as asas um borrão. Os soldados já não percebem,veem apenas os escombros das ruas,corpos cobertos por lençóis, e o sol,quão brilhante é, quão duro e plano e branco. Serão […]
- [David Ignatow - Para a minha filha](https://singularidadepoetica.art/2020/06/09/david-ignatow-para-a-minha-filha/): Quando eu morrer, escolhe uma estrelae dá-lhe o meu nomepara que saibas quenão te abandoneinem te esqueci.Foste para mim uma estrela,guiando-me pelo teu nascimentoe infância, minha mãona tua mão. Quando eu morrer,escolhe uma estrela e dá-lheo meu nome para que eu possa brilharsobre ti, até que te juntes a mimna escuridão e no silênciojuntos. Trad.: […]
- [Robinson Jeffers - Falcão ferido](https://singularidadepoetica.art/2020/06/08/robinson-jeffers-falcao-ferido/): Falcão Ferido I O pilar quebrado da asa se projeta da espádua coagulada,A asa arrasta-se como um estandarte no fracasso,Não mais para usar o céu, apenas para viver com fomeE dor por uns poucos dias: nem gato nem coioteAbreviarão a semana de espera pela morte: há caça sem garras.Ele permanece sob o carvalho e esperaOs […]
- [Fernando Sabino - Certeza](https://singularidadepoetica.art/2022/12/31/fernando-sabino-certeza-2/): Fernando Sabino – Certeza De tudo, ficaram três coisas:A certeza de que estamos sempre começando.A certeza de que precisamos continuar.A certeza de que seremosinterrompidos antes de terminar.Portanto devemos:Fazer da interrupção um caminho novo.Da queda um passo de dança.Do medo, uma escada.Do sonho, uma ponte.Da procura, um encontro. _________________________________________ A vida… A vida é um eterno recomeçar, até que não seja mais. Foi-se 2022, com todo o seu aparato de sustos e alegrias, desafios e superações, terror e gozo; começa 2023, com seu bafejo de esperanças, sonhos e desejos. Ainda estamos, eu e você que me lê, nesse transatlântico do tempo – […]
- [Charles Baudelaire - A Giganta](https://singularidadepoetica.art/2022/12/30/charles-baudelaire-a-giganta-2/): Pois quando a Natureza, em seu capricho exato,Gerava estranhos seres raros, dia a dia,Uma giganta moça – eis do eu gostaria,Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato. Ver seu corpo florir com a flor de sua almaE crescer livremente em seus terríveis jogos;Ver se não teria no peito alguma oculta chama,Com as chispas molhadas que mostra nos olhos. Percorrer à vontade a realeza das formas,Escalar a vertente dos joelhos enormesE, quando os sóis do estio, à complacência alheios, Estendem-na, cansada, ao longo da campina,Dormir descontraído à sombra dos seus seios,Como abrigo tranqüilo ao pé de uma colina. Trad.: […]
- [Wanda Coleman – Uma conversa com meu neto de seis anos de idade](https://singularidadepoetica.art/2022/12/29/wanda-coleman-uma-conversa-com-meu-neto-de-seis-anos/): há uma tempestade cósmica sempre que ele está em minha órbita cinco raças em guerra fora do tempo, aprisionadas em um corpo alto e petulante, joelhos e cotovelos ossudos os ensinamentos rigorosamente amorosos da mãe e do pai criam raízes a despeito da engenharia de mídia e da pressão dos amigos. as tiradas insolentes, comentários desbocados, e o humor atrevido que em breve farão parte de suas defesas adolescentes ainda não se materializaram. neste momento, ele sabe que não deve faltar à verdade e assim, nesta manhã de outono, quando o chamo para uma conversa ancestral, ao coloca-lo no meu colo […]
- [Maya Angelou - Ainda assim me Levanto](https://singularidadepoetica.art/2022/12/28/maya-angelou-ainda-assim-me-levanto-2/): Você pode me inscrever na históriaCom as mentiras amargas que contarVocê pode me arrastar no pó,Ainda assim, como pó, vou me levantar Minha elegância o perturba?Por que você afunda no pesar?Porque eu caminho como se eu tivessePetróleo jorrando na sala de estar Assim como a lua ou o solCom a certeza das ondas no marComo se ergue a esperançaAinda assim, vou me levantar Você queria me ver abatida?Cabeça baixa, olhar caído,Ombros curvados como lágrimas,Com a alma a gritar enfraquecida? Minha altivez o ofende?Não leve isso tão a malSó porque eu rio como se tivesseMinas de ouro no quintal Você pode me […]
- [Cesare Pavese - O paraíso sobre os telhados](https://singularidadepoetica.art/2022/12/27/cesare-pavese-o-paraiso-sobre-os-telhados/): Será um dia tranquilo, de luz friacomo o sol que nasce ou que morre, e o vidrofechará por fora o ar sórdido. Acorda-se uma manhã, de uma vez para sempre,na tepidez do último sono: A sombraserá como a tepidez. Encherá o quartopela grande janela um céu mais vasto.Da escada subida um dia para semprenão virão mais vozes nem rostos mortos. Não será preciso deixar a cama.Só a aurora entrará no quarto vazio.Bastará a janela para vestir cada coisade uma claridade tranquila, quase uma luz.Pousará uma sombra descarnada no rosto supino.As recordações serão coágulos de sombracalcados quais velhas brasasna chaminé. A recordação […]
- [Wislawa Szymborska - O Terrorista, Ele Observa](https://singularidadepoetica.art/2022/12/26/wislawa-szymborska-o-terrorista-ele-observa-2/): A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.Agora são só treze e dezesseis.Alguns ainda terão tempo de entrar;alguns de sair. O terrorista já passou para o outro lado da rua.A distância o livra de todo male a vista, bom, é como no cinema: Uma mulher de jaqueta amarela, ela entra.Um homem de óculos escuros, ele sai.Uns jovens de jeans, eles conversam.Treze e dezessete e quatro segundos.Aquele mais baixo tem sorte, sai de lambreta,e aquele mais alto entra. Treze e dezessete e quarenta segundos.Uma moça, ela passa de fita verde no cabelo.Só que aquele ônibus a encobre de repente. Treze […]
- [Kenneth Rexroth – Música de Alaúde](https://singularidadepoetica.art/2022/12/25/kenneth-rexroth-musica-de-alaude/): A Terra vai durar por muito tempoAntes de finalmente congelar;Os homens nela estarão; receberão nomes,Justificarão seus atos.Já nós estaremos aqui somenteComo componentes químicos —Na verdade, uma pequena franquia.Agora ainda temos uma vida,Corpúsculos, ambições, carícias,Como todos já tiveram um dia —Todas as pessoas brilhantes, as neige d’antan1,“Blithe Helen, white Iope, and the rest,”2Todos os inquietos e memoráveis mortos. Aqui, neste final de ano, nas festividadesDo nascimento, ofertemos uns aos outrosAs dádivas outrora trazidas para o oeste através de desertos —O precioso metal de nossos cabelos misturados,O incenso de braços e pernas arrebatados,A mirra de beijos invencíveis, desesperados —Celebremos a Natividade Diária e […]
- [Billy Collins – Pardal de Natal](https://singularidadepoetica.art/2022/12/24/billy-collins-pardal-de-natal-2/): A primeira coisa que ouvi esta manhãfoi um rápido bater de asas, suave, insistente — asas contra o vidro, como pude descobrirlá embaixo, quando vi o pequeno pássaroamotinando-se contra a esquadria de umajanela alta, tentando lançar-se através do enigma do vidro para a vasta luminosidade. Então, um som da garganta do gatoque estava acocorado sobre o tapeteme contou como o pássaro tinha entrado,transportado na noite friaatravés do acesso na porta do porão,e mais tarde libertado do aperto suave dos dentes. Sobre uma cadeira, aprisionei suas pulsaçõesem uma camisa e o levei até a porta,tão leve que pareciater desaparecido no ninho de […]
- [Louis Macneice - O observador de estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/12/23/louis-macneice-o-observador-de-estrelas/): Quarenta e dois anos atrás (para mim, se não para mais ninguém,O número é de algum interesse), fazia uma noite brilhante e estreladaE o expresso para o ocidente, sem cabines, ia vazio,De modo que, saltando de um lado para outro, eu podia capturar a insólita visãoDaquelas fendas quase intoleravelmenteBrilhantes, cravadas no céu, que me fascinavam, em parte por causaDe seus nomes latinos, e em parte porque lera nos livros didáticosO quão distantes elas estavam — parece que sua luzAs deixara (algumas ao menos) muito tempo antes de mim. E a esta lembrança agora eu acrescento que aLuz que deixou algumas delas […]
- [Ana Martins Marques - Batata Quente](https://singularidadepoetica.art/2022/12/22/ana-martins-marques-batata-quente-2/): Leia "Batata Quente", de Ana Martins Marques, um poema breve e engenhoso sobre amor, vulnerabilidade e o risco de confiar o coração a outra pessoa.
- [Stanley Kunitz – As camadas](https://singularidadepoetica.art/2022/12/21/stanley-kunitz-as-camadas/): "As camadas", um poema de Stanley Kunitz que reflete sobre as múltiplas vidas atravessadas ao longo da existência, as perdas acumuladas e a contínua transformação do eu, culminando na exortação a viver nas camadas da experiência, e não nos escombros do passado.
- [Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer](https://singularidadepoetica.art/2022/12/20/stig-dagerman-a-nossa-necessidade-de-consolo-e-impossivel-de-satisfazer-2/): Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tampouco me legaram o disfarçado furor do cético, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta, rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível […]
- [Matt Rasmussen - Suicídio reverso](https://singularidadepoetica.art/2022/12/19/matt-rasmussen-suicidio-reverso/): O cara para quem papai vendeu o carrovolta para buscar o dinheiro dele, sai do veículo. Com trapos imundosnós o esfregamos até que deixe de brilhar e limpamos o seu sangue dascosturas do assento. Cada floco de neve se move antesde alçar ao céu enquanto eu percebo que você não estará morto.O não sofrimento termina quando a desordem de sua cabeçase reúne em torno de uma bala em sua boca.Você a cospe na arma do papai antes de chegarmos na entrada da garagem,enquanto a noite se ilumina e nós despejamos saco após saco de folhas no gramado, esperando que elas pulempara […]
- [Pedro Salinas - de "Presságios"](https://singularidadepoetica.art/2022/12/18/pedro-salinas-de-pressagios-2/): 41 Estas frases de amor que se repetem tantonão são nunca as mesmas.Todas tem idêntico som,mas uma vida anima cada uma,virgem e só, se é que a percebes.E não te canses nuncade repetir as palavras iguais:sentirás a emoção que sente a almaao ver nascer a estrela primeirae ao ver que ela se multiplica, conforme a noite avança,em outras estrelinhasde brilho diverso e de alma única.E assim, ao repetires estasimples frase de amor, vão-se fixandoinfinitas estrelas em teu peito:um mesmo sol empresta luz a todas,o sol distante que virá amanhãquando cessarem as estrelas e as palavras. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado […]
- [Thomas Lux – As pessoas da outra aldeia](https://singularidadepoetica.art/2022/12/17/thomas-lux-as-pessoas-da-outra-aldeia/): odiamos as pessoas desta aldeiae pregaríamos os chapéusàs nossas cabeças por nos recusarmos a remove-los em sua presençaou grampearíamos as mãos às nossas testaspor nos recusarmos a cumprimenta-losse não os feríssemos primeiro: enviamos-lhes pacotes de ratose, à noite, misturamos vidro moído à sua farinha.Nós fazemos isto, eles, aquilo.Eles arrancam a laringe da garganta de um de nossos irmãos.Nós evisceramos uma de suas irmãs.Os poços de areia movediça que eles fabricaram eram bons.Nossas equipes de amputação eram melhores.Treinamos alguns pássaros para roubar-lhes o trigo.Eles nos enviaram embaixadores-de-paz-bomba.Eles fazem isto, nós, aquilo.Nós cancelamos a importação de ovelhas.Eles já não compram nossos cobertores.Nós zombamos […]
- [Ellen Bass - Miniantologia Poética - Sumário](https://singularidadepoetica.art/2022/12/09/ellen-bass-miniantologia-poetica-sumario/): Ellen Bass – Miniantologia Poética Seleção e tradução de Nelson Santander Uma mulher recebe uma notícia que teme. Outra acompanha a mãe durante seus últimos dias. Alguém observa uma borboleta morta, um pássaro contaminado, o corpo envelhecido da pessoa amada. Em cada uma dessas cenas, seria possível recuar. Os poemas fazem o movimento contrário: aproximam-se. A miniantologia começa com “O importante é”. A dor já está presente, pesada como outro corpo. Ainda assim, a vida é recebida novamente. Os poemas seguintes permanecem perto dessa decisão, sem transformá-la em promessa. São 36 textos percorrendo quatro livros e mais de duas décadas da […]
- [Ellen Bass – O tempo que ela quiser](https://singularidadepoetica.art/2022/12/08/ellen-bass-pelo-tempo-que-ela-quiser-2/): No caminho para o cemitério, eu dormi.Não na limusine que levava o caixão da minha mãe,mas apagada em uma van, a família toda falando ao meu redor.Eu estava exausta do sofrimento dela, de seus apelos —me ajuda e chega, chega —e tentando fazer com que a morfina permanecesse na vala de suas gengivas.Como pude não ter estudado isso com antecedência?A maneira como minha mãe aprendeu a dar injeções no curso de enfermagem,enfiando a agulha em uma laranjae praticando nas outras meninas.Deus só nos dá força para um dia de cada vez.Quantas vezes eu a ouvi dizer isso?Pergunte a si própria, eu posso ganhar […]
- [Ellen Bass - Durante a pandemia, ouço a gravação de A Love Supreme no Festival Juan-les-Pins, de 26 de julho de 1965](https://singularidadepoetica.art/2022/12/07/ellen-bass-durante-a-pandemia-ouco-a-gravacao-de-a-love-supreme-no-juan-les-pins-de-26-de-julho-de-1965/): As primeiras notas familiares, reconhecíveis em qualquer lugar, me abençoamnesta manhã selvagem. O sax de Coltrane sobee desce em cada beco, entra e sai das veias e sobre a facedas águas e nos corações de pedra.E quando repete A love supreme de novo e de novo,é como se, se o dissesse o suficiente, ele pudesse libertar essa misericórdia dentro de mim, na diminuta cadeia ossicular,na agitação química, na faísca, e em meu cérebro recebendo-a — ainda que apenaspor estes trinta e dois minutos e quarenta e oito segundos.Minha filha está doente, há sete semanas com o vírus.Ontem, sentindo-se entediada, ela mandou […]
- [Ellen Bass - Foi esta a porta](https://singularidadepoetica.art/2022/12/06/ellen-bass-this-was-the-door/): Não havia belezaquando eu me sentava na cozinha, à mesa, rompendo as cápsulas rosadas, dividindo os grânulospara que ela pudesse ingerir a promessa precisa, onde ela se deitava no quintal envolta em colchastodas as noites olhando por entre os ramos, estrelas salpicadas no venoso céu escuro.Não havia tempo lá fora. Ou o tempo era grande o suficiente para retê-la.Uma lua girando lentamente. Esperei o quanto pude. Então começamos.Um banho. Chá. Litanias de consolação, embora ela estivesse inconsolável.Massageei seus pés diante da porta o que levou a uma noite de insônia ouà noite em que nos dividimos nas celas de nossos sonhos […]
- [Ellen Bass - Fracasso](https://singularidadepoetica.art/2022/12/05/ellen-bass-fracasso/): Eu parecia uma mulher. Tinha começadoa sangrar, algo que eu queria com fervor,o mesmo fervor com que ardiao beijar Earl Freeman, ao cheirar seu suor de homeme tocar o côncavo em seu esternoquando nos deitamos na areia quente em Atlantic City,o céu claro arqueado sobre nós. Eu estava com tanta pressade crescer, disse minha mãe. Mas eu era inocenteno sentido de ainda não ser culpadaquando levei a colher de mingau aos lábios do meu paino dia em que ele voltou do hospital.Minha mãe teve que voltar ao trabalho —na Hy-Grade Wines and Liquors,que pagou a mesa de fórmica marrom, o refrigerador […]
- [Ellen Bass - Matrimônio](https://singularidadepoetica.art/2022/12/04/ellen-bass-matrimonio/): Quando, depois de uma grave enfermidade, vocêfinalmente estende todo o comprimento do seu corpo sobre o meu, não é como os estratos da terra, a pressãodo tempo sobre a areia, a lama, fragmentos de conchas, todosesses anos, incontáveis despertares e adormeceres,noites em claro, brigas, manhãs banaisfalando de nada, e os brevesmergulhos ardentes, e o silênciosem consciência de si dos animais pastando, a águaem movimento, o vento, o gelo que carrega os minutos e deixapara trás minérios que ligam o sedimento em rocha?Como suportar o peso, com cadafragmento de osso comprimido? E depois, como suportar quandoo peso se vai, como uma mulhercujo […]
- [Ellen Bass – Retorno para mamografia e ultrassom](https://singularidadepoetica.art/2022/12/03/ellen-bass-mammogram-call-back-with-ultra-sound/): Então é para isso que estou aqui, para olhar para dentrodo peso mudo da minha mama direita, um punhado densode tesouros que eu desejava quando menina quando choreiatrás da cortina na loja de espartilhos das irmãs Guerlaine.Aquelas afáveis solteironas mal podiam suportarminhas lágrimas, enquanto ajustavam as alçasde um sutiã de rendas com enchimento. Tive que esperar mais um anoantes que meus seios inchassem como velas ao ventoe muitos foram os exploradores transportados,em busca de perfumes e especiarias,pelos inervados mamilos cantando através dos fios.Mas nunca houve uma alegria como esta,comigo ali deitada na friagem verde pálida da radiologia.A linhagem da morte desviou-se […]
- [Ellen Bass - Experimento de empatia](https://singularidadepoetica.art/2022/12/02/ellen-bass-experiment-in-empathy/): A cientista coloca cada ratoem sua própria caixa de vidroe reproduz por trinta segundos“What a Wonderful World.”Nos últimos três segundos ela aplica um choque em um dos ratos.Isto é seguido por noventa pulsações de silêncio.E então o ciclo recomeça. Enquanto ela descreve o experimentonão posso deixar de pensar em como isso soa familiar – um minuto deLouis Armstrong cantandoe no seguinte –alguma febre ou soçobro, algum erro irreal.E me sento segurando uma colher,incapaz de leva-la à boca, incapazde largá-la. Esta linhagem de ratos descende de um circo no século XIX. Seus ancestraisbalançavam-se em trapézios de fitas de cetime saltavam através de […]
- [Ellen Bass - Porque](https://singularidadepoetica.art/2022/12/01/ellen-bass-porque/): Porque na noite em que dei à luz meu marido ficou cego.Histérico, acho que é como você denominaria isso. Porque havia muitas pessoase depois não havia ninguém. Apenas aquela pequena criatura — seu pequeno choronão maior do que uma lantejoula. Porque eu fizera força por muitas horas.Mesmo com as placas macias do crânio dela que se movimentavam e a clavícula estreita.Quando me agachei pude sentir as molhadas mechas de cabelo daquele ser que viviadentro de mim, mas cujo coração era frágil. A parteira tinha me pedido para não empurrarno caminho para o hospital, mas eu empurrara mesmo assim. Isto foi na […]
- [Ellen Bass – Pinheiros de Ponary](https://singularidadepoetica.art/2022/11/30/ellen-bass-pinheiros-de-ponary-2/): Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles estavam aqui quandoos trens circulavam sobre os trilhosdormentes. E antes de adentrartrês metros na floresta, eu ouço o som.Claro. Tinha que existir um trem.Mas eu não esperava que ainda funcionasseassim, as pessoasentrando e saindo com seus pacotes.Eu não havia pensado no cheiro de resina se espalhando […]
- [Ellen Bass - A longa recuperação](https://singularidadepoetica.art/2022/11/29/ellen-bass-the-long-recovery/): Quando você voltava para casa vindados campos de morango, eu despejavaa sujeira das barras de sua calça jeans,e removia a terra lamacenta dos joelhos.Isso me fazia querer lamber o suor do seu pescoço, provar o saldas fendas empoeiradas. Não, não,eu digo agora ao meu estúpido sexoque, como um cão, não consegue entender.Eu sei que sou menos que um cisco no planeta,o planeta é menos que um cisco,e assim por diante. É sagradoou insano que eu me importe tantocomigo mesma, que vocêsignifique tanto para mim? De que me servevolta-la de novo e de novopara o sol? Tenho idadesuficiente para saber que não […]
- [Ellen Bass – Índigo](https://singularidadepoetica.art/2022/11/28/ellen-bass-indigo/): Enquanto caminho pela West Cliff Drive, um homem correna minha direção empurrando um daqueles carrinhos de corridacom amortecedores para que o bebê continue dormindo,e ele de fato está. Consigo apenas ter um vislumbrede suas pálpebras quase translúcidas. O pai é jovem,uma jungle de índigo e cornalina tatuadosdos dedos ao maxilar, densas videiras e flores,santos e símbolos. Espessas cavilhas de madeira perfuramseus lóbulos e seus óculos escuros testemunhamo halo cintilante que o circunda. Estou cheia de inveja.Como costumo ficar. É uma espécie de obsessão.Queria que ele tivesse sido o pai da minha filha.Queria ter casado com um homem que quisestar em um […]
- [Ellen Bass - Vamos](https://singularidadepoetica.art/2022/11/27/ellen-bass-vamos/): Vamos tirar nossas roupas e nos divertir.Podemos rolar como cães sem coleira na Lighthouse Beach1. Vamos exploraros corpos uma da outracomo uma liquidação de quatro de julho, revolvendo a orgiade tweed e sarja, seda e lantejoulas rodopiando em turbilhões.Buda diz para não discutir a não ser que seja necessário.Vamos abrir as ostras,banha-las com Martini seco,a mesa repleta de conchas peroladas. Podemos enchera banheira e fingir que estamos contemplandoo pôr do sol sobre a Tomales Bay. Seus seiossão lanternas cintilando sobre as águas.Seu quadris são ainda as colinas douradas da Califórnia.Esta manhã, abri um e-mail do Texasque dizia que eu vou para […]
- [Ellen Bass - Quando você voltar](https://singularidadepoetica.art/2022/11/26/ellen-bass-quando-voce-voltar/): As folhas caídas retornarão às árvores.Os cacos do vaso estilhaçado subirãoe se remendarão sobre a mesa.As capas de chuva se dobrarão novamente em seus invólucros achatados. O ovo,a gema nua e seu halo transparentedeslizarão de volta para a fina casca de cálcio.Imprecações serão despejadas de volta nas bocas,cartas se desfarão sozinhas, palavras serãosugadas para dentro da caneta. Meus cabelos grisalhosescurecerão e se tornarão as plumasde um cisne negro. As balas se encaixarãode novo em suas câmaras, a pólvorabem socada nos cartuchos. As bordasdesaparecerão dos mapas. A ferrugemretornará ao oxigênio e ao tempo. O fogovoltará ao tronco, o tronco à árvore,a branca […]
- [Ellen Bass - Ode ao deus dos ateus](https://singularidadepoetica.art/2022/11/25/ellen-bass-ode-ao-deus-dos-ateus/): O deus dos ateus não irá queimá-lo na fogueiraou arrancar suas unhas. Tampouco o fará clamar ou se curvar, abrir a própria pele com espinhos,ou adquirir folhas de ouro e vitrais.Não insistirá que você jejue ou distorçaa forma de sua fome sexual.Não há guerras travadas nem mulheres apedrejadas em nome dele.Você não precisa encobrir o rostoou sangrar os joelhos por ele.Você não precisa louvar. As ameixas vicejam extravagantemente,os golfinhos cosem o céu ao mar.Cada seixo e samambaia, charco e peixe,pertence a você, quer você creia ou não. Se a neblina se dissipaquando uma sombra vermelho-ferrugem desliza pela lua,o deus dos ateus […]
- [Ellen Bass - Manhã](https://singularidadepoetica.art/2022/11/24/ellen-bass-manha/): depois de Gwendolyn Brooks Na manhã de sua morte ela acordou agressiva, alguma força dormente revivera,insistente. Pela última vezcoloquei minha mãe sentada, desloquei a massa soltado seu corpo apoiando-o contra mim. Suas pernasressequidas penduradas junto às minhas, triunfosde vontade, todas as manhãs ela seobrigava a borrifar-se com perfume barato,içar os seios oscilantes para dentrodo sutiã, colocar as alças nas velhasrotinas. Estávamos sozinhas, pétalascaindo de buquês espalhadosao nosso redor. Puxeialguns travesseiros para trás quandonão pude mais segura-lae neles descansamos, ocorpo de minha mãe caídocontra o meu peito, a lenta inclinação dos caules verdes nos vasos.Seus longos respiros exaladoscontinuavam vindo contra suadeterminação. E […]
- [Ellen Bass - Pleasantville, New Jersey, 1955](https://singularidadepoetica.art/2022/11/23/ellen-bass-pleasantville-new-jersey-1955/): Eu nunca tinha visto um arco-íris ou colhidoum tomate de um tomateiro. Nunca havia atravessado um pomarou uma floresta. A única árvore que eu conheciacrescia em um quadrado de terra recortadodo asfalto, a amoreiraque meu pai estava matando lentamente, enfiandopregos de cobre em seu tronco.Mas em uma tarde quente de verãominha mãe me deixou arrastar a cama para o telhado.Lençóis secando nos varais,a caixa de areia do gato no canto,deitei-me em uma extensão de azul. O sol ondulavasobre minha pele como uma brisa sobre a água.Minhas pálpebras se fecharam. Eu podia ouvir os bagos madurosrebentando sobre o beco, os passosdos clientes […]
- [Ellen Bass - O começo do fim](https://singularidadepoetica.art/2022/11/22/ellen-bass-o-comeco-do-fim/): Quando era jovem e casada, eu beijeioutro homem. À tarde, eu segurava o telefonegrande e antiquado, sua voz penetrando meu corpo,escorrendo pelos escuros corredores do desejo.E enquanto minha bebê engatinhava aos meus pés,mordendo um rolo de fita adesiva, eu tilintava minhas chaves,ou o que eu pudesse alcançar para mante-la quieta.Eu lhe dizia que iria a qualquer lugar com ele:uma praia no Taiti, uma cabine telefônica em Detroit.Pensei ser a babá que entrara pelaporta da frente. Ouvi a geladeira abrir-se,o som de sucção do lacre sendo puxado.Ela estava procurando a Coca-Cola que eu lhe compravatoda semana, entre o arsenal de vitaminas do […]
- [Ellen Bass - Mais](https://singularidadepoetica.art/2022/11/21/ellen-bass-more/): Minha sogra não consegue mais cortar as unhas dos pésnem enxergar para arrancar os pelos do queixo.Ainda lhe resta o suficiente de sua mente para estar cientedo quanto ela está esmaecendo a cada dia.Pra quê? ela diz e rediz.Mas quando lhe pergunto se já está farta de tudo,ela responde que não, que quer outros dias.Ela quer um novo suéter preto — e brincos.Dei-lhe todos os meus melhores brincos, ela diz,olhando-me como se eu fosse roubaro ouro de seus dentes. Trad.: Nelson Santander BASS, Ellen. “More”. In:_____Like a Beggar. EUA: Copper Canyon Press, March 25, 2014. Miniantologia Poética – 19 More My […]
- [Ellen Bass - A manhã seguinte](https://singularidadepoetica.art/2022/11/20/ellen-bass-a-manha-seguinte/): Você está na pia da cozinha, derramando água ferventesobre o assado francês, um aroma oleoso subindo com a fumaça.E quando eu entro, você sequer levanta os olhos.Você está correndo para embalar seu almoço, encaixandoas tampas nos pequenos recipientes plásticos, enquanto liga para sua mãepara dizer-lhe que vai leva-la ao médico.Não vejo um traço do pequeno pedaço de céuque adentramos ontem à noite — um quimono de sedaflutuando em charcos de cetim e carpas de cobre, estrelas caindona água. Por acaso não abrimos caminho por entre as fissuras na rocha do cotidianoe não sulcamos a grama do pasto do prazer?Se a alma […]
- [Ellen Bass - Ode à repetição](https://singularidadepoetica.art/2022/11/19/ellen-bass-ode-a-repeticao/): Gosto de fazer a mesma caminhadapela vasta extensão da Woodrow* até o oceanoe na maioria das vezes viro à esquerda em direção ao farol.O mar é sempre diferente. Em alguns dias oníricos,ondas que mal ondulam, apenas uma extensa ondulaçãosem nenhuma pressa de chegar. Em outros, a rebentação está bêbada,colidindo contra os rochedos como um acidente de carro.E quando chego em casa, gostodos mesmos pratos empilhados na mesma despensae depois desempilhados e empilhados novamente.E do rododendro, primavera após primavera,florescendo em seu róseo ritual.Eu poderia habitar o reino de Coltrane,a fricção do ar através de sua palhetaenquanto ele dá forma a cada fraseado […]
- [Ellen Bass – Borboleta morta](https://singularidadepoetica.art/2022/11/18/ellen-bass-borboleta-morta/): Durante meses, minha filha carregou uma borboleta-monarca morta em um pequeno recipiente.Em sua mochila, o inseto ia e vinha da escolapara a casa de sua única amiga. À mesa de jantar,ele se acomodava, como um convidado, ao lado da carne assada.Ela o levava para a cama, apoiando-o em seu travesseiro. Foi no ano em que o irmão dela nasceu?Seria a borboleta seu próprio bebê demasiado frágilque viveu — tão brevemente — naquele mundo envidraçado?Ou foi no ano em que ela se recusou a ir à casa do pai?Foi nesta garota segurando-a-respiração que ali ela se tornou? Esta criança rechonchuda com suas […]
- [Ellen Bass - Esperando pela chuva](https://singularidadepoetica.art/2022/11/17/ellen-bass-waiting-for-rain/): É de manhã, enfim. Esta solidãoparece mais normal na luz, mais como meu reflexono espelho. Minha filha no pronto-socorro outra vez.Algo que ela comeu? Algum aromatizante que alguém borrifou no ar?Eles estão tentando me matar, ela diz,como se fosse uma piada. Lucréciome ajudou a passar a noite. Ele me disse que o mundo é um contínuo criar e desfazer. Talvez seja incorretopensar em melhor ou pior.Não há ninguém que possa carregar meu medopor uma criança que sai pela porta sem saber o que irá interromper sua respiração.A chuva que dizem estar a caminhonavega agora sobre o Pacífico em nuvens nimbos purpúreas.Mas […]
- [Ellen Bass - Nudez](https://singularidadepoetica.art/2022/11/16/ellen-bass-nudez/): A primeira vez que vi o pênis do meu namoradopensei que o pau estaria coberto de pelos, como o monte gramado do meu próprio sexo.Minha avó arrancou as últimas penas do frango castrado, de sua pele escorregadia, folículos,pequenas protuberâncias em forma de crateras. Certa vez, torci o pescoço de um passarinho que havia caído do ninho,um fragmento de casca colado em sua penugem. A nudez do recém-nascido, manchado de sangue e vérnix,esparramado como um sapo na barriga afundada da mãe, o rijo e retorcido cordão pulsando. A nudezdo corpo de minha mãe esfriando, o sangue recuando de seus leitos ungueais, dedos […]
- [Ellen Bass - Os anéis de Saturno](https://singularidadepoetica.art/2022/11/15/ellen-bass-os-aneis-de-saturno/): Ontem à noite vi pela primeira vez os os anéis de Saturno, aquele brilhante cinturãode cristais de gelo e poeira. Espelhospastoreando a luz, coletando-acomo pólen ou manáou baldes de água doce e cristalinaextraída das profundezas de um antigo poço.O brilho jorrou através de minhas pupilasneste corpo pequeno e transitório,meu cérebro rugoso em seu crânio de casca de ovo,meu sangue circulando, os seios que lembramo ardor e a abundância do leite.Saturno, seus anéis congelados de fogo branco,refletindo o sol a bilhões de quilômetros.Talvez haja uma palavra em outra línguapara quando a distância se dissolve no tempo.Como mudamos quando estamos lá forasob as […]
- [Ellen Bass - Relaxe](https://singularidadepoetica.art/2022/11/14/ellen-bass-relax/): Coisas ruins vão acontecer.Em seus tomates crescerá um fungoe seu gato será atropelado.Alguém deixará a sacola com o sorvetederretendo no carro e jogaráseu suéter de cashmere azul na secadora.Seu marido vai dormircom uma garota da idade de sua filha, os seios transbordandoda blusa. Ou sua esposa se lembrará que é lésbicae o trocará pela vizinha. O outro gato —aquele do qual você nunca gostou de verdade — contrairá uma doençaque exigirá que você abra sua boca febrila cada quatro horas. Seus pais vão morrer.Não importa quantas vitaminas tome,nem quanto Pilates faça, você vai perder suas chavesseus cabelos e sua memória. Se […]
- [Ellen Bass - Tingindo o cabelo dela](https://singularidadepoetica.art/2022/11/13/ellen-bass-tingindo-o-cabelo-dela/): Minha filha senta-se no quintal em minha velha camisolaenquanto eu manejo os produtos químicos nas raízes,grata por ter uma desculpa para toca-la.No último sol do entardecer, seus cabelos bebemdo profundo tom de páprica. Ela está segura. É fimde agosto, findaram-se os damascos, manchas escurasonde eles caíram ao longo do caminho.Ela parte amanhã, de voltaa uma vida tão perigosa que preciso exilar meu coração.Mesmo agora, com meus dedos metidos em seus cabelos,há um postigo entre nós, como o vidroque separa os cativos dos visitantes.Oh amor, o terror, disse Anne Sexton.Toda tristeza é algo que uma vez lhe trouxe alegria.No inverno passado, quando […]
- [Ellen Bass - Rendição](https://singularidadepoetica.art/2022/11/12/ellen-bass-rendicao/): Pensei que ela iria querer me poupardaquilo, do mau cheiro e da vergonha,mas na última semana, a da morte,minha mãe me deixou trocar suas fraldas,me deixou secá-la com um pano úmido e quentee deslizar o lençol sob os seus quadris,a pele amolecendo, os ossos dilatando,a gravidade chamando-a de volta a terra como algum fruto caído.Eu preciso dizer como ela era escrupulosa.Ela tinha uma fúria por ordem, minha mãe.Na loja, ela embrulhava a garrafa de vodka baratacom o mesmo esmero que dedicava a um Chivas Regal.Ela alisava o papel brilhante de presente,dobrando a borda rasgada para baixo, afiandoo vinco com a unha […]
- [Ellen Bass - Se você soubesse](https://singularidadepoetica.art/2022/11/11/ellen-bass-if-you-knew/): E se você soubesse que seria o últimoa tocar em alguém?Se você estivesse recebendo os ingressosdo teatro, por exemplo, destacando-ose devolvendo os canhotos,poderia ter o cuidado de tocar aquela palma,roçando a ponta dos dedosao longo do vinco da linha da vida. Quando alguém arrasta sua mala com rodinhasmuito devagar pelo aeroporto, quandoo carro à minha frente não sinaliza,quando o balconista da farmácianão diz Obrigado, não me lembrode que eles vão morrer. Uma amiga me contou que havia se encontrado com a tia.Elas haviam acabado de almoçar e o garçom,um jovem gay de olhos pretos cor de ameixa,brincou enquanto servia o café, e […]
- [Ellen Bass - O canto dos pássaros do meu pátio](https://singularidadepoetica.art/2022/11/10/ellen-bass-birdsong-from-my-patio/): Despair so easy. Hope so hard to bear. —Thomas McGrath Nunca ouvi tanto canto,trinados puros como sinos de cristal,mas não como os sinos: vivas, pequenas rajadasde ar dos minúsculos pulmões felpudosdos pássaros abrigados entre as folhasrijas da oliveira e da amendoeira,e do limão com seus rebites duros e verdes.Enquanto o sol se põe recém-nascido de espessas e robustas nuvenssuas vozes cintilantes capturam a luzcomo fragmentos de alumínio espiralado.Imagino suas patas enrugadasenroscadas em mirrados ramos,absorvendo pesticidas.Vejo-os se limpando, penaspoluídas deslizando entre seus bicos lustrosos, sobre suas línguas coriáceas.Eles se alimentam de insetos contaminados,sementes silvestres cintilando com chuva ácida.E seus ovos porosos e […]
- [Ellen Bass – A dor de deus](https://singularidadepoetica.art/2022/11/09/ellen-bass-a-dor-de-deus-2/): Grande paique deve ter começadocom tantas expectativas.Que magnitude de sofrimento,imensidão de culpa,desconcertante desespero.Uma mente do tamanho do sol,ardendo em nostalgia,um coração enorme como o de uma baleia-cinzentarompendo, fluindona água do mar contra o céu claro.Deus homem ou deus animal,deus que respira em cada folha plissada,saco vocal de sapo, penugem e raque —deus do plutônio e da penicilina, bêbadodormindo na grade do metrô,deus de Joana d´Arc, deus de Crazy Horse,de Lady Day1, que nos põe de joelhos,deus de Houdini com suas mãoscomo um rio, de Einstein, o arrependimentocorrendo em suas veias,deus de Stalin, deus de Somoza,deus da Grande Marcha2,do Caminho das Lágrimas3,dos […]
- [Ellen Bass – Portão C22](https://singularidadepoetica.art/2022/11/08/ellen-bass-portao-c22/): No portão C22 do aeroporto de Portlandum homem com um chapéu de couro de aba larga beijavauma mulher que chegara de Orange County.Eles se beijavam e se beijavam e se beijavam. Muito tempo depoisque os outros passageiros afivelaram as alças de suas bagagens de mãoe se dirigiram rapidamente para o estacionamento,o casal ficou lá, os braços em volta um do outrocomo se ele tivesse acabado de desembarcar na Ilha Ellis1,como se ela tivesse sido finalmente liberada da UTI, saídodo coma, sobrevivido a um câncer ósseo, descido da Annapurna2 apenas com as roupas do corpo. Nenhum dos dois era jovem. A barba […]
- [Ellen Bass – O panorama geral](https://singularidadepoetica.art/2022/11/07/ellen-bass-o-panorama-geral/): Eu tento ver o panorama geral.O sol, língua ardenteque nos lambe como uma mãe encantada por sua nova cria, se consumirá.Tudo é transitório.Pense no meteoro que aniquilou os dinossauros.E antes disso, nos vulcõesdo Permiano — todas aquelas samambaias e répteis, tubarões e peixes ósseos queimados —que foram extintos em uma escalaque faz com que nossas perdas pareçam um dia difícil no caça-níqueis. E talvez estejamos destinados a evoluirpara algum tipo de inteligênciaque não precisa de corpos, ou água potável, ou mesmo de ar. Mas não consigo deixar de me afligirpelos últimos seiscentos Linces-ibéricoscom suas orelhas tufadas, pelos Peixes-viola brasileiros, os 4porcento […]
- [Ellen Bass - No ar](https://singularidadepoetica.art/2022/11/06/ellen-bass-na-casa-de-repouso/): A estação nostalgia toca as cançõesque tocava quando eu aqui viviae a voz adocicada do DJ dizia:Vamos agitar com essa, Ellen. Isso é da época em que minha mãe leu sobre as virtudesda água do mar e mergulhou, no verão e no inverno.Ela distribuía uma colher de chá para cada um de nósantes de sair para o seu turno de treze horas,tirando um pack de Miller para fora da geladeira,e fechando a porta com seu quadril. Agora aquele quadril está reduzido a osso no osso,e todos os seus prazeres se foram –sanduíche italiano nos sábados à noite.Ray Charles cantando “Georgia”,o drinque e […]
- [Ellen Bass - Por qualquer outro nome](https://singularidadepoetica.art/2022/11/05/ellen-bass-by-any-other-name/): Não me importo tanto em esquecer os nomes das pessoas.São os substantivos comuns que me fazem falta. Temo o espaço em branco absoluto de quando tento me lembrardaquele objeto no qual os professores escrevem com giz. Eu posso vê-lo em minha mente. Às vezes estouaté olhando diretamente para ele. Ontem eu fiqueidiante das flores brancas e rosas do meu jardim,sabendo que conhecia, até aquele momento,seus nomes populares e em latim. Ao pegar a tanga úmida da minha filha, eu disse: “Pendure sua canga no varal.”Impressionada, chamei de vagem o colarque um amigo usava. Sinto falta dos nomes, como se fossemas próprias […]
- [Ellen Bass - Se Deus não existe](https://singularidadepoetica.art/2022/11/04/ellen-bass-se-deus-nao-existe/): Então não há ninguémpara nos amar indiscriminadamente,para girar nosso planeta como um globo, para manter a seiva —xilema e floema — deslizando para cima e para baixo como a varade um trombone, as células respirando através das abundantes mitocôndrias,sorvendo a chuva, absorvendo a luz do sol. A lampreia prende sua boca redondano flanco de um peixe, raspando e sugando o sangue.A píton de mandíbula articulada ingere uma gazela envolta em veludo. Seda de aranha, a cadeia polipeptídica dobradapara lá e para cá, lençóis plissados mais resistentes que o aço.Elas se estendem e se enrolam, respondendo como um amante.Quem vai notar? Quem […]
- [Ellen Bass - O importante é](https://singularidadepoetica.art/2022/11/03/ellen-bass-o-importante-e/): “O importante é”, um poema de Ellen Bass que afirma o amor à vida como escolha consciente mesmo sob o peso esmagador da dor.
- [Ellen Bass - Miniantologia poética - Apresentação](https://singularidadepoetica.art/2022/11/02/ellen-bass-uma-miniantologia-poetica-apresentacao/): Há tempos – buscando não descuidar da publicação de poetas brasileiros e portugueses e de poemas traduzidos por outras pessoas – tenho me dedicado a traduzir e publicar no blog poemas de escritores de diversas partes do mundo (em especial, dos Estados Unidos e Espanha) pouco conhecidos ou totalmente desconhecidos do leitor brasileiro. Raras vezes me arrisco a traduzir medalhões da poesia internacional. Por duas razões. Primeiro porque poetas famosos – como Emily Dickinson, Raymond Carver, E. E. Cummings, T. S. Eliot, Rainer Maria Rilke e outros que frequentemente aparecem nas postagens – costumam ser regularmente traduzidos e publicados no Brasil, […]
- [Linda Pastan - Os cinco estágios do luto](https://singularidadepoetica.art/2022/11/01/linda-pastan-os-cinco-estagios-do-luto/): Na noite em que te perdialguém me apontou o caminhodos Cinco Estágios do Luto.Vá por ali, disseram,é fácil, como aprender a subirescadas após a amputação.E assim eu subi.A Negação veio primeiro.Sentei-me para o café da manhã,preparando cuidadosamente a mesapara dois. Passei-lhe a torrada –você permaneceu sentado. Passeio jornal – você se escondeuatrás dele.A Raiva parecia tão familiar.Queimei a torrada, apanheio jornal e li as manchetes eu mesma.Mas elas mencionavam sua partida,então passei para a Barganha. O que eu poderia trocarpor você? O silêncioapós a tempestade? Meus dedos digitando?Antes que eu pudesse decidir, a Depressãoveio ofegante, uma parente pobrecom sua bagagem amarradacom barbante. Dentro […]
- [Josep M. Rodríguez - matéria e forma](https://singularidadepoetica.art/2022/10/31/josep-m-rodriguez-materia-e-forma/): Como expressar dor na dor ao saber da morte de uma amiga. Não sei o que fazer. Do mesmo modo que a água é anterior ao rio e a matéria antecede a luz, mas é a luz que lhe confere forma, assim se cala a dor dentro de mim até que há algo lá fora que a prende e me ocupa. Dor na dor: toda morte é um sol feito em pedaços. Trad.: Manuel de Freitas matéria y forma Cómo expresar dolor en el dolor al conocer la muerte de una amiga . No sé qué hacer . Del modo en […]
- [Amalia Bautista – Agora](https://singularidadepoetica.art/2022/10/30/amalia-bautista-agora-2/): Agora que a estrada que devo percorreré um viaduto sobre uma rodoviaque dá medo de olhar, porque o abismoimplacável me chama.Agora que morreu a esperançacomo uma ave expulsa de seu ninhopor irmãos mais fortes.Agora que é noite o dia todo,inverno o ano todoe as semanas só têm segundas-feiras,onde olhar, para onde voltar os olhos,que eu não encontre os olhos da morte? Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com alterações e correções na tradução): poema publicado no blog originalmente em 09/01/2018 Ahora Ahora que el camino que debo recorreres un paso elevado sobre una carreteraque da miedo mirar, porque el abismoimplacable me llama.Ahora que […]
- [Sean O'Brien – Contando a chuva](https://singularidadepoetica.art/2022/10/29/sean-obrien-contando-a-chuva/): Verifique o gás e guarde a chave da porta de trás.Tranque tudo. Certifique-se de que o fezE então saia e conte a chuva, e desta vezFaça-o direito. Você não estará em casa nunca mais. Trad.: Nelson Santander Counting the Rain Check the gas and hide the back door key.Lock up. Make sure you have, and thenGo out and count the rain, and this timeDo it properly. You won’t be home again.
- [Amalia Bautista – Os meus melhores desejos](https://singularidadepoetica.art/2022/10/28/amalia-bautista-os-meus-melhores-desejos-2/): Que a vida te pareça suportável.Que a culpa não afogue a esperança.Que não te rendas nunca.Que o caminho que sigas seja sempre escolhidoentre dois pelo menos.Que te interesse a vida tanto como tu a ela.Que não te apanhe o víciode prolongar as despedidas.E que o peso da terra seja levesobre os teus pobres ossos.Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhosde quem nunca te disse que te amava. Trad.: Inês Dias REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 07/01/2018 Mis Mejores Deseos Que la vida te sea llevadera.Que la culpa no ahogue la esperanza.Que no te rindas nunca.Que el camino que […]
- [Jaime Manrique – O céu sobre a casa de minha mãe](https://singularidadepoetica.art/2022/10/27/jaime-manrique-o-ceu-sobre-a-casa-de-minha-mae/): É uma noite de julhoperfumada com gardênias.Brilham a lua e as estrelassem revelar a essência da noite.Ao longo do crepúsculo— com suas gradações cada vez mais intensas de ônix,e o resplendor dourado das estrelas e das sombras —minha mãe arrumou a casa, o jardim, a cozinha.Agora, enquanto ela dorme,eu caminho em seu jardim,imerso no vazio desta hora.Os nomes de muitas flores e árvores me escapam,e antes havia mais pinheirosonde agora florescem as laranjeiras.Esta noite penso em todos os céusque já observei e que uma vez amei.Esta noite as sombrasao redor da casa são benignas.O céu é uma câmara escuraque projeta imagens […]
- [Amalia Bautista – O que fazes aqui](https://singularidadepoetica.art/2022/10/26/amalia-bautista-o-que-fazes-aqui-2/): Leia "O que fazes aqui", de Amalia Bautista, um poema poderoso sobre tristeza, memória emocional e a difícil convivência com aquilo que não conseguimos esquecer.
- [Alice Walker – Ainda assim](https://singularidadepoetica.art/2022/10/25/alice-walker-ainda-assim/): O amor, se é amor, nunca se vai. Ele fica incrustado em nós, como veios de ouro na Terra, esperando a luz , esperando ser atingidoinda. Trad.: Nelson Santander Even So Love, if it is love, never goes away. It is embedded in us, like seams of gold in the Earth, waiting for light, waiting to be struck.
- [João Cabral de Melo Neto - Como a Morte se Infiltra](https://singularidadepoetica.art/2022/10/24/joao-cabral-de-melo-neto-como-a-morte-se-infiltra-2/): Certo dia, não se levantaporque quer demorar na cama. No outro dia ele diz por que:é porque lhe dói algum pé. No outro dia o que dói é a perna,E nem pode apoiar-se nela. Dia a dia lhe cresce um não,um enrodilhar-se de cão. Dia a dia ele aprende o jeitoem que menos lhe pesa o leito. Um dia faz fechar as janelas:dói-lhe o dia lá fora delas. Há um dia em que não se levanta:deixa-o para a outra semana, Outra semana sempre adiada,que ele não vê por que apressá-la. Um dia passou vinte e quatro horasincurioso do que é de […]
- [Stephen Dunn - Andrógino](https://singularidadepoetica.art/2022/10/23/stephen-dunn-androgino/): Meu perdido amor, quando Zeus nos dividiu em dois —nossa inteligência e completudeuma ameaça aos deuses — foi o iníciodesta dor, desta perpétua peregrinação… Já a vi nas ruas fervilhantes e concupiscentes,casei-me com você, ao entardecer, a seguipelos bares; sempre que a encontrava,a reconhecia como alguém que já vira antes.Eu não conseguia escolher não responder ao desejo.Apenas você compreende. Velho agora, admito que estousatisfeito há horas observando os cervosjogarem com suas vidas ágeis e nervosas.Ponderei sobre as flores e sem tristezaobservei-as deixarem cair suas folhas amarelas. Em sonhos, você ainda sussurra para mime em sonhos eu sussurro de volta.Mas fazemos menos […]
- [Laura Liuzzi - Fio Sem Fim](https://singularidadepoetica.art/2022/10/22/laura-liuzzi-fio-sem-fim-2/): Chega-se, enfim, à última páginaembora deixe claro: não se chegaao fim. Um mesmo fio fino frágilmas firme, da mesma fibra de rioconduz memória e história: storage— está estendido para sempree para sempre soará, suaráa cada renovação do sol, mesmoquando atingirmos o final —mesmo assim não se chegaráao fim. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 30/12/2017
- [Dorianne Laux - Os amantes](https://singularidadepoetica.art/2022/10/21/dorianne-laux-os-amantes/): “Os amantes”, um poema de Dorianne Laux que explora a entrega radical do corpo como passagem para uma verdade essencial, onde prazer e vulnerabilidade se confundem.
- [Anne Sexton – Frágil Fio](https://singularidadepoetica.art/2022/10/20/anne-sexton-fragil-fio-2/): Minha féé um grande pesosuspenso por um frágil fio,como a aranhasuspende seu bebê em uma fina teia,como a videira,galhos finos e madeira,sustenta as uvascomo globos oculares,como muitos anjosdançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisade muito fio para manter-Se lá,apenas uma veia fina,com o sangue pulsando,e um pouco de amor.Como já se disse:O amor e a tossenão podem ser disfarçados.Nem mesmo uma pequena tosse.Nem mesmo um pequeno amor.Então, se você tiver apenas um fino fio,Deus não se importa.Ele entrará em suas mãostão facilmente quanto dez centavos costumavampagar uma Coca. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 25/12/2017 […]
- [Philip Larkin - A casa está tão triste](https://singularidadepoetica.art/2022/10/19/philip-larkin-a-casa-esta-tao-triste/): A casa está tão triste. Ficou como foi deixada,Moldada para o conforto dos últimos saintesQuerendo reconquista-los. Ao invés, despojadaDe alguém para agradar, ela definha assim, carenteDe um coração para esquecer que foi roubada E voltar novamente às origens – um retratoAlegre de como as coisas deveriam ser –Há muito perdidas. Veja como era de fato:Observe as fotografias e o talher.A partitura no assento do piano. Esse prato. Trad.: Nelson Santander Home is so Sad Home is so sad. It stays as it was left,Shaped to the comfort of the last to goAs if to win them back. Instead, bereftOf anyone to […]
- [José Saramago – É tão fundo o silêncio...](https://singularidadepoetica.art/2022/10/18/jose-saramago-e-tao-fundo-o-silencio/): É tão fundo o silêncio entre as estrelas.Nem o som da palavra se propaga,Nem o canto das aves milagrosas.Mas lá, entre as estrelas, onde somosUm astro recriado, é que se ouveO íntimo rumor que abre as rosas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/12/2017
- [Jennifer Chang - O mito de ontem](https://singularidadepoetica.art/2022/10/17/jennifer-chang-o-mito-de-ontem/): Quando Ícaro caiu do céu, eu levava meus filhos para o rio. Mamãe, o que é aquilo? Um pássaro, eu disse, porque não podia dizer tragédia. Jovens demais para entender o terror de confiar nos pais, meus filhos notaram asas como pés chutando o solo das nuvens. Isso foi ontem. Aproximávamos-nos do Anacostia, correndo por um filete de estrada — criatura, filho caído, a engenhosidade é o erro ou você é? Penso no meu pai e no experimento que foi sua vida. Ele tinha fé na fortuna que florescia com a idade, seu divino desatino, e cantava o incessante brilho do […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Retrato Malsim](https://singularidadepoetica.art/2022/10/16/carlos-drummond-de-andrade-o-retrato-malsim-2/): O inimigo maduro a cada manhã se vai formandono espelho de onde deserta a mocidade.Onde estava ele, talvez escondido em castelos escoceses,em cacheados cabelos de primeira comunhão?Onde, que lentamente grava sua presençapor cima de outra, hoje desintegrada? Ah, sim: estava na rigidez das horas de tenência orgulhosa,no morrer em pensamento quando a vida queria viver.Estava primo do outro, dentro,era o outro que não se sabia liquidado,verdugo expectante, convidando a sofrer;cruz de carvão, ainda sem braços. Afinal irrompe dono completo.Instalou-se, a mesa é sua,cada vinco e reflexão madura ele é quem porta,e esparrama na toalha sua matalotagem:todas as flagelações, o riso mau,o […]
- [Eavan Boland – Atlântida - Um soneto perdido](https://singularidadepoetica.art/2022/10/15/eavan-boland-atlantida-um-soneto-perdido/): Como diabos aconteceu, eu costumava me perguntar,de uma cidade inteira – arcos, pilares, colunatas,isso sem falar nos veículos e animais – ter-se,um belo dia, afundado? Ou melhor, eu disse a mim mesma, o mundo era pequeno então.É sem dúvida que uma grande cidade possa ter-se perdido?Sinto falta de nossa velha cidade – pimenta branca, pudim branco, você e eu nos reunindosob os vitrais em arco e o céu baixo para voltar para casa. Talvezo que realmente aconteceu foi o seguinte: os velhos fabricantes de fábulas procuraram arduamente por uma palavraque transmitisse que o que se foi se foi para sempre, enunca […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do Mar](https://singularidadepoetica.art/2022/10/14/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar-3/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja cada coisaTem um monstro em si suspenso. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 02/12/2017
- [Czesław Miłosz - Encontro](https://singularidadepoetica.art/2022/10/13/czeslaw-milosz-encontro/): Ao amanhecer, cruzávamos os campos congelados em uma carroça.Uma asa vermelha se ergueu da escuridão. E subitamente uma lebre atravessou a estrada.Um de nós apontou para ela com a mão. Isso foi há muito tempo. Hoje, nenhum deles vive, Nem a lebre, nem o homem que fez o gesto. Oh, meu amor, onde estão, para onde vão?O clarão daquela mão, vestígio de movimento, rumorejar de cascalhos.Pergunto não por tristeza, mas com admiração. Wilno, 1936 Trad.: Nelson Santander N. do T.: poema originalmente escrito em polonês e traduzido para o inglês pelo próprio autor e Lillian Vallee. Encounter We were riding through […]
- [José Paulo Paes - Epitáfio para um banqueiro](https://singularidadepoetica.art/2022/10/12/jose-paulo-paes-epitafio-para-um-banqueiro-2/): REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 01/12/2017
- [Mary Oliver – Encontrando a raposa](https://singularidadepoetica.art/2022/10/11/mary-oliver-encontrando-a-raposa/): Quando encontrei a raposa hoje – um ourotão vivo em seus olhos –nenhuma de nósse moveu, embora apenas uma de nós tenha sido imediatamente tomadade admiração. Suas patas estavamapoiadas em seu movimentode brusca parada, suas orelhas, para frente apontadas,a fim de ouvir como minha língua poderia ser,mas eu não dissenada, não havia palavra para a esperança que eu tinha de quepudéssemos ser amigas. Atrás dela,a encosta, depois, a floresta,e, além, todo o universo. Fiquei imóvel como uma rocha.Eu não sabia o que fazer.Então eu pensei, bem,por que não tentar?, e estendi minhas mãos em sinalde amizade, e instantaneamente,com um cortante latido, […]
- [Lucrécio - Da Natureza das Coisas (de rerum natura) (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2022/10/10/lucrecio-da-natureza-das-coisas-de-rerum-natura-excerto-2/): Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui.Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescemAté que as conhecemos e nomeamos.Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos. Formados dos átomos que caem velozes ou lentosVejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem;É sólido que a natureza está em nós até maisDo que nossa consciência sobre nós mesmos. Tu também, ó Terra, teus impérios, países e maresA menor de todas as galáxias,Também formada assim, também tu te irás, ó Terra,E hora a hora vais indo, ó Terra. Nada subsiste. Teus mares desaparecerão em névoa;As areias abandonaram o seu lugar,E onde hoje se […]
- [Eiléan Ní Chuilleanáin - A serenata de Hofstetter](https://singularidadepoetica.art/2022/10/09/eilean-ni-chuilleanein-a-serenata-de-hofstetter/): A serenata de Hofstetter(Máire Ní Chuilleanáin1 1944-1990) Senti a corrente de ar há pouco, enquanto digitava os números –a data de sua morte, ocorrida há vinte e cinco anos;estamos em maio, mas a noite clara está ficando mais fria,o denso fardo se abriu e a dor se disseminouao longo desses anos desconhecidos para ela2, e se eu forprocura-la, devo desenrolar e esticar o fio que ela nos deixou, que se enovela ao longo da tortuosa fronteira,vagueia por entre os suportes de partituras, acima e abaixodos timbales e do grande baixo deitado de lado,mas se afasta, deixa para trás a sala de […]
- [Giacomo Leopardi - A Noite do Dia de Festa](https://singularidadepoetica.art/2022/10/08/giacomo-leopardi-a-noite-do-dia-de-festa/): A Noite do Dia de Festa, um poema de Giacomo Leopardi
- [Kerry Hardie – Navio da morte](https://singularidadepoetica.art/2022/10/07/kerry-hardie-navio-da-morte/): para minha mãeObservando-a, pela primeira vez,virar-se para preparar o seu barco, minha mãe;quando ficou claro que você tinha outros assuntos agora —os assuntos do seu futuro —fui inundada pela raiva.Foi uma primeira sondagem,um olhar lançado sobre velas, remos, mastros,como aquele olhar experiente que muitas vezes viperscrutando a mesa farta.Como pode você planejar partir assimquando finalmente estamos próximas o suficiente, se o vento está bom,para ouvir o que a outra está dizendo?Eu nunca imaginei que você faria isso, afastar-se,no meio de uma frase, sua mão testando o cordame,seu ouvido atentoaos pequenos estrondos das encrespadas ondasna orla do mar da grande noite,nem arrependida, […]
- [Ivan Junqueira - No Leito Fundo](https://singularidadepoetica.art/2022/10/06/ivan-junqueira-no-leito-fundo-2/): No leito fundo em que descansas,em meio às larvas e aos livores,longe do mundo e dos terroresque te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhoresque te esqueceram nas andanças,longe das taças e das danças,e dos feéricos rumores; longe das cálidas criançasque ateavam fogo aos corredorese se expandiam, quais vapores,entre as alfaias e as faianças de tua herdade, cujas floreseram fatídicas e mansas,mas que se abriam, fluidas tranças,quando as tangiam teus pastores; longe do fel, do horror, das dores,é que recolho essas lembrançase as deito agora, já sem cores,no leito fundo em que descansas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no […]
- [Dan Gerber – No final de setembro](https://singularidadepoetica.art/2022/10/05/dan-gerber-no-final-de-setembro/): Certa estrela, da qual eu gostava,desapareceu. É possível queeu a tenha perdido. Esquecios nomes das nuvens e árvores e rostos, como canções das quaisremanesce apenas uma duradoura melodia.*Pequeno riacho,sob os salgueiros junto à minha cabana alugada —mais minha do que qualquer outra que eu possa possuir —,diga-me novamente o nome secretoque você murmura enquanto estou sentado aqui sozinho,sem decepções nem esperanças. Trad.: Nelson Santander In Late September A certain star I’ve grown fond of has gone missing. It’s possible I’ve misplaced it. I’ve forgotten the names of clouds and trees and faces, like songs from which only an abiding melody remains. […]
- [Ivan Junqueira - de "Três Meditações na Corda Lírica"](https://singularidadepoetica.art/2022/10/04/ivan-junqueira-de-tres-meditacoes-na-corda-lirica-2/): Only through time time is conquered.T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terrae escuta a voz escura das raízes,do limo primitivo, da limalhafina do que é findo e ainda respira. O que passou (não tanto a treva e a cinzaque os mortos vestem para rir dos vivos)mais vivo está que toda essa harmoniade claves e colcheias retorcidas,mais vivo está porque o escutas limpo,fora do tempo, mas no tempo audívelde teu olvido, partitura antiga,para alaúde e lira […]
- [J.C. Todd – Velhos Amigos, Aqui e Adeus](https://singularidadepoetica.art/2022/10/03/j-c-todd-velhos-amigos-aqui-e-adeus/): Ei, pervertida, ele diz, olhando-me, no funeralde nossa amiga, causa da morte: um câncer nasentranhas do cérebro no interior da estrutura ósseaque dava ao seu rosto tanta beleza. Durante a químio,seu encanto se igualou aos reveses – seu couro cabeludoà mostra e os músculos de sua mão esquerda muito fracospara segurar um pincel. Ele a tranquilizavano hospital, na ala de cuidados paliativos, ministrando-lhelascas de gelo, caldo vegano. Quando a fala dela serpeavapara além da compreensão, ele ouvia a sequência de sons como se fosse um jazz selvagem demaispara o sentido humano – Sonny Rollins soltando-seno sax ou Johnny Hodges uivando no […]
- [Ivan Junqueira - Antes que o Sol se Ponha](https://singularidadepoetica.art/2022/10/02/ivan-junqueira-antes-que-o-sol-se-ponha-2/): Antes que o sol se ponha e seja tarde,e o azul crepuscular me deite a garra,e eu, nu, retorne à terra sem fanfarraou mortalha que o corpo me resguarde;antes que murche a pétala na jarra,e eu cale, para sempre, sem alarde,e tudo o que me coube, por covarde,não mais recorde a relva que se agarraàs últimas raízes da existência;antes que eu cerre os olhos e adormeça,e em minhas próprias células esqueçaas chamas que me arderam na consciência;antes que a luz regresse e que amanheça,e eu a mim mesmo já não me conheça. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 06/11/2017
- [Matthew Olzmann – Comercial de Mountain Dew disfarçado de poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2022/10/01/matthew-olzmann-comercial-de-mountain-dew-disfarcado-de-poema-de-amor/): "Comercial de Mountain Dew disfarçado de poema de amor", um poema de Matthew Olzmann que enumera, com humor e ternura, os gestos cotidianos e as excentricidades que sustentam um casamento, culminando no gesto simbólico de guardar uma garrafa de Mountain Dew como prova concreta e inesperada de amor.
- [Ivan Junqueira - Lição](https://singularidadepoetica.art/2022/09/30/ivan-junqueira-licao-2/): À beira do claustroo monge se inclinae na pedra aprendeo que a pedra ensina:que a vida é nadacom a morte por cima,que o tempo apenaseste fim lhe adiae que o ser carecede não ser ainda,pois à luz se esquivado que o purifica:a doce pedra,sem musgo ou limo,o pátio só,conquanto o sino,o ermo das coisassimples e humildes. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 07/11/2017
- [Werner Aspenström – Depois de ouvir Mozart o dia todo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/29/werner-aspenstrom-depois-ouvir-mozart-o-dia-todo/): As árvores se despem e se vestemrepetidamente,como em um casamento.Os gansos selvagens vão para o sul, e depois para o norte.Você conhece a natureza, conhece as artes.Como Mozart o socorre?O rebanho cinzento de pequenos estudantes se afastoupor sob as tíliase o rebanho cinzento de pequenos estudantes retornou.Música é tempo cultivado.O tempo não fecha as cicatrizes do tempo. Trad.: Nelson Santander (a partir da tradução do sueco para o inglês feita por Malena Mörling e Jonas Ellerström) After having played Mozart all day The trees undress and dress repeatedly, as in a marriage. The wild geese head south, head north. You know […]
- [Ferreira Gullar - Traduzir-se](https://singularidadepoetica.art/2022/09/28/ferreira-gullar-traduzir-se-2/): Uma parte de mimé todo mundo;outra parte é ninguém:fundo sem fundo. Uma parte de mimé multidão:outra parte estranhezae solidão. Uma parte de mimpesa, pondera;outra partedelira. Uma parte de mimalmoça e janta;outra partese espanta. Uma parte de mimé permanente;outra partese sabe de repente. Uma parte de mimé só vertigem;outra parte,linguagem. Traduzir-se uma partena outra parte– que é uma questãode vida ou morte –será arte? REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 30/10/2017
- [Joaquin Zihuatanejo – Exame final para o meu pai](https://singularidadepoetica.art/2022/09/27/joaquin-zihuatanejo-exame-final-para-o-meu-pai/): 1. Verdadeiro ou falso. Na noite em que abandonou a mim e minha mãe você hesitou antes de segurar a maçaneta. 2. Se um ônibus deixa a cidade a 100 km por hora para lugar nenhum em particular, e um homem naquele ônibus deixou seu único filho para trás na escuridão dessa cidade, quantos quilômetros serão necessários para que esse filho esqueça como são e com o que se parecem as mãos de seu pai? 3. Na noite em que nos abandonou, quantos corações você partiu? A. um, o meu B. um, o de minha mãe C. dois, o meu e […]
- [Emily Dickinson - Morri pela Beleza](https://singularidadepoetica.art/2022/09/26/emily-dickinson-morri-pela-beleza-2/): Morri pela Beleza – e assim que no JazigoMeu Corpo foi fechado,Um outro Morto foi depositadoNum Túmulo contíguo – “Por que morreu?” murmurou sua voz.“Pela Beleza” – retruquei –“Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. NósSomos Irmãos. É uma só lei” – E assim Parentes pela Noite, sábios –Conversamos a Sós –Até que o Musgo encobriu nossos lábios –E – nomes – logo após – Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/10/2017 I died for Beauty I died for Beauty – but was scarce Adjusted in the Tomb When One who died for Truth, […]
- [Linda Pastan - O adeus de Dido](https://singularidadepoetica.art/2022/09/25/linda-pastan-o-adeus-de-dido/): O adeus de Dido Incessante é a chuvaem minhas vidraças, e as velas se afogamem sua própria cera.Abandonados pela luz,até os filamentos de estrelasescurecem. Esta tardeescorei com estacassuas rosas encharcadas,elas agora lembram jovens meninasapoiadas em muletas. Você deixouum mapa parcialde sua mão direitaem cada maçaneta,e eu sigo de salaem sala, nômadeem minha própria casa,o coração batendono peito, exigindoser solto. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Dido’s Farewell The rain is chronicat my windows, and candles drownin their own wax.Abandoned by light,even the filaments of starsgo […]
- [Ana Martins Marques - Penélope (I)](https://singularidadepoetica.art/2022/09/24/ana-martins-marques-penelope-i-2/): Leia "Penélope (I)", de Ana Martins Marques, um poema inspirado na mitologia clássica que explora o tempo, a espera e o constante desfazer da experiência humana.
- [Li-Young Lee - Das flores](https://singularidadepoetica.art/2022/09/23/li-young-lee-das-flores/): Das flores vemeste saco de papel pardo com os pêssegosque compramos do meninona curva da estrada onde dobramos em direção às placas escritas Pêssegos. Dos galhos carregados, das mãos,da doce comunhão nas latas,vem o néctar da beira da estrada, suculentospêssegos que devoramos, com a pele empoeirada e tudo,vem o pó familiar do verão, pó que comemos. Ó!, levar no interior o que amamos,carregar dentro de nós um pomar, comernão só a pele, mas a sombra,não só o açúcar, mas os dias, tomara fruta em nossas mãos, adora-la, e depois mordero júbilo redondo do pêssego. Há dias em que vivemoscomo se a […]
- [Raymond Carver - O que o médico disse](https://singularidadepoetica.art/2022/09/22/raymond-carver-o-que-o-medico-disse-2/): Ele disse não parece bomele disse parece mau aliás muito mauele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antesde parar de contareu disse fico feliz não ia querer saberque tem mais do que isso láele disse por acaso você é religioso você se ajoelhaem bosques na floresta e se permite pedir ajudaquando encontra uma cachoeiraa névoa soprando contra seu rosto seus braçosvocê para e pede clareza nesses momentoseu disse não mas pretendo começar hoje mesmoele disse sinto muito ele dissegostaria de ter outro tipo de notícia para dareu disse Amém e ele disse algo maisque eu não entendi […]
- [Malena Mörling – Simplesmente iluminado](https://singularidadepoetica.art/2022/09/21/malena-morling-simplesmente-iluminado/): Muitas vezes no fim da tarde,depois de outro dia, depois demais um ano de dias,no meio da noite a caminho de casaeu paro na loja de conveniência e, aguardando na fila, me pegoperguntando sobre as pessoas. Eu me perguntose elas também se perguntam como é estranho que estejamosaqui na terra.E como, para poder viver, todos temos que dormir.E como temos camas para isto(a não ser que estejamos sem)e quartos inteiros para onde vamosno final do dia para desabar.E penso em como mesmo as pessoasmais animadas ficam desoladasquando estão sozinhasporque elas também precisam dormire, mais cedo ou mais tarde, morrer.Estamos sempre procurando […]
- [Raymond Carver – Medo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/20/raymond-carver-medo-2/): Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.Medo de dormir à noite.Medo de não dormir.Medo de que o passado desperte.Medo de que o presente alce voo.Medo do telefone que toca no silêncio da noite.Medo de tempestades elétricas.Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!Medo de cães que supostamente não mordem.Medo da ansiedade!Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.Medo de ficar sem dinheiro.Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.Medo de perfis psicológicos.Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.Medo de […]
- [Javier Salvago - Canção para esse dia](https://singularidadepoetica.art/2022/09/19/javier-salvago-cancao-para-esse-dia/): Agora simjá se vêo porvir.Agora simé o fim que está aqui. Que esta é– agora sim –a vetustez:a aridez,não esperarnenhum trem. Agora simo naviovai partir.Sem saberse é o fimou o além. Acabou,não há maisshow.Cai a cortina,Diz adeuso ator. Agora simé o fimque está aqui.Agora simjá se vêo porvir. Trad.: Nelson Santander Canción para ese día Ahora síque se veya venir.Ahora síque el finalestá aquí. Que esto es– ahora sí –la vejez:la aridez,no esperarningún tren. Ahora síque está el barcoal partir.Sin sabersi es el fino hay después. Se acabó,no da másla función.Cae el telón,se despideel actor. Ahora síque el finalestá aquí.Ahora síque […]
- [Carlos Rennó - HINO ao Inominável](https://singularidadepoetica.art/2022/09/17/carlos-renno-hino-ao-inominavel/): HINO ao Inominável “Sou a favor da ditadura”, disse ele,“Do pau de arara e da tortura”, concluiu.“Mas o regime, mais do que ter torturado,Tinha que ter matado trinta mil”.E em contradita ao que afirmou, na caraduraDisse: “Não houve ditadura no país”. E no real o incrível, o inacreditávelEntrou que nem um pesadelo, infeliz,Ao som raivoso de uma voz inconfiávelQue diz e mente e se desmente e se desdiz. Disse que num quilombo “os afrodescendentesPesavam sete arrobas” – e daí pra mais:Que “não serviam nem pra procriar”,Como se fôssemos, nós negros, animais.E ainda insiste que não é racistaE que racismo não existe […]
- [Margaret Atwood – Um barco](https://singularidadepoetica.art/2022/09/17/margaret-atwood-um-barco/): A noite chega e as colinas adensam-se;desvanecimento rubro e amarelo das folhas.Os gélidos pinheiros se alongam em suas sombras. Abaixo deles, a água silencia,um pôr do sol tremeluzindo nela.Mais um que desce para se juntar aos outros. Agora o lago se expandee se fecha, simultaneamente. A escuridão que se mantém sob a superfície durante o diaemerge dela como a névoaou como névoa. A distância se esvai, a ausênciade distância faz pressão contra os olhos. Não há como ver o lago,apenas os contornos das colinas,que são quase idênticas, familiares para mim como o sono,e as margens se desdobrando sobre margensem seus contornos […]
- [Rainer Maria Rilke - A nós nos cabe andar](https://singularidadepoetica.art/2022/09/16/rainer-maria-rilke-a-nos-nos-cabe-andar-2/): I.22 A nós, nos cabe andar.Mas o tempo, os seus passos,são mínimos pedaçosdo que há de ficar. É perda puratudo o que é pressa;só nos interessao que sempre dura. Jovem, não há virtudena velocidadee no voo aonde for. Tudo é quietude:escuro e claridade,livro e flor. Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/10/2017
- [Paulo Henriques Britto - Mosaico](https://singularidadepoetica.art/2022/06/10/paulo-henriques-britto-mosaico-2/): Os dias a amontoar-secomo se rumo a um sentido,algo que se assemelhassea uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo,claro — o que sabem os dias?)uma estrutura em relevo,espécie de marchetaria, com padrão indecifrável(por não seguir um projeto),mas assim mesmo um resguardo,um remédio contra o medo de nada haver — nem […]
- [Roderick Ford – Giuseppe](https://singularidadepoetica.art/2022/06/09/roderick-ford-giuseppe/): Meu tio Giuseppe me contouque na Sicília, durante a 2ª Guerra Mundial,no pátio atrás do aquário,onde a buganvília crescia tão bem,a única sereia cativa do mundofoi esquartejada no solo seco e empoeiradopor um médico e um peixeiro, dentre outros.Ela, aquilo, nunca aprendera a falarporque era simplória, ou assim diziam.Mas o padre que segurou uma de […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/08/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-4/): V Céu azul. Cores vivas. Você rindode alguma coisa ou alguém que está à esquerdado fotógrafo. É talvez domingo.É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagemextremamente, absurdamente nítida.E se fosse menor a claridade,ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou se fosse em sépia, ou preto […]
- [R. S. Thomas – O campo brilhante](https://singularidadepoetica.art/2022/06/07/r-s-thomas-o-campo-brilhante/): Eu vi o sol avançar atéiluminar um pequeno campopor um momento, segui meu caminhoe o esqueci. Mas aquela era umapérola de grande valor, o único campo comum tesouro dentro dele. Agora perceboque devo dar tudo o que tenhopara possuí-lo. A vida não está em lançar-se para um futuro que se afasta, nem ansiar por um […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Seis Sonetos Soturnos"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/06/paulo-henriques-britto-de-seis-sonetos-soturnos-2/): I A qualquer hora, o que se chama vidapode mudar da água pro vinho. Ou vice--versa. Cada palavra proferida —uma sentença grave, uma tolice —pode retornar feito um bumeranguecapaz de destruir o que encontrar.E nada que se funde em carne e sangueescapa dessas bólides de ar:o amor e demais estados de graça,reputações, ações, fazendas, gado,longos […]
- [Craig Santos Perez — Amor em tempos de mudanças climáticas](https://singularidadepoetica.art/2022/06/05/craig-santos-perez-amor-em-tempos-de-mudancas-climaticas/): Amor em tempos de mudanças climáticas reciclando o “Sonnet XVII”1 de Pablo Neruda Não te amo como se fosses metais raros da terra,diamantes de sangue ou reservas de petróleo bruto que provocama guerra. Eu te amo como amamos as espécies mais vulneráveis: urgentemente, entre o habitat e a sua perda. Eu te amo como se […]
- [Paulo Henriques Britto - Madrigal](https://singularidadepoetica.art/2022/06/04/paulo-henriques-britto-madrigal-2/): Desista: não vai dar certo.O mundo é o mesmo de sempre,desejo é uma coisa cega.Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam,os pés vão aonde não sabem.As cartas estão marcadas:vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo,desejo é uma porta aberta.Desista, que a vida é incerta.Ou insista. Dá no […]
- [Lucille Clifton - o poema do bebê perdido](https://singularidadepoetica.art/2022/06/03/lucille-clifton-o-poema-do-bebe-perdido/): na vez em que deixei cair seu quase corpopara encontrar as águas sob a cidadee nelas fluir com o esgoto para o maro que sabia eu sobre águas correndo de voltao que sabia eu sobre afogamentoou sobre ser afogada você teria nascido no invernono ano do gás desligadoe sem carro teríamos feito a singularcaminhada pela […]
- [Gwendolyn Brooks – a mãe](https://singularidadepoetica.art/2022/06/02/gwendolyn-brooks-a-mae/): “A mãe”, um poema de Gwendolyn Brooks que aborda a experiência do aborto a partir da perspectiva íntima e emocional de uma mulher que recorda os filhos que não chegaram a nascer.
- [Paulo Henriques Britto - Cuidado Poeta...](https://singularidadepoetica.art/2022/06/01/paulo-henriques-britto-cuidado-poeta-2/): Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.Depois de um certo número de páginasanjos não pousam mais nas entrelinhas.E até a lucidez, essa moderna,também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado,não se resolve com um só lance de dados.Não basta a precisão do gesto apenas.O gesto mais felino é quase […]
- [Victoria Kennefick – Monte submarino](https://singularidadepoetica.art/2022/05/31/victoria-kennefick-monte-submarino/): Da areia, você aponta onde ficava a loja,os correios, o bar;você me conta que caminhou até o vilarejo quando meninopara ficar nas esquinas, farejar o ar salgado. Tocos se erguem da argila na maré baixa,alinham-se como soldados derrotados, inclinam-se ao vento.Eles já foram árvores, agora lembram apenas ramos,esquecidos do verde vivo das folhas na primavera. […]
- [Paulo Henriques Britto - Soneto Inglês](https://singularidadepoetica.art/2022/05/30/paulo-henriques-britto-soneto-ingles-2/): A surpresa do amor — quando já não seespera do mundo nada em especial,e a evidência de que os anos vão seacumulando sem nenhum sinalde sentido já não dói nem comove —quando em matéria de felicidadenão se deseja mais que uns novemetros quadrados de privacidadepara abrigar os prazeres amenosdo sexo fácil e da literaturadifícil — […]
- [Daniel Filipe - Réquiem para um defunto vulgar](https://singularidadepoetica.art/2022/05/29/daniel-filipe-requiem-para-um-defunto-vulgar/): Antoninho morreu. Seu corpo resignadoé como um rio incolor, regressando à nascentenum silêncio de espanto e mistério revelado.Está ali – estando ausente. Jaz de corpo inteiro e fato preto.Ele, da cabeça aos pés,trivial e completo,estátua de proa e moço de convés. Jaz como se dormisse (pelo menosé o que dizem as velhas carpideiras).Jaz imóvel, sem […]
- [Paulo Henriques Britto - Crepuscular](https://singularidadepoetica.art/2022/05/28/paulo-henriques-britto-crepuscular-2/): 1.Chegamos tarde. (Era sempre maio,sempre madrugada. Tudo era turvo.Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidadeaberta, e uma loucura provisóriaera a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todoatento, em transe, em trânsito, no assédioa um ou outro flanco do lobo, fugindo de junho, perseguindo o agora,correndo […]
- [Joan Margarit - Amar é onde](https://singularidadepoetica.art/2022/05/27/joan-margarit-amar-e-onde/): “Amar é onde”, um poema de Joan Margarit que transforma o amor em território íntimo e duradouro, um lugar invisível onde a vida encontra sua origem e sua permanência.
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori II](https://singularidadepoetica.art/2022/05/26/paulo-henriques-britto-memento-mori-ii-2/): Luz frágil que brota no breue num rápido relance dá formae cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que podeàs aparências, acredita piamenteno sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forçascontra o conforto de apagar-se enfimpor trás de duas implacáveis pálpebras. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente […]
- [Laura Gilpin – O bezerro de duas cabeças](https://singularidadepoetica.art/2022/05/25/laura-gilpin-o-bezerro-de-duas-cabecas/): Amanhã, quando os rapazes da fazenda encontrarem estaaberração da natureza, eles envolverão seu corpo em jornal e o levarão para o museu. Mas esta noite ele está vivo e no campoao norte, com sua mãe. É uma noite perfeita de verão: a lua crescente sobreo pomar, o vento na grama. Equando ele olha para o […]
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori I](https://singularidadepoetica.art/2022/05/24/paulo-henriques-britto-memento-mori-i-2/): Nenhum sinal da solidão se vêlá onde o amor corrói a carne a fundo.Dentro da pele, no entanto, vocêé só você contra o mundo. Esta felicidade que abasteceseu organismo, feito um combustível,é volátil. Tudo que sobe desce.Tudo que dói é possível. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/12/2022
- [Gabrielle Calvocoressi – Sinto a sua falta. Gostaria de dar um passeio com você.](https://singularidadepoetica.art/2022/05/23/gabrielle-calvocoressi-sinto-a-sua-falta-gostaria-de-dar-um-passeio-com-voce/): Não importa se você acabou de chegar em seu esqueleto.Adoraria dar um passeio com você. Sinto a sua falta.Adoraria preparar um camarão saganaki para você.Como você costumava me fazer quando estava viva.Adoraria alimenta-la. Sentarmo-nos com uma fumegantetigela de pilaf. Pequenos tomates tostadoscobertos de pimenta e noz-moscada. Sinto a sua falta.Adoraria caminhar até os correios com […]
- [Paulo Henriques Britto - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2022/05/22/paulo-henriques-britto-acalanto-2/): Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a […]
- [Sahar Romani - Tarde na Andaluzia](https://singularidadepoetica.art/2022/05/21/sahar-romani-tarde-na-andaluzia/): E por que a geometria não seria igual à divindade 1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé senão a confiança no uno & infinito Uma vez em Granada observei um muro de polígonos ou eram estrelas ou abelhas ou por um segundo um fulgor de gladíolos em um campo até […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Três Epifanias Triviais"](https://singularidadepoetica.art/2022/05/20/paulo-henriques-britto-de-tres-epifanias-triviais/): As coisas que te cercam, até ondealcança tua vista, tão passivasem sua opacidade, que te impedemde enxergar o (inexistente) horizonte,que justamente por não serem vivasse prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção,essas coisas que você usa e esqueceassim que larga na primeira mesa —pois bem: elas vão ficar. Você, não.Tudo que […]
- [Ellen Bass – A dor de deus](https://singularidadepoetica.art/2022/05/19/ellen-bass-a-dor-de-deus/): Grande paique deve ter começadocom tantas expectativas.Que magnitude de sofrimento,imensidão de culpa,desconcertante desespero.Uma mente do tamanho do sol,ardendo em nostalgia,um coração enorme como o de uma baleia-cinzentarompendo, fluindona água do mar contra o céu claro.Deus homem ou deus animal,deus que respira em cada folha plissada,saco vocal de sapo, penugem e raque —deus do plutônio e […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Fragilidade](https://singularidadepoetica.art/2022/05/18/carlos-drummond-de-andrade-fragilidade-2/): Este verso, apenas um arabescoem torno do elemento essencial – inatingível.Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidadesde sono se depositam sobre a terra esfacelada.Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em […]
- [Sean Thomas Dougherty – Por que se importar?](https://singularidadepoetica.art/2022/05/17/sean-thomas-dougherty-por-que-se-importar/): Por que se importar?Porque agora há alguémlá fora com um machucado no formato exato de suas palavras. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Why Bother? Because right now, there is someone out there with a wound in the […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Ontem](https://singularidadepoetica.art/2022/05/16/carlos-drummond-de-andrade-ontem-2/): Até hoje perplexoante o que murchoue não eram pétalas. De como este banconão reteve forma,cor ou lembrança. Nem esta árvorebalança o galhoque balançava. Tudo foi brevee definitivo.Eis está gravado não no ar, em mim,que por minha vez,escrevo, dissipo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/11/2016
- [Steve Scafidi – Para o último búfalo americano](https://singularidadepoetica.art/2022/05/15/steve-scafidi-para-o-ultimo-bufalo-americano/): Porque as palavras fascinam sob a luz vertiginosa das coisase a alma é como um animal – caçada e lenta –este búfalo passeia por mim todas as noites como se eu fossealgum tipo de pradaria e se agacha contra a escuridão fria,bufando sob as estrelas enquanto a névoa de sua respiraçãoeleva-se no ar, e é […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Viagem na Família](https://singularidadepoetica.art/2022/05/14/carlos-drummond-de-andrade-viagem-na-familia-2/): A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabiraa sombra de meu paitomou-me pela mão.Tanto tempo perdido.Porém nada dizia.Não era dia nem noite.Suspiro? Voo de pássaro?Porém nada dizia. Longamente caminhamos.Aqui havia uma casa.A montanha era maior.Tantos mortos amontoados,o tempo roendo os mortos.E nas casas em ruína,desprezo frio, umidade.Porém nada dizia. A rua que atravessavaa cavalo, […]
- [Ada Limón – Viaduto](https://singularidadepoetica.art/2022/05/13/ada-limon-viaduto/): “Viaduto”, um poema de Ada Limon que revisita uma lembrança da infância para explorar a relação entre fascínio, natureza e mortalidade.
- [Carlos Drummond de Andrade - A Noite Dissolve os Homens](https://singularidadepoetica.art/2022/05/12/carlos-drummond-de-andrade-a-noite-dissolve-os-homens-2/): A noite desceu. Que noite!Já não enxergo meus irmãos.E nem tão pouco os rumoresque outrora me perturbavam.A noite desceu. Nas casas,nas ruas onde se combate,nos campos desfalecidos,a noite espalhou o medoe a total incompreensão.A noite caiu. Tremenda,sem esperança… Os suspirosacusam a presença negraque paralisa os guerreiros.E o amor não abre caminhona noite. A noite é […]
- [Robert Hayden – A nevasca](https://singularidadepoetica.art/2022/05/11/robert-hayden-a-nevasca/): Incapaz de dormir ou rezar, permaneçoao lado da janela olhando para as aluadas árvores envergadas pelo gelo de uma tempestade de dezembro. Bordo e freixo da montanha se curvamsob seu peso vítreo,seus galhos fendidos caindo sobrea neve congelada. As árvores em si, como nos invernos passados,sobreviverão a este fardo,quebradas florescerão. E eu sou menos para […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo](https://singularidadepoetica.art/2022/05/10/carlos-drummond-de-andrade-os-ombros-suportam-o-mundo-2/): Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.Tempo de absoluta depuração.Tempo em que não se diz mais: meu amor.Porque o amor resultou inútil.E os olhos não choram.E as mãos tecem apenas o rude trabalho.E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.Ficaste sozinho, a luz apagou-se,mas na sombra […]
- [Kelli Russell Agodon - Capelas imaginárias](https://singularidadepoetica.art/2022/05/09/kelli-russell-agodon-capelas-imaginarias/): Sento-me no chão de um museu com um homemque não conheço. Estamos contemplando um quadrode 1508. Maria parece triste mas não está chorando.Outro homem se senta à minha esquerda e encosta sua cabeçacontra a parede. Atrás de mim, uma mulher estáchorando. Eu me levanto e caminho em direção a um estranhoque está dizendo, Está tudo […]
- [Alan Jenkins – Pertences](https://singularidadepoetica.art/2022/05/08/alan-jenkins-pertences/): Leia Pertences, de Alan Jenkins, um poema comovente sobre luto, memória familiar e os vestígios materiais deixados pelos mortos.
- [Stanley Plumly – Rinoceronte branco](https://singularidadepoetica.art/2022/05/07/stanley-plumly-rinoceronte-branco/): O último da minha espécie, um dos últimos apreciadores das florese da grama das pastagens do norte, e certamenteum dos poucos habilitados a esfregar as costas no baobáe no carvalho centenário que ainda sobrevive no quintal. O truque está na pedra, parecer algo que se soltoude uma montanha, algo tão sobrante a ponto de nãoestar […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Inocentes do Leblon](https://singularidadepoetica.art/2022/05/06/carlos-drummond-de-andrade-inocentes-do-leblon-2/): Os inocentes do Leblonnão viram o navio entrar.Trouxe bailarinas?trouxe imigrantes?trouxe um grama de rádio?Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,mas a areia é quente, e há um óleo suaveque eles passam nas costas, e esquecem. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 08/11/2016 Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Robinson Jeffers - Regresso](https://singularidadepoetica.art/2022/05/05/robinson-jeffers-regresso/): Um pouco abstratos e um pouco sábios demais,É tempo de beijarmos a terra novamente,É tempo de deixar que as folhas chovam dos céus,Deixar que a rica vida corra para as raízes novamente.Eu irei para os Sur Rivers feiticeiros,E neles mergulharei meus braços até o peito.Encontrarei minha contabilidade onde treme a folha dos amieirosCom o vento […]
- [Cassiano Ricardo - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2022/05/04/cassiano-ricardo-testamento-2/): Deixo os meus olhos ao cegoque mora nesta rua.Deixo a minha esperançaao primeiro suicida.Deixo à polícia meu rasto,a Deus o meu último eco.Deixo o meu fogo-fátuoao mais triste viandanteque se perder sem lanternanuma noite de chuva.Deixo o meu suor ao fiscoque me cobriu de impostos;e a tíbia da perna esquerdaa um tocador de flautapara, com […]
- [Abdellatif Laâbi - Por que esta folha?](https://singularidadepoetica.art/2022/05/03/abdellatif-laabi-por-que-esta-folha/): Por que esta folha?Salvo por um detalhe,o mundo não mudouem tão pouco tempoSalvo por um detalheesta manhã é uma réplicacinzentada anteriorSalvo por um detalheo peso esmagador do peitonão se reduziu nem um gramaSalvo por um detalhesentimo-nos ainda vivosum pouco maisum pouco menosO mesmo equilíbriofrágil ou nãoSalvo por um detalheo de uma pergunta desconcertante:Por que esta […]
- [Jorge Valdés Días-Vélez - Pro nobis](https://singularidadepoetica.art/2022/05/02/jorge-valdes-dias-velez-pro-nobis/): Pro nobis para José Emilio Pacheco Uma vez mais, abriu o Averno suas mandíbulas escaldantes. Assomam os pesadelos e o terror da morte se o sono o invade e se transforma em chama negra, se, ao dormir, o levam até ele, ao lagar luxurioso dos demônios. O menino, mudo, contempla sua silhueta e chora. Na […]
- [Carlos Drummond de Andrade - José](https://singularidadepoetica.art/2022/05/01/carlos-drummond-de-andrade-jose-2/): E agora, José?A festa acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou,e agora, José?e agora, você?você que é sem nome,que zomba dos outros,você que faz versos,que ama, protesta?e agora, José? Está sem mulher,está sem discurso,está sem carinho,já não pode beber,já não pode fumar,cuspir já não pode,a noite esfriou,o dia não veio,o bonde não veio,o riso não […]
- [Mário Chamie - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2022/05/01/mario-chamie-fantasma-2/): Um fantasma ausentepõe tijolo sobretijolo ao seu redor. Primeiro mede o terrenoDivide o espaço.Calca com o péa plantaque não floresce.Mas que crescesob estacasde cimento. Depois, a ausênciase preenche.O fantasma movea cal, a pedra, a pá.O fantasma moveo corpo já presentedo lugar em que está. Presente e ausente,um fantasma se acasalaMove seu corpode carne e osso.Come […]
- [Cecília Meireles - Epigrama nº 7](https://singularidadepoetica.art/2022/04/30/cecilia-meireles-epigrama-no-7-2/): A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente no blog em 18/10/2016 Conheça outros livros de Cecília […]
- [Dilruba Ahmed – Fase um](https://singularidadepoetica.art/2022/04/29/dilruba-ahmed-fase-um/): Por ter deixado a geladeira abertaontem à noite, eu a perdoo.Por conjurar cortinas brancasem vez de viver a sua vida. Pelas mudas que murcham, agora,em pequenos potes, eu a perdoo.Por dizer não num primeiro momento,mas sim como uma reflexão tardia. Eu a perdoo pelas visões horrendasapós o parto, provocadas pela perdade sono. E quando o […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Um Bruxo Com Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/04/28/carlos-drummond-de-andrade-a-um-bruxo-com-amor-2/): “A Um Bruxo Com Amor”, um poema de Carlos Drummond de Andrade que convoca a sombra de Machado de Assis para celebrar, entre ironia e assombro, a permanência inquieta da literatura sobre o tempo e a morte.
- [Ted Kooser - Luz das estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/27/ted-kooser-luz-das-estrelas/): A noite toda, essa chuva suave do passado distante.Não admira que às vezes eu desperte como uma criança. Trad.: Nelson Santander Starlight All night, this soft rain from the distant past.No wonder I sometimes waken as a child.
- [Mário de Andrade - Poema da Amiga (VIII)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/26/mario-de-andrade-poema-da-amiga-viii-2/): Gosto de estar a teu lado,Sem brilho.Tua presença é uma carne de peixe,De resistência mansa e de um brancoEcoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti.Anoiteço feito um bairro,Sem brilho algum. Estamos no interior duma asaQue fechou. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 14/10/2016 Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
- [Sharon Olds - A corrida](https://singularidadepoetica.art/2022/04/25/sharon-olds-a-corrida/): Quando cheguei no aeroporto, corri até o guichê,comprei uma passagem, dez minutos depois me disseram que o voo tinha sido cancelado, os médicostinham dito que meu pai não sobreviveria àquela noitee o voo fora cancelado. Um jovemde bigode castanho-escuro me disseque de outra companhia aérea partiria um voosem escalas em sete minutos. Pegueaquele elevador, desça […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Carta aos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/04/24/affonso-romano-de-santanna-carta-aos-mortos-2/): Carta aos Mortos, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, reflete sobre a aparente marcha do progresso e as surpreendentes permanências da experiência humana.
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – A torre da dama](https://singularidadepoetica.art/2022/04/23/eilean-ni-chuilleanain-a-torre-da-dama/): Vazia, minha alta torre inclina-se Para trás no penhasco; meu colmo Conversa com a amplidão dispersa, Garças. A parede cinza Corta para baixo e encontra Um instável córrego inundado Por seixos, pequenas aves Mergulhadoras. Lá embaixo, meus porões sondam. Atrás de mim, as oblíquas veias da colina Se deslocam; úmida está minha cozinha, Aranhas escondidas […]
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – O quarto de um cavalheiro](https://singularidadepoetica.art/2022/04/23/eilean-ni-chuilleanain-o-quarto-de-um-cavalheiro/): Essas compridas sombras recuando,Um rio de telhados inclinando-se Do lado do vale.Frontões e chaminésE torres, com árvores aninhadas entre elas:Todas as formas de um cemitérioVistas do alto de sua janela. Um espelho em forma de caixão responde,Luz suave, polido, liso como a pele,Azul como grama cortada no gramado,Gravatas retorcidas dobradas sobre ele. Abrindo a porta, […]
- [José Luís Peixoto - na hora de pôr a mesa...](https://singularidadepoetica.art/2022/04/22/jose-luis-peixoto-na-hora-de-por-a-mesa-2/): na hora de pôr a mesa, éramos cinco:o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãse eu. depois, a minha irmã mais velhacasou-se. depois, a minha irmã mais novacasou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,na hora de pôr a mesa, somos cinco,menos a minha irmã mais velha que estána casa dela, menos a minha irmã […]
- [Francisco Brines - A realidade não permanece](https://singularidadepoetica.art/2022/04/21/francisco-brines-a-realidade-nao-permanece/): Esta tarde rebelde me leva a Bathe a ti, mas não à cidade de ruastranquilas, nem a quem tu deves ser hoje.O quarto fica maior na penumbraenquanto chove suavemente na rua.Há, na lareira, um fogo que aquecenossos corpos nus, e que iluminao vasto espaço de forma insuficiente.És a luz que o fogo de teus cabelose […]
- [José Luís Peixoto - Explicação da Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2022/04/20/jose-luis-peixoto-explicacao-da-eternidade/): REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 20/09/2016
- [Linda Pastan - Dor](https://singularidadepoetica.art/2022/04/19/linda-pastan-dor/): Mais fieldo que um amante ou maridoela se apega a ti,dando a si própria o teu sobrenomecomo se uma cerimônia tivesse acontecido. À noite, viras e revirasprocurando pela únicaposição suportável,mas mesmo que finalmente consigas dormir,ela acorda antes de ti. Como é pesada,desalojando com seu volumetoda tua energia vital.Antes tu parecias não pesar nada,teus braços poderiam […]
- [W. H. Auden - Blues Fúnebre (em duas traduções de Nelson Ascher)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/18/w-h-auden-blues-funebre-em-duas-traducoes-de-nelson-ascher/): BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto — […]
- [Brigit Pegeen Kelly – A partida](https://singularidadepoetica.art/2022/04/17/brigit-pegeen-kelly-a-partida/): Meu pai disse que eu não conseguiria fazê-lo,mas por toda noite eu colhi os pêssegos.O pomar estava silencioso, os canais funcionavam incessantemente.Eu era uma menina na época, meu peito era seu próprio jardim murado.Quantas são as escadas para a colheita em um pomar?Eu tinha apenas uma e uma grande paciência com as mãos acesase o […]
- [João Cabral de Melo Neto - A Viagem](https://singularidadepoetica.art/2022/04/16/joao-cabral-de-melo-neto-a-viagem-2/): Quem é alguém que caminhatoda manhã com tristezadentro de minhas roupas, perdidoalém do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendocomo se levassem nos bolsosdoces geografias, pensamentosde além do sonho e da rua? Alguém a cada momentovem morrer no longe horizontede meu quarto, onde esse alguémé vento, barco, continente. Alguém me diz toda a […]
- [Ellen Bass – Pelo tempo que quiser](https://singularidadepoetica.art/2022/04/15/ellen-bass-pelo-tempo-que-quiser/): No caminho para o cemitério, eu dormi.Não na limusine que levava o caixão da minha mãe,mas apagada em uma van, a família toda falando ao meu redor.Eu estava exausta do sofrimento dela, de seus apelos —me ajuda e chega, chega —e tentando fazer com que a morfina permanecesse na vala de suas gengivas.Como pude não ter estudado […]
- [Lewis Carroll - Jaguadarte](https://singularidadepoetica.art/2022/04/14/lewis-carroll-jaguadarte/): Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo. […]
- [Ellen Bass – Pinheiros de Ponary](https://singularidadepoetica.art/2022/04/13/ellen-bass-pinheiros-de-ponary/): Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles […]
- [Ada Limón - Instruções para não desistir](https://singularidadepoetica.art/2022/04/13/ada-limon-instrucoes-para-nao-desistir/): Mais do que os funis fúcsia rompendoda macieira, mais do que a exibição quaseobscena dos galhos da cerejeira do vizinho enfiandosuas flores cor de algodão doce no céu ardósiadas chuvas de primavera, é o verdejar das árvoresque realmente me comove. Quando todo o embate de brancoe caramelo e os berloques e bugigangas do mundo deixam,de […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2022/04/12/carlos-drummond-de-andrade-a-mesa/): E não gostavas de festa. . .Ó velho, que festa grandehoje te faria a gente.E teus filhos que não bebeme o que gosta de beber,em torno da mesa larga,largavam as tristes dietas,esqueciam seus fricotes,e tudo era farra honestaacabando em confidência.Ai, velho, ouvirias coisasde arrepiar teus noventa.E daí, não te assustávamos,porque, com riso na boca,e a […]
- [Jo Shapcott – Observadora de estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/11/jo-shapcott-observadora-de-estrelas/): Se eu não estou olhando para você, me perdoe; se pareçoestar esqudrinhando o céu,cabeça jogada para trás, curiosa,extática, reservada, andandoaleatoriamente no chãoà sua frente, meu público,me perdoe, e esqueça o que estáacontecendo em minhas células.É em você que estou pensandoe, voz lançada para o alto,é com você que estou falando, você. Estou tentando manter tudo […]
- [Robinson Jeffers - Cremação](https://singularidadepoetica.art/2022/04/10/robinson-jeffers-cremacao/): Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com […]
- [Geoffrey A. Landis – Ondulações no mar de Dirac](https://singularidadepoetica.art/2022/04/09/geoffrey-a-landis-ondulacoes-no-mar-de-dirac/): Trabalho vencedor do Prêmio Nebula de melhor conto de Ficção Científica de 1989.
- [Cynthia Huntington – O arrebatamento](https://singularidadepoetica.art/2022/04/09/cynthia-huntington-o-arrebatamento-poema/): Lembro-me de estar na cozinha, misturando ossos para a sopa,e de que, naquele momento, me tornei outra pessoa. Era uma noite de início de primavera, o ar da Califórnia estava ameno.Lá fora, o eucalipto se curvava compulsivamente sobre o trailer do vizinho, estacionado na entrada da garagem.A rua estava tranquila, pra variar, e todas as […]
- [Jaime Gil de Biedma - Lembre-se](https://singularidadepoetica.art/2022/04/08/jaime-gil-de-biedma-lembre-se-2/): Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo em sonhos na memória: estremece eterno o tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado rumo a um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre submergindo o passado. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no […]
- [Nelson Ascher - Visita ao asilo](https://singularidadepoetica.art/2022/04/07/nelson-ascher-visita-ao-asilo-poema/): Subsistem devagar nojardim da última infânciasorvendo desdentadosde vida (além de dentes) o caldo-de-galinhahospitalar dos dias.Opacas as retinase os tímpanos à prova de som, eles combinamremorsos de placentadensos de urina e restosmortais que, amortalhados folgadamente em peloacima do seu número,apegam-se obsessivosaos ossos descalci- ficados como, à ideiade podre, os urubus.Sinapse piedosaque, entre neurônios secos, censura todo […]
- [Jaime Gil de Biedma - Não Voltarei a ser Jovem](https://singularidadepoetica.art/2022/04/06/jaime-gil-de-biedma-nao-voltarei-a-ser-jovem-2/): Que é certo a vida passasó se começa a compreender mais tarde— como todos os jovens, decidilevar a minha vida por diante. Deixar marca eu queriae partir entre aplausos— envelhecer, morrer, eram somenteas dimensões do teatro. Porém, passou o tempoe a verdade mais amarga assoma:envelhecer, morrer,é o argumento único da obra. Trad.: José Bento REPUBLICAÇÃO: […]
- [Henry Wadsworth Longfellow - Casas assombradas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/05/henry-wadsworth-longfellow-casas-assombradas/): Todas as casas onde homens viveram e morreram São casas mal-assombradas. Pelo aberto portãoAs inofensivas almas, em suas tarefas, pairam, Com pés que quase nenhum ruído produzem no chão. Nós as encontramos na escadaria, no corredor, Pelas passagens através das quais elas vêm e vão,impalpável impressão no ar ao nosso derredor, Sensação de algo em […]
- [Cassiano Ricardo - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2022/04/04/cassiano-ricardo-o-espelho-2/): Um meio-dia nu, numa enorme moldurade prata.Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo.Mas não é nada. É apenas um espelho.Um rico espelho. De extraordinário fulgor.Próprio pra ser colocado à paredede um ministério da Fazenda, ou de uma casade jogo. Toda a cidade cabe dentro dele.Árvores, automóveis, povo, casas de comércioe vendedores de jornais, […]
- [Andrea Cohen - Recusa em lamentar](https://singularidadepoetica.art/2022/04/03/andrea-cohen-recusa-em-lamentar-poema/): Em vez de flores, mande- o de volta.Trad.: Nelson Santander Refusal to Mourn In lieu of flowers, send him back.
- [William Blake - London (c.1790)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/02/william-blake-london-c-1790-2/): Perambulo por todas as ruas com barreirasVizinhas de onde o próprio TâmisaEntre barreiras flui, e em cada face que encontroMarco marcas de fraqueza, marcas de pesar. Ouço o ruído dos grilhões mentais apostosEm cada alocução de cada homemNo grito de temor de cada infanteNas vozes todas, em cada interdição. Como o grito dos meninos que […]
- [Joan Margarit – Coisas em comum](https://singularidadepoetica.art/2022/04/01/joan-margarit-coisas-em-comum-poema/): Ter-nos conhecidoem um outono num trem que ia vazio;A radiante, embora cruel,promessa do desejo.A cicatriz da melancoliae o velho afeto com o qual compreendemosos motivos do lobo.A lua que acompanha o trem noturnoBarcelona-Paris.Uma faca de luz para os crimesque por amor devemos cometer.Nossa maldita e inocente sorte.A voz do mar, que sempre te diráonde estou, […]
- [William Blake - A Tirzah](https://singularidadepoetica.art/2022/03/31/william-blake-a-tirzah-2/): Tudo que nasceu para morrerDeve-se a terra misturarPara da geração se libertar:Então, que tenho eu a ver contigo? Do orgulho e da vergonha nasce o sexoPela manhã florido, à tarde morto.Mas a piedade faz da Morte sonoE os sexos se levantam para o trabalho e o pranto. Tu, mãe da minha mortal parteQue cruelmente meu […]
- [Nickole Brown - Susto](https://singularidadepoetica.art/2022/03/30/nickole-brown-susto-poema/): Deixe-me dizer-lhe — nenhum animal de longe é o mesmoque de perto. Ou seja, uma baleia em uma revista podeparecer majestosa e livre, mas o que você não vê équão perto da superfície ela adormece,como a luz a empola deixando-a em carne viva e comoas gaivotas rasgam sua pele queimada pelo sol, alçando ao aros […]
- [Lêdo Ivo - A Queimada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/29/ledo-ivo-a-queimada-2/): Queime tudo o que puder:as cartas de amoras contas telefônicaso rol de roupas sujasas escrituras e certidõesas inconfidências dos confrades ressentidosa confissão interrompidao poema erótico que ratifica a impotênciae anuncia a arterioscleroseos recortes antigos e as fotografias amareladas.Não deixe aos herdeiros esfaimadosnenhuma herança de papel. Seja como os lobos: more num covile só mostre à […]
- [Victoria Kennefick – Depoimento](https://singularidadepoetica.art/2022/03/28/victoria-kennefick-depoimento-poema/): Eu te amo como as ondas amam os penhascos.Elas lançam saias de rendas contra os rochedos,pernadas de dançarinas do can-can escalam até o topo,e voltam para o mesmo lugar; espuma se agarra – um beijo.Algumas vezes, elas levam coisas usadas para a praia;em outras, deslizam em silêncio, sem nada dizer,cavam, escondem-se no eco-escuro –esperam até […]
- [Cassiano Ricardo - Ladainha](https://singularidadepoetica.art/2022/03/27/cassiano-ricardo-ladainha-2/): Por que o raciocínio,os músculos, os ossos?A automação, ócio dourado.O cérebro eletrônico, o músculomecânicomais fáceis que um sorriso. Por que o coração?O de metal não tornará o homemmais cordial,dando-lhe um ritmo extra-corporal? Por que levantar o braçopara colher o fruto?A máquina o fará por nós.Por que labutar no campo, na cidade?A máquina o fará por […]
- [David Whyte - O verdadeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2022/03/26/david-whyte-o-verdadeiro-amor-poema/): “O verdadeiro amor”, um poema de David Whyte que apresenta o amor como travessia íntima e corajosa, onde dizer “sim” à mão estendida é escolher viver depois de anos à deriva.
- [Heinrich Heine - Morfina](https://singularidadepoetica.art/2022/03/25/heinrich-heine-morfina-2/): É grande a semelhança desses doisjovens e belos vultos, muito emboraum pareça mais pálido e severoou, posso até dizer, bem mais distintodo que o outro, o que, terno, me abraçava.Havia em seu sorriso tanto afeto,carinho e, nos seus olhos,tanta paz!Ornada de papoulas, sua frontetocava a minha, às vezes – e seu raroodor me dissipava a […]
- [Lucille Clifton – o que eu sei é isso](https://singularidadepoetica.art/2022/03/24/lucille-clifton-e-isso-o-que-eu-sei-poema/): o que eu sei é isso:minha mãe enlouqueceuna casa dos meus paispor falta de carinho o que eu sei é isso:os dias de algumas mulheressão desperdiçadosnas cozinhas de suas vidasé por isso que eu sei:os deusessão homens Trad.: Nelson Santander this is what i know this is what i know my mother went mad in […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Congresso Internacional do Medo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/23/carlos-drummond-de-andrade-congresso-internacional-do-medo-2/): Provisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,não cantaremos o ódio porque esse não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores, […]
- [Czesław Miłosz – Dádiva](https://singularidadepoetica.art/2022/03/22/czeslaw-milosz-dadiva-poema/): Um dia tão feliz.O nevoeiro cedo dissipou-se, e eu trabalhei no jardim.Os Beija-Flores se detinham sobre as flores de madressilva.Não havia nada na terra que eu quisesse possuir.Eu não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.Qualquer mal que eu tivesse sofrido, esqueci.Pensar que uma vez eu fui o mesmo homem não me envergonhava.Em meu corpo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Medo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/21/carlos-drummond-de-andrade-o-medo-2/): Em verdade temos medo.Nascemos escuro.As existências são poucas:Carteiro, ditador, soldado.Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo.Cheiramos flores de medo.Vestimos panos de medo.De medo, vermelhos riosvadeamos. Somos apenas uns homense a natureza traiu-nos.Há as árvores, as fábricas,Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor,este célebre sentimento,e o amor faltou: chovia,ventava, fazia frio em São Paulo. Fazia […]
- [Linda Pastan - Estou aprendendo a abandonar este mundo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/20/linda-pastan-estou-aprendendo-a-abandonar-o-mundo-poema/): Estou aprendendo a abandonar este mundoantes que ele possa me abandonar.Já renunciei à luae à neve, fechando minhas persianascontra as reivindicações do branco.E o mundo levoumeu pai, meus amigos.Abandonei as linhas melódicas das colinas,mudando para uma paisagem plana, dissonante.E toda noite abandono meu corpo,membro por membro, seguindoatravés dos ossos, em direção ao coração.Mas a manhã […]
- [Rainer Maria Rilke - Morgue](https://singularidadepoetica.art/2022/03/19/rainer-maria-rilke-morgue-2/): Estão prontos, ali, como a esperarque um gesto só, ainda que tardio,possa reconciliar com tanto frioos corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim.Que nome no seu bolso já vaziohá por achar? Alguém procura, enfim,enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só ficam mais polidos.A barba está mais […]
- [Dan Gerber – Cinema Paradiso](https://singularidadepoetica.art/2022/03/18/dan-gerber-cinema-paradiso-poema/): No final de novembropalavras apareceram na ponta da minha canetacomo a resposta a uma pergunta queeu ainda não havia feito.Uma tornou-se um condor; outra,uma nuvem,enquanto uma terceira palavra, espinhosidade,ganhou vida no sonho de um cardo.O que é mais real,a neve ou a bola de neve,a palavra ou as letras que acompõe?Eu empacotei a neve, uma […]
- [Ruy Proença - Tiranias](https://singularidadepoetica.art/2022/03/17/ruy-proenca-tiranias-2/): antigamentediziam: cuidado,as paredes têm ouvidos entãofalávamos baixonos policiávamos hojeas coisas mudaram:os ouvidos têm paredes de nadaadiantagritar REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/05/2016 Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui
- [Billy Collins - O desfile](https://singularidadepoetica.art/2022/03/16/billy-collins-o-desfile-poema/): Que emocionante foi marcharao longo das grandes avenidasdebaixo do clarão das trombetase sob todas as bandeiras tremulantes —a bandeira da ambição, a bandeira do amor. Tantos de nós fluindo ao longo do caminho —toda a humanidade, na verdade —movendo-se em perfeita sintonia,mas cada qual perdido no quarto de um sonho particular. Como é estimulante a […]
- [Darcy Ribeiro - A Indesejada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/15/darcy-ribeiro-a-indesejada-2/): Aí estão eles, os da terceira idade.Gregários, vivem aos bandos.Sentados, jogando cartas, andando devagar.Conversando pretéritos assuntos.Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos.Hoje, são sogros, os chatos dos sogros.Uns são viúvos, outros largados, poucos.Muitos deles, os mais, ainda casados.As mulheres duram demais. Órfãos de seus filhos, ocupadíssimos.Não reclamam, resmungam disfarçados.Estão todos aflitos, na […]
- [Carolyn Creedon – Mulher, minada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/14/carolyn-creedon-mulher-minada-poema/): Na seção de cosméticos da Lord & Tayloreles a levarão para um lugar bem exposto, claro como o dia, e a fotografarão com uma câmera ultravioleta,mostrando-lhe o que você fez com sua pele apenaspor viver, seu rosto subitamente exposto, como aquilo querealmente está acontecendo sob uma tora levantada, a verdadeira vocêque você é, capturada e […]
- [Darcy Ribeiro - Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/03/13/darcy-ribeiro-amor/): “Amor”, um poema de Darcy Ribeiro que assume a paixão como força carnal absoluta, onde dois corpos se afirmam contra o mundo na vertigem do desejo.
- [Donizete Galvão - Ruminações](https://singularidadepoetica.art/2022/03/12/donizete-galvao-ruminacoes-poema/): Nunca saí dessa roceira Minasque nos dá aflição e dor como herança.Lamaçal de bosta de vacano curral bem em frente da casa.Cheiro de leite azedo nos latõese de óleo queimado para expulsar bernes.Jardins de dália e corações magoados,chás de consolda e escaldados de quirera.A avó socando o arroz no pilão,preparando decoada para o sabãoou com […]
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2022/03/11/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4-3/): Nada vos ofertoalém destas mortesde que me alimento Caminhos não háMas os pés na gramaos inventarão Aqui se iniciauma viagem clarapara a encantação Fonte, flor em fogo,quem é que nos esperapor detrás da noite ? Nada vos sovino:com a minha incertezavos ilumino REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 23/04/2016
- [Ellen Bass – Pinheiros de Ponary](https://singularidadepoetica.art/2022/03/10/ellen-bass-pinheiros-de-ponary-poema/): Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2022/03/09/caetano-veloso-o-homem-velho-3/): O homem velho deixa a vida e morte para trásCabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca maisO grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinaisO homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao solAs linhas do destino nas mãos a mão apagouEle já tem […]
- [Anne Sexton – Para um amigo que alcançou o sucesso no trabalho](https://singularidadepoetica.art/2022/03/08/anne-sexton-para-um-amigo-cujo-trabalho-alcancou-o-trinfo/): Considere Ícaro, colando aquelas asas viscosas,experimentando aquele estranho puxão em suas omoplatas,e pense naquele primeiro impecável momento sobre o gramadodo labirinto. Pense em como isso fez diferença!Lá embaixo encontram-se as árvores, tão desajeitadas quanto os camelos;e aqui, os estupefatos estorninhos que passame pensam que o inocente Ícaro está indo muito bem:maior do que uma vela […]
- [Cassiano Ricardo - O Relógio](https://singularidadepoetica.art/2022/03/07/cassiano-ricardo-o-relogio-2/): Diante de coisa tão doídaconservemo-nos serenos. Cada minuto de vidanunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma faceDo não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nascejá se começa a morrer. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 17/04/2016
- [Galway Kinnell - Aquela noite silenciosa](https://singularidadepoetica.art/2021/05/22/galway-kinnell-aquela-noite-silenciosa-poema/): Eu voltarei àquela noite silenciosaem que nos deitamos juntos e conversamos em vozes baixas, silenciosas,enquanto do lado de fora caíam lentos fragmentos de nevesuave, silenciando ao se aproximar do solo,com um incêndio no quarto, onde séculosde árvores evolaram-se em contínuas almas-ausentando-se,sem um estalido, até a luz da manhã.Só dormimos quando o que se apressava mais […]
- [Barbara Crooker - No meio](https://singularidadepoetica.art/2021/05/20/barbara-crooker-no-meio-poema/): de uma vida que é tão complicada quanto a de todo mundo,batalhando por equilíbrio, equilibrando o tempo.O relógio de lareira que foi do meu avôparou às 9:20; não tivemos tempode conserta-lo. O pêndulo de bronze está imóvel,os sinos não soam. Um dia eu olho pela janela,verde verão, no outro, as folhas já caírame um céu […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Ausência](https://singularidadepoetica.art/2021/05/18/sophia-de-mello-breyner-andresen-ausencia-poema/): Num deserto sem águaNuma noite sem luaNum país sem nomeOu numa terra nua Por maior que seja o desesperoNenhuma ausência é mais funda do que a tua. Conheça outros livros de Sophia de Mello Breyner Andresen clicando aqui
- [Juan Vicente Piqueras - O testemunho do gajeiro](https://singularidadepoetica.art/2021/05/16/juan-vicente-piqueras-o-testemunho-do-gajeiro-poema/): Para falar a verdade, pareceu-me outro gesto de presunção,muito dele,aquela urgência com que nos pediuque o amarrássemos ao mastropara escapar do canto das sereias. As sereias estavam cantando, isso é verdade,mas não exatamente para seduzi-lo. E por que não a qualquer um de nós?Por que elas deveriam tentar seduzir alguém?Quem pode garantir que não estavam simplesmente […]
- [Nelson Santander - O dia em que meu pai ouviu a voz de Deus](https://singularidadepoetica.art/2021/05/15/nelson-santander-o-dia-em-que-meu-pai-ouviu-a-voz-de-deus/): O conhecido escritor de ficção científica Arthur C. Clarke formulou três “leis” acerca da relação entre o homem e a tecnologia que ficaram muito famosas. Dentre elas, a mais conhecida é a terceira, que reza: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.” Lembrei dessa Lei quando, em um certo domingo, fui visitar meus pais. […]
- [Gastão Cruz – Pedro Hestnes](https://singularidadepoetica.art/2021/05/14/gastao-cruz-pedro-hestnes-poema/): Passou a alguns metros de onde eu estava; não o via há anos e nem sei qual a última vez que com ele falara Não o reconheci de imediato e bastou essa dúvida para criar um hiato na linha dos olhares de repente cruzados dentro da tarde; receara decerto não ter sido por mim reconhecido […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Ciência](https://singularidadepoetica.art/2021/05/12/carlos-drummond-de-andrade-ciencia-poema/): Começo a ver no escuro um novo tom de escuro. Começo a ver o visto e me incluo no muro. Começo a distinguir um sonilho, se tanto, de ruga. E a esmerilhar a graça da vida, em sua fuga. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [John Keats - Ode a um rouxinol](https://singularidadepoetica.art/2021/05/10/john-keats-ode-a-um-rouxinol-2/): 1.Meu peito dói; um sono insano sobre mimPesa, como se eu me tivesse intoxicadoDe ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim,Há um só minuto, e após no Letes me abismado:Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte,É do excesso de ser que aspiro em tua paz –Quando, Dríade leve-alada em meio […]
- [Denver Butson - Meu irmão](https://singularidadepoetica.art/2021/05/08/denver-butson-meu-irmao-poema/): Para escapar das dores de cabeça e aos medos de uma esposa infielmeu irmão em perpétua reabilitação usuário de drogasmaquinista encrenqueiro preso aos 14 por incêndio premeditadoe encarcerado por algumas semanaspai de um filho e de um feto abortadojogador de boliche ocasional e fã de heavy metalapreciador de ketchup batata chips strombolie cheesesteak usuário de […]
- [Ursula K. Le Guin – Como me parece](https://singularidadepoetica.art/2021/05/06/ursula-k-le-guin-como-me-parece-poema/): No vasto abismo antes do tempo, o eunão existe, e a alma se misturacom a névoa, a rocha e a luz. No tempo certo,a alma atrai o nebuloso eu para o ser.Então, lentamente, o tempo petrifica o euenquanto ilumina a alma,até que a alma perde o controle do eue ambos se libertam e podem retornarà […]
- [Mary Oliver - O véu](https://singularidadepoetica.art/2021/05/04/mary-oliver-o-veu-poema/): Há momentos em que o véu parecequase se levantar, e compreendemos o quea terra significa para nós — asárvores em sua docilidade, as colinas emsua paciência, as flores e asvideiras em sua selvagem, doce vitalidade.A Palavra, então, está em nós, e o Livro, posto de lado. Trad.: Nelson Santander Conheça outros livros de Mary Oliver […]
- [Solmaz Sharif – Treinamento de habilidades sociais](https://singularidadepoetica.art/2021/05/02/solmaz-sharif-treinamento-de-habilidades-sociais-poema/): Estudos sugerem que Como posso ajuda-lo, policial? é a coisa mais desarmante a dizer, e não Qual é o problema? Estudos sugerem que a melhor resposta a um pedido de ajuda é Com prazer e não Sem problema. Estudos sugerem que é melhor não mencionar problema diante do poder, mesmo para dizer que não há […]
- [Louise Glück - Santas](https://singularidadepoetica.art/2021/04/30/louise-gluck-santas-poema/): Em nossa família, havia duas santas,minha tia e minha avó.Mas suas vidas foram diferentes. Minha avó era tranquila, mesmo no final.Ela parecia uma pessoa caminhando em águas calmas;por alguma razãoo mar não conseguiu feri-la.Quando minha tia enveredou pelo mesmo caminho,as ondas quebraram sobre ela, atacaram-na,que é como as Fiandeiras do Destino respondema uma verdadeira natureza […]
- [Mary Oliver - Canção dos construtores](https://singularidadepoetica.art/2021/04/28/mary-oliver-cancao-dos-construtores-poema/): Em uma manhã de verãosentei-meem uma encostapara pensar em Deus— um nobre passatempo.Perto de mim, vium grilo solitário;estava movendo os grãos da encosta de um lado para o outro.Quão grande era sua energia,quão humilde o seu esforço.Esperemos que seja sempre assim,cada um de nós avançandopor nossos inexplicáveis caminhosconstruindo o universo. Trad.: Nelson Santander Conheça outros […]
- [Adrienne Rich - Fotografias do Hubble: Após Sappho](https://singularidadepoetica.art/2021/04/26/adrienne-rich-fotografias-do-hubble-apos-sappho-poema/): Leia Fotografias do Hubble: Após Sappho, de Adrienne Rich, um poema que aproxima amor, desejo e a imensidão do universo visível.
- [Edward Field - Ícaro](https://singularidadepoetica.art/2021/04/24/edward-field-icaro-poema/): Apenas as penas flutuando ao redor do chapéuMostravam que algo mais espetacular havia ocorridoAlém do afogamento habitual. A polícia preferiu ignorarOs aspectos confusos do casoE as testemunhas correram para uma guerra de gangues.Assim, o relatório arquivado e esquecido nos registros dizia simplesmente“Afogado,” mas estava errado: ÍcaroTinha nadado para longe, chegando finalmente à cidadeOnde alugou uma […]
- [Joan Margarit – Separado](https://singularidadepoetica.art/2021/04/22/joan-margarit-separado-poema/): A casa se abre para uma calçadaonde não me espera ninguém.Aqui sem ti. Um estranho.Foi aqui que eu me perdi.Caminho sem mim, contigo.Minha sombra é apenas um erro,vem dos lugares mais gélidos:teu coração e tuas mãos.Por isso eu parti.A vida desconhecidaeu a vivi sem ti.A teu lado. Trad.: Nelson Santander Separado La casa se abre […]
- [Lynn Ungar - Pandemia](https://singularidadepoetica.art/2021/04/20/lynn-ungar-pandemia-poema/): "Pandemia", um poema de Lynn Ungar que propõe encarar o isolamento como um tempo sagrado de pausa e reflexão, convidando à compaixão, à consciência da interconexão humana e à expansão do amor em meio à crise global.
- [Carolyn Forché – Dois poemas](https://singularidadepoetica.art/2021/04/18/carolyn-forche-dois-poemas-poema/): Penso em você naquele mar de túmulos além da cidade,onde muitas pedras foram deixadas, entre elas a minha: uma pequena lasca de dolomita para pesar um pedaço de papel.Eu teria colocado suas luvas e o guarda-chuva no caixão, juntamente com uma manhã em Berlin com Tanya, uma horade pombos ascendendo ao seu redor, lilases embrulhados […]
- [Fleur Adcock - Para uma criança de cinco anos](https://singularidadepoetica.art/2021/04/16/fleur-adcock-para-uma-crianca-de-cinco-anos-poema/): Um caracol escala o peitoril da janelado seu quarto, depois de uma noite dechuva. Você me chama para ver,e eu explico que seria cruel deixa-lo lá: ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar para que ninguém o esmague. Você entende e o carrega para fora, com mão diligente,para comer uma flor amarela. Vejo, então, […]
- [Mark Wunderlich - Peônias](https://singularidadepoetica.art/2021/04/14/mark-wunderlich-peonias-poema/): No pátio, as peônias rebentam em brancos corações,rebordos arredondados que desabrocham apenas para elas.Sua simplicidade, a lâmina disso, fende a manhã. Neste Brooklyn de pátios aureolados por arames farpadose roupas sujas balançando como bandeiras de rendição,vapor de resina flutuando até essas janelas, sombras viajando dos pulmões de um fumante,eu observo o helicóptero da polícia ameaçar […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2021/04/12/carlos-drummond-de-andrade-aniversario-poema/): Um verso, para te salvarde esquecimento sobre a terra?Se é em mim que estás esquecida,o verso lembraria apenasesta força de esquecimento,enquanto a vida, sem memória,vaga atmosfera, se condensana pequena caixa em que morascomo os mortos sabem morar. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Lisel Mueller – Românticos](https://singularidadepoetica.art/2021/04/10/lisel-mueller-romanticos-poema/): Românticos Johannes Brahms e Clara Schumann Os biógrafos modernos se preocupamem “o quão longe” foi sua terna amizade.Eles se perguntam o que exatamente significaquando ele escreve que pensa nela constantemente,seu anjo da guarda, amada amiga.Os biógrafos modernos fazem a rude e irrelevante indagaçãode nossa era como se o eventode dois corpos entrelaçados estabelecesse a medida […]
- [Patricia Hampl - É assim que a memória funciona](https://singularidadepoetica.art/2021/04/08/patricia-hampl-e-assim-que-a-memoria-funciona-poema/): Você está desembarcando de um trem.Uma noite úmida e vazia, o cheiro de cinzas.Uma rajada de vapor vinda da locomotiva rodopiaao redor da bainha do seu sobretudo, ao redorda mão que segura a valise de couro marrom,a mão que, há pouco, penteou para tráso cabelo e em seguida ajeitou o fedoradefronte a um espelho com […]
- [Howard Nemerov – Figuras de pensamento](https://singularidadepoetica.art/2021/04/06/howard-nemerov-figuras-de-pensamento-poema/): Colocar a espiral logarítmica naConcha e no papel, e vê-las se encaixar,Observar a mesma ideia funcionarNa subida do piloto de caça, ajustando a mira Em seu alvo, preparando a matança,E no voo de certos insetos estrábicosQue não conseguem ver que voam para a morteMas têm que lançar nela seu olhar de esguelhaE dirigir-se, mas girando, […]
- [Javier Salvago - Nada, nada importa](https://singularidadepoetica.art/2021/04/04/javier-salvago-nada-nada-importa-poema/): Se os anos ensinam alguma coisaé a pouca importânciaque tudo tem.Tudo,cedo ou tarde, passa.O amor, que vaicomo veio. A vagajuventude, com seus sonhos,suas grandes esperanças.Dias de vinho e de rosas,tempos de abundânciado coração. O brilho.A beleza. A vontadede levar a vidaadiante. As presunçosasilusões— estrelasque subitamente se apagame nos deixam em umanoite escura da alma —.A […]
- [Joan Margarit - Noturno em Solivella](https://singularidadepoetica.art/2021/04/02/joan-margarit-noturno-em-solivella-poema/): Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.Detiveste o trator entre as cercas de arameonde se embalam, verdes e densas, as videiras,e escutaste a terra à tua volta.O restaurante te dá dinheiro,mas de madrugada, com ele já fechado,fazendo um café para ti no balcão,pensas o quanto gostas de, à noite, visitarsozinho os arames do […]
- [William Blake – A mosca](https://singularidadepoetica.art/2021/03/31/william-blake-a-mosca-poema/): Pequena Mosca, Teus jogos de estio Minha irrefletida Mão os destruiu. Pois como tu, Mosca não sou eu? E não és tu Homem como eu? Eu canto e danço e Bebo, até que vem Mão cega arrancar-me As asas também. Se é o pensamento Vida, sopro forte, E a ausência do Pensamento morte, Então eu […]
- [Antonio Carlos Secchin - [Não, não era ainda a era da passagem]](https://singularidadepoetica.art/2021/03/29/antonio-carlos-secchin-nao-nao-era-ainda-a-era-da-passagem-poema/): Não, não era ainda a era da passagem do nada ao nada, e do nada ao seu restante. Viver era tanger o instante, era linguagem de se inventar o visível, e era bastante. Falar é tatear o nome do que se afasta. Além da terra, há só o sonho de perdê-la. Além do céu, o mesmo céu, que se alastra num […]
- [Linda Pastan - Chove sobre a casa de Anne Frank](https://singularidadepoetica.art/2021/03/27/linda-pastan-chove-sobre-a-casa-de-anne-frank-poema/): Chove sobre a casade Anne Franke sobre os turistasamontoados sob a sombrade seus guarda-chuvas,sobre os perfeitamente silenciososturistas que prefeririam estarem outro lugarmas que aqui esperam em escadastão íngremes pelas quais devem subirpara alguma ocasiãono sótão vazio,no banheiro pitoresco,no esqueletode uma cozinhaou no mapa —cada uma de suas setasuma farpa de arame —com todas as datas, […]
- [Robert Morgan - Outono branco](https://singularidadepoetica.art/2021/03/25/robert-morgan-outono-branco-poema/): Ela sempre gostou de ler, inclusivena infância, durante a Guerra da Secessão,e depois desenvolveu o hábito de ficar acordadajunto ao lampião perto da lareira depois que,concluída a faxina, o marido e os filhos iam dormir.Ela alimentou o vício nos anos durosda Reconstrução e mesmo depois queo seu marido morreu e ela foi forçada a prover […]
- [Mary Oliver – Quando estou entre as árvores](https://singularidadepoetica.art/2021/03/23/mary-oliver-quando-estou-entre-as-arvores-poema/): Quando estou entre as árvores,especialmente entre os salgueiros e os espinheiros-da-virgínia,mas também entre as faias, os carvalhos e os pinheiros,elas emitem tantos sinais de alegria.Eu quase diria que elas me salvam, e diariamente.Estou tão distante de minhas expectativas sobre mim mesma,nas quais eu reúno bondade, e discernimento,e nunca me apresso no mundo,mas caminho lentamente, e […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Formas migratórias](https://singularidadepoetica.art/2021/03/21/jorge-valdes-diaz-velez-formas-migratorias-poema/): Formas Migratórias para Katia Alemann Aprendemos a amar a conta-gotasessas pequenas pausas de que se vesteo temporal para inundar a solidãodo lado de fora, o ramo entre violeta e ocre das tardes, o murmúriosemântico do céu. Nesta ordem,temos esmaecido a distância,a longitude sem proporção, as linhasque se relacionam com as coisas. Curtaslacunas de ar, esses […]
- [Leonard Nathan - Brinde](https://singularidadepoetica.art/2021/03/19/leonard-nathan-brinde-poema/): Houve uma mulher em Ithacaque chorou baixinho a noite todano quarto ao lado e desamparadome apaixonei por ela sob o mantode neve que se depositou em todos os telhadosda cidade, preenchendocada escura depressão. Na manhã seguinteno café do motelestudei todas as mulheres de rostosmaquiados. Teria sido a loira de meia idadeque brincou com a garçoneteou a […]
- [James Kirkup – Ursa Maior](https://singularidadepoetica.art/2021/03/17/james-kirkup-ursa-maior-poema/): Suspensa entre os álamos domesticados no fimda avenida familiar, a UrsaMaior, em sua rede iluminada, balança,como um portão abandonado que nem barra nem convida para entrar,e pendura no poste arqueado sua silhueta de sete pontas. Desenhada com a precisão de um problema desconhecidosolucionado na sala de aula mais alta do céu vazio,ela revela sobre o […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - A outra rosa](https://singularidadepoetica.art/2021/03/15/jorge-valdes-diaz-velez-a-outra-rosa-poema/): Ela beijou na rosa(seu nome era um aguilhãofeminino e brutal)a imagem de outra rosa gravada em uma lousade mármore, cristalina.A luz era mais finae, ao tato, tão airosa quanto a flor que ardiasem pausa em sua memória.Em outro meio-dia, a rosa era ilusóriapromessa repartida;e o beijo, a outra vida. Trad.: Nelson Santander La otra rosa […]
- [Donald Hall - Últimos dias](https://singularidadepoetica.art/2021/03/13/donald-hall-ultimos-dias-poema/): “Era razoávelesperar.” Assim ele escreveu. No dia seguinte,em um consultório,a hematologista de Jane, Letha Mills, sentou-se,tensa, sua secretáriaem pé, de costas para a porta.“Trago péssimas notícias,”disse Letha. “A leucemia voltou.Não há nada a fazer.”Os quatro choramos. Ele perguntou há quanto tempo,por que isso aconteceu agora?Jane perguntou apenas: “Posso morrer em casa?” Em casa, naquela tarde,eles […]
- [Louise Glück - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2021/03/11/louise-gluck-acalanto-poema/): Minha mãe é especialista em uma coisa:enviar pessoas que ela ama para o outro mundo.Os pequeninos, os bebês — estesela embala, sussurrando ou cantando baixinho. Não posso dizero que ela fez pelo meu pai;o que quer que tenha sido, tenho certeza de que foi o certo. De fato, é a mesma coisa preparar uma pessoa […]
- [Warsan Shire – para mulheres que são 'difíceis' de amar](https://singularidadepoetica.art/2021/03/08/warsan-shire-para-mulheres-que-sao-dificeis-de-amar/): "para mulheres que são 'difíceis' de amar", um poema de Warsan Shire que aborda a intensidade feminina e a recusa em se diminuir para caber nas expectativas masculinas, celebrando a autonomia, a força e a beleza de mulheres que não aceitam transformar-se para serem amadas.
- [Juan Vicente Piqueras - Museu da Acrópole](https://singularidadepoetica.art/2021/03/07/juan-vicente-piqueras-museu-da-acropole-poema/): Uma mão de mármore, mas apenas os dedos,sobre um ombro de mármore sem cabeça. Um braço erodido que ninguém estende a ninguém. Um cavalo sem patas. Um cavaleiro que é apenas suas coxas. Dionísio aos pedaços, recomposto. Um touro sem chifres que está sendo devoradopor um leão que lá não está,apenas suas garras. Admiramos o […]
- [Javier Salvago - Canção do Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2021/03/05/javier-salvago-cancao-do-esquecimento-poema/): A cor dos olhos daquele paixão juvenil.O calor do primeiro beijo, do qual não melembro, embora saiba que deva ter sidoinesquecível. Tantos colegas e amigosda escola ou de farra, que um dia foram próximos.O latim. Tantos nomes de montanhas e de rios.Tantas duras lições. Tantos e tantos livros, devorados com paixão, sempre abertos, lidose esquecidos, […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Véspera](https://singularidadepoetica.art/2021/03/03/carlos-drummond-de-andrade-vespera-poema/): Amor: em teu regaço as formas sonham o instante de existir: ainda é bem cedo para acordar, sofrer. Nem se conhecem os que se destruirão em teu bruxedo. Nem tu sabes, amor, que te aproximas a passo de veludo. És tão secreto, reticente e ardiloso, que semelhas uma casa fugindo ao arquiteto. Que presságios circulam […]
- [Hannah Sullivan - 3.31 (de "Three Poems")](https://singularidadepoetica.art/2021/03/01/hannah-sullivan-3-31-de-three-poems-poema/): O que subsistirá a nós?Larkin pensava que a resposta poderia ser “amor,”Mas não conseguiu prova-lo. “A pasta de rascunhos era o lugar mais interessante.” “Sempre foi você, no final.”“Ele tentou lhe dizer à sua maneira.” Curtas cadeias de carbono no pó,Esta é a resposta prática.Velhos laptops, marca-passos, parafusos ósseos.Filamentos de DNA revelando a causa da […]
- [Charles Simic - O altar](https://singularidadepoetica.art/2021/02/27/charles-simic-o-altar-poema/): A estátua de plástico da VirgemEm cima de uma penteadeiraCom um espelho enegrecidoDe um salão de beleza de pesadelo. Dois seixos do túmulo de um astro de rock,Um pequeno e sorridente macaco de dar corda,Uma concha, uma moeda egípcia de bronze,E o canhoto vermelho de um ingresso de cinema. Uma mancha de luz solar na […]
- [X. J. Kennedy - O objetivo do tempo é evitar que tudo aconteça de uma só vez](https://singularidadepoetica.art/2021/02/25/x-j-kennedy-o-objetivo-do-tempo-e-evitar-que-tudo-aconteca-de-uma-so-vez-poema/): Imagine que sua vida seja um telescópio dobradoAtemporal, que desmoronou num piscar de olhosDo ventre de sua mãe, você, berrando, caiEm uma casa de repousos. Imagine que você destrói Seu carro, seu casamento — uma criança devastando Um campo de margaridas, estudante, adolescente espinhentoCom a amada, fechando às pressas o zíper das calçasAo ouvir os […]
- [Ross Gay - Tristeza não é o meu nome](https://singularidadepoetica.art/2021/02/23/ross-gay-tristeza-nao-e-o-meu-nome-poema/): — depois de Gwendolyn Brooks Não importa a atração pelo abismo. Pouco importa o sono profundo e florido que o aguarda. Há tempo para tudo. Veja, ainda esta manhã um abutre acenou com a cabeça vermelha e pardacenta para mim, e eu olhei para ele, admirando a foice do seu bico. Então o vento soprou, […]
- [Denise Levertov – Peregrinações no mundo paralelo](https://singularidadepoetica.art/2021/02/21/denise-levertov-peregrinacoes-no-mundo-paralelo-poema/): Vivemos nossas vidas de paixões humanas, crueldades, sonhos, ideias, crimes e o exercício da virtude em e ao lado de um mundo privado de nossas preocupações, isento de nossas apreensões — embora afetado, certamente, por nossas ações. Um mundo paralelo ao nosso, embora a ele sobreposto. Nós o chamamos de “Natureza”; apenas relutantemente admitindo que […]
- [Maggie Smith - O primeiro outono](https://singularidadepoetica.art/2021/02/19/maggie-smith-o-primeiro-outono-poema/): Eu sou sua guia aqui. Nas ruas crepusculares da manhã, eu aponto e nomeio. Veja os sicômoros, suas cascas manchadas, pintadas-por-números. Veja as folhas enferrujando e crepitando nas pontas. Eu caminho pelo Schiller Park com você no meu peito. As estrelas ardem plenamente à luz do dia. Veja o lago, os patos, os cães chapinhando […]
- [Joan Margarit - Manhã no cemitério de Montjuïc](https://singularidadepoetica.art/2021/02/18/joan-margarit-manha-no-cemiterio-de-montjuic-poema/): Fui à colina dos túmulos:lá cheguei cruzando o ermoda Can Tunis, coberto de seringase de plásticos pardacentos, onde tremem, errantes,as estátuas de trapo dos drogados.Corre o boato de que a Prefeiturairá destruí-lo, cobrindo de concretoos terrenos com mato em frente à enorme grade do cemitério, erguida de frente para o mar.Que má companhia será para […]
- [Louis MacNeice - A luz do sol no jardim](https://singularidadepoetica.art/2021/02/17/louis-macneice-a-luz-do-sol-no-jardim-poema/): A luz do sol no jardimEndurece e esmorece,Não podemos enjaular o minutoEm suas malhas de ouro;Quando tudo é proclamadoNão podemos implorar por perdão. Nossa liberdade, como soldados a soldo,Avança em direção ao seu fim;A mundo compele, nele Baixam sonetos e pássaros; E em breve, meu amigo,Não teremos tempo para danças. O céu estava bom para […]
- [Mary Oliver - Os usos da tristeza](https://singularidadepoetica.art/2021/02/15/mary-oliver-os-usos-da-tristeza-poema/): (enquanto dormia, sonhei este poema) Alguém que amei uma vez me deuuma caixa cheia de escuridão. Levei anos para entenderque isto, também, foi uma dádiva. Trad.: Nelson Santander The uses of sorrow (In my sleep I dreamed this poem) Someone I loved once gave mea box full of darkness. It took me years to understandthat […]
- [Gil Jorge - Augusto 90's](https://singularidadepoetica.art/2021/02/14/gil-jorge-augusto-90s/)
- [Lêdo Ivo – Achamento e duração dos mortos](https://singularidadepoetica.art/2021/02/13/ledo-ivo-achamento-e-duracao-dos-mortos-poema/): És o cemitério. Os mortos não jazem debaixo da terra. Não estão ocultos num lençol de relva mas sob tua pele. Tuas veias são ruas onde os mortos passeiam fagueiros, e em férias percorrem, turistas do eterno, os museus do éter. E nas terras velhas de tua memória almas veraneiam. Meu filho, viver é comerciar […]
- [Jane Hirshfield – Jasmim](https://singularidadepoetica.art/2021/02/11/jane-hirshfield-jasmim-poema/): Quase o século vinte e um —quão rapidamente o pensamento ficará datado,até mesmo pitoresco? Nossas esperanças, nosso futuro,passarão como as esperanças e futuros dos outros. E todas as nossas ansiedades e terrores,noites de insônia,pesares,se apresentarão então como realmente são — Abelhas delirantes e trôpegas pelo aroma do chá de jasmim. In “The lives of the […]
- [Seán Hewitt - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2021/02/09/sean-hewitt-fantasma-poema/): i. Despertando, quase de manhã, mas aindade um escuro metálico, fechado, no quarto: um som dentro do meu sonho, apenas um lamentono início, que depois se torna humano, um uivoque se eleva na rua do lado de fora, fica sem respostae então se eleva novamente. De cueca, tremendojunto à janela de uma só vidraça, mas […]
- [Edward Field - Máscara mortuária](https://singularidadepoetica.art/2021/02/07/edward-field-mascara-mortuaria-poema/): Máscara mortuária “A velhice é a mais inesperada de todas as coisas que acontecem a um homem.“ –Leon Trotsky. “Não me falem Da sabedoria dos velhos, mas antes de […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Nudez](https://singularidadepoetica.art/2021/02/05/carlos-drummond-de-andrade-nudez-poema/): Não cantarei amores que não tenho, e, quando tive, nunca celebrei. Não cantarei o riso que não rira e que, se risse, ofertaria a pobres. Minha matéria é o nada. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada, é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa, nem […]
- [David Whyte – Algumas vezes](https://singularidadepoetica.art/2021/02/04/david-whyte-algumas-vezes-poema/): Algumas vezes,se você se mover cuidadosamentepela floresta,respirandocomo osdas velhas histórias,que podiam atravessarum resplandescente leito de folhassem um som,você chega a um lugar cuja única missão é incomoda-locom ínfimas mas assustadoras exigências,concebidas do nadamas neste lugarque começa a leva-lo para todos os lugares.Exigências para que você pareo que está fazendo agora,e pare o que você está […]
- [Paul Tran - A caverna](https://singularidadepoetica.art/2021/02/02/paul-tran-a-caverna-poema/): Alguém que estava na abertura teve a ideia de entrar. Ir além do ponto onde a luz ou a linguagem poderiam ir. À medida que ele seguia a ideia, luz e linguagem o acompanhavam como dois lobos — ofegantes, ouvindo o próprio resfolegar. Um aroma informe no ar úmido… Prossiga, disse a ideia. Alguém prosseguiu. […]
- [Maya Angelou – Uma verdade corajosa e surpreendente](https://singularidadepoetica.art/2021/01/31/maya-angelou-uma-verdade-corajosa-e-surpreendente-poema/): Nós, este povo, em um pequeno e solitário planetaViajando através do espaço acidentalPassando por estrelas distantes, cruzando o caminho de indiferentes sóisPara um destino onde todos os sinais nos advertem queÉ possível e imperativo que aprendamosUma verdade corajosa e surpreendente E quando chegarmos a isso, Ao dia da pacificaçãoQuando libertarmos nossos dedosDos punhos da hostilidadeE […]
- [Eavan Boland - O barógrafo](https://singularidadepoetica.art/2021/01/29/eavan-boland-o-barografo-poema/): Encontrei-o no cais,um retângulo de madeira,um barógrafo, a pena de sua haste rabiscando o papel. Eu o trouxe para casa para serum registro dos ventos,da pressão crescente, apto a escrever a sina barométricado nosso cotidianoem um mundo onde carrinhos de livros levados pelo vento junto ao rioprometiam palavras selvagensmas obedeciam ao censor. Os Bancos em […]
- [Anna Belle Kaufman – Frio conforto](https://singularidadepoetica.art/2021/01/27/anna-belle-kaufman-frio-conforto-poema/): Quando minha mãe morreu,um dos seus bolos de mel permaneceu no freezer.Eu não poderia suportar o seu desaparecimento,então, abandonado, ele esperou em sua caverna de gelo atrás das bandejas de metal por mais dois anos. No meu quadragésimo primeiro aniversário,retirei-o de lá,uma ressurreição retangular,e sopesei o fardo morto na palma da mão. Antes que ele […]
- [Stephen Dunn – Felicidade](https://singularidadepoetica.art/2021/01/25/stephen-dunn-felicidade-poema/): Felicidade Um estado em que não se deve ousar entrar com a esperança de lá permanecer, areia movediça nos pântanos, e todos os caminhos que conduzem a um castelo que não existe. Mas lá está ele, como prometido, com sua ponte perfeita sobre os crocodilos, e suas portas perpetuamente abertas. Trad.: Nelson Santander Happiness A […]
- [Ana Martins Marques - A porta de saída](https://singularidadepoetica.art/2021/01/23/ana-martins-marques-a-porta-de-saida-poema/): “Eu vou morrer, masisso é tudo o que farei pela Morte”Edna St. Vincent Millay, Objeção de consciência “Alô, iniludível” Manuel Bandeira, Consoada A porta de saída Mas não serei eua colocar-lhe a mesa– quando chegarencontrará a casa como sempreem desordemcheia de livros e discoscom plantas e gatos ao sole os papéis em órbitaem torno da camae […]
- [David Mourão-Ferreira - E por vezes](https://singularidadepoetica.art/2021/01/21/david-mourao-ferreira-e-por-vezes-poema/): E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por […]
- [José Miguel Silva - Desculpas não faltam](https://singularidadepoetica.art/2021/01/19/jose-miguel-silva-desculpas-nao-faltam-poema/): Uma casa junto ao Vouga,rio de água suficiente,onde apenas se mergulhaaté à cintura, a pequena hortade Virgílio, o amor robustecidopor nenhuma esperançae tantos livros para ler– que desculpa vou agora darpara não ser feliz?
- [Germana Zanettini – bem-me-quer](https://singularidadepoetica.art/2021/01/17/germana-zanettini-bem-me-quer-poema/): bem-me-quer e quando a morteme desfolharnum sopro de outonoe súbito cessar o peito virarei pó e voltareipólenno vento
- [Wendell Berry - O desejo de ser generoso](https://singularidadepoetica.art/2021/01/15/wendell-berry-o-desejo-de-ser-generoso-poema/): Tudo a que sirvo morrerá, todos os meus deleites,a carne acesa de minha carne, jardim e campo,os lírios silenciosos que se encontram na floresta, as florestas, a colina, a terra toda, tudoarderá na maldade humana, ou encolherána própria velhice. Que o mundo me proporcioneo sono das trevas sem estrelas, para que eu possa conhecerminha pequena […]
- [Robyn Sarah - Rebitados](https://singularidadepoetica.art/2021/01/13/robyn-sarah-rebitados-poema/): É possível que as coisas não fiquem melhoresdo que estão agora, ou como imaginamos que estejam.É possível que já tenhamos ultrapassado o meio agora.É possível que tenhamos cruzado as Grandes Águassem sabe-lo, e que agora estejamos do outro lado. Sim, acho que já as atravessamos. Agora estamos recebendo ingressos, e eles não são ingressos para […]
- [Una Mannion – Sepultado agachado](https://singularidadepoetica.art/2021/01/11/una-mannion-sepultado-agachado-poema/): Eles deslocam a terra com pequenas espátulas e pincéis epor toda a semana as focas entoam um refrão desolado como se fosse para você.Primeiro, o pé de uma pequena criança,movimentos lentos do pincel em seus ossinhos,sua forma na vala ganhando definição, um lento nascimentono canto do campo à beira da água. Você está deitado de […]
- [Lisel Mueller – Imortalidade](https://singularidadepoetica.art/2021/01/09/lisel-mueller-imortalidade-poema/): No castelo da Bela Adormecidao relógio bate cem anose a garota na torre volta ao mundo.O mesmo ocorre com os criados na cozinha,que nem sequer esfregam os olhos.A mão direita do cozinheiro, levantadahá exatamente um século,completa seu arco descendenteaté a orelha esquerda do ajudante de cozinha;as tensas cordas vocais do garotolibertam finalmenteo sofrido lamento aprisionado,e […]
- [Jeanne Marie Beaumont - Receio que sim](https://singularidadepoetica.art/2021/01/07/jeanne-marie-beaumont-receio-que-sim-poema/): Está começando a chover?O cheque foi devolvido?Estamos sem café?Vai doer?Você pode perder seu emprego?O vidro quebrou?A bagagem foi extraviada?Vai ficar na minha ficha?Você está perdendo muito dinheiro?Alguém ficou ferido? O trânsito está pesado?Eu tenho que tirar minhas roupas?Vai deixar uma cicatriz?Você tem que ir?Isso sairá nos jornais?Meu tempo já acabou?Veremos o substituto?Afetará a minha visão?Todos […]
- [Frank O’Hara - Animais](https://singularidadepoetica.art/2021/01/05/frank-ohara-animais-poema/): Você já se esqueceu de como éramos quando éramos de primeira linhae o dia vinha gordo com uma maçã em sua boca não vale a pena se preocupar com o Tempo mas nós tínhamos alguns truques nas mangase dobramos algumas esquinas afiadas todo pasto parecia nossa refeiçãonão precisávamos de velocímetrospodíamos gerenciar coquetéis sem gelo e […]
- [Ellen Bass – O panorama geral](https://singularidadepoetica.art/2021/01/03/ellen-bass-o-panorama-geral-poema/): Eu tento ver o panorama geral.O sol, língua ardenteque nos lambe como uma mãe encantada por sua nova cria, se consumirá.Tudo é transitório.Pense no meteoro que aniquilou os dinossauros.E antes disso, nos vulcõesdo Permiano — todas aquelas samambaias e répteis, tubarões e peixes ósseos queimados —que foram extintos em uma escalaque faz com que nossas […]
- [W. S. Merwin - Ao Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2021/01/01/w-s-merwin-ao-ano-novo-poema/): Ao Ano Novo, um poema de W. S. Merwin
- [Nelson Santander - O ano novo inalcançável](https://singularidadepoetica.art/2020/12/31/nelson-santander-o-ano-novo-inalcancavel/): Meu xará Nelson Motta costuma afirmar, sem firulas, que a música americana é a melhor do mundo. O jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical, teatrólogo e letrista paulista radicado no Rio de Janeiro dispensa apresentações: sua extensa produção em todos os quadrantes da atividade musical – da produção à composição, passando pela crítica e história […]
- [Ada Limón - O fim da poesia](https://singularidadepoetica.art/2020/12/30/ada-limon-o-fim-da-poesia-poema/): “O fim da poesia”, um poema de Ada Limon que questiona a suficiência da própria linguagem poética diante da experiência concreta da vulnerabilidade humana.
- [Louise Glück – Encruzilhada](https://singularidadepoetica.art/2020/12/29/louise-gluck-encruzilhada/): No poema Encruzilhada, Louise Glück apresenta uma reflexão íntima sobre a relação entre corpo e alma diante da finitude. Com linguagem delicada e confessional, o eu lírico reconhece a fragilidade da existência, revisita o amor da juventude e expressa ternura pelo próprio corpo como morada transitória. O texto aborda mortalidade, impermanência e reconciliação interior em uma meditação poética profunda sobre a despedida da vida.
- [David Mourão-Ferreira – Testamento](https://singularidadepoetica.art/2020/12/27/david-mourao-ferreira-testamento/): Que fique só da minha vida um monumento de palavras Mas não de prata Nem de cinza Antes de lava Antes de nada Daquele nada que se aviva quando se arrisca uma viagem por entre os pântanos da ira além do sol das barricadas Ou quando um poço que cintila parece o tecto de uma […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2020/12/26/giuseppe-ungaretti-natal-3/): Republicação: “Natal”, um poema de Giuseppe Ungaretti
- [Eugénio de Andrade – Último Poema](https://singularidadepoetica.art/2020/12/24/eugenio-de-andrade-ultimo-poema/): Último Poema, um poema de Eugénio de Andrade sobre o Natal
- [Philip Larkin - Canções de amor na velhice](https://singularidadepoetica.art/2020/12/23/philip-larkin-cancoes-de-amor-na-velhice/): Ela guardou canções, tomavam pouco espaçoE as capas lhe eram belas:Uma que apanhou sol e de matizes baços;Uma cheia de círculos de jarra d´água;Uma colada, num “acesso de ordem” dela,E colorida, pela filha – aguar-daram assim, até que em sua viuvez asAchou, procurando algo, e pôs-se dessa vez a Reaprender como cada acorde, obedienteE franco, […]
- [Neil Gaiman – As coletoras de cogumelos](https://singularidadepoetica.art/2020/12/21/neil-gaiman-as-coletoras-de-cogumelos/): Como você sabe, meu pequeno, a ciência é o estudoda natureza e do comportamento do universo.Ela se baseia na observação, na experimentação e na medição,e na formulação de leis para descrever os fatos revelados. Nos velhos tempos, dizem, os homens já vinham equipados com cérebrosprojetados para seguir cárneas-feras em uma corrida,para se lançarem cegamente no […]
- [Joan Margarit – Nada engrandece um velho](https://singularidadepoetica.art/2020/12/19/joan-margarit-nada-engrandece-um-velho/): Nem essa violência com a qual desejoter sempre razão.Nem tampouco crer que a felicidadetem uma relação, sutil, com a mentira.Nem chegar a tero coração tão sujo como o meu,apesar de ter sido a guerra que o sujou.Minha paz deve ser uma falsa paz.Tampouco não abjurar a luxúriae a vaidade.Como podemos ser vaidosos, os velhos? Essa […]
- [Javier Salvago - Variações sobre um velho tema](https://singularidadepoetica.art/2020/12/17/javier-salvago-variacoes-sobre-um-velho-tema-poema/): Os violinos de Verlaine. Os sonhados caminhos da tarde, de don Antonio.* Um velho cheiro de campo. Um velho cheiro de lápis e cadernos. O céu cinzento. O vento entre as árvores. A carícia das primeiras chuvas. A tristeza sem causa. A solidão sonora. A noite, cada vez mais escura e prolongada. Um cigarro que, […]
- [Wendell Berry – Questionário](https://singularidadepoetica.art/2020/12/15/wendell-berry-questionario-poema/): 1. Quanto veneno você está dispostoa consumir para o sucesso do livremercado e do comércio internacional? Por favor,indique seus venenos preferidos. 2. Em nome do bem, quantomal você está disposto a praticar?Preencha os campos abaixocom os nomes de suas maldades eatos de ódio favoritos. 3. Que sacrifícios você está dispostoa fazer pela cultura e pela […]
- [Audre Lorde – As abelhas](https://singularidadepoetica.art/2020/12/13/audre-lorde-as-abelhas-poema/): Na rua, em frente a uma escola,o que as crianças aprenderamas possui.Garotos gritam enquanto apedrejam um enxame de abelhasque tenta se reunirentre a janela do refeitório e uma grade de ferro.Os garotos arremessam pedras furiosasdespedaçando as janelas.As abelhas, zumbindo sua raiva,demoram a atacar.Então, um dos meninos é picadoem uma destruição mais rápidae os inspetores escolares […]
- [Barbara Ras - Você não pode ter tudo](https://singularidadepoetica.art/2020/12/11/barbara-ras-voce-nao-pode-ter-tudo-poema/): Mas você pode ter a figueira e suas folhas fartas como mãos de palhaçoenluvadas de verde. Você pode ter o toque de um único dedo de onze anos de idadeem seu rosto, acordando-a à uma da madrugada para dizer que o hamster reapareceu.Você pode ter o ronronar do gato e o olhar comovente do cachorro […]
- [Ursula K. Le Guin – Hino ao tempo](https://singularidadepoetica.art/2020/12/09/ursula-k-le-guin-hino-ao-tempo-poema/): O Tempo diz “Que haja”e instantaneamente, a todo instante,existe espaço e o esplendorde cada galáxia brilhante. E olhos contemplando o céu cintilante.E a dança dos mosquitos, tremulante.E a extensão do mar.E a morte, e o azar. O tempo deixa espaçopara ir e voltar para casae no ventre do tempotudo começa e acaba. Tempo é ser […]
- [Jane Hirshfield – Encantamento para se recitar contra o ódio](https://singularidadepoetica.art/2020/12/07/jane-hirshfield-encantamento-para-se-recitar-contra-o-odio-poema/): Até que cada respiração repudie eles, aqueles, outros.Até que a Dramatis Personae da primeira página do livro diga: “Cada um deles é você.”Até que a esperança se dobre à sua desesperança apenas quando um ser se dobrar para outro.Até que a crueldade se dobre às suas ações e subitamente perceba: eu.Até que a raiva e […]
- [Warsan Shire – Casa](https://singularidadepoetica.art/2020/12/05/warsan-shire-casa-poema/): ninguém sai de casa a não ser que a casa seja a boca de um tubarãovocê só corre para a fronteiraquando vê a cidade inteira correndo também seus vizinhos correm mais rápidos do que vocêrespiram o sangue em suas gargantaso menino com quem você ia para a escola eque a beijou atordoada atrás da velha […]
- [Louise Glück - Viúvas](https://singularidadepoetica.art/2020/12/03/louise-gluck-viuvas-poema/): Minha mãe está jogando cartas com minha tia,Spite and Malice*, o passatempo da família, o jogoque minha vó ensinava a todas as suas filhas. É o auge do verão: quente demais para sair.Hoje minha tia está em vantagem; ela está recebendo as cartas boas.Minha mãe está se arrastando, com problemas em se concentrar.Ela não consegue […]
- [Nelson Santander - Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/12/01/nelson-santander-singularidade-poema/): Logo no início do blog, publiquei alguns poemas de minha autoria, não tanto pelo valor intrínseco que cada um deles dificilmente possa ter, mas para deixa-los “arquivados” nesse grande arquivo virtual que é a internet. Dentre eles, o poema que segue é aquele que considero o menos ruim de todos os que cometi. Como minhas […]
- [Marissa Davis – Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/11/29/marissa-davis-singularidade-poema/): Singularidade (depois de Marie Howe) no início sem verboiguana & mirramagma & mariposa-fantasma do recife& os cordyceps fazendo cócegas em seus nervos& cedro & arquipélago & anêmonapássaro dodo & cardeal esperando por seu salvermelho do oceano & óleo cru agora lama preta agora o mais naïve plâncton hesitantecada ovo agarrado à cópia maleávelde mim não-mulher […]
- [Marie Howe – Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2020/11/27/marie-howe-singularidade-poema/): Singularidade (depois de Stephen Hawking) Você às vezes não gostaria de acordar para a singularidadeque um dia fomos? tão compactos ninguémprecisava de cama, ou comida, ou dinheiro — ninguém se escondendo no banheiro da escolaou sozinho em casa abrindo a gavetaonde os comprimidos são guardados. Pois cada átomo que pertence a mimPertence a você. Lembra-se? […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Ex libris](https://singularidadepoetica.art/2020/11/25/jorge-valdes-diaz-velez-ex-libris-poema/): Eu reli novamente aqueles versosque falavam de amor e que lemosna noite em que ardeu Troia e nos perdemosno fundo de seus negros universos. Ouvi em cada folha os maciosrelevos de tua pele em que achamoshaver bebido ao sol em seus racemose ao mar que refletia em seus cicios fartos nossa ascensão ao precipício.Fareja-se a […]
- [Louise Glück – Abundância](https://singularidadepoetica.art/2020/11/23/louise-gluck-abundancia-poema/): Um vento frio sopra nas noites de verão, agitando o trigo.O trigo se curva, as folhas dos pessegueirosfarfalham noite afora. No escuro, um menino cruza o campo:pela primeira vez, ele tocou uma garotae então volta para casa como um homem, com a fome de um homem. Lentamente, as frutas amadurecem —cestas e mais cestas delas […]
- [Edna St. Vincent Millay - Até tarde](https://singularidadepoetica.art/2020/11/21/edna-st-vincent-millay-ate-tarde-poema/): Com a faca cega do Sono, se quiser,Corte cada dia pela metade, amado —Os anos que o Tempo tira do meu viver,Ele deduzirá daquele outro lado! Trad.: Nelson Santander Midnight Oil * Cut if you will, with Sleep’s dull knife,Each day to half its length, my friend,—The years that Time takes off my life,He’ll […]
- [Derek Mahon - Tudo vai ficar bem](https://singularidadepoetica.art/2020/11/19/derek-mahon-tudo-vai-ficar-bem-poema/): Como eu não ficaria feliz em contemplaras nuvens que se dissipam além da janela do sótãoe a maré alta refletida no teto?Haverá mortes, haverá mortes,mas não há necessidade de falar sobre isso.Os poemas fluem espontaneamente da mãoe a fonte oculta é o coração vigilante.O sol se levanta, apesar de tudo,e as distantes cidades são belas […]
- [Linda Hogan – Cruzamentos](https://singularidadepoetica.art/2020/11/17/linda-hogan-cruzamentos-poema/): Há um lugar no centro da terraonde um oceano se dissolve dentro de outroem um amor negro e sacro;É por isso que as baleias de um oceanoconhecem as canções que vem de outro,porque uma coisa se torna outrae a areia escorre da ampulhetapara um outro tempo.Vi uma vez um feto de baleiaem um breu de […]
- [rocío - "não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses..."](https://singularidadepoetica.art/2019/01/27/rocio-nao-e-que-me-sinta-mais-velha-mae-e-que-todos-esses-meses/): não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses todos os dias tendo que ser forte, fico cansada pela manhã, acordo abraçada ao travesseiro e às vezes não sei o que dizer pra mim mesma para levantar de minha pequena e solitária cama em alguns meio-dias, se tomo cerveja, sinto-me um pouco otimista mas depois, na hora do café inadvertidamente sinto o cheiro de algumas lembranças, aqueles rotineiros dias de felicidade em que depois de comer ele colocava a cafeteira no fogão e eu o observava do sofá aquelas coisas cotidianas, um pouco insignificantes ou pequenas, como […]
- [Paulo Henriques Britto - À margem do Douro](https://singularidadepoetica.art/2019/01/26/paulo-henriques-britto-a-margem-do-douro/): Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que me restam não me tragamapenas a miséria de contá-lospra ao fim ver que as contas não fecham. Peçodemais? Eu, que não sou desses que tragama vida num só gole e no gargalo,sem ter nem mesmo perguntado o preço.
- [Joan Margarit - Professor Bonaventura Bassegoda](https://singularidadepoetica.art/2019/01/25/joan-margarit-professor-bonaventura-bassegoda/): Recordo-o alto e gordo, atrevido, sentimental. Você, então, era uma autoridade em Alicerces Profundos. Sempre iniciava suas aulas assim: “Senhores, bom dia. Hoje faz tantos anos, tantos meses e tantos dias que minha filha morreu”. E costumava secar algumas lágrimas. Tínhamos vinte anos, mais ou menos, e o homem corpulento que você era, chorando no meio da classe, nunca nos fez sorrir. Há quanto tempo você não conta o tempo? Tenho pensado em nós e em você, hoje que sou uma amarga sombra sua porque faz agora dois meses, três dias e seis horas que minha filha tem seus profundos alicerces […]
- [Rui Knopfli – Fim de tarde no café](https://singularidadepoetica.art/2019/01/24/rui-knopfli-fim-de-tarde-no-cafe/): Na tarde cor de azebre falávamos de coisas amargas. Ali, na mesa triste do café com moscas adejando sobre restos de açúcar e um copo de água morna de esquecida, falávamos da amargura das coisas, entre rostos graníticos e enxovalhados, entre estranhos e estranhos de estranhos e os que, nada tendo de estranhos, cuidam de cuidar o que se passa entre estranhos. Na tarde comprida e silenciosa tecíamos gestos inúteis e palavras entre dentes, mergulhados na paisagem geométrica do café. Do café tão cheio de gente e fumo e moscas e caras tristes e afinal tão profundamente, tão desesperadamente vazio.
- [Juan Vicente Piqueras - Os deuses Internos](https://singularidadepoetica.art/2019/01/23/juan-vicente-piqueras-os-deuses-internos/): Os deuses sabem mais e melhor do que nósdo que precisamos. Pedimos-lhes um filho,e nos enviam um lobo, e não os compreendemos. A vida diariamente os esquece.A morte à noite os inventa. E as doenças, como diz o sábio,são deuses que agonizam dentro de nosso corpo,seu último templo em ruínas,seu refúgio sem fé. Imploram compaixão. Os deuses não compreendem a estranha insensatezcom que decidimos acabar conoscoacabando com eles, o orgulhocom que os desprezamos. Os deuses pedem pouco: que não os esqueçamos. Mas é pedir demais a uma espécie escravaque fez do esquecimento sua missão e sua vidae sua razão de ser.Os […]
- [Vladimir Holan - A Neve](https://singularidadepoetica.art/2019/01/22/vladimir-holan-a-neve/): A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvida de que o melhor para o homem é estar sentado na cozinha, ainda que seja a da insônia. Ali faz calor, preparas-te algo, bebes vinho e contemplas pela vidraça a eternidade familiar. Por que te atormentarias querendo saber se nascimento e morte são apenas dois pontos, sabendo que a vida não é uma linha reta… Por que te torturarias ao ver o calendário e inquietar-te-ias querendo saber o que está em jogo? Por que admitirias que não tens dinheiro sequer para comprar um par de sapatos para Saskia? E por […]
- [Bruno Darcoleto Malavolta - Epicurus Revisited](https://singularidadepoetica.art/2019/01/21/bruno-darcoleto-malavolta-epicurus-revisited/): disco, agulha, caixas onde ouço os sonhos de coltrane e duke ellington o velho violão em que aprendi os primeiros acordes o novo violão, superior, trincado poemas que li, poemas que escrevi, por todos os lados uma cadeira, uma mesa, um cigarro, um filtro de água o meu corpo cercado por gatos neste exato ponto do espaço-tempo – sou rico.
- [Juan Luis Panero - Mensagem de Antonio a Cleópatra](https://singularidadepoetica.art/2019/01/20/juan-luis-panero-mensagem-de-antonio-a-cleopatra/): Mensagem de Antonio a Cleópatra I Elogiem outros tua adormecida beleza, a suavidade de tua pele em repouso, a medida perfeição de teus membros. Eu não vim para isso, vim somente para te penetrar pela frente e por detrás como um punhal atravessa a água transparente e afunda e se perde no poço sombrio. Mensagem de Cleópatra a Antonio II Não louves minha beleza, outros já o fizeram. Penetra-me pela frente e por detrás, faz-me sentir a vida na cintura e que, enlaçados, teu corpo e o meu possam deter a fúria atroz do tempo. Mas, se chegar um dia em […]
- [José Asunción Silva - Obra Humana](https://singularidadepoetica.art/2019/01/19/jose-asuncion-silva-obra-humana/): No interior da floresta intocada em que, uma noite, no início de maio, tocou a velha ramagem folhada da pálida lua o primeiro raio, poucos meses depois a luz de gás da aurora na estação iluminou o curso da locomotiva audaz que por trilhos duríssimos cruzou. E onde fora certa vez um abrigo, porto seguro de um alado enxame, atravessou o espaço um escondido telegrama de amor num fio de arame. Trad.: Nelson Santander José Asunción Silva – Obra humana En lo profundo de la selva añosa donde una noche, al comenzar de mayo, tocó en la vieja enredadera hojosa de […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Desfile](https://singularidadepoetica.art/2019/01/18/carlos-drummond-de-andrade-desfile/): O rosto no travesseiro, escuto o tempo fluindo no mais completo silêncio. Como remédio entornado em camisa de doente; como na penugem de braço de namorada; como vento no cabelo, fluindo: fiquei mais moço. Já não tenho cicatriz. Vejo-me noutra cidade. Sem mar nem derivativo, o corpo era bem pequeno para tanta insubmissão. E tento fazer poesia, queimar casas, me esbaldar nada resolve: mas tudo se resolveu em dez anos (memórias do smoking preto) O tempo fluindo: passos de borracha no tapete, lamber de língua de cão na face: o tempo fluindo. Tão frágil me sinto agora. A montanha do colégio. […]
- [Paul Valéry - Cemitério Marinho](https://singularidadepoetica.art/2019/01/17/paul-valery-cemiterio-marinho/): Ó min’alma não aspires A uma existência imortal, Mas goza plenamente Tudo o que estiver ao teu alcance. Píndaro Píticas III Este teto tranquilo, onde caminham pombas,Palpita entre pinheiros e tumbas;Compõe-lhe de luz o meio dia justoO mar, o mar, sempre recomeçado!Que recompensa após meditaçãoN’um longo olhar sobre a calma dos deuses! Puro lavor de finos lampejos consumaTanto diamante de imperceptível espuma,Que imensa paz então parece haver,Quando no abismo um sol vai repousar!Obras tão puras de uma causa eterna,O tempo cintila e o Sonho é saber. Tesouro! templo a Minerva,Massa tranquila, clara reserva,Fonte!… Olho que em ti escondesProfundo sono Num véu de luz.O meu silêncio! Castelo n’alma,Mas cúpula de ouro de […]
- [Berta Piñán - Duas Garças](https://singularidadepoetica.art/2019/01/16/berta-pinan-duas-garcas/): Chegaram no sábado. Vimo-las cedo porque nesse dia chegou também o frio e passamos a manhã falando do tempo. São duas, e me pergunto que destino imprevisto as trouxe a esta árvore precisa, a este lugar exato em que o tempo delas cruza, como um sinal confuso, nosso tempo. De tarde falamos sobre elas: “Esta espera, imóvel, paciente – dizes -, traça não sei que estranha, antiga imagem da vida”. Depois ficamos em silêncio, observando, espiando sua perfeita quietude sobre as águas que atravessam o inverno, e assim, por um momento resumem para nós a contemplação do mundo: este rio, estas […]
- [Vasco Gato - Eterno Outono](https://singularidadepoetica.art/2019/01/15/vasco-gato-eterno-outono/): Estou com a idade pousada nas mãos. Explico-me com dedicação aos berços fundos onde cada coisa dorme o seu medo de morrer. Há na tristeza um perigo de terminar: o eterno outono parece belo a quem perdeu todas as sementes. Pergunta-se um nome e ninguém responde. Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?
- [Nuno Júdice - Poema (Arredores)](https://singularidadepoetica.art/2019/01/14/nuno-judice-poema-arredores/): A brancura dos ossos, em contraste com a terra argilosa, com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar leite, papel, cal, e também as tuas mãos – frias. Bebo o seu brilho numa noturna memória. Uma contaminação de corpos não reduz a minha solidão; nem a música, nem o riso, nem o vinho. Lágrimas numa plenitude de idade. O amor era uma paisagem. A voz fundia-se numa perspectiva de vento. Palavras perdidas como coisas, a travessia da tua pele num barco de lábios, o traçado obscuro dos epitáfios da alma. Caminho para te dizer uma determinação de sentido, um destino […]
- [Helder Moura Pereira - "Eu não tinha nada de felino..."](https://singularidadepoetica.art/2019/01/13/helder-moura-pereira-eu-nao-tinha-nada-de-felino/): Eu não tinha nada de felino, tu sabias que eu não tinha nada de felino. Nenhum de nós se admirou quando medi mal a distância e falhei o salto. Enquanto ia no ar parecia que era um salto bom, porém houve qualquer coisa que correu mal e caí com estrondo no chão. Ninguém riu. Não era caso para rir. Grande ilusão ir pelo ar a pensar que o salto podia ser bom, sem eu ter nada de felino, sem nunca ter treinado, sem fazer sequer aquecimento, sem olho para medir distâncias. Saber medir distâncias é uma coisa muito importante, pode falhar-se […]
- [Filipa Leal - Entrevista de Emprego](https://singularidadepoetica.art/2019/01/12/filipa-leal-entrevista-de-emprego/): Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse umaspecto impeditivo,prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro,ao nosso relacionamentoprofissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras,sim,e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menoscuidado com elas,e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as comrespeito,o senhor sabe pontuar uma conversa, pergunto, sabe fazer as pausascertas,desculpe, tem toda a razão, quem faz as perguntas aqui é o senhor,e eu respondo, claro, se souber, mas sei pouco, tem toda a razão,sim, sou formada em Letras, desculpe, sim, sim, gosto de Línguas,sim,mas não da sua, confesso, desculpe, […]
- [César Vallejo - Paris, Outubro de 1936](https://singularidadepoetica.art/2019/01/11/cesar-vallejo-paris-outubro-de-1936/): De tudo isto eu sou o único que parte. Deste banco eu me vou, de meus calções, de minha grande situação, de minhas ações, de meu número dividido de lado a lado, de tudo isto eu sou o único que parte. Dos Campos Elísios ou ao dar a volta à estranha viela de la Luna, minha morte se aparta, vai-se minha cuna, e, rodeada de gente, só, solta, minha aparência humana se volta e despacha suas sombras uma a uma. E me afasto de tudo, porque tudo permaneceu para criar uma fachada: meu sapato, seu ilhó, e também seu lodo e […]
- [Maria do Rosário Pedreira – Ondas](https://singularidadepoetica.art/2019/01/10/maria-do-rosario-pedreira-ondas/): Dei-te o meu corpo como quem estende um mapa antes de viagem, para que nele descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses os dedos devagar, como fazem as aves quando encontram o verão. Se me tivesses tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços como uma escarpa pronta a desabar, ou uma cidade do litoral a definhar nas ondas. Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas nas minhas mãos – tristes geografias, labirintos de razões improváveis, tão curtas linhas que a minha vida não teve tempo senão para pressentir-se. Por isso, guardo dos teus gestos apenas conjecturas, sombras, muros e regressos – nem […]
- [Denise Emmer - Da Morte](https://singularidadepoetica.art/2019/01/09/denise-emmer-da-morte/): Os mortos não sobem aos céus nem elevam-se abstratos tornam-se apenas retratos lado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvel austero e silencioso do tio tuberculoso que esquivo me espia. A avó já está fria mas me olha com ternura tece uma colcha escura para as bodas da família, Mortos não sobem trilhas de inconsistentes arranjos não viram anjos nem brisas nem cristos nem assombrados. Sequer passam dos telhados sequer vão a outros mundos quando morrem se enraízam e se alastram é pelos fundos. Não lhes peço algum milagre também não lhes rogo bênçãos de dentro de seus quadrados não […]
- [Roger Wolfe - O amor, suponho](https://singularidadepoetica.art/2019/01/08/roger-wolfe-o-amor-suponho/): "O amor, suponho", um poema de Roger Wolfe que reflete sobre a dificuldade de escrever um poema de amor para a própria esposa, associando o amor a raros instantes de felicidade e questionando se vale a pena desperdiçá-los tentando transformá-los em versos.
- [Ian Hamilton - Pai, Morrendo](https://singularidadepoetica.art/2019/01/07/ian-hamilton-pai-morrendo/): Seus dedos, tufos de pelos de cobertor Debaixo das unhas, estendem-se para tocar As rosas ao lado da cama despetalando com o calor. Caem pétalas brancas. Aprisionadas em suas mão Elas escurecem, empapadas em suor, depois enrolam, Desidratam-se e desmoronam. Hora após hora Elas gotejam do ramo. Por fim Ele está limpo e, quando você o toca, frio. Você se inclina para observar os espinhos Produzir brancas macerações em sua pele Que sangram quando seu punho enrijece. “Minha mão está em flor”, você diz. “Meu sangue Anima este resto de pétalas. Vou viver.” Trad.: Nelson Santander Ian Hamilton – Father, Dying […]
- [Paulo Henriques Britto - Heraclitus meets Pascal](https://singularidadepoetica.art/2019/01/06/paulo-henriques-britto-heraclitus-meets-pascal/): Ninguém se molha duas vezes na mesma tempestade. Mudam você, a água, nem é o mesmo, na sua mão, o guarda-chuva; muda o motivo pelo qual você houve por bem molhar-se, oferecendo ao temporal – por assim dizer – a outra face; não muda, porém, a consciência de que os sapatos encharcados e a calça manchada de lama terão talvez efeito idêntico ao que teria ter ficado em casa, quietinho, na cama.
- [Manuel António Pina - A Canção dos Adultos](https://singularidadepoetica.art/2019/01/05/manuel-antonio-pina-a-cancao-dos-adultos/): Parece que crescemos mas não.Somos sempre do mesmo tamanho.as coisas que à volta estãoé que mudam de tamanho. Parece que crescemos mas não crescemos.São as coisas grandes que há,o amor que há, a alegria que há,que estão a ficar mais pequenos. Ficam de nós distantesque às vezes já mal os vemos.Por isso parece que crescemose que somos maiores que dantes. Mas somos sempre como dantes.Talvez até mais pequenosquando o amor e o resto estão tão distantesque nem vemos com estão distantes. Então julgamos que somos grandes.e já nem isso compreendemos. Conheça outros livros de Manuel António Pina clicando aqui
- [Rui Pires Cabral - Recomeço](https://singularidadepoetica.art/2019/01/04/rui-pires-cabral-recomeco/): O primeiro cigarro do dia é na varanda quando faz sol: misteriosamente o terraço do vizinho continua a concentrar a tristeza do bairro inteiro. Mal acordado, juntas as linhas que te permitem perceber quem és, onde estás, o que terás de fazer a seguir. E a angústia que te abraça é a memória mais antiga que possuis, vem das casas de Bragança e Moncorvo, já a conhecias antes de lhe seres formalmente apresentado. Tu nunca quiseste pertencer. Só à ponta da navalha. Só no fundo do beco, encurralado. Meu Deus, que vocação para o desassossego. Mas será um sinal de resistência […]
- [Francisco Brines - Os Verões](https://singularidadepoetica.art/2019/01/03/francisco-brines-os-veroes/): A Carmen Marí Foram longos e ardentes os verões! Ficamos nus juntos ao mar, e o mar ainda mais nu. Com os olhos, e em corpos ágeis, praticamos a mais prazerosa posse do mundo. Soavam para nós as vozes iluminadas de lua, e era a vida abrasadora e violenta, ingratos com o sonho, fluíamos. O ritmo sombrio das ondas nos abrasava eternamente, e éramos apenas tempo. Apagavam-se as estrelas ao amanhecer e, com a luz que fria regressava, furioso e delicado se iniciava o amor. Hoje parece um engano que fôssemos felizes ao modo imerecido dos deuses. Que estranha e breve […]
- [Abel Silva – O Poço](https://singularidadepoetica.art/2019/01/02/abel-silva-o-poco/): A moeda do Acaso cai tão fundo no Poço dos Destinos que vivemos descolados do viver do outro, como num contrato de comportamento. O milagre do viver nos entorpece. Então a notícia da doença de um amigo, o convite para a missa de um outro, um susto, um alarme, uma suspeita nos vareja no rosto uma aragem de morte. Às vezes choramos, ficamos desorientados mas abrimos os olhos, levantamos os ombros e seguimos em frente. A gente é assim. Como não guardo a esperança de um encontro feliz ao final das eras, valorizo o tempo do aconchego, abraço, beijo, conforto, aceito, […]
- [Javier Salvago - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2019/01/01/javier-salvago-ano-novo/): Como as coisas não podiam ficar pior – escreveu Kafka, em seu Diário – melhoraram. Como eu gostaria, ante este negro e inóspito horizonte que se abre, diante de mim – como mais um ano, ou como menos um ano -, de poder dizer o mesmo. Mas sinto que ainda não cheguei ao fundo, que há mais miséria, mais dor, mais tédio mais adiante, que as coisas podem piorar. Que o pior, por assim dizer, ainda está por vir. Trad.: Nelson Santander Javier Salvago – Año Nuevo Como las cosas no podían ir a peor — escribió Kafka, en su Diario […]
- [Manuel António Pina – KM 82](https://singularidadepoetica.art/2018/12/31/manuel-antonio-pina-km-82/): I’m on the highway to hell a 170 à hora no CD, ou então o rádio para sempre sintonizado na final da Taça. Nunca saberás o resultado, Faéton, hey, mumma, look at me, I’m on may way to the promised land e está visto que uma ligação directa não chega para pôr em marcha uma vida como a tua, de subúrbio, ou para ir de encontro a um destino diferente do abono da Caixa ou de um poste de betão. Para quê palavras agora, com a moral da história inteiramente à mostra? E lágrimas, quem as chorará? Nem a companhia de […]
- [The White Buffalo – This Year](https://singularidadepoetica.art/2018/12/31/the-white-buffalo-this-year/): Acho que toda mensagem de “Feliz Ano Novo” se resume à ideia contida na letra desta música: tente melhorar sempre e sempre. Se não der, tente de novo no ano que vem. E no outro. E no outro. Uma hora dá certo. Ou não. Feliz 2019! [wpvideo 7QK0XJOX] The White Buffalo – This Year (Tradução e Legendas: Nelson Santander)
- [Joan Margarit - Canção de Ninar](https://singularidadepoetica.art/2018/12/30/joan-margarit-cancao-de-ninar/): Dorme, Joana. E que este Loverman obscuro e trágico do sax de teu irmão em Montjuïc possa acompanhar-te toda a eternidade pelos caminhos que são bem conhecidos pela música. Dorme, Joana, dorme. E de preferência não esqueças de teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste. Enquanto envelhecemos, conservaremos todas as cores que brilharam em teus olhos. Dorme, Joana. Esta é nossa casa, e tudo ilumina teu sorriso. Um tranquilo silêncio: aqui esperamos arredondar estas pedras de dor para que o quanto foste seja música, a música que preenche o nosso inverno. Trad.: Nelson Santander Canción de Cuna Duerme, […]
- [José Mateos - Canção 10](https://singularidadepoetica.art/2018/12/29/jose-mateos-cancao-10/): Canção 10 (Ruínas de Bolonha) Disse o sol do entardecer,aqui, defronte ao mar:Morreré começar a voltar. Trad.: Nelson Santander José Mateos – Canción 10 (Ruinas de Bolonia) Aquí, frente al mar, lo diceel sol del atardecer:Morires empezar a volver.
- [Inês Dias - Um estranho no meu túmulo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/28/ines-dias-um-estranho-no-meu-tumulo/): Chegamos tarde a nós. Eu tinha a pele gasta, o coração no fio. Tu eras um longo muro de cimento areado em que deixava a carne inteira a caminho do encontro. A primavera ficava-nos sempre à esquerda e tu cada vez mais dentro de mim até não sentir nada, até estares já do outro lado. Para trás, a cova matinal na almofada, o postal entre a leitura suspensa, o número a chamar de um fantasma. Se apagar as marcas de onde pousaste a cabeça sobre a minha vida, se ganhar novo espaço para o fôlego, faz-me só um favor: nunca mais […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Procura](https://singularidadepoetica.art/2018/12/27/carlos-drummond-de-andrade-procura/): Procurar sem notícia, nos lugares onde nunca passou; inquirir, gente não, porém textura, chamar à fala muros de nascença, os que não são nem sabem, elementos de uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis, feitos de cimento do impossível, e ao sol-menino opor a antiga busca, e de tal modo revolver a morte que ela caia em fragmentos, devolvendo seus intactos reféns — e aquele volte. Venha igual a si mesmo, e ao tão-mudado, que o interroga, insinue a sigla de um armário cristalino, além do qual, pascendo beatitudes, os seres-bois, completos, se transitem, ou mugidoramente se abençoem. Depois, colóquios instantâneos […]
- [Táxis Varvitsiótis - Assim também a morte](https://singularidadepoetica.art/2018/12/26/taxis-varvitsiotis-assim-tambem-a-morte/): À memória de Andréa Karandonis Asa ou marfim É tudo espesso Como o ferro e a madeira Como a proa inquebrável De um navio Rumo ao infinito Assim também a morte Espessa impenetrável Como galeria de mina Muro indestrutível Poço sem fundo Carvão aceso Para alcançar-lhe o duro cerne Tons de rasgar O pano entretecidos de fagulhas Asa ou marfim É tudo espesso Lâmina de aço Assim também a morte Sangue congelado Relógio de granito Parado Ardor de braseiro Sobre lábios tenros Negro fio enrolado Em negra serpentina Sobre a neve Asa ou marfim Tudo é diáfano Qual uma vidraça Assim […]
- [Nuno Júdice - Natal](https://singularidadepoetica.art/2018/12/25/nuno-judice-natal/): Deito-me à sombra da árvore sem sombra – a árvore cujas raízes nascem da infância – e é natal, e nunca mais chega a meia-noite dessa noite sem fim. Rezo pelas mais obscuras incertezas, pelas almas que hesitam nas encruzilhadas, pelos vagabundos que esperam a meia-noite para se sentarem à porta da igreja, na única noite em que têm onde se sentar. Aprendi com eles o destino dos passos humanos, a ausência de deus nos caminhos do mundo, o silêncio do céu nas noites sem lua. Joguei com as suas cartas enquanto a missa não acabava, aproveitando o calor que saía […]
- [Joan Margarit - Cemitério de Montjuïc](https://singularidadepoetica.art/2018/12/24/joan-margarit-cemiterio-de-montjuic/): Algo permanece das almas, como a brisa que surge depois que alguém passou, e que faz estremecer uma leve cortina na janela. Pelo caminho de pedras ásperas que não esquecem mas calam, severas, o que sabem, o vento deixa um silêncio de lágrimas por vidas como as nossas, perdidas. “Jazigo perpétuo”, a terra sempre dura, fileiras de ciprestes: provinciano teatro da morte. Nosso amor é como o eles perderam. Já é de noite. Olhe, do cume da colina dos mortos, sob o céu negro, as luzes da cidade: um navio ancorado no firmamento esperando-nos para zarpar. Trad.: Nelson Santander Joan Margarit […]
- [Amalia Bautista – Noite de São João](https://singularidadepoetica.art/2018/12/23/amalia-bautista-noite-de-sao-joao/): Que queimaremos esta noite, quantasvelhas feridas daremos nós às chamas,de que nos livraremos para não o recordarnem sequer dos piores pesadelos diurnos?Que lançaremos nós ao fogo ou em que fogueiraslimparemos a vida para nos renovarmos,para o tempo que reste, para o que consigamosroubar a tantas mortes?Chega a noite de São João, continuamosvivos e juntos apesar de tudo.Cada vez resta menos por queimar.Todo o fogo se esconde no nosso abraço. Trad.: Inês Dias Amalia Bautista – Noche de San Juan ¿Qué quemaremos esta noche, cuántavieja herida daremos a las llamas,de qué nos libraremos para no recordarloni en las peores pesadillas diurnas?¿Qué echaremos […]
- [Nelson Santander – Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/23/nelson-santander-cinema-paradiso-e-a-visita-cruel-do-tempo/): Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo, uma crônica de Nelson Santander
- [paulo leminski - sossegue coração](https://singularidadepoetica.art/2018/12/22/paulo-leminski-sossegue-coracao/): sossegue coração ainda não é agora a confusão prossegue sonhos afora calma calma logo mais a gente goza perto do osso a carne é mais gostosa
- [Antonio Cicero – Prólogo](https://singularidadepoetica.art/2018/12/21/antonio-cicero-prologo/): Por onde começar? Pelo começo absoluto, pelo rio Oceano, já que ele é, segundo o poeta cego em cujo canto a terra e o céu escampo e o que é e será e não é mais e longe e perto se abrem para mim, pai das coisas divinas e mortais, seu líquido princípio, fluxo e fim: pois ele corre em torno deste mundo e de todas as coisas que emergiram das águas em que, após breves percursos, mergulharão de novo um belo dia; e flui nos próprios núcleos e nos lados ocultos dessas coisas, nos quais faz redemunhos por cujos centros […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Quando Penso nos Velhos Amigos](https://singularidadepoetica.art/2018/12/20/luis-alberto-de-cuenca-quanto-penso-nos-velhos-amigos/): Quando penso nos velhos amigos que saíram de minha vida, unindo-se a más mulheres que alimentam seu medo e os enchem de filhos para tê-los por perto, controlados e inermes. Quando penso nos velhos amigos que se foram para o país da morte, sem passagem de volta, só porque procuraram o deleite nos corpos e o olvido nas drogas que abrandam a tristeza. Quando penso nos velhos amigos que, no fundo das águas da memória, me ofertaram um dia a estranha sensação de não me sentir só e a cumplicidade de um sorriso sincero… Trad.: Nelson Santander Luis Alberto de […]
- [Robert Schindel - Réquiem por uma Amizade](https://singularidadepoetica.art/2018/12/19/robert-schindel-requiem-por-uma-amizade/): Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos. E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia O seu eco no coração, morreu o meu hóspede. Um riso, um sapato, o violino de estar aqui Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas E havia segundos que fazíamos explodir Saltar da lama do tempo, para assim o podermos entender. Agora foi-se, o seu nome descansa, descansa o tempo Levanto os pés do caminho e vou andando Às arrecuas pelo atalho, o eco traz-me O longe e o perto, eu […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Espera](https://singularidadepoetica.art/2018/12/18/sophia-de-mello-breyner-andresen-espera/): Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia, No silêncio que apenas quebrava a maré cheia A gritar o seu eterno insulto, Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro.
- [josé luís peixoto - arte poética](https://singularidadepoetica.art/2018/12/16/jose-luis-peixoto-arte-poetica/): o poema não tem mais que o som do seu sentido, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma, poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e memória, lê-se silêncio, sim […]
- [Ian Hamilton - Poema de Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2018/12/15/ian-hamilton-poema-de-aniversario/): Firme em suas mãos Sua caneca de barbear com a Exposição do Império. Você a conserva agora Como escarradeira, as pombas presunçosas, O 1938 dela Manchados por gotas de seu sangue. Esta noite, Meio sufocado, canceroso, Desiludido, Você bate os dentes contra sua boca dourada de porcelana E espera por um ataque. Trad.: Nelson Santander Ian Hamilton – Birthday Poem Tight in your hands, Your Empire Exhibition shaving mug. You keep it now As a spittoon, its bloated doves, Its 1938 Stained by the droppings of your blood. Tonight, Half-suffocated, cancerous, Deceived, You bite against its gilded china mouth And wait […]
- [Ivan Junqueira - A tua data](https://singularidadepoetica.art/2018/12/14/ivan-junqueira-a-tua-data/): Alguém só morre em sua data, que é única, ôntica, enfática. Nunca depende de quem vai nem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba, e, se dele a alma se aparta, não cabe a ninguém afirmá-lo, nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas se apagam e trocam-se então os cenários, as máscaras, as personagens e tudo o que havia no palco. Não mais as luzes da ribalta, nem da plateia o eco das palmas ou, no teu caso, as duras vaias pois que pífio foi o espetáculo. É quando, […]
- [Paulo Henriques Britto - Nenhum Mistério](https://singularidadepoetica.art/2018/12/13/paulo-henriques-britto-nenhum-misterio/): I Não chega a ser desespero, mas não por haver esperança. Falta a ênfase, o tempero, o sal da intemperança, sem o qual não é iguaria à altura de grandes gestos. É mais da categoria das migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassa há que se tirar sustância. (Até mesmo na desgraça é pra poucos a abundância.) II Não há nenhum mistério nesta história em que o culpado se anuncia ainda na primeira hora, e são tão copiosas as pistas quanto inúteis, e o final – que, é claro, já se sabia desde o início – é banal, melancólico, besta e […]
- [Nuno Júdice - O Eterno Retorno](https://singularidadepoetica.art/2018/12/12/nuno-judice-o-eterno-retorno/): Agora, ao ouvir uma peça de música Barroca, como se isso servisse para alterar A cor do céu ou a cor dos sentimentos, Apercebo-me de que a música é, só, O que ficou de ti. O resto – amor, Corpo, palavras, desejo, um riso – ficou Não sei onde, nem exatamente sei quando: sei só que um dia ao acordar, a noite tudo levou com a sua exata ciência. Não me lembro, porém, de que gostasses de música barroca mais do que de outra; ou de que esse tivesse sido entre nós, um tema de conversa. Teatro, isso é que sim: […]
- [Amalia Bautista – Nu de Mulher](https://singularidadepoetica.art/2018/12/11/amalia-bautista-nu-de-mulher/): Para ti nunca passei de um blocode mármore. Esculpiste nele o meu corpo,um corpo de mulher branco e formoso,em que não viste nada a não ser pedrae o orgulho, isso sim, do teu trabalho.Nunca imaginaste que eu te amavae que tremia quando, docemente,me modelavas os seios e os ombros,ou alisavas as coxas e o ventre.Hoje, estou num jardim, onde suportoos rigores do frio pelo Inverno,e no Verão aqueço de tal modoque nem sequer os pardalitos vêmpousar nas minhas mãos pois estas queimam.Mas, de tudo isto, o que mais me dóié baixar a cabeça e ver a placa:”Nu de mulher”, como há […]
- [América, Aztecas – O rio passa, passa](https://singularidadepoetica.art/2018/12/10/america-aztecas-o-rio-passa-passa/): O rio passa, passa e nunca cessa. O vento passa, passa e nunca cessa. A vida passa: nunca regressa. Versão: Herberto Helder
- [Ian Hamilton - Memorial](https://singularidadepoetica.art/2018/12/09/ian-hamilton-memorial/): Quatro lápides desgastadas inclinam-se contra a parede do seu hospício Vitoriano. Além dos limites, você se ajoelha na grama alta Decifrando nomes obliterados: Velhos lunáticos que aqui morreram. Trad.: Nelson Santander Ian Hamilton – Memorial Four weathered gravestones tilt against the wall Of your Victorian asylum. Out of bounds, you kneel in the long grass Deciphering obliterated names: Old lunatics who died here.
- [Joan Margarit - Tchaicovsky](https://singularidadepoetica.art/2018/12/08/joan-margarit-tchaicovsky/): Não te suicides nunca. Olha a escuridão: nunca poderás saber quem te estende a mão. Lembras-te do inverno de luz nos cristais e a cumplicidade daquela música? Ouço a Patética e me vejo desejando que a morte de Joana nos devolvesse a ordem e a felicidade que acreditamos perder quando ela nasceu. Amor meu, Joana, a ternura que desejava matar como a aquelas crianças que nas tragédias são uma ameaça para o futuro dos assassinos. Como as deteremos, nossas mãos? Escuto a Patética derrotado, como tu, pelo tempo e pelo amor. Tenho seus olhos – quem os inventou, olhares? -, os […]
- [Manuel António Pina - Uma noite com Vladimir](https://singularidadepoetica.art/2018/12/07/manuel-antonio-pina-uma-noite-com-vladimir/): Eu sou mais mortal do que o meu corpo, e as minhas palavras mais mortais do que eu. E o teu silêncio, nenhum leitor, que as minhas palavras avidamente ouvem, mais mortal do que as minhas palavras. Ouvir-me-emos não é a morte o que as palavras procuram? sob tanta terra?
- [José Carlos Soares - Camel Blue](https://singularidadepoetica.art/2018/12/06/jose-carlos-soares-camel-blue/): No pequeno cemitério comovente ninguém, a não ser o latido de algum cão, o canto de um galo vermelho, a tosse de um pequeno deus desempregado. Também pude reparar como saía de uma velha campa abandonada um exército de formigas sob um intenso céu azul que nada respondia.
- [Rui Costa - A Minha Bisavó](https://singularidadepoetica.art/2018/12/05/rui-costa-a-minha-bisavo/): A minha bisavó é um quadro na parede. Roída pela traça, ela sucumbe à dentição do tempo nos seus olhos escuros de discreta bruxa. Um dia a minha bisavó nem quadro há-de ser. Continuará, apesar disso, a beber a água do copo onde lavou as cerejas (fingindo-se distraída) e a arrazoar antes da visita extemporânea aos vizinhos: “se gostarem da visita, ficamos todos contentes, se não gostarem é muito bem feita”. A minha bisavó hoje não responde Mas há um par de meias novas na minha memória, um prato de cerejas.
- [Rui Pires Cabral - Welcome Break](https://singularidadepoetica.art/2018/12/04/rui-pires-cabral-welcome-break/): Estações de serviço como ilhas de vidro no mar alto dos campos. O acaso governa as estradas e os viajantes que se cruzam despidos da teia do seu passado. Atravesso há horas um país chuvoso: anoiteceu e não se vê ninguém nas aldeias. Contra o seu escuro mistério, estas casas são reais? Nelas nasceu gente que depois quis partir para dizer, como eu, não sou daqui, sou da hora que passa?
- [Eugénio de Andrade – Adeus](https://singularidadepoetica.art/2018/12/03/eugenio-de-andrade-adeus/): Já gastamos as palavras pela rua, meu amor e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silêncio. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas, gastamos as mãos à força de as apertarmos, gastamos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. À vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. […]
- [Inês Lourenço – Sala Provisória](https://singularidadepoetica.art/2018/12/02/ines-lourenco-sala-provisoria/): Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez. Numa casa que vai ser demolida, numa sala provisória que vai encerrar, num velho café que mudará de ramo, como página virada jamais reaberta, como canção demasiado gasta, como abraço tornado irrepetível, numa porta a que não voltaremos.
- [Francisco Brines - Sitiado pela Divindade](https://singularidadepoetica.art/2018/12/01/francisco-brines-sitiado-pela-divindade/): Hoje voltas-te para o mar, com o corpo nu como na juventude, e todo o peso de ouro caindo sobre as costas como um interminável falcão que, azul, plana ao largo e pousa no braço, sem emitir sons, e respira. Descubro, com sereno assombro, minha existência, e o mundo então existe – o mar, que para a criança é sempre liberdade, espaço de quietude, e o mistério de nele reconhecer a eternidade pulsando no tempo; um céu, que é quimera e verdade, e esta praia deserta, que tinha tantas pegadas, e todas se apagaram, e espera outras diferentes, vãos sinais, e […]
- [Luís Falcão – Sabemos que o tempo passou](https://singularidadepoetica.art/2018/11/30/luis-falcao-sabemos-que-o-tempo-passou/): Sabemos que o tempo passou Que alguma coisa deveria ter sido dita (talvez depois, talvez mais tarde) Deixamos atrás de nós Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis E, feridos, Por todas as coisas que poderíamos ter evitado a nós próprios Caminhamos para o silêncio E para a escuridão indefinível dos bosques.
- [Wang Wei – Dedicado a Chang Yin](https://singularidadepoetica.art/2018/11/29/wang-wei-dedicado-a-chang-yin/): Instalar armadilhas e esperar pelas lebres astutas, Lançar uma linha à água e espreitar os peixes, Talvez acalme a boca e a barriga, Mas não é esse o sentido da vida do eremita. Eu amo a tranquilidade, Alimento-me de legumes para me desembaraçar das paixões terrenas Doravante, como tu livre e indiferente Lamento aqueles que comem nas tabernas. Moro no sopé da montanha Movimento e repouso alternam naturalmente Passeio junto das aves sem as incomodar Gosto de todos os animais que encontro. Nuvens coloridas são a minha companhia Para habitar tenho o vazio imaculado Porque teria então necessidade do teu convite? […]
- [Halldís Moren Vesaas – Oração à Vida](https://singularidadepoetica.art/2018/11/28/halldis-moren-vesaas-oracao-a-vida/): A vida terrena, única, seja o meu quinhão! Vida minha, tudo o que tenho na tua mão! Toma-me e usa-me e exaure-me nos dias e então me larga alhures, alijada de ti, fria e impotente e condenada a não renascer na noite, na eterna noite sem amanhecer! Trad.: Luciano Dutra BØN TIL LIVET Eitt jordliv, eit einaste, vere min lut! Mitt liv, du eige meg all! Ta meg og bruk meg og brenn meg ut og legg meg ifrå deg, kald og duglaus og dømd frå å byrje påny i natta, den evige natt utan gry!
- [Manuel de Freitas – CCB, 2002](https://singularidadepoetica.art/2018/11/27/manuel-de-freitas-ccb-2002/): Abrem-se devagar os túmulos – e entramos neles. É o nosso ofício, talvez o único. Esperamos, anos fartos, o vazio. Não há engano possível, não há regresso. Todas as ilhas devagar nos mentem. Dançava perto de ti, talvez demasiado só, uma estrela d’nada, bo dispidida. Não me digas que não ouviste.
- [José Mateos - Canção 1](https://singularidadepoetica.art/2018/11/26/jose-mateos-cancao-1/): Ainda quase um menino te sentaste a esperar à orla do grande silêncio. Pensavas que estando a sós com tua voz talvez pudesses roubar ao mar seu segredo. Foi-se tua juventude. Mudos passaram os anos e agora estás oco por dentro. Podias, se ao fim soasse a voz do grande silêncio, chegar a cantar seu eco? Trad.: Nelson Santander José Mateos – Canción 1 Todavía casi un niño y te sentaste a esperar a orillas del gran silencio. Pensabas que estando a solas con tu voz quizás pudieras robarle al mar su secreto. Se te fue la juventud. Mudos pasaron los […]
- [Paulo Henriques Britto - Nenhuma Arte](https://singularidadepoetica.art/2018/11/25/paulo-henriques-britto-nenhuma-arte/): Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, a anestesia valeria o preço? (Rememorar o que não foi não dá em nada. É como enxergar um começo no que não pode ser senão o fim. Ontem foi ontem. Amanhã não há. Hoje é só hoje. Os deuses são assim.) II Tempo agora perdido (todo […]
- [Eunice de Souza - Primavera Relutante](https://singularidadepoetica.art/2018/11/24/eunice-de-souza-primavera-relutante/): os corrupiões dourados se foram. as mariquitas estão em silêncio. a última folha vermelha na amendoeira recusa o próprio outono. Trad.: Nelson Santander Reluctant Spring the golden orioles have gone. the warblers are silent. the last red leaf on the almond tree refuses to fall
- [Juan Ramón Jiménez - Com tua Voz](https://singularidadepoetica.art/2018/11/23/juan-ramon-jimenez-com-tua-voz/): Quando eu estiver com as raízes chama-me com tua voz. A mim parecerá que entrou tremendo a luz do sol. Trad.: Nelson Santander Juan Ramón Jiménez – Con tu voz Cuando esté con las raíces llámame tú con tu voz. Me parecerá que entra temblando la luz del sol.
- [André Tecedeiro - de "O Número de Strahler"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/22/andre-tecedeiro-de-o-numero-de-strahler/): nem o poema dá a dimensão da contradição. o tom dizia odeio-te mas o que lhe saía da boca era amo-te. eu sabia que ficar era morte mas o que me dizia era que fugir era morte. a um hematoma eu teria chamado alívio.
- [Yves Bonnefoy – As Árvores](https://singularidadepoetica.art/2018/11/21/yves-bonnefoy-as-arvores/): Olhávamos as árvores, era do alto Do terraço que nos foi caro, o sol Ficava junto a nós mais esta vez ainda Mas retirado, silencioso anfitrião No limiar da casa em ruínas, que deixávamos A seu poder, imensa, iluminada. Vê, dizia-te eu, ele faz deslizar Na pedra desigual, insondável do nosso apoio A sombra do teu ombro confundido ao meu, A das amendoeiras junto a nós E aquela até do alto dos muros que se mescla às outras, Rota, barca queimada, proa que deriva, Como excesso de sonho ou de fumaça. Mas lá longe estão imóveis os carvalhos, Nem mesmo a […]
- [Rupi Kaur – Depressão é uma sombra que mora em mim](https://singularidadepoetica.art/2018/11/20/rupi-kaur-depressao-e-uma-sombra-que-mora-em-mim/): ontem quando saí da cama o sol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou fui eu e eu já não sei se isso é vida Trad.: Ana Guadalupe
- [Francisco Brines - O Triunfo do Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/11/19/francisco-brines-o-triunfo-do-amor/): Eu te amei em Queroneia. Vivos estávamos. Entre a tristeza arruinada um sopro mortal: estávamos vivos. Séculos se passaram, e outros olhos contemplam as ruínas, ainda intactas. Quem passou por aqui? Apenas o vazio foi o tecido do tempo nesta planície. Eu te amei em Queroneia. Impalpável era o calor das cinzas humanas, e na manhã solitária repousam sombras de colunas derrubadas, corpos ardentes fomos em sua sombra. Muita morte teria que ocorrer, apagou tua bela juventude, soprou na minha, nada perdurou aqui, onde buscamos que o coração se acelere, como se fosse o único sinal de vida. Na manhã solitária, […]
- [Nelson Santander - Gene Tierney](https://singularidadepoetica.art/2018/11/18/nelson-santander-gene-tierney/): Gene Tierney, um texto de Nelson Santander
- [Vitorino Nemésio – A Concha](https://singularidadepoetica.art/2018/11/18/vitorino-nemesio-a-concha/): A minha casa é concha. Como os bichos Segreguei-a de mim com paciência: Fachada de marés, a sonho e lixos, O horto e os muros só areia e ausência. Minha casa sou eu e os meus caprichos. O orgulho carregado de inocência Se às vezes dá uma varanda, vence-a O sal que os santos esboroou nos nichos. E telhados de vidro, e escadarias Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso! Lareira aberta ao vento, as salas frias. A minha casa… Mas é outra a história: Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço, Sentado numa pedra de memória.
- [Joan Margarit - Aventura Doméstica](https://singularidadepoetica.art/2018/11/17/joan-margarit-aventura-domestica/): Sozinho em casa e vasculhando os armários. Encontro um antigo mapa rodoviário, contratos vencidos, esferográficas que já não escreverão nenhuma carta, calculadoras com pilhas descarregadas e relógios que o tempo derrotou. No fundo das gavetas, como um rato triste, aninha-se o passado. Vazios, os vestidos pendem como velhas personagens que nos interpretaram. Súbito, encontro também tua lingerie, cor de areia, da noite, com pequenos bordados. Calcinhas, sutiãs, meias que desdobro e que me fazem voltar à brilhante – e ao mesmo tempo misteriosa – essência do amor e do sexo: o que dá realmente vida às casas, assim como se lhe […]
- [Miguel Torga - Princípio](https://singularidadepoetica.art/2018/11/16/miguel-torga-principio/): Não tenho deuses. Vivo Desamparado. Sonhei deuses outrora, Mas acordei. Agora Os acúleos são versos, E tacteiam apenas A ilusão de um suporte. Mas a inércia da morte, O descanso da vide na ramada A contar primaveras uma a uma, Também não me diz nada. A paz possível é não ter nenhuma.
- [Pedro Mexia - Vamos Morrer](https://singularidadepoetica.art/2018/11/15/pedro-mexia-vamos-morrer/): Vamos morrer, mas somos sensatos, e à noite, debaixo da cama, deixamos, simétricos e exactos, o medo e os sapatos.
- [Inês Dias - (Primeira Memória)](https://singularidadepoetica.art/2018/11/13/ines-dias-primeira-memoria/): No ano da morte da última beguina, que nunca precisara do desassossego de ver, chegou finalmente à Terra a primeira luz do mundo. 380 mil anos até comprovarmos, como a História nunca se cansara, aliás, de repetir, que tudo é trevas, instável equilíbrio entre matéria e energia escuras. Em suma, a humanidade devolvida num saco negro, com alguns buracos para os ossos respirarem.
- [Giuseppe Ungaretti – Vaidade](https://singularidadepoetica.art/2018/11/12/giuseppe-ungaretti-vaidade/): De repente se eleva sobre os escombros a límpida maravilha da imensidão. E o homem curvado sobre a água surpreendida pelo sol se descobre uma sombra Embalada pouco a pouco desfeita Trad : Geraldo Holanda Cavalcanti Vanità D’improvviso è alto sulle macerie il limpido stupore dell’immensità E l’uomo curvato sull’acqua sorpresa dal sole si rinviene un’ombra Cullata e piano franta
- [Ricardo Molina - Convite à Felicidade](https://singularidadepoetica.art/2018/11/11/ricardo-molina-convite-a-felicidade/): Es dulce ser amado pero amar, oh dioses, qué ventura… Goethe Ama-me agora que tenho os cabelos pretos e uma coroa de junco e o perfume da água e da esteva nos braços nus. Ama-me agora que tenho nos olhos a suave chama da tarde e a graça do sorriso e a leve frescura dos mananciais. Ama-me agora que tenho nos lábios o fogo deslumbrante do meio-dia e a serenidade do céu em minha face. Ama-me agora que tenho no pescoço o resplendor dos lírios queimados. Ama-me agora que corre pelos meus ombros a torrente divina do desejo. Ama-me agora que […]
- [Helder Moura Pereira - "Chegamos ao fim do dia..."](https://singularidadepoetica.art/2018/11/10/helder-moura-pereira-chegamos-ao-fim-do-dia/): Chegamos ao fim do dia e cada um pensa para seu lado que isto não é vida, deixámos na terra os habituais sinais com tanto de amor como de desespero e, de mãos vazias, de coração ainda com alguma coisa mas quase vazio, batemos com a força que nos resta, pela última vez, à porta das sensações e a porta das sensações abre-se-nos muito devagar para uma esplendorosa noite cinzenta.
- [Josep M. Rodríguez - Talvez Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/11/09/josep-m-rodriguez-talvez-amor/): “Talvez Amor”, um poema de Josep M. Rodríguez que encontra, na banalidade chuvosa da cidade, a possibilidade secreta de encontros que podem transformar-se em amizade, amor ou resistência à dor.
- [Armando Freitas Filho de "Rol"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/08/armando-freitas-filho/): 150 Ontem, foi-se. Amanhã, não há. Ar, somente, o de hoje no presente, desse dia que projeta na respiração sua plataforma insubstituível: peça única com sua aura esplêndida longe de qualquer linha de montagem frágil a qualquer hora, em aberto. No levante, no meio, no fim do seu alento, não em si, mas em mim – sine die – sem vésperas. 14 VII 2010
- [Ana Martins Marques - Caçada](https://singularidadepoetica.art/2018/11/07/ana-martins-marques-cacada/): E o que é o amorsenão a pressada presaem prender-se? A pressada presaemperder-se
- [Rui Costa - Breve](https://singularidadepoetica.art/2018/11/06/rui-costa-breve/): Esta manhã comecei a esquecer-me de ti. Acordei mais cedo que nos outros dias e com o mesmo sono. A tua boca dizia-me “bom dia” mas não: não o teu corpo todo como nos outros dias. As sombras por aqui são lentas e hoje não comprei o jornal: o mundo que se ocupe da sua própria melancolia. ontem. há uma semana. há muitos meses. um ano ensina ao coração o novo ofício: a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.
- [Miguel Martins - Fine](https://singularidadepoetica.art/2018/11/05/miguel-martins-fine/): Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis. Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura. Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem. Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no chão. Em qualquer caso, emudeceriam. Ou não seriam escutados, o que vem a dar ao mesmo. Nunca contemplei esta hipótese por mais de cinco minutos – certamente, nem tanto. Não consigo. Não sei. Julgo que, no fundo, é o que menos quero. E que essa é […]
- [Paulo Henriques Britto - "Da metafísica"](https://singularidadepoetica.art/2018/11/04/paulo-henriques-britto-da-metafisica/): Ser parte de alguém ou algo tão grande que não se entenda: toda crença, ao fim e ao cabo, se resume a essa lenda – o mais rematado dislate, coisa jamais entendida, que eleva ao sumo quilate o caco mais reles de vida.
- [Marianne Moore - Poesia](https://singularidadepoetica.art/2018/11/03/marianne-moore-poesia/): Eu também não gosto dela: há coisas mais importantes para além de toda esta farsa. Lendo-a, contudo, com absoluto desprezo, descobre-se nela, no fim das contas, um lugar para o autêntico. Mãos que podem agarrar, olhos que podem dilatar-se, pelos que podem eriçar- se necessário, essas coisas são importantes não porque uma grandiloquente interpretação pode ser-lhes atribuída mas sim porque elas são úteis. Quando se tornam derivadas a ponto de se tornarem ininteligíveis, o mesmo pode ser dito de todos nós, que não admiramos aquilo que não podemos entender: o morcego aguentando-se de ponta-cabeça ou em busca de algo para comer, […]
- [Miguel-Manso – Na morte da avó](https://singularidadepoetica.art/2018/11/02/miguel-manso-na-morte-da-avo/): não bastasse a humilhação pública de morrer espera-se do corpo que cumpra com indiscutível pompa o intolerável protocolo de ausentar-se a penosa execução circular e noturna do velório a presença inconveniente dos agentes funerários os adereços lutuosos a obscena maquiagem no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa cerimônia (não há muito a dizer, sejamos honestos e soa até a insulto que se pronuncie o nome de Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito – é quase tão imoral como alguém ter trazido uma gravata com motivos facetos, uma camisa florida – depois, em casa, parece que as […]
- [Rui Pires Cabral – Morada](https://singularidadepoetica.art/2018/11/01/rui-pires-cabral-morada/): Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos nas nossas pequenas razões. Estas ruas ainda prometem mais do que podem cumprir? A breve epifania do amor ou simplesmente um cúmplice que nos diga, à mesa de um café, que não faz mal, que pouco importam as perdas e danos que sofremos. De qualquer modo o mundo continua. Entre o medo e a esperança procuramos a nossa incerta morada e enquanto isso envelhecemos mais um dia, colhidos pelo tempo em plena queda. Nas praças, nos quintais, a noite aparece depois do jantar cheia de boas promessas, mas já vem condenada ao tropel dos […]
- [Joan Margarit - A Espera](https://singularidadepoetica.art/2018/10/31/joan-margarit-a-espera/): Tantas coisas estão sentindo tua falta. Assim preenchem-se os dias, instantes feitos de esperar por tuas mãos, de sentir falta de tuas pequenas mãos, que pegaram nas minhas tantas vezes. Temos de nos acostumar com tua ausência. Um verão já passou sem teus olhos e o mar também haverá de acostumar-se. Tua rua, ainda por muito tempo, esperará, diante de tua porta, com paciência, teus passos. Não se cansará nunca de esperar: ninguém sabe esperar como uma rua. E a mim me domina esta vontade de que me toques e de que me olhes, de que me digas o que eu […]
- [Paulus Silentiarius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/30/paulus-silentiarius-da-antologia-grega/): Zeus, em chuva de ouro, atravessou o bronze que guardava Danae e roubou-lhe a virgindade. Moral da história: o ouro tudo domina – paredes e grilhetas de bronze, fechaduras e peias. Foi o ouro que subjugou Danae. Não é necessário rezar a Afrodite; só é preciso dinheiro. Versão: José Alberto Oliveira
- [Páladas - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/29/palladas-da-antologia-grega/): Nascidos nus. Enterrados nus. Qual a azáfama? Toda a vida conduz à primeira nudez. Versão: José Alberto Oliveira
- [Lucilius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/28/lucilius-da-antologia-grega/): Eutychides, o poeta lírico, morreu. Fugi, ó moradores do Hades! – ele transporta odes e ordenou que consigo queimassem vinte liras e vinte e cinco pautas de música, que Caronte terá de transportar. Onde se poderá encontrar refúgio, agora que Eutychides canta pela eternidade? Versão: José Alberto Oliveira
- [Anônimo - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/27/anonimo-da-antologia-grega/): Não esbanjem comigo o odor da mirra, nem ofereçam coroas de flores, nem acendam a pira funerária, tudo isso é desperdício; ofereçam-me presentes, se quiserem, enquanto estiver vivo – mas espalhar cinzas no vinho torná-lo-á lama e dele não beberão os mortos. Versão: José Alberto Oliveira
- [Automedon - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2018/10/26/automedon-da-antologia-grega/): Mandaste chamá-la, disseste para vir, preparaste tudo. Mas, se vier, o que farás? Repara no que se passa contigo, Automedon. Esse canalha, que era alegre e firme, está agora flácido, como cenoura cozida, morto e encolhido entre as pernas. Como irão rir se te puseres a navegar de mãos vazias, um remador que perdeu o remo. Versão: José Alberto Oliveira
- [Marcus Argentarius - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/25/marcus-argentarius-sem-titulo/): Psyllas jaz aqui. A sua ocupação proxeneta; mantinha um bando de raparigas e alugava-as para festas. Um negócio pouco simpático, ganhar dinheiro com carne humana e fraca. Mas poupem o seu túmulo, não atirem pedras, agora que está morto e enterrado. Lembrem-se disto: os serviços que prestou convenceram os rapazes a deixarem as nossas mulheres sossegadas. Versão: José Alberto Oliveira
- [Platão - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/24/platao-sem-titulo/): Eu, Lais, que escarneci dos gregos e enxame de amantes retive à porta, ofereço a Afrodite o meu espelho. Não olharei para esta cara e não consigo ver a anterior. Versão: José Alberto Oliveira
- [Zenodotus - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2018/10/23/zenodotus-sem-titulo/): Quem esculpiu o Amor e o colocou junto desta fonte, pensaria que poderia subjugar, com água, tal fogo? Versão: José Alberto Oliveira
- [Eunice de Souza – Alvorada 2](https://singularidadepoetica.art/2018/10/22/eunice-de-souza-alvorada-2/): Falamos através de continentes. É pouco provável que nos voltemos a encontrar. Não posso fumar, não posso viajar, nenhuma felicidade claro. Sentindo um vento frio nas costas renunciamos à filosofia. Acabaram os amantes errantes, maridos, passarões não propriamente sensatos. Ainda temos a idade com que nos conhecemos. Trad.: Francisco José Craveiro de Carvalho
- [Eugénio Andrade - Passamos pelas coisas sem as ver](https://singularidadepoetica.art/2018/10/21/eugenio-andrade-passamos-pelas-coisas-sem-as-ver/): Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos.
- [Antonio Cicero - Nênia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-nenia/): A morte nada foi para ele, pois enquanto vivia não havia a morte e, agora que há, ele já não vive. Não temer a morte tornava-lhe a vida mais leve e o dispensava de desejar a imortalidade em vão. Sua vida era infinita, não porque se estendesse indefinidamente no tempo mas porque, como um campo visual, não tinha limite. Tal qual outras coisas preciosas, ela não se media pela extensão mas pela intensidade. Louvemos e contemos no número dos felizes os que bem empregaram o parco tempo que a sorte lhes emprestou. Bom não é viver, mas viver bem. Ele via a luz do dia, teve amigos, amou e […]
- [Carlos Pena Filho - A Solidão e sua Porta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-pena-filho-a-solidao-e-sua-porta/): Quando mais nada resistir que valhaa pena de viver e a dor de amare quando nada mais interessar,(nem o torpor do sono que se espalha). Quando pelo desuso da navalhaa barba livremente caminhare até Deus em silêncio se afastardeixando-te sozinho na batalha a arquitetar na sombra a despedidado mundo que te foi contraditório,lembra-te que afinal te resta a vida com tudo que é insolvente e provisórioe de que ainda tens uma saída:entrar no acaso e amar o transitório.
- [Emily Dickinson - Cemitério](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/emily-dickinson-cemiterio/): Este pó foram damas, cavalheiros, Rapazes e meninas; Foi riso, foi espírito e suspiro, Vestidos, tranças finas. Este lugar foram jardins que abelhas E flores alegraram. Findo o verão, findava o seu destino… E como estes, passaram. Trad.: Manuel Bandeira
- [Robinson Jeffers - The Inhumanist (Parte II de "The Double Axe") (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/robinson-jefferson-the-inhumanist-part-ii-of-the-double-axe/): Chegará um tempo, sem dúvida,Em que também o sol morrerá; os planetas congelarãoe o ar sobre eles; gases congelados, com flocos de arSerão a poeira: que nenhum vento jamais bulirá:essa poeira mesma a cintilar à luz baixa dos astrosÉ o vento morto, o corpo branco do vento. Também a galáxia morrerá; o brilho da Via Láctea,nosso universo, todos os astros que têm nomes estão mortos.Vasta é a noite. Cresceste tanto, querida noite,andando por teus salões vazios, tão alta!
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-poema/): A PANTERA – trad. Augusto de Campos (No Jardin des Plantes, Paris) De tanto olhar as grades seu olharesmoreceu e nada mais aferra.Como se houvesse só grades na terra:grades, apenas grades para olhar. A onda andante e flexível do seu vultoem círculos concêntricos decresce,dança de força em torno a um ponto ocultono qual um grande impulso se arrefece. De vez em quando o fecho da pupilase abre em silêncio. Uma imagem, então,na tensa paz dos músculos se instilapara morrer no coração. A PANTERA – Trad. Geir Campos (No Jardin des Plantes, Paris) Varando a grade, a nada mais se agarrao olhar […]
- [Ian Curtis - 24 Hours](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/ian-curtis-24-hours/): https://youtu.be/3zo4JdTfDw0 24 Horas Então isso é a permanência – o orgulho despedaçado do amor O que uma vez foi inocência perdeu sua vez Uma nuvem paira sobre mim, marca cada movimento Fundo na memória do que uma vez foi amor Oh, como eu compreendi, como eu queria tempo para Colocar em perspectiva. Tentei tanto encontrar Só por um instante pensei que encontraria meu caminho O destino desvendado eu vi escapar Luzes em excesso, além de todo o alcance Pedidos solitários por tudo que eu gostaria de guardar Vamos dar uma volta, ver o que podemos encontrar Uma coleção sem valor de […]
- [Augusto de Campos - o pulsar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-pulsar/)
- [Augusto de Campos - o quasar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/augusto-de-campos-o-quasar/): Conheça outros livros de Augusto de Campos clicando aqui
- [Augusto de Campos - Tudo Está Dito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tudo-esta-dito/)
- [Augusto de Campos - Morituro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-morituro/)
- [Augusto de Campos - Tour](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-tour/)
- [Augusto de Campos - Pó do Cosmos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/augusto-de-campos-po-do-cosmos/)
- [Ferreira Gullar - Voltas Para Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ferreira-gullar-voltas-para-casa/): Depois de um dia inteiro de trabalho voltas para casa, cansado. Já é noite em teu bairro e as mocinhas de calças compridas desceram para a porta após o jantar. Os namorados vão ao cinema. As empregadas surgem das entradas de serviço. Caminhas na calçada escura. Consumiste o dia numa sala fechada, lidando com papéis e números. Telefonaste, escreveste, irritações e simpatias surgiram e desapareceram no fluir dessas horas. E caminhas, agora, vazio, como se nada acontecera. De fato, nada te acontece, exceto talvez o estranho que te pisa o pé no elevador e se desculpa. Desde quando tua vida parou? […]
- [Mario Quintana - Amor Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/mario-quintana-amor-eterno/): Dante se enganou: Paolo e Francesca Continuariam bem juntinhos no Inferno, com pecado e tudo Juntinhos e felizes! Mas quem sabe se não seria este mesmo o castigo divino? Um amor que jamais pudesse terminar…
- [Dante Milano - Ao Tempo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/dante-milano-ao-tempo/): Tempo, vais para trás ou para diante? O passado carrega a minha vida Para trás e eu de mim fiquei distante, Ou existir é uma contínua ida E eu me persigo nunca me alcançando? A hora da despedida é a da partida A um tempo aproximando e distanciando… Sem saber de onde vens e aonde irás, Andando andando andando andando andando Tempo, vais para diante ou para trás?
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Carnaval](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-de-carnaval/): Distante o meu amor, se me afigura O amor como um patético tormento Pensar nele é morrer de desventura Não pensar é matar meu pensamento. Seu mais doce desejo se amargura Todo o instante perdido é um sofrimento Cada beijo lembrado uma tortura Um ciúme do próprio ciumento. E vivemos partindo, ela de mim E eu dela, enquanto breves vão-se os anos Para a grande partida que há no fim De toda a vida e todo o amor humanos: Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo Que se um fica o outro parte a redimi-lo. Oxford, carnaval de 1939
- [Horácio - Ode XI, I](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/horacio-ode-xi-i-poema/): não me perguntes — é vedado saber — o fim que a mim e a ti darão os deuses Leucônoe nem babilônios números consultes antes o que for recebe quer te atribua Júpiter muitos invernos quer o último que o mar tirreno debilita com abruptas r o c h a s bebe o vinho sabe a vida e corta a longa esperança enquanto falamos foge invejoso o tempo: curte o dia desamando amanhãs Trad.: Augusto de Campos
- [Petrarca - Soneto XXXII](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/petrarca-soneto-xxxii/): Quanto mais perto estou do dia extremo Que o sofrimento humano torna breve, Mais vejo o tempo andar veloz e leve E o que dele esperar falaz e menos. E a mim me digo: Pouco ainda andaremos De amor falando, até que como neve Se dissolva este encargo que a alma teve, Duro e pesado, e a paz então veremos: Pois que nele cairá essa esperança Que nos fez delirar tão longamente E o riso, e o pranto, e o medo, e também a ira; E veremos o quão freqüentemente Por coisas dúbias o ânimo se cansa E que não raro […]
- [Konstantínos Kaváfis - Míris: Alexandria, 340 d. c.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/konstantinus-kavafis-miris-alexandria-340-d-c/): Quando eu soube da tragédia, que Míris estava morto,fui até sua casa, embora eviteentrar nas casas dos cristãos,principalmente em épocas de luto ou de festividades. Fiquei no corredor. Não quisavançar mais para dentro, porque percebique os parentes do morto me olhavamcom evidente surpresa e desagrado. Tinham-no colocado num cômodo amplodo qual, do ponto onde permaneci,eu podia ver um pouco: todo tapetes preciosose vasilhas de prata e de ouro. Fiquei de pé e chorei num canto do corredor.E pensei em como nossas reuniões e nossas excursõesnada mais valeriam sem Míris;e pensei em que eu não mais o veriaem nossas belas e indecentes […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Traduzido de Kleist](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/sophia-de-mello-breyner-andresen/): Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhanteE brilha sobre campos mais floridosMas os olhos que vêem essas maravilhasSão olhos apodrecidos
- [Antonio Cicero - Sair](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-sair/): Largar o cobertor, a cama, o medo, o terço, o quarto, largar toda simbologia e religião; largar o espírito, largar a alma, abrir a porta principal e sair. Esta é a única vida e contém inimaginável beleza e dor. Já o sol, as cores da terra e o ar azul – o céu do dia – mergulharam até a próxima aurora; a noite está radiante e Deus não existe nem faz falta. Tudo é gratuito: as luzes cinéticas das avenidas, o vulto ao vento das palmeiras e a ânsia insaciável do jasmim; e, sobre todas as coisas, o eterno silêncio dos […]
- [Antonio Cicero - Perplexidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antonio-cicero-perplexidade/): Não sei bem onde foi que me perdi; talvez nem tenha me perdido mesmo, mas como é estranho pensar que isto aqui fosse o meu destino desde o começo.
- [Giuseppe Ungaretti - Eterno](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-eterno/): Entre uma flor colhida e o dom de outra o nada inexprimível Trad.: Haroldo de Campos Eterno Tra un fiore colto e l’ altro donato l’ inesprimibile nulla.
- [Giuseppe Ungaretti - De uma Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/giuseppe-ungaretti-de-uma-estrela-a-outra/): Daquela estrela à outra A noite se encarcera Em turbinosa vazia desmesura, Daquela solidão de estrela Àquela solidão de estrela Trad: Haroldo de Campos
- [Salvatore Quasimodo - E de repente é noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite/): Cada um está só no coração da terra traspassado por um raio de sol: e de repente é noite. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Jorge Luis Borges - Limites](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/jorge-luis-borges-limites/): Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar, Há uma rua próxima que está vedada a meus passos, Há um espelho que me viu pela última vez, Há uma porta que fechei até o fim do mundo. Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os) Há algum que já nunca abrirei. Este verão cumprirei cinqüenta anos: A morte me desgasta, incessante.
- [Antero de Quental - Divina Comédia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/antero-de-quental-divina-comedia/): Erguendo os braços para o Céu distante E apostrofando os deuses invisíveis, Os homens clamam: – «Deuses impassíveis, A quem serve o destino triunfante, Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inextinguíveis, Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis, Num turbilhão cruel e delirante… Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe, Ter ficado a dormir eternamente? Porque é que para a dor nos evocastes?» Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem: – «Homens! porque é que nos criastes?!»
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-outrora-e-agora/): De manhã era feliz, quando jovem, E à noite chorava; já hoje, mais velho, Começo meu dia em dúvida, porém Seu fim é para mim sagrado e sereno. Trad.: Antonio Cicero Ehmals und jetzt In jüngern Tagen war ich des Morgens froh, Des Abends weint’ich; jetzt, da ich älter bin, Beginn ich zweifelnd meinen Tag, doch Heilig und heiter ist mir sein Ende.
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/friedrich-holderlin-a-brevidade/): “Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora, O canto? Quando jovem, não chegavas, Nos dias de esperança, Nunca ao fim, quando cantavas!” Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebol Banhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está fria E o pássaro da noite esvoaça incomodamente aos olhos teus. Trad. Antonio Cícero (?)
- [Rainer Maria Rilke - A Morte do Poeta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/rainer-maria-rilke-a-morte-do-poeta-poema/): Jazia. A sua face, antes intensa, pálida negação no leito frio, desde que o mundo, e tudo o que é presença, dos seus sentidos já vazio, se recolheu à Era da Indiferença. Ninguém jamais podia ter suposto que ele e tudo estivessem conjugados e que tudo, essas sombras, esses prados, essa água mesma eram o seu rosto. Sim, seu rosto era tudo o que quisesse e que ainda agora o cerca e o procura; a máscara da vida que perece é mole e aberta como a carnadura de um fruto que no ar, lento, apodrece. Trad.: Augusto de Campos
- [Vinicius de Moraes - Soneto do Gato Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-soneto-do-gato-morto/): Um gato vivo é qualquer coisa linda Nada existe com mais serenidade Mesmo parado ele caminha ainda As selvas sinuosas da saudade De ter sido feroz. À sua vinda Altas correntes de eletricidade Rompem do ar as lâminas em cinza Numa silenciosa tempestade. Por isso ele está sempre a rir de cada Um de nós, e ao morrer perde o veludo Fica torpe, ao avesso, opaco, torto Acaba, é o antigato; porque nada Nada parece mais com o fim de tudo Que um gato morto. Conheça outros livros de Vinicius de Moraes clicando aqui
- [Wislawa Szymborska - O primeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/wislawa-szymborska-o-primeiro-amor/): Dizem que o primeiro amor é o mais importante. Isso é muito romântico, mas não é o meu caso. Algo entre nós houve e não houve, se deu e se perdeu. Não me tremem as mãos quando encontro as pequenas lembranças e o maço de cartas atadas com barbante se ao menos fosse uma fita. Nosso único encontro depois de anos foi um diálogo de duas cadeiras junto a uma mesa fria. Outros amores ainda respiram profundamente em mim. Este não tem alento para suspirar. E no entanto tal como é deslembrado, nem sequer sonhado, consegue o que os outros ainda […]
- [Ian Hamilton - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ian-hamilton-epitafio/): O aroma de rosas velhas e tabaco Faz-me regressar. Há quase vinte anos Que não nos vemos E a nossa desapegada paixão continua. Foi isto que me deixaste: A mão, entreaberta, imóvel Sobre uma colcha verde. O bastante para erguer Alguns poemas melancólicos. Se então eu te houvesse tocado Um de nós podia ter sobrevivido. Trad. Nuno Vidal Epitaph The scent of old roses and tobacco Takes me back. It’s almost twenty years Since I last saw you And our half-hearted love affair goes on. You left me this: A hand, half-open, motionless On a green counterpane. Enough to build A […]
- [Fernando Pessoa - Poema 165 (Cancioneiro)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/fernando-pessoa-poema-165-cancioneiro/): Tenho tanto sentimento Que é freqüente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada. Qual porém é verdadeira E qual errada, ninguém Nos saberá explicar; E vivemos de maneira Que a vida que a gente tem É a que tem que pensar.
- [Pedro Salinas - Não Te Vejo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/pedro-salinas-nao-te-vejo/): Não te vejo. Bem sei que estás aqui, atrás de uma frágil parede de ladrilhos e cal, bem ao alcance da minha voz, se chamasse. Mas não chamarei. Chamarei amanhã, quando, ao não te ver mais imagine que continuas aqui perto, ao meu lado, e que basta hoje a voz que ontem eu não quis dar. Amanhã… quando estiveres lá atrás de uma frágil parede de ventos, de céus e de anos. Trad.: Antonio Cicero No te veo No te veo. Bien sé que estás aquí, detrás de una frágil pared de ladrillos y cal, bien al alcance de mi voz, […]
- [William Butler Yeats - Viajando para Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-b-yeats-viajando-para-bizancio-poema/): Aquela não é terra para velhos. Gente jovem, de braços dados, pássaros nas ramas — gerações de mortais — cantando alegremente, salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas, peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente. Ao som da música sensual, o mundo esquece as obras do intelecto que nunca envelhece. Um homem velho é apenas uma ninharia, trapos numa bengala à espera do final, a menos que a alma aplauda, cante e ainda ria sobre os farrapos do seu hábito mortal; nem há escola de canto, ali, que não […]
- [W. H. Auden - Blues Fúnebre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/w-h-auden-blues-funebre/): BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone, jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais, que emudeça o piano e que o tambor sancione a vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço, escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu. Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço — e os guardas usem finas luvas cor-de-breu. Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana, meu meio-dia, meia-noite, fala e canto; quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se […]
- [Giuseppe Ungaretti - San Martino del Carso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/ungaretti-san-martino-del-carso/): Valloncello dell’Albero Isolato, 27 de agosto de 1916 Destas casas nada sobrou senão alguns pedaços de muro De quantos me foram próximos nada sobrou nem tanto No coração porém nenhuma cruz me falta É o meu coração a região mais destroçada Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – San Martino Del Carso Valloncello dell’Albero Isolato il 27 agosto 1916 Di queste case non è rimasto che qualche brandello di muro Di tanti che mi corrispondevano non è rimasto neppure tanto Ma nel cuore nessuna croce manca È il mio cuore il paese più straziato
- [Vinicius de Moraes - Poema de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/vinicius-de-moraes-poema-de-natal/): Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos — Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na treva Um caminho entre dois túmulos — Por isso precisamos velar Falar baixo, pisar leve, ver A noite dormir em silêncio. Não há muito o que dizer: Uma canção sobre um berço Um verso, talvez de amor Uma prece por quem se vai — Mas que […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2016/02/17/cassiano-ricardo-a-graca-triste/): Só me resta agora Esta graça triste De te haver esperado Adormecer primeiro. Ouço agora o rumor Das raízes da noite, Também o das formigas Imensas, numerosas, Que estão, todas, corroendo As rosas e as espigas. Sou um ramo seco Onde duas palavras Gorjeiam. Mais nada. E sei que já não ouves Estas vãs palavras. Um universo espesso Dói em mim com raízes De tristeza e alegria. Mas só lhe vejo a face Da noite e a do dia. Não te dei o desgosto De ter partido antes. Não te gelei o lábio Com o frio do meu rosto. O destino […]
- [Ezra Pound - Canto LXXXI (fragmentos)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/16/ezra-pound-canto-lxxxi-fragmentos/): O que amas de verdade permanece,o resto é escória.O que amas de verdade não te será arrancadoO que amas de verdade é tua herança verdadeiraMundo de quem, meu ou delesOu não é de ninguém?Veio o visível primeiro, depois o palpávelElísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,O que amas de verdade é tua herança verdadeiraO que amas de verdade não te será arrancado A formiga é um centauro em seu mundo de dragões.Abaixo tua vaidade, nem coragemNem ordem, nem graça são obras do homem,Abaixo tua vaidade, eu digo abaixo.Aprende com o mundo verde o teu lugarNa escala da invenção ou arte […]
- [Marina Colasanti - Sexta-feira à noite](https://singularidadepoetica.art/2023/04/08/marina-colasanti-sexta-feira-a-noite-2/): Sexta-feira à noiteOs homens acariciam o clitóris das esposasCom dedos molhados de saliva.O mesmo gesto com que todos os diasContam dinheiro, papéis, documentosE folheiam nas revistasA vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noiteOs homens penetram suas esposasCom tédio e pénis.O mesmo tédio com que todos os diasEnfiam o carro na garagemO dedo no narizE metem a mão no bolsoPara coçar o saco. Sexta-feira à noiteOs homens ressonam de borcoEnquanto as mulheres no escuroEncaram seu destinoE sonham com o príncipe encantado.
- [Alex Dimitrov – Os anos](https://singularidadepoetica.art/2023/04/07/alex-dimitrov-os-anos/): Leia "Os anos", de Alex Dimitrov, um poema melancólico e elegante sobre amizade, memória, juventude e a passagem do tempo.
- [Charles Simic - Na Biblioteca](https://singularidadepoetica.art/2023/04/06/charles-simic-na-biblioteca-2/): Para Octavio Há um livro chamado“Um Dicionário dos Anjos”.Ninguém o abre há cinquenta anos,Eu sei, porque quando o fizAs capas rangeram, as páginasdesmancham-se. Nele descobriQue os anjos eram tão abundantesQuanto moscas. Ao entardecer, o céuCostumava ficar repleto deles.Você precisava agitar os dois braçosApenas para mante-los à distância.Agora o sol brilhaAtravés de altas janelas.A biblioteca é um lugar tranquilo.Anjos e deuses amontoadosem sombrios tomos fechados.O grande segredo estáEm alguma estante pela qualMiss Jones passa em sua ronda diária.Ela é muito alta, então mantémA cabeça inclinada como se estivesse escutando.Os livros estão sussurrando.Eu não ouço nada, mas ela sim. Trad.: Nelson Santander Republicação […]
- [Eugenio Montale – O lago de Annecy](https://singularidadepoetica.art/2023/04/05/eugenio-montale-o-lago-annecy/): Não sei por que minhas memórias te relacionamao lago de Annecyque visitei alguns anos antes de tua morte.Mas na época eu não pensava em ti, era joveme julgava ser o senhor do meu destino.Por que uma memória tão enterrada é capaz deaflorar eu não sei; tu mesmacertamente me enterraste e nem percebeste.Agora ressurges viva, embora já não estejas. Eu poderiater perguntado então sobre teu pensionato,ter assistido as meninas saindo em fila,ter encontrado um pensamento teu de quando ainda estavasviva. Mas não pensei em nada disso. Agora que é inútil,a fotografia do lago me é suficiente. 6 de junho de 1971 Trad.: […]
- [Inês Dias – Lei Sálica](https://singularidadepoetica.art/2023/04/04/ines-dias-lei-salica-2/): As mulheres da família sempretiveram um jeito quase póstumode existir: guardar o lumeem silêncio, comer depois deservir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destinopara lerem os caminhos perdidose coleccionavam a abdicaçãoem caixinhas de folha, entre bilhetescaducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a vida toda por uma vidapróxima, de alma presa a alfinetesno vestido preferido para o enterro,os passos medidos nas suas varandasa dar para o fim do mundo. Retomo-lhes às vezes os gestosneste meu exílio inventado,mas acaba aqui: vou encher de corpoa sombra, mesmo que nem tempome reste já para a pesar. Republicação: poema publicado no […]
- [José Infante – [A morte é definitivamente o fim]](https://singularidadepoetica.art/2023/04/03/jose-infante-a-morte-e-definitivamente-o-fim/): A morte é definitivamente o fim, por maisque nos tentem enganar com cânticos,com hinos, com orações e salmos.A morte é o fim e é justoque seja assim. Que não hajarecompensas nem punições. Somenteque nos deixem perdermo-nos no nada,de onde viemos sem ter sidopreviamente convidados. Trad.: Nelson Santander [La muerte sí es el final] La muerte sí es el final por muchoque intenten engañarnos con canciones,con himnos, con plegarias y salmos.Es la muerte el final y es justoque así sea. Que no existanni premios ni castigos. Solamenteque nos dejen perdernos en la nada,desde donde vinimos sin haber sidopreviamente invitados.
- [Manuel António Pina - Relatório](https://singularidadepoetica.art/2023/04/02/manuel-antonio-pina-relatorio-2/): É um mundo pequeno,habitado por animais pequenos– a dúvida, a possibilidade da morte –e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros,os teus passos subindo as escadas,o gato brincando na salacom o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa,um pouco mais alta que um impérioe um pouco mais indecifrávelque a palavra “casa”; não fulge. Em certas noites, porém,sai de si e de mime fica suspensa lá foraentre a memória e o remorso de outra vida. Então, com as luzes apagadas,ouço vozes chamando,palavras mortas nunca pronunciadase a agonia interminável das coisas acabadas. Republicação: poema publicado […]
- [Danusha Laméris - Nada quer sofrer](https://singularidadepoetica.art/2023/04/01/danusha-lameris-nada-quer-sofrer/): Nada quer sofrer após LInda Hogan Nada quer sofrer. Nem o ventoque arranha contra a encosta. Nem o penhasco sendo devorado, lentamente, pelo mar. A terra não quersofrer o pisoteio bruto de quem a ignora. As árvores não querem sofrer o machado, nem versuas irmãs derrubadas pela podridão, pelo mofo e oxidação de suas raízes. O coiote em seu covil. O puma perseguindo sua presa.Estes também desejam tranquilidade e um tenro animal na boca para aliviar a fome. Uma oferenda, espera-se, preparada rapidamente, e sem muito sofrimento. A cadeira lamenta um ocupante irritado. A lâmpada, uma mariposa queimada.Uma mesa, o peso de […]
- [Vitor Nogueira – Sementes](https://singularidadepoetica.art/2023/03/31/vitor-nogueira-sementes-2/): É claro que me lembro. Havia dois atalhospelo meio do pinhal, direcções espantosamenteprecisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,havia talismãs pendurados nas árvores e mercúriopara tratar certas lesões, uma peça vitaldo equipamento. Havia girassóis à volta da casae as palavras imortais dos espantalhos, uma formade evitar que endoidecêssemos. E havia um muroque era preciso saltar, a manhã gloriosada escalada, a ciência das grandes migrações. Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos. Do futuro nada sei. Apenas que […]
- [Brad Aaron Modlin – O que você perdeu no dia em que não foi à aula](https://singularidadepoetica.art/2023/03/30/brad-aaron-modlin-o-que-voce-perdeu-naquele-dia-em-que-faltou-na-quarta-serie/): A Sra. Nelson explicou como ficar imóvel e ouviro vento, como encontrar sentido em encher o tanque, como descascar batatas pode ser uma forma de oração. Ela respondeua perguntas sobre como não se sentir perdido no escuro. Depois do recreio, ela distribuiu folhas de exercíciosque abordavam maneiras de como lembrar as vozes de nossos avôs. Em seguida, a turma discutiu sobre adormecersem sentir que você esqueceu de fazer mais alguma coisa — algo importante — e como se convencer de quea casa em que você despertou é seu lar. Isso levou a Sra. Nelson a desenhar um diagrama na lousa, explicandocomo […]
- [Ana Martins Marques - de "Três Postais"](https://singularidadepoetica.art/2023/03/29/ana-martins-marques-de-tres-postais-2/): Leia "São Paulo" (de 'Três Postais'), de Ana Martins Marques, um poema delicado sobre memória amorosa, ausência e a forma como os lugares preservam aquilo que perdemos.
- [Wendy Cope – Em um trem](https://singularidadepoetica.art/2023/03/28/wendy-cope-em-um-trem/): O livro que estou lendo repousa em meu joelho. Você dorme. Lá fora é tão bonito —campos, pequenos lagos e árvores de invernosob o sol de fevereiro,cada estacionamento um brilhante mosaico. Longos e radiantes minutos,sua mão na minha mão,ainda quente, ainda quente. Trad.: Nelson Santander On a Train The book I’ve been readingrests on my knee. You sleep. It’s beautiful out there-fields, little lakes and winter treesin February sunlight,every car park a shining mosaic. Long radiant minutes,your hand in my hand,still warm, still warm.
- [José Alcaraz - Volta para Casa](https://singularidadepoetica.art/2023/03/27/jose-alcaraz-volta-para-casa-2/): Atravessa as ruasabsorto nos ecos das pessoas,distante até de seus pensamentos.Não chove, não abre o seu guarda-chuva,no entanto, como sempre, molham-senão só seus sapatoscomo a vida também, porque às vezesesquece que o mundo o reclama.Caminha como quem não sabe para onde,em cada passo crê estar sozinho,mais distante das outras pessoas,por isso demora a encontrar as palavras,e quando as pronuncia já não há ninguémesperando. Depois,novamente, o caminho de volta,as ruas, a tristeza. E nada mais,além de sua casa, e ele,diante de um espelho,olhando-me nos olhos. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 04/05/2018 Vuelta a […]
- [Ferreira Gullar – Poema](https://singularidadepoetica.art/2023/03/26/ferreira-gullar-poema/): Se morro o universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto se apago a lâmpada: os sapatos–da–ásia, as camisas e guerras na cadeira, o paletó– dos–andes, bilhões de quatrilhões de seres e de sóis morrem comigo. Ou não: o sol voltará a marcar este mesmo ponto do assoalho onde esteve meu pé; deste quarto ouvirás o barulho dos ônibus na rua; uma nova cidade surgirá de dentro desta como a árvore da árvore. Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens a mesma história que eu leio, comovido.
- [Manuel António Pina - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2023/03/25/manuel-antonio-pina-interiores-2/): Onde estamos agora que não nos vemos,tu sentada diante da TVe eu escrevendo isto, não sei o quê,como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceudo nosso amor como uma inevitabilidade,uma saudade pousada agora na mão de Deusexistindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos uma rota circularatravés da curvatura do espaço e do tempoonde haveremos de nos reencontrar;será que então de alguma forma nos reconheceremos? REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 02/05/2018
- [Finn Butler – Marinho](https://singularidadepoetica.art/2023/03/24/finn-butler-marinho/): Todos os que o amedrontam são sessenta e cinco por cento água.E todos os que você ama são feitos de poeira estelar, e eu sei queàs vezesvocê nem consegue respirar profundamente,o céu noturno não é seu lar evocê já chorou sozinho até dormir tantas vezesque chegou aos seus últimos dois por cento, mas nada é infinito,nem mesmo a perda. Você é feito do mar e das estrelas, e um diavai se encontrar novamente. Trad.: Nelson Santander Saltwater Everyone who terrifies you is sixty-five percent water. And everyone you love is made of stardust, and I knowsometimes you cannot even breathe deeply, […]
- [Jorge Luis Borges – As Causas](https://singularidadepoetica.art/2023/03/23/jorge-luis-borges-as-causas-2/): Todas as gerações e os poentes.Os dias e nenhum foi o primeiro.A frescura da água na gargantaDe Adão. O ordenado Paraíso.O olho decifrando a maior treva.O amor dos lobos ao raiar da alba.A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.A Torre de Babel e a soberba.A lua que os Caldeus observaram.As areias inúmeras do Ganges.Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.Os passos do errante labirinto.O infinito linho de Penélope.O tempo circular, o dos estóicos.A moeda na boca de quem morre.O peso de uma espada na balança.Cada vã gota de água na clepsidra.As águias e […]
- [Maya C. Popa – Vida querida](https://singularidadepoetica.art/2023/03/22/maya-c-popa-vida-querida/): Não posso desfazer tudo o que fiz a mim mesma,o que permiti que um apetite por amor me fizesse. Eu quis o mundo todo, suas maravilhase suas mazelas; alguns diasacho que já houve castigo suficiente. Com frequência, recebi mais do que pedi, que é como isso funciona — você pesca em mar abertopronta para ser ferida pelo que fisgar. Joga-lo de volta era um pesadelo.Joga-lo de volta e ver minha própria face enquanto ela desaparecia na água escura. Fisgar de repente minha língua no metal,cuspindo o anzol na palma da minha mão aberta. Vida querida: hoje sinto esse anzol mais profundamente. […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Discurso pós-jantar em um noivado](https://singularidadepoetica.art/2023/03/21/hans-magnus-enzensberger-discurso-pos-jantar-em-um-noivado-2/): Este eu, um invólucro que,contanto que ninguém o abra,parece compacto, regularcomo um Kinder ovo,quase apetitoso. Só por dentroé escuro. Quem sabeo que estará esperando por você lá.Obsessões, sem dúvida,hábitos enferrujados,medos incompreensíveis,truques de segunda mão,desejos infantis.Que você deseje tê-la,esta caixa de presente,beira o milagre. Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução do alemão para o inglês feita por Martin Chalmers e Esther Kinsky, in A History of Clouds. 99 Meditations by Hans Magnus Enzensberger) REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/04/2018 After-Dinner Speech at an Engagement This self, a container, which,as long as no one opens it,appears compact, smoothas a Kinder […]
- [Amalia Bautista - No final](https://singularidadepoetica.art/2023/03/20/amalia-bautista-no-fim/): Leia "No final", de Amalia Bautista, um poema breve e comovente sobre amor, finitude e as poucas coisas que realmente importam na vida.
- [Juan Vicente Piqueras - Véspera de Permanecer](https://singularidadepoetica.art/2023/03/19/juan-vicente-piqueras-vespera-de-permanecer/): Tudo está pronto: a mala,as camisas, os mapas, as vãs esperanças. Estou removendo o pó das minhas pálpebras.Já pus na lapelaa rosa dos ventos. Tudo está em ordem: o mar, o ar, o atlas. Só me falta o quando,o onde, um diário de bordo,cartas de navegação, ventos propícios,coragem e alguém que saibame amar como nem eu mesmo sei. O navio inexistente, o olhar,os perigos, as mãos do espanto,o fio umbilical do horizonteque sublinha esses versos suspensivos… tudo está preparado: a sério, em vão. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 28/04/2018 Juan Vicente Piqueras […]
- [Judith Viorst – A uma amiga de meia-idade considerando adultério com um homem mais jovem](https://singularidadepoetica.art/2023/03/18/judith-viorst-a-uma-amiga-de-meia-idade-considerando-adulterio-com-um-homem-mais-jovem/): É complicado ser temerária Quando há dobras em seu derrière E chega a hora de expor o que sua meia-calça está ocultando. E embora os olhos amorosos de um marido Façam certas concessões para suas coxas, Jovens amantes podem ter um olhar menos benevolente para o que você está expondo. É complicado se render ao pecado Enquanto você tenta manter a barriga contraída Esperando que o blush ainda esteja iluminando sua tez, E torcendo para que ele não perceba, Enquanto corre os dedos pelos seus cabelos pretos, Que você ficou inequivocamente grisalha em toda uma outra seção. É complicado experimentar o […]
- [Haroldo de Campos - Servidão de Passagem](https://singularidadepoetica.art/2023/03/17/haroldo-de-campos-servidao-de-passagem-2/): forma de fome proêmio mosca ouro?mosca fosca. mosca prata?mosca preta. mosca íris?mosca reles. mosca anil?mosca vil. mosca azul?mosca mosca. mosca branca?poesia pouca. o azul é puro?o azul é pus. de barriga vazia. o verde é vivo?o verde é vírus de barriga vazia. o amarelo é belo?o amarelo é bile de barriga vazia. o vermelho é fúcsia?o vermelho é fúria de barriga vazia. a poesia é pura?a poesia é para de barriga vazia. poesia em tempo de fomefome em tempo de poesia poesia em lugar do homempronome em lugar do nome homem em lugar de poesianome em lugar do pronome poesia de […]
- [David Wagoner – Perdido](https://singularidadepoetica.art/2023/03/16/david-wagoner-perdido/): Permanece imóvel. As árvores à frente e os arbustos ao teu ladoNão estão perdidos. Onde quer que estejas é chamado de Aqui,E deves tratá-lo como um poderoso estranho,Pedir permissão para conhece-lo e ser conhecido.A floresta respira. Escuta. Ela responde,Eu fiz este lugar ao teu redor.Se o deixares, poderás voltar novamente, dizendo Aqui.Nenhuma árvore é igual para o Corvo.Nenhum ramo é igual para a Curruíra.Se o que uma árvore ou um arbusto faz está perdido para ti,Certamente estás perdido. Permanece imóvel. A floresta sabeOnde estás. Deixa que ela te encontre. Trad.: Nelson Santander Lost Stand still. The trees ahead and bushes beside […]
- [Manuel António Pina - Instituto de Oncologia](https://singularidadepoetica.art/2023/03/15/manuel-antonio-pina-instituto-de-oncologia-2/): Estes cumprem o rito antigo mantendoa chama da morte acesa na obscura água da vidae engrossam o rio dos mortoscomo pura memória sem nome. Nós rebelamo-nos, levantamos as mãos ao céu,e depois fechamo-las para detero rio da mudança fluindo por entre os dedos,porque éramos os menos fortes e os menos densos. Frágeis mãos dispersaram o que nos pertenciae quando regressámos tinham partido todos.Agora, diante de nós mesmos para sempre,até a nossa miséria nos parece alheia. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 22/04/2018
- [Thom Gunn – Natureza morta](https://singularidadepoetica.art/2023/03/14/thom-gunn-natureza-morta/): Não esquecerei tão cedoA pele amarelo-acinzentada À qual o rosto se havia fixado:Pálpebras apertadas: nada dele,Nenhum tremor interior,Brincava na superfície.Ele ainda respirava, e contudoEsta era uma obscura habilidade.Não esquecerei tão cedoO ângulo de sua cabeça,Mantida imobilizada para trás Na planície estirada do colchão,De volta daquilo que ele não podiaNem aceitar, como uma objeção,Nem, como um respirador de longa data,Abandonar de forma consentida,O tubo em sua boca seladoEm um atônito O. Trad.: Nelson Santander N. do T.: Este poema integra uma sequência de elegias compostas pelo escritor em memória de amigos que morreram durante a epidemia de aids no final da década […]
- [Charles Bukowski – Para Jane Cooney Baker, morta em 22/01/1962](https://singularidadepoetica.art/2023/03/13/charles-bukowski-para-jane-cooney-baker-morta-em-22-01-1962-2/): e então você se foi me deixando aquinum quarto com uma cortina rasgadae o Idílio de Siegfried tocando no radinho vermelho. e então você se foi tão rápidoquanto quando você veio pra mim,e nós tínhamos dito adeus antes,e quando eu estava limpando seu rosto e lábiosvocê abriu os maiores olhos que eu já tinha vistoe disse “Eu devia saberque era você”você conseguiu vermas não por muito tempo e um homem velho com pernas brancas e finasna cama ao ladodizia, “Eu não quero morrer,”e seu sangue veio de novoe eu o aparei com as mãos em conchatudo o que ficoudas noites e […]
- [Frances Leviston – Todo animal faz um som, exceto nós](https://singularidadepoetica.art/2023/03/12/frances-leviston-todo-animal-emite-um-som-exceto-nos/): Agostoe os cordeirosforam levados de suas mães.O dia todo elas emitem seus humanos lamentosatravés da cerca da fazenda até a lagoa da orelha de um fazendeiroe ao longo da lama pela nunca esquecidanecessidade de expressar o que foi perdido –a fala visceral, incontornável,a fala naufragada,a perda. Trad.: Nelson Santander Every Animal has a Noise Except Us Augustand the lambshave been taken from the mothers.All day they cast their human criesacross the field-fence, into the pond of a farmer’s earand down through mud to the never-forgottenneed to tell of what was lost –the gut-fished, unrefusable tongue,the sunken tongue,the loss.
- [Francisca Aguirre – E se, depois de tudo, fosse o resto](https://singularidadepoetica.art/2023/03/11/francisca-aguirre-e-se-depois-de-tudo-fosse-o-resto/): E se, depois de tudo, fosse o restoum ir morrendo para ao fim morrermospor este louco afã de convertermo-nosem contadores de um momento lesto. E se afigura que o correto eraeste sermão que vem nos repetirque avança o furacão de nos ferir,e é vã e absurda esta carreira. Então fique tranquilo, amor meu,e goza desta gruta que ofereço,e esgota a água que eu não consumi. O vento nos arrasta, cego e frio,toma esta manta enquanto eu envelheço,amar-te de outro modo não aprendi. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 07/04/2018 Francisca Aguirre – Y si después de todo, […]
- [Adam Zagajewski - Um breve poema](https://singularidadepoetica.art/2023/03/10/adam-zagajewski-um-rapido-poema/): Eu ouvia cânticos gregorianosnum carro em alta velocidadeem uma rodovia na França.As árvores passavam velozes. As vozes dos mongesentoavam preces a um deus invisível(ao amanhecer de uma capela tremendo de frio).Domine, exaudi orationem meum,vozes graves rogavam calmamentecomo se a salvação estivesse crescendo no jardim.Para onde eu ia? Onde o sol se escondia?Minha vida estava em farraposnos dois lados da estrada, frágil como um mapa de papel.Com os doces mongespercorri o caminho em direção às nuvens, ao azul profundo,pesado, denso,rumo ao futuro, ao abismo,sorvendo duras lágrimas de granizo.Longe da aurora. Longe de casa.Em lugar de paredes — chapa de metal.Em vez de […]
- [Yehuda Amichai – Na história do nosso amor](https://singularidadepoetica.art/2023/03/09/yehuda-amichai-na-historia-do-nosso-amor-2/): "Na história do nosso amor", um poema de Yehuda Amichai que utiliza metáforas históricas e geográficas — tribo, nação, ilha, península — para refletir sobre desencontro, deslocamento e a redefinição da identidade amorosa ao longo do tempo.
- [Czesław Miłosz - Uma vida afortunada](https://singularidadepoetica.art/2023/03/08/czeslaw-milosz-uma-vida-afortunada/): Sua velhice coincidiu com os anos de colheita abundante.Não houve terremotos, secas ou inundações.Dir-se-ia que a mudança das estações ganhava em regularidade,As estrelas se fortaleciam e o sol aumentava seu poder.Mesmo em províncias remotas nenhuma guerra foi travada.Gerações cresceram amistosas para com seus semelhantes.A natureza racional do homem não era motivo de escárnio. Foi amargo dizer adeus a um planeta tão renovado.Ele tinha inveja e se envergonhava de todas as suas dúvidas,Satisfeito que sua dilacerada memória desaparecesse com ele.Dois dias depois de sua morte um furacão arrasou os litorais.Fumaças surgiram de vulcões inativos há cem anos.A lava se espalhou por florestas, […]
- [Pedro Salinas - [A tua forma de amar]](https://singularidadepoetica.art/2023/03/07/pedro-salinas-a-tua-forma-de-amar/): "A tua forma de amar", um poema de Pedro Salinas que explora o amor silencioso e a insegurança afetiva, retratando um eu lírico que teme descobrir que ama sozinho e se agarra à presença da amada para não confrontar a possibilidade da solidão.
- [Linda Pastan – Por que seus poemas são tão sombrios?](https://singularidadepoetica.art/2023/03/06/linda-pastan-por-que-seus-poemas-sao-tao-sombrios/): Por que seus poemas são tão sombrios? Não é a lua também sombria,na maior parte do tempo? E a página em branconão parece inacabada sem a mancha escuradas letras? Quando Deus demandou a luz,Ele não baniu a escuridão. Em vez disso, Ele criouo ébano e os corvos e aquela pequena pintano lado esquerdo do seu rosto. Ou você quis perguntar“Por que você está triste com tanta frequência?” Pergunte à lua.Pergunte o que ela testemunhou. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Why Are Your Poems so […]
- [Manuel António Pina – Depois](https://singularidadepoetica.art/2023/03/05/manuel-antonio-pina-depois-2/): Primeiro sabem-se as respostas.As perguntas chegam depois,como aves voltando a casa ao fim da tardee pousando, uma a uma, no coraçãoquando o coração já se recolheude perguntas e de respostas. Que coração, no entanto, pode repousarcom o restolhar de asas no telhado?A dúvida agitaos cortinadose nos sítios mais íntimos da vidaacorda o passado.Porquê, tão tardo, o passado? Se ficou por saldar algocom Deus ou com o Diaboe se é o coração o saldoporquê agora, Cobrança,quando medo e esperança se recolheram também soblembranças extenuadas?Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,e de poços, e de portas entreabertas,e sonham no escuroas coisas acabadas. […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Xochiquetzal](https://singularidadepoetica.art/2023/03/04/jorge-valdes-diaz-velez-xochiquetzal/): Xochiquetzal1 (Homenagem a Chuang-Tzu2) Ontem sonhei contigo. Vestias uma gabardine de pele, e por baixo nada.Era outono e estavas ensopadapela chuva; caminhavas em alguma gare de Madrid indo para lugarnenhum. Estancavas ocasionalmenteteus passos para sentires transluzentetua pele resplandecer ao luar de um espelho invisível em que haviaum homem que sonhava com uma mulhere uma mulher seminua e bonita, molhada de orvalho. Mas eu, todavia,ainda pareço olhar-te sustero fixo olhar daquela borboleta. Trad.: Nelson Santander N. do T.: 1. Segundo este site, Xochiquetzal “é a representação do arquétipo da mulher jovem em pleno vigor sexual. É a divinização da amante, uma deusa […]
- [Laia Noguera Clofent – [Amo a vida simples]](https://singularidadepoetica.art/2023/03/03/laia-noguera-clofent-amo-a-vida-simples/): Amo a vida simples,sentar-me à entradapara ver o ir e vir das pessoas,como se move um pardal,como se inclina a tardenas casas do corpo. Bem sei que morrereimuito antes de morreremas árvores que amo. Mas isso não me preocupa,porque no instanteem que se me romper o último fioserei apenas aquela mulherque se sentava à entradapara simplesmente olhare ser folha e raiz. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com pequenas modificações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 29/03/2018 [Amo la vida pequeña] Amo la vida pequeña,sentarse en la entradapara ver cómo pasa la gente,cómo se mueve un gorrión,cómo se inclina la tardeen […]
- [Nisha Atalie – Fazer/Não fazer](https://singularidadepoetica.art/2023/03/02/nisha-atalie-fazer-nao-fazer/): Eu cheiro o Lírio Tigre em flor,duas línguas saltandode uma boca. Eu enveneno o rio involuntariamente.Marcho nos caminho demarcados. Eu corto a montanha, seu corpo e sua boca escancarados.Recolho a água da chuva em um carrinho de mão. Eu forro o ventre da baleia com presentes atéque eles dilacerem seu estômago.Eu rego os morangos. Novamente eu encho meu tanque com coisas mortas,gerações girando juntas até brilhar.Alimento os patos com alface fresca. Eu manejo o esquilo mortona estrada, marcando o momentoem que a criatura se torna carne. Aceito que meu amor é umaflor venenosa, rotineiramente fatal. Eu calculo a força doamor em […]
- [Ana Martins Marques – História](https://singularidadepoetica.art/2023/03/01/ana-martins-marques-historia-2/): Leia "História", de Ana Martins Marques, um poema original e filosófico sobre tempo, memória e as múltiplas temporalidades presentes no cotidiano.
- [Vievee Francis – Estive pensando de novo no amor](https://singularidadepoetica.art/2023/02/28/vievee-francis-estive-pensando-novamente-no-amor/): Estive pensando de novo no amor Há os que vivem para recebê-loe os que vivem para dá-lo. Claro que existem aqueles para quem ambas as coisas são verdade,mas nunca na mesma medida. Aqueles que o têm para dar são como cardeais na neve. Tão fáceise lindamente iluminados. Algunssão como coelhos. Difíceis de verexceto para aqueles que deles fariam presa:toda aquela suavidade e tremor e sangue. Aqueles que o queremnão podem ser saciados. Com olhos de águia e tais garras,qualquer criatura peluda serve. É tão fácilarrancar um coração quando ele pulsa tão forte. Eu vagueio pelo inverno.Eu sei o que sou. Trad.: […]
- [Marcia Vinci – Mãe Solteira](https://singularidadepoetica.art/2023/02/27/marcia-vinci-mae-solteira-2/): dadeiraparideiranutrizcriadeiratoda mãeé sozinhatoda mãeé solteira REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/03/2018
- [Raymond Carver – Chuva](https://singularidadepoetica.art/2023/02/26/raymond-carver-chuva/): Despertei esta manhã com a urgênciaterrível de permanecer na cama o dia inteiroe ler. Lutei contra isso por um minuto. Depois olhei a chuva pela janela.e me rendi. Coloquei-me inteiramentenas mãos dessa manhã chuvosa. Viveria minha vida novamente?Cometeria os mesmos erros imperdoáveis?Sim, se tivesse a mínima chance. Sim. Trad.: José Antônio Cavalcanti Rain Woke up this morning with a terrific urge to lie in bed all day and read. Fought against it for a minute. Then looked out the window at the rain. And gave over. Put myself entirely in the keep of this rainy morning. Would I live my life […]
- [Vicente Gaos - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2023/02/25/vicente-gaos-testamento-2/): Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil séculos de idade, estado civilsolitário, instáveldomiciliado/refugiado em um canto do cosmos,profissão náufrago na sombra,sem carteira de identidade, sem títulos, condecorações ou diplomas de qualquer tipo,sem nenhuma marca particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo,sem mais cicatriz além de uma necrose miocárdica,uma velha ferida auto-infligida,quero dizer, causada por séculos de sofrimento,de amor escondido, de ternura encoberta por um falso orgulho,o de não sentir inveja de nada e de ninguém,o de ter acreditado que sempre havia tempo de sobra,o de me alegrar verdadeiramente com a felicidade alheia,o de não nunca sentir […]
- [George Bilgere – Tudo bem](https://singularidadepoetica.art/2023/02/24/george-bilgere-tudo-bem/): Eu me sento aqui na calçada da cafeteria,emitindo a amarela fumaça doentia da senescênciaenquanto as pessoas passam fingindonão notar, olhando para longeou para os seus telefones,fazendo o melhor por comoção ou cortesiapara me ignorar sentado aqui envelhecendo,e eu não os culpo, é mesmo difícil de assistir. E agora a garçonete em sua beleza abrasadora,em sua feminilidade incandescente e brilhante,caminha até mim em uma radiante nuvem de juventudee pergunta se quero outro latte macchiato gelado. Mas estou envelhecendo tão rápido, estou correndo tão rapidamenteatravés do tempo que mal posso ouvi-la, e ademaissei que o que realmente ela quer dizer é:seu envelhecimento é […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Perdão, falava em voz alta](https://singularidadepoetica.art/2023/02/23/ernesto-perez-vallejo-perdao-falava-em-voz-alta-2/): Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguémNunca poderão desapontá-la.A esperança é aquele relógioque sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezescomo diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes.Mas, quando tristes, todos sabemos quando estávamos felizes. E o amor, bem, como fazer-te entenderque não é mais do que a desculpa de amara si próprio através de outra pessoasem parecer egocêntrico? É mais fácil mirar-te nos olhos de outrem,o espelho nunca disse uma mentira. E, a propósito, sejamos realistas,Ninguém morreu por ninguém ainda.O […]
- [Elizabeth Jennings - Uma só carne](https://singularidadepoetica.art/2023/02/22/elizabeth-jennings-uma-so-carne/): Cada qual em sua cama, deitados separados agora,Ele com um livro, uma luz acesa até hora incerta,Ela, como uma menina, sonhando com sua aurora,Todos os homens em outros lugares – é como se certaNova ocorrência esperassem: o livro que ele detémMas não lê, os olhos dela pregados nas sombras além. Lançados acima como destroços de antiga paixão,Como são bons em mentir. Quase nunca se tocam, os dois,Ou se o fazem, é como se fosse uma confissãoDe terem poucos sentimentos – ou sentimentos demais.A castidade os confronta, um destino para o qualA vida inteira deles dois foi uma preparação. Estranhamente separados, mas […]
- [Javier Salvago - Fim de Festa](https://singularidadepoetica.art/2023/02/21/javier-salvago-fim-de-festa-2/): Enfim sós, vida. A festa acaboue não resta ninguém para nos obrigara sorrir, ou a inventar desagradáveismentiras inofensivas. Todos se foram. Despe-te sem medo. Conheçoas velhas rugas de tua triste carne.Acariciei-as. Sei o que teu rostooculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncioe tu e eu nus, calados e ausentes,– juntos pela rotina, mais que pelo desejo –como dois amantes cansados de se ver. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 09/03/2018 Javier Salvago – Fin de Fiesta Al fin solos, vida. Terminó la fiestay no queda nadie que pueda […]
- [James Crews – Kintsugi](https://singularidadepoetica.art/2023/02/20/james-crews-kintsugi/): Qualquer um que ama outra pessoajá tem o coração partido.É a lei: se quer que aquela luzinunde seu corpo, você deveexpor as cicatrizes através das quaisela jorra, pois elas são a fontede sua beleza e de sua força.Pense nos japoneses que preenchemas fissuras de uma vasilha de cerâmicacom ouro puro, não apenas exibindoestas chamadas falhas, mas tambémtornando cada uma delas uma veia inestimávelpelo qual a luz agora flui. Trad.: Nelson Santander N. do. T.: Kintsugi é uma técnica artesanal japonesa centenária utilizada para reparar cerâmicas quebradas. Essa técnica consiste em unir os cacos da cerâmica com um verniz misturado com ouro, que […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Insônia](https://singularidadepoetica.art/2023/02/19/luis-alberto-de-cuenca-insonia-2/): A vida é muito curta.Não há tempo para fazer nada. Não há meiosde reunir dias suficientespara aprender alguma coisa. Tu te levantas,abraças tua namorada, tomas teu café da manhã,trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema,e sequer tens um momentopara ler Sêneca e acreditarque tudo neste mundo tem conserto.A vida é um instante. Não entendopor que esta noite nunca termina. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com ligeiras alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 07/03/2018 Luis Alberto de Cuenca – Insomnia La vida dura demasiado poco.No da tiempo a hacer nada. No hay manerade reunir los suficientes díaspara enterarte de algo. Te […]
- [Joyce Sutphen – Vivendo no corpo](https://singularidadepoetica.art/2023/02/18/joyce-sutphen-vivendo-no-corpo/): Corpo é uma coisa de que você precisa para permanecerneste planeta e só dispõe de um.E não importa qual você tenha obtido, ele nãoserá satisfatório. Não será bonitoo suficiente, não será rápido o suficiente, não durará por vários dias seguidos, maso arrastará para um pântano sonolento eexigirá maçãs e cafés e bolos de chocolate. Corpo é uma coisa que você precisa carregarde um dia para o outro. Sempre asmesmas sobrancelhas sobre os mesmos olhos na mesmapele quando você olha no espelho, e o mesmo joelho rangendo quando você se levanta dochão e o mesmo pulso sob a pulseira.As mudanças que você […]
- [Manuel António Pina - Sétimo Dia](https://singularidadepoetica.art/2023/02/17/manuel-antonio-pina-setimo-dia-2/): Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua mortepara a nossa vida como quem regressa a casade uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,e agora é como se te tivéssemos sonhado.A voz que, diante da escuridão, suspendemosquando se desmoronou o mundo para o fundo de tierguemo-la de novo para os afazeres diurnose para as horas comuns.Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horrore já somos reais outra vez.A própria dor adormeceu no nosso colocomo um animal de companhia. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 05/03/2018
- [Malena Mörling – Do trem](https://singularidadepoetica.art/2023/02/16/malena-morling-do-trem/): Pouco antes do sol desapareceratrás de uma fileira de armazénse antes que ele voltasse à tonapara lavar nossas roupasdas sombras, eu notei algo —Era apenas um pedaço de papel,mas estava pendurado em uma das paredes expostasde um dos prédios parcialmente demolidosque passavam flutuando.Notei também o contornode uma velha escadae o desgastado papel de parede verde floridosubindo pelo menos três lancesaté onde o papel pendia logoabaixo da alta curva estriada do céu à luz do sol quase horizontal do crepúsculo.E pensei como quemum dia viveu naquele espaçodeve ter escrito algo nele.Algo importante.E o pregou na parede.E mais tarde à esquerda.E o modo […]
- [Joaquín Benito de Lucas – Elegia](https://singularidadepoetica.art/2023/02/15/joaquin-benito-de-lucas-elegia-2/): Quando agora retornoà minha cidade, não posso contera emoção de saber que não sou esperado.Não me espera meu pai, que desceu rio abaixomuito lentamente entre os juncos, sob pontes enevoadas. Não me espera meu irmão,que me esperava sempre ao lado de um balcãoqualquer, em uma rua qualquerbrindando ao meu últimolivro ou por sua desgraçaou por outro motivo interessante.Tampouco me esperao outro irmão, o que acabou de partir,deixando-me a sinade seus sapatos e suas vestes,que lustro e passo a ferroe visto e volto a vestirsem saber o que me sobra ou o que me falta. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com ligeiras alterações […]
- [James Tate – Uma batida na porta](https://singularidadepoetica.art/2023/02/14/james-tate-uma-batida-na-porta/): Eles me perguntam se eu já penseisobre o fim do mundo,e eu respondo, “Entrem, entrem,deixe-me dar-lhes algo para comer, por favor.”Depois de algumas mordidas, eles querem falarsobre a vida após a morte. “Ui!,” eu digo,“vocês já viram aquela Greapleaf skeletonizer?”1Depois eles começam a falar sobre redençãoe dos poucos escolhidos para sentar ao lado Dele.“Fazendo o quê?” eu pergunto. “Só sentados?”Estou cercado por zumbis carbonizados.“Vamos comer uma torta de limãoque comprei ontem na 3 Dog Bakery.”Mas eles querem falar sobre a minha alma.Estou ficando sonolento e vejo borboletaspor toda parte. “Os cavalheirosgostariam de tirar uma soneca, eu sei que eu gostaria.”Eles se […]
- [Juan Luis Panero - Epitáfio diante de um Espelho](https://singularidadepoetica.art/2023/02/13/juan-luis-panero-epitafio-diante-de-um-espelho-2/): Dura há de ser a vida para ti,que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez,para ti, cuja única certeza é tua memóriae, portanto, teu sepulcro mais infausto.Dura há de ser a vida, quando os anos passareme por fim destruírem a ilusória pátria da tua adolescência,quando vires, como hoje, este fantasmaque tempos atrás te consolou com sua beleza.Quando o amor, como um vestido esfarrapado,não pode proteger tua tristezae um motivo de zombaria, piedade ou assombro,para os olhos mais puros, apenas seja.Duro há de ser para o teu corpo ver morrer o desejo,a juventude, tudo o que foste,e buscar sem paixão o teu […]
- [Jack Gilbert – Um sumário para a defesa](https://singularidadepoetica.art/2023/02/12/jack-gilbert-um-sumario-para-a-defesa/): Diante do sofrimento e das perdas do mundo, o poema formula uma defesa da alegria sem ingenuidade. Jack Gilbert procura justificar a atenção ao esplendor cotidiano justamente porque conhece a dor que o cerca.
- [Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados](https://singularidadepoetica.art/2023/02/11/juan-vicente-piqueras-nomes-apagados/): A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiose pronomes, nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o copo passou a ser isso,e aqueles que se aproximavam deixaram de ter nomes. A morte começou seu trabalho minuciosoroubando-lhe os nomes,apagando-os, colocandoem seu lugar um isto ou um aquilo,um me dá, um balbucio, um aceno de mão. O que se perde por último são os verbos,os verbos […]
- [Nikita Gill – 93 por cento de poeira estelar](https://singularidadepoetica.art/2023/02/10/nikita-gill-93-por-cento-de-poeira-estelar/): 93 por cento de poeira estelar(depois de Carl Sagan, que me deu esperança quando criança) Temos cálcio em nossos ossos,ferro em nossas veias,carbono em nossas almas,e nitrogênio em nossos cérebros. 93 por cento de poeira estelar,com almas feitas de chamas,somos todos apenas estrelasque têm nomes de pessoas. Trad.: Nelson Santander 93 Percent Stardust(after Carl Sagan, who gave me hope as a child) We have calcium in our bones,iron in our veins,carbon in our souls,and nitrogen in our brains. 93 percent stardust,with souls made of flames,we are all just starsthat have people names.
- [Diego Moraes - Já se passaram dez anos](https://singularidadepoetica.art/2023/02/09/diego-moraes-ja-se-passaram-dez-anos-2/): Já se passaram dez anosAcabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal queseu tio ficou bêbado de vinho Dom Bosco e disse na frente dos filhose da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaroem LondresJá se passaram dez anosOs poemas que escrevi quando gozava nos teus peitos de atriz danouvelle vague incorporada de pomba-gira amarelaram como sífilisna fruteiraJá se passaram dez anosA dona Gerusa que te vendia maconha morreu de AIDS napenitenciária e o cachorro sem nome que adotamos morreuatropelado por um táxiJá se passaram dez anosHebe morreu. Michael Jackson Morreu. Roberto Piva morreu.James Gandolfini […]
- [Mary Oliver - Garças](https://singularidadepoetica.art/2023/02/08/mary-oliver-garcas/): Onde o caminho se encerrava, por entre folhas matizadas, galhos caídos, através de nodosas salsaparrilhas, eu continuei. Por fim, não pude salvar meus braços dos espinhos; logo os mosquitos sentiram meu cheiro, quente e ferido, e vieram girando e gemendo. E foi assim que cheguei na beira do lago: escuro e vazio exceto por um fuso de juncos esbranquiçados na margem oposta que, quando olhei, se enrugou subitamente em três garças — uma ducha de fogo branco! Mesmo meio adormecidas, elas tinham tanta fé no mundo que as tinha feito — que se inclinavam sobre a água, serenas, sem dúvida, pelas […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas](https://singularidadepoetica.art/2023/02/07/luis-alberto-de-cuenca-abre-todas-as-portas-2/): Abre todas as portas, a que conduz ao ouro,a que leva ao poder, a que esconde o mistériodo amor; a que oculta o segredo insondávelda felicidade, a que a vida te ofertapara sempre no gozo de uma visão sublime.Abre todas as portas, sem te mostrares curioso,nem dar importância às manchas de sangueque salpicam as paredes das salasproibidas, nem às jóias que revestem os tetos,nem aos lábios que na sombra buscam os teus,nem à palavra sagrada que intimida dos umbrais.Desesperadamente, civilizadamente,contendo o riso, secando as lágrimas,nas bordas do mundo, no final da jornada,não hesites, meu irmão: abre todas as portas.Embora nada haja […]
- [Matthew Sweeney - As mariposas](https://singularidadepoetica.art/2023/02/06/matthew-sweeney-as-mariposas/): As mariposas Ou o poema que começa com um verso de Diane Di Prima Na neve, as mariposas caminham rigidamente,elas nem ao menos tentam voar.Suas pegadas são cobertas à medida que são feitas,enquanto elas seguem umas às outras para casapelas frias colunas dos postes de iluminaçãopara esperar lá a chegada da luz.A cada crepúsculo há menos delas,e todas mais cansadas do que antes,contudo, elas ainda elevam suas vozespara saudar o filamento incandescente –primeiro laranja, depois amarelocomo os olhos delas. E a nevese acumula em suas asas dobradas,tornando-as pesadas, fazendo com que algumascaiam para serem esmagadas sob botas,ou comidas por um cachorro […]
- [César Cantoni - O Tempo Irreparável](https://singularidadepoetica.art/2023/02/05/cesar-cantoni-o-tempo-irreparavel-2/): Quem teria pensado nisso, então?O certo é que meu pai está mortocomo se nunca tivesse existido.Um dia congelaram suas mãos e os pés,e a casa se encheu de parentes,e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito.Ainda me lembro. Meu pai está morto ou já não existe,e não basta agora saber que ele era feliz.Neste silencioso amanhecer de outono,enquanto a água borbulha na chaleira,e o rádio informa as últimas catástrofes,e eu cumpro o rito habitual de me barbear,só uma coisa é real: sua ausência, que não cessa. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em […]
- [Czesław Miłosz - Café](https://singularidadepoetica.art/2023/02/04/czeslaw-milosz-cafe/): Daqueles que se encontravam à mesa do caféonde, no meio-dia de inverno, um jardim de gelo reluzia nas vidraças,só eu sobrevivi.Eu poderia entrar ali se quisessee, tamborilando meus dedos em um frio vazio,convocar as sombras. Com incredulidade, toco o mármore frio,com incredulidade, toco minha própria mão.Isto – é, e eu – estou em cada novo devir,enquanto eles estão presos para todo o sempreem suas últimas palavras, seus últimos olhares,e tão remotos quanto o Imperador Valentinianoou os chefes dos Masságetas, sobre os quais nada sei,embora mal tenha passado um ano, ou dois. Ou três. Ainda posso derrubar árvores nas florestas do extremo […]
- [Nikki Giovanni – Permissões](https://singularidadepoetica.art/2023/02/03/nikki-giovanni-autorizados/): Eu matei uma aranhaNão uma reclusa marrom assassinaNem mesmo uma viúva negraE, pra falar a verdade,Foi apenas um tipoPequeno de aranha frágilQue deveria ter fugidoQuando peguei o livroMas ela não o fezE ela me assustouE eu a esmaguei Eu não acho queEsteja autorizada a Matar qualquer coisa Só porque estou Com medo Trad.: Nelson Santander Allowables I killed a spiderNot a murderous brown recluseNor even a black widowAnd if the truth were told thisWas only a smallSort of papery spiderWho should have runWhen I picked up the bookBut she didn’tAnd she scared meAnd I smashed her I don’t thinkI’m allowed To […]
- [Rudy Francisco - Compaixão](https://singularidadepoetica.art/2023/02/02/rudy-francisco-compaixao/): "Compaixão", um poema de Rudy Francisco que utiliza o gesto simples de poupar uma aranha para refletir sobre empatia, não violência e o desejo de ser tratado com a mesma misericórdia em situações de vulnerabilidade.
- [Linda Pastan – A filha](https://singularidadepoetica.art/2023/02/01/linda-pastan-a-filha/): Triste por saber que Linda Pastan – uma das minhas poetas norteamericanas favoritas – nos deixou. Ela deixa um legado imensurável à literatura americana, tendo sido uma das mais importantes e influentes poetisas de sua geração. Com sua escrita lírica e intensa, Linda Pastan capturou a essência da vida cotidiana e da alma humana, explorando temas como amor, perda, solidão e significado da vida. Suas obras são elogios à simplicidade e à beleza da vida. Vai fazer uma falta enorme. A filha Gostaria de ter tido outra chancecom o meu pai, desempenhadoum papel diferenteno drama da minha infância. Questões sem respostas […]
- [César Cantoni - Álbum de Família](https://singularidadepoetica.art/2023/01/31/cesar-cantoni-album-de-familia-2/): Morreu meu pai, morreram meus avós,morreram meus tios de sangue e por afinidade.Uma família inteira de ferreiros,marceneiros, curtidores, pedreiros,jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos,o que não sabe fazer nada com as mãos,logrei sobreviver impunementepara chorar diante de uma fotoo melhor do meu sangue. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 06/02/2018 César Cantoni – Album de Familia Murió mi padre, murieron mis abuelos,murieron mis tíos carnales y políticos.Una familia entera de herreros,ebanistas, curtidores, albañiles,yace ahora sin fuerzas bajo tierra. Y yo, el más inútil de todos,el que no sabe hacer […]
- [Pat Schneider – A paciência das coisas comuns](https://singularidadepoetica.art/2023/01/30/pat-schneider-a-paciencia-das-coisas-comuns/): É um tipo de amor, não acha?Como a caneca retém o chá,Como a cadeira se mantém robusta e sólida,Como o chão recebe a sola dos sapatosOu os dedos. Como as solas dos pés sabemOnde devem estar.Eu tenho pensado na paciênciaDas coisas comuns, em como as roupasEsperam respeitosamente nos guarda-roupasE o sabão seca discretamente no prato,E as toalhas sorvem a umidadeda pele das costas.E na adorável repetição dos degraus.E o que é mais generoso do que uma janela? Trad.: Nelson Santander The Patience of Ordinary Things It is a kind of love, is it not?How the cup holds the tea,How the chair […]
- [César Cantoni - O mais digno em nós](https://singularidadepoetica.art/2023/01/29/cesar-cantoni-o-mais-digno-em-nos/): Eu sempre achei que os ossos, com seu brilho mineralde pedra polida pela chuva, são o que de mais digno há em nós:sobrevivem longamente à putrefação indecorosa da carnee não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 26/01/2018 César Cantoni – Lo más digno de nosotros Siempre pensé que los huesos, con su destello mineralde piedra pulida por la lluvia, son lo más digno de nosotros:sobreviven largamente a la putrefacción indecorosa de la carney no tienen la astucia ni la maldad del alma.
- [Ruth Lepson – No dia da audiência do nosso divórcio](https://singularidadepoetica.art/2023/01/28/ruth-lepson-no-dia-da-audiencia-do-nosso-divorcio/): No dia da audiência do nosso divórcio você me convidou para almoçar em uma cantina.Nunca tínhamos sido tão gentis um com o outro.Quando você disse que eu ainda era uma desleixada, nós rimos.Depois do almoço, ficamos no estacionamento.Você disse: você tem a última palavra,mas eu respondi, Não, estou cansada de seraquela que resume tudo.Você tem a última palavra.Mas você não conseguiu pensar em nenhuma.Então você se encaminhou para o nosso carro prateado,e eu para o vermelho.Já se passaram três anos.E mesmo isso é só uma história agora.Ultimamente, não sinto mais como se vivesse com você.Mas eu me lembro de nossa amabilidade […]
- [Mario Benedetti - Angelus](https://singularidadepoetica.art/2023/01/27/mario-benedetti-angelus-2/): Quem imaginaria que este seria o destino? Vejo a chuva através de letras invertidasUma parede com manchas que parecem dignitáriosOs tetos dos ônibus brilhantes como peixesE essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu,Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braçosE uma cadeira que gira quando quero fugir.Outro dia que se vai e a isto ele estava destinado. É raro ter tempo para sentir-se triste:Há sempre uma encomenda, um telefonema, uma campanhia tocandoE claro, é proibido chorar sobre os livrosPorque não pega bem manchar a tinta. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema […]
- [Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2023/01/26/sem-titulo/)
- [Kwame Opoku-Duku – Eles irão lhe perguntar onde dói mais](https://singularidadepoetica.art/2023/01/26/kwame-opoku-duku-eles-irao-lhe-perguntar-onde-doi-mais/): Bendita seja a amarguraem sua essência, aquela luz calmaque fica cada vez mais calma,como o murmúrio abafado que escapade seus lábios enquanto você dorme.Eles irão lhe perguntar, criança,o que você sabe sobre o sofrimento.Eles irão lhe perguntar onde dóimais quando a dor se transforma,como o comprimento de onda da luzno céu noturno, quando os gritosde seus ancestrais ressoam para vocêdo oceano, e quando suas palavrasvibram em seu diafragmacomo um apático enxame sem rainha.Você pode, criança, sentir-separa sempre de uma certa maneira, masdeve levantar-se todas as manhãs e vero sol nascer do oceano.Lembre-se de amar a sua amada,lembre-se da bondade e e […]
- [Inês Lourenço – Sala Provisória](https://singularidadepoetica.art/2023/01/25/ines-lourenco-sala-provisoria-2/): Nunca se sabequando estamos num lugarpela última vez. Numa casaque vai ser demolida, numa salaprovisória que vai encerrar, num velhocafé que mudará de ramo, comopágina virada jamais reaberta, comocanção demasiado gasta, comoabraço tornado irrepetível, numaporta a que não voltaremos. REPUBLICAÇÃO: publicado no blog originalmente em 02/12/2018
- [Maria do Rosário Pedreira – retina](https://singularidadepoetica.art/2023/01/24/maria-do-rosario-pedreira-retina/): retina Eu, que nunca pensei deixar de serfilha, faço agora de mãe da minha mãeaos domingos: sou a sua muleta nos longos corredores da casa antiga echego-lhe mantas aos joelhos porqueos velhos tremem em vida com o frioda morte. Para fugir às coisas que a entristecem, pergunto-lhe por gentedo passado, pois sei que o que sucedeuontem já está demasiado longe da sua memória – e, nos dias bons, a respostadura a tarde inteira. Ao princípio, a minha mãe censurava a forma como euia vestida, mas já há muito tempo que nãodiz nada. Pensei que tivesse finalmente acertado com o seu gosto, […]
- [Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis](https://singularidadepoetica.art/2023/01/23/ines-lourenco-balada-dos-amores-dificeis-2/): “Balada dos Amores Difíceis”, um poema de Inês Lourenço que celebra os amores anônimos e persistentes, aqueles que sustentam o mundo sem jamais se tornarem lenda ou verso célebre.
- [Les Murray – Criação contínua](https://singularidadepoetica.art/2023/01/22/les-murray-criacao-continua/): Não trazemos nada para este mundoexceto nossa capacidade gradual de criá-lo, dentre tudo o que desaparecee tudo o que viverá mais que nós. Trad.: Nelson Santander Continuous Creation We bring nothing into this worldexcept our gradual abilityto create it, out of all that vanishesand all that will outlast us.
- [Inês Lourenço – As Coisa que Cessam](https://singularidadepoetica.art/2023/01/21/ines-lourenco-as-coisa-que-cessam-2/): Tanto desprezopelo que é transitório e finito. Não servireisenhor que possa morrer. Mas passamosa vida a amar todas as fragilidadesdas coisas que cessam. Hácoisa mais breve do que um sorriso?Coisa mais curta que a alegriade um reencontro? Tudo o que amamosé passageiro e frágil ouas duas coisas. Mas persegue-nosa nostalgia do infindávelcomo uma tara hereditária. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/01/2018
- [Ursula K. Le Guin - Parentesco](https://singularidadepoetica.art/2023/01/20/ursula-k-le-guin-parentesco/): Ardendo muito lentamente, a grande árvore da florestase ergue da sutil cavidade de nevederretida ao seu redor pelo brando e duradourocalor de seu ser e de sua vontade de serraiz, tronco, ramo, folha, e de conhecer aterra escura, a luz do sol, o toque do vento, o canto do pássaro. Desenraizados, desassossegados e de sangue quente, nósardemos em labaredas que nos cegam para este lento,elevado e fraterno fogo da vida, tão forteagora quanto na brotação, dois séculos atrás. Trad.: Nelson Santander Kinship Very slowly burning, the big forest treestands in the slight hollow of the snowmelted around it by the mild, […]
- [Mario Quintana – Envelhecer](https://singularidadepoetica.art/2023/01/19/mario-quintana-envelhecer-2/): Antes, todos os caminhos iam.Agora todos os caminhos vêm.A casa é acolhedora, os livros poucos.E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 10/01/2018
- [Maria Mazziotti Gillan – Foi uma semana](https://singularidadepoetica.art/2023/01/18/maria-mazziotti-gillan-foi-uma-semana/): “Foi uma semana … de olhar para cima, para dentro, abaixo da superfície e para o passado.”—New York Times, D3, May 5, 2013 Este ano foi assim para mim, você, morto já há três anos e transposto para aquele outro lugar onde eu não possotoca-lo, e que deixei para trás olhando para cima, para aquele lugarque eu imaginava ser o céu e onde espero que você possa sentirminha falta. A NASA anunciou seus planos de trazer uma amostra de Martepara a Terra. Gostaria de imaginar que eu poderia trazer de volta algumarecordação sua, embora meu amigo me diga que tenho quedeixa-lo […]
- [Tomas Tranströmer – Minnena Ser Mig (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2023/01/17/tomas-transtromer-minnena-ser-mig-em-duas-traducoes/): Memórias que me Observam Manhã de Junho, cedo demais para acordar,tarde demais para adormecer. Tenho de sair – é densa a folhagem dasmemórias, perseguem-me com o seu olhar. Não se deixam ver, misturam-se todascom o fundo, verdadeiros camaleões. Tão perto estão que as ouço respiraremaqui onde o canto do pássaro ensurdece. Trad.: José Eduardo Reis As recordações olham para mim Uma manhã de Junho quando ainda é cedo para acordarmas demasiado tarde para voltar a pegar no sono. Embrenho-me pelo arvoredo repleto de recordaçõese elas seguem-me com os seus olhares. Autênticos camaleões, elas não se mostram,diluem-se literalmente no cenário. […]
- [Mary Oliver – Flores brancas](https://singularidadepoetica.art/2023/01/16/mary-oliver-flores-brancas/): Ontem à noiteno campoeu me deitei no escuropara pensar na morte,mas em vez disso adormeci,como se estivesse em um quarto vasto e inclinadorepleto daquelas flores brancasque se abrem todo verão,viscosas e desordenadas,nos tépidos campos.Quando desperteia luz da manhã deslizavaperante as estrelas,e eu estava cobertade flores.Não seicomo aconteceu —não seise meu corpo mergulhoupara baixo das adocicadas videirasem algum tipo de afinidade sonoafiadacom as profundezas, ou seaquela energia verdeergueu-se como uma ondae se enroscou em mim, reivindicando-meem seus braços rudes.Eu a afastei, mas não me levantei.Nunca em minha vida me sentira tão suave,ou tão escorregadia,ou tão resplandecentemente vazia.Nunca em minha vidame sentira tão […]
- [Rainer Maria Rilke – Fonte Romana](https://singularidadepoetica.art/2023/01/15/rainer-maria-rilke-fonte-romana-2/): Vila Borghese Duas velhas bacias sobrepondosuas bordas de mármore redondo.Do alto a água fluindo, devagar,sobre a água, mais embaixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,como que só no côncavo da mão,entremostrando um singular objeto:o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia,em círculos e círculos, constante-mente, impassível e sem nostalgia, descendo pelo musgo circundanteao espelho da última baciaque faz sorrir, fechando a travessia. Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 27/12/2017 Römische Fontäne Zwei Becken, eins das andere übersteigendaus einem alten runden Marmorrand,und aus dem oberen Wasser leis sich neigendzum Wasser, […]
- [Andrea Cohen – Barganha](https://singularidadepoetica.art/2023/01/14/andrea-cohen-barganha/): Pagamos-lhe quasenada — menos do que o poucoque ele pedira — para nos levar ao anoitecer das pirâmidesem camelos deserto adentro.Estipêndio tão escasso para nos levar, sem reclamar, para tão longe —até aqui, sem uma estrela. Estávamos no meio do nada, ou em sua borda.Amigos, perguntou ele, de dentro daquela escuridão,quanto vocês me pagarãopara leva-los de volta? Trad.: Nelson Santander Bargain We paid him nextto nothing—less than the littlehe’d asked for—to lead us at dusk from the pyramidson camels into the desert.Such slim wages to take us, withoutcomplaint, all that way—so far, without a star. We were in the middleof nowhere, […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vigília](https://singularidadepoetica.art/2023/01/13/giuseppe-ungaretti-vigilia-2/): “Vigília”, um poema de Giuseppe Ungaretti que transforma a noite ao lado do cadáver de um companheiro em revelação extrema: diante da morte brutal, o apego à vida torna-se absoluto.
- [Dan Albergotti - Coisas para fazer no ventre da baleia](https://singularidadepoetica.art/2023/01/12/dan-albergotti-coisas-para-fazer-no-ventre-da-baleia/): Meça as paredes. Conte as costelas. Registre os longos dias.Olhe para o céu azul por entre os esguichos. Faça pequenas fogueirascom os cascos partidos dos barcos de pesca. Pratique sinais de fumaça.Ligue para os velhos amigos e escute os ecos de vozes distantes.Organize sua agenda. Sonhe com a praia. Busque por toda jornadapelo pálido brilho da luz. Trabalhe em seus relatórios. Recapitulecada uma das dez milhões de escolhas de sua vida. Suporte os momentosde autoaversão. Encontre as evidências dos que aqui estiveram antes de você.Destrua-as. Tente ficar muito tranquilo e ouça o som das engrenagens e da água em movimento. Ouça […]
- [Dylan Thomas – E a Morte não terá nenhum Domínio](https://singularidadepoetica.art/2023/01/11/dylan-thomas-e-a-morte-nao-tera-nenhum-dominio-2/): E a morte não terá nenhum domínio. Nus, os mortos irão se confundir Com o homem no vento e a lua no poente; Quando seus alvos ossos descarnados se tornarem pó, Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos; Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos, Ainda que submersos pelo mar, haverão de ressurgir; Ainda que os amantes se percam, o amor persistirá; E a morte não terá nenhum domínio. E a morte não terá nenhum domínio. Aqueles que há muito repousam sob as dobras do mar Não morrerão com a chegada do vento; Contorcendo-se em martírios quando romperem os tendões, […]
- [Judith Hemschemeyer — Naquele verão](https://singularidadepoetica.art/2023/01/10/judith-hemschemeyer-naquele-verao/): Naquele verãodepois que você se enforcousem perguntar a ninguém que o amavase eles podiam suportar dei por mim arrastando mangueirasregando cada centímetro desse imenso gramadodia após diaperfeito obcecadaincapaz de deixar mais alguma coisauma única folha de gramamorrer. Trad.: Nelson Santander That Summer That summer after you hanged yourself without asking anyone who loved you if they could bear it I found myself dragging hoses watering every inch of this huge lawn over and overday after perfect day obsessed unable to let one more thing one single blade of grassdie.
- [Mario Cesariny – Os Pássaros de Londres](https://singularidadepoetica.art/2023/01/09/mario-cesariny-os-passaros-de-londres-2/): Os pássaros de Londrescantam todo o invernocomo se o frio fosseo maior aconchegonos parques arrancadosao trânsito automóvelnas ruas da neve negrasob um céu sempre duroos pássaros de Londresfalam de esplendorcom que se ergue o estioe a lua se derramapor praças tão sem corque parecem de panoem jardins germinandosob mantos de gelocomo se gelo forao linho mais bordadoou em casas como aquelaonde Rimbaud comeue dormiu e estendeua vida desesperadaestreita faixa amarelaespécie de paralelaentre o tudo e o nadaos pássaros de Londres quando termina o diae o sol consegue um poucoabraçar a cidadeà luz razante e forteque dura dois minutosnas árvores que surgemsubitamente […]
- [Matthew Olzmann – Carta à pessoa que gravou suas iniciais no mais antigo pinheiro de folha longa da América do Norte](https://singularidadepoetica.art/2023/01/08/matthew-olzmann-carta-a-pessoa-que-gravou-suas-iniciais-no-mais-antigo-pinheiro-de-folha-longa-da-america-do-norte/): Southern Pines, Carolina do Norte Diga-me como é viver semcuriosidade, sem sentir admiração. Navegarem águas cristalinas, desviando os olhosdos recifes de algas que ondulamabaixo de você, ignorando o cintilardas escamas de sereias no nevoeiro,olhando para o mundo e sentindoapenas tédio. Estarà beira do precipício de algum vale selvagem,as águias circulando, um rebanho de caribustrovejando lá embaixo, e bocejarcom indiferença. Descobriralgo primordial e sagrado.Sentir o cheiro da terraacolhendo-o por toda parte.Absorver tudo isso e, então,empunhar sua faca. Trad.: Nelson Santander Letter to the Person Who Carved His Initials into the Oldest Living Longleaf Pine in North America Southern Pines, NC Tell me […]
- [Ruy Espinheira Filho – Canção de Depois de Tanto](https://singularidadepoetica.art/2023/01/07/ruy-espinheira-filho-cancao-de-depois-de-tanto-2/): a Roniwalter Jatobá Vamos beber qualquer coisa,que a vida está um desertoe o coração só me pulsasombras de Ido e do Incerto. Vamos beber qualquer coisa,que a lua avança no mare há salobros fantasmasque não quero visitar. Vamos beber qualquer coisaamarga, rascante, rude,brindando sobre o já friocadáver da juventude. Vamos beber qualquer coisa.O que for. Vamos beber.Mesmo porque não há maiso que se possa fazer. REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente em 08/12/2017
- [Don Peterson – Compaixão](https://singularidadepoetica.art/2023/01/06/don-peterson-compaixao/): “Compaixão”, um poema de Don Peterson que transforma o adeus a um animal amado em gesto extremo de ternura, onde a morte se confunde com cuidado e fidelidade.
- [Carlos Drummond de Andrade - Escada](https://singularidadepoetica.art/2023/01/05/carlos-drummond-de-andrade-escada/): Escada, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Deborah Pope - Passando](https://singularidadepoetica.art/2023/01/04/deborah-pope-passando/): Como um carro engatado,uma galinha estúpida demais para perceberque sua cabeça se foi,ou aquele som que não cessamesmo depois do filmeter caído da bobina,um telefonetocando e tocandona casa de onde todosse mudaram,através de salas onde o póse aprofunda em camadas,e o cadeado é desnecessário,assim eu continuo te amando,meu coração claudicando,um músculo entornandoo que não é mais desejado,e minhas palavras movendo-se,como um trem em seus trilhos,em direção a uma estação lacrada,fechada por anos,como o último falantede um belo idioma queninguém mais pode ouvir. Trad.: Nelson Santander Aqui: Poetry, Fevereiro de 1995 Getting Through Like a car stuck in gear,a chicken too stupid […]
- [Petrarca - Soneto CXXXIII ("O Amor me Assinalou com sua Seta")](https://singularidadepoetica.art/2023/01/03/petrarca-soneto-cxxxiii-o-amor-me-assinalou-com-sua-seta/): "Soneto CXXXIII (“O Amor me Assinalou com sua Seta”)", um poema de Francesco Petrarca que retrata o amor como força avassaladora e paradoxal, comparando seus efeitos ao fogo, ao sol e ao vento, e explorando a tensão entre êxtase, dor e aniquilação amorosa.
- [Juan Vicente Piqueras - Como estás](https://singularidadepoetica.art/2023/01/02/juan-vicente-piqueras-como-estas/): Morri na última terça-feira e ninguém notou. O mundo permaneceu o mesmo, mudando e imutável.Não houve furacão, anúncio, tempestadeou nuvens por entre as quais surgisseaquele raio de luz que aparecianas capas dos catecismos. Minha filha continuou a servir-me o chá no mesmo horárioe eu continuo a sorve-lo em pequenos goles com o canudinho que ela coloca entre os meus lábios. Meu marido me disse não me deixese eu já havia partido. As visitas seguram-me em uma das mãos.A outra não está mais aqui. Trazem-me presentes que já não me servem,e perguntas que não sei responder.Como estou, por exemplo,ou como tenho dormido, […]
- [Miguel Torga – Sísifo](https://singularidadepoetica.art/2023/01/01/miguel-torga-sisifo/): Recomeça…Se puderesSem angústiaE sem pressa.E os passos que deres,Nesse caminho duroDo futuroDá-os em liberdade.Enquanto não alcancesNão descanses.De nenhum fruto queiras só metade.E, nunca saciado,Vai colhendoIlusões sucessivas no pomar.Sempre a sonharE vendo,Acordado,O logro da aventura.És Homem, não te esqueças!Só é tua a loucuraOnde, com lucidez, te reconheças.
- [Retrospectiva 2022](https://singularidadepoetica.art/2023/01/01/retrospectiva-2022/): Segue abaixo uma relação dos melhores poemas publicados no blog no ano de 2022, em ordem cronológica pelo mês de postagem. Eu pretendia limitar a retrospectiva a um total de 50 textos, mas isso não foi possível. O ano foi fértil e tive a felicidade de traduzir e publicar muita coisa boa este ano, em número que supera o limite autoimposto. Paciência. Dos internautas, espero, resignado, que apreciem a seleção. De mim mesmo, pretendo continuar com o blog no ano que vem. Minha motivação é que este é um hobby que pratico com enorme prazer e, por ora, não pretendo abandona-lo. […]
- [Matthew Sweeney - Crucificação](https://singularidadepoetica.art/2022/09/15/matthew-sweeney-crucificacao/): Eu cozinhava uma beterraba quando a campainha tocou.‘Quem será a essa hora?’, murmurei, marchandopara a porta. Quando a abri, o sol brilhavatanto que só vi silhuetas, mas discernique pairava sobre tudo uma grande cruz preta.Havia dois homens, um com cara de bode,o outro um sujeito enorme com um cigarrona boca e suor no rosto de […]
- [Derek Walcott - O Amor Depois do Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/09/14/derek-walcott-o-amor-depois-do-amor-2/): “O Amor Depois do Amor”, um poema de Derek Walcott que celebra o reencontro consigo mesmo como a mais profunda forma de amor, quando finalmente nos sentamos à mesa da própria vida.
- [Gillian Clarke – Advento](https://singularidadepoetica.art/2022/09/13/gillian-clarke-advento/): Tempos sombrios. Dezembro.O eixo da terra inclinadoe os minutos caem do diaum pouco de cada vez. Assim, dormimos além da escuridão,sonâmbulos das horas cinzentas.Impossível crer na luz,ou em um nascimento, até esta alvorada invernal, a raposavoltando para casa com sangue na boca,todos os elementos químicos da aurora em seus olhos,e o céu abismado. Trad.: Nelson […]
- [Roger Wolfe - Pálpebra](https://singularidadepoetica.art/2022/09/12/roger-wolfe-palpebra-2/): Pedro Salinasdisse num poema1que não quer deixar de sentira dor da ausênciada mulher que amaporque isso é tudoo que dela fica:a dor.Não me recordo das suas palavras exactas.Ele di-lo melhor do que eu.Eram outros tempos.Salinas está morto.A mulher que ele amava também.Em breve o estaremos todos.A vida é uma simples pálpebra.Abre os olhose fecha-os. Trad.: […]
- [Jack Gilbert - Fracasso e voo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/11/jack-gilbert-fracasso-e-voo/): O fracasso não encerra a experiência: dele pode nascer uma forma inesperada de grandeza. Jack Gilbert aproxima amor, casamento e mortalidade para observar como a vida se eleva justamente quando aceita risco e imperfeição.
- [Pedro Salinas - Não quero que te vás](https://singularidadepoetica.art/2022/09/10/pedro-salinas-nao-quero-que-te-vas-2/): Não quero que te vás,dor, última formade amar. Sinto-me vivoquando me dóis,não em ti, nem aqui,mais longe: na terra, no anode onde tu vens,no amor com elae tudo o que foi.Nessa realidadesubmersa que se negaa si mesma e insisteem nunca ter existido,que foi apenas um pretextoque encontrei para viver.Se tu não me restasses,ó dor irrefutável,até […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Romaria](https://singularidadepoetica.art/2022/09/09/carlos-drummond-de-andrade-romaria/): Romaria A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos, cheia de pedras,sobem a ladeira que leva a Deuse vão deixando culpas no caminho. Os sinos tocam, chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados.Já estamos puros, sino, obrigados,mas trazemos flores, prendas e rezas. No alto do morro chega a procissão.Um leproso de […]
- [Octavio Paz - Irmandade](https://singularidadepoetica.art/2022/09/08/octavio-paz-irmandade-2/): Homenagem a Claudio Ptolomeo Sou homem: duro poucoe enorme é a noite.Mas olho para cima:as estrelas escrevem.Sem entender, compreendo:também sou escritae neste exato instantealguém me soletra. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: Poema publicado no blog originalmente em 07/10/2017 – agora traduzido por mim Hermandad Homenaje a Claudio Ptolomeo Soy hombre: duro […]
- [Joan Margarit - Cumprimentar-se](https://singularidadepoetica.art/2022/09/07/joan-margarit-cumprimentar-se/): Aprendeste o gesto com os anos.Encontras o vizinho, vos cumprimentais,lado a lado, dois velhos na calçadacada um fechando a própria porta.As casas. E a convenção generosade algumas palavras na rua.Para além, já nada mais restaque esta paixão final, a calmasolitária e feroz das recordaçõessob um pedaço de azul nítido como um cálculo.Em seu quintal, cada […]
- [Ferreira Gullar – Digo Sim](https://singularidadepoetica.art/2022/09/06/ferreira-gullar-digo-sim-2/): Poderia dizerque a vida é bela, e muito,e que a revolução caminha com pés de flornos campos de meu país,com pés de borrachanas grandes cidades brasileirase que meu coraçãoé um sol de esperança entre pulmõese nuvens Poderia dizer que meu povoé uma festa só na vozde Clara Nunesno rodardas cabrochas no Carnavalda Avenida.Mas não. O […]
- [Ada Limón – O que eu quero lembrar](https://singularidadepoetica.art/2022/09/05/ada-limon-o-que-eu-quero-lembrar/): Logo antes da casa do general Vallejo,com suas imponentes pedras e paredes amarelas, há um campo ao longo do caminhopara o qual as chuvas de primavera conduzem os sapos, toda uma sinfonia deles, inaugurandoas horas logo após o sol afundar no Oceano Pacífico, a apenasuma hora de distância. Por que estou colocando você aqui? Estou […]
- [Mário Chamie - Cervo, Servo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/04/mario-chamie-cervo-servo-2/): 1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas, […]
- [Hart Crane - Louvor a uma urna](https://singularidadepoetica.art/2022/09/03/hart-crane-louvor-a-uma-urna/): Louvor a uma urna In Memoriam: Ernest Nelson Era do norte o rosto ternoDe falso exilado, juntandoDe Pierrô o olhar eternoE a gargalhada de Gargantua. Os sonhos que me confiavaDo travesseiro branco, insone,Agora eu sei, eram heranças –Corcéis suaves do ciclone. No monte oblíquo a lua oblíquaNos deu presságios indistintosDo que ainda vivo o morto […]
- [Elizabeth Bishop - A Arte de Perder](https://singularidadepoetica.art/2022/09/02/elizabeth-bishop-a-arte-de-perder-2/): A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não […]
- [Lew Welch – Pequena oração para manter-se são](https://singularidadepoetica.art/2022/09/01/lew-welch-pequena-oracao-para-manter-se-sao/)
- [Adam Zagajewski - Os três anjos](https://singularidadepoetica.art/2022/09/01/adam-zagajewski-os-tres-anjos/): “Os três anjos”, um poema de Adam Zagajewski que encena um diálogo entre o humano e o transcendente para refletir sobre medo, sofrimento, beleza e esperança.
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetoides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2022/08/31/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos-3/): VI Nada de mergulhos. É na superfícieque o real, minúsculo plâncton, se trai.Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneirado funcional. E o sofrimento, ai,esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti-nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, meufilho. Só o raso é […]
- [Brigit Pegeen Kelly – Canção](https://singularidadepoetica.art/2022/08/30/brigit-pegeen-kelly-cancao/): Ouça: havia uma cabeça de cabra suspensa por cordas em uma árvore.Por toda noite ela ficou lá pendurada e cantou. E aqueles que a ouviramSentiram um aperto em seus corações e pensaram que estavam ouvindoO canto de uma ave noturna. Eles se sentaram em suas camas e depoisSe deitaram novamente. Na brisa noturna, a cabeça […]
- [Manuel Bandeira - Poema Só Para Jaime Ovalle](https://singularidadepoetica.art/2022/08/29/manuel-bandeira-poema-so-para-jaime-ovalle-2/): Quando hoje acordei, ainda fazia escuro(Embora a manhã já estivesse avançada).Chovia.Chovia uma triste chuva de resignaçãoComo contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.Então me levantei,Bebi o café que eu mesmo preparei,Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog […]
- [Lawrence Ferlinghetti – Receita para a felicidade em Khabarovsk ou em qualquer lugar](https://singularidadepoetica.art/2022/08/28/lawrence-ferlinghetti-receita-para-a-felicidade-em-khabarovsk-ou-em-qualquer-lugar/): Uma grande avenida arborizadacom uma grande cafeteria ao solcom café preto forte em xícaras muito pequenas. Uma mulher ou um homem não necessariamentemuito bonito(a) que te ame. Um dia aprazível. Trad.: Nelson Santander Recipe For Happiness in Khabarovsk Or Anyplace One grand boulevard with treeswith one grand cafe in sunwith strong black coffee in very […]
- [Manuel Bandeira - Profundamente](https://singularidadepoetica.art/2022/08/27/manuel-bandeira-profundamente-2/): Quando ontem adormeciNa noite de São JoãoHavia alegria e rumorEstrondos de bombas luzes de BengalaVozes, cantigas e risosAo pé das fogueiras acesas. No meio da noite desperteiNão ouvi mais vozes nem risosApenas balõesPassavam errantesSilenciosamenteApenas de vez em quandoO ruído de um bondeCortava o silêncioComo um túnel.Onde estavam os que há poucoDançavamCantavamE riamAo pé das fogueiras […]
- [Garrett Hongo – Mendocino Rose](https://singularidadepoetica.art/2022/08/26/garrett-hongo-mendocino-rose/): Na Califórnia, ao norte da Golden Gate,a vinha cresce por quase todos os cantos, brotando de pastagens,de baixo das sombras dos eucaliptos à beira da estrada,ultrapassando todos os casebres fantasmas e cercas quebradas que se desintegram de podres,encharcadas pelas chuvas frescas. Ela mimetiza, em suas réplicas firmes, parecidas com nuvens, a forma de tudo o que asfixia,uma delicada vegetação treliçada […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Encontro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/25/carlos-drumond-de-andrade-encontro-2/): Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.Se a noite me atribui poder de fuga,sinto logo meu pai e nele ponhoo olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madrugae seu rosto, nem triste nem risonho,é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxugasuor algum, na calma de meu sonho. […]
- [Donizete Galvão - Solitude](https://singularidadepoetica.art/2022/08/24/donizete-galvao-solitude/): Juntos, em solitude. Cada qual com sua chaga. Cada qual com sua cruz. Dois corpos ardentes tão próximos, separados pela geografia que a mágoa desenha. Entre os braços, interpõem-se desertos, salinas e dunas. O amor morreu? Não. Condenou-se. Soterrou-se em veios de duro e negro minério. Duas árvores cujas raízes trançaram-se rumo ao fundo. Que […]
- [Giuseppe Ungaretti - Céu Claro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/23/giuseppe-ungaretti-ceu-claro-2/): Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tantanévoaumaa umase desvelamas estrelas Respiroo frescorque me deixaa cor do céu Me reconheçoimagempassageira Presa de um cicloimortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/09/2017 Sereno Bosco di Courton Iuglio 1918 Dopo tantanebbiaa unaa unasi svelanole stelle. Respiroil frescoche mi lasciail colore del […]
- [Alison C. Rollins - Para quem me lê agora](https://singularidadepoetica.art/2022/08/22/alison-c-rollins-para-quem-me-le-agora/): Para quem me lê agora depois de Jorge Luis Borges Você é invulnerável.A única constante é a mudança.Tal repetição leva à nostalgiado presente. Tenso e tímidovocê recita este livro de cor. Àscegas, você me confia à memória.O calvo e impertinente filósofosabe que o caráter do homem é o seu destino.Este poema – não vivo, mas […]
- [Nicanor Parra – Acácias](https://singularidadepoetica.art/2022/08/21/nicanor-parra-acacias-2/): Passeando anos atráspor uma rua cheia de acácias em florsoube por um amigo bem informadoque você tinha acabado de se casar.Respondi que por certoeu não tinha nada a ver com o assunto.Mas apesar de nunca ter amado você– e disso você sabe melhor do que eu –cada vez que florescem as acácias– imagina só –sinto […]
- [Tyree Daye - Rio Neuse](https://singularidadepoetica.art/2022/08/20/tyree-daye-rio-neuse/): Diga-lhes para não iremà orla sozinhos. Diga-lhes ondepodem beber sem precisar olharpor cima dos ombros. Diga-lhes que o afogamentoestá em terceiro em sua lista de preocupações.A primeira é deite-se, a segunda, vem cá.Mesmo a água em que fui batizadonão é segura. Eu sabia que Deusera homem porque ele pôsum bebê em Maria sem a per-missão […]
- [Ana Martins Marques - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2022/08/19/ana-martins-marques-interiores-2/): AÇUCAREIRO De amargobastao amor Agridoce,ela disse Mas a mimpareceuamargo CADEIRA I Repetesdiariamenteos gestosdo primeiro homemque se sentounuma tarde quenteolhando as savanas II Pousode gigantescos pássaroscansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesaessas doces evidênciasda morte? CRISTALEIRA Guardae revelaa nudezbrancada louçao incêndiodespareadodos cristais TALHERES Colher Se o sol nelabatesseem cheiopor exemplonuma mesa postano jardimimediatamente […]
- [Lisel Mueller – Há manhãs](https://singularidadepoetica.art/2022/08/18/lisel-mueller-ha-manhas/): Mesmo agora, em que o enredopede que eu me torne pedra,o sol intervém. Em algumas manhãsde verão eu saioe o céu se abree se derrama sobre mimcomo se eu fosse um santoprestes a morrer. Mas o enredopede que eu viva,seja comum, diga nadaa ninguém. Dentro de casaos espelhos queimam quando eu passo. Trad.: Nelson Santander […]
- [W. H. Auden - Aquele que Ama Mais](https://singularidadepoetica.art/2022/08/17/w-h-auden-aquele-que-ama-mais-2/): Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais […]
- [John Murillo – Variações sobre um tema de Elizabeth Bishop](https://singularidadepoetica.art/2022/08/16/john-murillo-variacao-sobre-um-tema-de-elizabeth-bishop/): Comece com a perda. Perca tudo. Então perca tudo outra vez.Perca uma boa mulher em um dia ruim. Encontre uma mulher melhor,e depois perca cinco amigos correndo atrás dela. Aprenda a perder como sesua vida dependesse disso. Aprenda que sua vida depende disso.Aprenda como se aprende caratê, ou a andar de bicicleta. Aprenda-o, domine-o.Perca dinheiro, […]
- [Ricardo Silvestrin - Bilhete](https://singularidadepoetica.art/2022/08/15/ricardo-silvestrin-bilhete-2/): Não me parecias frágil,via-te doce.Talvez fosses mesmo forte,é preciso ser valentepra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo.Que rio obscuro e discretote puxava para o fundo,sem saber nadar,sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta,um poema, um bilhete de suicida.Como se quisesses dizerque a mortenão deve explicações à vida REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog […]
- [Timothy Liu - Os restos](https://singularidadepoetica.art/2022/08/14/timothy-liu-os-restos-mortais/): Os restos —Wuxi, China Saindo do novo cemitério, meu paipegou a minha mão, tendo acabado de reenterrar os restosmortais de seu próprio pai e suas duas esposas —sua mãe morrera de tuberculose quando ele tinha dez anos. Ele pegou a minha mão e disse: Agora posso morrer em pazmesmo que não tenhamos os ossos verdadeiros. Os […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Meio-dia](https://singularidadepoetica.art/2022/08/13/sophia-de-mello-breyner-andresen-meio-dia-2/): Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.O sol no alto, fundo, enorme, aberto,Tornou o céu de todo o deus deserto.A luz cai implacável como um castigo.Não há fantasmas nem alvas,E o mar imenso solitário e antigo,Parece bater palmas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/08/2017
- [Jean Sprackland – Perdendo o escuro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/12/jean-sprackland-perdendo-o-escuro/): Novembro, quando o dia deveria terminar mais cedocomo um livro maçante. Mas naquela tardeuma pequena nuvem em forma de ponto de interrogaçãopassou sobre o sol e se dissolveu.Seis horas; oito; dez. E a luz do diaainda inundava a rua espantada. Uma dádiva. Como uma daquelas noites de verãoem que nos sentamos, copo na mão,sob a […]
- [Rainer Maria Rilke - O Mundo Estava no Rosto da Amada](https://singularidadepoetica.art/2022/08/11/rainer-maria-rilke-o-mundo-estava-no-rosto-da-amada-2/): “O Mundo Estava no Rosto da Amada”, um poema de Rainer Maria Rilke que concentra o infinito no rosto amado e revela o amor como excesso que nos transborda e nos desfaz.
- [W. S. Merwin — Um aniversário](https://singularidadepoetica.art/2022/08/10/w-s-merwin-um-aniversario/): Algo continua e eu não sei como chamá-loembora o idioma esteja cheio de sugestõesem termos de linguagem mas elas todas são anônimase é quase seu aniversário música junto aos meus ossosnestas noites ouvimos os cavalos correndo na chuvaao parar a lua aparece e nós ainda estamos aquias goteiras no telhado continuam pingando depois que a […]
- [Paulo Henriques Britto - Envoi](https://singularidadepoetica.art/2022/08/09/paulo-henriques-britto-envoi-2/): O tempo, que a tudo distorce,às vezes alisa, conserta,e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morsede instantes sem rumo e roteiroentão dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquivaa gente retoca e remendaaté ser coisa que se entenda, mas algo que na carne vivase esboça, se traça, se […]
- [Sara Teasdale - Eu não sou tua](https://singularidadepoetica.art/2022/08/08/sara-teasdale-eu-nao-sou-tua/): Eu não sou tua, e não estou perdida em ti,Não estou perdida embora deseje estarPerdida como uma vela acesa ao meio-dia,Perdida como um floco de neve no mar. Tu me amas, e eu ainda te consideroUma alma com brilho e beleza incontroversa,Contudo, eu sou eu, que anseia por estarPerdida como uma luz que na luz […]
- [Francis J. Quirós - Efêmero](https://singularidadepoetica.art/2022/08/07/francis-j-quiros-efemero/): Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia: […]
- [Linda Pastan - Chegamos ao silêncio](https://singularidadepoetica.art/2022/08/06/linda-pastan-chegamos-ao-silencio/): Chegamos ao silêncio lentamente. Tragados para o mundoem uma onda de somdele saímos mais tarde com as bocas fechadas,nossas línguas tornadas pesadas como pedras para nos ancorarna terra. Agora ouvimoso vento nas folhas farfalhantes,um burburinho de águasobre as pedras,a batalha musicaldos pássaros.Considere a orelhaem forma de clave de fá,mas vazia.Considere os espaços entre as estrelas,solilóquios […]
- [Vinicius de Moraes - O poeta Hart Crane suicida-se no mar](https://singularidadepoetica.art/2022/08/05/vinicius-de-moraes-o-poeta-hart-crane-suicida-se-no-mar-2/): Quando mergulhaste na águaNão sentiste como é friaComo é fria assim na noiteComo é fria, como é fria?E ao teu medo que por certoTe acordou da nostalgia(Essa incrível nostalgiaDos que vivem no deserto…)Que te disse a Poesia? Que te disse a PoesiaQuando Vênus que luziaNo céu tão perto (tão longeDa tua melancolia…)Brilhou na tua agoniaDe […]
- [Faith Shearin - Cinzas, cinzas](https://singularidadepoetica.art/2022/08/04/faith-shearin-cinzas-cinzas/): O inverno é a morte pela qual todos temos esperado.Mesmo nas Festas, em que o ano novo é louvado,os galhos se quebram sob o peso da neve.Conhecemos esta estação como reconheceremos o fimde nossas vidas quando a vida estiver na metade.Os anos seguem o caminho dos dentes da infância: premidos tãoesperançosamente sob travesseiros limpos. Pele […]
- [Abel Silva - Navegações](https://singularidadepoetica.art/2022/08/03/abel-silva-navegacoes-2/): Minha casa está calma,eu é que sou turbulento,o país navega, dizem,eu é que me arrebentoeu é que sempre inventotoda esta ventaniaeu é que não me contentocom o rumo da romaria não sei se a sorte é cegaou eu que vivo a teimar:sei que eu sou o barcoo marinheiroe o mar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog […]
- [Juan Vicente Piqueras - O barbeiro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/02/juan-vicente-piqueras-o-barbeiro/): Nos últimos meses, olhava-se no espelhoe via um intruso. Irritava-se com ele. Já estás aqui outra vez? Será possível?Sai daqui agora mesmo.Para a rua, vagabundo, dizia-lhe. Era-lhe doloroso, era-nos doloroso,toda vez que ele tinha que ir ao banheiro.Tínhamos que conduzi-lo pelo braço, convence-lodo porquê. Ele se tornou o dono desse lugar, dizia,quem lhe deu as […]
- [Philip Larkin - A Igreja Indo-se...](https://singularidadepoetica.art/2022/08/01/philip-larkin-a-igreja-indo-se-2/): Quando estou certo de que nada está ocorrendo,Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta.Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dosLivrinhos; as juncadas secas, que se cortamPara o domingo; bronze e objetos a cobrir oAltar; um órgão impecável e pequeno;Silêncio tenso, de bolor, que salta à vista,Há muito fermentado. Sem […]
- [Suzanne Buffam – Basta](https://singularidadepoetica.art/2022/07/31/suzanne-buffam-basta/): Estou usando óculos escuros dentro de casaPara combinar com meu baixo astral. Eu deixei todo o açúcar de fora da torta.Minha raiva é uma espécie de raiva doméstica. Aprendi com minha mãeQue aprendeu com a mãe dela antes dela E assim por diante.Certamente os gregos tinham uma palavra para isso. E hoje com certeza os […]
- [T. S. Eliot - Os Homens Ocos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/30/t-s-eliot-os-homens-ocos-2/): “A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada, […]
- [Gregory Fraser - Depois do fogo](https://singularidadepoetica.art/2022/07/29/gregory-fraser-depois-do-fogo/): Ouvi dizer que você está indo para a Itália, ele disse1. Você ouviu corretamente, ela respondeu.Você finalmente conseguiu, disse ele, estou feliz por você. Estou feliz por mim mesma, ela falou.Uma sonata de Scarlatti jorrou através das amplas portas francesase um brinde foi feito aos anfitriões, que disseram ter sidoinspirados pelos espíritos para dar aquele […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Luis Mauricio, Infante](https://singularidadepoetica.art/2022/07/28/carlos-drummond-de-andrade-a-luis-mauricio-infante-2/): Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?Os olhos se inflamam depressa, e […]
- [Ada Limón – O que eu não sabia antes](https://singularidadepoetica.art/2022/07/27/ada-limon-o-que-eu-nao-sabia-antes/): era como os cavalos simplesmente davam à luz outroscavalos. Não um bebê de qualquer jeito, nãouma criatura de espaços limiares, mas um animalde quatro patas decidido a andar, correndo atrásda mãe. Um cavalo dá lugar a outrocavalo e, de repente, há dois cavalos,simples assim. Foi como eu te amei. Você,descendo do longo trem na Red […]
- [Angela Melim - Meu pai nos abandonou](https://singularidadepoetica.art/2022/07/26/angela-melim-meu-pai-nos-abandonou-2/): Meu pai nos abandonou.Minha mãe casou e mudou.Vovó morreu.Os irmãos sumiram no mundoou submundo.Sem explicaçãoYvonne nunca mais falou comigoe, para Ronaldo,sou fantasma do passado.Vejo meus filhos já voando.Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/03/2017
- [Linda Gregg – Ardendo e distante](https://singularidadepoetica.art/2022/07/25/linda-gregg-mantida-ardendo-e-distante/): Você retorna quando quer,como a chuva. E é terno como a chuva,tem a ternura inepta da chuva.Uma paixão tão universal que poderia acontecer em qualquer lugar.Você me carrega para o ar úmido.Você me deita sobre as folhase o mais marcante não é o sexoe sim acordar sozinha depois sob as árvores. Trad.: Nelson Santander Kept […]
- [Emily Dickinson - Dizem que "O Tempo Consola"](https://singularidadepoetica.art/2022/07/24/emily-dickinson-dizem-que-o-tempo-consola-2/): Dizem que “O Tempo consola” —Mas não — na realidade,A vera dor, como um Tendão,Se fortalece, com a idade — O Tempo testa a Tristeza —Porém não a remedia —Se cura o Mal, prova apenasQue Mal deveras não havia — Trad.: Paulo Henriques Britto REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 22/03/2017 They say that […]
- [Dennis O'Driscoll – Fora de controle](https://singularidadepoetica.art/2022/07/23/dennis-odriscoll-fora-de-controle/): Preocupem-se, mães: vocês têmboas razões para perder o sono,para deixar a imaginação correr soltaenquanto se deitam na cama, sem contar carneirosmas vendo filhos e filhaslevados para o abate como cordeirosna carnificina das noites de sexta. Fiquem de prontidão, mães –nunca se sabe sua sorte –para a batida que quebraria o silêncio como o choquede um […]
- [Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu](https://singularidadepoetica.art/2022/07/22/paulo-henriques-britto-geracao-paissandu-2/): Vim, como todo mundodo quarto escuro da infância,mundo de coisas e ânsias indecifráveis,de só desejo e repulsa.Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos,em tempo de seco fascismo.Por isso não tive pátria, só discos.Amei, como todos pensam.Troquei carícias cegas nos cinemas,li todos os livros, acrediteiem quase tudo por ao menos […]
- [Anne Sexton – Coragem](https://singularidadepoetica.art/2022/07/21/anne-sexton-coragem/): É nas pequenas coisas que a vemos.O primeiro passo da criança,tão espantoso quanto um terremoto.A primeira vez que você andou de bicicleta,tateando na calçada.A primeira palmada, quando seu coraçãopartiu em uma viagem sozinho.Quando eles o chamaram de bebezãoou pobre ou gordo ou doidoe o transformaram num alienígena, você sorveu o ácido delese o escondeu. Mais […]
- [José Ángel Buesa - Ela amará a outro homem](https://singularidadepoetica.art/2022/07/20/jose-angel-buesa-ela-amara-a-outro-homem/): “Ela amará a outro homem”, um poema de José Ángel Buesa que aceita a perda com resignação, mas afirma a permanência secreta do amor na memória que o tempo não consegue apagar.
- [Rosanna Warren – Comparação](https://singularidadepoetica.art/2022/07/19/rosanna-warren-comparacao/): Como quando seu amigo, excelente esquiador austríaco, na históriaque ela sempre nos contava, teve que encararseu primeiro salto olímpico de esqui e, darampa de largada sobre o desfiladeiro que mergulhavatão vertiginosamente que sua borda inferiordesaparecia de vista, olhoupara um horizonte de Alpes que nadava e balançava ao seu redorcomo barcos de brinquedo em uma banheira, […]
- [Wislawa Szymborska - As Cartas dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/18/wislawa-szymborska-as-cartas-dos-mortos-2/): Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes,mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores.Sabemos quais dívidas não foram pagas.Com quem as viúvas rapidamente se casaram.Pobres mortos, mortos cegos,enganados, falíveis, canhestramente previdentes.Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas.Capturamos o som de testamentos sendo rasgados.Sentados comicamente diante de nós como no pão com […]
- [Annie Dillard – Como consumimos nossos dias](https://singularidadepoetica.art/2022/07/17/annie-dillard-como-consumimos-nossos-dias/): Como consumimos nossos diasé, evidentemente,como consumimos nossas vidas. O que fazemos com esta hora,e com aquela,é aquilo que fazemos. Um calendárioprotege do caos e do arbítrio. É uma redepara capturar dias.É um andaime sobre o qual um trabalhadorpode ficar em pée laborar com ambas as mãos em espaços de tempo.Um calendário é uma maqueteda razão […]
- [Wislawa Szymborska - Bodas de Ouro](https://singularidadepoetica.art/2022/07/16/wislawa-szymborska-bodas-de-ouro-2/): Devem ter sido diferentes um dia,fogo e água, diferindo com veemência,sequestrando e se doandono desejo, no assalto à dessemelhança.Abraçados, apropriaram-se e expropriarampor tanto tempo,que nos braços restou o artranslúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta.Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outropelo tipo de silêncio, no escuro. O sexo fenece, […]
- [Ada Limón, poeta laureada](https://singularidadepoetica.art/2022/07/15/ada-limon-poeta-laureada/): Ada Limón, uma legítima representante da novíssima geração de poetas norte-americanos, e de quem venho traduzindo alguns poemas para o blog desde 2020, acaba de ser eleita a nova poeta laureada dos Estados Unidos, a comenda de maior prestígio do campo da poesia daquele país. O cargo de poeta laureado – que tradicionalmente é conferida […]
- [Jim Harrison – Água](https://singularidadepoetica.art/2022/07/15/jim-harrison-agua/): Antes de nascer eu era água.Pensei nisso sentado em uma cadeiraazul cercado por malvas rosas, vermelhas,e brancas no jardim em frenteao meu estúdio verde. Há conclusões aquia tirar, mas eu não posso mais fazer isso. O homem nasce, cresce, canta, dança, ama, envelhece,agoniza. Isto é um rio circulare nós somos seus peixes que se tornam água. Trad.: […]
- [Wislawa Szymborska - Natureza-morta com um Balãozinho](https://singularidadepoetica.art/2022/07/14/wislawa-szymborska-natureza-morta-com-um-balaozinho-2/): Em vez da volta das lembrançasna hora de morrerquero ter de voltaas coisas perdidas. Pela porta, janela, malas,sombrinhas, luvas, casaco,para que eu possa dizer:Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente,rosa de papel, barbante, faca,para que eu possa dizer:Nada disto me faz falta. Esteja onde estiver, chave,tente chegar a tempo,para que eu possa dizer:Ferrugem, […]
- [Eavan Boland – Cartas aos mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/13/eavan-boland-cartas-aos-mortos/): I Estudiosos do Império Antigo encontraram cerâmicasgravadas por toda parte com marcas e sinais. II Escritos em louças de lodo. Nas bordas dos vasos.Colocados na entrada dos túmulos.O vermelho do ferro de um mundo.Postado no limiar de outro.Chamaram-nas de cartas aos mortos. III Eles não choravam ou se lamentavam por meio destas marcas e sinais.Eles […]
- [Wislawa Szymborska - Nada Duas Vezes](https://singularidadepoetica.art/2022/07/12/wislawa-szymborska-nada-duas-vezes-2/): Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela […]
- [Tarde na Andaluzia, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher](https://singularidadepoetica.art/2022/07/11/tarde-na-andaluzia-de-sahar-romani-lido-por-sandra-daher/): Sandra Daher, uma generosa seguidora do blog, publica em seu perfil no Facebook a leitura que faz de poemas que a inspiram. Em sua postagem mais recente, ela surge lendo o belíssimo “Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, traduzido por mim e publicado há algum tempo no blog. Confiram o resultado clicando no link que […]
- [Stephen Dunn - Ignorância](https://singularidadepoetica.art/2022/07/11/stephen-dunn-ignorancia/): O sonho antigo de voar se tornou realidadee eu olho para cima, sem espanto.Por que não cai?Uma pergunta de criança que eu não sei responder.Eu visto minha ignorância naquilo que eu sei.Uma vez houve pterodátilos, eu digo.Uma vez o céu era presságios e pássaros. Ele é imenso e diminuto e tão altoque não emite nem […]
- [Wislawa Szymborska - A Cada Cem Pessoas](https://singularidadepoetica.art/2022/07/10/wislawa-szymborska-a-cada-cem-pessoas-2/): A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros:– cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo:– quase todas as outras. estão prontas a ajudardesde é claro que isso não lhes tome muito tempo:– quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas porque incapazes de ser […]
- [Linda Pastan - Por trás do](https://singularidadepoetica.art/2022/07/09/linda-pastan-por-tras-do/): "Busco pelo que está por trás das palavras que são ditas..." – William Stafford Por trás do “Eu te amo”reside um “adeus”.Por trás do“adeus”mora um “foi maravilhosoali no gramado, encharcadosde tanto verde,juntos”.Palavras que esperamsão escuras como sombrasnos quartos dos fundos dos espelhos:quando você levantasua mão direitaem saudação,elas levantam a esquerdaem despedida. Trad.: Nelson Santander Mais […]
- [Gary Snyder - Dezembro em Yase](https://singularidadepoetica.art/2022/07/08/gary-snyder-dezembro-em-yase-2/): Naquele Outubroem que escolheu ser livrena grama alta e seca junto ao pomarvocê disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te visó mais uma vez. Você estava estranha.E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anose até mais um pouco: eu sempre soubeonde você estava […]
- [Pat Boran - Desde que você se foi...](https://singularidadepoetica.art/2022/07/07/pat-boran-desde-que-voce-partiu/): Desde que você se foi… os dias aprenderam um novo idioma,as noites falam em línguas – as vozes da chuva na janela do quarto, do vento sussurrando na rua varrida pela chuva, os canos da casa chamando,tina após tina de água. A perda descobre novas cançõesem antigos instrumentos. Trad.: Nelson Santander Since You Left… the […]
- [Yehuda Amichai - O Corpo é a Causa do Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/07/06/yehuda-amichai-o-corpo-e-a-causa-do-amor-2/): Primeiro o corpo é a causa do amordepois a fortaleza que o protegepor fim seu cárcere.E quando o corpo morre, o amor jorracaudalosamentecomo de um caça-níqueis clandestino quebradojorram de súbitocom estrondotodas as moedas de geraçõese gerações entregues à própria sorte. Trad.: ? REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/02/2017
- [Joseph Hillman – Para capturar a mim mesmo](https://singularidadepoetica.art/2022/07/05/joseph-hillman-para-capturar-a-mim-mesmo/): Para capturar a mim mesmoeu devo cavar um buraco Perfurar a película quesepara a vida da morteCom pá, pá de corteou mãos afiadas Fazer a terra desabrocharEm uma floração de preto e ocre Permitir que os muros se ergamao meu redor comodesmoronadoscortinadosengolindo-me inteiroenquantovou maisfundo Mais fundonaquele buraco Tão fundo quenão posso sairnovamentee tenho queviver oresto […]
- [Wislawa Szymborska - Retornos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/04/wislawa-szymborska-retornos-2/): Voltou. Não disse nada.Mas estava claro que teve algum desgosto.Deitou-se vestido.Cobriu a cabeça com o cobertor.Encolheu as pernas.Tem uns quarenta anos, mas não agora.Existe – mas só como na barriga da mãena escuridão protetora, debaixo de sete peles.Amanhã fará uma palestra sobre a homeostasena cosmonáutica metagaláctica.Por ora dorme, todo enrodilhado. Trad.: Regina Przybycien REPUBLICAÇÃO: poema […]
- [Mary Oliver – Pesado](https://singularidadepoetica.art/2022/07/03/mary-oliver-pesado/): Naquela épocaEu pensei que não poderiame aproximar mais da dorsem morrer eu me aproximeie não morri.Certamente tevea mão de Deus nisso, assim como as dos amigos.Ainda assim, eu estava curvada,e meu riso,como disse o poeta, havia desaparecido.Então disse o meu amigo Daniel(valente mesmo entre os leões):“Não é o peso que você carrega mas como você […]
- [John Keats - Ode sobre a Indolência](https://singularidadepoetica.art/2022/07/02/john-keats-ode-sobre-a-indolencia-2/): I Numa certa manhã eu vi as três as figuras, Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,Seguindo atrás da outra, mudas e seguras, Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;Como formas de mármore em alto-relevo Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,Mostraram-se mais uma vez como […]
- [Ciaran O’Driscoll – Por favor, permaneça na linha](https://singularidadepoetica.art/2022/07/01/ciaran-odriscoll-por-favor-permaneca-na-linha/): Este é o futuro, minha esposa diz.Nós já estamos lá, e é exatamente como o presente. Seu futuro, aqui, ela diz.E estou falando com um robô ao telefone.O robô está me dando inúmeras opções,nenhuma das quais atende às minhas necessidades.Ótimo, diz o robôquando eu lhe dou o número do meu telefone.E Excelente, diz o robôquando […]
- [Yehuda Amichai - Outra Vez o Amor Terminou](https://singularidadepoetica.art/2022/06/30/yehuda-amichai-outra-vez-o-amor-terminou-2/): Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas,ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezascoisas comovidas que buscavam o esquecimento. Outra vez o amor terminou. E como depois de se demoliruma casa grande e retirar os escombros, visitamoso terreno vazio e quadrado e dizemos: como era pequenoo lugar onde […]
- [Francisco Brines - Esplendor negro](https://singularidadepoetica.art/2022/06/29/francisco-brines-esplendor-negro/): Somente uma vez experimentaste aquele Esplendor negro,e intermitentemente recordas a experiência com imprecisão,aproximações difusas, iminências,e assim, desde a tua juventude, arrastas frioum invisível manto escarlate de cinzas.E não foi necessário cegar os olhos,pois das brancas luzes das estrelaschegou aquele delírio, a possibilidade mais exata e singela:em vez de Deus ou do mundoaquele negro Esplendor,que nem […]
- [Alberto Ríos – Coelhos e fogo](https://singularidadepoetica.art/2022/06/27/alberto-rios-coelhos-e-fogo/): Leia "Coelhos e fogo", de Alberto Ríos, um poema impactante sobre sofrimento, compaixão e a vulnerabilidade de todos os seres vivos.
- [Paulo Henriques Britto - de "Nenhuma Arte"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/26/paulo-henriques-britto-de-nenhuma-arte/): Os deuses do acaso dão, a quem nadalhes pediu, o que um dia levam embora;e se não foi pedida a coisa dadanão cabe se queixar da perda agora.Mas não ter tido nunca nada, nãoseria bem melhor — ou menos mau?Mesmo sabendo que uma solidãocompleta era o capítulo final,a anestesia valeria o preço?(Rememorar o que não […]
- [Lynn Emanuel – Minha vida](https://singularidadepoetica.art/2022/06/25/lynn-emanuel-minha-vida/): Como Jonas pelo peixe, eu fui por ela recebida,revirada e varrida por suas águas escuras,por ela conduzida para as profundezas e para além de incontáveis rochas.Sem ser tocada por seus dentes, caí nelasem um esforço maior que um grão de areiaentrando pela porta de uma catedral, tão largas eram suas mandíbulas.Desci, de cabeça e calcanhar,pela […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/24/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere-3/): I A seletividade da memória —a cor exata da pele, a textura,o odor de cada côncavo e orifício,o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e asaliva, a coxa arisca, a dobra escura,o beijo salobro, o sabor difícil,a carne assombrada, o esperma perplexo — falsa perfeição, mero artifíciodo […]
- [Billy Collins – A vida após a morte](https://singularidadepoetica.art/2022/06/23/billy-collins-a-vida-apos-a-morte/): Enquanto você se prepara para dormir, escovando os dentes,ou folheando uma revista na cama,os defuntos do dia estão iniciando sua jornada. Eles se movem em todas as direções imagináveis,cada qual de acordo com sua crença pessoal,e este é o segredo que o silencioso Lázaro não quis revelar:todos estão certos, no fim das contas.Você vai para […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/22/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-6/): (…) ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porémsó surge em pleno ar. E não renegoa rota tonta que segui. Ninguémse faz em linhas retas. Todo portoa que se chega é a meta desejada.E o caminho tomado, por mais torto,acaba sempre sendo a exata estradaa dar naquilo que, afinal, […]
- [Dorianne Laux – No limite](https://singularidadepoetica.art/2022/06/21/dorianne-laux-no-limite/): Depois que sua mãe morrer, você aprenderá a viverno limite da vida, a se segurarcomo ela fazia, uma mão no painel,a outra agarrando sua bolsa enquanto vocêpassa pelo sinal de pare, ombros tensos,olhos totalmente fechados, esperando pela colisãoque não vem. Você aprenderáa ficar acordada a noite toda sabendo que ela se foi,vendo a manhã se […]
- [Abdellatif Laâbi (Marrocos, 1942)](https://singularidadepoetica.art/2022/06/20/abdellatif-laabi-marrocos-1942/)
- [Paulo Henriques Britto - De "Duas Bagatelas"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/20/paulo-henriques-britto-de-duas-bagatelas-2/): (…) II Então viver é isso,é essa obrigação de ser feliza todo custo, mesmo que doa,de amar alguma coisa, qualquer coisa,uma causa, um corpo, o papelem que se escreve,a mão, a caneta até,amar até a negação de amar,mesmo que doa,então viver é sóesse compromisso com a coisa,esse contrato, esse cálculoexato e preciso, esse vicio,só isso. […]
- [Nâzim Hikmet - O otimista](https://singularidadepoetica.art/2022/06/19/nazim-hikmet-o-otimista/): quando criança ele nunca arrancou as asas das moscasele não atava latas nos rabos dos gatosnão prendia besouros em caixas de fósforosnem esmagava formigueirosele cresceue todas estas coisas foram feitas com eleeu estava ao lado de sua cama quando ele morreuele disse leia para mim um poemasobre o sol e o oceanosobre satélites e reatores […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/18/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-5/): VII Nada disso foi do jeito que eu quis.Se fosse como eu quis, não haveriade ser tão sofrido, tão infeliz.Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sintocomo quem tem não o que foi pedido,e sim o que, guiado pelo instinto,não pelo querer, teria querido. O […]
- [Andrea Cohen - O comitê avalia](https://singularidadepoetica.art/2022/06/17/andrea-cohen-o-comite-avalia/): Digo à minha mãe queganhei o Prêmio Nobel. De novo? ela diz. Em qualcategoria desta vez? É uma brincadeiraque fazemos: eu finjo que sou alguém, elafinge não estar morta. Trad.: Nelson Santander The Committee Weighs In I tell my motherI’ve won the Nobel Prize. Again? she says. Whichdiscipline this time? It’s a little gamewe play: […]
- [Paulo Henriques Britto - Balanços](https://singularidadepoetica.art/2022/06/16/paulo-henriques-britto-balancos-2/): (…) II Como saber sem tentar?Como tentar se é tão fácilconformar-se de saídacom a ideia de fracasso? Pois fracassar justificao não se ter nem sequeradmitido não querer-seaquilo que mais se quer. É um beco sem saída,mas sempre é melhor que a rua:mais estreito. Acolhedor.Vem, entra. A casa é tua. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente […]
- [Sylvia Plath - Estrelas sobre a Dordonha](https://singularidadepoetica.art/2022/06/15/sylvia-plath-estrelas-sobre-a-dordonha/): Estrelas caem densas como rochas na linhaEnfolhada de árvores cuja silhueta é mais escuraDo que o breu do céu porque não tem estrelas.O bosque é um poço. As estrelas caem silenciosamente.Parecem grandes, mas caem, e nenhuma lacuna é visível.Elas tampouco emitem fogos de onde caemOu qualquer sinal de angústia ou ansiedade.Elas são imediatamente devoradas pelos […]
- [Paulo Henriques Britto - Circular](https://singularidadepoetica.art/2022/06/14/paulo-henriques-britto-circular-2/): Neste mesmo instante, em algum lugar,alguém está pensando a mesma coisaque você estava prestes a dizer.Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vezneste mundo, nem tempo, nem lugar.O que você fizer não muda coisaalguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a dizer.Mesmo parecendo que desta vezalgo de […]
- [Jack Gilbert - O vale abandonado](https://singularidadepoetica.art/2022/06/13/jack-gilbert-o-vale-abandonado/): O retorno imaginado a um vale vazio revela o que a passagem do tempo retirou da paisagem e de quem a habitou. Ausência e memória transformam o lugar abandonado em medida de uma vida desaparecida.
- [Paulo Henriques Britto - De "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/12/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-4/): (…) III Mesmo o mais sólido somesem deixar nenhum vestígio,sem nem se ter (como exige ocostume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido —que se dá a posteriori,antes que se deteriorede todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculoângulo do evento únicoque só durou um segundo Entrementes, coisas […]
- [Jane Kenyon - O pretendente](https://singularidadepoetica.art/2022/06/11/jane-kenyon-o-pretendente/): Repousamos de costas um para o outro. As cortinassobem e descem,como o peito de alguém dormindo.Os ventos movem as folhas do bordo;elas expõem seus lados iluminados,girando todas de uma vezcomo um cardume de peixes.Subitamente, compreendo que estou feliz.Por meses esse sentimentotem-se aproximado, parandopara curtas visitas, como um tímido pretendente. Trad.: Nelson Santander The Suitor We […]
- [Joan Margarit - Pilhagem](https://singularidadepoetica.art/2021/11/20/joan-margarit-pilhagem-poema/): Hoje és outra.A morte, como um vento do deserto,sopra e abandona teu rostoressecado pela morfina.Passa uma andorinha com seu rápido vooe reluz ao cruzar a luz laranjada janela aberta de teu quarto.Talvez com teu voo também cheguesao claro terraço onde tua voz risonhaprateava o crepúsculo. Foste-te e só restaum corpo que uma pilhagem devastoue que eu amo agora, assim como amei a ti. Trad.: Nelson Santander SAQUEO Hoy eres otra.La muerte, como un viento del desierto,sopla y te deja el rostroseco por la morfina.Pasa una golondrina con su rápido vueloy reluce al cruzar la luz naranjade la ventana abierta de tu […]
- [Joan Margarit - Mãe e filha](https://singularidadepoetica.art/2021/11/19/joan-margarit-mae-e-filha-poema/): Hoje tuas mãos são todo o passado dela:há trinta anos de amor no fundo de tuas palmas.Velaste-a durante toda a noite:deitas-te na cama ao lado dela,teu peito quente contra suas costas,seus cansados cabelos em teu rosto.Tu a abraças murmurando em seu ouvidoe, enquanto isso, a acaricias.São as últimas noites, e sentes o calorde seu esgotado corpo que conheces tão bem.Aprenderás a cuidar dela na morte.Ela sempre foi uma menina: deves velar seu sono,que se parece cada vez mais coma profunda sombra da alegriapara onde escorre entre tuas mãos. Trad.: Nelson Santander MADRE E HIJA Hoy tus manos son todo su pasado:hay […]
- [Joan Margarit - Água](https://singularidadepoetica.art/2021/11/18/joan-margarit-agua-poema/): Poderíamos falar da água ou da menina,porque a água e a menina permanecemjuntas na minha memória.A menina é a água, é a liberdadede um dorso que tem,sob a pele, a rigidez de um tirante.A ternura da água salvou suas pernas débeis:vejo novamente o azul das piscinasna temperatura de sua alma,tão distantes agora nos invernosque se vão desfazendo na memória.Piscinas onde nadam suas lembranças.Resta-me o mar de ferro em S’Aucanada,com conchas brancas como joias perdidasem uma luz de pedras sob a água.E o mar definitivo, tempestuoso. Olhos vermelhospor trás dos óculos escuros, dizendo:a água foi sua liberdade, e agoraé o espelho que […]
- [Joan Margarit - História natural](https://singularidadepoetica.art/2021/11/17/joan-margarit-historia-natural-poema/): Meu trato com a morte.Ouço-a colidir como uma moscana luz da vidraça, e posso vê-laascender ao céu vespertinoem seu sereno anil. Encontro como médico durante a protocolarvisita noturna.Não quero falar e concordo com tudo o que ele diz.Somos parte do fundo escurode uma pintura em que surgea janela iluminada deste quartoonde nossa Joana está chegando ao fim. Trad.: Nelson Santander HISTORIA NATURAL Mis tratos con la muerte.La oigo golpear como una moscaen la luz del cristal, y puedo verlapor levante en el cielo de la tardeen su calmoso añil. Me encuentroal médico durante la visitaceremoniosa del anochecer.No quiero hablar y asiento […]
- [Joan Margarit - Oceano Atlântico, 1956](https://singularidadepoetica.art/2021/11/16/joan-margarit-oceano-atlantico-1956-poema/): Preferia o mercante, sua solidão. Estavaenvolto em silêncio. Pareciaque navegava sem tripulação,e que o mar era um navio,maior ainda, de mármore, que o balançava.Era maravilhoso subir ao convés,entre caixas de bananas: o peso delasafundava o navio até a linha d’águaem meio às ondas como montanhas.O navio, às vezes, adernava:parecia atender a alguma voz do mar.Havia um camarotecom uma grande cama de metal e uma mesa,ambas muito bem fixadas no chão.Como minha alma na morte de minha filha.É o que estou dizendo. E também que daria meus olhospara empreender a viagem de volta com ela. Trad.: Nelson Santander OCÉANO ATLÁNTICO, 1956 Prefería […]
- [Joan Margarit - A felicidade](https://singularidadepoetica.art/2021/11/15/joan-margarit-a-felicidade-poema/): O vento do norte varre o mar,prata plana perto da praiae agitada junto ao horizonte:é como se, com seu pincel, o ventopintasse um quadro da costa: o mar,o porto e aquela barraca solitáriaque abre todo inverno.As gaivotas planam e suas asasindiferentes e confiantesse adaptam às rajadas de ventocomo foices imóveis.Mas a noite tudo apagou:os postes escassos e debilmenteiluminados ouvem como o ventoassobia e assusta as janelas cegas. Os três no pequeno apartamentoque parece uma jaula sobre o oceano.Ouve-se a areia e a água do marbatendo na janela durante toda a noite.Viemos para estar mais juntose mais sozinhos. Os lugares familiaressão tão […]
- [Joan Margarit - Sant Just, 2 de março de 2001](https://singularidadepoetica.art/2021/11/14/joan-margarit-sant-just-2-de-marco-de-2001-poema/): Suavemente, as rodas da cadeirate levam para casa. As nuvens violáceasacumulam-se atrás dos telhados.Todas te dizem coisas: tu, tímida, respondessorrindo, mas às vezescom um vazio dentro dos olhosque reflete a luz da tempestade. E a chuva começa a falar contigocomo uma mãe perigosa e acolhedora,pedindo de longe que regresses.Buscas — molhada, absorta — no umbralos anos sob o abrigo da casa.Nossa vida jamais regressará.Deslizaremos juntos pelo pátio,límpida chuva de olvido,como folhas em um curso d’água. Trad.: Nelson Santander SANT JUST, 2 DE MARZO DE 2001 Con suavidad, las ruedas de la sillate llevan hacia casa. Las nubes violáceasse amontonan detrás de […]
- [Joan Margarit - Pai e filha](https://singularidadepoetica.art/2021/11/13/joan-margarit-pai-e-filha-poema/): Diante das janelas que se abrem para o pátioele adormeceu na poltrona,ao lado do sofá onde ela descansava.O jovem rostoque a morfina havia endurecido,tinha aos poucos deixado seu sorrisono ontem que guardam os retratos.À noite, ele a carregou para o quarto,colocou-a para dormir e fechou as persianas. E se deu conta, diante do sofá vazio,de que não tinha,de que nunca terialembranças suficientes para fingir a vida. Trad.: Nelson Santander PADRE E HIJA Ante los ventanales que se abren al patioél se dormía en la butaca,junto al sofá donde ella descansaba.El joven rostroque la morfina había endurecido,había ido dejando su sonrisaen el […]
- [Joan Margarit - Metrô Fontana](https://singularidadepoetica.art/2021/11/12/joan-margarit-metro-fontana-poema/): Começava a noite nas estreitasruas de Gràcia, todas com as luzesde natal mesclando-se à multidão.Dos bares repletos nos chegavamas vozes altas e alegres dos rapazes e das moças.Cercavam-nos sorridentes os casacos,os faróis e flashes de luz do comércio,os casais fugazes em suas motoscom os rostos ocultos pelo capacete.Via Joana por toda parte:surgia por toda parte o olhardo corpo deformadono qual aprendi o que era a beleza.Espelhos da noite refletiamo seu sorriso, o mesmo que se espalhoupor trinta anos em torno de nós.E perguntei: O que fazes aqui, Joana?E seu eco respondeu: afasto-mepara romper-vos outra vez a vida. Trad.: Nelson Santander METRO FONTANA Comenzaba […]
- [Joan Margarit - Manhã de domingo com a música de Lluís Claret](https://singularidadepoetica.art/2021/11/11/joan-margarit-manha-de-domingo-com-a-musica-de-lluis-claret-poema/): Na hospitalidade do sol de invernode domingos passados,estávamos muito tristes com o que desconhecias.Já os aplausos — como gostavas,tão séria, dos aplausos — cediamà peça solene de Berlioz.A viola — nunca o saberás — já eraa voz acolhedora da Morte. Lluís subiu ao palco comseu violoncelo. Não tarda o ouviremostocar a «Aria pastoral» de Bachpara dizer-te adeus no Montjuïc.Para saber para onde vais,seguiremos o rastro da música. Trad.: Nelson Santander MAÑANA DE DOMINGO CON MÚSICA DE LLUÍS CLARET En la hospitalidad del sol de inviernode domingos pasados,estábamos muy tristes por lo que no sabías.Ya los aplausos —cómo te gustaban,tan seria, los […]
- [Joan Margarit - Às quatro da madrugada](https://singularidadepoetica.art/2021/11/10/joan-margarit-as-quatro-da-madrugada/): Uiva o primeiro cão, e imediatamentehá um eco em um pátio, outros ressoamao mesmo tempo em um único latido,acerbo, sem ritmo nenhum.Ladram com seus focinhos levantados.Oh, cães, de onde viestes?Que manhã me evoca vossa noturna queixa?Ouço como acossais o sonho de minha filhade vosso catre, em meio aos excrementoscom os quais demarcastes um territóriode becos, pátios, descampados.Tal como venho fazendocom meus poemas, de onde uivoe demarco o território da morte. Trad.: Nelson Santander LAS CUATRO DE LA MADRUGADA Aúlla el primer perro, y enseguidahay un eco en un patio, otros resuenana la vez en un único ladrido,bronco, sin ritmo alguno.Ladran con […]
- [Joan Margarit - Luzes de natal em Sant Just](https://singularidadepoetica.art/2021/11/09/joan-margarit-luzes-de-natal-em-sant-just-poema/): ILâmpadas tremeluzentes se iluminamcomo as lágrimas de alguém nas ruas.Encontro nosso pátio cinza e friosob este céu lilás do crepúsculoonde se desenham, negro e fino estampado,à contraluz, as folhas do loureiro.E tua mãe me diz:Tu e eu, algumas vezes, perdemos tudo.Tremeluzentes, as luzes nas ruas:todas se apagaram, de repente, por ti. IIHoje todas as cores das histórias— como o verde dos juncos à beira do rioe nuvens refletindo-se na água —reluzem nos olhos de Joana.Começou a chover:pelo pátio se movem as figurasdo natal passado.Vejo como Joana ri até que, de repente,ela se volta para mim, me olhae então eu percebo que […]
- [Joan Margarit - Amanhecer em Cádiz](https://singularidadepoetica.art/2021/11/08/joan-margarit-amanhecer-em-cadiz-poema/): Em frente ao hotel, o mar enevoado.As longas linhas da espuma cinzadesenham uma barreira de recifediante da balaustrada da praia.Ouvi teu nome pronunciado na línguado mar. E ele diz que estás partindo. Repetem-no as negras, solitárias cegonhasque em silêncio planam sobre a água.Nunca saberei o que sabes tu de mim,ou em que verdade estivemos juntos,ou se nela estaremos para sempre.Não pode ser uma dor ruimse é uma dor que vem de tipor este mar turvo. Dezembro:o último dezembro juntos.Depois, buscar em mim tua voz perdida. Trad.: Nelson Santander EL ALBA EN CÁDIZ Delante del hotel, el mar brumoso.Las largas líneas de […]
- [Joan Margarit - Riera Pahissa](https://singularidadepoetica.art/2021/11/07/joan-margarit-riera-pahissa-poema/): RIERA PAHISSA […] why abandon a belief merely because it ceases to be true?ROBERT FROST Deixava-te na entrada da escola,em frente ao estreito portão daquele muro que, encerrando a horta de um convento,seguia o leito seco de um riacho.Por uma pequena ponte de ferro com tábuascruzava-se a ravina sobre o brilhode algumas poucas poças como lágrimas.Na rua de terra em frente à ponteum marmorista tinha sua oficina:recebia-nos, debaixo do pó cinza,uma fileira de peças encostadasna parede, como se fosse um pedestal.Atravessavas, as muletas soando nas tábuase, já na porta, antes de cruzar o muro,detinhas-te para sorrir para mim. Amava aquele lugar […]
- [Joan Margarit - Não há milagres](https://singularidadepoetica.art/2021/11/06/joan-margarit-nao-ha-milagres-poema/): Chovia preguiçosamente.Dezenove de outubro, nove da noite.Joana foi assustada para a sala de cirurgiaem nossa companhia.Quando entrou, ficamos esperandona sala mal iluminada ao lado dos elevadores.Contam que, em uma tentativade se salvar, ela disse um eu te amo ao cirurgião.Acreditávamos que uma fada poderia nos devolverJoana, calma, como sempre,com seus confiantes olhos cintilantes.Às onze, observamosas gotas de chuva na vidraçacomo se escorressem pela noite.A noite era a lâmina de uma foice. Trad.: Nelson Santander NO HAY MILAGROS Llovía con desidia.Diecinueve de octubre, las nueve de la noche.Joana iba asustada hacia el quirófanoen nuestra compañía.Cuando entró nos quedamos a esperaren la salita […]
- [Joan Margarit - Enquanto tu dormes](https://singularidadepoetica.art/2021/11/05/joan-margarit-enquanto-tu-dormes-poema/): Na praça tomada pela chuvaobservo a alta janela iluminadaque não quero perder: não hei de render-meà condenação da vida.Este lugar não mais pertence à cidade:uma praça vazia com a luzdo hospital refletindo nas poças.As portas automáticasse abrem de vez em quando e dão lugara uma obscura figura corriqueira.Muletas cruzam, invisíveis, a ruae se aproximam de um carro, o nosso,o que nos levará sob a chuvaaté o silêncio da dor futura.Teu calor efêmero.Triste felicidade a desta pazenquanto me lembro que tu e eu tivemosmanhãs que retinham nossos olhos.Apavorava-me tantodeixar-te sozinha um dia.Por mais fraca e pequena que sejaa janela iluminada na noite,esta […]
- [Pere Rovira - Oração para J. M. R.](https://singularidadepoetica.art/2021/11/04/pere-rovira-oracao-para-j-m-r-poema/): Música do amor, que te escondesem lugares escuros, doces, como rosas do jazz,ilumina o dia azul, espalha-te sob os pinheirose faz brilhar as flores, as paredes e a terra.Sê aquela água secreta que esperávamos,e, por um momento, devolve-nosa eterna criança que hoje abandonamosem poços invisíveis.Um pouco de um instante, para que nos ajudea não chorar de medo e de vergonhasentindo seu mistério de bondade.Dá-nos, música de ouro, lágrimas tão purasquanto a vida que enterraremos hoje.Música sagrada, faz-lhe companhia,tu que vens do outro mundo para o nosso,tu que já sabes como é o seu silêncio. Pere Rovira (5 de junio de 2001) […]
- [Joan Margarit - Joana (Prólogo)](https://singularidadepoetica.art/2021/11/03/joan-margarit-joana-prologo/): PRÓLOGO Do que sinto sobre o amanhã, o que mais se parece com uma certeza é que Joana e eu nunca mais voltaremos a nos ver. Quão diferente seria a vida se a morte fosse esperar muitos milhões de anos para podermos nos encontrar novamente, ainda que só por alguns breves instantes. Mas o abismo que nos separa é o abismo do nunca mais. Os trinta anos que vivemos juntos são agora minha única compensação e meu tesouro. Foi, desde muito cedo, uma pessoa muito especial: de um lado — por causa de suas deficiências, que lhe deixaram o amor como […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "Joana", de Joan Margarit](https://singularidadepoetica.art/2021/11/02/apresentacao-de-joana-de-joan-margarit-poema/): Em 16 de fevereiro deste ano, falecia, aos 82 anos de idade, vítima de um câncer, Juan Margarit I Consarnau, o grande poeta, arquiteto e catedrático catalão (foi professor da disciplina Cálculos Estruturais da Escola Superior de Arquitetura de Barcelona, de 1964 até sua aposentadoria, em 1998), vencedor do Prêmio Miguel de Cervantes (2019), dentre inúmeras outras distinções literárias. Foi, sem dúvida, um dos maiores poetas catalães de todos os tempos. Pouco conhecido no Brasil (e mesmo em Portugal), sua morte mereceu escassas resenhas da imprensa brasileira, que não fez justiça à importância do poeta para as letras catalã e espanhola […]
- [Charles Simic - Igreja de madeira](https://singularidadepoetica.art/2021/10/30/charles-simic-igreja-de-madeira-poema/): É só uma choupana fechada com uma torreSob o céu de um verão escaldanteEm uma estrada secundária percorrida raramenteOnde as sombras de árvores grandesRoçam-se tranquilamente como forcas enfileiradas,E corvos privados de carniçaGrasnam uns com os outros sobre dias melhores. A congregação talvez ainda esteja em oração.Das fotos salpicadas, famílias de fazendeiros Enfileiradas com suas cabeças inclinadasComo se ouvissem seus passos se aproximando.Tão lentamente que você deve estar se perguntandoComo é que estamos aqui num minutoE, no seguinte, desaparecemos para sempre? Experimente a porta fechada e bata uma vez.Os corvos ficarão fora de visão.Acima de você, o campanário inclinadoAinda sentindo o impacto […]
- [Ada Limón – Mar aberto](https://singularidadepoetica.art/2021/10/26/ada-limon-mar-aberto-poema/): “Mar aberto”, um poema de Ada Limon que transforma uma lembrança de despedida em uma meditação delicada sobre perda, identidade e permanência.
- [Maggie Smith - Boa Base](https://singularidadepoetica.art/2021/10/24/maggie-smith-boa-estrutura-poema/): A vida é curta, embora eu esconda isso de meus filhos.A vida é curta, e eu encurtei a minhade mil maneiras deliciosas e imprudentes,mil maneiras deliciosamente imprudentesque esconderei dos meus filhos. O mundo é, no mínimo,cinquenta por cento terrível, e essa é uma estimativaconservadora, embora eu esconda isso de meus filhos.Para cada pássaro, há uma pedra atirada contra outro.Para cada criança amada, há uma destroçada, ensacada,afundada em um lago. A vida é curta e o mundoé pelo menos meio terrível, e para cada estranhoamável há um que irá parti-lo ao meio, embora eu escondaisso de meus filhos. Estou tentando vender o […]
- [Stephen Dobyns - Percepções](https://singularidadepoetica.art/2021/10/22/stephen-dobyns-percepcoes-poema/): O terrível desequilíbrio que ocorre com a idadequando você de repente vê que, de suas amizades, mais morreram do que restaram vivos. E que ocasionalmentesuas lembranças são tão reais que a morte mais recente pode-se tornar uma segunda morte menor. Todasaquelas conversas no meio de uma frase cessadas. Todos aqueles planos atirados na lixeira. O quevocê pode fazer a não ser, quando anoitece, sentar-se na varanda? A última luz do dia recobrede vermelho as folhas da enseada de cobre. Trad.: Nelson Santander Recognitions The awful imbalance that occurs with agewhen you suddenly see that more friends have died, than remain alive. […]
- [Richard Brautigan – Buu, para sempre](https://singularidadepoetica.art/2021/10/20/richard-brautigan-buu-para-sempre-poema/): Girando como um fantasmana base de um pião,sou assombrado por todoespaço em quevou viver sem você. Trad.: Nelson Santander Boo, Forever Spinning like a ghoston the bottom of a top,I’m haunted by allthe space that Iwill live without you.
- [Daniel Jonas - Ossétia](https://singularidadepoetica.art/2021/10/18/daniel-jonas-ossetia-poema/): Ou como uma foto de Karpukhina Madonna ampara com o braço umdos lados do triânguloe deixa um derradeiro beijo escorrer por eleaté à cabeça mortado seu menino no catre. Uma cena difícil: a contençãodas sombras, do chiaroscuro,o profundo luto quando a lutacedeu a sua luz. De preto elaemoldurando a palidez do seu querido,o crânio envolto numa ligadura,halo de mártires. O inconsolável. O fotojornalismotem fortes influências da renascença.Algo de terror.Algo de Leonardo.
- [W. S. Merwin – Juventude](https://singularidadepoetica.art/2021/10/16/w-s-merwin-juventude-poema/): Durante toda a juventude estive procurando por vocêsem saber o que eu procurava ou de como chama-la acho que eu nem mesmo sabia o que estava procurando como poderia reconhece-la quando a visse como fizvezes sem conta quando você apareceu para mim como apareceu nua oferecendo-seinteiramente naquele momento e deixou- me respira-la toca-la prova-la sabendonão mais do que eu sabia e somente quando comecei a pensar em perde-la é que eu areconheci quando você já era parte lembrança parte a distância que restaminha nas maneiras em que aprendi a sentir sua falta do que não conseguimos reter as estrelas são feitas […]
- [Jane Kenyon - A pera](https://singularidadepoetica.art/2021/10/14/jane-kenyon-a-pera-poema/): Há um momento na meia idadeem que você fica entediado, irritadopor sua mente medíocre, assustado. Neste dia, o solarde forte e brilhante,deixando-o mais desolado. Acontece sutilmente, como quando uma peraapodrece de dentro para fora,e você talvez não percebaaté que as coisas tenham ido longe demais. Trad.: Nelson Santander The Pear There is a moment in middle agewhen you grow bored, angeredby your middling mind, afraid. That day the sunburns hot and bright,making you more desolate. It happens subtly, as when a pearspoils from the inside out,and you may not be awareuntil things have gone too far.
- [Eavan Boland - E alma](https://singularidadepoetica.art/2021/10/12/eavan-boland-e-alma-poema/): Minha mãe morreu em um verão —o mais úmido nos registros do Estado.Safras apodreciam no oeste.Toalhas de mesa xadrez dissolviam-se nos jardins.Cadeiras de praia vazias recolhiam a chuva.Enquanto eu me dirigia até elano trânsito, por entre lilases que gotejavam sombriamenteatrás das casase nas calçadas, para prestar-lhea última homenagem de uma filha, pensei em algoque lembrei deter ouvido uma vez, que o corpo é, ou diz-se ser, quase todo feito deágua e ao virar para o sul, ao qualpertence nossa cidade,na qualtodo santo dia os elementos começamuma jornada uns em direção aos outros que nunca,dado o nosso clima,falha — o oceano visível […]
- [Francisco Brines - Últimos dias](https://singularidadepoetica.art/2021/10/10/francisco-brines-ultimos-dias-poema/): Na herdade ele confina a memóriae o corpo que declina. Tudo morresobre este mundo vivo; e a laranjeira,e o voo do pombo, são traspassadospor um raio outonal de azul.Acompanham-lhe os livros; as caminhadastrazem até ele o odor de rosas abertas,e o suave abatimento dos dias.Ele ardeu na solidão, e agora escutaa primavera viva dos melros.Dias há em que foge de casa,e no sul, próximo às águas, onde habitamos jovens, ele se hospeda. Aprecia-lhesa nudez, suas risadas, a ilusãoque depositam na vida. E eles tocamnele uma estranheza, seu olharvivo, a abolição do entusiasmo.A Cidade dos Jovens não dorme,é fogo e é silêncio […]
- [Suzannah Evans - Um plano de contingência](https://singularidadepoetica.art/2021/10/08/suzannah-evans-um-plano-de-contingencia-poema/): E se estivermos separados quando chegar o asteroideou a tempestade magnética que colapsará a energia? Talvez você esteja então esperando por um trem enquanto a luz do solse extingue, bem acima dos painéis de vidro do telhado. Eu estarei no trabalho. Perderemos nossas linhas telefônicase o sistema da porta de entrada ficará maluco. Comerei da máquina automática,beberei da estante de troféus e dormirei no tapete de nylon com meus colegas,nós todos três semanas sujos. Fique onde está – descerei de rapel oito andares em uma cordafabricadas com o estoque de enfeites de festa, saqueados da M&S, roubarei uma bicicleta e seguirei […]
- [Donald Hall - Afirmação](https://singularidadepoetica.art/2021/10/06/donald-hall-afirmacao-poema/): Envelhecer é perder tudo.Velhice, todos a conhecemos.Mesmo quando somos jovens,às vezes a vislumbramos, e acenamos-lhe com a cabeçaquando perdemos um avô.Depois remamos durante anos na lagoados verões plenos, ignorantes e satisfeitos. Mas um casamento,que começou sem causar danos, se dispersaem destroços na praiae um amigo da escola caiduro em uma costa rochosa.Se um novo amor nos leva paraalém da meia idade, nossas esposasmorrerão mais fortes e bonitas.Novas mulheres vêm e vão. Todas se vão.A bela amante que se anunciatemporáriaé temporária. A audaciosa mulher– meia idade frente à nossa velhice –se afunda em uma ansiedade que não consegue suportar.Outro amigo de décadas […]
- [Camille Dungy – Deixe-me](https://singularidadepoetica.art/2021/10/04/camille-dungy-deixe-me-poema/): Deixe-me dizer-lhe, América, esta última coisa.Eu nunca vou deixar de sonhar o seu sonho.Eu tive um amante uma vez. Se é que podemos chama-lo assim.Dirigi-me até o apartamento dele em uma cidade distante,como aquela ursa perdida que vagueou até o nosso becono verão em que a fumaça das montanhas em chamasalterou nosso ar. Não sei o que foi feito dela.Eu fui para tantos apartamentos naquele dia.América, essa é a última coisa que vou dizer.Ele estocara, para o nosso fim de semana juntos,a comida que sabia que eu gostava. Comida tailandesavegetariana, um pouco de feijão preto com batata doce apimentada,sorvete de coco, […]
- [Mary Oliver - O martim-pescador](https://singularidadepoetica.art/2021/10/02/mary-oliver-o-martim-pescador-poema/): O martim-pescador surge da onda negracomo uma flor azul, em seu bicoele carrega uma folha prateada. Acredito ser esteo mundo mais bonito – desde que você não se importede morrer um pouco, como pode, em toda vida, haver um diaque não tenha sua gota de felicidade?Há mais peixes do que folhasem mil árvores, e, de toda forma, o martim-pescadornão veio ao mundo para pensar nisso, ou em qualquer outra coisa.Quando a onda se fecha sobre sua cabeça azul, a águapermanece água – a fome é a única históriaque ele já ouviu em toda sua vida na qual pode confiar.Não digo que […]
- [Luis Dolhnikoff – Samba](https://singularidadepoetica.art/2021/09/30/luis-dolhnikoff-samba-poema/)
- [Juan Vicente Piqueras - Palmeiras](https://singularidadepoetica.art/2021/09/28/juan-vicente-piqueras-palmeiras-poema/): Nascemos da sede. Somos palmeirasque crescem à força de perderseus ramos. Nossos troncos são feridas,cicatrizes que o vento e a luz dissipam,quando o tempo, o que faz e o que passa,ocupa o coração e dele faz um ninhode perdas, erigenele seu templo, sua áspera coluna. Por isso as palmeiras são alegrescomo os que sabem sofrer em solidãoe balançam-se ao ar, varrem as nuvense entregam em suas copascânticos à luz, fontes de fogo,leques a deus, adeus a tudo.Estremecem como testemunhas de um milagreque só elas conhecem. Somos como a sede das palmeiras,e cada ferida aberta contra a luznos torna mais altos, mais […]
- [Mark Wunderlich - O Deus do Nada](https://singularidadepoetica.art/2021/09/26/mark-wunderlich-o-deus-do-nada-poema/): Meu pai caiu do barco.Seu equilíbrio já era precário há algum tempo.Ele havia saído de barco com seu cachorro paracaçar patos em um pântano perto de Trempealeau, Wisconsin. Ninguém mais estava por pertosalvo o fazendeiro que raspava as calhas do curral das vacas,surdo de um dos ouvidos pelos anos em máquinas —e ele estava a meia milha de distância.Meu pai caiu do barcoe a água subiu ao redor dele, encheusuas botas e o puxou para baixo.Ele submergiu na água da cor de café fraco.O cachorro entrou na água também,pensando que talvez fosse uma brincadeira. Devo me corrigir — os cães não […]
- [Ellen Bass - O importante é](https://singularidadepoetica.art/2021/09/24/ellen-bass-o-importante-e-poema/): O importante é amar a vida, ama-la mesmoquando você não tem estômago para issoe tudo o que você guardou afetuosamentese desfaz feito papel queimado em suas mãos,sua garganta repleta desse lodo.Quando a dor se senta ao seu lado, seu calor tropicalcondensando o ar, pesado como água, mais apto para guelras do que para pulmões;quando a dor pesa sobre você como sua própria carne,só que um pouco mais, uma obesidade de dor,você pensa: como pode um corpo suportar isso?Então você segura a vida como um rostoentre as palmas das mãos, um rosto banal,sem sorriso encantador nem olhos violeta,e você diz, sim, eu […]
- [Abû Al‑Qâsim Ash‑Shâbbî - o coração do poeta](https://singularidadepoetica.art/2021/09/22/abu-alqasim-ashshabbi-o-coracao-do-poeta-poema/): tudo o que voa, trepa, se alça e plana sobre o Universoaves, flores, perfumes, fontes, ramos dobrados,mares, grutas, cumes, lugares habitados, vulcões, desertossombra e luz, noite e estações, nuvens, trovões,neve e bruma passageira, furacões, chuvas generosas,religião e ensinamentos, visões, sensações, silêncio e canto,tudo isso vive e mexe em meu coração: uma liberdadeirmã da sutil magia dos filhos da eternidade.no meu coração, aqui sem fundo nem medida,a morte dança com os espectros da vida.aqui sopram os terrores da noite,treme o sofrimento das rosase, ao seu eco, ergue‑se a arte. Trad.: Adalberto Alves
- [Barbara Crooker - Vida comum](https://singularidadepoetica.art/2021/09/20/barbara-crooker-vida-comum/): Este foi um dia em que nada aconteceu,as crianças foram para a escolasem esquecer de seus livros, lanches, luvas.Por toda a manhã, o bebê e eu amontoamos pilhas de blocosno chão de ladrilhos iluminados.E ao almoço seguiu-se a hora da sesta,limpei os armários da cozinha,uma dessas tarefas que nunca realizamos,e me sentei em um círculo de luz solare bebi chá de gengibre,observando os pássaros no comedourodisputando as sobras do almoço.Um faisão desfilou na sebe,limpou as penas e exibiu sua rútila cabeça.Agora, um frango assa na panela,e as crianças retornam,o murmurar de suas histórias salpicando o ar.Eu descasco cenouras e batatas sem […]
- [Joan Margarit – Faróis na noite](https://singularidadepoetica.art/2021/09/18/joan-margarit-farois-na-noite/): Tento seduzir-te no passado.As mãos ao volante e esta luzde boate no painel me permitem– fantasia invernal – dançar contigo.Atrás de mim, como um grande caminhão,o amanhã fabrica explosões de luzes.Ninguém o conduz e ele me ultrapassa,mas agora tu e eu viajamos juntose a carruagem pode ser a dos cavalosdos anos sessenta para Paris.“Je ne regrette rien”, canta Edith Piaf.Desço o vidro, infiltra-se a noitefria da rodovia, e o passadose aproxima de frente, velozmente:cruza e me cega sem baixar as luzes. Trad.: Nelson Santander Faros en la noche Intento seducirte en el pasado.Las manos al volante y esta luzde club nocturno […]
- [Czesław Miłosz – Elegia para N. N.](https://singularidadepoetica.art/2021/09/16/czeslaw-milosz-elegia-para-n-n-poema/): Diga-me se é muito longe para você.Você poderia vir sobre as ondas mansas do Bálticopassando pelos campos da Dinamarca, atravessando um bosque de faias,poderia se voltar para o oceano, e de lá, logo estaria emLabrador, branca nesta época do ano.E se você, que sonhava com uma ilha deserta,tivesse medo das cidades e das luzes piscando ao longo da rodovia,poderia pegar o caminho direto através do desertosobre águas azuis-escuras de degelo, entre as pegadas de cervos e caribus,até Sierra e as minas de ouro abandonadas.O rio Sacramento poderia te-la conduzidoentre colinas cobertas de carvalhos espinhosos.Então, apenas um bosque de eucaliptos, e você […]
- [David Ignatow - Para minha filha, em resposta a uma pergunta](https://singularidadepoetica.art/2021/09/14/david-ignatow-para-minha-filha-em-resposta-a-uma-pergunta-poema/): Não, não vamos morrer,vamos encontrar uma saída.Respiraremos profundamentee comeremos com cuidado.Pensaremos sempre na vida.Não nos desvaneceremos, nem eu nem você.Seremos os primeirose não riremos de nós mesmos jamaise seus filhos serão meus netos.Nada terá mudado,exceto por acréscimo.Nunca haverá outra como vocêe nunca outro como eu.Ninguém jamais a confundiránem me confundirá com outro.Nós não seremos esquecidos e ignoradose enterrados sob os nascimentos e mortes que virão. Trad.: Nelson Santander For My Daughter in Reply to a Question We’re not going to die,we’ll find a way.We’ll breathe deeplyand eat carefully.We’ll think always on life.There’ll be no fading for you or for me.We’ll be […]
- [Robinson Jeffers – Carmel Point](https://singularidadepoetica.art/2021/09/12/robinson-jeffers-carmel-point-poema/): A extraordinária paciência das coisas!Este belo lugar desfigurado por uma safra de casas suburbanas —Quão belo quando o vimos pela primeira vez,Um campo intacto de papoulas e tremoceiros cercado por límpidas falésias;Nenhuma intrusão, salvo dois ou três cavalos pastando,Ou algumas vacas leiteiras esfregando seus flancos nos afloramentos rochosos —Então chega o espoliador: elas se importam?Francamente, não, pois têm todo o tempo. Elas sabem que as pessoas são como uma maréQue sobe e com o tempo reflui, e que todas asSuas obras se dissolvem. Enquanto isso, a imagem da beleza intocadaVive no próprio grão do granito.Segura como o mar sem fim que […]
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – Bessboro](https://singularidadepoetica.art/2021/09/10/eilean-ni-chuilleanain-bessboro-poema/): Eis o que herdei —Nunca foi minha própria vida,Mas o nome de uma casa que ouviE outros ouviram como advertênciaDo que poderia acontecer a uma garotaOusada e apanhada pela má-sorte:Um fragmento de um destinoDesolador, uma nota-marreta de medo — Mas eu nunca vi o lugar.Agora que estou em frente ao portãoE aquele tempo há muito se foiÉ a ausência dele que chove,Que perfura a costuraDo meu casacão, com agulhasPontiagudas, preenchendo o dia breve. O portão de grades brancas está fechado,A cerca branca perde-se de vistaOnde a avenida segue, a chuvaVela a distância, abafando todo somE um semicerrado véu de névoaOculta elementos […]
- [Miguel Martins - Para o meu pai](https://singularidadepoetica.art/2021/09/08/miguel-martins-para-o-meu-pai-poema/): Muito poucos foram os dias cuja acidez não tragaste do princípio ao fim,vinho branco retintado pela morte dos teus sonhos, um a um,e uma bola de fogo a crescer-te no estômago, uma inteireza brutal,virada do avesso, como se uma queda tão lenta, tão evidentementequeda, tão claramente desesperada do futuro, pudesse ser exemplopara quem nem sequer ouve os tiros e as fábricas de fabricar cadáveres,ufanos da sua própria falta de desejo. Eu sei, não o duvides, António:não podias ter vivido de outro modo e, mesmo assim, a vida ficará,para sempre, a dever-te a maior parte dos teus anos, talvez todos,menos algumas horas […]
- [Francisco Brines - Discurso pagão](https://singularidadepoetica.art/2021/09/06/francisco-brines-discurso-pagao-poema/): Achais, por acaso, que por crerdesna imortalidadeela vos deve ser dada?Ela é obra da fé, do egoísmoou da desolação.E, se existe, não importa não haverdes nela acreditado:respostas ignorantes são todas humanasse a morte interroga. Continuai com vossos faustosos ritos, oferendas aos deuses,ou grandes monumentos funerários,as acolhedoras preces, vossa esperança cega.Ou aceitai o vazio que virá,onde nem mesmo um vento estéril soprará.O que há de vir pertencerá a todos,pois não há mérito em nascere nada justifica nossa morte. Trad.: Nelson Santander Alocución pagana ¿Es que, acaso, estimáis que por creeren la inmortalidad,os tendrá que ser dada?Es obra de la fe, del egoísmoo […]
- [Jane Hirshfield – Sopesagem](https://singularidadepoetica.art/2021/09/04/jane-hirshfield-sopesagem-poema/): As razões do coraçãovistas com clareza,inclusive as mais duras,carregarãosuas marcas de chicote e tristezase devem ser perdoadas. Como a elande famintapela seca que perdoao leão faminto pela secaque finalmente a arrebata,e entra em seguida de bom gradona vida que ela não pode recusar,e torna-se leão, está alimentada,e não se lembra da anterior. Tão poucos grãos de felicidademensurados contra toda a escuridãoe mesmo assim as escalas se nivelam. O mundo só quer de nósa força que temos e damos.Então ele pede mais, e nós damos. Trad.: Nelson Santander The Weighing The heart’s reasonsseen clearly,even the hardestwill carryits whip-marks and sadnessand must be […]
- [Marilyn Nelson – Mais rápido que a luz](https://singularidadepoetica.art/2021/09/02/marilyn-nelson-mais-rapido-que-a-luz/): Eu não queria pagar para estacionar meu carro,por isso peguei um táxi para a estação ferroviária.New London fica a uma hora de carro,mas aquela foi a melhor solução que pude encontrar.Depois de mais ou menos dez milhas de conversa fiadaem que acabei confessando meu ofício,o motorista disse que ele era um físico —Como hobby, ele acrescentou: dirigir era sua ocupação.Ainda lutando para prender meu cinto de segurança,pedi sua opinião sobre um artigo que eu tinha lido no fim de semana no New York Times,sobre alguém que pesquisa viagens no tempo. Ele fez aquele pffft que taxistas parisienses fazemno início de agosto, quando […]
- [Régis Bonvicino - Suor](https://singularidadepoetica.art/2021/08/31/regis-bonvicino-suor/): O mar o mormaço o meio-diaum cão se delicianas ondas do marverde, a mata verde avançano rochedoo esqueleto de um peixena areia da praia a brisao que tenho a dizer?o que ela diz o rouco marulho das ondassime nada além de ser
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - A última vez de Casanova](https://singularidadepoetica.art/2021/08/29/jorge-valdes-diaz-velez-a-ultima-vez-de-casanova-poema/): Giacomo se envolve no crepúsculo do Florian Perguntas-me, Lesbia, quantos dos teus beijosseriam suficientes para me satisfazer.Catulo Enquanto beijo tua boca, docedonzela na conquista, mordoas comissuras de tua mãee os lábios que tuas irmãscedem ao peso do desejo;beijo as próximas mulheresdistantes e ainda desconhecidaspor minha cobiça, aquelasque um dia serão tu em outratu, que agora pressionas meus lábioscontra tua máscara de névoa,e abres o negro veludoonde minha angústia deposita,com um grito úmido e abafado,o rubi do meu coração fumegante ao pé de teu reflexo. Trad.: Nelson Santander La última vez de Casanova Giacomo se envuelve en el crepúsculo del Florian Me […]
- [Natalie Diaz – Meu irmão às 3 da manhã](https://singularidadepoetica.art/2021/08/27/natalie-diaz-meu-irmao-as-3-da-manha-poema/): Ele se sentou de pernas cruzadas, chorando nos degraus,quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente. Meu Deus, ele disse. Meu Deus. Ele quer me matar, mamãe. Quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente,às 3 da manhã, ela estava de camisola, e papai dormia. Ele quer me matar, ele disse, olhando por cima do ombro. Às 3 da manhã e de camisola, e papai dormia,O que está acontecendo? ela perguntou. Quem quer te matar? Ele […]
- [Louise Glück - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2021/08/25/louise-gluck-aubade/): Hoje, acima do canto da gaivota,ouvi você me acordar novamentepara ver aquela ave, voandotão estranhamente sobre a cidade,não querendo parar, desejandoa desolação azul do mar — Agora ela contorna o subúrbio;contra si, a luz violenta do meio-dia: Eu sinto a fome delacomo sua mão dentro de mim, um gritotão comum, desafinado — O nosso não eradiferente. Eles surgiram da necessidadeinesgotável do corpo concretizando um desejo de voltar:o pálido amanhecer, nossas roupas não separadas para a partida. Trad.: Nelson Santander Aubade Today above the gull’s callI heard you waking me againto see that bird, flyingso strangely over the city,not wantingto stop, wantingthe […]
- [Javier Salvago - Outra idade](https://singularidadepoetica.art/2021/08/23/javier-salvago-outra-idade-poema/): Já passou a idade de ser poetaporque tudo passa, é a lei da vida;embora eu continue, por dependência ou vício, falando a um pedaço de papel, a poesiajá não é mais minha pátria, nem meu território.Só regresso às vezes, de visita, como quem volta para onde foi feliz. Trad.: Nelson Santander Otra edad Se me pasó la edad de ser poetaporque todo se pasa, es ley de vida;aunque siga, por vicio o por querencia, hablándole a un papel, la poesíaya no es mi patria, ni mi territorio.Sólo regreso a veces, de visita, como quien vuelve a donde fue dichoso.
- [Dan Gerber – Frequentemente, imagino a terra](https://singularidadepoetica.art/2021/08/21/dan-gerber-frequentemente-poema/): Frequentemente, imagino a terracom o olhar dos átomos de que somos feitos —átomos, peculiaresátomos por toda parte —sem eu, sem você, sem opiniões,sem princípio, sem meio, sem fim,planando juntos como aquelesantigos pássaros chinesesnascidos milagrosamente com apenas uma asa,ajudando uns aos outros a voar para casa. Trad.: Nelson Santander Often I Imagine the Earth Often I imagine the earththrough the eyes of the atoms we’re made of—atoms, peculiaratoms everywhere—no me, no you, no opinions,no beginning, no middle, no end,soaring together like thoseancient Chinese birdshatched miraculously with only one wing,helping each other fly home.
- [Dorianne Laux - Histórias de família](https://singularidadepoetica.art/2021/08/20/dorianne-laux-historias-de-familia/): Tive um namorado que me contava histórias sobre sua família,como a de certa vez em que uma discussão terminou quando seu paiagarrou um pedaço aceso de um bolo de aniversário com ambas as mãose o arremessou pela janela do segundo andar. Isso,eu pensava, era como uma família normal era: raivaenviada através do peitoril, aterrissando como uma dádivapara decorar a calçada abaixo. Na minhaeram punhos e golpes diretos no plexo solar,e ninguém jamais perdoou ninguém. Mas eu acreditavaque, em suas histórias, as pessoas realmente se amavam,mesmo quando gritavam e enfiavam seus pésatravés das portas do armário ou empunhavam uma cadeira como uma […]
- [Sara Teasdale - Chuvas suaves chegarão](https://singularidadepoetica.art/2021/08/18/sara-teasdale-chegarao-chuvas-suaves-poema/): (Tempos de Guerra) Chuvas suaves chegarão e o cheiro de chão,E andorinhas revoando, seus rútilos sons; E sapos nos brejos cantarolando na noite,E ameixeiras silvestres em seu branco oscilante, Tordos trajarão incandescentes ornamentosTrinando seus caprichos em baixos tapamentos; E ninguém então saberá da guerra, ninguémSe importará quando ela terminar enfim. Ninguém se importaria, nem árvore nem ave,Se os homens morressem em sua totalidade; E a própria primavera, ao acordar na aurora,Sequer perceberia se fôssemos embora. Trad.: Nelson Santander There will come soft rains (War Time) There will come soft rains and the smell of the ground,And swallows circling with their shimmering […]
- [Linda Pastan - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2021/08/16/linda-pastan-elegia-poema/): Nosso último corniso se inclinasobre o solo da floresta oferecendo frutosaos pássaros, aos esquilos. É uma relíquiados dias em que os cornisos floresciam — renda natada em abril,leite derramado em maio — sua beleza delicadamas comum. Quando eu dava como certoque o mundo permaneceria como era, e eupermaneceria com ele. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Elegy Our final dogwood leansover the forest floor offering berriesto the birds, the squirrels. It’s a relicof the days when dogwoods flourished—creamy lace in April,spilled milk in May— their […]
- [Kirsten Dierking - Afortunada](https://singularidadepoetica.art/2021/08/14/kirsten-dierking-afortunada-poema/): Todo esse tempo,a vida que você deveria vivertem-se erguido ao seu redorcomo as paredes de uma casaprojetada com aconcheganteslinhas harmoniosas. Como se você realmente tivesseplanejado desta forma. Como se você tivesseempilhado tijolosao acaso,e criado por enganouma estrela da sorte. Trad.: Nelson Santander Lucky All this time,the life you weresupposed to livehas been rising around youlike the walls of a housedesigned with warmharmonious lines. As if you had actuallyplanned it that way. As if you hadstacked up bricksat random,and built by mistakea lucky star.
- [Denise Levertov - Conversando com a dor](https://singularidadepoetica.art/2021/08/12/denise-levertov-conversando-com-a-dor-poema/): Ah, dor, eu não deveria trata-la como um cão vira-latasque vem à porta dos fundospor uma migalha, por um osso descarnado.Eu deveria confiar em você. Eu deveria persuadi-laa entrar em casa e dar-lheo seu próprio canto,um tapete usado para se deitar,sua própria tigela de água. Você pensa que eu não sei que você está morandoembaixo do meu alpendre.Você anseia que o seu verdadeiro lugar esteja preparadoantes que chegue o inverno. Você precisado seu nome,da uma coleira e um identificador. Você precisado direito de alertar os intrusos,de considerar minha a sua casae a mim sua donae você mesma minha próprio cadela. Trad.: […]
- [Juan Vicente Piqueras - A praga de Tebas](https://singularidadepoetica.art/2021/08/10/juan-vicente-piqueras-a-praga-de-tebas-poema/): A praga de Tebas E o que quer que eu faça se torna para sempre o que eu fiz.Wisława Szymborska Quando a tragédia começouo crime já havia sido cometido.A tragédia era, agora, descobrir o delitoe o culpado. Eu teria preferido a ignorância.Tu optaste por indagar contra ti. O passado é mais forteque Deus. Ninguém, nem Deus,pode muda-lo. Somente a memória. Vais envelhecendo e recordandotudo aquilo que nunca aconteceu. Pior que o medo do que vai aconteceré o terror conscientedo que pode ter acontecido. Bem-aventurados os que ignoram! Tudo oque descobrires será um espinho a mais,uma papoula a menos. Espera-te o teu […]
- [Joseph Stroud - Nós](https://singularidadepoetica.art/2021/08/08/joseph-stroud-nos-poema/): Tentando amarrar meus sapatos, desajeitado, incapaz de descobrira lógica disso, atrapalhado, enquanto meu pai fica ali,sua raiva crescendo por um filho que não consegue fazer nemessa coisa mais simples pela primeira vez, não consegue nem mesmo dar o nó para manter seus sapatos nos pés — Você acha que alguémvai amarrar seus sapatos para você pelo resto de sua vida? —Não, respondo, quarenta e cinco anos mais tarde, atando meu sapato,as mãos tremendo com essa lembrança. Meu paie todos aqueles anos da infância sem conseguir descobriro quanto ele me amava, um nó tão apertado que levei a minha vida todapara desatar. […]
- [Jeannine Hall Gailey – Eu não paro](https://singularidadepoetica.art/2021/08/06/jeannine-hall-gailey-eu-nao-paro-poema/): Eu não paro De ser alguém que busca o lado escuro.Que procura as estatísticas criminais da Disneylândia.Que procura por monstros sob a cama.Além disso, não paro de tirar fotos de floresembora tenhamos nove meses de chuva.Não paro de me perguntar se os colibris daquiestão condenados, se os gansos-das-neves serão envenenadosem um abandonado lago de mina de cobre em Montana,se esse vírus chegará até nós antes de desenvolvermos uma vacina.Então, eu não paro de escrever a história do apocalipse repetidas vezes.Já imaginei o fim antes mesmo de começar —Eu escrevi um poema sobre o inverno nuclear quando tinha sete anos.Havia um garoto […]
- [David Budhill - O lenhador muda de ideia](https://singularidadepoetica.art/2021/08/04/david-budhill-o-lenhador-muda-de-ideia-poema/): Quando eu era jovem, cortei as árvores maiores e mais velhas para lenha, aquelaspodres em seu cerne, de galhos mortos e partidos, as mutiladas e deformadas porque, raciocinei, elas tombariam logo de qualquer forma, epor isso, eu deveria dar às mais jovens mais luz e espaço para vicejarem. Agora que estou velho derrubo as árvores mais jovens, fortes e robustas, firmese bonitas, e permito que as mais velhas tenham mais alguns anos de luz e água e folhagem na floresta que elas conhecem há tanto tempo.Em pouco tempo elas estarão abatidas no chão. Trad.: Nelson Santander The Woodcutter Changes His Mind […]
- [Ricardo Silvestrin – Sacos](https://singularidadepoetica.art/2021/08/02/ricardo-silvestrin-sacos-poema/): Estamos repletos de inutilidades,suas, minhas,inutilidades de família,de valor inestimável. Quinquilharias, ninharias,boiando no pó, atiradas em caixas,envelopes rasgados, gavetas. Ninguém se arrisca a botar foraesses tesouros de um reino perdidoentre os guardados. Em quantos sacos de lixo,sacos grandes de cem litros,vai caber todo o passado? Adquira outras obras de Ricardo Silvestrin clicando aqui
- [Lisel Mueller – Desenhos de criança](https://singularidadepoetica.art/2021/07/31/lisel-mueller-desenhos-de-crianca-poema/): 1 O sol pode estar visível ou não(pode estar atrás de você,o expectador dessas imagens)mas o céu é sempre azulse é dia. Se não,as estrelas estão quase ao seu alcance;inclinadas, elas chegam até você,na iminência de cair.Nunca é nascer ou pôr do sol;não há nenhum olho ensanguentadoespiando você no horizonte.É claramente dia ou noite,é brilhante ou totalmente escuro,é aqui e nunca lá. 2 No princípio, você só precisava dasua cabeça, uma lua boiando no espaçoe quatro galhos nus;e quando seu corpo foi adicionado,era leve e fino no começo,não a capela sombriada qual, mais tarde, você tentou escapar.Você vivia em um mundo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Relógio do Rosário](https://singularidadepoetica.art/2021/07/29/carlos-drummond-de-andrade-relogio-do-rosario-poema/): Era tão claro o dia, mas a treva, do som baixando, em seu baixar me leva pelo âmago de tudo, e no mais fundo decifro o choro pânico do mundo, que se entrelaça no meu próprio choro, e compomos os dois um vasto coro. Oh dor individual, afrodisíaco sêlo gravado em plano dionisíaco, a desdobrar-se, tal um fogo incerto, em qualquer um mostrando o ser deserto, dor primeira e geral, esparramada, nutrindo-se do sal do próprio nada, convertendo-se, turva e minuciosa, em mil pequena dor, qual mais raivosa, prelibando o momento bom de doer, a invocá-lo, se custa a aparecer, dor […]
- [Joyce Carol Oates - Este não é um poema](https://singularidadepoetica.art/2021/07/27/joyce-carol-oates-este-nao-e-um-poema-poema/): Este não é um poema em que o poeta descobredelicados ossos branco-ressequidosde uma pequena criaturaem uma margem do Grande Lagoou os restos desidratadosdos mais grotescos atropelamentosao lado da apressada rodovia. Nem é um poema em queum espelho partido concebeuma face assustada,ou gramas secas sibi-lando como consoantesem uma língua estrangeira.Álbum de fotos de famíliarepleto de saudososestranhos há muito falecidos,de armário com as belasroupas dos mortos.Baú do sótão, poço de pedra,ou metonímica luaviajando no tempo por sabedoriana era Paleolítica,no Império Médioou Gênesisou na época de Bashō… Em vez disso é uma sériede palavras em busca de um recipiente —um caule verde elegante,um pulmão […]
- [Miguel D'Ors – Variações sobre um tema de Stevens](https://singularidadepoetica.art/2021/07/25/miguel-dors-variacoes-sobre-um-tema-de-stevens-poema/): Não é o canto do melro:é o silêncioque nos deixa, um silêncioque é algo diferente do silêncioporque nele ainda soaa memória do cantodo melro. Nem silêncio,nem canto: o que ocorrequando o cantoterminae ainda não começou o silêncio.Podes chamar-lhe de alma. Trad.: Nelson Santander Variaciones sobre un tema de Stevens No es el canto del mirlo:es el silencioque nos deja, un silencioque es algo diferente del silencioporque en él suena aúnel recuerdo del cantodel mirlo. Ni silencioni canto: lo que ocurrecuando el cantoya ha acabadoy aún no ha empezado el silencio.Puedes llamarlo el alma.
- [Seamus Heaney - [Como todo mundo]](https://singularidadepoetica.art/2021/07/23/seamus-heaney-como-todo-mundo-poema/): Como todo mundo, inclinei minha cabeçadurante a consagração do pão e do vinho,elevei meus olhos para a hóstia e para o cálice levantados,acreditei (seja lá o que isso signifique) que uma mudança ocorrera. Fui ao genuflexório e recebi o mistérioem minha língua, voltei para o meu lugar, fechei meus olhos depressa,fiz um ato de ação de graças, abri meus olhos e senti otempo começando novamente. Nunca houve um dramaem que eu discutisse comigo mesmo ou com outra pessoa.A perda ocorreu fora do palco. No entanto, eu não consigorenegar expressões como “ação de graças” ou “hóstia”ou mesmo “pão da comunhão.” Elas têm […]
- [Pattiann Rogers – Perspectiva de alcance](https://singularidadepoetica.art/2021/07/21/pattiann-rogers-perspectiva-de-alcance-poema/): Lá em cima, longe desta estrada,Longe das partículas de geadaQue revestem a casca de cada gravanço,E do rijo inseto arqueiro em seu avançoNa escuridão da manhã, pata farpada por pata farpada,Subindo pela haste do trillium,Diretamente ao longo do céu sobre esta estrada agora,As galáxias do aglomerado de Cygnus AEstão colidindo umas com as outras em um enxame maciçoDe catástrofes interpenetrantes e explosivas.Eu tento me lembrar disso. E mesmo no fingimento violeta e douradoDa noite, eu me esforço em recordarQue levaria 40 mil anos cheios de ajuntamentose quedas de folhas, cheios de polpa rachandoE do duro enrugamento da semente, de ascensãoDas fibras […]
- [Wendy Cope - Para minha irmã, emigrando](https://singularidadepoetica.art/2021/07/19/wendy-cope-para-minha-irma-emigrando-poema/): "Para minha irmã, emigrando", um poema de Wendy Cope que retrata a complexidade do vínculo entre irmãs diante da separação, usando objetos deixados para trás como símbolo de afeto contido, conflitos familiares e amor que só se revela plenamente na ausência.
- [Stephen Dunn - O não dito](https://singularidadepoetica.art/2021/07/17/stephen-dunn-o-nao-dito-poema/): Uma noite, ambos precisaram de coisas diferentesdo mesmo tipo; ela, de consolo; ele, ser consolado.Assim, depois de um jantar regado a vinho,quando eles chegaram em casa separadosno mesmo carro, cada um já havia falhado como outro com o que pareciaum insuportável atraso do que sentiam lhes ser devido.Consolo significava para ela ser compreendidatão bem que você o daria antes mesmo que ela pedisse.Para ele, consolação era uma rede de compromissos: diga o que quiserdesde que aceite o que eu quero dizer.No quarto, eles se despiram e se vestirame foram para a cama. O silêncio é o que preencheum túnel depois que […]
- [Pádraig Ó Tuama – Como [não] ser sozinho](https://singularidadepoetica.art/2021/07/15/padraig-o-tuama-como-nao-ser-sozinho-poema/): Como não ser sozinho Tudo começa com a compreensãode que nada dura para sempre.Por isso, é melhor você começar a fazer as malas agora.Mas, nesse meio tempo,pratique estar vivo. Haverá uma festaem que você sentiráque ninguém está prestando atenção em você.E haverá outraem que atenção é tudo o que você receberá.O que você precisa fazeré lembrar-se de conversarconsigo mesmoentre esses eventos. E,novamente,haverá um dia,— uma década —em que você não sesentirá bem no próprio corpo,embora estejano único corpo em que pode estar. Você precisa controlar seu hábito de esquecerde respirar. Lembra quando você era joveme praticava beijos em seu próprio braço?Você […]
- [Stevie Smith – Sozinha na floresta](https://singularidadepoetica.art/2021/07/13/stevie-smith-sozinha-na-floresta-poema/): Sozinha na floresta, sentiA amarga hostilidade do céu e das árvoresA Natureza ensinou suas criaturas a odiar oHomem que ferve e fumegaInquieto homemComo a seiva sobe nas árvoresComo a seiva pinta as árvores de um verde violentoAssim cresce a ira das criaturas da NaturezaContra o homemAssim pinta-se a face da Natureza de um verde violento.A Natureza está doente do homemDoente de sua fervura e fumaçaDoente de suas agoniasDoente de sua mente extravaganteQue conduz seu corpoCada vez mais rapidamenteMais e maisNa direção errada. Trad.: Nelson Santander Alone in the woods Alone in the woods I feltThe bitter hostility of the sky and […]
- [Jennifer Maier - Uma história verdadeira](https://singularidadepoetica.art/2021/07/11/jennifer-maier-uma-historia-verdadeira-poema/): Um homem idoso estava morrendo em um hospital,contou-me um amigo médico. Estava com oitenta e nove anos, e a vida toda fora um alfaiate em uma lojaembaixo do quarto onde nasceu. Ele não tinha ninguém, então uma bondosa enfermeira de Ganasentou-se com ele, uma mão sobre a sua, segurando um sanduíche. As ondasno monitor desaceleraram. Seu coração era um pequeno barco vermelho na imensa marévazante. No fim, ele abriu os olhos. Ar fresco, Ar fresco, ele disse, e porqueestavam no décimo segundo andar, as janelas fechadas, a enfermeira se inclinou e exalou suavemente no topo desua cabeça, despenteando-lhe um pouco o […]
- [Daniel Jonas - Roma](https://singularidadepoetica.art/2021/07/09/daniel-jonas-roma/): “Roma”, um poema de Daniel Jonas que converte a cidade eterna em metáfora da relação desfeita, onde a beleza persiste como ruína exposta ao tempo.
- [Karl Shapiro – Inverno na Califórnia](https://singularidadepoetica.art/2021/07/07/karl-shapiro-inverno-na-california-poema/): É inverno na Califórnia, e no exteriorÉ como o interior de uma floricultura:Uma fresca e úmida culturaDe camélias rosas delimita a vertente;E que raras rosas para um banquete ou um amor,Tão numerosas que semelham uma enchente! Uma fileira de lesmas cruza o verde gramadoDas roseiras ao canteiro de heras;Um composto arsênico é distribuído para elas;O jardineiro varrerá as cascasE deixará em um canto do adroO montinho de valvas vazias, como cabeças. Antes do meio-dia a névoa é dissipada pelo solE o céu mais imenso do mundo uma página inauguraPara o exercício de uma era futura;Agora, os aviões a jato desenham parábolas, […]
- [Philip Larkin - O cortador](https://singularidadepoetica.art/2021/07/05/philip-larkin-o-cortador-poema/): O cortador parou, duas vezes; ajoelhado, descubro Um ouriço preso entre as lâminas,Morto. Estava na grama crescida. Já o havia visto antes, e até o alimentara uma vez. Agora eu havia maltratado seu discreto mundo de forma Irremediável. O enterro não ajudou: Na manhã seguinte eu me levantei e ele não.No primeiro dia após a morte, a nova ausênciaÉ sempre a mesma; devemos ter cuidado Uns com os outros, devemos ser gentisEnquanto ainda há tempo. Trad.: Nelson Santander The mower The mower stalled, twice; kneeling, I foundA hedgehog jammed up against the blades,Killed. It had been in the long grass. I had seen it […]
- [Donizete Galvão - Não sabe](https://singularidadepoetica.art/2021/07/03/donizete-galvao-nao-sabe-poema/): O amor que não sabe morrerpersiste no olhar do cãoabandonado que,ao menor gesto,abana o rabona espera do afago.Está no vaso de plantaesquecido no sobradosem moradores. O amor que não sabe morrernão pretende tocar o céu.Quer ficar aqui mesmo –pedestre, incauto e reles.Não ouve a ladainha dos mortos.Nem quer a extrema-unção.
- [Maya Angelou – Quando as grandes árvores caem](https://singularidadepoetica.art/2021/07/01/maya-angelou-quando-as-grandes-arvores-caem-poema/): Quando as grandes árvores caem,rochas de colinas distantes estremecem,leões se escondemna relva alta,e até os elefantesarrastam-se em busca de segurança. Quando as grandes árvores caemna floresta,pequenas coisas recolhem-se ao silêncio,seus sentidoserodidos para além do medo. Quando grandes almas morrem,o ar ao nosso redor se tornaleve, raro, estéril.Nós respiramos, brevemente.Nossos olhos, brevemente,enxergam comuma dolorosa nitidez.Nossa memória, subitamente aguçada,examina,rumina amáveis palavrasnão pronunciadas,passeios prometidosnunca realizados. Grandes almas morrem enossa realidade, a elasvinculada, se despede de nós.Nossas almas,que dependem de seunutrimento,agora encolhem, murchas.Nossas mentes, formadase informadas por seuresplendor, se dispersam.Não estamos tão enlouquecidosquanto reduzidos à indizível ignorância deescuras, friascavernas. E quando grandes almas morrem,depois de […]
- [Joyce Sutphen - Como acabamos juntos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/29/joyce-sutphen-como-acabamos-juntos-poema/): Ele era bom em uma emergência, calmono meio de uma tormenta. Acidentesnão o surpreendiam; ele estava sempre pronto para o que quer que surgisse. Vocêpodia contar com ele; você podia fazerum acordo que ele cumpriria, mesmo se você não pudesse. Os acordos dele eram impossíveis;os acordos dele eram feitos para você falhar,e ao falhar você se encontraria em algum tipo de emergência, num lugar em que você nãoqueria estar, e ele era bom em colocá-lode volta ao chão, de volta a seus pés. Eu o escolhi pelo que ele não podia me dar,e ele me escolheu porque eu não pediriaaté que […]
- [anatol knotek – how quickly things can change](https://singularidadepoetica.art/2021/06/27/anatol-knotek-how-quickly-things-can-change-poema/)
- [Eugénio de Andrade - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2021/06/25/eugenio-de-andrade-despedida/): Junho chegara ao fim, a magoada luz dos jacarandás, que me pousava nos ombros, era agora o que tinha para repartir contigo, e um coração desmantelado que só aos gatos servirá de abrigo
- [Daniel Filipe - A invenção do amor](https://singularidadepoetica.art/2021/06/23/daniel-filipe-a-invencao-do-amor-poema/): “A invenção do amor”, um poema de Daniel Filipe que transforma o gesto íntimo de amar em ato subversivo, expondo a violência dos sistemas que temem a liberdade mais simples: dois seres que se escolhem.
- [Billy Collins – Como se para demonstrar um eclipse](https://singularidadepoetica.art/2021/06/21/billy-collins-como-se-para-demonstrar-um-eclipse-poema/): Pego uma laranja de um cesto de vimee a coloco na mesapara representar o sol.Depois, na outra ponta,uma bola de gude azul e brancase torna a terra perto da qual eu coloco a pequena lua de uma aspirina. Pego uma taça no armário,abro uma garrafa de vinho,sento-me em uma cadeira de espaldar alto,um deus benevolente presidindoum mito da criação em miniatura, e começo a entoarum cântico caseiro de gratidãopor este pequeno arranjo perfeito,por não deixar a terra muito quente ou friapor não fazê-la girar muito rápido ou devagar de modo que o pomar das laranjeirase a coruja se tornem possíveis,isso sem […]
- [Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894](https://singularidadepoetica.art/2021/06/19/joan-margarit-arcadi-volodos-sonata-d894-poema/): É uma música modestacomo um jantar na cozinha,hospitaleira como ter tido filhos.Compadece-se do corpoque a maré arrastaà praia invernal de cada um.Que franqueza nas notas mais abruptasdizendo-me: é amortambém aquilo que parece hostil.Quando se extingue o eco do piano,o que escutei ainda me estremece.A música de Schuberté uma forma de caridade. Trad.: Nelson Santander Arkadi Volodos: Sonata D894 Es una música modestacomo una cena en la cocina,hospitalaria como haber tenido hijos.Se compadece de este cuerpoque la marea arrastra a la playa invernal de cada uno.Qué franqueza en las notas más abruptasdiciéndome: es amortambién aquello que parece hostil.Cuando el eco del piano […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Matzhevá](https://singularidadepoetica.art/2021/06/17/jorge-valdes-diaz-velez-matzheva-poema/): / Em um livro do meu pai, leioa frase: «A ti, que me lês».É o título de uma elegiaescrita há dois séculos, ou um soprode solitude que se elevouao leitor imaginário de fora dos círculos do tempo.Essa linha guarda em cada sílabaa fresca impressão de sua veemência:ser uma semente indócil em algum dialimítrofe ao de agora, garrafade aflição lançada por alguémcomo qualquer um de nós.É, junto com a tarde, um epitáfio,um grito que vem de muito longe,e que hoje, 29 de fevereirode 2000, faz estremecer minhas mãos.Invoco-a em voz baixa, e ela me iluminacomo uma prece no cativeiro;pronuncio-a a quem estiver me […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Os mortos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/15/carlos-drummond-de-andrade-os-mortos-poema/): Na ambígua intimidade que nos concedem podemos andar nus diante de seus retratos. Não reprovam nem sorriem como se neles a nudez fosse maior. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Jane Routh — Um lugar](https://singularidadepoetica.art/2021/06/13/jane-routh-um-lugar-poema/): Quando você viveu toda sua vida adulta em um só lugar,você derrubou árvores. Você as plantou muito próximasou bloqueavam a visão ou algumas adoeceram. Como nós, elas crescem até os vinte anos, e depois engrossam. Isso se aplicaaos freixos e às bétulas, mas não aos carvalhos: eles sãoatrofiados. Você nunca sabe a forma que um carvalho assumirá. Você joga as toras no fogão sem se arrepender, emboraainda sejam reconhecíveis – aquela bétula perto da cozinha,e até mesmo este tronco de eucalipto do jardim. Eu ainda planto árvores, embora saiba que não vereicomo elas irão crescer e não consiga nem imaginaras formas […]
- [Ana Martins Marques - Relâmpagos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/12/ana-martins-marques-relampagos/): O pensamento é um pornógrafo e quase só de palavras se faz o amor e no entanto não se embaraça o pensamento com os cabelos como os meus cabelos se embaraçavam nos seus e não se misturam as palavras com as palavras como na boca a saliva se mistura com a saliva nem as línguas que falamos deixam gosto na língua ou eu teria ainda na minha o sal da sua nem anoitece na memória aos poucos como anoitecia naquele quarto estreito já fui um ser de duas cabeças e ancas já tive quatro pernas duas bocas tive quatro […]
- [Louis Jenkins - O casal](https://singularidadepoetica.art/2021/06/11/louis-jenkins-o-casal-poema/): Eles já não dormem tão bem comoquando eram jovens. Ele fica desperto pensandoem coisas que aconteceram anos atrás, virandodesconfortavelmente de vez em quando, puxando ocobertor. Ela se preocupa com dinheiro. Primeiro ume depois o outro ficam ambos acordados durante a noite,em turnos como se estivessem de guarda, embora não consigamver muito no escuro e esteja tudo calmo. Elessão sentinelas em algum posto avançado, um forte abandonadoem algum lugar no meio das Grandes Planíciesonde apenas o vento é um visitante regular. Cada qualfica de guarda na vastidão selvagem de uma vidaimaginária na qual o outro dorme despreocupado. Trad.: Nelson Santander The Couple […]
- [Ada Limón – O ano dos pintassilgos](https://singularidadepoetica.art/2021/06/09/ada-limon-o-ano-dos-pintassilgos-poema/): Eram dois pendendo e pairando próximosda poça de lama e do cardo almiscarado.Esvoaçando de um poste partidopara outro, banhando-se no reflexo da água da chuvacomo se fosse um espelho para algum outro universoonde as coisas fossem mais aceitáveis, mais fáceisdo que no lugar onde eu vivia. Eu os observaria:o exibido macho brilhante, a mirradafêmea, em cada caminhada matinal, dias consumidosbuscando por algum tipo de resposta fugidiapara a pergunta que minha curvada figura fazia.Mais tarde, soube que eles eram um símboloda ressurreição. Claro que eram,meus dois gêmeos de áureas-asas fazendo festanos espinheiros e adorando. Trad.: Nelson Santander The Year of the Goldfinches […]
- [Wendell Berry - Tudo de que precisamos está aqui](https://singularidadepoetica.art/2021/06/07/wendell-berry-aquilo-de-que-precisamos-esta-aqui-poema/): Gansos surgem bem acima de nós,passam, e o céu se fecha. O abandono,como no amor ou no sono, os mantémno seu caminho, clarona antiga fé: tudo de que precisamosestá aqui. E oramos, nãopor uma terra ou um céu novos, mas para termoscalma no coração, e no olhar,clareza. Tudo de que precisamos está aqui. Trad.: Nelson Santander What We Need Is Here Geese appear high over us,pass, and the sky closes. Abandon,as in love or sleep, holdsthem to their way, clearin the ancient faith: what we needis here. And we pray, notfor new earth or heaven, but to bequiet in heart, and […]
- [Lisel Mueller - Coisas](https://singularidadepoetica.art/2021/06/05/lisel-mueller-coisas-poema/): O que aconteceu é que nos sentimos solitáriosvivendo entre as coisas,por isso demos ao relógio um rosto,à cadeira um encosto,à mesa quatro pernas robustasque jamais sofrerão fadiga. Calçamos nossos sapatos que têm línguastão macias quanto as nossase penduramos linguetas dentro dos sinospara podermos ouvirsua linguagem emocional, e porque adoramos perfis elegantesa jarra recebeu boca,a garrafa um longo e fino gargalo. Mesmo o que estava além de nósfoi reformulado à nossa imagem;demos ao país um coração,ao temporal um olho,à caverna uma bocapara que pudéssemos passar em segurança. Trad.: Nelson Santander Things / What happened is, we grew lonely living among the things, […]
- [Noël Coward - Nada se perde](https://singularidadepoetica.art/2021/06/03/noel-coward-nada-esta-perdido-poema/): No fundo do nosso subconsciente, nos é dito,Repousam todas as nossas memórias, todas as notasDe toda música que já ouvimos,E o que disseram os que amamos, cada frase pronunciada,Tristezas e perdas que desde então o tempo tem consolado,Piadas de família, caquéticas anedotasCada souvenir sentimental e cadaSímbolo de tudo o que já vimos e vivemos,Cada palavra que nos foi dirigida na infância, antesAntes que pudéssemos sequer conhecer ou compreender As implicações de nosso mundo mágico.Ali estão todas elas, as míticas fabulaçõesAs surpresas de aniversário, as visões, os sons,As lágrimas, fragmentos esquecidos de anos perdidosÀ espera de serem lembrados, prontos para emergirAntes que […]
- [Claudia Rankine - Intempérie](https://singularidadepoetica.art/2021/06/01/claudia-rankine-intemperie-poema/): Em um pedaço do papel no arquivo está escritoesqueci minha sombrinha. Acontece queem uma pandemia todos, não só o filósofo,estamos sem uma. Nós batalhamos na seca de informaçõesretidas por investidores privilegiados. Gota a gota. Protegendoo rosto? Sim. Distanciamento social? Sete palmossob a terra por condições subjacentes. Pretos.Apenas nós e os azuis ajoelhados em um pescoçocom todo o peso do corpo de um homem de azul.Oito minutos e quarenta e seis segundos.In extremis, eu não consigo respirar cede lugarà asfixia, à renúncia a este mundo,e então mamãe, clamando, um chamadopara o protesto, fogo, vidro, digam seus nomes, digamseus nomes, silêncio branco é […]
- [R S Thomas - Charneca](https://singularidadepoetica.art/2021/05/30/r-s-thomas-charneca-poema/): É bela e calma; o ar rarefeitocomo o interior de uma catedral esperando uma presença. É também onde ocorre o tartaranhão,materializando-se do nada, neve- suave, mas com garras de fogo, esquartejando a terra nuapela presa que lhe escapa; pairando sobre o guincho incipiente, aqui por um momento, depoisnão mais, como minha crença em Deus. Trad.: Nelson Santander Moorland It is beautiful and still; […]
- [Antonio Cicero - O livro de sombras de Luciano Figueiredo](https://singularidadepoetica.art/2021/05/28/antonio-cicero-o-livro-de-sombras-de-luciano-figueiredo-poema/): O livro de sombras de Luciano Figueiredo 1 Para onde vou, de onde vim? Não sei se me acho ou me extravio. Ariadne não fia o seu fio à frente, mas sim atrás de mim. Não será a saída um desvio e o caminho o verdadeiro fim ? 2 Não é hora de regressos Não é hora 3 É certo que me perco em sombras e que, isolado em minha ilha, já não me atingem as notícias dos jornais a falar de bolsas, modas, cidades que soçobram, crimes, imitações da vida ou da morte televisiva, quadrilhas, teias penelópicas de horrores ou […]
- [Jane Hirshfield – Hoje, outro universo](https://singularidadepoetica.art/2021/05/26/jane-hirshfield-hoje-outro-universo-poema/): O arborista determinou:senescência pragas cancroacelerado pela seca| mas, em qualquer caso,não podável não tratável não passível de escoras. E assim. O ramo de onde gritam o gavião-miúdo e sua companheira. O tronco onde a formiga. O playground de vinte e cinco metros dos esquilos vermelhos. A casca as camadas a seiva-do-pinheiro o aglomerado de formigueiros. Os padrões japoneses a teia-tatuada. As manchas de determinados peixes. Hoje, para alguns, […]
- [Ahmad 'Abd al-Mu'ti Hijazi - Morte súbita](https://singularidadepoetica.art/2021/05/24/ahmad-abd-al-muti-hijazi-morte-subita-poema/): trago comigo o meu número de telefoneo meu nome e endereçoe assim se de súbito cair mortopodereis identificar-mee meus amigos virão Fancy, aconteça o que acontecernão venhas.ficarei na morgue duas longas noitesfrios fios de telefone agitar-se-ão na noite.a campainha começará.sem resposta… uma vez… duas. alguém irá ter com a minha mãee lhe dirá que eu morriminha mãe essa triste camponesacomo caminhará só pela cidadelevando o meu endereço!como passará a noite a meu ladono átrio completamente mudosubjugada pela solidãoconfortada pelo seu recolhimento em dorquando pondera sópor sobre as suas penas secretasem tecer a minha mortalha das suas negras lágrimas quem dera que […]
- [Fernando Sabino - Certeza](https://singularidadepoetica.art/2022/12/31/fernando-sabino-certeza-2/): Fernando Sabino – Certeza De tudo, ficaram três coisas:A certeza de que estamos sempre começando.A certeza de que precisamos continuar.A certeza de que seremosinterrompidos antes de terminar.Portanto devemos:Fazer da interrupção um caminho novo.Da queda um passo de dança.Do medo, uma escada.Do sonho, uma ponte.Da procura, um encontro. _________________________________________ A vida… A vida é um eterno […]
- [Charles Baudelaire - A Giganta](https://singularidadepoetica.art/2022/12/30/charles-baudelaire-a-giganta-2/): Pois quando a Natureza, em seu capricho exato,Gerava estranhos seres raros, dia a dia,Uma giganta moça – eis do eu gostaria,Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato. Ver seu corpo florir com a flor de sua almaE crescer livremente em seus terríveis jogos;Ver se não teria no peito alguma oculta chama,Com as […]
- [Wanda Coleman – Uma conversa com meu neto de seis anos de idade](https://singularidadepoetica.art/2022/12/29/wanda-coleman-uma-conversa-com-meu-neto-de-seis-anos/): há uma tempestade cósmica sempre que ele está em minha órbita cinco raças em guerra fora do tempo, aprisionadas em um corpo alto e petulante, joelhos e cotovelos ossudos os ensinamentos rigorosamente amorosos da mãe e do pai criam raízes a despeito da engenharia de mídia e da pressão dos amigos. as tiradas insolentes, comentários […]
- [Maya Angelou - Ainda assim me Levanto](https://singularidadepoetica.art/2022/12/28/maya-angelou-ainda-assim-me-levanto-2/): Você pode me inscrever na históriaCom as mentiras amargas que contarVocê pode me arrastar no pó,Ainda assim, como pó, vou me levantar Minha elegância o perturba?Por que você afunda no pesar?Porque eu caminho como se eu tivessePetróleo jorrando na sala de estar Assim como a lua ou o solCom a certeza das ondas no marComo […]
- [Cesare Pavese - O paraíso sobre os telhados](https://singularidadepoetica.art/2022/12/27/cesare-pavese-o-paraiso-sobre-os-telhados/): Será um dia tranquilo, de luz friacomo o sol que nasce ou que morre, e o vidrofechará por fora o ar sórdido. Acorda-se uma manhã, de uma vez para sempre,na tepidez do último sono: A sombraserá como a tepidez. Encherá o quartopela grande janela um céu mais vasto.Da escada subida um dia para semprenão virão […]
- [Wislawa Szymborska - O Terrorista, Ele Observa](https://singularidadepoetica.art/2022/12/26/wislawa-szymborska-o-terrorista-ele-observa-2/): A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.Agora são só treze e dezesseis.Alguns ainda terão tempo de entrar;alguns de sair. O terrorista já passou para o outro lado da rua.A distância o livra de todo male a vista, bom, é como no cinema: Uma mulher de jaqueta amarela, ela entra.Um homem de óculos […]
- [Kenneth Rexroth – Música de Alaúde](https://singularidadepoetica.art/2022/12/25/kenneth-rexroth-musica-de-alaude/): A Terra vai durar por muito tempoAntes de finalmente congelar;Os homens nela estarão; receberão nomes,Justificarão seus atos.Já nós estaremos aqui somenteComo componentes químicos —Na verdade, uma pequena franquia.Agora ainda temos uma vida,Corpúsculos, ambições, carícias,Como todos já tiveram um dia —Todas as pessoas brilhantes, as neige d’antan1,“Blithe Helen, white Iope, and the rest,”2Todos os inquietos e […]
- [Billy Collins – Pardal de Natal](https://singularidadepoetica.art/2022/12/24/billy-collins-pardal-de-natal-2/): A primeira coisa que ouvi esta manhãfoi um rápido bater de asas, suave, insistente — asas contra o vidro, como pude descobrirlá embaixo, quando vi o pequeno pássaroamotinando-se contra a esquadria de umajanela alta, tentando lançar-se através do enigma do vidro para a vasta luminosidade. Então, um som da garganta do gatoque estava acocorado sobre […]
- [Louis Macneice - O observador de estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/12/23/louis-macneice-o-observador-de-estrelas/): Quarenta e dois anos atrás (para mim, se não para mais ninguém,O número é de algum interesse), fazia uma noite brilhante e estreladaE o expresso para o ocidente, sem cabines, ia vazio,De modo que, saltando de um lado para outro, eu podia capturar a insólita visãoDaquelas fendas quase intoleravelmenteBrilhantes, cravadas no céu, que me fascinavam, […]
- [Ana Martins Marques - Batata Quente](https://singularidadepoetica.art/2022/12/22/ana-martins-marques-batata-quente-2/): Leia "Batata Quente", de Ana Martins Marques, um poema breve e engenhoso sobre amor, vulnerabilidade e o risco de confiar o coração a outra pessoa.
- [Stanley Kunitz – As camadas](https://singularidadepoetica.art/2022/12/21/stanley-kunitz-as-camadas/): "As camadas", um poema de Stanley Kunitz que reflete sobre as múltiplas vidas atravessadas ao longo da existência, as perdas acumuladas e a contínua transformação do eu, culminando na exortação a viver nas camadas da experiência, e não nos escombros do passado.
- [Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer](https://singularidadepoetica.art/2022/12/20/stig-dagerman-a-nossa-necessidade-de-consolo-e-impossivel-de-satisfazer-2/): Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tampouco me legaram o disfarçado furor do cético, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso […]
- [Matt Rasmussen - Suicídio reverso](https://singularidadepoetica.art/2022/12/19/matt-rasmussen-suicidio-reverso/): O cara para quem papai vendeu o carrovolta para buscar o dinheiro dele, sai do veículo. Com trapos imundosnós o esfregamos até que deixe de brilhar e limpamos o seu sangue dascosturas do assento. Cada floco de neve se move antesde alçar ao céu enquanto eu percebo que você não estará morto.O não sofrimento termina […]
- [Pedro Salinas - de "Presságios"](https://singularidadepoetica.art/2022/12/18/pedro-salinas-de-pressagios-2/): 41 Estas frases de amor que se repetem tantonão são nunca as mesmas.Todas tem idêntico som,mas uma vida anima cada uma,virgem e só, se é que a percebes.E não te canses nuncade repetir as palavras iguais:sentirás a emoção que sente a almaao ver nascer a estrela primeirae ao ver que ela se multiplica, conforme a […]
- [Thomas Lux – As pessoas da outra aldeia](https://singularidadepoetica.art/2022/12/17/thomas-lux-as-pessoas-da-outra-aldeia/): odiamos as pessoas desta aldeiae pregaríamos os chapéusàs nossas cabeças por nos recusarmos a remove-los em sua presençaou grampearíamos as mãos às nossas testaspor nos recusarmos a cumprimenta-losse não os feríssemos primeiro: enviamos-lhes pacotes de ratose, à noite, misturamos vidro moído à sua farinha.Nós fazemos isto, eles, aquilo.Eles arrancam a laringe da garganta de um […]
- [Ellen Bass - Miniantologia Poética - Sumário](https://singularidadepoetica.art/2022/12/09/ellen-bass-miniantologia-poetica-sumario/): Ellen Bass – Miniantologia Poética Seleção e tradução de Nelson Santander Uma mulher recebe uma notícia que teme. Outra acompanha a mãe durante seus últimos dias. Alguém observa uma borboleta morta, um pássaro contaminado, o corpo envelhecido da pessoa amada. Em cada uma dessas cenas, seria possível recuar. Os poemas fazem o movimento contrário: aproximam-se. […]
- [Ellen Bass – O tempo que ela quiser](https://singularidadepoetica.art/2022/12/08/ellen-bass-pelo-tempo-que-ela-quiser-2/): No caminho para o cemitério, eu dormi.Não na limusine que levava o caixão da minha mãe,mas apagada em uma van, a família toda falando ao meu redor.Eu estava exausta do sofrimento dela, de seus apelos —me ajuda e chega, chega —e tentando fazer com que a morfina permanecesse na vala de suas gengivas.Como pude não ter estudado […]
- [Ellen Bass - Durante a pandemia, ouço a gravação de A Love Supreme no Festival Juan-les-Pins, de 26 de julho de 1965](https://singularidadepoetica.art/2022/12/07/ellen-bass-durante-a-pandemia-ouco-a-gravacao-de-a-love-supreme-no-juan-les-pins-de-26-de-julho-de-1965/): As primeiras notas familiares, reconhecíveis em qualquer lugar, me abençoamnesta manhã selvagem. O sax de Coltrane sobee desce em cada beco, entra e sai das veias e sobre a facedas águas e nos corações de pedra.E quando repete A love supreme de novo e de novo,é como se, se o dissesse o suficiente, ele pudesse […]
- [Ellen Bass - Foi esta a porta](https://singularidadepoetica.art/2022/12/06/ellen-bass-this-was-the-door/): Não havia belezaquando eu me sentava na cozinha, à mesa, rompendo as cápsulas rosadas, dividindo os grânulospara que ela pudesse ingerir a promessa precisa, onde ela se deitava no quintal envolta em colchastodas as noites olhando por entre os ramos, estrelas salpicadas no venoso céu escuro.Não havia tempo lá fora. Ou o tempo era grande […]
- [Ellen Bass - Fracasso](https://singularidadepoetica.art/2022/12/05/ellen-bass-fracasso/): Eu parecia uma mulher. Tinha começadoa sangrar, algo que eu queria com fervor,o mesmo fervor com que ardiao beijar Earl Freeman, ao cheirar seu suor de homeme tocar o côncavo em seu esternoquando nos deitamos na areia quente em Atlantic City,o céu claro arqueado sobre nós. Eu estava com tanta pressade crescer, disse minha mãe. […]
- [Ellen Bass - Matrimônio](https://singularidadepoetica.art/2022/12/04/ellen-bass-matrimonio/): Quando, depois de uma grave enfermidade, vocêfinalmente estende todo o comprimento do seu corpo sobre o meu, não é como os estratos da terra, a pressãodo tempo sobre a areia, a lama, fragmentos de conchas, todosesses anos, incontáveis despertares e adormeceres,noites em claro, brigas, manhãs banaisfalando de nada, e os brevesmergulhos ardentes, e o silênciosem […]
- [Ellen Bass – Retorno para mamografia e ultrassom](https://singularidadepoetica.art/2022/12/03/ellen-bass-mammogram-call-back-with-ultra-sound/): Então é para isso que estou aqui, para olhar para dentrodo peso mudo da minha mama direita, um punhado densode tesouros que eu desejava quando menina quando choreiatrás da cortina na loja de espartilhos das irmãs Guerlaine.Aquelas afáveis solteironas mal podiam suportarminhas lágrimas, enquanto ajustavam as alçasde um sutiã de rendas com enchimento. Tive que […]
- [Ellen Bass - Experimento de empatia](https://singularidadepoetica.art/2022/12/02/ellen-bass-experiment-in-empathy/): A cientista coloca cada ratoem sua própria caixa de vidroe reproduz por trinta segundos“What a Wonderful World.”Nos últimos três segundos ela aplica um choque em um dos ratos.Isto é seguido por noventa pulsações de silêncio.E então o ciclo recomeça. Enquanto ela descreve o experimentonão posso deixar de pensar em como isso soa familiar – um […]
- [Ellen Bass - Porque](https://singularidadepoetica.art/2022/12/01/ellen-bass-porque/): Porque na noite em que dei à luz meu marido ficou cego.Histérico, acho que é como você denominaria isso. Porque havia muitas pessoase depois não havia ninguém. Apenas aquela pequena criatura — seu pequeno choronão maior do que uma lantejoula. Porque eu fizera força por muitas horas.Mesmo com as placas macias do crânio dela que […]
- [Ellen Bass – Pinheiros de Ponary](https://singularidadepoetica.art/2022/11/30/ellen-bass-pinheiros-de-ponary-2/): Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles […]
- [Ellen Bass - A longa recuperação](https://singularidadepoetica.art/2022/11/29/ellen-bass-the-long-recovery/): Quando você voltava para casa vindados campos de morango, eu despejavaa sujeira das barras de sua calça jeans,e removia a terra lamacenta dos joelhos.Isso me fazia querer lamber o suor do seu pescoço, provar o saldas fendas empoeiradas. Não, não,eu digo agora ao meu estúpido sexoque, como um cão, não consegue entender.Eu sei que sou […]
- [Ellen Bass – Índigo](https://singularidadepoetica.art/2022/11/28/ellen-bass-indigo/): Enquanto caminho pela West Cliff Drive, um homem correna minha direção empurrando um daqueles carrinhos de corridacom amortecedores para que o bebê continue dormindo,e ele de fato está. Consigo apenas ter um vislumbrede suas pálpebras quase translúcidas. O pai é jovem,uma jungle de índigo e cornalina tatuadosdos dedos ao maxilar, densas videiras e flores,santos e […]
- [Ellen Bass - Vamos](https://singularidadepoetica.art/2022/11/27/ellen-bass-vamos/): Vamos tirar nossas roupas e nos divertir.Podemos rolar como cães sem coleira na Lighthouse Beach1. Vamos exploraros corpos uma da outracomo uma liquidação de quatro de julho, revolvendo a orgiade tweed e sarja, seda e lantejoulas rodopiando em turbilhões.Buda diz para não discutir a não ser que seja necessário.Vamos abrir as ostras,banha-las com Martini seco,a […]
- [Ellen Bass - Quando você voltar](https://singularidadepoetica.art/2022/11/26/ellen-bass-quando-voce-voltar/): As folhas caídas retornarão às árvores.Os cacos do vaso estilhaçado subirãoe se remendarão sobre a mesa.As capas de chuva se dobrarão novamente em seus invólucros achatados. O ovo,a gema nua e seu halo transparentedeslizarão de volta para a fina casca de cálcio.Imprecações serão despejadas de volta nas bocas,cartas se desfarão sozinhas, palavras serãosugadas para dentro […]
- [Ellen Bass - Ode ao deus dos ateus](https://singularidadepoetica.art/2022/11/25/ellen-bass-ode-ao-deus-dos-ateus/): O deus dos ateus não irá queimá-lo na fogueiraou arrancar suas unhas. Tampouco o fará clamar ou se curvar, abrir a própria pele com espinhos,ou adquirir folhas de ouro e vitrais.Não insistirá que você jejue ou distorçaa forma de sua fome sexual.Não há guerras travadas nem mulheres apedrejadas em nome dele.Você não precisa encobrir o […]
- [Ellen Bass - Manhã](https://singularidadepoetica.art/2022/11/24/ellen-bass-manha/): depois de Gwendolyn Brooks Na manhã de sua morte ela acordou agressiva, alguma força dormente revivera,insistente. Pela última vezcoloquei minha mãe sentada, desloquei a massa soltado seu corpo apoiando-o contra mim. Suas pernasressequidas penduradas junto às minhas, triunfosde vontade, todas as manhãs ela seobrigava a borrifar-se com perfume barato,içar os seios oscilantes para dentrodo sutiã, […]
- [Ellen Bass - Pleasantville, New Jersey, 1955](https://singularidadepoetica.art/2022/11/23/ellen-bass-pleasantville-new-jersey-1955/): Eu nunca tinha visto um arco-íris ou colhidoum tomate de um tomateiro. Nunca havia atravessado um pomarou uma floresta. A única árvore que eu conheciacrescia em um quadrado de terra recortadodo asfalto, a amoreiraque meu pai estava matando lentamente, enfiandopregos de cobre em seu tronco.Mas em uma tarde quente de verãominha mãe me deixou arrastar […]
- [Ellen Bass - O começo do fim](https://singularidadepoetica.art/2022/11/22/ellen-bass-o-comeco-do-fim/): Quando era jovem e casada, eu beijeioutro homem. À tarde, eu segurava o telefonegrande e antiquado, sua voz penetrando meu corpo,escorrendo pelos escuros corredores do desejo.E enquanto minha bebê engatinhava aos meus pés,mordendo um rolo de fita adesiva, eu tilintava minhas chaves,ou o que eu pudesse alcançar para mante-la quieta.Eu lhe dizia que iria a […]
- [Ellen Bass - Mais](https://singularidadepoetica.art/2022/11/21/ellen-bass-more/): Minha sogra não consegue mais cortar as unhas dos pésnem enxergar para arrancar os pelos do queixo.Ainda lhe resta o suficiente de sua mente para estar cientedo quanto ela está esmaecendo a cada dia.Pra quê? ela diz e rediz.Mas quando lhe pergunto se já está farta de tudo,ela responde que não, que quer outros dias.Ela […]
- [Ellen Bass - A manhã seguinte](https://singularidadepoetica.art/2022/11/20/ellen-bass-a-manha-seguinte/): Você está na pia da cozinha, derramando água ferventesobre o assado francês, um aroma oleoso subindo com a fumaça.E quando eu entro, você sequer levanta os olhos.Você está correndo para embalar seu almoço, encaixandoas tampas nos pequenos recipientes plásticos, enquanto liga para sua mãepara dizer-lhe que vai leva-la ao médico.Não vejo um traço do pequeno […]
- [Ellen Bass - Ode à repetição](https://singularidadepoetica.art/2022/11/19/ellen-bass-ode-a-repeticao/): Gosto de fazer a mesma caminhadapela vasta extensão da Woodrow* até o oceanoe na maioria das vezes viro à esquerda em direção ao farol.O mar é sempre diferente. Em alguns dias oníricos,ondas que mal ondulam, apenas uma extensa ondulaçãosem nenhuma pressa de chegar. Em outros, a rebentação está bêbada,colidindo contra os rochedos como um acidente […]
- [Ellen Bass – Borboleta morta](https://singularidadepoetica.art/2022/11/18/ellen-bass-borboleta-morta/): Durante meses, minha filha carregou uma borboleta-monarca morta em um pequeno recipiente.Em sua mochila, o inseto ia e vinha da escolapara a casa de sua única amiga. À mesa de jantar,ele se acomodava, como um convidado, ao lado da carne assada.Ela o levava para a cama, apoiando-o em seu travesseiro. Foi no ano em que […]
- [Ellen Bass - Esperando pela chuva](https://singularidadepoetica.art/2022/11/17/ellen-bass-waiting-for-rain/): É de manhã, enfim. Esta solidãoparece mais normal na luz, mais como meu reflexono espelho. Minha filha no pronto-socorro outra vez.Algo que ela comeu? Algum aromatizante que alguém borrifou no ar?Eles estão tentando me matar, ela diz,como se fosse uma piada. Lucréciome ajudou a passar a noite. Ele me disse que o mundo é um […]
- [Ellen Bass - Nudez](https://singularidadepoetica.art/2022/11/16/ellen-bass-nudez/): A primeira vez que vi o pênis do meu namoradopensei que o pau estaria coberto de pelos, como o monte gramado do meu próprio sexo.Minha avó arrancou as últimas penas do frango castrado, de sua pele escorregadia, folículos,pequenas protuberâncias em forma de crateras. Certa vez, torci o pescoço de um passarinho que havia caído do […]
- [Ellen Bass - Os anéis de Saturno](https://singularidadepoetica.art/2022/11/15/ellen-bass-os-aneis-de-saturno/): Ontem à noite vi pela primeira vez os os anéis de Saturno, aquele brilhante cinturãode cristais de gelo e poeira. Espelhospastoreando a luz, coletando-acomo pólen ou manáou baldes de água doce e cristalinaextraída das profundezas de um antigo poço.O brilho jorrou através de minhas pupilasneste corpo pequeno e transitório,meu cérebro rugoso em seu crânio de […]
- [Ellen Bass - Relaxe](https://singularidadepoetica.art/2022/11/14/ellen-bass-relax/): Coisas ruins vão acontecer.Em seus tomates crescerá um fungoe seu gato será atropelado.Alguém deixará a sacola com o sorvetederretendo no carro e jogaráseu suéter de cashmere azul na secadora.Seu marido vai dormircom uma garota da idade de sua filha, os seios transbordandoda blusa. Ou sua esposa se lembrará que é lésbicae o trocará pela vizinha. […]
- [Ellen Bass - Tingindo o cabelo dela](https://singularidadepoetica.art/2022/11/13/ellen-bass-tingindo-o-cabelo-dela/): Minha filha senta-se no quintal em minha velha camisolaenquanto eu manejo os produtos químicos nas raízes,grata por ter uma desculpa para toca-la.No último sol do entardecer, seus cabelos bebemdo profundo tom de páprica. Ela está segura. É fimde agosto, findaram-se os damascos, manchas escurasonde eles caíram ao longo do caminho.Ela parte amanhã, de voltaa uma […]
- [Ellen Bass - Rendição](https://singularidadepoetica.art/2022/11/12/ellen-bass-rendicao/): Pensei que ela iria querer me poupardaquilo, do mau cheiro e da vergonha,mas na última semana, a da morte,minha mãe me deixou trocar suas fraldas,me deixou secá-la com um pano úmido e quentee deslizar o lençol sob os seus quadris,a pele amolecendo, os ossos dilatando,a gravidade chamando-a de volta a terra como algum fruto caído.Eu […]
- [Ellen Bass - Se você soubesse](https://singularidadepoetica.art/2022/11/11/ellen-bass-if-you-knew/): E se você soubesse que seria o últimoa tocar em alguém?Se você estivesse recebendo os ingressosdo teatro, por exemplo, destacando-ose devolvendo os canhotos,poderia ter o cuidado de tocar aquela palma,roçando a ponta dos dedosao longo do vinco da linha da vida. Quando alguém arrasta sua mala com rodinhasmuito devagar pelo aeroporto, quandoo carro à minha […]
- [Ellen Bass - O canto dos pássaros do meu pátio](https://singularidadepoetica.art/2022/11/10/ellen-bass-birdsong-from-my-patio/): Despair so easy. Hope so hard to bear. —Thomas McGrath Nunca ouvi tanto canto,trinados puros como sinos de cristal,mas não como os sinos: vivas, pequenas rajadasde ar dos minúsculos pulmões felpudosdos pássaros abrigados entre as folhasrijas da oliveira e da amendoeira,e do limão com seus rebites duros e verdes.Enquanto o sol se põe recém-nascido de […]
- [Ellen Bass – A dor de deus](https://singularidadepoetica.art/2022/11/09/ellen-bass-a-dor-de-deus-2/): Grande paique deve ter começadocom tantas expectativas.Que magnitude de sofrimento,imensidão de culpa,desconcertante desespero.Uma mente do tamanho do sol,ardendo em nostalgia,um coração enorme como o de uma baleia-cinzentarompendo, fluindona água do mar contra o céu claro.Deus homem ou deus animal,deus que respira em cada folha plissada,saco vocal de sapo, penugem e raque —deus do plutônio e […]
- [Ellen Bass – Portão C22](https://singularidadepoetica.art/2022/11/08/ellen-bass-portao-c22/): No portão C22 do aeroporto de Portlandum homem com um chapéu de couro de aba larga beijavauma mulher que chegara de Orange County.Eles se beijavam e se beijavam e se beijavam. Muito tempo depoisque os outros passageiros afivelaram as alças de suas bagagens de mãoe se dirigiram rapidamente para o estacionamento,o casal ficou lá, os […]
- [Ellen Bass – O panorama geral](https://singularidadepoetica.art/2022/11/07/ellen-bass-o-panorama-geral/): Eu tento ver o panorama geral.O sol, língua ardenteque nos lambe como uma mãe encantada por sua nova cria, se consumirá.Tudo é transitório.Pense no meteoro que aniquilou os dinossauros.E antes disso, nos vulcõesdo Permiano — todas aquelas samambaias e répteis, tubarões e peixes ósseos queimados —que foram extintos em uma escalaque faz com que nossas […]
- [Ellen Bass - No ar](https://singularidadepoetica.art/2022/11/06/ellen-bass-na-casa-de-repouso/): A estação nostalgia toca as cançõesque tocava quando eu aqui viviae a voz adocicada do DJ dizia:Vamos agitar com essa, Ellen. Isso é da época em que minha mãe leu sobre as virtudesda água do mar e mergulhou, no verão e no inverno.Ela distribuía uma colher de chá para cada um de nósantes de sair […]
- [Ellen Bass - Por qualquer outro nome](https://singularidadepoetica.art/2022/11/05/ellen-bass-by-any-other-name/): Não me importo tanto em esquecer os nomes das pessoas.São os substantivos comuns que me fazem falta. Temo o espaço em branco absoluto de quando tento me lembrardaquele objeto no qual os professores escrevem com giz. Eu posso vê-lo em minha mente. Às vezes estouaté olhando diretamente para ele. Ontem eu fiqueidiante das flores brancas […]
- [Ellen Bass - Se Deus não existe](https://singularidadepoetica.art/2022/11/04/ellen-bass-se-deus-nao-existe/): Então não há ninguémpara nos amar indiscriminadamente,para girar nosso planeta como um globo, para manter a seiva —xilema e floema — deslizando para cima e para baixo como a varade um trombone, as células respirando através das abundantes mitocôndrias,sorvendo a chuva, absorvendo a luz do sol. A lampreia prende sua boca redondano flanco de um […]
- [Ellen Bass - O importante é](https://singularidadepoetica.art/2022/11/03/ellen-bass-o-importante-e/): “O importante é”, um poema de Ellen Bass que afirma o amor à vida como escolha consciente mesmo sob o peso esmagador da dor.
- [Ellen Bass - Miniantologia poética - Apresentação](https://singularidadepoetica.art/2022/11/02/ellen-bass-uma-miniantologia-poetica-apresentacao/): Há tempos – buscando não descuidar da publicação de poetas brasileiros e portugueses e de poemas traduzidos por outras pessoas – tenho me dedicado a traduzir e publicar no blog poemas de escritores de diversas partes do mundo (em especial, dos Estados Unidos e Espanha) pouco conhecidos ou totalmente desconhecidos do leitor brasileiro. Raras vezes […]
- [Linda Pastan - Os cinco estágios do luto](https://singularidadepoetica.art/2022/11/01/linda-pastan-os-cinco-estagios-do-luto/): Na noite em que te perdialguém me apontou o caminhodos Cinco Estágios do Luto.Vá por ali, disseram,é fácil, como aprender a subirescadas após a amputação.E assim eu subi.A Negação veio primeiro.Sentei-me para o café da manhã,preparando cuidadosamente a mesapara dois. Passei-lhe a torrada –você permaneceu sentado. Passeio jornal – você se escondeuatrás dele.A Raiva parecia tão […]
- [Josep M. Rodríguez - matéria e forma](https://singularidadepoetica.art/2022/10/31/josep-m-rodriguez-materia-e-forma/): Como expressar dor na dor ao saber da morte de uma amiga. Não sei o que fazer. Do mesmo modo que a água é anterior ao rio e a matéria antecede a luz, mas é a luz que lhe confere forma, assim se cala a dor dentro de mim até que há algo lá fora […]
- [Amalia Bautista – Agora](https://singularidadepoetica.art/2022/10/30/amalia-bautista-agora-2/): Agora que a estrada que devo percorreré um viaduto sobre uma rodoviaque dá medo de olhar, porque o abismoimplacável me chama.Agora que morreu a esperançacomo uma ave expulsa de seu ninhopor irmãos mais fortes.Agora que é noite o dia todo,inverno o ano todoe as semanas só têm segundas-feiras,onde olhar, para onde voltar os olhos,que eu […]
- [Sean O'Brien – Contando a chuva](https://singularidadepoetica.art/2022/10/29/sean-obrien-contando-a-chuva/): Verifique o gás e guarde a chave da porta de trás.Tranque tudo. Certifique-se de que o fezE então saia e conte a chuva, e desta vezFaça-o direito. Você não estará em casa nunca mais. Trad.: Nelson Santander Counting the Rain Check the gas and hide the back door key.Lock up. Make sure you have, and […]
- [Amalia Bautista – Os meus melhores desejos](https://singularidadepoetica.art/2022/10/28/amalia-bautista-os-meus-melhores-desejos-2/): Que a vida te pareça suportável.Que a culpa não afogue a esperança.Que não te rendas nunca.Que o caminho que sigas seja sempre escolhidoentre dois pelo menos.Que te interesse a vida tanto como tu a ela.Que não te apanhe o víciode prolongar as despedidas.E que o peso da terra seja levesobre os teus pobres ossos.Que a […]
- [Jaime Manrique – O céu sobre a casa de minha mãe](https://singularidadepoetica.art/2022/10/27/jaime-manrique-o-ceu-sobre-a-casa-de-minha-mae/): É uma noite de julhoperfumada com gardênias.Brilham a lua e as estrelassem revelar a essência da noite.Ao longo do crepúsculo— com suas gradações cada vez mais intensas de ônix,e o resplendor dourado das estrelas e das sombras —minha mãe arrumou a casa, o jardim, a cozinha.Agora, enquanto ela dorme,eu caminho em seu jardim,imerso no vazio […]
- [Amalia Bautista – O que fazes aqui](https://singularidadepoetica.art/2022/10/26/amalia-bautista-o-que-fazes-aqui-2/): Leia "O que fazes aqui", de Amalia Bautista, um poema poderoso sobre tristeza, memória emocional e a difícil convivência com aquilo que não conseguimos esquecer.
- [Alice Walker – Ainda assim](https://singularidadepoetica.art/2022/10/25/alice-walker-ainda-assim/): O amor, se é amor, nunca se vai. Ele fica incrustado em nós, como veios de ouro na Terra, esperando a luz , esperando ser atingidoinda. Trad.: Nelson Santander Even So Love, if it is love, never goes away. It is embedded in us, like seams of gold in the Earth, waiting for light, waiting […]
- [João Cabral de Melo Neto - Como a Morte se Infiltra](https://singularidadepoetica.art/2022/10/24/joao-cabral-de-melo-neto-como-a-morte-se-infiltra-2/): Certo dia, não se levantaporque quer demorar na cama. No outro dia ele diz por que:é porque lhe dói algum pé. No outro dia o que dói é a perna,E nem pode apoiar-se nela. Dia a dia lhe cresce um não,um enrodilhar-se de cão. Dia a dia ele aprende o jeitoem que menos lhe pesa […]
- [Stephen Dunn - Andrógino](https://singularidadepoetica.art/2022/10/23/stephen-dunn-androgino/): Meu perdido amor, quando Zeus nos dividiu em dois —nossa inteligência e completudeuma ameaça aos deuses — foi o iníciodesta dor, desta perpétua peregrinação… Já a vi nas ruas fervilhantes e concupiscentes,casei-me com você, ao entardecer, a seguipelos bares; sempre que a encontrava,a reconhecia como alguém que já vira antes.Eu não conseguia escolher não responder […]
- [Laura Liuzzi - Fio Sem Fim](https://singularidadepoetica.art/2022/10/22/laura-liuzzi-fio-sem-fim-2/): Chega-se, enfim, à última páginaembora deixe claro: não se chegaao fim. Um mesmo fio fino frágilmas firme, da mesma fibra de rioconduz memória e história: storage— está estendido para sempree para sempre soará, suaráa cada renovação do sol, mesmoquando atingirmos o final —mesmo assim não se chegaráao fim. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em […]
- [Dorianne Laux - Os amantes](https://singularidadepoetica.art/2022/10/21/dorianne-laux-os-amantes/): “Os amantes”, um poema de Dorianne Laux que explora a entrega radical do corpo como passagem para uma verdade essencial, onde prazer e vulnerabilidade se confundem.
- [Anne Sexton – Frágil Fio](https://singularidadepoetica.art/2022/10/20/anne-sexton-fragil-fio-2/): Minha féé um grande pesosuspenso por um frágil fio,como a aranhasuspende seu bebê em uma fina teia,como a videira,galhos finos e madeira,sustenta as uvascomo globos oculares,como muitos anjosdançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisade muito fio para manter-Se lá,apenas uma veia fina,com o sangue pulsando,e um pouco de amor.Como já se disse:O amor […]
- [Philip Larkin - A casa está tão triste](https://singularidadepoetica.art/2022/10/19/philip-larkin-a-casa-esta-tao-triste/): A casa está tão triste. Ficou como foi deixada,Moldada para o conforto dos últimos saintesQuerendo reconquista-los. Ao invés, despojadaDe alguém para agradar, ela definha assim, carenteDe um coração para esquecer que foi roubada E voltar novamente às origens – um retratoAlegre de como as coisas deveriam ser –Há muito perdidas. Veja como era de fato:Observe […]
- [José Saramago – É tão fundo o silêncio...](https://singularidadepoetica.art/2022/10/18/jose-saramago-e-tao-fundo-o-silencio/): É tão fundo o silêncio entre as estrelas.Nem o som da palavra se propaga,Nem o canto das aves milagrosas.Mas lá, entre as estrelas, onde somosUm astro recriado, é que se ouveO íntimo rumor que abre as rosas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/12/2017
- [Jennifer Chang - O mito de ontem](https://singularidadepoetica.art/2022/10/17/jennifer-chang-o-mito-de-ontem/): Quando Ícaro caiu do céu, eu levava meus filhos para o rio. Mamãe, o que é aquilo? Um pássaro, eu disse, porque não podia dizer tragédia. Jovens demais para entender o terror de confiar nos pais, meus filhos notaram asas como pés chutando o solo das nuvens. Isso foi ontem. Aproximávamos-nos do Anacostia, correndo por […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Retrato Malsim](https://singularidadepoetica.art/2022/10/16/carlos-drummond-de-andrade-o-retrato-malsim-2/): O inimigo maduro a cada manhã se vai formandono espelho de onde deserta a mocidade.Onde estava ele, talvez escondido em castelos escoceses,em cacheados cabelos de primeira comunhão?Onde, que lentamente grava sua presençapor cima de outra, hoje desintegrada? Ah, sim: estava na rigidez das horas de tenência orgulhosa,no morrer em pensamento quando a vida queria viver.Estava […]
- [Eavan Boland – Atlântida - Um soneto perdido](https://singularidadepoetica.art/2022/10/15/eavan-boland-atlantida-um-soneto-perdido/): Como diabos aconteceu, eu costumava me perguntar,de uma cidade inteira – arcos, pilares, colunatas,isso sem falar nos veículos e animais – ter-se,um belo dia, afundado? Ou melhor, eu disse a mim mesma, o mundo era pequeno então.É sem dúvida que uma grande cidade possa ter-se perdido?Sinto falta de nossa velha cidade – pimenta branca, pudim […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do Mar](https://singularidadepoetica.art/2022/10/14/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar-3/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja […]
- [Czesław Miłosz - Encontro](https://singularidadepoetica.art/2022/10/13/czeslaw-milosz-encontro/): Ao amanhecer, cruzávamos os campos congelados em uma carroça.Uma asa vermelha se ergueu da escuridão. E subitamente uma lebre atravessou a estrada.Um de nós apontou para ela com a mão. Isso foi há muito tempo. Hoje, nenhum deles vive, Nem a lebre, nem o homem que fez o gesto. Oh, meu amor, onde estão, para […]
- [José Paulo Paes - Epitáfio para um banqueiro](https://singularidadepoetica.art/2022/10/12/jose-paulo-paes-epitafio-para-um-banqueiro-2/): REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 01/12/2017
- [Mary Oliver – Encontrando a raposa](https://singularidadepoetica.art/2022/10/11/mary-oliver-encontrando-a-raposa/): Quando encontrei a raposa hoje – um ourotão vivo em seus olhos –nenhuma de nósse moveu, embora apenas uma de nós tenha sido imediatamente tomadade admiração. Suas patas estavamapoiadas em seu movimentode brusca parada, suas orelhas, para frente apontadas,a fim de ouvir como minha língua poderia ser,mas eu não dissenada, não havia palavra para a […]
- [Lucrécio - Da Natureza das Coisas (de rerum natura) (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2022/10/10/lucrecio-da-natureza-das-coisas-de-rerum-natura-excerto-2/): Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui.Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescemAté que as conhecemos e nomeamos.Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos. Formados dos átomos que caem velozes ou lentosVejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem;É sólido que a natureza está em nós até maisDo que nossa consciência sobre […]
- [Eiléan Ní Chuilleanáin - A serenata de Hofstetter](https://singularidadepoetica.art/2022/10/09/eilean-ni-chuilleanein-a-serenata-de-hofstetter/): A serenata de Hofstetter(Máire Ní Chuilleanáin1 1944-1990) Senti a corrente de ar há pouco, enquanto digitava os números –a data de sua morte, ocorrida há vinte e cinco anos;estamos em maio, mas a noite clara está ficando mais fria,o denso fardo se abriu e a dor se disseminouao longo desses anos desconhecidos para ela2, e […]
- [Giacomo Leopardi - A Noite do Dia de Festa](https://singularidadepoetica.art/2022/10/08/giacomo-leopardi-a-noite-do-dia-de-festa/): A Noite do Dia de Festa, um poema de Giacomo Leopardi
- [Kerry Hardie – Navio da morte](https://singularidadepoetica.art/2022/10/07/kerry-hardie-navio-da-morte/): para minha mãeObservando-a, pela primeira vez,virar-se para preparar o seu barco, minha mãe;quando ficou claro que você tinha outros assuntos agora —os assuntos do seu futuro —fui inundada pela raiva.Foi uma primeira sondagem,um olhar lançado sobre velas, remos, mastros,como aquele olhar experiente que muitas vezes viperscrutando a mesa farta.Como pode você planejar partir assimquando finalmente […]
- [Ivan Junqueira - No Leito Fundo](https://singularidadepoetica.art/2022/10/06/ivan-junqueira-no-leito-fundo-2/): No leito fundo em que descansas,em meio às larvas e aos livores,longe do mundo e dos terroresque te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhoresque te esqueceram nas andanças,longe das taças e das danças,e dos feéricos rumores; longe das cálidas criançasque ateavam fogo aos corredorese se expandiam, quais vapores,entre as alfaias […]
- [Dan Gerber – No final de setembro](https://singularidadepoetica.art/2022/10/05/dan-gerber-no-final-de-setembro/): Certa estrela, da qual eu gostava,desapareceu. É possível queeu a tenha perdido. Esquecios nomes das nuvens e árvores e rostos, como canções das quaisremanesce apenas uma duradoura melodia.*Pequeno riacho,sob os salgueiros junto à minha cabana alugada —mais minha do que qualquer outra que eu possa possuir —,diga-me novamente o nome secretoque você murmura enquanto estou […]
- [Ivan Junqueira - de "Três Meditações na Corda Lírica"](https://singularidadepoetica.art/2022/10/04/ivan-junqueira-de-tres-meditacoes-na-corda-lirica-2/): Only through time time is conquered.T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terrae escuta a voz escura das raízes,do limo primitivo, da limalhafina do que é findo e ainda respira. […]
- [J.C. Todd – Velhos Amigos, Aqui e Adeus](https://singularidadepoetica.art/2022/10/03/j-c-todd-velhos-amigos-aqui-e-adeus/): Ei, pervertida, ele diz, olhando-me, no funeralde nossa amiga, causa da morte: um câncer nasentranhas do cérebro no interior da estrutura ósseaque dava ao seu rosto tanta beleza. Durante a químio,seu encanto se igualou aos reveses – seu couro cabeludoà mostra e os músculos de sua mão esquerda muito fracospara segurar um pincel. Ele a […]
- [Ivan Junqueira - Antes que o Sol se Ponha](https://singularidadepoetica.art/2022/10/02/ivan-junqueira-antes-que-o-sol-se-ponha-2/): Antes que o sol se ponha e seja tarde,e o azul crepuscular me deite a garra,e eu, nu, retorne à terra sem fanfarraou mortalha que o corpo me resguarde;antes que murche a pétala na jarra,e eu cale, para sempre, sem alarde,e tudo o que me coube, por covarde,não mais recorde a relva que se agarraàs […]
- [Matthew Olzmann – Comercial de Mountain Dew disfarçado de poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2022/10/01/matthew-olzmann-comercial-de-mountain-dew-disfarcado-de-poema-de-amor/): "Comercial de Mountain Dew disfarçado de poema de amor", um poema de Matthew Olzmann que enumera, com humor e ternura, os gestos cotidianos e as excentricidades que sustentam um casamento, culminando no gesto simbólico de guardar uma garrafa de Mountain Dew como prova concreta e inesperada de amor.
- [Ivan Junqueira - Lição](https://singularidadepoetica.art/2022/09/30/ivan-junqueira-licao-2/): À beira do claustroo monge se inclinae na pedra aprendeo que a pedra ensina:que a vida é nadacom a morte por cima,que o tempo apenaseste fim lhe adiae que o ser carecede não ser ainda,pois à luz se esquivado que o purifica:a doce pedra,sem musgo ou limo,o pátio só,conquanto o sino,o ermo das coisassimples e […]
- [Werner Aspenström – Depois de ouvir Mozart o dia todo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/29/werner-aspenstrom-depois-ouvir-mozart-o-dia-todo/): As árvores se despem e se vestemrepetidamente,como em um casamento.Os gansos selvagens vão para o sul, e depois para o norte.Você conhece a natureza, conhece as artes.Como Mozart o socorre?O rebanho cinzento de pequenos estudantes se afastoupor sob as tíliase o rebanho cinzento de pequenos estudantes retornou.Música é tempo cultivado.O tempo não fecha as cicatrizes […]
- [Ferreira Gullar - Traduzir-se](https://singularidadepoetica.art/2022/09/28/ferreira-gullar-traduzir-se-2/): Uma parte de mimé todo mundo;outra parte é ninguém:fundo sem fundo. Uma parte de mimé multidão:outra parte estranhezae solidão. Uma parte de mimpesa, pondera;outra partedelira. Uma parte de mimalmoça e janta;outra partese espanta. Uma parte de mimé permanente;outra partese sabe de repente. Uma parte de mimé só vertigem;outra parte,linguagem. Traduzir-se uma partena outra parte– que […]
- [Joaquin Zihuatanejo – Exame final para o meu pai](https://singularidadepoetica.art/2022/09/27/joaquin-zihuatanejo-exame-final-para-o-meu-pai/): 1. Verdadeiro ou falso. Na noite em que abandonou a mim e minha mãe você hesitou antes de segurar a maçaneta. 2. Se um ônibus deixa a cidade a 100 km por hora para lugar nenhum em particular, e um homem naquele ônibus deixou seu único filho para trás na escuridão dessa cidade, quantos quilômetros […]
- [Emily Dickinson - Morri pela Beleza](https://singularidadepoetica.art/2022/09/26/emily-dickinson-morri-pela-beleza-2/): Morri pela Beleza – e assim que no JazigoMeu Corpo foi fechado,Um outro Morto foi depositadoNum Túmulo contíguo – “Por que morreu?” murmurou sua voz.“Pela Beleza” – retruquei –“Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. NósSomos Irmãos. É uma só lei” – E assim Parentes pela Noite, sábios –Conversamos a Sós –Até que […]
- [Linda Pastan - O adeus de Dido](https://singularidadepoetica.art/2022/09/25/linda-pastan-o-adeus-de-dido/): O adeus de Dido Incessante é a chuvaem minhas vidraças, e as velas se afogamem sua própria cera.Abandonados pela luz,até os filamentos de estrelasescurecem. Esta tardeescorei com estacassuas rosas encharcadas,elas agora lembram jovens meninasapoiadas em muletas. Você deixouum mapa parcialde sua mão direitaem cada maçaneta,e eu sigo de salaem sala, nômadeem minha própria casa,o coração […]
- [Ana Martins Marques - Penélope (I)](https://singularidadepoetica.art/2022/09/24/ana-martins-marques-penelope-i-2/): Leia "Penélope (I)", de Ana Martins Marques, um poema inspirado na mitologia clássica que explora o tempo, a espera e o constante desfazer da experiência humana.
- [Li-Young Lee - Das flores](https://singularidadepoetica.art/2022/09/23/li-young-lee-das-flores/): Das flores vemeste saco de papel pardo com os pêssegosque compramos do meninona curva da estrada onde dobramos em direção às placas escritas Pêssegos. Dos galhos carregados, das mãos,da doce comunhão nas latas,vem o néctar da beira da estrada, suculentospêssegos que devoramos, com a pele empoeirada e tudo,vem o pó familiar do verão, pó que […]
- [Raymond Carver - O que o médico disse](https://singularidadepoetica.art/2022/09/22/raymond-carver-o-que-o-medico-disse-2/): Ele disse não parece bomele disse parece mau aliás muito mauele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antesde parar de contareu disse fico feliz não ia querer saberque tem mais do que isso láele disse por acaso você é religioso você se ajoelhaem bosques na floresta e se permite pedir ajudaquando […]
- [Malena Mörling – Simplesmente iluminado](https://singularidadepoetica.art/2022/09/21/malena-morling-simplesmente-iluminado/): Muitas vezes no fim da tarde,depois de outro dia, depois demais um ano de dias,no meio da noite a caminho de casaeu paro na loja de conveniência e, aguardando na fila, me pegoperguntando sobre as pessoas. Eu me perguntose elas também se perguntam como é estranho que estejamosaqui na terra.E como, para poder viver, todos […]
- [Raymond Carver – Medo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/20/raymond-carver-medo-2/): Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.Medo de dormir à noite.Medo de não dormir.Medo de que o passado desperte.Medo de que o presente alce voo.Medo do telefone que toca no silêncio da noite.Medo de tempestades elétricas.Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!Medo de cães que supostamente não mordem.Medo da ansiedade!Medo de […]
- [Javier Salvago - Canção para esse dia](https://singularidadepoetica.art/2022/09/19/javier-salvago-cancao-para-esse-dia/): Agora simjá se vêo porvir.Agora simé o fim que está aqui. Que esta é– agora sim –a vetustez:a aridez,não esperarnenhum trem. Agora simo naviovai partir.Sem saberse é o fimou o além. Acabou,não há maisshow.Cai a cortina,Diz adeuso ator. Agora simé o fimque está aqui.Agora simjá se vêo porvir. Trad.: Nelson Santander Canción para ese día […]
- [Carlos Rennó - HINO ao Inominável](https://singularidadepoetica.art/2022/09/17/carlos-renno-hino-ao-inominavel/): HINO ao Inominável “Sou a favor da ditadura”, disse ele,“Do pau de arara e da tortura”, concluiu.“Mas o regime, mais do que ter torturado,Tinha que ter matado trinta mil”.E em contradita ao que afirmou, na caraduraDisse: “Não houve ditadura no país”. E no real o incrível, o inacreditávelEntrou que nem um pesadelo, infeliz,Ao som raivoso […]
- [Margaret Atwood – Um barco](https://singularidadepoetica.art/2022/09/17/margaret-atwood-um-barco/): A noite chega e as colinas adensam-se;desvanecimento rubro e amarelo das folhas.Os gélidos pinheiros se alongam em suas sombras. Abaixo deles, a água silencia,um pôr do sol tremeluzindo nela.Mais um que desce para se juntar aos outros. Agora o lago se expandee se fecha, simultaneamente. A escuridão que se mantém sob a superfície durante o […]
- [Rainer Maria Rilke - A nós nos cabe andar](https://singularidadepoetica.art/2022/09/16/rainer-maria-rilke-a-nos-nos-cabe-andar-2/): I.22 A nós, nos cabe andar.Mas o tempo, os seus passos,são mínimos pedaçosdo que há de ficar. É perda puratudo o que é pressa;só nos interessao que sempre dura. Jovem, não há virtudena velocidadee no voo aonde for. Tudo é quietude:escuro e claridade,livro e flor. Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente […]
- [W.S. Merwin - Desejo](https://singularidadepoetica.art/2023/07/16/w-s-merwin-desejo/): Por favor, um últimobeijo na cozinhaantes de apagarmos as luzes Trad.: Nelson Santander Nota sobre o poema: Merwin escreveu este pequeno poema imediatamente após a morte de sua esposa. Como é simples o desejo… de experimentar uma vez mais essa ocorrência aparentemente comum e cotidiana. Imagino isso como uma rotina noturna, um beijo ligeiro antes de preparar a casa para dormir. Mas, neste caso, acho que este “apagarmos as luzes” é mais, muito mais do que pressionar um interruptor. Essas são as coisas, talvez as mais ínfimas das pequenas coisas, que se transformam no que queremos experimentar apenas mais uma vez […]
- [Nuno Júdice – Carpe Diem](https://singularidadepoetica.art/2023/07/15/nuno-judice-carpe-diem-2/): Confias no incerto amanhã? Entregasàs sombras do acaso a resposta inadiável?Aceitas que a diurna inquietação da almasubstitua o riso claro de um corpoque te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,os instantes; e nos lábios dessa que amastemorre um fim de frase, deixando a dúvidadefinitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;e abraças a própria figura do vazio. Então,por que esperas para sair ao encontro da vida,do sopro quente da primavera, das margensvisíveis do humano? “Não”, dizes, “nada me obrigaráà renúncia de mim próprio — […]
- [David Wagoner – O silêncio das estrelas](https://singularidadepoetica.art/2023/07/14/david-wagoner-o-silencio-das-estrelas/): Certa noite, no deserto de Kalahari, quando Laurens van der Post1 disse aos bosquímanosQue não conseguia ouvir as estrelasCantando, eles não acreditaram. Eles o olharam,Meio sorridentes. Examinaram seu rostoPara ver se ele não estava brincando Ou enganando-os. Então dois daqueles homenzinhosQue nada plantam, que quase Nada têm para caçar, que vivemDe quase nada e não contam com ninguémAlém deles mesmos, o levaram para longeDa crepitante fogueira de arbustos espinhosos,Ficaram com ele sob o céu noturnoE escutaram. Um deles sussurrou:Você as ouve agora?E van der Post concentrou-se, não querendoDuvidar, mas teve que responder:Não. Eles o acompanharam lentamente,Como um homem doente, até o […]
- [Assionara Souza – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2023/07/13/assionara-souza-a-mulher-de-lot-2/): Um passo atrásEnquanto a cidade desabaTodos correndoUm tumulto dos diabosO filho, a filha, o maridoA vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicadoHá mais de cinco anos embaixo de seu narizComo se ela não soubesseComo se ela não tivesse visto de tudo nessa vidaEle perguntando se a camisa vermelha— Aquela com um só bolso no lado direito?— Sim. Essa mesma.Se a camisa vermelha não estava limpa e bem passadaE o filho indo no mesmo caminhoTratando-a feito lixo— A mãe não sabe pronunciar a palavra “estultícia”. Tenta, mãe!Estúpidos todosAté a filha, que ela tanto ensinouAgora andava com um centuriãoUm centurião!Maior […]
- [Ross Gay – Obrigado](https://singularidadepoetica.art/2023/07/12/ross-gay-obrigado/): Se você se encontra seminue descalço na grama gelada, ouvindo,mais uma vez, o grande e sonoro lamento da terra dizendoque você é o ar do agora e do que se foi, dizendoque tudo o que você ama se transformará em pó,e o encontrará naquele lugar, nãoerga seu punho. Não levante sua voz pequena contra isto. E nãose cubra. Em vez disso, enrosque os dedosdos pés na grama, observe a nuvem subindo dos seus lábios. Caminhepelo esplendor dormente do jardim.E diga apenas obrigado.Obrigado. Trad.: Nelson Santander Thank You If you find yourself half nakedand barefoot in the frosty grass, hearing,again, the earth’s […]
- [Wislawa Szymborska – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2023/07/11/wislawa-szymborska-a-mulher-de-lot-2/): Dizem que olhei para trás curiosa.Mas quem sabe eu também tinha outras razões.Olhei para trás de pena pela tigela de prata.Por distração – amarrando a tira da sandália.Para não olhar mais para a nuca virtuosado meu marido Lot.Pela súbita certeza de que se eu morresseele nem diminuiria o passo.Pela desobediência dos mansos.Alerta à perseguição.Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.Senti em mim a velhice. O afastamento.A futilidade da errância. Sonolência.Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.Olhei para trás por receio de onde pisar.No meu caminho […]
- [Linda Pastan – Os tordos](https://singularidadepoetica.art/2023/07/10/linda-pastan-os-melros/): Só posso chamá-la de pós-pós-moderna — esta música deixada pelos tordosenquanto voejam para o sul abandonando as árvores —estes frondosos cancioneiros — como enlouquecidas notasindividuais. E os bosques ressoamcom os primeiros sons do outono, dissonantese sombrios, antes que uma únicafolha se transforme. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog The Blackbirds I can only call it postpost modern—this music let loose by the blackbirdsas they swarm south abandoning trees—those leafy songbooks— like individual notesgone mad. And the woods ringwith the first sounds of autumn, raucousand dark, […]
- [Anna Akhmátova – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2023/07/09/anna-akhmatova-a-mulher-de-lot-2/): A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás e transformou-se numa estátua de sal. Gênesis E o homem justo seguiu o enviado de Deus,alto e brilhante, pelas negras montanhas.Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:“Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olharas rubras torres da tua Sodoma natal,a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,as janelas vazias da casa elevadaonde destes filhos ao homem amado”.Ela olhou e – paralisada pela dor mortal -,seus olhos nada mais puderam ver.E converte-se o corpo em transparente sale os ágeis pés no chão enraizaram-se.Quem há de chorar por essa mulher?Não é […]
- [Samuel Daniel – Soneto XXXVIII (de Delia)](https://singularidadepoetica.art/2023/07/08/samuel-daniel-soneto-xxxviii-de-delia/): Quando murchar a flor, a glória dessa imagem,e tu sozinha, o rosto cheio de cuidado,no espelho que não mente leres a mensagemde que tua beleza já terá findado:verás vivas as chagas que fizeste em mim,e, extinta a chama tua, eu a guardar-lhe o ardor;que, se antes de fanares eu te amei assim,em teu declínio aumentará o meu fervor.Em mim este milagre observará o mundo,o fogo a arder depois de o lenho consumido;então verás que o meu afeto foi profundo,e talvez te arrependas de tão cruel ter sido. Doer-te-á teres zombado deste pranto puro, quando nevar o inverno em teu cabelo escuro. […]
- [Miquel Martí i Pol - Tua Solidão](https://singularidadepoetica.art/2023/07/07/miquel-marti-i-pol-tua-solidao-2/): Enquanto puderes, não desperdicestua solidão, dedicando-a a uma absurdabusca do nada, nem te persigasobsessivamente por escuros corredores.Assustado pela luz dos preceitos.Sai sob o sol pleno e observaas coisas difíceis.Considera que o jogo desmedido das palavrasnão te servirá de nada se não te apoiaresnaquilo que te rodeia. Há as pedrase as árvores e as pessoas e tantas coisasque podes tocar com as mãos!Que não te apercebasum dia, com sobressalto, que os anos estão passandoe moves-te apenas em torno de tua sombra. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO com ligeiras alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 22/07/2023 Tu soledad En cuanto puedas, […]
- [Edith Södergran – Nada](https://singularidadepoetica.art/2023/07/06/edith-sodergran-nada/): Fique tranquilo, meu filho, não há nada,e tudo é como parece: a floresta, a fumaçae os trilhos que desaparecem.Em algum lugar afastado, em países distantes,existe um céu mais azul e uma parede coberta de rosasou uma palmeira e um vento suave —e isso é tudo.Não há nada além de neve no ramo do pinheiro.Não há nada que possamos beijar para aquecer nossos lábios,e todos os lábios ficarão frios com o tempo.Mas o que você está dizendo, meu filho? Que seu coração é forte,e viver em vão é pior do que morrer?O que você queria da morte? Você sente o nojo quesuas […]
- [Joan Margarit - Quando se perde o sinal](https://singularidadepoetica.art/2023/07/05/joan-margarit-quando-se-perde-o-sinal-2/): À noite, em um pequeno aeroporto,vês um avião decolando.O sinal vai se perdendo.Sem nenhuma piedade por quem tens sido,pois a piedade é demasiado efêmera enão há tempo para edificar nada sobre ela,sentes-te convencido de que vives,embora sem esperanças, uns anosque são os mais felizes de tua vida.Há uma outra poesia, haverá sempre,como há outra música. A de Beethoven surdo.Quando se perde o sinal. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO com ligeiras alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 20/07/2023 Joan Margarit – Se pierde la señal De noche, en un pequeño aeropuerto,ves un avión que va elevándose.Se va perdiendo la señal.Sin […]
- [Thomas Lux – "Ti amo Coração"](https://singularidadepoetica.art/2023/07/04/thomas-lux-te-amo-corasao/): "Ti amo Coração", um poema de Thomas Lux que retrata um homem que arrisca a própria vida para declarar seu amor em público, explorando o caráter tolo, ardente e perigoso da paixão como expressão extrema e abençoada do sentimento amoroso.
- [Nuno Júdice – Fotografia](https://singularidadepoetica.art/2023/07/03/nuno-judice-fotografia-2/): Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso deatget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,e olha para trás, de esguelha, como se quisessemostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-sede nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-seum sorriso que, não se sabe porquê, se esbate comessa espécie de névoa com que o tempo envolveas fotografias antigas, a sépia, em que não épossível disfarçar a certeza que temos de que aquelamulher, hoje, não passa de cinza nalgum cantode cemitério de província. Porém, a sua nudezdesafia a morte; e quase que lhe podíamos pedirque esqueça o fotógrafo, […]
- [Thom Gunn - O atiçador](https://singularidadepoetica.art/2023/07/02/thom-gunn-o-aticador-a-gas/): Quarenta e oito anos atrás —Já se passaram mesmo quarenta e oito anosDesde então?— eles forçaram a portaQue ela havia barricadoCom o peso de uma escrivaninha inteiraPara que ninguém descobrisse, como eles descobriram,o que ela havia bloqueado. Ela havia bloqueado a portaPara manter as crianças do lado de fora.Em seu roupão vermelho,Ela fizera anotações, ocupada a noite todaEmpurrando os móveis,Pensando até ficar atordoada,Antes de se deitar. As crianças ficaram indo e vindoNo duro gramado invernalO irmão mais velho e o mais novo,Repetindo, um para o outro,Seus lamentos – um fardo –Na madrugada de dezembro,Até entenderem o que aquilo queria dizer. E […]
- [Werner Aspenström – Domingo](https://singularidadepoetica.art/2023/07/01/werner-aspenstrom-domingo-2/): Pela simples razão de que nunca mais voltaráhoje é um dia memorável.O sol nasceu no leste e se pôs no oeste,deixou o céu para as estrelase uma nave espacial nadando no espaço.O rádio falava e cantava através da janela abertaatrás dos pelargônios vermelhos imutáveis.Uma mulher colhia cachos de groselha com uma tesourae os levava para a cozinha.Lá fora no pátio um rapazinho de joelhos ao lado de sua motonetadivertia-se com as centelhas da bobina. Trad.: Vasco Graça Moura (?) Republicação: poema publicado na página originalmente em 15/07/2018
- [James Tate – A promoção](https://singularidadepoetica.art/2023/06/30/james-tate-a-promocao/): Eu já fui um cachorro em minha vida passada, um cachorromuito bom, e, por isso, fui promovido a ser humano.Eu gostava de ser um cachorro. Trabalhava para um fazendeiro pobre,protegendo e pastoreando suas ovelhas. Lobos e coiotestentavam passar por mim todas as noites, mas eununca perdia uma ovelha. O fazendeiro me recompensavacom uma boa comida, comida de sua mesa. Ele pode tersido pobre, mas comia bem. E seus filhos brincavam comigo quando não estavam na escola outrabalhando no campo. Eu tinha todo amor que um cachorropoderia esperar. Quando envelheci, trouxeram um novocachorro e eu o treinei nas artimanhas do ofício.Ele aprendeu […]
- [Andreia C. Faria - Descarnação](https://singularidadepoetica.art/2023/06/29/andreia-c-faria-descarnacao-2/): Até aos trinta anos tensa cara que Deus te deu. Depoistens a cara que mereces. É uma promessade ironia, uma sentença sem recurso. É-te assim dito:estás entregue ao labor íntimodo que comes, ao número de horas que dormes,àquilo que fazes e sobretudoàquilo em que pensas. Deus(perdoa-lhe a fraqueza)tolera-nos enquanto somos jovens,ampara-nos, alisa-nosa fronte após um desgosto, talveznos ame, mas deixa-nossozinhos quando a belezaé terreno pouco firme e assiste de longeao desafio temerário que lançoua cada filho. Sabes então que o rosto é uma florplantada no escuro, uma corolatenra, redonda e impenetrávelque desabrocha e se abrecom as pétalas lisas e brilhantes, ouconfusas […]
- [Filodemo de Gádara – Estação da Rosa Silvestre](https://singularidadepoetica.art/2023/06/28/filodemo-de-gadara-estacao-da-rosa-silvestre/): É a estação da rosa silvestre e da hortelã, Sosylos,a estação do grão-de-bico e dos primeiros cortes dos brotos,dos lambaris e dos queijos salgados, da alface-crespaem cujas novas folhas a luz transfunde um brilho quase esquecido. Ainda assim,reparaste como neste ano algo mudou?Como não fazemos mais nossas caminhadas matinaisao longo da costa recém-povoada, nossos piqueniquessob os plátanos e já não nos apressamos em sorvero disco afundando do sol da tarde?Como Antigenes e Bacchios, nossos amigos bronzeados,musculosos e atléticos, ontem flertavame hoje levamos seus corpos para sepultar? Trad.: Nelson Santander (a partir da versão em inglês feita por Sherod Santos) Wildrose Season […]
- [Manuel António Pina - M., A Última Palavra](https://singularidadepoetica.art/2023/06/27/manuel-antonio-pina-m-a-ultima-palavra/): M., A Última Palavra, um poema de Manuel António Pina
- [Ellen Bass – Removendo a frente da casa](https://singularidadepoetica.art/2023/06/26/ellen-bass-arrancando-a-frente-da-casa/): Estou à mesa da cozinha, tomando chá forte e comendo ovoscom gemas douradas como papoulas de nossas galinhas, Marilyn e Estelle.Há um carro vermelho estacionado do outro lado da rua e as íris deslumbrantes do meu vizinho,suas línguas franjadas saboreando o ar.“A Monsanto está processando Vermont”, digo, folheando o Times.Digo em voz alta porque Janet está na sala de estar,na poltrona desbotada que o gato arranhou até à palha,comento iogurte e os morangos que ela trouxe do campoonde ela trabalha arduamente para aliviar as delicadas bagas de sua pesada carga química.“O quê?” ela responde. Ela não está usando os aparelhos auditivos,então […]
- [Jorge Luis Borges - James Joyce (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2023/06/25/jorge-luis-borges-james-joyce-em-tres-traducoes-2/): Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os diasdo tempo, desde o inconcebíveldia inicial do tempo, em que um terrívelDeus prefixou os dias e agonias,até aquele outro em que o ubíquo riodo tempo terrenal torne a sua fonte,que é o Eterno, e se apague no presente,no futuro, no passado o que agora é meu.Entre a aurora e a noite está a históriauniversal. Do fundo da noite vejoa meus pés os caminhos do hebreu,Cartago aniquilada, Inferno e Glória.Dá-me, Senhor, coragem e alegriapara escalar o cume deste dia. […]
- [Hanif Willis-Abdurraqib - E qual será a utilidade de sua vaidade quando o arrebatamento chegar?](https://singularidadepoetica.art/2023/06/24/hanif-willis-abdurraqib-e-de-que-servira-sua-vaidade-quando-o-arrebatamento-acontecer/): E qual será a utilidade de sua vaidade quando o arrebatamento chegar?, questiona o homem com um carrinho de garrafas vazias na esquina da igreja com alincoln enquanto fixo meu olhar no meu telefone e digoEu sei sim eu sei enquanto tento encontrar o filtroadequado que fará o pôr-quase-perfeito-do-sol parecer com a descrição que eu faria dele em um poema e o homemdiz o momento já está bem na sua frente e eurespondo eu sei mas todos que eu amo não estão aqui e digoaqui como nesta esquina comigo enquanto dou ao céu um tom de vermelho mais intenso em meu telefone e digoaqui […]
- [Emily Dickinson - "Senti um Féretro em meu Cérebro..."](https://singularidadepoetica.art/2023/06/23/emily-dickinson-senti-um-feretro-em-meu-cerebro-2/): Senti um Féretro em meu Cérebro,E Carpideiras indo e vindoA pisar — a pisar — até eu sonharMeus sentidos fugindo — E quando tudo se sentou,O Tambor de um Ofício —Bateu — bateu — até eu sentirInerte o meu Juízo E eu os ouvi — erguida a Tampa —Rangerem por minha Alma comTodo o Chumbo dos pés, de novo,E o Espaço — dobrou, Como se os Céus fossem um SinoE o Ser apenas um Ouvido,E eu e o Silêncio estranha RaçaSó, naufragada, aqui — Partiu-se a Tábua em minha MenteE eu fui cair de Chão em Chão —E em cada Chão […]
- [Yusef Komunyakaa – Ode à Larva](https://singularidadepoetica.art/2023/06/22/yusef-komunyakaa-ode-a-larva/): Irmã da mosca-varejeira& da divindade, você faz mágicaNos campos de batalha,Em pedaços de carne suína estragada & em lugares sujos. Sim, vocêChega à raiz de todas as coisas.Você é sólida & matemática.Jesus Cristo, você é implacável Com a verdade. Ontológica & lustrosa,Você lança feitiços em mendigos & reisAtrás da porta de pedra do túmulo de CésarOu em trincheiras abertas num campo de ambrósias. Nenhum credo ou decreto pode proscrevê-laEnquanto você dizima cada coisa viva. PequenaMestra da terra, ninguém chega ao céuSem antes passar por você. Trad.: Nelson Santander Ode to the Maggot Brother of the blowfly& godhead, you work magicOver battlefields,In […]
- [Manuel de Freitas - Pompe Inutili](https://singularidadepoetica.art/2023/06/21/manuel-de-freitas-pompe-inutili/): Pompe Inutili, um poema de Manuel de Freitas
- [Katia Kapovich – Retrato de um cão como um homem mais velho](https://singularidadepoetica.art/2023/06/20/katia-kapovich-retrato-de-um-cao-como-um-cara-mais-velho/): Quando o dono dele morreu em 2000 e uma nova famíliase mudou para o apartamento de Moscou,ele foi viver com os vira-latas do parque.No verão, havia muita comida, as criançasjogavam fora sanduíches, cachorros-quentes e outras sobras.Ele não tinha um grande apetite,e ainda sentia saudades do seu dono.Ele também estava velho, as fêmeas já não o atraíam,e ele não tinha mais energia para correr atrás delas.Então veio o inverno e os pequeninos abandonaram o parque.A ideia de comer do lixo lhe ocorreumas no minuto em que ele começou a revirar a lixeira virada, uma vozem sua cabeça disse: “Não, Rex!”Os vestígios de […]
- [Manuel António Pina - Forma, só Forma](https://singularidadepoetica.art/2023/06/19/manuel-antonio-pina-forma-so-forma/): Forma, só Forma, um poema de Manuel António Pina
- [Ferreira Gullar – Manhã](https://singularidadepoetica.art/2023/06/18/ferreira-gullar-manha/): As portas batem as toalhas voamo dia se esbaqueia como um pássaro dentro da casa(ou uma lembrançadentro da casa) Véspera do dia em que de repente enlouquecerei.
- [Joan Margarit - Não jogues fora as cartas de amor](https://singularidadepoetica.art/2023/06/17/joan-margarit-nao-jogues-fora-as-cartas-de-amor-2/): “Não jogues fora as cartas de amor”, um poema de Joan Margarit que afirma a escrita amorosa como refúgio último contra o desgaste do tempo e a erosão da própria poesia.
- [Richard Siken - Mundo visível](https://singularidadepoetica.art/2023/06/16/richard-siken-mundo-visivel/): A luz do sol derramando-se sobre a sua pele, sua sombra plana na parede. O amanhecer partia os ossos do seu coração como gravetos. Você não esperava por isso, o quarto se tornando branco, a luz astronômica golpeando-o em uma torrente de punhos. Você levou a mão ao rosto como se para escondê-lo, os dedos cor-de-rosa se tornaram dourados enquanto a luz fluía diretamente para o osso, como se você estivesse dentro do pequeno quarto fechado em vidro com cada partícula de poeira iluminada. A luz não é nenhum mistério, o mistério é haver algo que obstrui a passagem da luz. […]
- [Linda Gregg – Redução](https://singularidadepoetica.art/2023/06/15/linda-gregg-lessening/): Sem nem mesmo abrir o álbumpercebi de repente, dois meses depois,que você havia roubado uma foto minha,aquela colorida, nas ondas gregas.Depois de ter me machucado tanto,como você pode também subtrair-me uma fotode um tempo em que eu ainda não o conhecia?Do tempo em que eu estava com Jack?Roubar a pequena prova de que um diaeu tive uma vida feliz, era amadae bela? Trad.: Nelson Santander Lessening Without even looking in the albumI realized suddenly, two months later,you had stolen the picture of me,The one in color in the Greek waves.After you had hurt me so much,how could you also take the […]
- [Patrizia Cavalli – Agora que](https://singularidadepoetica.art/2023/06/14/patrizia-cavalli-agora-que/): Agora que o tempo parece ser todo meue ninguém me chama para almoçar ou jantar,agora que posso ficar observandocomo uma nuvem desbota e se desfaz,como um gato atravessa o telhadono imenso luxo de uma aventura, agoraque todos os dias me esperaa duração ilimitada de uma noite,onde não há mais apelos e nem razãopara me despir apressadamente e repousar dentroda ofuscante doçura de um corpo que me espera,agora que a manhã nunca chegae silenciosamente me abandona aos meus planosem todas as nuances da voz, agora,de repente, eu desejaria a prisão. Trad.: Nelson Santander Adesso che Adesso che il tempo sembra tutto mioe […]
- [Emily Dickinson - "Morrer por ti era pouco..."](https://singularidadepoetica.art/2023/06/13/emily-dickinson-morrer-por-ti-era-pouco-2/): Morrer por ti era pouco.Qualquer grego o fizera.Viver é mais difícil —É esta a minha oferta — Morrer é nada, nemMais. Porém viver importaMorte múltipla — semO Alívio de estar morta. Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 29/06/2018 Too scanty ’twas to die for you,The merest Greek could that.The living, Sweet, is costlier —I offer even that — The Dying, is a trifle, past,But living, this includeThe dying multifold — withoutThe Respite to be dead.
- [Tishani Doshi - Poema de Amor](https://singularidadepoetica.art/2023/06/12/tishani-doshi-poema-de-amor-2/): No fim, perderemos um ao outropara alguma coisa. Eu até preferiria algograndioso — morte ou desastre.Mas pode não ser assim.Pode ser que você saiacerta manhã para comprar cigarros,depois de fazermos amor,e nunca mais volte,ou que eu me apaixone por outro homem.Pode ser um lento deslizamento para a indiferença.Seja como for, teremos de aprendera suportar o peso da eventualidadede que perderemos um ao outro para alguma coisa.Então por que não começar agora, enquanto sua cabeçarepousa como uma lua perfeita em meu colo,e os cães na praia estão uivando lá fora?Por que não alcançar a costura desta noite no sul da índia e […]
- [Antonia Pozzi - Novembro](https://singularidadepoetica.art/2023/06/11/antonia-pozzi-novembro-2/): E depois – quando eu partirrestará alguma coisade mimno meu mundo –restará um fino rasto de silênciono meio das vozes –um ténue sopro de brancono coração do azul – E numa noite de Novembrouma menina frágilà esquina de uma ruavenderá braçadas de crisântemose lá estarão as estrelasgélidas verdes distantes –Alguém choraráem algum lugar – em algum lugar –Alguém irá procurar crisântemospara mimno mundoquando sem regressoeu tiver de partir. Trad.: Inês Dias REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 28/06/2018 Antonia Pozzi – Novembre E poi – se accadrà ch’io me ne vada –resterà qualchecosadi menel mio mondo –resterà un’esile scìa di […]
- [Leah Silvieus – Espécies invasoras](https://singularidadepoetica.art/2023/06/10/leah-silvieus-especies-invasoras/): Algo terrível aconteceu hoje, eu digoe meu marido corre até mim procurando por sinais de ferimentos. Não quero contar-lhe o resto:de como encontrei uma rã-arborícola na canaleta do vidro da portado nosso carro, olhando para cima com o que eu então imagineiser um olhar de esperança, como a persuadi a entrar em um saco de papelque carreguei até uma árvore com muita sombrado outro lado do terreno, como empurrei o saco suavemente,e esperei. E de como quando eu voltei,ela olhava para mim, sua perna agora deslocadano ponto onde eu, em minha pressa, a havia quebrado.Seu olhar ainda era o mesmo, repleto […]
- [Renata Correia Botelho - o vento a rondar os dragoeiros](https://singularidadepoetica.art/2023/06/09/renata-correia-botelho-o-vento-a-rondar-os-dragoeiros/): O Vento a Rondar os Dragoeiros, um poema de Renata Correia Botelho
- [Richard Howard - Princípios elementares aos setenta e dois](https://singularidadepoetica.art/2023/06/08/richard-howard-principios-elementares-aos-setenta-e-dois/): Quando consideramos as estrelas (o que mais podemos fazer com elas?) e inclusive reconhecemos entre elas figuras paternas siderais (foi nossa consideração que as organizou assim), elas sempre nos ofuscam, pois nós mudamos. Quando observamos a água (que não pode ser contida, pois não para de transformar-se em si mesma), é assim que aspiramos nos mover - mas a água nos ultrapassa. E quando aspiramos nos envolver pelas chamas (pois quem não trajaria tal vestimenta?) as chamas apenas passam por nós - esse é o jeito delas de passar. Mas a terra é uma outra conversa. Peçamos à terra, a última […]
- [Felipe Benítez Reyes - Uma Forma de Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2023/06/07/felipe-benitez-reyes-uma-forma-de-eternidade-2/): Então o medo era isto?Não os ameaçadoresfantasmas do pensamento e da consciência.Não os longos corredores de hospitaiscom lâmpadas fluorescentes dia e noite.Nem sequer o tremor de irrealidadeque permanece na alma se te recordas. O medo, aparentemente, é calmo: Chega quando fechas a janelae compreendes que tudo quanto vêsé o mesmo que ontem, e seráigual amanhã e para sempre. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com pequenas alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 25/06/2018 Felipe Benítez Reyes – Una Forma de Eternidad Pero ¿el miedo era esto?No los amenazantesfantasmas del pensamiento y la conciencia.No los largos pasillos de hospitalescon tubos fluorescentes […]
- [Cheryl Pearson - Contando estrelas](https://singularidadepoetica.art/2023/06/06/cheryl-pearson-contando-estrelas/): O cheiro de gelo nos pinheiros. Frio e verde,como uma lufada de hortelã. Suas omoplatas como asas de anjocortando a grama. Moisés dividiu as águas assim mesmo.Não foi tão milagroso quanto isto. Nós. Sua pele, a brancura dela brilhandoatravés do algodão. Você faz um círculo com o polegar e o indicador,uma lente telescópica. E diz: Vamos tentar contar as estrelas, e eu observoenquanto você vasculha o universo de ponta a ponta para mim, toda aquela velha e variada luznumerada, definida, caindo pelo aro ósseo como um punhado de sal.Agora eu sei. Como as galáxias colapsam.Como mundos inteiros podem nascer de uma […]
- [Joan Margarit - Shostakovich. Sinfonia 'Leningrado'](https://singularidadepoetica.art/2023/06/05/joan-margarit-shostakovich-sinfonia-leningrado-2/): Lembras-te? Joana1 havia morrido.Íamos para o norte, tu e eu, de carro,para o apartamento junto ao mar,e ouvíamos esta sinfonia.Iniciamos a viagem em uma manhãluminosa e, dentro da música,o dia era de muros cobertos pelo gelo,sombras com sacos meio cheiose, no lago, trenós com cadáveres.Como uma pista de aeroporto ao sol,fugia a estrada, e por trás dos sons se estendiauma névoa de obuses ocultandoos rastros dos tanques na neve.Foi em julho, em uma manhã azul douradaque brilhava no cristal do mar.Os metais e cordas ressoavamgloriosamente – no passado, como sempre;rejeitando a vida, como sempre. À noite não se ouvia nenhum outro […]
- [Ada Limón – O real motivo](https://singularidadepoetica.art/2023/06/04/ada-limon-a-verdadeira-razao/): “O Real Motivo”, um poema de Ada Limon que parte de uma conversa aparentemente trivial sobre tatuagens para revelar uma história profunda de perda, sobrevivência e amor materno.
- [Carlos Drummond de Andrade – A um varão que acaba de nascer](https://singularidadepoetica.art/2023/06/03/carlos-drummond-de-andrade-a-um-varao-que-acaba-de-nascer/): Chegas, e um mundo vai-secomo animal ferido,arqueja. Nem apontaum forma sensível,pois já sabemos todosque custa a modelar-seuma raiz, um broto.E contudo vens tarde.Todos vêm tarde. A terraanda morrendo sempre,e a vida, se persiste,passa descompassada,e nosso andar é lento,curto nosso respiro,e logo repousamose renascemos logo.(Renascemos? talvez)Crepita uma fogueiraque não aquece. Longe.Todos vêm cedo, todoschegam fora do tempo,antes, depois. Durante,quais os que aportam? Quemrespirou o momento,vislumbrando a paisagemde coração presente?Quem amou e viveu?Quem sofreu de verdade?Como saber que foinossa aventura, e nãooutra, que nos legaram?No escuro prosseguimos.Num vale de onde a luzse exilou, e no entantobasta cerrar os olhospara que nele trema,remoto e […]
- [Adrienne Rich – (Dedicatórias)](https://singularidadepoetica.art/2023/06/02/adrienne-rich-dedicatorias/): Leia Dedicatórias, de Adrienne Rich, um poema sobre leitura, pertencimento e os laços invisíveis que unem pessoas através da linguagem.
- [Nelson Santander – Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2023/06/01/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas-2/): Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), por Nelson Santander
- [Hayden Carruth – Ensaio](https://singularidadepoetica.art/2023/05/31/hayden-carruth-dissertacao/): Tantos poemas sobre mortes de animais.O sapo de Wilbur, o ouriço de Kinnell, o esquilo de Eberhart,e aquele poema de alguém – Hecht? Merrill? –sobre cremar uma marmota. Mas sobretudoeu me lembro do número ultrajante deles,como se todo poeta, inclusive eu, tivesse escrito ao menosuma elegia animal; como resultado, hoje, quando cheguei a um poema suficientemente bom de Edwin Brocksobre encontrar uma raposa morta na beira do mareu fiquei sem resposta; como se o choque permanentehouvesse me anestesiado. E então, depois de um momento,comecei a ceder à tristeza (analisando-me sem emoção enquanto isso), não apenas porqueparte do meu ser havia sido […]
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2023/05/30/jorge-luis-borges-labirinto-3/): Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.E o alcácer abarca o universoE não tem anverso nem reversoNão tem extremo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminhoQue fatalmente se bifurca em outro,Que fatalmente se bifurca em outro,Terá fim. É de ferro teu destino Como o juiz. Não creias na investidaDo touro que é um homem cuja estranhaForma plural dá horror a essa maranha De interminável pedra entretecida.Não virá. Nada esperes. Nem te esperaNo negro crepúsculo uma fera. Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 18/06/2018 Jorge Luis Borges – Laberinto No habrá […]
- [W. S. Merwin – Para o aniversário da minha morte](https://singularidadepoetica.art/2023/05/29/w-s-merwin-para-o-aniversario-de-minha-morte/): Todo ano, sem perceber, passo pelo diaEm que as últimas chamas acenarão para mimE o silêncio colocar-se-á a caminhoInfatigável viajanteComo os feixes de uma estrela sem luz Então, não me encontrareiNa vida como em um estranho trajeSurpreso com a terraE o amor de uma mulherE a desfaçatez dos homensComo hoje escrevendo após três dias de chuvaOuvindo a curruíra cantar e o cessar da precipitaçãoE reverenciando sem saber a quê Trad.: Nelson Santander For the Anniversary of My Death Every year without knowing it I have passed the day When the last fires will wave to meAnd the silence will set outTireless […]
- [Jorge Sousa Braga - Fogo sobre fogo](https://singularidadepoetica.art/2023/05/28/jorge-sousa-braga-fogo-sobre-fogo/): Fogo sobre fogo, um poema de Jorge Sousa Braga
- [Gwen Harwood – No parque](https://singularidadepoetica.art/2023/05/27/gwen-harwood-no-parque/): Ela se senta no parque. São antiquados os seus trajes.Duas crianças choram e brigam, puxam-lhe o babado.Uma outra traça padrões ao acaso no gramadoAlguém que há muito tempo ela amou passa – tarde demais para fingir desdém ao aceno casual.“Que prazer” blá blá blá. “O tempo sempre nos surpreende.”Da cabeça perfeita dele claramente ascendeum pequeno balão…”por pouco fui eu que me dei mal…” Eles ficam sob a luz bruxuleante, exercitandoos nomes e aniversários das crianças. “É tãobom ouvir suas conversas, vê-los crescer, vicejar”,diz ela ao sorriso de adeus dele. Depois, aleitandoa caçula, senta-se e os pés dela seus olhos fitam.“Elas estão […]
- [Nuno Júdice - Réquiem por Muitos Maios](https://singularidadepoetica.art/2023/05/26/nuno-judice-requiem-por-muitos-maios/): "Réquiem por Muitos Maios", um poema de Nuno Júdice que evoca amigos boêmios marcados por excessos e autodestruição, refletindo sobre morte, saudade e a memória daqueles que viveram intensamente sem jamais compreender a própria vida.
- [Mary Oliver – Não hesite](https://singularidadepoetica.art/2023/05/25/mary-oliver-nao-hesite/): Se você, súbita e inesperadamente, sentir alegria,não hesite. Entregue-se a ela. Há muitasvidas e cidades inteiras destruídas ou prestes a serem.Não somos sábios e raramente somos amáveis.E muito nunca poderá ser redimido.Ainda assim, a vida ainda tem alguma possibilidade. Talvez essa seja sua forma de resistir, de mostrar que às vezesalgo melhor do que todas as riquezas ou poderesdo mundo pode acontecer. Pode ser qualquer coisa,mas é provável que você o perceba no instanteem que o amor começa. De toda forma, frequentementeé este o caso. De toda forma, seja como for, não temaa fartura. A alegria não foi feita para ser […]
- [Joan Margarit - Não estava distante, não era difícil](https://singularidadepoetica.art/2023/05/24/joan-margarit-nao-estava-distante-nao-era-dificil/): Chegou um tempoem que a vida que se perde já não causa dor,em que a luxúria é apenasuma lâmpada inútil, e a inveja é esquecida.É um tempo de perdas prudentes, necessárias,e não é um tempo de chegarmas de partir. O amor, agora,por fim se une à inteligência.Não estava distante,não era difícil. É um tempoque não me deixa mais que o horizontecomo medida da solidão.Um tempo de tristeza protetora. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 12/06/2018 Joan Margarit – No estaba lejos, no era difícil Ha llegado este tiempocuando ya no hace daño la […]
- [Juan Vicente Piqueras - O pouco que sei](https://singularidadepoetica.art/2023/05/23/juan-vicente-piqueras-o-pouco-que-sei/): Sei que o penar não vale a pena. Sei que a felicidade é indizível. Sei que o amor, essa missão selvagem,delicada, impossível, é a única formade estar neste mundo sem errar. Sei que a morte resolve tudo.Sei que a morte, não, quero dizer, a vidaé um pintassilgo em uma árvore secaou em uma amendoeira em flor,cantando para a luz,dando graças aos céus por tudosem o saber. Trad.: Nelson Santander Lo poco que sé Sé que la pena no vale la pena. Sé que la dicha no puede ser dicha. Sé que el amor, esa misión salvaje,delicada, imposible, es la única formade […]
- [Manuel António Pina – Esplanada](https://singularidadepoetica.art/2023/05/22/manuel-antonio-pina-esplanada/): Esplanada, um poema de Manuel António Pina
- [Jane Draycott – A praça](https://singularidadepoetica.art/2023/05/21/jane-draycott-a-praca/): Do outro lado da praça, uma mulher olha para mimde uma janela, a sombra do quarto em que ela estápressionando-a como uma pétala em direção à luz. Ela é linda em seu vestido de linho sem mangas,uma vela impassível na vasta vidraça escura,como minha mãe em um tempo antes de eu a conhecer. Entre nós, um rio de turistas, rostos erguidos para os grandes cavalos de bronze saltandopara algum outro lugar que não podemos ver. Como um amante do outro lado de uma sala eu devolvo o seu olharmas em seus olhos ela está me dizendo que agora é tarde demaise […]
- [Joan Margarit - Discurso do Método](https://singularidadepoetica.art/2023/05/20/joan-margarit-discurso-do-metodo-2/): Já de criança buscava as janelaspara pode fugir com o olhar.Desde então, se entro em um lugar,olho com atenção onde deixo meu casacoe onde está a porta de saída.Liberdade, para mim, significa fuga.Há muitas portas no mundo.Inclusive o sexo, em caso de emergência,pode sê-lo, embora todas vão se fechandoe, para fugir, rapidamente fiquemapenas as janelas da infância.De par em par abertas para poder saltar. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 07/06/2018 Discurso del Método De niño ya buscaba las ventanaspara poder huir con la mirada.Desde entonces, si entro en un lugar,miro con atención […]
- [Albert Katz – Ao chegar aos 70](https://singularidadepoetica.art/2023/05/19/albert-katz-ao-chegar-aos-70/): Leia "Ao chegar aos 70", de Albert Katz, um poema espirituoso e comovente sobre envelhecimento, memória e reinvenção pessoal.
- [Idea Vilariño - Ou quem sabe nove](https://singularidadepoetica.art/2023/05/18/idea-vilarino-ou-quem-sabe-nove/): Talvez tenhamos tido só sete noitesnão seinão as conteicomo poderia.Talvez não mais que seisou quem sabe nove.Não seimas valeramcomo o amor mais duradouro.Talvezcom quatro ou cinco noites como essasmas precisamente como essastalvezse possa vivercomo de um longo amoruma vida inteira. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com pequenas alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 06/05/2018 Idea Vilariño – O fueron nueve Tal vez tuvimos sólo siete nochesno séno las contécómo hubiera podido.Tal vez no más que seiso fueron nueve.No sépero valieroncomo el más largo amor.Tal vezde cuatro o cinco noches como esaspero precisamente como esastal vezpueda vivirsecomo de un largo […]
- [Zbigniew Herbert - Uma vida](https://singularidadepoetica.art/2023/05/17/zbigniew-herbert-uma-vida/): Eu era um rapaz sossegado, um tanto sonolento e — surpreendentemente —ao contrário dos meus colegas — que ansiavam por aventuras —não nutria grandes expectativas — não costumava olhar pela janelaNa escola, era mais diligente do que competente — dócil e estável Depois, veio uma vida normal de um funcionário comum,levantar cedo rua bonde escritório bonde outra vez casa dormir Eu realmente não sei porque estou perpetuamente cansado e inquieto,mesmo quando deveria estar descansando Sei que nunca fui lá grande coisa — não conquistei nadacolecionava selos ervas medicinais era só mediano no xadrez Viajei para o exterior certa vez — em […]
- [Manuel António Pina – Lugares da infância](https://singularidadepoetica.art/2023/05/16/manuel-antonio-pina-lugares-da-infancia-2/): Lugares da infância ondesem palavras e sem memóriaalguém, talvez eu, brincoujá lá não estão nem lá estou. Onde? Diantede que mistérioem que, como num espelho hesitante,o meu rosto, outro rosto, se reflecte? Venderam a casa, as floresdo jardim, se lhes toco, ficam hirtase geladas, e sob os meus passosdesfazem-se imateriais as rosas e as recordações. O quarto eu não o viaporque era ele os meus olhos;e eu não o sabia,e essa era a sabedoria. Agora sei estas coisasde um modo que não me pertence,como se as tivesse roubado. A casa já não cresceà volta da sala,puseram a mesa para quatroe o […]
- [Peter Everwine – Chuva](https://singularidadepoetica.art/2023/05/15/peter-everwine-chuva/): Ao anoitecer, quando a luz vaciloue a pereira diante de minha janela escureceu,pousei meu livro e me postei junto à porta aberta,as primeiras gotas de chuva golpeando os beirais,um cheiro de terra molhada no vento.Sessenta anos atrás, deitado ao lado do meu pai,meio adormecido, sobre uma cama de ramos de pinheiro,enquanto a chuva tamborilava contra nossa barraca, ouvipela primeira vez o repentino lamento de um mergulhãopervagando sobre aquele lago remoto —uma solidão sem igual,embora o que eu interpretei como inconsolávelpossa ter sido apenas o som de algoindomável e inominávelcantando para a imensidão ao seu redore para nós até dormirmos. E pensando […]
- [Eduardo Chirinos - O que meu pai realmente quer de mim](https://singularidadepoetica.art/2023/05/14/eduardo-chirinos-o-que-meu-pai-realmente-quer-de-mim-2/): 1Esta noite tive um sonho. Seguia meu paipor uma estrada de terra. Os dois íamos a cavaloe mal trocávamos uma palavra. Ao longe, avistava-sea sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoadodesconhecido e remoto. De repente, meu pai deteveseu cavalo e perguntou se eu sabia para onde íamos.Respondi que não. Então estamos bem, ele me disse. 2Os cavalos do sonho conheciam o caminhode cor. Bastava abandonar asrédeas, deixar-se levar. Isso me causava umacerta apreensão, talvez até um pouco de medo.Meu pai, por outro lado, parecia muito tranquilo.Pensei, parece tranquilo porque está morto. 3Aqui é onde vivo, disse ele, como se […]
- [Mary Oliver – Sobre viajar para lugares bonitos](https://singularidadepoetica.art/2023/05/13/mary-oliver-sobre-viajar-para-lugares-bonitos/): Ainda procuro Deus todos os diase ainda o encontro por toda parte,no pó, nas floreiras.Seguramente, nos oceanos,nas ilhas distantes, continentes de gelo, países de areia,cada um com seu próprio conjunto de serese um Deus, qualquer que seja seu nome.Que perfeito estar a bordo de um naviotalvez ainda com cem anos pela frente.Mas é tarde, para todos nós,e, na verdade, o único navio que háé aquele em que todos estamos,incendiando o mundo à medida que avançamos. Trad. Nelson Santander On Traveling To Beautiful Places Every day I’m still looking for Godand I’m still finding him everywhere,in the dust, in the flowerbeds.Certainly in […]
- [Wislawa Szymborska - Gato num apartamento vazio](https://singularidadepoetica.art/2023/05/12/wislawa-szymborska-gato-num-apartamento-vazio-2/): Morrer — isso não se faz a um gato.Pois o que há de fazer um gatonum apartamento vazio.Trepar pelas paredes.Esfregar-se nos móveis.Nada aqui parece mudadoe no entanto algo mudou.Nada parece mexidoe no entanto está diferente.E à noite a lâmpada já não se acende. Ouvem-se passos na escadamas não são aqueles.A mão que põe o peixe no pratinhotambém já não é a mesma. Algo aqui não começana hora costumeira.Algo não acontececomo deve.Alguém esteve aqui e esteve,e de repente desapareceue teima em não aparecer. Cada armário foi vasculhado.As prateleiras percorridas.Explorações sob o tapete nada mostraram.Até uma regra foi quebradae os papéis remexidos.Que mais […]
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: VII - Encontrando algo](https://singularidadepoetica.art/2023/05/11/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-vii-encontrando-algo/): Uma cena familiar aproxima infância, envelhecimento e a tarefa de carregar aquilo que amamos. O poema encontra sentido em gestos concretos de cuidado, enquanto felicidade e passagem do tempo permanecem discretamente ligadas.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: VI - Sozinho](https://singularidadepoetica.art/2023/05/10/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-vi-so/): Depois da perda, estar sozinho não significa apenas ausência: o mundo continua oferecendo beleza, prazer e exigência. Jack Gilbert sustenta a tensão entre morte e felicidade, procurando uma forma de viver sem negar nenhuma delas.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: V - Michiko morta](https://singularidadepoetica.art/2023/05/09/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-v-michiko-morta/): A morte de Michiko é figurada pelo esforço físico de carregar uma caixa pesada sem jamais colocá-la no chão. O poema transforma o luto em gesto corporal contínuo, feito de exaustão, adaptação e cuidado.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: IV - Saudades de mim](https://singularidadepoetica.art/2023/05/08/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-iv-saudoso-de-mim/): A ausência de Michiko altera também a identidade de quem permaneceu. Jack Gilbert escreve sobre a saudade não apenas da pessoa perdida, mas do próprio homem que existia na convivência com ela.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: III - Michiko Nogami (1946-1982)](https://singularidadepoetica.art/2023/05/07/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-iii-michiko-nogami-1946-1982/): O poema se volta para Michiko como presença singular, recusando que sua vida seja reduzida à morte. Memória, intimidade e atenção ao que nela era irrepetível sustentam uma elegia sem abstração consoladora.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: II - Casados](https://singularidadepoetica.art/2023/05/06/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-ii-casados/): A vida de um casal é observada na duração, quando intimidade e tempo transformam o modo de pertencer um ao outro. O poema aproxima casamento, família e mortalidade sem converter a convivência em imagem idealizada.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: I - Noites e manhãs sem fim](https://singularidadepoetica.art/2023/05/05/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-i-noites-e-quatro-mil-manhas/): Uma caminhada por paisagens gregas e americanas se converte em percurso pela memória de Michiko. Entre árvores, estradas e vento, a presença ausente acompanha o poeta e dá continuidade ao amor vivido.
- [Javier Salvago - Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos](https://singularidadepoetica.art/2023/05/04/javier-salvago-um-pouco-mais-sabios-um-pouco-mais-cegos-2/): Quando não somos mais jovens, nos convencemosde que o diabo sabe mais por ser mais velhoe admitimos que os anos nos ensinama distinguir a realidade do sonho.Talvez não. Talvez a vida sóse nos mostre uma vez – quando temosolhos para aprecia-la – e depois vamosesquecendo seu rosto e seu segredo. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com ligeiras alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 30/05/2018 Un poco más sabios, un poco más ciegos Cuando uno ya no es joven, se convencede que el diablo sabe más por viejo,y admite que los años nos enseñana distinguir la realidad del sueño.Y, acaso, […]
- [Tania Hershman – Por um outro nome](https://singularidadepoetica.art/2023/05/03/tania-hershman-por-um-outro-nome/): Primeiro, ele a chamou de / Minha Pequena Aubergine // como se ela fosse exótica / como se ele fosse francês. // Você não é couve-flor, / ele brincou, e ela / gostou, seu nome / vegetal de estimação... Tania Hershman – Por um outro nome
- [Manuel António Pina - Ruínas](https://singularidadepoetica.art/2023/05/02/manuel-antonio-pina-ruinas-2/): Por onde quer que tenha começado,pelo corpo ou pelo sentido,ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,como num sono agitado interrompido. O teu nome tinha alturas inacessíveise lugares mal iluminados ondese escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam,e talvez devesse ter começado por aí. Agora é tarde, do que podiater sido restam ruínas;sobre elas construirei a minha Igrejacomo quem, ao fim do dia, volta a uma casa. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 28/05/2018
- [Ada Limón – A rebitadora](https://singularidadepoetica.art/2023/05/01/ada-limon-a-rebitadora/): “A rebitadora”, um poema de Ada Limon que aborda a experiência dos cuidados paliativos e da morte iminente de um ente querido através da linguagem do trabalho, da organização e da eficiência.
- [Javier Salvago - Convém não esquecer](https://singularidadepoetica.art/2023/04/30/javier-salvago-convem-nao-esquecer-2/): Por esta viaque chamam vida, vamoscom cautela devida, tal qual um cego.Mas em cinzas terminatodo e qualquer fogo. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 27/05/2018 Conviene no Olvidarlo Por esta senda,que llaman vida, todosvamos a tientas, igual que un ciego.En ceniza terminantodos los fuegos.
- [Keisha Cassel – As nove Sinfonias de Beethoven: um estudo de caso](https://singularidadepoetica.art/2023/04/29/keisha-cassel-nona-sinfonia-de-beethoven-um-estudo-de-caso/): E se eu lhe dissesse que nem uma única guerra acontece dramaticamente? // Nem as guerras em sua casa / nem as guerras no seu corpo / somos todos capazes da violência // de destruir todos em nosso caminho pelo puro prazer... Keisha Cassel – Nona Sinfonia de Beethoven: um estudo de caso
- [Vítor Nogueira - Gelo](https://singularidadepoetica.art/2023/04/28/vitor-nogueira-gelo-2/): Agora é apenas um café com paredes adornadas,imagens retratando destemidos ancestrais.O tempo foi passando, não foi? Um acidenteem câmara lenta a uma escala cataclísmica. Grande parte daquilo que fazemos é construirmemória, uma promessa frágil ao futuro.E pensar que na vida acumulamos tanta coisa,sobretudo se por hábito não deitamos nada fora. Mas ninguém pode travar a grande máquina.Diz-se que a viagem conta mais do que o destino.Perscruto as águas envolventes, em busca desombras, enquanto o mar revolto bate no casco. REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente em 26/05/2018
- [Charlotte Mew - Quartos](https://singularidadepoetica.art/2023/04/27/charlotte-mew-quartos/): Lembro-me de quartos que tiveram relação Com o constante esgotamento do coração. O quarto em Paris, o quarto em Genebra, O quarto pequeno e úmido com cheiro de algas E aquele som da maré, enlouquecedor e perenal — Quartos onde as coisas morriam — para o bem ou para o mal. Mas há um quarto onde nós (duas) mortas jazemos, Embora a cada manhã pareça que despertamos e pareça que de novo repousamos como o faremos algures no outro catre mais silencioso e poeirento lá fora, ao sol - ao relento. Trad.: Nelson Santander Rooms I remember rooms that have had […]
- [Nuno Júdice - Passado](https://singularidadepoetica.art/2023/04/26/nuno-judice-passado-2/): Passou o vento, passou o dia,passou a noite e a manhã,passou o tempo, passou a gente,passou cada hora de amanhã; passou um canto esquecidonos cantos de cada passo,passou ao dizer que passosem se lembrar do compasso; passou a vida como se nada fosse,só passou e foi-se embora,passou à pressa, sem demora,e passou tudo a quem ficou; e se mais não passouno fim de tudo ter passado,foi porque algo se passouno último passo que foi dado. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 25/05/2018
- [Ted Kooser – Fazenda Abandonada](https://singularidadepoetica.art/2023/04/25/ted-kooser-fazenda-abandonada/): Ele era um homem grande, diz o tamanhodos seus sapatos sobre uma pilha de pratos quebrados junto à casa;um homem alto também, diz o comprimento da camano quarto do andar de cima; e um homem bom e temente a Deus,diz a Bíblia com a contracapa arruinadano chão abaixo da janela, empoeirada de sol;mas não um fazendeiro, dizem os camposcobertos por pedregulhos e o celeiro com goteiras. Uma mulher vivia com ele, dizem as paredes do quartoforradas com lilases e as prateleiras da cozinhacobertas com oleado, e eles tinham uma criança,diz a caixa de areia feita de pneu de trator.O dinheiro era […]
- [Manuel António Pina - O Regresso](https://singularidadepoetica.art/2023/04/24/manuel-antonio-pina-o-regresso-2/): Como quem, vindo de países distantes fora desi, chega finalmente aonde sempre estevee encontra tudo no seu lugar,o passado no passado, o presente no presente,assim chega o viajante à tardia idadeem que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casae deita-se pela primeira vez na sua cama.Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,cidades, estações do ano.E come agora por fim um pão primeirosem o sabor de palavras estrangeiras na boca. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 24/05/2018
- [Peter Sirr – Uma cartilha saxônica](https://singularidadepoetica.art/2023/04/23/peter-sirr-uma-cartilha-saxonica/): Uma cartilha saxônica Para além deste afã e deste verso, aguarda-me inesgotável o universo. – Borges Penso então em Borges ficando cego,e no que ele disse sobre a alma.Ele tentava entender por queum homem que perde o mundobusca espadas e monstrose saxões com vozes rudes no Salão de Hidromel1. É que a alma sabe-se imortal,diz ele, e seu faminto círculo espiraladotudo alcança, realiza o que é possível.Há um tipo de conhecimento secretoque nos abraça, atinge tudo o que fazemos ou entãotudo o que fazemos é conhecimento e alma. Além de tudo isso, a gramática suada,o esforço de conhecer uma coisa após outra,do […]
- [Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame](https://singularidadepoetica.art/2023/04/22/lawrence-ferlinghetti-cafe-notre-dame-2/): Uma espécie de trauma sexualprende um casal abismadoEle está segurando as duas mãos delanas suasEla está beijando as mãos deleEstão olhando-senos olhosde muito pertoEla tem um casaco de pelesfeito duma centena de coelhos correndoEletem um casaco clássico sombrioe calças cinza-de-pardoAgora estão a examinar as palmasdas mãos um do outrocomo se fossem mapas de Parisou do mundocomo se estivessem à procura do Metrôque os levasse juntosatravés dos caminhos subterrâneosatravés das «estações do desejo»até ao terminal do amoraté às portas da cidade-luzÉ um caso sem saídae estão perdidosnas linhas cruzadasdas suas palmas enlaçadassuas linhas de cabeça e linhas de coraçãosuas linhas de sorte […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Fim de Verão"](https://singularidadepoetica.art/2023/04/21/paulo-henriques-britto-de-fim-de-verao/): VII Eis que acabou o tempo dos inícios, tendo durado o exato suficiente pra formação do hábito (ou vício) de habitar não um mísero presente, mas um futuro sempre a exigir rigorosíssimo planejamento, até que se escute a ficha cair: o tempo se esgotou. Chegou o momento de enfim viver conforme o planejado, ou então — se o plano não ficou pronto — de se pôr todo o projeto de lado e, improvisando cada gesto e passo, rodar em círculos, perplexo, tonto, a repetir o mantra: "Eu sei o que faço". ..................................................................... XIII Era o momento? Era. Foi. A hora exata […]
- [Do Instagram](https://singularidadepoetica.art/2023/04/20/do-instagram/)
- [Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções](https://singularidadepoetica.art/2023/04/20/marina-tsvetaieva-um-poema-em-duas-traducoes-2/): Tentativa de ciúme –Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra?Fácil, não é? — Um golpe de remo! —E de pronto a linha da costaSe foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante(No céu, por certo, não no mar)!Almas! Almas! — antes amarComo irmãs, não como amantes! Como vai você com a mulherComum? Sem nada de divino?Sem soberana, sem sequerUm trono (você foi o assassino), Como vai, meu bem? Tudo a gosto?E o dia-a-dia — sempre igual?Como você se arranja com o impostoDa banalidade imortal? “Mil sobressaltos, incertezas —Basta! Vou arrumar um teto!”Como vai, com quem […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Oito sonetos entrópicos"](https://singularidadepoetica.art/2023/04/19/paulo-henriques-britto-de-oito-sonetos-entropicos/): I Deixar de ser é coisa natural,como é natural ser. Pensando bem(ou só pensando, seja bem ou mal),o que haverá de natural, porém,em ser o que se é, e não ser, apenas?Não haverá um toque de artifícioimplícito em escamas, pelos, penas,nos ossos que sustentam o edifíciotodo, na fome que impele essa máquinafuriosa e cega, essa goela ávida,em direção a seu estado final,que é como o do silício, ou do feldspato,de tudo que é só no sentido lato,franco, de ser — este, sim, natural? ………………………………………………………….. III Podar as que ainda restam — expecitativasque, sabe-se lá como, deram um jeitode sobreviver, mais ou […]
- [Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa](https://singularidadepoetica.art/2023/04/18/anne-sexton-para-o-meu-amante-voltando-para-a-esposa-2/): “Para o meu amante voltando para a esposa”, um poema de Anne Sexton que explora a tensão entre paixão e permanência através da voz de uma amante que reconhece a força dos laços familiares e conjugais.
- [Paulo Henriques Britto - Bálsamo](https://singularidadepoetica.art/2023/04/17/paulo-henriques-britto-balsamo/): Seja hoje um dia igual a qualquer outro,um dia besta, esvaziado e amorfo, o tipo de data que é esquecidaantes mesmo de virada a folhinha, e esteja você completamente imersoneste dia, como um peixe dessas espécies das regiões abissais, isentas de luz,longe do ar e seus azuis, que nas funduras de silêncio e noitefalta não sente do que nunca soube — pois nesse dia insosso e timoratoesteja você, absorto, atarefado, imune a tudo que é êxtase ou angústia.Seja isso a sua vida. O seu mundo. BRITTO, Paulo Henriques.”Bálsamo”. In:_ Fim de Verão. São Paulo: Companhia das Letras, 2022
- [Mario Benedetti - Tempo sem Tempo](https://singularidadepoetica.art/2023/04/16/mario-benedetti-tempo-sem-tempo-2/): Preciso de tempo, necessito desse tempoque os outros deixam de ladoporque lhes sobra ou já não sabemo que fazer com eletempoem brancoem rubroem verdemesmo em castanho escuronão me importa a corcândido tempoque eu não posso abrire fecharcomo uma porta tempo para olhar uma árvore, um farolpara caminhar à beira do descansopara pensar que bom que hoje seja invernopara morrer um poucoe nascer em seguidae dar-me contae dar-me cordapreciso do tempo necessário parachapinhar algumas horas na vidae investigar por que estou tristee me habituar ao meu velho esqueleto tempo para esconder-meno canto de um galoe para reaparecerem um relinchoe para estar em […]
- [Paulo Henriques Britto - Sobre o real](https://singularidadepoetica.art/2023/04/15/paulo-henriques-britto-sobre-o-real/): Há motivos bem sérios para nãose acreditar em nada de específico,quanto mais em geral. Pois se a razãotem algum valor, é ponto pacífico que conclusões geradas pela mentesó podem validar ulterioresconclusões, porém rigorosamentenada nas regiões inferiores, menos nefelibatas, da supostarealidade, em que as coisas têm pesoe consistência. Aqui tudo é uma aposta mais ou menos às cegas. Sim. Bem-vindoao mundo do que há. Ficou surpreso?É estranho? Assustador? Eu acho lindo. BRITTO, Paulo Henriques.”Sobre o real”. In:_ Fim de Verão. São Paulo: Companhia das Letras, 2022
- [Manuel António Pina - Luz](https://singularidadepoetica.art/2023/04/14/manuel-antonio-pina-luz-2/): Talvez que noutro mundo, noutro livro,tu não tenhas morridoe talvez nesse livro não escritonem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aquelesque a morte separou e um delesescreva agora isto como seacordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu),e talvez então tu, eu, esta impressãode estranhidão, de que tudo perdeude súbito existência e dimensão, e peso, e se ausentou,seja um sonho suspenso que sonhoualguém que despertou e paira agoracomo uma luz algures do lado de fora. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 18/05/2018
- [Paulo Henriques Britto - de "Ao Leitor"](https://singularidadepoetica.art/2023/04/13/paulo-henriques-britto-de-ao-leitor/): V Sofro dos nervos, como se diziaantigamente — ou, mais antigamenteainda, mergulho (mesmo de dia)numa “noche oscura del alma” (ou “mente”, para aliviar o peso asfixiantede dois milênios de neura cristã),estado em que a existência por um instante(que às vezes dura toda uma manhã) é um mal desnecessário, uma arrastada(talvez interrompível) epopeiasem herói — e que, no entanto, não é nada que não se renda (quase) por completoàs armas novas da farmacopeiaou ao rigor secular do soneto. ……………………………………………………………………. X É a velha história de sempre,com este ou aquele acréscimo:você fingindo que entende,sem entender um centésimo. E no entanto segue em frente,irresponsável, […]
- [Roger Wolfe - A Última Noite da terra](https://singularidadepoetica.art/2023/04/12/roger-wolfe-a-ultima-noite-da-terra-2/): O melro de todos os anos voltou a visitar minha casaE, no entanto, ainda estou aqui.Sua melodia não muda, já o disse antes.Mas meu trabalho é constatar o óbvio,e é isso que o melro me faz lembrar.O tempo passa, as pessoas envelhecem e morrempor sua própria mão ou com ajuda.As palavras escorrem pelo ralodo que já foi chamado de “história secreta”.Tudo flui e se perde, os rios no mar,o mar na imensidão inconcebível do cosmos,o cosmos no nada do qual não deveria ter saído.Enquanto isso, digitamos.Um surdo tamborilar contra séculos de morte programadae um futuro de indefinição certeira.Um batalhão de patéticos […]
- [Rosanna Warren - Lago](https://singularidadepoetica.art/2023/04/11/rosanna-warren-lago/): Você estava com água até as coxas e a luz verde refletianas cavidades dos seus quadris e no estômago, que é onde a chama pilotoardia nas antigas estátuas de Dionísio,e por um momento, enquanto você caminhava mais em direção ao fundo, parecia queaquela água poderia lavar o pesode suas próprias estações e de doenças que não eram as suas: era uma caríciafria e infiel, que envolvia sua cintura,que a tomava em seus braços e você a ela se entregava, um pouco,só um pouco, sabendo com que rapidez e leveza aquele toque seria retirado,e quão rapidamente você estaria de pé novamente sobre […]
- [Marina Colasanti - Rota de Colisão](https://singularidadepoetica.art/2023/04/10/marina-colasanti-rota-de-colisao-2/): De quem é esta peleque cobre a minha mãocomo uma luva?Que vento é esteque sopra sem soprarencrespando a sensível superfície?Por fora a alheia cascadentro a polpae a distância entre as duasque me atropela.Pensei entrar na velhicepor inteirocomo um barcoou um cavalo.Mas me surpreendojovem velha e maduraao mesmo tempo.E ainda aprendo a viverenquanto avançona rota em cujo fima vidacolide com a morte. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 17/05/2018
- [Abdellatif Laâbi – Duas horas em um trem](https://singularidadepoetica.art/2023/04/09/abdellatif-laabi-duas-horas-em-um-trem/): Em uma viagem de trem de duas horasEu revejo o filme da minha vidaCerca de dois minutos por anoMeia hora para a minha infânciaoutra para o meu tempo na prisãoEnquanto o amor, livros e viagenscompartilham o restoA mão de minha parceira gradualmentese funde à minha e sua cabeça,que repousa em meu ombro,parece leve como uma pombaQuando chegarmosestarei com cinquenta e poucos anose terei pouco mais de uma horade vida Trad.: Nelson Santander Two Hours on a Train On a two-hour train rideI replay the film of my lifeRoughly two minutes per yearA half hour for my childhoodanother for my time in […]
- [Manuel de Freitas - Nada de nada](https://singularidadepoetica.art/2019/05/05/manuel-de-freitas-nada-de-nada/): para o José Carlos Soares Um dia, logo de manhã, entraremos num cemitério e perguntarás a Antonia Pozzi se estar morto é mais ou menos triste do que estes dias arduamente sepultados. Receando que saibas a resposta, beberei com Lowry a primeira ou a última tequila, na certeza de que ambos os adjetivos estarão certos (um pouco, talvez, demasiado certos). Assim possa a chuva apagar todos os versos que escrevemos para nada, sobre nada, contra nada, à sombra imensa dos jacarandás que floriam – distraídos, quase por engano – no Rossio. E inundavam de luz (nunca vi uma luz tão escura) […]
- [José Miguel Silva - Desculpas não faltam](https://singularidadepoetica.art/2019/05/04/jose-miguel-silva-desculpas-nao-faltam/): Uma casa junto ao Vouga, rio de água suficiente, onde apenas se mergulha até à cintura, a pequena horta de Virgílio, o amor robustecido por nenhuma esperança e tantos livros para ler — que desculpa vou agora dar para não ser feliz?
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/03/herberto-helder-de-poemas-canhotos-4/): o António Ramos Rosa estava deitado na cama contra a parede e deu meia volta sobre si mesmo e ficou de cara voltada contra a parede e fechou os olhos e fechou a boca e ficou todo fechado e então morreu todo fundo e completo de uma só vez e apenas ele no tempo e no espaço e só agora passado ano e meio eu compreendo como era preciso ser assim tão íntimo para sempre tão compacto mais que o mundo inteiro — e ele sou eu
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/02/herberto-helder-de-poemas-canhotos-3/): fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são inteligentes tão subis no súbito entendimento das intenções segundas que temos em relação a eles se lhes dessem a ler bons poemas maior proveito teriam aqueles que os escrevem do que tem com A ou B eu cá por mim estou certo de que nenhum golfinho diria a propósito da morte de Deus e da glória do poema onde morre as palavras turvas que transmitiram algumas bocas maometanas uma dessas bocas foi a mesma que disse viva o profeta! quando decretaram a morte de Salman Rushdue por causa dos Poemas Satânicos parecia […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/05/01/herberto-helder-de-poemas-canhotos-2/): escrever poemas não é boa maneira de atordoar os tempos do verbo, não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio, nem perder algures uma perna e lembrar-me depois de perder ainda a outra: ninguém ganha assim uma barra de ouro, ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro, ninguém transforma assim uma chaga a beleza humana, tórax e membros e a cabeça por entre a espuma: e como só de pensá-lo o corpo avança! escrever, deixar de escrever, escrever ou não escrever não é acabar assim tão depressa quanto se pensava um poema ou dois ou cem […]
- [Herberto Helder - de "Poemas Canhotos"](https://singularidadepoetica.art/2019/04/30/herberto-helder-de-poemas-canhotos/): em boa verdade houve tempo em que tive uma ou duas artes poéticas, agora não tenho nada: sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas: as vezes apenas duas ou três linhas; outras, vinte ou trinta: houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei a encher umas quantas páginas do caderno aconteceu também por vezes que o papel pareceu estremecer, mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse sob as minhas palavras escritas, o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto: enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se, […]
- [Goliarda Sapienza – Para minha mãe](https://singularidadepoetica.art/2019/04/29/goliarda-sapienza-para-minha-mae/): Quando eu voltarserá noite fechadaQuando eu voltaras coisas estarão quietasNinguém vai me esperarnaquele leito de terraNinguém vai me acolhernaquele silêncio de terra Ninguém vai me consolarpor todas as partes já mortasque carrego em mimcom resignada impotênciaNinguém vai me consolarpelos instantes perdidospelos sons esquecidosque há tempoviajam ao meu lado e tornam densoo respiro, lamacenta a língua Quando eu chegarapenas uma fendavai conseguir me segurar e mão nenhumavai aplanar a terrasob as faces gélidas e mãonenhuma vai se opor à pressada pá ao seu ritmo indiferentepara aquele fim estranho, repugnante Pudesse eu naquela noitevazia pôr a minha testano teu grande seio de semprePudesse […]
- [Mário Cesariny – Em todas as ruas te encontro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/28/mario-cesariny-em-todas-as-ruas-te-encontro/): Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real que o meu corpo se transfigura e toca o seu próprio elemento num corpo que já não é seu num rio que desapareceu onde um braço teu me procura Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco
- [Walt Whitman - Canção de mim mesmo, 48](https://singularidadepoetica.art/2019/04/27/walt-whitman-cancao-de-mim-mesmo-48/): 48 Eu disse que a alma não é mais do que o corpo, e disse que o corpo não é mais do que a alma, e nada, nem Deus, é maior para um ser do que esse ser para si mesmo, e quem quer que ande um estádio sem solidariedade caminha para seu próprio funeral vestindo sua mortalha, e eu ou tu sem um centavo no bolso podemos comprar a nata da terra, e vislumbrar com um olho, ou apresentar um grão na sua vagem, confundindo o conhecimento de todas as eras; e não há negócio ou emprego em que um […]
- [Joan Margarit - Ela](https://singularidadepoetica.art/2019/04/26/joan-margarit-ela/): É tempo de não esperar por ninguém. Passa o amor, fugaz e silencioso, como, na distância, um trem noturno. Não resta ninguém. É hora de voltar ao desolado reino do absurdo, ao sentimento de culpa, ao medo vulgar de perder o que estava, já, perdido. Ao inútil e sórdido tempo moral. É hora já de dar-se por vencido no trabalho solitário, outro inverno. Quantos restam ainda, e qual o sentido desta vida onde te procurei, se já chegou a hora tão temida de comprovar que nunca exististe? Trad.: Nelson Santander Joan Margarit – Ella Llega el tiempo de no esperar a […]
- [Paulo Henriques Britto - Lacrimæ rerum](https://singularidadepoetica.art/2019/04/25/paulo-henriques-britto-lacrimae-rerum/): É o lamento das coisas, a desdita da matéria. Não tem nada a ver conosco, com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo. É uma questão de moléculas, que antecede a biologia por coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcana nosso entendimento pasma. Nem tudo está a vosso alcance, ó seres de protoplasma.
- [Philip Roth - Patrimônio (excerto 2)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/25/philip-roth-patrimonio-excerto-2/): Ele morreu três semanas depois. Durante uma provação de doze horas, que começou pouco antes da meia-noite de 24 doutubro de 1989 e terminou logo após o meio-dia, ele lutou por cada sorvo de ar com uma erupção impressionante, uma derradeira exibição da tenacidade férrea que havia demonstrado ao longo da vida. Algo digno de ser visto. Cedinho na manhã de sua morte, quando cheguei ao quarto de primeiros socorros para o qual ele fora levado de casa às pressas, me defrontei com um médico de plantão preparado para tomar “medidas extraordinárias” e ligá-lo a uma máquina de respiração artificial. Sem […]
- [Fernando Assis Pacheco - R., 1992](https://singularidadepoetica.art/2019/04/24/fernando-assis-pacheco-r-1992/): Quando os anos passarem sobre esse teu desgosto vais ver que te curaste não de vez mas um pouco pois o que a gente busca nas dobras do amor é a cura para a morte que não tem consolo e por falar em f’ridas até as que mais doem acabam por fechar só ela vence o corpo
- [Vasco Gato - Fera Oculta](https://singularidadepoetica.art/2019/04/23/vasco-gato-fera-oculta/): com a Inês para o Rodrigo I Durante essa tua natação de fera ocultahá um papiro que se desdobra na minha bocae nunca o futuro teve o saborde palavras tão sobejamente pronunciadasfamília rapaz umbigopalavras com que se poderia redigirtão pouca coisase não fosse a reinvenção da tua chegadainscrita no mundo como pedra preciosaque não é pedraantes um modo inalienável de reluzirpelos braços fora Sei que haverás de te deslocartimidamentepor estas ruas e prédios que bocejamdos nomes que lhes derame que contigo terão uma razão mais fortepara conspirarem na longa malhainanimadaem que se decidem os bichosa que chamamos homense que tão pobremente os […]
- [José Manuel Caballero Bonald - Transfiguração do perdido](https://singularidadepoetica.art/2019/04/22/jose-manuel-caballero-bonald-transfiguracao-do-perdido/): A música convoca as imagens degradadas do tempo. De onde estão me chamando, de qual penumbra, quando retornam para mim? Nada me pertence senão aquilo que perdi. Máscara do passado, a memória conflui para um fundo difuso de alegrias em que tudo soçobra e se reduz a nada, onde está minha verdade tornando-se mais crédula. Oh transfiguração do que já não existe, marca tenaz do caduco, cúmplice reclusão da memória que cinge o tempo em rajadas de música. Trad.: Nelson Santander Transfiguración de lo perdido La música convoca las imágenes degradas del tiempo. ¿Dónde me están llamando, desde qué penumbra, hacía […]
- [Rafael Montesinos - Vida](https://singularidadepoetica.art/2019/04/21/rafael-montesinos-vida/): Nasceu. Viveu feliz. Sorveu a vida de um só e belo trago adolescente. Buscou a solidão, e se viu frente a uma atroz, inesperada ferida. Em desvario, deu para crer em tudo. “Oh sensatez de não se crer em nada!”, disse, e depois a alma, entusiasmada quis sentir a vida de um outro modo. Farto de falar a um Deus que cala (oh perigoso coração cansado, que dá à tua fé uma bengala), na esperança de outra luz morria. “Como tarda chegar o novo dia!”, disse, e passou a dormir do outro lado. Vida Nació. Vivió feliz. Sorbió la vida de […]
- [Philip Roth - Patrimônio (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/20/philip-roth-patrimonio-excerto/): “Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério, a gente costuma se dar conta de como são limitados e banais nossos pensamentos sobre o assunto. Ah, pode-se tentar conversar com o morto, caso você acredite que isso possa ser útil; pode-se começar, como fiz naquela manhã, dizendo: “Muito bem, mamãe…”, porém é difícil não […]
- [Manuel António Pina - Sexta-feira Santa](https://singularidadepoetica.art/2019/04/19/manuel-antonio-pina-sexta-feira-santa/): A conversa era sobre Deus, embora o teólogo estivesse inclinado a pensar que fosse sobre outra coisa, pois era hora de jantar. Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar. Tinha devorado o pargo com honesto apetite e elogiava as virtudes do cozinheiro. Só Deus, algures, chorava sobre os despojos da sua pequena criatura na travessa a caminho da copa, antes da sobremesa.
- [Ian Hamilton - Admissão](https://singularidadepoetica.art/2019/04/18/ian-hamilton-admissao/): Os lábios rachados do porteiro noturno uniformizadoMurmuram horrivelmente contra o vidro embaçadoDe nossa ambulância escura.Nossa afliçãoInspira um único olhar marcial de desdémE logo ele nos indica o caminho, para a “Pátria”. Trad.: Nelson Santander Admission The chapped lips of the uniformed night-porterMumble horribly against the misted glassOf our black ambulance.Our plightInspires a single, soldierly, contemptuous stareAnd then he waves us on, to Blighty.
- [Manuel Halpern - Domingo de manhã](https://singularidadepoetica.art/2019/04/17/manuel-halpern-domingo-de-manha/): Quantos homens se apaixonam por ti ao sábado à tarde enquanto passeiam os filhos no parque e se distraem do balanço do baloiço na adivinhação das partes do corpo que trazes tapadas Mal sabem que a tua solidão não se preenche com a desventura erótica de um corpo que te cubra sem consolo Não há falta de quem se deite contigo sábado à noite apenas quem acorde ao teu lado domingo de manhã
- [Miguel Martins - Sou eu](https://singularidadepoetica.art/2019/04/16/miguel-martins-sou-eu/): são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral sou eu agora em espasmos, assemelhando-me a um campo de minas sou eu agarrando-me aos poucos que me disseram alguma coisa eu tentando não cair, não sabendo como vim parar a esta copa sou eu com a morte nos olhos que trago dentro dos meus olhos eu, fidelíssimo traidor, não entendendo porque […]
- [Ángel González - Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/04/15/angel-gonzalez-aniversario/): Eu percebo: como estou me tornandomais incerto, confuso,dissolvendo-me no arcotidiano, brutopedaço de mim, desgastadoe em frangalhos. Eu compreendo: vivimais um ano, e isso é muito duro.Pulsar o coração todos os diasquase cem vezes por minuto! Viver um ano requermorrer muito muitas vezes. Trad.: Nelson Santander Cumpleaños Yo lo noto: cómo me voy volviendomenos cierto, confuso,disolviéndome en airecotidiano, burdojirón de mí, deshilachadoy roto por los puños. Yo comprendo: he vividoun año más, y eso es muy duro.¡Mover el corazón todos los díascasi cien veces por minuto! Para vivir un año es necesariomorirse muchas veces mucho.
- [William Butler Yeats - Um aviador irlandês prevê a morte](https://singularidadepoetica.art/2019/04/14/william-butler-yeats-um-aviador-irlandes-preve-a-morte/): Encontrarei meu fim no meio das nuvens de algum céu sobejo; os que combato, eu não odeio, também não amo os que protejo; Kiltartan Cross é meu país, seus pobres são a minha gente, nada a fará mais infeliz do que já era, ou mais contente. Não é por lei ou por dever, turba ou políticos, que luto, mas pelo afã de me entreter, a sós, nas nuvens em tumulto. Tudo na mente foi pesado: nada que espere ou que recorde vale-me a pena comparado com esta vida ou esta morte. Trad.: Nelson Ascher An Irish airman foresees his death I […]
- [Jaime Gil de Biedma - Pandêmia e Celeste](https://singularidadepoetica.art/2019/04/13/jaime-gil-de-biedma-pandemia-e-celeste/): Quan magnus numerus Libyssae arenae …………………………….. Aut quam sidera multa, cum tacet nox, Furtiuos hominum uident amores. CATULO, VII Imagina agora que tu e eu muito tarde da noite falamos de homem para homem, enfim. Imagina-o, em uma dessas noites memoráveis de rara comunhão, com a garrafa meio vazia, os cinzeiros sujos, depois de esgotado o problema da existência. Que te vou expor um coração, um coração infiel, Nu da cintura pra baixo, Hipócrita leitor – mon semblable – mon frère! Porque não é a impaciência do caçador de orgasmos que me arremessa de um corpo para outros corpos se possível […]
- [Eugénio de Andrade - Mulheres de preto](https://singularidadepoetica.art/2019/04/12/eugenio-de-andrade-mulheres-de-preto/): Há muito que são velhas, vestidas de preto até a alma. Contra o muro defendem-se do sol de pedra; ao lume furtam-se ao frio do mundo. Ainda têm nome? Ninguém pergunta, ninguém responde. A língua, pedra também.
- [Giuseppe Ungaretti - Céu claro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/11/giuseppe-ungaretti-ceu-claro/): Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tanta névoa uma a uma se desvelam as estrelas Respiro o frescor que me deixa a cor do céu Me reconheço imagem passageira Presa de um ciclo imortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sereno Bosco di Courton luglio 1918 Dopo tanta nebbia a una a una si svelano le stelle Respiro il fresco che mi lascia il colore del cielo Mi riconosco immagine passeggera Presa in un giro Immortale.
- [Raymond Carver - A cabine telefônica](https://singularidadepoetica.art/2019/04/10/raymond-carver-a-cabine-telefonica/): Ela desaba na cabine, chorando no telefone. Perguntando uma coisa ou outra, e chorando um pouco mais. Seu companheiro, um camarada mais velho, usando jeans e camiseta, aguarda em pé a sua vez de falar, e chorar. Ela passa o telefone para ele. Por um minuto eles ficam juntos na minúscula cabine, as lágrimas dele rolando junto com as dela. Então ela vai se encostar no para-choque do sedan. E fica escutando enquanto ele toma providências. Assisto a tudo isso do meu carro. Eu também não tenho telefone em casa. Fico sentado atrás do volante, fumando, esperando para tomar as minhas […]
- [Joan Margarit - O ano em que ela morreu](https://singularidadepoetica.art/2019/04/09/joan-margarit-o-ano-em-que-ela-morreu/): Na fotografia em sépiaés jovem e sorri. Faz-me lembraras mulheres dos filmes de guerrada minha infância:barcos na neblina, trens noturnose grandes cidades sob o alarme aéreo.Na lápide está escrito que ela se foino inverno de 44,aos vinte anos, quando me apaixonavapela sufocante escuridãocruzada por um raio de luz, a heroínados sonhos de amor de minha meninice.A dura pedratem uma cavidade com água de chuvaonde os pássaros vão beber quando,de casaco e cabelos grisalhosdesgrenhados pelo vento,o narrador se afasta.Tem o mesmo sonho nos olhos, em uma cidade,em um cinema onde agora está só. Trad.: Nelson Santander El año em que murió En […]
- [Manuel António Pina - Corpo presente](https://singularidadepoetica.art/2019/04/08/manuel-antonio-pina-corpo-presente/): Toda a casa suspendera a respiração incapaz de conter tamanha desproporção, e eu próprio desaparecera algures na sala, entre a tua vida e a tua morte. Atenderam o telefone falando baixo, temendo que regressasse cada coisa do teu lugar sem estar prontos ainda para a tua solidão. Faltava muito para podermos perceber, muitos passos para chegarmos aonde sempre estivéramos: mais perto do tédio do que da esperança, da parte do que do todo, vagueando ainda na tua ausência, longe do céu e da ideia da morte.
- [Paulo Henriques Britto - Plaudite, amici](https://singularidadepoetica.art/2019/04/07/paulo-henriques-britto-plaudite-amici/): Seria muito bom saber sair de cena sem fazer cenas, sem roubar a cena, sem atropelar sequer um figurante. Pena que nessas horas se improvisa, e que ninguém respeita nada quando foge do roteiro. Mesmo os maiores canastrões têm seu momento de glória, de prima-donismo o mais rasteiro e o mais justificável. Pois na vida há tempo mesmo pras coisas mais ridículas, vexames impensáveis, mas perfeitamente visíveis, derramamentos nem um pouco cabralinos mas necessários. (Quem não gostar, que reclame a seu deus predileto – ex machina, inclusive – um fim de comédia um pouco menos indigno.)
- [Nuno Júdice - É isto o amor](https://singularidadepoetica.art/2019/04/06/nuno-judice-e-isto-o-amor/): Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo esse que […]
- [Luís García Montero - Resumo dos fatos](https://singularidadepoetica.art/2019/04/05/luis-garcia-montero-resumo-dos-fatos/): Falei com a morte por telefonee recebi e-mails de amor que foram apagadossem deixar uma única lágrima em papel amarelo.Ninguém esqueça os tempos, mas ninguém se engane:no final, apenas o amor e a morte importam. Trad.: Nelson Santander Resumen de los hechos He hablado con la muerte por teléfonoy he recibido e-mails de amor que se borraronsin dejar una lágrima de papel amarillo.Nadie olvide los tiempos, pero nadie se engañe:al final sólo importan el amor y la muerte.
- [Fernando Assis Pacheco - Respiração Assistida](https://singularidadepoetica.art/2019/04/04/fernando-assis-pacheco-respiracao-assistida/): Eu vi a morte de noite – névoa branca – entre os frascos do soro rondar a minha cama era um trasgo e como tal metera-se pelas frinchas; noutra versão coando-se através dos nós da madeira ou noutra ainda imitando à perfeição o gorgolejar da água nos ralos: eu tremia covardemente enquanto ela raspava a parede com unhas muito lentas eu vi? ouvi a morte? com toda a probabilidade e por instantes era ela – luz negra – tentando cegar-me
- [Carlos Poças Falcão - A luz coada num pano negro](https://singularidadepoetica.art/2019/04/03/carlos-pocas-falcao-a-luz-coada-num-pano-negro/): Lamenta-te, pois já não é alegre o vento sobre os campos. Não há descoberta nem transfiguração quando o calendário vem com as primícias. Lamenta-te, lamenta-te. Já não tens a nudez certa nem a fragrância antiga.
- [Paul Verlaine – Chanson D'Automne (em seis traduções)](https://singularidadepoetica.art/2019/04/02/paul-verlaine-chanson-dautomne-em-seis-traducoes/): Canção do Outono (Trad.: Alphonsus de Guimaraens) Os soluços graves Dos violinos suaves Do outono Ferem a minh’alma Num langor de calma E sono. Sufocado, em ânsia, Ai! quando à distância Soa a hora, Meu peito magoado Relembra o passado E chora. Daqui, dali, pelo Vento em atropelo Seguido, Vou de porta em porta, Como a folha morta Batido… Canção do Outono (Trad.: Onestaldo de Pennafort) Os longos sons dos violões, pelo outono, me enchem de dor e de um langor de abandono. E choro, quando ouço, ofegando, bater a hora, lembrando os dias, e as alegrias e ais de outrora. […]
- [Vicente Gaos - Esquecei](https://singularidadepoetica.art/2019/04/01/vicente-gaos-esquecei/): Esquece, homem… Esquece que és cinzase em cinzas te tornarás. Esquece esta quarta-feirae o in pulvis reverteris. Pois embora sejas cinza e pó,há vida, amor, beleza ao redor. É verdade: beleza, amor, vida,fugazes flores de um dia. Mas flores, sim. Enquanto durara magia verdadeira de seu perfume, esquece o pó e a morte.É melhor não lembrar do que, com ou sem memória,baterá algum dia à tua porta. Por ora, fecha-a. Abre a varanda,que te penetre e embriague o sol. Olha-o bem: fecha as pálpebras,e que o sol te salve do caos. No final, verás que tanto fazviver e morrer, seja domingo ou […]
- [Helena Zelic - Bem-vinda](https://singularidadepoetica.art/2019/03/31/helena-zelic-bem-vinda/): em uma casa desconhecidaé preciso observar os movimentos das coisas: o gás se vem da rua ou botijãoas árduas relações entre tomadas e eletrodomésticosbotões de liga e desligaa política da limpezase toda sujeira é política.as cores das chaves, as trancas trocadasencaixar, tirar e encaixar de novona busca do que é espontâneo.entrar na casa como se sempre fosse.sair como quem volta ao pôr do sol. conhecer as gavetas, os tacos soltosos insetos que invadem o verãoa hora da caminhonete de frutaso dia do lixo para foraa vizinha, e a outra, e a outra.as vizinhas são sempre muitas. compreender a linguagem do cãoquando […]
- [Eugénio de Andrade - Fim de tarde em S Lázaro](https://singularidadepoetica.art/2019/03/30/eugenio-de-andrade-fim-de-tarde-em-s-lazaro/): Estou sozinho. Nas estantes, restos da minha vida. É quase noite sobre os telhados. No livro abandonado nas mãos corre um rio: à deriva duas ou três coisas que foram minhas: um punhado de amoras, a porosa delícia do barro, essas nuvens, essas aves num céu branco de trigo, um sorriso que também era um copo de água
- [Luis Alberto de Cuenca - Mal de ausência](https://singularidadepoetica.art/2019/03/29/luis-alberto-de-cuenca-mal-de-ausencia/): Desde que partiste, não sabes como devagar passa o tempo em Madrid. Vi um filme que terminou apenas há um século. Não sabes que lento corre o mundo sem ti, noiva distante. Os amigos pedem-me que volte a ser o mesmo que o coração apodrece de tanta melancolia, que a tua ausência não vale tanta ansiedade inútil, que pareço um exemplo de subliteratura. Levaste, porém, a minha paz na tua bolsa, os fios do telefone, a rua em que vivo. Mandaste a minha casa tropas ecologistas saquear-me a alma contaminada e triste. E, para cúmulo, continuo a sonhar com gigantes e […]
- [Francisco Brines - Última declaração de amor](https://singularidadepoetica.art/2019/03/28/francisco-brines-ultima-declaracao-de-amor/): Oh Vida, que tudo me deste. Agora já sei que, sendo isto verdade, nada me deste. Mas deixa-me olhar-te ainda com amor, mesmo que eu já não mais deseje abraçar-te. E embora saibas que eu não te abandono podes tu abandonar-me. Trad.: Nelson Santander Última declaración de amor Oh Vida, que todo me lo has dado. Ahora ya sé que, siendo esto verdad, nada me has dado. Más déjame mirarte aún con amor, aunque no tenga ya deseos de abrazarte. Y aunque sepas que yo no te abandono puedes tú abandonarme.
- [José Fernando Guedes - Os pássaros cantam forte](https://singularidadepoetica.art/2019/03/27/jose-fernando-guedes-os-passaros-cantam-forte/): Os pássaros cantam forte, um poema de José Fernando Guedes
- [Giuseppe Ungaretti - Sou uma criatura](https://singularidadepoetica.art/2019/03/26/giuseppe-ungaretti-sou-uma-criatura-poema/): Valloncello di Cima Quattro, 5 de agosto de 1916 Como esta pedra de S. Michele tão fria tão dura tão seca tão indiferente tão completamente sem ânimo Como esta pedra é meu pranto que não se vê A morte se expia vivendo Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sono una creatura Valloncello di Cima Quattro il 5 agosto 1916 Come questa pietra del S. Michele così fredda così dura così prosciugata così refrattaria così totalmente disanimata Come questa pietra è il mio pianto che non si vede La morte si sconta vivendo
- [Raymond Carver - Esta manhã](https://singularidadepoetica.art/2019/03/25/raymond-carver-esta-manha/): Esta manhã foi especial. Um pouco de neve cobria o chão. O sol flutuava num claro céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado, até onde o olho podia enxergar. Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti e saí para caminhar – decidido a não voltar até receber o que a Natureza tivesse a oferecer. Passei perto de algumas árvores velhas, curvadas. Atravessei um campo com pedras espalhadas onde a neve se acumulara. Segui em frente até chegar ao penhasco. De onde fitei o mar, o céu e as gaivotas revoando sobre a areia branca, lá embaixo. Tudo adorável. Tudo banhado […]
- [Paulo Henriques Britto - Da irresolução](https://singularidadepoetica.art/2019/03/24/paulo-henriques-britto-da-irresolucao/): Por não se estar preparadoperde-se a vida inteira.A preparação, porém,pra ser completa e certeira, exigiria no mínimouma existência e meia.Compreende-se, portanto,aquele que titubeia ao se ver face a facecom tamanho compromissoe termina decidindoviver mesmo de improviso.
- [Joan Margarit - Helena](https://singularidadepoetica.art/2019/03/23/joan-margarit-helena/): O ontem é teu inferno. É cada instanteem que, sem sabê-lo, te perdestee também cada instante em que foste salvo.Quando o jovem que foste está muito distante,o amor é vingança do passado.Vens de uma guerra em que foste vencido,de armas e acampamentos abandonadosna Troia que levas dentro de ti.Buscar-te-ão de noite os aqueose estreitarão o cerco. Voltarás,por uma mulher, a perder a cidade.Helena são todos os sonhos de que a vidafoi-se apropriando. Defende-a bravamentepela última vez, desarmado. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Helena El […]
- [Manuel António Pina - Café Orfeu](https://singularidadepoetica.art/2019/03/22/manuel-antonio-pina-cafe-orfeu/): Nunca tinha caído de tamanha altura em mim antes de ter subido às alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorriso como de uma súbita ausência ou como se tivesse lá ficado e outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorriso a minha vida parecia a vida de outra pessoa que fora de mim a vivia. E a que eu regressava lentamente como se antes do teu sorriso alguém (eu provavelmente) nunca tivesse existido.
- [Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave](https://singularidadepoetica.art/2019/03/21/fernando-pinto-do-amaral-por-causa-de-uma-ave/): para a minha mãe Cada vez gosto menos de saborearo travo tão pastoso da morte, o murmúriosecreto dos seus olhos invisíveisdentro de mim. Porém, há pouco tempo,num fim de tarde deste fim de julho,passou-me um episódio que rompeude repente na alma todas as comportasque fingem proteger os ópios tranquilosa que chamamos vida. Aconteceudepois de ter chegado a esta casaperdida numa encosta de provínciae onde venho só de longe em longe:foi durante a limpeza da sala maiorque, afastando um armário, descobrientre pequenas teias, quase envoltonum sudário de pó, ali esquecido,na treva e no silêncio dos meses de inverno,o esqueleto de um pássaro. […]
- [Rui Caeiro - Sabem que mais?](https://singularidadepoetica.art/2019/03/20/rui-caeiro-sabem-que-mais/): Sou um homem dado ao álcool e a eternas dúvidas e que na rua ou lá onde seja a todo o momento pode tropeçar ou morrer: voar é que é muito mais improvável Sou um homem de áridas certezas e uma esperança a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas paro escuto e olho antes de atravessar com ela. E não sei o nome. E não me preocupo (Rui Caeiro morreu em 29/01/2019, aos 75 anos)
- [Diogo Vaz Pinto – Guilty pleasures](https://singularidadepoetica.art/2019/03/19/diogo-vaz-pinto-guilty-pleasures/): No princípio correram ainda uns dias sem que o desencanto desse pela nossa falta. Seja como for, não fomos muito longe. Íamos mais era ao cinema mas aí eu já olhava menos para o lado, apaixonava-me pelas tipas que enchiam o ecrã, para depois, com o sexo aceso e louco por se molhar entre quaisquer pernas, a levar a casa e nos despirmos entre o corredor e o quarto, sem grandes cerimônias nem truques. Na cama víamo-nos rapidamente desfeitos entre as simples urgências de um desejo sem nome. A meio daquilo lembrava-se de perguntas, insistia repetidamente “onde tens a cabeça?”, “aqui […]
- [Vicente Gaos - A vida](https://singularidadepoetica.art/2019/03/18/vicente-gaos-a-vida/): Os ardorosos signos da vidapulsam na atmosfera do verão.O mar respira tal como um varão,como uma criatura enfurecida. Oh gozo e amor, sangue furioso,cósmica vibração de um mundo arcano.Mundo que sinto ao tatear teu crâniofrágil quando nele minha mão pouso. Te amo, sim, te amo, sonho forte,Fecho os olhos e te sinto inteira– Oh luz formosa e cega da morte.A agitação final da primavera -.Fecho meus olhos porque quero ver-te.Oh Deus! Que a vida não vire poeira! Trad.: Nelson Santander La vida Los ardorosos signos de la vidapalpitan en el aire del verano.El mar alienta como un ser humano,como una criatura […]
- [Rui Diniz - O desaguar dos crepúsculos no Ebro](https://singularidadepoetica.art/2019/03/17/rui-diniz-o-desaguar-dos-crepusculos-no-ebro/): Eu estava presente quando o corpo do hernandez deu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamente roxo, evocava os últimos dias da sua vida, quando se demorava o menos possível nos cafés de barcelona, perseguido até por si próprio. De facto a loucura procurava-o lentamente. Durante a noite, em tempo de lua cheia, a sua sombra por vezes corria pelo silêncio dorsal das colinas, rindo. Eu lia então até tarde as suas descrições de uma espanha enlouquecida, sonhadora de sangue, impulsionada pelos cemitérios sombrios onde corpos se iam decompondo enquanto esperavam. Os seus dedos crispavam-se quando o vi trazido para […]
- [Ramón de Garciasol - Ávila do Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2019/03/16/ramon-de-garciasol-avila-do-silencio/): Silêncio: cala-me até as raízes, lava minha carne, meu suor de morte, a caspa cotidiana. Quero ver-te, Senhor, em paz, pelo que me dizes sem esta feroz contenda confusa, extinta a chama, pedra pura de eternidade sem fim, viva verdura sem o sal da dor e das cinzas. Silêncio: chove mais. A terra dura está sedenta nos torrões. Vaza para além dos meus ossos. A sepultura ainda é distante. Posso mal e mal com meu cansaço de réptil. A asa, Senhor, aguarda do teu dedo o sinal. Trad.: Nelson Santander Ávila del silencio Silencio: Cálame hasta las raíces, lava mi carne, […]
- [Ian Hamilton - Legado](https://singularidadepoetica.art/2019/03/15/ian-hamilton-legado/): Estamos no inverno agora e estou aquecido, Acamado, feliz por ter sobrevivido. Minha mobília Me cerca. Eu posso alcançar meus livros. E você, noite após noite, Até “o fim” Ficará comigo. Entre nós Há lenitivos, esta dor E estes poemas inacabados eu lego a você. Muitas vezes deve ser assim. Escurecemos suavemente enquanto você conta os dias. Sua respiração na minha Monotonamente quente. Trad.: Nelson Santander Bequest It is midwinter now and I am warm, Bedridden, glad to be outlived. My furniture Surrounds me. I can reach my books. And you, night after night Until ‘the end’ Will sit with me. […]
- [Carmen Conde - [Declaro que morreu e que seu túmulo]](https://singularidadepoetica.art/2019/03/14/carmen-conde-declaro-que-morreu-e-que-seu-tumulo/): Declaro que morreu e que seu túmuloestá dentro de mim; sou seu sudário.A ninguém se enterrou porque seu trânsitono tempo foi de loucas esperanças. Circundam o contorno desta cova– quente é a vinha que escala as paredes –os pâmpanos mais tenros e suculentosque arrancam do silêncio seu tumulto. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Declaro que se ha muerto y que su tumba Declaro que se ha muerto y que su tumbaestá dentro de mí; soy su mortaja.A nadie se enteró porque su tránsitodescanso fue […]
- [Mario Benedetti - Currículo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/13/mario-benedetti-curriculo/): A história é muito simplesvocê nascecontempla aturdidoo vermelho-azul do céuo pássaro que emigrao desajeitado besouroque seu sapato esmagarádestemido você sofrereclama por comidae por hábitopor obrigaçãochora isento de culpasexaustoaté que o sonho o desqualifique você amase transfigura e amapor uma eternidade tão efêmeraque até o orgulho se torna ternoe o coração proféticose converte em escombros você aprendee usa o que aprendeupara tornar-se lentamente sábiopara compreender que, afinal, o mundo é issoem seu melhor momento, uma nostalgiaem seu pior momento, um desamparoe sempre sempreuma confusão entãovocê morre. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter […]
- [Nicanor Parra - Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2019/03/12/nicanor-parra-esquecimento/): Juro que não me lembro nem do seu nome,Mas morrerei chamando-a de Maria,Não por mero capricho de poeta,Pela sua aura de praça de província.Que tempos aqueles!, eu, um esquisitão,Ela, jovem pálida e sombria.Ao voltar certa tarde do LiceuSoube de sua morte imerecida,Notícia que me causou tal desalentoQue derramei uma lágrima ao ouvi-la.Uma lágrima, sim, quem acreditaria!E olha que sou pessoa de vigor.Se devo dar crédito ao que disseramAqueles que trouxeram a notíciaDevo aceitar, sem qualquer hesitação,Que morreu com meu nome nas pupilas.Fato que me surpreende, pois nuncaFora para mim mais do que uma amiga.Nunca tive com ela mais que simplesRelações de […]
- [Luis Alberto de Cuenca - A casa da minha infância](https://singularidadepoetica.art/2019/03/11/luis-alberto-de-cuenca-a-casa-da-minha-infancia/): Fui feliz naquela casa repleta de flores e de livros proibidos. A casa em que tu eras Ginevra nos nossos jogos, e eu era o rei Artur (não havia Lancelote para arruinar tudo). A casa onde foste donzela das minhas ânsias, senhora dos meus suspiros, muralha em meu peito, cofre do meu tesouro, brinde dos meus soldados. A casa que tinha uma arca misteriosa que guardava o segredo da sabedoria e do amor eterno, e a droga da fé, a taça do esquecimento, o cálice da coragem. A casa onde, à tarde, com sonhos partilhados, enquanto a roupa dourava ao sol […]
- [José Fernando Guedes - Coeso é o tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/10/jose-fernando-guedes-coeso-e-o-tempo/): Coeso é o tempo em cada tênue segundo Que logo se desfaz e se reconstrói Como uma linguagem de gestos que o universo Elabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundo Há suficiente espaço para se fazer o bem ou o mal Porque é assim mesmo que acontece: o mal ou o bem Infinitesimais, germinam e brotam no exato Segundo onde nasceram. Portanto o cimento da estrutura orgânica do tempo É o mal e o bem que você e eu temos à nossa disposição.
- [Giuseppe Ungaretti - Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2019/03/09/giuseppe-ungaretti-silencio/): Mariano, 27 de junho de 1916 Conheço uma cidade que cada dia se enche de sol e tudo é arrebatado nessa hora Dela parti uma tarde No coração perdurava o limar das cigarras Do navio laqueado de branco vi minha cidade sumir deixando por um instante no ar toldado um abraço de luzes suspensas Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Silenzio Mariano, il 27 giugno 1916 Conosco una città che ogni giorno s’empie di sole e tutto è rapito in quel momento Me ne sono andato una sera Nel cuore durava il limio delle cicale Dal bastimento verniciato di bianco […]
- [Raymond Carver - A carteira do meu pai](https://singularidadepoetica.art/2019/03/08/raymond-carver-a-carteira-do-meu-pai/): Muito antes de pensar em sua própria morte meu pai dizia que gostaria de descansar perto dos seus pais. Sentia muita falta deles desde que tinham partido. Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse, e eu me lembrasse. Mas quando o ar deixou seus pulmões e todo sinal de vida se extinguiu, ele se encontrava numa cidade a 512 milhas de onde mais queria estar. Mas meu pai, ele era incansável até na morte. Até na morte ele tinha uma última viagem a fazer. A vida inteira gostara de perambular e agora ele tinha mais um lugar para […]
- [Francisco Brines - A Piedade do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/07/francisco-brines-a-piedade-do-tempo/): Em que escuro recanto do tempo que morreu vivem ainda, a arder, aqueles coxas? Dão luz ainda a estes olhos tão velhos e enganados, que voltam agora a ser o milagre que foram: desejo de uma carne, e a alegria do que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagem que já nunca saberemos se existiu, pois só pertence a um lugar extinto. Trad.: José Bento Francisco Brines – La piedad del tiempo ¿En qué oscuro rincón del tiempo que ya ha muerto viven aún, ardiendo, aquellos muslos? Le dan luz todavía a estos ojos tan viejos […]
- [Paulo Henriques Britto - Uma nova teoria de tudo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/06/paulo-henriques-britto-uma-nova-teoria-de-tudo/): Todas as coisas que existem no mundo fazem sentido. Senão não teria sentido elas serem. Ou estarem. Tudo mais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nunca faz parte de sempre, assim como zero é apenas um número entre outros números. Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é só mais redonda que as outras – nada de mais. E todas as proposições são verdadeiras – se tornam verdade no instante exato em que são formuladas. Ficam sem efeito as contradições todas. (Pronto. Creia. Não faça alarde.)
- [Rui Chafes](https://singularidadepoetica.art/2019/03/05/rui-chafes/): “Só a forma e o vazio são universais; tudo o resto é pó e cinzas.”
- [Helena Zelic - Dimensões](https://singularidadepoetica.art/2019/03/04/helena-zelic-dimensoes/): “dimensões”, um poema de Helena Zelic que desloca a história e a experiência humana para a vertigem de uma hipótese radical: e se tudo não passar do sonho de outro ser, à margem de um mundo desconhecido?
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - 25 de abril](https://singularidadepoetica.art/2019/03/03/sophia-mello-breyner-andresen-25-de-abril/): Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo
- [Rainer Maria Rilke - Tira-me a luz dos olhos](https://singularidadepoetica.art/2019/03/02/rainer-maria-rilke-tira-me-a-luz-dos-olhos/): Tira-me a luz dos olhos; continuarei a ver-te. Tapa-me os ouvidos; continuarei a ouvir-te. E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti. E, mesmo sem boca, posso chamar por ti. Arranca-me os braços e tocar-te-ei Com o meu coração como com uma mão… Despedaça-me o coração; e o meu cérebro baterá E, mesmo que faças do meu cérebro uma fogueira Continuarei a trazer-te no meu sangue Trad.: Maria Teresa Dias Furtado Put out my eyes Put out my eyes, and I can see you still, Slam my ears to, and I can hear you yet; And without any feet can go […]
- [Eugénio de Andrade - O Amigo](https://singularidadepoetica.art/2019/03/01/eugenio-de-andrade-o-amigo/): Não voltará – o que dele me ficou é como no inverno entre cortinas de chuva um tímido fio de sol: ilumina mas não aquece as mãos.
- [Joan Margarit - Esboço para um Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/28/joan-margarit-esboco-para-um-epilogo/): Diante de ti sentes um rumor de passosque vem do futuro, essa torredemolida antes de ser construída.Só existe a dúvida moral: ama,não penses na camada de póa que tanto aludes, ostensivamente,quando dizes: “minha vida”.E, do prestígio das negações,desconfia: a vida representanão só a vitória dos anossobre nós. Também nos ensinaquão gloriosa foinossa primeira inicial sobre o tempo. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Esbozo para un epílogo Ante ti sientes un rumor de pasosque viene del futuro, esa torrederribada antes de que la construyeran.Sólo existe […]
- [Israel Zangwill - Um dia, estando entre nós dois o Atlântico...](https://singularidadepoetica.art/2019/02/27/israel-zangwill-um-dia-estando-entre-nos-dois-o-atlantico/): Um dia, estando entre nós dois o Atlântico, senti a tua mão na minha; Agora, tendo a tua mão na minha, sinto entre nós dois o Atlântico. Trad.: Cecília Meireles
- [Manuel António Pina - Numa Estação de Metrô](https://singularidadepoetica.art/2019/02/26/manuel-antonio-pina-numa-estacao-de-metro/): A minha juventude passou e eu não estava lá. Pensava em outra coisa, olhava noutra direção. Os melhores anos da minha vida perdidos por distração! Rosalinda, a das róseas coxas, onde está? Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão? Provavelmente professoras de Alemão em colégios fora do tempo e do espa- ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-ia amado de um amor imprudente e impudente, como num sujo sonho adolescente de que alguém, no outro dia, acordaria. Pois tudo era memória, acontecia há muitos anos, e quem se lembrava era também memória que passava, um rosto que entre outros rostos se perdia. Agora, vista daqui, […]
- [Ezra Pound - Metrô](https://singularidadepoetica.art/2019/02/25/ezra-pound-metro/): A visão destas faces dentre a turba: Pétalas num ramo úmido, escuro. Trad.: Augusto de Campos In a station of the metro The apparition of these faces in the crowd; petals on a wet, black bough.
- [Konstantinos Kaváfis – Coisas Ocultas](https://singularidadepoetica.art/2019/02/24/konstantinos-kavafis-coisas-ocultas/): De tudo quanto fiz e quanto disse, não procurem saber quem eu era. Um obstáculo havia e transformou os meus atos e o meu modo de viver. Um obstáculo havia e me deteve cada vez em que eu ia falar. Os mais despercebidos dos meus atos, e, de meus escritos, os mais dissimulados – só por aí é que haverão de me entender. Todavia, talvez nem valha a pena tanto cuidado e tanto esforço para compreender-me. Mais tarde – em sociedade mais perfeita – algum outro, de feitio igual ao meu, certo há de aparecer e livre há de atuar. Trad.: […]
- [Rupi Kaur - preliminares](https://singularidadepoetica.art/2019/02/23/rupi-kaur-preliminares/): você envolve meu cabelo com os dedos e puxa é assim que você tira música de mim — preliminares Trad.: Ana Guadalupe You wrap you fingers around my hair and pull this is how you make music out of me — foreplay
- [Bruna Beber - Romance em doze linhas](https://singularidadepoetica.art/2019/02/22/bruna-beber-romance-em-doze-linhas/): quanto falta pra gente se ver hoje quanto falta pra gente se ver logo quanto falta pra gente se ver todo dia quanto falta pra gente se ver pra sempre quanto falta pra gente se ver dia sim dia não quanto falta pra gente se ver às vezes quanto falta pra gente se ver cada vez menos quanto falta pra gente não querer se ver quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais quanto falta pra gente se ver e fingir que não se viu quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer quanto falta pra gente […]
- [Sérgio Jockyman - Os votos](https://singularidadepoetica.art/2019/02/21/sergio-jockyman-os-votos/): Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado. E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa. Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e fiéis. E que em pelo menos um deles você possa confiar e que confiando não duvide de sua confiança. E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem poucos, mas na medida exata para que algumas vezes você interpele a […]
- [Felipe Benítez Reyes - O desenho na água](https://singularidadepoetica.art/2019/02/20/felipe-benitez-reyes-o-desenho-na-agua/): Bem sabes que estes anos passarão,que tudo terminará em literatura:a imagem das noites, as lendasda triunfante juventude e as cidadesvividas como corpos. Que estes anospassarão tu já sabes, pois são teuscomo se possuísses a neve e a neblina,como é do mar a bruma, ou do ara cor da tarde fugidia:pertences de ninguém e do nadasurgidos, que para o nada vão:nem o próprio mar, nem o ar, nem essa bruma,nem um crepúsculo igual teus olhos verão. A memória é um desenho na água,e em suas ondas se expressa o cadáver do tempo. Tu farás este desenho. E de repenteterás a sombra mortado […]
- [Nelson Santander - Clint Eastwood](https://singularidadepoetica.art/2019/02/19/nelson-santander-clint-eastwood/): Clint Eastwood, por Nelson Santander
- [Juan Luis Panero - Palavras e presságios](https://singularidadepoetica.art/2019/02/19/juan-luis-panero-palavras-e-pressagios/): Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.Repetir as sílabas, iluminar os símboloscomo cerradas salas, janelas empoeiradasque ocultam um jardim perdido, árvores da morte.Melancolia do regresso e medo do vazio,rangidos de madeira, agitar de sombras,e, de repente, em um quarto, perdidacomo um velho copo ou um espelho manchado,encontrar a chave para a tua vida.Palavras que te avisaram: “Um monótono diasegue-se a outro igualmente monótono”,ou te advertiram: “Nascer, copular, morrer.Isso é tudo, isso é tudo, isso é tudo, isso é tudo”.Palavras com que a velhice e a noite me presenteiam,presságios que não […]
- [José Fernando Guedes - Adeus meu pai](https://singularidadepoetica.art/2019/02/18/jose-fernando-guedes-adeus-meu-pai/): Continuo a vislumbrar o olhar que meu pai Me lançou, há tantos anos, lá da janela De onde morava. Eu realmente não vi com precisão Esse derradeiro olhar para mim. Era mais como um grito para dentro Que ele lançava. Meu nome talvez. Me acenou e foi o último acenar seu. Nessa despedida que eu desconhecia Não houve amor. Houve somente meu pai olhando Até que virei na esquina E o esqueci.
- [Raymond Carver - Um passeio](https://singularidadepoetica.art/2019/02/17/raymond-carver-um-passeio/): Saí para caminhar pelos trilhos do trem.Caminhei algum tempo por elese cheguei ao cemitério do povoado,onde um homem descansa entreduas esposas. Emily van der Zee,Mãe e Esposa Amada,está à direita de John van der Zee.Mary, a segunda senhora Van der Zee,também uma Esposa Amada, à sua esquerda.Primeiro Emily se foi, depois Mary.Anos mais tarde, foi a vez do velho camarada.Onze filhos nasceram dessas uniões.E eles, também, já devem estar todos mortos agora.Este é um lugar tranquilo. Tão bom quanto qualquer outropara interromper meu passeio, sentar e me prepararpara minha própria morte, que se aproxima.Mas eu não entendo, não entendo.Tudo o que […]
- [Ian Hamilton - A Tempestade](https://singularidadepoetica.art/2019/02/16/ian-hamilton-a-tempestade/): Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um ladoDo teu rosto, tua boca contraída, teu assustado.Voltas-te para mim e quando chamo, tu vensE ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tomeTua cabeça entre minhas mãos, como se fosseUma delicada tigela que a tempestade pudesse quebrar.Queres que eu me coloque entre ti e o brutal trovão.Pousando em tuas carnes, minhas grandes mãos se agitam,Pulsam em ti e então, perguntando-se como, apertam.A tempestade me atravessa enquanto tua boca se abre. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. […]
- [Francisco Brines - Aquele verão de minha juventude](https://singularidadepoetica.art/2019/02/15/francisco-brines-aquele-verao-de-minha-juventude/): E o que restou daquele distante verãonas costas da Grécia?O que resta em mim do único verão de minha vida?Se pudesse escolher, de todos em que vivi,algum lugar, e o tempo que o ata,sua milagrosa companhia me arrasta até lá,onde ser feliz era a razão natural de existir. Perdura a experiência, como um quarto fechado da infância;não resta mais a lembrança de dias sucessivosnesta sucessão medíocre dos anos.Hoje sinto essa carência,e busco na ilusão algum resgateque me permita ainda olhar para o mundocom o amor necessário;E assim saber-me digno do sonho da vida. De tudo o que foi ventura, daquele lugar […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Duas autotraduções"](https://singularidadepoetica.art/2019/02/14/paulo-henriques-britto-de-duas-autotraducoes/): (CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como perdas num texto traduzido,e não trapaças. Pois a vida é tua,e se nem sempre é possível amá-la,tens o direito (ao menos) de editá-la. Paulo Henriques Britto – de “Caderno” XIV This, too, will one day be rememberednot quite like what it feels like now.It’s not that […]
- [Joan Margarit - Amor e tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/13/joan-margarit-amor-e-tempo/): Lembras quando ainda desconheciasque a vida não teria piedade de ti?Amor e tempo: o tempo nos habitacomo a areia do rio que, lentamente,vai moldando a forma da margem.O amor, que refletiu em teu olharo esplendor da ilha do tesouro.Sensual, solitária, cercadapela sonora senectude do mare os gritos militares das gaivotas.O sonho clandestino dos cinquenta anos. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog. Amor y tiempo Recuerda cuando aún desconocíasque la vida no tendría piedad contigo.Amor y tiempo: el tiempo nos habitacomo arena del río que, despacio,va […]
- [Manuel António Pina - As vozes](https://singularidadepoetica.art/2019/02/12/manuel-antonio-pina-as-vozes/): A infância vem pé ante pé sobe as escadas e bate à porta – Quem é? – É a mãe morta – São coisas passadas – Não é ninguém Tantas vozes fora de nós! E se somos nós quem está lá fora e bate à porta? E se nos fomos embora? E se ficamos sós?
- [William Soares dos Santos – A força do desejo](https://singularidadepoetica.art/2019/02/11/william-soares-dos-santos-a-forca-do-desejo/): A força do desejo se desfaz tão logo se saciam as tensões ferozes do corpo e dos hemisférios e no destino dos braços do tempo os amantes se perdem em mistérios
- [Manuel Vilas - O último Elvis](https://singularidadepoetica.art/2019/02/10/manuel-vilas-o-ultimo-elvis/): Respeita sempre a decadência das mulherese dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amara vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.Respeita todos os sagrados e humildes naufrágiosdos seres humanos. Respeita aqueles que se suicidaram. Respeita aqueles que se lançaram aos oceanos. Por favor, não fales mal deles, suplico-te de joelhos. Ama toda essa gente, essa multidão, esse rio amareloda História de todos quantos foram derrotados tão injustamente,ou tão justamente,não importa. Gente que acelerou em uma curva. Gente que escondia garrafas pelos cantos de suas […]
- [Walter Savage Landor - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2019/02/09/walter-savage-landor-epitafio-2/): Não lutei com ninguém; nada valia a lida.Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;As mãos, estas aqueci no fogo da vidaQue naufraga; estou pronto para o desate. Trad.: Nelson Santander Walter Savage Landor – Dying Speech of an Old Philosopher I strove with none, for none was worth my strife:Nature I loved, and, next to Nature, Art:I warm’d both hands before the fire of Life;It sinks; and I am ready to depart.
- [Giuseppe Ungaretti - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2019/02/08/giuseppe-ungaretti-in-memoriam/): Locvizza, 30 de setembro de 1916 Chamava-seMoammed Sceab Descendentede emires de nômadessuicidaporque não tinha maisPátria Amou a Françae mudou de nome Foi Marcelmas não era francêse já não sabiaviverna tenda dos seusonde se escuta a cantilenado Alcorãosaboreando um café E não sabiadesataro cantodo seu abandono Acompanhei-ojunto com a dona da pensãoonde vivíamosem Parisdo número 5 da rue des Carmesesquálido beco em declive Descansano cemitério de Ivrysubúrbio que parecesempreem diadedecomposta feira E talvez apenas euainda saibaque viveu Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti In Memoria Locvizza il 30 settembre 1916. Si chiamavaMoammed Sceab Discendentedi emiri di nomadisuicidaperché non aveva piùPatriaAmò la Franciae mutò nome Fu […]
- [Raymond Carver - Vocês não sabem o que é o amor (uma noite com Charles Bukowski)](https://singularidadepoetica.art/2019/02/07/raymond-carver-voces-nao-sabem-o-que-e-o-amor-uma-noite-com-charles-bukowski/): Vocês não sabem o que é o amor disse BukowskiEu tenho 51 anos e olhem pra mimestou apaixonado por essa garotaestou louco por ela mas ela também estáentão tudo bem cara é assim que deve serEu entro no sangue delas e elas não conseguem se livrarElas tentam de tudo pra se afastar de mimmas no fim todas acabam voltandoTodas voltaram pra mim a não seraquela que eu enterreiPor essa eu choreimas eu chorava fácil naquele tempoNão me deixem partir pras bebidas pesadasporque eu fico mauPosso sentar aqui e beber cervejacom vocês hippies a noite todaPosso beber dez litros dessa cervejae nada […]
- [Wilfred Owen - Futilidade](https://singularidadepoetica.art/2019/02/05/wilfred-owen-futilidade/): Coloquem-no à luz do sol… Em casa Seu toque gentil o acordava com a lembrança De campos ainda por plantar… O sol o acordou sempre, até na França, Até chegarem a manhã de hoje e a neve que aí está. Se alguma coisa pode acorda-lo agora, Só o velho sol saberá. Lembrem que também acorda sementes… E que há muito acordou a argila de uma estrela fria… Então os braços perfeitos e seu corpo Tão rico em nervos (e ainda quente) rijos demais? É este o fim que a argila em si encerra? – Ah, por que, raio de sol insensato, […]
- [Andreia C. Faria - "Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada"](https://singularidadepoetica.art/2019/02/04/andreia-c-faria-tenho-a-pedir-vos-que-nao-reutilizeis-mais-nada/): "Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada", um poema de Andreia C. Faria
- [Adam Zagajewski - Conversa com Friedrich Nietzsche](https://singularidadepoetica.art/2019/02/04/adam-zagajewski-conversa-com-friedrich-nietzsche/): “Conversa com Friedrich Nietzsche”, um poema de Adam Zagajewski que imagina um diálogo com o filósofo alemão para investigar algumas das questões mais profundas da existência humana.
- [Jorge Luis Borges - João 1,14](https://singularidadepoetica.art/2019/02/03/jorge-luis-borges-joao-114/): Não será menos enigmática esta páginaque as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetemas bocas ignorantes,por julgá-las de um homem, não espelhosobscuros do Espírito.Eu que sou o É, o Foi e o Serátorno a condescender com a linguagem,que é tempo sucessivo e emblema.Quem brinca com um menino brinca com algopróximo e misterioso;eu quis brincar com Meus filhos.Estive entre eles com assombro e ternura.Por obra de magia nascicuriosamente de um ventre.Vivi enfeitiçado, encarcerado num corpoe na humildade de uma alma.Conheci a memória,essa moeda que não é nunca a mesma.Conheci a esperança e o temor,esses dois rostos do incerto futuro.Conheci a […]
- [Ian Hamilton - Despertar](https://singularidadepoetica.art/2019/02/02/ian-hamilton-despertar/): Sua cabeça, tão enferma, repousa junto à minha.Tão sensível. Você não consegue lembrarPor que está aqui, nem reconheceEstas mãos prestativas.Meu amor,O mundo nos encurrala. Estamos perdendo terreno. Trad.: Nelson Santander Awakening Your head, so sick, is leaning against mine,So sensible. You can’t rememberWhy you’re here, nor do you recognizeThese helping hands.My love,The world encircles us. We’re losing ground.
- [Manuel António Pina - Gare du Sud](https://singularidadepoetica.art/2019/02/01/manuel-antonio-pina-gare-du-sud/): Tudo o que temos pertence a outros, desconhecidos de nós, e ainda a outros, e temo-lo como se o perdêssemos ficando uma sombra, a nossa sombra. Estamos longe de casa e essa sombra é a única morada a que podemos acolher-nos. A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante; e se a ouvíssemos não a compreenderíamos porque falamos uma língua estrangeira. Tivemos um passado mas também ele não nos pertenceu, lemo-lo, ou ouvimo-lo a outros mais densos que nós. Aonde regressamos então? Ao lado das fluviantes águas, águas idas e vindas. Noite!, alguém nos chama mas não é ninguém […]
- [José María Cumbreño - Identidade](https://singularidadepoetica.art/2019/01/31/jose-maria-cumbreno-identidade/): Durante anos, a roupa que usei foi herdada de meu irmão mais velho.Meu nome me foi dado em homenagem ao meu avô.O primeiro carro que conduzi era de segunda mão.A primeira mulher que me beijou já havia beijado outros.A casa em que habito é alugada.Tudo o que escrevo já foi escrito por alguém há muito tempo, e muito melhor.O irmão de minha filha não é meu filho.Seu pai age como se não o fosse, e quem não é o paiesforça-se para aprender a sê-lo. Trad.: Nelson Santander José María Cumbreño – Identidad Durante años, la ropa que me he puesto la […]
- [Billy Collins - As cadeiras em que ninguém se senta](https://singularidadepoetica.art/2019/01/30/billy-collins-as-cadeiras-em-que-ninguem-se-senta/): Vêem-se em varandas e em relvados mesmo à beira do lago, geralmente dispostas em pares indicando que um casal se poderá sentar ali e olhar para a água ou para as grandes árvores frondosas. O problema é que nunca se vê ninguém sentado nessas cadeiras abandonadas embora a dada altura deva ter parecido um bom lugar para parar e não fazer nada por um momento. Às vezes há uma pequena mesa entre as cadeiras onde ninguém deixou um copo pousado ou um livro com a capa para baixo. Posso não ter nada com isso, mas suponhamos haver um dia em que […]
- [José Luis García Martín - Em algum lugar](https://singularidadepoetica.art/2019/01/29/jose-luis-garcia-martin-em-algum-lugar/): Logo, depois, mais tarde, quando nunca,meus passos se afastaram dos meus passose em algum lugar, não sei se dentro ou fora,ouviu-se uma voz que repetia um nome.Uma voz, apenas um eco, quase nada,talvez a voz do vento entre as árvoresonde árvores sequer existiam.Tremiam os alicerces da terraou seria eu quem tremia naquele instantequando um sol negro iluminava o mundoe era minha vida inteira que ardia,uma pilha de papéis amassados,em um canto remoto, entre teus braços,amor que foi, que é, que nunca existiu,um vapor sujo que na noite se eleva. Trad.: Nelson Santander En Algún Lugar Luego, después, más tarde, cuando nunca,mis […]
- [Walter de la Mare - Os que ouviam](https://singularidadepoetica.art/2019/01/28/walter-de-la-mare-os-que-ouviam-2/): “Está aí alguém?”, disse o Viajante Batendo à porta de luar; A relva, chão de fetos da floresta, Pôs-se o cavalo a devorar. Sobre a cabeça do Viajante, um pássaro Voou da torre para além. E ele feriu a porta uma outra vez, Dizendo: “Está aí alguém?” Do peitoril da janela, ninguém Desceu até o Viajante; Ninguém lhe fitou os olhos cinzentos: E ele imóvel, em seu espanto. Mas uma hoste de ouvintes fantasmas Que a casa deserta habitava, Deixou-se ouvindo, à calma do luar, O que a voz, humana bradava; Deixou-se conjugando o luar na escada Que dá ao vestíbulo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Consolo na Praia](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-consolo-na-praia/): Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tu? Eu?](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/carlos-drummond-de-andrade-tu-eu/): Não morres satisfeito. A vida te viveu sem que vivesses nela. E não te convenceu nem deu motivo para haver o ser vivo. A vida te venceu em luta desigual. Era todo o passado presente presidente na polpa do futuro acuando-te no beco. Se morres derrotado, não morres conformado. Nem morres informado dos termos da […]
- [Antonio Cicero - Nihil](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-nihil/): nada sustenta no nada esta terra nada este ser que sou eu nada a beleza que o dia descerra nada a que a noite acendeu nada esse sol que ilumina enquanto erra pelas estradas do breu nada o poema que breve se encerra e que do nada nasceu
- [Algernon Charles Swinburne - Um Amigo Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/algernon-charles-swinburne-um-amigo-morto/): Leia "Um Amigo Morto", de Algernon Charles Swinburne, uma comovente elegia sobre amizade, memória e a permanência do amor após a morte.
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas (último capítulo)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/machado-de-assis-memorias-postumas-ultimo-capitulo/): Talvez o melhor capítulo final da literatura brasileira:Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, […]
- [Pierre Corneille - Estrofes para a bela marquesa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/pierre-corneille-estrofes-para-a-bela-marquesa/): Marquesa, se minha face A ti parece mais velha, Espera que o tempo passe Que verás a que te espelha. O tempo, contra o vigor Das coisas belas, protesta, E há de te fanar a flor Tal qual enrugou-me a testa. Noite e dia tudo flui, Rege-nos a mesma lei, Se veem em ti o […]
- [Alberto Caeiro - Há Metafísica demais em não Pensar em Nada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/alberto-caeiro-ha-metafisica-demais-em-nao-pensar-em-nada/): Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou! (Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as coisas, Não compreende quem fala delas Com o […]
- [Jorge Luis Borges - O Suicida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/jorge-luis-borges-o-suicida/): Não ficará na noite uma estrela. Não ficará a noite. Morrerei e comigo a suma Do intolerável universo. Apagarei as pirâmides, as medalhas, Os continentes e as caras. Apagarei a acumulação do passado. Farei pó a história, pó o pó. Estou olhando o último poente. Ouço o último pássaro. Lego o nada a ninguém. Trad.: […]
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyanedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubaiyat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat-2/): Trad.: Augusto de Campos
- [Mário Quintana - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/mario-quintana-o-morto/): Eu estava dormindo e me acordaram E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco… E quando eu começava a compreendê-lo Um pouco, Já eram horas de dormir de novo!
- [Rodrigo Barata - Cilada](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/rodrigo-barata-cilada-3/)
- [Omar Khayyam/Edward Fitzgerard - do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/omar-khayyamedward-fitzgerard-do-rubayat/): Trad.: Augusto de Campos
- [Antonio Cicero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida-2/)
- [Antonio Cícero - O Fim da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/antonio-cicero-o-fim-da-vida/): Conheci da humana lida a sorte: o único fim da vida é a morte e não há, depois da morte, mais nada. Eis o que torna esta vida sagrada: ela é tudo e o resto, nada.
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/konstantinos-kavafis-itaca-em-tres-traducoes/): ÍTACA(Trad. José Paulo Paes) Se partires um dia rumo a Ítaca,faz votos de que o caminho seja longo,repleto de aventuras, repleto de saber.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o colérico Posídon te intimidem;eles no teu caminho jamais encontrarásse altivo for teu pensamento, se sutilemoção teu corpo e teu espírito tocar.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o bravio […]
- [Cassiano Ricardo - Os Futuricidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-os-futuricidas/): Sois o Bloco dos Suicidas.Paradoxo pensar que todo suicí- dio será a morte de Deus em nós. Nós não. Vamos salva-l’Oda hecatombe em que, afinal, tudo tombe.Nós O queremos vivo e salvo mesmo escanhoado dequalquer ornamento, pluma ou liturgia. Calvo.Sem nenhum arco-íris na cabeça ou púrpura.Não esquartejado numa vila ricaou atado ao rabo de um […]
- [Cassiano Ricardo - 2ª Aula na Jaula](https://singularidadepoetica.art/2016/02/24/cassiano-ricardo-2a-aula-na-jaula/): 1 Ícaro morreu,não por voar junto ao Sol mas de obsoleto pelos robôs levadoem seu caixão preto os mitos de hojeconversam comigo na rua.Convidam-me a assis- tir a Antonioni no cinemaem plena iconosfera. Tudo o que foi ontem é outra era. 2No Jardim Zoológicouma Lua presa numa enorme jaula de vidro. Com todas as crateras […]
- [Algernon Charles Swinburne - O Jardim de Proserpina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/algerno-charles-swinburne-o-jardim-de-proserpina/): Leia "O Jardim de Proserpina", de Algernon Charles Swinburne, um clássico da poesia vitoriana sobre morte, esquecimento e o anseio pelo repouso eterno.
- [Alan Moore - Monólogo de Rorschach](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/alan-moore-monologo-de-rorschach/): “Olhei para o céu, através da fumaça espessa com gordura humana, e Deus não estava lá. A fria, sufocante escuridão persiste para sempre e estamos sozinhos. Vivemos nossas vidas, por falta de algo melhor para fazer. Inventamos um motivo depois. Nascemos do esquecimento; temos filhos, destinados ao inferno como nós, caímos no esquecimento. Não há […]
- [Walter Savage Landor - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/walter-savage-landor-epitafio/)
- [Susan Sontag - De “Sobre Fotografia”](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/susan-sontag-de-sobre-fotografia/): “Todas as fotos são memento mori. Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa). Precisamente por cortar uma fatia deste momento e congelá-lo, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo (…). A fotografia é simultaneamente uma pseudo-presença e um sinal de ausência.” Susan Sontag, em […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte das Casas de Ouro Preto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/carlos-drummond-de-andrade-morte-das-casas-de-ouro-preto/): Sobre o tempo, sobre a taipa, a chuva escorre. As paredes que viram morrer os homens, que viram fugir o ouro, que viram finar-se o reino, que viram, reviram, viram, já não vêem. Também morrem. Assim plantadas no outeiro, menos rudes que orgulhosas na sua pobreza branca, azul e rosa e zarcão, ai, pareciam eternas! […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): East Coker](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-east-cocker/): Em meu princípio está meu fim. Uma após outrasAs casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugarSurgem um campo aberto, uma usina ou um atalho.Velhas pedras para novas construções, velhas lenhas para novas chamas,Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra semeada,Terra agora feita carne, pele e […]
- [T. S. Eliot - Quatro Quartetos (Excertos): Burnt Norton](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/t-s-eliot-quatro-quartetos-excertos-burnt-norton/): I O tempo presente e o tempo passadoEstão ambos talvez presentes no tempo futuroE o tempo futuro contido no tempo passado.Se todo tempo é eternamente presenteTodo tempo é irredimível.O que poderia ter sido é uma abstraçãoQue permanece, […]
- [Ernest Dowson - Vitae Summa Brevis Spem Nos Vetat Incohare Longan](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ernest-c-dowson-vitae-summa-brevis-spem-nos-vetat-incohare-longan/): Vitae Summa Brevis Spem nos Vetat Incohare Longam (A Brevidade da Vida Impede que Possamos Acalentar Longas Esperanças) – Horácio A alegria, o desejo, o pranto, o amor E a raiva duram pouco. Nada disso, que eu saiba, há de transpor O umbral conosco. Poucos dias de rosas e de vinho: Surge num vago sonho […]
- [Janus Vitalis - Sobre Roma](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/janus-vitalis-sobre-roma/): Recém-chegado que, buscando Roma em Roma, não encontras, em Roma, Roma alguma, olha ao redor, muro e mais muro, pedras rotas, ruínas, que assustam, de um teatro imenso: é Roma isto que vês – cidade tão soberba, que ainda exala ameaças seu cadáver. Vencido o mundo, quis vencer-se e, se vencendo, para que nada mais […]
- [Ferreira Gullar - Anoitecer em Outubro](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-anoitecer-em-outubro/): A noite cai, chove manso lá fora meu gato dorme enrodilhado na cadeiraNum dia qualquer não existirá mais nenhum de nós doispara ouvir nesta salaa chuva que eventualmente caia sobre as calçadas da rua Duvivier
- [Ferreira Gullar -Aprendizado](https://singularidadepoetica.art/2016/02/23/ferreira-gullar-aprendizado/): Do mesmo modo que te abriste à alegria abre-te agora ao sofrimento que é fruto dela e seu avesso ardente. Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo e te perdeste nela e te achaste nessa perda deixa que a dor se exerça agora sem mentiras nem desculpas e em tua carne vaporize toda […]
- [Mário Quintana - Pequeno Poema Didático](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/mario-quintana-pequeno-poema-didatico/): O tempo é indivisível. Dize, Qual o sentido do calendário? Tombam as folhas e fica a árvore, Contra o vento incerto e vário. A vida é indivisível. Mesmo A que se julga mais dispersa E pertence a um eterno diálogo A mais inconseqüente conversa. Todos os poemas são um mesmo poema, Todos os porres são […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Carta](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-carta/): Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas, as mesmas, triviais, embora estremecessem a um toque de paixão. Perfurando os obscuros canais de argila e sombra, ela iria contando que vou bem, e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente, e espero uma resposta, mas que não tarde; e peço […]
- [Nelson Santander - Pontuação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-pontuacao-poema/): Pontuação, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Beijo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-beijo-poema/): Beijo, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Chuva](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-chuva-poema/): Chuva, um poema de Nelson Santander
- [Nelson Santander - Religio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/nelson-santander-religio-poema/): Religio, um poema de Nelson Santander
- [Amadeu Amaral - Névoa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/amadeu-amaral-nevoa/): Tudo isto há de passar, decerto, muito em breve… Branca névoa sutil, ir-se-á quando o sol nasça; branco sonho de amor, passará, como passa pelas ondas em fúria uma garça de neve. Passará dentro em pouco, imitando a fumaça que se evola e se esvai nas curvas que descreve. Fumaça de ilusão, força é que […]
- [Lêdo Ivo - Epitalâmio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/ledo-ivo-epitalamio/): A terra cessa de girar, para que eu te ame. Não há mais Dia e Noite, meu amor. Somos hóspedes do impossível. Tudo é verdade e as horas irrompem como vulcões. O mar não clama, embora ainda exista. Para os que amam, como nós, as rotações foram abolidas, os séculos assumem a forma de um […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Mensagem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-mensagem/): Longe, muito longe, um país nos contempla. Um país de silício e saibro, de água salgada e sol Onde os peixes não chegam, os corvos não assistem. Onde os náufragos se afogam no incêndio do solitário dia eterno. Longe, muito longe, onde a areia reflete as escamas da lua; onde só os mortos vão beijar […]
- [Domingos Carvalho da Silva - Elegia para os Suicidas do Viaduto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/domingos-carvalho-da-silva-elegia-para-os-suicidas-do-viaduto/): Eles já estavam mortos no ventre materno. Para eles o deflagrar da aurora era já um túmulo. Fugiam para a morte presos, embora, à corda umbilical. Rondava a lua estéril entre ciprestes E a terra de cardos e açucenas era a alegria, o trigo, a lepra, a tempestade. Já estavam mortos quando nasceram acorrentados ao […]
- [Thiago de Mello - O Morto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/thiago-de-mello-o-morto/): Qual a verdade que o morto conheceu, além dos muros, e lhe fez cerrar os lábios estrangulando a palavra porventura essencial? Enfim livre da cegueira, que paisagem contemplou para que o rosto lhe turve tão rude ruga de mágoa? Soube talvez que melhor fora mostrar-se de todo: desvelar inteira a face, seus amores e seus […]
- [Walderez C. Gomes - Eu te amei...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/walderez-c-gomes-eu-te-amei/): Eu te amei Amando-me em ti. E de tanto amor em ti fui convertida sem ser eu mesma sendo tu. Olhando-me assim dividida. Eu me enterrei de amor amando-me mais quanto menos em mim fui conhecida quanto mais em ti fui consumada.
- [Giórgos Seféris - Existe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-existe/): Existe, pelos deuses cruéis predestinada, uma dor universal, e cada um de nós dela pega a sua parte, quanto aguente levar. Julgamos insensatos os que, carregando pressurosamente nos ombros mais do que podiam carregar, aliviam assim a carga comum: os heróis, os mártires, os criminosos. Rogo-lhes que nos perdoem. Recordamos. Trad.: José Paulo Paes
- [Giórgos Seferis - São Assim os Túmulos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/giorgos-seferis-sao-assim-os-tumulos/): São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio, com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura. E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas, a cabeça baixa, a fonte dos lamentos – acompanha as horas pétreas dos que jazem. Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se […]
- [Angela Leite de Souza - Do Lado de Cá Dessas Rosas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/angela-l-de-souza-do-lado-de-ca-dessas-rosas/): Nem percebi quando me cobriram com esta colcha rosa de rosas amorosamente. Dormia meu novo sono sem tranqulizantes, sem relógios: estou serena e não há pressa em acordar. Ser apenas, estar. Não me roem mais tristezas nem desejos, lateja leve leve uma saudade. Meu corpo vai não sendo, sou feliz. Livre do dever de viver e […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Rostos Imóveis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-os-rostos-imoveis/): Pai morto, namorada morta. Tia morta, irmão nascido morto. Primos mortos, amigo morto Avô morto, mãe morta (mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos). Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto. Noiva morta, amigas mortas. Chefe de trem morto, passageiro morto. Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho! Cão morto, passarinho morto. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Palavras no Mar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar/): Escrita nas ondas a palavra Encanto balança os náufragos, embala os suicidas. Lá dentro, os navios são algas e pedras em total olvido. Há também tesouros que se derramaram e cartas de amor circulando frias por entre medusas. Verdes solidões, merencórios prantos, queixumes de outrora, tudo passa rápido e os peixes devoram e a memória […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Noturno Oprimido](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-noturno-oprimido/): A água cai na caixa com uma força, com uma dor! A casa não dorme, estupefata. Os móveis continuam prisioneiros de sua matéria pobre, mas a água parte-se a água protesta. Ela molha toda noite com sua queixa feroz, seu alarido. E sobre nossos corpos se avoluma o lago negro de não sei que infusão. […]
- [Cassiano Ricardo - Vociferação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-vociferacao/): I Homem em Adão. Homem em Cristo. Homem em globo. II como salvar Deus? nós faremos d’Ele novamente o Autor de tudo: do peixe, da ave, da cobra, da maçã, do sapo, do rouxinol do sol. O obrigaremos contudo a suar san- gue conosco, na guerra, na fome na peste na terra suja; a engolir […]
- [Cassiano Ricardo - Gramática Visual de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-gramatica-visual-de-cristo/): 1 “Cristo, terá sido em vão teu sacri- fício? vê, o sangue escorre, acre, no massacre das ruas.” Cristo espalmou a mão cobrindo os olhos horizontalmente pra não ver a destruição do ser 2 “Cristo, vê os pequeninos que tanto amaste agora garotos nos becos como ratos dentro de sapatos rotos.” Cristo escondeu, de novo, […]
- [Cassiano Ricardo - Etc.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/cassiano-ricardo-etc-2/): Existe tudo porque existo. Há porque vemos. (Fernando Pessoa) Para que o mundo exista, existimos. Pois seja. Sem os nossos olhos, sem o que somos, que adiantaria haver mundo? Seria a árvore dos dourados pomos, etc. O que é ignorado não existe. O que é eterno também não existe. A eternidade é uma forma […]
- [Jorge Luis Borges - Remorso por qualquer morte](https://singularidadepoetica.art/2016/02/22/jorge-luis-borges-remorso-por-qualquer-morte/): Livre da memória e da esperança,Ilimitado, abstrato, quase futuro,O morto não é um morto: é a morte.Como o Deus dos místicos,A quem se devem negar todos os predicados,O morto, onipresentemente alheio,Não é senão a perdição e a ausência do mundo.Tudo lhe roubamos,Não lhe deixamos nem uma cor, nem uma sílaba:Aqui está o pátio que seus […]
- [John Donne - Em despedida: proibindo o pranto](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/john-donne-em-despedida-proibindo-o-pranto/): Como esses santos homens que se apagam Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”, Enquanto alguns dos amigos amargos Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” — Nos dissolvamos sem fazer ruído. Sem tempestades de ais, sem rios de pranto, Fora profanação nossa ao ouvido Dos leigos descerrar todo este encanto. O terremoto traz terror e morte E […]
- [Cassiano Ricardo - Missa de Corpo Presente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-missa-de-corpo-presente/): O seu corpo tão alvo, o seu corpo presente é a coisa mais ausente, é uma ilusão pensar que a rosa ou o fruto já colhidos ainda soluçam desprendidos da haste. O seu corpo é já um fruto neutro e frio. Não obstante jovem, tem a mesma idade de todos os que morreram antes, ou […]
- [Ricardo Reis - Odes: 153 - Como este infante que alourado dorme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-153/): Como este infante que alourado dorme Fui. Hoje sei que há morte, Lídia, há largas taças por encher Nosso amor que nos tarda. Qualquer que seja o amor ou a taça, cedo Cessa. Receia, e apressa.
- [Ricardo Reis - Odes: 144 - Uns, com os olhos postos no passado,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-144/): Uns, com os olhos postos no passado, Vêem o que não vêem; outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, vêem O que não pode ver-se. Porque tão longe ir pôr o que está perto — A segurança nossa? Este é o dia, Esta é a hora, este o momento, isto É quem somos, e é […]
- [Ricardo Reis - Odes: 105 - Quando, Lídia, vier o nosso Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-105/): Quando, Lídia, vier o nosso outono Com o inverno que há nele, reservemos Um pensamento, não para a futura Primavera, que é de outrem, Nem para o estio, de quem somos mortos, Senão para o que fica do que passa – O amarelo atual que as folhas vivem E as torna diferentes.
- [Ricardo Reis - Odes: 80 - A nada imploram tuas mãos já coisas,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-80/): A nada imploram tuas mãos já coisas, Nem convencem teus lábios já parados, No abafo subterrâneo Da húmida imposta terra. Só talvez o sorriso com que amavas Te embalsama remota, e nas memórias Te ergue qual eras, hoje Cortiço apodrecido. E o nome inútil que teu corpo morto Usou, vivo, na terra, como uma alma, […]
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-odes-63/)
- [Ricardo Reis - Odes: 63 - Tão cedo passa tudo quanto passa!](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-4/): Tão cedo passa tudo quanto passa! Morre tão jovem ante os deuses quanto Morre! Tudo é tão pouco! Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala. O mais é nada.
- [Ricardo Reis - Odes: 61 - De uma só vez recolhe](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-3/): De uma só vez recolhe Quantas flores puderes. Não dura mais que até à morte o dia. Colhe de que recordes. A vida é pouco e cerca-a A sombra e o sem remédio. Não temos regras que compreendamos, Súbditos sem governo. Goza este dia como Se a Vida fosse nele. Homens nem deuses fadam, nem […]
- [Ricardo Reis – Odes: 40 - Não sem lei, mas segundo leis diversas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas-2/): Não sem lei, mas segundo leis diversas Entre os homens reparte o fado e os deuses Sem justiça ou injustiça Prazeres, dores, gozos e perigos. Bem ou mal, não terás o que mereces. Querem os deuses a isto obrigar Porque o Fado não tem Leis nossas com que reja a sua lei. Quem é rei […]
- [Ricardo Reis - Odes: 1 - Mestre, são placidas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-e-outros-poemas/): Mestre, são plácidas Todas as horas Que nós perdemos, Se no perdê-las, Qual numa jarra, Nós pomos flores. Não há tristezas Nem alegrias Na nossa vida. Assim saibamos, Sábios incautos, Não a viver, Mas decorrê-la, Tranquilos, plácidos, Tendo as crianças Por nossas mestras, E os olhos cheios De natureza… À beira-fio, À beira-estrada, Conforme calha, […]
- [Ricardo Reis - Odes - Livro I - XIII - Olho os campos, Neera,](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/ricardo-reis-de-odes-livro-primeiro/): Olho os campos, Neera, Campos, campos e sofro Já o frio da sombra Em que não terei olhos. A caveira antessinto Que serei não sentindo, Ou só quanto o que ignoro Me incógnito ministre. E menos ao instante Choro, que a mim futuro. Súdito ausente e nulo Do universal destino.
- [Aldous Huxley - Silêncio/Música](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/384-2/): “Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.” – Aldous Huxley
- [Cassiano Ricardo - O Festim Terrestre](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-festim-terrestre/): O olho de Polifemo já depois de arrancado ao gigante bêbado, foi posto, entre rosas carnosas e lírios agudos, sobre a alva mesa. Tinha ainda a pupila acesa. E os doze convivas, — doze fomes irmãs, — todos ao mesmo tempo, simultâneos como figuras de uma orquestra, vieram, graves, comer o olho de Polifemo, em […]
- [Cassiano Ricardo - Evocação dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/cassiano-ricardo-evocacao-dos-mortos/): Um dia conversarei com os meus mortos. E todos os que morri (os muitos eus que eu fui) reunidos inquietos sôfregos cada qual com um meu rosto na mão, me contarão (sua) a minha história. Não obstante a tua gélida memória. Ah, os defuntos que ficaram atrás de mim fotograficamente, agora juntos. Não acredito que […]
- [Titãs - O Pulso](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/titas-o-pulso/): O PULSO O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Peste bubônica câncer pneumonia Raiva rubéola tuberculose anemia Rancor cisticercose caxumba difteria Encefalite faringite gripe leucemia O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa Hepatite escarlatina estupidez paralisia Toxoplasmose sarampo esquizofrenia Úlcera trombose coqueluche hipocondria Sífilis ciúmes asma cleptomania O corpo ainda é pouco O […]
- [Marina Colasanti - Sexta-feira à noite](https://singularidadepoetica.art/2016/02/21/marina-colasanti-sexta-feira-a-noite/): Sexta-feira à noite Os homens acariciam o clitóris das esposas Com dedos molhados de saliva. O mesmo gesto com que todos os dias Contam dinheiro, papéis, documentos E folheiam nas revistas A vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noite Os homens penetram suas esposas Com tédio e pénis. O mesmo tédio com que todos os […]
- [Waly Salomão - A Fábrica do Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/waly-salomao-a-fabrica-do-poema/): do livro: Algaravias: FÁBRICA DO POEMA in memoriam Donna Lina Bo Bardi sonho o poema de arquitetura idealcuja própria nata de cimento encaixa palavra porpalavra,tornei-me perito em extrair faíscas das britase leite das pedras.acordo.e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.acordo.o prédio, pedra e cal, esvoaçacomo um leve papel solto à mercê do ventoe evola-se, […]
- [Ferreira Gullar - Galo Galo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ferreira-gullar-galo-galo/): O galo no saguão quieto. Galo galo de alarmante crista, guerreiro, medieval. De córneo bico e esporões, armado contra a morte, passeia. Mede os passos. Pára. Inclina a cabeça coroada dentro do silêncio: — que faço entre coisas ? — de que me defendo ? Anda No saguão. O cimento esquece o seu último passo. […]
- [Manuel Bandeira - Profundamente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-profundamente/): Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes, cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o […]
- [Manuel Bandeira - Poema Só Para Jaime Ovalle](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/manuel-bandeira-poema-so-para-jaime-ovalle/): Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando… – Humildemente pensando na vida e nas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Máquina do Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/carlos-drummond-de-andrade-a-maquina-do-mundo/): E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio […]
- [José Paulo Paes - A Casa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-a-cidade/): Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que […]
- [José Paulo Paes - Revisitação](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jose-paulo-paes-revisitacao/): Cidade, por que me persegues? Com os dedos sangrando já não cavei em teu chão os sete palmos regulamentares para enterrar meus mortos? Não ficamos quites desde então? Por que insistes em acender toda noite as luzes de tuas vitrinas com as mercadorias do sonho a tão bom preço? Não é mais tempo de comprar. […]
- [Philip Larkin – Este Seja o Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/philip-larkin-este-seja-o-poema/): Teu pai e mãe fodem contigo. Que não o queiram, tanto faz. Passam-te cada podre antigo, além de uns novos, especiais. Mas de cartola e fraque, outrora, fodera-os já do mesmo modo, gente ora austero-piegas, ora se engalfinhando cega de ódio. Miséria é o que legamos: fossas num mar que só fica mais fundo. Dá […]
- [Jaime Gil de Biedma - Não Voltarei a ser Jovem](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/jaime-gil-de-biedma-nao-voltarei-a-ser-jovem/): Que é certo a vida passa só se começa a compreender mais tarde — como todos os jovens, decidi levar a minha vida por diante. Deixar marca eu queria e partir entre aplausos — envelhecer, morrer, eram somente as dimensões do teatro. Porém, passou o tempo e a verdade mais amarga assoma: envelhecer, morrer, é […]
- [William Butler Yeats - Quando Velha e Grisalha...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/william-butler-yeats-quando-velha-e-cansada-poema/): Quando velha e grisalha e exausta, ao fim do dia, tu cabeceares junto ao fogo, vem folhear lentamente este livro, e lembra o doce olhar e as sombras densas que nos olhos teus havia. Quantos, com falsidade ou devoção sincera, amaram-te a beleza e graça de menina! Um só, porém, amou tua alma peregrina, e […]
- [Ivan Junqueira - Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-morrer/): Pois morrer é apenas isto: cerrar os olhos vazios e esquecer o que foi visto; é não supor-se infinito, mas antes fáustico e ambíguo, jogral entre a história e o mito; é despedir-se em surdina, sem epitáfio melífluo ou testamento sovina; é talvez como despir o que em vida não vestia e agora é inútil […]
- [Ivan Junqueira - Esse Punhado de Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-esse-punhado-de-ossos/): Esse punhado de ossos que, na areia, alveja e estala à luz do sol a pino moveu-se outrora, esguio e bailarino, como se move o sangue numa veia. Moveu-se em vão, talvez, porque o destino lhe foi hostil e, astuto, em sua teia bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia o que havia de raro […]
- [Ivan Junqueira - A Sagração dos Ossos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivan-junqueira-a-sagracao-dos-ossos/): Considerai estes ossos – tíbios, inúteis, apócrifos – que sob a lápide dormem sem prédica que os conforte. Considerai: é o que sobra de quem lhes serviu de invólucro e agora já não se move entre as tábuas do sarcófago. Dormem sem túnica ou toga e, quando muito, um lençol lhes cobre as partes mais […]
- [Ivo Barroso - Poema a meu Pai](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ivo-barroso-poema-a-meu-pai/): Meu pai morreu longe de mim (eu é que estava longe dele). Tantos anos se passaram e ainda não lhe vi a sepultura. Continuo longe. Mas sua presença me sacode como um choque elétrico, uma bebida forte que me arde por dentro. Está vivo nos meus dedos, nos cabelos ralos – a nuca dá arrepios […]
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono-2/)
- [Rainer Maria Rilke - Dia de Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/rainer-maria-rilke-dia-de-outono/): Senhor, foi um verão imenso: é hora.Estende as tuas sombras nos relógiosde sol e solta os ventos prado afora. Instiga a sazonarem, com dois diasa mais de sul, as frutas que, tardias,conduzes rumo à plenitude, e apura,no vinho denso, a última doçura. Quem não tem lar já não terá; quem morasozinho há de velar e […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Homenagem a Ricardo Reis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/sophia-de-mello-breyner-andresen-homenagem-a-ricardo-reis/): Não creias, Lídia , que nenhum estioPor nós perdido possa regressarOferecemos a florQue adiámos colher. Cada dia te é dado uma só vezE no redondo círculo da noiteNão existe piedadePara aquele que hesita Mais tarde será tarde e já é tardeO tempo apaga tudo menos esseLongo indelével rastoQue o não – vivido deixa. Não creias […]
- [Ricardo Reis - Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/ricardo-reis-vem-sentar-te-comigo-lidia-a-beira-do-rio/): Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.) Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, […]
- [John Donne - Elegia: indo para o leito](https://singularidadepoetica.art/2016/02/19/john-donne-elegia-indo-para-o-leito/): Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz; Até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, Canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, Céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, Feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor […]
- [Bruno Tolentino - Via Crucis](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/bruno-tolentino-via-crucis/): A Via Crucis foi uma selvageria, a Crucifixão uma brutalidade; mas em três, quatro horas, acabou a agonia, baixou a eternidade. Eu vivo aqui, crucificada noite e dia, carrego da manhã à tarde o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia, lenta, fria, covarde. Ah, como eu preferia que me crucificassem de uma […]
- [Catulo - Vivamus, mea Lésbia, ataque amemus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/catulo-vivamus-mea-lesbia-ataque-amemus/): Vivamos minha Lésbia, e amemos, e as graves vozes velhas – todas – valham para nós menos que um vintém. Os sóis podem morrer e renascer: quando se apaga nosso fogo breve dormimos uma noite infinita. Dá-me pois mil beijos, e mais cem, e mil, e cem, e mil, e mil e cem. Quando somarmos […]
- [Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/percy-bysshe-shelley-ozymandias-poema/): Disse o viajante de uma antiga terra: “Duas pernas de pedra, no deserto, Despontam gigantescas, e bem perto Há um rosto destroçado que descerra Os lábios num sorriso de comando Que atesta: o escultor leu com mestria Paixões que na matéria inerte e fria A mão que as entalhou vão perdurando. ‘Meu nome é Ozymândias, […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/giuseppe-ungaretti-natal/): Não me apetece mergulhar em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixe-me assim como uma coisa pousada em um canto e abandonada Aqui não se sente senão o bom calor Estou com as quatro cabriolas de fumo da lareira
- [Jorge Luis Borges - Nuvem (1)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/jorge-luis-borges-nuvem-1/): Não haverá uma só coisa que não seja uma nuvem. São nuvens as catedrais de vasta pedra e bíblicos cristais que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia que muda como o mar. Algo há distinto cada vez que a abrimos. O reflexo de tua cara já é outro no espelho e o dia é […]
- [Olavo Bilac - Nel Mezzo Del Camin...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/olavo-bilac-nel-mezzo-del-camin/): Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigadaE triste, e triste e fatigado eu vinha.Tinhas a alma de sonhos povoada,E a alma de sonhos povoada eu tinha… E paramos de súbito na estradaDa vida: longos anos, presa à minhaA tua mão, a vista deslumbradaTive da luz que teu olhar continha. Hoje, segues de novo… Na partidaNem o pranto teus […]
- [Machado de Assis - A Carolina](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/machado-de-assis-a-carolina/): Querida, ao pé do leito derradeiroEm que descansas dessa longa vida,Aqui venho e virei, pobre querida,Trazer-te o coração do companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiroQue, a despeito de toda humana lida,Fez a nossa existência apetecidaE num recanto pôs um mundo inteiro. Trago-te flores, – restos arrancadosDa terra que nos viu passar unidosE ora mortos nos deixa […]
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/konstantinos-kavafis-itaca/): Ítaca, um poema de Konstantinos Kaváfis
- [Vladimir Maiakovski/Caetano Veloso - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-caetano-veloso-o-amor/): Talvez quem sabe um dia Por uma alameda do zoológico Ela também chegará Ela que também amava os animais Entrará sorridente assim como está Na foto sobre a mesa Ela é tão bonita Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão O século trinta vencerá O coração destroçado já Pelas mesquinharias Agora vamos […]
- [Vladimir Maiakovski - O Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/vladimir-maiakovski-o-amor/): “O Amor”, um poema de Vladimir Maiakovski que explode a linguagem para fazer do sentimento uma força desmedida, urgente e quase insuportável.
- [Carlos Drummond de Andrade - Destruição](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/carlos-drummond-de-andrade-destruicao/): Os amantes se amam cruelmentee com se amarem tanto não se vêem.Um se beija no outro, refletido.Dois amantes que são? Dois inimigos. Amantes são meninos estragadospelo mimo de amar: e não percebemquanto se pulverizam no enlaçar-se,e como o que era mundo volve a nada. Nada, ninguém. Amor, puro fantasmaque os passeia de leve, assim a […]
- [Antonio Cicero - Huis Clos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-huis-clos/): Da vida não se sai pela porta: só pela janela. Não se sai bem da vida como não se sai bem de paixões jogatinas drogas. E é porque sabemos disso e não por temer viver depois da morte em plagas de Dante Goya ou Bosh (essas, doce príncipe, cá estão) que tão raramente nos matamos […]
- [Antonio Cicero - História](https://singularidadepoetica.art/2016/02/18/antonio-cicero-historia/): A história, que vem a ser? mera lembrança esgarçada algo entre ser e não-ser: noite névoa nuvem nada. Entre as palavras que a gravam e os desacertos dos homens tudo o que há no mundo some: Babilônia Tebas Acra. Que o mais impecável verso breve afunda feito o resto (embora mais lentamente que o bronze, […]
- [Octavio Paz – Pedra de sol](https://singularidadepoetica.art/2022/03/06/octavio-paz-pedra-de-sol-poema/): Pedra de sol La treizième revient… c’est encor la première;et c’est toujours la seule – ou c’est le seul moment;car es-tu reine, ô toi, la première ou dernière?es-tu roi, toi le seul ou le dernier amant? GÉRARD DE NERVAL, Arthémis. Um salgueiro de cristal, um choupo de água,um alto repuxo que o vento arqueja,uma árvore […]
- [Nelson Santander - Renata Maria](https://singularidadepoetica.art/2022/03/05/nelson-santander-renata-maria-2/): Renata Maria, por Nelson Santander: uma análise da letra da canção de Chico Buarque
- [Miller Williams - Um poema para Emily](https://singularidadepoetica.art/2022/03/04/miller-williams-um-poema-para-emily-poema/): Fatos e dedos pequenos e o mais distante de minha vezna terra, a um palmo e duas gerações de mim afastada,neste ainda presente eu tenho cinquenta e três.Você, nem vinte e quatro horas completadas. Quando eu tiver sessenta e três, e você, dez completos,e você não estiver nem longe nem perto de mimseus braços se […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A um Ausente](https://singularidadepoetica.art/2022/03/03/carlos-drummond-de-andrade-a-um-ausente-2/): Tenho razão de sentir saudade,tenho razão de te acusar.Houve um pacto implícito que rompestee sem te despedires foste embora.Detonaste o pacto.Detonaste a vida geral, a comum aquiescênciade viver e explorar os rumos de obscuridadesem prazo sem consulta sem provocaçãoaté o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora.Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas […]
- [Dan Gerber – Para Deneb](https://singularidadepoetica.art/2022/03/02/dan-gerber-para-deneb-poema/): Tão impossivelmente distante,dizem os eruditos astrônomos,mais remotado que qualquer outra Coisa queeu já tenha visto,calorosa companheira de uma noite de verão,um quarto de milhão de vezesa luz do nosso sol,obliterando os quatrilhõesde milhas da escuridão à sua volta,ainda assim tão familiar,tão em casa com as estrelas do nosso bairro,aqui na cauda do Cisne,tão serena em […]
- [Ferreira Gullar - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/01/ferreira-gullar-ano-novo-2/): Meia-noite. Fimde um ano, iníciode outro. Olho o céu:nenhum indício. Olho o céu:o abismo vence oolhar. O mesmoespantoso silêncioda Via-Láctea feitoum ectoplasmasobre a minha cabeçanada ali indicaque um ano novo começa. E não começanem no céu nem no chãodo planeta:começa no coração. Começa como a esperançade vida melhorque entre os astrosnão se escutanem se vênem […]
- [Joan Margarit - Ser velho](https://singularidadepoetica.art/2022/02/28/joan-margarit-ser-velho-poema/): Entre as sombras dos galose dos cachorros dos pátios e curraisde Sanaüja, abre-se um buracoque se enche de tempo perdido e chuva sujaenquanto as crianças caminham para a morte.Ser velho é uma espécie de pós-guerra.Sentados à mesa da cozinha,limpando as lentilhasao anoitecer do braseiro,vejo os que me amaram.Tão pobres que no fim daquela guerrativeram que […]
- [Philip Larkin - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2022/02/27/philip-larkin-aubade-2/): De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara.Olho o negror sem som, me levantando às quatro.Em tempo, a borda da cortina vai estar clara.Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato:A morte infatigável, um dia mais perto,Tornando inviável todo pensamento, excetoO de onde, como e quando a minha vai chegar.Uma pergunta […]
- [Jane Hirshfield – Otimismo](https://singularidadepoetica.art/2022/02/26/jane-hirshfield-otimismo-poema/): Tenho admirado a resiliência cada vez mais.Não a simples resistência de um travesseiro, cuja espumasempre volta ao mesmo formato, mas a sinuosatenacidade de uma árvore: ao encontrar a luz recém-bloqueada em um dos lados,ela se volta para o outro. Uma inteligência cega, é verdade.Mas de tal persistência surgiram tartarugas, rios,mitocôndrias, figos — todo este resinoso […]
- [Konstantinos Kaváfis - À Espera dos Bárbaros](https://singularidadepoetica.art/2022/02/25/konstantinos-kavafis-a-espera-dos-barbaros-2/): O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado?Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje.Que leis hão de fazer os senadores?Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se ergueu tão cedoe de coroa solene se assentouem seu trono, à […]
- [Moya Cannon – Mãos](https://singularidadepoetica.art/2022/02/24/moya-cannon-maos-poema/): Mãos para Eamonn and Kathleen Estava em algum lugar sobre a costa nordeste do Brasil,sobre Fortaleza, uma cidade da qual nada sei,exceto que é cheia de pessoas —a vida de cada uma delas um mistériomaior do que a Amazônia —foi lá, enquanto o avião de brinquedo no monitor de voosobrevoava a linha do equadore se […]
- [Ferreira Gullar - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2022/02/23/ferreira-gullar-despedida-2/): Eu deixarei o mundo com fúria.Não importa o que aparentemente aconteça,se docemente me retiro. De fato,nesse momentoestarão de mim se arrebentandoraízes tão fundasquanto estes céus brasileiros.Num alarido de gente e ventaniaolhos que ameirostos amigos tardes e verões vividosestarão gritando a meus ouvidospara que eu fiquepara que eu fique Não chorarei.Não há soluço maior que despedir-se […]
- [Dylan Thomas - Não vás tão docilmente](https://singularidadepoetica.art/2022/02/22/dylan-thomas-nao-vas-tao-docilmente/): Não vás tão docilmente nessa noite linda;Que a velhice arda e brade ao término do dia;Clama, clama contra o apagar da luz que finda. Embora o sábio entenda que a treva é bem-vindaQuando a palavra já perdeu toda a magia,Não vai tão docilmente nessa noite linda. O justo, à última onda, ao entrever, ainda,Seus débeis […]
- [Ferreira Gullar - Praia do Caju](https://singularidadepoetica.art/2022/02/21/ferreira-gullar-praia-do-caju-2/): Escuta:o que passou passoue não há forçacapaz de mudar isto. Nesta tarde de férias, disponível, podes,se quiseres, relembrar.Mas nada acenderá de novoo lumeque na carne das horas se perdeu. Ah, se perdeu!Nas águas da piscina se perdeusob as folhas da tardenas vozes conversando na varandano riso de Marília no vermelhoguarda-sol esquecido na calçada. O que […]
- [Ada Limón – Estrelas extintas](https://singularidadepoetica.art/2022/02/20/ada-limon-estrelas-mortas-poema/): Aqui fora, até as árvores se curvam. A mão gelada do inverno nas costas de todos nós.Casca escura, folhas amarelas escorregadias, uma espécie de quietudetão silenciosa que parece pertencer a outra era.Ultimamente, sou uma morada de aranhas: um ninho de tentativas.Apontamos para as estrelas que compõem Órion enquanto levamos o lixo pra fora, os contêineres […]
- [Ferreira Gullar - O Que Se Foi](https://singularidadepoetica.art/2022/02/19/ferreira-gullar-o-que-se-foi-2/): “O Que Se Foi”, um poema de Ferreira Gullar que confronta a irreversibilidade do passado e revela a contradição íntima entre a lucidez da perda e o coração que insiste em pulsar pelo que não volta.
- [Robert Frost - Nada que é de ouro pode permanecer](https://singularidadepoetica.art/2022/02/18/robert-frost-nada-que-e-de-ouro-pode-permanecer-poema/): No mundo, o ouro é o verde elementar,Sua matiz mais difícil de conservar.A flor é a sua inaugural semente;Não obstante por um instante somente. Depois, folha desaparece sob folha.E assim, no pesar o Paraíso mergulha,E a aurora se transforma em amanhecer.Nada que é de ouro pode permanecer. Trad.: Nelson Santander Nothing gold can stay Nature’s […]
- [Bei Dao - Resposta](https://singularidadepoetica.art/2022/02/16/bei-dao-resposta-2/): A degradação é o passaporte do vilão,A nobreza é epitáfio do nobre.Olhe: como o céu dourado é inundadodo reflexo das sombras torcidas dos mortos. Passada a época do gelo,Por que ainda há gelo em toda a parte?Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança,por que mil velas ainda competem no Mar Morto? Eu vim para […]
- [Mary Oliver - A serpente negra](https://singularidadepoetica.art/2022/02/15/mary-oliver-a-serpente-negra-poema/): Foi quando a serpente negraapareceu na estrada de manhã,e o caminhão não conseguiu desviar –morte, é assim que acontece. Agora ela jaz enrolada e inútilcomo um velho pneu de bicicleta.Eu paro o carroe a levo para o mato. Ela é fria e reluzentecomo um chicote trançado, bela e tranquilacomo um irmão que morreu.Eu a deixo […]
- [Wendell Berry – A cobra](https://singularidadepoetica.art/2022/02/14/wendell-berry-a-cobra-poema/): No final de outubroencontrei no chão da florestauma pequena cobra cujas costastinham o padrão da escuridãodas folhas mortas em que ela estava deitada.Seu corpo fora engrossado por um ratoou um pequeno pássaro. Ela estava fria,tão entorpecida com a barriga cheiae o ar do outono que mal se dava ao trabalho de mexer a língua.Eu a […]
- [William Butler Yeats - A Segunda Vinda](https://singularidadepoetica.art/2022/02/13/william-butler-yeats-a-segunda-vinda-2/): Girando em círculos sempre maioresJá não ouve o falcão ao falcoeiro;Tudo desaba; o próprio centro hesita;Livre, a anarquia reina sobre o mundo,Livre a maré sanguinolenta: em tudoSe afogam os rituais da inocência;Os melhores vacilam e os pioresÀ intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia,Eis que a Segunda Vinda se anuncia,A Segunda […]
- [Györy Somlyó - Fábula da dupla-hélice](https://singularidadepoetica.art/2022/02/12/gyory-somlyo-fabula-da-dupla-helice-poema/): Filho dos meus paispai do meu filhogeraram-mee procrieicriaram-mee crieiherdeie legueisepultei eserei sepultadoatinjo aos poucoso atingívelna corrente de cristalou nas ligações alcalinasda vida singularfeita de duaso tempocondecora-mecom todas as distinçõesatando-mecom todas as valênciasMas minhas célulasnem suspeitamaté onde podematravés delaschegar as célulaspelos obscurosdegraus restantesda escada de caracolou escada de Jacóna abóboda celesteou cavidade cranianado ácido desoxi—ribonucléico. Trad.: […]
- [Cassiano Ricardo - O Cacto](https://singularidadepoetica.art/2022/02/11/cassiano-ricardo-o-cacto-2/): This is cactus land.Here the stone imagesare raised…T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cactona areia da nossa tristeza.Uma folha sobre outra,em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros,um braço a nascer de outro braço,uma folha sobre outra,formaremos um grande cacto. De cada braço, já no espaço,nascerá mais um braço, e desteoutros braços, […]
- [Ellen Bass - Ode à repetição](https://singularidadepoetica.art/2022/02/10/ellen-bass-ode-a-repeticao-poema/): Gosto de fazer a mesma caminhadapela vasta extensão da Woodrow* até o oceanoe na maioria das vezes viro à esquerda em direção ao farol.O mar é sempre diferente. Em alguns dias oníricos,ondas que mal ondulam, apenas uma extensa ondulaçãosem nenhuma pressa de chegar. Em outros, a rebentação está bêbada,colidindo contra os rochedos como um acidente […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2022/02/09/giacomo-leopardi-o-infinito-2/): Sempre me foi cara esta colina ermaE esta sebe, que de muitos ladosExclui a visão do último horizonte.Mas sentado, contemplando, infindáveisEspaços além dela, e sobre-humanosSilêncios, e a mais profunda calmaEu no pensar imagino; e por poucoNão se amedronta o coração. E o VentoOuvindo sussurrar entre essas plantas,Aquele infinito silêncio a esta vozVou comparando: e lembra-me […]
- [Marie Howe – O que os vivos fazem](https://singularidadepoetica.art/2022/02/08/marie-howe-o-que-os-vivos-fazem-poema/): Johnny, a pia da cozinha está entupida há dias, algum utensílio provavelmente caiu lá embaixo. E o Drano não está resolvendo mas cheira perigosamente, e a louça incrustada se amontoou esperando pelo encanador que eu ainda não chamei. Este é o dia a dia de que falávamos. Estamos no inverno de novo: o céu é […]
- [Giuseppe Ungaretti - De uma Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2022/02/07/giuseppe-ungaretti-de-uma-estrela-a-outra-2/): Daquela estrela à outraA noite se encarceraEm turbinosa vazia desmesura, Daquela solidão de estrelaÀquela solidão de estrela Trad: Haroldo de Campos REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016 Da quella stella all’altra Da quella stella all’altraSi carcera la notteIn turbinante vuota dismisura, Da quella solitudine di stellaA quella solitudine di stella.
- [Ted Kooser - Voo noturno](https://singularidadepoetica.art/2022/02/06/ted-kooser-voo-noturno-poema/): Sobre nós, estrelas. Sob nós, constelações.A cinco bilhões de milhas de distância, uma galáxia morrecomo um floco de neve desfazendo-se na água. Abaixo de nós,algum fazendeiro, sentindo o calafrio dessa morte distante,acende suas luzes de quintal, deslocando seu celeiro e galpãode volta para o pequeno sistema sob seus cuidados.Por toda a noite, as cidades, como […]
- [Salvatore Quasimodo - E de repente é noite](https://singularidadepoetica.art/2022/02/05/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite-3/): Cada um está só no coração da terratraspassado por um raio de sol:e de repente é noite. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016. Ed è subito sera Ognuno sta solo sul cuor della terratrafitto da un raggio di sole:ed è subito sera
- [Juan Vicente Piqueras - Sai de ti](https://singularidadepoetica.art/2022/02/04/juan-vicente-piqueras-sai-de-ti-poema/): Sai de Ti(ou coleção de imperativos primavera-verão para o outono de teu desconcerto) Não fujas do que sentes. Não te escondasno que dizes. Não digas mentiras.Sê tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes.Não sofras por medo de sofrer mais.Não mendigues jamais o que mereces.Por exemplo, o amor. Fá-lo e o terás.Funda no fogo firme de […]
- [Friedrich Hölderlin - Outrora e Agora](https://singularidadepoetica.art/2022/02/03/friedrich-holderlin-outrora-e-agora-3/): De manhã era feliz, quando jovem,E à noite chorava; já hoje, mais velho,Começo meu dia em dúvida, porémSeu fim é para mim sagrado e sereno. Trad.: Antonio Cicero Ehmals und jetzt In jüngern Tagen war ich des Morgens froh,Des Abends weint’ich; jetzt, da ich älter bin,Beginn ich zweifelnd meinen Tag, dochHeilig und heiter ist mir […]
- [Ana Luísa Amaral - Silogismos](https://singularidadepoetica.art/2022/02/02/ana-luisa-amaral-silogismos-poema/): “Silogismos”, um poema de Ana Luísa Amaral que confronta a inocência da infância com o abismo do tempo, revelando a ternura e o limite das palavras diante do infinito.
- [Linda Pastan - Considere o espaço entre as estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/02/01/linda-pastan-considere-o-espaco-entre-as-estrelas-poema/): Considere o espaço brancoentre as palavras em uma página, não sóas margens ao redor delas.Ou o espaço entre pensamentos:instantes em que a mente está inventandoexatamente o que pensae a boca esperapara ser preenchida com linguagem.Considere o espaçoentre os amantes após uma discussão,o lençol branco uma fria metáforaentre eles.Agora imagine o breve espaçoantes que a morte […]
- [Jorge Luis Borges - Limites](https://singularidadepoetica.art/2022/01/31/jorge-luis-borges-limites-2/): Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar,Há uma rua próxima que está vedada a meus passos,Há um espelho que me viu pela última vez,Há uma porta que fechei até o fim do mundo.Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os)Há algum que já nunca abrirei.Este verão cumprirei cinqüenta anos:A morte me desgasta, […]
- [Friedrich Hölderlin - A Brevidade](https://singularidadepoetica.art/2022/01/30/friedrich-holderlin-a-brevidade-3/): “Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora,O canto? Quando jovem, não chegavas,Nos dias de esperança,Nunca ao fim, quando cantavas!” Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebolBanhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está friaE o pássaro da noite esvoaçaincomodamente aos olhos teus. Trad. Antonio Cícero REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente […]
- [Nicholas Christopher – Terminus](https://singularidadepoetica.art/2022/01/29/nicholas-christopher-terminus-poema/): Terminus Eis uma leitura obrigatóriano final do nosso séculoo final de um milênio que começou com as cruzadas A transcrição de uma entrevistaentre um médico da Cruz Vermelhae uma menina muçulmana de doze anosna Bósniaque descreveu os estupros que sofreu nas mãos de homensque se autodenominavam soldadosdiferentes homens todas as noites um após o outroseis […]
- [Wislawa Szymborska - O primeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2022/01/28/wislawa-szymborska-o-primeiro-amor-2/): Dizemque o primeiro amor é o mais importante.Isso é muito romântico,mas não é o meu caso.Algo entre nós houve e não houve,se deu e se perdeu.Não me tremem as mãosquando encontro as pequenas lembrançase o maço de cartas atadas com barbantese ao menos fosse uma fita.Nosso único encontro depois de anosfoi um diálogo de duas […]
- [Stanley Kunitz - O retrato](https://singularidadepoetica.art/2022/01/27/stanley-kunitz-o-retrato-poema/): Minha mãe nunca perdoou meu paipor ter-se suicidado,especialmente em um momento tão estranhoe em um parque público,naquela primaveraquando eu estava esperando para nascer.Ela encarcerou o nome deleem seu armário mais profundoe não o deixou mais sair,embora eu pudesse ouvi-lo batendo.Quando desci do sótão, trazendona mão o retrato em tons pastéisde um estranho de lábios compridos,bigode […]
- [Ian Hamilton - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2022/01/26/ian-hamilton-epitafio-2/): O aroma de rosas velhas e tabacoFaz-me regressar.Há quase vinte anosQue não nos vemosE a nossa desapegada paixão continua. Foi isto que me deixaste:A mão, entreaberta, imóvelSobre uma colcha verde.O bastante para erguerAlguns poemas melancólicos. Se então eu te houvesse tocadoUm de nós podia ter sobrevivido. Trad. Nuno Vidal REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Polaroide](https://singularidadepoetica.art/2022/01/25/jorge-valdes-diaz-velez-polaroide-poema/): Polaroide para Eugenio Montejo São sete contra a parede, em pé, e um sentado.Mal conservam os traços desbotados pelos anos. Os rostos resistem ao desgaste,embora já não possuam as cores vivasque ontem os distinguiram. Entre livros e taças,os olhares sorridentes, as mãos dadascelebrando a vida na prata e gelatina*se apagam na sépia de sua jovem […]
- [Pedro Salinas - Não Te Vejo](https://singularidadepoetica.art/2022/01/24/pedro-salinas-nao-te-vejo-2/): Não te vejo. Bem seique estás aqui, atrásde uma frágil paredede ladrilhos e cal, bem ao alcanceda minha voz, se chamasse.Mas não chamarei.Chamarei amanhã,quando, ao não te ver maisimagine que continuasaqui perto, ao meu lado,e que basta hoje a vozque ontem eu não quis dar.Amanhã… quando estivereslá atrás de umafrágil parede de ventos,de céus e […]
- [Tomas Tranströmer - Neve Cai](https://singularidadepoetica.art/2022/01/23/tomas-transtromer-neve-cai-poema/): Enterros chegammais e mais pertocomo placas na estradaao se aproximar a cidade. Milhares de olhares humanosna longa terra das sombras. Uma ponte apontadevagarbem longe no espaço. Trad.: Marcia Sá Cavalcante Schuback SNÖ FALLER Begravningarna kommertätare och tätaresom vägskyltarnanär man närmar sig en stad. Tusentals människors blickari de långa skuggornas land. En bro bygger siglångsamtrakt ut […]
- [William Butler Yeats - Viajando para Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2022/01/22/william-butler-yeats-viajando-para-bizancio/): Aquela não é terra para velhos. Gentejovem, de braços dados, pássaros nas ramas— gerações de mortais — cantando alegremente,salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,peixe, ave ou carne glorificam ao sol quentetudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.Ao som da música sensual, o mundo esqueceas obras do intelecto que nunca envelhece. […]
- [Robinson Jeffers – Pecado original](https://singularidadepoetica.art/2022/01/21/robinson-jeffers-pecado-original-poema/): O símio-terrestre com seu cérebro e mãos de homem, fisicamenteO mais repulsivo de todos os animais de sangue quenteDa terra até então: eles cavaram uma armadilhaE capturaram um mamute, mas como poderiam seus paus e pedrasAtingir a vida naquela tocaia? Eles dançaram ao redor do poço, guinchandoCom excitação de macaco, arremessando pedras afiadas em vão, […]
- [Vinicius de Moraes - Poema de Natal](https://singularidadepoetica.art/2022/01/20/vinicius-de-moraes-poema-de-natal-2/): Para isso fomos feitos:Para lembrar e ser lembradosPara chorar e fazer chorarPara enterrar os nossos mortos —Por isso temos braços longos para os adeusesMãos para colher o que foi dadoDedos para cavar a terra. Assim será nossa vida:Uma tarde sempre a esquecerUma estrela a se apagar na trevaUm caminho entre dois túmulos —Por isso precisamos […]
- [John Keats – Ode sobre a melancolia](https://singularidadepoetica.art/2022/01/19/john-keats-ode-sobre-a-melancolia-poema/): Não! Não vás para o Letes, nem tristes raízes Tortures para obter o vinho que te acena;Nem no pálido rosto os beijos cicatrizes Da beladona, que Prosérpina envenena.Não faças teu rosário com amoras parcas, Nem permitas que o escaravelho ou a falena Sejam tua Psique, nem que o mocho do abandonoPartilhe dos mistérios do teu […]
- [Cassiano Ricardo - A Graça Triste](https://singularidadepoetica.art/2022/01/18/cassiano-ricardo-a-graca-triste-3/): Só me resta agoraEsta graça tristeDe te haver esperadoAdormecer primeiro.Ouço agora o rumorDas raízes da noite,Também o das formigasImensas, numerosas,Que estão, todas, corroendoAs rosas e as espigas. Sou um ramo secoOnde duas palavrasGorjeiam. Mais nada.E sei que já não ouvesEstas vãs palavras.Um universo espessoDói em mim com raízesDe tristeza e alegria.Mas só lhe vejo a […]
- [Algernon Charles Swinburne - O Jardim de Proserpina](https://singularidadepoetica.art/2022/01/17/algernon-charles-swinburne-o-jardim-de-proserpina/): Leia "O Jardim de Proserpina", de Algernon Charles Swinburne, um clássico da poesia vitoriana sobre morte, esquecimento e o anseio pelo repouso eterno.
- [Reginald Gibbons - O que remanesce](https://singularidadepoetica.art/2022/01/16/reginald-gibbons-o-que-remanesce-poema/): Sim, o pão está envenenado. E não há sequer um gole de ar.Como é difícil curar a ferida da vida.O próprio José, vendido ao Egito como escravo,não poderia ter ficado mais profundamente magoado. Então, sob o enxame de estrelas do céu, chegam os Beduínos.Eles acalmam seus cavalos. Então, por turnos, com olhos fechados,cada um inventa […]
- [Óssip Mandelstam - O ar foi todo bebido e o pão, corrompido...](https://singularidadepoetica.art/2022/01/15/osip-mandelstam-o-ar-foi-todo-bebido-e-o-pao-corrompido-poema/): O ar foi todo bebido e o pão, corrompido.Cicatrizar as feridas é tão custoso!O jovem José, ao Egito vendido,Não poderia estar mais desgostoso! Os beduínos, sob a abóboda estrelada,A cavalo, e de olhos semicerrados,Concebem sagas improvisadasSobre seu dia vagamente vivenciado. De quase nada precisam que lhes dê alento:Um perdeu sua aljava no arenoso chão;Outro trocou […]
- [Thiago de Mello - Madrugada camponesa](https://singularidadepoetica.art/2022/01/14/thiago-de-mello-madrugada-camponesa/): para os trabalhadores do MST, em 1999 Madrugada camponesa,faz escuro ainda no chão,mas é preciso plantar.A noite já foi mais noite,a manhã já vai chegar. Não vale mais a cançãofeita de medo e arremedopara enganar solidão.Agora vale a verdadecantada simples e sempre,agora vale a alegriaque se constrói dia a diafeita de canto e de pão. […]
- [Antonio Cicero - Nihil](https://singularidadepoetica.art/2022/01/14/antonio-cicero-nihil-2/): nada sustenta no nada esta terranada este ser que sou eunada a beleza que o dia descerranada a que a noite acendeunada esse sol que ilumina enquanto errapelas estradas do breunada o poema que breve se encerrae que do nada nasceu REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog em 24/02/2016
- [Heather McHugh – O que ele pensou](https://singularidadepoetica.art/2022/01/13/heather-mchugh-o-que-ele-pensou-poema/): O que ele pensou para Fabio Doplicher Teríamos que fazer um trabalho na Itáliae, repletos dos nossos sentimentos pornós mesmos (nossa sensação de sermosPoetas da América) fomosde Roma a Fano, conhecemoso prefeito, refletimossobre alguns assuntos (o que éuma piriguete, eles nos perguntaram; o que écerveja sem colarinho). Entre os literatos italianos conseguíamos reconhecer nossos homólogos:o […]
- [Konstantinos Kaváfis - Ítaca (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2022/01/12/konstantinos-kavafis-itaca-em-tres-traducoes-2/): ÍTACA(Trad. José Paulo Paes) Se partires um dia rumo a Ítaca,faz votos de que o caminho seja longo,repleto de aventuras, repleto de saber.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o colérico Posídon te intimidem;eles no teu caminho jamais encontrarásse altivo for teu pensamento, se sutilemoção teu corpo e teu espírito tocar.Nem Lestrigões nem os Ciclopesnem o bravio […]
- [Agi Mishol - A mártir](https://singularidadepoetica.art/2022/01/11/agi-mishol-a-martir-poema/): Leia A Mártir, de Agi Mishol, um poema impactante sobre terrorismo, desumanização e as tragédias humanas geradas pelo conflito.
- [Jane Kenyon – Desmontando a árvore](https://singularidadepoetica.art/2022/01/10/jane-kenyon-desmontando-a-arvore-poema/): “Deem-me um pouco de luz!” grita o tiode Hamlet em meio ao assassinatode Gonzaga. “Luz! Luz!” choram as cortesãsem dispersão. Aqui, como na Dinamarca,é escuro às quatro, e até a lua brilha apenas com a metade de um coração. Os enfeites vão para a caixa:o spaniel prateado – com Meu amorna coleira – da infância […]
- [Samuraitiger19 - Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…](https://singularidadepoetica.art/2022/01/09/samuraitiger19-nos-minutos-finais-de-sua-vida-calvin-teve-uma-ultima-conversa-com-haroldo-2/): “Calvin? Calvin, querido?” No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin […]
- [Henri Cole – Cerejeiras choronas](https://singularidadepoetica.art/2022/01/09/henri-cole-cerejeiras-choronas-poema/): Em um platô, com pequenas montanhas,um rio lamacento, perigoso quando a neve derretia,um vale fértil, criadores de gado, e um conservatório musical,um povo alto, belo, ágil, de negros cabelos lisose um espírito empreendedor, vivia pacificamente. Emboranunca tenha havido ódio entre as raças,após uma discussão sobre questões locais, massacres ocorreram.Homens, mulheres & crianças pilhados & deportados […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Consolo na Praia](https://singularidadepoetica.art/2022/01/08/carlos-drummond-de-andrade-consolo-na-praia-2/): Vamos, não chores.A infância está perdida.A mocidade está perdida.Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou.O segundo amor passou.O terceiro amor passou.Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo.Não tentaste qualquer viagem.Não possuis carro, navio, terra.Mas tens um cão. Algumas palavras duras,em voz mansa, te golpearam.Nunca, nunca cicatrizam.Mas, e o humour? A injustiça […]
- [Robyn Sarah - Ao fechar o apartamento dos meus avós de abençoada memória](https://singularidadepoetica.art/2022/01/07/robyn-sarah-ao-fechar-o-apartamento-dos-meus-avos-de-abencoada-memoria-poema/): E então eu me vi naquela sala pela vez final.Mantive-me firme, com a chave em minha mão,e ouvi o silêncio que era como um som,e percebi como o longo sol da tarde invernalbaixava de maneira oblíqua ao chão fazendo florir os veios do assoalho. (Tudo o que eles um diapossuíram estava guardado aqui.) Na janela […]
- [Jorge de Sena - Conheço o Sal](https://singularidadepoetica.art/2022/01/06/jorge-de-sena-conheco-o-sal/): “Conheço o Sal”, um poema de Jorge de Sena que transforma a intimidade dos corpos em matéria sensorial e simbólica, onde o sal do encontro amoroso se torna marca indelével da fusão entre dois seres.
- [Robin Myers - O retorno](https://singularidadepoetica.art/2022/01/05/robin-myers-o-retorno-poema/): Esta é a rua ondevocê nasceu. Esta é a chave que você perdeu na neve,e este é o casaco que vestiu para ir buscá-la.Este é o céu visto da janelinha do avião na manhã em que deixouo país. Este é o lugar aonde você pensou que jamais iria.Este é o sanduíche que você comeu na […]
- [William Ernest Henley - Invictus](https://singularidadepoetica.art/2022/01/04/william-ernest-henley-invictus-2/): No meio da noite que me abraça,Negra como um Poço em sua inteireza,Agradeço a cada Deus pela graçaDe minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstânciasNão recuei nem alteei meu pranto.Debaixo dos golpes das contingênciasMinha fronte sangra – altiva, no entanto. Além deste lugar de desenganos,Somente o Horror das sombras desponta,E entretanto a ameaça dos […]
- [Lisel Mueller – De passagem](https://singularidadepoetica.art/2022/01/03/lisel-mueller-de-passagem-poema/): A rapidez com que o mel filtradoda luz da tardeflui para a escuridão e o fechado broto livra-sede seu singular mistérioa fim de desabrochar: como se o que existe, existapara poder perder-see tornar-se precioso. Trad.: Nelson Santander In Passing How swiftly the strained honeyof afternoon lightflows into darkness and the closed bud shrugs offits special […]
- [Bertolt Brecht - Lista de preferências](https://singularidadepoetica.art/2022/01/01/bertolt-brecht-lista-de-preferencias-poema/): Dia desses, minha mulher encasquetou que eu precisava arrumar a bagunça do meu escritório. Papéis diversos, contas pagas, declarações de imposto de renda de 10 anos atrás, antigos bilhetes que minha filha me escreveu quando criança – estava tudo junto e misturado, naquela bagunça típica dos procrastinadores. Urgia enfrentar o problema. E lá fui eu, […]
- [Retrospectiva 2021](https://singularidadepoetica.art/2021/12/31/retrospectiva-2021/): O ano de 2021 foi marcado pelo recrudescimento da pandemia no início do ano, o avanço da vacinação pelo país a partir de abril, pelo declínio do número de casos e mortes causados pela doença à medida em que um número maior de pessoas foram sendo vacinadas e o surgimento de uma nova variante do […]
- [Jane Hirshfield – Um dia é vasto](https://singularidadepoetica.art/2021/12/30/jane-hirshfield-um-dia-e-vasto-poema/): Um dia é vasto.Até o meio-dia.Depois acaba.A água da lagoa de ontem, entrelaçada,ainda está molhada em meus cabelos.Eu não sei o que é o tempo.Você nunca pode encontra-lo.Mas você pode perde-lo. Trad.: Nelson Santander A Day Is VastA day is vast.Until noon.Then it’s over.Yesterday’s pondwaterbraided still wet in my hair.I don’t know what time is.You […]
- [Diane di Prima - Poema de aniversário pro meu avô no dia da mentira](https://singularidadepoetica.art/2021/12/29/diane-di-prima-poema-de-aniversario-pro-meu-avo-no-dia-da-mentira-poema/): Hoje é o seuaniversário e eu tenteiescrever essas coisas antes,mas agoraem meio à loucura crescente, eu queroagradecê-lopor me dizer o que esperarpor não pouparas palavras, lá naquela sala encerada do Bronxagradecê-lopor chorar abertamente duranteas inúmeras óperas italianasdesoladoras obrigadapor puxar meu cabelo quandoeu puxava as folhas das árvores assimeu saberia o que elas sentiam, nós estamosenvolvidos […]
- [Anabel Torres - Quando meu corpo e minha cabeça](https://singularidadepoetica.art/2021/12/28/anabel-torres-quando-meu-corpo-e-minha-cabeca-poema/): Quando meu corpo e minha cabeçacomeçaram a arder e a provocar incêndios,minha mãe, como bombeiro enlouquecido,me perseguia por toda a casa. Apontava contra mim, implacávelo poderoso jorro de seu medoe tratava de me enterrar. Assim cresci. Meu pai era diferente. Defendia diante de mim, por igual, e com igual veemência e convicçãoas vantagens do gelo […]
- [Mary Oliver - Primavera](https://singularidadepoetica.art/2021/12/27/mary-oliver-primavera-poema/): Em algum lugar,uma ursa-negraacaba de despertare lança seu olhar para baixo na montanha.A noite toda,na inquietude vivaz e superficialdo início da primavera, eu penso nela,suas quatro patas pretasesparramando o cascalho,sua língua como uma chama rubratocando a relva,a água fria.Só há uma questão: como amar este mundo?Eu penso nelaerguendo-secomo um rochedo negro e musgoso para afiar […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - As flores do mall](https://singularidadepoetica.art/2021/12/26/jorge-valdes-diaz-velez-as-flores-do-mall-poema/): As jovens deusas, noturnasaparições (roupas escuras,prata queimando seus umbigos)na cadência da pista,começam a desbotarcom a premência dos anos,os problemas, talvez os filhosque ainda não têm. Olhamagora para os teus olhos com clarodesprezo (já tens quarenta)e pensas em certas palavrasde Baudelaire que lhes dariascomo se fossem teus frutos(se ao menos se aproximassem), sesoubessem quem foi o […]
- [Henry Wadsworth Longfellow - A reunião](https://singularidadepoetica.art/2021/12/25/henry-wadsworth-longfellow-a-reuniao/): Depois de uma longa ausência Nos vemos de novo, afinal:O encontro nos dá prazer, Ou, ao contrário, aflição?A Árvore foi chacoalhada, E poucos de nós perduramos,Como os tais frutos do profeta, No topo mais alto dos ramos.Saudamos-nos cordialmente No velho tom familiar;E pensamos, mas só conosco, Quão velho e grisalho ele está!Falamos de um bom […]
- [David Mourão-Ferreira - Ladainha dos Póstumos Natais](https://singularidadepoetica.art/2021/12/24/david-mourao-ferreira-ladainha-dos-postumos-natais-poema/): Ladainha dos Póstumos Natais, um poema de David Mourão-Ferreira sobre o Natal
- [Charles Simic - Medo](https://singularidadepoetica.art/2021/12/23/charles-simic-medo-poema/): O medo passa de homem para homemInconscientemente,Como uma folha passa o seu estremecimentoPara outra. De repente, a árvore toda está tremendo,E não há nenhum sinal do vento. Trad.: Nelson Santander Fear Fear passes from man to manUnknowing,As one leaf passes its shudderTo another. All at once the whole tree is trembling,And there is no sign […]
- [Linda Pastan - As Íris de Monet](https://singularidadepoetica.art/2021/12/22/linda-pastan-as-iris-de-monet-poema/): Estas floresse sonharamde volta à cor pura –os verdesda água indivisa,os verdesinformes do pradoassim como Deus disse:Que hajaÍris. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Monet’s Irises These flowershave dreamed themselvesback into pure color—the greensof undivided water,the formlessgreens of meadowjust […]
- [Danusha Laméris – Vestindo-se para o enterro](https://singularidadepoetica.art/2021/12/21/danusha-lameris-vestindo-se-para-o-enterro-poema/): Ninguém fala sobre a hilaridade após a morte —a forma como na semana em que o meu irmão se matoua esposa dele e eu caímos na cama gargalhandoporque ela não conseguia decidir sobre o que vestir para o grande dia,e me perguntou, “Eu quero ser sexy ou Amish?” Eu respondi: sexy.E nós rolamos sobre o […]
- [Kenneth Rexroth - Delia Rexroth](https://singularidadepoetica.art/2021/12/20/kenneth-rexroth-delia-rexroth-poema/): A Califórnia entra numVerão modorrento, e o arEstá repleto da agridoceFumaça de relva queimandoNas colinas de São Francisco.A carne arde assim, as pirâmidesIdem, assim como as estrelas em combustão.Cansado esta noite, em uma cidadeDe arrivistas, no desumanoOeste, no mais sangrento dos anos,Peguei um livro de poemasDe que você costumava gostar, com Aquela música que você […]
- [Joana, de Joan Margarit](https://singularidadepoetica.art/2021/12/13/joana-sumario/): Há livros que não devem ser lidos às pressas. Joana, de Joan Margarit, é um deles. Esta página reúne, no Singularidade Poética, a tradução da obra publicada em sequência. Mais do que um conjunto de poemas, Joana é um livro: tem uma respiração própria, uma ordem interna, uma dor que retorna em imagens, vozes, lugares […]
- [Joan Margarit - No final da noite](https://singularidadepoetica.art/2021/12/12/joan-margarit-no-final-da-noite-poema/): O ar está congelando.Até o rouxinol mantém-se em silêncio.Com a testa apoiada na vidraçapeço perdão às minhas filhas mortas,porque já quase nunca penso nelas.O tempo passou, deixando sobre a cicatrizsua argila empoeirada, e ocorre que, mesmoquando se ama alguém, sobrevém o esquecimento.A luz tem a mesma aspereza das gotasque vão, com o degelo, caindo dos […]
- [Joan Margarit - Um lugar perdido](https://singularidadepoetica.art/2021/12/11/joan-margarit-um-lugar-perdido-poema/): UM LUGAR PERDIDOIn memoriamMarta Ribalta i Taltavull (17-VIII-1946, 11-V-1999)Joana Margarit i Ribalta (20-VIII-1970, 2-VI-2001) Reluz o sol do conto de fadasque para Marta foi esta casapequena e luminosa em frente aos campos.Ninguém tocou em um único troncoda lenha cortada e ordenada.Joana fez um desenho para elaonde lhe dizia: Que sejas muito feliz.Quando Joana tinha dois anos […]
- [Joan Margarit - A espera](https://singularidadepoetica.art/2021/12/10/joan-margarit-a-espera-poema/): Muitas coisas estão sentindo a tua falta.Cada dia é repleto de momentos que esperamaquelas pequenas mãosque seguraram as minhas tantas vezes.Teremos de nos habituar à tua ausência.Um verão já passou sem teus olhose o mar também terá que se acostumar.Por muito tempo ainda,a rua esperará diante de nossa porta,pacientemente, pelos teus passos.Não se cansará nunca […]
- [Joan Margarit - Lápide](https://singularidadepoetica.art/2021/12/09/joan-margarit-lapide-poema/): LÁPIDEANNA, 1967; JOANA, 1970-2001 Nossa memória guarda vossos nomesem uma pequena praia que jamaisfigurará nos mapas dos navios.Quão próximas estais aqui, uma da outra,minhas filhas, depois de tanto tempo.Tão unidas agora, atrás de vossos nomes,que olham para o mare que o sol lê a cada amanhecer. Trad.: Nelson Santander LÁPIDAANNA, 1967; JOANA, 1970-2001 Nuestra memoria […]
- [Joan Margarit - Quadro com pássaros](https://singularidadepoetica.art/2021/12/08/joan-margarit-quadro-com-passaros-poema/): A parede é, deste lado, escura e triste,como naquela históriaque um dia te contei. Fosse de verdade,todos os pássaros que pintasteestariam a tua espera do outro ladocantando para ti:acolher-te-ia aquela parte clarade que falava a históriacomo o faríamos tua mãe e euse pudesses voltar para casa novamente. Conto para mim mesmo esta históriaenquanto olho para […]
- [Joan Margarit - O primeiro verão sem ti](https://singularidadepoetica.art/2021/12/07/joan-margarit-o-primeiro-verao-sem-ti-poema/): IPenhascos de um cinza esverdeado,como grandes machados pré-históricos,mergulham na água.Como alguém descascando frutas,a estrada recorta suas curvasatravés das velhas colinas calcinadas. O carro estaciona próximo ao mare no retrovisor não estão teus olhos.Em frente, branco, La Gambinacom seu letreiro — HOTEL — azulno alto, no telhado, mirando o amanhã. IISentada diante das ondas:as nuvens se […]
- [Joan Margarit - Professor Bonaventura Bassegoda](https://singularidadepoetica.art/2021/12/06/joan-margarit-professor-bonaventura-bassegoda-poema/): Lembrei-me de você, alto e corpulento,atrevido, sentimental. Na época, vocêera uma autoridade em Alicerces Profundos.Iniciava as aulas sempre assim:Senhores, bom dia.Hoje faz tantos anos, tantos mesese tantos dias que minha filha morreu.E costumava secar algumas lágrimas.Tínhamos vinte anos, mais ou menos,e o homem corpulento que você era,chorando durante a aula,nunca nos fez sorrir.Há quanto tempo […]
- [Joan Margarit - O presente e Forès](https://singularidadepoetica.art/2021/12/05/joan-margarit-o-presente-e-fores-poema/): IManhã de verão nos campos.E Mariona, com seu avental,cavando no jardim, sob as rosas.Mònica — aos doze — anda de bicicletana estrada para a aldeia,e Joana e Carles — ambos com cinco — dormem.Reluz o ar do feriado:pela janela aberta para as árvores,entre as folhas sopradas pela brisa,escapa o piano das «Suites inglesas»,e de repente […]
- [Joan Margarit - Canção de ninar](https://singularidadepoetica.art/2021/12/04/joan-margarit-cancao-de-ninar-poema/): Dorme, Joana.E que este «Loverman» — sombrio e trágicodo sax do teu irmão em Montjuïc —possa acompanhar-te por toda a eternidade pelos caminhosque só a música conhece.Dorme, Joana, dorme.E, se possível, não te esqueçasde teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste.Envelhecer será também reteras cores que um dia brilharam em teus olhos.Dorme, […]
- [Joan Margarit - Recordações militares](https://singularidadepoetica.art/2021/12/03/joan-margarit-recordacoes-militares-poema/): Ao crepúsculo, algumas centenasde homens em formação,silenciosos, imóveis, ouvíamosum solo de trompete. Além das noitesde sentinela sob a estreladaescuridão do acampamento,acho que do meu tempo sentirei faltade tudo o que não se podia comprar. Das sensaçõesao falar sobre a morte. E da honra.A honra, um céu distante. Deficiente, andavas de muletas:nunca houve para mim garota […]
- [Joan Margarit - Passageira](https://singularidadepoetica.art/2021/12/02/joan-margarit-passageira-poema/): Na grande janela do aeroportoum amanhecer de luz branca, entre a névoa,se ergue diante da garota com um livroque ela nunca chegará a ler.Minha juventude está ali também,naquelas páginas de papel bíbliados russos do século dezenove.Um tomo grosso encadernado em couro. Natashas e Nastenkas, silenciosasamigas de quem aprendia esperar, na neve e na nevasca,uma acolhedora […]
- [Joan Margarit - Uma fotografia pendurada na parede](https://singularidadepoetica.art/2021/12/01/joan-margarit-uma-fotografia-pendurada-na-parede-poema/): Uma fotografia pendurada na paredeXavier Miserachs Paseo de Gracia,o inverno em que, sob a neve, tu e eu nos conhecemos.Em primeiro plano, de costas para mim,alguns transeuntes que se afastam:talvez seja eu aquele homem com o guarda-chuva,e talvez a mulher com um gorrode lã sejas tu.O fundo se desvanecepor trás dos flocos que caem,nublando o […]
- [Joan Margarit - Uma história](https://singularidadepoetica.art/2021/11/30/joan-margarit-uma-historia-poema/): Não digas nada, Joana,apenas escuta-o e não digas nada.Caminhávamos na chuvosamanhã pela cidade adormecida,e entrávamos lentamenteem uma via calçadaque não levava a lugar nenhum.Algumas crianças, com gritos e canções,queriam que nos aproximássemos do canal,para que víssemos sua casa refletida na água.Gostaste, lembra-te?,de observar as crianças. Quando partimossuas carinhas estavam grudadas nas vidraças,suas vozes dissipando-se na […]
- [Joan Margarit - Espaço e tempo](https://singularidadepoetica.art/2021/11/29/joan-margarit-espaco-e-tempo-poema/): E de repente a casa ficou grande demais.Tua mãe e eu esvaziamos teus roupeirose seguimos por mesas e prateleiras,de retrato em retrato, teus sorrisos.À noite, os espelhos, sob a luz elétrica,exibem com mais relevo o teu vazio.Os móveis estão agora mais escuros.Descem pelas escadaso cálido balaústre que se lembrade tua pequena mão,e os degraus que […]
- [Joan Margarit - Noite de junho](https://singularidadepoetica.art/2021/11/28/joan-margarit-noite-de-junho-poema/): Quando saí do cinema já fazia escuro.Naquele velho estacionamento, sem iluminação,subi a rampa áspera e sujaporque havia estacionado no terraço.Dentro de mim também era dura a ladeira:os primeiros dias sem ti.Mas ao chegar no topo, ao ar livre,um cálido silêncioenvolvia a sombra dos carros:os ladrilhos avermelhados, as gradesde ferro, singelas e delicadas,e os vasos com […]
- [Joan Margarit - Final](https://singularidadepoetica.art/2021/11/27/joan-margarit-final-poema/): Teu enterro, na primavera: foi essaa mensagem final de tua bondade.Nada melhor em torno de ti do que o ruídodesta cidade e, em frente,a eternidade do mar.Que rude fachada a do Montjuïc: vaiaté onde o pensamento deseja. O carrinho sobe os caminhos de areiae os automóveis o seguem,fazendo crepitar o cascalho ao pédos ciprestes na […]
- [Joan Margarit - Teu lobo](https://singularidadepoetica.art/2021/11/26/joan-margarit-teu-lobo-poema/): Mira-o antes de ir-tee dize-lhe adeus: ele foipreso outras vezessem jamais se render.Contempla-o, amarradono pátio nevado:a corrente lhe roçao pescoço, já sem pelos,do qual pendem aindacordas gastas,as que outrora ele partiuem outros cativeiros. Ele dorme quaseo tempo todo.Tem manchas escurascomo de quando caio reboco de uma parede.Infestado de pulgas,na rosada línguaque pende avidamentehá pretas estriasdeixadas […]
- [Joan Margarit - O dia depois da morte](https://singularidadepoetica.art/2021/11/25/joan-margarit-o-dia-depois-da-morte-poema/): Hoje te vi e levavas tuas muletas azuis,feliz como sempre e protegidapor aquele jovem pai entre as tensascordas do enorme violoncelo da chuva.Jamais tu e eu lembraremosde termos sido pai e filhaneste mesmo pátio, onde o loureiromolhado balança ao anoitecer. Trad.: Nelson Santander EL DÍA DESPUÉS DE LA MUERTE Hoy te he visto y llevabas […]
- [Joan Margarit - Um pobre instante](https://singularidadepoetica.art/2021/11/24/joan-margarit-um-pobre-instante-poema/): A morte nada mais é do que isto: o quarto,a luminosa tarde na janela,e este toca-fitas na mesinha– tão silencioso como o teu coração –com todas as tuas canções tocadas para sempre.Teu último suspiro segue dentro de mimainda em suspenso: não deixo que acabe.Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?Ouves como brincam as crianças no […]
- [Joan Margarit - Última caminhada](https://singularidadepoetica.art/2021/11/23/joan-margarit-ultima-caminhada-poema/): Já não comia. Caíam meus cabelos.Ficava o dia todo de olhos fechados.Mas saí para a varanda de madrugadae alguém da calçada, sob uma árvore,falou-me com uma voz como a de minha mãe,que dormia em sua cama ao lado da minha.De repente, não estava mais cansadae desci sem muletas até a rua.Nunca fora capaz de andar […]
- [Joan Margarit - Mari](https://singularidadepoetica.art/2021/11/22/joan-margarit-mari-poema/): Ela te acompanhou por muito tempo,todas as tardes, na natação e na escola.Foi tua amiga e também a confidentedaquela dolorosa adolescênciade lua de hospital e das tardes azuisda lenta juventude. Foi a tua Mari,as últimas visitas, quando teus olhospesavam-te interiormente como a morteque apagou todo o brilho por trás das friasvidraças embaçadas de passado.Tu e […]
- [Joan Margarit - Súplica](https://singularidadepoetica.art/2021/11/21/joan-margarit-suplica-poema/): Desta manhã invernal, morna e aprazível,por favor, não te vás.Fica submersa neste pátiocomo se houvesses naufragadodentro de nossa vida.Sob o loureiro, entre as aspidistrasde folhas românticas, verdes e largas,por favor, não te vás, não te vás. Tudo está preparado para ti.Fica, por favor, e não te vás.Diz-me se te lembras: preciso dealgumas palavras com a […]
- [Charles Simic – O ausente](https://singularidadepoetica.art/2023/10/24/charles-simic-o-ausente/): Alguém está chegando tarde em casa.A lâmpada deixada para ele na janelaArde à medida que o dia amanhece,E arderá ainda por muitos meses. Nossa pequena rua é escura à noite.As gaiolas são cobertas cedo.Os peixinhos dourados mal se mexem em seus aquários.Até mesmo as luzes da varanda estão apagadas, Deixando apenas a janela acesaPara as mariposas prestarem suas homenagensAté que o tempo esfrieE os telhados fiquem cobertos de neve. Trad.: Nelson Santander The Absent One Someone’s late coming home. The lamp left for him in the window Burns as the day breaks, And will burn for months after. Our small street […]
- [Rupi Kaur – Depressão é uma sombra que mora em mim](https://singularidadepoetica.art/2023/10/23/rupi-kaur-depressao-e-uma-sombra-que-mora-em-mim-2/): ontemquando saí da camao sol caiu no chão e rolou pela gramaas flores decapitaram a si mesmasa única coisa viva que sobrou fui eue eu já não sei se isso é vida Trad.: Ana Guadalupe REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 20/11/2018
- [James Stephens – Deirdre](https://singularidadepoetica.art/2023/10/22/james-stephens-deirdre/): Mulher alguma leia este poema,composto para homens; e depois para seus filhose os filhos dos seus filhos. Já veio o tempo de abater-se o coração:basta lembrarmos Deirdre* e sua história,oh! que seus lábios já são poeira! Outrora ela pisava a terra; os homensseguravam-lhe a mão; fitavam-na e diziamo que lhe tinham a dizer, e ela lhes respondia. Mais de mil anos se passaram desde quando Deirdreera formosa; e caminhava pela relva;e olhava as nuvens. Mil anos! Mil! A relva continua a mesmae as nuvens são tão meigas como nos antigos temposem que vivia Deirdre; jamais, porém, nasceu mulherde formosura igual: nenhuma […]
- [Joan Margarit - Aventura Doméstica](https://singularidadepoetica.art/2023/10/21/joan-margarit-aventura-domestica-2/): Sozinho em casa, vasculhando os armários.Encontro um antigo mapa rodoviário,contratos vencidos, canetas-tinteiroque já não escreverão mais cartas,calculadoras com pilhas descarregadase relógios que o tempo derrotou.Nas profundezas das gavetas, como um rato triste,aninha-se o passado. Vazios, os vestidospendem como velhos personagensque nos interpretaram.De repente, encontro também tua lingerie,cor de areia, da noite, com pequenos bordados.Calcinhas, sutiãs, meias que desdobroe que me fazem voltar à brilhante– e ao mesmo tempo misteriosa –essência do amor e do sexo:o que verdadeiramente dá vida às casas,assim como se lhe dá aos portos distantesa luz de seus cafés e de seus barcos Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com […]
- [Louis Macneice – E o amor pairou sobre a cama](https://singularidadepoetica.art/2023/10/20/louis-macneice-e-o-amor-pairou-sobre-a-cama/): “E o amor pairou sobre a cama”, um poema de Louis MacNeice que captura a suspensão luminosa do amor após a paixão, instante frágil ameaçado pela inevitável retomada do mundo.
- [Kamala Das – O espelho](https://singularidadepoetica.art/2023/10/18/kamala-das-o-espelho/): Ganhar o amor de um homem é fácilBasta ser honesta sobre o que você deseja comoMulher. Fique nua diante do espelho na presença delePara que ele se veja como o mais forte,Acredite nisso, e a veja muito maisSuave, mais jovem, mais encantadora. Demonstre suaAdmiração. Observe a perfeiçãoDos membros dele, os olhos avermelhados debaixoDo chuveiro, o andar vacilante sobre o piso do banheiro,Deixando cair a toalha, o modo espasmódico deleUrinar. Todos os detalhes afetuosos que fazem Dele um homem e o tornam seu único homem. Dê-lhe tudo,Presenteie-o com tudo o que faz de você uma mulher: o cheiro deCabelos compridos, o almíscar […]
- [Philip Larkin - Continuar a viver](https://singularidadepoetica.art/2023/10/17/philip-larkin-continuar-a-viver-2/): Continuar a viver – isto é, repetirUm hábito formado para obter o necessário –Quase sempre significa perder, ou passar sem. É variável. Essa perda de interesse, cabelos e ambição –Ah, se o fosse pôquer, sim,Você poderia descartá-los, fazer um full house! Mas é xadrez. E uma vez que tenha percorrido toda a extensão da mente,O que você comanda é claro como uma lista de carga.Nada mais deve, para você, ser considerado Como existente. E qual é o lucro? Apenas que, com o tempo,Meio que identificamos a marca cegaQue todos os nossos comportamentos carregam, podemos rastreá-la. Mas confessar, Naquele serena tarde em que nossa morte começa,O […]
- [Dennis Trudell – Conto de Feriado](https://singularidadepoetica.art/2023/10/16/dennis-trudell-conto-de-feriado/): Uma mulher nunca contou ao maridoou a qualquer pessoa sobre o bilhete de amorque recebera há trinta anos. Não haviaassinatura, e depois de tentar adivinhar inúmerasvezes quem na cidade o enviara, elahá muito aceitara que nunca o saberia.O bilhete era breve, com apenas quatro frases: “Eua amo profundamente e espero sempre ama-la.Você tem uma família e por isso vou me manterafastado. Todo 4 de julho, às 10 da manhã,eu ligarei e desligarei após um toque,para que você saiba que isso ainda continua. Se estiverocupado, ligarei às 11 e assim por diante.” Estavadatilografado, assim como o nome e o endereço dela,e fora […]
- [Ana Martins Marques - Caçada](https://singularidadepoetica.art/2023/10/15/ana-martins-marques-cacada-2/): Leia "Caçada", de Ana Martins Marques, um poema breve e brilhante sobre amor, desejo e a paradoxal vontade de se perder no outro.
- [W. S. Merwin – Separação](https://singularidadepoetica.art/2023/10/14/w-s-merwin-separacao/): Sua ausência me atravessouComo linha em uma agulha.Tudo o que faço é costurado com esta cor. Trad.: Nelson Santander Separation Your absence has gone through meLike thread through a needle.Everything I do is stitched with its color.
- [R.I.P Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2023/10/13/r-i-p-louise-gluck/)
- [Juan Ramón Jiménez - Com tua Voz](https://singularidadepoetica.art/2023/10/13/juan-ramon-jimenez-com-tua-voz-2/): Quando estiver entre as raízeschama-me com tua voz.Sentirei que penetratremulando a luz do sol. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado originalmente na página em 23/11/2018 Con tu voz Cuando esté con las raícesllámame tú con tu voz.Me parecerá que entratemblando la luz del sol.
- [Alden Nowlan – Grandes coisas aconteceram](https://singularidadepoetica.art/2023/10/12/alden-nowlan-grandes-coisas-aconteceram/): Leia "Grandes coisas aconteceram", de Alden Nowlan, um poema tocante sobre memória, amor e a extraordinária beleza dos momentos comuns.
- [Paulo Henriques Britto - "Da metafísica"](https://singularidadepoetica.art/2023/10/11/paulo-henriques-britto-da-metafisica-2/): Ser parte de alguém ou algotão grande que não se entenda:toda crença, ao fim e ao cabo,se resume a essa lenda – o mais rematado dislate,coisa jamais entendida,que eleva ao sumo quilateo caco mais reles de vida. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 04/11/2018
- [A. E. Stallings – Lógica de conto de fadas](https://singularidadepoetica.art/2023/10/10/a-e-stallings-logica-de-conto-de-fadas/): Os contos de fadas estão repletos de tarefas irreais:Juntar os pelos do queixo de uma cabra que os homens devora,Ou cruzar um lago sulfúrico em uma danificada igara,Escolher o príncipe de uma fila de máscaras iguais,Caminhar na ponta dos pés até onde se aquece um dragãoE roubar-lhe um osso; contar partículas de areia, grão por grão,Ou uma lista telefônica inteira memorizar.Sempre será impossível o que alguém irá requisitar — Você tem que combater a magia com magia. CrerQue traz consigo algo escondido impossível de se ver,A linguagem das serpentes, talvez, uma capa de invisibilidade,Um exército de formigas à sua disposição, uma […]
- [Miguel-Manso – Na morte da avó](https://singularidadepoetica.art/2023/10/09/miguel-manso-na-morte-da-avo-2/): não bastasse a humilhação pública de morrerespera-se do corpo que cumpra com indiscutívelpompa o intolerável protocolo de ausentar-se a penosa execução circular e noturna do velórioa presença inconveniente dos agentes funeráriosos adereços lutuosos a obscena maquiagem no dia seguinte, o inventário das orações, a concisacerimônia (não há muito a dizer, sejamos honestose soa até a insulto que se pronuncie o nome de Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito– é quase tão imoral como alguém ter trazido umagravata com motivos facetos, uma camisa florida – depois, em casa, parece que as vozes ressoam como numasala a que tivessem subtraído […]
- [James Tate – A volta para casa](https://singularidadepoetica.art/2023/10/08/james-tate-a-volta-para-casa/): Eu disse ao médico que nunca mais o veria. “Não, achoque não”, ele disse. Saí pela porta me sentindo realmente bem.Claro, eu sabia que ia morrer, mas ainda assim o dia parecia claropara mim. Caminhei até o lago. Patos circulavam ao redor por ali.Vi um veleiro passar. Prossegui ao longo da margem. O sol batiaem meu corpo. Senti como se pudesse viver para sempre. Sentei-me em um bancoe fiquei observando as pessoas que passavam. Uma loira bonita passou e eu disse:“Olá”. Ela olhou para mim e disse olá. Passou também um homemcom um galgo na coleira. Levantei-me e continuei a caminhada. […]
- [Paulus Silentiarius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2023/10/07/paulus-silentiarius-da-antologia-grega-2/): Zeus, em chuva de ouro, atravessou o bronzeque guardava Danae e roubou-lhe a virgindade.Moral da história: o ouro tudo domina – paredese grilhetas de bronze, fechaduras e peias.Foi o ouro que subjugou Danae. Não é necessáriorezar a Afrodite; só é preciso dinheiro. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 30/10/2018
- [Dorianne Laux - De qualquer forma](https://singularidadepoetica.art/2023/10/06/dorianne-laux-de-qualquer-forma/): Se estamos fraturados,assim o estamoscomo estrelasfeitas para brilharem todas as direções,por qualquer dimensão,bilhões de anos desde então. Não lamentareio humano, ainda não.Há algo maispor vir, nossos coraçõessão como uma mina de ouroinexplorada,um mar desconhecido. Nada se foi para sempre.Se viemos do póe ao pó voltaremos,então podemos descobrir ocaminho para qualquer coisa. Ainda não se sabe do que somos capazes,por isso, agora mesmo, eu nos elogioantecipadamente. Trad.: Nelson Santander In Any Event If we are fracturedwe are fracturedlike starsbred to shinein every direction,through any dimension,billions of yearssince and hence. I shall not lamentthe human, not yet.There is somethingmore to come, our heartsa […]
- [Páladas - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2023/10/05/paladas-da-antologia-grega/): Nascidos nus. Enterrados nus.Qual a azáfama? Toda a vidaconduz à primeira nudez. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 29/10/2018
- [Maya C. Popa – O que não foi dito](https://singularidadepoetica.art/2023/10/04/maya-c-popa-o-que-nao-foi-dito/): Com que frequência, dirigindo por aquelas estradas,receávamos não bater em algo,as cabras pelas quais passamos naquela manhãpastoreadas àquela hora para que os chacaisnão as matassem mais rapidamente,a gema vermelha rompendo sobre os picosenquanto corríamos contra a luz, descendo a montanha? Apenas uma vez um javali irrompeu do bosquecomo uma pergunta rapidamente retirada.Depois ficamos sozinhos outra vez com tudoo que não dissemos, os parques eólicos girandosuas grandes pás através do nada,de um lugar longe demais para ser ouvido. Trad.: Nelson Santander What’s Unsaid How often driving down those roadswe hoped we wouldn’t hit something,the goats we’d passed that morningherded by that hour […]
- [Lucilius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2023/10/03/lucilius-da-antologia-grega-2/): Eutychides, o poeta lírico, morreu.Fugi, ó moradores do Hades! – ele transporta odese ordenou que consigo queimassemvinte liras e vinte e cinco pautas de música,que Caronte terá de transportar.Onde se poderá encontrar refúgio,agora que Eutychides canta pela eternidade? Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 28/10/2018
- [Natasha Trethewey – Blues do Cemitério](https://singularidadepoetica.art/2023/10/02/natasha-trethewey-blues-do-cemiterio/): Choveu o tempo todo enquanto a deitávamos no chão;Choveu da igreja ao túmulo quando a enterramos no chão.A sucção da lama em nossos pés: uma murmuração. Quando o pregador conclamou, eu levantei a minha mão;Quando ele pediu uma testemunha, ergui a minha mão —A morte detém a lida do corpo, a alma do artesão. O sol apareceu quando me virei para ir embora,Brilhou forte sobre mim quando eu me virei e fui embora —De costas, e deixando minha mãe onde ela está agora. A estrada de volta pra casa era toda esburacada,Aquela estrada de volta está sempre esburacada;Desacelerei, mas gira a […]
- [Anônimo - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2023/10/01/anonimo-da-antologia-grega-2/): Não esbanjem comigo o odor da mirra,nem ofereçam coroas de flores,nem acendam a pira funerária,tudo isso é desperdício; ofereçam-mepresentes, se quiserem, enquantoestiver vivo – mas espalhar cinzasno vinho torná-lo-á lamae dele não beberão os mortos. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 27/10/2018
- [Andrea Cohen – Crepúsculo](https://singularidadepoetica.art/2023/09/30/andrea-cohen-crepusculo/): Havia, enquanto caminhávamos pelas planícies salgadas ao crepúsculo,uma linha invisível entre nós –até que eu senti sua tesoura invisível. Trad.: Nelson Santander Dusk There was, as we walked the salt flats at dusk, an invisible thread between us –and then I felt her invisible scissors.
- [Automedon - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2023/09/29/automedon-da-antologia-grega-2/): Mandaste chamá-la, disseste para vir,preparaste tudo. Mas, se vier, o que farás?Repara no que se passa contigo, Automedon.Esse canalha, que era alegre e firme, estáagora flácido, como cenoura cozida, mortoe encolhido entre as pernas. Como irãorir se te puseres a navegar de mãosvazias, um remador que perdeu o remo. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 26/10/2018
- [Laura Gilpin – Vida após a morte](https://singularidadepoetica.art/2023/09/28/laura-gilpin-vida-apos-a-morte/): O que eu sei:como os vivos seguem vivendoe como os mortos seguem vivendo com eles Assim, em uma floresta,mesmo uma árvore morta projeta uma sombrae as folhas caem uma a umae os galhos se partem com o ventoe a casca se desprende lentamentee o tronco se rachae a chuva se infiltra através das rachadurase o tronco cai no chãoe o musgo o cobre e na primavera os coelhos o encontrame nele constroem seus ninhose ali dão à luz seus filhotese seus filhotes viverão em segurançadentro da árvore morta De modo que nada é desperdiçado na natureza ou no amor Trad.: Nelson […]
- [Marcus Argentarius - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2023/09/27/marcus-argentarius-da-antologia-grega/): Psyllas jaz aqui. A sua ocupaçãoproxeneta; mantinha um bandode raparigas e alugava-as para festas.Um negócio pouco simpático, ganhardinheiro com carne humana e fraca.Mas poupem o seu túmulo, não atirempedras, agora que está morto e enterrado.Lembrem-se disto: os serviços que prestouconvenceram os rapazes a deixaremas nossas mulheres sossegadas. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 25/10/2018
- [Jorge Luis Borges – Maio 20, 1928](https://singularidadepoetica.art/2023/09/26/jorge-luis-borges-maio-20-1928/): Agora é invulnerável como os deuses. Nada na terra pode feri-lo, nem o desamor de uma mulher, nem a tísica, nem as ansiedades do verso, nem essa coisa branca, a lua, que já não precisa fixar em palavras. Caminha lentamente sob as tílias; olha as balaustradas e as portas, não para recordá-las. Já sabe quantas noites e quantas manhãs lhe faltam. Sua vontade lhe impôs uma severa disciplina. Cumprirá determinados atos, cruzará previstas esquinas, tocará uma árvore ou um gradil, para que o futuro seja tão irrevogável quanto o passado. Age dessa maneira para que o fato que deseja e teme […]
- [Platão - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2023/09/25/platao-da-antologia-grega/): Epigrama atribuído a Platão, da “Antologia Grega”, que transforma o espelho em símbolo cruel da passagem do tempo e da perda da antiga beleza.
- [Adam Zagajewski - Amizades impossíveis](https://singularidadepoetica.art/2023/09/24/adam-zagajewski-amizades-impossiveis/): Por exemplo, com alguém que já não existe mais,que vive apenas nas cartas amareladas. Ou longas caminhadas à beira de um córrego,cujas profundezas guardam xícaras de porcelana ocultas — e conversas sobre filosofiacom um tímido estudante ou um carteiro. Um transeunte de olhar altivoa quem você nunca conhecerá. Amizade com este mundo cada vez mais perfeito(se não fosse pelo cheiro salgado de sangue). O velho que lhe faz lembrar alguémtomando café em St.-Lazare. Rostos passando rapidamentenos trens urbanos — as felizes faces de viajantes que se dirigem talvezpara um esplêndido baile, ou para uma decapitação. E a amizade consigo mesmo— pois, […]
- [Zenodotus - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2023/09/23/zenodotus-da-antologia-grega/): Epigrama de Zenodotus, da “Antologia Grega”, que ironiza a tentativa de conter o fogo do desejo com a água da razão ou da prudência.
- [Linda Hogan – Noite ártica, luzes cruzando o céu](https://singularidadepoetica.art/2023/09/22/linda-hogan-noite-artica-luzes-cruzando-o-ceu/): Estamos entrelaçados,corpo a corpo, célula a célula,um braço sobre o outro.O mundo é um leito para a noite fria,um gato aninhado na dobra de um joelho,um cachorro aos nossos pés,minha mão na sua, estamos abraçadosna presença animal, calidez,o mar lá fora ressoandoondas de inverno, uma chegando após a outrado mistério distante,onde, no fundo do mar,habitam outros seresque criam sua própria luz,este mundo todo um único pulsar. Trad.: Nelson Santander Arctic Night, Lights Across the Sky We are curved together,body to body, cell to cell,arm over another.The world is the bed for the cold night,one cat curled in the bend of a […]
- [Jaime Sabines - Sobre a Morte do Major Sabines](https://singularidadepoetica.art/2023/09/21/jaime-sabines-sobre-a-morte-do-major-sabines/): Primeira Parte I Deixa-me repousar,relaxar os músculos do coraçãoe colocar a alma para dormirpara poder falar,para poder recordar estes dias,os mais longos dos tempos. Mal convalescemos da afliçãoe estamos fracos, assustados,despertando duas ou três vezes do nosso escasso sonhopara ver-te na noite e saber que respiras.Precisamos despertar para estar mais despertosdeste pesadelo repleto de gente e de ruídos. Tu eras o tronco invulnerável e nós os galhos,é por isso que este machado nos sacode.Diante de tua morte nunca paramospara refletir sobre a morte,nem te vimos nunca senão com força e alegria.Não sabemos bem, mas de repente chegaum aviso incessante,uma desprendida espada […]
- [Diane Seuss – [Todas as coisas agora me lembram]](https://singularidadepoetica.art/2023/09/20/diane-seuss-todas-as-coisas-agora-me-lembram/): Todas as coisas agora me lembram de como o amor costumava ser. Taboas dilatadas em lugaressolitários. Condicionador viscoso em meus cabelos. Sólidos livros. Suas variegadas lombadas.Turbilhão de palavras como um coquetel agitado, umbigo em torvelinho, pulsante asterisco.O passado é isto: ter sido jovem e desejosa e não ser mais.No futuro, as taboas explodirão sem mim. Oro para que elasnão passem despercebidas. Quem irá cavalgar os cavalos do cemitério? Loiras e incorrigíveis medeixassoprando em seus olhos. Quando eu caminhava pelos cemitérios comentandosobre os nomes estranhos. O presente: seguir um caminho sem amor é cortejarum vazio roxo-azulado, como uma gruta ou uma boate. […]
- [Nuno Júdice - Outra Imagem](https://singularidadepoetica.art/2023/09/19/nuno-judice-outra-imagem-2/): Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terraPor cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos.Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomesFamiliares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros– música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campasao fim da tarde, com os ouvidos tapados; quem reze,entre lábios, datas estéreis como as antigas pedras;quem persiga a própria sombra, temendo que ela desapareçasob a erva fresca. Memórias vagas e finais, atormentando-menum secreto espelho – no canto de mim, absortoe pálido, quem me diz o nome em silêncio, sem olhos,sem lábios, sem os cabelos que […]
- [Ada Limón – Notas sobre o Subterrâneo](https://singularidadepoetica.art/2023/09/18/ada-limon-notas-sobre-o-subterraneo/): “Notas sobre o Subterrâneo”, um poema de Ada Limon que transforma uma caverna em interlocutora filosófica para investigar desejo, mortalidade e pertencimento.
- [Joan Margarit - A moça do semáforo](https://singularidadepoetica.art/2023/09/17/joan-margarit-a-moca-do-semaforo-2/): Tens a mesma idade que eu tinhaquando comecei a sonhar em encontrar-te.Ignorava então, assim como tu ignoras,que o amor se transforma na arma carregadade solidão e melancoliaque aponta agora para ti em meus olhos.Tu és a moça que busqueidurante tanto tempo, quando ainda não existias.E eu o homem a quem, um dia,desejarás que oriente teus passos.Mas estarei tão distante de ti entãoquanto estás agora de mim neste semáforo. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 14/10/2018 Joan Margarit – La muchacha del semáforo Tienes la misma edad que yo teníacuando empecé a soñar con […]
- [Matthew Rohrer – Não há absolutamente nada mais solitário](https://singularidadepoetica.art/2023/09/16/matthew-rohrer-nao-ha-absolutamente-nada-mais-solitario/): Não há absolutamente nada mais solitáriodo que o pequeno Mars Rover,sempre em funcionamento, escavandorochas, tão longe da Bond streetsob a chuva suave. Será queele emite pequenos bipes? Se sim,ele é ainda mais solitário. Ele dispara laserna poeira. Ele engasga. Algo brilhante na areia revela-se ser dele. Trad.: Nelson Santander There Is Absolutely Nothing Lonelier There is absolutely nothing lonelierthan the little Mars rovernever shutting down, digging uprocks, so far away from Bond streetin a light rain. I wonderif he makes little beeps? If sohe is lonelier still. He fires a laserinto the dust. He coughs. A shinything in the sand turns […]
- [Alfonsina Storni - Leva-me](https://singularidadepoetica.art/2023/09/15/alfonsina-storni-leva-me-2/): Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar;Ata-me a tua alma; a alva a brilhar. Colhe-me entre tuas mãos como em um branco casuloE mostra-me aos deuses com glória e com orgulho. Leva-me! É uma noite muito escura e sombria!…A morte caça pelo mundo tal qual harpia. Faz-me esquecer o peso que carrego nos ombrosEssa carga pesada de pesados escombros. Liberta-me! Em tuas mãos quero pesar menosDo que pesam – luzes – os pensamentos serenos. Mais leve do que o ar, mais leve que o próprio arComo bolha de espuma que sobe ao clarear. Espuma, brisa, aroma, casulo, flor, fragrância:Leva-me para […]
- [Stanley Kunitz – Cometa de Halley](https://singularidadepoetica.art/2023/09/14/stanley-kunitz-cometa-de-halley/): A srta. Murphy, da primeira série,escreveu o nome dele no quadro negrocom giz e nos contou que eleviajava rugindo pelas trajetórias de tempestadesda Via Láctea a uma velocidade aterrorizante,e que se ele desviasse do seu curso e colidisse com a terranão haveria aula no dia seguinte.Um pregador das colinas, de barba ruivae com uma expressão selvagem nos olhosestava na praça pública,perto do playground,proclamando que Deus o havia enviadopara salvar todos nós,até mesmo as criancinhas.“Arrependei-vos, pecadores!” ele gritava,acenando com sua placa escrita à mão.Durante o jantar, senti-me triste ao pensarque aquela provavelmente seriaa última refeição que compartilhariacom minha mãe e minhas irmãs;mas […]
- [Angela Figuera Aymerich - Princípio e Fim (na morte de minha mãe)](https://singularidadepoetica.art/2023/09/13/angela-figuera-aymerich-principio-e-fim-na-morte-de-minha-mae-2/): Já tenho minhas raízes debaixo da terra.Já um pouco morta contigo, mãe,há algo da minha vida que se decompõecontigo, com teus ossos delicados,com tuas veias azuis, com teu ventreque côncavo sofreu, dando-me forma.Na ignorância, mãe, não no pecadomostraste-me como a vida brota.Como a carne floresce e se divideno centro sagrado da mulher.Pequena e frágil foste. Pesava-teum filho atrás do outro no regaçocom um humilde assombro de perceber-tepermanentemente cheia e frutificada.E eu saí de ti com outra força.Com uma ardente audácia de perguntasque tu jamais havias formuladoquando a vida te era dada em júbiloou te assediava em duro sofrimento.Que nem sequer estavam […]
- [Izumi Shikibu - [Venha logo]](https://singularidadepoetica.art/2023/09/12/izumi-shikibu-venha-logo/): Venha logo — assimque se abrirem essas pétalas,elas cairão.Este mundo existe comoa luz do orvalho nas flores. Trad.: Nelson Santander (a partir da versão do poema em inglês vertida por Jane Hirshfield e Mariko Aratani) N. do T.: Izumi Shikibu foi uma poetisa japonesa que viveu no final do período Heian, entre os séculos X e XI. Ela é considerada uma das principais escritoras de waka de sua época, e é especialmente conhecida por suas obras de amor e sensualidade. O waka é uma forma poética tradicional japonesa caracterizada por um padrão estrutural específico, que consiste em 31 sílabas organizadas em […]
- [Spencer Reece - Portofino](https://singularidadepoetica.art/2023/09/11/spencer-reece-portofino-2/): Prometa-me que não esquecerá de Portofino.Prometa-me que encontrará a ilusão de óticanas paredes do Splendido.As paredes que criam uma cena inacessível. Talvez assim compreenda esse anseiopor permanência que mencionei tantas vezes.Do outro lado do porto? Uma capela amarela. Um penhasco.Prometa-me que testemunhará o dia se dissipar. E quando os telhados escurecerem, quando as estrelas vagarematé se estilhaçarem no horizonte do oceano,saberá que o que eu lhe disse é verdadeiroquando afirmei que o abandono é belo. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução. Poema publicado na página originalmente em 05/10/2018 Portofino Promise me you will not forget Portofino.Promise me you will […]
- [José María Zonta - Não entres como turista no coração de uma mulher](https://singularidadepoetica.art/2023/09/10/jose-maria-zonta-nao-entres-como-turista-no-coracao-de-uma-mulher/): “Não entres como turista no coração de uma mulher”, um poema de José María Zonta que transforma o amor em território sagrado, exigindo entrega autêntica e cuidado diante da vulnerabilidade do outro.
- [Jesús Jiménez Domínguez - A Ponte no Nevoeiro](https://singularidadepoetica.art/2023/09/09/jesus-jimenez-dominguez-a-ponte-no-nevoeiro-2/): Detenho-mea meio do caminhoe ouço. Num extremoaquele que fui grita-me:Espera-me! No outro,aquele que serei sussurra-me:Segue-me. E a ponte, eterna,não aguenta o peso dos três. Trad.: Maria Sousa REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 04/10/2018 El Puente en la Niebla Me detengoa mitad del recorridoy escucho. En un extremoaquel que fui me grita:¡Espérame! En el otro,el que seré me susurra:Sígueme. Y el puente, eterno,no aguanta el peso de los tres.
- [Ann Fischer-Wirth – Milagre de um coração sagrado e três folhas de faia, cada uma machada de verde e carmesim](https://singularidadepoetica.art/2023/09/08/ann-fischer-wirth-milagre-de-um-coracao-sagrado-e-tres-folhas-de-faia-cada-uma-machada-de-verde-e-carmesim/): “Milagre de um coração sagrado e três folhas de faia”, um poema de Ann Fischer-Wirth que resgata, na matéria frágil do envelhecer, a persistência luminosa da identidade e da ternura.
- [Chico Amaral e Samuel Rosa - As Noites](https://singularidadepoetica.art/2023/09/07/chico-amaral-e-samuel-rosa-as-noites/): As ruas desse lugarConhecem bemAs noites longas, as noites pálidasQuando eu te procurava As casas desse lugarSe lembrarãoDo nosso abraço, da sombra insólitaEspelho azul no chão As ruas desse lugarAgora eu seiSempre escutaram a nossa músicaQuando eu te respirava As pedras municipaisSe impregnaramDa dupla imagem, da dupla solidão,A sombra ali no chão E, lá no céu, constelaçõesNum arranjo inusitadoO seu nome desenhado– Pelo menos tinha essa ilusão E, lá no céu, os astrosNum arranjo surpreendenteSe buscavam como a gente– Pelo menos tinha essa ilusão São milhares de estrelasSingulares letras vivas no céu REPUBLICAÇÃO: vídeo e letra publicados na página originalmente em […]
- [Fady Joudah – Mimesis](https://singularidadepoetica.art/2023/09/06/fady-joudah-mimesis/): Minha filha não faria mal a uma aranhaQue se aninhouEntre as manoplas de sua bicicletaPor duas semanasEla esperouAté que a aranha fosse embora por conta própria Se você desmanchasse a teia, eu disse,Ela simplesmente saberiaQue este não é um lugar para se chamar de larE você poderia andar de bicicleta Ela disse: é assim que os outrosSe tornam refugiados, não é? Trad.: Nelson Santander Mimesis My daughter wouldn’t hurt a spiderThat had nestedBetween her bicycle handlesFor two weeksShe waitedUntil it left of its own accord If you tear down the web I saidIt will simply knowThis isn’t a place to call […]
- [Pierre de Ronsard - Quando fores bem velha...](https://singularidadepoetica.art/2023/09/05/pierre-de-ronsard-quando-fores-bem-velha-2/): Quando fores bem velha, à noite junto à vela,Sentada ao pé do fogo, enovelando e fiando,Dirás, cantando os versos meus e te enlevando:“Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela”.Então nem haverá, ouvindo o recital,Serva, ao fim do trabalho e semi-sonolenta,Que, com som do meu nome, não desperte atentaA saudar o teu nome em louvor imortal.Estarei sob a terra e, fantasma sem osso,Pelas sombras dos mirtos terei meu repouso;Tu serás à lareira uma anciã encolhidaChorando o meu amor e o teu fero desdém.Se me crês, não espere o amanhã também:Vive, colhe desde hoje as rosas desta vida. Trad.: José Lino […]
- [Otto D'Sola - Plenitude](https://singularidadepoetica.art/2023/09/04/otto-dsola-plenitude/): Da formiga à estrela mais alta, fomos capazes de tecer uma longa história que nunca acabará;da rocha aos pinhais,dos pântanos ao berço de um tênue vento recém-nascido, fomos capazes de dar ao solo duro e seco a alegria de contemplar uma estrela e uma flor aberta. Permeada de canções, beijos e mariposas, nossa história é a história mais antiga do mundo,e não é apagada pelo tempo como os ecos, os fantasmas e as colunas que combatem na neblina. Uma história à maneira das águas cavas e subterrâneas nos teria feito chorar infinitamente até que nossos olhos se tornassem navegáveis. Nossa história […]
- [Joan Margarit - Era Rubra](https://singularidadepoetica.art/2023/09/03/joan-margarit-era-rubra-2/): A Àlex Susanna Levaste tanto tempo para aprenderque chegas tarde ao grande amor:nunca viveste uma era de ouro.As rosas de Ronsard*jamais perfumarão teu olhar,nenhum outono desfolharámorosas pétalas nos braços de ninguém.Com negligência ocultas os espelhoscomo se fazia nas casasonde havia um defunto.Não voltam as mulheres com as quaistrocaste anos de solidãopor um fugaz momento de ternura.Tão ardente é a vida no outonoque nas horas de angústia não poderásamar nem a mulher que já perdeste. Trad.: Nelson Santander * N. do T.: o verso ‘As rosas de Ronsard’ pode ser interpretado de duas maneiras distintas. Por um lado, o poeta pode estar […]
- [Jane Mead – Eu me pergunto se sentirei falta do musgo](https://singularidadepoetica.art/2023/09/02/jane-mead-eu-me-pergunto-se-sentirei-falta-do-musgo/): Quando eu voar para longe, me perguntose sentirei falta do musgo como agora sinto,só de pensar em partir. Havia pedras de muitas cores.Havia gravetos hospedandolíquen e musgo.Havia portões vermelhos com antiquadasferragens forjadas à mão.Havia campos de capim secocom o cheiro das primeiras chuvase então de lama fresca. Havia lama,e havia a caminhada,toda a bela caminhada,e só isso já me preenchia —os aromas, os ásperos capins.Todas as vezes em que dormi sob os arbustos,certa vez despertando com os abutres acima, olhando para baixocom suas cabeças inclinadas do jeito que eles costumam fazer,caricaturas de atenção e curiosidade.Uma vez também um lagarto.Uma vez também […]
- [Joan Margarit - A partida](https://singularidadepoetica.art/2023/09/01/joan-margarit-a-partida-2/): Definitivamente, este é o meu Outono,um tempo de alianças impossíveis,a era rubra de todos os perigospara homens maduros e mulheres solitárias.A era do adultério e da desmemóriasem nenhuma esperança, a era do gelo,a partida final contra mim mesmo.Permaneço à mesa, sem esperar pela sorte,já não há chances neste jogo.É o tempo de jogar paciênciacom as cartas marcadas da vida. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO com alterações na tradução. Poema publicado na página originalmente em 29/09/2018 La partida Definitivamente se trata de mi otoño,un tiempo de alianzas imposibles,la edad roja de todos los peligrospara hombres maduros y chicas solitarias.La edad del adulterio y […]
- [Meghan O'Rourke – Erro não forçado](https://singularidadepoetica.art/2023/08/31/meghan-orourke-erro-nao-forcado/): Outrora: aqueles longos e úmidos verões em Vermont.Sem dinheiro e nada para fazer além de ler, nadarno rio com homens de shorts jeans,e depois jogar bingo fora da igreja, comemorando quando ganhávamos.Nada parecia real para mim e tudo aquilo era muito vivo e real.Levei muito tempo para aprender o quanto eu estava errada —além da linha do horizonte o sol arde.Heidegger: “Todo homem nasce como muitos homens,e morre como um só”.Os ossos em nós ainda cheios de tutano.A lua lá em cima, também, um ártico lamento.Lamento, outro uísque? Nozes?Eu costumava achar que seguir em frente era o propósito da vida,sempre em […]
- [Bruno Gouveia e Miguel Cunha – Impossível](https://singularidadepoetica.art/2023/08/30/bruno-gouveia-e-miguel-cunha-impossivel-2/): Biquíni Cavadão Tudo bem quando termina bemE os seus olhos, e os seus olhos não estão rasos d’águaMas eu sei que no coração ficaram muitas palavrasUm vocabulário inteiro de ilusão Tudo que viceja também pode agonizarE perder seu brilho em poucas semanasE não podemos evitar que a vida trabalhe com o seu relógio invisívelTirando o tempo de tudo que é perecível É impossível, é impossível esquecer vocêÉ impossível esquecer o que viviÉ impossível esquecer, o que senti Tudo que morre fica vivo na lembrançaComo é difícil viver carregando um cemitério na cabeçaMas antes que eu me esqueça, antes que tudo se […]
- [Jorge de Sena - Nasceu-te um filho](https://singularidadepoetica.art/2023/08/29/jorge-de-sena-nasceu-te-um-filho/): Nasceu-te um filho. Não conhecerás,jamais, a extrema solidão da vida.Se a não chegaste a conhecer, se a vidata não mostrou – já não conhecerás a dor terrível de a saber escondidaaté no puro amor. E esquecerás,se alguma vez adivinhaste a paztraiçoeira de estar só, a pressentida, leve e distante imagem que iluminauma paisagem mais distante ainda.Já nenhum astro te será fatal. E quando a Sorte julgue que domina,ou mesmo a Morte, se a alegria finda– ri-te de ambas, que um filho é imortal.
- [David Mourão-Ferreira - Praia do Paraíso](https://singularidadepoetica.art/2023/08/28/david-mourao-ferreira-praia-do-paraiso-2/): Era a primeiraVez que nus os nossos corposApesar da penumbra à vontade se olhavamSurpresos de saber que tinham tantos olhosQue podiam ser luz de tantos candelabrosEra a primeira vez cerrados os estoresSó o rumor do mar permanecera em casaE sabias a sal, e cheiravas a limosQue tivesses ouvido o canto das cigarrasHavia mais que céu no céu do teu sorrisoMadrugada de tudo em tudo que sonhavasEm teus braços tocar era tocar os ramosQue estremecem ao sol desde que o mundo é mundoÉ preciso afinal chegar aos cinquenta anosPara se ver que aos vinte é que se teve tudo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado […]
- [Cheryl Pearson - Encantamento de proteção para um amado](https://singularidadepoetica.art/2023/08/27/cheryl-pearson-encantamento-de-protecao-para-um-amado/): Você sai com o carro em uma noite chuvosa,e minha mente corre solta. Bêbados. Pista escorregadia.Um corpo sob um lençol à beira da estrada. Eu te digo:Tenha cuidado. O que quero dizer é: Eu te amo,não vá embora. Eu quero você quente e descontente.O rejunte entre os ladrilhos do banheiro está lascando;a umidade na cozinha arruinou o sal. Eu listocada meio pelo qual você pode ser destruído, e o cão recebeuma focinheira e permite que você respire. Nenhuma curva fechadaem duas rodas. Nenhum erro ao conduzir o caminhão articulado.Eu te dou câncer, rompo seu apêndice. Torno-oalérgico a abelhas. Houve situações perigosas:eu […]
- [Wendell Berry - A Paz das Coisas Selvagens](https://singularidadepoetica.art/2023/08/26/wendell-berry-a-paz-das-coisas-selvagens-2/): Quando as dores do mundo crescem em mime desperto na noite ao menor somcom medo do que minha vida e a dos meus filhos possam ser,eu saio e me deito onde o pato selvagemrepousa em sua beleza sobre as águas, e a garça se alimenta.Eu penetro na paz das coisas selvagensque não sobrecarregam suas vidas com premeditaçõesde tristeza. Eu me coloco na presença das águas tranquilas.E sinto acima de mim as estrelas cegasesperando com seu brilho. Por um tempodescanso na graça do mundo, e sou livre. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com pequenas alterações na tradução: poema publicado na página anteriormente em […]
- [Philip Schultz – Fracasso](https://singularidadepoetica.art/2023/08/25/philip-schultz-fracasso/): Para pagar o funeral do meu pai,pedi dinheiro emprestado a pessoasa quem ele já devia dinheiro.Um deles o chamou de zé-ninguém.Não, eu disse, ele era um fracassado.Ninguém se lembra o nomede um zé-ninguém, é por isso queeles são chamados de zés-ninguém.Os fracassados são memoráveis.O rabino que leu um discurso convencionalsobre um homem que não pertenciaou acreditava em nadaera um fracassado e um zé-ninguém.Ele fracassou em imaginar o filhoe a esposa do mortosendo humilhados em cada palavra.Em entender que não acreditar ou não pertencer anada exigia uma espécie de fé e resiliência.Um tio, enumerando nos dedosos negócios fracassados do meu pai —um […]
- [Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe](https://singularidadepoetica.art/2023/08/24/tamara-kamenszain-o-eco-de-minha-mae-2/): "O Eco de Minha Mãe", um poema de Tamara Kamenszain que aborda a experiência de cuidar da mãe em meio à perda da linguagem e da memória, refletindo sobre desamparo, inversão de papéis e o escândalo íntimo da gramática diante do esquecimento.
- [Lucille Clifton – Dois poemas](https://singularidadepoetica.art/2023/08/23/lucille-clifton-dois-poemas/): adão pensando elaroubou meu ossonão é de admirarque eu anseie cavar de voltapara dentro desesperadopara reconectar costela e argilae ser inteiro outra vez alguma carência está em mimlutando para rugir com minhaboca por um nomeesta criação é tão ferozque eu preferiria ter nascido eva pensando aqui é um território selvagemirmãos e irmãs unindogarras e asasapalpando uns aos outros eu aguardoenquanto a argila bípederessoa em seu peitoprocurando palavras para me nomearmas ele é lentoesta noite enquanto ele dormevou sussurrar em sua bocanossos nomes Trad.: Nelson Santander adam thinking shestolen from my boneis it any wonderi hunger to tunnel backinside desperateto reconnect the […]
- [Albano Martins - Haicais](https://singularidadepoetica.art/2023/08/22/albano-martins-haicais-2/): Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por ti. *A andorinha faza sua casano vento. *Quando o verãomorre, as amorasvestem-se de luto. *Nem sempre a nevecai do céu: às vezesexplode numa flor. *Um mar azulpintou de brancoo voo das gaivotas. REPUBLICAÇÃO: haicais publicados na página originalmente em 12/09/2023
- [Thomas Hardy – Autoinconsciência](https://singularidadepoetica.art/2023/08/21/thomas-hardy-autoinconsciencia/): A pé, ao longo daquela viaEle caminhou naquele dia,Cismando as formas que os sonhos retratavam,E ele só parecia terRaramente olhos para verAqueles momentos que o rodeavam. Cintilantes pássaros douradosFaziam um tropel animado,Bicando longas palhas, efervescentes.E, levando ramos de azevinho,Voavam cruzando o caminhoQue ele percorria, só, indiferente. Da margem até o interiorE por cima e em derredorEles fugiam pela sebe adjacente;Muitas vezes até o canal,Sua amarela vibraçãoPulando na borda da ardósia mais rente. O traçado do mar, perenal,Com aquele brilho de metal,Flashes brancos, e a vela que a percorria,Sim, ele deve ter avistadoCom um dos olhos semicerradoEntre os projetos sobre os quais […]
- [Manuel António Pina - de "Cuidados Intensivos"](https://singularidadepoetica.art/2023/08/20/manuel-antonio-pina-de-cuidados-intensivos/): I “A esta hora e neste sítio(miocárdio ventricular esquerdo)é a abstracta vida que me assalta.Eles não sabemque o seu coração pulsa,ferido, no meu coração,que a minha dor alheiavagarosamente mataos seus sonhos, os seus sentidos,os seus dias visíveis e invisíveis,a linha dos telhadosao longe sobre o céu.Como saberiam(com que palavras exteriores?)que existemdentro de mimde um modo fora de mim,os parentes, os amigos,a vaga enfermeira da noite,que enquanto o meu Único coraçãomorre na minha cabeçaa luz do quarto seapaga para sempree o silêncio se fechasobre os corredores?No quarto ao lado alguéma noite passada morreu,provavelmente eu.Os livros, as floresda mesa de cabeceiraconhecerão estas últimas […]
- [Sharon Olds – Minha mão](https://singularidadepoetica.art/2023/08/19/sharon-olds-minha-mao/): Quando olho para a minha mão, e para o dorso do meu pulso,brilhando com o petrolato que esfreguei em suas fissuras — óleo mineral,ceresina, lanolina, pantenol, glicerina,bisabolol, vejo as rugasfinas, muitas formando losangos,algumas delas longas cicatrizes vacilantes —isso me parece comovente e afortunado. E eu gostodas veias salientes do dorso da minha mão.Faço parte de um casal. Meu parceiro está emum traje de linho, numa caixa de pinho,em New Hampshire — em uma terra consagrada no cemitériojudeu. Eu lhe digo, Carl1,meu querido, está tudo bem, seu tecidose dissolverá na terra quando chegar a primavera,está tudo bem, você não pode mudar a […]
- [José Mateos - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2023/08/18/jose-mateos-in-memoriam-2/): Para Pedro Sevilla Sempre, diante da dor, estamos sozinhos,não se deseja viver, e tu sabes disso.Há um instante, na penumbra de um quarto de hospital, viste a mão hirta,seu rosto afundado que o lençol ocultou.E foi como olhar-se num espelhoe perceber que somos menos que essa ausência,menos que a névoa que o ar dissipa. Eu sei; sentes agora apenas a noitepronunciar sua absurda palavra,e vês a humilhação, vês o esforçoque foi esta despedida. No entanto,ouve-me: não sofras. Pois sempre– mesmo nos dia nublados,ou quando o inevitável acontece, mesmo assim –a resposta é a vida que foge e continua,nunca a dor nem suas […]
- [Linda Pastan – Graça](https://singularidadepoetica.art/2023/08/17/linda-pastan-graca/): Quando o jovem professor juntouas mãos no jantar e falou com Deussobre a minha chegada em segurançaem meio à neve, agradecendo-Lhe tambémpelo alimento que iríamos comer,foi no tom de voz que eu costumousar para falar com meus amigos quando ligoe sou atendida pela secretária eletrônica,com a qual converso sobre isso e aquilousando um tom casual,imaginando que eles estejam ouvindomas ocupados demais para atender o telefone,ou cuidando de negóciosimportantes em outro lugar.No dia seguinte, voando para casaatravés de um céu tempestuosoe assustador, eu soubeque invejava sua conexão com Deuse desejei que suas precesmantivessem meu avião no ar. Trad.: Nelson Santander Mais do […]
- [Joan Margarit - Ulisses nas águas de Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2023/08/16/joan-margarit-ulisses-nas-aguas-de-itaca-2/): Estás chegando à ilha e agora sabeso que é o acaso. Viver, o que significa.Teu arco será pó em uma prateleira.Pó será o tear e a peça que ele tece.Os pretendentes, que no pátioacamparam,são sombras dos sonhos de Penélope.Estás chegando à ilha enquanto o mararrebenta nas rochas da costa,como faz o tempo com a Odisseia.Ninguém jamais teceu a tua ausêncianem, sem rumor, desfez o esquecimento.Por mais que, por vezes, a razão o ignore,Penélope é a sombra do teu sonho.Estás chegando à ilha: as gaivotascobrem a praia e não se moverãoquando, ao passares, não deixares pegada alguma,pois não exististe: és apenas umalenda.Talvez […]
- [Tess Gallagher – Escolhas](https://singularidadepoetica.art/2023/08/15/tess-gallagher-escolhas/): Dirijo-me para o lado da casa de onde se vêa montanha, a fim de aparar as árvores novase desobstruir a vista para a neve sobre as serras. Mas quando olho para cima,serrote na mão, vejo um ninho agarradoaos galhos mais altos.Não corto esta.E também não corto as demais.De repente, em cada árvore,um ninho invisívelonde uma montanhapoderia estar. Trad.: Nelson Santander Choices I go to the mountain sideof the house to cut saplings,and clear a view to snowon the mountain. But when I look up,saw in hand, I see a nest clutched inthe uppermost branches.I don’t cut that one.I don’t cut the […]
- [Ruy Belo – Através da chuva e da névoa](https://singularidadepoetica.art/2023/08/14/ruy-belo-atraves-da-chuva-e-da-nevoa-2/): Chovia e vi-te entrar no marlonge de aqui há muito tempo jáó meu amor o teu olharo meu olhar o teu amorMais tarde olhei-te e nem te conheciaAgora aqui relembro e pergunto:Qual é a realidade de tudo isto?Afinal onde é que as coisas continuame como continuam se é que continuam?Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidosa casa povoada o nome no registouma menção no livro das primeiras letras?Chovia e vi-te entrar no maró meu amor o teu olharo meu olhar o teu amorQue importa que algures continues?Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugarQue posso eu fazer por tudo isso […]
- [Li-Young Lee - Comendo sozinho](https://singularidadepoetica.art/2023/08/13/li-young-lee-comendo-sozinho/): Colhi as últimas cebolas frescas do ano.O jardim está limpo agora. O solo está frio,gasto e pardacento. O que resta do diaarde nos bordos, nas bordas dos meusolhos. Eu me viro, um cardeal desaparece.Junto à porta da adega, lavo as cebolas,depois bebo da gelada torneira de metal. Certa vez, anos atrás, caminhei ao lado do meu paientre as peras caídas. Não consigo lembrar denossas palavras. Talvez tenhamos caminhado em silêncio. Masainda o vejo se inclinar daquele jeito – a mão esquerda apoiadano joelho, rangendo – para erguer e segurar diante dos meus olhos uma pera podre. Nela, uma vespagirava loucamente, vitrificada […]
- [Henri Michaux – Nós dois ainda](https://singularidadepoetica.art/2023/08/12/henri-michaux-nos-dois-ainda-2/): 1948 Música do fogo, tu não soubeste tocar. Lançaste sobre a minha casa um pano negro. O que é este opaco em toda a parte? É o opaco que tapou o meu céu. O que é este silêncio em toda a parte? É o silêncio que calou o meu canto. * De esperança tinha-me bastado um fio de água. Mas tu levaste tudo. O som que vibra foi-me retirado. * Tu não soubeste tocar. Pegaste nas cordas. Mas não soubeste tocar. Estragaste logo tudo. Partiste o violino. Lançaste sobre a pele de seda uma chama para fazer um horrível pântano de […]
- [Christopher Bursk – "Ashes, Ashes, We All Fall Down"](https://singularidadepoetica.art/2023/08/11/christopher-bursk-ashes-ashes-we-all-fall-down/): “Ashes, Ashes, We All Fall Down“1 Se vou me transformar em cinzas em uma década ou algo assim,por que ficar acordado até depois da meia-noite encarando a TVcomo se ela pudesse mudar de opiniãoe eleger, por uma vez, um candidato independente para o cargoou acabar com a guerra e, ao mesmo tempo, remover a acne do meu neto?Talvez eu devesse apenas desfrutar do uivo do cachorro na casa ao lado.A noite toda ele esteve puxando sua correntecomo se os elos pudessem finalmente se entediar de ser de metal e se romper. Se eu vou ser incinerado — queimado até virar cinzas […]
- [Víctor Botas - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2023/08/10/victor-botas-collige-virgo-rosas-2/): Não faltam os que suponham que em sessentabilhões de anos estaremos de voltaao mesmo estado de agora (ao que parece,o Espaço se dilata para logo,elástico, contrair-se e mais uma vezdilatar-se), repetindotu, as profundidades desses olhos,eu, este esperar a morte de tuamão agonizante nas minhas, aquimesmo, precisamente neste lugar. Mas, casoseja tudo uma farsa e nunca maisa história se repita e, como eususpeito, o tempo voe – eheu fugaces –rumo a uma noite eterna, parece-meque o melhor que faríamos seria(hoje dou uma aula a Horácio)agarrar esse instante que se vaicom unhas e dentes (fazes bem,fazes bem em rir: isso é muito sério),sem […]
- [Rui Caeiro – [Fica e é só o que fica]](https://singularidadepoetica.art/2023/08/09/rui-caeiro-fica-e-e-so-o-que-fica/): Fica e é só o que fica: o primeiro encontroo primeiro beijo numa gare desertao mar por líquida ou aérea testemunha depois a longa gestação do adeusúnico e verdadeiro adeuso subtil envenenamento da memória
- [Luis Alberto de Cuenca - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2023/08/08/luis-alberto-de-cuenca-collige-virgo-rosas-2/): Moça, colhe as rosas, não esperes a manhã.Corta-as sem hesitar, sem comedimento,sem parar para pensar se são boas ou más.Que não reste nenhuma. Poda os roseiraisque encontrares pelo caminho e deixa os espinhospara tuas colegas do colégio. Desfrutada luz e do ouro enquanto podes e consagratua beleza a esse deus rechonchudo e melancólicoque passeia pelos jardins espalhando veneno.Goza lábios e línguas, deleita-te com quem permitir, e não consintas que o outonote surpreenda com a pele seca e sem um homem(pelo menos) devorando a essência de tua alma.E que a negra morte roube o que viveste. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações […]
- [Mary Oliver – Chumbo](https://singularidadepoetica.art/2023/08/07/mary-oliver-chumbo/): Eis uma históriade partir o seu coração.Quer ouvi-la?Neste inverno, os mergulhões pousaram em nossa enseadae morreram, um por um,de nada que conseguíssemos ver.Um amigo me contousobre um na costaque ergueu a cabeça, abriuseu elegante bico e gritouno longo e doce deleite de sua vida,grito que, se você já ouviu,sabe que é uma coisa sagrada,e pelo qual, se você ainda não ouviu,vale a pena se apressar em direção ao local ondeos mergulhões ainda cantam.E, vai por mim, não conte a ninguémonde fica.Na manhã seguinte,este mergulhão, pintalgadoe iridescente, e com um planode voar para sua casaem algum lago oculto,estava morto na costa.Digo-lhe isso […]
- [Francisco Brines - "Collige, virgo, rosas"*](https://singularidadepoetica.art/2023/08/06/francisco-brines-collige-virgo-rosas-2/): Já estás com quem desejas. Ri e goza. Ama.E inflama-te na noite que agora se inicia,e entre tantos amigos (e comigo)abre os grandes olhos para a vidacom a avidez preciosa dos teus anos.A noite, longa, extinguir-se-á com a aurora,e virão esquadrões de espiões com a luz,apagar-se-ão as estrelas, e também a lembrança,e a alegria findará em nada.Mas, mesmo que isso ocorra, inflama-te na noite,pois por trás do esquecimento pode ser que ela renasça,e a recuperarás pura, e aumentada em beleza,se nela, por acaso, que será tua escolha,selares a vida com o melhor que tiveste,quando a noite humana se extinguir por completo,e […]
- [Maria do Rosário Pedreira - [Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi]](https://singularidadepoetica.art/2023/08/05/maria-do-rosario-pedreira-se-alguem-me-perguntar-hei-de-dizer-que-sim-que-foi/): Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foiverdade — que não amei ninguém depois de ti nemo meu corpo procurou nunca mais outro incêndioque não fosse a memória de um instante juntodo teu corpo; e que deixei de ler quando partistepor não suportar as palavras maiores longe da tua boca;e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa,acreditando que, se não me alimentasse, acabariapor sofrer de uma doença menor do que a saudade, masa que os outros, pelo menos, não chamariam loucura. Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não deoutra maneira, como alguns parecem […]
- [Garcilaso de la Vega - Soneto XXIII](https://singularidadepoetica.art/2023/08/04/garcilaso-de-la-vega-soneto-xxiii-2/): Enquanto que de rosa e de açucenase mostra toda a cor neste teu rosto,enquanto o teu olhar ardente, honesto,acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjasdo ouro se escolheu, com voo presto,sobre o formoso colo branco, ereto,o vento move, espalha e desarranja: colhe de tua alegre primaverao doce fruto, antes que o tempo airadorecubra de neve o formoso cume; murchará a rosa o vento gelado.Mudará tudo o tempo que não espera,tão só por não mudares teu costume. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 25/08/2018 Soneto XXIII En tanto que de rosa […]
- [Jorie Graham – Então a chuva](https://singularidadepoetica.art/2023/08/03/jorie-graham-entao-a-chuva/): depois de anos de virga1, depoisde muito quase& muito nunca mais, depoisde unir-se aos relâmpagos secos & correntes descendentes & fogo,depois de pegar um caminhoalternativo pelahistória & evitar- nos, depois das árvores,depois dos jardins,depois que as duras sementesforam enterradas o mais fundo possível & mantidas vivas pelo sereno,depois que os sulcosque outrora ela abriuse encheram de areia & bolor – & de vagensque não podem brotar –nem mesmo as avesvieram – & as velhas estradas começaram a reaparecer – depois dos animais,depois das menores criaturasem seus túneis & sobsuas pedras, depois que tudo se foi, então,um dia,sem in-gerência & des- continuidade, […]
- [Josep M. Rodríguez – Equação](https://singularidadepoetica.art/2023/08/02/josep-m-rodriguez-equacao-2/): De pé neste penhasco, aceito a mentira da paisagem. Tudo é inacessível: o orvalho – que é suor vegetal – e o comboio que passa. Uma cegonha voa a preto e branco. Tem o seu ninho no cimo da igreja que fica junto ao cemitério. Estranho paradoxo, a pedra testemunha a fugacidade, a carne é apenas um leito para o tempo. (Cada osso que tenho é uma lápide pelos mortos que escondo no meu íntimo.) Para quê contar o tempo que nos resta? Viver é abraçar escuridões: do que não sabemos ao que não sabemos, de uma distância a outra distância. […]
- [Vasko Popa – Na aldeia dos ancestrais](https://singularidadepoetica.art/2023/08/01/vasko-popa-na-aldeia-dos-ancestrais/): Na aldeia dos ancestrais Alguém me abraçaAlguém me fita com olhos de loboAlguém tira o chapéuPara que eu o veja melhor Todos me perguntamVocê sabe quem eu sou Velhotes e velhotas desconhecidosApoderam-se dos nomesDe rapazes e garotas de minha lembrança Pergunto a um delesSe ainda está vivo o ricoGueórguie Kúria Eu sou ele responde-meCom voz de outro mundo Acaricio-lhe a faceE com os olhos peço que me digaSe eu estou vivo ainda Trad.: Aleksandar Jovanovic
- [Jorge Luis Borges - Cristo na Cruz](https://singularidadepoetica.art/2023/07/31/jorge-luis-borges-cristo-na-cruz-2/): Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.Os três madeiros são de igual altura.Cristo não é o do meio. É o terceiro.A negra barba pende sobre o peito.O rosto não é este das gravuras.É áspero e judeu. Mas não o vejoE vou buscá-lo sempre até o diaDe meu último passo sobre a terra.O homem alquebrado sofre e cala.A coroa de espinhos o castiga.A chacota da plebe não o alcançaJá tantas vezes viu sua agonia.A sua ou a desse outro. Dá no mesmo.Cristo na cruz. DesordenadamentePensa no reino que talvez o espera,Pensa numa mulher que não foi sua.Não lhe foi dado ver […]
- [Galway Kinnell – Shelley](https://singularidadepoetica.art/2023/07/30/galway-kinnell-shelley/): Quando eu tinha vinte anos, o único espíritoverdadeiramente livre de quem tinha ouvido falar era Shelley1,Shelley, que escreveu tratados defendendoo ateísmo, o amor livre, a emancipaçãofeminina, a abolição da riqueza e das classes sociais,e poemas sobre a felicidade do amor romântico,Shelley, que, soube mais tarde, talvezquase tarde demais, se casou novamente com Harriet,então grávida de seu segundo filho,e alguns meses depois fugiu com Mary,já grávida dele, trazendoconsigo a meia-irmã de Mary, Claire,que muito provavelmente também se tornou sua amante, e neste malaise à trois2, que Shelleyimaginava ser “um paraíso de exilados”,eles viveram, juntamente com o espectro ou Harriet,que se suicidara no […]
- [Francisco Brines - Os Prazeres Inferiores](https://singularidadepoetica.art/2023/07/29/francisco-brines-os-prazeres-inferiores-2/): Não desdenhes as paixões vulgaresTens os anos necessários para saberque elas se correspondem exatamente com a vida.Não reduzas sua ação,pois se do breve tempo em que consistesas retiras,é ainda o existir mais imperfeito.Descobre sua verdade por trás da aparência,e assim não haverá falsidade,não poderás fingir que foi razão de vida o que foi só passagem.Mas elas evitaram-te o fiel tédio das horas. Exigem lucidez, não em sua experiência,mas em seu escasso ser;dá-lhes seu exato valor,para o que tens de saber o que a vida valee essa sabedoria há muito que é tua.Se cometes um erro quando as medes,hás-de fazê-lo atendendo à […]
- [Jane Mead – Bach, inverno](https://singularidadepoetica.art/2023/07/28/jane-mead-bach-inverno/): Bach devia saber – comoalgo esvoaça quando você se virapara encarar o rosto visto de relanceem um espelho, em um hall, ao entardecer – e como o aroma das maçãs em uma tigelapode parar o coração por um instante,entre a pia e o fogãono auge do inverno quando estrelas de gelo se espalham pelas vidraçase tudo está perfeitamente quietoaté que você ouça o som de algoperdido e tímido batendo suas asas. E então: música. Trad.: Nelson Santander Bach, Winter Bach must have known – how something flutters away when you turn to face the face you caught sideways in a mirror, […]
- [Joan Margarit - Espaço e Tempo](https://singularidadepoetica.art/2023/07/27/joan-margarit-espaco-e-tempo-2/): E de repente a casa é grande demais.Tua mãe e eu esvaziamos teus armáriose percorremos mesas e prateleiras,de retrato em retrato, teus sorrisos.À noite, os espelhos, sob a luz elétrica,revelam com mais nitidez a tua ausência.Os móveis estão agora mais sombrios.Pela escada desce a balaustrada acolhedoraque guarda ainda a lembrança de tua pequena mão,e os degraus que ainda sentemo roçar dos teus passos. E a casa,grande e vazia agora,olha e contempla seu próprio silêncio. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 21/08/2018 Espacio y Tiempo Y de pronto la casa es demasiado grande.Tu madre […]
- [Caroline Bird – Checkout](https://singularidadepoetica.art/2023/07/26/caroline-bird-checkout/): Eu penso ‘então, isso é a morte’, e me pergunto por queainda consigo enxergar através dos meus olhos. Um anjose aproxima com um formulário de avaliação perguntandocomo eu classificaria minha vida (muito boa, boa,mediana, ruim, muito ruim) e eu penso em marcar‘mediana’ seguido de um desabafo, mas então me lembrode seu rosto como um baú de tesouro de desenho animadobrilhando com luz dourada, seleciono ‘muito boa,’e na caixa de comentários eu escrevo:‘bom trabalho’. O anjo pergunta se eu gosteida minha estadia e eu digo: ‘Ah, sim, com certezaviria de novo’ e ele me lança um olhar suaveque significa ‘isso não será possível, mas […]
- [Manuel António Pina - Amor como em Casa](https://singularidadepoetica.art/2023/07/25/manuel-antonio-pina-amor-como-em-casa-2/): "Amor como em Casa", um poema de Manuel António Pina que retrata o amor como um regresso íntimo e familiar, onde a saudade, os gestos cotidianos e a ternura constroem a sensação de entrar no sentimento como quem volta para casa.
- [Harryette Mullen - Não somos responsáveis](https://singularidadepoetica.art/2023/07/24/harryette-mullen-nao-somos-responsaveis/): Não somos responsáveis por seus parentes perdidos ou sequestrados.Não podemos garantir a sua segurança se desobedecer às nossas instruções.Não apoiamos as causas de pessoas pedindo esmolas.Reservamo-nos o direito de recusar serviços a qualquer um. Sua passagem não garante que honraremos suas reservas.Para facilitar nossos procedimentos, por favor limite sua bagagem de mão.Antes de decolar, por favor, elimine todos os ressentimentos latentes. Se você não consegue entender inglês, terá que sair do caminho.Em caso de perda, é melhor você se virar.Seu seguro foi cancelado porque não podemos mais lidar comsuas assustadoras reivindicações. Nossos carregadores perderam sua bagagem enão sabemos como lidar com […]
- [Jane Hirshfield - O Homem Gentil](https://singularidadepoetica.art/2023/07/23/jane-hirshfield-o-homem-gentil-2/): Vendi o relógio do meu avô,seu ouro rosado e padrões pontilhados,para ser derretido.Mecanismo irrecuperável.Tampa ausente.Corrente — deve ter havido uma —ausente.Seus números pintadoscom um único e habilidoso pincel.Dei corda à coroaantes de entregá-lo sobre o balcão.O homem gentil recebeuo que lhe trouxe como se fosse à Stasi*.Ele pesou o mel do tempo. * N. do T.: A Stasi, abreviação de Staatssicherheit, foi a polícia secreta da Alemanha Oriental durante o período em que o país foi dividido. Atuando de 1950 a 1990, a Stasi era conhecida por sua extensa rede de vigilância, espionagem e repressão política. Seu principal objetivo era manter […]
- [Linda Pastan – O almanaque das coisas derradeiras](https://singularidadepoetica.art/2023/07/22/linda-pastan-o-almanaque-das-coisas-derradeiras/): Do almanaque das coisas derradeiraseu escolho o lírio-da-aranha-vermelhapela graça de sua efêmerafloração, embora eu mesmatema a brevidade, mas escolho O Cântico dos Cânticospor ter a polpadaquelas romãssobrevivido atoda geada do dogma. Escolho janeiro, com suas friaslições de paciência e desespero – eagosto, muito ensolarado para lições.Escolho um gole de vinho tintopara fazer meu coração disparar, depois outro para me ajudara dormir. Do almanaquedas coisas derradeiras eu escolho você,como já fiz antes.E escolho a noite porque a luz que se agarraà janelaé muito mais reflexivaquando está pronta para sair. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e […]
- [Joan Margarit - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2023/07/21/joan-margarit-despedida/): Retirei tapetes e cortinas,todas as mesas onde há temposnão como nem escrevo.Removi os quadros e pintei as paredespara apagar os vestígios dos anos.Guardo alguns poucos livros. Sei bem quais.Destruícartas de amor que não me amavam mais.Silenciosos agora, os amoressão icebergs errantes do pensar.A casa, sem recantos para o medo,deixa meus olhos mais desnudos.Nada, nem a esperança,pode perturbar a derradeira morte.Não há outra casa para os que amo. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 14/08/2018 Joan Margarit – Despedirse He retirado alfombras y cortinas,todas las mesas en las que hace tiempoque ni como ni […]
- [Michelle Hulan – O universo, como em uma última canção para os corações solitários](https://singularidadepoetica.art/2023/07/20/michelle-hulan-o-universo-como-em-uma-ultima-cancao-para-os-coracoes-solitarios/): Este poema foi inspirado em “People talk and talk more”1, de Eugenio Montale, e no ciclo de vida do nosso Universo. Há uma teoria segundo a qual a fase final do Universo é a denominada Era dos Buracos Negros, na qual esses fenômenos astronômicos deslizam lentamente pelo vácuo frio até não sobrar nada. Essa imagem me pareceu muito solitária, e fiquei curiosa sobre as dimensões do Universo e sobre como a vida, em toda sua abundância e ubiquidade, ainda está em sua infância. Se reduzíssemos a idade do Universo a uma vida humana, ele teria apenas nanossegundos de idade. Não teria […]
- [Lêdo Ivo – O Dia dos Homens](https://singularidadepoetica.art/2023/07/19/ledo-ivo-o-dia-dos-homens-2/): Viver é preciso.Não existe infernonem paraíso. Apenas o chão.E uma persistentechuva de verão. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 10/08/2018
- [Hala Alyan – Spoiler](https://singularidadepoetica.art/2023/07/18/hala-alyan-spoiler/): Você pode diagnosticar o medo? A árvore vermelha que cresce do úteroaté a garganta? É um nervo longo, diz o médico. Há uma razão pela quala respiração ajuda: os músculos relaxam como um casamento defunto.Meus medos são básicos. Intoxicação alimentar em Paris. Saguões de hospitais.Meu marido rindo em outro quarto (a porta fechada).Durante dias, amparei meu seio e me preocupei com um cisto parecido com uma gota.Não havia nada que exigisse benzimento. A árvore ama o lenhador.Os pesadelos pararam, eu digo ao médico. Eu sei por quê.Eles pararam porque eu os batizei. É assim que minha mãee eu falamos da morte — […]
- [Sonja Åkesson – Primavera e Outono, Verão e Inverno](https://singularidadepoetica.art/2023/07/17/sonja-akesson-primavera-e-outono-verao-e-inverno-2/): A grade que enferrujou.O pão que empedrou.O vento que correu em buscade uma caixa d’água. Primavera e outono, verão e inverno.Isso foi tudo. E é claro, a morte tambémsonolenta e bem empanturradacomo um gato castrado bocejandoenquanto as estações do ano vão e voltamdeixando um gosto amargoem nossas bocas. Trad.: Fernanda Sarmatz Åkesson REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 07/08/2018 VÅR OCH HÖST, SOMMAR OCH VINTER Gallret som rostade.Brödet som bet sig fast.Vinden som sprang och letadeefter en vattentunna. Vår och höst, sommar och vinter.Var det allt. Ja, och så döden förståsdåsig som en kastrerad kattoch lika övergödd — gäspandemedan årstiderna […]
- [Ian Hamilton - Os quarenta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/12/ian-hamilton-os-quarenta/): “O eu que sobreviveu àqueles anos desprezíveis”,Sua “virtude austera” incrivelmente preservada. Pois bem,Terá se perguntado, isto éO “é isso”?; esta Vida resumidaQue nunca pensei encontrarE nunca procurei: que começa no meioDe tal modo que no fimO dano perdura mais do que a reparação? Aos quarenta e cincoAgora sou o patriarca da casa e ao entardecerVocê me verá fazendo meu “passeio noturno”Até o adormecido lago dos lírios:Do fundo do nosso quintal, cento e onze jardas.E uma vez lá, farei uma pausa, meio sóbrio, sem dorE parecendo escutar; mas já não mais “ouvindo”.E às minhas costas,Oito janelas, uma varanda, o lote limpoPara as […]
- [Eugénio de Andrade - Sou fiel ao ardor...](https://singularidadepoetica.art/2019/08/11/eugenio-de-andrade-sou-fiel-ao-ardor/): Sou fiel ao ardor, amo esta espécie de verão que de longe me vem morrer às mãos, e juro que ao fazer da palavra morada do silêncio não há outra razão.
- [Joan Margarit - Vida Social](https://singularidadepoetica.art/2019/08/10/joan-margarit-vida-social/): Idealizavas esta solidãopara ouvir música ou ler,e caminhar no inverno junto ao mar.Mas a solidão é uma chuvaque suja as janelas deste trem dos anos.A solidão é a palavra crueldo acre ressentimento familiar.É a lei do acaso, um labirinto injusto.É não ter dinheiro, é ter medo.É o sexo, uma estranha pista falsaque conduz ao mais cruel dos espelhos.É não ter desculpas pelo que não viveste. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Joan Margarit – Vida Social Idealizabas esta soledadde escuchar música o leer,de vagar en […]
- [Manuel António Pina - A avó](https://singularidadepoetica.art/2019/08/09/manuel-antonio-pina-a-avo/): Tinha ao colo o gato velho cansadamente passando a sua branca mão pelo pelo dele preto e brando Sentada ao pé da janela olhando a rua ou sonhando-a todo o passado passando a passos lentos por ela Dormiam ambos enquanto a tarde se ia acabando o gato dormindo por fora a avó dormindo por dentro
- [Gregory Corso - Tenho 25](https://singularidadepoetica.art/2019/08/08/gregory-corso-tenho-25/): Com um amor louco por Shelley Chatterton Rimbaud e o ganido carente de minha juventude passou de orelha a orelha: EU ODEIO OS VELHOS POETAS! Especialmente velhos poetas que se retratam que consultam outros velhos poetas que falam de suas juventudes em sussurros, dizendo: – Eu fiz mas isso é passado isso é passado – Oh eu acalmaria aqueles velhos dizendo-lhes: – Eu sou seu amigo, o que você foi outrora, confie em mim e você será novamente – À noite, então, na segurança de seus lares eu arrancaria suas línguas-evasivas e roubaria seus poemas. Trad.: Nelson Santander I am […]
- [Armando Silva Carvalho - Struggle for life](https://singularidadepoetica.art/2019/08/07/armando-silva-carvalho-struggle-for-life/): Cheguei há muito à idade filosófica, Secaram-me os sonetos na tão nervosa pena dos sentidos. As aves lânguidas e longas do desejo – Que não eram lânguidas Nem longas – Voaram dos meus sonhos para nunca mais. Houve quem ouvisse os seus gritos românticos, Seguisse o seu devaneio em círculos voláteis, Em versos de dez sílabas, em rimas comedidas, Em rigor panfletário. Du Heine de deuxième qualité, seguindo o bom-tom Da época. Mas isso era num céu do sentimento, Ousado, sensual, arrebatado. E eu tinha um coração flamante, um peito erguido Aos hinos, uma boca eloquente às odes Às quais por […]
- [Oscar Wilde - Da vaidade](https://singularidadepoetica.art/2019/08/06/oscar-wilde-da-vaidade/): “Por que você chora?”, perguntaram as Oreiades. “Choro por Narciso”. “Ah, não nos espanta que você chore por Narciso”, continuaram elas. “Afinal de contas, todas nós sempre corremos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza”. “Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago. “Quem melhor do que você poderia saber?”, responderam, surpresas, as Oreiades. “Afinal de contas, era em suas margens que ele se debruçava todos os dias”. O lago ficou algum tempo quieto. Por fim, disse: “Eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que era belo. Choro por […]
- [André Oviedo - Caixa-Preta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/05/andre-oviedo-caixa-preta/): em algum lugar depois do fim flutuando entre os destroços encontraremos a caixa-preta e poderemos finalmente restituir o passado palavra por palavra como chaves perdidas no tempo a reabrirem as portas que nos trouxeram até aqui
- [Walter Savage Landor - Rose Aylmer](https://singularidadepoetica.art/2019/08/04/walter-savage-landor-rose-aylmer/): Ah, de que vale a régia raça! E esta forma celeste! Toda virtude, toda graça! Rose Aylmer, tudo o que foste. Rose Aylmer, meus olhos despertos Eles choram, mas não veem, Uma noite de dor te oferto, E de lembranças também. Trad.: Nelson Santander Rose Aylmer Ah, what avails the sceptred race! Ah, what the form divine! What every virtue, every grace! Rose Aylmer, all were thine. Rose Aylmer, whom these wakeful eyes May weep, but never see, A night of memories and sighs I consecrate to thee.
- [François Villon - Balada dos Enforcados](https://singularidadepoetica.art/2019/08/03/francois-villon-balada-dos-enforcados/): Irmãos humanos que ao redor viveis, Não nos olheis com duro coração, Pois se aos pobres de nós absolveis Também a vós Deus vos dará perdão. Aqui nos vedes presos, cinco, seis: Quanto era cara viva que comia Foi devorado e em pouco apodrecia. Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós. Que de nossa aflição ninguém se ria, Mas suplicai a Deus por todos nós. Se dizemos irmãos, vós não deveis Sentir desprezo, embora condenados Tenhamos sido em vida. Bem sabeis: Nem todos têm os sentidos sentados. Desculpai-nos, que já estamos gelados, Perante o filho da Virgem Maria. Que seu favor […]
- [Nelson Santander - Impermanência](https://singularidadepoetica.art/2019/08/03/nelson-santander-impermanencia/): Impermanência, uma crônica de Nelson Santander
- [Delmore Schwartz – Calmamente caminhamos neste dia de abril](https://singularidadepoetica.art/2019/08/02/delmore-schwartz-calmamente-passeamos-neste-dia-de-abril/): Calmamente caminhamos neste dia de abril,Poesia urbana por todo lado,No parque sentam-se indigentes e usurários,As crianças gritando, o carroEm fuga que passa correndo por nós,Entre o trabalhador e o milionárioOs números expressam as distâncias,Estamos em mil novecentos e trinta e sete agora,Muitos camaradas foram levados para longe,O que será de você e de mim(Esta é a escola em que aprendemos…)Além da foto e da lembrança?(…que o tempo é o fogo em que nos queimamos.) (Esta é a escola em que aprendemos…)O que é o eu no meio deste incêndio?O que sou eu agora que fui então?Que devo sofrer e fazer novamente,A […]
- [José Miguel Silva - Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)](https://singularidadepoetica.art/2019/08/01/jose-miguel-silva-morangos-silvestres-ingmar-bergman-1957/): Um ser humano é um combinado de egoísmo, sofrimento e necessidade. Não comove ninguém. Uma pedra não comove ninguém. A beleza é um acidente banal e pressupõe a morte; muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala, chega a ser assustador. A inteligência, refrescante como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora, que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir à inteligência? O de criada de servir nos aposentos da ganância. Não comove, é evidente, ninguém. A bondade, sim, comove. Mas é tão débil e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil, assim, encontrar algo […]
- [Eugénio de Andrade - De "As mãos e os frutos"](https://singularidadepoetica.art/2019/07/31/eugenio-de-andrade-de-as-maos-e-os-frutos/): XIX Terra: se um dia lhe tocares o corpo adormecido, põe folhas verdes onde pões silêncio, sê leve para quem o foi contigo. Dá-lhe o meu cabelo para sonho, e deixa as minhas mãos para tecer a mágoa infinita das raízes que no seu corpo um dia hão-de beber
- [Joan Margarit - El Primer Frío](https://singularidadepoetica.art/2019/07/30/joan-margarit-el-primer-frio/): Acompanhei-te até o museu, no parque,em uma manhã de inverno. Detivemo-nosdiante daquela escultura: El primer frío.Era de mármore cinzento: um velho, nu,olha ao longe, entre as folhas mortasque o vento carrega.A arte não é diferente da vida,lembro que disseste. Mas euvia apenas um mármore frio,um tanto retórico, e pensava em garotas.Entre aquele dia e hoje, como um mar,minha vida se expandiu.E se aproximam, singrando este mar cinzento,cascos negros de embarcações, minhas recordações.Retorno ao museu nesta manhã de invernoe estou pensando em ti ao cruzar o parque:olho ao longe, entre as folhas mortasque o vento carrega. Trad.: Nelson Santander Mais do que […]
- [Manuel António Pina - Extrema-unção](https://singularidadepoetica.art/2019/07/29/manuel-antonio-pina-extrema-uncao/): Uma breve, amável mágoa à flor dos olhos, um distante desapontamento, morrias como se pedisses desculpa por nos fazeres perder tempo. Tinhas pressa mas não o mostravas, receavas que não estivéssemos preparados, e, suspenso sobre nós, esperavas que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado. Morrer não é motivo de orgulho, mas estavas cansado demais para te justificares. Ainda por cima no mês de Julho, com as férias marcadas, ausentes os familiares. Tínhamos levado as crianças de casa, feito os telefonemas, escolhido os dizeres. O quarto fora arrumado, a cama mudada com roupa lavada. Só faltava morreres. 8/1/01
- [Ferreira Gullar - Notícia da Morte de Alberto da Silva](https://singularidadepoetica.art/2019/07/28/ferreira-gullar-noticia-da-morte-de-alberto-da-silva/): (Poema Dramático para Muitas Vozes) I Eis aqui o morto chegado a bom porto Eis aqui o morto como um rei deposto Eis aqui o morto com seu terno curto Eis aqui o morto com seu corpo duro Eis aqui o morto enfim no seguro II De barba feita, cabelo penteado jamais esteve tão bem arrumado De camisa nova, gravata borboleta parece até que vai para uma festa No rosto calmo, um leve sorriso nem parece aquele mais-morto-que-vivo Imóvel e rijo assim como o vês dir-se-ia que nunca esteve tão feliz III Morava no Méier desde menino Seu grande sonho era […]
- [Robert Penn Warren – Conta-me uma história](https://singularidadepoetica.art/2019/07/27/robert-penn-warren-conte-me-uma-historia/): A Há muito tempo, no Kentucky, eu, apenas um rapaz, estavaEm uma estrada de terra, ao anoitecer, e ouviA algaravia dos gansos que rumavam para o norte. Não pude vê-los, pois não havia lua,E escassos eram os astros. Eu os ouvi. Não sabia o que se passava em meu coração. Era a estação antes dos sabugueiros florescerem,Por isso eles rumavam para o norte. O som rumava para o norte. B Conta-me uma história. Neste século e momento de insanidade,Conta-me uma história. Faz dela uma história sobre as grandes distâncias, e a luz das estrelas.O nome da história será Tempo,Mas não deves […]
- [William Ernest Henley - Invictus](https://singularidadepoetica.art/2019/07/26/william-ernest-henley-invictus/): No meio da noite que me abraça, Negra como um Poço em sua inteireza, Agradeço a cada Deus pela graça De minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstâncias Não recuei nem alteei meu pranto. Debaixo dos golpes das contingências Minha fronte sangra – altiva, no entanto. Além deste lugar de desenganos, Somente o Horror das sombras desponta, E entretanto a ameaça dos anos Deve me encontrar sem medo, e encontra. Não importa se o portão é mofino, Se a Lei é repleta de punição Eu sou o condutor do meu destino Eu sou de minha alma o capitão Trad.: Nelson […]
- [Ángel González - O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado](https://singularidadepoetica.art/2019/07/25/angel-gonzalez-o-amanha-e-um-mar-profundo-que-precisamos-atravessar-a-nado/): Queria ser alga, alga enredada na parte suave de tuas coxas. Sopro de brisa nas tuas bochechas. Leve areia sob tua pegada. Queria ser água, água salgada quando corres nua no litoral. Sol cortando em sombra tua banal Silhueta virgem recém-molhada. Tudo quisera ser, indefinido, ao teu redor: vista, luz, ambiente gaivota, céu, navio, vela, vento… A concha que aproximas ao ouvido, para poder unir, timidamente, com o rumor do mar, meu sentimento. Trad.: Nelson Santander Mañana es un mar hondo que hay que cruzar a nado Alga quisiera ser, alga enredada, en lo más suave de tu pantorrilla. Soplo de […]
- [António Barahona - Memórias](https://singularidadepoetica.art/2019/07/24/antonio-barahona-memorias/): Da minha vida, os anos que passaram não os quero de volta: só agora me basta pra viver, a toda a hora, os momentos que em mim se eternizaram. Caminho pesaroso, entre destroços de lutas amorosas, sem ter tréguas. Vão às cegas, meus passos pelas trevas de sombras movediças feitas de ossos. Lembro os que já se foram de viagem, Levando-me por essa morte fora, até ao fim da noite cor de aurora, porque é lúcida a luz dos que morrem.
- [Carlos Drummond de Andrade - Nosso Tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/23/carlos-drummond-de-andrade-nosso-tempo/): I Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te encontro. Onde te ocultas, precária síntese, penhor de meu sono, luz dormindo acesa na varanda? Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo sobe ao ombro para contar-me a cidade dos homens completos. Calo-me, espero, decifro. As coisas talvez melhorem. São tão fortes as coisas! Mas eu não […]
- [A. M. Pires Cabral - Folha rubra](https://singularidadepoetica.art/2019/07/22/a-m-pires-cabral-folha-rubra/): É bom sermos como essas folhas verdes que prolongam todo o ano a Primavera. Mas melhor do que isso é sermos como aquela folha rubra que antes das outras pressentiu o Outono e vestiu para ele a sua melhor cor, mesmo sabendo que o Inverno tem um plano para em breve a dissolver no chão.
- [Eugénio de Andrade - Quando em silêncio passas entre as folhas...](https://singularidadepoetica.art/2019/07/21/eugenio-de-andrade-quando-em-silencio-passas-entre-as-folhas/): Quando em silêncio passas entre as folhas, uma ave renasce da sua morte e agita as asas de repente; tremem maduras todas as espigas como se o próprio dia as inclinasse, e gravemente, comedidas, param as fontes a beber-te a face. Conheça outros livros de Eugénio de Andrade clicando aqui
- [Mario Quintana - Poema da gare de Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/20/mario-quintana-poema-da-gare-de-astapovo/): O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos E foi morrer na gare de Astapovo! Com certeza sentou-se a um velho banco, Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo Contra uma parede nua… Sentou-se …e sorriu amargamente Pensando que Em toda a sua vida Apenas restava de seu a Glória, Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas Coloridas Nas mãos esclerosadas de um caduco! E então a Morte, Ao vê-lo tão sozinho àquela hora Na estação deserta, Julgou que ele estivesse ali à sua espera, Quando apenas sentara para […]
- [Joan Margarit - Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2019/07/19/joan-margarit-astapovo/): De madrugada, quando só se ouvemrelógios no escuro,eu o imagino, com seus oitenta anos,fugindo em um trem russo que ia para o sul,de lugar nenhum, para onde os velhos sonham ir.Tolstói temia aquele invernoque o acompanhou durante a velhiceaté o leito de morte ferroviário,na noite em que o telégrafotransmitiu a mais breve e cruelde todas as suas mensagens.Quis correr mais rápido que o frio,mas seu trem foi coberto para semprepelos flocos de neve que caíamna gare de Astapovo.Iniciei minha fuga muito antes,pois aprendi com Tolstóique é preciso entrar na última estaçãoem alta velocidade. Assim a morte,sem tempo para nos avisar com […]
- [Manuel António Pina - Quinquagésimo ano](https://singularidadepoetica.art/2019/07/18/manuel-antonio-pina-quinquagesimo-ano/): São muitos dias (e alguns nem tantos como isso…) e começa a fazer-se tarde de um modo menos literário do que soía, (um modo literal e inerte que, no entanto, não posso dizer-te senão literariamente). Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr; a única coisa que corre é o tempo, do lado de fora, porque dentro a própria morte é uma maneira de dizer. Caem co’a calma as palavras que sustentaram o mundo, e nem por isso o mundo parece menos terreno ou impermanece. Restam, é certo, alguns livros, algumas memórias, algum sentido, mas tudo se passou noutro […]
- [Emily Dickinson - de "Não sou ninguém"](https://singularidadepoetica.art/2019/07/17/emily-dickinson-de-nao-sou-ninguem/): 27 Poetas mártires — não clamam — A Dor em sílabas transmudam — Falam por eles seus poemas — Quando já estejam mudos. Pintores mártires — Não falam — Com sua Obra eles almejam Que quando já não sejam mais — Alguns busquem na Arte — a Paz — Trad.: Augusto de Campos The Martyr Poets — did not tell — But wrought their Pang in syllable — That when their mortal name be numb — Their mortal fate — encourage Some — The Martyr Painters — never spoke — Bequeathing — rather — to their Work — That when their […]
- [Vasco Gato - Repara nos velhos](https://singularidadepoetica.art/2019/07/16/vasco-gato-repara-nos-velhos/): Repara nos velhos. Dementes, doridos, restos de casas. Vivem agora a lepra de todos nós. Não lhes chegamos. Tresandam. Esquecem. Apoderam-se do nada. E nós, capitosos, brindamos com o vinho que também eles sorveram, desdenhando a morte que, amarga como a nossa indiferença, haveremos de provar.
- [William Butler Yeats - As quatro idades do homem](https://singularidadepoetica.art/2019/07/15/william-butler-yeats-as-quatro-idades-do-homem-poema/): As quatro idades do homem, um poema de William Butler Yeates: Com seu corpo principiou uma rinha O corpo venceu; ereto ele caminha. Ele lutou então com o coração; Sua inocência e sua paz já se vão.
- [A. A. Milne – Narciso](https://singularidadepoetica.art/2019/07/14/a-a-milne-narciso/): Ela vestiu seu chapéu-de-sol,E pôs o seu mais verde vestido;Virou-se para o vento australE prestou-lhe o cortejo devido.Virou-se então para a luz do solE os cabelos louros agitou,E sussurrou para o seu vizinho:“O inverno acabou” Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Daffadowndilly She wore her yellow sun-bonnet,She wore her greenest gown;She turned to the south windAnd curtsied up and down.She turned to the sunlightAnd shook her yellow head,And whispered to her neighbour:“Winter is dead.”
- [Nelson Ascher - Saudade](https://singularidadepoetica.art/2019/07/13/nelson-ascher-saudade/): Posto que nem é de bom-tom falar sobre a tristeza insossa cujo vaivém, quando se apossa de mim, me embala como o som sem fim das ondas do Leblon, dispondo-me a curtir a fossa a sós, pus na vitrola a bossa nova de João, Vinícius, Tom, menos pra ouvir o que ela tem, porque talvez já nem me agrade a ausência tanto faz de quem, do que pra que, pouco à vontade, meu coração se encha, se bem que sob protesto, de saudade.
- [José Paulo Paes - Borboleta](https://singularidadepoetica.art/2019/07/12/jose-paulo-paes-borboleta/): Mal saíra do casulo para mostrar ao sol o esplendor de suas asas um pé distraído a pisou. (A visão de beleza dura um só instante inesquecível.)
- [Joseph Stroud - Tributo a Rolf Jacobsen](https://singularidadepoetica.art/2019/07/11/joseph-stroud-tributo-a-rolf-jacobsen/): A jaqueta amarela fica batendo contra a vidraça tentando sair. Desde o começo era apenas uma questão de abrir a janela, encontrar as palavras, e você por aí – em um outro, maior mundo. Para os mortos, o paraíso é a calçada na qual você caminha olhando as janelas, cantarolando, parando para um café. Trad.: Nelson Santander Homage To Rolf Jacobsen The yellow jacket keeps crashing against the pane trying to get out. All along it’s only a matter of opening the window, finding the words, and you’re out there — in the other, larger world. To the dead, paradise is […]
- [Maria do Rosário Pedreira - Onde quer que o encontres](https://singularidadepoetica.art/2019/07/10/maria-do-rosario-pedreira-onde-quer-que-o-encontres/): Onde quer que o encontres – escrito, rasgado ou desenhado: na areia, no papel, na casca de uma árvore, na pele de um muro, no ar que atravessar de repente a tua voz, na terra apodrecida sobre o meu corpo – é teu, para sempre, o meu nome.
- [Ferreira Gullar - Pela rua](https://singularidadepoetica.art/2019/07/09/ferreira-gullar-pela-rua/): Sem qualquer esperança detenho-me diante de uma vitrina de bolsas na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo, enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro. Sem qualquer esperança te espero. Na multidão que vai e vem entra e sai dos bares e cinemas surge teu rosto e some num vislumbre e o coração dispara. Te vejo no restaurante na fila do cinema, de azul diriges um automóvel, a pé cruzas a rua miragem que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios e se esvai nas nuvens. A cidade é grande tem quatro milhões de habitantes e tu és uma […]
- [Wisława Szymborska - Desatenção](https://singularidadepoetica.art/2019/07/08/wislawa-szymborska-desatencao/): Ontem me comportei mal no universo. Vivi o dia inteiro sem indagar nada, sem estranhar nada. Executei as tarefas diárias como se isso fosse tudo o que devia fazer. Inspirar, expirar, um passo, outro passo, obrigações, mas sem um pensamento que fosse além de sair de casa e voltar para casa. O mundo podia ter sido percebido como um mundo louco, e eu o tomei somente para uso habitual. Nenhum – como – e por quê – e como foi que aqui apareceu – e de que lhe servem tantas minúcias buliçosas. Fiquei como um prego mal pregado na parede ou […]
- [Czeslaw Milosz - A queda](https://singularidadepoetica.art/2019/07/07/czeslaw-milosz-a-queda/): A morte de um homem é como a queda de uma poderosa nação Que teve valentes exércitos, capitães e profetas, E ricos portos e barcos em todos os mares, Mas agora não socorrerá nenhuma cidade sitiada, Não entrará em nenhuma aliança, Porque suas cidades estão vazias, sua população dispersa, Sua terra que certa vez proveu de colheitas está saturada de cardos, Sua missão olvidada, sua língua perdida, O dialeto de um povo posto sobre inacessíveis montanhas. Trad.: Pedro Gonzaga Upadek Śmierć człowieka jest jak upadek państwa potężnego, Które miało bitne armie, wodzów i proroków, I porty bogate, i na wszystkich morzach […]
- [Daniel Faria - Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2019/07/06/daniel-faria-itaca/): O que dói É não poder apagar a tua ausência e repetir dia após dia os mesmos gestos O que dói é o teu nome que ficou como mendigo Descoberto em cada esquina dos meus versos O que dói é tudo e mais aquilo que desteço Ao tecer para ti novos regressos
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Quando](https://singularidadepoetica.art/2019/07/05/sophia-de-mello-breyner-andresen-quando/): Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje igualmente hão-de bailar As quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomar Em que eu tantas vezes passei, Haverá longos poentes sobre o mar, Outros amarão as coisas que eu amei. Será o mesmo brilho a mesma festa, Será o mesmo jardim à minha porta, E os cabelos doirados da floresta, Como se eu não estivesse morta.
- [Luis Alberto de Cuenca - O desjejum](https://singularidadepoetica.art/2019/07/04/luis-alberto-de-cuenca-o-desjejum/): Gosto quando dizes disparates, quando fazes asneiras, quando mentes, quando vais às compras com tua mãe e chego atrasado ao cinema por tua culpa. Gosto mais quando é meu aniversário e me cobres de beijos e bolos, ou quando estás feliz e dá para notar, ou quando és genial com uma frase que resume tudo, ou quando ris (teu riso é uma ducha no inferno), ou quando me perdoas um esquecimento. Mas eu ainda gosto mais, tanto que quase não posso resistir ao tanto que te gosto, quando, cheia de vida, despertas e a primeira coisa que fazes é dizer-me: “Estou […]
- [Nuno Júdice – Fábula industrial](https://singularidadepoetica.art/2019/07/03/nuno-judice-fabula-industrial/): As chaminés das fábricas tinham pescoços de cegonha, e quando deitavam fumo era como se as cegonhas abrissem as asas. Quando o fumo era preto, porém, as cegonhas transformavam-se em corvos de grandes pescoços feitos de tijolo; e ao contrário das cegonhas não voavam, mas faziam soar as sirenes com os bicos metálicos, para que os operários saíssem do seu ventre em direção a casa. No dia seguinte, se o fumo fosse branco, as operárias agarrar-se-iam às asas da cegonha e puxá-las-iam, como se fossem linho, para as enrolar e meter nos contentores que os barcos esperam no cais, para as […]
- [Adelaide Ivánova - os anos noventa](https://singularidadepoetica.art/2019/07/02/adelaide-ivanova-os-anos-noventa/): você não estava lá nas coisas mais decisivas da minha vida mas é assim mesmo: historiadores e arqueólogos nunca estiveram presentes pra testemunhar os levantes coletivos isso fazem os jornalistas e os videntes você era apenas um menino quando kurt cobain morreu nem poderia ainda saber o dano que causaria sua existência de crisálida taurino e primaveril quando meu destino cruzasse com o seu e andaríamos de mãos dadas e suando verão afora como se fosse o primeiro (e era) berlim não era tão esplendorosa quanto seus cachos jakob mas você nunca soube o que foi ter 16 anos em recife […]
- [Ian Hamilton - Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2019/07/01/ian-hamilton-fantasmas/): O caixão lustroso e suntuosamente adornadoDesliza como um novo navio para as profundezas em chamas.Na terra firme,A congregação se ajoelha em murmúrios. Do meu banco no cantoTenho uma visão livre e desimpedidade sua partida.Se você estivesse deitada de ladoTalvez pudesse captar seu olhar insuspeito. No pátio, ao anoitecer,Os tributos florais. Eu poderia jurarTer visto vocêAspirando o aroma das coroas de floresE contando as cabeças inclinadas dos enlutados por você. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Ghosts The scrubbed, magnificently decked coffinSkates, like a new ship, […]
- [Eugénio de Andrade - Com o tempo aproximar-se-ão os rios...](https://singularidadepoetica.art/2019/06/30/eugenio-de-andrade-com-o-tempo-aproximar-se-ao-os-rios/): Com o tempo aproximar-se-ão os rios e os montes, com o tempo acabará por te vir comer à mão e fazer ninho na tua cama o silêncio.
- [Joan Margarit - Banheiro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/29/joan-margarit-banheiro/): Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos álbunsque folheias amiúde. Teu heróiainda não aprendeu a lidar com a morte. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Joan Margarit – Cuarto de Baño Cuido que no te caigas al […]
- [Manuel António Pina - Todas as palavras](https://singularidadepoetica.art/2019/06/28/manuel-antonio-pina-todas-as-palavras/): As que procurei em vão, principalmente as que estiveram muito perto, como uma respiração, e não reconheci, ou desistiram e partiram para sempre, deixando no poema uma espécie de mágoa como uma marca de água impresente; as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te nem foram capazes de dizer-me; as que calei por serem muito cedo, e as que calei por serem muito tarde, e agora, sem tempo, me ardem; as que troquei por outras (como poderei esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?); as que perdi, verbos e substantivos de que por um momento foi feito o mundo e se foram levando […]
- [Heinrich Heine - Chegou a morte](https://singularidadepoetica.art/2019/06/27/heinrich-heine-chegou-a-morte/): Chegou a morte – agora vou Dizer o que o orgulho não Me permitiu: meu coração Tão só por ti pulsou, pulsou. Já estou fechado no ataúde, Descem-me à cova. A calmaria Me abraça enfim, mas tu, Maria, Por mim irás, muito amiúde, Chorar, e pra quê, afinal? Consola-te, este é o destino Humano: o que há de bom e fino E grande sempre acaba mal. Trad.: André Vallias Es kommt der Tod Es kommt der Tod — jetzt will ich sagen, Was zu verschweigen ewiglich Mein Stolz gebot: für dich, für dich, Es hat mein Herz für dich geschlagen! Der […]
- [Jorge Luis Borges - O cego](https://singularidadepoetica.art/2019/06/26/jorge-luis-borges-o-cego/): I Foi despojado do diverso mundo, Dos rostos, que ainda são o que eram antes, Das ruas próximas, hoje distantes, E do côncavo azul, ontem profundo. Dos livros lhe restou só o que deixa A memória, essa fórmula do olvido Que o formato retém, não o sentido, E que apenas os títulos enfeixa. O desnível espreita. Cada passo Pode levar à queda. Sou o lento Prisioneiro de um tempo sonolento Que não registra aurora nem ocaso. É noite. Não há outros. Com o verso Lavro este meu insípido universo. Trad.: Augusto de Campos El ciego I Lo han despojado del diverso […]
- [José Paulo Paes - Declaração de bens](https://singularidadepoetica.art/2019/06/25/jose-paulo-paes-declaracao-de-bens/): meu deus minha pátria minha família minha casa meu clube meu carro minha mulher minha escova de dentes meus calos minha vida meu câncer meus vermes
- [Joseph Stroud - Lázaro em Varanasi](https://singularidadepoetica.art/2019/06/24/joseph-stroud-lazaro-em-varanasi/): De uma pira no flamejante ghat,um cadáver se ergue lentamente entre as chamas.Como se lembrasse de algo importante.Como se quisesse olhar ao redor uma última vez.Como se finalmente tivesse algo a dizer.Como se houvesse uma saída para isso. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Lazarus In Varanasi From a pyre on the burning ghata corpse slowly sits up in the flames.As if remembering something important.As if to look around one more time.As if he has something at last to say.As if there might be a […]
- [Joseph Stroud - Lendo Kaváfis sozinho na cama](https://singularidadepoetica.art/2019/06/23/joseph-stroud-lendo-kavafis-sozinho-na-cama/): Eu, também, me lembro do passado, meu quarto iluminado por velas, e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto com seu rosto, com boca e língua e lábios, do pomar à noite, do odor das frutas, seus seios – lembra, corpo? – aquele quarto, lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes? Trad.: Nelson Santander Reading Cavafy Alone In Bed I, too, remember the past, my room lit by candles, and the night she entered and touched my face with her face, with mouth and tongue and lips, in the orchard night, in the odor of fruit, her breasts […]
- [Konstantinos Kaváfis - Lembra, corpo...](https://singularidadepoetica.art/2019/06/22/konstantinos-kavafis-lembra-corpo/): Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,não só os leitos onde repousaste,mas também os desejos que brilharampor ti em outros olhos, claramente,e que tornaram a voz trêmula – e que algumobstáculo casual fez malograr.Agora que isso tudo perdeu-se no passado,é quase como se a tais desejoste entregaras – e como brilhavam,lembra, nos olhos que te olhavam,e como por ti na voz tremiam, lembra, corpo. Trad.: José Paulo Paes Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Pedro Mexia - "O fogo, o ferro, o futuro"](https://singularidadepoetica.art/2019/06/21/pedro-mexia-o-fogo-o-ferro-o-futuro/): Eras um sustento, eras um segredo, uma feroz tentativa. Eras a roupa do corpo feito estandarte a caminho de casa e as tuas mãos metade das minhas. Eras um fascínio, eras um fracasso, eras a chama que nunca te queimou, o sul, o sufoco, a madrugada. Eras um tumulto de éguas e galgos, a minha impaciência, o meu verde vivo. Eras o que nunca podias, assombração sem fantasia descalça e abrigada, loureiro da Aquitânia. Eu era o viúvo, o tenebroso, consolado na água que de súbito secou. Eras o que foste, metáfora do que eu tanto te quis. O fogo, o […]
- [Wislawa Szymborska - Mapa](https://singularidadepoetica.art/2019/06/20/wislawa-szymborska-mapa/): Plano como a mesa na qual está colocado. Debaixo dele nada se move nem busca vazão. Sobre ele – meu hálito humano não cria vórtices de ar e deixa toda a sua superfície em silêncio. Suas planícies, vales, são sempre verdes, os planaltos, montanhas, amarelos e marrons e os mares, oceanos, de um azul delicado nas margens fendidas. Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível. Posso tocar os vulcões com a ponta da unha, acariciar os polos sem luvas grossas. Com um olhar posso abarcar cada deserto junto com o rio logo ali ao lado. Selvas são assinaladas com arvorezinhas entre as […]
- [Jorge Sousa Braga - Litania](https://singularidadepoetica.art/2019/06/19/jorge-sousa-braga-litania/): Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparente Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos ainda escorrendo sangue Uma pequena construção toda em pedra com divisões de tijolo e cal hidráulica e janelas abrindo para o vale Com o teu útero Com a memória do pão depois de levedado e da tua saia comprida cheia de farinha Com a memória de uma gema de ovo Com o teu útero Com a memória de uns sapatos demasiado apertados Com a memória do […]
- [Nuno Júdice - Nostalgia de setembro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/18/nuno-judice-nostalgia-de-setembro/): Quando vinham as nuvens de setembro, já os pássaros tinham emigrado para além dos mares, o campo ficava em longos silêncios que só a passagem dos rebanhos, a caminho do matadouro, cortava num tropel que ecoava ainda, depois da paisagem, com os gritos do pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvens quando começavam as primeiras chuvas, e podia ouvir o bater dos pingos na janela, empurrados pelo vento, e o ruído da água a correr nas goteiras, e a inundar as valetas, arrastando o lixo e as memórias do verão. Porém, ainda te vejo, com o vestido encharcado […]
- [A. M. Pires Cabral - O Vento](https://singularidadepoetica.art/2019/06/17/a-m-pires-cabral-o-vento/): É fácil dizer que o vento tem gatos na voz enfurecidos. Que afaga e despenteia, traz a chuva. Que levanta as telhas, exercita na noite os nossos mais pesados pesadelos. É fácil ser poeta à custa do vento. Fingir que não sabemos que o vento não é senão o vazio que muda de lugar.
- [Carlos Bousoño - À distância](https://singularidadepoetica.art/2019/06/16/carlos-bousono-a-distancia/): Passa a juventude, e passa a vida, passa o amor, a morte também passa, o vento, a amargura que trespassa a pátria espessa, hirta e adormecida. Adormecida, em sonho eterno, olvida. Mortos e vivos na mesma argamassa dormem igual sina e alegria escassa. Pátria, profundeza, pedra perdida. Pedra perdida, imersa, vivos, mortos. Toda Espanha dorme já sua história. As campinas tristes e os céus hirtos. Sobre a folha escrita está tua glória: pretender edificar nos desertos; ambicionar à luz mais ilusória. Trad.: Nelson Santander Desde lejos Pasa la juventud, pasa la vida, pasa el amor, la muerte también pasa, el viento, […]
- [David Teles Pereira - Tractatus de Legibus ac Deo Legislatore (Livro III, Capítulo II)](https://singularidadepoetica.art/2019/06/15/david-teles-pereira-tractatus-de-legibus-ac-deo-legislatore-livro-iii-capitulo-ii/): Ao meu avô Nunca mais me irás interromper ao comentar uma passagem do de Legibus de Francisco Suárez, mas, por agora, a nuvem castanha que te ocupa o peito sufoca-me a voz. As nossas leis não chegam para acalmar todos os vícios e o pior de todos é chorar-te por não te poder dizer, seguindo Castro, seguindo Suárez, que nenhum poder pertence a um só homem, mesmo a um com umas mãos como as tuas capazes de me virar as costuras aos olhos. O teu pacto, se é que me diz respeito, chegou invisível, insípido a escoar entre portas, sem nunca […]
- [Maria do Rosário Pedreira - À avó](https://singularidadepoetica.art/2019/06/14/maria-do-rosario-pedreira-a-avo/): Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a casa se encheu por causadas crianças e um de nós ocupou a cabeceira,não cheguei a saberse era para tornar a festa menos dolorosa,se para voltar a sentir o quente do teu colo.
- [Helder Moura Pereira - "Eras mesmo a fonte de tudo..."](https://singularidadepoetica.art/2019/06/13/helder-moura-pereira-eras-mesmo-a-fonte-de-tudo/): Eras mesmo a fonte de tudo, pelo menos naquele dia a que chamamos perfeito. Os dias tinham-se entranhado nos dias, a tal ponto que a vida era só dias, dias a seguir uns aos outros. Apenas dias. De olhos vendados e sem bater numa única parede, pegados a isto, ao cheiro reconhecido só quando um dos corpos se afasta. Sente-se a falta, eu farejo como um cão e depois sento-me triste a um canto com um livro na mão. Mas naquele dia que ambos classificamos de perfeito eu pude ver a vida ali desdobrada em duas à minha frente. E a […]
- [Andreia C. Faria - "Espero o dia em que possa..."](https://singularidadepoetica.art/2019/06/12/andreia-c-faria-espero-o-dia-em-que-possa/): Espero o dia em que possa deixar crescer as unhas as meias por cerzir a boca sem propósito de beijar. O dia que misture à noite uma respiração de espelhos, um registro acidental, mortificado, ou o livro que se leu na tarde até perder a luz. Que a natureza avance em mim sem esperança de ressurgimento. Afagarei um cão sem medo de guardar mãos ásperas. E em ti não pensarei. Entre nós uma opressão de mundos, distâncias sem cura (do autocarro para os subúrbios, do crente relativamente a deus), uma disciplina oposta ao prazer. Espero o dia em que console e […]
- [Juan Vicente Piqueras - Confissão do fugitivo](https://singularidadepoetica.art/2019/06/11/juan-vicente-piqueras-confissao-do-fugitivo/): Só sou feliz partindo. Não entre quatro paredes, à mercê das espadas, mas entre aqui e ali, uma e outra casa, ambas de preferência alheias. Já não posso, nem quero, estar quieto. Nem agora nem depois. Nem aqui nem ali. Em todo caso aí, onde tu estás, seja tu quem fores, põe o teu nome nos meus lábios sedentos, insaciáveis. Eu não sou eu nem posso ter casa. Não digo já porque foi sempre assim, nunca a tive, sempre fui estrangeiro dentro e fora de mim. Sou o que sou: o mendigo que dorme debaixo da ponte que une as minhas […]
- [Ferreira Gullar - Verão](https://singularidadepoetica.art/2019/06/10/ferreira-gullar-verao/): Este fevereiro azul como a chama da paixão nascido com a morte certa com prevista duração deflagra suas manhãs sobre as montanhas e o mar com o desatino de tudo que está para se acabar. A carne de fevereiro tem o sabor suicida de coisa que está vivendo vivendo mas já perdida. Mas como tudo que vive não desiste de viver, fevereiro não desiste: vai morrer, não quer morrer. E a luta de resistência se trava em todo lugar: por cima dos edifícios por sobre as águas do mar. O vento que empurra a tarde arrasta a fera ferida, rasga-lhe o […]
- [Czesław Miłosz - Uma descrição honesta de mim mesmo com um copo de whisky num aeroporto, digamos, em Minneapolis](https://singularidadepoetica.art/2019/06/09/czelaw-milosz-uma-descricao-honesta-de-mim-mesmo-com-um-copo-de-whisky-num-aeroporto-digamos-em-minneapolis/): Meus ouvidos captam cada vez menos as conversas, meus olhos vêm se tornando fracos, embora sigam insaciáveis. Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas, em tecidos ondulantes, Observo uma a uma, separadamente, suas bundas e coxas, acalentado por sonhos pornô. Velho depravado, é chegada a hora da cova, não dos jogos e folguedos da juventude. Mas eu faço o que sempre fiz: componho cenas dessa terra sob as ordens da imaginação erótica. Não é que eu deseje estas criaturas em particular, desejo tudo, e elas são como um signo de uma união extática. Não é minha culpa se somos feitos […]
- [Walt Whitman – Aos que Falharam](https://singularidadepoetica.art/2019/06/08/walt-whitman-aos-que-falharam/): Aos que falharam, grandes na aspiração, aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate, aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos, aos super-ardorosos viajantes, a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento – eu gostaria de erguer um momento coberto de louros alto, bem alto, acima dos demais: A todos os truncados antes do tempo, arrebatados por algum estranho espírito de fogo, tocados por morte prematura. Trad.: Geir Campos To Those Who’ve Fail’d To those who’ve fail’d in aspirations vast, To unnamed soldiers, fall’n in front, on the lead, To calm, devoted engineers, to over ardent travellers, to […]
- [Adelaide Ivánova - um poema pra italo](https://singularidadepoetica.art/2019/06/07/adelaide-ivanova-um-poema-pra-italo/): a vida tem estado mesmo dura vou poupar-te da ladainha sobre temer AfD #voltadilma e o caralho não ganhamos dos bancos em caruaru ou karlsruhe meu dinheiro e endereço: bloqueados a moça do balcão cagou pra mim ser cidadão não significa merda nenhuma mas é privilégio nessa europa genocida (e quando é que ela não foi?) ser branco nunca deixou de ser no entanto dão-me tapinhas nas costas pelo meu alemão impecável meu alemão não é impecável mas como em relação às minhas capacidades já que sou latina são extremamente baixas as expectativas qualquer coisa que eu não faça muito mal […]
- [Nicolás Guillén - Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2019/06/06/nicolas-guillen-um-poema-de-amor/): Não sei. Ignoro-o.Desconheço todo o tempo que andeisem encontrá-la novamente.Quem sabe um século? Talvez.Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.Ou um mês. Poderia ser. De qualquer formaum tempo enorme, enorme, enorme.Ao fim como uma rosa súbita,repentina campânula tremendo,a notícia.Saber de prontoque ia voltar a vê-lá, que a teriaperto, tangível, real, como nos sonhos.Que troar surdoRodando-me nas veias,estalando lá em cimasob meu sangue, em umanoturna tempestade!E o achado, em seguida? E a maneiracomo ninguém compreenderiaque essa é nossa própria maneira?Um roçar apenas, um contato elétrico,um apertão conspiratório, uma olhada,um palpitar do coraçãogritando, ululando com silenciosa voz.Depois(já o sabeis desde os quinze […]
- [Ian Hamilton - Vizinhos](https://singularidadepoetica.art/2019/06/05/ian-hamilton-vizinhos/): Das janelasDo decadente hotel do outro lado da ruaMisteriosos hóspedes noturnos emergemEm suas varandasPara aspirar o ar fresco da noite. Nós os deixamos nos observarEm nossas vidas pacatas.Eles nos permitem imaginaro que o destino lhes reservou. Trad.: Nelson Santander Neighbours From the bay windowsOf the mouldering hotel across the road from usMysterious, one-night itinerants emergeOn to their balconiesTo breathe the cool night air. We let them stareIn at our quiet lives.They let us wonder what’s become of them.
- [Eugénio de Andrade - Ver claro](https://singularidadepoetica.art/2019/06/04/eugenio-de-andrade-ver-claro-2/): Toda poesia é luminosa, até A mais obscura. O leitor é que tem às vezes, Em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver o claro. Se regressar Outra vez e outra vez E outra vez A essas sílabas acesas Ficará cego de tanta claridade Abençoado seja se lá chegar.
- [Joan Margarit - Por que fomos covardes](https://singularidadepoetica.art/2019/06/03/joan-margarit-por-que-fomos-covardes/): Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil. Sempre farás amor com uma sombra de olhos azuis, e estarás tão só como em uma vingança. Ao longe, as luzes de Roses cintilam assim como a minha memória. Há uma fúria triste, mas ninguém no final. Perdemos o cavalo sem cavaleiro que nunca passa uma segunda vez. Trad.: Nelson Santander Por si fuésemos cobardes No podrás olvidar mi cuerpo esbelto y ágil. Siempre harás el amor con una sombra de ojos azules, y estarás tan solo como en una venganza. A lo lejos, las luces de Roses centellean igual que mi memoria. […]
- [Manuel António Pina - Café do molhe](https://singularidadepoetica.art/2019/06/02/manuel-antonio-pina-cafe-do-molhe/): Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) por que a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe) conhecia de cor, em castelhano e tudo. Porém se o soubesse de pouco me teria então servido, ou de nada. Porque estavas inclinada de um modo tão perfeito sobre a mesa e o meu coração batia tão infundadamente no teu peito sob a tua blusa acesa […]
- [Konstantinos Kaváfis - Velas](https://singularidadepoetica.art/2019/06/01/konstantinos-kavafis-velas/): Os dias futuros se erguem diante de nós como uma fileira de velas acesas – douradas, vivazes, cálidas velas. Os dias do passado ficaram tão para trás, fúnebre fileira consumida onde as mais próximas ainda fumam, velas frias, retorcidas e desfeitas. Não quero vê-las; seu aspecto me aflige, me aflige recordar sua luz primeira. Vejo diante de mim as velas acesas. Não quero me voltar, e estremecer ao contemplar que rapidamente aumenta a fileira sombria, que rapidamente cresce com suas velas já consumidas. Trad.: Pedro Gonzaga
- [Idea Vilariño - Não mais](https://singularidadepoetica.art/2019/05/31/idea-vilarino-nao-mais/): Não mais será não mais não viveremos juntos não criarei teu filho não coserei tua roupa não te terei à noite não te beijarei ao partir nunca saberás quem fui por que outros me amaram. Não chegarei a saber por que nem porque nunca nem se era verdadeiro o que disseste que era nem quem foste nem o que fui para ti nem como teria sido vivermos juntos amarmo-nos esperarmo-nos estarmos juntos. Agora não sou mais do que eu para sempre e tu já não serás para mim mais do que tu. Já não estás em algum dia futuro não saberei […]
- [Nâzim Hikmet - O último ônibus](https://singularidadepoetica.art/2019/05/30/nazim-hikmet-o-ultimo-onibus/): Meia-noite. O último ônibus.O condutor rasga os bilhetes.Não me esperam em casa nem uma má notícianem a fartura da bebida.Para mim, é a partida que espera.Caminho em direção a ela sem medoou tristeza. A escuridão imensa se aproxima de mim.Posso olhar para o mundocalma e serenamente, agora.Já não me surpreende a traição de um amigo,a faca estocada num aperto de mão.É tudo em vão, o inimigo já não pode mais me provocar.Cruzei a floresta dos ídolosusando meu machadode que maneira fácil todos desabaram.Testei as coisas em que acredito, uma vez mais,boa parte delas se revelou em sua pureza, pelo que sou […]
- [Daniel Faria - Infância](https://singularidadepoetica.art/2019/05/29/daniel-faria-infancia/): e jogava o pião com Deus enquanto minha mãe estendia roupa e o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempo era muito próxima da dos meninos e de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro: o pião ou Deus apenas sei que Deus continua a jogar com outros meninos e que no Outono quando saio à praça nos sentamos e falamos muito do suave rodopiar das folhas
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Não te esqueças nunca](https://singularidadepoetica.art/2019/05/28/sophia-de-mello-breyner-andresen-nao-te-esquecas-nunca/): Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina O pinhal a coluna a veemência divina O templo o teatro o rolar de uma pinha O ar cheirava a mel e a pedra a resina Na estátua morava tua nudez marinha Sob o sol azul e a veemência divina Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima O horror o terror a suprema ignomínia
- [Luis Alberto de Cuenca - O véu protetor](https://singularidadepoetica.art/2019/05/27/luis-alberto-de-cuenca-o-veu-protetor/): Amanheceu e nós estávamos dentro da vil realidade, o que não pode ser bom. Melhor seria que passassem logo as horas inúteis em que o dia proscreve a aventura com as normas do tédio laboral, e que voltassem a noite e as suas estrelas a envolver-nos no seu véu fantástico e a dar-nos a inútil sensação de estarmos vivos. Trad.: Miguel Filipe Mochila
- [Yehuda Amichai - 1924](https://singularidadepoetica.art/2019/05/26/yehuda-amichai-1924/): Nasci em 1924. Se eu fosse um violino da minha idade não seria dos melhores. Como vinho seria um cinco estrelas ou vinagre. Como cachorro estaria morto. Como um livro estaria me tornando caro, ou estaria abandonado num sebo qualquer. Como uma floresta eu seria jovem; como uma máquina, ridículo. Como uma criatura humana, estou cansado, muito cansado. Nasci em 1924. Quando penso em criaturas humanas, vejo apenas as que nasceram no ano em que nasci, cujas mães trabalharam lado a lado com a minha onde quer que estivessem, em hospitais ou casas escuras. Hoje, no meu aniversário, gostaria de recitar […]
- [Walt Whitman - Pleno de vida agora](https://singularidadepoetica.art/2019/05/25/walt-whitman-pleno-de-vida-agora-poema/): Pleno de vida agora, consistente, visível, Eu, quarenta anos vividos, no ano oitenta e três anos dos Estados, Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for, A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto. Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível, Enquanto tu serás consistente e visível, e darás realidade a meus poemas, voltando-te para mim, Imaginando como seria bom se eu pudesse estar contigo e ser teu camarada: Faz de conta que eu estou contigo. (E não o duvides muito, porque eu estou aí nesse momento.) Trad.: Ferreira […]
- [Miguel-Manso – No número de outubro da revista Wire](https://singularidadepoetica.art/2019/05/24/miguel-manso-no-numero-de-outubro-da-revista-wire/): frente ao fotógrafo e ao leitor o homem envelhecido parece que já não olha Mitra o deus sol dos psicadélicos noutra foto no interior da revista o poeta está sentado a uma pequena mesa de frente para a janela onde as cortinas brancas filtram a luz e o ruído da rua sentado na cadeira de rodas ele espera dentro da claridade delicada da manhã e depois durante a noite assiste ao que resta do mundo junto à máquina (a soft machine) de escrever pousada no tampo (eu ia escrever no tempo) da mesa não sei se caem pétalas dentro do olhar […]
- [Andreia C. Faria - San Cibrán de Las](https://singularidadepoetica.art/2019/05/23/andreia-c-faria-san-cibran-de-las/): Ainda aos sábados os homens passeiam pelo que resta das muralhas e as mulheres procuram vestígios – os pulsos nus, a canteira e a nascente de água, a paciência necessária a quem se alimentava desse pão É também este o meu plano para a velhice: ervas de que não sei o nome, a ruína interior de uma casa, animais que serão meus iguais Em noite de São João vêem-se as estrelas cadentes se a luz das estradas não contaminam o céu No chão deste recinto estão as brasas apagadas dos cigarros, excrementos e latas de cerveja são as nossas constelações
- [Gonçalo M. Tavares - uma síntese disto tudo](https://singularidadepoetica.art/2019/05/22/goncalo-m-tavares-uma-sintese-disto-tudo/): é porque existe o desejo, o olfato, e o medo, e os vivos apaixonam-se por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos, e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho, e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável E não basta então a mulher que amamos, nem os filhos – os que nos vão sobrevive no tempo – e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr, é preciso sair dos ossos, fugir do obrigatório, à casa, encontrar […]
- [Adelaide Ivánova - o elefante](https://singularidadepoetica.art/2019/05/21/adelaide-ivanova-o-elefante/): quando johanna morreu tinha um ano e oito meses foi encontrada na piscina apertava um elefante na mão que sua mãe até hoje aperta muito embora o alzheimer lhe impeça de lembrar por que ela a mãe pulou na piscina ao ver johanna à deriva no ventinho do norte da renânia boiando na piscina que o pai de johanna esqueceu de cobrir enquanto jogava tênis com outros amigos talvez tão ou mais ricos do que eles a mãe de johanna que hoje já não se lembra de muita coisa como falei por causa do alzheimer lembrou no entanto de guardar o […]
- [Goliarda Sapienza - Sem título](https://singularidadepoetica.art/2019/05/20/goliarda-sapienza-sem-titulo/): Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se. Consumiu-se o incêndio. Findou-se. Fechou-se o círculo petrificado. Findou-se o tempo. Consumiu-se o delito. Queimou-se a lembrança. Cessou a angústia. Um manto de lava interditou todo crânio toda órbita esvaziada. Toda boca no grito interditou. Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar o silêncio de lava. As formigas rodeiam o fogo gasto enlouquecidas. Trad.: Valentina Cantori Goliarda Sapienza È compiuto. È concluso. È terminato. È consumato l’incendio. S’è fermato. S’è chiuso il cerchio pietrificato. Il tempo s’è fermato. È consumato il delitto. S’è bruciato il ricordo. L’ansia è cessata. Una coltre di lava ha sigillato ogni cranio ogni […]
- [Ian Hamilton - Última Valsa](https://singularidadepoetica.art/2019/05/19/ian-hamilton-ultima-valsa/): De onde estamos quase que podemos identificar Os rostos destas pessoas que não conhecemos: Um semi-círculo sombreado Ao redor do enorme aparelho de TV doado Que domina nossa ala. A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre eles Iluminando Amistosos, exaustos sorrisos. E nós, Como se nos importássemos, também sorrimos. Para cada alma perdida, nesta hora tardia Um sedado espasmo de felicidade. Trad.: Nelson Santander Last Waltz From where we sit, we can just about identify The faces of these people we don’t know: A shadowed semi-circle Ranged around the huge, donated television set That dominates the ward. The ‘Last Waltz’ floods over them […]
- [Jaime Gil de Biedma - Depois da morte de Jaime Gil de Biedma](https://singularidadepoetica.art/2019/05/18/jaime-gil-de-biedma-depois-da-morte-de-jaime-gil-de-biedma/): No jardim, lendo, a sombra da casa tolda as páginas e o frio repentino do final de agosto faz-me pensar em ti. O jardim e a casa vizinha onde piam os pássaros nas trepadeiras, uma tarde de agosto, quando começa a anoitecer e tem-se ainda o livro nas mãos, eram, lembro-me, teu símbolo da morte. Oxalá no inferno de teus últimos dias te desse esta visão um pouco de doçura, embora não acredite nisso. Finalmente em paz comigo mesmo, posso já recordar-te não nas horas horríveis, mas sim aqui, no verão do ano passado quando, de um só golpe, – tantos […]
- [Vicente Gaos - Homem Total](https://singularidadepoetica.art/2019/05/17/vicente-gaos-homem-total/): "Homem Total", um poema de Vicente Gaos que homenageia Lope de Vega ao revisitar suas paixões e musas, refletindo sobre a intensidade do amor, a fugacidade dos anos e a elevação espiritual que transcende os gozos e pesares da experiência humana.
- [Helena Zelic - Gaveta de Casa](https://singularidadepoetica.art/2019/05/16/helena-zelic-gaveta-de-casa/): Nossas fotos de infância boletins de nota azul três diários à chave hoje abertos duzentos milhões de pequenos museus da desimportância
- [Eugénio de Andrade - Ao fim da tarde](https://singularidadepoetica.art/2019/05/15/eugenio-de-andrade-ao-fim-da-tarde/): Ninguém esperava ver o mar naquele dia mas era o mar que estava ali, à porta naqueles olhos.
- [Giuseppe Ungaretti - Sentimento do tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/05/14/giuseppe-ungaretti-sentimento-do-tempo/): Sentimento do tempo1931 E à luz mais própria,Deixando apenas uma sombra violácea,Sobre os cimos mais baixos,A distância aberta ao alcance,Cada batida, como usa o coração,Agora escuto,Apressa-te, tempo, a por-me sobre os lábiosTeu último beijo. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sentimento del tempo1931 E per la luce giusta,Cadendo solo un ombra violaSopra il giogo meno alto,La lontananza aperta alla misura,Ogni mio palpito, come usa il cuore,Ma ora l’ascolto,T’affretta, tempo, a pormi sulle labbraLe tue labbra ultime.
- [Raymond Carver - Fragmento final](https://singularidadepoetica.art/2019/05/13/raymond-carver-fragmento-final/): E você teve o que queriadesta vida, apesar de tudo?Tive.E o que você queria?Dizer que fui amado, me sentiramado sobre a terra. Trad.: Cide Piquet Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Raymond Carver – Late Fragment And did you get whatyou wanted from this life, even so?I did.And what did you want?To call myself beloved, to feel myselfbeloved on the earth.
- [Joan Margarit - Monumentos](https://singularidadepoetica.art/2019/05/12/joan-margarit-monumentos/): O vazio que sentes, cada vez com mais força,é o dos traidores.Também os monumentos, por dentro, são vazios,com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:escuros e corroídos pela história,é tão sinistro seu interiorcomo arrogante o gesto que no ardesenha a personagem.À medida que os amigos nos traem– e a morte é também uma traição –nos vamos convertendo em monumentos.Por fora, ainda resta um resquício de eloquência,sobretudo ao falar com alguém jovem,mas a voz ressoa no vazio,perdida entre os vergalhões de uma oculta estruturaque se desgasta em finas camadas de ferrugem. Trad.: Nelson Santander Joan Margarit – Monumentos El vacío que […]
- [Manuel António Pina - Sérgio](https://singularidadepoetica.art/2019/05/11/manuel-antonio-pina-sergio/): Onde agora estás não alcançam o clamor dos magistrados nem a faca do assassino. A tua própria morte não te pertence já, é assunto nosso, desprovido e inerte. Que faremos nós com o teu inúmero corpo, como te diremos o que está a acontecer-te? Fechou-se qualquer coisa qualquer porta espessa e desabitada, a faca pôs tudo como estava. Sobram, inúteis, as lágrimas (mais isso que te importa?), as últimas palavras, a última carta; se não fosse essa faca seria outra faca noutra noite noutra auto-estrada e se não fosses tu seria outro do mesmo modo vivo e morto. 31/12/88
- [Andreia C. Faria - As mulheres têm formas mais curiosas](https://singularidadepoetica.art/2019/05/10/andreia-c-faria-as-mulheres-tem-formas-mais-curiosas/): As mulheres têm formas mais curiosas Se eu montasse um circo, em vez de elefantes teria Senhoras com os seus diferentes peitos coxas e rabos, todo o corpo fingimento, adereço Senhoras com os seus diferentes almoços, amantes e diferentes níveis de tonificação da alma, rivais dos tigres desdenhosos, dos leões emparedados Em vez de macacos teria Senhoras de imitação, raparigas de ventre baixo, a gravidade resoluta avançando-as, expiando a obliquidade dos ossos de parir, a posição correta, espiando umas as outras, preferindo-se na paisagem no espelho ao modelo enxuto, clássico, favorecido, dos homens, espiando os ângulos, forçando a cabeça a voltar-se […]
- [Adelaide Ivánova - pro meu amante, quando atinge a maioridade](https://singularidadepoetica.art/2019/05/09/adelaide-ivanova-pro-meu-amante-quando-atinge-a-maioridade/): “Pro meu amante, quando atinge a maioridade”, um poema de Adelaide Ivanova que entrelaça amor, memória e consciência do tempo em uma celebração agridoce do amadurecimento.
- [A. M. Pires Cabral - Não me mostres nenhum norte](https://singularidadepoetica.art/2019/05/08/a-m-pires-cabral-nao-me-mostres-nenhum-norte/): Não me mostres nenhum norte nem estradas para lá: são tudo embustes. Mostra-me antes pedras, folhas mortas de Outono atapetando o chão das matas, voos de libelinha rasando o sol poente, cândidas risadas infantis. Quero eu dizer: mostra-me coisas daquelas que se corrompem sem pressa.
- [Ian Hamilton - Lamento](https://singularidadepoetica.art/2019/05/07/ian-hamilton-lamento/): Fiz o que pude. Meus garotos correm soltos agora.Eles buscam oportunidades enquanto a mãe deles apodrece aqui.E rua acima, o homem,Meu único homem, que me tocou em todos os lugares,Desmancha-se sob a terra. Sou triste, obtusa, velha e alienada.À noite, sinto minhas mãos vagando sobre mim,Sondando meus seios, meus joelhos,As dobras do meu ventre,Vez ou outra pressionando e às vezes,Em sua fome, dilacerando-me.Vivo só. Meus garotos correm, deixando a mãe deles como se fosse um calhauRolando no recreio depois que tocou o sinal.Acumulo poeira e quase desejo a sepultura.Ter bichinhos habitando em mim já seria algo.Mas aqui, aos oito novamente, observo […]
- [Gonçalo M. Tavares - Palavras, Atos](https://singularidadepoetica.art/2019/05/06/goncalo-m-tavares-palavras-atos/): A ironia ensina a sabotar uma frase Como se faz a um motor de automóvel: Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres No verbo ou numa letra do substantivo A frase trágica torna-se divertida, E a divertida, trágica. Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me, Desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar A linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo Portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita Aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida Comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero Envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.
- [Marina Colasanti - Sexta-feira à noite](https://singularidadepoetica.art/2023/04/08/marina-colasanti-sexta-feira-a-noite-2/): Sexta-feira à noiteOs homens acariciam o clitóris das esposasCom dedos molhados de saliva.O mesmo gesto com que todos os diasContam dinheiro, papéis, documentosE folheiam nas revistasA vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noiteOs homens penetram suas esposasCom tédio e pénis.O mesmo tédio com que todos os diasEnfiam o carro na garagemO dedo no narizE metem […]
- [Alex Dimitrov – Os anos](https://singularidadepoetica.art/2023/04/07/alex-dimitrov-os-anos/): Leia "Os anos", de Alex Dimitrov, um poema melancólico e elegante sobre amizade, memória, juventude e a passagem do tempo.
- [Charles Simic - Na Biblioteca](https://singularidadepoetica.art/2023/04/06/charles-simic-na-biblioteca-2/): Para Octavio Há um livro chamado“Um Dicionário dos Anjos”.Ninguém o abre há cinquenta anos,Eu sei, porque quando o fizAs capas rangeram, as páginasdesmancham-se. Nele descobriQue os anjos eram tão abundantesQuanto moscas. Ao entardecer, o céuCostumava ficar repleto deles.Você precisava agitar os dois braçosApenas para mante-los à distância.Agora o sol brilhaAtravés de altas janelas.A biblioteca é […]
- [Eugenio Montale – O lago de Annecy](https://singularidadepoetica.art/2023/04/05/eugenio-montale-o-lago-annecy/): Não sei por que minhas memórias te relacionamao lago de Annecyque visitei alguns anos antes de tua morte.Mas na época eu não pensava em ti, era joveme julgava ser o senhor do meu destino.Por que uma memória tão enterrada é capaz deaflorar eu não sei; tu mesmacertamente me enterraste e nem percebeste.Agora ressurges viva, embora […]
- [Inês Dias – Lei Sálica](https://singularidadepoetica.art/2023/04/04/ines-dias-lei-salica-2/): As mulheres da família sempretiveram um jeito quase póstumode existir: guardar o lumeem silêncio, comer depois deservir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destinopara lerem os caminhos perdidose coleccionavam a abdicaçãoem caixinhas de folha, entre bilhetescaducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a vida toda por uma vidapróxima, de alma presa […]
- [José Infante – [A morte é definitivamente o fim]](https://singularidadepoetica.art/2023/04/03/jose-infante-a-morte-e-definitivamente-o-fim/): A morte é definitivamente o fim, por maisque nos tentem enganar com cânticos,com hinos, com orações e salmos.A morte é o fim e é justoque seja assim. Que não hajarecompensas nem punições. Somenteque nos deixem perdermo-nos no nada,de onde viemos sem ter sidopreviamente convidados. Trad.: Nelson Santander [La muerte sí es el final] La muerte […]
- [Manuel António Pina - Relatório](https://singularidadepoetica.art/2023/04/02/manuel-antonio-pina-relatorio-2/): É um mundo pequeno,habitado por animais pequenos– a dúvida, a possibilidade da morte –e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros,os teus passos subindo as escadas,o gato brincando na salacom o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa,um pouco mais alta que um impérioe um pouco mais […]
- [Danusha Laméris - Nada quer sofrer](https://singularidadepoetica.art/2023/04/01/danusha-lameris-nada-quer-sofrer/): Nada quer sofrer após LInda Hogan Nada quer sofrer. Nem o ventoque arranha contra a encosta. Nem o penhasco sendo devorado, lentamente, pelo mar. A terra não quersofrer o pisoteio bruto de quem a ignora. As árvores não querem sofrer o machado, nem versuas irmãs derrubadas pela podridão, pelo mofo e oxidação de suas raízes. […]
- [Vitor Nogueira – Sementes](https://singularidadepoetica.art/2023/03/31/vitor-nogueira-sementes-2/): É claro que me lembro. Havia dois atalhospelo meio do pinhal, direcções espantosamenteprecisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,havia talismãs pendurados nas árvores e mercúriopara tratar certas lesões, uma peça vitaldo equipamento. Havia girassóis à volta da casae as palavras imortais dos espantalhos, uma formade evitar que endoidecêssemos. E […]
- [Brad Aaron Modlin – O que você perdeu no dia em que não foi à aula](https://singularidadepoetica.art/2023/03/30/brad-aaron-modlin-o-que-voce-perdeu-naquele-dia-em-que-faltou-na-quarta-serie/): A Sra. Nelson explicou como ficar imóvel e ouviro vento, como encontrar sentido em encher o tanque, como descascar batatas pode ser uma forma de oração. Ela respondeua perguntas sobre como não se sentir perdido no escuro. Depois do recreio, ela distribuiu folhas de exercíciosque abordavam maneiras de como lembrar as vozes de nossos avôs. […]
- [Ana Martins Marques - de "Três Postais"](https://singularidadepoetica.art/2023/03/29/ana-martins-marques-de-tres-postais-2/): Leia "São Paulo" (de 'Três Postais'), de Ana Martins Marques, um poema delicado sobre memória amorosa, ausência e a forma como os lugares preservam aquilo que perdemos.
- [Wendy Cope – Em um trem](https://singularidadepoetica.art/2023/03/28/wendy-cope-em-um-trem/): O livro que estou lendo repousa em meu joelho. Você dorme. Lá fora é tão bonito —campos, pequenos lagos e árvores de invernosob o sol de fevereiro,cada estacionamento um brilhante mosaico. Longos e radiantes minutos,sua mão na minha mão,ainda quente, ainda quente. Trad.: Nelson Santander On a Train The book I’ve been readingrests on my […]
- [José Alcaraz - Volta para Casa](https://singularidadepoetica.art/2023/03/27/jose-alcaraz-volta-para-casa-2/): Atravessa as ruasabsorto nos ecos das pessoas,distante até de seus pensamentos.Não chove, não abre o seu guarda-chuva,no entanto, como sempre, molham-senão só seus sapatoscomo a vida também, porque às vezesesquece que o mundo o reclama.Caminha como quem não sabe para onde,em cada passo crê estar sozinho,mais distante das outras pessoas,por isso demora a encontrar as […]
- [Ferreira Gullar – Poema](https://singularidadepoetica.art/2023/03/26/ferreira-gullar-poema/): Se morro o universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto se apago a lâmpada: os sapatos–da–ásia, as camisas e guerras na cadeira, o paletó– dos–andes, bilhões de quatrilhões de seres e de sóis morrem comigo. Ou não: o sol voltará a marcar este mesmo ponto do assoalho onde esteve meu pé; deste […]
- [Manuel António Pina - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2023/03/25/manuel-antonio-pina-interiores-2/): Onde estamos agora que não nos vemos,tu sentada diante da TVe eu escrevendo isto, não sei o quê,como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceudo nosso amor como uma inevitabilidade,uma saudade pousada agora na mão de Deusexistindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos uma rota circularatravés da curvatura do […]
- [Finn Butler – Marinho](https://singularidadepoetica.art/2023/03/24/finn-butler-marinho/): Todos os que o amedrontam são sessenta e cinco por cento água.E todos os que você ama são feitos de poeira estelar, e eu sei queàs vezesvocê nem consegue respirar profundamente,o céu noturno não é seu lar evocê já chorou sozinho até dormir tantas vezesque chegou aos seus últimos dois por cento, mas nada é […]
- [Jorge Luis Borges – As Causas](https://singularidadepoetica.art/2023/03/23/jorge-luis-borges-as-causas-2/): Todas as gerações e os poentes.Os dias e nenhum foi o primeiro.A frescura da água na gargantaDe Adão. O ordenado Paraíso.O olho decifrando a maior treva.O amor dos lobos ao raiar da alba.A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.A Torre de Babel e a soberba.A lua que os Caldeus observaram.As areias inúmeras do Ganges.Chuang Tzu e […]
- [Maya C. Popa – Vida querida](https://singularidadepoetica.art/2023/03/22/maya-c-popa-vida-querida/): Não posso desfazer tudo o que fiz a mim mesma,o que permiti que um apetite por amor me fizesse. Eu quis o mundo todo, suas maravilhase suas mazelas; alguns diasacho que já houve castigo suficiente. Com frequência, recebi mais do que pedi, que é como isso funciona — você pesca em mar abertopronta para ser […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Discurso pós-jantar em um noivado](https://singularidadepoetica.art/2023/03/21/hans-magnus-enzensberger-discurso-pos-jantar-em-um-noivado-2/): Este eu, um invólucro que,contanto que ninguém o abra,parece compacto, regularcomo um Kinder ovo,quase apetitoso. Só por dentroé escuro. Quem sabeo que estará esperando por você lá.Obsessões, sem dúvida,hábitos enferrujados,medos incompreensíveis,truques de segunda mão,desejos infantis.Que você deseje tê-la,esta caixa de presente,beira o milagre. Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução do alemão para o inglês […]
- [Amalia Bautista - No final](https://singularidadepoetica.art/2023/03/20/amalia-bautista-no-fim/): Leia "No final", de Amalia Bautista, um poema breve e comovente sobre amor, finitude e as poucas coisas que realmente importam na vida.
- [Juan Vicente Piqueras - Véspera de Permanecer](https://singularidadepoetica.art/2023/03/19/juan-vicente-piqueras-vespera-de-permanecer/): Tudo está pronto: a mala,as camisas, os mapas, as vãs esperanças. Estou removendo o pó das minhas pálpebras.Já pus na lapelaa rosa dos ventos. Tudo está em ordem: o mar, o ar, o atlas. Só me falta o quando,o onde, um diário de bordo,cartas de navegação, ventos propícios,coragem e alguém que saibame amar como nem […]
- [Judith Viorst – A uma amiga de meia-idade considerando adultério com um homem mais jovem](https://singularidadepoetica.art/2023/03/18/judith-viorst-a-uma-amiga-de-meia-idade-considerando-adulterio-com-um-homem-mais-jovem/): É complicado ser temerária Quando há dobras em seu derrière E chega a hora de expor o que sua meia-calça está ocultando. E embora os olhos amorosos de um marido Façam certas concessões para suas coxas, Jovens amantes podem ter um olhar menos benevolente para o que você está expondo. É complicado se render ao […]
- [Haroldo de Campos - Servidão de Passagem](https://singularidadepoetica.art/2023/03/17/haroldo-de-campos-servidao-de-passagem-2/): forma de fome proêmio mosca ouro?mosca fosca. mosca prata?mosca preta. mosca íris?mosca reles. mosca anil?mosca vil. mosca azul?mosca mosca. mosca branca?poesia pouca. o azul é puro?o azul é pus. de barriga vazia. o verde é vivo?o verde é vírus de barriga vazia. o amarelo é belo?o amarelo é bile de barriga vazia. o vermelho é […]
- [David Wagoner – Perdido](https://singularidadepoetica.art/2023/03/16/david-wagoner-perdido/): Permanece imóvel. As árvores à frente e os arbustos ao teu ladoNão estão perdidos. Onde quer que estejas é chamado de Aqui,E deves tratá-lo como um poderoso estranho,Pedir permissão para conhece-lo e ser conhecido.A floresta respira. Escuta. Ela responde,Eu fiz este lugar ao teu redor.Se o deixares, poderás voltar novamente, dizendo Aqui.Nenhuma árvore é igual […]
- [Manuel António Pina - Instituto de Oncologia](https://singularidadepoetica.art/2023/03/15/manuel-antonio-pina-instituto-de-oncologia-2/): Estes cumprem o rito antigo mantendoa chama da morte acesa na obscura água da vidae engrossam o rio dos mortoscomo pura memória sem nome. Nós rebelamo-nos, levantamos as mãos ao céu,e depois fechamo-las para detero rio da mudança fluindo por entre os dedos,porque éramos os menos fortes e os menos densos. Frágeis mãos dispersaram o […]
- [Thom Gunn – Natureza morta](https://singularidadepoetica.art/2023/03/14/thom-gunn-natureza-morta/): Não esquecerei tão cedoA pele amarelo-acinzentada À qual o rosto se havia fixado:Pálpebras apertadas: nada dele,Nenhum tremor interior,Brincava na superfície.Ele ainda respirava, e contudoEsta era uma obscura habilidade.Não esquecerei tão cedoO ângulo de sua cabeça,Mantida imobilizada para trás Na planície estirada do colchão,De volta daquilo que ele não podiaNem aceitar, como uma objeção,Nem, como um […]
- [Charles Bukowski – Para Jane Cooney Baker, morta em 22/01/1962](https://singularidadepoetica.art/2023/03/13/charles-bukowski-para-jane-cooney-baker-morta-em-22-01-1962-2/): e então você se foi me deixando aquinum quarto com uma cortina rasgadae o Idílio de Siegfried tocando no radinho vermelho. e então você se foi tão rápidoquanto quando você veio pra mim,e nós tínhamos dito adeus antes,e quando eu estava limpando seu rosto e lábiosvocê abriu os maiores olhos que eu já tinha vistoe […]
- [Frances Leviston – Todo animal faz um som, exceto nós](https://singularidadepoetica.art/2023/03/12/frances-leviston-todo-animal-emite-um-som-exceto-nos/): Agostoe os cordeirosforam levados de suas mães.O dia todo elas emitem seus humanos lamentosatravés da cerca da fazenda até a lagoa da orelha de um fazendeiroe ao longo da lama pela nunca esquecidanecessidade de expressar o que foi perdido –a fala visceral, incontornável,a fala naufragada,a perda. Trad.: Nelson Santander Every Animal has a Noise Except […]
- [Francisca Aguirre – E se, depois de tudo, fosse o resto](https://singularidadepoetica.art/2023/03/11/francisca-aguirre-e-se-depois-de-tudo-fosse-o-resto/): E se, depois de tudo, fosse o restoum ir morrendo para ao fim morrermospor este louco afã de convertermo-nosem contadores de um momento lesto. E se afigura que o correto eraeste sermão que vem nos repetirque avança o furacão de nos ferir,e é vã e absurda esta carreira. Então fique tranquilo, amor meu,e goza desta […]
- [Adam Zagajewski - Um breve poema](https://singularidadepoetica.art/2023/03/10/adam-zagajewski-um-rapido-poema/): Eu ouvia cânticos gregorianosnum carro em alta velocidadeem uma rodovia na França.As árvores passavam velozes. As vozes dos mongesentoavam preces a um deus invisível(ao amanhecer de uma capela tremendo de frio).Domine, exaudi orationem meum,vozes graves rogavam calmamentecomo se a salvação estivesse crescendo no jardim.Para onde eu ia? Onde o sol se escondia?Minha vida estava em […]
- [Yehuda Amichai – Na história do nosso amor](https://singularidadepoetica.art/2023/03/09/yehuda-amichai-na-historia-do-nosso-amor-2/): "Na história do nosso amor", um poema de Yehuda Amichai que utiliza metáforas históricas e geográficas — tribo, nação, ilha, península — para refletir sobre desencontro, deslocamento e a redefinição da identidade amorosa ao longo do tempo.
- [Czesław Miłosz - Uma vida afortunada](https://singularidadepoetica.art/2023/03/08/czeslaw-milosz-uma-vida-afortunada/): Sua velhice coincidiu com os anos de colheita abundante.Não houve terremotos, secas ou inundações.Dir-se-ia que a mudança das estações ganhava em regularidade,As estrelas se fortaleciam e o sol aumentava seu poder.Mesmo em províncias remotas nenhuma guerra foi travada.Gerações cresceram amistosas para com seus semelhantes.A natureza racional do homem não era motivo de escárnio. Foi amargo […]
- [Pedro Salinas - [A tua forma de amar]](https://singularidadepoetica.art/2023/03/07/pedro-salinas-a-tua-forma-de-amar/): "A tua forma de amar", um poema de Pedro Salinas que explora o amor silencioso e a insegurança afetiva, retratando um eu lírico que teme descobrir que ama sozinho e se agarra à presença da amada para não confrontar a possibilidade da solidão.
- [Linda Pastan – Por que seus poemas são tão sombrios?](https://singularidadepoetica.art/2023/03/06/linda-pastan-por-que-seus-poemas-sao-tao-sombrios/): Por que seus poemas são tão sombrios? Não é a lua também sombria,na maior parte do tempo? E a página em branconão parece inacabada sem a mancha escuradas letras? Quando Deus demandou a luz,Ele não baniu a escuridão. Em vez disso, Ele criouo ébano e os corvos e aquela pequena pintano lado esquerdo do seu […]
- [Manuel António Pina – Depois](https://singularidadepoetica.art/2023/03/05/manuel-antonio-pina-depois-2/): Primeiro sabem-se as respostas.As perguntas chegam depois,como aves voltando a casa ao fim da tardee pousando, uma a uma, no coraçãoquando o coração já se recolheude perguntas e de respostas. Que coração, no entanto, pode repousarcom o restolhar de asas no telhado?A dúvida agitaos cortinadose nos sítios mais íntimos da vidaacorda o passado.Porquê, tão tardo, […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Xochiquetzal](https://singularidadepoetica.art/2023/03/04/jorge-valdes-diaz-velez-xochiquetzal/): Xochiquetzal1 (Homenagem a Chuang-Tzu2) Ontem sonhei contigo. Vestias uma gabardine de pele, e por baixo nada.Era outono e estavas ensopadapela chuva; caminhavas em alguma gare de Madrid indo para lugarnenhum. Estancavas ocasionalmenteteus passos para sentires transluzentetua pele resplandecer ao luar de um espelho invisível em que haviaum homem que sonhava com uma mulhere uma mulher […]
- [Laia Noguera Clofent – [Amo a vida simples]](https://singularidadepoetica.art/2023/03/03/laia-noguera-clofent-amo-a-vida-simples/): Amo a vida simples,sentar-me à entradapara ver o ir e vir das pessoas,como se move um pardal,como se inclina a tardenas casas do corpo. Bem sei que morrereimuito antes de morreremas árvores que amo. Mas isso não me preocupa,porque no instanteem que se me romper o último fioserei apenas aquela mulherque se sentava à entradapara […]
- [Nisha Atalie – Fazer/Não fazer](https://singularidadepoetica.art/2023/03/02/nisha-atalie-fazer-nao-fazer/): Eu cheiro o Lírio Tigre em flor,duas línguas saltandode uma boca. Eu enveneno o rio involuntariamente.Marcho nos caminho demarcados. Eu corto a montanha, seu corpo e sua boca escancarados.Recolho a água da chuva em um carrinho de mão. Eu forro o ventre da baleia com presentes atéque eles dilacerem seu estômago.Eu rego os morangos. Novamente […]
- [Ana Martins Marques – História](https://singularidadepoetica.art/2023/03/01/ana-martins-marques-historia-2/): Leia "História", de Ana Martins Marques, um poema original e filosófico sobre tempo, memória e as múltiplas temporalidades presentes no cotidiano.
- [Vievee Francis – Estive pensando de novo no amor](https://singularidadepoetica.art/2023/02/28/vievee-francis-estive-pensando-novamente-no-amor/): Estive pensando de novo no amor Há os que vivem para recebê-loe os que vivem para dá-lo. Claro que existem aqueles para quem ambas as coisas são verdade,mas nunca na mesma medida. Aqueles que o têm para dar são como cardeais na neve. Tão fáceise lindamente iluminados. Algunssão como coelhos. Difíceis de verexceto para aqueles […]
- [Marcia Vinci – Mãe Solteira](https://singularidadepoetica.art/2023/02/27/marcia-vinci-mae-solteira-2/): dadeiraparideiranutrizcriadeiratoda mãeé sozinhatoda mãeé solteira REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/03/2018
- [Raymond Carver – Chuva](https://singularidadepoetica.art/2023/02/26/raymond-carver-chuva/): Despertei esta manhã com a urgênciaterrível de permanecer na cama o dia inteiroe ler. Lutei contra isso por um minuto. Depois olhei a chuva pela janela.e me rendi. Coloquei-me inteiramentenas mãos dessa manhã chuvosa. Viveria minha vida novamente?Cometeria os mesmos erros imperdoáveis?Sim, se tivesse a mínima chance. Sim. Trad.: José Antônio Cavalcanti Rain Woke up […]
- [Vicente Gaos - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2023/02/25/vicente-gaos-testamento-2/): Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil séculos de idade, estado civilsolitário, instáveldomiciliado/refugiado em um canto do cosmos,profissão náufrago na sombra,sem carteira de identidade, sem títulos, condecorações ou diplomas de qualquer tipo,sem nenhuma marca particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo,sem mais cicatriz além de uma necrose miocárdica,uma velha ferida […]
- [George Bilgere – Tudo bem](https://singularidadepoetica.art/2023/02/24/george-bilgere-tudo-bem/): Eu me sento aqui na calçada da cafeteria,emitindo a amarela fumaça doentia da senescênciaenquanto as pessoas passam fingindonão notar, olhando para longeou para os seus telefones,fazendo o melhor por comoção ou cortesiapara me ignorar sentado aqui envelhecendo,e eu não os culpo, é mesmo difícil de assistir. E agora a garçonete em sua beleza abrasadora,em sua […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Perdão, falava em voz alta](https://singularidadepoetica.art/2023/02/23/ernesto-perez-vallejo-perdao-falava-em-voz-alta-2/): Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguémNunca poderão desapontá-la.A esperança é aquele relógioque sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezescomo diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes.Mas, quando tristes, todos sabemos quando estávamos felizes. […]
- [Elizabeth Jennings - Uma só carne](https://singularidadepoetica.art/2023/02/22/elizabeth-jennings-uma-so-carne/): Cada qual em sua cama, deitados separados agora,Ele com um livro, uma luz acesa até hora incerta,Ela, como uma menina, sonhando com sua aurora,Todos os homens em outros lugares – é como se certaNova ocorrência esperassem: o livro que ele detémMas não lê, os olhos dela pregados nas sombras além. Lançados acima como destroços de […]
- [Javier Salvago - Fim de Festa](https://singularidadepoetica.art/2023/02/21/javier-salvago-fim-de-festa-2/): Enfim sós, vida. A festa acaboue não resta ninguém para nos obrigara sorrir, ou a inventar desagradáveismentiras inofensivas. Todos se foram. Despe-te sem medo. Conheçoas velhas rugas de tua triste carne.Acariciei-as. Sei o que teu rostooculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncioe tu e eu nus, calados e ausentes,– juntos […]
- [James Crews – Kintsugi](https://singularidadepoetica.art/2023/02/20/james-crews-kintsugi/): Qualquer um que ama outra pessoajá tem o coração partido.É a lei: se quer que aquela luzinunde seu corpo, você deveexpor as cicatrizes através das quaisela jorra, pois elas são a fontede sua beleza e de sua força.Pense nos japoneses que preenchemas fissuras de uma vasilha de cerâmicacom ouro puro, não apenas exibindoestas chamadas falhas, […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Insônia](https://singularidadepoetica.art/2023/02/19/luis-alberto-de-cuenca-insonia-2/): A vida é muito curta.Não há tempo para fazer nada. Não há meiosde reunir dias suficientespara aprender alguma coisa. Tu te levantas,abraças tua namorada, tomas teu café da manhã,trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema,e sequer tens um momentopara ler Sêneca e acreditarque tudo neste mundo tem conserto.A vida é um instante. Não entendopor que esta […]
- [Joyce Sutphen – Vivendo no corpo](https://singularidadepoetica.art/2023/02/18/joyce-sutphen-vivendo-no-corpo/): Corpo é uma coisa de que você precisa para permanecerneste planeta e só dispõe de um.E não importa qual você tenha obtido, ele nãoserá satisfatório. Não será bonitoo suficiente, não será rápido o suficiente, não durará por vários dias seguidos, maso arrastará para um pântano sonolento eexigirá maçãs e cafés e bolos de chocolate. Corpo […]
- [Manuel António Pina - Sétimo Dia](https://singularidadepoetica.art/2023/02/17/manuel-antonio-pina-setimo-dia-2/): Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua mortepara a nossa vida como quem regressa a casade uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,e agora é como se te tivéssemos sonhado.A voz que, diante da escuridão, suspendemosquando se desmoronou o mundo para o fundo de tierguemo-la de novo para os afazeres diurnose para […]
- [Malena Mörling – Do trem](https://singularidadepoetica.art/2023/02/16/malena-morling-do-trem/): Pouco antes do sol desapareceratrás de uma fileira de armazénse antes que ele voltasse à tonapara lavar nossas roupasdas sombras, eu notei algo —Era apenas um pedaço de papel,mas estava pendurado em uma das paredes expostasde um dos prédios parcialmente demolidosque passavam flutuando.Notei também o contornode uma velha escadae o desgastado papel de parede verde […]
- [Joaquín Benito de Lucas – Elegia](https://singularidadepoetica.art/2023/02/15/joaquin-benito-de-lucas-elegia-2/): Quando agora retornoà minha cidade, não posso contera emoção de saber que não sou esperado.Não me espera meu pai, que desceu rio abaixomuito lentamente entre os juncos, sob pontes enevoadas. Não me espera meu irmão,que me esperava sempre ao lado de um balcãoqualquer, em uma rua qualquerbrindando ao meu últimolivro ou por sua desgraçaou por […]
- [James Tate – Uma batida na porta](https://singularidadepoetica.art/2023/02/14/james-tate-uma-batida-na-porta/): Eles me perguntam se eu já penseisobre o fim do mundo,e eu respondo, “Entrem, entrem,deixe-me dar-lhes algo para comer, por favor.”Depois de algumas mordidas, eles querem falarsobre a vida após a morte. “Ui!,” eu digo,“vocês já viram aquela Greapleaf skeletonizer?”1Depois eles começam a falar sobre redençãoe dos poucos escolhidos para sentar ao lado Dele.“Fazendo o […]
- [Juan Luis Panero - Epitáfio diante de um Espelho](https://singularidadepoetica.art/2023/02/13/juan-luis-panero-epitafio-diante-de-um-espelho-2/): Dura há de ser a vida para ti,que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez,para ti, cuja única certeza é tua memóriae, portanto, teu sepulcro mais infausto.Dura há de ser a vida, quando os anos passareme por fim destruírem a ilusória pátria da tua adolescência,quando vires, como hoje, este fantasmaque tempos atrás te consolou com […]
- [Jack Gilbert – Um sumário para a defesa](https://singularidadepoetica.art/2023/02/12/jack-gilbert-um-sumario-para-a-defesa/): Diante do sofrimento e das perdas do mundo, o poema formula uma defesa da alegria sem ingenuidade. Jack Gilbert procura justificar a atenção ao esplendor cotidiano justamente porque conhece a dor que o cerca.
- [Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados](https://singularidadepoetica.art/2023/02/11/juan-vicente-piqueras-nomes-apagados/): A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiose pronomes, nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o copo […]
- [Nikita Gill – 93 por cento de poeira estelar](https://singularidadepoetica.art/2023/02/10/nikita-gill-93-por-cento-de-poeira-estelar/): 93 por cento de poeira estelar(depois de Carl Sagan, que me deu esperança quando criança) Temos cálcio em nossos ossos,ferro em nossas veias,carbono em nossas almas,e nitrogênio em nossos cérebros. 93 por cento de poeira estelar,com almas feitas de chamas,somos todos apenas estrelasque têm nomes de pessoas. Trad.: Nelson Santander 93 Percent Stardust(after Carl Sagan, […]
- [Diego Moraes - Já se passaram dez anos](https://singularidadepoetica.art/2023/02/09/diego-moraes-ja-se-passaram-dez-anos-2/): Já se passaram dez anosAcabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal queseu tio ficou bêbado de vinho Dom Bosco e disse na frente dos filhose da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaroem LondresJá se passaram dez anosOs poemas que escrevi quando gozava nos teus peitos de atriz […]
- [Mary Oliver - Garças](https://singularidadepoetica.art/2023/02/08/mary-oliver-garcas/): Onde o caminho se encerrava, por entre folhas matizadas, galhos caídos, através de nodosas salsaparrilhas, eu continuei. Por fim, não pude salvar meus braços dos espinhos; logo os mosquitos sentiram meu cheiro, quente e ferido, e vieram girando e gemendo. E foi assim que cheguei na beira do lago: escuro e vazio exceto por um […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas](https://singularidadepoetica.art/2023/02/07/luis-alberto-de-cuenca-abre-todas-as-portas-2/): Abre todas as portas, a que conduz ao ouro,a que leva ao poder, a que esconde o mistériodo amor; a que oculta o segredo insondávelda felicidade, a que a vida te ofertapara sempre no gozo de uma visão sublime.Abre todas as portas, sem te mostrares curioso,nem dar importância às manchas de sangueque salpicam as paredes […]
- [Matthew Sweeney - As mariposas](https://singularidadepoetica.art/2023/02/06/matthew-sweeney-as-mariposas/): As mariposas Ou o poema que começa com um verso de Diane Di Prima Na neve, as mariposas caminham rigidamente,elas nem ao menos tentam voar.Suas pegadas são cobertas à medida que são feitas,enquanto elas seguem umas às outras para casapelas frias colunas dos postes de iluminaçãopara esperar lá a chegada da luz.A cada crepúsculo há […]
- [César Cantoni - O Tempo Irreparável](https://singularidadepoetica.art/2023/02/05/cesar-cantoni-o-tempo-irreparavel-2/): Quem teria pensado nisso, então?O certo é que meu pai está mortocomo se nunca tivesse existido.Um dia congelaram suas mãos e os pés,e a casa se encheu de parentes,e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito.Ainda me lembro. Meu pai está morto ou já não existe,e não basta agora saber que ele era feliz.Neste […]
- [Czesław Miłosz - Café](https://singularidadepoetica.art/2023/02/04/czeslaw-milosz-cafe/): Daqueles que se encontravam à mesa do caféonde, no meio-dia de inverno, um jardim de gelo reluzia nas vidraças,só eu sobrevivi.Eu poderia entrar ali se quisessee, tamborilando meus dedos em um frio vazio,convocar as sombras. Com incredulidade, toco o mármore frio,com incredulidade, toco minha própria mão.Isto – é, e eu – estou em cada novo […]
- [Nikki Giovanni – Permissões](https://singularidadepoetica.art/2023/02/03/nikki-giovanni-autorizados/): Eu matei uma aranhaNão uma reclusa marrom assassinaNem mesmo uma viúva negraE, pra falar a verdade,Foi apenas um tipoPequeno de aranha frágilQue deveria ter fugidoQuando peguei o livroMas ela não o fezE ela me assustouE eu a esmaguei Eu não acho queEsteja autorizada a Matar qualquer coisa Só porque estou Com medo Trad.: Nelson Santander […]
- [Rudy Francisco - Compaixão](https://singularidadepoetica.art/2023/02/02/rudy-francisco-compaixao/): "Compaixão", um poema de Rudy Francisco que utiliza o gesto simples de poupar uma aranha para refletir sobre empatia, não violência e o desejo de ser tratado com a mesma misericórdia em situações de vulnerabilidade.
- [Linda Pastan – A filha](https://singularidadepoetica.art/2023/02/01/linda-pastan-a-filha/): Triste por saber que Linda Pastan – uma das minhas poetas norteamericanas favoritas – nos deixou. Ela deixa um legado imensurável à literatura americana, tendo sido uma das mais importantes e influentes poetisas de sua geração. Com sua escrita lírica e intensa, Linda Pastan capturou a essência da vida cotidiana e da alma humana, explorando […]
- [César Cantoni - Álbum de Família](https://singularidadepoetica.art/2023/01/31/cesar-cantoni-album-de-familia-2/): Morreu meu pai, morreram meus avós,morreram meus tios de sangue e por afinidade.Uma família inteira de ferreiros,marceneiros, curtidores, pedreiros,jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos,o que não sabe fazer nada com as mãos,logrei sobreviver impunementepara chorar diante de uma fotoo melhor do meu sangue. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: […]
- [Pat Schneider – A paciência das coisas comuns](https://singularidadepoetica.art/2023/01/30/pat-schneider-a-paciencia-das-coisas-comuns/): É um tipo de amor, não acha?Como a caneca retém o chá,Como a cadeira se mantém robusta e sólida,Como o chão recebe a sola dos sapatosOu os dedos. Como as solas dos pés sabemOnde devem estar.Eu tenho pensado na paciênciaDas coisas comuns, em como as roupasEsperam respeitosamente nos guarda-roupasE o sabão seca discretamente no prato,E […]
- [César Cantoni - O mais digno em nós](https://singularidadepoetica.art/2023/01/29/cesar-cantoni-o-mais-digno-em-nos/): Eu sempre achei que os ossos, com seu brilho mineralde pedra polida pela chuva, são o que de mais digno há em nós:sobrevivem longamente à putrefação indecorosa da carnee não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 26/01/2018 César Cantoni […]
- [Ruth Lepson – No dia da audiência do nosso divórcio](https://singularidadepoetica.art/2023/01/28/ruth-lepson-no-dia-da-audiencia-do-nosso-divorcio/): No dia da audiência do nosso divórcio você me convidou para almoçar em uma cantina.Nunca tínhamos sido tão gentis um com o outro.Quando você disse que eu ainda era uma desleixada, nós rimos.Depois do almoço, ficamos no estacionamento.Você disse: você tem a última palavra,mas eu respondi, Não, estou cansada de seraquela que resume tudo.Você tem […]
- [Mario Benedetti - Angelus](https://singularidadepoetica.art/2023/01/27/mario-benedetti-angelus-2/): Quem imaginaria que este seria o destino? Vejo a chuva através de letras invertidasUma parede com manchas que parecem dignitáriosOs tetos dos ônibus brilhantes como peixesE essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu,Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braçosE uma cadeira que gira quando quero fugir.Outro dia […]
- [Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2023/01/26/sem-titulo/)
- [Kwame Opoku-Duku – Eles irão lhe perguntar onde dói mais](https://singularidadepoetica.art/2023/01/26/kwame-opoku-duku-eles-irao-lhe-perguntar-onde-doi-mais/): Bendita seja a amarguraem sua essência, aquela luz calmaque fica cada vez mais calma,como o murmúrio abafado que escapade seus lábios enquanto você dorme.Eles irão lhe perguntar, criança,o que você sabe sobre o sofrimento.Eles irão lhe perguntar onde dóimais quando a dor se transforma,como o comprimento de onda da luzno céu noturno, quando os gritosde […]
- [Inês Lourenço – Sala Provisória](https://singularidadepoetica.art/2023/01/25/ines-lourenco-sala-provisoria-2/): Nunca se sabequando estamos num lugarpela última vez. Numa casaque vai ser demolida, numa salaprovisória que vai encerrar, num velhocafé que mudará de ramo, comopágina virada jamais reaberta, comocanção demasiado gasta, comoabraço tornado irrepetível, numaporta a que não voltaremos. REPUBLICAÇÃO: publicado no blog originalmente em 02/12/2018
- [Maria do Rosário Pedreira – retina](https://singularidadepoetica.art/2023/01/24/maria-do-rosario-pedreira-retina/): retina Eu, que nunca pensei deixar de serfilha, faço agora de mãe da minha mãeaos domingos: sou a sua muleta nos longos corredores da casa antiga echego-lhe mantas aos joelhos porqueos velhos tremem em vida com o frioda morte. Para fugir às coisas que a entristecem, pergunto-lhe por gentedo passado, pois sei que o que […]
- [Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis](https://singularidadepoetica.art/2023/01/23/ines-lourenco-balada-dos-amores-dificeis-2/): “Balada dos Amores Difíceis”, um poema de Inês Lourenço que celebra os amores anônimos e persistentes, aqueles que sustentam o mundo sem jamais se tornarem lenda ou verso célebre.
- [Les Murray – Criação contínua](https://singularidadepoetica.art/2023/01/22/les-murray-criacao-continua/): Não trazemos nada para este mundoexceto nossa capacidade gradual de criá-lo, dentre tudo o que desaparecee tudo o que viverá mais que nós. Trad.: Nelson Santander Continuous Creation We bring nothing into this worldexcept our gradual abilityto create it, out of all that vanishesand all that will outlast us.
- [Inês Lourenço – As Coisa que Cessam](https://singularidadepoetica.art/2023/01/21/ines-lourenco-as-coisa-que-cessam-2/): Tanto desprezopelo que é transitório e finito. Não servireisenhor que possa morrer. Mas passamosa vida a amar todas as fragilidadesdas coisas que cessam. Hácoisa mais breve do que um sorriso?Coisa mais curta que a alegriade um reencontro? Tudo o que amamosé passageiro e frágil ouas duas coisas. Mas persegue-nosa nostalgia do infindávelcomo uma tara hereditária. […]
- [Ursula K. Le Guin - Parentesco](https://singularidadepoetica.art/2023/01/20/ursula-k-le-guin-parentesco/): Ardendo muito lentamente, a grande árvore da florestase ergue da sutil cavidade de nevederretida ao seu redor pelo brando e duradourocalor de seu ser e de sua vontade de serraiz, tronco, ramo, folha, e de conhecer aterra escura, a luz do sol, o toque do vento, o canto do pássaro. Desenraizados, desassossegados e de sangue […]
- [Mario Quintana – Envelhecer](https://singularidadepoetica.art/2023/01/19/mario-quintana-envelhecer-2/): Antes, todos os caminhos iam.Agora todos os caminhos vêm.A casa é acolhedora, os livros poucos.E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 10/01/2018
- [Maria Mazziotti Gillan – Foi uma semana](https://singularidadepoetica.art/2023/01/18/maria-mazziotti-gillan-foi-uma-semana/): “Foi uma semana … de olhar para cima, para dentro, abaixo da superfície e para o passado.”—New York Times, D3, May 5, 2013 Este ano foi assim para mim, você, morto já há três anos e transposto para aquele outro lugar onde eu não possotoca-lo, e que deixei para trás olhando para cima, para aquele […]
- [Tomas Tranströmer – Minnena Ser Mig (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2023/01/17/tomas-transtromer-minnena-ser-mig-em-duas-traducoes/): Memórias que me Observam Manhã de Junho, cedo demais para acordar,tarde demais para adormecer. Tenho de sair – é densa a folhagem dasmemórias, perseguem-me com o seu olhar. Não se deixam ver, misturam-se todascom o fundo, verdadeiros camaleões. Tão perto estão que as ouço respiraremaqui onde o canto do pássaro ensurdece. Trad.: José […]
- [Mary Oliver – Flores brancas](https://singularidadepoetica.art/2023/01/16/mary-oliver-flores-brancas/): Ontem à noiteno campoeu me deitei no escuropara pensar na morte,mas em vez disso adormeci,como se estivesse em um quarto vasto e inclinadorepleto daquelas flores brancasque se abrem todo verão,viscosas e desordenadas,nos tépidos campos.Quando desperteia luz da manhã deslizavaperante as estrelas,e eu estava cobertade flores.Não seicomo aconteceu —não seise meu corpo mergulhoupara baixo das adocicadas […]
- [Rainer Maria Rilke – Fonte Romana](https://singularidadepoetica.art/2023/01/15/rainer-maria-rilke-fonte-romana-2/): Vila Borghese Duas velhas bacias sobrepondosuas bordas de mármore redondo.Do alto a água fluindo, devagar,sobre a água, mais embaixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,como que só no côncavo da mão,entremostrando um singular objeto:o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia,em círculos e círculos, constante-mente, impassível e sem […]
- [Andrea Cohen – Barganha](https://singularidadepoetica.art/2023/01/14/andrea-cohen-barganha/): Pagamos-lhe quasenada — menos do que o poucoque ele pedira — para nos levar ao anoitecer das pirâmidesem camelos deserto adentro.Estipêndio tão escasso para nos levar, sem reclamar, para tão longe —até aqui, sem uma estrela. Estávamos no meio do nada, ou em sua borda.Amigos, perguntou ele, de dentro daquela escuridão,quanto vocês me pagarãopara leva-los […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vigília](https://singularidadepoetica.art/2023/01/13/giuseppe-ungaretti-vigilia-2/): “Vigília”, um poema de Giuseppe Ungaretti que transforma a noite ao lado do cadáver de um companheiro em revelação extrema: diante da morte brutal, o apego à vida torna-se absoluto.
- [Dan Albergotti - Coisas para fazer no ventre da baleia](https://singularidadepoetica.art/2023/01/12/dan-albergotti-coisas-para-fazer-no-ventre-da-baleia/): Meça as paredes. Conte as costelas. Registre os longos dias.Olhe para o céu azul por entre os esguichos. Faça pequenas fogueirascom os cascos partidos dos barcos de pesca. Pratique sinais de fumaça.Ligue para os velhos amigos e escute os ecos de vozes distantes.Organize sua agenda. Sonhe com a praia. Busque por toda jornadapelo pálido brilho […]
- [Dylan Thomas – E a Morte não terá nenhum Domínio](https://singularidadepoetica.art/2023/01/11/dylan-thomas-e-a-morte-nao-tera-nenhum-dominio-2/): E a morte não terá nenhum domínio. Nus, os mortos irão se confundir Com o homem no vento e a lua no poente; Quando seus alvos ossos descarnados se tornarem pó, Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos; Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos, Ainda que submersos pelo mar, haverão de ressurgir; Ainda […]
- [Judith Hemschemeyer — Naquele verão](https://singularidadepoetica.art/2023/01/10/judith-hemschemeyer-naquele-verao/): Naquele verãodepois que você se enforcousem perguntar a ninguém que o amavase eles podiam suportar dei por mim arrastando mangueirasregando cada centímetro desse imenso gramadodia após diaperfeito obcecadaincapaz de deixar mais alguma coisauma única folha de gramamorrer. Trad.: Nelson Santander That Summer That summer after you hanged yourself without asking anyone who loved you if […]
- [Mario Cesariny – Os Pássaros de Londres](https://singularidadepoetica.art/2023/01/09/mario-cesariny-os-passaros-de-londres-2/): Os pássaros de Londrescantam todo o invernocomo se o frio fosseo maior aconchegonos parques arrancadosao trânsito automóvelnas ruas da neve negrasob um céu sempre duroos pássaros de Londresfalam de esplendorcom que se ergue o estioe a lua se derramapor praças tão sem corque parecem de panoem jardins germinandosob mantos de gelocomo se gelo forao linho […]
- [Matthew Olzmann – Carta à pessoa que gravou suas iniciais no mais antigo pinheiro de folha longa da América do Norte](https://singularidadepoetica.art/2023/01/08/matthew-olzmann-carta-a-pessoa-que-gravou-suas-iniciais-no-mais-antigo-pinheiro-de-folha-longa-da-america-do-norte/): Southern Pines, Carolina do Norte Diga-me como é viver semcuriosidade, sem sentir admiração. Navegarem águas cristalinas, desviando os olhosdos recifes de algas que ondulamabaixo de você, ignorando o cintilardas escamas de sereias no nevoeiro,olhando para o mundo e sentindoapenas tédio. Estarà beira do precipício de algum vale selvagem,as águias circulando, um rebanho de caribustrovejando lá […]
- [Ruy Espinheira Filho – Canção de Depois de Tanto](https://singularidadepoetica.art/2023/01/07/ruy-espinheira-filho-cancao-de-depois-de-tanto-2/): a Roniwalter Jatobá Vamos beber qualquer coisa,que a vida está um desertoe o coração só me pulsasombras de Ido e do Incerto. Vamos beber qualquer coisa,que a lua avança no mare há salobros fantasmasque não quero visitar. Vamos beber qualquer coisaamarga, rascante, rude,brindando sobre o […]
- [Don Peterson – Compaixão](https://singularidadepoetica.art/2023/01/06/don-peterson-compaixao/): “Compaixão”, um poema de Don Peterson que transforma o adeus a um animal amado em gesto extremo de ternura, onde a morte se confunde com cuidado e fidelidade.
- [Carlos Drummond de Andrade - Escada](https://singularidadepoetica.art/2023/01/05/carlos-drummond-de-andrade-escada/): Escada, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Deborah Pope - Passando](https://singularidadepoetica.art/2023/01/04/deborah-pope-passando/): Como um carro engatado,uma galinha estúpida demais para perceberque sua cabeça se foi,ou aquele som que não cessamesmo depois do filmeter caído da bobina,um telefonetocando e tocandona casa de onde todosse mudaram,através de salas onde o póse aprofunda em camadas,e o cadeado é desnecessário,assim eu continuo te amando,meu coração claudicando,um músculo entornandoo que não é […]
- [Petrarca - Soneto CXXXIII ("O Amor me Assinalou com sua Seta")](https://singularidadepoetica.art/2023/01/03/petrarca-soneto-cxxxiii-o-amor-me-assinalou-com-sua-seta/): "Soneto CXXXIII (“O Amor me Assinalou com sua Seta”)", um poema de Francesco Petrarca que retrata o amor como força avassaladora e paradoxal, comparando seus efeitos ao fogo, ao sol e ao vento, e explorando a tensão entre êxtase, dor e aniquilação amorosa.
- [Juan Vicente Piqueras - Como estás](https://singularidadepoetica.art/2023/01/02/juan-vicente-piqueras-como-estas/): Morri na última terça-feira e ninguém notou. O mundo permaneceu o mesmo, mudando e imutável.Não houve furacão, anúncio, tempestadeou nuvens por entre as quais surgisseaquele raio de luz que aparecianas capas dos catecismos. Minha filha continuou a servir-me o chá no mesmo horárioe eu continuo a sorve-lo em pequenos goles com o canudinho que ela […]
- [Miguel Torga – Sísifo](https://singularidadepoetica.art/2023/01/01/miguel-torga-sisifo/): Recomeça…Se puderesSem angústiaE sem pressa.E os passos que deres,Nesse caminho duroDo futuroDá-os em liberdade.Enquanto não alcancesNão descanses.De nenhum fruto queiras só metade.E, nunca saciado,Vai colhendoIlusões sucessivas no pomar.Sempre a sonharE vendo,Acordado,O logro da aventura.És Homem, não te esqueças!Só é tua a loucuraOnde, com lucidez, te reconheças.
- [Retrospectiva 2022](https://singularidadepoetica.art/2023/01/01/retrospectiva-2022/): Segue abaixo uma relação dos melhores poemas publicados no blog no ano de 2022, em ordem cronológica pelo mês de postagem. Eu pretendia limitar a retrospectiva a um total de 50 textos, mas isso não foi possível. O ano foi fértil e tive a felicidade de traduzir e publicar muita coisa boa este ano, em […]
- [W.S. Merwin - Desejo](https://singularidadepoetica.art/2023/07/16/w-s-merwin-desejo/): Por favor, um últimobeijo na cozinhaantes de apagarmos as luzes Trad.: Nelson Santander Nota sobre o poema: Merwin escreveu este pequeno poema imediatamente após a morte de sua esposa. Como é simples o desejo… de experimentar uma vez mais essa ocorrência aparentemente comum e cotidiana. Imagino isso como uma rotina noturna, um beijo ligeiro antes de preparar a casa para dormir. Mas, neste caso, acho que este “apagarmos as luzes” é mais, muito mais do que pressionar um interruptor. Essas são as coisas, talvez as mais ínfimas das pequenas coisas, que se transformam no que queremos experimentar apenas mais uma vez […]
- [Nuno Júdice – Carpe Diem](https://singularidadepoetica.art/2023/07/15/nuno-judice-carpe-diem-2/): Confias no incerto amanhã? Entregasàs sombras do acaso a resposta inadiável?Aceitas que a diurna inquietação da almasubstitua o riso claro de um corpoque te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,os instantes; e nos lábios dessa que amastemorre um fim de frase, deixando a dúvidadefinitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;e abraças a própria figura do vazio. Então,por que esperas para sair ao encontro da vida,do sopro quente da primavera, das margensvisíveis do humano? “Não”, dizes, “nada me obrigaráà renúncia de mim próprio — […]
- [David Wagoner – O silêncio das estrelas](https://singularidadepoetica.art/2023/07/14/david-wagoner-o-silencio-das-estrelas/): Certa noite, no deserto de Kalahari, quando Laurens van der Post1 disse aos bosquímanosQue não conseguia ouvir as estrelasCantando, eles não acreditaram. Eles o olharam,Meio sorridentes. Examinaram seu rostoPara ver se ele não estava brincando Ou enganando-os. Então dois daqueles homenzinhosQue nada plantam, que quase Nada têm para caçar, que vivemDe quase nada e não contam com ninguémAlém deles mesmos, o levaram para longeDa crepitante fogueira de arbustos espinhosos,Ficaram com ele sob o céu noturnoE escutaram. Um deles sussurrou:Você as ouve agora?E van der Post concentrou-se, não querendoDuvidar, mas teve que responder:Não. Eles o acompanharam lentamente,Como um homem doente, até o […]
- [Assionara Souza – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2023/07/13/assionara-souza-a-mulher-de-lot-2/): Um passo atrásEnquanto a cidade desabaTodos correndoUm tumulto dos diabosO filho, a filha, o maridoA vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicadoHá mais de cinco anos embaixo de seu narizComo se ela não soubesseComo se ela não tivesse visto de tudo nessa vidaEle perguntando se a camisa vermelha— Aquela com um só bolso no lado direito?— Sim. Essa mesma.Se a camisa vermelha não estava limpa e bem passadaE o filho indo no mesmo caminhoTratando-a feito lixo— A mãe não sabe pronunciar a palavra “estultícia”. Tenta, mãe!Estúpidos todosAté a filha, que ela tanto ensinouAgora andava com um centuriãoUm centurião!Maior […]
- [Ross Gay – Obrigado](https://singularidadepoetica.art/2023/07/12/ross-gay-obrigado/): Se você se encontra seminue descalço na grama gelada, ouvindo,mais uma vez, o grande e sonoro lamento da terra dizendoque você é o ar do agora e do que se foi, dizendoque tudo o que você ama se transformará em pó,e o encontrará naquele lugar, nãoerga seu punho. Não levante sua voz pequena contra isto. E nãose cubra. Em vez disso, enrosque os dedosdos pés na grama, observe a nuvem subindo dos seus lábios. Caminhepelo esplendor dormente do jardim.E diga apenas obrigado.Obrigado. Trad.: Nelson Santander Thank You If you find yourself half nakedand barefoot in the frosty grass, hearing,again, the earth’s […]
- [Wislawa Szymborska – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2023/07/11/wislawa-szymborska-a-mulher-de-lot-2/): Dizem que olhei para trás curiosa.Mas quem sabe eu também tinha outras razões.Olhei para trás de pena pela tigela de prata.Por distração – amarrando a tira da sandália.Para não olhar mais para a nuca virtuosado meu marido Lot.Pela súbita certeza de que se eu morresseele nem diminuiria o passo.Pela desobediência dos mansos.Alerta à perseguição.Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.Senti em mim a velhice. O afastamento.A futilidade da errância. Sonolência.Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.Olhei para trás por receio de onde pisar.No meu caminho […]
- [Linda Pastan – Os tordos](https://singularidadepoetica.art/2023/07/10/linda-pastan-os-melros/): Só posso chamá-la de pós-pós-moderna — esta música deixada pelos tordosenquanto voejam para o sul abandonando as árvores —estes frondosos cancioneiros — como enlouquecidas notasindividuais. E os bosques ressoamcom os primeiros sons do outono, dissonantese sombrios, antes que uma únicafolha se transforme. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog The Blackbirds I can only call it postpost modern—this music let loose by the blackbirdsas they swarm south abandoning trees—those leafy songbooks— like individual notesgone mad. And the woods ringwith the first sounds of autumn, raucousand dark, […]
- [Anna Akhmátova – A Mulher de Lot](https://singularidadepoetica.art/2023/07/09/anna-akhmatova-a-mulher-de-lot-2/): A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás e transformou-se numa estátua de sal. Gênesis E o homem justo seguiu o enviado de Deus,alto e brilhante, pelas negras montanhas.Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:“Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olharas rubras torres da tua Sodoma natal,a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,as janelas vazias da casa elevadaonde destes filhos ao homem amado”.Ela olhou e – paralisada pela dor mortal -,seus olhos nada mais puderam ver.E converte-se o corpo em transparente sale os ágeis pés no chão enraizaram-se.Quem há de chorar por essa mulher?Não é […]
- [Samuel Daniel – Soneto XXXVIII (de Delia)](https://singularidadepoetica.art/2023/07/08/samuel-daniel-soneto-xxxviii-de-delia/): Quando murchar a flor, a glória dessa imagem,e tu sozinha, o rosto cheio de cuidado,no espelho que não mente leres a mensagemde que tua beleza já terá findado:verás vivas as chagas que fizeste em mim,e, extinta a chama tua, eu a guardar-lhe o ardor;que, se antes de fanares eu te amei assim,em teu declínio aumentará o meu fervor.Em mim este milagre observará o mundo,o fogo a arder depois de o lenho consumido;então verás que o meu afeto foi profundo,e talvez te arrependas de tão cruel ter sido. Doer-te-á teres zombado deste pranto puro, quando nevar o inverno em teu cabelo escuro. […]
- [Miquel Martí i Pol - Tua Solidão](https://singularidadepoetica.art/2023/07/07/miquel-marti-i-pol-tua-solidao-2/): Enquanto puderes, não desperdicestua solidão, dedicando-a a uma absurdabusca do nada, nem te persigasobsessivamente por escuros corredores.Assustado pela luz dos preceitos.Sai sob o sol pleno e observaas coisas difíceis.Considera que o jogo desmedido das palavrasnão te servirá de nada se não te apoiaresnaquilo que te rodeia. Há as pedrase as árvores e as pessoas e tantas coisasque podes tocar com as mãos!Que não te apercebasum dia, com sobressalto, que os anos estão passandoe moves-te apenas em torno de tua sombra. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO com ligeiras alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 22/07/2023 Tu soledad En cuanto puedas, […]
- [Edith Södergran – Nada](https://singularidadepoetica.art/2023/07/06/edith-sodergran-nada/): Fique tranquilo, meu filho, não há nada,e tudo é como parece: a floresta, a fumaçae os trilhos que desaparecem.Em algum lugar afastado, em países distantes,existe um céu mais azul e uma parede coberta de rosasou uma palmeira e um vento suave —e isso é tudo.Não há nada além de neve no ramo do pinheiro.Não há nada que possamos beijar para aquecer nossos lábios,e todos os lábios ficarão frios com o tempo.Mas o que você está dizendo, meu filho? Que seu coração é forte,e viver em vão é pior do que morrer?O que você queria da morte? Você sente o nojo quesuas […]
- [Joan Margarit - Quando se perde o sinal](https://singularidadepoetica.art/2023/07/05/joan-margarit-quando-se-perde-o-sinal-2/): À noite, em um pequeno aeroporto,vês um avião decolando.O sinal vai se perdendo.Sem nenhuma piedade por quem tens sido,pois a piedade é demasiado efêmera enão há tempo para edificar nada sobre ela,sentes-te convencido de que vives,embora sem esperanças, uns anosque são os mais felizes de tua vida.Há uma outra poesia, haverá sempre,como há outra música. A de Beethoven surdo.Quando se perde o sinal. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO com ligeiras alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 20/07/2023 Joan Margarit – Se pierde la señal De noche, en un pequeño aeropuerto,ves un avión que va elevándose.Se va perdiendo la señal.Sin […]
- [Thomas Lux – "Ti amo Coração"](https://singularidadepoetica.art/2023/07/04/thomas-lux-te-amo-corasao/): "Ti amo Coração", um poema de Thomas Lux que retrata um homem que arrisca a própria vida para declarar seu amor em público, explorando o caráter tolo, ardente e perigoso da paixão como expressão extrema e abençoada do sentimento amoroso.
- [Nuno Júdice – Fotografia](https://singularidadepoetica.art/2023/07/03/nuno-judice-fotografia-2/): Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso deatget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,e olha para trás, de esguelha, como se quisessemostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-sede nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-seum sorriso que, não se sabe porquê, se esbate comessa espécie de névoa com que o tempo envolveas fotografias antigas, a sépia, em que não épossível disfarçar a certeza que temos de que aquelamulher, hoje, não passa de cinza nalgum cantode cemitério de província. Porém, a sua nudezdesafia a morte; e quase que lhe podíamos pedirque esqueça o fotógrafo, […]
- [Thom Gunn - O atiçador](https://singularidadepoetica.art/2023/07/02/thom-gunn-o-aticador-a-gas/): Quarenta e oito anos atrás —Já se passaram mesmo quarenta e oito anosDesde então?— eles forçaram a portaQue ela havia barricadoCom o peso de uma escrivaninha inteiraPara que ninguém descobrisse, como eles descobriram,o que ela havia bloqueado. Ela havia bloqueado a portaPara manter as crianças do lado de fora.Em seu roupão vermelho,Ela fizera anotações, ocupada a noite todaEmpurrando os móveis,Pensando até ficar atordoada,Antes de se deitar. As crianças ficaram indo e vindoNo duro gramado invernalO irmão mais velho e o mais novo,Repetindo, um para o outro,Seus lamentos – um fardo –Na madrugada de dezembro,Até entenderem o que aquilo queria dizer. E […]
- [Werner Aspenström – Domingo](https://singularidadepoetica.art/2023/07/01/werner-aspenstrom-domingo-2/): Pela simples razão de que nunca mais voltaráhoje é um dia memorável.O sol nasceu no leste e se pôs no oeste,deixou o céu para as estrelase uma nave espacial nadando no espaço.O rádio falava e cantava através da janela abertaatrás dos pelargônios vermelhos imutáveis.Uma mulher colhia cachos de groselha com uma tesourae os levava para a cozinha.Lá fora no pátio um rapazinho de joelhos ao lado de sua motonetadivertia-se com as centelhas da bobina. Trad.: Vasco Graça Moura (?) Republicação: poema publicado na página originalmente em 15/07/2018
- [James Tate – A promoção](https://singularidadepoetica.art/2023/06/30/james-tate-a-promocao/): Eu já fui um cachorro em minha vida passada, um cachorromuito bom, e, por isso, fui promovido a ser humano.Eu gostava de ser um cachorro. Trabalhava para um fazendeiro pobre,protegendo e pastoreando suas ovelhas. Lobos e coiotestentavam passar por mim todas as noites, mas eununca perdia uma ovelha. O fazendeiro me recompensavacom uma boa comida, comida de sua mesa. Ele pode tersido pobre, mas comia bem. E seus filhos brincavam comigo quando não estavam na escola outrabalhando no campo. Eu tinha todo amor que um cachorropoderia esperar. Quando envelheci, trouxeram um novocachorro e eu o treinei nas artimanhas do ofício.Ele aprendeu […]
- [Andreia C. Faria - Descarnação](https://singularidadepoetica.art/2023/06/29/andreia-c-faria-descarnacao-2/): Até aos trinta anos tensa cara que Deus te deu. Depoistens a cara que mereces. É uma promessade ironia, uma sentença sem recurso. É-te assim dito:estás entregue ao labor íntimodo que comes, ao número de horas que dormes,àquilo que fazes e sobretudoàquilo em que pensas. Deus(perdoa-lhe a fraqueza)tolera-nos enquanto somos jovens,ampara-nos, alisa-nosa fronte após um desgosto, talveznos ame, mas deixa-nossozinhos quando a belezaé terreno pouco firme e assiste de longeao desafio temerário que lançoua cada filho. Sabes então que o rosto é uma florplantada no escuro, uma corolatenra, redonda e impenetrávelque desabrocha e se abrecom as pétalas lisas e brilhantes, ouconfusas […]
- [Filodemo de Gádara – Estação da Rosa Silvestre](https://singularidadepoetica.art/2023/06/28/filodemo-de-gadara-estacao-da-rosa-silvestre/): É a estação da rosa silvestre e da hortelã, Sosylos,a estação do grão-de-bico e dos primeiros cortes dos brotos,dos lambaris e dos queijos salgados, da alface-crespaem cujas novas folhas a luz transfunde um brilho quase esquecido. Ainda assim,reparaste como neste ano algo mudou?Como não fazemos mais nossas caminhadas matinaisao longo da costa recém-povoada, nossos piqueniquessob os plátanos e já não nos apressamos em sorvero disco afundando do sol da tarde?Como Antigenes e Bacchios, nossos amigos bronzeados,musculosos e atléticos, ontem flertavame hoje levamos seus corpos para sepultar? Trad.: Nelson Santander (a partir da versão em inglês feita por Sherod Santos) Wildrose Season […]
- [Manuel António Pina - M., A Última Palavra](https://singularidadepoetica.art/2023/06/27/manuel-antonio-pina-m-a-ultima-palavra/): M., A Última Palavra, um poema de Manuel António Pina
- [Ellen Bass – Removendo a frente da casa](https://singularidadepoetica.art/2023/06/26/ellen-bass-arrancando-a-frente-da-casa/): Estou à mesa da cozinha, tomando chá forte e comendo ovoscom gemas douradas como papoulas de nossas galinhas, Marilyn e Estelle.Há um carro vermelho estacionado do outro lado da rua e as íris deslumbrantes do meu vizinho,suas línguas franjadas saboreando o ar.“A Monsanto está processando Vermont”, digo, folheando o Times.Digo em voz alta porque Janet está na sala de estar,na poltrona desbotada que o gato arranhou até à palha,comento iogurte e os morangos que ela trouxe do campoonde ela trabalha arduamente para aliviar as delicadas bagas de sua pesada carga química.“O quê?” ela responde. Ela não está usando os aparelhos auditivos,então […]
- [Jorge Luis Borges - James Joyce (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2023/06/25/jorge-luis-borges-james-joyce-em-tres-traducoes-2/): Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os diasdo tempo, desde o inconcebíveldia inicial do tempo, em que um terrívelDeus prefixou os dias e agonias,até aquele outro em que o ubíquo riodo tempo terrenal torne a sua fonte,que é o Eterno, e se apague no presente,no futuro, no passado o que agora é meu.Entre a aurora e a noite está a históriauniversal. Do fundo da noite vejoa meus pés os caminhos do hebreu,Cartago aniquilada, Inferno e Glória.Dá-me, Senhor, coragem e alegriapara escalar o cume deste dia. […]
- [Hanif Willis-Abdurraqib - E qual será a utilidade de sua vaidade quando o arrebatamento chegar?](https://singularidadepoetica.art/2023/06/24/hanif-willis-abdurraqib-e-de-que-servira-sua-vaidade-quando-o-arrebatamento-acontecer/): E qual será a utilidade de sua vaidade quando o arrebatamento chegar?, questiona o homem com um carrinho de garrafas vazias na esquina da igreja com alincoln enquanto fixo meu olhar no meu telefone e digoEu sei sim eu sei enquanto tento encontrar o filtroadequado que fará o pôr-quase-perfeito-do-sol parecer com a descrição que eu faria dele em um poema e o homemdiz o momento já está bem na sua frente e eurespondo eu sei mas todos que eu amo não estão aqui e digoaqui como nesta esquina comigo enquanto dou ao céu um tom de vermelho mais intenso em meu telefone e digoaqui […]
- [Emily Dickinson - "Senti um Féretro em meu Cérebro..."](https://singularidadepoetica.art/2023/06/23/emily-dickinson-senti-um-feretro-em-meu-cerebro-2/): Senti um Féretro em meu Cérebro,E Carpideiras indo e vindoA pisar — a pisar — até eu sonharMeus sentidos fugindo — E quando tudo se sentou,O Tambor de um Ofício —Bateu — bateu — até eu sentirInerte o meu Juízo E eu os ouvi — erguida a Tampa —Rangerem por minha Alma comTodo o Chumbo dos pés, de novo,E o Espaço — dobrou, Como se os Céus fossem um SinoE o Ser apenas um Ouvido,E eu e o Silêncio estranha RaçaSó, naufragada, aqui — Partiu-se a Tábua em minha MenteE eu fui cair de Chão em Chão —E em cada Chão […]
- [Yusef Komunyakaa – Ode à Larva](https://singularidadepoetica.art/2023/06/22/yusef-komunyakaa-ode-a-larva/): Irmã da mosca-varejeira& da divindade, você faz mágicaNos campos de batalha,Em pedaços de carne suína estragada & em lugares sujos. Sim, vocêChega à raiz de todas as coisas.Você é sólida & matemática.Jesus Cristo, você é implacável Com a verdade. Ontológica & lustrosa,Você lança feitiços em mendigos & reisAtrás da porta de pedra do túmulo de CésarOu em trincheiras abertas num campo de ambrósias. Nenhum credo ou decreto pode proscrevê-laEnquanto você dizima cada coisa viva. PequenaMestra da terra, ninguém chega ao céuSem antes passar por você. Trad.: Nelson Santander Ode to the Maggot Brother of the blowfly& godhead, you work magicOver battlefields,In […]
- [Manuel de Freitas - Pompe Inutili](https://singularidadepoetica.art/2023/06/21/manuel-de-freitas-pompe-inutili/): Pompe Inutili, um poema de Manuel de Freitas
- [Katia Kapovich – Retrato de um cão como um homem mais velho](https://singularidadepoetica.art/2023/06/20/katia-kapovich-retrato-de-um-cao-como-um-cara-mais-velho/): Quando o dono dele morreu em 2000 e uma nova famíliase mudou para o apartamento de Moscou,ele foi viver com os vira-latas do parque.No verão, havia muita comida, as criançasjogavam fora sanduíches, cachorros-quentes e outras sobras.Ele não tinha um grande apetite,e ainda sentia saudades do seu dono.Ele também estava velho, as fêmeas já não o atraíam,e ele não tinha mais energia para correr atrás delas.Então veio o inverno e os pequeninos abandonaram o parque.A ideia de comer do lixo lhe ocorreumas no minuto em que ele começou a revirar a lixeira virada, uma vozem sua cabeça disse: “Não, Rex!”Os vestígios de […]
- [Manuel António Pina - Forma, só Forma](https://singularidadepoetica.art/2023/06/19/manuel-antonio-pina-forma-so-forma/): Forma, só Forma, um poema de Manuel António Pina
- [Ferreira Gullar – Manhã](https://singularidadepoetica.art/2023/06/18/ferreira-gullar-manha/): As portas batem as toalhas voamo dia se esbaqueia como um pássaro dentro da casa(ou uma lembrançadentro da casa) Véspera do dia em que de repente enlouquecerei.
- [Joan Margarit - Não jogues fora as cartas de amor](https://singularidadepoetica.art/2023/06/17/joan-margarit-nao-jogues-fora-as-cartas-de-amor-2/): “Não jogues fora as cartas de amor”, um poema de Joan Margarit que afirma a escrita amorosa como refúgio último contra o desgaste do tempo e a erosão da própria poesia.
- [Richard Siken - Mundo visível](https://singularidadepoetica.art/2023/06/16/richard-siken-mundo-visivel/): A luz do sol derramando-se sobre a sua pele, sua sombra plana na parede. O amanhecer partia os ossos do seu coração como gravetos. Você não esperava por isso, o quarto se tornando branco, a luz astronômica golpeando-o em uma torrente de punhos. Você levou a mão ao rosto como se para escondê-lo, os dedos cor-de-rosa se tornaram dourados enquanto a luz fluía diretamente para o osso, como se você estivesse dentro do pequeno quarto fechado em vidro com cada partícula de poeira iluminada. A luz não é nenhum mistério, o mistério é haver algo que obstrui a passagem da luz. […]
- [Linda Gregg – Redução](https://singularidadepoetica.art/2023/06/15/linda-gregg-lessening/): Sem nem mesmo abrir o álbumpercebi de repente, dois meses depois,que você havia roubado uma foto minha,aquela colorida, nas ondas gregas.Depois de ter me machucado tanto,como você pode também subtrair-me uma fotode um tempo em que eu ainda não o conhecia?Do tempo em que eu estava com Jack?Roubar a pequena prova de que um diaeu tive uma vida feliz, era amadae bela? Trad.: Nelson Santander Lessening Without even looking in the albumI realized suddenly, two months later,you had stolen the picture of me,The one in color in the Greek waves.After you had hurt me so much,how could you also take the […]
- [Patrizia Cavalli – Agora que](https://singularidadepoetica.art/2023/06/14/patrizia-cavalli-agora-que/): Agora que o tempo parece ser todo meue ninguém me chama para almoçar ou jantar,agora que posso ficar observandocomo uma nuvem desbota e se desfaz,como um gato atravessa o telhadono imenso luxo de uma aventura, agoraque todos os dias me esperaa duração ilimitada de uma noite,onde não há mais apelos e nem razãopara me despir apressadamente e repousar dentroda ofuscante doçura de um corpo que me espera,agora que a manhã nunca chegae silenciosamente me abandona aos meus planosem todas as nuances da voz, agora,de repente, eu desejaria a prisão. Trad.: Nelson Santander Adesso che Adesso che il tempo sembra tutto mioe […]
- [Emily Dickinson - "Morrer por ti era pouco..."](https://singularidadepoetica.art/2023/06/13/emily-dickinson-morrer-por-ti-era-pouco-2/): Morrer por ti era pouco.Qualquer grego o fizera.Viver é mais difícil —É esta a minha oferta — Morrer é nada, nemMais. Porém viver importaMorte múltipla — semO Alívio de estar morta. Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 29/06/2018 Too scanty ’twas to die for you,The merest Greek could that.The living, Sweet, is costlier —I offer even that — The Dying, is a trifle, past,But living, this includeThe dying multifold — withoutThe Respite to be dead.
- [Tishani Doshi - Poema de Amor](https://singularidadepoetica.art/2023/06/12/tishani-doshi-poema-de-amor-2/): No fim, perderemos um ao outropara alguma coisa. Eu até preferiria algograndioso — morte ou desastre.Mas pode não ser assim.Pode ser que você saiacerta manhã para comprar cigarros,depois de fazermos amor,e nunca mais volte,ou que eu me apaixone por outro homem.Pode ser um lento deslizamento para a indiferença.Seja como for, teremos de aprendera suportar o peso da eventualidadede que perderemos um ao outro para alguma coisa.Então por que não começar agora, enquanto sua cabeçarepousa como uma lua perfeita em meu colo,e os cães na praia estão uivando lá fora?Por que não alcançar a costura desta noite no sul da índia e […]
- [Antonia Pozzi - Novembro](https://singularidadepoetica.art/2023/06/11/antonia-pozzi-novembro-2/): E depois – quando eu partirrestará alguma coisade mimno meu mundo –restará um fino rasto de silênciono meio das vozes –um ténue sopro de brancono coração do azul – E numa noite de Novembrouma menina frágilà esquina de uma ruavenderá braçadas de crisântemose lá estarão as estrelasgélidas verdes distantes –Alguém choraráem algum lugar – em algum lugar –Alguém irá procurar crisântemospara mimno mundoquando sem regressoeu tiver de partir. Trad.: Inês Dias REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 28/06/2018 Antonia Pozzi – Novembre E poi – se accadrà ch’io me ne vada –resterà qualchecosadi menel mio mondo –resterà un’esile scìa di […]
- [Leah Silvieus – Espécies invasoras](https://singularidadepoetica.art/2023/06/10/leah-silvieus-especies-invasoras/): Algo terrível aconteceu hoje, eu digoe meu marido corre até mim procurando por sinais de ferimentos. Não quero contar-lhe o resto:de como encontrei uma rã-arborícola na canaleta do vidro da portado nosso carro, olhando para cima com o que eu então imagineiser um olhar de esperança, como a persuadi a entrar em um saco de papelque carreguei até uma árvore com muita sombrado outro lado do terreno, como empurrei o saco suavemente,e esperei. E de como quando eu voltei,ela olhava para mim, sua perna agora deslocadano ponto onde eu, em minha pressa, a havia quebrado.Seu olhar ainda era o mesmo, repleto […]
- [Renata Correia Botelho - o vento a rondar os dragoeiros](https://singularidadepoetica.art/2023/06/09/renata-correia-botelho-o-vento-a-rondar-os-dragoeiros/): O Vento a Rondar os Dragoeiros, um poema de Renata Correia Botelho
- [Richard Howard - Princípios elementares aos setenta e dois](https://singularidadepoetica.art/2023/06/08/richard-howard-principios-elementares-aos-setenta-e-dois/): Quando consideramos as estrelas (o que mais podemos fazer com elas?) e inclusive reconhecemos entre elas figuras paternas siderais (foi nossa consideração que as organizou assim), elas sempre nos ofuscam, pois nós mudamos. Quando observamos a água (que não pode ser contida, pois não para de transformar-se em si mesma), é assim que aspiramos nos mover - mas a água nos ultrapassa. E quando aspiramos nos envolver pelas chamas (pois quem não trajaria tal vestimenta?) as chamas apenas passam por nós - esse é o jeito delas de passar. Mas a terra é uma outra conversa. Peçamos à terra, a última […]
- [Felipe Benítez Reyes - Uma Forma de Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2023/06/07/felipe-benitez-reyes-uma-forma-de-eternidade-2/): Então o medo era isto?Não os ameaçadoresfantasmas do pensamento e da consciência.Não os longos corredores de hospitaiscom lâmpadas fluorescentes dia e noite.Nem sequer o tremor de irrealidadeque permanece na alma se te recordas. O medo, aparentemente, é calmo: Chega quando fechas a janelae compreendes que tudo quanto vêsé o mesmo que ontem, e seráigual amanhã e para sempre. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com pequenas alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 25/06/2018 Felipe Benítez Reyes – Una Forma de Eternidad Pero ¿el miedo era esto?No los amenazantesfantasmas del pensamiento y la conciencia.No los largos pasillos de hospitalescon tubos fluorescentes […]
- [Cheryl Pearson - Contando estrelas](https://singularidadepoetica.art/2023/06/06/cheryl-pearson-contando-estrelas/): O cheiro de gelo nos pinheiros. Frio e verde,como uma lufada de hortelã. Suas omoplatas como asas de anjocortando a grama. Moisés dividiu as águas assim mesmo.Não foi tão milagroso quanto isto. Nós. Sua pele, a brancura dela brilhandoatravés do algodão. Você faz um círculo com o polegar e o indicador,uma lente telescópica. E diz: Vamos tentar contar as estrelas, e eu observoenquanto você vasculha o universo de ponta a ponta para mim, toda aquela velha e variada luznumerada, definida, caindo pelo aro ósseo como um punhado de sal.Agora eu sei. Como as galáxias colapsam.Como mundos inteiros podem nascer de uma […]
- [Joan Margarit - Shostakovich. Sinfonia 'Leningrado'](https://singularidadepoetica.art/2023/06/05/joan-margarit-shostakovich-sinfonia-leningrado-2/): Lembras-te? Joana1 havia morrido.Íamos para o norte, tu e eu, de carro,para o apartamento junto ao mar,e ouvíamos esta sinfonia.Iniciamos a viagem em uma manhãluminosa e, dentro da música,o dia era de muros cobertos pelo gelo,sombras com sacos meio cheiose, no lago, trenós com cadáveres.Como uma pista de aeroporto ao sol,fugia a estrada, e por trás dos sons se estendiauma névoa de obuses ocultandoos rastros dos tanques na neve.Foi em julho, em uma manhã azul douradaque brilhava no cristal do mar.Os metais e cordas ressoavamgloriosamente – no passado, como sempre;rejeitando a vida, como sempre. À noite não se ouvia nenhum outro […]
- [Ada Limón – O real motivo](https://singularidadepoetica.art/2023/06/04/ada-limon-a-verdadeira-razao/): “O Real Motivo”, um poema de Ada Limon que parte de uma conversa aparentemente trivial sobre tatuagens para revelar uma história profunda de perda, sobrevivência e amor materno.
- [Carlos Drummond de Andrade – A um varão que acaba de nascer](https://singularidadepoetica.art/2023/06/03/carlos-drummond-de-andrade-a-um-varao-que-acaba-de-nascer/): Chegas, e um mundo vai-secomo animal ferido,arqueja. Nem apontaum forma sensível,pois já sabemos todosque custa a modelar-seuma raiz, um broto.E contudo vens tarde.Todos vêm tarde. A terraanda morrendo sempre,e a vida, se persiste,passa descompassada,e nosso andar é lento,curto nosso respiro,e logo repousamose renascemos logo.(Renascemos? talvez)Crepita uma fogueiraque não aquece. Longe.Todos vêm cedo, todoschegam fora do tempo,antes, depois. Durante,quais os que aportam? Quemrespirou o momento,vislumbrando a paisagemde coração presente?Quem amou e viveu?Quem sofreu de verdade?Como saber que foinossa aventura, e nãooutra, que nos legaram?No escuro prosseguimos.Num vale de onde a luzse exilou, e no entantobasta cerrar os olhospara que nele trema,remoto e […]
- [Adrienne Rich – (Dedicatórias)](https://singularidadepoetica.art/2023/06/02/adrienne-rich-dedicatorias/): Leia Dedicatórias, de Adrienne Rich, um poema sobre leitura, pertencimento e os laços invisíveis que unem pessoas através da linguagem.
- [Nelson Santander – Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2023/06/01/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas-2/): Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), por Nelson Santander
- [Hayden Carruth – Ensaio](https://singularidadepoetica.art/2023/05/31/hayden-carruth-dissertacao/): Tantos poemas sobre mortes de animais.O sapo de Wilbur, o ouriço de Kinnell, o esquilo de Eberhart,e aquele poema de alguém – Hecht? Merrill? –sobre cremar uma marmota. Mas sobretudoeu me lembro do número ultrajante deles,como se todo poeta, inclusive eu, tivesse escrito ao menosuma elegia animal; como resultado, hoje, quando cheguei a um poema suficientemente bom de Edwin Brocksobre encontrar uma raposa morta na beira do mareu fiquei sem resposta; como se o choque permanentehouvesse me anestesiado. E então, depois de um momento,comecei a ceder à tristeza (analisando-me sem emoção enquanto isso), não apenas porqueparte do meu ser havia sido […]
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2023/05/30/jorge-luis-borges-labirinto-3/): Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.E o alcácer abarca o universoE não tem anverso nem reversoNão tem extremo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminhoQue fatalmente se bifurca em outro,Que fatalmente se bifurca em outro,Terá fim. É de ferro teu destino Como o juiz. Não creias na investidaDo touro que é um homem cuja estranhaForma plural dá horror a essa maranha De interminável pedra entretecida.Não virá. Nada esperes. Nem te esperaNo negro crepúsculo uma fera. Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 18/06/2018 Jorge Luis Borges – Laberinto No habrá […]
- [W. S. Merwin – Para o aniversário da minha morte](https://singularidadepoetica.art/2023/05/29/w-s-merwin-para-o-aniversario-de-minha-morte/): Todo ano, sem perceber, passo pelo diaEm que as últimas chamas acenarão para mimE o silêncio colocar-se-á a caminhoInfatigável viajanteComo os feixes de uma estrela sem luz Então, não me encontrareiNa vida como em um estranho trajeSurpreso com a terraE o amor de uma mulherE a desfaçatez dos homensComo hoje escrevendo após três dias de chuvaOuvindo a curruíra cantar e o cessar da precipitaçãoE reverenciando sem saber a quê Trad.: Nelson Santander For the Anniversary of My Death Every year without knowing it I have passed the day When the last fires will wave to meAnd the silence will set outTireless […]
- [Jorge Sousa Braga - Fogo sobre fogo](https://singularidadepoetica.art/2023/05/28/jorge-sousa-braga-fogo-sobre-fogo/): Fogo sobre fogo, um poema de Jorge Sousa Braga
- [Gwen Harwood – No parque](https://singularidadepoetica.art/2023/05/27/gwen-harwood-no-parque/): Ela se senta no parque. São antiquados os seus trajes.Duas crianças choram e brigam, puxam-lhe o babado.Uma outra traça padrões ao acaso no gramadoAlguém que há muito tempo ela amou passa – tarde demais para fingir desdém ao aceno casual.“Que prazer” blá blá blá. “O tempo sempre nos surpreende.”Da cabeça perfeita dele claramente ascendeum pequeno balão…”por pouco fui eu que me dei mal…” Eles ficam sob a luz bruxuleante, exercitandoos nomes e aniversários das crianças. “É tãobom ouvir suas conversas, vê-los crescer, vicejar”,diz ela ao sorriso de adeus dele. Depois, aleitandoa caçula, senta-se e os pés dela seus olhos fitam.“Elas estão […]
- [Nuno Júdice - Réquiem por Muitos Maios](https://singularidadepoetica.art/2023/05/26/nuno-judice-requiem-por-muitos-maios/): "Réquiem por Muitos Maios", um poema de Nuno Júdice que evoca amigos boêmios marcados por excessos e autodestruição, refletindo sobre morte, saudade e a memória daqueles que viveram intensamente sem jamais compreender a própria vida.
- [Mary Oliver – Não hesite](https://singularidadepoetica.art/2023/05/25/mary-oliver-nao-hesite/): Se você, súbita e inesperadamente, sentir alegria,não hesite. Entregue-se a ela. Há muitasvidas e cidades inteiras destruídas ou prestes a serem.Não somos sábios e raramente somos amáveis.E muito nunca poderá ser redimido.Ainda assim, a vida ainda tem alguma possibilidade. Talvez essa seja sua forma de resistir, de mostrar que às vezesalgo melhor do que todas as riquezas ou poderesdo mundo pode acontecer. Pode ser qualquer coisa,mas é provável que você o perceba no instanteem que o amor começa. De toda forma, frequentementeé este o caso. De toda forma, seja como for, não temaa fartura. A alegria não foi feita para ser […]
- [Joan Margarit - Não estava distante, não era difícil](https://singularidadepoetica.art/2023/05/24/joan-margarit-nao-estava-distante-nao-era-dificil/): Chegou um tempoem que a vida que se perde já não causa dor,em que a luxúria é apenasuma lâmpada inútil, e a inveja é esquecida.É um tempo de perdas prudentes, necessárias,e não é um tempo de chegarmas de partir. O amor, agora,por fim se une à inteligência.Não estava distante,não era difícil. É um tempoque não me deixa mais que o horizontecomo medida da solidão.Um tempo de tristeza protetora. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 12/06/2018 Joan Margarit – No estaba lejos, no era difícil Ha llegado este tiempocuando ya no hace daño la […]
- [Juan Vicente Piqueras - O pouco que sei](https://singularidadepoetica.art/2023/05/23/juan-vicente-piqueras-o-pouco-que-sei/): Sei que o penar não vale a pena. Sei que a felicidade é indizível. Sei que o amor, essa missão selvagem,delicada, impossível, é a única formade estar neste mundo sem errar. Sei que a morte resolve tudo.Sei que a morte, não, quero dizer, a vidaé um pintassilgo em uma árvore secaou em uma amendoeira em flor,cantando para a luz,dando graças aos céus por tudosem o saber. Trad.: Nelson Santander Lo poco que sé Sé que la pena no vale la pena. Sé que la dicha no puede ser dicha. Sé que el amor, esa misión salvaje,delicada, imposible, es la única formade […]
- [Manuel António Pina – Esplanada](https://singularidadepoetica.art/2023/05/22/manuel-antonio-pina-esplanada/): Esplanada, um poema de Manuel António Pina
- [Jane Draycott – A praça](https://singularidadepoetica.art/2023/05/21/jane-draycott-a-praca/): Do outro lado da praça, uma mulher olha para mimde uma janela, a sombra do quarto em que ela estápressionando-a como uma pétala em direção à luz. Ela é linda em seu vestido de linho sem mangas,uma vela impassível na vasta vidraça escura,como minha mãe em um tempo antes de eu a conhecer. Entre nós, um rio de turistas, rostos erguidos para os grandes cavalos de bronze saltandopara algum outro lugar que não podemos ver. Como um amante do outro lado de uma sala eu devolvo o seu olharmas em seus olhos ela está me dizendo que agora é tarde demaise […]
- [Joan Margarit - Discurso do Método](https://singularidadepoetica.art/2023/05/20/joan-margarit-discurso-do-metodo-2/): Já de criança buscava as janelaspara pode fugir com o olhar.Desde então, se entro em um lugar,olho com atenção onde deixo meu casacoe onde está a porta de saída.Liberdade, para mim, significa fuga.Há muitas portas no mundo.Inclusive o sexo, em caso de emergência,pode sê-lo, embora todas vão se fechandoe, para fugir, rapidamente fiquemapenas as janelas da infância.De par em par abertas para poder saltar. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 07/06/2018 Discurso del Método De niño ya buscaba las ventanaspara poder huir con la mirada.Desde entonces, si entro en un lugar,miro con atención […]
- [Albert Katz – Ao chegar aos 70](https://singularidadepoetica.art/2023/05/19/albert-katz-ao-chegar-aos-70/): Leia "Ao chegar aos 70", de Albert Katz, um poema espirituoso e comovente sobre envelhecimento, memória e reinvenção pessoal.
- [Idea Vilariño - Ou quem sabe nove](https://singularidadepoetica.art/2023/05/18/idea-vilarino-ou-quem-sabe-nove/): Talvez tenhamos tido só sete noitesnão seinão as conteicomo poderia.Talvez não mais que seisou quem sabe nove.Não seimas valeramcomo o amor mais duradouro.Talvezcom quatro ou cinco noites como essasmas precisamente como essastalvezse possa vivercomo de um longo amoruma vida inteira. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com pequenas alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 06/05/2018 Idea Vilariño – O fueron nueve Tal vez tuvimos sólo siete nochesno séno las contécómo hubiera podido.Tal vez no más que seiso fueron nueve.No sépero valieroncomo el más largo amor.Tal vezde cuatro o cinco noches como esaspero precisamente como esastal vezpueda vivirsecomo de un largo […]
- [Zbigniew Herbert - Uma vida](https://singularidadepoetica.art/2023/05/17/zbigniew-herbert-uma-vida/): Eu era um rapaz sossegado, um tanto sonolento e — surpreendentemente —ao contrário dos meus colegas — que ansiavam por aventuras —não nutria grandes expectativas — não costumava olhar pela janelaNa escola, era mais diligente do que competente — dócil e estável Depois, veio uma vida normal de um funcionário comum,levantar cedo rua bonde escritório bonde outra vez casa dormir Eu realmente não sei porque estou perpetuamente cansado e inquieto,mesmo quando deveria estar descansando Sei que nunca fui lá grande coisa — não conquistei nadacolecionava selos ervas medicinais era só mediano no xadrez Viajei para o exterior certa vez — em […]
- [Manuel António Pina – Lugares da infância](https://singularidadepoetica.art/2023/05/16/manuel-antonio-pina-lugares-da-infancia-2/): Lugares da infância ondesem palavras e sem memóriaalguém, talvez eu, brincoujá lá não estão nem lá estou. Onde? Diantede que mistérioem que, como num espelho hesitante,o meu rosto, outro rosto, se reflecte? Venderam a casa, as floresdo jardim, se lhes toco, ficam hirtase geladas, e sob os meus passosdesfazem-se imateriais as rosas e as recordações. O quarto eu não o viaporque era ele os meus olhos;e eu não o sabia,e essa era a sabedoria. Agora sei estas coisasde um modo que não me pertence,como se as tivesse roubado. A casa já não cresceà volta da sala,puseram a mesa para quatroe o […]
- [Peter Everwine – Chuva](https://singularidadepoetica.art/2023/05/15/peter-everwine-chuva/): Ao anoitecer, quando a luz vaciloue a pereira diante de minha janela escureceu,pousei meu livro e me postei junto à porta aberta,as primeiras gotas de chuva golpeando os beirais,um cheiro de terra molhada no vento.Sessenta anos atrás, deitado ao lado do meu pai,meio adormecido, sobre uma cama de ramos de pinheiro,enquanto a chuva tamborilava contra nossa barraca, ouvipela primeira vez o repentino lamento de um mergulhãopervagando sobre aquele lago remoto —uma solidão sem igual,embora o que eu interpretei como inconsolávelpossa ter sido apenas o som de algoindomável e inominávelcantando para a imensidão ao seu redore para nós até dormirmos. E pensando […]
- [Eduardo Chirinos - O que meu pai realmente quer de mim](https://singularidadepoetica.art/2023/05/14/eduardo-chirinos-o-que-meu-pai-realmente-quer-de-mim-2/): 1Esta noite tive um sonho. Seguia meu paipor uma estrada de terra. Os dois íamos a cavaloe mal trocávamos uma palavra. Ao longe, avistava-sea sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoadodesconhecido e remoto. De repente, meu pai deteveseu cavalo e perguntou se eu sabia para onde íamos.Respondi que não. Então estamos bem, ele me disse. 2Os cavalos do sonho conheciam o caminhode cor. Bastava abandonar asrédeas, deixar-se levar. Isso me causava umacerta apreensão, talvez até um pouco de medo.Meu pai, por outro lado, parecia muito tranquilo.Pensei, parece tranquilo porque está morto. 3Aqui é onde vivo, disse ele, como se […]
- [Mary Oliver – Sobre viajar para lugares bonitos](https://singularidadepoetica.art/2023/05/13/mary-oliver-sobre-viajar-para-lugares-bonitos/): Ainda procuro Deus todos os diase ainda o encontro por toda parte,no pó, nas floreiras.Seguramente, nos oceanos,nas ilhas distantes, continentes de gelo, países de areia,cada um com seu próprio conjunto de serese um Deus, qualquer que seja seu nome.Que perfeito estar a bordo de um naviotalvez ainda com cem anos pela frente.Mas é tarde, para todos nós,e, na verdade, o único navio que háé aquele em que todos estamos,incendiando o mundo à medida que avançamos. Trad. Nelson Santander On Traveling To Beautiful Places Every day I’m still looking for Godand I’m still finding him everywhere,in the dust, in the flowerbeds.Certainly in […]
- [Wislawa Szymborska - Gato num apartamento vazio](https://singularidadepoetica.art/2023/05/12/wislawa-szymborska-gato-num-apartamento-vazio-2/): Morrer — isso não se faz a um gato.Pois o que há de fazer um gatonum apartamento vazio.Trepar pelas paredes.Esfregar-se nos móveis.Nada aqui parece mudadoe no entanto algo mudou.Nada parece mexidoe no entanto está diferente.E à noite a lâmpada já não se acende. Ouvem-se passos na escadamas não são aqueles.A mão que põe o peixe no pratinhotambém já não é a mesma. Algo aqui não começana hora costumeira.Algo não acontececomo deve.Alguém esteve aqui e esteve,e de repente desapareceue teima em não aparecer. Cada armário foi vasculhado.As prateleiras percorridas.Explorações sob o tapete nada mostraram.Até uma regra foi quebradae os papéis remexidos.Que mais […]
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: VII - Encontrando algo](https://singularidadepoetica.art/2023/05/11/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-vii-encontrando-algo/): Uma cena familiar aproxima infância, envelhecimento e a tarefa de carregar aquilo que amamos. O poema encontra sentido em gestos concretos de cuidado, enquanto felicidade e passagem do tempo permanecem discretamente ligadas.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: VI - Sozinho](https://singularidadepoetica.art/2023/05/10/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-vi-so/): Depois da perda, estar sozinho não significa apenas ausência: o mundo continua oferecendo beleza, prazer e exigência. Jack Gilbert sustenta a tensão entre morte e felicidade, procurando uma forma de viver sem negar nenhuma delas.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: V - Michiko morta](https://singularidadepoetica.art/2023/05/09/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-v-michiko-morta/): A morte de Michiko é figurada pelo esforço físico de carregar uma caixa pesada sem jamais colocá-la no chão. O poema transforma o luto em gesto corporal contínuo, feito de exaustão, adaptação e cuidado.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: IV - Saudades de mim](https://singularidadepoetica.art/2023/05/08/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-iv-saudoso-de-mim/): A ausência de Michiko altera também a identidade de quem permaneceu. Jack Gilbert escreve sobre a saudade não apenas da pessoa perdida, mas do próprio homem que existia na convivência com ela.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: III - Michiko Nogami (1946-1982)](https://singularidadepoetica.art/2023/05/07/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-iii-michiko-nogami-1946-1982/): O poema se volta para Michiko como presença singular, recusando que sua vida seja reduzida à morte. Memória, intimidade e atenção ao que nela era irrepetível sustentam uma elegia sem abstração consoladora.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: II - Casados](https://singularidadepoetica.art/2023/05/06/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-ii-casados/): A vida de um casal é observada na duração, quando intimidade e tempo transformam o modo de pertencer um ao outro. O poema aproxima casamento, família e mortalidade sem converter a convivência em imagem idealizada.
- [Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: I - Noites e manhãs sem fim](https://singularidadepoetica.art/2023/05/05/jack-gilbert-poemas-e-elegias-para-michiko-nogami-i-noites-e-quatro-mil-manhas/): Uma caminhada por paisagens gregas e americanas se converte em percurso pela memória de Michiko. Entre árvores, estradas e vento, a presença ausente acompanha o poeta e dá continuidade ao amor vivido.
- [Javier Salvago - Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos](https://singularidadepoetica.art/2023/05/04/javier-salvago-um-pouco-mais-sabios-um-pouco-mais-cegos-2/): Quando não somos mais jovens, nos convencemosde que o diabo sabe mais por ser mais velhoe admitimos que os anos nos ensinama distinguir a realidade do sonho.Talvez não. Talvez a vida sóse nos mostre uma vez – quando temosolhos para aprecia-la – e depois vamosesquecendo seu rosto e seu segredo. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com ligeiras alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 30/05/2018 Un poco más sabios, un poco más ciegos Cuando uno ya no es joven, se convencede que el diablo sabe más por viejo,y admite que los años nos enseñana distinguir la realidad del sueño.Y, acaso, […]
- [Tania Hershman – Por um outro nome](https://singularidadepoetica.art/2023/05/03/tania-hershman-por-um-outro-nome/): Primeiro, ele a chamou de / Minha Pequena Aubergine // como se ela fosse exótica / como se ele fosse francês. // Você não é couve-flor, / ele brincou, e ela / gostou, seu nome / vegetal de estimação... Tania Hershman – Por um outro nome
- [Manuel António Pina - Ruínas](https://singularidadepoetica.art/2023/05/02/manuel-antonio-pina-ruinas-2/): Por onde quer que tenha começado,pelo corpo ou pelo sentido,ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,como num sono agitado interrompido. O teu nome tinha alturas inacessíveise lugares mal iluminados ondese escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam,e talvez devesse ter começado por aí. Agora é tarde, do que podiater sido restam ruínas;sobre elas construirei a minha Igrejacomo quem, ao fim do dia, volta a uma casa. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 28/05/2018
- [Ada Limón – A rebitadora](https://singularidadepoetica.art/2023/05/01/ada-limon-a-rebitadora/): “A rebitadora”, um poema de Ada Limon que aborda a experiência dos cuidados paliativos e da morte iminente de um ente querido através da linguagem do trabalho, da organização e da eficiência.
- [Javier Salvago - Convém não esquecer](https://singularidadepoetica.art/2023/04/30/javier-salvago-convem-nao-esquecer-2/): Por esta viaque chamam vida, vamoscom cautela devida, tal qual um cego.Mas em cinzas terminatodo e qualquer fogo. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 27/05/2018 Conviene no Olvidarlo Por esta senda,que llaman vida, todosvamos a tientas, igual que un ciego.En ceniza terminantodos los fuegos.
- [Keisha Cassel – As nove Sinfonias de Beethoven: um estudo de caso](https://singularidadepoetica.art/2023/04/29/keisha-cassel-nona-sinfonia-de-beethoven-um-estudo-de-caso/): E se eu lhe dissesse que nem uma única guerra acontece dramaticamente? // Nem as guerras em sua casa / nem as guerras no seu corpo / somos todos capazes da violência // de destruir todos em nosso caminho pelo puro prazer... Keisha Cassel – Nona Sinfonia de Beethoven: um estudo de caso
- [Vítor Nogueira - Gelo](https://singularidadepoetica.art/2023/04/28/vitor-nogueira-gelo-2/): Agora é apenas um café com paredes adornadas,imagens retratando destemidos ancestrais.O tempo foi passando, não foi? Um acidenteem câmara lenta a uma escala cataclísmica. Grande parte daquilo que fazemos é construirmemória, uma promessa frágil ao futuro.E pensar que na vida acumulamos tanta coisa,sobretudo se por hábito não deitamos nada fora. Mas ninguém pode travar a grande máquina.Diz-se que a viagem conta mais do que o destino.Perscruto as águas envolventes, em busca desombras, enquanto o mar revolto bate no casco. REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente em 26/05/2018
- [Charlotte Mew - Quartos](https://singularidadepoetica.art/2023/04/27/charlotte-mew-quartos/): Lembro-me de quartos que tiveram relação Com o constante esgotamento do coração. O quarto em Paris, o quarto em Genebra, O quarto pequeno e úmido com cheiro de algas E aquele som da maré, enlouquecedor e perenal — Quartos onde as coisas morriam — para o bem ou para o mal. Mas há um quarto onde nós (duas) mortas jazemos, Embora a cada manhã pareça que despertamos e pareça que de novo repousamos como o faremos algures no outro catre mais silencioso e poeirento lá fora, ao sol - ao relento. Trad.: Nelson Santander Rooms I remember rooms that have had […]
- [Nuno Júdice - Passado](https://singularidadepoetica.art/2023/04/26/nuno-judice-passado-2/): Passou o vento, passou o dia,passou a noite e a manhã,passou o tempo, passou a gente,passou cada hora de amanhã; passou um canto esquecidonos cantos de cada passo,passou ao dizer que passosem se lembrar do compasso; passou a vida como se nada fosse,só passou e foi-se embora,passou à pressa, sem demora,e passou tudo a quem ficou; e se mais não passouno fim de tudo ter passado,foi porque algo se passouno último passo que foi dado. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 25/05/2018
- [Ted Kooser – Fazenda Abandonada](https://singularidadepoetica.art/2023/04/25/ted-kooser-fazenda-abandonada/): Ele era um homem grande, diz o tamanhodos seus sapatos sobre uma pilha de pratos quebrados junto à casa;um homem alto também, diz o comprimento da camano quarto do andar de cima; e um homem bom e temente a Deus,diz a Bíblia com a contracapa arruinadano chão abaixo da janela, empoeirada de sol;mas não um fazendeiro, dizem os camposcobertos por pedregulhos e o celeiro com goteiras. Uma mulher vivia com ele, dizem as paredes do quartoforradas com lilases e as prateleiras da cozinhacobertas com oleado, e eles tinham uma criança,diz a caixa de areia feita de pneu de trator.O dinheiro era […]
- [Manuel António Pina - O Regresso](https://singularidadepoetica.art/2023/04/24/manuel-antonio-pina-o-regresso-2/): Como quem, vindo de países distantes fora desi, chega finalmente aonde sempre estevee encontra tudo no seu lugar,o passado no passado, o presente no presente,assim chega o viajante à tardia idadeem que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casae deita-se pela primeira vez na sua cama.Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,cidades, estações do ano.E come agora por fim um pão primeirosem o sabor de palavras estrangeiras na boca. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 24/05/2018
- [Peter Sirr – Uma cartilha saxônica](https://singularidadepoetica.art/2023/04/23/peter-sirr-uma-cartilha-saxonica/): Uma cartilha saxônica Para além deste afã e deste verso, aguarda-me inesgotável o universo. – Borges Penso então em Borges ficando cego,e no que ele disse sobre a alma.Ele tentava entender por queum homem que perde o mundobusca espadas e monstrose saxões com vozes rudes no Salão de Hidromel1. É que a alma sabe-se imortal,diz ele, e seu faminto círculo espiraladotudo alcança, realiza o que é possível.Há um tipo de conhecimento secretoque nos abraça, atinge tudo o que fazemos ou entãotudo o que fazemos é conhecimento e alma. Além de tudo isso, a gramática suada,o esforço de conhecer uma coisa após outra,do […]
- [Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame](https://singularidadepoetica.art/2023/04/22/lawrence-ferlinghetti-cafe-notre-dame-2/): Uma espécie de trauma sexualprende um casal abismadoEle está segurando as duas mãos delanas suasEla está beijando as mãos deleEstão olhando-senos olhosde muito pertoEla tem um casaco de pelesfeito duma centena de coelhos correndoEletem um casaco clássico sombrioe calças cinza-de-pardoAgora estão a examinar as palmasdas mãos um do outrocomo se fossem mapas de Parisou do mundocomo se estivessem à procura do Metrôque os levasse juntosatravés dos caminhos subterrâneosatravés das «estações do desejo»até ao terminal do amoraté às portas da cidade-luzÉ um caso sem saídae estão perdidosnas linhas cruzadasdas suas palmas enlaçadassuas linhas de cabeça e linhas de coraçãosuas linhas de sorte […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Fim de Verão"](https://singularidadepoetica.art/2023/04/21/paulo-henriques-britto-de-fim-de-verao/): VII Eis que acabou o tempo dos inícios, tendo durado o exato suficiente pra formação do hábito (ou vício) de habitar não um mísero presente, mas um futuro sempre a exigir rigorosíssimo planejamento, até que se escute a ficha cair: o tempo se esgotou. Chegou o momento de enfim viver conforme o planejado, ou então — se o plano não ficou pronto — de se pôr todo o projeto de lado e, improvisando cada gesto e passo, rodar em círculos, perplexo, tonto, a repetir o mantra: "Eu sei o que faço". ..................................................................... XIII Era o momento? Era. Foi. A hora exata […]
- [Do Instagram](https://singularidadepoetica.art/2023/04/20/do-instagram/)
- [Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções](https://singularidadepoetica.art/2023/04/20/marina-tsvetaieva-um-poema-em-duas-traducoes-2/): Tentativa de ciúme –Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra?Fácil, não é? — Um golpe de remo! —E de pronto a linha da costaSe foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante(No céu, por certo, não no mar)!Almas! Almas! — antes amarComo irmãs, não como amantes! Como vai você com a mulherComum? Sem nada de divino?Sem soberana, sem sequerUm trono (você foi o assassino), Como vai, meu bem? Tudo a gosto?E o dia-a-dia — sempre igual?Como você se arranja com o impostoDa banalidade imortal? “Mil sobressaltos, incertezas —Basta! Vou arrumar um teto!”Como vai, com quem […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Oito sonetos entrópicos"](https://singularidadepoetica.art/2023/04/19/paulo-henriques-britto-de-oito-sonetos-entropicos/): I Deixar de ser é coisa natural,como é natural ser. Pensando bem(ou só pensando, seja bem ou mal),o que haverá de natural, porém,em ser o que se é, e não ser, apenas?Não haverá um toque de artifícioimplícito em escamas, pelos, penas,nos ossos que sustentam o edifíciotodo, na fome que impele essa máquinafuriosa e cega, essa goela ávida,em direção a seu estado final,que é como o do silício, ou do feldspato,de tudo que é só no sentido lato,franco, de ser — este, sim, natural? ………………………………………………………….. III Podar as que ainda restam — expecitativasque, sabe-se lá como, deram um jeitode sobreviver, mais ou […]
- [Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa](https://singularidadepoetica.art/2023/04/18/anne-sexton-para-o-meu-amante-voltando-para-a-esposa-2/): “Para o meu amante voltando para a esposa”, um poema de Anne Sexton que explora a tensão entre paixão e permanência através da voz de uma amante que reconhece a força dos laços familiares e conjugais.
- [Paulo Henriques Britto - Bálsamo](https://singularidadepoetica.art/2023/04/17/paulo-henriques-britto-balsamo/): Seja hoje um dia igual a qualquer outro,um dia besta, esvaziado e amorfo, o tipo de data que é esquecidaantes mesmo de virada a folhinha, e esteja você completamente imersoneste dia, como um peixe dessas espécies das regiões abissais, isentas de luz,longe do ar e seus azuis, que nas funduras de silêncio e noitefalta não sente do que nunca soube — pois nesse dia insosso e timoratoesteja você, absorto, atarefado, imune a tudo que é êxtase ou angústia.Seja isso a sua vida. O seu mundo. BRITTO, Paulo Henriques.”Bálsamo”. In:_ Fim de Verão. São Paulo: Companhia das Letras, 2022
- [Mario Benedetti - Tempo sem Tempo](https://singularidadepoetica.art/2023/04/16/mario-benedetti-tempo-sem-tempo-2/): Preciso de tempo, necessito desse tempoque os outros deixam de ladoporque lhes sobra ou já não sabemo que fazer com eletempoem brancoem rubroem verdemesmo em castanho escuronão me importa a corcândido tempoque eu não posso abrire fecharcomo uma porta tempo para olhar uma árvore, um farolpara caminhar à beira do descansopara pensar que bom que hoje seja invernopara morrer um poucoe nascer em seguidae dar-me contae dar-me cordapreciso do tempo necessário parachapinhar algumas horas na vidae investigar por que estou tristee me habituar ao meu velho esqueleto tempo para esconder-meno canto de um galoe para reaparecerem um relinchoe para estar em […]
- [Paulo Henriques Britto - Sobre o real](https://singularidadepoetica.art/2023/04/15/paulo-henriques-britto-sobre-o-real/): Há motivos bem sérios para nãose acreditar em nada de específico,quanto mais em geral. Pois se a razãotem algum valor, é ponto pacífico que conclusões geradas pela mentesó podem validar ulterioresconclusões, porém rigorosamentenada nas regiões inferiores, menos nefelibatas, da supostarealidade, em que as coisas têm pesoe consistência. Aqui tudo é uma aposta mais ou menos às cegas. Sim. Bem-vindoao mundo do que há. Ficou surpreso?É estranho? Assustador? Eu acho lindo. BRITTO, Paulo Henriques.”Sobre o real”. In:_ Fim de Verão. São Paulo: Companhia das Letras, 2022
- [Manuel António Pina - Luz](https://singularidadepoetica.art/2023/04/14/manuel-antonio-pina-luz-2/): Talvez que noutro mundo, noutro livro,tu não tenhas morridoe talvez nesse livro não escritonem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aquelesque a morte separou e um delesescreva agora isto como seacordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu),e talvez então tu, eu, esta impressãode estranhidão, de que tudo perdeude súbito existência e dimensão, e peso, e se ausentou,seja um sonho suspenso que sonhoualguém que despertou e paira agoracomo uma luz algures do lado de fora. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 18/05/2018
- [Paulo Henriques Britto - de "Ao Leitor"](https://singularidadepoetica.art/2023/04/13/paulo-henriques-britto-de-ao-leitor/): V Sofro dos nervos, como se diziaantigamente — ou, mais antigamenteainda, mergulho (mesmo de dia)numa “noche oscura del alma” (ou “mente”, para aliviar o peso asfixiantede dois milênios de neura cristã),estado em que a existência por um instante(que às vezes dura toda uma manhã) é um mal desnecessário, uma arrastada(talvez interrompível) epopeiasem herói — e que, no entanto, não é nada que não se renda (quase) por completoàs armas novas da farmacopeiaou ao rigor secular do soneto. ……………………………………………………………………. X É a velha história de sempre,com este ou aquele acréscimo:você fingindo que entende,sem entender um centésimo. E no entanto segue em frente,irresponsável, […]
- [Roger Wolfe - A Última Noite da terra](https://singularidadepoetica.art/2023/04/12/roger-wolfe-a-ultima-noite-da-terra-2/): O melro de todos os anos voltou a visitar minha casaE, no entanto, ainda estou aqui.Sua melodia não muda, já o disse antes.Mas meu trabalho é constatar o óbvio,e é isso que o melro me faz lembrar.O tempo passa, as pessoas envelhecem e morrempor sua própria mão ou com ajuda.As palavras escorrem pelo ralodo que já foi chamado de “história secreta”.Tudo flui e se perde, os rios no mar,o mar na imensidão inconcebível do cosmos,o cosmos no nada do qual não deveria ter saído.Enquanto isso, digitamos.Um surdo tamborilar contra séculos de morte programadae um futuro de indefinição certeira.Um batalhão de patéticos […]
- [Rosanna Warren - Lago](https://singularidadepoetica.art/2023/04/11/rosanna-warren-lago/): Você estava com água até as coxas e a luz verde refletianas cavidades dos seus quadris e no estômago, que é onde a chama pilotoardia nas antigas estátuas de Dionísio,e por um momento, enquanto você caminhava mais em direção ao fundo, parecia queaquela água poderia lavar o pesode suas próprias estações e de doenças que não eram as suas: era uma caríciafria e infiel, que envolvia sua cintura,que a tomava em seus braços e você a ela se entregava, um pouco,só um pouco, sabendo com que rapidez e leveza aquele toque seria retirado,e quão rapidamente você estaria de pé novamente sobre […]
- [Marina Colasanti - Rota de Colisão](https://singularidadepoetica.art/2023/04/10/marina-colasanti-rota-de-colisao-2/): De quem é esta peleque cobre a minha mãocomo uma luva?Que vento é esteque sopra sem soprarencrespando a sensível superfície?Por fora a alheia cascadentro a polpae a distância entre as duasque me atropela.Pensei entrar na velhicepor inteirocomo um barcoou um cavalo.Mas me surpreendojovem velha e maduraao mesmo tempo.E ainda aprendo a viverenquanto avançona rota em cujo fima vidacolide com a morte. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 17/05/2018
- [Abdellatif Laâbi – Duas horas em um trem](https://singularidadepoetica.art/2023/04/09/abdellatif-laabi-duas-horas-em-um-trem/): Em uma viagem de trem de duas horasEu revejo o filme da minha vidaCerca de dois minutos por anoMeia hora para a minha infânciaoutra para o meu tempo na prisãoEnquanto o amor, livros e viagenscompartilham o restoA mão de minha parceira gradualmentese funde à minha e sua cabeça,que repousa em meu ombro,parece leve como uma pombaQuando chegarmosestarei com cinquenta e poucos anose terei pouco mais de uma horade vida Trad.: Nelson Santander Two Hours on a Train On a two-hour train rideI replay the film of my lifeRoughly two minutes per yearA half hour for my childhoodanother for my time in […]
- [Konstantinos Kaváfis - À Espera dos Bárbaros](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-a-espera-dos-barbaros/): O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado? Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje. Que leis hão de fazer os senadores? Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se ergueu tão cedo e de coroa solene se […]
- [Franz Kafka - Pequena Fábula](https://singularidadepoetica.art/2016/03/31/franz-kafka-pequena-fabula/)
- [Konstantinos Kaváfis - O Prazo de Nero](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/konstantinos-kavafis-o-prazo-de-nero/): Não ficou perturbado Nero quando ouviu do Oráculo de Delfos o prenúncio: “Teme ao ano septuagésimo terceiro.” Tinha tempo bastante a desfrutar. Só contava trinta anos. Muito dilatado era o prazo que o Deus lhe concedia para cuidar-se dos riscos do futuro. Agora vai voltar a Roma um tanto fatigado da magnífica fadiga que se […]
- [Ana Martins Marques - Há estes dias em que pressentimos na casa...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/ana-martins-marques-ha-estes-dias-em-que-pressentimos-na-casa/): Há estes dias em que pressentimos na casa a ruína da casa e no corpo a morte do corpo e no amor o fim do amor estes dias em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde não são coisas que se expliquem apenas são dias […]
- [Marco Aurélio - Reflexões, 14](https://singularidadepoetica.art/2016/03/29/marco-aurelio-reflexoes-14/): Ainda que os anos de tua vida sejam três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida senão a que vive agora, nem vive outra senão a que perde. O prazo mais longo e o mais breve são, portanto, iguais. O presente é de todos; morrer é perder o presente, […]
- [Decio Pignatari - Femme](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/decio-pignatari-femme/)
- [Manuel Bandeira - Soneto Inglês n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/manuel-bandeira-soneto-ingles-n-2/): Aceitar o castigo imerecido, Não por fraqueza, mas por altivez. No tormento mais fundo o teu gemido Trocar um grito de ódio a quem o fez. As delicias da carne e pensamento Com que o instinto da espécie nos engana Sobpor ao gênero sentimento De uma afeição mais simplesmente humana. Não tremer de esperança nem […]
- [Moshé Ibn Ezra - São Túmulos de Tempos Antigos, Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos-antigos-velhos/): São túmulos de tempos antigos, velhos. Neles há gente que dorme um sono eterno. Nem ódio, nem inveja há no seu interior, nem amor, nem zangas de vizinhos. Os meus pensamentos não podem, quando os veem, distinguir entre servos e senhores. Versão de Francisco José Viegas, tradução do hebraico de Maria José Cano. Peguei aqui:http://antoniocicero.blogspot.com.br/2015/08/moshe-ibn-ezra-sao-tumulos-de-tempos.html
- [Erthos Albino de Souza - Sea Nau](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/erthos-albino-de-souza-sea-nau/)
- [Ferreira Gullar - Nova Concepção da Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-nova-concepcao-da-morte/): Como ia morrer, foi-lhe dado o aviso na carne, como sempre ocorre aos seres vivos; um aviso, um sinal, que não lhe veio de fora, mas do fundo do corpo, onde a morte mora, ou, dizendo melhor, onde ela circula como a eletricidade ou o medo, na medula dos ossos e em cada enzima, que […]
- [Ferreira Gullar - Filhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-filhos/): A meu filho Marcos Daqui escutei quando eles chegaram rindo e correndo entraram na sala e logo invadiram também o escritório (onde eu trabalhava) num alvoroço e rindo e correndo se foram com sua alegria se foram Só então me perguntei por que não lhes dera maior atenção se há tantos e tantos anos não […]
- [Ferreira Gullar - Teu Corpo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-teu-corpo/): O teu corpo muda independente de ti. Não te pergunta se deve engordar. É um ser estranho que tem teu rosto ri em teu riso e goza com teu sexo. Lhe dás de comer e ele fica quieto. Penteias-lhe os cabelos como se fossem teus. Num relance, achas que apenas estás nesse corpo. Mas como, […]
- [Ferreira Gullar - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-despedida/): Eu deixarei o mundo com fúria. Não importa o que aparentemente aconteça, se docemente me retiro. De fato, nesse momento estarão de mim se arrebentando raízes tão fundas quanto estes céus brasileiros. Num alarido de gente e ventania olhos que amei rostos amigos tardes e verões vividos estarão gritando a meus ouvidos para que eu […]
- [Ferreira Gullar - Praia do Caju](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-praia-do-caju/): Escuta: o que passou passou e não há força capaz de mudar isto. Nesta tarde de férias, disponível, podes, se quiseres, relembrar. Mas nada acenderá de novo o lume que na carne das horas se perdeu. Ah, se perdeu! Nas águas da piscina se perdeu sob as folhas da tarde nas vozes conversando na varanda […]
- [Ferreira Gullar - O Que Se Foi](https://singularidadepoetica.art/2016/03/28/ferreira-gullar-o-que-se-foi/): O que se foi se foi. Se algo ainda perdura é só a amarga marca na paisagem escura. Se o que foi regressa, traz um erro fatal: falta-lhe simplesmente ser real. Portanto, o que se foi, se volta, é feito morte. Então por que me faz o coração bater tão forte?
- [Arnaldo Antunes - Só o Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-so-o-sol/)
- [Arnaldo Antunes - Casulo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-casulo/)
- [Arnaldo Antunes - Acaba Acontecendo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/arnaldo-antunes-acaba-acontecendo/): o que você mais teme acaba acontecendo o que você mais quer acaba acontecendo o que ninguém espera acaba acontecendo o que ninguém consegue mais conter acaba de acontecer
- [O Segredo dos seus Olhos - Mil Passados](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/o-segredo-dos-seus-olhos-mil-passados/): “Não pense mais nisso! Não pense mais. O que importa? Não fique mais imaginando, não fique pensando no que aconteceu, no que não aconteceu. No que poderia ter acontecido. Senão você terá mil passados e nenhum futuro…” Ricardo Morales para Benjamin Espósito, em “O Segredo dos Seus Olhos”
- [Alfred Tennyson - Ulysses](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/alfred-tennyson-ulysses/): De nada serve a um rei ficar inerte, No lar quieto, em meio à rocha infértil, Unido a esposa idosa, eu doo e imponho Iníquas leis a um bando de selvagens Que soma, e dorme, e engorda, e não me vê. Estou inquieto: Sorverei da vida A última gota: Sempre gozei muito, Sofri muito, com […]
- [Bei Dao - Resposta](https://singularidadepoetica.art/2016/03/27/bei-dao-resposta/): A degradação é o passaporte do vilão, A nobreza é epitáfio do nobre. Olhe: como o céu dourado é inundado do reflexo das sombras torcidas dos mortos. Passada a época do gelo, Por que ainda há gelo em toda a parte? Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança, por que mil velas ainda competem […]
- [Antonio Cicero - Valeu](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/antonio-cicero-valeu/)
- [Óssip Mandelstam - Pedra (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/osip-mandelstam-pedra-excerto/): Não posso tocar, no escuro,Teu vulto vago e sombrio.“Senhor!”, por erro, murmuro,Alheio ao que balbucio. De mim, tal uma ave enorme,O nome de Deus se evola.À frente, um abismo informe,Atrás, vazia, a gaiola. Trad.: Augusto de Campos
- [Jorge Luis Borges - Everness](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-everness/): Só uma coisa há. É o esquecimento. Deus, que salva o metal, salva a escória E cifra na sua profética memória as luas que serão e que hão sido. Já tudo está. Os mil reflexos, Que entre os dois crepúsculos do dia Teu rosto foi deixando nos espelhos e os que irá deixando ainda. E […]
- [Jorge Luis Borges - Cosmogonia](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/jorge-luis-borges-cosmogonia/): Nem treva nem caos. A treva Requer olhos que vêem, como o som. E o silêncio requer o ouvido, O espelho, a forma que o povoa. Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer Uma divindade que premedita O silêncio anterior à primeira Noite do tempo, que será infinita. O grande rio de Heráclito o […]
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antonio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre/): —Nos —fios —ten sos —da —pauta —de me- tal —as — an/ do/ ri/ nhas —gri- tam —por —fal/ ta/ —de u- ma —cl’a- ve —de —sol
- [Doroty Parker - Em Suma](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/doroty-parker-em-suma/): Trad.: Nelson Ascher
- [Algernon Charles Swinburne - Uma Despedida](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/algernon-charles-swinburne-uma-despedida-poema/): Leia "Uma Despedida", de Algernon Charles Swinburne, um poema lírico sobre amor não correspondido, despedida e a beleza melancólica da renúncia.
- [William Butler Yeats - Quando Estiveres Grisalha e com Sono...](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-quando-estiveres-grisalha-e-com-sono-poema/): Quando estiveres grisalha e com sono, Dormitando ante o fogo, lê meu livro Bem lentamente e lembra o sensitivo Olhar que tinhas de suave abandono. Muitos amaram tuas alegrias, Tua beleza; mas só num culmina O amor por tua alma peregrina E a mágoa que teu rosto pressentia. Reclina-te ante as chamas; e ao vê-las […]
- [William Butler Yeats - A Segunda Vinda](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/william-butler-yeats-a-segunda-vinda/): Girando em círculos sempre maiores Já não ouve o falcão ao falcoeiro; Tudo desaba; o próprio centro hesita; Livre, a anarquia reina sobre o mundo, Livre a maré sanguinolenta: em tudo Se afogam os rituais da inocência; Os melhores vacilam e os piores À intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia, […]
- [Cassiano Ricardo - Dedicatória](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-dedicatoria/): I Ao claro tempo, ao tempo das metamorfoses, não havia horizonte na alegria do ser e do acontecer. Havia a graça aérea com que as coisas brincavam de ser e de não ser, no jardim da matéria. Hoje uma coisa passa a ser outra coisa; nascem anjos sem asa dentro do dicionário; um monstro, um […]
- [Cassiano Ricardo - O Hipopótamo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/26/cassiano-ricardo-o-hipopotamo/): Não adianta o rio lhe ofertar um espelho, se ele não sabe de quem é a imagem que o espelho reflete. Se ele pensa que a sua imagem n’água é a de um outro hipopótamo. A paisagem por volta tem algo de bíblico pois é a água da criação, ainda viva, como no primeiro dia. […]
- [Cassiano Ricardo - O Cacto](https://singularidadepoetica.art/2016/03/25/cassiano-ricardo-o-cacto/): This is cactus land. Here the stone images are raised… T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cacto na areia da nossa tristeza. Uma folha sobre outra, em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros, um braço a nascer de outro braço, uma folha sobre outra, formaremos um grande cacto. De cada braço, […]
- [Paul Auster - A Invenção da Solidão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/paul-auster-a-invencao-da-solidao-excerto/)
- [Arnaldo Antunes - Cultura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-cultura/)
- [Arnaldo Antunes - A Casa é Sua](https://singularidadepoetica.art/2016/03/23/arnaldo-antunes-a-casa-e-sua/): Não me falta cadeira Não me falta sofá Só falta você sentada na sala Só falta você estar Não me falta parede E nela uma porta pra você entrar Não me falta tapete Só falta o seu pé descalço pra pisar Não me falta cama Só falta você deitar Não me falta o sol da […]
- [Robert Frost - A Estrada não Trilhada](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/robert-frost-a-estrada-nao-trilhada/): Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se, mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria. Assim, por longo tempo eu ali me detive, e um deles observei até um longe declive no qual, dobrando, desaparecia… Porém tomei o outro, igualmente viável, e tendo mesmo um atrativo especial, pois mais ramos possuía e talvez […]
- [Gavin Aung Than e Percy Bysshe Shelley - Ozymandias](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/gavin-aung-than-ozymandias/)
- [Carlos Drummond de Andrade - Declaração em Juízo](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-declaracao-em-juizo/): Peço desculpas de ser o sobrevivente. Não por longo tempo, é claro. Tranqüilizem-se. Mas devo confessar, reconhecer que sou sobrevivente. Se é triste/cômico ficar sentado na platéia quando o espetáculo acabou e fecha-se o teatro, mais triste/grotesco é permanecer no palco, ator único, sem papel, quando o público já virou as costas e somente baratas […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Morte no Avião](https://singularidadepoetica.art/2016/03/22/carlos-drummond-de-andrade-morte-no-aviao/): Acordo para a morte.Barbeio-me, visto-me, calço-me.É meu último dia: um diacortado de nenhum pressentimento.Tudo funciona como sempre.Saio para a rua. Vou morrer. Não morrerei agora. Um diainteiro se desata à minha frente.Um dia como é longo. Quantos passosna rua, que atravesso. E quantas coisasno tempo, acumuladas. Sem reparar,sigo meu caminho. Muitas facescomprimem-se no caderno de […]
- [Violeta de Outono - Outono](https://singularidadepoetica.art/2016/03/20/violeta-de-outono-outono/): No percurso rumo ao prédio oculto Desolado o sol se põe a oeste Lua em gancho, triste, sons do vento Parte o coração o frio do outono Canto do extremo do mundo Espero em silêncio profundo No jardim noturno o esquecimento Velha árvore espera o julgamento Nada explicará meu sentimento Está em meu coração […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Uma Hora e mais Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-uma-hora-e-mais-outra/): Há uma hora triste que tu não conheces. Não é a da tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança; não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol antecipando outro mais gelado pano; e também não é a do nascer do sol enquanto enfastiado assistes […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Coisa Miserável](https://singularidadepoetica.art/2016/03/14/carlos-drummond-de-andrade-coisa-miseravel/): Coisa miserável, suspiro de angústia enchendo o espaço, vontade de chorar, coisa miserável, miserável. Senhor, piedade de mim, olhos misericordiosos pousando nos meus, braços divinos cingindo meu peito, coisa miserável no pó sem consolo, consolai-me. Mas de nada vele gemer ou chorar, de nada vale erguer as mãos e olhos para um céu tão longe, […]
- [Chico Buarque e Francis Hime - Amor Barato](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-e-francis-hime-amor-barato/): Eu queria serUm tipo de compositorCapaz de cantar nosso amorModesto Um tipo de amorQue é de mendigar cafunéQue é pobre e às vezes nem éHonesto Pechincha de amorMas que eu faço tanta questãoQue se tiver precisãoEu furto Vem cá, meu amorAguenta o teu cantadorMe esquenta porque o cobertor é curto Mas levo esse amorCom […]
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/chico-buarque-pedaco-de-mim/): Oh, pedaço de mim Oh, metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior do que o esquecimento É pior do que se entrevar Oh, pedaço de mim Oh, metade exilada de mim Leva os teus sinais Que a saudade dói como um barco Que aos poucos […]
- [Haroldo Barbosa e Luis Reis - Notícia de Jornal](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/haroldo-barbosa-e-luis-reis-noticia-de-jornal1/): “Tentou contra a existência Num humilde barracão Joana de Tal, por causa de um tal João. Depois de medicada, Retirou-se pro seu lar.” Aí a notícia carece de exatidão. O lar não mais existe. Ninguém volta ao que acabou. Joana é mais uma mulata triste que errou. Errou na dose, errou no amor, Joana errou […]
- [Caetano Veloso - Como Dois e Dois](https://singularidadepoetica.art/2016/03/13/caetano-veloso-como-dois-e-dois/): Quando você me ouvir cantar Venha, não creia, eu não corro perigo Digo, não digo, não ligo, deixo no ar Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar… Tudo vai mal, tudo Tudo é igual quando eu canto e sou mudo Mas eu não minto, não minto, estou longe e perto Sinto alegrias, tristezas e […]
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura-2/)
- [Machado de Assis - Uma Criatura](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/machado-de-assis-uma-criatura/): Sei de uma criatura antiga e formidável, que a si mesma devora os membros e as entranhas, com a sofreguidão da fome insaciável. Habita juntamente os vales e as montanhas; e no mar, que se rasga, à maneira de abismo, espreguiça-se toda em convulsões estranhas. Traz impresso na fronte o obscuro despotismo. cada olhar que […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/caetano-veloso-o-homem-velho/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero - Inverno](https://singularidadepoetica.art/2016/03/12/adriana-calcanhotto-inverno/): No dia em que fui mais feliz Eu vi um avião Se espelhar no seu olhar até sumir De lá pra cá não sei Caminho ao longo do canal Faço longas cartas pra ninguém E o inverno no Leblon é quase glacial Há algo que jamais se esclareceu: Onde foi exatamente que larguei Naquele […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Versos à Boca da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/03/11/carlos-drummond-de-andrade-versos-a-boca-da-noite/): Sinto que o tempo sobre mim abatesua mão pesada. Rugas, dentes, calva.Uma aceitação maior de tudo,e o medo de novas descobertas. Escreverei sonetos de madureza?Darei aos outros a ilusão de calma?Serei sempre louco? Sempre mentiroso?Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? Há muito suspeitei o velho em mim.Ainda criança, já me atormentava.Hoje estou só. Nenhum menino […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Que País é Este?](https://singularidadepoetica.art/2016/03/10/affonso-romano-de-santanna-que-pais-e-este/): Que País é Este?, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, realiza uma vasta investigação poética sobre a formação histórica, cultural e política do Brasil.
- [Giacomo Leopardi - Opúsculos Morais (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-opusculos-morais-excerto/): “Cada parte do universo apressa-se, infatigavelmente, para a morte com solicitude e celeridade admiráveis. Apenas o próprio planeta parece imune à decadência e ao declínio. Contudo, se no outono e no inverno mostra-se quase enfermo e velho, não menos, na nova estação, rejuvenesce sempre. Mas como os mortais no primeiro momento de cada dia readquirem […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito-2-poema/): Sempre me foi cara esta colina erma E esta sebe, que de muitos lados Exclui a visão do último horizonte. Mas sentado, contemplando, infindáveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e a mais profunda calma Eu no pensar imagino; e por pouco Não se amedronta o coração. E o Vento Ouvindo sussurrar entre essas plantas, […]
- [Giacomo Leopardi - O Infinito](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/giacomo-leopardi-o-infinito/): Sempre cara me foi esta colina Erma, e esta sebe, que de tanta parte Do último horizonte, o olhar exclui. Mas sentado a mirar, intermináveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e uma calma profundíssima Eu crio em pensamentos, onde por pouco Não treme o coração. E como o vento Ouço fremir entre essas folhas, […]
- [Adriana Calcanhotto - Estrelas](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-estrelas/): estrelas para mim para mim estrelas são para mim estrelas para mim estrelas estrelas para quê? para quê? para quê? estrelas para mim só para mim. para mim para mim para mim e a treva entre as estrelas só para mim.
- [Adriana Calcanhotto - Jovens e Velhos](https://singularidadepoetica.art/2016/03/03/adriana-calcanhoto-jovens-e-velhos/): Antes de mim vieram os velhos Os jovens vieram depois de mim E estamos todos aqui No meio do caminho dessa vida Vinda antes de nós E estamos todos a sós No meio do caminho dessa vida E estamos todos no meio Quem chegou e quem faz tempo que veio Ninguém no início ou no […]
- [Giuseppe Ungaretti - Daquela Estrela à Outra](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/giuseppe-ungaretti-daquela-estrela-a-outra/): Trad.: Haroldo de Campos
- [Arnaldo Antunes - O Que](https://singularidadepoetica.art/2016/03/02/arnaldo-antunes-o-que/)
- [Manuel Bandeira - O Rio](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/manuel-bandeira-o-rio/): Ser como o rio que deflui Silencioso dentro da noite. Não temer as trevas da noite. Se há estrelas nos céus, refleti-las. E se os céus se pejam de nuvens, Como o rio as nuvens são água, Refleti-las também sem mágoa Nas profundidades tranquilas.
- [Andrew Marvell - To His Coy Mistress, em 5 traduções](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/andrew-marvell-to-his-coy-mistress-em-5-traducoes/): PARA SUA DAMA RECATADA. trad. Matheus “Mavericco”. Houvesse tempo e espaço e então de fato Não seria um delito este recato. Sentados, nós iríamos pensar Em só pensar no outro, e assim passar. Você, do lado indígena do Ganges, Achando rubis, e eu, pois me confrange A dor, junto ao Humber. Décadas antes Do Dilúvio […]
- [W. H. Auden - Ao Descer a Rua Bristol](https://singularidadepoetica.art/2016/03/01/w-h-auden-ao-descer-a-rua-bristol/): Ao descer a rua Bristol uma tarde, eu vi os demais que eram como, antes da ceifa, os já maduros trigais. E ouvi junto ao rio, debaixo da ponte da ferrovia, um namorado cantando como ele sempre amaria: “Vou te amar, meu bem, até que a África se junte à China, que o rio salte […]
- [Jorge Luis Borges - Aqui. Hoje.](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-aqui-hoje/): Já somos o esquecimento que seremos. A poeira elementar que nos ignora e que foi o ruivo Adão e que é agora todos os homens e que não veremos. Já somos na tumba as duas datas do princípio e do término, o esquife, a obscena corrupção e a mortalha, os ritos da morte e as […]
- [Jorge Luis Borges - São os Rios](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-sao-os-rios/): Somos o tempo. Somos a famosa parábola de Heráclito o Obscuro. Somos a água, não o diamante duro, a que se perde, não a que repousa. Somos o rio e somos aquele grego que se olha no rio. Seu semblante muda na água do espelho mutante, no cristal que muda como o fogo. Somos o […]
- [Jorge Luis Borges - As Coisas](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/jorge-luis-borges-as-coisas/): A bengala, as moedas, o chaveiro, a fechadura dócil, as tardias notas que não lerão os poucos dias que me restam, o naipe, o tabuleiro, um livro e dentro dele a emurchecida violeta, monumento de uma tarde por certo inesquecível já esquecida, o rubro espelho ocidental em que arde uma aurora ilusória. Quantas coisas, atlas, […]
- [W. H. Auden - Musée des Beaux-Arts](https://singularidadepoetica.art/2016/02/29/w-h-auden-musee-des-beaux-arts/): Sobre o sofrimento jamais se enganaram os velhos Mestres: eles bem compreenderam a condição humana, viram como certas coisas acontecem enquanto alguém por aí está comendo ou abrindo a janela ou apenas caminhando sem pressa. Sabem que, enquanto os mais velhos es- tão, reverentemente, apaixo- nadamente, à espera do “birth” […]
- [Samuraitiger19 - Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/samuraitiger19-nos-minutos-finais-de-sua-vida-calvin-teve-uma-ultima-conversa-com-haroldo/): “Calvin? Calvin, querido?” No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Corrente](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-a-corrente/): Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos, amarelos, e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.
- [Mário Quintana - Os Degraus](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mario-quintana-os-degraus/): Não desças os degraus do sonho Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos – onde Os deuses, por trás das suas máscaras, Ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo…
- [Bertolt Brecht - Lista de Preferências](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/bertolt-brecht-lista-de-preferencias/): Alegrias, as desmedidas. Dores, as não curtidas. Casos, os inconcebíveis. Conselhos, os inexequíveis. Meninas, as veras. Mulheres, insinceras. Orgasmos, os múltiplos. Ódios, os mútuos. Domicílios, os passageiros. Adeuses, os bem ligeiros. Artes, as não rentáveis. Professores, os enterráveis. Prazeres, os transparentes. Projetos, os contingentes. Inimigos, os delicados. Amigos, os estouvados. Cores, o rubro. Meses, outubro. […]
- [John Keats - Ode sobre uma Urna Grega](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/john-keats-ode-sobre-uma-urna-grega/): I Inviolada noiva de quietude e paz, Filha do tempo lento e da muda harmonia, Silvestre historiadora que em silêncio dás Uma lição floral mais doce que a poesia: Que lenda flor-franjada envolve tua imagem De homens ou divindades, para sempre errantes. Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo? Que deuses ou mortais? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Tarde de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/carlos-drummond-de-andrade-tarde-de-maio/): Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio, quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra, outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora, surdamente lavrava sob meus traços cômicos, e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes e condenadas, no […]
- [Rogério Nascente - Às Vezes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/rogerio-nascente-as-vezes/)
- [Múcio Góes - A Dor Meço](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/mucio-goes-a-dor-meco/)
- [Arthur Schopenhauer - Fisicamente, o andar...](https://singularidadepoetica.art/2016/02/28/926-2/)
- [Arthur Schopenhauer - Bolhas de Sabão (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-bolhas-de-sabao-excerto/): O homem só vive no presente, que se converte no passado, e afunda-se na morte. Exceto as consequências que podem influir no presente, e que são filhas de sua vontade, ou de seus atos, a sua vida passada já não existe. Devia portanto ser-lhe indiferente que esse passado fosse de prazeres ou tristezas. O presente […]
- [Jorge Luis Borges - Outras Inquisições (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jorge-luis-borges-outras-inquisicoes-excerto/): Negar a sucessão temporal, negar o Eu, negar o universo astronômico, são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino não é assustador por ser irreal; é assustador porque é irreversível e ferrenho. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é […]
- [José Paulo Paes - Auto-Epitáfio n. 2](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2/)
- [Jules Laforgue - Mediocridade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/jules-laforgue-mediocridade/): No infinito coberto de eternas belezas, Como átomo perdido, incerto, solitário, Um planeta chamado Terra, dias contados, Voa com os seus vermes sobre as profundezas. Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho, Marchando, indiferentes ao grande mistério, E quando um dos seus é enterrado, já sérios, Saúdam-no. Do torpor não são arrancados. Viver, morrer, […]
- [Richard Dawkins - Todos Vamos Morrer](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/richard-dawkins-todos-vamos-morrer/): Arte: Gavin Aung – 2012
- [William Shakespeare - do Macbeth (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/william-shakespeare-do-macbeth-excerto/): Amanhã amanhã amanhã amanhã Rasteja em passo parco dia a dia Até a última sílaba do Tempo. E os ontens, todos, só nos alumiam O fim no pó. Apaga, apaga, vela Breve! A vida é só uma sombra movel. Pobre ator Que freme e treme o seu papel no palco E logo sai de cena. […]
- [Edgar Allan Poe - Berenice](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/edgar-allan-poe-berenice/): A DESGRAÇA É VARIADA. O infortúnio da terra é multiforme. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris! Como de um exemplo de beleza, derivei eu uma imagem de desencanto? Da aliança da paz, uma […]
- [Arthur Schopenhauer - A Vida é Dor](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arthur-schopenhauer-a-vida-e-dor/): Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor. Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre. A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos. A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em […]
- [Décio Pignatari - Cri$to](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/decio-pignatari-crito/)
- [D. H. Lawrence - Bons Maridos Fazem Mulheres Infelizes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/d-h-lawrence-bons-maridos-fazem-mulheres-infelizes/): Bons maridos fazem mulheres infelizes e maus maridos também fazem; mas a infelicidade de uma mulher de marido bom é muito mais arrasadora que a infelicidade de uma mulher de marido ruim. Trad.: Jorge Wanderley
- [Arnaldo Antunes - Sol To](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-sol-to/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Isabel Allende - Ruído](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/isabel-allende-ruido/): A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte.
- [António Lobo Antunes](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/antonio-lobo-antunes/): Com os anos a morte vai-se tornando familiar. Quero dizer não a ideia da morte, não o medo da morte: a realidade dela. As pessoas de quem gostamos e partiram amputam-nos cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por dentro. Parece que sobrevivemos não aos outros mas a nós mesmos, […]
- [Anatol Knotek - Bye](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/anatol-knotek-bye/)
- [Arnaldo Antunes - A Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-a-eternidade/)
- [Arnaldo Antunes - faltaratéfartar](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-faltaratefartar/)
- [Arnaldo Antunes - Pensa](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-pensa/)
- [Arnaldo Antunes - Aquilo](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/arnaldo-antunes-aquilo/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume-2/)
- [Caetano Veloso - O Ciúme](https://singularidadepoetica.art/2016/02/27/caetano-veloso-o-ciume/): Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia Só vigia um ponto negro: o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Quem nem alegre, nem triste, nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski-2/): Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakósvki. Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem. Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam […]
- [Eduardo Alves da Costa - No Caminho, com Maiakóvski](https://singularidadepoetica.art/2016/02/26/eduardo-alves-da-costa-no-caminho-com-maiakovski/)
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/ferreira-gullar-os-mortos/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Jorge de Sena - Conheço o Sal](https://singularidadepoetica.art/2016/02/25/jorge-de-sena-conheco-o-sal-poema/): Conheço o sal, um poema de Jorge de Sena
- [Paulo Henriques Britto - Mosaico](https://singularidadepoetica.art/2022/06/10/paulo-henriques-britto-mosaico-2/): Os dias a amontoar-secomo se rumo a um sentido,algo que se assemelhassea uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo,claro — o que sabem os dias?)uma estrutura em relevo,espécie de marchetaria, com padrão indecifrável(por não seguir um projeto),mas assim mesmo um resguardo,um remédio contra o medo de nada haver — nem padrão,nem projeto, nem destinono mundo, nada senãoo amontoar-se dos dias REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 04/01/2017
- [Roderick Ford – Giuseppe](https://singularidadepoetica.art/2022/06/09/roderick-ford-giuseppe/): Meu tio Giuseppe me contouque na Sicília, durante a 2ª Guerra Mundial,no pátio atrás do aquário,onde a buganvília crescia tão bem,a única sereia cativa do mundofoi esquartejada no solo seco e empoeiradopor um médico e um peixeiro, dentre outros.Ela, aquilo, nunca aprendera a falarporque era simplória, ou assim diziam.Mas o padre que segurou uma de suas mãosenquanto sua garganta era cortadadisse que ela era apenas um peixe, e peixes não podem falar.Mas ela gritou como uma mulher aterrorizada.E quando eles arrancaram uma ova amarela madurapor um de seus flancos, o médico disseque aquilo era a prova de que ela era apenas […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/08/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-4/): V Céu azul. Cores vivas. Você rindode alguma coisa ou alguém que está à esquerdado fotógrafo. É talvez domingo.É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagemextremamente, absurdamente nítida.E se fosse menor a claridade,ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou se fosse em sépia, ou preto e branco,talvez a foto não doesse tanto?Você, às gargalhadas. O motivo você não lembra. A foto é muito boa.Naquele tempo você ria à toa,você lembra. Você ainda era vivo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 03/01/2017
- [R. S. Thomas – O campo brilhante](https://singularidadepoetica.art/2022/06/07/r-s-thomas-o-campo-brilhante/): Eu vi o sol avançar atéiluminar um pequeno campopor um momento, segui meu caminhoe o esqueci. Mas aquela era umapérola de grande valor, o único campo comum tesouro dentro dele. Agora perceboque devo dar tudo o que tenhopara possuí-lo. A vida não está em lançar-se para um futuro que se afasta, nem ansiar por um passado imaginado. Mas, como fez Moisésem direção ao milagre da sarça em chamas,em desviar-se para um brilho que pareciatão transitório quanto sua juventude outrora,mas que é a eternidade que o aguarda. Trad.: Nelson Santander The Bright Field I have seen the sun break throughto illuminate a […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Seis Sonetos Soturnos"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/06/paulo-henriques-britto-de-seis-sonetos-soturnos-2/): I A qualquer hora, o que se chama vidapode mudar da água pro vinho. Ou vice--versa. Cada palavra proferida —uma sentença grave, uma tolice —pode retornar feito um bumeranguecapaz de destruir o que encontrar.E nada que se funde em carne e sangueescapa dessas bólides de ar:o amor e demais estados de graça,reputações, ações, fazendas, gado,longos corredores, salas de espera —tudo à mercê do que afinal não passade ar comprimido, aos poucos exalado,que logo se dissipa na atmosfera. ……………… V As coisas sempre podem piorar.Não há limite para o abismo estreitoque se abre justamente no lugaronde a relação entre causa e efeitoparece […]
- [Craig Santos Perez — Amor em tempos de mudanças climáticas](https://singularidadepoetica.art/2022/06/05/craig-santos-perez-amor-em-tempos-de-mudancas-climaticas/): Amor em tempos de mudanças climáticas reciclando o “Sonnet XVII”1 de Pablo Neruda Não te amo como se fosses metais raros da terra,diamantes de sangue ou reservas de petróleo bruto que provocama guerra. Eu te amo como amamos as espécies mais vulneráveis: urgentemente, entre o habitat e a sua perda. Eu te amo como se ama a última semente a salvodentro de um cofre, gestando a herança de nossas origens,e, graças ao teu corpo, o sabor que amadurecedos teus frutos ainda vive docemente em minha língua. Eu te amo sem saber como ou quando este mundo vai acabar. Eu te amo […]
- [Paulo Henriques Britto - Madrigal](https://singularidadepoetica.art/2022/06/04/paulo-henriques-britto-madrigal-2/): Desista: não vai dar certo.O mundo é o mesmo de sempre,desejo é uma coisa cega.Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam,os pés vão aonde não sabem.As cartas estão marcadas:vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo,desejo é uma porta aberta.Desista, que a vida é incerta.Ou insista. Dá no mesmo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 31/12/2016
- [Lucille Clifton - o poema do bebê perdido](https://singularidadepoetica.art/2022/06/03/lucille-clifton-o-poema-do-bebe-perdido/): na vez em que deixei cair seu quase corpopara encontrar as águas sob a cidadee nelas fluir com o esgoto para o maro que sabia eu sobre águas correndo de voltao que sabia eu sobre afogamentoou sobre ser afogada você teria nascido no invernono ano do gás desligadoe sem carro teríamos feito a singularcaminhada pela genesee hill sob o vento do canadápara vê-lo escorregar como gelo para as mãos de estranhosvocê teria caído nu como a neve no invernose você estivesse aqui eu poderia contar-lhe sobre estase algumas outras coisasse eu for menos que uma montanhapara seus irmãos e irmãs definitivosque […]
- [Gwendolyn Brooks – a mãe](https://singularidadepoetica.art/2022/06/02/gwendolyn-brooks-a-mae/): “A mãe”, um poema de Gwendolyn Brooks que aborda a experiência do aborto a partir da perspectiva íntima e emocional de uma mulher que recorda os filhos que não chegaram a nascer.
- [Paulo Henriques Britto - Cuidado Poeta...](https://singularidadepoetica.art/2022/06/01/paulo-henriques-britto-cuidado-poeta-2/): Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.Depois de um certo número de páginasanjos não pousam mais nas entrelinhas.E até a lucidez, essa moderna,também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado,não se resolve com um só lance de dados.Não basta a precisão do gesto apenas.O gesto mais felino é quase nadasem o lastro da existência, essa cansada, com sua textura por demais espessapra traspassar a tímida peneirada pálida poesia, essa antiga.O tempo é escasso. O dicionário é gordo.Cuidado: Todo silêncio é pouco. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 30/12/2016
- [Victoria Kennefick – Monte submarino](https://singularidadepoetica.art/2022/05/31/victoria-kennefick-monte-submarino/): Da areia, você aponta onde ficava a loja,os correios, o bar;você me conta que caminhou até o vilarejo quando meninopara ficar nas esquinas, farejar o ar salgado. Tocos se erguem da argila na maré baixa,alinham-se como soldados derrotados, inclinam-se ao vento.Eles já foram árvores, agora lembram apenas ramos,esquecidos do verde vivo das folhas na primavera. Um vilarejo debaixo d’água, sou uma estátua ao seu lado.Perguntas nadam em minha boca como peixes:o mar alcançará Shanagarry? Conseguiria escalar a nossa colina?Eu o vejo cercar os nossos leitos, afogar-nos durante o sono. Ballycotton repousa em uma plataforma rochosa,observa os que caíram, prende a respiração […]
- [Paulo Henriques Britto - Soneto Inglês](https://singularidadepoetica.art/2022/05/30/paulo-henriques-britto-soneto-ingles-2/): A surpresa do amor — quando já não seespera do mundo nada em especial,e a evidência de que os anos vão seacumulando sem nenhum sinalde sentido já não dói nem comove —quando em matéria de felicidadenão se deseja mais que uns novemetros quadrados de privacidadepara abrigar os prazeres amenosdo sexo fácil e da literaturadifícil — eis que então, sem mais nem menos,como quem não quer nada, surge a cura —definitiva, radical, imensa —do que nem parecia mais doença. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/12/2016
- [Daniel Filipe - Réquiem para um defunto vulgar](https://singularidadepoetica.art/2022/05/29/daniel-filipe-requiem-para-um-defunto-vulgar/): Antoninho morreu. Seu corpo resignadoé como um rio incolor, regressando à nascentenum silêncio de espanto e mistério revelado.Está ali – estando ausente. Jaz de corpo inteiro e fato preto.Ele, da cabeça aos pés,trivial e completo,estátua de proa e moço de convés. Jaz como se dormisse (pelo menosé o que dizem as velhas carpideiras).Jaz imóvel, sem gestos, sem acenos.Jaz morto de todas as maneiras. Jaz morto de cansaço, de pobreza, de fome(sobretudo, de fome). Jaz morto sem remédio.É apenas, sobre um papel azul, um nome.De ser mais qualquer coisa, a morte impede-o. Jaz alheio a tudo à sua volta,à grita dos parentes, […]
- [Paulo Henriques Britto - Crepuscular](https://singularidadepoetica.art/2022/05/28/paulo-henriques-britto-crepuscular-2/): 1.Chegamos tarde. (Era sempre maio,sempre madrugada. Tudo era turvo.Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidadeaberta, e uma loucura provisóriaera a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todoatento, em transe, em trânsito, no assédioa um ou outro flanco do lobo, fugindo de junho, perseguindo o agora,correndo o risco de ser só um rascunho.Éramos em branco. Por um triz. Por ora.) 2.Chegamos tarde, é claro. Como todos.Chegamos tarde, e nosso tempo é pouco,o tempo exato de dizer: é tarde. Todas as sílabas imagináveissoaram. Nada ficou por cantar,nem mesmo o não-ter-mais-o-que-cantar, o não-poder-cantar, já […]
- [Joan Margarit - Amar é onde](https://singularidadepoetica.art/2022/05/27/joan-margarit-amar-e-onde/): “Amar é onde”, um poema de Joan Margarit que transforma o amor em território íntimo e duradouro, um lugar invisível onde a vida encontra sua origem e sua permanência.
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori II](https://singularidadepoetica.art/2022/05/26/paulo-henriques-britto-memento-mori-ii-2/): Luz frágil que brota no breue num rápido relance dá formae cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que podeàs aparências, acredita piamenteno sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forçascontra o conforto de apagar-se enfimpor trás de duas implacáveis pálpebras. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 27/12/2016
- [Laura Gilpin – O bezerro de duas cabeças](https://singularidadepoetica.art/2022/05/25/laura-gilpin-o-bezerro-de-duas-cabecas/): Amanhã, quando os rapazes da fazenda encontrarem estaaberração da natureza, eles envolverão seu corpo em jornal e o levarão para o museu. Mas esta noite ele está vivo e no campoao norte, com sua mãe. É uma noite perfeita de verão: a lua crescente sobreo pomar, o vento na grama. Equando ele olha para o céu, háduas vezes mais estrelas do que o usual. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Two-Headed Calf Tomorrow when the farm boys find thisfreak of nature, they will wrap his […]
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori I](https://singularidadepoetica.art/2022/05/24/paulo-henriques-britto-memento-mori-i-2/): Nenhum sinal da solidão se vêlá onde o amor corrói a carne a fundo.Dentro da pele, no entanto, vocêé só você contra o mundo. Esta felicidade que abasteceseu organismo, feito um combustível,é volátil. Tudo que sobe desce.Tudo que dói é possível. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/12/2022
- [Gabrielle Calvocoressi – Sinto a sua falta. Gostaria de dar um passeio com você.](https://singularidadepoetica.art/2022/05/23/gabrielle-calvocoressi-sinto-a-sua-falta-gostaria-de-dar-um-passeio-com-voce/): Não importa se você acabou de chegar em seu esqueleto.Adoraria dar um passeio com você. Sinto a sua falta.Adoraria preparar um camarão saganaki para você.Como você costumava me fazer quando estava viva.Adoraria alimenta-la. Sentarmo-nos com uma fumegantetigela de pilaf. Pequenos tomates tostadoscobertos de pimenta e noz-moscada. Sinto a sua falta.Adoraria caminhar até os correios com você.Traga o cão fantasma. Passaremos pela cachoeirae você poderá me contar sobre o além.Eu queria. Queria que você voltasse por um tempo.Não precisa nem mesmo trazer sua epiderme. Eu saberei que évocê. E sei que você me reconhecerá, apesar de tudo. Estoumaior agora. Mais grisalha. Eu […]
- [Paulo Henriques Britto - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2022/05/22/paulo-henriques-britto-acalanto-2/): Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a cotidiana e mínima vitória:mais uma noite a dois, e um dia a menos. E cada mundo apaga seus contornosno aconchego de um outro corpo morno. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/12/2016
- [Sahar Romani - Tarde na Andaluzia](https://singularidadepoetica.art/2022/05/21/sahar-romani-tarde-na-andaluzia/): E por que a geometria não seria igual à divindade 1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé senão a confiança no uno & infinito Uma vez em Granada observei um muro de polígonos ou eram estrelas ou abelhas ou por um segundo um fulgor de gladíolos em um campo até que pude ver uma galáxia planetas girando raios de uma roda relógios ou botões videiras florescendo um tornado de um século futuro jardim de elipses a córnea do meu amante acesa em cada manhã Deus tão distante & bem na minha frenteTrad.: Nelson Santander Afternoon in […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Três Epifanias Triviais"](https://singularidadepoetica.art/2022/05/20/paulo-henriques-britto-de-tres-epifanias-triviais/): As coisas que te cercam, até ondealcança tua vista, tão passivasem sua opacidade, que te impedemde enxergar o (inexistente) horizonte,que justamente por não serem vivasse prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção,essas coisas que você usa e esqueceassim que larga na primeira mesa —pois bem: elas vão ficar. Você, não.Tudo que pensa passa. Permanecea alvenaria do mundo, o que pesa. O mais é enchimento, e se consome.As tais Formas eternas, as Idéias,e a mente que as inventa, acabam em pó,e delas ficam, quando muito, os nomes.Muita louça ainda resta de Pompéia,mas lábios que a tocaram, nem um […]
- [Ellen Bass – A dor de deus](https://singularidadepoetica.art/2022/05/19/ellen-bass-a-dor-de-deus/): Grande paique deve ter começadocom tantas expectativas.Que magnitude de sofrimento,imensidão de culpa,desconcertante desespero.Uma mente do tamanho do sol,ardendo em nostalgia,um coração enorme como o de uma baleia-cinzentarompendo, fluindona água do mar contra o céu claro.Deus homem ou deus animal,deus que respira em cada folha plissada,saco vocal de sapo, penugem e raque —deus do plutônio e da penicilina, bêbadodormindo na grade do metrô,deus de Joana d´Arc, deus de Crazy Horse,de Lady Day1, que nos põe de joelhos,deus de Houdini com suas mãoscomo um rio, de Einstein, o arrependimentocorrendo em suas veias,deus de Stalin, deus de Somoza,deus da Grande Marcha2,do Caminho das Lágrimas3,dos […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Fragilidade](https://singularidadepoetica.art/2022/05/18/carlos-drummond-de-andrade-fragilidade-2/): Este verso, apenas um arabescoem torno do elemento essencial – inatingível.Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidadesde sono se depositam sobre a terra esfacelada.Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixesubindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a músicafeita de depurações e depurações, a delicada modelagemde um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não maisque um arabesco, apenas um arabescoabraça as coisas, sem reduzi-las. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 13/11/2016
- [Sean Thomas Dougherty – Por que se importar?](https://singularidadepoetica.art/2022/05/17/sean-thomas-dougherty-por-que-se-importar/): Por que se importar?Porque agora há alguémlá fora com um machucado no formato exato de suas palavras. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Why Bother? Because right now, there is someone out there with a wound in the exact shape of your words.
- [Carlos Drummond de Andrade - Ontem](https://singularidadepoetica.art/2022/05/16/carlos-drummond-de-andrade-ontem-2/): Até hoje perplexoante o que murchoue não eram pétalas. De como este banconão reteve forma,cor ou lembrança. Nem esta árvorebalança o galhoque balançava. Tudo foi brevee definitivo.Eis está gravado não no ar, em mim,que por minha vez,escrevo, dissipo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/11/2016
- [Steve Scafidi – Para o último búfalo americano](https://singularidadepoetica.art/2022/05/15/steve-scafidi-para-o-ultimo-bufalo-americano/): Porque as palavras fascinam sob a luz vertiginosa das coisase a alma é como um animal – caçada e lenta –este búfalo passeia por mim todas as noites como se eu fossealgum tipo de pradaria e se agacha contra a escuridão fria,bufando sob as estrelas enquanto a névoa de sua respiraçãoeleva-se no ar, e é a sensação mais solitária que eu conheçoaproximar-se lentamente com a mão estendidapara ternamente tocar o pesado crânio peludo e ásperoe afagar aquele enorme lugar entre suas orelhas em queo que eu penso e o que ele pensa é uma coisa que cantatão calmamente que, quando eu […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Viagem na Família](https://singularidadepoetica.art/2022/05/14/carlos-drummond-de-andrade-viagem-na-familia-2/): A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabiraa sombra de meu paitomou-me pela mão.Tanto tempo perdido.Porém nada dizia.Não era dia nem noite.Suspiro? Voo de pássaro?Porém nada dizia. Longamente caminhamos.Aqui havia uma casa.A montanha era maior.Tantos mortos amontoados,o tempo roendo os mortos.E nas casas em ruína,desprezo frio, umidade.Porém nada dizia. A rua que atravessavaa cavalo, de galope.Seu relógio. Sua roupa.Seus papéis de circunstância.Suas histórias de amor.Há um abrir de baúse de lembranças violentas.Porém nada dizia. No deserto de Itabiraas coisas voltam a existir,irrespiráveis e súbitas.O mercado de desejosexpõe seus tristes tesouros;meu anseio de fugir;mulheres nuas; remorso.Porém nada dizia. Pisando livros e […]
- [Ada Limón – Viaduto](https://singularidadepoetica.art/2022/05/13/ada-limon-viaduto/): “Viaduto”, um poema de Ada Limon que revisita uma lembrança da infância para explorar a relação entre fascínio, natureza e mortalidade.
- [Carlos Drummond de Andrade - A Noite Dissolve os Homens](https://singularidadepoetica.art/2022/05/12/carlos-drummond-de-andrade-a-noite-dissolve-os-homens-2/): A noite desceu. Que noite!Já não enxergo meus irmãos.E nem tão pouco os rumoresque outrora me perturbavam.A noite desceu. Nas casas,nas ruas onde se combate,nos campos desfalecidos,a noite espalhou o medoe a total incompreensão.A noite caiu. Tremenda,sem esperança… Os suspirosacusam a presença negraque paralisa os guerreiros.E o amor não abre caminhona noite. A noite é mortal,completa, sem reticências,a noite dissolve os homens,diz que é inútil sofrer,a noite dissolve as pátrias,apagou os almirantescintilantes! nas suas fardas.A noite anoiteceu tudo…O mundo não tem remédio…Os suicidas tinham razão. Aurora,entretanto eu te diviso, ainda tímida,inexperiente das luzes que vais ascendere dos bens que repartirás com […]
- [Robert Hayden – A nevasca](https://singularidadepoetica.art/2022/05/11/robert-hayden-a-nevasca/): Incapaz de dormir ou rezar, permaneçoao lado da janela olhando para as aluadas árvores envergadas pelo gelo de uma tempestade de dezembro. Bordo e freixo da montanha se curvamsob seu peso vítreo,seus galhos fendidos caindo sobrea neve congelada. As árvores em si, como nos invernos passados,sobreviverão a este fardo,quebradas florescerão. E eu sou menos para Vocêdo que elas, Senhor? Trad.: Nelson Santander Ice Storm Unable to sleep, or pray, I standby the window looking outat moonstruck trees a December stormhas bowed with ice. Maple and mountain ash bendunder its glassy weight,their cracked branches falling uponthe frozen snow. The trees themselves, as […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo](https://singularidadepoetica.art/2022/05/10/carlos-drummond-de-andrade-os-ombros-suportam-o-mundo-2/): Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.Tempo de absoluta depuração.Tempo em que não se diz mais: meu amor.Porque o amor resultou inútil.E os olhos não choram.E as mãos tecem apenas o rude trabalho.E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.Ficaste sozinho, a luz apagou-se,mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.És todo certeza, já não sabes sofrer.E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?Teu ombros suportam o mundoe ele não pesa mais que a mão de uma criança.As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifíciosprovam […]
- [Kelli Russell Agodon - Capelas imaginárias](https://singularidadepoetica.art/2022/05/09/kelli-russell-agodon-capelas-imaginarias/): Sento-me no chão de um museu com um homemque não conheço. Estamos contemplando um quadrode 1508. Maria parece triste mas não está chorando.Outro homem se senta à minha esquerda e encosta sua cabeçacontra a parede. Atrás de mim, uma mulher estáchorando. Eu me levanto e caminho em direção a um estranhoque está dizendo, Está tudo bem, querida, você está indo bem.Há dias em que o mundo segura oseu casaco e penteia o seu cabelo,há outros em que o que sangramancha seu sofá, sua calça branca. Eu só queroandar por um mundo em que as pessoasqueiram sentar-se em silêncio com um quadro,em […]
- [Alan Jenkins – Pertences](https://singularidadepoetica.art/2022/05/08/alan-jenkins-pertences/): Leia Pertences, de Alan Jenkins, um poema comovente sobre luto, memória familiar e os vestígios materiais deixados pelos mortos.
- [Stanley Plumly – Rinoceronte branco](https://singularidadepoetica.art/2022/05/07/stanley-plumly-rinoceronte-branco/): O último da minha espécie, um dos últimos apreciadores das florese da grama das pastagens do norte, e certamenteum dos poucos habilitados a esfregar as costas no baobáe no carvalho centenário que ainda sobrevive no quintal. O truque está na pedra, parecer algo que se soltoude uma montanha, algo tão sobrante a ponto de nãoestar vivo, ainda que se assemelhe, no comportamento, a um sonho raivoso,do tipo que faz você despertar ofegante falando pra si mesmo naquele idioma que começa no estômago e no intestino.A velhice é um disfarce, rija por fora, suave por dentro.Até minha armadura está virando pó, logo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Inocentes do Leblon](https://singularidadepoetica.art/2022/05/06/carlos-drummond-de-andrade-inocentes-do-leblon-2/): Os inocentes do Leblonnão viram o navio entrar.Trouxe bailarinas?trouxe imigrantes?trouxe um grama de rádio?Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,mas a areia é quente, e há um óleo suaveque eles passam nas costas, e esquecem. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 08/11/2016 Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Robinson Jeffers - Regresso](https://singularidadepoetica.art/2022/05/05/robinson-jeffers-regresso/): Um pouco abstratos e um pouco sábios demais,É tempo de beijarmos a terra novamente,É tempo de deixar que as folhas chovam dos céus,Deixar que a rica vida corra para as raízes novamente.Eu irei para os Sur Rivers feiticeiros,E neles mergulharei meus braços até o peito.Encontrarei minha contabilidade onde treme a folha dos amieirosCom o vento oceânico sobre os seixos do leitodo rio. Eu tocarei as coisas e não mais as reflexões,Que se reproduzem como silenciosas efêmeras escurecendo o ar,As nuvens de insetos que cegam nossos apaixonados falcõesPara que eles não possam atacar, e dificilmente voar.Coisas são o alimento do falcão e […]
- [Cassiano Ricardo - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2022/05/04/cassiano-ricardo-testamento-2/): Deixo os meus olhos ao cegoque mora nesta rua.Deixo a minha esperançaao primeiro suicida.Deixo à polícia meu rasto,a Deus o meu último eco.Deixo o meu fogo-fátuoao mais triste viandanteque se perder sem lanternanuma noite de chuva.Deixo o meu suor ao fiscoque me cobriu de impostos;e a tíbia da perna esquerdaa um tocador de flautapara, com o seu chilreio,encantar a mulher e a cobra.Às coisas belas do mundodeixo o olhar cerúleo e brandocom que, nas fotografias,as estarei, sempre, olhando…Aos noturnos assistentesde última hora – aos que ficam,o sorriso interior e sábioque nunca me veio ao lábio. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente […]
- [Abdellatif Laâbi - Por que esta folha?](https://singularidadepoetica.art/2022/05/03/abdellatif-laabi-por-que-esta-folha/): Por que esta folha?Salvo por um detalhe,o mundo não mudouem tão pouco tempoSalvo por um detalheesta manhã é uma réplicacinzentada anteriorSalvo por um detalheo peso esmagador do peitonão se reduziu nem um gramaSalvo por um detalhesentimo-nos ainda vivosum pouco maisum pouco menosO mesmo equilíbriofrágil ou nãoSalvo por um detalheo de uma pergunta desconcertante:Por que esta folhanem mais amarela nem mais verde que as outrasfoi a que caiu da árvore? Trad.: Carlito Azevedo Pourquoi cette feuille? Pourquoi cette feuille?À un détail prèsle monde n’a pas changéen si peu de tempsÀ un détail prèsce matin est une répliquegrisaille à l’appuidu précédentÀ un détail […]
- [Jorge Valdés Días-Vélez - Pro nobis](https://singularidadepoetica.art/2022/05/02/jorge-valdes-dias-velez-pro-nobis/): Pro nobis para José Emilio Pacheco Uma vez mais, abriu o Averno suas mandíbulas escaldantes. Assomam os pesadelos e o terror da morte se o sono o invade e se transforma em chama negra, se, ao dormir, o levam até ele, ao lagar luxurioso dos demônios. O menino, mudo, contempla sua silhueta e chora. Na escuridão de sua cama ele se sabe mau se não reza e não implora o perdão do Espírito Santo pelos remorsos que o próprio Diabo fomenta. Por todos os seus pecados pede misericórdia e diz suas orações, repetidamente, rogando por sua alma enlameada e pela indigna […]
- [Carlos Drummond de Andrade - José](https://singularidadepoetica.art/2022/05/01/carlos-drummond-de-andrade-jose-2/): E agora, José?A festa acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou,e agora, José?e agora, você?você que é sem nome,que zomba dos outros,você que faz versos,que ama, protesta?e agora, José? Está sem mulher,está sem discurso,está sem carinho,já não pode beber,já não pode fumar,cuspir já não pode,a noite esfriou,o dia não veio,o bonde não veio,o riso não veio,não veio a utopiae tudo acaboue tudo fugiue tudo mofou,e agora, José? E agora, José?Sua doce palavra,seu instante de febre,sua gula e jejum,sua biblioteca,sua lavra de ouro,seu terno de vidro,sua incoerência,seu ódio — e agora? Com a chave na mãoquer abrir a porta,não existe porta;quer morrer […]
- [Mário Chamie - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2022/05/01/mario-chamie-fantasma-2/): Um fantasma ausentepõe tijolo sobretijolo ao seu redor. Primeiro mede o terrenoDivide o espaço.Calca com o péa plantaque não floresce.Mas que crescesob estacasde cimento. Depois, a ausênciase preenche.O fantasma movea cal, a pedra, a pá.O fantasma moveo corpo já presentedo lugar em que está. Presente e ausente,um fantasma se acasalaMove seu corpode carne e osso.Come a própria argamassae se desfazno próprio fosso.Tijolo sobre tijoloum fantasma fez seu poço. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 24/10/2016
- [Cecília Meireles - Epigrama nº 7](https://singularidadepoetica.art/2022/04/30/cecilia-meireles-epigrama-no-7-2/): A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente no blog em 18/10/2016 Conheça outros livros de Cecília Meireles clicando aqui
- [Dilruba Ahmed – Fase um](https://singularidadepoetica.art/2022/04/29/dilruba-ahmed-fase-um/): Por ter deixado a geladeira abertaontem à noite, eu a perdoo.Por conjurar cortinas brancasem vez de viver a sua vida. Pelas mudas que murcham, agora,em pequenos potes, eu a perdoo.Por dizer não num primeiro momento,mas sim como uma reflexão tardia. Eu a perdoo pelas visões horrendasapós o parto, provocadas pela perdade sono. E quando o bebê acordouvárias vezes, por sua silenciosa reprovação no escuro, “Qual é o seu problema?”Perdoo-lhe por deixar as videirastomarem conta do jardim. Por temersua própria propensão para o amor. Por perder, de novo, sua malana viagem para São Francisco;pela igualmente descuidada viagemde volta, movida a cafeína. Perdoo-lhe […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Um Bruxo Com Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/04/28/carlos-drummond-de-andrade-a-um-bruxo-com-amor-2/): “A Um Bruxo Com Amor”, um poema de Carlos Drummond de Andrade que convoca a sombra de Machado de Assis para celebrar, entre ironia e assombro, a permanência inquieta da literatura sobre o tempo e a morte.
- [Ted Kooser - Luz das estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/27/ted-kooser-luz-das-estrelas/): A noite toda, essa chuva suave do passado distante.Não admira que às vezes eu desperte como uma criança. Trad.: Nelson Santander Starlight All night, this soft rain from the distant past.No wonder I sometimes waken as a child.
- [Mário de Andrade - Poema da Amiga (VIII)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/26/mario-de-andrade-poema-da-amiga-viii-2/): Gosto de estar a teu lado,Sem brilho.Tua presença é uma carne de peixe,De resistência mansa e de um brancoEcoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti.Anoiteço feito um bairro,Sem brilho algum. Estamos no interior duma asaQue fechou. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 14/10/2016 Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
- [Sharon Olds - A corrida](https://singularidadepoetica.art/2022/04/25/sharon-olds-a-corrida/): Quando cheguei no aeroporto, corri até o guichê,comprei uma passagem, dez minutos depois me disseram que o voo tinha sido cancelado, os médicostinham dito que meu pai não sobreviveria àquela noitee o voo fora cancelado. Um jovemde bigode castanho-escuro me disseque de outra companhia aérea partiria um voosem escalas em sete minutos. Pegueaquele elevador, desça atéo primeiro andar, vire à direita, vocêverá um ônibus amarelo, desça nosegundo terminal da Pan Am, eucorri, eu que não tenho senso de direçãocorri exatamente para onde ele havia indicado, um peixedeslizando rio acima habilmente contraa corrente. Saltei daquele ônibus com asmalas nas quais tinha jogado […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Carta aos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/04/24/affonso-romano-de-santanna-carta-aos-mortos-2/): Carta aos Mortos, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, reflete sobre a aparente marcha do progresso e as surpreendentes permanências da experiência humana.
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – A torre da dama](https://singularidadepoetica.art/2022/04/23/eilean-ni-chuilleanain-a-torre-da-dama/): Vazia, minha alta torre inclina-se Para trás no penhasco; meu colmo Conversa com a amplidão dispersa, Garças. A parede cinza Corta para baixo e encontra Um instável córrego inundado Por seixos, pequenas aves Mergulhadoras. Lá embaixo, meus porões sondam. Atrás de mim, as oblíquas veias da colina Se deslocam; úmida está minha cozinha, Aranhas escondidas sob tonéis marrons. Eu ouço a corrente mudar de ritmo, olho do fogão Para ver que agora o bote de extremidades quadradas flutua Livremente, para cima e para baixo, o cordame perfeitamente nivelado. Abrindo a porta da cozinha As amoreiras na pedreira sentem falta do meu […]
- [Eiléan Ní Chuilleanáin – O quarto de um cavalheiro](https://singularidadepoetica.art/2022/04/23/eilean-ni-chuilleanain-o-quarto-de-um-cavalheiro/): Essas compridas sombras recuando,Um rio de telhados inclinando-se Do lado do vale.Frontões e chaminésE torres, com árvores aninhadas entre elas:Todas as formas de um cemitérioVistas do alto de sua janela. Um espelho em forma de caixão responde,Luz suave, polido, liso como a pele,Azul como grama cortada no gramado,Gravatas retorcidas dobradas sobre ele. Abrindo a porta, todas as paredes apontam ao mesmo tempo para a camaEnorme seda vermelha em 1/4 do quartoNós afogados em mogno profundoE uniformes volumes azuis guardados ao alcance da mão. E um calendário de mesa, uma caneta-tinteiro,Uma pesada luminária em mármore verde,Uma caixa de charutos, vazia mas espanada,Sobre […]
- [José Luís Peixoto - na hora de pôr a mesa...](https://singularidadepoetica.art/2022/04/22/jose-luis-peixoto-na-hora-de-por-a-mesa-2/): na hora de pôr a mesa, éramos cinco:o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãse eu. depois, a minha irmã mais velhacasou-se. depois, a minha irmã mais novacasou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,na hora de pôr a mesa, somos cinco,menos a minha irmã mais velha que estána casa dela, menos a minha irmã maisnova que está na casa dela, menos o meupai, menos a minha mãe viúva. cada umdeles é um lugar vazio nesta mesa ondecomo sozinho. mas irão estar sempre aqui.na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.enquanto um de nós estiver vivo, seremossempre cinco. REPUBLICAÇÃO: poema […]
- [Francisco Brines - A realidade não permanece](https://singularidadepoetica.art/2022/04/21/francisco-brines-a-realidade-nao-permanece/): Esta tarde rebelde me leva a Bathe a ti, mas não à cidade de ruastranquilas, nem a quem tu deves ser hoje.O quarto fica maior na penumbraenquanto chove suavemente na rua.Há, na lareira, um fogo que aquecenossos corpos nus, e que iluminao vasto espaço de forma insuficiente.És a luz que o fogo de teus cabelose o íntimo repouso dos lençóis merecem; sobre o tapete,e contra o vermelho ardente, fazes teu corpo dançar.Deitas-te ou caminhas, e conversas subitamente séria, teu sorriso me ouve.Como se o mundo fosse apenas um vão excessoem nossas existências solitárias. Agora que só em nossas vidas existe tal […]
- [José Luís Peixoto - Explicação da Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2022/04/20/jose-luis-peixoto-explicacao-da-eternidade/): REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 20/09/2016
- [Linda Pastan - Dor](https://singularidadepoetica.art/2022/04/19/linda-pastan-dor/): Mais fieldo que um amante ou maridoela se apega a ti,dando a si própria o teu sobrenomecomo se uma cerimônia tivesse acontecido. À noite, viras e revirasprocurando pela únicaposição suportável,mas mesmo que finalmente consigas dormir,ela acorda antes de ti. Como é pesada,desalojando com seu volumetoda tua energia vital.Antes tu parecias não pesar nada,teus braços poderiam ter sido asas. Agora cada dedo adiciona uma medida;tu és puxada para baixo pelo pesode teu próprio cabelo.E se tua vida desaparecesse antes de ti,não correrias atrás dela. Trad.: Nelson Santander Pain More faithfulthan lover or husbandit cleaves to you,calling itself by your nameas if there […]
- [W. H. Auden - Blues Fúnebre (em duas traduções de Nelson Ascher)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/18/w-h-auden-blues-funebre-em-duas-traducoes-de-nelson-ascher/): BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —e os guardas usem finas luvas cor-de-breu. Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquantoviveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana. É hora de apagar estrelas — são molestas […]
- [Brigit Pegeen Kelly – A partida](https://singularidadepoetica.art/2022/04/17/brigit-pegeen-kelly-a-partida/): Meu pai disse que eu não conseguiria fazê-lo,mas por toda noite eu colhi os pêssegos.O pomar estava silencioso, os canais funcionavam incessantemente.Eu era uma menina na época, meu peito era seu próprio jardim murado.Quantas são as escadas para a colheita em um pomar?Eu tinha apenas uma e uma grande paciência com as mãos acesase o olhar das estrelas que se moviam através de mimcomo a água se movia pelos canais com uma vozque parecia falar desta colheita sem luare daqueles que colheram antes de mim.Coloquei os pêssegos na água fria da lagoa,a noite toda subindo e descendo a escada, a noite […]
- [João Cabral de Melo Neto - A Viagem](https://singularidadepoetica.art/2022/04/16/joao-cabral-de-melo-neto-a-viagem-2/): Quem é alguém que caminhatoda manhã com tristezadentro de minhas roupas, perdidoalém do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendocomo se levassem nos bolsosdoces geografias, pensamentosde além do sonho e da rua? Alguém a cada momentovem morrer no longe horizontede meu quarto, onde esse alguémé vento, barco, continente. Alguém me diz toda a noitecoisas em voz que não ouço.Falemos na viagem, eu lembro.Alguém me fala na viagem. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/09/2016
- [Ellen Bass – Pelo tempo que quiser](https://singularidadepoetica.art/2022/04/15/ellen-bass-pelo-tempo-que-quiser/): No caminho para o cemitério, eu dormi.Não na limusine que levava o caixão da minha mãe,mas apagada em uma van, a família toda falando ao meu redor.Eu estava exausta do sofrimento dela, de seus apelos —me ajuda e chega, chega —e tentando fazer com que a morfina permanecesse na vala de suas gengivas.Como pude não ter estudado isso com antecedência?A maneira como minha mãe aprendeu a dar injeções no curso de enfermagem,enfiando a agulha em uma laranjae praticando nas outras meninas.Deus só nos dá força para um dia de cada vez.Quantas vezes eu a ouvi dizer isso?Pergunte a si própria, eu posso fazer […]
- [Lewis Carroll - Jaguadarte](https://singularidadepoetica.art/2022/04/14/lewis-carroll-jaguadarte/): Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo. E enquanto estava em sussustada sesta,Chegou o Jaguadarte, ôlho de fogo,Sorrelfiflando através da floresta,E borbulia um riso louco! Um, dois! Um, dois! Sua espada mavortaVai-vem, vem-vai, para trás, para diante!Cabeça fere, corta, e, fera morta,Ei-lo que volta galunfante. “Pois então tu mataste o Jaguadarte!Vem aos meus […]
- [Ellen Bass – Pinheiros de Ponary](https://singularidadepoetica.art/2022/04/13/ellen-bass-pinheiros-de-ponary/): Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles estavam aqui quandoos trens circulavam sobre os trilhosdormentes. E antes de adentrartrês metros na floresta, eu ouço o som.Claro. Tinha que existir um trem.Mas eu não esperava que ainda funcionasseassim, as pessoasentrando e saindo com seus pacotes.Eu não havia pensado no cheiro de resina se espalhando […]
- [Ada Limón - Instruções para não desistir](https://singularidadepoetica.art/2022/04/13/ada-limon-instrucoes-para-nao-desistir/): Mais do que os funis fúcsia rompendoda macieira, mais do que a exibição quaseobscena dos galhos da cerejeira do vizinho enfiandosuas flores cor de algodão doce no céu ardósiadas chuvas de primavera, é o verdejar das árvoresque realmente me comove. Quando todo o embate de brancoe caramelo e os berloques e bugigangas do mundo deixam,de rescaldo, a calçada repleta de confetes espalhados,as folhas vêm. Paciente, laboriosa, uma pele verdecresce sobre o que quer que o inverno nos tenha feito, um retornoà estranha ideia de uma vida contínua, apesardo caos entre nós, da dor, do vazio. Tudo bem então,a árvore parece dizer, […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2022/04/12/carlos-drummond-de-andrade-a-mesa/): E não gostavas de festa. . .Ó velho, que festa grandehoje te faria a gente.E teus filhos que não bebeme o que gosta de beber,em torno da mesa larga,largavam as tristes dietas,esqueciam seus fricotes,e tudo era farra honestaacabando em confidência.Ai, velho, ouvirias coisasde arrepiar teus noventa.E daí, não te assustávamos,porque, com riso na boca,e a nédia galinha, o vinhoportuguês de boa pinta,e mais o que alguém fariade mil coisas naturaise fartamente poriaem mil terrinas da China,já logo te insinuávamosque era tudo brincadeira.Pois sim. Teu olho cansado,mas afeito a ler no campouma lonjura de léguas,e na lonjura uma rêsperdida no azul azul,entrava-nos […]
- [Jo Shapcott – Observadora de estrelas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/11/jo-shapcott-observadora-de-estrelas/): Se eu não estou olhando para você, me perdoe; se pareçoestar esqudrinhando o céu,cabeça jogada para trás, curiosa,extática, reservada, andandoaleatoriamente no chãoà sua frente, meu público,me perdoe, e esqueça o que estáacontecendo em minhas células.É em você que estou pensandoe, voz lançada para o alto,é com você que estou falando, você. Estou tentando manter tudo simplesno tempo que me resta:felizmente, é uma lentae seletiva degeneração.Espero, principalmente, permanecer atuale verdadeira, apesar doimpulso indevido que se me apoderoude dizer tudo,de uma só vez, para todos, que é o que eu gostaria de fazer se ao menospudesse permanecer além deste momento. Trad.: Nelson Santander […]
- [Robinson Jeffers - Cremação](https://singularidadepoetica.art/2022/04/10/robinson-jeffers-cremacao/): Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com meu corpo. Espalhe as cinzas. Trad.: André Caramuru REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente no blog em 07/08/2016 Cremation It nearly cancels my fear of death, my dearest said, When I think of cremation. To rot in the earth Is a loathsome end, but to roar up in […]
- [Geoffrey A. Landis – Ondulações no mar de Dirac](https://singularidadepoetica.art/2022/04/09/geoffrey-a-landis-ondulacoes-no-mar-de-dirac/): Trabalho vencedor do Prêmio Nebula de melhor conto de Ficção Científica de 1989.
- [Cynthia Huntington – O arrebatamento](https://singularidadepoetica.art/2022/04/09/cynthia-huntington-o-arrebatamento-poema/): Lembro-me de estar na cozinha, misturando ossos para a sopa,e de que, naquele momento, me tornei outra pessoa. Era uma noite de início de primavera, o ar da Califórnia estava ameno.Lá fora, o eucalipto se curvava compulsivamente sobre o trailer do vizinho, estacionado na entrada da garagem.A rua estava tranquila, pra variar, e todas as janelas estavam abertas. Então, meu braço direito formigou, uma palpitação começou sob a pele.Um fogo desceu pelo nervo da minha perna; meu couro cabeludo explodiu em pontadas de luz. Eu tremia e sentia vontade de rir;era emocionante como um terremoto. Uma cidade em chamas após um […]
- [Jaime Gil de Biedma - Lembre-se](https://singularidadepoetica.art/2022/04/08/jaime-gil-de-biedma-lembre-se-2/): Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo em sonhos na memória: estremece eterno o tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado rumo a um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre submergindo o passado. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 25/04/2018 Jaime Gil Biedma – Recuerda Hermosa vida que pasó y pareceya no pasar... Desde este instante, ahondosueños en la memoria: se estremecela eternidad del tiempo allá en el fondo.Y de repente un remolino creceque me arrastra sorbido hacia un trasfondode sima, donde va, […]
- [Nelson Ascher - Visita ao asilo](https://singularidadepoetica.art/2022/04/07/nelson-ascher-visita-ao-asilo-poema/): Subsistem devagar nojardim da última infânciasorvendo desdentadosde vida (além de dentes) o caldo-de-galinhahospitalar dos dias.Opacas as retinase os tímpanos à prova de som, eles combinamremorsos de placentadensos de urina e restosmortais que, amortalhados folgadamente em peloacima do seu número,apegam-se obsessivosaos ossos descalci- ficados como, à ideiade podre, os urubus.Sinapse piedosaque, entre neurônios secos, censura todo estímulo,seu íntimo se ocupadespreocupadamentede trâmites de térmita.
- [Jaime Gil de Biedma - Não Voltarei a ser Jovem](https://singularidadepoetica.art/2022/04/06/jaime-gil-de-biedma-nao-voltarei-a-ser-jovem-2/): Que é certo a vida passasó se começa a compreender mais tarde— como todos os jovens, decidilevar a minha vida por diante. Deixar marca eu queriae partir entre aplausos— envelhecer, morrer, eram somenteas dimensões do teatro. Porém, passou o tempoe a verdade mais amarga assoma:envelhecer, morrer,é o argumento único da obra. Trad.: José Bento REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 13/07/2016 No volveré a ser joven Que la vida iba en seriouno lo empieza a comprender más tarde— como todos los jóvenes, yo vinea llevarme la vida por delante. Dejar huella queríay marcharme entre aplausosenvejecer, morir, eran tan sólolas dimensiones […]
- [Henry Wadsworth Longfellow - Casas assombradas](https://singularidadepoetica.art/2022/04/05/henry-wadsworth-longfellow-casas-assombradas/): Todas as casas onde homens viveram e morreram São casas mal-assombradas. Pelo aberto portãoAs inofensivas almas, em suas tarefas, pairam, Com pés que quase nenhum ruído produzem no chão. Nós as encontramos na escadaria, no corredor, Pelas passagens através das quais elas vêm e vão,impalpável impressão no ar ao nosso derredor, Sensação de algo em intensa movimentação. Há mais convivas na mesa do que os anfitriões Chamaram; encontra-se a entrada resplandescenteApinhada de mansas e inermes aparições, Tão silenciosas quanto aqueles quadros na parede. O estranho na minha lareira não consegue ver As formas que eu enxergo, nem ouvir os sons que […]
- [Cassiano Ricardo - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2022/04/04/cassiano-ricardo-o-espelho-2/): Um meio-dia nu, numa enorme moldurade prata.Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo.Mas não é nada. É apenas um espelho.Um rico espelho. De extraordinário fulgor.Próprio pra ser colocado à paredede um ministério da Fazenda, ou de uma casade jogo. Toda a cidade cabe dentro dele.Árvores, automóveis, povo, casas de comércioe vendedores de jornais, principalmente.Enfim, todo o vaivém instantâneo da ruasalpicado aqui e ali pelo sol matutino.Resultado de tudo, ele é uma coisa viva,de gestos súbitos e esplendor repentino. Quatro operários o conduzem pela rua.E há uma outra rua nele, ainda mais coletiva,é a rua oposta, extremamente nítida,por onde vêm […]
- [Andrea Cohen - Recusa em lamentar](https://singularidadepoetica.art/2022/04/03/andrea-cohen-recusa-em-lamentar-poema/): Em vez de flores, mande- o de volta.Trad.: Nelson Santander Refusal to Mourn In lieu of flowers, send him back.
- [William Blake - London (c.1790)](https://singularidadepoetica.art/2022/04/02/william-blake-london-c-1790-2/): Perambulo por todas as ruas com barreirasVizinhas de onde o próprio TâmisaEntre barreiras flui, e em cada face que encontroMarco marcas de fraqueza, marcas de pesar. Ouço o ruído dos grilhões mentais apostosEm cada alocução de cada homemNo grito de temor de cada infanteNas vozes todas, em cada interdição. Como o grito dos meninos que limpam chaminésRessoa intimidante nos tempos encardidos.E o suspiro do infeliz conscritoEscorre em sangue pelas paredes dos palácios. Mas sobretudo como na calada da noiteA maldição das adolescentes prostitutasProvoca o choro do recém-nascidoE envolve em pragas o ataúde nupcial. Trad.: Benedicto Ferri de Barros REPUBLICAÇÃO: poema publicado […]
- [Joan Margarit – Coisas em comum](https://singularidadepoetica.art/2022/04/01/joan-margarit-coisas-em-comum-poema/): Ter-nos conhecidoem um outono num trem que ia vazio;A radiante, embora cruel,promessa do desejo.A cicatriz da melancoliae o velho afeto com o qual compreendemosos motivos do lobo.A lua que acompanha o trem noturnoBarcelona-Paris.Uma faca de luz para os crimesque por amor devemos cometer.Nossa maldita e inocente sorte.A voz do mar, que sempre te diráonde estou, porque é nosso confidente.Os poemas, que são cartas anônimasescritas de onde não imaginasà mesma menina que em um outonoconheci naquele trem que ia vazio.Trad.: Nelson Santander Cosas en Común Habernos conocido un otoño en un tren que iba vacío; La radiante, aunque cruel promesa del deseo. […]
- [William Blake - A Tirzah](https://singularidadepoetica.art/2022/03/31/william-blake-a-tirzah-2/): Tudo que nasceu para morrerDeve-se a terra misturarPara da geração se libertar:Então, que tenho eu a ver contigo? Do orgulho e da vergonha nasce o sexoPela manhã florido, à tarde morto.Mas a piedade faz da Morte sonoE os sexos se levantam para o trabalho e o pranto. Tu, mãe da minha mortal parteQue cruelmente meu coração moldasteE com fingidas lágrimasObliteraste meu olfato, meu olhar e meu ouvir. E minha fala fizeste de cerâmica insensívelFalseando minha vida de mortal:A morte de Jesus me liberou:Então, que tenho eu que haver contigo? Trad.: Benedicto Ferri de Barros REPUBLICAÇÃO: Poema publicado no blog originalmente em […]
- [Nickole Brown - Susto](https://singularidadepoetica.art/2022/03/30/nickole-brown-susto-poema/): Deixe-me dizer-lhe — nenhum animal de longe é o mesmoque de perto. Ou seja, uma baleia em uma revista podeparecer majestosa e livre, mas o que você não vê équão perto da superfície ela adormece,como a luz a empola deixando-a em carne viva e comoas gaivotas rasgam sua pele queimada pelo sol, alçando ao aros bicos repletos de sua carne orgulhosa.Ou você pode acreditar que o rinoceronte é uma fera com visão tão pobre que não se preocupa emdistinguir uma forma à sua frente antes desair correndo do mato, carregandoseu pré-histórico chifre primordial, mas venha comigo — conheça Jo,o solitário rinoceronte-negro […]
- [Lêdo Ivo - A Queimada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/29/ledo-ivo-a-queimada-2/): Queime tudo o que puder:as cartas de amoras contas telefônicaso rol de roupas sujasas escrituras e certidõesas inconfidências dos confrades ressentidosa confissão interrompidao poema erótico que ratifica a impotênciae anuncia a arterioscleroseos recortes antigos e as fotografias amareladas.Não deixe aos herdeiros esfaimadosnenhuma herança de papel. Seja como os lobos: more num covile só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.Viva e morra fechado como um caracol.Diga sempre não à escória eletrônica. Destrua os poemas inacabados,os rascunhos,as variantes e os fragmentosque provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.Não confie a ninguém […]
- [Victoria Kennefick – Depoimento](https://singularidadepoetica.art/2022/03/28/victoria-kennefick-depoimento-poema/): Eu te amo como as ondas amam os penhascos.Elas lançam saias de rendas contra os rochedos,pernadas de dançarinas do can-can escalam até o topo,e voltam para o mesmo lugar; espuma se agarra – um beijo.Algumas vezes, elas levam coisas usadas para a praia;em outras, deslizam em silêncio, sem nada dizer,cavam, escondem-se no eco-escuro –esperam até que haja um horizonte. Eu te amo desta maneira porquevocê é um planeta no espaço que orbitafriamente o sol, que permite oceanos.Eu te amo desta maneira porquevocê me faz um mar de tranquilidade,ou me deixa bater e debater-me contra o cais.Você me pega, seixo e solo,areia […]
- [Cassiano Ricardo - Ladainha](https://singularidadepoetica.art/2022/03/27/cassiano-ricardo-ladainha-2/): Por que o raciocínio,os músculos, os ossos?A automação, ócio dourado.O cérebro eletrônico, o músculomecânicomais fáceis que um sorriso. Por que o coração?O de metal não tornará o homemmais cordial,dando-lhe um ritmo extra-corporal? Por que levantar o braçopara colher o fruto?A máquina o fará por nós.Por que labutar no campo, na cidade?A máquina o fará por nós.Por que pensar, imaginar?A máquina o fará por nós.Por que fazer um poema?A máquina o fará por nós.Por que subir a escada de Jacó?A máquina o fará por nós. Ó máquina, orai por nós. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 25/06/2016
- [David Whyte - O verdadeiro amor](https://singularidadepoetica.art/2022/03/26/david-whyte-o-verdadeiro-amor-poema/): “O verdadeiro amor”, um poema de David Whyte que apresenta o amor como travessia íntima e corajosa, onde dizer “sim” à mão estendida é escolher viver depois de anos à deriva.
- [Heinrich Heine - Morfina](https://singularidadepoetica.art/2022/03/25/heinrich-heine-morfina-2/): É grande a semelhança desses doisjovens e belos vultos, muito emboraum pareça mais pálido e severoou, posso até dizer, bem mais distintodo que o outro, o que, terno, me abraçava.Havia em seu sorriso tanto afeto,carinho e, nos seus olhos,tanta paz!Ornada de papoulas, sua frontetocava a minha, às vezes – e seu raroodor me dissipava a dor do espírito.Tal alívio, porém, não dura. Eu sóhei de curar-me inteiramente quandoo irmão severo e pálido abaixara sua tocha. – O sono é bom; o sonoeterno, ainda melhor; mas certamenteo ideal seria nunca ter nascido. Trad.: Nelson Ascher REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em […]
- [Lucille Clifton – o que eu sei é isso](https://singularidadepoetica.art/2022/03/24/lucille-clifton-e-isso-o-que-eu-sei-poema/): o que eu sei é isso:minha mãe enlouqueceuna casa dos meus paispor falta de carinho o que eu sei é isso:os dias de algumas mulheressão desperdiçadosnas cozinhas de suas vidasé por isso que eu sei:os deusessão homens Trad.: Nelson Santander this is what i know this is what i know my mother went mad in my fathers house for want of tenderness this is what i know some womens days are spooned out in the kitchen of their lives this is why i know the gods are men
- [Carlos Drummond de Andrade - Congresso Internacional do Medo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/23/carlos-drummond-de-andrade-congresso-internacional-do-medo-2/): Provisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,não cantaremos o ódio porque esse não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,depois morreremos de medoe sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 02/06/2022
- [Czesław Miłosz – Dádiva](https://singularidadepoetica.art/2022/03/22/czeslaw-milosz-dadiva-poema/): Um dia tão feliz.O nevoeiro cedo dissipou-se, e eu trabalhei no jardim.Os Beija-Flores se detinham sobre as flores de madressilva.Não havia nada na terra que eu quisesse possuir.Eu não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.Qualquer mal que eu tivesse sofrido, esqueci.Pensar que uma vez eu fui o mesmo homem não me envergonhava.Em meu corpo eu não sentia dor.Ao endireitar-me, vi o mar azul e as velas. Trad.: Nelson Santander Gift A day so happy.Fog lifted early, I worked in the garden.Hummingbirds were stopping over honeysuckle flowers.There was no thing on earth I wanted to possess.I knew no one worth my […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Medo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/21/carlos-drummond-de-andrade-o-medo-2/): Em verdade temos medo.Nascemos escuro.As existências são poucas:Carteiro, ditador, soldado.Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo.Cheiramos flores de medo.Vestimos panos de medo.De medo, vermelhos riosvadeamos. Somos apenas uns homense a natureza traiu-nos.Há as árvores, as fábricas,Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor,este célebre sentimento,e o amor faltou: chovia,ventava, fazia frio em São Paulo. Fazia frio em São Paulo…Nevava.O medo, com sua capa,nos dissimula e nos berça. Fiquei com medo de ti,meu companheiro moreno,De nós, de vós: e de tudo.Estou com medo da honra. Assim nos criam burgueses,Nosso caminho: traçado.Por que morrer em conjunto?E se todos nós vivêssemos? Vem, harmonia do […]
- [Linda Pastan - Estou aprendendo a abandonar este mundo](https://singularidadepoetica.art/2022/03/20/linda-pastan-estou-aprendendo-a-abandonar-o-mundo-poema/): Estou aprendendo a abandonar este mundoantes que ele possa me abandonar.Já renunciei à luae à neve, fechando minhas persianascontra as reivindicações do branco.E o mundo levoumeu pai, meus amigos.Abandonei as linhas melódicas das colinas,mudando para uma paisagem plana, dissonante.E toda noite abandono meu corpo,membro por membro, seguindoatravés dos ossos, em direção ao coração.Mas a manhã chega trazendo as pequenastréguas do café e o canto dos pássaros.Uma árvore do lado de fora da janela,que era apenas sombra momentos atrásrecolhe de volta seus galhos, ramo por ramo frondoso.E enquanto retomo meu corpo,o sol pousa seu caloroso focinho em meu colocomo se quisesse se […]
- [Rainer Maria Rilke - Morgue](https://singularidadepoetica.art/2022/03/19/rainer-maria-rilke-morgue-2/): Estão prontos, ali, como a esperarque um gesto só, ainda que tardio,possa reconciliar com tanto frioos corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim.Que nome no seu bolso já vaziohá por achar? Alguém procura, enfim,enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só ficam mais polidos.A barba está mais dura, todaviaficou mais limpa ao toque do vigia, para não repugnar o circunstante.Os olhos, sob a pálpebra, invertidos,olham só para dentro, doravante. Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 01/06/2016 Morgue Da liegen sie bereit, als ob es gälte,nachträglich eine Handlung zu erfinden,die […]
- [Dan Gerber – Cinema Paradiso](https://singularidadepoetica.art/2022/03/18/dan-gerber-cinema-paradiso-poema/): No final de novembropalavras apareceram na ponta da minha canetacomo a resposta a uma pergunta queeu ainda não havia feito.Uma tornou-se um condor; outra,uma nuvem,enquanto uma terceira palavra, espinhosidade,ganhou vida no sonho de um cardo.O que é mais real,a neve ou a bola de neve,a palavra ou as letras que acompõe?Eu empacotei a neve, uma galáxia de minúsculasestrelas brancas entre as palmas das mãos.É assim que surge um buraco negro?Não, um buraco negro é um eixorepleto de luz.Com o tempo,que nem vem nem vai,o próprio universo podese tornar um buraco negro;nesse caso ainda estaremos todos juntos,na escuridão,esperando o início do espetáculo.Trad.: […]
- [Ruy Proença - Tiranias](https://singularidadepoetica.art/2022/03/17/ruy-proenca-tiranias-2/): antigamentediziam: cuidado,as paredes têm ouvidos entãofalávamos baixonos policiávamos hojeas coisas mudaram:os ouvidos têm paredes de nadaadiantagritar REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/05/2016 Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui
- [Billy Collins - O desfile](https://singularidadepoetica.art/2022/03/16/billy-collins-o-desfile-poema/): Que emocionante foi marcharao longo das grandes avenidasdebaixo do clarão das trombetase sob todas as bandeiras tremulantes —a bandeira da ambição, a bandeira do amor. Tantos de nós fluindo ao longo do caminho —toda a humanidade, na verdade —movendo-se em perfeita sintonia,mas cada qual perdido no quarto de um sonho particular. Como é estimulante a paisagem do mundo,as fileiras de árvores à beira da estrada,a enorme cortina do céu. Quão interminável parecia até que nos desviássemosda grande estradapara um pasto de grama alta,em direção aos vertiginosos penhascos da mortalidade. Geração após geração,continuamos avançandoaté pularmos da borda para o espaço. E eu […]
- [Darcy Ribeiro - A Indesejada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/15/darcy-ribeiro-a-indesejada-2/): Aí estão eles, os da terceira idade.Gregários, vivem aos bandos.Sentados, jogando cartas, andando devagar.Conversando pretéritos assuntos.Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos.Hoje, são sogros, os chatos dos sogros.Uns são viúvos, outros largados, poucos.Muitos deles, os mais, ainda casados.As mulheres duram demais. Órfãos de seus filhos, ocupadíssimos.Não reclamam, resmungam disfarçados.Estão todos aflitos, na esperaDa indesejada, que tarda.Tarda, é certo, mas virá. Inexorável. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 01/05/2016
- [Carolyn Creedon – Mulher, minada](https://singularidadepoetica.art/2022/03/14/carolyn-creedon-mulher-minada-poema/): Na seção de cosméticos da Lord & Tayloreles a levarão para um lugar bem exposto, claro como o dia, e a fotografarão com uma câmera ultravioleta,mostrando-lhe o que você fez com sua pele apenaspor viver, seu rosto subitamente exposto, como aquilo querealmente está acontecendo sob uma tora levantada, a verdadeira vocêque você é, capturada e fixada como uma mariposa,como uma ladra, como uma mulher sobre uma mesa e a senhora no impecável jaleco branco sacudirá habilmente o instantâneo na sua frente, dispostocomo um mapa de países conquistados, codificado por cores,os lugares roxos e marrons que você abandonousem cuidados aos vinte e […]
- [Darcy Ribeiro - Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/03/13/darcy-ribeiro-amor/): “Amor”, um poema de Darcy Ribeiro que assume a paixão como força carnal absoluta, onde dois corpos se afirmam contra o mundo na vertigem do desejo.
- [Donizete Galvão - Ruminações](https://singularidadepoetica.art/2022/03/12/donizete-galvao-ruminacoes-poema/): Nunca saí dessa roceira Minasque nos dá aflição e dor como herança.Lamaçal de bosta de vacano curral bem em frente da casa.Cheiro de leite azedo nos latõese de óleo queimado para expulsar bernes.Jardins de dália e corações magoados,chás de consolda e escaldados de quirera.A avó socando o arroz no pilão,preparando decoada para o sabãoou com rodilhas para o feixe de lenha.Compras sem um item supérfluoanotadas nas cadernetas de armazém.Terras tomadas por sapé e sorocabae vendidas para pagar promissórias.Vidas acanhadas atrás de janelasna cidade que não definha nem prospera.Rancores cultivados durante anos,as mesquinharias de parentes.Amor ressabiado, apenas sugerido,abraços sem calor, corpos com […]
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2022/03/11/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4-3/): Nada vos ofertoalém destas mortesde que me alimento Caminhos não háMas os pés na gramaos inventarão Aqui se iniciauma viagem clarapara a encantação Fonte, flor em fogo,quem é que nos esperapor detrás da noite ? Nada vos sovino:com a minha incertezavos ilumino REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 23/04/2016
- [Ellen Bass – Pinheiros de Ponary](https://singularidadepoetica.art/2022/03/10/ellen-bass-pinheiros-de-ponary-poema/): Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles estavam aqui quandoos trens circulavam sobre os trilhosdormentes. E antes de adentrartrês metros na floresta, eu ouço o som.Claro. Tinha que existir um trem.Mas eu não esperava que ainda funcionasseassim, as pessoasentrando e saindo com seus pacotes.Eu não havia pensado no cheiro de resina se espalhando […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2022/03/09/caetano-veloso-o-homem-velho-3/): O homem velho deixa a vida e morte para trásCabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca maisO grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinaisO homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao solAs linhas do destino nas mãos a mão apagouEle já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n’rollAs coisas migram e ele serve de farol A carne, a arte arde, a tarde caiNo abismo das esquinasA brisa leve traz o olor fugazDo sexo das meninas Luz fria, seus cabelos têm tristeza de néonBelezas, dores e alegrias […]
- [Anne Sexton – Para um amigo que alcançou o sucesso no trabalho](https://singularidadepoetica.art/2022/03/08/anne-sexton-para-um-amigo-cujo-trabalho-alcancou-o-trinfo/): Considere Ícaro, colando aquelas asas viscosas,experimentando aquele estranho puxão em suas omoplatas,e pense naquele primeiro impecável momento sobre o gramadodo labirinto. Pense em como isso fez diferença!Lá embaixo encontram-se as árvores, tão desajeitadas quanto os camelos;e aqui, os estupefatos estorninhos que passame pensam que o inocente Ícaro está indo muito bem:maior do que uma vela mestra, sobre a névoa e as explosõesdo aveludado oceano, ele vai. Admire suas asas!Sinta o fogo em sua nuca e observe como ele casualmenteolha para cima e é capturado e maravilhosamente perfuradopor aquele olho escaldante. Quem se importa que ele caiu no mar?Veja-o aclamando o sol […]
- [Cassiano Ricardo - O Relógio](https://singularidadepoetica.art/2022/03/07/cassiano-ricardo-o-relogio-2/): Diante de coisa tão doídaconservemo-nos serenos. Cada minuto de vidanunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma faceDo não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nascejá se começa a morrer. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 17/04/2016
- [Jorge Luis Borges - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-arte-poetica/): Fitar o rio feito de tempo e águae recordar que o tempo é outro rio,saber que nos perdemos como o rioE que os rostos passam como a água. Sentir que a vigília é outro sonhoque sonha não sonhar e que a morteque teme nossa carne é essa mortede cada noite, que se chama sonho. No […]
- [Rainer Maria Rilke - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/rainer-maria-rilke-solidao/): A solidão é como uma chuva. Ergue-se do mar ao encontro das noites; de planícies distantes e remotas sobe ao céu, que sempre a guarda. E do céu tomba sobre a cidade. Cai como chuva nas horas ambíguas, quando todas as vielas se voltam para a manhã e quando os corpos, que nada encontraram, desiludidos […]
- [Cassiano Ricardo - Ladainha](https://singularidadepoetica.art/2016/06/25/cassiano-ricardo-ladainha/): Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso. Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- corporal? Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por […]
- [Gil Jorge - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/gil-jorge-so/)
- [Heinrich Heine - “Larga as parábolas sagradas”](https://singularidadepoetica.art/2016/06/17/heinrich-heine-larga-as-parabolas-sagradas/): Larga as parábolas sagradas, Deixa as hipóteses devotas, E põe-te em busca das respostas Para as questões mais complicadas. Por que se arrasta miserável O justo carregando a cruz, Enquanto, impune, em seu cavalo, Desfila o ímpio de arcabuz? De quem é a culpa? Jeová Talvez não seja assim tão forte? Ou será Ele o […]
- [Heinrich Heine - Morfina](https://singularidadepoetica.art/2016/06/15/heinrich-heine-morfina/): É grande a semelhança desses dois jovens e belos vultos, muito embora um pareça mais pálido e severo ou, posso até dizer, bem mais distinto do que o outro, o que, terno, me abraçava. Havia em seu sorriso tanto afeto, carinho e, nos seus olhos,tanta paz! Ornada de papoulas, sua fronte tocava a minha, às […]
- [Friedrich Hölderlin - As Parcas](https://singularidadepoetica.art/2016/06/14/friedrich-holderlin-as-parcas/): Dai-me, Potestades, mais um verão apenas, Apenas um outono de maduro canto, Que de bom grado, o coração já farto Do suave jogo, morrerei então. A alma que em vida nunca desfrutou os seus Direitos divinos nem no Orco acha repouso; Mas se eu lograr o que é sagrado, o que Trago em meu coração, […]
- [William Butler Yeats - Bizâncio](https://singularidadepoetica.art/2016/06/09/william-butler-yeats-bizancio/): As imagens febris do dia se desfazem; Os guardas imperiais, bêbados, jazem; Noite sem som, sombras noctívagas se alongam Da catedral e do seu gongo; À luz de estrela ou lua um domo desmerece Tudo o que é humanidade, Mera complexidade As veias, fúria e lama, em toda humana espécie. Diante de mim a imagem, […]
- [John Keats - Ode a um Rouxinol](https://singularidadepoetica.art/2016/06/05/john-keats-ode-a-um-rouxinol/): Meu peito dói; um sono insano sobre mim Pesa, como se eu me tivesse intoxicado De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim, Há um só minuto, e após no Letes me abismado: Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte, É do excesso de ser que aspiro em tua paz […]
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento-2/)
- [Décio Pignatari - Movimento](https://singularidadepoetica.art/2016/06/04/decio-pignatari-movimento/)
- [Carlos Nejar - José Mora](https://singularidadepoetica.art/2016/06/03/carlos-nejar-jose-mora/): Eu retornei. A morte imensa, tão imensa que não tocava mais os seus limites, os feudos. E eu, aos poucos, fui vencendo, fui desembaraçando seus cordames, o mortal peso, a superfície desamparada e vasta como se num escafandro viesse lentamente ao som das águas e fosse uma cítara tangida entre duas espigas de penumbra e […]
- [Goethe - Canção Noturna do Andarilho](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/goethe-cancao-noturna-do-andarilho/): No alto das colinas há paz; não se ouve, ali nas frondes, mais que um sopro manso. Nem há no bosque um trino. Aguarda: tampouco tarda o teu descanso. Trad.: Nelson Ascher
- [Carlos Drummond de Andrade - Congresso Internacional do Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-congresso-internacional-do-medo/): Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Medo](https://singularidadepoetica.art/2016/06/02/carlos-drummond-de-andrade-o-medo/): Em verdade temos medo. Nascemos escuro. As existências são poucas: Carteiro, ditador, soldado. Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos. Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas, Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor, este […]
- [Edgar Allan Poe - Só](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/edgar-allan-poe-so/): Desde criança nunca fui como outros foram Nem meus olhos nunca viram o que outros viram, Já que minhas paixões não têm a mesma origem Não vêm da mesma fonte as dores que me afligem. Também o prazer era de outra natureza – Tudo que amei ninguém amou, tenho certeza. Lá – no despontar de […]
- [Rainer Maria Rilke - Morgue](https://singularidadepoetica.art/2016/06/01/rainer-maria-rilke-morgue/): Estão prontos, ali, como a esperar que um gesto só, ainda que tardio, possa reconciliar com tanto frio os corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim. Que nome no seu bolso já vazio há por achar? Alguém procura, enfim, enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só […]
- [Ruy Proença - Tiranias](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/ruy-proenca-tiranias/): antigamente diziam: cuidado, as paredes têm ouvidos então falávamos baixo nos policiávamos hoje as coisas mudaram: os ouvidos têm paredes de nada adianta gritar Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui
- [Nelson Santander - Saindo do Armário da Sacristia](https://singularidadepoetica.art/2016/05/29/nelson-santander-saindo-do-armario-da-sacristia/): Saindo do armário da sacristia, por Nelson Santander: ateísmo, humanismo secular e outras questões
- [Gastão Debreix - Por do Sol](https://singularidadepoetica.art/2016/05/27/gastao-debreix-por-do-sol/)
- [Itamar Assumpção - Noite Torta](https://singularidadepoetica.art/2016/05/21/itamar-assumpcao-noite-torta/): Intérprete: Zeca Baleiro Na sala numa fruteira a natureza está morta laranjas, maçãs e pêras bananas, figos de cera decoram a noite torta Sob a janela do quarto a cama dorme vazia encaro nosso retrato sorrindo sobre o criado no meio da noite fria Está pingando o chuveiro que banho mais apressado molhado caíste fora […]
- [Georg Trakl - De Profundis](https://singularidadepoetica.art/2016/05/20/georg-trakl-de-profundis/): Há um restolhal, onde cai uma chuva negra. Há uma árvore marrom, ali solitária. Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias. Como é triste o entardecer Passando pela aldeia A terra órfã recolhe ainda raras espigas. Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo, E seu colo espera o noivo divino. Na volta Os […]
- [Ovídio - A Morte de Narciso](https://singularidadepoetica.art/2016/05/16/ovidio-a-morte-de-narciso/): Fonte sem limo, pura prata em ondas límpidas, jorrava. Nem pastor se achega, nem pastando seu rebanho montês, ou gado avulso, acode. Nem pássaro, nem fera, nem, tombando, um ramo perturba a úmida grama que o frescor irriga. O bosque impede o sol de aquentar este sítio. Da caça e do calor exausto, aqui vem […]
- [Jorge Luis Borges — Pátio](https://singularidadepoetica.art/2016/05/14/jorge-luis-borges-patio/): Com a tarde Cansaram-se as duas ou três cores do pátio. A grande franqueza da lua cheia Já não entusiasma o seu habitual firmamento. Hoje que o céu está frisado, Dirá a crendice que morreu um anjinho. Pátio, céu canalizado. O pátio é a janela por onde Deus olha as almas. O pátio é o […]
- [Humberto Gessinger - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/humberto-gessinger-novos-horizontes/)
- [Engenheiros do Hawaii - Novos Horizontes](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-novos-horizontes/): Corpos em movimento O universo em expansão E o apartamento que era tão pequeno Não acaba mais “Vamos dar um tempo” Não sei quem deu a sugestão E aquele sentimento que era passageiro Não acaba mais Quero explodir as grades E voar Não tenho pra onde ir Mas não quero ficar Novos horizontes Se não […]
- [Humberto Gessinger - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre-2/)
- [Engenheiros do Hawaii - Outono em Porto Alegre](https://singularidadepoetica.art/2016/05/10/engenheiros-do-hawaii-outono-em-porto-alegre/): http://h.saavncdn.com/737/UMG_00602498011737_01_011.mp3 Nem tudo está perdido Nem sinal de pedra no peito O horóscopo do jornal Arriscou “um belo dia” Liguei o rádio na hora certa Era a canção que eu queria Nem tudo está perdido Tudo em paz no reino da química Ninguém me telefonou Enquanto eu dormia Sonhei com meu pai e ele sorria […]
- [Nelson Santander - Singularidade](https://singularidadepoetica.art/2016/05/08/nelson-santander-singularidade-2-poema/): Singularidade, um poema de Nelson Santander
- [Augusto de Campos - Desgrafite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/augusto-de-campos-desgrafite/)
- [William Butler Yeats - O Prazer do Difícil](https://singularidadepoetica.art/2016/05/06/william-butler-yeats-o-prazer-do-dificio/): O prazer do difícil tem secado A seiva em minhas veias. A alegria Espontânea se foi. O fogo esfria No coração. Algo mantém cerceado Meu potro, como se o divino passo Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço, Sob o chicote, trêmulo, prostrado, E carregasse pedras. Diabos levem As peças de sucesso que […]
- [André Ladeia - Efêmera](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/andre-ladeia-efemera/): A terra boia no oceano negro E estrelado Ela dança e rodopia; Ah! Como é bela E frágil… A Terra é uma bolha de sabão. http://antoniocicero.blogspot.com.br/2016/05/andre-ladeia-efemera.html
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras-2/)
- [Oswaldo Montenegro - Travessuras](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/oswaldo-montenegro-travessuras/): https://youtu.be/dg4pbf0kcXk Eu insisto em cantar Diferente do que ouvi Seja como for recomeçar Nada há, mais há de vir Me disseram que sonhar Era ingênuo, e daí? Nossa geração não quer sonhar Pois que sonhe a que há de vir Eu preciso é te provar Que ainda sou o mesmo menino Que não dorme […]
- [Humberto Gessinger - Além da Máscara](https://singularidadepoetica.art/2016/05/05/humberto-gessinger-alem-da-mascara/): https://youtu.be/UclZRlPUyuA Intérprete: Pouca Vogal Agora que a terra é redonda E o centro do universo é outro lugar É hora de rever os planos O mundo não é plano, não pára de girar Agora que tudo é relativo Não há tempo perdido, não há tempo a perder Num piscar de olhos tudo se transforma Tá […]
- [Augusto de Campos - Pulsar (1975)](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/augusto-de-campos-pulsar-1975/): Intérprete: Caetano Veloso
- [José Paulo Paes - Seu Metaléxico](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/jose-paulo-paes-seu-metalexico/): Conheça outros livros de José Paulo Paes clicando aqui
- [Ivan Junqueira - O Aeroplano](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/ivan-junqueira-o-aeroplano/): Quando eu fiz cinco anos, meu pai deu-me de presente um aeroplano que ele próprio construíra com finas hastes de bambu e papel de seda. Tão leve quanto uma libélula, o frágil engenho voou até desaparecer por detrás do muro do quintal e dos últimos reflexos de um poente de verão. Ninguém jamais o encontrou. […]
- [Dante Milano - Princípio da Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/dante-milano-principio-da-noite/)
- [Darcy Ribeiro - Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/05/04/darcy-ribeiro-mim/)
- [Darcy Ribeiro - A Indesejada](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-a-indesejada/): Aí estão eles, os da terceira idade. Gregários, vivem aos bandos. Sentados, jogando cartas, andando devagar. Conversando pretéritos assuntos. Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos. Hoje, são sogros, os chatos dos sogros. Uns são viúvos, outros largados, poucos. Muitos deles, os mais, ainda casados. As mulheres duram demais. Órfãos de seus […]
- [Darcy Ribeiro - Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/05/01/darcy-ribeiro-amor-poema/): "Amor", um poema de Darcy Ribeiro Quero um amor alucinado, depravado, tarado. Amor inteiro, de corpo-a-corpo, enlaçados. Amor sem reserva, que a tudo se entrega, lancinante. (...)
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Maio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/vinicius-de-moraes-soneto-de-maio/): Suavemente Maio se insinua Por entre os véus de Abril, o mês cruel E lava o ar de anil, alegra a rua Alumbra os astros e aproxima o céu. Até a lua, a casta e branca lua Esquecido o pudor, baixa o dossel E em seu leito de plumas fica nua A destilar seu luminoso […]
- [Jim Holt - Por que o Mundo Existe? (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/28/jim-holt-por-que-o-mundo-existe-excerto/): Já se disse que a pergunta Por que existe algo e não apenas o nada? é tão profunda que só ocorreria a um metafísico, mas também é tão simples que só ocorreria a uma criança. Na época, eu não tinha idade para ser metafísico. Mas por que a pergunta não me ocorreu na infância? Revendo a questão, […]
- [Manuel Bandeira - O Último Poema](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/manuel-bandeira-o-ultimo-poema/): Assim eu quereria meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
- [Søren Kierkegaard - O Prazer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/soren-kierkegaard-o-prazer/)
- [Blaise Pascal - de Pensamentos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/blaise-pascal-de-pensamentos/)
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-3-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-2-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Omar Khayyam - Do Rubayat](https://singularidadepoetica.art/2016/04/26/omar-khayyam-do-rubayat-poema/): Trad.: Augusto de Campos
- [Pedro Paulo de Sena Madureira - Matsuo Basho, Uma Garça](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/pedro-paulo-de-sena-madureira-matsuo-basho-uma-garca/)
- [Sílvia Rocha - Solidão](https://singularidadepoetica.art/2016/04/24/silvia-rocha-solidao-2/)
- [Salvatore Quasimodo - E De Repente é Noite](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/salvatore-quasimodo-e-de-repente-e-noite-2/)
- [Cassiano Ricardo - As Andorinhas de Antônio Nobre](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cassiano-ricardo-as-andorinhas-de-antonio-nobre-2/)
- [James Agee - Sim, Todas as Crianças...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/james-agee-sim-todas-as-criancas/)
- [Cristina Lemos - O Amor Sempre Falha](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/cristina-lemos-o-amor-sempre-falha/)
- [Chico Buarque e Francis Hime - Trocando em Miúdos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/chico-buarque-e-francis-homem-trocando-em-miudos/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4-2/)
- [Ferreira Gullar - de Sete Poemas Portugueses (4)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/23/ferreira-gullar-de-sete-poemas-portugueses-4/): Nada vos oferto além destas mortes de que me alimento Caminhos não há Mas os pés na grama os inventarão Aqui se inicia uma viagem clara para a encantação Fonte, flor em fogo, quem é que nos espera por detrás da noite ? Nada vos sovino: com a minha incerteza vos ilumino
- [Chico Buarque - O Meu Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/22/chico-buarque-o-meu-amor/)
- [Philip Larkin - Por Que Sonhei Contigo a Noite Passada?](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-por-que-sonhei-contigo-a-passada/): Por que sonhei contigo a noite passada? Agora a manhã empurra cabelos para trás [com uma luz grisalha Lembranças batem de volta, como tapas na cara; Apoiado no cotovelo, eu fito o branco nevoeiro Além da janela. Tantas coisas que eu pensava esquecidas Voltam agora à mente numa estranha dor: Como cartas que chegam para […]
- [Philip Larkin - Ignorância](https://singularidadepoetica.art/2016/04/21/philip-larkin-ignorancia/): Estranho nada saber, nunca ter a certeza Do que é verdadeiro, certo ou real, Forçado então a dizer pelo menos é o que sinto Ou Bom, é o que parece: Alguém deve saber. Estranho ignorar o modo como as coisas funcionam: A sua capacidade de encontrar o que necessitam, O seu sentido de forma, e […]
- [Caetano Veloso - O Homem Velho](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/caetano-veloso-o-homem-velho-2/): O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a […]
- [Chico Buarque - Olhos nos Olhos](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-olhos-nos-olhos/)
- [Chico Buarque - Pedaço de Mim](https://singularidadepoetica.art/2016/04/18/chico-buarque-pedaco-de-mim-2/)
- [Cassiano Ricardo - O Relógio](https://singularidadepoetica.art/2016/04/17/cassiano-ricardo-o-relogio/): Diante de coisa tão doída conservemo-nos serenos. Cada minuto de vida nunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma face Do não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nasce já se começa a morrer.
- [José Paulo Paes - Auto-epitáfio n° 2](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/jose-paulo-paes-auto-epitafio-n-2-2/)
- [Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/machado-de-assis-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Veja também: https://nsantand.wordpress.com/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/
- [Silvio Rodriguez e Pablo Milanés - Por Quem Merece Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-e-pablo-milanes-por-quem-merece-amor/): (intérpretes: MPB4) Te perturba esse amor? Amor de juventude Meu amor é amor de virtude Te perturba esse amor? Sem máscaras por trás Meu amor é uma arte de paz Te perturba esse amor? Amor de humanidade Meu amor é amor de verdade Te perturba esse amor? Com todos ao redor Meu amor é uma […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna-2/): (intérprete: Silvio Rodriguez) Vivo en un país libre cual solamente puede ser libre en esta tierra, en este instante yo soy feliz porque soy gigante. Amo a una mujer clara que amo y me ama sin pedir nada o casi nada, que no es lo mismo pero es igual Y si esto fuera poco, tengo […]
- [Silvio Rodriguez - Pequeña Serenata Diurna](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/silvio-rodriguez-pequena-serenata-diurna/)
- [Chico Buarque e Edu Lobo - Valsa Brasileira](https://singularidadepoetica.art/2016/04/16/chico-buarque-e-edu-lobo-valsa-brasileira/)
- [Eclesiastes (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/eclesiaste-excerto/): “Acumulei também prata e ouro, as riquezas dos reis e das províncias. Escolhi cantores e cantoras e todas as delícias dos homens, toda a abundância dos cofres. Ultrapassei e avantajei-me a todos quantos me precederam em Jerusalém, e a sabedoria permanecia junto a mim. Então examinei todas as obras de minhas mãos e o trabalho […]
- [Chico Buarque e Edu Lobo - A Moça do Sonho (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/chico-buarque-e-edu-lobo-a-moca-do-sonho-excerto/)
- [Nelson Santander - Renata Maria](https://singularidadepoetica.art/2016/04/15/nelson-santander-renata-maria/): Renata Maria, por Nelson Santander: uma análise da letra da canção de Chico Buarque
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/1517-2/)
- [Carlos Drummond de Andrade - A um Ausente](https://singularidadepoetica.art/2016/04/13/carlos-drummond-de-andrade-a-um-ausente/): Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de […]
- [Bertolt Brecht - Tudo Muda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/bertolt-brecht-tudo-muda/): Tudo muda. De novo começar podes, com o último alento. O que acontece, porém, fica acontecido: e a água que pões no vinho, não podes mais separar. O que acontece, fica acontecido: a água que pões no vinho, não podes mais separar. Porém, tudo muda: com o último alento podes de novo começar. Tradução: Geir […]
- [Ferreira Gullar - Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/ferreira-gullar-ano-novo/): Meia-noite. Fim de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício. Olho o céu: o abismo vence o olhar. O mesmo espantoso silêncio da Via-Láctea feito um ectoplasma sobre a minha cabeça nada ali indica que um ano novo começa. E não começa nem no céu nem no chão do planeta: começa no […]
- [Jorge de Lima - A Divisão de Cristo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/jorge-de-lima-a-divisao-de-cristo/): Dividamos o mundo em duas partes iguais: uma para portugueses, outra para espanhóis. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus: a metade morreu na viagem do oceano. Dividamos o mundo entre as pátrias. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras: a metade morreu nos campos de batalha. Dividamos o mundo entra as máquinas. […]
- [Clarice Lispector - Acredito...](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/clarice-lispector-acredito/)
- [Do Remorso Pela Traição](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/do-remorso-pela-traicao/): Não existe sentimento de culpa quando o assunto é traição amorosa. Se vemos alguém se lamentando, arrependido da traição descoberta, isso não é remorso, mas auto-piedade pela súbita constatação de que seus atos trar-lhe-ão consequências indesejáveis. Não se espere daquele que há meia hora delirava nos braços de um amante que experimente algo além de […]
- [Torquato Neto - Cogito](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/torquato-neto-cogito/): eu sou como eu sou pronome pessoal intransferível do homem que iniciei na medida do impossível eu sou como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem novos secretos dentes nesta hora eu sou como eu sou presente desferrolhado indecente feito um pedaço de mim eu sou como eu sou vidente e vivo tranqüilamente todas […]
- [Manuel Bandeira - Versos de Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/04/10/manuel-bandeira-versos-de-natal/): Espelho, amigo verdadeiro, Tu refletes as minhas rugas, Os meus cabelos brancos, Os meus olhos míopes e cansados. Espelho, amigo verdadeiro, Mestre do realismo exato e minucioso, Obrigado, obrigado! Mas se fosses mágico, Penetrarias até o fundo desse homem triste, Descobririas o menino que sustenta esse homem, O menino que não quer morrer, Que não […]
- [Carlos Rennó - Todas Juntas Num Só Ser](https://singularidadepoetica.art/2016/04/07/carlos-renno-todas-juntas-num-so-ser/): Intérprete: Lenine Não canto mais Bebete nem DomingasNem Xica nem Tereza, de Ben Jor;Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;Nem Ana nem Luiza, do maior;Já não homenageio Januária,Joana, Ana, Bárbara, de Chico;Nem Yoko, a nipônica de Lennon;Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico; Nem a tigresa, nem a vera gata,Nem a camaleoa, de […]
- [Nelson Santander - Sonho Sertanejo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/nelson-santander-sonho-sertanejo/): Sonho Sertanejo, uma crônica de Nelson Santander sobre sonhos, subconsciente e gosto musical
- [Philip Larkin - Aubade](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-aubade/): De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara. Olho o negror sem som, me levantando às quatro. Em tempo, a borda da cortina vai estar clara. Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato: A morte infatigável, um dia mais perto, Tornando inviável todo pensamento, exceto O de onde, como e […]
- [Philip Larkin - Eu Comecei a Dizer](https://singularidadepoetica.art/2016/04/06/philip-larkin-eu-comecei-a-dizer/): Eu comecei a dizer “Um quarto de século” Ou “trinta anos atrás” Sobre minha própria vida. Isso me deixa sem fôlego É como despencar e arremeter Acenando em largos giros Através do céu vazio. Tudo o que resta acontecer São algumas mortes (incluindo a minha). Em que ordem, e de que maneira, É o que […]
- [Philip Larkin - As Árvores](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/philip-larkin-as-arvores/): As árvores se põem a enfolhar Como algo quase expresso. Seus brotos, Tenros, estão se estendendo, soltos; Seu verde é uma espécie de pesar. Renascem, ou é a gente que vem a Envelhecer? Não, morrem, por certo. O truque anual de um novo aspecto Está inscrito nos anéis da lenha. E cada castelo móvel, no […]
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda-2/)
- [Miguel Torga - Agenda](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/miguel-torga-agenda/): Folheio a vida Num calendário velho. Dias riscados, como contas pagas. Domingos de repouso, Segundas de trabalho Sábados de cansaço, Sem nenhum sentido. No abismo do nada, O nada, apenas. Quem sofreu nestas páginas vazias, Tão frias, Tão serenas?
- [William Carlos Williams - Estas](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/william-carlos-williams-estas/): ESTAS são as semanas desoladas, sombrias em que na sua aridez a natureza rivaliza com a estupidez humana. O ano despenha-se na noite e o coração é um abismo mais fundo que a noite nesse vazio varrido pelo vento sem sol, sem lua nem estrelas apenas uma estranha luz do pensamento que lança um tenebroso […]
- [Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto - Paulista](https://singularidadepoetica.art/2016/04/04/eduardo-gudin-e-j-c-costa-netto-paulista/): (intérprete: Leila Pinheiro) Na Paulista os faróis já vão abrir E um milhão de estrelas prontas pra invadir Os jardins onde a gente aqueceu uma paixão Manhãs frias de abril Se a avenida exilou seus casarões Quem reconstruiria nossas ilusões? Me lembrei de contar prá você nessa canção Que o amor conseguiu Você sabe quantas […]
- [Arnaldo Antunes - Saiba](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/arnaldo-antunes-saiba/): (intérprete: Adriana Calcanhoto/Partimpim) Saiba Todo mundo foi neném Einstein, Freud e Platão, também Hitler, Bush e Saddam Hussein Quem tem grana e quem não tem… Saiba Todo mundo teve infância Maomé já foi criança Arquimedes, Buda, Galileu E também você e eu… Saiba Todo mundo teve medo Mesmo que seja segredo Nietzsche e Simone […]
- [Belchior - Velha Roupa Colorida](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/belchior-velha-roupa-colorida/): Você não sente e nem vê Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, Que uma nova mudança em breve vai acontecer E o que há algum tempo era jovem, novo, Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer Nunca mais meu pai falou: “She’s leaving home”, E meteu o pé na estrada “Like a […]
- [Humberto Gessinger - Terceira do Plural](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/humberto-gessinger-terceira-do-plural/): Corrida pra vender cigarro Cigarro pra vender remédio Remédio pra curar a tosse Tossir, cuspir, jogar pra fora Corrida pra vender os carros Pneu, cerveja e gasolina Cabeça pra usar boné E professar a fé de quem patrocina Eles querem te vender… Eles querem te comprar… Querem te matar (a sede) Eles querem te sedar! […]
- [Konstantinos Kaváfis - Desejos (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/konstantinos-kavafis-desejos-em-3-traducoes/): DESEJOS – Trad. José Paulo Paes Belos corpos de mortos que nunca envelheceram, com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes, jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas – assim são os desejos que um dia feneceram sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes o prazer de uma noite ou a manhã luminosa. DESEJOS – Trad. […]
- [Rainer Maria Rilke - A Pantera (em 3 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/rainer-maria-rilke-a-pantera-em-3-traducoes-2/): DER PANTHER Rainer Maria Rilke Im Jardin des Plantes, Paris Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe so müd geworden,dass er nichts mehr hält. Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe und hinter tausend Stäben keine Welt. Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte, der sich im allerkleinsten Kreise dreht, ist wie ein Tanz von […]
- [William Blake - O Ti(y)gre (em 4 traduções)](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/william-blake-o-tiygre-em-4-traducoes/): O TYGRE – Trad. Augusto de Campos Tygre! Tygre! Brilho, brasa que a furna noturna abrasa, que olho ou mão armaria tua feroz symmetrya? Em que céu se foi forjar o fogo do teu olhar? Em que asas veio a chamma? Que mão colheu esta flamma? Que força fez retorcer em nervos todo o teu […]
- [Augusto de Campos - O Vivo](https://singularidadepoetica.art/2016/04/02/augusto-de-campos-o-vivo/): Não queiras ser mais vivo do que és morto. As sempre-vivas morrem diariamente Pisadas por teus pés enquanto nasces. Não queiras ser mais morto do que és vivo. As mortas-vivas rompem as mortalhas Miram-se umas nas outras e retornam (Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!) Para amassar o pão da própria carne. Ó vivo-morto […]
- [Paulo Henriques Britto - Balanços](https://singularidadepoetica.art/2017/01/10/paulo-henriques-britto-balancos/): II Como saber sem tentar? Como tentar se é tão fácil conformar-se de saída com a ideia de fracasso? Pois fracassar justifica o não se ter nem sequer admitido não querer-se aquilo que mais se quer. É um beco sem saída, mas sempre é melhor que a rua: mais estreito. Acolhedor. Vem, entra. A casa […]
- [Vinicius de Moraes - Soneto de Quarta Feira de Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/vinicius-de-moraes-soneto-de-quarta-feira-de-cinzas/): Por seres quem me foste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Malgrado a vida dura e atormentada Por seres mais que a simples aventura E menos que a constante namorada Porque te vi nascer de mim […]
- [Wislawa Szymborska - Discurso do Nobel 1996 (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/01/09/wislawa-szymborska-discurso-do-nobel-1996-excerto/)
- [Paulo Henriques Britto - Mínima Poética](https://singularidadepoetica.art/2017/01/08/paulo-henriques-britto-minima-poetica/): Poesia como forma de dizer o que de outras formas é omitido— não de calar o que se vive e vê e sente por vergonha do sentido. Poesia como discurso completo, ao mesmo tempo trama de fonemas, artesanato de éter, e projeto sobre a coisa que transborda o poema (se bem que dele próprio projetada). […]
- [Paulo Henriques Britto - Circular](https://singularidadepoetica.art/2017/01/07/paulo-henriques-britto-circular/): Neste mesmo instante, em algum lugar, alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer. Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar. O que você fizer não muda coisa alguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a […]
- [Paulo Henriques Britto - Biodiversidade](https://singularidadepoetica.art/2017/01/06/paulo-henriques-britto-biodiversidade/): Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, que não requerem prática, oficina, suor. Maneiras mais simpáticas de pagar mico e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, como há quem não se vexe de ler e decifrar essas palavras bestas estrebuchando […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/05/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos/): III Mesmo o mais sólido some sem deixar nenhum vestígio, sem nem se ter (como exige o costume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido — que se dá a posteriori, antes que se deteriore de todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculo ângulo do evento único […]
- [Paulo Henriques Britto - Mosaico](https://singularidadepoetica.art/2017/01/04/paulo-henriques-britto-mosaico/): Os dias a amontoar-se como se rumo a um sentido, algo que se assemelhasse a uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo, claro — o que sabem os dias?) uma estrutura em relevo, espécie de marchetaria, com padrão indecifrável (por não seguir um projeto), mas assim mesmo um resguardo, um remédio […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/03/paulo-henriques-britto-de-biographias-literarias/): V Céu azul. Cores vivas. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo. É talvez domingo. É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagem extremamente, absurdamente nítida. E se fosse menor a claridade, ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Seis Sonetos Soturnos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/02/paulo-henriques-britto-de-seis-sonetos-soturnos/): I A qualquer hora, o que se chama vida pode mudar da água pro vinho. Ou vice- -versa. Cada palavra proferida — uma sentença grave, uma tolice — pode retornar feito um bumerangue capaz de destruir o que encontrar. E nada que se funde em carne e sangue escapa dessas bólides de ar: o amor […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Vai, Ano Velho](https://singularidadepoetica.art/2017/01/01/affonso-romano-de-santanna-vai-ano-velho/): Leia Vai, Ano Velho, de Affonso Romano de Sant'Anna, um poema sobre renovação, esperança e a persistente necessidade humana de sonhar.
- [Paulo Henriques Britto - Madrigal](https://singularidadepoetica.art/2016/12/31/paulo-henriques-britto-madrigal/): Desista: não vai dar certo. O mundo é o mesmo de sempre, desejo é uma coisa cega. Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam, os pés vão aonde não sabem. As cartas estão marcadas: vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo, desejo é uma porta aberta. Desista, […]
- [Paulo Henriques Britto - Cuidado Poeta...](https://singularidadepoetica.art/2016/12/30/paulo-henriques-britto-cuidado-poeta/): Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma. Depois de um certo número de páginas anjos não pousam mais nas entrelinhas. E até a lucidez, essa moderna, também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado, não se resolve com um só lance de dados. Não basta a precisão do gesto […]
- [Paulo Henriques Britto - Soneto Inglês](https://singularidadepoetica.art/2016/12/29/paulo-henriques-britto-soneto-ingles/): A surpresa do amor — quando já não se espera do mundo nada em especial, e a evidência de que os anos vão se acumulando sem nenhum sinal de sentido já não dói nem comove — quando em matéria de felicidade não se deseja mais que uns nove metros quadrados de privacidade para abrigar os […]
- [Paulo Henriques Britto - Crepuscular](https://singularidadepoetica.art/2016/12/28/paulo-henriques-britto-crepuscular/): 1. Chegamos tarde. (Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidade aberta, e uma loucura provisória era a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todo atento, em transe, em trânsito, no assédio a um ou outro flanco do […]
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori II](https://singularidadepoetica.art/2016/12/27/paulo-henriques-britto-memento-mori-ii/): Luz frágil que brota no breu e num rápido relance dá forma e cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que pode às aparências, acredita piamente no sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forças contra o conforto de apagar-se enfim por trás de duas implacáveis pálpebras.
- [Paulo Henriques Britto - Memento Mori I](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-memento-mori-i/): Nenhum sinal da solidão se vê lá onde o amor corrói a carne a fundo. Dentro da pele, no entanto, você é só você contra o mundo. Esta felicidade que abastece seu organismo, feito um combustível, é volátil. Tudo que sobe desce. Tudo que dói é possível.
- [Paulo Henriques Britto - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2016/12/26/paulo-henriques-britto-acalanto/): Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Três Epifanias Triviais"](https://singularidadepoetica.art/2016/12/25/paulo-henrique-brittos-de-tres-epifanias-triviais/): As coisas que te cercam, até onde alcança tua vista, tão passivas em sua opacidade, que te impedem de enxergar o (inexistente) horizonte, que justamente por não serem vivas se prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção, essas coisas que você usa e esquece assim que larga na primeira mesa — […]
- [Patrícia Pinheiro - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/12/12/patricia-pinheiro-sem-titulo/)
- [Cecília Meireles - De que são feitos os dias?](https://singularidadepoetica.art/2016/12/09/cecilia-meireles-de-que-sao-feitos-os-dias/): De que são feitos os dias? – De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Entre mágoas sombrias, momentâneos lampejos: vagas felicidades, inactuais esperanças. De loucuras, de crimes, de pecados, de glórias – do medo que encadeia todas essas mudanças. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alianças…
- [Nelson Santander - Limiar](https://singularidadepoetica.art/2016/11/21/nelson-santander-limiar-poema/): Limiar, um poema de Nelson Santander
- [Ferreira Gullar - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/ferreira-gullar-os-mortos-2/): os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
- [Carlos Drummond de Andrade - Retrato de Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/20/carlos-drummond-de-andrade-retrato-de-familia/): Este retrato de família Está um tanto empoeirado. Já não se vê no rosto do pai Quanto dinheiro ele ganhou. Nas mãos dos tios não se percebem As viagens que ambos fizeram. A avó ficou lisa, amarela, Sem memórias da monarquia. Os meninos, como estão mudados. O rosto de Pedro é tranquilo, Usou os melhores […]
- [Ferreira Gullar - Redundâncias](https://singularidadepoetica.art/2016/11/19/ferreira-gullar-redundancias/): Ter medo da morteé coisa dos vivoso morto está livrede tudo o que é vida Ter apego ao mundoé coisa dos vivospara o morto não há(não houve)raios rios risos E ninguém vive a mortequer morto quer vivomera noção que existesó enquanto existo
- [Ferreira Gullar - Visita](https://singularidadepoetica.art/2016/11/18/ferreira-gullar-visita/): no dia de finados ele foi ao cemitério porque era o único lugar do mundo onde podia estar perto do filho mas diante daquele bloco negro de pedra impenetrável entendeu que nunca mais poderia alcançá-lo Então apanhou do chão um pedaço amarrotado de papel escreveu eu te amo filho pôs em cima do mármore sob […]
- [Ferreira Gullar - A Alegria](https://singularidadepoetica.art/2016/11/17/ferreira-gullar-a-alegria/): O sofrimento não tem nenhum valor. Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança ou a ilusão de uma alegria). Sofres tu, sofre um cachorro ferido, um inseto que o inseticida envenena. Será maior a tua dor que a […]
- [Marcelo Tápia - a pedra volátil](https://singularidadepoetica.art/2016/11/16/marcelo-tapia-a-pedra-volatil-poema/): a pedra volátil, um poema de marcelo tápia
- [Antonio Cicero - Cidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/15/antonio-cicero-cidade/): Para Arthur Nestrovsky Lembro que o futuro era uma cidade nebulosa da qual eu esperava tudo e que, sendo uma cidade, nada esperava de ninguém. Ah, cidade sonhada de avenidas macadâmicas, turbas febris e prédios de granito: o que era que eu perdera e que, perdido e em cacos, buscava nas tuas áridas calçadas e […]
- [Antonio Cicero - Virgem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/14/antonio-cicero-virgem/): Música: Marina Lima As coisas não precisam de você:Quem disse que eu tinha que precisar?As luzes brilham no VidigalE não precisam de você;Os Dois IrmãosTambém não.O Hotel Marina quando acendeNão é por nós doisNem lembra o nosso amor.Os inocentes do Leblon,Esses nem sabem de vocêNem vão querer saberE o farol da Ilha só gira agoraPor […]
- [Jorge Wanderley - Acerto de Contas](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/jorge-wanderlei-acerto-de-contas/): quando a geração de meu pai batia na minha a minha achava que era normal que a geração de cima só podia educar a de baixo batendo quando a minha geração batia na de vocês ainda não sabia que estava errado mas a geração de vocês já sabia e cresceu odiando a geração de cima […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Fragilidade](https://singularidadepoetica.art/2016/11/13/carlos-drummond-de-andrade-fragilidade/): Este verso, apenas um arabesco em torno do elemento essencial – inatingível. Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas, e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento, ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades de sono se depositam sobre a terra esfacelada. Não mais o desejo […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Ontem](https://singularidadepoetica.art/2016/11/12/carlos-drummond-de-andrade-ontem/): Até hoje perplexo ante o que murchou e não eram pétalas. De como este banco não reteve forma, cor ou lembrança. Nem esta árvore balança o galho que balançava. Tudo foi breve e definitivo. Eis está gravado não no ar, em mim, que por minha vez, escrevo, dissipo.
- [Carlos Drummond de Andrade - Viagem na Família](https://singularidadepoetica.art/2016/11/11/carlos-drummond-de-andrade-viagem-na-familia/): A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabira a sombra de meu pai tomou-me pela mão. Tanto tempo perdido. Porém nada dizia. Não era dia nem noite. Suspiro? […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Noite Dissolve os Homens](https://singularidadepoetica.art/2016/11/10/carlos-drummond-de-andrade-a-noite-dissolve-os-homens/): A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão. A noite caiu. Tremenda, sem esperança… Os suspiros acusam a presença negra que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo](https://singularidadepoetica.art/2016/11/09/carlos-drummond-de-andrade-os-ombros-suportam-o-mundo/): Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Inocentes do Leblon](https://singularidadepoetica.art/2016/11/08/carlos-drummond-de-andrade-inocentes-do-leblon/): Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
- [Cassiano Ricardo - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2016/11/07/cassiano-ricardo-testamento/): Deixo os meus olhos ao cego que mora nesta rua. Deixo a minha esperança ao primeiro suicida. Deixo à polícia meu rasto, a Deus o meu último eco. Deixo o meu fogo-fátuo ao mais triste viandante que se perder sem lanterna numa noite de chuva. Deixo o meu suor ao fisco que me cobriu de […]
- [Cassiano Ricardo - Morrer não será dormir](https://singularidadepoetica.art/2016/11/06/cassiano-ricardo-morrer-nao-sera-dormir/): Morrer não será dormir, pois não existe horizonte para poder haver sono. Será ser indiferente. Apenas indiferente. Que tanto faça haver sol como o sol não seja mais do que um simples girassol. Não será, só, o morrer porque se deixou de ser. Será – por indiferença – tanto estar o mundo morto como imundo […]
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa-2/)
- [Cassiano Ricardo - A Cidade Confusa](https://singularidadepoetica.art/2016/11/05/cassiano-ricardo-a-cidade-confusa/): I A cidade chora lágrimas elétricas sobre o corpo anônimo do eletrocutado. As figuras tétricas que residem, mudas, na parede do templo, me cercam, na rua. Como se eu fosse, acaso, o culpado de algum acontecimento na noite confusa. II O deus unicórnio que há no escudo do rei, e que lhe defende a coroa, […]
- [Álvaro de Campos - Lisbon Revisited (1926)](https://singularidadepoetica.art/2016/11/03/alvaro-de-campos-lisbon-revisited-1926/): Nada me prende a nada. Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. Anseio com uma angústia de fome de carne O que não sei que seja – Definidamente pelo indefinido… Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias. Correram cortinas de todas as […]
- [Thomas Mann - Morte em Veneza (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/thomas-mann-morte-em-veneza-excerto/): “(…) Gustav von Aschenbach era de estatura um pouco abaixo da média, moreno, rosto inteiramente barbeado. A cabeça parecia um pouco grande demais em relação à sua figura quase franzina. O cabelo, penteado para trás, escasso no alto da cabeça, abundante e já bem grisalho nas têmporas, enquadrava uma testa alta, cheia de rugas que […]
- [Carlos Drummond de Andrade - José](https://singularidadepoetica.art/2016/10/29/carlos-drummond-de-andrade-jose/): E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não […]
- [Mário Chamie - Fantasma](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/mario-chamie-fantasma/): Um fantasma ausente põe tijolo sobre tijolo ao seu redor. Primeiro mede o terreno Divide o espaço. Calca com o pé a planta que não floresce. Mas que cresce sob estacas de cimento. Depois, a ausência se preenche. O fantasma move a cal, a pedra, a pá. O fantasma move o corpo já presente do […]
- [Cecilia Meireles - Cantarão os Galos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/24/cecilia-meireles-cantarao-os-galos/): Cantarão os galos, quando morrermos, e uma brisa leve, de mãos delicadas, tocará nas franjas, nas sedas mortuárias. E o sono da noite irá transpirando sobre as claras vidraças. E os grilos, ao longe, serrarão silêncios, talos de cristal, frios, longos ermos, e o enorme aroma das árvores. Ah, que doce lua verá nossa calma […]
- [Cecília Meireles - Epigrama nº 7](https://singularidadepoetica.art/2016/10/18/cecilia-meireles-epigrama-no-7/): A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. Conheça outros livros de Cecília Meireles clicando aqui
- [Cecília Meireles - O Jardim](https://singularidadepoetica.art/2016/10/15/cecilia-meireles-o-jardim/): O jardim é verde, encarnado e amarelo.Nas alamedas de cimento,movem-se os arabescos do solque a folhagem recortae o vento abana. A luz revela orvalhos no fundo das flores,nas asas tênues das borboletas,-e ensina a cintilar a mais ignorada areia,perdida nas sombras,submersas nos limos. Ensina a cintilar tambémos insetos mínimos,-alada areia dos ares, que se elevaaté […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Um Bruxo Com Amor](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/carlos-drummond-de-andrade-a-um-bruxo-com-amor/): Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te; e me recebes na sala trastejada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro. Daí esse cansaço nos gestos e, […]
- [Mário de Andrade - Poema da Amiga (VIII)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/14/mario-de-andrade-poema-da-amiga-viii/): Gosto de estar a teu lado, Sem brilho. Tua presença é uma carne de peixe, De resistência mansa e de um branco Ecoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti. Anoiteço feito um bairro, Sem brilho algum. Estamos no interior duma asa Que fechou. Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
- [Philip Roth - A Marca Humana (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/philip-roth-a-marca-humana-excerto/): “Porque não sabemos, não é? Todo mundo sabe… Como é que as coisas acontecem do jeito que acontecem? O que está por trás da anarquia da seqüência de eventos, as incertezas, os infortúnios, a incoerência, as irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. ‘Todo mundo sabe’ é a invocação do clichê e o início da […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Carta aos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2016/10/09/affonso-romano-de-santanna-carta-aos-mortos/): Carta aos Mortos, um poema de Affonso Romano de Sant'Anna, reflete sobre a aparente marcha do progresso e as surpreendentes permanências da experiência humana.
- [Machado de Assis - Bagatela (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/10/05/machado-de-assis-bagatela-excerto/)
- [Machado de Assis - Epitáfios](https://singularidadepoetica.art/2016/09/30/machado-de-assis-epitafios/)
- [Stephen King - Não pedimos...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/26/stephen-king-nao-pedimos/)
- [José Luís Peixoto - na hora de pôr a mesa...](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/jose-luis-peixoto-na-hora-de-por-a-mesa/): na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está […]
- [José Luís Peixoto - Explicação da Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2016/09/20/2263-2/)
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Eu me Perdi](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-eu-me-perdi/): Eu me perdi na sordidez de um mundo Onde era preciso ser Polícia agiota fariseu Ou cocote Eu me perdi na sordidez do mundo Eu me salvei na limpidez da terra Eu me busquei no vento e me encontrei no mar E nunca Um navio da costa se afastou Sem me levar
- [Eugénio de Andrade - Quase Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/eugenio-de-andrade-quase-epitafio/): O outro sabia. Tinha uma certeza. Sou eterno, dizia. Eu não tenho nada. Amei o desejo com o corpo todo. Ah, tapai-me depressa. A terra me basta. Ou o lodo.
- [W. H. Auden - Funeral Blues](https://singularidadepoetica.art/2016/09/17/w-h-auden-funeral-blues/): BLUES FÚNEBRE Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto — um laço no […]
- [Mia Couto - Falta de Reza](https://singularidadepoetica.art/2016/09/10/mia-couto-falta-de-reza/): Por insuficiência de reza, por falsidade de crença meu anjo me culpou e vaticinou eterna penitência. Mas não ajoelho nem peço desculpa. Não quero um deus que vigie os vivos e peça contas aos mortos. Um deus amigo que me chame por tu e que espere por mim para um copo de riso e abraços: […]
- [João Cabral de Melo Neto - A Viagem](https://singularidadepoetica.art/2016/09/09/joao-cabral-de-melo-neto-a-viagem/): Quem é alguém que caminha toda manhã com tristeza dentro de minhas roupas, perdido além do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendo como se levassem nos bolsos doces geografias, pensamentos de além do sonho e da rua? Alguém a cada momento vem morrer no longe horizonte de meu quarto, onde esse alguém […]
- [José Saramago - Demissão](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/mario-quintana-demissao/): Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo demais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos tudo De morder os mais fracos, se mandamos, E de lamber as mãos se dependentes.
- [Lewis Carroll - Jaguadarte](https://singularidadepoetica.art/2016/09/08/lewis-carrol-jaguadarte/): Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo. […]
- [Shirley Jackson - A Assombração na Casa da Colina (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/09/04/shirley-jackson-a-assombracao-na-casa-da-colina-excerto/): “NENHUM ORGANISMO vivo pode existir com sanidade por longo tempo em condições de realidade absoluta; até as cotovias e os gafanhotos, pelo que alguns dizem, sonham. A Casa da Colina nada sã, erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas; existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais outros […]
- [Cassiano Ricardo - Jogo de Xadrez](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/cassiano-ricardo-jogo-de-xadrez/): 1 Não posso, sem remorso, ver uma criatura dormindo. Tão sincera, dá-se tanto (tão f o t o g ê n i c a- m e n t e) que me arrependo de não lhe haver sido mais puro quando falávamos, há pouco. A morte, se igual ao sono, absolvido, já, da luta, deverá ser […]
- [Richard Rorty - O Fogo da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/09/03/richard-rorty-o-fogo-da-vida/): Tradução por Igor de C. e S.C. (Publicado originalmente em Poetry Foundation, o pequeno ensaio foi o último publicado durante a vida do filósofo norte americano Richard Rorty (1931 – 2007).) Em um ensaio chamado “Pragmatismo e Romantismo” tentei revalidar o argumento de “Defesa da Poesia”, de Shelley. No coração do romantismo, eu disse, estava a tese de que a […]
- [Roberto e Erasmo Carlos - Detalhes (trecho)](https://singularidadepoetica.art/2016/08/28/roberto-e-erasmo-carlos-detalhes-trecho/)
- [Pedro Abrunhosa - Quem me Leva os meus Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2016/08/26/pedro-abrunhosa-quem-me-leva-os-meus-fantasmas/): https://youtu.be/w4ldfmoMoZk Intérprete: Maria Bethânia “De que serve ter o mapa Se o fim está traçado, De que serve a terra à vista Se o barco está parado, De que serve ter a chave Se a porta está aberta, De que servem as palavras Se a casa está deserta?” Aquele era o tempo em que as […]
- [Emil Cioran - Deus é um desespero...](https://singularidadepoetica.art/2016/08/24/2122-2/)
- [Páladas - Epigrama V, 72](https://singularidadepoetica.art/2016/08/22/paladas-epigrama-v-72/)
- [Arnaldo Antunes - Saudades](https://singularidadepoetica.art/2016/08/21/arnaldo-antunes-saudades/): Conheça outros livros de Arnaldo Antunes clicando aqui
- [Livro da Vida](https://singularidadepoetica.art/2016/08/19/livro-da-vida/)
- [Ricardo Silvestrin - Dança](https://singularidadepoetica.art/2016/08/18/ricardo-silvestrin-danca/): Sim, existe a dança: o corpo solto avança e recua leve nos passos matemáticos, um, dois, um, como se fosse mais fácil viver num tempo menor, brincadeira de criança que sabe de cor o roteiro e ri na hora marcada. Fora da dança, o infinito nos convida, nos seduz com passos improváveis, mas temos dois […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2016/08/14/carlos-drummond-de-andrade-a-mesa-2/): E não gostavas de festa. . . Ó velho, que festa grande hoje te faria a gente. E teus filhos que não bebem e o que gosta de beber, em torno da mesa larga, largavam as tristes dietas, esqueciam seus fricotes, e tudo era farra honesta acabando em confidência. Ai, velho, ouvirias coisas de arrepiar […]
- [William Carlos Williams - Entre Muros](https://singularidadepoetica.art/2016/08/11/william-carlos-wiliams-entre-muros/): alas traseiras do hospital onde nada medra jazem cinzas nas quais cacos verdes brilham garrafa Trad.: Haroldo de Campos
- [Robinson Jeffers - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2016/08/07/robinson-jefferson-sem-titulo/): Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com […]
- [Jules Laforgue - Spleen](https://singularidadepoetica.art/2016/08/03/jules-laforgue-spleen/): Tudo é tédio. Manhã. Olho pela janela. No alto, risca-se o céu no giz da chuva fria. Em baixo, a rua. Sob a cerração sombria Vultos deslizam na água turva de barrela. Olho sem ver (até meu cérebro regela) Maquinalmente sobre o vidro que embacia Meu dedo faz rabiscos de caligrafia. Bah! Saiamos. Quem sabe, […]
- [Guenádi Aigui - Nuvens](https://singularidadepoetica.art/2016/07/28/guenadi-aigui-nuvens/): Trad.: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman
- [William Carlos Williams - Carrinho de Mão Vermelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/22/william-carlos-williams-carrinho-de-mao-vermelho/): tanto depende de um carrinho de mão vermelho vidrado pela água da chuva perto das galinhas brancas. Trad.: Haroldo de Campos
- [William Carlos Williams - As Árvores de Botticelli](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-as-arvores-de-botticelli/): O alfabeto das árvores se esfuma no canto das folhas os entre- laços de finas letras que soletram inverno e o frio são iluminados em apontos de verde por chuva e sol – Os princípios simples estritos de justos ramos são tangidos por beliscões afãs de cor, devotas condições os sorrisos de amor – ……………. […]
- [William Carlos Williams - O Vento Aumenta](https://singularidadepoetica.art/2016/07/16/william-carlos-williams-o-vento-aumenta/): A saqueada terra está varrida As árvores o brilho da tulipa desponta dobram-se e dançam – Desata teu amor para fluir Florir! Bom Cristo o que é um poeta – se algum existe? um homem cujas palavras irão morder sua trilha de retorno – ser atual tendo a forma. do movimento Em cada ramo-em-ponta novo […]
- [E. E. Cummings - “o amor é mais muito que olvido”](https://singularidadepoetica.art/2016/07/11/e-e-cummings-o-amor-e-mais-muito-que-olvido/): o amor é mais muito que olvido mais pouco que memória mais raro que onda ser aguada mais comum que dar foras é mais lunar, demente por menos nem falar que o mar todo somente mais fundo do que o mar é menos sempre que sucesso menos jamais que ao vivo menos maior que um […]
- [Emily Dickinson - Nesta Vida Tão Breve...](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/emily-dickinson-nesta-vida-tao-breve/)
- [Rudyard Kipling - Se](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/rudyard-kipling-se/): Se és capaz de manter a tua calma quando Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa; De crer em ti quando estão todos duvidando, E para esses no entanto achar uma desculpa; Se és capaz de esperar sem te desesperares, Ou, enganado, não mentir ao mentiroso, Ou, sendo odiado, sempre […]
- [William Butler Yeats - Morte](https://singularidadepoetica.art/2016/07/05/william-butler-yeats-morte-poema/): Um bicho à morte ignora ânsia e temor; contudo um homem, quando é hora, anseia e teme tudo; morreu vezes sem conta e ergueu-se redivivo. Um grande homem confronta gente homicida, altivo, escarnecendo o corte do alento. Convivera com a morte a vida inteira: o homem criou a morte. Trad.: Nelson Ascher
- [T. S. Eliot - Morte Pela Água](https://singularidadepoetica.art/2016/07/04/t-s-eliot-morte-pela-agua/): Flibas, o Fenício, há quinze dias morto, Deixou o grito das gaivotas, e a funda onda do mar E o lucro e a perda. Uma corrente submarina Roeu seus ossos em sussurros. Como subiu caiu Varando o palco da velhice e juventude Rompendo os vagalhões. Gentio ou Judeu Ó tu que giras o leme e miras […]
- [Rainer Maria Rilke - Conclusão](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/rainer-maria-rilke-conclusao-poema/): A Morte é grande. Nós, sua presa, vamos sem receio. Quando rimos, indo, em meio à correnteza, chora de surpresa em nosso meio. Trad.: Augusto de Campos
- [Sérgio Sant'Anna - Heavy Metal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/sergio-santanna-heavy-metal/): Escombros. Um odor de carne chamuscada. Porém não se detecta a presença de cadáveres. Aqui e ali, como sombras, algumas paredes e edificações remanescentes. A torre caída de uma catedral gótica sobre fragmentos de vitrais estilhaçados. A reverberação de suas cores projetando castelos abstratos. Um bando de delinquentes juvenis, com as mãos nos bolsos, atravessa […]
- [Cassiano Ricardo - Ode Pastoril](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-ode-pastoril/): A paisagem é minha só porque tenho olhos. O pássaro é meu só porque tenho ouvidos. Amo com a mão as coisas que o estar aqui me deu. No universal verde, sou meu ser, não sou eu. Em meu léxico lírico só existem duas palavras, e uma é irmã da outra: a manhã e o […]
- [Laura Amélia Damous - Brevíssima Canção do Amor Constante](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/laura-amelia-damous-brevissima-cancao-do-amor-constante/): Ferindo o tempo Vestindo eternidade O meu amor tranqüilo e mudo Vive em ti Tão leve e manso Que tu não o sentes Tu
- [Carlos Nejar - Gazel do Universo Começando](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/carlos-nejar-gazel-do-universo-comecando/): "Gazel do Universo Começando", um poema de Carlos Nejar que funde amor e cosmos em imagens circulares de vento, trigo e mar, sugerindo que o universo inteiro começa no encontro amoroso e no movimento compartilhado dos amantes.
- [Cassiano Ricardo - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/cassiano-ricardo-o-espelho/): Um meio-dia nu, numa enorme moldura de prata. Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo. Mas não é nada. É apenas um espelho. Um rico espelho. De extraordinário fulgor. Próprio pra ser colocado à parede de um ministério da Fazenda, ou de uma casa de jogo. Toda a cidade cabe dentro dele. Árvores, […]
- [William Blake - Londres](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-londres/): Em cada rua escriturada em que ando, Onde o Tâmisa escriturado passa, Eu nos rostos que encontro vou notando Os sinais da doença e da desgraça. Ouço nos gritos que os adultos dão, E nos gritos de medo do inocente, Em cada voz, em cada interdição, As algemas forjadas pela mente Se o Limpa-Chaminés acaso […]
- [William Blake - London (c.1790)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-london-c-1790/): Perambulo por todas as ruas com barreiras Vizinhas de onde o próprio Tâmisa Entre barreiras flui, e em cada face que encontro Marco marcas de fraqueza, marcas de pesar. Ouço o ruído dos grilhões mentais apostos Em cada alocução de cada homem No grito de temor de cada infante Nas vozes todas, em cada interdição. […]
- [William Blake - A Tirzah](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/william-blake-a-tirzah/): Tudo que nasceu para morrer Deve-se a terra misturar Para da geração se libertar: Então, que tenho eu a ver contigo? Do orgulho e da vergonha nasce o sexo Pela manhã florido, à tarde morto. Mas a piedade faz da Morte sono E os sexos se levantam para o trabalho e o pranto. Tu, mãe […]
- [Giuseppe Ungaretti - Natal](https://singularidadepoetica.art/2016/07/03/giuseppe-ungaretti-natal-2/): Natal Não tenho vontade de mergulhar-me em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixai-me assim como uma coisa colocada em um canto e esquecida Aqui não se sente outra presença que o calor bom Estou com as quatro cabriolas de fumaça da lareira. Trad.: Luigi Lucchesi
- [João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2016/07/01/joao-guimaraes-rosa-grande-sertao-veredas-excerto/)
- [Lêdo Ivo - A Queimada](https://singularidadepoetica.art/2016/06/29/ledo-ivo-a-queimada/): Queime tudo o que puder: as cartas de amor as contas telefônicas o rol de roupas sujas as escrituras e certidões as inconfidências dos confrades ressentidos a confissão interrompida o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose os recortes antigos e as fotografias amareladas. Não deixe aos herdeiros esfaimados nenhuma herança de […]
- [Jorge Luis Borges - Poema dos Dons](https://singularidadepoetica.art/2016/06/26/jorge-luis-borges-poema-dos-dons/): Ninguém rebaixe a lágrima ou censura Esta declaração da maestria De Deus, que com magnífica ironia Me deu mil livros e uma noite escura. Desta terra de livros fez senhores A olhos sem luz, que apenas se concedem Sonhar com bibliotecas e com cores De insensatos parágrafos que cedem As manhãs ao seu fim. Em […]
- [Louise Glück - Trillium*](https://singularidadepoetica.art/2019/11/20/louise-gluck-trillium/): Quando acordei, estava em uma floresta. A escuridãoparecia natural, o céu entre os pinheirosrepleto de muitas luzes. Eu não sabia nada; eu não podia fazer nada além de olhar.E enquanto observava, todas as luzes do céuse apagaram para formar uma única coisa, um fogoardendo por entre os frescos abetos.Então, não era mais possível olharpara o céu e não ser destruído. Há almas que necessitamda presença da morte, como eu preciso de proteção?Acredito que, se eu falar tempo suficiente,responderei a essa questão, vereitudo o que eles veem, uma escadaalcançando por entre os abetos, o queos convoca a mudar suas vidas – Pense […]
- [Louise Glück - Matinas (2)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/19/louise-gluck-matinas-2/): Pai inalcançável, quando fomos, pela primeira vez,exilados do paraíso, criasteuma réplica, um lugar em certo sentidodiferente do paraíso,concebido para ensinar uma lição: de outro modo,o mesmo – beleza em ambos os lados, belezasem alternativa – Excetoque não sabíamos qual era a lição. Deixados sozinhos,nos consumimos. Anosde escuridão se seguiram; nos revezávamoscuidando do jardim, as primeiras lágrimasencheram nossos olhos à medida que a terratoldava-se de pétalas, algumasvermelho escuras, outras cor de pele –Nunca pensamos em ti,a quem estávamos aprendendo a adorar.Apenas sabíamos que não estava na natureza humana amarapenas o que retribui o amor. Trad.: Nelson Santander Matins Unreachable father, when we […]
- [Louise Glück - Matinas* (1)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/18/louise-gluck-matinas-1/): Brilha o sol; perto da caixa de correio, folhasde uma bétula dividida, dobradas, plissadas como barbatanas.Abaixo, hastes ocas de narcisos brancos, Tulipas,Cantatrice**; folhasescuras de violetas selvagens. Noah dizque os depressivos odeiam a primavera, desequilíbrioentre o mundo interior e exterior. Eu defendooutra perspectiva – deprimida, sim, mas de alguma forma apaixonadamenteunida à árvore viva, meu corporealmente enrolado no tronco dividido, quase em paz, na chuva da tarde,quase capaz de sentira seiva borbulhando e crescendo: Noah diz que isso éum erro dos depressivos, identificar-secom uma árvore, enquanto o alegre coraçãovagueia pelo jardim feito uma folha que cai, uma representaçãoda parte, não do todo. […]
- [Louise Glück - A íris selvagem](https://singularidadepoetica.art/2019/11/17/louise-gluck-a-iris-selvagem/): No fim do meu sofrimentohavia uma saída. Ouça-me: aquilo que você chama de morteeu me recordo. Acima, ruídos, ramos de pinheiros se movendo.Depois, nada. O sol fracocintilava sobre a superfície ressequida. É terrível sobrevivercomo consciênciaenterrada na terra escura. E então acabou: aquilo que você teme, sendouma alma e incapazde falar, terminando abruptamente, a terra duracedendo um pouco. E o que tomei porpássaros se movendo nos arbustos rasteiros. Você, que não se lembrada passagem do outro mundo,eu lhe digo o que poderia falar vezes sem conta: o que quer queretorne do esquecimento retornapara encontrar uma voz: do cerne da minha vida jorrouuma […]
- [Nelson Santander - Apresentação de "The Wild Iris", de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2019/11/16/nelson-santander-apresentacao-de-the-wild-iris-de-louise-gluck/): Atualizado em 08/10/2020: tive contato com a obra de Louise Glück no ano passado. Como narrado na apresentação que segue, fui tão impactado pela qualidade de seus poemas que me vi na contingência de traduzir, na íntegra, um de seus principais trabalhos – The Wild Iris. E desde então, tenho traduzido diversos outros grandes poemas esparsos dela – como “Outubro”, “Paisagem” e “Nostos”. Já são cerca de 60 poemas traduzidos. O encantamento diante de seus poemas continua o mesmo. Atualizo essa “apresentação”, obviamente, porque hoje veio a público a notícia de que Louise – atualmente com 77 anos de idade – […]
- [Wendell Berry - Antes do Anoitecer](https://singularidadepoetica.art/2019/11/15/wendell-berry-antes-do-anoitecer/): Da varanda no crepúsculo, observeium martim-pescador selvagem em um vooque ele só poderia estar realizando por deleite. Ele desceu pelo rio, chapinhandocontra o rosto turvo da águacomo uma pedra saltitante, passando rio abaixo até sumir de vista. E aindaeu podia ouvir o chapinharcada vez mais distante à medida que escurecia. Ele voltoupelo mesmo caminho, escuro como sua sombra,súbito além dos salgueiros. O chapinhar foi se tornando inaudível.Estava escuro então. A noiteo havia acolhido em algum lugar. — no lugar para onde ele se dirigiaou onde, guiado por sua alegria,ele chegou. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, […]
- [Joseph Stroud - Primeira Canção](https://singularidadepoetica.art/2019/11/14/joseph-stroud-primeira-cancao/): Naquela distante manhã na fazenda de Ruthquando me escondi entre as glicíniase observei os beija-flores. Eu penseique o rubi ou o ouro que reluzia em seus pescoçosfosse o sangue adocicado das flores.Eles mergulhavam seus bicos perfurantesem uma coroa de pétalas até suas cabeçasdesaparecerem. As flores se confundiam com as asas,e a respiração que eu ouviavinha das finas hastes das glicínias em movimento.Naquela noite, meu rosto pressionado contra a janela,olhei para fora na escuridãoonde a lua se afogava nos salgueirosjunto à lagoa. Meu coração, sanguíneo jaspe,mudou. Aquela longa noite, a fazenda,aqueles rútilos pássaros, todos esses anos idos.Os cavalos em pé quietos e […]
- [Wislawa Szymborska - Adolescente](https://singularidadepoetica.art/2019/11/13/wislawa-szymborska-adolescente/): Eu — adolescente? Se de repente ela me aparecesse aqui, agora, deveria saudá-la como a uma pessoa próxima, mesmo que me pareça estranha e distante? Derramar uma lágrima, beijar a testa somente pelo motivo de termos a mesma data de nascimento? Tanta dessemelhança entre nós que talvez só os ossos sejam os mesmos, o formato do crânio, as órbitas. Pois os olhos deles já parecem maiores, os cílios mais longos, a estatura mais alta e o corpo compactamente coberto de pele lisa, sem defeito. É verdade que nos unem parentes e amigos, mas no seu mundo quase todos estão vivos e […]
- [Joan Margarit - Água-forte](https://singularidadepoetica.art/2019/11/12/joan-margarit-agua-forte/): O granizo metralha as vidraças,as rajadas arrasam as calçadas.E tu e eu aqui, onde o mau temporesume os obstáculos que às vezesnos levam à beira do abismo.Olhos brilhantes de desacertos,mãos queimadas por se salvarem agarradasaos gelados corrimãos do inferno.Que o acaso continue disparandosem razão, como sempre, nas vidraças.Além do amor – desse nosso amor –nada faz sentido. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Joan Margarit – Aguafuerte El granizo ametralla los cristales,las ráfagas arrasan las aceras.Tú y yo estamos aquí, donde el mal tiemporesume los […]
- [Paul Verlaine – Colóquio sentimental](https://singularidadepoetica.art/2019/11/11/paul-verlaine-coloquio-sentimental/): No velho parque frio e abandonado Duas formas passaram lado a lado. Olhos sem vida já, lábios tremendo, Apenas se ouve o que elas vão dizendo. No velho parque frio e abandonado, Dois vultos evocaram o passado. – Lembras-te bem do nosso amor de outrora? – Por que é que hei de lembrar-me disso agora? – Bate sempre por mim teu coração? Vês sempre em sonho minha sombra? – Não. – Ah! aqueles dias de êxtase indizível Em que as bocas se uniam! – É possível. – Como era azul o céu, e grande, o sonho! – Esse sonho sumiu no […]
- [Tarso de Melo – Raiz e minério](https://singularidadepoetica.art/2019/11/10/tarso-de-melo-raiz-e-minerio/): ainda é possível ouvir (mais fundo, mais fundo,você encontra) o som da lama se arrastando por baixodas portas e aos pés do sofá (o que há é o homem,esse bicho) nos vãos da estante e no meio dos livrosnas gavetas da geladeira (que invade a terra procurandooutro homem) na altura do peito e entre os dentesna clareira dos cabelos e na mão (o que há é o homem,fera descontente) entre os dedos do pé e entre os dedosda mão no jardim morto (cavando sua própria cova)na linha da memória e na pia (mais fundo, mais fundo)nos sulcos do azulejo (rasgando o […]
- [Manuel Vilas - Delia's Gone](https://singularidadepoetica.art/2019/11/09/manuel-vilas-delias-gone/): "Delia's Gone", um poema de Manuel Vilas que aborda de forma provocativa e irônica a relação entre amor, abandono e suicídio, evocando figuras como Ian Curtis, Mariano José de Larra e Sylvia Plath para refletir sobre a idealização trágica da morte por amor e o vazio deixado pela perda.
- [Wislawa Szymborska - Bagagem de volta](https://singularidadepoetica.art/2019/11/08/wislawa-szymborska-bagagem-de-volta/): Uma quadra de pequenas tumbas no cemitério. Nós, que vivemos muito, passamos furtivamente, como os ricos passam pelos bairros dos pobres. Aqui jazem a Zosia, o Jacek, o Dominik, prematuramente tirados do sol, da lua, da mudança das estações, das nuvens. Não juntaram muito na bagagem de volta. Fragmentos de vista não muito no plural. Um punhado de ar com uma borboleta voando. Uma colherzinha de saber amargo no sabor amargo do remédio. Desobediências miúdas, algumas delas mortais. Corrida alegre atrás de uma bola na estrada. Patinação feliz sobre o gelo fino. Aquela ali e aquela ao lado e aqueles mais […]
- [Ferreira Gullar - Morrer no Rio de Janeiro](https://singularidadepoetica.art/2019/11/07/ferreira-gullar-morrer-no-rio-de-janeiro/): Se for março quando o verão esmerila a grossa luz nas montanhas do Rio teu coração estará funcionando normalmente entre tantas outras coisas que pulsam na manhã ainda que possam de repente enguiçar. Se for março e de manhã as brisas cheirando a maresia quando uma lancha deixa seu rastro de espumas no dorso da baía e as águas se agitam alegres por existirem se for março nenhum indício haverá nas frutas sobre a mesa nem nos móveis que estarão ali como agora – e depois do desenlace – calados. Tu de nada suspeitas e te preparas para mais um dia […]
- [Joan Margarit - Anos Sessenta](https://singularidadepoetica.art/2019/11/06/joan-margarit-anos-sessenta/): Lento, muito mais lento, tempo meu: falemos sobre o amor mesmo que as rosas tenham que acabar sempre na lixeira. Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro? Sem esperança alguma, críamos em algo, ou, porque era difícil a fé em algo, nunca perdemos a esperança. Restam as bandeiras vermelhas de perigo defronte ao mar bravio. Lembro-me de nós querendo fugir, buscando em algum atlas um distante país civilizado – a despojada Islândia – onde encontrar proteção por meio do esquecimento. O espanto do cônsul, lembras? Em seu escritório, o gordo importador de bacalhau não nos ofereceu mais do que o fedor de peixes […]
- [Luis Alberto de Cuenca - Nos veremos novamente](https://singularidadepoetica.art/2019/11/05/luis-alberto-de-cuenca-nos-veremos-novamente-poema/): Nos veremos novamente onde sempre é de dia e os feios são bonitos e eternamente jovens, onde os poderosos não abusam dos mais fracos e, das árvores, pendem brinquedos e gibis. Nesta morada de luz que não fere os olhos Voltaremos, tu e eu, a dizer-nos bobagens de mãos dadas, contemplando as ondas a morrer sem estresse nem pressa, onde o sol não se põe. E vivenciarei em teus lábios o amor que a Terra sentiu pelo Céu quando o mundo era uma criança, e o tempo deixará de solfejar sua lúgubre canção de despedida enquanto nos abraçamos. Volveremos a vernos […]
- [Jules Laforgue – O silêncio azul](https://singularidadepoetica.art/2019/11/04/jules-laforgue-o-silencio-azul/): Por todo o transcorrido eterno e no vindouro, A Noite universal povoa-se infinita E cegamente em coágulos onde se agita A vida que rabisca em arabescos de ouro. Eis que um daqueles, tão desassistido e só, Junto a seus deuses, artes, erros e mania, Seu lodaçal, miséria e cantos de ironia, Escreve história, grita ao céu e vira pó. No tempo, é um minuto; um átomo, no espaço, E um dia o globo morto, tumba do que fora, Some no nada, sem deixar o nome – ou traço. Tudo se vai! E o que lhe fez viver outrora? Onde encontrar sentido […]
- [Karmelo C. Iribarren - A herança](https://singularidadepoetica.art/2019/11/03/karmelo-c-iribarren-a-heranca/): Ultimamente,quando me vejo no espelho,é meu avô quem me encara,mais que meu pai. Cinquenta anospara começar a entrar na posseda única herança que ele me deixou, e que acabará me matando. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog La herencia Últimamente,cuando me asomo al espejo,es mi abuelo el que me mira,más que mi padre. Cincuenta añospara empezar a cobrarla única herencia que me dejó, y que acabará matándome.
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Dia dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2019/11/02/jorge-valdes-diaz-velez-dia-dos-mortos/): Dia dos mortos, um poema de Jorge Valdés Díaz-Vélez
- [Jaime Gil de Biedma - Canção de aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/11/01/jaime-gil-de-biedma-cancao-de-aniversario/): Porque são já seis anos desde então, porque não há na terra, ainda, nada tão doce quanto um quarto para dois, se for teu e meu; porque até o tempo, esse parente pobre que conheceu dias melhores, parece hoje partidário da felicidade, cantemos, alegria! E, depois, levantemo-nos mais tarde, como no domingo. Que a manhã plena nos faça amarmos-nos novamente, mas melhor: de um jeito que à noite não se pode imaginar, enquanto o quarto se impregna de sol e calma vizinhança, como o tempo, e de história serena. O eco dos dias de prazer, o desejo, a música acordada dentro […]
- [Wislawa Szymborska - Sobre a morte sem exagero](https://singularidadepoetica.art/2019/10/31/wislawa-szymborska-sobre-a-morte-sem-exagero/): Não entende de piadas,de estrelas, de pontes,de tecer, minerar, lavrar a terra,de construir navios e assar bolos. Quando falamos de planos para amanhãintromete sua última palavrasem nada a ver com o assunto. Não sabe sequer as coisasdiretamente ligadas ao seu ofício:nem cavar uma cova,nem fazer um caixão,nem arrumar a desordem que deixa. Ocupada em matar,o faz de modo canhestro,sem método nem mestria,como se em cada um de nós estivesse aprendendo. Triunfos, vá lá,mas quantas derrotas,golpes falhose tentativas repetidas de novo! Às vezes lhe faltam forçaspara fazer cair uma mosca do ar.Mais de uma lagartarastejando a vence na corrida. Todos esses bulbos, […]
- [Ferreira Gullar - Reflexão](https://singularidadepoetica.art/2019/10/30/ferreira-gullar-reflexao/): Está fora de meu alcance o meu fim Sei só até onde sou contemporâneo de mim
- [Joan Margarit - Inverno de 95](https://singularidadepoetica.art/2019/10/29/joan-margarit-inverno-de-95/): Esta carta a escrevo para alguémque está em um barco pelo nortede Tenerife, em cinquenta e sete.Um rapaz que, da amurada,mira o duro poente sobre o mare estuda arquitetura em Barcelona,para onde retorna agora. Aviso-tecom um sinal de alerta: a alegriaque sentes ao deixar teu pai para trásrevela a solidão sob uma luz dourada.Teu pai já te espera,outra vez, no porto de chegada:não te conhece e olha para nenhuma parte,nada diz e tampouco te responde.Lentamente, com o dorso da mãoroças-lhe a face enquanto lhe falascomo se tratasse de ti mesmo,como se o amanhã fosse agora.O ontem nos espera no amanhã,vai sempre […]
- [Manuel António Pina - Eugénio de Andrade no seu leito de morte](https://singularidadepoetica.art/2019/10/28/manuel-antonio-pina-eugenio-de-andrade-no-seu-leito-de-morte/): Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um sentido limpo e simples, onde não alcança a poesia. O que não fora dito calado ficaria para sempre, as palavras haviam-se sumido, transidas, no interior da casa, o próprio silêncio emudecera. Senhor, permite que adormeçamos antes que feches a luz, que os rebanhos estejam recolhidos e […]
- [Henry Reed – A nomeação das peças](https://singularidadepoetica.art/2019/10/27/henry-reed-nomeacao-das-pecas/): Hoje temos a nomeação das peças. OntemTivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonicaArde como coral em todos os jardins adjacentes,E hoje nós temos a nomeação das peças. Isto é o zarelho móvel inferior. E istoÉ o zarelho móvel superior, cuja utilidade você entenderáquando receber sua bandoleira. E este é o elo de encaixe,Que no seu caso você não tem. Os ramosMantêm nos jardins seus gestos silenciosos e eloquentes,Que no nosso caso nós não temos. Esta é a trava de segurança, que é […]
- [Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Antonio Carlos Santos de Freitas – Infinito particular](https://singularidadepoetica.art/2019/10/26/marisa-monte-arnaldo-antunes-antonio-carlos-santos-de-freitas-infinito-particular/): Eis o melhor e o pior de mim No meu termômetro o meu quilate Vem, cara, me retrate Não é impossível Eu não sou difícil de ler Faça sua parte Eu sou daqui, eu não sou de Marte Vem, cara, me repara Não vê, ‘tá na cara Eu sou porta-bandeira de mim Só não se perca ao entrar No meu infinito particular Em alguns instantes Sou pequenina e também gigante Vem, cara, se declara O mundo é portátil Pra quem não tem nada a esconder Olha minha cara É só mistério, não tem segredo Vem cá, não tenha medo A água […]
- [Braulio Tavares - [para mim tanto faz]](https://singularidadepoetica.art/2019/10/25/braulio-tavares-para-mim-tanto-faz/): para mim tanto fazestar alegre ou tristeeu preciso é que o tempo voe,que o tempo viva a gente só lembraque o segundo existequando vê um relógioem contagem regressiva
- [Francisco Alvim – Nada, mas nada mesmo](https://singularidadepoetica.art/2019/10/24/francisco-alvim-nada-mas-nada-mesmo/): Nada, mas nada mesmo tem a menor importância Nem antesNem depoisNem durante
- [Francisco Brines - Métodos de conhecimento](https://singularidadepoetica.art/2019/10/23/francisco-brines-metodos-de-conhecimento/): No cansaço da noite, penetrando a mais sombria canção, recobrei por trás de meus olhos cegos o frágil testemunho de uma cena remota. Recendia o mar, e a aurora era a ladra dos céus; tornava fantasmagóricas as luzes da casa. Os comensais eram jovens, e fartos e sem sede, no naufrágio do banquete, buscavam a embriaguez e o colorido cortejo da alegria. O vinho desbordava das taças, corava a acesa pele, enrubescia o solo. Com generoso amor, à luz furiosa, libertaram seus peitos, a carne, a palavra, e não lhes importava depois não recordar. Algum punhal fracassado buscava um coração. Levantei […]
- [João Cabral de Melo Neto - Uma faca só lâmina](https://singularidadepoetica.art/2019/10/22/joao-cabral-de-melo-neto-uma-faca-so-lamina/): Assim como uma balaenterrada no corpo,fazendo mais espessoum dos lados do morto; assim como uma balado chumbo pesado,no músculo de um homempesando-o mais de um lado qual bala que tivesseum vivo mecanismo,bala que possuísseum coração ativo igual ao de um relógiosubmerso em algum corpo,ao de um relógio vivoe também revoltoso, relógio que tivesseo gume de uma facae toda a impiedadede lâmina azulada; assim como uma facaque sem bolso ou bainhase transformasse em partede vossa anatomia; qual uma faca íntimaou faca de uso interno,habitando num corpocomo o próprio esqueleto de um homem que o tivesse,e sempre, doloroso,de homem que se ferissecontra seus […]
- [António Ramos Rosa - O jardim](https://singularidadepoetica.art/2019/10/21/antonio-ramos-rosa-o-jardim/): Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de uma ordem composta pelo vento em sinuosas palmas. Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio. Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena. Sou uma pequena folha na felicidade do ar. Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis. É aqui, é aqui que se renova a luz.
- [Hans Magnus Enzensberger - Anúncio de pedra](https://singularidadepoetica.art/2019/10/20/hans-magnus-enzensberger-anuncio-de-pedra/): Perdem-se o cabelo, os nervos, vocês entendem, o tempo precioso, perde-se altura no posto perdido, brilho, sinto muito, não faz mal, por pontos, não me interrompam, perde-se sangue, pai e mãe, o coração perdido de Heidelberg, sem pestanejar perdem-se, de novo, os encantos da novidade, passe-se um esponja, os direitos civis, oh sim, a cabeça, em nome de Deus, a cabeça, se for indispensável, o paraíso perdido, por mim, o emprego, a ovelha perdida, a cara e ainda por cima, um molar, duas guerras mundiais, perdem-se três quilos de sobrepeso, perde-se, unicamente se perde, também as ilusões perdidas há muito, vá […]
- [Wislawa Szymborska - Visto do alto](https://singularidadepoetica.art/2019/10/19/wislawa-szymborska-visto-do-alto/): Um besouro morto num caminho campestre. Três pares de perninhas dobradas sobre o ventre. Ao invés da desordem da morte – ordem e limpeza. O horror da cena é moderado, o âmbito estritamente local, da tiririca à menta. A tristeza não se transmite. O céu está azul. Para nosso sossego, os animais não falecem, morrem de uma morte por assim dizer mais rasa, perdendo – queremos crer – menos sentimento e mundo, partindo – assim nos parece – de uma cena menos trágica. Suas alminhas dóceis não nos assombram à noite, mantêm distância, Conhecem as boas maneiras. E assim esse besouro […]
- [José Paulo Paes - Dúvida](https://singularidadepoetica.art/2019/10/18/jose-paulo-paes-duvida/): Não há nada mais triste do que um cão em guarda ao cadáver do seu dono. Eu não tenho cão. Será que ainda estou vivo? data da última gravação: 8/10/98, 17h09 Na “Apresentação” de Socráticas – obra da qual foi extraído o poema acima – Alfredo Bosi esclarece: As Socráticas, publicadas postumamente, soam como um recado joco-sério aos que ficaram, e que são convidados (como queria o primeiro dos filósofos) a aprender a morrer com a mesma dignidade dos que souberam viver. “Dúvida” é um poema encontrado por Dora [esposa de José Paulo Paes] no computador do poeta. Sabe-se que foi […]
- [Ferreira Gullar - Lições de um gato siamês](https://singularidadepoetica.art/2019/10/17/ferreira-gullar-licoes-de-um-gato-siames/): Só agora sei que existe a eternidade: é a duração finita da minha precariedade O tempo fora de mim é relativo mas não o tempo vivo: esse é eterno porque afetivo — dura eternamente enquanto vivo E como não vivo além do que vivo não é tempo relativo: dura em si mesmo eterno (e transitivo)
- [Joan Margarit - Piscina](https://singularidadepoetica.art/2019/10/16/joan-margarit-piscina/): Não temia a água, mas a ti,era teu medo o que eu temia,e o lugar mais profundo,em que não se veem os azulejos do fundo.Arrastaste-me até lá, lembro aindaa força de teus braços obrigando-me,enquanto tentava abraçar-me a ti.Não aprendi a nadar até muito tempo depois,e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.Agora que já nunca voltarás a nadarvejo, aos meus pés, a água azul, imóvel.Compreendo que eras tu quem se abraçavaa mim para atravessar aqueles dias. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Piscina No le temía al […]
- [Manuel António Pina - Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte](https://singularidadepoetica.art/2019/10/15/manuel-antonio-pina-carta-a-mario-cesariny-no-dia-da-sua-morte/): Hoje soube-se uma coisa extraordinária, que morreste. Talvez já to tenham dito, embora o caso verdadeiramente não te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo. Algo, de fato, deve ter acontecido porque nada acontece, a não ser o costume, amor e estrume; quanto ao resto tudo prossegue de acordo com o Plano. Há apenas agora um buraco aqui, não sei onde, uma espécie de falta de alguma coisa insolente e amável, de qualquer modo, aliás, altamente improvável. Depois, de gato para baixo, mortos (lembrei-me disto de repente agora que voltaste malevolamente a ti) estamos todos. A gente vê-se um dia destes […]
- [Paulo Henriques Britto - O aqualouco](https://singularidadepoetica.art/2019/10/14/paulo-henriques-britto-o-aqualouco/): A verdadeira diferençasó se sente depois do frio.Antes é só um salto, um mergulho imprudente,como se eternidade fosse água gelada,como se o nada não fosse mais que um rio. Depois somem as palavras fáceis(“eternidade” etc.; v. acima),fica só o fundamental:o vômito, o medo, o adeus,a vontade de assassinar todos os recém-nascidosdo Egito, como se alguém tivesse culpa de uma coisaque afinal foi você mesmo quem escolheu. Depois você é obrigado a aceitar.Não adianta pressa. Não há mais compromissos,promessas, fiado, fé. Não.É só um entregar-se às circunstâncias,submeter-se às exigências da matéria,dos elementos, “causalidade”, “aceitação”etc., como antes. E sempre.
- [Chacal - como era bom](https://singularidadepoetica.art/2019/10/13/chacal-como-era-bom/): o tempo em que marx explicava que tudo era luta de classes como era simples o tempo em que freud explicava que édipo tudo explicava tudo era clarinho limpinho explicadinho tudo muito mais asséptico do que era quando nasci hoje rodado sambado pirado descobri que é preciso aprender a nascer todo dia
- [Wislawa Szymborska - Autotomia](https://singularidadepoetica.art/2019/10/12/wislawa-szymborska-autotomia/): Em perigo, a holotúria se divide em duas:com uma metade se entrega à voracidade do mundo,com a outra foge. Desintegra-se violentamente em ruína e salvação,em multa e prêmio, no que foi e no que será. No meio do corpo da holotúria se abre um abismocom duas margens subitamente estranhas. Em uma margem a morte, na outra a vida.Aqui o desespero, lá o alento. Se existe uma balança, os pratos não oscilam.Se existe justiça, é esta. Morrer só o necessário, sem exceder a medida.Regenerar quanto for preciso da parte que restou. Também nós, é verdade, sabemos nos dividir.Mas somente em corpo e […]
- [Antonio Colinas - Envio](https://singularidadepoetica.art/2019/10/11/antonio-colinas-envio/): Lembras-te ainda do débil cantodo rouxinol perdido na ramagem?Viste farfalhar comigo naquela noitea copa do cipreste. Desfez-seo céu em fios de luar sobre teu rosto.Mas depois do pássaro e da luaapagaram-se os astros. Vi passarnão sei que brisa estranha pelo teu corpo.Lembras-te das nossas mãos na água?Lembras-te do silêncio sobre o campoe, como um deus exangue, do novo diaincendiando as torres, as pombas? Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Envío ¿Recuerdas todavía el débil cantodel ruiseñor perdido en la enramada?Viste temblar conmigo aquella nochela copa del ciprés. Desmadejóel […]
- [Meira Delmar – Hóspede sem sombra](https://singularidadepoetica.art/2019/10/10/meira-delmar-hospede-sem-sombra/): Nada deixam meus passos sobre a terra. No momento do último passeio hei de levar o que ao nascer me veio: o rosto em paz e o coração em guerra. Nenhuma voz repetirá a minha de saudoso ardor e fiel espanto. A voz estremecida com que canto o mar, a rosa, a melancolia. Não ressuscitará minha visão da noite para a vida sempre ilesa, a beber como um vinho a beleza da iluminada e mágica amplidão. Este sangue ébrio por formosura não se tributará a outras veias. Não tomarão, en passant, mãos alheias a viva luz que em minhas mãos perdura. […]
- [Théodore Fraenckel - Elegia](https://singularidadepoetica.art/2019/10/09/theodore-fraenckel-elegia/): X. não compreendeu ainda como lhe resta pouco tempo de vida. Outrora, os grandes lagos eram a esperança querida de um abrigo. Da infância, o que nos resta é esta visão acadêmica quando, suave, no tom do quadro, leve se sente o esboroar do espírito… Contudo, a vida nem sempre é uma constante aventura. Por vezes, a chuva deixa-nos ver um pouco mais longe na curta distância de nós mesmos e o que resta é uma curta fragrância, o perfume do espírito. Sim, A. ainda não compreendeu como vai longe o tempo da esperança e da ternura. Antes, belos cromos em […]
- [José Paulo Paes - De malas prontas](https://singularidadepoetica.art/2019/10/08/jose-paulo-paes-de-malas-prontas/): Vários dos seus amigos mortos dão hoje nome a ruas e praças. Ele próprio se sente um pouco póstumo quando conversa com gente jovem. Dos passeios, raros, a melhor parte é a volta para casa. As pessoas lhe parecem barulhentas e vulgares. Ele sabe de antemão tudo quanto possam dizer. Nos sonhos, os dias da infância são cada vez mais nítidos e fatos aparentemente banais do seu passado assumem uma significância que intriga. O vivido e o sonhado se misturam agora sem lhe causar espécie. É como se anunciassem um estado de coisas cuja possível iminência não traz susto. Só curiosidade. […]
- [Ivan Junqueira - Estamos indo embora](https://singularidadepoetica.art/2019/10/07/ivan-junqueira-estamos-indo-embora/): Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia, por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico, os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios, com suas patas de veludo, silenciosas, que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis. Os tapetes abafam seus passos ociosos, como se faz quando se acolhem os órfãos. Doze anos se passaram, e estamos indo embora. A brisa do mar, com seus úmidos braços, nos envolve e empurra para um outro promontório, uma outra dimensão de nossa breve história, de que somos, se tanto, transitórios hóspedes, peças de um tabuleiro onde o […]
- [Ferreira Gullar - Fim](https://singularidadepoetica.art/2019/10/06/ferreira-gullar-fim/): Como não havia ninguém na casa aquela terça-feira tudo é suposição: teria tomado seu costumeiro banho de imersão por volta de meio-dia e trinta e de cabelos ainda úmidos deitou-se na cama para descansar não para morrer queria dormir um pouco apenas isso e assim não lhe terá passado pela mente – até aquele último segundo antes de se apagar no silêncio – que jamais voltaria ao ruidoso mundo da vida
- [Joan Margarit - Alguém](https://singularidadepoetica.art/2019/10/05/joan-margarit-alguem/): Tinha que salvar-me com seus olhos azuis cravados ainda em uma lembrança da adolescência, a estranha fase de precipitar-se, sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo. Do bonde, a fugaz imagem de uma garota em uma varanda, e o número de um telefone anotado como uma cicatriz na memória. Nunca estive a seu lado, inventava seu transparente corpo em um espelho onde depois me vi com sarcasmo e também com profética tristeza. Não me salvou quando chegou a adolescência nem quando aos cinquenta, na era rubra, outros olhos azuis me miraram. Era a mesma mulher: nada desaparece da urdidura de sonhos […]
- [Wislawa Szymborska - Fotografia de 11 de setembro](https://singularidadepoetica.art/2019/10/04/wislawa-szymborska-fotografia-de-11-de-setembro/): Saltaram dos andares em chamas —um, dois, alguns maisacima, abaixo. A fotografia os susteve em vidae agora os mantémsobre a terra em direção à terra. Cada um ainda é um todocom um rosto próprioe o sangue bem escondido. Há bastante tempopara os cabelos se soltareme dos bolsos caíremchaves, dinheiro trocado. Ainda estão ao alcance do ar,nos limites dos lugaresque acabaram de se abrir. Só posso fazer duas coisas por eles —descrever esse vooe não acrescentar a última sentença. Trad.: Regina Przybycien Fotografia z 11 września Skoczyli z płonących pięter w dół– jeden, dwóch, jeszcze kilkuwyżej, niżej.Fotografia powstrzymała ich przy życiu,a teraz […]
- [Delmore Schwartz - All night, all night](https://singularidadepoetica.art/2019/10/03/delmore-schwartz-all-night-all-night/): I have been one acquainted whit the night – Robert Frost Viajou de trem a noite inteira, sob uma luz agoureira. Uma ave Voou em paralelo com singular determinação. Em ações e anseios de devaneios Os demais passageiros curvados, deitados, lendo, dormindo, Esperando, e esperando um local para se deslocar, Para a correta rota da segurança ou o rotor da contingência. Olhou além, para a noite, incapaz de distinguir As luzes das cidades passageiras das mortiças luzes Dormentes do teto. E a ave voou em paralelo e em silêncio Enquanto o trem disparou a linha reta de seus apitos, Avançando nos […]
- [Armando Freitas Filho - Autobiografia até agora](https://singularidadepoetica.art/2019/10/02/armando-freitas-filho-autobiografia-ate-agora/): No Cineac antes da descoberta do Brasil com a mãe a tiracolo vendo o Arqueiro Verde (um Robin Hood de segunda mão) disparando suas flechas morais. Depois, punhetas, colégios, lápis a primeira caneta, poesia, pin-ups futebol, jogo de botão e puteiros: a sessão começa quando você chega. Agora, no escuro, meio Zé Carioca trocando de musa como quem troca de camisa, não indo mais à missa aflito, antes que o filme acabe.
- [Miguel Martins - [Do lado de fora, tudo parece pouco]](https://singularidadepoetica.art/2019/10/01/miguel-martins-do-lado-de-fora-tudo-parece-pouco/): Do lado de fora, tudo parece pouco. Borborinho. Intemperança. Sono. O rosto não faz prova da memória mas a memória testemunha a evolução do rosto, os pares de óculos que por ali passaram, a fome e o consolo, o medo, a morte de cada beijo, o milagre do seu renascimento e, por fim, o extremo cansaço, a gloriosa vitória da derrota. Por dentro, o tempo acumula-se, chuva numa piscina abandonada às sombras de um Inverno que só se interrompe ante a imensa ternura dos teus olhos nos dias em que o fogo me consome.
- [Théodore Fraenckel - Meditação do fim de Agosto](https://singularidadepoetica.art/2019/09/30/theodore-fraenckel-meditacao-do-fim-de-agosto/): Mal as árvores se abatem, o que resta da floresta? Resistirá a madeira a ser moldada pelo acréscimo de formas que lhe vem da literatura? E no entanto a natureza nada tem de humano e dela não se pode dizer que prescinde de crescer e se aquieta nos limites de uma forma que a torna definitiva e prematura. De muito a olharmos, enrugará a pintura? Ou sairá do quadro para discutir conosco o desgaste nela perpetrado pela amargura? É sempre sem ilusões que o olhar cobre o tempo, fartos que estamos de constatar a resistência dos campos e pela palavra se […]
- [Henry Scott Holland - [A morte não é nada]](https://singularidadepoetica.art/2019/09/29/henry-scott-holland-a-morte-nao-e-nada/): A morte não é nada*. Ela não conta. Eu apenas passei para a sala vizinha. Nada aconteceu. Tudo permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, e você é você, e a velha vida que vivemos carinhosamente juntos permanece intocada, inalterada. O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda o somos. Chame-me pelo meu antigo nome. Fale de mim do mesmo jeito simples de sempre. Não mude o timbre da voz. Não vista nenhum ar forçado de solenidade ou de dor. Ria como sempre ríamos das piadas de que desfrutávamos juntos. Brinque, sorria, pense em mim, ore por […]
- [José Paulo Paes - Glauco](https://singularidadepoetica.art/2019/09/28/jose-paulo-paes-glauco/): Nas duas vezes que voltei a Curitiba não o encontrei. Numa tinha viajado para o Rio na outra tinha viajado para a morte. E nem havia mais onde encontrá-lo: o Belas Artes fechara a redação de O Dia sumira-se no ar as pensões eram terrenos baldios. Desarvorado me sentei à mesa de uma confeitaria na esperança — vã — de que algum sobrevivente de outros tempos viesse dar notícias dele. Só a caminho do aeroporto tive um relance dos seus óculos kavafianos mas sem os olhos risonhos por detrás das lentes: livres embora da miopia do corpo seus olhos continuavam no […]
- [Ruy Belo – Uma vez que já tudo se perdeu](https://singularidadepoetica.art/2019/09/27/ruy-belo-uma-vez-que-ja-tudo-se-perdeu/): Que o medo não te tolha a tua mão Nenhuma ocasião vale o temor Ergue a cabeça dignamente irmão falo-te em nome seja de quem for No princípio de tudo o coração como o fogo alastrava em redor Uma nuvem qualquer toldou então céus de canção promessa e amor Mas tudo é apenas o que é levanta-te do chão põe-te de pé lembro-te apenas o que te esqueceu Não temas porque tudo recomeça Nada se perde por mais que aconteça uma vez que já tudo se perdeu Conheça outros livros de Ruy Belo clicando aqui
- [Mário de Sá-Carneiro – Além-Tédio](https://singularidadepoetica.art/2019/09/26/mario-de-sa-carneiro-alem-tedio/): Nada me expira já, nada me vive – Nem a tristeza nem as horas belas. De as não ter e de nunca vir a tê-las, Fartam-me até as coisas que não tive. Como eu quisera, enfim d’alma esquecida, Dormir em paz num leito de hospital… Cansei dentro de mim, cansei a vida De tanto a divagar em luz irreal. Outrora imaginei escalar os céus À força de ambição e nostalgia, E doente-de-Novo, fui-me Deus No grande rastro fulvo que me ardia. Parti. Mas logo regressei à dor, Pois tudo me ruiu… Tudo era igual: A quimera, cingida, era real, A própria […]
- [A. M. Pires Cabral — Confesso que voei](https://singularidadepoetica.art/2019/09/25/a-m-pires-cabral-confesso-que-voei/): 1 Mas, se nestas seis décadas e meia eu fui capaz de algum voo — concedo: semelhante ao das galinhas, isto é, rudimentar, desgracioso, com muitíssimo dispêndio de energia para pouca ascensão, breve e apenas em desespero de causa; em todo o caso uma forma de voo pelo qual me sustentei no ar em horas de menos peso — devo agora, fechado o ciclo do voo, como os pássaros pousar. E isto não é como uma loja que muda de ramo ou que em fins de Dezembro fecha para balanço. Nem como executar um mandato de detença. Nem expiar a desordem […]
- [Tristan Corbière - Paisagem má](https://singularidadepoetica.art/2019/09/24/tristan-corbiere-paisagem-ma/): Praias de ossos. A onda estertora Seus dobres, som a som, na areia. Palude pálido. O luar devora Grandes vermes – é a sua ceia. Torpor de peste: somente a febre Coze… O duende danado dorme. A erva que fede vomita a lebre, Bruxa medrosa que se some. A lavadeira branca junta os Trapos surrados dos defuntos, Ao sol dos lobos… E os sapos. Ei-los, Anões de vozes melancólicas, Que envenenam com suas cólicas Os cogumelos, seus escabelos. Trad.: Augusto de Campos Paysage mauvais Sables de vieux os – Le flot râle Des glas: crevant bruit sur bruit… – Palud pâle, […]
- [Ivan Junqueira - O que sabemos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/23/ivan-junqueira-o-que-sabemos/): É quase nada o que sabemos de nós, do que somos, do frêmito que nos empurra, débeis duendes, à cena ambígua da existência. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos moldou à sua esplêndida imagem, se a mão não lhe vemos? Será mesmo que o fez, consciente do risco que estava correndo, da imperdoável imprudência de dar sopro ao ser cujo empenho é do deus que o criou ir além, acuá-lo nas sarças e brenhas do espírito que, com desdém, dele duvida e nunca o entende como algo avesso à estrita ciência? Quem somos nós? Por que, violentos, em nossa […]
- [Goethe - Aos leitores amigos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/22/goethe-aos-leitores-amigos/): Poetas não podem calar-se, Querem às turbas mostrar-se. Há-de haver louvores, censuras! Quem vai confessar-se em prosa? Mas abrimo-nos sub rosa No calmo bosque das Musas. Quanto errei, quanto vivi, Quanto aspirei e sofri, Só flores num ramo – aí estão; E a velhice e a juventude, E o erro e a virtude Ficam bem numa canção. Trad: Paulo Quintela An die Günstigen Dichter lieben nicht zu schweigen, Wollen sich der Menge zeigen. Lob und Tadel muß ja sein! Niemand beichtet gern in Prosa; Doch vertraun wir oft sub rosa In der Musen stillem Hain. Was ich irrte, was ich strebte, […]
- [Margaret Atwood - O momento](https://singularidadepoetica.art/2019/09/21/margaret-atwood-o-momento/): O momento em que, depois de muitos anos de trabalho duro e de uma longa jornada, encontras-te no centro do teu quarto, casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país, sabendo por fim como lá chegaste, e dizes: tudo isso me pertence, é o mesmo momento em que as árvores desatam seus braços macios ao teu redor, as aves reassumem suas vozes, as falésias se partem e desmoronam, o ar se afasta de ti como uma onda e não consegues respirar. Não, eles sussurram. Nada disso te pertence. Eras um visitante, vezes sem conta escalando a montanha, fincando tua bandeira, proclamando. Nós […]
- [Michael Krüger - À primeira vista](https://singularidadepoetica.art/2019/09/20/michael-kruger-a-primeira-vista/): Na verdade, nada mudou: o castanheiro diante da casa, martirizado pela hera, as ameixeiras sobre o seu tapete azul, o doce perfume da infância e da decadência. Do vale, rugem os caminhões, e a sombra se apressa em redor da casa em sentido anti-horário, perscrutando a dor. Até o poço ainda está lá como um poema. Quando olhei para dentro, saudou-me de baixo, do fundo, um rosto enrugado por sapos. Sua boca estava aberta, como se ele quisesse gritar. Só as trilhas para o povoado aumentaram e uma conduz diretamente ao meu coração. Mas, de resto, nada mudou. Trad.: Nelson Santander […]
- [Ferreira Gullar - Thereza](https://singularidadepoetica.art/2019/09/19/ferreira-gullar-thereza/): Sem apelo no vórtice do dia no abandono do chão na lâmina da luz feroz fora da vida desfaz-se agora a minha doída desavinda companheira
- [Eugénio de Andrade - Canção Breve](https://singularidadepoetica.art/2019/09/18/eugenio-de-andrade-cancao-breve/): Tudo me prende à terra onde me dei: o rio subitamente adolescente, a luz tropeçando nas esquinas, as areias onde ardi impaciente. Tudo me prende do mesmo triste amor que há em saber que a vida pouco dura, e nela ponho a esperança ou o calor de uns dedos com restos de ternura. Dizem que há outros céus e outras luas e outros olhos densos de alegria, mas eu sou destas casas, destas ruas, deste amor a escorrer melancolia.
- [Joan Margarit - De repente está claro](https://singularidadepoetica.art/2019/09/17/joan-margarit-de-repente-esta-claro/): De repente está claro. O amor é a vitória que irá me destruir. Como me gangrena o coração a solidão, como me destroça nas janelas do crepúsculo a hiena desolada e exangue. Na era rubra só o amor nos livra da gélida gruta do tempo. Conheci a glória de estar desesperado e a miséria do bem estar que oferece a derrota. Entre ruínas de lágrimas deixo-lhes cartas e versos, sombras que dirão o quanto eu amei. E talvez, no âmago mais indefeso de uma mulher, solitário, serei eternamente amante. Trad.: Nelson Santander Joan Margarit – De pronto está claro De pronto […]
- [Manuel António Pina - As escadas](https://singularidadepoetica.art/2019/09/16/manuel-antonio-pina-as-escadas/): Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas em direção à tua escuridão, deixando-me, ou a alguma coisa menos tangível, no seu lugar. Também elas envelheceram, as escadas, também, como eu, desabitadas. Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus, e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras.
- [Francisco Brines - Deitado](https://singularidadepoetica.art/2019/09/15/francisco-brines-deitado/): Chove, e amo. Pulsam, em alongada sombra, duas sombras vivas, sondam o nada, e nele se alimentam. São farrapos de luz, e à sua luz se veem olhos, músculos, cabelos, enquanto a sombra se extingue em mais sombra, e o repouso nos lençóis das fúrias do corpo é a gratidão de quem há de morrer, e sem pedir por mais vida, a vida o transborda até negar a morte miserável, a ferrugem dos corpos ainda vivos e as sombras já ocas dos mortos. Trad.: Nelson Santander Tendido LLueve, y amo. Jadean, en extendida sombra, dos sombras vivas, hozan la nada, y […]
- [Jaime Gil de Biedma - Valsa de Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/09/14/jaime-gil-de-biedma-valsa-de-aniversario/): Não há nada tão doce como um quarto para dois (quando já não nos amamos tanto) fora da cidade, em um hotel tranquilo, e casais duvidosos e alguma criança com caxumba, não fosse esta ligeira sensação de irrealidade. Algo como o verão na casa de meus pais, há tempos, como viajar de trem à noite. Chamo-te para dizer que não digo nada que tu já não saibas, ou se precisar para beijar-te vagamente os mesmos lábios. Deixaste a varanda. O quarto escureceu enquanto nos olhamos ternamente, incomodados de não sentir o peso dos anos. Tudo continua igual, parece que não foi […]
- [Vasco Miranda - de "Invenção da Manhã"](https://singularidadepoetica.art/2019/09/13/vasco-miranda-de-invencao-da-manha/): 20 Olha Jorge quando vier a morte E virá cedo “Não deixes fechar-me os olhos” Eflorescências salitrosas me rebentarão das órbitas Para queimar as mãos que fechar-mos queiram – Não pode a luz negar-se a quem bêbado dela Inventou em cada dia uma madrugada E eis tudo quanto deixo a quem me herde Não Jorge não deixes fechar-me os olhos Não deixes roubar-me a luz que em vida Neles sempre tive Estendido no caixão sereno e impoluto Irei de olhos abertos Porque eu quero e sei que hei-de morrer Como quem vive. 1956
- [Joseph Stroud - A mais difícil tradução do amor](https://singularidadepoetica.art/2019/09/12/joseph-stroud-a-mais-dificil-traducao-do-amor/): “A mais difícil tradução do amor”, um poema de Joseph Stroud que compara o matrimônio a um filme estrangeiro, revelando com humor a ilusão momentânea de compreender plenamente o outro.
- [José Agostinho Baptista - É a prata da minha amada](https://singularidadepoetica.art/2019/09/11/jose-agostinho-baptista-e-a-prata-da-minha-amada/): “É a prata da minha amada”, um poema de José Agostinho Baptista que encena uma despedida crepuscular onde amor e morte se entrelaçam num silêncio maior que o mar.
- [José Paulo Paes - Elogio da Memória](https://singularidadepoetica.art/2019/09/10/jose-paulo-paes-elogio-da-memoria/): O funil da ampulhetaapressa, retardando-a,a quedada areia. Nisso imita o jogomanhosode certos momentosque se vão emboraquando mais queríamosque ficassem. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ruy Belo – Missa de aniversário](https://singularidadepoetica.art/2019/09/09/ruy-belo-missa-de-aniversario/): Há um ano que os teus gestos andam ausentes da nossa freguesia Tu que eras destes campos onde de novo a seara amadurece donde és hoje? Que nome novo tens? Haverá mais singular fim de semana do que um sábado assim que nunca mais tem fim? Que ocupação é agora a tua que tens todo o tempo livre à tua frente? Que passos te levarão atrás do arrulhar da pomba em nossos céus? Que te acontece que não mais fizeste anos embora a mesa posta continue à tua espera e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez florido? Era […]
- [Luis Cernuda - Os espinhos](https://singularidadepoetica.art/2019/09/08/luis-cernuda-os-espinhos/): Possuem já os espinhos verdor novo na colina, toda de púrpura e neve pelo ar estremecida. Quantos céus em flor já viste? Embora ao encontro eles serão sempre devotados, tu não o serás um dia. Antes que a penumbra caia, sabe o que a alegria é junto aos espinhos vermelhos e alvos em flor. Olha. Vê. Trad.: Nelson Santander Los Espinos Verdor nuevo los espinos tienen ya por la colina, toda de púrpura y nieve en el aire estremecida. Cuántos cielos florecidos les has visto; aunque a la cita ellos serán siempre fieles, tú no lo serás un día. Antes que […]
- [Luís de Góngora - Estamos desperdiçando a páscoa, moças](https://singularidadepoetica.art/2019/09/07/luis-de-gongora-estamos-desperdicando-a-pascoa-mocas/): Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Moçoilas do meu distrito, Louquinhas e confiantes, Que não vos engane o tempo, a idade e a confiança. Não deixeis cortejar-vos o frescor da juventude, porque de flores caducas tece o tempo suas grinaldas. Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Voam os velozes anos, e com pressurosas asas nos afanam, como harpias, nossas saborosas carnes. É a flor da maravilha Que a verdade nos declara, Porque subtrai à tarde O que lhe deu a manhã. Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Notai que quando pensais que […]
- [José Régio – Cântico Negro](https://singularidadepoetica.art/2019/09/06/jose-regio-cantico-negro/): “Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui!” Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali… A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos… Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que […]
- [Javier Salvago - No verso de uma velha fotografia](https://singularidadepoetica.art/2019/09/05/javier-salvago-no-verso-de-uma-velha-fotografia/): Os Beatles ainda não tinham surgido, nem haviam abatido Che Guevara. Nat King Cole cantava ansiedad de tenerte en mis brazos ou solamente una vez se entrega el alma. e no cinema talvez exibissem Sete noivas para sete irmãos. O comandante Armstrong ainda não havia deixado sua profana pegada no rosto esburacado da lua. Os velhos seguiam contando histórias da guerra ao calor da fogueira. Estavam longe o Vietnã, os hippies, a Primavera, Maio e esta discreta liberdade… para fazer o quê? Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva […]
- [Ferreira Gullar - Aqui e agora](https://singularidadepoetica.art/2019/09/04/ferreira-gullar-aqui-e-agora/): 1 Que faz a defunta manhã na manhã nova? Que sois vós hoje alegria de outrora riso extinta palavra de afeto? que sois vós senão fantasmas senão miasmas a infectar de morte o que está vivo? 2 Se há sol no pátio e um carro penetra nele e estaciona e o chofer desce bate a porta e sai andando se isto é isto e nada mais que isto, te manténs no que vês e estás feliz: entendes finalmente que o passado é pura doença.
- [Eugénio de Andrade - O sal da língua](https://singularidadepoetica.art/2019/09/03/eugenio-de-andrade-o-sal-da-lingua/): Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar. São três, quatro palavras, pouco mais. Palavras que te quero confiar. Para que não se extinga o seu lume, o seu lume breve. Palavras que muito amei, que talvez ame ainda. Elas são a casa, o sal da língua.
- [Joan Margarit - No álbum](https://singularidadepoetica.art/2019/09/02/joan-margarit-no-album/): És tu antes de partir,quando ainda vivias em casa.O olhar brilhante que nos recompensava.Teu nome foi ficando para trás,na foto de onde ainda nos sorriscomo se tudo fosse para sempree nada tivesse acontecido em outro lugar,nem no sorriso que hoje desconhecemos,longe do que teu rosto exibe neste álbum.Este sorriso, agora, é só para nós:convive com cartas, bonecas e desenhos,suvenires que desvelam a manhãque entra pela tua varanda. Às vezes pronunciamosteu nome de um jeito mais jovial, como antes.Talvez assim continues aquie teu nome preserve as memórias mais fiéispara seguir contigo ao nosso lado. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, […]
- [Manuel António Pina - As Coisas](https://singularidadepoetica.art/2019/09/01/manuel-antonio-pina-as-coisas/): Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certas tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência é uma coisa. Então acorda a casa e os livros imaginam-nos do tamanho da sua solidão. Também nós um dia tivemos um nome mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.
- [Páladas - da Antologia Palatina, 10.45](https://singularidadepoetica.art/2019/08/31/paladas-da-antologia-palatina-10-45/): Caso te lembres, humano, de como o teu pai ao gerá-lo te semeou, cessarás com toda tua arrogância. Só que Platão sonhador te implantou ilusões de grandeza, ao te chamar de imortal, planta provinda do céu. Vindo do barro, por que pensas grande? Por essa maneira, age somente quem quer dar-se aparência solene. Eis a verdade, se queres ouvi-la: de licencioso coito nasceste e a partir de um corrimento poluto
- [Maria Mercedes Carranza - Kavafiana](https://singularidadepoetica.art/2019/08/30/maria-mercedes-carranza-kavafiana/): O desejo aparece de repente,em qualquer sítio, a propósito de nada.Na cozinha, caminhando pela rua.Basta um olhar, um aceno, um roçar.Mas dois corpostêm também o seu amanhecer e o seu acaso,a sua rotina de amor e de sonhos,de gestos sabidos até ao cansaço.Dispersam-se os risos, deformam-se.Há cinzas nas bocase o íntimo desdém.Dois corpos têm a sua vidae a sua morte um frente ao outro.Basta o silêncio. Trad.: Nuno Júdice Kavafiana El deseo aparece de repente,en cualquier parte, a propósito de nada.En la cocina, caminando por la calle.Basta una mirada, un ademán, un roce.Pero dos cuerpostienen también su amanecer y su ocaso,su […]
- [Amalia Bautista - A pesagem do coração](https://singularidadepoetica.art/2019/08/29/amalia-bautista-a-pesagem-do-coracao/): Leia "A pesagem do coração", de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre ética, compaixão e o legado que deixamos após a morte.
- [Jules Laforgue - Penúltima palavra](https://singularidadepoetica.art/2019/08/28/jules-laforgue-penultima-palavra/): O Espaço? – A vida Ida Sem traço. O amor? – Seu preço: Desprezo E dor. O sonho? – Infindo, É lindo (Suponho). Que vou Fazer Do ser Que sou? Isto, Aquilo, Aqui, Ali. Trad.: Augusto de Campos Avant-dernier mot L’Espace? – Mon Coeur Y meurt Sans traces… La Femme? – J’en sors, La mort Dans l’âme… Le Rêve? – C’est bon Quand on L’achève… Que faire Alors Du corps Qu’on gère? Ceci, Cela, Par-ci Par-là…
- [Tristan Corbière - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2019/08/27/tristan-corbiere-epitafio/): Epitáfio Salvo os amorosos principiantes ou findos que querem principiar pelo fim há tantas coisas que findam pelo princípio que o princípio principia a findar por estar no fim o fim disso é que os amorosos e outros findarão por principiar a reprincipiar por esse princípio que terá findo por não ser mais que o fim retornado o que principiará por ser igual à eternidade que não tem fim nem princípio e terá findo por ser também finalmente igual à rotação da terra onde se findará por não distinguir mais onde principia o fim de onde finda o princípio o que […]
- [Ivan Junqueira - O tempo que me resta](https://singularidadepoetica.art/2019/08/26/ivan-junqueira-o-tempo-que-me-resta/): Qual o tempo que me resta? Poderei medi-lo em pétalas de alguma flor que fenece, a última da sua espécie? Poderei fazê-lo em décimos de um segundo que parece durar mais do que uma década ou quem sabe todo um século? O que é o tempo? Uma névoa que na ampulheta escorrega, ou algo que se esfarela como a areia do deserto? Será o tempo esse périplo que não finda nem começa e que flui antes de que Eva surgisse de uma costela? Será ele o tal mistério de que Agostinho, nas prédicas, foi o mais cabal intérprete mas nunca nos […]
- [Jack Kerouac - Richmond Hill Tree Poem](https://singularidadepoetica.art/2019/08/25/jack-kerouac-richmond-hill-tree-poem/): Amontoadas, amarelas folhas de novembro De uma distinta árvore nua e envergonhadamente castrada fazem um minúsculo e manso PLICK ao se roçar umas nas outras preparando-se para morrer – Quando vejo uma folha cair Eu sempre digo adeus. Richmond Hill Tree Poem A cluster of yellow November leaves in an otherwise bare and sheepish castrated tree send up a little meek PLICK as they rub together preparing to die – When I see a leaf fall I always say goodbye.
- [Amalia Bautista - S.O.S.](https://singularidadepoetica.art/2019/08/24/amalia-bautista-s-o-s/): Protege-me do medo e das sombrasdefende-me de todas as tristezas,exila de minha vida o desconsolo,se puderes, com teu amor, se nãocom o fim do mundo ou com a minha morte. Trad.: Nelson Santander S.O.S Protégeme del miedo y de las sombras,defiéndeme de todas las tristezas,destierra de mi vida el desconsuelo.si puedes, con tu amor, y si no puedes,con el final del mundo o con mi muerte.
- [Eugénia de Vasconcellos – Lembra](https://singularidadepoetica.art/2019/08/23/eugenia-de-vasconcellos-lembra/): Digo-te isto para que saibas quem és, às vezes, esquecemos, confundimos, desconseguimos e ao fim, desacreditamos, colam-se-nos os fantasmas dos vivos e as memórias dos mortos e da voz faz-se um fio à míngua de palavras – e onde a palavra não chega, o pensamento não cria o ato e morre-se, morre-se, morre-se um dia de cada vez de tanto não ser. Então digo-te isto para que saibas quem és: és um ponto suspenso no infinito, e lembra: o infinito cabe num ponto.
- [Tarso de Melo - Hoje](https://singularidadepoetica.art/2019/08/22/tarso-de-melo-hoje/): Amanhã vai chover mais forte, todos nós já sabemos. E é estranha a calma dos rios Os guarda-chuvas seguem fechados, os meteorologistas fingem não ter nada com isso, o barro não demonstra qualquer apreensão, o vento lambe as roupas secas no varal, nenhuma janela ainda se fechou. A água vai vir, forte, como sempre, engolindo todo o sossego ao redor, mas os buracos não confessam as tristes poças de amanhã. As casas, as coisas, as vidas, o que sucumbirá ao mar inevitável não dá sequer um suspiro, não se despede de nós, de nada. Plantamos no solo morto esse esquecimento do […]
- [Danusha Laméris - Pequenas Gentilezas](https://singularidadepoetica.art/2019/08/21/danusha-lameris-pequenas-gentilezas/): Estive pensando na maneira como, quando você caminhapor um corredor lotado, as pessoas recolhem suas pernaspara deixar você passar. Ou como estranhos ainda dizem “Deus te abençoe”quando alguém espirra, um resquícioda Peste Bubônica. “Não morra”, estamos dizendo.E das vezes que, ao derrubar limõesde sua sacola de compras, outra pessoa o ajudaa recolhê-los. Na maioria das vezes, não queremos magoar uns aos outros.Queremos que receber nossa xícara de café quente,e agradecer à pessoa que a entregou. Sorrirpara ela e esperar que ela sorria de volta. Para que a garçonetenos chame de querido quando colocar na mesa a tigela de sopa de mariscos,e […]
- [Leila Guenther - Amuleto](https://singularidadepoetica.art/2019/08/20/leila-guenther-amuleto/): nem trevo de quatro folhas foto de filho, mãe ou marido medalhinha da Virgem lentilha do ano novo passado bilhete de loteria moeda furada origami de pássaro cordão umbilical oração da prosperidade mensagem de biscoito chinês pirâmide de cristal fitinha do senhor do Bonfim folha de arruda caroço de romã olho grego sachê de sal grosso rosário bento ou nota de dólar: na carteira, dobrada em dois, só a fotografia em preto e branco de um pôr do sol em Marte
- [Joan Brossa - O tempo](https://singularidadepoetica.art/2019/08/19/joan-brossa-o-tempo/): Este verso é o presente. O verso que você leu é o passado – já envelheceu depois da leitura. O que resta do poema é o futuro, que existe fora da sua percepção. As palavras estão aqui, se você as leu ou não. E todo o poder terrestre não pode mudar isso. Trad.: Guilherme Gontijo Flores El Temps Aquest vers és el present. El vers que heu llegit ja és el passat —ja ha quedat enrera després de la lectura—. La resta del poema és el futur, que existeix fora de la vostra percepció. Els mots són aquí, tant si els […]
- [Iberê Schvartz - Das beiradas](https://singularidadepoetica.art/2019/08/18/ibere-schvartz-das-beiradas/)
- [Filipa Leal - Estátua da Liberdade](https://singularidadepoetica.art/2019/08/17/filipa-leal-estatua-da-liberdade/): E ali estava – nós a atravessarmos de barco a alegria: o pai ainda de bigode, de chapéu castanho, a mãe de óculos e echarpe, a Marta que em breve seria mãe também mas não sabia que transportava no útero mais um passageiro, o Miguel, pequenino e corajoso, sempre a tentar que os pés não doessem de tantas avenidas, e o João Pedro, tão recém-casado, tão recém-feliz, tão quase pai também sem o saber; nós ao sol, de costas para ela, de frente uns para os outros, pressentindo que Nova Iorque só interessaria por ali termos estado muito juntos, e que […]
- [Joseph Stroud - Perdido](https://singularidadepoetica.art/2019/08/16/joseph-stroud-perdido/): O cervo se distancia de mim e continua sem pressaao longo da colina sem sequer olhar para trás,para onde estou, e de onde começo a cruzarum campo de neve dentro do meu corpo e me percoenquanto uma cinza branca cai do céu encobrindo meus rastrose não há como encontrar o caminho de volta. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Lost The deer turns his head away from me and casuallycontinues along the ridge not even glancing backto where I stand, to where I begin to […]
- [José Hierro - Réquiem](https://singularidadepoetica.art/2019/08/15/jose-hierro-requiem/): Manuel del Río, naturalda Espanha, faleceu no sábado,onze de maio, em consequênciade um acidente. Seu cadáverestá estendido na funerária D´Agostino. Haskell. Nova Jersey.Uma missa cantada será celebradaàs nove e meia, em St. Francis. É uma história que começacom sol e pedra, e que terminasobre uma mesa, no D’Agostino,com flores e círios elétricos.É uma história que começaem uma margem do Atlântico.Continua em uma cabinede terceira, sobre as ondas– sobre as nuvens – das terrassubmersas antes de Platão.Encontra na América seu termocom uma grua e um hospital,com um obituário e uma missacantada na igreja St. Francis. Afinal, qualquer lugaré lugar de se morrer:o […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O Sagrado](https://singularidadepoetica.art/2019/08/14/luis-alberto-de-cuenca-o-sagrado/): A maquiagem é suspeita, sempre.Tu, recém-saída da cama,sem nada além do teu gloriosocorpo desgastado pelas decepçõese pelos desenganos, mas eretocomo uma árvore ao vento da vidaque arrasta tudo pela frente:essa é minha religião, a únicavisão do sagrado que conheço. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Lo Sagrado El maquillaje es sospechoso siempre.Tú, recién levantada de la cama,sin nada que no sea tu gloriosocuerpo gastado por las decepcionesy por los desengaños, pero erguidocomo un árbol al viento de la vidaque se lo lleva todo por delante:esa […]
- [Adelaide Ivánova - sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015](https://singularidadepoetica.art/2019/08/13/adelaide-ivanova-sobre-uma-foto-no-huffington-post-em-01-de-novembro-de-2015/): “Sobre uma foto no Huffington Post, em 01 de novembro de 2015”, um poema de Adelaide Ivanova que confronta a violência extrema contra mulheres com os limites da linguagem, da arte e da ação política.
- [Charles Simic – O ausente](https://singularidadepoetica.art/2023/10/24/charles-simic-o-ausente/): Alguém está chegando tarde em casa.A lâmpada deixada para ele na janelaArde à medida que o dia amanhece,E arderá ainda por muitos meses. Nossa pequena rua é escura à noite.As gaiolas são cobertas cedo.Os peixinhos dourados mal se mexem em seus aquários.Até mesmo as luzes da varanda estão apagadas, Deixando apenas a janela acesaPara as […]
- [Rupi Kaur – Depressão é uma sombra que mora em mim](https://singularidadepoetica.art/2023/10/23/rupi-kaur-depressao-e-uma-sombra-que-mora-em-mim-2/): ontemquando saí da camao sol caiu no chão e rolou pela gramaas flores decapitaram a si mesmasa única coisa viva que sobrou fui eue eu já não sei se isso é vida Trad.: Ana Guadalupe REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 20/11/2018
- [James Stephens – Deirdre](https://singularidadepoetica.art/2023/10/22/james-stephens-deirdre/): Mulher alguma leia este poema,composto para homens; e depois para seus filhose os filhos dos seus filhos. Já veio o tempo de abater-se o coração:basta lembrarmos Deirdre* e sua história,oh! que seus lábios já são poeira! Outrora ela pisava a terra; os homensseguravam-lhe a mão; fitavam-na e diziamo que lhe tinham a dizer, e ela […]
- [Joan Margarit - Aventura Doméstica](https://singularidadepoetica.art/2023/10/21/joan-margarit-aventura-domestica-2/): Sozinho em casa, vasculhando os armários.Encontro um antigo mapa rodoviário,contratos vencidos, canetas-tinteiroque já não escreverão mais cartas,calculadoras com pilhas descarregadase relógios que o tempo derrotou.Nas profundezas das gavetas, como um rato triste,aninha-se o passado. Vazios, os vestidospendem como velhos personagensque nos interpretaram.De repente, encontro também tua lingerie,cor de areia, da noite, com pequenos bordados.Calcinhas, sutiãs, […]
- [Louis Macneice – E o amor pairou sobre a cama](https://singularidadepoetica.art/2023/10/20/louis-macneice-e-o-amor-pairou-sobre-a-cama/): “E o amor pairou sobre a cama”, um poema de Louis MacNeice que captura a suspensão luminosa do amor após a paixão, instante frágil ameaçado pela inevitável retomada do mundo.
- [Kamala Das – O espelho](https://singularidadepoetica.art/2023/10/18/kamala-das-o-espelho/): Ganhar o amor de um homem é fácilBasta ser honesta sobre o que você deseja comoMulher. Fique nua diante do espelho na presença delePara que ele se veja como o mais forte,Acredite nisso, e a veja muito maisSuave, mais jovem, mais encantadora. Demonstre suaAdmiração. Observe a perfeiçãoDos membros dele, os olhos avermelhados debaixoDo chuveiro, o […]
- [Philip Larkin - Continuar a viver](https://singularidadepoetica.art/2023/10/17/philip-larkin-continuar-a-viver-2/): Continuar a viver – isto é, repetirUm hábito formado para obter o necessário –Quase sempre significa perder, ou passar sem. É variável. Essa perda de interesse, cabelos e ambição –Ah, se o fosse pôquer, sim,Você poderia descartá-los, fazer um full house! Mas é xadrez. E uma vez que tenha percorrido toda a extensão da mente,O que você […]
- [Dennis Trudell – Conto de Feriado](https://singularidadepoetica.art/2023/10/16/dennis-trudell-conto-de-feriado/): Uma mulher nunca contou ao maridoou a qualquer pessoa sobre o bilhete de amorque recebera há trinta anos. Não haviaassinatura, e depois de tentar adivinhar inúmerasvezes quem na cidade o enviara, elahá muito aceitara que nunca o saberia.O bilhete era breve, com apenas quatro frases: “Eua amo profundamente e espero sempre ama-la.Você tem uma família […]
- [Ana Martins Marques - Caçada](https://singularidadepoetica.art/2023/10/15/ana-martins-marques-cacada-2/): Leia "Caçada", de Ana Martins Marques, um poema breve e brilhante sobre amor, desejo e a paradoxal vontade de se perder no outro.
- [W. S. Merwin – Separação](https://singularidadepoetica.art/2023/10/14/w-s-merwin-separacao/): Sua ausência me atravessouComo linha em uma agulha.Tudo o que faço é costurado com esta cor. Trad.: Nelson Santander Separation Your absence has gone through meLike thread through a needle.Everything I do is stitched with its color.
- [R.I.P Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2023/10/13/r-i-p-louise-gluck/)
- [Juan Ramón Jiménez - Com tua Voz](https://singularidadepoetica.art/2023/10/13/juan-ramon-jimenez-com-tua-voz-2/): Quando estiver entre as raízeschama-me com tua voz.Sentirei que penetratremulando a luz do sol. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado originalmente na página em 23/11/2018 Con tu voz Cuando esté con las raícesllámame tú con tu voz.Me parecerá que entratemblando la luz del sol.
- [Alden Nowlan – Grandes coisas aconteceram](https://singularidadepoetica.art/2023/10/12/alden-nowlan-grandes-coisas-aconteceram/): Leia "Grandes coisas aconteceram", de Alden Nowlan, um poema tocante sobre memória, amor e a extraordinária beleza dos momentos comuns.
- [Paulo Henriques Britto - "Da metafísica"](https://singularidadepoetica.art/2023/10/11/paulo-henriques-britto-da-metafisica-2/): Ser parte de alguém ou algotão grande que não se entenda:toda crença, ao fim e ao cabo,se resume a essa lenda – o mais rematado dislate,coisa jamais entendida,que eleva ao sumo quilateo caco mais reles de vida. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 04/11/2018
- [A. E. Stallings – Lógica de conto de fadas](https://singularidadepoetica.art/2023/10/10/a-e-stallings-logica-de-conto-de-fadas/): Os contos de fadas estão repletos de tarefas irreais:Juntar os pelos do queixo de uma cabra que os homens devora,Ou cruzar um lago sulfúrico em uma danificada igara,Escolher o príncipe de uma fila de máscaras iguais,Caminhar na ponta dos pés até onde se aquece um dragãoE roubar-lhe um osso; contar partículas de areia, grão por […]
- [Miguel-Manso – Na morte da avó](https://singularidadepoetica.art/2023/10/09/miguel-manso-na-morte-da-avo-2/): não bastasse a humilhação pública de morrerespera-se do corpo que cumpra com indiscutívelpompa o intolerável protocolo de ausentar-se a penosa execução circular e noturna do velórioa presença inconveniente dos agentes funeráriosos adereços lutuosos a obscena maquiagem no dia seguinte, o inventário das orações, a concisacerimônia (não há muito a dizer, sejamos honestose soa até a […]
- [James Tate – A volta para casa](https://singularidadepoetica.art/2023/10/08/james-tate-a-volta-para-casa/): Eu disse ao médico que nunca mais o veria. “Não, achoque não”, ele disse. Saí pela porta me sentindo realmente bem.Claro, eu sabia que ia morrer, mas ainda assim o dia parecia claropara mim. Caminhei até o lago. Patos circulavam ao redor por ali.Vi um veleiro passar. Prossegui ao longo da margem. O sol batiaem […]
- [Paulus Silentiarius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2023/10/07/paulus-silentiarius-da-antologia-grega-2/): Zeus, em chuva de ouro, atravessou o bronzeque guardava Danae e roubou-lhe a virgindade.Moral da história: o ouro tudo domina – paredese grilhetas de bronze, fechaduras e peias.Foi o ouro que subjugou Danae. Não é necessáriorezar a Afrodite; só é preciso dinheiro. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 30/10/2018
- [Dorianne Laux - De qualquer forma](https://singularidadepoetica.art/2023/10/06/dorianne-laux-de-qualquer-forma/): Se estamos fraturados,assim o estamoscomo estrelasfeitas para brilharem todas as direções,por qualquer dimensão,bilhões de anos desde então. Não lamentareio humano, ainda não.Há algo maispor vir, nossos coraçõessão como uma mina de ouroinexplorada,um mar desconhecido. Nada se foi para sempre.Se viemos do póe ao pó voltaremos,então podemos descobrir ocaminho para qualquer coisa. Ainda não se sabe […]
- [Páladas - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2023/10/05/paladas-da-antologia-grega/): Nascidos nus. Enterrados nus.Qual a azáfama? Toda a vidaconduz à primeira nudez. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 29/10/2018
- [Maya C. Popa – O que não foi dito](https://singularidadepoetica.art/2023/10/04/maya-c-popa-o-que-nao-foi-dito/): Com que frequência, dirigindo por aquelas estradas,receávamos não bater em algo,as cabras pelas quais passamos naquela manhãpastoreadas àquela hora para que os chacaisnão as matassem mais rapidamente,a gema vermelha rompendo sobre os picosenquanto corríamos contra a luz, descendo a montanha? Apenas uma vez um javali irrompeu do bosquecomo uma pergunta rapidamente retirada.Depois ficamos sozinhos outra […]
- [Lucilius - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2023/10/03/lucilius-da-antologia-grega-2/): Eutychides, o poeta lírico, morreu.Fugi, ó moradores do Hades! – ele transporta odese ordenou que consigo queimassemvinte liras e vinte e cinco pautas de música,que Caronte terá de transportar.Onde se poderá encontrar refúgio,agora que Eutychides canta pela eternidade? Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 28/10/2018
- [Natasha Trethewey – Blues do Cemitério](https://singularidadepoetica.art/2023/10/02/natasha-trethewey-blues-do-cemiterio/): Choveu o tempo todo enquanto a deitávamos no chão;Choveu da igreja ao túmulo quando a enterramos no chão.A sucção da lama em nossos pés: uma murmuração. Quando o pregador conclamou, eu levantei a minha mão;Quando ele pediu uma testemunha, ergui a minha mão —A morte detém a lida do corpo, a alma do artesão. O […]
- [Anônimo - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2023/10/01/anonimo-da-antologia-grega-2/): Não esbanjem comigo o odor da mirra,nem ofereçam coroas de flores,nem acendam a pira funerária,tudo isso é desperdício; ofereçam-mepresentes, se quiserem, enquantoestiver vivo – mas espalhar cinzasno vinho torná-lo-á lamae dele não beberão os mortos. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 27/10/2018
- [Andrea Cohen – Crepúsculo](https://singularidadepoetica.art/2023/09/30/andrea-cohen-crepusculo/): Havia, enquanto caminhávamos pelas planícies salgadas ao crepúsculo,uma linha invisível entre nós –até que eu senti sua tesoura invisível. Trad.: Nelson Santander Dusk There was, as we walked the salt flats at dusk, an invisible thread between us –and then I felt her invisible scissors.
- [Automedon - da "Antologia Grega"](https://singularidadepoetica.art/2023/09/29/automedon-da-antologia-grega-2/): Mandaste chamá-la, disseste para vir,preparaste tudo. Mas, se vier, o que farás?Repara no que se passa contigo, Automedon.Esse canalha, que era alegre e firme, estáagora flácido, como cenoura cozida, mortoe encolhido entre as pernas. Como irãorir se te puseres a navegar de mãosvazias, um remador que perdeu o remo. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema […]
- [Laura Gilpin – Vida após a morte](https://singularidadepoetica.art/2023/09/28/laura-gilpin-vida-apos-a-morte/): O que eu sei:como os vivos seguem vivendoe como os mortos seguem vivendo com eles Assim, em uma floresta,mesmo uma árvore morta projeta uma sombrae as folhas caem uma a umae os galhos se partem com o ventoe a casca se desprende lentamentee o tronco se rachae a chuva se infiltra através das rachadurase o […]
- [Marcus Argentarius - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2023/09/27/marcus-argentarius-da-antologia-grega/): Psyllas jaz aqui. A sua ocupaçãoproxeneta; mantinha um bandode raparigas e alugava-as para festas.Um negócio pouco simpático, ganhardinheiro com carne humana e fraca.Mas poupem o seu túmulo, não atirempedras, agora que está morto e enterrado.Lembrem-se disto: os serviços que prestouconvenceram os rapazes a deixaremas nossas mulheres sossegadas. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na […]
- [Jorge Luis Borges – Maio 20, 1928](https://singularidadepoetica.art/2023/09/26/jorge-luis-borges-maio-20-1928/): Agora é invulnerável como os deuses. Nada na terra pode feri-lo, nem o desamor de uma mulher, nem a tísica, nem as ansiedades do verso, nem essa coisa branca, a lua, que já não precisa fixar em palavras. Caminha lentamente sob as tílias; olha as balaustradas e as portas, não para recordá-las. Já sabe quantas […]
- [Platão - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2023/09/25/platao-da-antologia-grega/): Epigrama atribuído a Platão, da “Antologia Grega”, que transforma o espelho em símbolo cruel da passagem do tempo e da perda da antiga beleza.
- [Adam Zagajewski - Amizades impossíveis](https://singularidadepoetica.art/2023/09/24/adam-zagajewski-amizades-impossiveis/): Por exemplo, com alguém que já não existe mais,que vive apenas nas cartas amareladas. Ou longas caminhadas à beira de um córrego,cujas profundezas guardam xícaras de porcelana ocultas — e conversas sobre filosofiacom um tímido estudante ou um carteiro. Um transeunte de olhar altivoa quem você nunca conhecerá. Amizade com este mundo cada vez mais […]
- [Zenodotus - da “Antologia Grega”](https://singularidadepoetica.art/2023/09/23/zenodotus-da-antologia-grega/): Epigrama de Zenodotus, da “Antologia Grega”, que ironiza a tentativa de conter o fogo do desejo com a água da razão ou da prudência.
- [Linda Hogan – Noite ártica, luzes cruzando o céu](https://singularidadepoetica.art/2023/09/22/linda-hogan-noite-artica-luzes-cruzando-o-ceu/): Estamos entrelaçados,corpo a corpo, célula a célula,um braço sobre o outro.O mundo é um leito para a noite fria,um gato aninhado na dobra de um joelho,um cachorro aos nossos pés,minha mão na sua, estamos abraçadosna presença animal, calidez,o mar lá fora ressoandoondas de inverno, uma chegando após a outrado mistério distante,onde, no fundo do mar,habitam […]
- [Jaime Sabines - Sobre a Morte do Major Sabines](https://singularidadepoetica.art/2023/09/21/jaime-sabines-sobre-a-morte-do-major-sabines/): Primeira Parte I Deixa-me repousar,relaxar os músculos do coraçãoe colocar a alma para dormirpara poder falar,para poder recordar estes dias,os mais longos dos tempos. Mal convalescemos da afliçãoe estamos fracos, assustados,despertando duas ou três vezes do nosso escasso sonhopara ver-te na noite e saber que respiras.Precisamos despertar para estar mais despertosdeste pesadelo repleto de gente […]
- [Diane Seuss – [Todas as coisas agora me lembram]](https://singularidadepoetica.art/2023/09/20/diane-seuss-todas-as-coisas-agora-me-lembram/): Todas as coisas agora me lembram de como o amor costumava ser. Taboas dilatadas em lugaressolitários. Condicionador viscoso em meus cabelos. Sólidos livros. Suas variegadas lombadas.Turbilhão de palavras como um coquetel agitado, umbigo em torvelinho, pulsante asterisco.O passado é isto: ter sido jovem e desejosa e não ser mais.No futuro, as taboas explodirão sem mim. […]
- [Nuno Júdice - Outra Imagem](https://singularidadepoetica.art/2023/09/19/nuno-judice-outra-imagem-2/): Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terraPor cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos.Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomesFamiliares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros– música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campasao fim da tarde, com os ouvidos tapados; quem reze,entre […]
- [Ada Limón – Notas sobre o Subterrâneo](https://singularidadepoetica.art/2023/09/18/ada-limon-notas-sobre-o-subterraneo/): “Notas sobre o Subterrâneo”, um poema de Ada Limon que transforma uma caverna em interlocutora filosófica para investigar desejo, mortalidade e pertencimento.
- [Joan Margarit - A moça do semáforo](https://singularidadepoetica.art/2023/09/17/joan-margarit-a-moca-do-semaforo-2/): Tens a mesma idade que eu tinhaquando comecei a sonhar em encontrar-te.Ignorava então, assim como tu ignoras,que o amor se transforma na arma carregadade solidão e melancoliaque aponta agora para ti em meus olhos.Tu és a moça que busqueidurante tanto tempo, quando ainda não existias.E eu o homem a quem, um dia,desejarás que oriente teus […]
- [Matthew Rohrer – Não há absolutamente nada mais solitário](https://singularidadepoetica.art/2023/09/16/matthew-rohrer-nao-ha-absolutamente-nada-mais-solitario/): Não há absolutamente nada mais solitáriodo que o pequeno Mars Rover,sempre em funcionamento, escavandorochas, tão longe da Bond streetsob a chuva suave. Será queele emite pequenos bipes? Se sim,ele é ainda mais solitário. Ele dispara laserna poeira. Ele engasga. Algo brilhante na areia revela-se ser dele. Trad.: Nelson Santander There Is Absolutely Nothing Lonelier There […]
- [Alfonsina Storni - Leva-me](https://singularidadepoetica.art/2023/09/15/alfonsina-storni-leva-me-2/): Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar;Ata-me a tua alma; a alva a brilhar. Colhe-me entre tuas mãos como em um branco casuloE mostra-me aos deuses com glória e com orgulho. Leva-me! É uma noite muito escura e sombria!…A morte caça pelo mundo tal qual harpia. Faz-me esquecer o peso que carrego nos ombrosEssa […]
- [Stanley Kunitz – Cometa de Halley](https://singularidadepoetica.art/2023/09/14/stanley-kunitz-cometa-de-halley/): A srta. Murphy, da primeira série,escreveu o nome dele no quadro negrocom giz e nos contou que eleviajava rugindo pelas trajetórias de tempestadesda Via Láctea a uma velocidade aterrorizante,e que se ele desviasse do seu curso e colidisse com a terranão haveria aula no dia seguinte.Um pregador das colinas, de barba ruivae com uma expressão […]
- [Angela Figuera Aymerich - Princípio e Fim (na morte de minha mãe)](https://singularidadepoetica.art/2023/09/13/angela-figuera-aymerich-principio-e-fim-na-morte-de-minha-mae-2/): Já tenho minhas raízes debaixo da terra.Já um pouco morta contigo, mãe,há algo da minha vida que se decompõecontigo, com teus ossos delicados,com tuas veias azuis, com teu ventreque côncavo sofreu, dando-me forma.Na ignorância, mãe, não no pecadomostraste-me como a vida brota.Como a carne floresce e se divideno centro sagrado da mulher.Pequena e frágil foste. […]
- [Izumi Shikibu - [Venha logo]](https://singularidadepoetica.art/2023/09/12/izumi-shikibu-venha-logo/): Venha logo — assimque se abrirem essas pétalas,elas cairão.Este mundo existe comoa luz do orvalho nas flores. Trad.: Nelson Santander (a partir da versão do poema em inglês vertida por Jane Hirshfield e Mariko Aratani) N. do T.: Izumi Shikibu foi uma poetisa japonesa que viveu no final do período Heian, entre os séculos X […]
- [Spencer Reece - Portofino](https://singularidadepoetica.art/2023/09/11/spencer-reece-portofino-2/): Prometa-me que não esquecerá de Portofino.Prometa-me que encontrará a ilusão de óticanas paredes do Splendido.As paredes que criam uma cena inacessível. Talvez assim compreenda esse anseiopor permanência que mencionei tantas vezes.Do outro lado do porto? Uma capela amarela. Um penhasco.Prometa-me que testemunhará o dia se dissipar. E quando os telhados escurecerem, quando as estrelas vagarematé […]
- [José María Zonta - Não entres como turista no coração de uma mulher](https://singularidadepoetica.art/2023/09/10/jose-maria-zonta-nao-entres-como-turista-no-coracao-de-uma-mulher/): “Não entres como turista no coração de uma mulher”, um poema de José María Zonta que transforma o amor em território sagrado, exigindo entrega autêntica e cuidado diante da vulnerabilidade do outro.
- [Jesús Jiménez Domínguez - A Ponte no Nevoeiro](https://singularidadepoetica.art/2023/09/09/jesus-jimenez-dominguez-a-ponte-no-nevoeiro-2/): Detenho-mea meio do caminhoe ouço. Num extremoaquele que fui grita-me:Espera-me! No outro,aquele que serei sussurra-me:Segue-me. E a ponte, eterna,não aguenta o peso dos três. Trad.: Maria Sousa REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 04/10/2018 El Puente en la Niebla Me detengoa mitad del recorridoy escucho. En un extremoaquel que fui me grita:¡Espérame! En el […]
- [Ann Fischer-Wirth – Milagre de um coração sagrado e três folhas de faia, cada uma machada de verde e carmesim](https://singularidadepoetica.art/2023/09/08/ann-fischer-wirth-milagre-de-um-coracao-sagrado-e-tres-folhas-de-faia-cada-uma-machada-de-verde-e-carmesim/): “Milagre de um coração sagrado e três folhas de faia”, um poema de Ann Fischer-Wirth que resgata, na matéria frágil do envelhecer, a persistência luminosa da identidade e da ternura.
- [Chico Amaral e Samuel Rosa - As Noites](https://singularidadepoetica.art/2023/09/07/chico-amaral-e-samuel-rosa-as-noites/): As ruas desse lugarConhecem bemAs noites longas, as noites pálidasQuando eu te procurava As casas desse lugarSe lembrarãoDo nosso abraço, da sombra insólitaEspelho azul no chão As ruas desse lugarAgora eu seiSempre escutaram a nossa músicaQuando eu te respirava As pedras municipaisSe impregnaramDa dupla imagem, da dupla solidão,A sombra ali no chão E, lá no […]
- [Fady Joudah – Mimesis](https://singularidadepoetica.art/2023/09/06/fady-joudah-mimesis/): Minha filha não faria mal a uma aranhaQue se aninhouEntre as manoplas de sua bicicletaPor duas semanasEla esperouAté que a aranha fosse embora por conta própria Se você desmanchasse a teia, eu disse,Ela simplesmente saberiaQue este não é um lugar para se chamar de larE você poderia andar de bicicleta Ela disse: é assim que […]
- [Pierre de Ronsard - Quando fores bem velha...](https://singularidadepoetica.art/2023/09/05/pierre-de-ronsard-quando-fores-bem-velha-2/): Quando fores bem velha, à noite junto à vela,Sentada ao pé do fogo, enovelando e fiando,Dirás, cantando os versos meus e te enlevando:“Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela”.Então nem haverá, ouvindo o recital,Serva, ao fim do trabalho e semi-sonolenta,Que, com som do meu nome, não desperte atentaA saudar o teu nome em […]
- [Otto D'Sola - Plenitude](https://singularidadepoetica.art/2023/09/04/otto-dsola-plenitude/): Da formiga à estrela mais alta, fomos capazes de tecer uma longa história que nunca acabará;da rocha aos pinhais,dos pântanos ao berço de um tênue vento recém-nascido, fomos capazes de dar ao solo duro e seco a alegria de contemplar uma estrela e uma flor aberta. Permeada de canções, beijos e mariposas, nossa história é […]
- [Joan Margarit - Era Rubra](https://singularidadepoetica.art/2023/09/03/joan-margarit-era-rubra-2/): A Àlex Susanna Levaste tanto tempo para aprenderque chegas tarde ao grande amor:nunca viveste uma era de ouro.As rosas de Ronsard*jamais perfumarão teu olhar,nenhum outono desfolharámorosas pétalas nos braços de ninguém.Com negligência ocultas os espelhoscomo se fazia nas casasonde havia um defunto.Não voltam as mulheres com as quaistrocaste anos de solidãopor um fugaz momento de […]
- [Jane Mead – Eu me pergunto se sentirei falta do musgo](https://singularidadepoetica.art/2023/09/02/jane-mead-eu-me-pergunto-se-sentirei-falta-do-musgo/): Quando eu voar para longe, me perguntose sentirei falta do musgo como agora sinto,só de pensar em partir. Havia pedras de muitas cores.Havia gravetos hospedandolíquen e musgo.Havia portões vermelhos com antiquadasferragens forjadas à mão.Havia campos de capim secocom o cheiro das primeiras chuvase então de lama fresca. Havia lama,e havia a caminhada,toda a bela caminhada,e […]
- [Joan Margarit - A partida](https://singularidadepoetica.art/2023/09/01/joan-margarit-a-partida-2/): Definitivamente, este é o meu Outono,um tempo de alianças impossíveis,a era rubra de todos os perigospara homens maduros e mulheres solitárias.A era do adultério e da desmemóriasem nenhuma esperança, a era do gelo,a partida final contra mim mesmo.Permaneço à mesa, sem esperar pela sorte,já não há chances neste jogo.É o tempo de jogar paciênciacom as […]
- [Meghan O'Rourke – Erro não forçado](https://singularidadepoetica.art/2023/08/31/meghan-orourke-erro-nao-forcado/): Outrora: aqueles longos e úmidos verões em Vermont.Sem dinheiro e nada para fazer além de ler, nadarno rio com homens de shorts jeans,e depois jogar bingo fora da igreja, comemorando quando ganhávamos.Nada parecia real para mim e tudo aquilo era muito vivo e real.Levei muito tempo para aprender o quanto eu estava errada —além da […]
- [Bruno Gouveia e Miguel Cunha – Impossível](https://singularidadepoetica.art/2023/08/30/bruno-gouveia-e-miguel-cunha-impossivel-2/): Biquíni Cavadão Tudo bem quando termina bemE os seus olhos, e os seus olhos não estão rasos d’águaMas eu sei que no coração ficaram muitas palavrasUm vocabulário inteiro de ilusão Tudo que viceja também pode agonizarE perder seu brilho em poucas semanasE não podemos evitar que a vida trabalhe com o seu relógio invisívelTirando o […]
- [Jorge de Sena - Nasceu-te um filho](https://singularidadepoetica.art/2023/08/29/jorge-de-sena-nasceu-te-um-filho/): Nasceu-te um filho. Não conhecerás,jamais, a extrema solidão da vida.Se a não chegaste a conhecer, se a vidata não mostrou – já não conhecerás a dor terrível de a saber escondidaaté no puro amor. E esquecerás,se alguma vez adivinhaste a paztraiçoeira de estar só, a pressentida, leve e distante imagem que iluminauma paisagem mais distante […]
- [David Mourão-Ferreira - Praia do Paraíso](https://singularidadepoetica.art/2023/08/28/david-mourao-ferreira-praia-do-paraiso-2/): Era a primeiraVez que nus os nossos corposApesar da penumbra à vontade se olhavamSurpresos de saber que tinham tantos olhosQue podiam ser luz de tantos candelabrosEra a primeira vez cerrados os estoresSó o rumor do mar permanecera em casaE sabias a sal, e cheiravas a limosQue tivesses ouvido o canto das cigarrasHavia mais que céu […]
- [Cheryl Pearson - Encantamento de proteção para um amado](https://singularidadepoetica.art/2023/08/27/cheryl-pearson-encantamento-de-protecao-para-um-amado/): Você sai com o carro em uma noite chuvosa,e minha mente corre solta. Bêbados. Pista escorregadia.Um corpo sob um lençol à beira da estrada. Eu te digo:Tenha cuidado. O que quero dizer é: Eu te amo,não vá embora. Eu quero você quente e descontente.O rejunte entre os ladrilhos do banheiro está lascando;a umidade na cozinha […]
- [Wendell Berry - A Paz das Coisas Selvagens](https://singularidadepoetica.art/2023/08/26/wendell-berry-a-paz-das-coisas-selvagens-2/): Quando as dores do mundo crescem em mime desperto na noite ao menor somcom medo do que minha vida e a dos meus filhos possam ser,eu saio e me deito onde o pato selvagemrepousa em sua beleza sobre as águas, e a garça se alimenta.Eu penetro na paz das coisas selvagensque não sobrecarregam suas vidas […]
- [Philip Schultz – Fracasso](https://singularidadepoetica.art/2023/08/25/philip-schultz-fracasso/): Para pagar o funeral do meu pai,pedi dinheiro emprestado a pessoasa quem ele já devia dinheiro.Um deles o chamou de zé-ninguém.Não, eu disse, ele era um fracassado.Ninguém se lembra o nomede um zé-ninguém, é por isso queeles são chamados de zés-ninguém.Os fracassados são memoráveis.O rabino que leu um discurso convencionalsobre um homem que não pertenciaou […]
- [Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe](https://singularidadepoetica.art/2023/08/24/tamara-kamenszain-o-eco-de-minha-mae-2/): "O Eco de Minha Mãe", um poema de Tamara Kamenszain que aborda a experiência de cuidar da mãe em meio à perda da linguagem e da memória, refletindo sobre desamparo, inversão de papéis e o escândalo íntimo da gramática diante do esquecimento.
- [Lucille Clifton – Dois poemas](https://singularidadepoetica.art/2023/08/23/lucille-clifton-dois-poemas/): adão pensando elaroubou meu ossonão é de admirarque eu anseie cavar de voltapara dentro desesperadopara reconectar costela e argilae ser inteiro outra vez alguma carência está em mimlutando para rugir com minhaboca por um nomeesta criação é tão ferozque eu preferiria ter nascido eva pensando aqui é um território selvagemirmãos e irmãs unindogarras e asasapalpando […]
- [Albano Martins - Haicais](https://singularidadepoetica.art/2023/08/22/albano-martins-haicais-2/): Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por […]
- [Thomas Hardy – Autoinconsciência](https://singularidadepoetica.art/2023/08/21/thomas-hardy-autoinconsciencia/): A pé, ao longo daquela viaEle caminhou naquele dia,Cismando as formas que os sonhos retratavam,E ele só parecia terRaramente olhos para verAqueles momentos que o rodeavam. Cintilantes pássaros douradosFaziam um tropel animado,Bicando longas palhas, efervescentes.E, levando ramos de azevinho,Voavam cruzando o caminhoQue ele percorria, só, indiferente. Da margem até o interiorE por cima e em […]
- [Manuel António Pina - de "Cuidados Intensivos"](https://singularidadepoetica.art/2023/08/20/manuel-antonio-pina-de-cuidados-intensivos/): I “A esta hora e neste sítio(miocárdio ventricular esquerdo)é a abstracta vida que me assalta.Eles não sabemque o seu coração pulsa,ferido, no meu coração,que a minha dor alheiavagarosamente mataos seus sonhos, os seus sentidos,os seus dias visíveis e invisíveis,a linha dos telhadosao longe sobre o céu.Como saberiam(com que palavras exteriores?)que existemdentro de mimde um modo […]
- [Sharon Olds – Minha mão](https://singularidadepoetica.art/2023/08/19/sharon-olds-minha-mao/): Quando olho para a minha mão, e para o dorso do meu pulso,brilhando com o petrolato que esfreguei em suas fissuras — óleo mineral,ceresina, lanolina, pantenol, glicerina,bisabolol, vejo as rugasfinas, muitas formando losangos,algumas delas longas cicatrizes vacilantes —isso me parece comovente e afortunado. E eu gostodas veias salientes do dorso da minha mão.Faço parte de […]
- [José Mateos - In Memoriam](https://singularidadepoetica.art/2023/08/18/jose-mateos-in-memoriam-2/): Para Pedro Sevilla Sempre, diante da dor, estamos sozinhos,não se deseja viver, e tu sabes disso.Há um instante, na penumbra de um quarto de hospital, viste a mão hirta,seu rosto afundado que o lençol ocultou.E foi como olhar-se num espelhoe perceber que somos menos que essa ausência,menos que a névoa que o ar dissipa. Eu […]
- [Linda Pastan – Graça](https://singularidadepoetica.art/2023/08/17/linda-pastan-graca/): Quando o jovem professor juntouas mãos no jantar e falou com Deussobre a minha chegada em segurançaem meio à neve, agradecendo-Lhe tambémpelo alimento que iríamos comer,foi no tom de voz que eu costumousar para falar com meus amigos quando ligoe sou atendida pela secretária eletrônica,com a qual converso sobre isso e aquilousando um tom casual,imaginando […]
- [Joan Margarit - Ulisses nas águas de Ítaca](https://singularidadepoetica.art/2023/08/16/joan-margarit-ulisses-nas-aguas-de-itaca-2/): Estás chegando à ilha e agora sabeso que é o acaso. Viver, o que significa.Teu arco será pó em uma prateleira.Pó será o tear e a peça que ele tece.Os pretendentes, que no pátioacamparam,são sombras dos sonhos de Penélope.Estás chegando à ilha enquanto o mararrebenta nas rochas da costa,como faz o tempo com a Odisseia.Ninguém […]
- [Tess Gallagher – Escolhas](https://singularidadepoetica.art/2023/08/15/tess-gallagher-escolhas/): Dirijo-me para o lado da casa de onde se vêa montanha, a fim de aparar as árvores novase desobstruir a vista para a neve sobre as serras. Mas quando olho para cima,serrote na mão, vejo um ninho agarradoaos galhos mais altos.Não corto esta.E também não corto as demais.De repente, em cada árvore,um ninho invisívelonde uma […]
- [Ruy Belo – Através da chuva e da névoa](https://singularidadepoetica.art/2023/08/14/ruy-belo-atraves-da-chuva-e-da-nevoa-2/): Chovia e vi-te entrar no marlonge de aqui há muito tempo jáó meu amor o teu olharo meu olhar o teu amorMais tarde olhei-te e nem te conheciaAgora aqui relembro e pergunto:Qual é a realidade de tudo isto?Afinal onde é que as coisas continuame como continuam se é que continuam?Apenas deixarei atrás de mim tubos […]
- [Li-Young Lee - Comendo sozinho](https://singularidadepoetica.art/2023/08/13/li-young-lee-comendo-sozinho/): Colhi as últimas cebolas frescas do ano.O jardim está limpo agora. O solo está frio,gasto e pardacento. O que resta do diaarde nos bordos, nas bordas dos meusolhos. Eu me viro, um cardeal desaparece.Junto à porta da adega, lavo as cebolas,depois bebo da gelada torneira de metal. Certa vez, anos atrás, caminhei ao lado do […]
- [Henri Michaux – Nós dois ainda](https://singularidadepoetica.art/2023/08/12/henri-michaux-nos-dois-ainda-2/): 1948 Música do fogo, tu não soubeste tocar. Lançaste sobre a minha casa um pano negro. O que é este opaco em toda a parte? É o opaco que tapou o meu céu. O que é este silêncio em toda a parte? É o silêncio que calou o meu canto. * De esperança tinha-me bastado […]
- [Christopher Bursk – "Ashes, Ashes, We All Fall Down"](https://singularidadepoetica.art/2023/08/11/christopher-bursk-ashes-ashes-we-all-fall-down/): “Ashes, Ashes, We All Fall Down“1 Se vou me transformar em cinzas em uma década ou algo assim,por que ficar acordado até depois da meia-noite encarando a TVcomo se ela pudesse mudar de opiniãoe eleger, por uma vez, um candidato independente para o cargoou acabar com a guerra e, ao mesmo tempo, remover a acne […]
- [Víctor Botas - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2023/08/10/victor-botas-collige-virgo-rosas-2/): Não faltam os que suponham que em sessentabilhões de anos estaremos de voltaao mesmo estado de agora (ao que parece,o Espaço se dilata para logo,elástico, contrair-se e mais uma vezdilatar-se), repetindotu, as profundidades desses olhos,eu, este esperar a morte de tuamão agonizante nas minhas, aquimesmo, precisamente neste lugar. Mas, casoseja tudo uma farsa e nunca […]
- [Rui Caeiro – [Fica e é só o que fica]](https://singularidadepoetica.art/2023/08/09/rui-caeiro-fica-e-e-so-o-que-fica/): Fica e é só o que fica: o primeiro encontroo primeiro beijo numa gare desertao mar por líquida ou aérea testemunha depois a longa gestação do adeusúnico e verdadeiro adeuso subtil envenenamento da memória
- [Luis Alberto de Cuenca - "Collige, virgo, rosas"](https://singularidadepoetica.art/2023/08/08/luis-alberto-de-cuenca-collige-virgo-rosas-2/): Moça, colhe as rosas, não esperes a manhã.Corta-as sem hesitar, sem comedimento,sem parar para pensar se são boas ou más.Que não reste nenhuma. Poda os roseiraisque encontrares pelo caminho e deixa os espinhospara tuas colegas do colégio. Desfrutada luz e do ouro enquanto podes e consagratua beleza a esse deus rechonchudo e melancólicoque passeia pelos […]
- [Mary Oliver – Chumbo](https://singularidadepoetica.art/2023/08/07/mary-oliver-chumbo/): Eis uma históriade partir o seu coração.Quer ouvi-la?Neste inverno, os mergulhões pousaram em nossa enseadae morreram, um por um,de nada que conseguíssemos ver.Um amigo me contousobre um na costaque ergueu a cabeça, abriuseu elegante bico e gritouno longo e doce deleite de sua vida,grito que, se você já ouviu,sabe que é uma coisa sagrada,e pelo […]
- [Francisco Brines - "Collige, virgo, rosas"*](https://singularidadepoetica.art/2023/08/06/francisco-brines-collige-virgo-rosas-2/): Já estás com quem desejas. Ri e goza. Ama.E inflama-te na noite que agora se inicia,e entre tantos amigos (e comigo)abre os grandes olhos para a vidacom a avidez preciosa dos teus anos.A noite, longa, extinguir-se-á com a aurora,e virão esquadrões de espiões com a luz,apagar-se-ão as estrelas, e também a lembrança,e a alegria findará […]
- [Maria do Rosário Pedreira - [Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi]](https://singularidadepoetica.art/2023/08/05/maria-do-rosario-pedreira-se-alguem-me-perguntar-hei-de-dizer-que-sim-que-foi/): Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foiverdade — que não amei ninguém depois de ti nemo meu corpo procurou nunca mais outro incêndioque não fosse a memória de um instante juntodo teu corpo; e que deixei de ler quando partistepor não suportar as palavras maiores longe da tua boca;e que tranquei os […]
- [Garcilaso de la Vega - Soneto XXIII](https://singularidadepoetica.art/2023/08/04/garcilaso-de-la-vega-soneto-xxiii-2/): Enquanto que de rosa e de açucenase mostra toda a cor neste teu rosto,enquanto o teu olhar ardente, honesto,acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjasdo ouro se escolheu, com voo presto,sobre o formoso colo branco, ereto,o vento move, espalha e desarranja: colhe de tua alegre primaverao doce fruto, […]
- [Jorie Graham – Então a chuva](https://singularidadepoetica.art/2023/08/03/jorie-graham-entao-a-chuva/): depois de anos de virga1, depoisde muito quase& muito nunca mais, depoisde unir-se aos relâmpagos secos & correntes descendentes & fogo,depois de pegar um caminhoalternativo pelahistória & evitar- nos, depois das árvores,depois dos jardins,depois que as duras sementesforam enterradas o mais fundo possível & mantidas vivas pelo sereno,depois que os sulcosque outrora ela abriuse encheram […]
- [Josep M. Rodríguez – Equação](https://singularidadepoetica.art/2023/08/02/josep-m-rodriguez-equacao-2/): De pé neste penhasco, aceito a mentira da paisagem. Tudo é inacessível: o orvalho – que é suor vegetal – e o comboio que passa. Uma cegonha voa a preto e branco. Tem o seu ninho no cimo da igreja que fica junto ao cemitério. Estranho paradoxo, a pedra testemunha a fugacidade, a carne é […]
- [Vasko Popa – Na aldeia dos ancestrais](https://singularidadepoetica.art/2023/08/01/vasko-popa-na-aldeia-dos-ancestrais/): Na aldeia dos ancestrais Alguém me abraçaAlguém me fita com olhos de loboAlguém tira o chapéuPara que eu o veja melhor Todos me perguntamVocê sabe quem eu sou Velhotes e velhotas desconhecidosApoderam-se dos nomesDe rapazes e garotas de minha lembrança Pergunto a um delesSe ainda está vivo o ricoGueórguie Kúria Eu sou ele responde-meCom voz […]
- [Jorge Luis Borges - Cristo na Cruz](https://singularidadepoetica.art/2023/07/31/jorge-luis-borges-cristo-na-cruz-2/): Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.Os três madeiros são de igual altura.Cristo não é o do meio. É o terceiro.A negra barba pende sobre o peito.O rosto não é este das gravuras.É áspero e judeu. Mas não o vejoE vou buscá-lo sempre até o diaDe meu último passo sobre a terra.O homem alquebrado […]
- [Galway Kinnell – Shelley](https://singularidadepoetica.art/2023/07/30/galway-kinnell-shelley/): Quando eu tinha vinte anos, o único espíritoverdadeiramente livre de quem tinha ouvido falar era Shelley1,Shelley, que escreveu tratados defendendoo ateísmo, o amor livre, a emancipaçãofeminina, a abolição da riqueza e das classes sociais,e poemas sobre a felicidade do amor romântico,Shelley, que, soube mais tarde, talvezquase tarde demais, se casou novamente com Harriet,então grávida de […]
- [Francisco Brines - Os Prazeres Inferiores](https://singularidadepoetica.art/2023/07/29/francisco-brines-os-prazeres-inferiores-2/): Não desdenhes as paixões vulgaresTens os anos necessários para saberque elas se correspondem exatamente com a vida.Não reduzas sua ação,pois se do breve tempo em que consistesas retiras,é ainda o existir mais imperfeito.Descobre sua verdade por trás da aparência,e assim não haverá falsidade,não poderás fingir que foi razão de vida o que foi só passagem.Mas […]
- [Jane Mead – Bach, inverno](https://singularidadepoetica.art/2023/07/28/jane-mead-bach-inverno/): Bach devia saber – comoalgo esvoaça quando você se virapara encarar o rosto visto de relanceem um espelho, em um hall, ao entardecer – e como o aroma das maçãs em uma tigelapode parar o coração por um instante,entre a pia e o fogãono auge do inverno quando estrelas de gelo se espalham pelas vidraçase […]
- [Joan Margarit - Espaço e Tempo](https://singularidadepoetica.art/2023/07/27/joan-margarit-espaco-e-tempo-2/): E de repente a casa é grande demais.Tua mãe e eu esvaziamos teus armáriose percorremos mesas e prateleiras,de retrato em retrato, teus sorrisos.À noite, os espelhos, sob a luz elétrica,revelam com mais nitidez a tua ausência.Os móveis estão agora mais sombrios.Pela escada desce a balaustrada acolhedoraque guarda ainda a lembrança de tua pequena mão,e os […]
- [Caroline Bird – Checkout](https://singularidadepoetica.art/2023/07/26/caroline-bird-checkout/): Eu penso ‘então, isso é a morte’, e me pergunto por queainda consigo enxergar através dos meus olhos. Um anjose aproxima com um formulário de avaliação perguntandocomo eu classificaria minha vida (muito boa, boa,mediana, ruim, muito ruim) e eu penso em marcar‘mediana’ seguido de um desabafo, mas então me lembrode seu rosto como um baú […]
- [Manuel António Pina - Amor como em Casa](https://singularidadepoetica.art/2023/07/25/manuel-antonio-pina-amor-como-em-casa-2/): "Amor como em Casa", um poema de Manuel António Pina que retrata o amor como um regresso íntimo e familiar, onde a saudade, os gestos cotidianos e a ternura constroem a sensação de entrar no sentimento como quem volta para casa.
- [Harryette Mullen - Não somos responsáveis](https://singularidadepoetica.art/2023/07/24/harryette-mullen-nao-somos-responsaveis/): Não somos responsáveis por seus parentes perdidos ou sequestrados.Não podemos garantir a sua segurança se desobedecer às nossas instruções.Não apoiamos as causas de pessoas pedindo esmolas.Reservamo-nos o direito de recusar serviços a qualquer um. Sua passagem não garante que honraremos suas reservas.Para facilitar nossos procedimentos, por favor limite sua bagagem de mão.Antes de decolar, por […]
- [Jane Hirshfield - O Homem Gentil](https://singularidadepoetica.art/2023/07/23/jane-hirshfield-o-homem-gentil-2/): Vendi o relógio do meu avô,seu ouro rosado e padrões pontilhados,para ser derretido.Mecanismo irrecuperável.Tampa ausente.Corrente — deve ter havido uma —ausente.Seus números pintadoscom um único e habilidoso pincel.Dei corda à coroaantes de entregá-lo sobre o balcão.O homem gentil recebeuo que lhe trouxe como se fosse à Stasi*.Ele pesou o mel do tempo. * N. do […]
- [Linda Pastan – O almanaque das coisas derradeiras](https://singularidadepoetica.art/2023/07/22/linda-pastan-o-almanaque-das-coisas-derradeiras/): Do almanaque das coisas derradeiraseu escolho o lírio-da-aranha-vermelhapela graça de sua efêmerafloração, embora eu mesmatema a brevidade, mas escolho O Cântico dos Cânticospor ter a polpadaquelas romãssobrevivido atoda geada do dogma. Escolho janeiro, com suas friaslições de paciência e desespero – eagosto, muito ensolarado para lições.Escolho um gole de vinho tintopara fazer meu coração disparar, […]
- [Joan Margarit - Despedida](https://singularidadepoetica.art/2023/07/21/joan-margarit-despedida/): Retirei tapetes e cortinas,todas as mesas onde há temposnão como nem escrevo.Removi os quadros e pintei as paredespara apagar os vestígios dos anos.Guardo alguns poucos livros. Sei bem quais.Destruícartas de amor que não me amavam mais.Silenciosos agora, os amoressão icebergs errantes do pensar.A casa, sem recantos para o medo,deixa meus olhos mais desnudos.Nada, nem a […]
- [Michelle Hulan – O universo, como em uma última canção para os corações solitários](https://singularidadepoetica.art/2023/07/20/michelle-hulan-o-universo-como-em-uma-ultima-cancao-para-os-coracoes-solitarios/): Este poema foi inspirado em “People talk and talk more”1, de Eugenio Montale, e no ciclo de vida do nosso Universo. Há uma teoria segundo a qual a fase final do Universo é a denominada Era dos Buracos Negros, na qual esses fenômenos astronômicos deslizam lentamente pelo vácuo frio até não sobrar nada. Essa imagem […]
- [Lêdo Ivo – O Dia dos Homens](https://singularidadepoetica.art/2023/07/19/ledo-ivo-o-dia-dos-homens-2/): Viver é preciso.Não existe infernonem paraíso. Apenas o chão.E uma persistentechuva de verão. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 10/08/2018
- [Hala Alyan – Spoiler](https://singularidadepoetica.art/2023/07/18/hala-alyan-spoiler/): Você pode diagnosticar o medo? A árvore vermelha que cresce do úteroaté a garganta? É um nervo longo, diz o médico. Há uma razão pela quala respiração ajuda: os músculos relaxam como um casamento defunto.Meus medos são básicos. Intoxicação alimentar em Paris. Saguões de hospitais.Meu marido rindo em outro quarto (a porta fechada).Durante dias, amparei meu […]
- [Sonja Åkesson – Primavera e Outono, Verão e Inverno](https://singularidadepoetica.art/2023/07/17/sonja-akesson-primavera-e-outono-verao-e-inverno-2/): A grade que enferrujou.O pão que empedrou.O vento que correu em buscade uma caixa d’água. Primavera e outono, verão e inverno.Isso foi tudo. E é claro, a morte tambémsonolenta e bem empanturradacomo um gato castrado bocejandoenquanto as estações do ano vão e voltamdeixando um gosto amargoem nossas bocas. Trad.: Fernanda Sarmatz Åkesson REPUBLICAÇÃO: poema publicado […]
- [Matthew Sweeney - Crucificação](https://singularidadepoetica.art/2022/09/15/matthew-sweeney-crucificacao/): Eu cozinhava uma beterraba quando a campainha tocou.‘Quem será a essa hora?’, murmurei, marchandopara a porta. Quando a abri, o sol brilhavatanto que só vi silhuetas, mas discernique pairava sobre tudo uma grande cruz preta.Havia dois homens, um com cara de bode,o outro um sujeito enorme com um cigarrona boca e suor no rosto de carregar a cruz.O primeiro homem sorria, sacudindo seu saco de pregose acariciando o martelo em seu cinto. ‘Viemospara efetuar a sua crucificação.’ Vendo minha reação, ele sorriu, ‘Não se preocupe, está tudo pago.’O outro homem havia posto a cruz no chão, e analisava o gramado para […]
- [Derek Walcott - O Amor Depois do Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/09/14/derek-walcott-o-amor-depois-do-amor-2/): “O Amor Depois do Amor”, um poema de Derek Walcott que celebra o reencontro consigo mesmo como a mais profunda forma de amor, quando finalmente nos sentamos à mesa da própria vida.
- [Gillian Clarke – Advento](https://singularidadepoetica.art/2022/09/13/gillian-clarke-advento/): Tempos sombrios. Dezembro.O eixo da terra inclinadoe os minutos caem do diaum pouco de cada vez. Assim, dormimos além da escuridão,sonâmbulos das horas cinzentas.Impossível crer na luz,ou em um nascimento, até esta alvorada invernal, a raposavoltando para casa com sangue na boca,todos os elementos químicos da aurora em seus olhos,e o céu abismado. Trad.: Nelson Santander Advent Dark times. December. Earth’s axis on the slant and the minutes fall from the day a few at a time. So we outsleep the dark, sleepwalking the grey hours. Impossible to believe in light,or a birth, until this winter sunrise, fox going home with […]
- [Roger Wolfe - Pálpebra](https://singularidadepoetica.art/2022/09/12/roger-wolfe-palpebra-2/): Pedro Salinasdisse num poema1que não quer deixar de sentira dor da ausênciada mulher que amaporque isso é tudoo que dela fica:a dor.Não me recordo das suas palavras exactas.Ele di-lo melhor do que eu.Eram outros tempos.Salinas está morto.A mulher que ele amava também.Em breve o estaremos todos.A vida é uma simples pálpebra.Abre os olhose fecha-os. Trad.: Pedro Gomes Sena O autor se refere ao poema “No quiero que te vayas”, traduzido por mim e já publicado no blog – a última vez no dia 10/09 (“Não quero que te vás”) REPUBLICAÇÃO: Poema publicado no blog originalmente em 11/10/2017 Parpadeo Pedro Salinasdice en […]
- [Jack Gilbert - Fracasso e voo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/11/jack-gilbert-fracasso-e-voo/): O fracasso não encerra a experiência: dele pode nascer uma forma inesperada de grandeza. Jack Gilbert aproxima amor, casamento e mortalidade para observar como a vida se eleva justamente quando aceita risco e imperfeição.
- [Pedro Salinas - Não quero que te vás](https://singularidadepoetica.art/2022/09/10/pedro-salinas-nao-quero-que-te-vas-2/): Não quero que te vás,dor, última formade amar. Sinto-me vivoquando me dóis,não em ti, nem aqui,mais longe: na terra, no anode onde tu vens,no amor com elae tudo o que foi.Nessa realidadesubmersa que se negaa si mesma e insisteem nunca ter existido,que foi apenas um pretextoque encontrei para viver.Se tu não me restasses,ó dor irrefutável,até creria nisso;mas és o que me resta.Tua verdade me asseguraque nada foi mentira.E enquanto eu te sentir,Tu serás pra mim, dor,a prova de outra vidaem que não me doías.A prova indiscutível, ao longe,De que existiu, que existe,De que ela me amou,Sim, de que ainda a amo. […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Romaria](https://singularidadepoetica.art/2022/09/09/carlos-drummond-de-andrade-romaria/): Romaria A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos, cheia de pedras,sobem a ladeira que leva a Deuse vão deixando culpas no caminho. Os sinos tocam, chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados.Já estamos puros, sino, obrigados,mas trazemos flores, prendas e rezas. No alto do morro chega a procissão.Um leproso de opa empunha o estandarte.As coxas das romeiras brincam no vento.Os homens cantam, cantam sem parar. Jesus no lenho expira magoado.Faz tanto calor, há tanta algazarra.Nos olhos do santo há sangue que escorre.Ninguém não percebe, o dia é de festa No adro da igreja há pinga, café,imagens, […]
- [Octavio Paz - Irmandade](https://singularidadepoetica.art/2022/09/08/octavio-paz-irmandade-2/): Homenagem a Claudio Ptolomeo Sou homem: duro poucoe enorme é a noite.Mas olho para cima:as estrelas escrevem.Sem entender, compreendo:também sou escritae neste exato instantealguém me soletra. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: Poema publicado no blog originalmente em 07/10/2017 – agora traduzido por mim Hermandad Homenaje a Claudio Ptolomeo Soy hombre: duro pocoy es enorme la noche.Pero miro hacia arriba:las estrellas escriben.Sin entender comprendo:también soy escrituray en este mismo instantealguien me deletrea.
- [Joan Margarit - Cumprimentar-se](https://singularidadepoetica.art/2022/09/07/joan-margarit-cumprimentar-se/): Aprendeste o gesto com os anos.Encontras o vizinho, vos cumprimentais,lado a lado, dois velhos na calçadacada um fechando a própria porta.As casas. E a convenção generosade algumas palavras na rua.Para além, já nada mais restaque esta paixão final, a calmasolitária e feroz das recordaçõessob um pedaço de azul nítido como um cálculo.Em seu quintal, cada qualse transforma em uma porta.Abre-se pela manhã. Fecha-se ao cair da noite. Trad.: Nelson Santander Saludarse Has aprendido el gesto con los años.Te encuentras al vecino, os saludáis,uno al lado del otro, dos viejos en la aceracerrando cada uno su portal.Las casas. Y el convenio generosode […]
- [Ferreira Gullar – Digo Sim](https://singularidadepoetica.art/2022/09/06/ferreira-gullar-digo-sim-2/): Poderia dizerque a vida é bela, e muito,e que a revolução caminha com pés de flornos campos de meu país,com pés de borrachanas grandes cidades brasileirase que meu coraçãoé um sol de esperança entre pulmõese nuvens Poderia dizer que meu povoé uma festa só na vozde Clara Nunesno rodardas cabrochas no Carnavalda Avenida.Mas não. O poeta mente. A vida nós a amassamos em sanguee sambaenquanto gira inteira a noitesobre a pátria desigual. A vidanós a fazemos nossaalegre e triste, cantandoem meio à fomee dizendo sim– em meio à violência e a solidão dizendosim –pelo espanto da belezapela flama de Therezapelo meu […]
- [Ada Limón – O que eu quero lembrar](https://singularidadepoetica.art/2022/09/05/ada-limon-o-que-eu-quero-lembrar/): Logo antes da casa do general Vallejo,com suas imponentes pedras e paredes amarelas, há um campo ao longo do caminhopara o qual as chuvas de primavera conduzem os sapos, toda uma sinfonia deles, inaugurandoas horas logo após o sol afundar no Oceano Pacífico, a apenasuma hora de distância. Por que estou colocando você aqui? Estou em um avião indo para o oestee todos os humanos são tão barulhentos que chega a doer o sangue. Mas houve uma vez em queme sentei próxima a um caminho que ainda estava quente do calor do dia, pernas cruzadas,com meu amigo chamado Eco que me […]
- [Mário Chamie - Cervo, Servo](https://singularidadepoetica.art/2022/09/04/mario-chamie-cervo-servo-2/): 1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas, vácuos movidos entre o vasto de onde o vasto cobre casa menor de vista. Contém: surdo gemer, inquietações de choro, tosco pedido entre o salto de onde o salto abre fuga maior de chispa. Fuga: mulo correr, cabritações de gamo, […]
- [Hart Crane - Louvor a uma urna](https://singularidadepoetica.art/2022/09/03/hart-crane-louvor-a-uma-urna/): Louvor a uma urna In Memoriam: Ernest Nelson Era do norte o rosto ternoDe falso exilado, juntandoDe Pierrô o olhar eternoE a gargalhada de Gargantua. Os sonhos que me confiavaDo travesseiro branco, insone,Agora eu sei, eram heranças –Corcéis suaves do ciclone. No monte oblíquo a lua oblíquaNos deu presságios indistintosDo que ainda vivo o morto abriga,Questões da alma e dos instintos, Iguais às que, no crematório,Do alto o relógio remoíaSem poupar nosso obrigatórioLouvor às glórias desse dia. Mas ao lembrar a mecha de ouro,Já não suporto o rosto baçoNem as abelhas, surdo coro,Atravessando a luz do espaço. Espalha a cinza destes […]
- [Elizabeth Bishop - A Arte de Perder](https://singularidadepoetica.art/2022/09/02/elizabeth-bishop-a-arte-de-perder-2/): A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não feita. Nada disso é sério. Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem queroLembrar a perda de três casas excelentes.A arte de perder não é nenhum mistério. Perdi duas cidades lindas. E um impérioQue era meu, dois rios, e mais um continente.Tenho saudade deles. Mas não […]
- [Lew Welch – Pequena oração para manter-se são](https://singularidadepoetica.art/2022/09/01/lew-welch-pequena-oracao-para-manter-se-sao/)
- [Adam Zagajewski - Os três anjos](https://singularidadepoetica.art/2022/09/01/adam-zagajewski-os-tres-anjos/): “Os três anjos”, um poema de Adam Zagajewski que encena um diálogo entre o humano e o transcendente para refletir sobre medo, sofrimento, beleza e esperança.
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetoides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2022/08/31/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos-3/): VI Nada de mergulhos. É na superfícieque o real, minúsculo plâncton, se trai.Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneirado funcional. E o sofrimento, ai,esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti-nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, meufilho. Só o raso é cool. A dor é kitsch. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/09/2017
- [Brigit Pegeen Kelly – Canção](https://singularidadepoetica.art/2022/08/30/brigit-pegeen-kelly-cancao/): Ouça: havia uma cabeça de cabra suspensa por cordas em uma árvore.Por toda noite ela ficou lá pendurada e cantou. E aqueles que a ouviramSentiram um aperto em seus corações e pensaram que estavam ouvindoO canto de uma ave noturna. Eles se sentaram em suas camas e depoisSe deitaram novamente. Na brisa noturna, a cabeça de cabraOscilava para frente e para trás, e de longe brilhava debilmenteComo a luz da lua brilhava nos trilhos do trem, a milhas de distância,Ao lado dos quais o corpo sem cabeça da cabra repousava. Alguns garotosTinham arrancado sua cabeça. Foi um trabalho mais difícil do […]
- [Manuel Bandeira - Poema Só Para Jaime Ovalle](https://singularidadepoetica.art/2022/08/29/manuel-bandeira-poema-so-para-jaime-ovalle-2/): Quando hoje acordei, ainda fazia escuro(Embora a manhã já estivesse avançada).Chovia.Chovia uma triste chuva de resignaçãoComo contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.Então me levantei,Bebi o café que eu mesmo preparei,Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/02/2016 Conheça outros livros de Manuel Bandeira clicando aqui
- [Lawrence Ferlinghetti – Receita para a felicidade em Khabarovsk ou em qualquer lugar](https://singularidadepoetica.art/2022/08/28/lawrence-ferlinghetti-receita-para-a-felicidade-em-khabarovsk-ou-em-qualquer-lugar/): Uma grande avenida arborizadacom uma grande cafeteria ao solcom café preto forte em xícaras muito pequenas. Uma mulher ou um homem não necessariamentemuito bonito(a) que te ame. Um dia aprazível. Trad.: Nelson Santander Recipe For Happiness in Khabarovsk Or Anyplace One grand boulevard with treeswith one grand cafe in sunwith strong black coffee in very small cups. One not necessarily very beautifulman or woman who loves you. One fine day.
- [Manuel Bandeira - Profundamente](https://singularidadepoetica.art/2022/08/27/manuel-bandeira-profundamente-2/): Quando ontem adormeciNa noite de São JoãoHavia alegria e rumorEstrondos de bombas luzes de BengalaVozes, cantigas e risosAo pé das fogueiras acesas. No meio da noite desperteiNão ouvi mais vozes nem risosApenas balõesPassavam errantesSilenciosamenteApenas de vez em quandoO ruído de um bondeCortava o silêncioComo um túnel.Onde estavam os que há poucoDançavamCantavamE riamAo pé das fogueiras acesas?— Estavam todos dormindoEstavam todos deitadosDormindoProfundamente. * Quando eu tinha seis anosNão pude ver o fim da festa de São JoãoPorque adormeci Hoje não ouço mais as vozes daquele tempoMinha avóMeu avôTotônio RodriguesTomásiaRosaOnde estão todos eles? — Estão todos dormindoEstão todos deitadosDormindoProfundamente.
- [Garrett Hongo – Mendocino Rose](https://singularidadepoetica.art/2022/08/26/garrett-hongo-mendocino-rose/): Na Califórnia, ao norte da Golden Gate,a vinha cresce por quase todos os cantos, brotando de pastagens,de baixo das sombras dos eucaliptos à beira da estrada,ultrapassando todos os casebres fantasmas e cercas quebradas que se desintegram de podres,encharcadas pelas chuvas frescas. Ela mimetiza, em suas réplicas firmes, parecidas com nuvens, a forma de tudo o que asfixia,uma delicada vegetação treliçada ao lado de um celeiro ou estação de bombeamento, muito distante dos penhascos acima da Highway 1,florzinhas e flores, da estrada mesmo,parecidas com nós e dreadlocks, efêmeras e gloriosas,suspensas em beirais cobertos de vegetação. Eu ouvia uma fita no som do carro,uma canção que eu tocava e rebobinava, e tocava […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Encontro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/25/carlos-drumond-de-andrade-encontro-2/): Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.Se a noite me atribui poder de fuga,sinto logo meu pai e nele ponhoo olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madrugae seu rosto, nem triste nem risonho,é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxugasuor algum, na calma de meu sonho. Oh meu pai arquiteto e fazendeiro!Faz casas de silêncio, e suas roçasde cinza estão maduras, orvalhadas por um rio que corre o tempo inteiro,e corre além do tempo, enquanto as nossasmurcham num sopro fontes represadas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 16/09/2017
- [Donizete Galvão - Solitude](https://singularidadepoetica.art/2022/08/24/donizete-galvao-solitude/): Juntos, em solitude. Cada qual com sua chaga. Cada qual com sua cruz. Dois corpos ardentes tão próximos, separados pela geografia que a mágoa desenha. Entre os braços, interpõem-se desertos, salinas e dunas. O amor morreu? Não. Condenou-se. Soterrou-se em veios de duro e negro minério. Duas árvores cujas raízes trançaram-se rumo ao fundo. Que frutos falhos e ásperos nessas mãos antes tão íntimas, que, mesmo durante o sono, permanecem bem fechadas.
- [Giuseppe Ungaretti - Céu Claro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/23/giuseppe-ungaretti-ceu-claro-2/): Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tantanévoaumaa umase desvelamas estrelas Respiroo frescorque me deixaa cor do céu Me reconheçoimagempassageira Presa de um cicloimortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/09/2017 Sereno Bosco di Courton Iuglio 1918 Dopo tantanebbiaa unaa unasi svelanole stelle. Respiroil frescoche mi lasciail colore del cielo, mi riconoscoimmaginepasseggera Presa in un giroimmortale
- [Alison C. Rollins - Para quem me lê agora](https://singularidadepoetica.art/2022/08/22/alison-c-rollins-para-quem-me-le-agora/): Para quem me lê agora depois de Jorge Luis Borges Você é invulnerável.A única constante é a mudança.Tal repetição leva à nostalgiado presente. Tenso e tímidovocê recita este livro de cor. Àscegas, você me confia à memória.O calvo e impertinente filósofosabe que o caráter do homem é o seu destino.Este poema – não vivo, mas os vestígiosde um construto conhecido como vontade.Heráclito caminha sobre as águas na Líbiaou: nenhum homem jamais entrou no mesmo rio duas vezes.Desconfie de como o tradutor distorceminhas palavras, estas ruínas que ele interpreta comovivas. Por que você teme ser esquecido?Saiba que de certa formavocê já está […]
- [Nicanor Parra – Acácias](https://singularidadepoetica.art/2022/08/21/nicanor-parra-acacias-2/): Passeando anos atráspor uma rua cheia de acácias em florsoube por um amigo bem informadoque você tinha acabado de se casar.Respondi que por certoeu não tinha nada a ver com o assunto.Mas apesar de nunca ter amado você– e disso você sabe melhor do que eu –cada vez que florescem as acácias– imagina só –sinto de novo a mesma coisa que sentiquanto me atiraram à queima-roupaa notícia devastadorade que você tinha se casado com outro. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/09/2017 Aromos Paseando hace añospor una calle de aromos en florsupe por un amigo bien informadoque acababas de contraer […]
- [Tyree Daye - Rio Neuse](https://singularidadepoetica.art/2022/08/20/tyree-daye-rio-neuse/): Diga-lhes para não iremà orla sozinhos. Diga-lhes ondepodem beber sem precisar olharpor cima dos ombros. Diga-lhes que o afogamentoestá em terceiro em sua lista de preocupações.A primeira é deite-se, a segunda, vem cá.Mesmo a água em que fui batizadonão é segura. Eu sabia que Deusera homem porque ele pôsum bebê em Maria sem a per-missão dela. Trad.: Nelson Santander Neuse River Tell them not to goto the banks alone. Tell them wherethey can drink without watchingover shoulders. Tell them drowningis third on your list of concerns.First is lie down, second, come here.Even the water I was baptized inisn’t safe. I knew […]
- [Ana Martins Marques - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2022/08/19/ana-martins-marques-interiores-2/): AÇUCAREIRO De amargobastao amor Agridoce,ela disse Mas a mimpareceuamargo CADEIRA I Repetesdiariamenteos gestosdo primeiro homemque se sentounuma tarde quenteolhando as savanas II Pousode gigantescos pássaroscansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesaessas doces evidênciasda morte? CRISTALEIRA Guardae revelaa nudezbrancada louçao incêndiodespareadodos cristais TALHERES Colher Se o sol nelabatesseem cheiopor exemplonuma mesa postano jardimimediatamente se formariaum pequeno lagode luz Garfo Em três ramosfloresceo metal Faca Sua fria elegâncianão escamoteiao fato:é ela que melhor se prestaao assassinato CÔMODA E delao que restousenãosobre a cômodaum par de brincosque talvez não sejam dela? ESTANTE Dentro da garrafao navioacaba de partir CORTINA Entre o […]
- [Lisel Mueller – Há manhãs](https://singularidadepoetica.art/2022/08/18/lisel-mueller-ha-manhas/): Mesmo agora, em que o enredopede que eu me torne pedra,o sol intervém. Em algumas manhãsde verão eu saioe o céu se abree se derrama sobre mimcomo se eu fosse um santoprestes a morrer. Mas o enredopede que eu viva,seja comum, diga nadaa ninguém. Dentro de casaos espelhos queimam quando eu passo. Trad.: Nelson Santander There Are Mornings Even now, when the plotcalls for me to turn to stone,the sun intervenes. Some morningsin summer I step outsideand the sky opensand pours itself into meas if I were a saintabout to die. But the plotcalls for me to live,be ordinary, say nothingto […]
- [W. H. Auden - Aquele que Ama Mais](https://singularidadepoetica.art/2022/08/17/w-h-auden-aquele-que-ama-mais-2/): Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais admirador que eu julgue serDe estrelas que de mim não querem saberNão posso dizer, agora que as contemplo,Que lhes tive saudade em algum momento. Se sumissem ou morressem todas elasMe habituaria a um céu sem estrelasE a sentir como sublime a treva totalEmbora isso levasse um […]
- [John Murillo – Variações sobre um tema de Elizabeth Bishop](https://singularidadepoetica.art/2022/08/16/john-murillo-variacao-sobre-um-tema-de-elizabeth-bishop/): Comece com a perda. Perca tudo. Então perca tudo outra vez.Perca uma boa mulher em um dia ruim. Encontre uma mulher melhor,e depois perca cinco amigos correndo atrás dela. Aprenda a perder como sesua vida dependesse disso. Aprenda que sua vida depende disso.Aprenda como se aprende caratê, ou a andar de bicicleta. Aprenda-o, domine-o.Perca dinheiro, perca tempo, perca sua mente natural.Seja abandonado e depois aprenda a abandonar. Perca eperca novamente. Mensure o caixão de um pai em comparação com ascélulas T de um primo. Beije sua irmã através do vidro de uma cela.Saiba por que sua mulher não está atendendo suas […]
- [Ricardo Silvestrin - Bilhete](https://singularidadepoetica.art/2022/08/15/ricardo-silvestrin-bilhete-2/): Não me parecias frágil,via-te doce.Talvez fosses mesmo forte,é preciso ser valentepra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo.Que rio obscuro e discretote puxava para o fundo,sem saber nadar,sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta,um poema, um bilhete de suicida.Como se quisesses dizerque a mortenão deve explicações à vida REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/08/2017
- [Timothy Liu - Os restos](https://singularidadepoetica.art/2022/08/14/timothy-liu-os-restos-mortais/): Os restos —Wuxi, China Saindo do novo cemitério, meu paipegou a minha mão, tendo acabado de reenterrar os restosmortais de seu próprio pai e suas duas esposas —sua mãe morrera de tuberculose quando ele tinha dez anos. Ele pegou a minha mão e disse: Agora posso morrer em pazmesmo que não tenhamos os ossos verdadeiros. Os bandidos da aldeiacontratados pelo meu tio se certificaram de que os túmulosatrás da casa em que meu pai crescera não sentiriam uma única lâmina de pá entrar enquanto eles estivessem alide sentinela com os braços cruzados. A esposa do meu tioteve um sonho em que de […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Meio-dia](https://singularidadepoetica.art/2022/08/13/sophia-de-mello-breyner-andresen-meio-dia-2/): Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.O sol no alto, fundo, enorme, aberto,Tornou o céu de todo o deus deserto.A luz cai implacável como um castigo.Não há fantasmas nem alvas,E o mar imenso solitário e antigo,Parece bater palmas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/08/2017
- [Jean Sprackland – Perdendo o escuro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/12/jean-sprackland-perdendo-o-escuro/): Novembro, quando o dia deveria terminar mais cedocomo um livro maçante. Mas naquela tardeuma pequena nuvem em forma de ponto de interrogaçãopassou sobre o sol e se dissolveu.Seis horas; oito; dez. E a luz do diaainda inundava a rua espantada. Uma dádiva. Como uma daquelas noites de verãoem que nos sentamos, copo na mão,sob a veloz rota de voo dos andorinhões.Descerrou rostos, lojas, portas dos fundos.O sono e os segredos eram como fetiches empoeirados;caminhávamos à meia-noite, fazíamos amor em quartos ensolarados.Até a sétima noite, sem sonhose nervosos, não tínhamos como prever: estes empurrões e pontapés por porõese subterrâneas estações, para longe […]
- [Rainer Maria Rilke - O Mundo Estava no Rosto da Amada](https://singularidadepoetica.art/2022/08/11/rainer-maria-rilke-o-mundo-estava-no-rosto-da-amada-2/): “O Mundo Estava no Rosto da Amada”, um poema de Rainer Maria Rilke que concentra o infinito no rosto amado e revela o amor como excesso que nos transborda e nos desfaz.
- [W. S. Merwin — Um aniversário](https://singularidadepoetica.art/2022/08/10/w-s-merwin-um-aniversario/): Algo continua e eu não sei como chamá-loembora o idioma esteja cheio de sugestõesem termos de linguagem mas elas todas são anônimase é quase seu aniversário música junto aos meus ossosnestas noites ouvimos os cavalos correndo na chuvaao parar a lua aparece e nós ainda estamos aquias goteiras no telhado continuam pingando depois que a chuva passao cheiro das flores de gengibre se espalha pela casa escuraperto do mar o lento coração do farol piscao longo caminho até você ainda está atado a mim mas isso me trouxe até vocêcontinuo querendo lhe dar o que já é seuesta é a manhã […]
- [Paulo Henriques Britto - Envoi](https://singularidadepoetica.art/2022/08/09/paulo-henriques-britto-envoi-2/): O tempo, que a tudo distorce,às vezes alisa, conserta,e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morsede instantes sem rumo e roteiroentão dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquivaa gente retoca e remendaaté ser coisa que se entenda, mas algo que na carne vivase esboça, se traça, se inscrevebem mais a fundo, ainda que breve — pois todo poema é murmúriofrente ao amor e sua fúria. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 01/08/2017
- [Sara Teasdale - Eu não sou tua](https://singularidadepoetica.art/2022/08/08/sara-teasdale-eu-nao-sou-tua/): Eu não sou tua, e não estou perdida em ti,Não estou perdida embora deseje estarPerdida como uma vela acesa ao meio-dia,Perdida como um floco de neve no mar. Tu me amas, e eu ainda te consideroUma alma com brilho e beleza incontroversa,Contudo, eu sou eu, que anseia por estarPerdida como uma luz que na luz se dispersa. Oh, mergulha-me profundamente no amor – sustaMeus sentidos, deixa-me surda e sem visão,Varrida pela tempestade do teu amor,Uma vela em um indomável furacão. Trad.: Nelson Santander I am not yours I am not yours, not lost in you,Not lost, although I long to beLost […]
- [Francis J. Quirós - Efêmero](https://singularidadepoetica.art/2022/08/07/francis-j-quiros-efemero/): Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia: aqueles dias na praia, aquele deus a quem tu rezaste, aquela excitação que sentiste e até a próxima pessoa que irás conhecer. São efêmeros os teus seguidores e os “likes” de teu perfil… O efêmero nos prende, nos apaixona, precisa de nós. Tudo sucumbe ante a […]
- [Linda Pastan - Chegamos ao silêncio](https://singularidadepoetica.art/2022/08/06/linda-pastan-chegamos-ao-silencio/): Chegamos ao silêncio lentamente. Tragados para o mundoem uma onda de somdele saímos mais tarde com as bocas fechadas,nossas línguas tornadas pesadas como pedras para nos ancorarna terra. Agora ouvimoso vento nas folhas farfalhantes,um burburinho de águasobre as pedras,a batalha musicaldos pássaros.Considere a orelhaem forma de clave de fá,mas vazia.Considere os espaços entre as estrelas,solilóquios de luz.É quase horade aquietar as crianças,silenciar os cães.Mesmo nossas palavras se tornam abafadasem meu cabelo, logoserá apenas pelo toqueque o reconhecerei.Estes são os corredoresdo silêncio; entre na ponta dos pés.Aqui Orfeu repousa,sua harpa desencordoada.Aqui os sons queuma folha produzao cair no chãopodem nos ensurdecer. Trad.: […]
- [Vinicius de Moraes - O poeta Hart Crane suicida-se no mar](https://singularidadepoetica.art/2022/08/05/vinicius-de-moraes-o-poeta-hart-crane-suicida-se-no-mar-2/): Quando mergulhaste na águaNão sentiste como é friaComo é fria assim na noiteComo é fria, como é fria?E ao teu medo que por certoTe acordou da nostalgia(Essa incrível nostalgiaDos que vivem no deserto…)Que te disse a Poesia? Que te disse a PoesiaQuando Vênus que luziaNo céu tão perto (tão longeDa tua melancolia…)Brilhou na tua agoniaDe moribundo desperto? Que te disse a PoesiaSobre o líquido desertoAnte o mar boquiabertoIncerto se te engoliaOu ao navio a rumo certoQue na noite se escondia? Temeste a morte, poeta?Temeste a escarpa sombriaQue sob a tua agoniaDescia sem rumo certo?Como sentiste o desertoO deserto absolutoO oceano absolutoImenso, […]
- [Faith Shearin - Cinzas, cinzas](https://singularidadepoetica.art/2022/08/04/faith-shearin-cinzas-cinzas/): O inverno é a morte pela qual todos temos esperado.Mesmo nas Festas, em que o ano novo é louvado,os galhos se quebram sob o peso da neve.Conhecemos esta estação como reconheceremos o fimde nossas vidas quando a vida estiver na metade.Os anos seguem o caminho dos dentes da infância: premidos tãoesperançosamente sob travesseiros limpos. Pele morta.As unhas que crescem sem pulsação.Uma terra que engole bebêsdevolve um erupção de margaridas de olhos brancos. Trad.: Nelson Santander N. do T.: pelo contexto do poema, o seu título pode ser a) a derivação de um dos grandes temas bíblicos (“Ashes to ashes, dust to […]
- [Abel Silva - Navegações](https://singularidadepoetica.art/2022/08/03/abel-silva-navegacoes-2/): Minha casa está calma,eu é que sou turbulento,o país navega, dizem,eu é que me arrebentoeu é que sempre inventotoda esta ventaniaeu é que não me contentocom o rumo da romaria não sei se a sorte é cegaou eu que vivo a teimar:sei que eu sou o barcoo marinheiroe o mar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 07/05/2017
- [Juan Vicente Piqueras - O barbeiro](https://singularidadepoetica.art/2022/08/02/juan-vicente-piqueras-o-barbeiro/): Nos últimos meses, olhava-se no espelhoe via um intruso. Irritava-se com ele. Já estás aqui outra vez? Será possível?Sai daqui agora mesmo.Para a rua, vagabundo, dizia-lhe. Era-lhe doloroso, era-nos doloroso,toda vez que ele tinha que ir ao banheiro.Tínhamos que conduzi-lo pelo braço, convence-lodo porquê. Ele se tornou o dono desse lugar, dizia,quem lhe deu as chaves? Pouco a pouco o do espelho tornou-se mais um em casa.Chamava-lhe o barbeiro. Em vão, diziam-lhe que aquele homem era ele.Eu nunca tentei porque sabiaque aquele homem era outra pessoa,que em seu delírio ele tinha razão. Pouco a pouco fomo-nos resignandoà invasão do barbeiro. Uma […]
- [Philip Larkin - A Igreja Indo-se...](https://singularidadepoetica.art/2022/08/01/philip-larkin-a-igreja-indo-se-2/): Quando estou certo de que nada está ocorrendo,Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta.Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dosLivrinhos; as juncadas secas, que se cortamPara o domingo; bronze e objetos a cobrir oAltar; um órgão impecável e pequeno;Silêncio tenso, de bolor, que salta à vista,Há muito fermentado. Sem chapéu, retiro —Genuflexão canhestra — os grampos de ciclista, Ando e na pia de água benta esfrego a mão.Vendo daqui, parece quase novo, o teto —Foi limpo, restaurado? Um outro sabe: eu não.Depois que subo até o atril, decifro certoVersículo imperioso, numa letra grande,E digo, sem […]
- [Suzanne Buffam – Basta](https://singularidadepoetica.art/2022/07/31/suzanne-buffam-basta/): Estou usando óculos escuros dentro de casaPara combinar com meu baixo astral. Eu deixei todo o açúcar de fora da torta.Minha raiva é uma espécie de raiva doméstica. Aprendi com minha mãeQue aprendeu com a mãe dela antes dela E assim por diante.Certamente os gregos tinham uma palavra para isso. E hoje com certeza os alemães a têm.Quanto mais palavras uma pessoa conhece Para descrever suas dores privadasMais vagamente ela consegue compreende-las. Repito os nomes de todas as cidades que conheciE observo uma formiga arrastar sua sombra distorcida para casa. O que significa amar a vida que nos foi dada?Representar bem […]
- [T. S. Eliot - Os Homens Ocos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/30/t-s-eliot-os-homens-ocos-2/): “A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada, gesto sem vigor; Aqueles que atravessaramDe olhos retos, para o outro reino da morteNos recordam – se o fazem – não como violentasAlmas danadas, mas apenasComo os homens ocosOs homens empalhados. II Os olhos que temo encontrar em sonhosNo reino de sonho da morteEstes não aparecem:Lá, […]
- [Gregory Fraser - Depois do fogo](https://singularidadepoetica.art/2022/07/29/gregory-fraser-depois-do-fogo/): Ouvi dizer que você está indo para a Itália, ele disse1. Você ouviu corretamente, ela respondeu.Você finalmente conseguiu, disse ele, estou feliz por você. Estou feliz por mim mesma, ela falou.Uma sonata de Scarlatti jorrou através das amplas portas francesase um brinde foi feito aos anfitriões, que disseram ter sidoinspirados pelos espíritos para dar aquele pequeno sarau. Algumas vezes, ele disse, eu me sinto assim, não sei — abatido — quando penso em nós,como uma luva, ele disse, em uma mão sem dedos. Engraçado, ela disse,às vezes eu me sinto como a mão. O vento passou como uma lembrançaatravés de um […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Luis Mauricio, Infante](https://singularidadepoetica.art/2022/07/28/carlos-drummond-de-andrade-a-luis-mauricio-infante-2/): Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.Pois que sejam lépidos, Luís Mauricio, que sejam novos e comovidos. E como há tempo para viver, Luís Mauricio, podes gastá-lo à janelaque dá para a Justicia del Trabajo, onde […]
- [Ada Limón – O que eu não sabia antes](https://singularidadepoetica.art/2022/07/27/ada-limon-o-que-eu-nao-sabia-antes/): era como os cavalos simplesmente davam à luz outroscavalos. Não um bebê de qualquer jeito, nãouma criatura de espaços limiares, mas um animalde quatro patas decidido a andar, correndo atrásda mãe. Um cavalo dá lugar a outrocavalo e, de repente, há dois cavalos,simples assim. Foi como eu te amei. Você,descendo do longo trem na Red Bank carregandoum café do tamanho do seu braço, uma bolsa com doiscomputadores balançando desajeitadamente ao seulado. Lembro-me de termos caído na risadaquando nos vimos. O que houve entrenós não foi uma coisa frágil para ser mimada, murmurada.Já veio totalmente formada, pronta para correr. Trad.: Nelson Santander […]
- [Angela Melim - Meu pai nos abandonou](https://singularidadepoetica.art/2022/07/26/angela-melim-meu-pai-nos-abandonou-2/): Meu pai nos abandonou.Minha mãe casou e mudou.Vovó morreu.Os irmãos sumiram no mundoou submundo.Sem explicaçãoYvonne nunca mais falou comigoe, para Ronaldo,sou fantasma do passado.Vejo meus filhos já voando.Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/03/2017
- [Linda Gregg – Ardendo e distante](https://singularidadepoetica.art/2022/07/25/linda-gregg-mantida-ardendo-e-distante/): Você retorna quando quer,como a chuva. E é terno como a chuva,tem a ternura inepta da chuva.Uma paixão tão universal que poderia acontecer em qualquer lugar.Você me carrega para o ar úmido.Você me deita sobre as folhase o mais marcante não é o sexoe sim acordar sozinha depois sob as árvores. Trad.: Nelson Santander Kept burning and distant You return when you feel like it,like rain. And like rain you are tender,with the rain’s inept tenderness.A passion so general I could be anywhere.You carry me out into the wet air.You lay me down on the leavesand the strong thing is not […]
- [Emily Dickinson - Dizem que "O Tempo Consola"](https://singularidadepoetica.art/2022/07/24/emily-dickinson-dizem-que-o-tempo-consola-2/): Dizem que “O Tempo consola” —Mas não — na realidade,A vera dor, como um Tendão,Se fortalece, com a idade — O Tempo testa a Tristeza —Porém não a remedia —Se cura o Mal, prova apenasQue Mal deveras não havia — Trad.: Paulo Henriques Britto REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 22/03/2017 They say that “Time assuages” They say that “Time assuages” —Time never did assuage —An actual suffering strengthensAs Sinews do, with age — Time is a Test of Trouble —But not a Remedy —If such it prove, it prove tooThere was no Malady —
- [Dennis O'Driscoll – Fora de controle](https://singularidadepoetica.art/2022/07/23/dennis-odriscoll-fora-de-controle/): Preocupem-se, mães: vocês têmboas razões para perder o sono,para deixar a imaginação correr soltaenquanto se deitam na cama, sem contar carneirosmas vendo filhos e filhaslevados para o abate como cordeirosna carnificina das noites de sexta. Fiquem de prontidão, mães –nunca se sabe sua sorte –para a batida que quebraria o silêncio como o choquede um impacto metálico contra os tijolos.Continuem imaginando um giroflex da polícia,uma lua azul rompendo a escuridão. Deitem-se cuidadosamente, mães, onde, dezoito anos atrás, a concepçãoaconteceu na escuridão da noite,uma trama secreta; esperem inquietas,como se fosse um exame médicopara descobrir se vocêsainda estão com as crianças. Trad.: Nelson […]
- [Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu](https://singularidadepoetica.art/2022/07/22/paulo-henriques-britto-geracao-paissandu-2/): Vim, como todo mundodo quarto escuro da infância,mundo de coisas e ânsias indecifráveis,de só desejo e repulsa.Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos,em tempo de seco fascismo.Por isso não tive pátria, só discos.Amei, como todos pensam.Troquei carícias cegas nos cinemas,li todos os livros, acrediteiem quase tudo por ao menos um minuto,provei do que pintou, adolesci. Vi tudo que vi, entendi como pude.Depois, como de direito,endureci. Agora minha bocanão arde tanto de sede.As minhas mãos é que coçam –vontade de destilardepressa, antes que esfrie,esse caldo morno de vida. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 18/03/2017
- [Anne Sexton – Coragem](https://singularidadepoetica.art/2022/07/21/anne-sexton-coragem/): É nas pequenas coisas que a vemos.O primeiro passo da criança,tão espantoso quanto um terremoto.A primeira vez que você andou de bicicleta,tateando na calçada.A primeira palmada, quando seu coraçãopartiu em uma viagem sozinho.Quando eles o chamaram de bebezãoou pobre ou gordo ou doidoe o transformaram num alienígena, você sorveu o ácido delese o escondeu. Mais tarde,quando você enfrentou a morte por bombas e balas,não foi com uma bandeira,mas apenas com um chapéucobrindo seu peito.Você não afagou a fraqueza dentro de si,embora ela estivesse lá.Sua coragem era uma pequena brasaque você continuava ingerindo.Se seu amigo o salvoue morreu no processo,então a coragem […]
- [José Ángel Buesa - Ela amará a outro homem](https://singularidadepoetica.art/2022/07/20/jose-angel-buesa-ela-amara-a-outro-homem/): “Ela amará a outro homem”, um poema de José Ángel Buesa que aceita a perda com resignação, mas afirma a permanência secreta do amor na memória que o tempo não consegue apagar.
- [Rosanna Warren – Comparação](https://singularidadepoetica.art/2022/07/19/rosanna-warren-comparacao/): Como quando seu amigo, excelente esquiador austríaco, na históriaque ela sempre nos contava, teve que encararseu primeiro salto olímpico de esqui e, darampa de largada sobre o desfiladeiro que mergulhavatão vertiginosamente que sua borda inferiordesaparecia de vista, olhoupara um horizonte de Alpes que nadava e balançava ao seu redorcomo barcos de brinquedo em uma banheira, e ele não conseguiu,apesar de toda sua determinação férrea,treinamento e coragem,desaferrar seus dedos da grade do portão de largada, de modo queseus companheiros de equipe tiveram que se juntar para soltarsuas mãos, dedo por dedo,a fim de libertá-lo, também diante da morte minhamãe agarrou as grades […]
- [Wislawa Szymborska - As Cartas dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/18/wislawa-szymborska-as-cartas-dos-mortos-2/): Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes,mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores.Sabemos quais dívidas não foram pagas.Com quem as viúvas rapidamente se casaram.Pobres mortos, mortos cegos,enganados, falíveis, canhestramente previdentes.Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas.Capturamos o som de testamentos sendo rasgados.Sentados comicamente diante de nós como no pão com manteiga,ou correndo atrás do chapéu que o vento lhes arrancou da cabeça.Seu mau gosto, Napoleão, vapor e eletricidade,seus remédios mortíferos para doenças curáveis,seu tolo apocalipse segundo são João,o falso paraíso na terra segundo Jean-Jacques…Observamos em silêncio seus peões no tabuleiro,só que movidos três casas à frente.Tudo […]
- [Annie Dillard – Como consumimos nossos dias](https://singularidadepoetica.art/2022/07/17/annie-dillard-como-consumimos-nossos-dias/): Como consumimos nossos diasé, evidentemente,como consumimos nossas vidas. O que fazemos com esta hora,e com aquela,é aquilo que fazemos. Um calendárioprotege do caos e do arbítrio. É uma redepara capturar dias.É um andaime sobre o qual um trabalhadorpode ficar em pée laborar com ambas as mãos em espaços de tempo.Um calendário é uma maqueteda razão e da ordem – desejado, dissimulado,e por isso concebido;é a paz e o abrigo encravados nas ruínas do tempo;é um bote salva-vidasno qual você se encontra, décadas depois,ainda vivendo.Cada dia é o mesmo, por isso você se lembrada sequência posteriormentecomo um padrão borrado e potente. How […]
- [Wislawa Szymborska - Bodas de Ouro](https://singularidadepoetica.art/2022/07/16/wislawa-szymborska-bodas-de-ouro-2/): Devem ter sido diferentes um dia,fogo e água, diferindo com veemência,sequestrando e se doandono desejo, no assalto à dessemelhança.Abraçados, apropriaram-se e expropriarampor tanto tempo,que nos braços restou o artranslúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta.Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outropelo tipo de silêncio, no escuro. O sexo fenece, os segredos se consomem,na semelhança as diferenças se encontramcomo todas as cores no branco. Qual deles está duplicado e qual aqui está faltando?Qual sorri com um duplo sorriso?A voz de quem ressoa nas duas vozes?Quem assente quando acenam com a cabeça?Com o gesto de quem levam […]
- [Ada Limón, poeta laureada](https://singularidadepoetica.art/2022/07/15/ada-limon-poeta-laureada/): Ada Limón, uma legítima representante da novíssima geração de poetas norte-americanos, e de quem venho traduzindo alguns poemas para o blog desde 2020, acaba de ser eleita a nova poeta laureada dos Estados Unidos, a comenda de maior prestígio do campo da poesia daquele país. O cargo de poeta laureado – que tradicionalmente é conferida pelo Congresso Nacional norte-americano – foi criado em 1937 e, desde então, muitos dos poetas mais conhecidos e respeitados dos EUA foram nomeados para ele, como Philip Levine, Rita Dove, Billy Collins e Tracy K. Smith. Clique aqui para conhecer um pouco do trabalho dessa poeta.
- [Jim Harrison – Água](https://singularidadepoetica.art/2022/07/15/jim-harrison-agua/): Antes de nascer eu era água.Pensei nisso sentado em uma cadeiraazul cercado por malvas rosas, vermelhas,e brancas no jardim em frenteao meu estúdio verde. Há conclusões aquia tirar, mas eu não posso mais fazer isso. O homem nasce, cresce, canta, dança, ama, envelhece,agoniza. Isto é um rio circulare nós somos seus peixes que se tornam água. Trad.: Nelson Santander Water Before I was born I was water.I thought of this sitting on a bluechair surrounded by pink, red, white hollyhocks in the yard in frontof my green studio. There are conclusionsto be drawn but I can’t do it anymore. Born man, child man, singing man, dancing […]
- [Wislawa Szymborska - Natureza-morta com um Balãozinho](https://singularidadepoetica.art/2022/07/14/wislawa-szymborska-natureza-morta-com-um-balaozinho-2/): Em vez da volta das lembrançasna hora de morrerquero ter de voltaas coisas perdidas. Pela porta, janela, malas,sombrinhas, luvas, casaco,para que eu possa dizer:Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente,rosa de papel, barbante, faca,para que eu possa dizer:Nada disto me faz falta. Esteja onde estiver, chave,tente chegar a tempo,para que eu possa dizer:Ferrugem, minha cara, ferrugem. Caia uma nuvem de atestados,licenças, enquetes,para que eu possa dizer:Que lindo o sol se pondo. Relógio, aflore do rioe permita que te segure na mão,para que eu possa dizer:Você finge ser a hora. Vai aparecer também um balãozinholevado pelo vento,para que eu possa […]
- [Eavan Boland – Cartas aos mortos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/13/eavan-boland-cartas-aos-mortos/): I Estudiosos do Império Antigo encontraram cerâmicasgravadas por toda parte com marcas e sinais. II Escritos em louças de lodo. Nas bordas dos vasos.Colocados na entrada dos túmulos.O vermelho do ferro de um mundo.Postado no limiar de outro.Chamaram-nas de cartas aos mortos. III Eles não choravam ou se lamentavam por meio destas marcas e sinais.Eles eram intimistas, suplicantes, desesperados, locais. IV Aqui, no limiar de uma primavera irlandesaque você não pode mais ver,arbustos de espinheiros com suas pequenas flores de marfimem breve ganharão vida em cada vento. Em breve,cada encosta será uma noiva distante. V Se eu pudesse escreve-la de uma […]
- [Wislawa Szymborska - Nada Duas Vezes](https://singularidadepoetica.art/2022/07/12/wislawa-szymborska-nada-duas-vezes-2/): Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela janela abertacaísse uma rosa do jardim. Hoje que estamos juntos,o nosso caso não medra.Rosa? Como é uma rosa?É uma flor ou é uma pedra? Por que você tem, má hora,que trazer consigo a incerteza?Você vem – mas vai passar.Você passa – eis a beleza. Sorridentes, abraçadostentaremos […]
- [Tarde na Andaluzia, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher](https://singularidadepoetica.art/2022/07/11/tarde-na-andaluzia-de-sahar-romani-lido-por-sandra-daher/): Sandra Daher, uma generosa seguidora do blog, publica em seu perfil no Facebook a leitura que faz de poemas que a inspiram. Em sua postagem mais recente, ela surge lendo o belíssimo “Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, traduzido por mim e publicado há algum tempo no blog. Confiram o resultado clicando no link que segue e aproveitem para vê-la declamando outros grandes poemas. “Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher Tarde na AndaluziaE por que a geometria não seria igual à divindade 1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé senão a confiança […]
- [Stephen Dunn - Ignorância](https://singularidadepoetica.art/2022/07/11/stephen-dunn-ignorancia/): O sonho antigo de voar se tornou realidadee eu olho para cima, sem espanto.Por que não cai?Uma pergunta de criança que eu não sei responder.Eu visto minha ignorância naquilo que eu sei.Uma vez houve pterodátilos, eu digo.Uma vez o céu era presságios e pássaros. Ele é imenso e diminuto e tão altoque não emite nem um som.Se fosse para lançar bombas, se por sorteuns poucos de nós fôssemos salvose tivéssemos que começar de novo, eu não teria nadapara o sofrimento além de palavras. Digo à minha filhaque estive lá em cima, no céu,mas nós dois não ficamos impressionados.Ela viu Star Wars. […]
- [Wislawa Szymborska - A Cada Cem Pessoas](https://singularidadepoetica.art/2022/07/10/wislawa-szymborska-a-cada-cem-pessoas-2/): A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros:– cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo:– quase todas as outras. estão prontas a ajudardesde é claro que isso não lhes tome muito tempo:– quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas porque incapazes de ser de outro modo:– quatro… vá lá, talvez cinco. estão prontas a admirar sem inveja:– dezoito. são induzidas ao erropor uma juventude que passa tão depressa:– umas sessenta. com quem não se pode brincar:– quarenta e quatro. vivem angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:– […]
- [Linda Pastan - Por trás do](https://singularidadepoetica.art/2022/07/09/linda-pastan-por-tras-do/): "Busco pelo que está por trás das palavras que são ditas..." – William Stafford Por trás do “Eu te amo”reside um “adeus”.Por trás do“adeus”mora um “foi maravilhosoali no gramado, encharcadosde tanto verde,juntos”.Palavras que esperamsão escuras como sombrasnos quartos dos fundos dos espelhos:quando você levantasua mão direitaem saudação,elas levantam a esquerdaem despedida. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog In back of "I'm looking for things back of remarks that are said..." – William Stafford In back of “I love you”stands “goodbye.”In back of“goodbye”stands “it was lovelythere […]
- [Gary Snyder - Dezembro em Yase](https://singularidadepoetica.art/2022/07/08/gary-snyder-dezembro-em-yase-2/): Naquele Outubroem que escolheu ser livrena grama alta e seca junto ao pomarvocê disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te visó mais uma vez. Você estava estranha.E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anose até mais um pouco: eu sempre soubeonde você estava – Devia ter ido te vermovido pela esperança de recuperar seu amor.Você continua solteira.Mas não fiz nada disso. Só em sonhos, como esta madrugada,a intensidade terrívelde nosso amor de garotosme ocupa de novo a mente, a carne. Tivemos aquilo que todosse esforçam tanto para ter;e abandonamos […]
- [Pat Boran - Desde que você se foi...](https://singularidadepoetica.art/2022/07/07/pat-boran-desde-que-voce-partiu/): Desde que você se foi… os dias aprenderam um novo idioma,as noites falam em línguas – as vozes da chuva na janela do quarto, do vento sussurrando na rua varrida pela chuva, os canos da casa chamando,tina após tina de água. A perda descobre novas cançõesem antigos instrumentos. Trad.: Nelson Santander Since You Left… the days have learnt a new language,evenings speak in tongues – the voices of rain at the bedroom window,of wind whispering in the rain-swept street, the house pipes calling,bowl to water bowl. Loss discovers new songsin ancient instruments.
- [Yehuda Amichai - O Corpo é a Causa do Amor](https://singularidadepoetica.art/2022/07/06/yehuda-amichai-o-corpo-e-a-causa-do-amor-2/): Primeiro o corpo é a causa do amordepois a fortaleza que o protegepor fim seu cárcere.E quando o corpo morre, o amor jorracaudalosamentecomo de um caça-níqueis clandestino quebradojorram de súbitocom estrondotodas as moedas de geraçõese gerações entregues à própria sorte. Trad.: ? REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/02/2017
- [Joseph Hillman – Para capturar a mim mesmo](https://singularidadepoetica.art/2022/07/05/joseph-hillman-para-capturar-a-mim-mesmo/): Para capturar a mim mesmoeu devo cavar um buraco Perfurar a película quesepara a vida da morteCom pá, pá de corteou mãos afiadas Fazer a terra desabrocharEm uma floração de preto e ocre Permitir que os muros se ergamao meu redor comodesmoronadoscortinadosengolindo-me inteiroenquantovou maisfundo Mais fundonaquele buraco Tão fundo quenão posso sairnovamentee tenho queviver oresto demeus diasesperandoque o meucaptorme liber-te Trad.: Nelson Santander To capture myself To capture myselfI must dig a hole Puncture the film thatseparates life and deathWith spade or shovelor sharpened hand Make the earth unfoldInto a blossom ofblack and ochre Let the walls risearound me likecrumblingcurtainsswallowingme wholeas […]
- [Wislawa Szymborska - Retornos](https://singularidadepoetica.art/2022/07/04/wislawa-szymborska-retornos-2/): Voltou. Não disse nada.Mas estava claro que teve algum desgosto.Deitou-se vestido.Cobriu a cabeça com o cobertor.Encolheu as pernas.Tem uns quarenta anos, mas não agora.Existe – mas só como na barriga da mãena escuridão protetora, debaixo de sete peles.Amanhã fará uma palestra sobre a homeostasena cosmonáutica metagaláctica.Por ora dorme, todo enrodilhado. Trad.: Regina Przybycien REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 10/02/2017
- [Mary Oliver – Pesado](https://singularidadepoetica.art/2022/07/03/mary-oliver-pesado/): Naquela épocaEu pensei que não poderiame aproximar mais da dorsem morrer eu me aproximeie não morri.Certamente tevea mão de Deus nisso, assim como as dos amigos.Ainda assim, eu estava curvada,e meu riso,como disse o poeta, havia desaparecido.Então disse o meu amigo Daniel(valente mesmo entre os leões):“Não é o peso que você carrega mas como você o carrega –livros, luto, ladrilhos –tudo está na maneiracomo você o abraça, equilibra, carrega-o quando não pode, e não quer,abandoná-lo.”Então eu fui praticar.Já reparou? Já ouviuo risoque sai, vez ou outra,de minha boca assustadas? Como eu me demoroadmirando, admirando, admirandoas coisas deste mundo que são gentis, […]
- [John Keats - Ode sobre a Indolência](https://singularidadepoetica.art/2022/07/02/john-keats-ode-sobre-a-indolencia-2/): I Numa certa manhã eu vi as três as figuras, Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,Seguindo atrás da outra, mudas e seguras, Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;Como formas de mármore em alto-relevo Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,Mostraram-se mais uma vez como as descrevo, E eram-me tão estranhas como se as achasse Numa ânfora de Fídias um pesquisador. II Como é possível, Sombras, que eu não as conheça, Máscaras mudas que se movem para mim?Que plano silencioso tinham na cabeça Para a minha indolência arrebatar assim?Era a hora madura […]
- [Ciaran O’Driscoll – Por favor, permaneça na linha](https://singularidadepoetica.art/2022/07/01/ciaran-odriscoll-por-favor-permaneca-na-linha/): Este é o futuro, minha esposa diz.Nós já estamos lá, e é exatamente como o presente. Seu futuro, aqui, ela diz.E estou falando com um robô ao telefone.O robô está me dando inúmeras opções,nenhuma das quais atende às minhas necessidades.Ótimo, diz o robôquando eu lhe dou o número do meu telefone.E Excelente, diz o robôquando eu lhe dou o número da minha conta bancária.Eu tenho um ótimo número de telefonee um excelente número de conta bancária,mas não consigo encontrar nada que satisfaça minhas necessidadesno telefone, e por minha conta(que, na verdade, é a conta do robô)passa dinheiro, meu dinheiro, para pagar […]
- [Yehuda Amichai - Outra Vez o Amor Terminou](https://singularidadepoetica.art/2022/06/30/yehuda-amichai-outra-vez-o-amor-terminou-2/): Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas,ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezascoisas comovidas que buscavam o esquecimento. Outra vez o amor terminou. E como depois de se demoliruma casa grande e retirar os escombros, visitamoso terreno vazio e quadrado e dizemos: como era pequenoo lugar onde ficava a casacom tantos andares e tantas pessoas. E dos vales distantes chegao som de um trator solitário,e do passado distante chega o baterdo garfo no prato de porcelana, misturandoe batendo gema de ovo com açúcar para o menino,e bate e bate. Trad.: ? REPUBLICAÇÃO: poema […]
- [Francisco Brines - Esplendor negro](https://singularidadepoetica.art/2022/06/29/francisco-brines-esplendor-negro/): Somente uma vez experimentaste aquele Esplendor negro,e intermitentemente recordas a experiência com imprecisão,aproximações difusas, iminências,e assim, desde a tua juventude, arrastas frioum invisível manto escarlate de cinzas.E não foi necessário cegar os olhos,pois das brancas luzes das estrelaschegou aquele delírio, a possibilidade mais exata e singela:em vez de Deus ou do mundoaquele negro Esplendor,que nem sequer é um ponto, pois não há nele espaço,nem se pode nomear, porque não se expande.Serenidade e Vertigem têm o mesmo valor,pois as palavras já estão ditas desde a aurora da terra,e as palavras são apenas a expressão de um engano.Voltar para o centro daquilo é […]
- [Alberto Ríos – Coelhos e fogo](https://singularidadepoetica.art/2022/06/27/alberto-rios-coelhos-e-fogo/): Leia "Coelhos e fogo", de Alberto Ríos, um poema impactante sobre sofrimento, compaixão e a vulnerabilidade de todos os seres vivos.
- [Paulo Henriques Britto - de "Nenhuma Arte"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/26/paulo-henriques-britto-de-nenhuma-arte/): Os deuses do acaso dão, a quem nadalhes pediu, o que um dia levam embora;e se não foi pedida a coisa dadanão cabe se queixar da perda agora.Mas não ter tido nunca nada, nãoseria bem melhor — ou menos mau?Mesmo sabendo que uma solidãocompleta era o capítulo final,a anestesia valeria o preço?(Rememorar o que não foi não dáem nada. É como enxergar um começono que não pode ser senão o fim.Ontem foi ontem. Amanhã não há.Hoje é só hoje. Os deuses são assim.) REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 04/02/2017
- [Lynn Emanuel – Minha vida](https://singularidadepoetica.art/2022/06/25/lynn-emanuel-minha-vida/): Como Jonas pelo peixe, eu fui por ela recebida,revirada e varrida por suas águas escuras,por ela conduzida para as profundezas e para além de incontáveis rochas.Sem ser tocada por seus dentes, caí nelasem um esforço maior que um grão de areiaentrando pela porta de uma catedral, tão largas eram suas mandíbulas.Desci, de cabeça e calcanhar,pela vasta viela de sua goela, parei no interior do seu peito amplo como um salão, e, como Jonas, me levanteiperguntando onde estava a besta e não a encontrando em lugar nenhum,ali, de gordura e tristeza, construí meu caramanchão.Trad.: Nelson Santander My LifeLike Jonas by the fish […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/24/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere-3/): I A seletividade da memória —a cor exata da pele, a textura,o odor de cada côncavo e orifício,o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e asaliva, a coxa arisca, a dobra escura,o beijo salobro, o sabor difícil,a carne assombrada, o esperma perplexo — falsa perfeição, mero artifíciodo tempo, a desmaiar todos os tonsdo que destoaria do desejo como um menino a retirar sem pejoda caixa que lhe deram os bombonsde que ele abre mão sem nenhum sacrifício. (…) IV Só não dói mais porque não é preciso.Se fosse o caso, a dor era […]
- [Billy Collins – A vida após a morte](https://singularidadepoetica.art/2022/06/23/billy-collins-a-vida-apos-a-morte/): Enquanto você se prepara para dormir, escovando os dentes,ou folheando uma revista na cama,os defuntos do dia estão iniciando sua jornada. Eles se movem em todas as direções imagináveis,cada qual de acordo com sua crença pessoal,e este é o segredo que o silencioso Lázaro não quis revelar:todos estão certos, no fim das contas.Você vai para o lugar que sempre imaginou que iria,o lugar que você manteve aceso em uma alcova em sua cabeça. Alguns estão sendo jogados por um funil de cores cintilantespara uma zona de luz, branca como um sol de janeiro.Outros estão nus diante de um juiz intimidante que […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/22/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-6/): (…) ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porémsó surge em pleno ar. E não renegoa rota tonta que segui. Ninguémse faz em linhas retas. Todo portoa que se chega é a meta desejada.E o caminho tomado, por mais torto,acaba sempre sendo a exata estradaa dar naquilo que, afinal, se é.Assim, todo e qualquer passado, atéo que se esqueceria, se pudesse,vai pouco a pouco virando uma espéciede bala que se chupa com deleite,mesmo se azeda. Isso, chupe. Aproveite. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 14/01/2017
- [Dorianne Laux – No limite](https://singularidadepoetica.art/2022/06/21/dorianne-laux-no-limite/): Depois que sua mãe morrer, você aprenderá a viverno limite da vida, a se segurarcomo ela fazia, uma mão no painel,a outra agarrando sua bolsa enquanto vocêpassa pelo sinal de pare, ombros tensos,olhos totalmente fechados, esperando pela colisãoque não vem. Você aprenderáa ficar acordada a noite toda sabendo que ela se foi,vendo a manhã se abrircomo um cisne de origami, o céu, um caminho se abrindo, a perguntaque você não pode responder. Na prisão, mulheresfazem tatuagens com cinzas de cigarroe xampu. É o que elas têm.Imagine o peixe, escamas cinzase bigodes pretos, crescendo lentamenteem suas costas, seus lábios beijando seu pescoço.Imagine […]
- [Abdellatif Laâbi (Marrocos, 1942)](https://singularidadepoetica.art/2022/06/20/abdellatif-laabi-marrocos-1942/)
- [Paulo Henriques Britto - De "Duas Bagatelas"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/20/paulo-henriques-britto-de-duas-bagatelas-2/): (…) II Então viver é isso,é essa obrigação de ser feliza todo custo, mesmo que doa,de amar alguma coisa, qualquer coisa,uma causa, um corpo, o papelem que se escreve,a mão, a caneta até,amar até a negação de amar,mesmo que doa,então viver é sóesse compromisso com a coisa,esse contrato, esse cálculoexato e preciso, esse vicio,só isso. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 13/01/2017
- [Nâzim Hikmet - O otimista](https://singularidadepoetica.art/2022/06/19/nazim-hikmet-o-otimista/): quando criança ele nunca arrancou as asas das moscasele não atava latas nos rabos dos gatosnão prendia besouros em caixas de fósforosnem esmagava formigueirosele cresceue todas estas coisas foram feitas com eleeu estava ao lado de sua cama quando ele morreuele disse leia para mim um poemasobre o sol e o oceanosobre satélites e reatores nuclearessobre a grandeza da humanidade Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução para o inglês feita por Randy Blasing e Mutlu Konuk) Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Optimistic Man as a child […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/18/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-5/): VII Nada disso foi do jeito que eu quis.Se fosse como eu quis, não haveriade ser tão sofrido, tão infeliz.Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sintocomo quem tem não o que foi pedido,e sim o que, guiado pelo instinto,não pelo querer, teria querido. O que de mais duro a vida me deu– que dura mais quanto mais me custoudele me acostar, e torná-lo meu – o que não escolhi, mas me escolheu,é o que, ao fim e ao cabo, mais eu sou.Não é o eu que eu me quis. Mas […]
- [Andrea Cohen - O comitê avalia](https://singularidadepoetica.art/2022/06/17/andrea-cohen-o-comite-avalia/): Digo à minha mãe queganhei o Prêmio Nobel. De novo? ela diz. Em qualcategoria desta vez? É uma brincadeiraque fazemos: eu finjo que sou alguém, elafinge não estar morta. Trad.: Nelson Santander The Committee Weighs In I tell my motherI’ve won the Nobel Prize. Again? she says. Whichdiscipline this time? It’s a little gamewe play: I pretend I’m somebody, shepretends she isn’t dead.
- [Paulo Henriques Britto - Balanços](https://singularidadepoetica.art/2022/06/16/paulo-henriques-britto-balancos-2/): (…) II Como saber sem tentar?Como tentar se é tão fácilconformar-se de saídacom a ideia de fracasso? Pois fracassar justificao não se ter nem sequeradmitido não querer-seaquilo que mais se quer. É um beco sem saída,mas sempre é melhor que a rua:mais estreito. Acolhedor.Vem, entra. A casa é tua. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 10/01/2017
- [Sylvia Plath - Estrelas sobre a Dordonha](https://singularidadepoetica.art/2022/06/15/sylvia-plath-estrelas-sobre-a-dordonha/): Estrelas caem densas como rochas na linhaEnfolhada de árvores cuja silhueta é mais escuraDo que o breu do céu porque não tem estrelas.O bosque é um poço. As estrelas caem silenciosamente.Parecem grandes, mas caem, e nenhuma lacuna é visível.Elas tampouco emitem fogos de onde caemOu qualquer sinal de angústia ou ansiedade.Elas são imediatamente devoradas pelos pinheiros. Onde me sinto em casa, apenas as estrelas mais esparsasAlcançam o crepúsculo, e depois de algum esforço.E elas chegam abatidas, embotadas por muitas viagens.As menores e mais tímidas nunca aparecemMas permanecem, paradas ao longe, em sua própria poeira.Elas são órfãs. Eu não consigo vê-las. Elas […]
- [Paulo Henriques Britto - Circular](https://singularidadepoetica.art/2022/06/14/paulo-henriques-britto-circular-2/): Neste mesmo instante, em algum lugar,alguém está pensando a mesma coisaque você estava prestes a dizer.Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vezneste mundo, nem tempo, nem lugar.O que você fizer não muda coisaalguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a dizer.Mesmo parecendo que desta vezalgo de importante vai ter lugar,não caia nessa: é sempre a mesma coisa. Sim. Tanto faz dizer coisa com coisaou simplesmente se contradizer.Melhor calar-se para sempre, em vezde ficar o tempo todo a alugar todo mundo, sem sair do lugar,dizendo sempre, sempre, a mesma coisaque nunca foi necessário […]
- [Jack Gilbert - O vale abandonado](https://singularidadepoetica.art/2022/06/13/jack-gilbert-o-vale-abandonado/): O retorno imaginado a um vale vazio revela o que a passagem do tempo retirou da paisagem e de quem a habitou. Ausência e memória transformam o lugar abandonado em medida de uma vida desaparecida.
- [Paulo Henriques Britto - De "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2022/06/12/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-4/): (…) III Mesmo o mais sólido somesem deixar nenhum vestígio,sem nem se ter (como exige ocostume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido —que se dá a posteriori,antes que se deteriorede todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculoângulo do evento únicoque só durou um segundo Entrementes, coisas maissurgem, somem, num zás-trás,e agora já é outro o mundo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 05/01/2017
- [Jane Kenyon - O pretendente](https://singularidadepoetica.art/2022/06/11/jane-kenyon-o-pretendente/): Repousamos de costas um para o outro. As cortinassobem e descem,como o peito de alguém dormindo.Os ventos movem as folhas do bordo;elas expõem seus lados iluminados,girando todas de uma vezcomo um cardume de peixes.Subitamente, compreendo que estou feliz.Por meses esse sentimentotem-se aproximado, parandopara curtas visitas, como um tímido pretendente. Trad.: Nelson Santander The Suitor We lie back to back. Curtainslift and fall,like the chest of someone sleeping.Wind moves the leaves of the box elder;they show their light undersides,turning all at oncelike a school of fish.Suddenly I understand that I am happy.For months this feelinghas been coming closer, stoppingfor short visits, like […]
- [José Saramago - Ouvindo Beethoven](https://singularidadepoetica.art/2017/09/11/jose-saramago-ouvindo-beethoven/): Venham leis e homens de balanças, Mandamentos daquém e dalém mundo, Venham ordens, decretos e vinganças, Desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos todos da cidade, Brilhe, vermelha, a luz inquisidora, Risquem no chão os dentes da vaidade E mandem que os lavemos a vassoura. A quantas mãos existam, peçam dedos, Para […]
- [Fernando Moreira Salles - Legado](https://singularidadepoetica.art/2017/09/10/fernando-moreira-salles-legado/): Não há dor partilhável nem lamento que se ouça É pequeno o destino do teu sonho e do meu Se alguém te viu passar se o caminho te pertence segue e sorri
- [Ana Martins Marques - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2017/09/09/ana-martins-marques-interiores/): AÇUCAREIRO De amargo basta o amor Agridoce, ela disse Mas a mim pareceu amargo CADEIRA I Repetes diariamente os gestos do primeiro homem que se sentou numa tarde quente olhando as savanas II Pouso de gigantescos pássaros cansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesa essas doces evidências da morte? CRISTALEIRA Guarda e […]
- [Ana Martins Marques - entre a casa/ e o acaso,](https://singularidadepoetica.art/2017/09/08/ana-martins-marques-entre-a-casa-e-o-acaso/): entre a casa e o acaso entre a jura e os jogos entre a volta e as voltas a morada e o mar penélopes e circes entre a ilha e o ir-se
- [Gregório de Matos - Nasce o Sol e Não Dura mais que um Dia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/07/gregorio-de-matos-nasce-o-sol-e-nao-dura-mais-que-um-dia/): Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se formosa a Luz é, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto […]
- [Paulo Nunes - A um antianjo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/06/paulo-nunes-a-um-antianjo/): Em memória de Júlio Caixeta A mais longa distância que pode haver, esta que agora vai dos teus pés ao chão, não te fez mais leve: foi o mundo e nossas vidas que se soltaram.
- [Eucanaã Ferraz - De "Orelhas" (1)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/05/eucanaa-ferraz-de-orelhas-1/): Estão certas todas as canções banais letras convencionais seus corações como são de praxe; estão certos os poemas enfáticos inchados de artifícios à luz óbvia da lua ou de estúpidos crepúsculos; os sonetos mal alinhavados toscos estão certos bem como as confissões íntimas não lapidadas reles nem polidas; ouçamos o que dizem sobre qualquer coisa; […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/09/04/mia-couto-o-espelho/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me, a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mia Couto - A Luz da Dor](https://singularidadepoetica.art/2017/09/03/mia-couto-a-luz-da-dor/): O meu modo de saber é adoecendo. A uns, a ideia surge em luz. A mim, se declara uma pontada no peito. O advento da dor, o deflagrar da súbita febre e eu sei que o meu corpo sabe. Um dia destes me desconhecerei vivo desfalecido de aguda sapiência. Até lá repartirei com um anjo […]
- [Armando Freitas Filho - Escritor, Escritório](https://singularidadepoetica.art/2017/09/02/armando-freitas-filho-escritor-escritorio/): Não transponho Camões, mas me empenho. Não atravesso seu mar manuscrito porque me afogo na incompreensão no enfado, no palavreado castiço na análise sintática dos seus versos onde erro na prova urgente, aflita sem ouvi-los soar na página a pleno de difícil lida, da ilimitada luta na travessia da linha, da estrofe empolgante, empolada, que […]
- [Armando Freitas Filho - Antiquário](https://singularidadepoetica.art/2017/09/01/armando-freitas-filho-antiquario/): Mil folhas. Mesmo em algumas das mais passadas, um pouco do sabor, um risco de doçura e amargo, é remanescente. Anamnésia construída pelo fato e pela imaginação: vai do anátema ao enaltecimento, expressos em alta voz até ao murmúrio cifrado no coração. O acervo de uma vida se dispersará depois de ela parar: alguma coisa […]
- [W. H. Auden - Aquele que Ama Mais](https://singularidadepoetica.art/2017/08/28/w-h-auden-aquele-que-ama-mais/): Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais […]
- [Ricardo Silvestrin - Bilhete](https://singularidadepoetica.art/2017/08/26/ricardo-silvestrin-bilhete/): Não me parecias frágil, via-te doce. Talvez fosses mesmo forte, é preciso ser valente pra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo. Que rio obscuro e discreto te puxava para o fundo, sem saber nadar, sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta, um poema, um bilhete de suicida. Como se quisesses dizer que […]
- [Jaime Sabines - Te Amo às Dez da Manhã](https://singularidadepoetica.art/2017/08/10/jaime-sabines-te-amo-as-dez-da-manha/): Te amo às dez da manhã, e às onze, e ao meio-dia. Te amo com toda a minha alma e com todo o meu corpo, às vezes, em tardes chuvosas. Mas às duas da tarde, ou às três, quando eu me perco em pensar em nós dois, e tu pensas em comida ou nas tarefas […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Meio-dia](https://singularidadepoetica.art/2017/08/09/sophia-de-mello-breyner-andresen-meio-dia/): Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém. O sol no alto, fundo, enorme, aberto, Tornou o céu de todo o deus deserto. A luz cai implacável como um castigo. Não há fantasmas nem alvas, E o mar imenso solitário e antigo, Parece bater palmas.
- [Paul Auster - Fragmento de Frio](https://singularidadepoetica.art/2017/08/08/paul-auster-fragmento-de-frio/): Porque ficamos cegos no dia que se esvai conosco, e porque vimos nossa respiração nublar o espelho de ar, o olho do ar vai se abrir para nada mais que a palavra a que renunciamos: o inverno terá sido lugar de madureza. Nós que viramos os mortos de uma vida que não a nossa. Trad.: […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/08/07/alice-ruiz/): noite gelada a cidade toda coberta denso nevoeiro
- [Zulmira Ribeiro Tavares - Após o inverno](https://singularidadepoetica.art/2017/08/06/zulmira-ribeiro-tavares-apos-o-inverno-poema/): Desarrumação em setembro. O vento batendo as portas e a floração rebentando nas cercas vivas. O céu por vezes de terracota bem acima das cabeças, mas também finas agulhas de gelo imiscuindo-se pelas frinchas, noite alta. Era em São Paulo. Então se entende: o mato bravo torcido pela chuva, o prédio em demolição pingando água […]
- [Rainer Maria Rilke - Hora Grave](https://singularidadepoetica.art/2017/08/04/rainer-maria-rilke-hora-grave/): Quem agora chora em algum lugar do mundo, Sem razão chora no mundo, Chora por mim. Quem agora ri em algum lugar na noite, Sem razão ri dentro da noite, Ri-se de mim. Quem agora caminha em algum lugar no mundo, Sem razão caminha no mundo, Vem a mim. Quem agora morre em algum lugar […]
- [Rainer Maria Rilke - O Mundo Estava no Rosto da Amada](https://singularidadepoetica.art/2017/08/03/rainer-maria-rilke-o-mundo-estava-no-rosto-da-amada/): O mundo estava no rosto da amada – e logo converteu-se em nada, em mundo fora do alcance, mundo-além. Por que não o bebi quando o encontrei no rosto amado, um mundo à mão, ali, aroma em minha boca, eu só seu rei? Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi. Mas eu também estava […]
- [Wislawa Szymborska - Engano](https://singularidadepoetica.art/2017/08/02/wislawa-szymborska-engano/): Soou o telefone na galeria de arte, soou à meia-noite na sala quieta; se houvesse gente dormindo, acordaria na certa, mas aqui há somente insones profetas, somente reis empalidecem de luar e olham indiferentes o que há para olhar, e a mulher do usurário, agitada na aparência, fita justo essa coisa sonante na lareira, mas […]
- [Paulo Henriques Britto - Envoi](https://singularidadepoetica.art/2017/08/01/paulo-henriques-britto-envoi/): O tempo, que a tudo distorce, às vezes alisa, conserta, e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morse de instantes sem rumo e roteiro então dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquiva a gente retoca e remenda até ser coisa que se entenda, mas algo que na […]
- [Wislawa Szymborska - As três Palavras mais Estranhas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/31/wislawa-szymborska-as-tres-palavras-mais-estranhas/): Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já se perde no passado. Quando pronuncio a palavra Silêncio, suprimo-o. Quando pronuncio a palavra Nada, crio algo que não cabe em nenhum não ser. Trad.: Regina Przybycien
- [Paulo Henriques Britto - Três Peças Dispépticas](https://singularidadepoetica.art/2017/07/30/paulo-henriques-britto-tres-pecas-dispepticas/): I É aqui mesmo, sim. Você era esperado. E por falar nisso, chegou atrasado. Não peça desculpas: não adianta nada. O atraso será contabilizado. Não há a menor dúvida; é este o endereço. Mas fique sabendo: tudo aqui tem preço. Não esteja à vontade. A casa não é sua. E se não gostar, por ali […]
- [Wislawa Szymborska - Entre Muitos](https://singularidadepoetica.art/2017/07/29/wislawa-szymborska-entre-muitos/): Sou quem sou. Inconcebível acaso como todos os acasos Fossem outros os meus antepassados e de outro ninho eu voaria ou de sob outro tronco coberta de escamas eu rastejaria. No guarda-roupa da natureza há trajes de sobra. O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo. Cada um cai como uma luva e […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/28/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-3/): IV Acrescentar ao mundo um morto a mais é só o que a vida garante. O resto é risco, é vai da valsa. Tanto faz improvisar ou decorar o texto, ser pedra ou imitar os animais, correr atrás de lucro ou prejuízo. Dá no que der. E, seja lá o que for, terá sido o […]
- [Wislawa Szymborska - Fim e Começo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/27/wislawa-szymborska-fim-e-comeco/): Depois de cada guerraalguém tem que fazer a faxina.Colocar uma certa ordemque afinal não se faz sozinha. Alguém tem que jogar o entulhopara o lado da estradapara que possam passaros carros carregando os corpos. Alguém tem que se atolarno lodo e nas cinzasem molas de sofásem cacos de vidroe em trapos ensanguentados. Alguém tem que […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Cinco Sonetos Frívolos"](https://singularidadepoetica.art/2017/07/26/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-3/): V Súbito? Não. A coisa morre à míngua, um risco vira traço e o traço, ponto. Por exemplo: uma manhã de domingo, a mesa posta pro café, tudo pronto pra não se fazer nada – ou então a noite de uma terça-feira inane, sob o quebranto da televisão – mas isso não importa; que se […]
- [Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”](https://singularidadepoetica.art/2017/07/23/paulo-henriques-britto-de-cinco-sonetos-frivolos-2/): IV Até onde a vista alcança é real todo o visível. Como dançarina e dança formam um todo indistinguível, assim também não há esperança de se atingir algum nível em que uma e outra substância se separem, dando alívio à consciência inquietante de que no próximo instante o erro vai ser dissipado. Não vai. O […]
- [Wislawa Szymborska - Ocaso do Século](https://singularidadepoetica.art/2017/07/20/wislawa-szymborska-ocaso-do-seculo/): Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX. Agora já não tem mais jeito, os anos estão contados, os passos vacilantes, a respiração curta. Coisas demais aconteceram, que não eram para acontecer, e o que era para ter sido não foi. Era para se chegar à primavera e à felicidade, entre […]
- [Mario Quintana - O Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/07/15/mario-quintana-o-tempo/): A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal… Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora […]
- [Ch'ang Wu Chien - Poema Chinês do Século VIII](https://singularidadepoetica.art/2017/07/14/chang-wu-chien-poema-chines-do-seculo-viii/): Praguejei contra a chuva Que tamborilando no telhado Não me deixou dormir. Praguejei contra o vento Que destruía todo o jardim. Mas você chegou de surpresa E agradeci à tempestade Que te fez despir A roupa molhada. Agradeci à ventania Por ter soprado, Apagado a vela. via Carlito Azevedo (https://www.facebook.com/profile.php?id=100007266525928)
- [Cacaso – Jogos Florais](https://singularidadepoetica.art/2017/07/05/cacaso-jogos-florais/): I Minha terra tem palmeiras onde canta o tico-tico. Enquanto isso o sabiá vive comendo o meu fubá. Ficou moderno o Brasil ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre. II Minha terra tem Palmares memória cala-te já. Peço licença poética Belém capital Pará. Bem, meus prezados senhores dado o […]
- [Armando Freitas Filho - Sibilante](https://singularidadepoetica.art/2017/07/03/armando-freitas-filho-sibilante/): Cego aço doce corte de navalha ou de folha de papel: só sangra bem depois da ação, da posse do sentido e sentimento que o amor concede não isento do ciúme.
- [Wislawa Szymborska - Amor à Primeira Vista](https://singularidadepoetica.art/2017/07/02/wislawa-szymborska-amor-a-primeira-vista/): Ambos estão certos de que uma paixão súbita os uniu. É bela esta certeza, mas é ainda mais bela a incerteza. Acham que por não terem se encontrado antes nunca havia se passado nada entre eles. Mas e as ruas, escadas, corredores nos quais há muito talvez se tenham cruzado? Queria lhes perguntar, se não […]
- [Eucanaã Ferraz - Sob a luz feroz do teu rosto](https://singularidadepoetica.art/2017/07/01/eucanaa-ferraz-sob-a-luz-feroz-do-teu-rosto/): “Sob a luz feroz do teu rosto”, um poema de Eucanaã Ferraz que transforma o amor impossível em metáfora selvagem: amar é desejar o que não pode ser tocado sem risco ou recusa.
- [Nelson Santander - Postudo (pós-"Pós-Tudo", Augusto de Campos e Os Hawaianos)](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/nelson-santander-postudo-poema/): Postudo, de Nelson Santander, paródia do famoso Pós-Tudo, de Augusto de Campos, atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Augusto de Campos - Pós-Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/06/18/augusto-de-campos-pos-tudo/)
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2017/06/16/jorge-luis-borges-labirinto/): Não haverá uma porta. Já estás dentro, Mas o alcácer abarca o universo E não tem nem anverso nem reverso Nem muro externo nem secreto centro. Não penses que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro o teu destino Como […]
- [Francis J. Quirós - Efêmero](https://singularidadepoetica.art/2017/06/05/efimero/): Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia: […]
- [Vinicius de Moraes - O poeta Hart Crane suicida-se no mar](https://singularidadepoetica.art/2017/05/23/vinicius-de-moraes-o-poeta-hart-crane-suicida-se-no-mar/): Quando mergulhaste na água Não sentiste como é fria Como é fria assim na noite Como é fria, como é fria? E ao teu medo que por certo Te acordou da nostalgia (Essa incrível nostalgia Dos que vivem no deserto…) Que te disse a Poesia? Que te disse a Poesia Quando Vênus que luzia No […]
- [Carlos Rennó - O Momento](https://singularidadepoetica.art/2017/05/15/carlos-renno-o-momento/): Tem um momento (que de todos é diverso) Em que você se une ao todo, ao universo O tempo então congela (feito lá no pólo) Seu ego some, seu eu ergue-se do solo E sai voando entre as estrelas na amplidão Você se torna uma delas na explosão Dentro de si você vê uma […]
- [Bill Knott - Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/05/09/bill-knott-morte/): Morte Perto de dormir, cruzo as mãos sobre o peito. Colocarão minhas mãos assim. Parecerá que estou a voar para dentro de mim mesmo. Death Going to sleep, I cross my hands on my chest. They will place my hands like this. It will look as though I am flying into myself. Trad.: Antonio Cicero […]
- [Abel Silva - Navegações](https://singularidadepoetica.art/2017/05/07/abel-silva-navegacoes/): Minha casa está calma, eu é que sou turbulento, o país navega, dizem, eu é que me arrebento eu é que sempre invento toda esta ventania eu é que não me contento com o rumo da romaria não sei se a sorte é cega ou eu que vivo a teimar: sei que eu sou o […]
- [Hilda Hilst - Roteiro do Silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/05/03/roteiro-do-silencio/): Não há silêncio bastantePara o meu silêncio.Nas prisões e nos conventosNas igrejas e na noiteNão há silêncio bastantePara o meu silêncio.Os amantes no quarto.Os ratos no muro.A meninaNos longos corredores do colégio.Todos os cães perdidosPelos quais tenho sofrido:O meu silêncio é maiorQue toda solidão.E que todo silêncio.
- [Nelson Santander - Que a Terra lhe seja Leve](https://singularidadepoetica.art/2017/04/30/nelson-santander-que-a-terra-lhe-seja-leve/): "Que a terra lhe seja leve", uma crônica de Nelson Santander
- [Carlos Drummond de Andrade - Os Gregorianos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/10/carlos-drummond-de-andrade-os-gregorianos/): Um amigo que tem consciência exacerbada do tempo confia-me que, depois de certo ponto (ele não usa a palavra idade), a vida já não oferece acontecimentos, e sim comemorações. — Por mais que o sujeito faça, não consegue realmente mover-se. Fica parado diante de formas movediças, como naquele romance do Zé Lins do Rego, que […]
- [Philip Larkin - Conversar na Cama](https://singularidadepoetica.art/2017/04/09/philip-larkin-conversar-na-cama/): Conversar na cama devia ser mais fácil Dois deitados juntos — é desde há muito Um símbolo de duas pessoas sendo francas. Ainda que mais e mais tempo passe em silêncio. Lá fora, a intérmina inquietação do vento Amontoa e dispersa nuvens pelo céu. E cidades escuras se empilham no horizonte. Nada disso se importa […]
- [Philip Larkin - A Primeira Coisa](https://singularidadepoetica.art/2017/04/08/philip-larkin-a-primeira-coisa/): A primeira coisa Que entendi foi esta: Tempo é o eco de um machado Dentro da floresta. Trad.: Luiz Roberto Guedes
- [Philip Larkin - A Igreja Indo-se...](https://singularidadepoetica.art/2017/04/06/philip-larkin-a-igreja-indo-se/): Quando estou certo de que nada está ocorrendo, Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta. Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dos Livrinhos; as juncadas secas, que se cortam Para o domingo; bronze e objetos a cobrir o Altar; um órgão impecável e pequeno; Silêncio tenso, de bolor, que […]
- [T. S. Eliot - Os Homens Ocos](https://singularidadepoetica.art/2017/04/04/t-s-eliot-os-homens-ocos/): “A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada, […]
- [Álvaro de Campos - Poema em Linha Reta](https://singularidadepoetica.art/2017/04/03/alvaro-de-campos-poema-em-linha-reta/): Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado […]
- [José Saramago - Não me Peçam Razões](https://singularidadepoetica.art/2017/04/02/jose-saramago-nao-me-pecam-razoes-poema/): Não me peçam razões… Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos. Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não […]
- [Fernando Pessoa - Autopsicografia](https://singularidadepoetica.art/2017/04/01/fernando-pessoa-autopsicografia/): O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a […]
- [Joaquim Cardozo - Canção Elegíaca](https://singularidadepoetica.art/2017/03/29/joaquim-cardozo-cancao-elegiaca/): Quando os teus olhos fecharem Para o esplendor deste mundo, Num chão de cinza e fadigas Hei de ficar de joelhos; Quando os teus olhos fecharem Hão de murchar as espigas, Hão de cegar os espelhos. Quando os teus olhos fecharem E as tuas mãos repousarem No peito frio e deserto, Hão de morrer as […]
- [Carlos Drummond de Andrade - A Luis Mauricio, Infante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/28/carlos-drummond-de-andrade-a-luis-mauricio-infante/): Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo, se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho. Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário? Os olhos se […]
- [Neil Gaiman - A Escuridão Está à Espera](https://singularidadepoetica.art/2017/03/27/neil-gaiman-a-escuridao-esta-a-espera/): a chama vermelha bruxuleante no muro da caverna pintada de ocre, corante, carvão vegetal fazendo o alce se mover, fazendo o mastodonte respirar fazendo o caçador correr e matar. veja como procuram apaziguar e entender o mundo acima isso eles sabem isso eles entendem há escuridão por toda a parte lá fora o escuro está […]
- [Angela Melim - Meu pai nos abandonou](https://singularidadepoetica.art/2017/03/26/angela-melim-meu-pai-nos-abandonou/): Meu pai nos abandonou. Minha mãe casou e mudou. Vovó morreu. Os irmãos sumiram no mundo ou submundo. Sem explicação Yvonne nunca mais falou comigo e, para Ronaldo, sou fantasma do passado. Vejo meus filhos já voando. Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html
- [Luiz Olavo Fontes - Meu Amor de Soslaio](https://singularidadepoetica.art/2017/03/25/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio/): Faz tanto calor no Rio de Janeiro que é bom sentir essa neve partir de seu olhar in http://antoniocicero.blogspot.com.br/2008/07/luiz-olavo-fontes-meu-amor-de-soslaio.html
- [Emily Dickinson - Dizem que "O Tempo Consola"](https://singularidadepoetica.art/2017/03/22/emily-dickinson-dizem-que-o-tempo-consola/): Dizem que “O Tempo consola” — Mas não — na realidade, A vera dor, como um Tendão, Se fortalece, com a idade — O Tempo testa a Tristeza — Porém não a remedia — Se cura o Mal, prova apenas Que Mal deveras não havia — Trad.: Paulo Henriques Britto They say that “Time assuages” […]
- [Walter Savage Landor – Sobre a Morte](https://singularidadepoetica.art/2017/03/20/walter-savage-landor-sobre-a-morte-poema/): "Sobre a morte", um poema de Walter Savage Landor
- [Samuel Taylor Coleridge – Kubla Khan](https://singularidadepoetica.art/2017/03/19/kubla-khan-samuel-taylor-coleridge/): Em Xanadu, um palácio de prazer Comanda-o Kubla Khan como um farol Onde Alph, rio sagrado, vem correr Através de cavernas sem mais ver Ao ser humano até um mar sem sol. Assim, milhas e milhas de bom solo, Cerca de muro e torres polo a polo: E lá jardins luzentes em ribeiros Curvos e […]
- [Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu](https://singularidadepoetica.art/2017/03/18/paulo-henriques-britto-geracao-paissandu/): Vim, como todo mundo do quarto escuro da infância, mundo de coisas e ânsias indecifráveis, de só desejo e repulsa. Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos, em tempo de seco fascismo. Por isso não tive pátria, só discos. Amei, como todos pensam. Troquei carícias cegas nos cinemas, li […]
- [Alberto da Cunha Melo - Lendo Emile Zola](https://singularidadepoetica.art/2017/03/17/alberto-da-cunha-melo-lendo-emile-zola/): O sol esgota os objetos: não me deixa dizer mais nada. Transforma em plantas os fantasmas que ontem dançavam no quintal. Mostra a burra realidade das coisas, o preço dos sonhos; água laminada levando, em ondas, o último mistério. Tudo foi dito da maneira mais cruel: um micro de sol escreveu em poucos segundos todos […]
- [Guillaume Apollinaire - A Ponte Mirabeau](https://singularidadepoetica.art/2017/03/16/guillaume-apollinaire-a-ponte-mirabeau/): Na Ponte Mirabeau, desliza o Sena E nossos amores E a memória acena: Alegria vem sempre após a pena Vem a noite, soa a hora Os dias vão, eu me demoro As mãos nas mãos, fiquemos face a face Enquanto abaixo Pela ponte dos nossos braços, passa. De olhar eterno a onda tão lassa. Vem […]
- [José Ángel Buesa - Ela Amará a Outro Homem](https://singularidadepoetica.art/2017/03/15/jose-angel-buesa-ela-amara-a-outro-homem-poema/): "Ela amará a outro homem", poema de José Ángel Buesa Ela amará a outro homem. Eu estarei longe, caminhando para o olvido. E pode ocorrer que alguém lembre meu nome, mas ela fingirá não tê-lo ouvido. (...)
- [Adriano Espínola - "Lamas" - Bar e Restaurante](https://singularidadepoetica.art/2017/03/14/adriano-espinola-lamas-bar-e-restaurante/): A Horácio Dídimo À noite todos os lépidos são larápios, todos os otários são notórios, todas as lânguidas são lésbicas todas as cópulas são cédulas, todos os lúcidos são trágicos todos os bêbados são sábios.
- [Charles Bukowski - Feras Saltando Através do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2017/03/13/charles-bukowski-feras-saltando-atraves-do-tempo/): Van Gogh escrevendo para seu irmão pedindo tintas Hemingway testando seu rifle Céline fracassando como médico a impossibilidade de ser humano Villon expulso de Paris por ser um ladrão Faulkner bêbado pelas sarjetas da cidade a impossibilidade de ser humano Burroughs assassinando sua mulher com um tiro Mailer apunhalando a sua impossibilidade de ser humano […]
- [Wislawa Szymborska - As Cartas dos Mortos](https://singularidadepoetica.art/2017/03/12/wislawa-szymborska-as-cartas-dos-mortos/): Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes, mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores. Sabemos quais dívidas não foram pagas. Com quem as viúvas rapidamente se casaram. Pobres mortos, mortos cegos, enganados, falíveis, canhestramente previdentes. Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas. Capturamos o som de testamentos sendo rasgados. Sentados […]
- [Wislawa Szymborska - Bodas de Ouro](https://singularidadepoetica.art/2017/03/11/wislawa-szymborska-bodas-de-ouro/): Devem ter sido diferentes um dia, fogo e água, diferindo com veemência, sequestrando e se doando no desejo, no assalto à dessemelhança. Abraçados, apropriaram-se e expropriaram por tanto tempo, que nos braços restou o ar translúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta. Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outro […]
- [Wislawa Szymborska - Natureza-morta com um Balãozinho](https://singularidadepoetica.art/2017/03/10/wislawa-szymborska-natureza-morta-com-um-balaozinho/): Em vez da volta das lembranças na hora de morrer quero ter de volta as coisas perdidas. Pela porta, janela, malas, sombrinhas, luvas, casaco, para que eu possa dizer: Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente, rosa de papel, barbante, faca, para que eu possa dizer: Nada disto me faz falta. Esteja onde […]
- [Wislawa Szymborska - Nada Duas Vezes](https://singularidadepoetica.art/2017/03/09/wislawa-szymborska-nada-duas-vezes/): Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela […]
- [Wislawa Szymborska - A Cada Cem Pessoas](https://singularidadepoetica.art/2017/03/08/wislawa-szymborska-a-cada-cem-pessoas/): A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros: – cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo: – quase todas as outras. estão prontas a ajudar desde é claro que isso não lhes tome muito tempo: – quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas […]
- [Jaroslav Seifert - Vi Apenas uma Vez](https://singularidadepoetica.art/2017/03/01/jaroslav-seifert-vi-apenas-uma-vez/): Vi apenas uma vez um sol tão ensanguentado. E nunca mais Descia funesto sobre o horizonte e parecia que alguém havia escancarado as portas do inferno. Perguntei pelo observatório astronômico e hoje sei o porquê. O inferno, conhecemos: está em toda parte e caminha sobre duas pernas. […]
- [Gary Snyder - Dezembro em Yase](https://singularidadepoetica.art/2017/02/20/gary-snyder-dezembro-em-yase/): Naquele Outubro em que escolheu ser livre na grama alta e seca junto ao pomar você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te vi só mais uma vez. Você estava estranha. E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anos e até mais um […]
- [Yehuda Amichai - O Corpo é a Causa do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/02/19/yehuda-amichai-o-corpo-e-a-causa-do-amor/): Primeiro o corpo é a causa do amor depois a fortaleza que o protege por fim seu cárcere. E quando o corpo morre, o amor jorra caudalosamente como de um caça-níqueis clandestino quebrado jorram de súbito com estrondo todas as moedas de gerações e gerações entregues à própria sorte.
- [William Shakespeare - Romeu e Julieta (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/02/18/william-shakespeare-romeu-e-julieta-excerto/): “Esses prazeres violentos têm fins violentos e morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, que, ao se beijarem, se consomem. O mais doce mel repugna por sua própria doçura, e seu sabor confunde o paladar. Portanto, ama com moderação. O amor duradouro é moderado. Quem corre demais chega tão atrasado como aquele […]
- [Nicanor Parra - O que ganha um velho ao fazer ginástica?](https://singularidadepoetica.art/2017/02/11/nicanor-parra-o-que-ganha-um-velho-ao-fazer-ginastica/): e o que ganha falando ao telefone? e o que ganha ficando famoso? e o que ganha um velho olhando-se no espelho? Nada afundar cada vez mais na lama Já são três ou quatro da madrugada – por que não trata de dormir? mas não – tome ginástica tome ligações de longa distância tome Bach […]
- [Wislawa Szymborska -Retornos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/10/wislawa-szymborska-retornos/): Voltou. Não disse nada. Mas estava claro que teve algum desgosto. Deitou-se vestido. Cobriu a cabeça com o cobertor. Encolheu as pernas. Tem uns quarenta anos, mas não agora. Existe – mas só como na barriga da mãe na escuridão protetora, debaixo de sete peles. Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica. […]
- [Jorge Luis Borges - Os Justos](https://singularidadepoetica.art/2017/02/09/jorge-luis-borges-os-justos/): Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra exista música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não […]
- [Antero de Quental - Nox](https://singularidadepoetica.art/2017/02/08/antero-de-quental-nox/): Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos… Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia… O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece alguns momentos… Oh! Antes tu também […]
- [John Keats - Ode sobre a Indolência](https://singularidadepoetica.art/2017/02/07/john-keats-ode-sobre-a-indolencia/): I Numa certa manhã eu vi as três as figuras, Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,Seguindo atrás da outra, mudas e seguras, Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;Como formas de mármore em alto-relevo Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,Mostraram-se mais uma vez como […]
- [John Keats - Do Endymion](https://singularidadepoetica.art/2017/02/06/john-keats-do-endymion/): O que é belo há de ser eternamente Uma alegria, e há de seguir presente. Não morre; onde quer que a vida breve Nos leve, há de nos dar um sono leve, Cheio de sonhos e de calmo alento. Assim, cabe tecer cada momento Nessa grinalda que nos entretece À terra, apesar da pouca messe […]
- [Yehuda Amichai - Outra Vez o Amor Terminou](https://singularidadepoetica.art/2017/02/05/yehuda-amichai-outra-vez-o-amor-terminou/): Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas, ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezas coisas comovidas que buscavam o esquecimento. Outra vez o amor terminou. E como depois de se demolir uma casa grande e retirar os escombros, visitamos o terreno vazio e quadrado e dizemos: como […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Nenhuma Arte"](https://singularidadepoetica.art/2017/02/04/paulo-henriques-britto-sem-titulo/): Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada, não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, […]
- [Konstantinos Kaváfis - A Origem](https://singularidadepoetica.art/2017/02/03/konstantinos-kavafis-a-origem/): “A Origem”, um poema de Konstantinos Kaváfis que revela como o instante clandestino do desejo se transmuta, no tempo, em matéria secreta da poesia.
- [Ezra Pound - E os dias...](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/ezra-pound-e-os-dias/)
- [Walter de la Mare - Os que Ouviam](https://singularidadepoetica.art/2017/02/02/walter-de-la-mare-os-que-ouviam/): ‘Tem alguém em casa?’ indagou o Viajante Defronte à porta enluarada; Seu cavalo no silêncio ruminava o capim Da forragem fértil e enfolhada: E uma ave voou para muito além da torre, Acima de sua cabeça: E de novo a porta ele outra vez castigou; ‘Tem alguém em casa?’ ele disse. Mas ninguém desceu para […]
- [Affonso Romano de Sant'Anna - Eppur Si Muove](https://singularidadepoetica.art/2017/02/01/affonso-romano-de-santanna-eppur-si-muove/): Não se pode calar um homem Tirem-lhe a voz, restará o nome. Tirem-lhe o nome e em nossa boca restará a sua antiga fome. Matar, sim, se pode. Se pode matar um homem. Mas sua voz, como os peixes, nada contra a corrente a procriar verdades novas na direção contrária à foz. Mente quem fala […]
- [Ricardo Silvestrin - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/01/31/ricardo-silvestrin-sem-titulo/): ruas têm coração de pedra não espere nada do seu amor por elas a não ser cimento, asfalto e uma família nova na casa de um velho conhecido quando menos se espera uma rua muda de sentido
- [Bertolt Brecht - Se fôssemos infinitos...](https://singularidadepoetica.art/2017/01/29/bertolt-brecht-se-fossemos-infinitos/)
- [Domingos Pellegrini - Com Brecht](https://singularidadepoetica.art/2017/01/28/domingos-pellegrini-com-brecht/)
- [Domingos Pellegrini - Mudanças](https://singularidadepoetica.art/2017/01/27/domingos-pellegrini-mudancas/)
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/17/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere-2/): IV Só não dói mais porque não é preciso. Se fosse o caso, a dor era pior. Não há nada nisso de extraordinário: A natureza odeia o desperdício, tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr. É exatamente a conta necessária, até que alguma solução se encontre. O que aliás não acontece nunca. E isso […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Bonbonnière"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/16/paulo-henriques-britto-de-bonbonniere/): I A seletividade da memória — a cor exata da pele, a textura, o odor de cada côncavo e orifício, o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e a saliva, a coxa arisca, a dobra escura, o beijo salobro, o sabor difícil, a carne assombrada, o esperma […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetóides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/15/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos/): IV Também já estive aí, no não lugar onde você agora não se encontra. Também não me encontrei. Aliás, foi justamente contra a tal necessidade de seguir alguma rota que jurei lutar. Lutei, perdi, e pronto: agora estou aqui, a alguns centímetros do meu próprio umbigo Se tudo correr bem, também a tua derrota vai […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/14/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria-2/): ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porém só surge em pleno ar. E não renego a rota tonta que segui. Ninguém se faz em linhas retas. Todo porto a que se chega é a meta desejada. E o caminho tomado, por mais torto, acaba sempre sendo a exata […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Duas Bagatelas"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/13/paulo-henriques-britto-de-duas-bagatelas/): II Então viver é isso, é essa obrigação de ser feliz a todo custo, mesmo que doa, de amar alguma coisa, qualquer coisa, uma causa, um corpo, o papel em que se escreve, a mão, a caneta até, amar até a negação de amar, mesmo que doa, então viver é só esse compromisso com a […]
- [Paulo Henriques Britto - Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2017/01/12/paulo-henriques-britto-epilogo/): Finda a leitura, o livro está completo em sua solidão mais-que-perfeita de couro falso e íntimo papel. Lá fora, o mundo segue, arquitetando as mesmas contingências costumeiras que nunca esbarram numa irrefutável conclusão que se possa resumir em três letras letais, inalienáveis. Que paz será possível nessa selva sem índices, prefácios, rodapés? indaga, da estante […]
- [Paulo Henriques Britto - De "Biographia Literária"](https://singularidadepoetica.art/2017/01/11/paulo-henriques-britto-de-biographia-literaria/): VII Nada disso foi do jeito que eu quis. Se fosse como eu quis, não haveria de ser tão sofrido, tão infeliz. Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sinto como quem tem não o que foi pedido, e sim o que, guiado pelo instinto, […]
- [Amalia Bautista – Os meus melhores desejos](https://singularidadepoetica.art/2018/01/07/amalia-bautista-os-meus-melhores-desejos/): Que a vida te pareça suportável.Que a culpa não afogue a esperança.Que não te rendas nunca.Que o caminho que sigas seja sempre escolhidoentre dois pelo menos.Que te interesse a vida tanto como tu a ela.Que não te apanhe o víciode prolongar as despedidas.E que o peso da terra seja levesobre os teus pobres ossos.Que a […]
- [Amalia Bautista – O que fazes aqui](https://singularidadepoetica.art/2018/01/06/amalia-bautista-o-que-fazes-aqui/): Pensei que havia-te dito adeus,um adeus definitivo, ao deitar-mequando pude finalmente fechar meus olhose esquecer-me de ti e de tuas artimanhasde tua insistência, de tua baba ruim,da tua capacidade de anular-me.Pensei que havia-te dito adeuspara todo o sempre, e eu acordoe te encontro novamente junto a mim,dentro de mim, me envolvendo, ao meu lado,invadindo-me, sufocando-me, […]
- [Tomas Tranströmer – Minnena Ser Mig (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/05/tomas-transtromer-duas-traducoes-de-um-mesmo-poema/): Memórias que me Observam Manhã de Junho, cedo demais para acordar, tarde demais para adormecer. Tenho de sair – é densa a folhagem das memórias, perseguem-me com o seu olhar. Não se deixam ver, misturam-se todas com o fundo, verdadeiros camaleões. Tão perto estão que as ouço respirarem aqui onde o canto do pássaro ensurdece. […]
- [João Cabral de Melo Neto - Como a Morte se Infiltra](https://singularidadepoetica.art/2018/01/04/joao-cabral-de-melo-neto-como-a-morte-se-infiltra/): Certo dia, não se levanta porque quer demorar na cama. No outro dia ele diz por que: é porque lhe dói algum pé. No outro dia o que dói é a perna, E nem pode apoiar-se nela. Dia a dia lhe cresce um não, um enrodilhar-se de cão. Dia a dia ele aprende o jeito […]
- [Amalia Bautista – Al Cabo (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/01/03/amalia-bautista-ao-fim/): No fim de contas No fim de contas são poucas as palavrasque nos doem de verdade, e muito poucasas que conseguem alegrar a alma.E são também muito poucas as pessoasque nos fazem bater o coração, e menosainda com o correr do tempo.No fim de contas, são pouquíssimas as coisasque na verdade importam nesta vida:poder amar […]
- [Vicente de Carvalho – Velho Tema I](https://singularidadepoetica.art/2018/01/02/vicente-de-carvalho-velho-tema-i/): Só a leve esperança, em toda a vida, Disfarça a pena de viver, mais nada; Nem é mais a existência, resumida, Que uma grande esperança malograda. O eterno sonho da alma desterrada Sonho que a traz ansiosa e embevecida, É uma hora feliz, sempre adiada E que não chega nunca em toda a vida. Essa […]
- [Amalia Bautista – Façamos uma limpeza geral](https://singularidadepoetica.art/2018/01/01/amalia-bautista-facamos-uma-limpeza-geral/): Leia "Façamos uma limpeza geral", de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre memória, desapego e a coragem de recomeçar.
- [Carlos Drummond de Andrade - Receita de Ano Novo](https://singularidadepoetica.art/2017/12/31/carlos-drummond-de-andrade-receita-de-ano-novo/): Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das […]
- [Laura Liuzzi - Fio Sem Fim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/30/laura-liuzzi-fio-sem-fim/): Chega-se, enfim, à última página embora deixe claro: não se chega ao fim. Um mesmo fio fino frágil mas firme, da mesma fibra de rio conduz memória e história: storage — está estendido para sempre e para sempre soará, suará a cada renovação do sol, mesmo quando atingirmos o final — mesmo assim não se […]
- [Alice Ruiz](https://singularidadepoetica.art/2017/12/29/alice-ruiz-s/): último dia ainda parece novo o ano que passou
- [Rainer Maria Rilke – Para recitar antes de adormecer](https://singularidadepoetica.art/2017/12/28/rainer-maria-rilke-para-recitar-antes-de-adormecer/): Eu queria cantar para dentro de alguém, sentar-me junto de alguém e estar aí. Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres. Queria ser o único na casa a saber: a noite estava fria. E queria escutar dentro e fora de ti, do mundo, da floresta. Os relógios chamam-se anunciando […]
- [Rainer Maria Rilke – Fonte Romana](https://singularidadepoetica.art/2017/12/27/rainer-maria-rilke-fonte-romana/): Vila Borghese Duas velhas bacias sobrepondo suas bordas de mármore redondo. Do alto a água fluindo, devagar, sobre a água, mais embaixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto, como que só no côncavo da mão, entremostrando um singular objeto: o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia, em […]
- [Adélia Prado – A Treva](https://singularidadepoetica.art/2017/12/26/adelia-prado-a-treva/): Me escolhem os claros do sono engastados na madrugada, a hora do Getsêmani. São cruas claras visões às vezes pacificadas, às vezes o terror puro sem o suporte dos ossos, que o dia pleno me dá. A alma desce aos infernos, a morte tem seu festim. Até que todos despertem e eu mesma possa dormir, […]
- [Anne Sexton – Frágil Fio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/25/anne-sexton-fragil-fio/): Minha fé é um grande peso suspenso por um frágil fio, como a aranha suspende seu bebê em uma fina teia, como a videira, galhos finos e madeira, sustenta as uvas como globos oculares, como muitos anjos dançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisa de muito fio para manter-Se lá, apenas uma veia […]
- [Laura Riding – Uma Gentileza](https://singularidadepoetica.art/2017/12/24/laura-riding-uma-gentileza/): Estar viva é estar curiosa. Quando perder interesse pelas coisas E não estiver mais atenta, álacre Por fatos, acabo este minguado inquérito. A morte é a condição do supremo tédio. Vou deixar que me desintegre E aí, por saber da paz que a morte traz, Seria bom seguir convencendo o destino A ser mais generoso, […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vigília](https://singularidadepoetica.art/2017/12/22/giuseppe-ungaretti-vigilia/): Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915 Toda uma noite em claro caído ao lado de um companheiro massacrado com sua boca arreganhada exposta à lua cheia com o hematoma de suas mãos cravado em meu silêncio escrevi cartas cheias de amor Não tinha nunca estado tão aferrado à vida Trad.: Nelson Ascher
- [Giuseppe Ungaretti – Não gritem mais](https://singularidadepoetica.art/2017/12/21/giuseppe-ungaretti-nao-gritem-mais/): Parem de matar os mortos, Não gritem mais, não gritem Se ouvir ainda os quiserem, Se imperecer ainda esperam. Eles, sussurro imperceptível, Não fazem mais ruído Que o mato quando cresce, Alegre, onde homem não passa. Trad.: Aurora Bernardini
- [Giuseppe Ungaretti – Peso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/20/giuseppe-ungaretti-peso/): Mariano, 29 de junho de 1916 Aquele camponês se fia na medalha de Santo Antonio e segue tranquilo Mas bem só e bem nua sem qualquer miragem carrego minha alma Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
- [Georg Trakl – Ocaso](https://singularidadepoetica.art/2017/12/19/georg-trakl-ocaso/): A Karl Borromäus Heinrich Por sobre o lago branco Partiram os pássaros selvagens. No crepúsculo sopra de nossas estrelas um vento gelado. Por sobre os nossos túmulos Inclina-se a fronte despedaçada das trevas. Sob carvalhos, balançamos numa barca prateada. Sempre ressoam os muros brancos da cidade. Sob arcos de espinhos Oh, irmão, ponteiros cegos, escalamos […]
- [Georg Trakl – Olhando um velho álbum](https://singularidadepoetica.art/2017/12/18/georg-trakl-olhando-um-velho-album/): Sempre voltas, melancolia, Mansidão da alma solitária. Por fim arde um dia dourado. Com humildade curva-se à dor o paciente Ressoando harmonia e suave loucura. Olha! Já escurece. Volta de novo a noite e um mortal lamenta-se E com ele sofre um outro. Arrepiada sob estrelas de outono, A cabeça mais baixa a cada ano.
- [Federico García Lorca – E Depois...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/17/federico-garcia-lorca-e-depois/): Os labirintos que criam o tempo se desvanecem. (Só fica o deserto.) O coração, fonte do desejo, se desvanece. (Só fica o deserto) A ilusão da aurora e os beijos se desvanecem. Só fica o deserto. Um ondulado deserto. Conheça outros livros de Federico García Lorca clicando aqui
- [Eugénio de Andrade – Adágio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/16/eugenio-de-andrade-adagio/): O Outono é isto – apodrecer de um fruto entre folhas esquecido. Água escorrendo, quem sabe donde, ocasional e fria e sem sentido.
- [José Saramago – É tão fundo o silêncio...](https://singularidadepoetica.art/2017/12/15/3933-2/): É tão fundo o silêncio entre as estrelas. Nem o som da palavra se propaga, Nem o canto das aves milagrosas. Mas lá, entre as estrelas, onde somos Um astro recriado, é que se ouve O íntimo rumor que abre as rosas.
- [José Saramago – Diz tu por mim, silêncio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/14/jose-saramago-diz-tu-por-mim-silencio/): Não era hoje um dia de palavras, Intenções de poemas ou discursos, Nem qualquer dos caminhos era nosso. A definir-nos bastava um acto só, E já que nas palavras me não salvo, Diz tu por mim, silêncio, o que não posso. Conheça outros livros de José Saramago clicando aqui
- [José Saramago – As Palavras de Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/12/13/jose-saramago-as-palavras-de-amor/): Esqueçamos as palavras, as palavras: As ternas, caprichosas, violentas, As suaves de mel, as obscenas, As de febre, as famintas e sedentas. Deixemos que o silêncio dê sentido Ao pulsar do meu sangue no teu ventre: Que palavra ou discurso poderia Dizer amar na língua da semente?
- [Ronaldo Costa Fernandes – Férias](https://singularidadepoetica.art/2017/12/12/ronaldo-costa-fernandes-ferias/): Aqui, quieto em meu canto sem mexer-me, olhando a luz higiênica do sol, penso na inutilidade cansativa de malas e hotéis para divertir-me nas férias estrangeiras. Não, só preciso da vontade, nem sempre firme, um vento estradeiro, um alarde distante de pássaros e nada além do meu corpo.
- [Dylan Thomas – E a Morte não terá nenhum Domínio](https://singularidadepoetica.art/2017/12/11/dylan-thomas-e-a-morte-nao-tera-nenhum-dominio/): E a morte não terá nenhum domínio. Nus, os mortos irão se confundir Com o homem no vento e a lua no poente; Quando seus alvos ossos descarnados se tornarem pó, Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos; Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos, Ainda que submersos pelo mar, haverão de ressurgir; Ainda […]
- [Emmanuel Santiago – Lembro-me das Madrugadas](https://singularidadepoetica.art/2017/12/10/emmanuel-santiago-lembro-me-das-madrugadas/): Lembro-me das madrugadas de Minas, quando o frio era vidro moído na carne e, lívido, o orvalho lustrava o gume das estrelas, que luziam no brilho sombrio do céu noturno (negro veludo). Através da neblina, em dança imóvel e milenar, tremulava o vulto oblíquo das montanhas. E aquilo era tudo que eu sabia do horizonte […]
- [Mario Cesariny – Os Pássaros de Londres](https://singularidadepoetica.art/2017/12/09/mario-cesariny-os-passaros-de-londres/): Os pássaros de Londres cantam todo o inverno como se o frio fosse o maior aconchego nos parques arrancados ao trânsito automóvel nas ruas da neve negra sob um céu sempre duro os pássaros de Londres falam de esplendor com que se ergue o estio e a lua se derrama por praças tão sem cor […]
- [Ruy Espinheira Filho – Canção de Depois de Tanto](https://singularidadepoetica.art/2017/12/08/ruy-espinheira-filho-cancao-de-depois-de-tanto/): a Roniwalter Jatobá Vamos beber qualquer coisa, que a vida está um deserto e o coração só me pulsa sombras de Ido e do Incerto. Vamos beber qualquer coisa, que a lua avança no mar e há salobros fantasmas que não quero visitar. Vamos beber […]
- [Ricardo Silvestrin – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/12/07/ricardo-silvestrin-sem-titulo-2/): Lá no horizonte, o ar frio. Mais perto de você, a saudade. Fotografias. Um quadro completo. Vale a pena ver só. A verdade é uma escultura, se você quiser anunciar.
- [Ruy Espinheira Filho – Canção](https://singularidadepoetica.art/2017/12/06/ruy-espinheira-filho-cancao/): Morri de pena de ti porque foi tudo outra história – não a que hoje poderias viver em minha memória. Coisas da vida. Outro conto se contou então. E, enfim, vejo que foste feliz. Morro de pena de mim.
- [Hilda Hilst – Poemas aos homens do nosso tempo III](https://singularidadepoetica.art/2017/12/05/hilda-hilst-poemas-aos-homens-do-nosso-tempo-iii/): homenagem a Natalia Gorbanievskaya Sobre o vosso jazigo — Homem político — Nem compaixão, nem flores. Apenas o escuro grito Dos homens. Sobre os vossos filhos — Homem político — A desventura Do vosso nome. E enquanto estiverdes À frente da Pátria Sobre nós, a mordaça. E sobre as vossas vidas — Homem político — […]
- [Carlos Drummond de Andrade - O Retrato Malsim](https://singularidadepoetica.art/2017/12/04/carlos-drummond-de-andrade-o-retrato-malsim/): O inimigo maduro a cada manhã se vai formando no espelho de onde deserta a mocidade. Onde estava ele, talvez escondido em castelos escoceses, em cacheados cabelos de primeira comunhão? Onde, que lentamente grava sua presença por cima de outra, hoje desintegrada? Ah, sim: estava na rigidez das horas de tenência orgulhosa, no morrer em […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Instante](https://singularidadepoetica.art/2017/12/03/sophia-de-mello-breyner-andresen-instante/): Deixai-me limpo O ar dos quartos E liso O branco das paredes Deixai-me com as coisas Fundadas no silêncio
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Fundo do Mar](https://singularidadepoetica.art/2017/12/02/sophia-de-mello-breyner-andresen-fundo-do-mar/): No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja […]
- [José Paulo Paes - Epitáfio para um banqueiro](https://singularidadepoetica.art/2017/12/01/jose-paulo-paes-epitafio-para-um-banqueiro/): Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [João Cabral de Melo Neto - A Mesa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/30/joao-cabral-de-melo-neto-a-mesa/): O jornal dobrado sobre a mesa simples; a toalha limpa, a louça branca e fresca como o pão. A laranja verde: tua paisagem sempre, teu ar livre, sol tuas praias; clara e fresca como o pão. A faca que aparou teu lápis gasto; teu primeiro livro cuja capa é branca e fresca como o pão. […]
- [Pós-Tudo (Augusto de Campos) e Postudo (Nelson Santander)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/pos-tudo-augusto-de-campos-e-postudo-nelson-santander-poesia/): Pós-Tudo, poema visual de Augusto de Campos e Postudo, de Nelson Santander, sua paródia atualizada para a pós-pós-modernidade
- [Carlos Drummond de Andrade - Quero](https://singularidadepoetica.art/2017/11/29/carlos-drummond-de-andrade-quero/): Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. Ouvindo-te dizer: Eu te amo, creio, no momento, que sou amado. No momento anterior e no seguinte, como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Escada](https://singularidadepoetica.art/2017/11/28/carlos-drummond-de-andrade-escada-poema/): Escada, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Guilherme de Almeida - Soneto XXVII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/27/guilherme-de-almeida-soneto-xxvii/): Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto. E assim fazemos, como se com isto pudéssemos varrer nosso passado. Passo, esquecido de teu olhar — coitado! Vais — coitada! — esquecida de que existo: como se nunca tu me houvesses visto, como se eu sempre […]
- [Goethe – Um Igual](https://singularidadepoetica.art/2017/11/21/goethe-um-igual/): Sobre cada monte A calma, Em cada fronde Nem sinal De brisa; calam- -se os pássaros na floresta. Espera! Em breve Descansas em paz. Trad.: André Vallias
- [Angela Lago - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/20/angela-lago-sem-titulo/): a pedra estará aqui daqui a vinte anos quem sabe mais polida embora não se veja ou mais recortada pelo vento a árvore terá crescido com sua sombra nem o céu permanece azul ou cinza rubro dorado negro no entanto tem essa criança que busca colo – que seja um cão que vem ao teu […]
- [Ana Martins Marques - Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2017/11/19/ana-martins-marques-sem-titulo/): Porque sua camiseta secou ao sol ela tem a cor do sol porque seus cabelos secaram ao vento seus pensamentos têm a velocidade do vento porque você disse “noite” sua boca terá o gosto do mar noturno porque você não conheceu meu avô você me amará menos porque não te conheci quando criança eu te […]
- [Petrarca - Soneto CXXXIII ("O Amor me Assinalou com sua Seta")](https://singularidadepoetica.art/2017/11/18/petrarca-soneto-cxxxiii-o-amor-me-assinalou-com-tua-seta/): O amor me assinalou com sua seta,como a neve ao sol, como a cera ao fogo,como névoa ao vento; e já estou rouco,dama, de humilhar-me, feito um pateta. De teus olhos o golpe mortal veio,contra o qual tempo e espaço nada são;Vêm de ti, e vês como diversão,o sol, o fogo e o vento aos […]
- [Petrarca - Soneto CCLXXII](https://singularidadepoetica.art/2017/11/17/petrarca-soneto-cclxxii/): A vida foge e não recua um passoE a morte, em grande marcha, vai em frente;As coisas do passado e do presente,Ao futuro reclamam meu espaço. A jornada que nesta vida eu traçoNa espera e na lembrança inutilmente,Por pena de mim mesmo descontenteEste caminho que ora fiz, desfaço. Se à lembrança me vem algum desejoDo […]
- [Lucrécio - Da Natureza das Coisas (de rerum natura) (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/16/lucrecio-da-natureza-das-coisas-de-rerum-natura-excerto/): Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui. Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescem Até que as conhecemos e nomeamos. Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos. Formados dos átomos que caem velozes ou lentos Vejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem; É sólido que a natureza está em nós até […]
- [Federico García Lorca - 1910 (Intermezzo)](https://singularidadepoetica.art/2017/11/15/federico-garcia-lorca-1910-intermezzo/): “1910 (Intermezzo)”, um poema de Federico García Lorca que revisita o olhar inaugural da infância para revelar, entre imagens oníricas e presságios, o vazio oculto no curso inevitável das coisas.
- [Charles Baudelaire - A Giganta](https://singularidadepoetica.art/2017/11/14/charles-baudelaire-a-giganta/): Pois quando a Natureza, em seu capricho exato, Gerava estranhos seres raros, dia a dia, Uma giganta moça – eis do eu gostaria, Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato. Ver seu corpo florir com a flor de sua alma E crescer livremente em seus terríveis jogos; Ver se não teria no […]
- [Goethe - Pensamentos Noturnos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/13/goethe-pensamentos-noturnos/): Tão belas na rútila luz soberana, Guia do navegante aflito, sem norte (E sem recompensa, divina ou humana), – Tenho dó de vocês, estrelas sem sorte, Sem jamais amar e sem saber do amor! Tangendo, incansáveis, as horas eternas Na ronda do tempo das vastas esferas, Vocês vão cumprindo percursos sem conta. Mas eu, se […]
- [Thomas Hardy - Acaso](https://singularidadepoetica.art/2017/11/12/thomas-hardy-acaso/): Se ao menos do alto me chamasse um deus De ódio, e risse: “Ó homem coisa-dor, Teu sofrimento é o júbilo dos céus, Teu deve-amor é o meu haver-rancor”, Eu me conformaria, indo ao extremo De não dobrar-me, réu de um juiz verdugo, Mas orgulhoso que um poder sumpremo Me obrigasse a gemer sob o […]
- [Giacomo Leopardi - A Noite do Dia de Festa](https://singularidadepoetica.art/2017/11/11/giacomo-leopardi-a-noite-do-dia-de-festa-poema/): A Noite do Dia de Festa, um poema de Giacomo Leopardi
- [William Carlos Williams - A Árvore sem Folhas](https://singularidadepoetica.art/2017/11/10/william-carlos-williams-a-arvore-sem-folhas/): A cerejeira sem folhas mais alta que o teto deu ano passado muita fruta. Como falar porém de fruta diante desse esqueleto? Embora possa estar vivo não há fruta nele. Por isso derrubem-no e usem a lenha contra este frio cortante. Trad.: José Paulo Paes The bare tree The bare cherry tree higher than […]
- [Ivan Junqueira - No Leito Fundo](https://singularidadepoetica.art/2017/11/09/ivan-junqueira-no-leito-fundo/): No leito fundo em que descansas, em meio às larvas e aos livores, longe do mundo e dos terrores que te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhores que te esqueceram nas andanças, longe das taças e das danças, e dos feéricos rumores; longe das cálidas crianças que ateavam fogo aos […]
- [Ivan Junqueira - de "Três Meditações na Corda Lírica"](https://singularidadepoetica.art/2017/11/08/ivan-junqueira-de-tres-meditacoes-na-corda-lirica/): Only through time time is conquered. T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terra e escuta a voz escura das raízes, do limo primitivo, da limalha fina do que […]
- [Ivan Junqueira - Lição](https://singularidadepoetica.art/2017/11/07/ivan-junqueira-licao/): À beira do claustro o monge se inclina e na pedra aprende o que a pedra ensina: que a vida é nada com a morte por cima, que o tempo apenas este fim lhe adia e que o ser carece de não ser ainda, pois à luz se esquiva do que o purifica: a doce […]
- [Ivan Junqueira - Antes que o Sol se Ponha](https://singularidadepoetica.art/2017/11/06/ivan-junqueira-antes-que-o-sol-se-ponha/): Antes que o sol se ponha e seja tarde, e o azul crepuscular me deite a garra, e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra ou mortalha que o corpo me resguarde; antes que murche a pétala na jarra, e eu cale, para sempre, sem alarde, e tudo o que me coube, por covarde, não […]
- [Attila József - Dois Fragmentos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/05/attila-jozsef-dois-fragmentos/): Igual motor já engatado, mas sem caminho a ser seguido, sou assim, e se fosse mais ousado só diria palavras sem sentido. ***** Quando se escreve um verso, ação diversa nos convém, o mar em vez de firme chão, navio em vez de trem. Quando se escreve em verso, não escrever nos convém. Trad.: Nelson […]
- [José Jorge Letria - Meditação sobre os Poderes](https://singularidadepoetica.art/2017/11/04/jose-jorge-letria-meditacao-sobre-os-poderes/): Rubricavam os decretos, as folhas tristes sobre a mesa dos seus poderes efémeros. Queriam ser reis, czares, tantas coisas, e rodeavam-se de pequenos corvos, palradores e reverentes, dos que repetem: és grande, ninguém te iguala, ninguém. Repartiam entre si os tesouros e as dádivas, murmurando forjadas confidências, não amando ninguém, nada respeitando. Encantavam-se com o […]
- [Haroldo de Campos – Ex/plicação](https://singularidadepoetica.art/2017/11/03/haroldo-de-campos-explicacao/): não há um sentido único num poema quando alguém começa a ex- plicá-lo e chega ao fim en- tão só fica o ex do ponto de partida beco (tente outra vez) sem saída
- [Charles Bukowski - Encurralado](https://singularidadepoetica.art/2017/11/02/charles-bukowski-encurralado/): bem, eles diziam que tudo terminaria assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca da palavra ouvindo os passos na escuridão, volto-me para olhar atrás de mim… ainda não, velho cão… logo em breve. agora eles se sentam falando sobre mim: “sim, acontece, ele já era… é triste…” “ele nunca teve muito, não […]
- [Charles Bukowski - Poema nos meus 43 anos](https://singularidadepoetica.art/2017/11/01/charles-bukowski-poema-nos-meus-43-anos/): terminar sozinho no túmulo de um quarto sem cigarros nem bebida — careca como uma lâmpada, barrigudo, grisalho, e feliz por ter um quarto. …de manhã eles estão lá fora ganhando dinheiro: juízes, carpinteiros, encanadores , médicos, jornaleiros, guardas, barbeiros, lavadores de carro, dentistas, floristas, garçonetes, cozinheiros, motoristas de táxi… e você se vira para […]
- [Cecilia Meireles - Cântico VI](https://singularidadepoetica.art/2017/10/31/cecilia-meireles-cantico-vi/): Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de […]
- [Ferreira Gullar - Traduzir-se](https://singularidadepoetica.art/2017/10/30/ferreira-gullar-traduzir-se/): Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe […]
- [Orides Fontela - Kant (relido)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/29/orides-fontela-kant-relido/): Duas coisas admiro: a dura lei cobrindo-me e o estrelado céu dentro de mim.
- [Frank O'Hara - Autobiographia Literaria](https://singularidadepoetica.art/2017/10/28/frank-ohara-autobiographia-literaria/): Quando era menino eu brincava sozinho num canto do pátio da escola sem ninguém. Odiava bonecas e odiava jogos, os bichos eram hostis e os pássaros fugiam. Se alguém me procurava eu me escondia atrás de uma árvore e gritava “Sou um órfão.” E olha eu aqui, o centro de toda beleza! escrevendo estes versos! […]
- [Maya Angelou - Ainda assim me Levanto](https://singularidadepoetica.art/2017/10/27/maya-angelou-ainda-assim-me-levanto/): Você pode me inscrever na história Com as mentiras amargas que contar Você pode me arrastar no pó, Ainda assim, como pó, vou me levantar Minha elegância o perturba? Por que você afunda no pesar? Porque eu caminho como se eu tivesse Petróleo jorrando na sala de estar Assim como a lua ou o sol […]
- [Emily Dickinson - Morri pela Beleza](https://singularidadepoetica.art/2017/10/26/emily-dickinson-morri-pela-beleza/): Morri pela Beleza – e assim que no Jazigo Meu Corpo foi fechado, Um outro Morto foi depositado Num Túmulo contíguo – “Por que morreu?” murmurou sua voz. “Pela Beleza” – retruquei – “Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. Nós Somos Irmãos. É uma só lei” – E assim Parentes pela Noite, […]
- [Wislawa Szymborska - O Terrorista, Ele Observa](https://singularidadepoetica.art/2017/10/25/wislawa-szymborska-o-terrorista-ele-observa/): A bomba vai explodir no bar às treze e vinte. Agora são só treze e dezesseis. Alguns ainda terão tempo de entrar; alguns de sair. O terrorista já passou para o outro lado da rua. A distância o livra de todo mal e a vista, bom, é como no cinema: Uma mulher de jaqueta amarela, […]
- [Ana Martins Marques - Penélope (I)](https://singularidadepoetica.art/2017/10/24/ana-martins-marques-penelope-i/): O que o dia tece, a noite esquece. O que o dia traça, a noite esgarça. De dia, tramas, de noite, traças. De dia, sedas, de noite, perdas. De dia, malhas, de noite, falhas.
- [Ana Martins Marques - Batata Quente](https://singularidadepoetica.art/2017/10/23/ana-martins-marques-batata-quente/): Se eu te entregasse agora o meu amor aceso como ele está, como ele está, pesado, você o trocaria rapidamente de mão, você o guardaria um pouco na esquerda, um pouco na direita, por quanto tempo antes de o passar adiante?
- [Raymond Carver - O que o Médico Disse](https://singularidadepoetica.art/2017/10/22/raymond-carver-o-que-o-medico-disse/): Ele disse não parece bom ele disse parece mau aliás muito mau ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes de parar de contar eu disse fico feliz não ia querer saber que tem mais do que isso lá ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha em bosques […]
- [Raymond Carver – Medo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/21/raymond-carver-medo/): Medo de ver a polícia estacionar à minha porta. Medo de dormir à noite. Medo de não dormir. Medo de que o passado desperte. Medo de que o presente alce voo. Medo do telefone que toca no silêncio da noite. Medo de tempestades elétricas. Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo! Medo de […]
- [Maria Cecilia Brandi – A Dança](https://singularidadepoetica.art/2017/10/20/maria-cecilia-brandi-a-danca/): Se a festa começou às dez e meia e terminou por volta das quatro teve trezentos e trinta minutos e como foram setenta e dois convidados neste meu aniversário de trinta e oito anos tive menos de cinco minutos para conversar com cada um na verdade ainda menos pois poucos chegaram no início e saíram […]
- [Cassiano Ricardo - Depois de Tudo](https://singularidadepoetica.art/2017/10/19/cassiano-ricardo-depois-de-tudo/): Mas tudo passou tão depressa Não consigo dormir agora. Nunca o silêncio gritou tanto Nas ruas da minha memória. Como agarrar líquido o tempo Que pelos vãos dos dedos flui? Meu coração é hoje um pássaro Pousado na árvore que eu fui.
- [Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer](https://singularidadepoetica.art/2017/10/17/stig-dagerman-a-nossa-necessidade-de-consolo-e-impossivel-de-satisfazer/): Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tampouco me legaram o disfarçado furor do cético, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso […]
- [Pedro Salinas - de "Presságios"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/16/pedro-salinas-de-pressagios/): 41 Estas frases de amor que se repetem tantonão são nunca as mesmas.Todas tem idêntico som,mas uma vida anima cada uma,virgem e só, se é que a percebes.E não te canses nuncade repetir as palavras iguais:sentirás a emoção que sente a almaao ver nascer a estrela primeirae ao ver que ela se multiplica, conforme a […]
- [Pedro Salinas - Não Quero que te Vás](https://singularidadepoetica.art/2017/10/15/pedro-salinas-nao-quero-que-te-vas/): Não quero que te vás,dor, última formade amar. Sinto-me vivoquando me dóis,não em ti, nem aqui,mais longe: na terra, no anode onde tu vens,no amor com elae tudo o que foi.Nessa realidadesubmersa que se negaa si mesma e insisteem nunca ter existido,que foi apenas um pretextoque encontrei para viver.Se tu não me restasses,ó dor irrefutável,até […]
- [Nicanor Parra - Perguntas e Respostas](https://singularidadepoetica.art/2017/10/14/nicanor-parra-perguntas-e-respostas/): então, tu achas que vale a pena assassinar deus se o mundo puder ser salvo? – é claro que vale a pena e vale a pena arriscar a vida por uma ideia que pode resultar falsa? – é claro que vale a pena pergunto se valerá a pena comer siri se vale a pena criar […]
- [Derek Walcott - O Amor Depois do Amor](https://singularidadepoetica.art/2017/10/13/derek-walcott-o-amor-depois-do-amor/): Um dia viráem que, eufórico,você cumprimentará a si próprio chegandoà sua porta, em seu espelhoe cada um dará ao outro um sorriso de boas-vindas, e você dirá, sente-se aqui. Coma.Você amará outra vez o estranho que foi.Sirva vinho. Reparta o pão. Restituao seu coraçãopara ele mesmo, para o estranho que um dia você amou por […]
- [Rainer Maria Rilke - A nós nos cabe andar](https://singularidadepoetica.art/2017/10/12/rainer-maria-rilke-a-nos-nos-cabe-andar/): I.22 A nós, nos cabe andar. Mas o tempo, os seus passos, são mínimos pedaços do que há de ficar. É perda pura tudo o que é pressa; só nos interessa o que sempre dura. Jovem, não há virtude na velocidade e no voo aonde for. Tudo é quietude: escuro e claridade, livro e flor. […]
- [Roger Wolfe - Pálpebra](https://singularidadepoetica.art/2017/10/11/roger-wolfe-palpebra/): Pedro Salinas disse num poema que não quer deixar de sentir a dor da ausência da mulher que ama porque isso é tudo o que dela fica: a dor. Não me recordo das suas palavras exactas. Ele di-lo melhor do que eu. Eram outros tempos. Salinas está morto. A mulher que ele amava também. Em […]
- [Mia Couto - O Espelho](https://singularidadepoetica.art/2017/10/10/mia-couto-o-espelho-2/): Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
- [Mario Benedetti - Em Pé](https://singularidadepoetica.art/2017/10/08/mario-benedetti-em-pe/): Continuo em pé por pulsar por costume por não abrir a janela decisiva e olhar de uma vez a insolente morte essa mansa dona da espera continuo em pé por preguiça nas despedidas no fechamento e demolição da memória não é um mérito outros desafiam a claridade o caos ou a tortura continuar em pé […]
- [Octavio Paz - Irmandade](https://singularidadepoetica.art/2017/10/07/octavio-paz-irmandade/): Homenagem a Claudio Ptolomeo Sou homem: duro pouco E é enorme a noite. Mas olho para cima: As estrelas escrevem. Sem entender, compreendo: Também fui escrito E neste mesmo instante Alguém me soletra.
- [Pablo Neruda - De "Cem Sonetos de Amor"](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/pablo-neruda-de-cem-sonetos-de-amor/): XII Plena mulher, maçã carnal, lua quente, Espesso aroma de algas, lodo e luz pisados, Que obscura claridade se abre entre tuas colunas? Que antiga noite o homem toca com seus sentidos? Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas, com ar opresso e bruscas tempestades de farinha: amar é um combate de […]
- [Mario Benedetti – Lento mas vem](https://singularidadepoetica.art/2017/10/06/mario-benedetti-lento-mas-vem/): Lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem hoje está mais além das nuvens que escolhe e mais além do trovão e da terra firme demorando-se vem qual flor desconfiada que vigila ao sol sem perguntar-lhe nada iluminando vem as últimas janelas lento mas vem o futuro se aproxima devagar mas vem já […]
- [Ferreira Gullar – Digo Sim](https://singularidadepoetica.art/2017/10/03/ferreira-gullar-digo-sim/): Poderia dizer que a vida é bela, e muito, e que a revolução caminha com pés de flor nos campos de meu país, com pés de borracha nas grandes cidades brasileiras e que meu coração é um sol de esperança entre pulmões e nuvens Poderia dizer que meu povo é uma festa só na voz […]
- [Adilia Lopes - Absolver (com algumas coisas de Helberto Hélder)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/25/adilia-lopes-absolver-com-algumas-coisas-de-helberto-helder/): “Mas Maria guardava todas essas coisas, conferindo-as em seu coração” Lc 2,19 Chama-se sexo a uma parte do corpo como se todo o corpo as mãos os pés a cabeça não fossem também sexo o pênis a vagina os testículos as maminhas são frágeis vulneráveis estão expostos à crueldade são flores ou musgos posso estar […]
- [Mário Chamie - Cervo, Servo](https://singularidadepoetica.art/2017/09/21/mario-chamie-cervo-servo/): 1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas, […]
- [Elizabeth Bishop - A Arte de Perder](https://singularidadepoetica.art/2017/09/20/elizabeth-bishop-a-arte-de-perder/): A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não […]
- [Paulo Henriques Britto - de "Dez Sonetoides Mancos"](https://singularidadepoetica.art/2017/09/19/paulo-henriques-britto-de-dez-sonetoides-mancos-2/): VI Nada de mergulhos. É na superfície que o real, minúsculo plâncton, se trai. Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneira do funcional. E o sofrimento, ai, esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti- nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, […]
- [Bertolt Brecht – Prazeres](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/bertolt-brecht-prazeres/): O primeiro olhar da janela de manhã O velho livro de novo encontrado Rostos animados Neve, o mudar das estações O jornal O cão A dialéctica Tomar duche, nadar Velha música Sapatos cómodos Compreender Música nova Escrever, plantar Viajar, cantar Ser amável. Trad.: Paulo César de Souza
- [Vinícius de Moraes – O Verbo no Infinito](https://singularidadepoetica.art/2017/09/18/vinicius-de-moraes-o-verbo-no-infinito/): Ser criado, gerar-se, transformar O amor em carne e a carne em amor; nascer Respirar, e chorar, e adormecer E se nutrir para poder chorar Para poder nutrir-se; e despertar Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir E começar a amar e então sorrir E então sorrir para poder chorar. E crescer, […]
- [Manuel Bandeira – Renúncia](https://singularidadepoetica.art/2017/09/17/manuel-bandeira-renuncia/): Chora de manso e no íntimo… Procura Curtir sem queixa o mal que te crucia: O mundo é sem piedade e até riria Da tua inconsolável amargura. Só a dor enobrece e é grande e é pura. Aprende a amá-la que a amarás um dia. Então ela será tua alegria, E será, ela só, tua […]
- [Carlos Drummond de Andrade – Encontro](https://singularidadepoetica.art/2017/09/16/carlos-drumond-de-andrade-encontro/): Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho. Se a noite me atribui poder de fuga, sinto logo meu pai e nele ponho o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madruga e seu rosto, nem triste nem risonho, é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga suor […]
- [Sylvia Plath - A Redoma de Vidro (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2017/09/14/sylvia-plath-a-redoma-de-vidro-excerto/): “Eu vi minha vida estendendo seus galhos em minha frente como a figueira verde da história. Da ponta de cada ramo, como um figo roxo e grande, um maravilhoso futuro acenava e piscava. Um figo era um marido e um lar feliz e filhos, e outro figo era uma famosa poetisa e outro figo era […]
- [Nicanor Parra – Cartas a uma Desconhecida](https://singularidadepoetica.art/2017/09/13/nicanor-parra-cartas-a-uma-desconhecida/): Quando passarem os anos, quando passarem os anos e o ar tenha cavado um fosso entre tua alma e a minha; quando passarem os anos e eu só seja um homem que amou, um ser que se deteve um instante diante de teus lábios, um pobre homem cansado de andar pelos jardins, onde estarás tu? […]
- [Nicanor Parra – Acácias](https://singularidadepoetica.art/2017/09/12/nicanor-parra-acacias/): Passeando anos atrás por uma rua cheia de acácias em flor soube por um amigo bem informado que você tinha acabado de se casar. Respondi que por certo eu não tinha nada a ver com o assunto. Mas apesar de nunca ter amado você – e disso você sabe melhor do que eu – cada […]
- [Merrit Malloy - Epitáfio](https://singularidadepoetica.art/2020/03/02/merrit-malloy-epitafio/): Quando eu morrerDoa o que restar de mimÀs criançasE aos idosos que esperam para morrer. E se precisares chorar,Chora por teu irmãoQue caminha pela rua ao teu lado.E quando precisares de mim,Põe teus braçosEm volta de alguémE dá-lhe o que tens a me oferecer. Quero deixar-te algo,Algo melhorQue palavrasOu sons. Busca por mimNas pessoas que conheciOu amei,E se não puderes me doarAo menos deixa-me viver em teus olhosE não em teus pensamentos. Podes me amar maisPermitindo que as mãosToquem as mãos,Que os corpos toquem os corpos,E deixando irAs criançasQue precisam ser livres. O amor não morre,As pessoas sim.Portanto, quando tudo que […]
- [José Emílio Pacheco - Crianças e adultos](https://singularidadepoetica.art/2020/03/01/jose-emilio-pacheco-criancas-e-adultos/): Aos dez anos, acreditavaque o mundo era dos adultos.Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,ir aonde quisessem.Sobretudo, nos esmagar com seu poder indomável. Agora sei, por vasta experiência, o lugar-comum:em verdade, não há adultos,apenas crianças envelhecidas. Desejam o que não têm:o brinquedo do outro.Sentem medo de tudo.Obedecem sempre a alguém.Não governam a própria existência.Choram por qualquer motivo. Mas não são valentes como eram aos dez anos:fazem-no à noite e em silêncio e sozinhos. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Niños y adultos A los diez […]
- [Juan Vicente Piqueras - Papoulas](https://singularidadepoetica.art/2020/02/29/juan-vicente-piqueras-papoulas/): No antigo campo de batalha onde morreram milhares de meninos cresce novamente o trigo, salpicado aqui e ali de ardentes papoulas. E dois amantes, que terão mais ou menos a idade dos soldados que aqui então morreram, hoje fazem amor no semeado. Deitam o trigo. Calcam as papoulas. Trad.: Nelson Santander Amapolas Sobre el antiguo campo de batalla donde murieron miles de muchachos vuelve a crecer el trigo, salpicado aquí y allá de ardientes amapolas. Y dos enamorados, que tendrán más o menos la edad de los soldados que aquí entonces murieron, hoy hacen el amor en el sembrado. Tumban el […]
- [Louise Glück - Outubro](https://singularidadepoetica.art/2020/02/28/louise-gluck-outubro/): 1. É inverno outra vez, faz frio outra vez, Frank não escorregou no gelo, ele não se curou, não se plantaram as sementes da primavera a noite não terminou, o gelo derretido não inundou as calhas estreitas meu corpo não foi resgatado, não era seguro não se formou a cicatriz, invisível sobre a lesão terror e frio, eles não cessaram, o jardim dos fundos não foi preparado nem semeado – lembro-me de como a terra sentiu, roxa e densa, em rígidas fileiras, as sementes que não foram plantadas, as videiras que não escalaram o paredão sul. não consigo ouvir a voz […]
- [Raquel Lanseros - A propósito de Eros](https://singularidadepoetica.art/2020/02/27/raquel-lanseros-a-proposito-de-eros/): De todas as terrenas servidões que aprisionam meu afã neste cárcere confesso-me devedora da carne e de todos os seus íntimos vaivéns que me fazem mais feliz e menos livre. Às vezes, porém, a escravidão se mostra soberana e me sinto senhora do destino. Porque sei amar, porque provei da fruta e nunca maldisse o seu sabor agridoce, porque posso oferecer meu coração intacto se o caminho se digna em requere-lo, porque suporto em pé, com humilde firmeza, o rigor deste fogo que enlouquece. Neste fragor mudo em que todos somos rufiões, vagabundos, despossuídos e presos não existem vencedores nem vencidos […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - O material do relâmpago](https://singularidadepoetica.art/2020/02/26/jorge-valdes-diaz-velez-o-material-do-relampago/): Calculaste em detalhes cada passo, sutil, há muitos séculos. Finalmente teu marido viajou e as crianças foram dormir com os avós. Estás agora sozinha e eufórica voltaste-te a se maquiar e vestiste-te de preto rigoroso e perfumaste tua mínima porção de lingerie. Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada te fará voltar atrás. Olhas tua imagem levantada nos saltos, desafiadora. Tu e a noite são jovens e belas como uma tempestade que se aproxima. Trad.: Nelson Santander Materia del relámpago Calculaste al detalle cada paso, sutil, desde hace siglos. Finalmente tu esposo está de viaje y tus pequeñas se fueron […]
- [Carlos Drummond de Andrade - Dentaduras duplas](https://singularidadepoetica.art/2020/02/25/carlos-drummond-de-andrade-dentaduras-duplas/): Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos… Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. (Coroas sem reino, os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura, dentadura múltipla, a serra mecânica, sempre desejada, jamais possuída, que acabará com o tédio da boca, a boca que beija, a boca romântica?…) Resovin! Hecolite! Nomes de países? Fantasmas femininos? Nunca: dentaduras, engenhos modernos, práticos, higiênicos, a vida habitável: a boca mordendo, os delirantes lábios apenas entreabertos num sorriso técnico e a língua especiosa através dos dentes buscando outra língua, afinal sossegada… A serra mecânica não tritura amor. […]
- [T. S. Eliot - A Viagem dos Magos](https://singularidadepoetica.art/2020/02/24/t-s-eliot-a-viagem-dos-magos/): “Foi um frio que nos colheu Na pior quadra do ano Para uma viagem, e longa era a viagem: Os caminhos enlameados e o tempo adverso Em pleno coração do inverno.” E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis, Jaziam em meio à neve derretida. Foram momentos em que recordamos Os palácios estivais sobre os penhascos, os terraços, As sedosas meninas que nos traziam afrodisíacos. E depois os cameleiros que imprecavam e maldiziam E desertavam, e exigiam fêmeas e aguardente. E os fogos da noite em bruxuleio, a falta de apriscos, As cidades hostis, as vilas inóspitas, As aldeias sujas […]
- [Blas de Otero - Ímpeto](https://singularidadepoetica.art/2020/02/23/blas-de-otero-impeto/): Mas nem tudo há de ser ruína e vazioE nem tudo escombro ou descongelação.Por cima deste ombro levo o céu,e por cima deste outro, um vasto rio de entusiasmo. E meu corpo no meio,árvore luzente gritando do chão.E, entre raízes mortais, sofreguidão,meu coração desperto, raio sombrio. Somente o anseio me vence. Mas avançosem duvidar, sobre abismos infinitos,com a mão estendida: se não alcanço com minha mão, hei de alcançar com gritos!e sigo, sempre, de pé, e assim, me lançoàs águas dos apetites que habito. Trad.: Nelson Santander Ímpetu Mas no todo ha de ser ruina y vacío.No todo desescombro ni deshielo.Encima […]
- [Mary Oliver - O quarto signo do zodíaco](https://singularidadepoetica.art/2020/02/22/mary-oliver-o-quarto-signo-do-zodiaco/): 1. Porque eu deveria ter ficado surpresa? Caçadores percorrem a floresta sem um som. O caçador, armado com seu rifle, a raposa com seus pés de seda, a serpente em seu império de músculos — todos se movem em silêncio, famintos, cuidadosos, atentos. Exatamente como o câncer entrou na floresta do meu corpo, sem um som. 2. A questão é, como será depois do último dia? Irei flutuar pelo céu ou me desgastarei na terra ou em um rio — sem lembrar de nada? Quão desesperada eu ficaria se não conseguisse lembrar-me do nascer do sol, se não conseguisse lembrar-me das […]
- [Robert Hayden - Aqueles domingos de inverno](https://singularidadepoetica.art/2020/02/21/robert-hayden-aqueles-domingos-de-inverno/): Também aos domingos meu pai acordava cedo e vestia suas roupas no frio azul escuro, depois, com as mãos rachadas doloridas do trabalho no tempo durante a semana, ele fazia os fogos empilhados arderem. Ninguém nunca o agradeceu. Eu acordava e ouvia o frio se partindo em fragmentos. Quando as salas ficavam aquecidas, ele me chamava, e lentamente eu me levantava e me vestia, temendo a raiva crônica daquela casa, Falava indiferentemente com ele, que havia expulsado o frio e também engraxado meus sapatos bons. O que sabia eu, o que sabia eu dos austeros e solitários ofícios do amor? Trad.: […]
- [Marisa de la Peña - O tempo que nos resta](https://singularidadepoetica.art/2020/02/20/marisa-de-la-pena-o-tempo-que-nos-resta/): “Somos o tempo que nos resta” J. M. Caballero Bonald. É isso o que somos: o tempo que nos resta, o último batimento interrompido, a palavra não dita, o deserto cruzado, e o caminho sem nome que deixamos para trás. Somos o abandono, a intempérie, as luzes apagadas, e as portas, fechadas para sempre, ao fim de um adeus forjado nos costumes. Mas somos o tempo que nos resta, a voz que não se apaga, a enxada que ainda golpeia, sem se render, o poema não escrito, a ópera inacabada de Puccini, a derrota assumida, mastigada. E o que nos resta […]
- [Ricardo Aleixo - Geral](https://singularidadepoetica.art/2020/02/19/ricardo-aleixo-geral/): O jo go é tão sujo e você (entre bis onho e biz arro) torce justo para o juiz?
- [André Vallias - as instituições estão funcionando](https://singularidadepoetica.art/2020/02/18/andre-vallias-as-instituicoes-estao-funcionando/)
- [Rubén Darío - Quando vieres a amar](https://singularidadepoetica.art/2020/02/17/ruben-dario-quando-chegares-a-amar/): "Quando vieres a amar", um poema de Rubén Darío que apresenta o amor como experiência paradoxal de luz e sombra, felicidade e dor, afirmando sua natureza inevitável e a impossibilidade de viver plenamente sem ele.
- [Juan Vicente Piqueras - Ristorante dal 1882–](https://singularidadepoetica.art/2020/02/16/juan-vicente-piqueras-ristorante-dal-1882/): Ristorante dal 1882–leio no cardápio e me ponho a pensarque numa noite, há mais de um século,numa noite igual a esta,houve um grupo de amigos que aqui jantou,como nós fazemos agora,e riram, conversaram, passaram o sal,mais ou menos felizes, fugazes, encantadosde estarem juntos rindocomo nós fazemos agora,e que nenhum deles vive maise agora somos nós,os que reservamos esta grande mesaneste restauranteque tanto apreciamos por ser antigo,o ar fantasma do garçom,e o cozinheiro que nunca vimose que tanto admiramospor seu saber nos fazer esquecercom sabores sagrados, requintados,que esta poderia ser perfeitamentenossa última ceia. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - O primeiro homem](https://singularidadepoetica.art/2020/02/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-o-primeiro-homem/): Era como uma árvore da terra nascida Confundindo com o ardor da terra a sua vida, E no vasto cantar das marés cheias Continuava o bater das suas veias. Criados à medida dos elementos A alma e os sentimentos Em si não eram tormentos Mas graves, grandes, vagos, Lagos Refletindo o mundo, E o eco sem fundo Da ascensão da terra nos espaços Eram os impulsos do seu peito Florindo num ritmo perfeito Nos gestos dos seus braços.
- [Alfonso Brezmes - Notas marginais](https://singularidadepoetica.art/2020/02/14/alfonso-brezmes-notas-marginais/): Leia "Notas marginais", de Alfonso Brezmes, um poema delicado sobre memória, releitura e as transformações silenciosas provocadas pelo tempo.
- [Wislawa Szymborska - Para o meu próprio poema](https://singularidadepoetica.art/2020/02/13/wislawa-szymborska-para-o-meu-proprio-poema/): Na melhor das hipóteses, meu poema, você será lido atentamente, comentado e lembrado. Na pior das hipóteses somente lido. Terceira possibilidade – embora escrito, logo jogado no lixo. Você pode se valer ainda de uma quarta saída – desaparecer não escrito murmurando satisfeito algo para si mesmo. Trad.: Regina Przybycien Do własnego wiersza W najlepszym razie będziesz, mój wierszu, uważnie czytany, komentowany i zapamiętany. W gorszym przypadku tylko przeczytany. Trzecia możliwość – wprawdzie napisany, ale po chwili wrzucony do kosza. Masz jeszcze czwarte wyjście do wykorzystania – znikniesz nienapisany, z zadowoleniem mrucząc coś do siebie.
- [Carlos Montemayor - Memória](https://singularidadepoetica.art/2020/02/12/carlos-montemayor-memoria/): Estou aqui, em casa, a sós.Aqui estão os móveis, o ar, os ruídos.Tenho um sentimento tão transparentequanto a vidraça de uma janela.É como a janela pela qual olhava a neve ao amanhecer,há muitos anos, quando criança,e colava o rosto contra o vidro e compreendia toda a vida.É um desejo calmo, como a tarde.É estar como estão todas as coisas.Ter meu lugar como tudo o que há na casa.Perdurar pelo tempo que for, como as coisas.Não ser mais nem melhor que elas.Apenas ser, em meio à minha vida,parte do silêncio de todas as coisas. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - S.T.T.R. Sit Tibi Terra Levis](https://singularidadepoetica.art/2020/02/11/jorge-valdes-diaz-velez-s-t-t-r-sit-tibi-terra-levis/): Hoje lembro os mortos da minha casaOctavio Paz De todos os nossos mortos, jamais esqueceremoso primeiro. O meu habita a raiz do outono,sob os álamos. Sua memóriame oferece uma murta enquanto se inclinacom os braços abertos de outros dias. Lembrode sua estatura nas sombras, prestes a afastar-sedo espelho, seu rosto velado, o ornamentodas obstinadas lições de algum piano. Cruzou,em uma tarde sem sol, a linha que unea vida à morte. Seu corpo era a ausênciapresente, o nome sem ser nomeado. Foi o primeiromorto a morrer subitamente, e para semprehaverá de sê-lo. O menino que fui então agorao distingue sentado no peitoril […]
- [Gonçalo M. Tavares - O idiota](https://singularidadepoetica.art/2020/02/10/goncalo-m-tavares-o-idiota/): Os irmãos com saúde,os meus pais vivos,um pouco deprimidos, mas lúcidos e vivos.Uma mulher que me espera à porta, e sorri,um bebê com um ano e meio, uma rapariga, vem aí outra;quando regresso a minha mulher recebe-me a sorrir com uma barriga grande. Um café, outro,o caderno preto à minha frente, o tempo,nada para fazer a não ser por dentro, os sentimentos tranquilos.O estômago calmo: tenho mais dinheiro que fome (é sempre um equilíbrio entre dois pesos).Os empregados de um lado para outro, a atender à sede dos outros, aos caprichos.Ao meu lado direito um vidro: vejo os vivosem passo apressado a cumprimentarem-se;as ações urgentes, obrigatórias (as que […]
- [T. E. Hulme - Outono](https://singularidadepoetica.art/2020/02/09/t-e-hulme-outono/): Um fio de frio na noite outonal —Fui para o quintalE vi a lua rubra inclinar-se sobre o folharalComo um rancheiro de rosto rosado.Não parei para falar, mas dei aval,E ao redor estavam as tristes estrelasCom pálidas faces como crianças da cidade. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Autumn A touch of cold in the Autumn night —I walked abroad,And saw the ruddy moon lean over a hedgeLike a red-faced farmer.I did not stop to speak, but nodded,And round about were the wistful starsWith white […]
- [Charles Simic - O dicionário](https://singularidadepoetica.art/2020/02/08/charles-simic-o-dicionario/): Talvez haja uma palavra em algum lugarpara descrever o mundo nesta manhã,uma palavra para o jeito como a primeira luzse deleita em perseguir as sombraspelas vitrines e entradas das lojas. Outra palavra para o modo como ela se detémsobre um par de óculos de aros finosque alguém deixou cair na calçadana noite passada e cambaleou às cegas,falando sozinho ou começando a cantar. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog The dictionary Maybe there is a word in it somewhereto describe the world this morning,a word for […]
- [Lope de Vega - Desmaiar, ousar, ficar furioso](https://singularidadepoetica.art/2020/02/07/lope-de-vega-desmaiar-ousar-ficar-furioso/): Desmaiar, ousar, ficar furioso,áspero, terno, generoso, esquivo,entretido, mortal, defunto, vivo,leal, falso, covarde e corajoso; não achar, para além, paz e repouso,mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,irritado, valente, fugitivo,satisfeito, ofendido, receoso; furtar o rosto ao claro desengano,sorver veneno por licor suave,esquecer o proveito, amar o dano; crer que um céu em um inferno cabe,dar a vida e a alma a um desengano;isto é amor, quem o provou o sabe. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Desmayarse, atreverse, estar furioso Desmayarse, atreverse, estar furioso,áspero, tierno, liberal, esquivo,alentado, mortal, […]
- [Juan Vicente Piqueras - História universal](https://singularidadepoetica.art/2020/02/06/juan-vicente-piqueras-historia-universal/): Um homem nasce chora cresce risofre e faz sofrer caminha cantatem sede fome frio medose perde extravasa arde sorri. Um homem sozinho no meio da noiteassobia para domar as bestas que o habitam. Abraça empurra mata beija morrese cansa de si mesmo se apaixonase entrega à vida sabe que se findaque o que é escoa por entre os dedos. Um homem olha o céu as nuvens e se dizem silêncio o quão brevebela e fugidia foi a vida. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Historia […]
- [Hugo Mujica – Há escassos dias](https://singularidadepoetica.art/2020/02/05/hugo-mujica-ha-escassos-dias/): Há escassos dias morreu meu pai,há muito tempo atrás. Caiu suavemente,como as pálpebras ao chegara noite, ou uma folhaque o vento não arranca, embala. Hoje não é como outras chuvas,hoje chove pela primeira vezsobre o mármore de sua lápide. Sob cada chuvapoderia ser eu quem jaz, agora eu sei,agora que morri em outro. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Hace apenas días Hace apenas días murió mi padre,hace apenas tanto. Cayó sin peso,como los párpados al llegarla noche o una hojacuando el viento no arranca, […]
- [Joan Margarit - A aventura](https://singularidadepoetica.art/2020/02/04/joan-margarit-a-aventura/): Quando me ausento por um momento, ao finalizaruma inspeção de obra em algum bairro estranhoe entro para tomar café em um pequeno baronde não me conhecem, penso que soualguém que parte para não mais voltar.Quando me refugio no vaziode um entreato e procuro a escadaque leva aos banheiros,sinto que ali poderia começar minha ausência.Instantes que são fendas para o frio.Imagino as ruas que sempre nos aguardamem futuros perdidos dentro de um só instante.Ao redor está a eternidade:atravessamo-la velozesneste trem blindado que é o tempo.A eternidadese move tão devagar que a luana janela é a mesma da infância.Não sei o que mais […]
- [Ernesto Pérez Vallejo – A garota de preto](https://singularidadepoetica.art/2020/02/03/ernesto-perez-vallejo-a-garota-de-preto/): Hoje eu podia ter-me apaixonado por ti, apesar de tuas botas sem salto, podia até ter-te beijado assim, com o mar ao fundo, os beijos aos domingos têm um sabor distinto, mais intenso. Podia ter-te levado pelas mãos até a praia e ter-te despido docemente enquanto me ajoelhava na terra e perfumava o meu nariz. Nunca o mar teria visto nada tão erótico, nem ela, com seu biquíni laranja. Hoje eu podia ter feito muitas coisas contigo mas tenho medo do desconhecido e embora tenhas me falado o teu nome não foi suficiente. Trad.: Nelson Santander La chica de negro Hoy […]
- [Wislawa Szymborska - Metafísica](https://singularidadepoetica.art/2020/02/02/wislawa-szymborska-metafisica/): Foi-se, acabou-se. Foi-se, então acabou-se. Numa sequência sempre irreversível, pois essa é a regra desse jogo perdido. Conclusão banal, que já não vale escrever, não fosse um fato incontestável, um fato pelos séculos dos séculos, por todo o cosmos, como é e será, de que algo realmente foi, até que se acabou, menos isso de você hoje ter comido arroz com feijão. Trad.: Regina Przybycien Metafizyka Było, minęło. Było, więc minęło. W nieodwracalnej zawsze kolejności, bo taka jest reguła tej przegranej gry. Wniosek banalny, nie wart już pisania, gdyby nie fakt bezsporny, fakt na wieki wieków, na cały kosmos, jaki jest […]
- [Jenny Joseph - Advertência](https://singularidadepoetica.art/2020/02/01/jenny-joseph-advertencia/): Quando estiver velha, usarei roxoCom um chapéu vermelho que não combina e que não me cai bem.E torrarei minha aposentadoria em conhaques e luvas de verãoe sandálias de cetim, e direi que não temos dinheiro para manteiga.Sentarei na calçada quando me cansarE provarei amostras nas lojas e tocarei as campainhasE correrei minha bengala pelas grades públicasE compensarei a sobriedade de minha juventude.Sairei de chinelos na chuvaE colherei flores dos jardins de outras pessoasE aprenderei a cuspir. Você pode vestir camisetas horrorosas e cultivar mais gorduraE comer três quilos de salsicha de uma só vezou apenas pão com picles por uma semanaE […]
- [Hugo Vera Miranda – Os cavaleiros do apocalipse](https://singularidadepoetica.art/2020/01/31/hugo-vera-miranda-os-cavaleiros-do-apocalipse/): Como defender-se dos furtivos invernos que aninham as moradas obscuras do desejo? Como voltar por um instante ao tempo feroz da infância onde um velho com cara de sapo solta pombas enquanto o trem passa? Como decifrar a carícia longínqua que agora atormenta a insônia? Vamos ficando sozinhos, cercados por demônios dançarinos e um tiro de misericórdia que produzirá efeitos tão logo cruzemos o umbral da esperança. Trad.: Nelson Santander Los jinetes del apocalipsis ¿Cómo defenderse de los solapados inviernos que anidan las moradas oscuras del deseo? ¿Cómo volver por un instante al tiempo feroz de la infancia donde un viejo […]
- [Joan Margarit - Noite escura na rua Balmes](https://singularidadepoetica.art/2020/01/30/joan-margarit-noite-escura-na-rua-balmes/): Cumpridas as ameaças e temores — hoje já todas as ruas levam à velhice —, passo defronte à clínica em que tu nasceste, vinte e seis anos atrás, em uma noite de corredores feridos pela luz. Aqui foi a tua chegada, pequena e indefesa, à praia feliz do teu sorriso, à dificuldade da palavra, às escolas que não te quiseram, aos ossos cansados, à calma cruel e aparente dos corredores que observam batas brancas silenciosas com o frio burburinho dos anjos. Polegares torcidos, o nariz como bico de pássaro e as desordenadas linhas da mão: nossas fisionomias e, ao mesmo tempo, […]
- [Marianne Moore - Uma água-viva](https://singularidadepoetica.art/2020/01/29/marianne-moore-uma-agua-viva/): Visível, invisível, uma flutuante sedução que uma ametista cor de âmbar habita, se aproximam seus tentáculos, abrem e fecham; você pretendia pega-los e eles tremem; você abandona este intento. Trad.: Nelson Santander A Jelly-Fish Visible, invisible, a fluctuating charm an amber-tinctured amethyst inhabits it, your arm approaches and it opens and it closes; you had meant to catch it and it quivers; you abandon your intent.
- [Antonia Pozzi - Erros](https://singularidadepoetica.art/2020/01/28/antonia-pozzi-erros/): Cai graciosamente a neve sobre os cestos das floristas: embranquece os junquilhos e as violetas, as delicadas frésias vindas dos países do sol. Ao vê-las pensamos nos muitos destinos errados que sofrem pelos caminhos da terra e um furor nostálgico investe pelos caminhos de ouro da alma aonde não chega a neve. Trad.: Inês Dias Errori Fiocca la neve leggiadramente sui cesti delle fioraie: imbianca le giunchiglie e le viole, le fresie magre, venute dai paesi del sole. A guardarle si pensa dei tanti destini errati che dolgono per le vie della terra ed un furore nostalgico serra per le vie […]
- [Rodrigo da Silva - Chegará um dia em que o seu coração parará de bater](https://singularidadepoetica.art/2020/01/27/rodrigo-da-silva-chegara-um-dia-em-que-o-seu-coracao-parara-de-bater/): Chegará um dia em que o seu coração parará de bater. A sua pupila dilatará. A sua pele ficará pálida e a sua temperatura corporal esfriará. Você ficará inteiramente esquálido; e então roxo. O seu sangue se tornará mais ácido com o acúmulo de dióxido de carbono. E as suas células começarão a se dividir, esvaziando as enzimas dos tecidos. O cálcio endurecerá os seus músculos. E o seu corpo passará a exalar um odor acre, fruto de uma mistura química constituída por mais de quatrocentos compostos orgânicos. Tudo o que constitui a sua existência entrará em colapso – o que […]
- [Eloy Sánchez Rosillo – O segredo](https://singularidadepoetica.art/2020/01/26/eloy-sanchez-rosillo-o-segredo/): Se por acaso a alegria se assuste e se apresse em me deixar, eu a escondo das pessoas e não digo a ninguém que veio à minha casa depois de muito tempo. Falo com ela, e com frequência vê-la de novo tão próxima me faz chorar, e rio. Depois a deixo sozinha e vou para a rua muito sério. A ninguém direi que veio a minha casa. Espero que aqui esteja quando eu voltar. Trad.: Nelson Santander El secreto Por si acaso se asusta la alegría y se apresura a irse, se la escondo a la gente y no le digo […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Naquele agora](https://singularidadepoetica.art/2020/01/25/jorge-valdes-diaz-velez-naquele-agora/): As chances de encontrar-te novamente eram remotas. Uma em um bilhão. E havendo infinitos lugares dispersos pelos números de um cálculo improvável, quem imaginaria que eu te veria naquela cantina, transformando-te na luz daqueles tempos felizes, ou isso quiseram crer, anos atrás, aqueles dois que fomos. Estavas ali, de repente e sem aviso prévio, com um tímido sorriso, apoiando-se no ombro de um cara de aspecto desprezível que poderia ter sido eu. Não reconheceste meu rosto entre as pessoas do bar. Embora talvez, suponho, pretendias saber onde e quando viste minhas feições, em que lugar mais recente fizeste uma parada, sob […]
- [Wislawa Szymborska - Terroristas](https://singularidadepoetica.art/2020/01/24/wislawa-szymborska-terroristas/): Dias inteiros eles ficam pensando como matar, para matar, e quantos matar para matar muitos. Fora isso comem com apetite, rezam, lavam os pés, alimentam os pássaros, dão telefonemas coçando o sovaco, estancam o sangue quando machucam o dedo, se são mulheres, compram absorventes, sombra para as pálpebras, flores para os vasos, todos gracejam um pouco quando de bom humor, bebem suco cítrico da geladeira, à noite olham a lua e as estrelas, colocam fones de ouvido com música suave e adormecem gostosamente até a aurora — a menos que o que estão pensando devam fazer à noite. Trad.: Regina Przybycien […]
- [Ivan Junqueira – Vésperas](https://singularidadepoetica.art/2020/01/23/ivan-junqueira-vesperas/): A tarde descortina uma paisagem híspida: no galho seco, o ninho é uma inútil relíquia que a luz do sol calcina até a estrita cinza. Gota a gota, o alambique das horas se esvazia, e dilui-se a vertigem do álcool que lhe mordia as veias retorcidas. Êxtase da agonia no crepúsculo a pino. Sob o céu que definha, alguém lê, num papiro, o que afligiu o espírito de Plotino e Agostinho, e relembra a lascívia do fogo que engoliu Cartago e Alexandria.
- [Rui Caeiro - Espero um dia](https://singularidadepoetica.art/2020/01/22/rui-caeiro-espero-um-dia/): Espero um dia ter de esperar-te, com a ansiedade dos que perderam tudo ou quase, menos talvez a memória E espero humildemente vir a merece-te, cometer um ato heroico e merecer-te, ser outra e a mesma pessoa – e merecer-te Espero estar bem triste para quando enfim chegares poder dar-te o mais autêntico: a memória, a tristeza Espero a grande disponibilidade de poder esperar à vontade quero o espaço, todo o espaço – e muita falta de ar Espero a paciência de adivinhar-te e a sufocação de ver-te ou a graça de poder continuar à espera – indefinidamente Espero, ardentemente espero […]
- [Geruza Zelnys - descomedimentos](https://singularidadepoetica.art/2020/01/21/geruza-zelnys-descomedimentos/): que venha abaixo tudo que venha abaixo o que é tempestade e destruição que não sobre embarcação e vela que os raios queimem plantações e trovões arrebentem toda a terra e teu corpo se deite sobre o meu e tua boca mate toda fome minha e que versos & palavras do amor sejam ditos bem ditos mal ditos que venha abaixo a TEMPESTADE porque onde se viu tempestadezinha homeopática administrada passiflora a conta gotas? Aqui: http://geruzazelnys.blogspot.com/2013/10/descomedimentos.html
- [Luis Alberto de Cuenca - Só o silêncio salva](https://singularidadepoetica.art/2020/01/20/luis-alberto-de-cuenca-so-o-silencio-salva/): Só o silêncio salva, companheiro. Só o silêncio salva. Se tiveste uma noite gloriosa em que Afrodite sorriu para ti e Baco encheu-te a taça sem cessar, pensa que em breve, quando e noite se for, teus amigos voltarem para casa e começar a amanhecer, só o silêncio te salvará, rapaz. Tem isso em conta. Trad.: Nelson Santander Sólo el silencio salva Sólo el silencio salva, compañero. Sólo el silencia salva. Si has tenido una noche gloriosa en que Afrodita te ha sonreído y Baco te ha llenado la copa sin cesar, piensa que luego, cuando la oscuridad se desvanezca, tus […]
- [Arnaldo Antunes, Fernando Laszlo e Walter Silveira - Fome de Sede](https://singularidadepoetica.art/2020/01/19/arnaldo-antunes-fernando-laszlo-e-walter-silveira-fome-de-sede/)
- [Antonia Pozzi - Morte de uma estação](https://singularidadepoetica.art/2020/01/18/antonia-pozzi-morte-de-uma-estacao-2/): Choveu toda a noite sobre as memórias do verão. Ao anoitecer saímos no meio de um ribombar lúgubre de pedras e, parados na margem, levantamos as lanternas para explorar o perigo das pontes. Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas ensopadas e pousadas sobre os fios à espreita de indícios secretos de partida – e refletiam-nas na terra as fontes com os rostos desfeitos. Trad.: Inês Dias Morte di una stagione Piovve tutta la notte sulle memorie dell’estate. Al buio uscimmo entro un tuonare lugubre di pietre, fermi sull’argine reggemmo lanterne a esplorare il pericolo dei ponti. All’alba pallidi vedemmo le rondini […]
- [Dan Fante - [Eu conheci o mais faminto]](https://singularidadepoetica.art/2020/01/17/dan-fante-eu-conheci-o-mais-faminto/): Eu conheci o mais faminto e desprezível dos gatos enquanto sentava com um livro e meio maço de cigarros num banco em Venice Beach Ele me viu e apareceu branco sujo com um olho verde e outro amarelo e um corte recente em sua orelha desfigurada Furioso como um lobo ferido ele estabeleceu uma distância e seu olhar dizia, me alimente ou dê o fora o banco em que você está é meu território O que ele não sabia é que eu também conheço o desespero e a loucura e o que o vazio e a solidão e a raiva podem […]
- [Dylan Thomas - Colina de samambaias](https://singularidadepoetica.art/2020/01/16/dylan-thomas-colina-de-samambaias/): Quando, junto à casa em festa, sob os ramos da macieira, Eu era lépido e jovem, e feliz como era verde a relva, A noite suspensa sobre as estrelas do desfiladeiro, O tempo a permitir que eu gritasse e me erguesse, Dourado, no fulgurante apogeu de seus olhos, Eu, venerado entre as carroças, era o príncipe da cidade das maçãs, E certa vez, com orgulho, fiz com que as árvores e as folhas Se arrastassem com margaridas e cevada Até os rios iluminados pelos frutos caídos sobre a terra. E como era moço e descuidado, famoso entre os celeiros Ao redor […]
- [Wislawa Szymborska - Vida difícil com a memória](https://singularidadepoetica.art/2020/01/15/wislawa-szymborska-vida-dificil-com-a-memoria/): Sou um péssimo público para a minha memória.Ela quer que eu ouça sua voz incessantemente,mas eu me agito, tusso,ouço e não ouço,saio, volto e saio de novo. Ela requer todo o meu tempo e atenção.Quando durmo, é fácil para ela.De dia já nem tanto, o que a magoa. Me propõe zelosamente velhas cartas, fotos,revolve fatos importantes e desimportantes,devolve a vista para paisagens ignoradas,e povoa-as com os meus mortos. Nos seus relatos sou sempre mais jovem.Isso é bom, mas por que sempre essa história?Cada espelho me dá outras notícias. Irrita-se quando dou de ombros.E então se vinga remexendo todos os meus erros,graves, […]
- [A Íris Selvagem, de Louise Glück](https://singularidadepoetica.art/2020/01/14/a-iris-selvagem-sumario/): Há livros que não se deixam atravessar como uma sequência de poemas isolados. A Íris Selvagem, de Louise Glück, é um deles. O livro se passa num jardim, mas esse jardim não é cenário. É um lugar de vozes. Flores falam. Uma consciência humana pergunta, insiste, se cansa. Uma presença divina responde, se afasta, corrige, às vezes parece recusar o consolo que esperamos dela. Ler A Íris Selvagem é entrar nesse espaço aos poucos. A cada poema, alguma coisa retorna: a manhã, a oração, a luz, o silêncio, a morte, a vida que insiste em reaparecer. Nada ali é apenas delicado. […]
- [Louise Glück - Os lírios brancos](https://singularidadepoetica.art/2020/01/14/louise-gluck-os-lirios-brancos/): Como um homem e uma mulher fazemde um jardim entre elesum leito de estrelas, aquieles permanecem na noite de verãoe a noite se tornafria com seu pavor: tudopode acabar, tudo é capazde devastação. Tudo, tudose pode perder, pelo ar perfumadodas colunas estreitasse elevando inutilmente, e mais além,um agitado mar de papoulas — Silêncio, amada. Não me importaquantos verões eu viverei para voltar:neste verão nós entramos na eternidade.Eu senti suas duas mãosme enterrando para liberar o seu esplendor. Trad.: Nelson Santander The white lilies As a man and woman makea garden between them likea bed of stars, herethey linger in the summer […]
- [Louise Glück - O lírio dourado](https://singularidadepoetica.art/2020/01/13/louise-gluck-o-lirio-dourado/): Como percebo,estou morrendo agora e seique não falarei novamente,não sobreviverei à terra, serei convocadodela uma vez mais, ainda nãouma flor, apenas uma espinha, terra cruaaderindo às minhas costelas, eu o invoco,pai e mestre: ao redor,meus companheiras estão fraquejando, pensandoque você não os vê. Comoeles poderão saber que você os enxergaa menos que os salve?No crepúsculo do verão, você estaráperto o suficiente para ouviro terror de seu filho? Ouvocê não é meu pai,aquele que me criou? Trad.: Nelson Santander No link que segue, uma ótima revisão deste poema (em inglês): https://www.encyclopedia.com/arts/educational-magazines/gold-lily The gold lily As I perceiveI am dying now and knowI […]
- [Louise Glück - Crepúsculo de Setembro](https://singularidadepoetica.art/2020/01/12/louise-gluck-setembro-crepuscular/): Eu os reuni,eu posso dispensa-los — Estou farto de vocês, do caosdo mundo dos vivos —Eu só posso me estenderpor tanto tempo a algo vivo. Convoquei-os à existênciaao abrir minha boca, ao erguermeu dedo mínimo, cintilando azuis deaster selvagem, florde lírio, imensa,com veias douradas — Vocês vêm e vão; eventualmenteesqueço seus nomes.Vocês vêm e vão, cada um de vocêsimperfeito de alguma forma,comprometido de alguma forma: vocês valemuma vida, não mais do que isso. Eu os reuni;eu posso apaga-loscomo se fossem um rascunho a ser descartado,um pequeno exercício porque eu os terminei, visãodo luto mais profundo. Trad.: Nelson Santander September twilight I […]
- [Louise Glück - O lírio prateado](https://singularidadepoetica.art/2020/01/11/louise-gluck-o-lirio-prateado/): As noites esfriaram novamente, como as noitesdo início da primavera, e estão silenciosas outra vez. Incomoda-oconversarmos? Estamossozinhos agora; não há razão para o silêncio. Você pode ver, sobre o jardim — a lua cheia nasce.Eu não verei a próxima lua cheia. Na primavera, quando a lua surgia, significavaque o tempo era infindo. Campainhas-brancasabriam e fechavam, as sementesde bordos agrupadas caíam em pálidas torrentes.Branco sobre branco, a lua emergia sobre a bétula.E na curva, onde a árvore se divide,as folhas dos primeiros narcisos, à luz da lua,em um suave verde-prateado. Chegamos longe demais juntos, perto do fim agora,para temer o fim. Nestas […]
- [Louise Glück - Acalanto](https://singularidadepoetica.art/2020/01/05/louise-gluck-acalanto/): Hora de descansar agora; vocêjá teve emoção suficiente por ora. Crepúsculo, depois início da noite. Vaga-lumesno quarto, cintilando aqui e ali, aqui e ali,e a profunda doçura do verão inundando através da janela aberta. Não pense mais nessas coisas.Escute minha respiração, sua própria respiraçãocomo os vaga-lumes, cada pequena respiraçãouma centelha na qual o mundo se revela. Já cantei para você por tempo suficiente na noite de verão.Vou conquista-lo no final; o mundo não pode lhe proporcionaressa contínua visão. Você precisa ser ensinado a me amar. Os seres humanos devem ser ensinados a amaro silêncio e a escuridão. Trad.: Nelson Santander Lullaby […]
- [Louise Glück - Ocaso](https://singularidadepoetica.art/2020/01/04/louise-gluck-crepusculo/): Minha maior alegriaé o som que sua voz produzme chamando mesmo no desespero; meu desgostoé não poder responderem uma fala que você reconheça como minha. Você não tem fé em sua própria linguagem.Por isso investea reputação em sinaisque não consegue ler com precisão. E ainda assim sua voz sempre me alcança.E eu respondo incessantemente,minha raiva se dissipandocomo o inverno se esvai. Minha ternuradeveria ser evidente para vocêna brisa das noites de verãoe nas palavras que se tornamsuas próprias respostas. Trad.: Nelson Santander Sunset My great happinessis the sound your voice makescalling to me even in despair; my sorrowthat I cannot answer […]
- [Louise Glück - Vésperas (10)](https://singularidadepoetica.art/2020/01/03/louise-gluck-vesperas-10/): Fim de agosto. Calorcomo em uma estufa sobre ahorta do John. E algumas coisastêm a coragem de começar,cachos de tomates, talhõesde lírios tardios – otimismodas grandes hastes – ouroe prata imperiais: mas por queiniciar algotão perto do fim?Tomates que nunca amadurecerão, líriosque o inverno matará, que nãoretornarão na primavera. Ouvocê acha queeu passo tempo demaispensando no futuro, comouma velha vestindosuéteres no verão?Você está dizendo que eu possoflorescer, sem nenhuma esperançade perdurar? Esplendor de vermelhas faces, glóriade gargantas abertas, brancas,manchadas de carmesim. Trad.: Nelson Santander Vespers (10) End of August. Heatlike a tent overJohn’s garden. And some thingshave the nerve to be […]
- [Rebecca Elson – Antídotos para o medo da morte](https://singularidadepoetica.art/2020/01/03/rebecca-elson-antidotos-para-o-medo-da-morte-poema/): Às vezes, como um antídotoPara o medo da morte,Eu como as estrelas. Nessas noites, deitada de costas,Eu as sorvo da escuridão que se dissipaAté que estejam todas, todas elas dentro de mim,Fortes e picantes. Às vezes, ao invés disso, eu me entregoA um universo ainda jovem,Ainda quente como o sangue: Nenhum espaço sideral, apenas o espaço,A luz de todas as estrelas ainda nãoFlutuando como uma névoa brilhante,E todos nós, e tudo o que já existe,Mas não limitado pela forma. E às vezes é o suficiente apenasDeitar aqui na terraJunto de nossos longos ossos ancestrais: Caminhar pelos campos pavimentadosCom nossos crânios descartados,Cada […]
- [Louise Glück - Vésperas (9)](https://singularidadepoetica.art/2020/01/02/louise-gluck-vesperas-9/): Sua voz se foi agora; mal consigo ouvi-la.Sua voz estrelada é apenas sombra agorae a terra está escura novamentecom suas grandes transformações. E de dia a grama fica parda em alguns pontossob as amplas sombras dos carvalhos.Agora, por toda parte, sou assunto para o silêncio, então está claro que não tenho acesso a você;Não existo para você, você traçouuma linha sobre meu nome. Com que desprezo você nos detém,para crer que apenas a perda pode imprimirseu poder sobre nós, as primeiras chuvas de outono agitando os lírios brancos – Quando você parte, parte absolutamente,subtraindo a vida visível de todas as coisas, […]
- [Louise Glück - Vésperas: Parousia](https://singularidadepoetica.art/2020/01/01/louise-gluck-vesperas-parousia/): Amor da minha vida, vocêEstá perdido e eu souJovem novamente. Alguns anos se passaram.O ar se encheCom música de meninas;No jardim da frenteA macieiraSe cobre de flores. Eu tento reconquista-lo.É esse o propósitoDa escrita.Mas você se foi para sempre.Como nos romances russos, dizendoAlgumas palavras das quais não me lembro – Quão exuberante é o mundo,Quão cheio de coisas que não me pertencem – Eu assisto as flores se despetalarem,Já não são cor-de-rosa,Mas velhas, velhas, de um branco amarelado –As pétalas parecemFlutuar na relva brilhante,Tremulando ligeiramente. Que nada você foi,Para se transmudar tão rapidamenteEm uma imagem, um odor –Você está em toda […]
- [Louise Glück - Vésperas (7)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/31/louise-gluck-vesperas-7/): Eu sei o que você planejou, o que pretendia ao me ensinara amar o mundo, tornando impossívelvirar completamente as costas, excluí-lo completamente para sempre –está por toda parte; quando fecho os olhos,no canto dos pássaros, no aroma de lilases no início da primavera, no aroma de rosas no verão:você quer arrancar de mim cada flor, cada conexão com a terra –e por que você me magoaria, e por que iria quererme deixar desolada ao final? A menos que você me queira tão carente de esperançaque eu me recusaria a ver que, afinal,nada me restou, e acreditaria, em vez disso,que no final […]
- [Louise Glück - Luz em retirada](https://singularidadepoetica.art/2019/12/30/louise-gluck-luz-em-retirada/): Vocês eram como crianças pequenas,sempre esperando por uma história.E eu já havia passado por tudo aquilo muitas vezes;eu estava cansado de contar histórias.Então eu lhes dei papel e lápis.Eu lhes dei canetas feitas de juncos queeu mesmo havia reunido, à tarde, nos densos prados.E lhes disse: escrevam sua própria história. Depois de todos estes anos me ouvindoeu pensei que vocês saberiamo que era uma história. Tudo o que vocês podiam fazer era chorar.Vocês queriam que tudo fosse contado a vocêse nada pensado por vocês mesmos. Então percebi que vocês não conseguiam pensarcom real ousadia ou paixão;Vocês ainda não tinham vivido suas […]
- [Louise Glück - Presque Isle](https://singularidadepoetica.art/2019/12/29/louise-gluck-presque-isle/): Em cada vida, há um momento ou dois.Em cada vida, um quarto em algum lugar, à beira-mar ou nas montanhas. Sobre a mesa, um prato de damascos. Caroços em um cinzeiro branco. Como todas as imagens, essas foram as condições de um pacto:em seu rosto, o tremor da luz do sol,meu dedo pressionando seus lábios.As paredes branco-azuladas; a tinta da escrivaninha ligeiramente descascada. Esse quarto ainda deve existir, no quarto andar,com uma pequena varanda com vista para o oceano.Um quarto quadrado e branco, o sobrelençol dobrado para trás na beirada da cama.Ele não se dissolveu de volta ao nada, à realidade.Pela […]
- [Louise Glück - Ipomoea](https://singularidadepoetica.art/2019/12/28/louise-gluck-ipomoea/): Qual foi o meu crime em outra vida,como nesta vida meu crimeé a dor, de modo que não me épermitido ascender novamente,nunca em nenhum sentidome é permitido repetir minha vida,ferida no espinheiro, todabeleza terrena um castigotão meu quanto seu —Fonte do meu sofrimento, por quevocê tirou de mimestas flores celestes, salvopara me marcar como partedo meu mestre: eu souda cor de seu manto, minha carne dáforma à sua glória. Trad.: Nelson Santander Ipomoea What was my crime in another life,as in this life my crimeis sorrow, that I am not to bepermitted to ascend ever again,never in any sensepermitted to repeat […]
- [Louise Glück - A rosa branca](https://singularidadepoetica.art/2019/12/27/louise-gluck-a-rosa-branca/): É esta a terra? Entãoeu não pertenço a este lugar. Quem é você na janela acesa,sombreado agora pelas folhas trêmulasde uma viburnum lantana1?Você pode sobreviver onde eu não durareialém do primeiro verão? Ao longo da noite, os ramos finos da árvoremovem-se e farfalham na janela iluminada.Explique minha vida para mim, você que não faz sinal algum, embora na noite eu clame por você:eu não sou como você, eu só tenhomeu corpo como voz; eu não consigodesaparecer no silêncio — E na fria manhãsobre a superfície escura da terraecos da minha voz pairam,a brancura constantemente absorvida pela escuridão como se você afinal […]
- [Louise Glück - Colheita](https://singularidadepoetica.art/2019/12/26/louise-gluck-safra/): Entristece-me pensar em vocês no passado — Olhe para vocês, agarrando-se cegamente à terracomo se fossem os vinhedos do paraísoenquanto os campos ardem ao redor — Ah, pequeninos, como são pouco sutis:isso é ao mesmo tempo o dom e o tormento. Se o que temem na morteé uma punição além disso, não precisamtemer a morte: quantas vezes devo destruir minha própria criaçãopara ensinar-lhesque esta é a sua punição: com um gesto, eu os estabelecino tempo e no paraíso. Trad.: Nelson Santander Harvest It grieves me to think of you in the past — Look at you, blindly clinging to earthas though […]
- [Louise Glück - Escuridão Inicial](https://singularidadepoetica.art/2019/12/25/louise-gluck-trevas-primitivas/): Como podem afirmarque a terra deveria me dar alegria? Cada coisanascida é meu fardo; não posso prosperarcom todos vocês. E vocês gostariam de ditar para mim,gostariam de me dizerquem entre vocês é mais valioso,quem mais se assemelha a mim.E apresentam como exemploa vida pura, o desapegoque lutam para alcançar — Como vocês podem me entenderquando vocês mesmos não se compreendem?Sua memória não époderosa o suficiente, nãoalcançará longe o bastante —Nunca se esqueçam que vocês são meus filhos.Vocês não sofrem por terem se tocado,mas porque nasceram,porque exigiram uma vidaseparada de mim. Trad.: Nelson Santander Early darkness How can you sayearth should give […]
- [Louise Glück - Vésperas (6)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/24/louise-gluck-vesperas-6/): Você pensou que nós não soubéssemos. Mas nós sabíamos,as crianças sabem dessas coisas. Não vire as costas agora – nós habitávamosuma mentira para apaziguá-lo. Eu me lembroda luz do sol do início da primavera, os taludesreticulados por vincas roxas. Eu me lembrode me deitar em um campo, roçando o corpo de meu irmão.Não vire as costas agora; nós negamosas memórias para consola-lo. Nós o imitamos, recitandoos termos de nossa punição. Eu me lembrode parte disso, não de tudo: o enganocomeça com o esquecimento. Eu me lembro de pequenas coisas, florescrescendo sob o espinheiro branco, os sinosda scilla selvagem. Não de tudo, mas […]
- [Louise Glück - Vésperas (5)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/23/louise-gluck-vesperas-5/): Assim como você apareceu para Moisés, porqueeu necessito de você, você aparece para mim,raramente, porém. Eu vivo essencialmentenas trevas. Você talvez esteja me treinando para sermais responsiva ao menor clarão. Ou, como os poetas,será que o desespero o estimula, o sofrimentoo leva a revelar sua natureza? Esta tarde,no mundo material ao qual você normalmentecontribui com seu silêncio, subia pequena colina acima dos mirtilos silvestres, metafisicamentedescendo, como em todas as minhas caminhadas: teria eu ido fundo o suficientepara que você tivesse piedade de mim, da mesma forma como às vezes se apiedade outros que sofrem, favorecendo aquelescom dons teológicos? Como você previu,não […]
- [Louise Glück - Vésperas (4)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/22/louise-gluck-vesperas-4/): Eu não me pergunto mais onde você está.Você está no jardim; você está onde John está,na terra, absorto, segurando sua pequena pá verde.É assim que ele jardina: quinze minutos de intenso esforço,quinze minutos de estática contemplação. Às vezes,trabalho ao lado dele, fazendo as tarefas à sombra,capinando, esfolhando as alfaces; às vezes, o observodo alpendre próximo ao jardim superior até que o crepúsculo transformeem luzes os primeiros lírios: durante todo esse tempo,a paz nunca o abandona. Mas ela passa por mim,não como o sustento que as flores retêm,mas como uma luz brilhante através da árvore nua. Trad.: Nelson Santander Vespers I don’t […]
- [Louise Glück - Fim de verão](https://singularidadepoetica.art/2019/12/21/louise-gluck-fim-de-verao/): Depois de tudo o que me ocorreu,o vazio me ocorreu. Há um limitepara o prazer que tive na forma — Eu não sou como vocês nisso,Não tenho liberdade em outro corpo, Não precisode abrigo fora de mim — Minha pobre inspiradacriação, vocês sãodistrações, enfim,meras limitações; no final,vocês são muito pouco parecidas comigopara me agradar. E tão intransigentes —querem ser compensadaspelos seus desaparecimentos,tudo pago com algum pedaço de terra,algum souvenir, como vocês já foram uma vezrecompensadas pelo trabalho,o escriba pagoem prata, o pastor em cevada embora não seja a terraduradoura, não comessas pequenas lascas de matéria — se abrissem os seus olhosvocês […]
- [Louise Glück - Margaridas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/20/louise-gluck-margaridas/): Vá em frente: diga o que está pensando. O jardimnão é o mundo real. As máquinassão o mundo real. Diga francamente o que qualquer tolo podeler em seu rosto: faz todo sentidoevitar-nos, resistirà nostalgia. Não ésuficientemente moderno, o som que o vento produzagitando um campo de margaridas: a mentenão pode brilhar ao segui-lo. E a mentequer brilhar, nitidamente, comoas máquinas brilham, e nãose arraigar, como, por exemplo, as raízes. É muito comovente,no entanto, vê-la cautelosamenteaproximar-se da beira do campo no início da manhã,quando ninguém poderiaestar observando você. Quanto mais tempo você fica na borda,mais nervosa você parece. Ninguém quer ouvirimpressões do […]
- [Louise Glück - Vésperas (3)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/19/louise-gluck-vesperas-3/): Para além de mim, muito provavelmentevocê ama ainda mais as criaturas do campo; talvez, até o próprio campo, pontilhado em agostode chicórias-bravas e ásteres.Eu sei. Eu me compareia essas flores, com seu leque de sentimentostão menores e sem problemas; assim como à ovelha branca,na verdade, cinzenta: eu sou particularmenteapta a louva-lo. Então por quevocê me atormenta? Eu estudei as piloselas,os ranúnculos protegidos das pastagenspor serem venenosos. Seriaa dor o seu presente para fazer-meconsciente de minha necessidade por você, como sedevesse precisar de você para idolatra-lo,ou você me abandonouem favor do campo, as estoicas ovelhas tornando-seprateadas no crepúsculo; as ondas de ásteres […]
- [Louise Glück - Vésperas (2)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/18/louise-gluck-vesperas-2/): Em sua prolongada ausência, você me permiteusar a terra, antecipandoalgum retorno sobre o investimento. Devo reportarque falhei em minha missão, principalmenteem relação à plantação de tomates.Acho que não devo ser encorajada a cultivartomates. Ou, se o for, você você deveria reteras fortes chuvas, as gélidas noites que sãotão comuns por aqui, enquanto outras regiões desfrutamde doze semanas de verão. Tudo issopertence a você: por outro lado,fui eu que plantei as sementes, observei os primeiros brotoscomo asas rompendo o solo, e foi meu coraçãoque se partiu com a praga, as manchas negras se multiplicandotão rapidamente nas fileiras. Duvidoque você tenha um coração, […]
- [Louise Glück – Vésperas (1)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/17/louise-gluck-vesperas-1/): Uma vez acreditei em você; plantei uma figueira.Aqui, em Vermont, uma terraque desconhece o verão. Era um teste: se a árvore sobrevivesse,isso provaria que você existe. Segundo essa lógica, você não existe. Ou existeexclusivamente em climas mais quentes,na fervorosa Sicília, no México e na Califórnia,onde crescem o inimagináveldamasco e o vulnerável pêssego. Talvezvejam sua face na Sicília; aqui, mal conseguimos vislumbrara barra de sua túnica. Terei que me disciplinarpara dividir com John e Noah a colheita de tomate. Se houver justiça em outro mundo, aquelescomo eu, a quem a natureza forçaa uma vida de abstinência, deveriam recebera maior parte de tudo, […]
- [Louise Glück - Solstício de verão](https://singularidadepoetica.art/2019/12/16/louise-gluck-solsticio-de-verao/): Como posso ajuda-los quando todos desejamcoisas distintas — luz do sol e sombra,tempo seco e umidade sombria — Ouçam a si próprios, competindo uns com os outros — E se perguntampor que desespero por vocês,achando que algo pode fundi-los em um todo — o ar imóvel do auge do verãoentrelaçado com mil vozes cada qual clamandopor alguma necessidade, alguma verdade absoluta e, sob essa rubrica, continuamenteestrangulando uns aos outrosem campo aberto — Por quê? Por espaço e ar?Pelo privilégio de seremsingulares aos olhos do divino? Vocês não foram destinadosa serem singulares. Vocês eramminha personificação, toda a diversidade, e não o que […]
- [Louise Glück - A porta de entrada](https://singularidadepoetica.art/2019/12/15/louise-gluck-a-entrada/): Eu queria permanecer como eu era,imóvel como o mundo raramente fica,não no solstício de verão, mas no momento anteriorà flor fundamental se formar, o momentoem que nada ainda é passado — não o solstício de verão, intoxicante,mas a tardia primavera, a grama ainda nãoalta nos limites do jardim, as primeiras tulipascomeçando a desabrochar — como uma criança à espreita naporta de entrada, observando os outros,aqueles que partem primeiro,um aglomerado de membros tensos, atentosàs falhas alheias, às hesitações públicas com a confiança destemida de uma criança na iminência do poderpreparando-se para derrotaressas fraquezas, para cedera nada, o momento imediatamente anterior à floração, […]
- [Louise Glück - Céu e terra](https://singularidadepoetica.art/2019/12/14/louise-gluck-ceu-e-terra/): Onde um acaba, a outra começa.No alto, uma faixa de azul; abaixo,uma faixa de verde e dourado, verde e rosa profundo. John está no horizonte: ele querambos ao mesmo tempo, ele quertudo de uma vez. Os extremos são fáceis. Apenaso meio é um enigma. Meio do verão —tudo é possível. Significado: a vida nunca mais terá fim. Como posso deixar meu maridono jardim,sonhando com tal coisa, segurandoseu rastelo, preparando-separa anunciar triunfantemente essa descoberta,enquanto as chamas do sol de verãoverdadeiramente se detêm,totalmente contidas peloscarvalhos acesosna divisa do jardim? Trad.: Nelson Santander Heaven and earth Where one finishes, the other begins.On top, a […]
- [Louise Glück - Matinas (7)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/13/louise-gluck-matinas-7/): Não apenas o sol mas a própriaterra brilha, fogo brancoirrompendo das imponentes montanhase da estrada planatremeluzindo nas primeiras horas da manhã: será issoapenas para nós, para provocar umaresposta, ou você tambémfica mexido, incapazde se conterna presença da terra? Sinto vergonhado que eu pensava que você fosse,distante de nós, nos observandocomo um experimento: éamargo sero animal descartável,amargo. Caro amigo,querido parceiro vacilante, o quemais o surpreende no que você sente,o esplendor da terra ou seu próprio regozijo?Para mim, sempreo regozijo é a surpresa. Trad.: Nelson Santander Matins Not the sun merely but the earthitself shines, white fireleaping from the showy mountainsand the flat […]
- [Louise Glück - Trevo](https://singularidadepoetica.art/2019/12/12/louise-gluck-trevo/): O que está dispersoentre nós, que você chamade sinal de bem-aventurança,embora seja, como nós,uma erva daninha, uma coisapara ser extirpada — qual lógicao faz reterum único brotode algo que desejamorto? Se há alguma presença entre nóstão poderosa, não deveria elase multiplicar, a serviçodo adorado jardim? Você mesmo deveriaestar fazendo essas perguntas,não deixando-aspara suas vítimas. Você deve saberque quando se vangloria entre nós,ouço duas vozes se pronunciando,uma, do seu espírito, outra,dos atos de suas mãos. Trad.: Nelson Santander Clover What is dispersedamong us, which you callthe sign of blessednessalthough it is, like us,a weed, a thingto be rooted out — by what […]
- [Louise Glück - A papoula vermelha](https://singularidadepoetica.art/2019/12/11/louise-gluck-a-papoula-vermelha/): O melhor de tudoé não teruma mente. Sentimentos:oh, eu os tenho; elesme governam. Tenhoum senhor no céuchamado sol, e me abroa ele, mostrando-lheo fogo do meu próprio coração, ardentecomo a sua presença.O que poderia ser tal glóriase não um coração? Oh meus irmãos e irmãs,vocês já foram como eu, tempos atrás,antes de se tornarem humanos?Já se permitiramse abrir uma vez, o que nuncamais se abriria? Porque na verdadeestou falando agora do modocomo vocês falam. Eu faloporque estou despedaçada. Trad.: Nelson Santander The red poppy The great thingis not havinga mind. Feelings:oh, I have those; theygovern me. I havea lord in heavencalled […]
- [Louise Glück - Campo de flores](https://singularidadepoetica.art/2019/12/10/louise-gluck-campo-de-flores/): O que você está dizendo? Que desejavida eterna? Seus pensamentos realmentesão tão convincentes assim? Certamentevocê não nos vê, não nos ouve,mancha de solem sua pele, póde ranúnculos amarelos: estoufalando com você, aí, olhando fixamenteatravés das barras de grama alta que agitamseus pequenos chocalhos — Óalma! a alma! É suficienteapenas olhar para dentro? O desprezopela humanidade é uma coisa, mas por quedesdenhar o amplocampo, para que esse olhar de desprezo sobreos alvos ranúnculos silvestres? Sua limitadaideia de paraíso: ausênciade mudança. É melhor do que a terra? Comopoderia saber quem não está nem cánem lá, em pé no meio de nós? Trad.: Nelson […]
- [Louise Glück - Canção](https://singularidadepoetica.art/2019/12/09/louise-gluck-cancao/): Como um coração blindado,o botão vermelho-vivoda rosa silvestre começaa desabrochar no ramo mais baixo,sustentado pela malhareticulada de um arbusto robusto:ela floresce contra a escuridão,que é o cenário constante do coração, enquanto as floresmais acima murcham ou apodrecem;sobreviverà adversidade apenasacentua sua cor. Mas Johnobjeta, ele acredita quese isto não fosse um poema, massim um jardim de verdade, então arosa vermelha seriaobrigada a não se assemelhara nada mais, nema outra flor, nemao coração sombrio, nonível do solo, pulsando,meio marrom, meio carmim. Trad.: Nelson Santander Song Like a protected heart,the blood-redflower of the wild rose beginsto open on the lowest branch,supported by the nettedmass […]
- [Louise Glück - Matinas (6)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/08/louise-gluck-matinas-6/): O que é o meu coração para vocêque precisa parti-lo repetidas vezescomo um jardineiro testandosua nova espécie? Pratiqueem algo diferente: como posso viverem colônias, como você prefere, se impõeuma quarentena de aflição, apartando-mede membros saudáveis deminha própria tribo? Você não faz issono jardim, não segregaa rosa doente; permite que ela balance suas sociáveisfolhas infestadas nosrostos de outras rosas, e os pequenos pulgõessaltam de planta em planta, provando uma vez maisque eu sou a mais ínfima de suas criaturas, abaixodo próspero pulgão e da rosa rastejante — Pai,como agente da minha solidão, alivieao menos minha culpa; removao estigma do isolamento, a menosque […]
- [Louise Glück - Matinas (5)](https://singularidadepoetica.art/2019/12/07/louise-gluck-matinas-5/): Quer saber como passo o meu tempo?Eu caminho pelo jardim, fingindoque estou capinando. Deve saberque nunca estou capinando, de joelhos, extirpandotufos de trevos dos canteiros de flores: na verdade,estou em busca de coragem, de alguma evidênciade que minha vida irá mudar, ainda queisso leve uma eternidade, verificandocada touceira em busca da folhasimbólica, e logo o verão se encerra, jáas folhas se transformam, invariavelmente as árvores débeispartem primeiro, as moribundas se tornamamarelo-brilhantes, enquanto alguns pássaros pretos executamseu toque de recolher musical. Quer ver minhas mãos?Tão vazias agora quanto na primeira nota.Ou o propósito sempre foicontinuar sem um sinal? Trad.: Nelson Santander Matins […]
- [Louise Glück - A Escada de Jacó](https://singularidadepoetica.art/2019/12/06/louise-gluck-a-escada-de-jaco/): Preso à terra,você também não gostaria dealcançar o céu? Eu habitoo jardim de uma senhora. Perdoe-me senhora;o anseio roubou minha graça. Não souo que você esperava. Mascomo homens e mulheres parecemdesejar uns aos outros, também desejoconhecer o paraíso — e agorasua dor, uma haste nuaalcançando a vidraça da varanda.E no final, o quê? Uma pequena flor azulcomo uma estrela. Jamaisabandonar o mundo! Não é issoque suas lágrimas significam? Trad.: Nelson Santander The Jacob’s ladder Trapped in the earth,wouldn’t you too want to goto heaven? I livein a lady’s garden. Forgive me, lady;longing has taken my grace. I amnot what you wanted. […]
- [Louise Glück - Capim-das-bruxas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/05/louise-gluck-witchgrass/): Algoindesejado chega ao mundoclamando desordem, desordem — Se você me odeia tantonão se dê ao trabalho de me darum nome: você precisade mais um insultoem sua língua, outramaneira de culparuma tribo por tudo — pois ambos sabemos,se você cultuaum deus, só precisade um inimigo — Eu não sou o inimigo.Apenas um pretexto para ignoraro que você vê acontecendoaqui, neste jardim,um pequeno paradigmado fracasso. Uma de suas preciosas floresmorre aqui quase todos os diase você não pode descansar atéincriminar a causa, ou seja,tudo o que resta, o que acontecede ser mais resistentedo que sua paixão pessoal — Não estava destinadoa durar para […]
- [Louise Glück - Violetas](https://singularidadepoetica.art/2019/12/04/louise-gluck-violetas/): Porque em nosso mundosempre há algo oculto,pequeno e branco,pequeno e o que você chama depuro, nós não lamentamoscomo você, caromestre sofredor; vocênão está mais perdidodo que nós, sobo espinheiro, o espinheiro segurandobandejas equilibradas de pérolas: o queo trouxe até nóspara que possamos ensina-lo, sevocê se ajoelhar e chorar,apertando suas grandes mãos,em toda sua grandeza, sem nadaentender sobre a natureza da almaque nunca morre: pobre deus triste,ou você nunca tem umaou nunca a perde. Trad.: Nelson Santander Violets Because in our worldsomething is always hidden,small and white,small and what you callpure, we do not grieveas you grieve, dearsuffering master; youare no more […]
- [Louise Glück - Abril](https://singularidadepoetica.art/2019/12/03/louise-gluck-abril/): O desespero de mais ninguém é como o meu desespero — Vocês não têm lugar neste jardimpensando em tais coisas, emitindocansativos sinais exteriores; o homemdesmatando intencionalmente uma floresta inteira,a mulher mancando e se recusando a trocar de roupasou lavar os cabelos. Acham que eu me importose vocês conversarem um com o outro?Mas quero que saibamque eu esperava mais de duas criaturasa quem foram dadas mentes: senão para cuidarem realmente um do outropelo menos para entenderemque a dor será compartilhadaentre vocês, e com toda a sua espécie, paraque eu os conheça, assim como o azul profundomarca a scilla selvagem, e o brancoa […]
- [Louise Glück - Amor ao luar](https://singularidadepoetica.art/2019/12/02/louise-gluck-amor-ao-luar/): Às vezes, um homem ou uma mulher impõe seu desesperoa outra pessoa, o que é chamado deabrir o coração, ou alternativamente, desnudar a alma —o que significa que, neste momento, eles adquiriram almas —lá fora, em uma noite de verão, um mundo inteiroderramado sobre a lua: grupos de formas prateadasque podem ser edifícios ou árvores, o estreito jardimonde o gato se esconde, rolando de costas na poeira,as rosas, as coreópsis, e, na escuridão, o domo dourado do Capitólioconvertido em uma liga de luz da lua, formasem detalhes, mito, arquétipo, almaplena de flama que é de fato luz da lua, subtraídade outra fonte, […]
- [Louise Glück - O espinheiro](https://singularidadepoetica.art/2019/12/01/louise-gluck-o-espinheiro/): Lado a lado, não demãos dadas: eu os observocaminhando no jardim de verão — coisasque não podem se moveraprendem a ver; não é necessáriopersegui-los pelojardim; seres humanos deixamsinais de sentimentospor toda parte, floresespalhadas no caminho de terra, todasbrancas e douradas, algumaslevemente erguidas pelosventos da tarde; não é necessáriosegui-los até onde vocês estão agora,nas profundezas do vale envenenado, para compreenderas causas de sua deserção, paixãohumana ou raiva: pelo que maisvocês abandonariamtudo o que conquistaram? Trad.: Nelson Santander The hawthorn tree Side by side, nothand in hand: I watch youwalking in the summer garden — thingsthat can’t movelearn to see; I do not […]
- [Louise Glück - O jardim](https://singularidadepoetica.art/2019/11/30/louise-gluck-o-jardim/): Eu não poderia fazê-lo de novo,Mal posso olhar para isso — no jardim, sob a chuva leve,o jovem casal plantauma fieira de ervilhas,como se ninguém jamais o tivesse feito antes,as grandes dificuldades ainda nãoforam enfrentadas e resolvidas — Eles não conseguem se ver,na terra fresca, começandosem perspectiva,as colinas verde-claras atrás deles, encobertas pelas flores — Ela quer parar;ele quer ir até o fim,permanecer na tarefa — Olhe para ela, tocando o rosto delepara fazer as pazes, seus dedosfrios pela chuva de primavera;na relva rala, explosões de crocus roxos — mesmo aqui, mesmo no início do amor,a mão dela ao abandonar seu […]
- [Louise Glück - Vento em retirada](https://singularidadepoetica.art/2019/11/29/louise-gluck-vento-em-retirada/): Quando os criei, eu os amava.Agora sinto pena de vocês. Dei-lhes tudo o que precisavam:leito de terra, manto de ar azul — À medida que me afasto de vocês,vejo-os com mais clareza.Suas almas deveriam ser vastas agora,não o que são,pequenas criaturas tagarelas — Dei a vocês todas as dádivas,o azul das manhãs de primavera,o tempo que não souberam usar —vocês queriam mais, o único domreservado para outra criação. O que quer que tenham desejado,não encontrarão no jardim,entre as plantas em crescimento.Suas vidas não são circulares como as delas: suas vidas são como o voo dos pássarosque começa e termina em silêncio […]
- [Louise Glück - Scilla](https://singularidadepoetica.art/2019/11/28/louise-gluck-scilla/): Não eu, seu tolo, não eu-mesma, mas nós, nós – ondasde céu azul comouma crítica do firmamento: por quevocês valorizam tanto suas vozesquando ser algoé ser quase nada?Por que olham para cima? Para ouvirum eco como a vozde deus? Vocês são todos iguais para nós,solitários, pairando acima de nós, planejandosuas vidas tolas: vocês vãoonde são levados, como todas as coisas,onde os ventos os semeiam,um ou outro sempreolhando para baixo e vendo alguma imagemda água, e ouvindo o quê? Ondas,e sobre as ondas, pássaros cantando. Trad.: Nelson Santander Scilla Not I, you idiot, not self, but we, we – wavesof sky blue […]
- [Louise Glück - Matinas (4)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/27/louise-gluck-matinas-4/): Percebo que com você é como com as bétulas:não posso lhe falarde maneira pessoal. Muitose passou entre nós. Ousempre foi apenas de um lado? Euerrei, eu errei, eu lhe pedipara ser humano – não sou mais carentedo que as outras pessoas. Mas a ausênciade todo sentimento, da menorpreocupação por mim – poderia muito bem continuardirigindo-me às bétulas,como em minha antiga vida: deixa-lasfazer o seu pior, deixa-lasenterrar-me com os Românticos,suas folhas amarelas pontiagudascaindo e me cobrindo. Trad.: Nelson Santander Matins I see it is with you as with the birches:I am not to speak to youin the personal way. Muchhas passed between […]
- [Louise Glück - Matinas (3)](https://singularidadepoetica.art/2019/11/26/louise-gluck-matinas-3/): Perdoe-me se eu disser que o amo: os poderosossempre são enganados, já que os fracos são sempreguiados pelo pânico. Não posso amaro que não consigo conceber, e você revelapraticamente nada: é como o espinheiro,sempre a mesma coisa no mesmo lugar,ou está mais para a dedaleira, inconstante, brotando primeiroum espigão rosa na encosta atrás das margaridas,e no ano seguinte, violeta no roseiral? Você precisa entenderque isso é inútil, esse silêncio que promove a crençade que você deve ser todas as coisas, a dedaleira e o espinheiro,a rosa vulnerável e a rija margarida – somos levados a pensarque é impossível você existir. É […]
- [Louise Glück - Fim de inverno](https://singularidadepoetica.art/2019/11/25/louise-gluck-fim-de-inverno/): Sobre o mundo ainda, um pássaro cantadespertando solitário entre ramos escuros. Vocês desejaram nascer; eu permiti que nascessem.Quando minha dor alguma vezinterferiu em seu prazer? Mergulhandona escuridão e na luz ao mesmo tempo,sedentos por sensações como se fossem algo novo, querendose expressar com todo brilho, toda vivacidade nunca imaginandoque isso lhes custaria algo,nunca concebendo o som de minha vozcomo outra coisa senão parte de vocês – vocês não a ouvirão no outro mundo,não com a mesma clareza,não no canto dos pássaros ou no humano lamento, não o som límpido, somenteum eco persistenteem todo som que signifique adeus, adeus – a única […]
- [Louise Glück - Neve de primavera](https://singularidadepoetica.art/2019/11/24/louise-gluck-neve-de-primavera/): Olhe para o céu noturno:tenho dois eus, duas formas de poder. Estou aqui com você, à janela,observando sua reação. Ontema lua se ergueu sobre a terra úmida no jardim de baixo.Agora a terra reluz como a lua,como matéria morta crivada de luz. Você pode fechar os olhos agora.Ouvi seus clamores, e os clamores antes dos seus,e a demanda por trás deles. Mostrei-lhe o que você deseja:ausência de crença, mas submissãoà autoridade, que depende da violência. Trad.: Nelson Santander Spring snow Look at the night sky:I have two selves, two kinds of power. I am here with you, at the window,watching you […]
- [Louise Glück - Manhã clara](https://singularidadepoetica.art/2019/11/23/louise-gluck-manha-clara/): Eu já os observei por tempo suficiente,posso me dirigir a vocês do jeito que eu quiser — Tenho me submetido às suas preferências, observando pacientementeas coisa que vocês amam, comunicando-me apenas através de veículos, emdetalhes da terra, como preferem, gavinhasde clematis azul, luz de fim de tarde —vocês jamais aceitariam uma voz como a minha, indiferenteaos objetos que diligentemente nomeiam, suas bocaspequenos círculos de espanto – E todo esse tempofui indulgente com suas limitações, pensando que mais cedo ou mais tarde as deixariam de lado por si mesmos,pensando que esse assunto não poderia absorver os olhares de vocês para sempre – […]
- [Louise Glück - Flores-de-neve](https://singularidadepoetica.art/2019/11/22/louise-gluck-snowdrops/): Você sabe o que eu era, como eu vivia? Você sabeo que é o desespero? Entãoo inverno deve ter um significado para você. Eu não esperava sobreviver,a terra me sufocando. Não esperavadespertar outra vez, sentirna terra úmida meu corpocapaz de responder outra vez, lembrandoapós tanto tempo como brotar outra vezna luz friada primavera mais precoce — assustada, sim, mas entre vocês outra vezchorando sim risco alegria no vento bruto do novo mundo Trad.: Nelson Santander Snowdrops Do you know what I was, how I lived? You knowwhat despair is; thenwinter should have meaning for you. I did not expect to survive,earth […]
- [Louise Glück - Lamium](https://singularidadepoetica.art/2019/11/21/louise-gluck-lamium/): Assim se vive quando se tem um coração frio.Como eu: nas sombras, arrastando-se sobre a rocha fria,sob os grandes carvalhos. O sol mal me toca.Às vezes o avisto no início da primavera, surgindo muito distante.Então as folhas crescem sobre ele, ocultando-o completamente. Eu o sintobrilhando por entre aas folhas, errático,como alguém batendo na lateral de um copo com uma colher de metal. Nem todas as criaturas vivas requeremluz na mesma medida. Alguns de nósfabricamos nossa própria luz: uma folha de pratacomo uma trilha que ninguém pode percorrer; uma rasalagoa de prata nas trevas sob os grandes carvalhos. Mas você já sabe […]
- [Nicolás Guillén - Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2024/05/16/nicolas-guillen-um-poema-de-amor-2/): "Um poema de amor", um poema de Nicolás Guillén que narra o reencontro arrebatador de dois amantes marcados pelo tempo e pela impossibilidade, explorando o desejo contido, a despedida inevitável e a intensidade fatal de um amor vivido à beira do abismo.
- [Vijay Seshadri – Chaleiras Reluzentes de Cobre](https://singularidadepoetica.art/2024/05/15/vijay-seshadri-chaleiras-reluzentes-de-cobre/): Amigos mortos voltando à vida, famílias falecidasfalando línguas vivas e mortas, suas mentes retentivas,os cinco sentidos intactos, suas pegadas como as de borboletas,a compaixão brilhando em rostos indulgentes —esta é uma das minhas coisas favoritas.Gosto tanto disso que passo o tempo todo dormindo.Lua de dia e sol à noite me encontram dispersonos sonhos profundos onde eles aparecem.Nos campos de varas-de-ouro, na cidade das cinco pirâmides,diante da imperatriz com o rosto derretido, soba sombra do majestoso Plátano, eles simplesmente surgem.“Está tudo bem”, parecem dizer. “Sempre esteve”.Eles são tímidos e polidos.(Quem diria que os mortos fossem tão educados?)Eles não querem assustar; suas cabeças […]
- [Ian Hamilton - Vizinhos](https://singularidadepoetica.art/2024/05/14/ian-hamilton-vizinhos-2/): Das janelasDo decadente hotel do outro lado da ruaMisteriosos hóspedes noturnos emergemEm suas varandasPara aspirar o ar fresco da noite. Nós os deixamos nos observarEm nossas vidas pacatas.Eles nos permitem imaginaro que o destino lhes reservou. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 05/06/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Neighbours From the bay windowsOf the mouldering hotel across the road from usMysterious, one-night itinerants emergeOn to their balconiesTo breathe the cool night air. We let them stareIn at our quiet lives.They let us wonder […]
- [Claudia Emerson – A Moldura, uma Epístola](https://singularidadepoetica.art/2024/05/13/claudia-emerson-a-moldura-uma-epistola/): "A Moldura, uma Epístola", um poema de Claudia Emerson
- [Ada Limón – A capa de chuva](https://singularidadepoetica.art/2024/05/12/ada-limon-a-capa-de-chuva/): “A capa de chuva”, um poema de Ada Limon que revisita uma lembrança da infância para refletir sobre os gestos invisíveis de amor e proteção que sustentam uma vida.
- [Larry Levis – Estrelas de Inverno](https://singularidadepoetica.art/2024/05/11/larry-levis-estrelas-de-inverno/): Certa vez, meu pai quebrou a mão de um homemNo escapamento de um trator John Deere. O homem,Rubén Vásquez, queria matar o próprio paiCom uma faca de fruta afiada, & seguravaA ponta curva dela, levemente, entre os doisPrimeiros dedos, para cortarHorizontalmente, & com surpreendente graça,A garganta. Era como um bico brilhante na mão,E, por um momento, a luz permaneceuNaqueles cipós. Quando tudo acabou,Meu pai simplesmente entrou & almoçou, & depois, como sempre,Ficou sozinho no escuro, ouvindo música.Ele nunca mencionou aquilo. Nunca entendi como alguém poderia arriscar sua vidaE depois ouvir Vivaldi. Às vezes, saio para o quintal à noite,E fico olhando […]
- [Manuel António Pina - Café do molhe](https://singularidadepoetica.art/2024/05/10/manuel-antonio-pina-cafe-do-molhe-2/): Perguntavas-me(ou talvez não tenhas sidotu, mas só a tinaquele tempo eu ouvia) por que a poesia,e não outra coisa qualquer:a filosofia, o futebol, alguma mulher?Eu não sabia que a resposta estavanuma certa estrofe deum certo poema deFrei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe)conhecia de cor,em castelhano e tudo.Porém se o soubesse de pouco me teriaentão servido, ou de nada.Porque estavas inclinadade um modo tão perfeito sobre a mesae o meu coração batiatão infundadamente no teu peitosob a tua blusa acesa que tudo o que soubesse não o saberia.Hoje sei: escrevocontra aquilo de que me lembro,essa tarde parada, por […]
- [W. S. Merwin – Solstício](https://singularidadepoetica.art/2024/05/09/w-s-merwin-o-solsticio/): Dizem que apesar de tudoo sol retornaráà meia-noitemeu único amor mas sabemos como os minutosvoam pelas árvores escurase desaparecem como as majestosas ‘ohias e os saís-verdese sabemos como as semanascaminham nas sombras ao meio-dia ao pensar nos meses toco sua mãoalgo que nãose diz observamos os pássaros vermelhos pela manhãjuntos esperamospelo silencioso diao ano se transforma em ar mas permanecemos juntos durante toda a noitecom o sol ainda partindoe o anoretornando Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog The Solstice They say the sun will come […]
- [Konstantinos Kaváfis - Velas](https://singularidadepoetica.art/2024/05/08/konstantinos-kavafis-velas-2/): Os dias futuros se erguem diante de nóscomo uma fileira de velas acesas –douradas, vivazes, cálidas velas. Os dias do passado ficaram tão para trás,fúnebre fileira consumidaonde as mais próximas ainda fumam,velas frias, retorcidas e desfeitas. Não quero vê-las; seu aspecto me aflige,me aflige recordar sua luz primeira.Vejo diante de mim as velas acesas. Não quero me voltar, e estremecer ao contemplarque rapidamente aumenta a fileira sombria,que rapidamente cresce com suas velas já consumidas. Trad.: Pedro Gonzaga REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 01/06/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva […]
- [Adam Tedesco – Pânico](https://singularidadepoetica.art/2024/05/07/adam-tedesco-panico/): A beleza da vida é quesempre alguém está morrendo Do lado de fora, uma abelhaescreve meu nome em mel Às vezes, os truques se desfazem sozinhose é por isso que os chamamos de mágica Às vezes, as pessoas dizem mágicoquando querem dizer sexual Do outro lado da porta, um animal escrevemeu nome com o sangue de outros animais Às vezes, pessoas dizem históriaquando querem dizer doença Pendurado na parede, há um Salvadorque incendiou tudo por amor Às vezes, as pessoas dizem amor quandoquerem se referir a uma troca justa de favores Às vezes, a fé é o desejode crer em efeitos […]
- [Idea Vilariño - Não mais](https://singularidadepoetica.art/2024/05/06/idea-vilarino-nao-mais-2/): Não mais seránão maisnão viveremos juntosnão criarei teu filhonão coserei tua roupanão te terei à noitenão te beijarei ao partirnunca saberás quem fuipor que outros me amaram.Não chegarei a saberpor que nem porque nuncanem se era verdadeiroo que disseste que eranem quem fostenem o que fui para tinem como teria sidovivermos juntosamarmo-nosesperarmo-nosestarmos juntos.Agora não sou mais do que eupara sempre e tujánão serás para mimmais do que tu. Já não estásem algum dia futuronão saberei onde vivescom quemnem se te lembras.Não me abraçarás nuncacomo naquela noitenunca.Não voltarei a tocar-te.Não te verei morrer. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com ligeiras alterações na tradução: […]
- [Konstantinos Kaváfis - Troianos](https://singularidadepoetica.art/2024/05/05/konstantinos-kavafis-troianos/): Nossos esforços – nós, desventurados – são,nossos esforços, como os dos troianos.Algum êxito obtido, alguma empresaassumida, e eis que começamosa encher-nos de esperanças, de coragem. Algo surge, porém, que nos irá deter.Emerge Aquiles da trincheira à nossa frentee com seus gritos de assustar põe-nos em fuga. Nossos esforços são os dos troianos.Cremos que, com audácia e decisão,da sorte mudaremos a animosidade,e vamos para fora, para a luta. Mas quando o instante decisivo chega,desertam-nos audácia e decisão;nosso ânimo fraqueja, paralisa-se,e à volta dos muros corremos,procurando, na fuga, a nossa salvação. Nossa ruína é inevitável, porém. Sobreos muros já começam os lamentos.Choram as […]
- [Nâzim Hikmet - O último ônibus](https://singularidadepoetica.art/2024/05/04/nazim-hikmet-o-ultimo-onibus-2/): Meia-noite. O último ônibus.O condutor rasga os bilhetes.Não me esperam em casa nem uma má notícianem a fartura da bebida.Para mim, é a partida que espera.Caminho em direção a ela sem medoou tristeza. A escuridão imensa se aproxima de mim.Posso olhar para o mundocalma e serenamente, agora.Já não me surpreende a traição de um amigo,a faca estocada num aperto de mão.É tudo em vão, o inimigo já não pode mais me provocar.Cruzei a floresta dos ídolosusando meu machadode que maneira fácil todos desabaram.Testei as coisas em que acredito, uma vez mais,boa parte delas se revelou em sua pureza, pelo que sou […]
- [E. C. Belli – Revelação](https://singularidadepoetica.art/2024/05/03/e-c-belli-revelacao/): Eu escapei do granito foscoe alcancei seu rosto caçandoem algum tipo de território inóspito.Que estranho campo de jogo é esteque deixa seu oponente derrotadoe desesperançado assim. É da alegria que precisamospara temperar toda essa revelação da verdade.Talvez mentiras sejam o melhor caminho.Talvez mentiras não sejam realmente tão ruinsquanto parecem ser. Penso que honestidadeé apenas uma palavra diferente para carnificina. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Revelation I escaped the dull graniteand reached your face by huntingsome kind of wilderness.What a strange playing field it is–leaving […]
- [Daniel Faria - Infância](https://singularidadepoetica.art/2024/05/02/daniel-faria-infancia-2/): e jogava o pião com Deusenquanto minha mãe estendia roupae o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempoera muito próxima da dos meninose de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro: o pião ou Deusapenas sei que Deus continuaa jogar com outros meninos e que no Outono quando saio à praçanos sentamos e falamos muitodo suave rodopiar das folhas REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 29/05/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Mark Strand – A história](https://singularidadepoetica.art/2024/05/01/mark-strand-a-historia/): É a velha história: queixas sobre a luaafundando no mar, sobre as estrelas desvanecendo na primeira luz,sobre o gramado molhado de orvalho, o frio e prateado gramado. E por aí vai: um homem olha para a própria sombrae afirma serem as cinzas de si mesmo se desprendendo, diz que seus diassão os verdadeiros buracos negros no espaço. Mas nada disso é verdade. Você sabe a que me refiro: é sobre os minutos morrendo,e as horas, e os anos; é a história que contosobre mim, sobre você, sobre todos. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e […]
- [Joshua Poteat – Ferrotipia](https://singularidadepoetica.art/2024/04/30/joshua-poteat-ferrotipia/): FERROTIPIA Florestas inteiras foram para o mar disfarçadas de navios. Mares inteiros foram para as florestas Disfarçados de tempo. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog TINTYPEWhole forests went to sea disguised as ships. Whole seas went to forestdisguised as time.
- [Luis Alberto de Cuenca - O véu protetor](https://singularidadepoetica.art/2024/04/29/luis-alberto-de-cuenca-o-veu-protetor-2/): Amanheceu e nós estávamos dentroda vil realidade, o que não podeser bom. Melhor seria que passassemlogo as horas inúteis em que o diaproscreve a aventura com as normasdo tédio laboral, e que voltassema noite e as suas estrelas a envolver-nosno seu véu fantástico e a dar-nosa inútil sensação de estarmos vivos. Trad.: Miguel Filipe Mochila REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 27/05/2019
- [Jim Harrison – Transformação](https://singularidadepoetica.art/2024/04/28/jim-harrison-transformacao/): Nenhum lugar é o mesmo de ontem.Nenhum de nós é o mesmo de ontem.Por fim, morremos pela exaustão da transformação.Este júbilo celular em declínio é compartilhadopelo vento, insetos, aves, ursos e rios,e talvez pelos buracos negros no espaço galácticoonde nossas almas serão todas reunidas em um invisíveldedal de antimatéria. Mas não vamos nos precipitar.Sim, as árvores se desgastam à medida que crescem as papadassob meu queixo, as mãos enrugadas que tentaram estrangularum agressor de esposas na cidade de Nova York, em 1957.Giramos com a terra, recuperando o fôlegocomo alguém diferente, nossos cérebros macios e mal treinados,exceto para observar-nos desaparecer na distância.Ainda […]
- [Gonçalo M. Tavares - uma síntese disto tudo](https://singularidadepoetica.art/2024/04/27/goncalo-m-tavares-uma-sintese-disto-tudo-2/): é porque existe o desejo, o olfato, e o medo,e os vivos apaixonam-se por outros vivos,e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos,e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,e o quotidiano aí já não basta,porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável E não basta então a mulher que amamos,nem os filhos– os que nos vão sobrevive no tempo –e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr,é preciso sair dos ossos,fugir do obrigatório, à casa,encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta, de um mapa,fragmento […]
- [Amadeu Baptista – Sentido](https://singularidadepoetica.art/2024/04/26/amadeu-baptista-sentido/): Deixou de fazer sentido voltarPara casa para comer sozinho,Para dormir sozinho, para viverSozinho. Nenhum cão me espera, Nenhuma jarra onde tenhas postoUm ramo de rosas amarelas, Um lenço perfumado, uma almofadaEm que tenham ficado as tuas marcas De sono agitado. Deixou de fazerSentido ter em frente este horizonteDe pedras que o mar já não contém, Este tecido de espuma a desfazer-se.O que aqui ardia já não ardeE a noite é sempre longa e mutilada. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ian Hamilton - Última Valsa](https://singularidadepoetica.art/2024/04/25/ian-hamilton-ultima-valsa-2/): De onde estamos quase conseguimos identificarOs rostos destas pessoas que não conhecemos:Um semi-círculo sombreadoAo redor do enorme aparelho de TV doadoQue domina nossa ala. A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre elesIluminandoAmistosos, exaustos sorrisos. E nós,Como se nos importássemos, também sorrimos. Para cada alma perdida, nesta hora tardia,Um sedado espasmo de felicidade. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 19/05/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Last Waltz From where we sit, we can just about identifyThe faces of these people we don’t know:A shadowed semi-circleRanged around […]
- [Laura Gilpin – Canção Noturna](https://singularidadepoetica.art/2024/04/24/laura-gilpin-cancao-noturna/): E quando elaacordou de repenteno quarto vaziogritando mãe, mãe, a lua, observandoà distância, ergueu-sesobre a sua camae lá permaneceu,até que elaadormecesse. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Night Song And when she woke suddenly in the empty room crying mother, mother, the moon, watching at a distance, rose over her bed and stayed there until she was asleep.
- [Raymond Carver - Fragmento final](https://singularidadepoetica.art/2024/04/23/raymond-carver-fragmento-final-2/): “Fragmento final”, um poema de Raymond Carver que condensa o sentido da existência na simples e radical experiência de ter sido amado sobre a terra.
- [Timothy Joshua – A distância](https://singularidadepoetica.art/2024/04/22/timothy-joshua-a-distancia/): Você está tão distante, que meu sol se tornou sua lua. E como estrelas continuam a roubar nossa luz, não posso deixar de me perguntar se os céus que compartilhamos ainda são os mesmos.Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Long distanceYou are so far away, that my sun has become your moon. And as stars continue to steal our light, I cannot help but wonder if the skies that we share are still the same.
- [Joan Margarit - Monumentos](https://singularidadepoetica.art/2024/04/21/joan-margarit-monumentos-2/): O vazio que sentes, cada vez com mais força,é o dos traidores.Também os monumentos, por dentro, são vazios,com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:escuros e corroídos pela história,é tão sinistro seu interiorcomo arrogante o gesto que no ardesenha a personagem.À medida que os amigos nos traem– e a morte é também uma traição –nos vamos convertendo em monumentos.Por fora, ainda resta um resquício de eloquência,sobretudo ao falar com alguém jovem,mas a voz ressoa no vazio,perdida entre os vergalhões de uma oculta estruturaque se desgasta em finas camadas de ferrugem. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em […]
- [Sharon Olds – Poema tardio para meu pai](https://singularidadepoetica.art/2024/04/20/sharon-olds-poema-tardio-para-meu-pai/): De repente, você me veio à mentecomo uma criança naquela casa, os cômodos escurose a lareira acesa com o homem diante dela,silente. Você se movia pelo ar pesadoem sua beleza física, um menino de sete anos,indefeso, esperto, havia coisas que o homemfazia perto de você, e ele era seu pai,o molde que o formou. Lá embaixo, noporão, os barris de maçãs doces,colhidas no topo da árvore, apodreciam eapodreciam, e além da porta do porãoo riacho fluía e fluía, e algo não foi dado a você, ou algo com quevocê nasceu lhe foi tirado, de modo quemesmo aos 30 e 40 anos […]
- [Ian Hamilton - Lamento](https://singularidadepoetica.art/2024/04/19/ian-hamilton-lamento-2/): Fiz o que pude. Meus garotos correm soltos agora.Eles buscam oportunidades enquanto a mãe deles apodrece aqui.E rua acima, o homem,Meu único homem, que me tocou em todos os lugares,Desmancha-se sob a terra. Sou triste, obtusa, velha e alienada.À noite, sinto minhas mãos vagando sobre mim,Sondando meus seios, meus joelhos,As dobras do meu ventre,Vez ou outra pressionando e às vezes,Em sua fome, dilacerando-me.Vivo só. Meus garotos correm, deixando a mãe deles como se fosse um calhauRolando no recreio depois que tocou o sinal.Acumulo poeira e quase desejo a sepultura.Ter bichinhos habitando em mim já seria algo.Mas aqui, aos oito novamente, observo […]
- [Ross Gay – Homem tenta cometer suicídio com uma besta](https://singularidadepoetica.art/2024/04/18/ross-gay-homem-tenta-cometer-suicidio-com-uma-besta/): For Thomas Lux E fracassa. Primeiro, imagine a armaapontada para o céu, logo abaixo do queixo. Após o rápidoclique do gatilho, o seguinte: o que, para essenão-morto, deve ter soado como o estratosférico estrondo de um foguete,o que significa dizer que a setacoroou sua copa (ou seja, fixou-se). Nesse ponto, com a cabeçaagora espetada, o tal não-morto conseguiuo discernimento necessário para desrosquear a hastedo pequeno projétil alojado e removê-lo. E irandando até o pronto-socorro.Gosto de pensarque a graça assume formas estranhas: o alívioda seta para o uivo dos neurônios.Pensar nessa caminhada sob a noite aveludada.Acompanhe-me. Não penseem dor de cabeça. Em […]
- [Paulo Henriques Britto - Lacrimæ rerum](https://singularidadepoetica.art/2024/04/17/paulo-henriques-britto-lacrimae-rerum-2/): É o lamento das coisas,a desdita da matéria.Não tem nada a ver conosco,com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo.É uma questão de moléculas,que antecede a biologiapor coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcananosso entendimento pasma.Nem tudo está a vosso alcance,ó seres de protoplasma. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ursula K. Le Guin – Somos poeira](https://singularidadepoetica.art/2024/04/16/ursula-k-le-guin-somos-poeira/): Somos poeira em sofrimento.A luz brilha através de nóscomo através do spray das ondas, poeira de líquido*estourando, ou da chuva que cai. Trad.: Nelson Santander N. do T.: A escolha dos versos “poeira de líquido / estourando” nesta tradução busca, dentro do possível, preservar a ambiguidade dos versos “dust of water / breaking” no poema original. Esses versos podem ser interpretados de duas maneiras: como vapor gerado pela água que se quebra na praia, evocando imagens de ondas do mar, ou como o rompimento da bolsa de líquido amniótico, associado ao nascimento (em inglês a expressão “water break” serve para designar […]
- [Ian Hamilton - Admissão](https://singularidadepoetica.art/2024/04/15/ian-hamilton-admissao-2/): Os lábios rachados do porteiro noturno uniformizadoMurmuram horrivelmente contra o vidro embaçadoDe nossa ambulância escura.Nossa afliçãoInspira um único olhar marcial de desdémE logo ele nos indica o caminho, para a “Pátria”. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 18/04/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Admission The chapped lips of the uniformed night-porterMumble horribly against the misted glassOf our black ambulance.Our plightInspires a single, soldierly, contemptuous stareAnd then he waves us on, to Blighty.
- [Gerard Smyth – A caminho](https://singularidadepoetica.art/2024/04/14/gerard-smyth-a-caminho/): Estamos em um trem que segue em direção ao mar.Os nomes das estações estão no meio do caminhoentre dois idiomas. A paisagem é austera,como se à espera de um ataque.Tudo está em seu devido lugar.Tudo repousa ali sem se mover:o lodo no fundo do lago, a areiaque alcançou a praia.A quietude nos questiona sobre o que estamos fazendocom nossas almas. Uma sombra como um longo cortejoacompanha o trem.Vilarejos e cemitérios passam em sequência, um após o outro. O vagão está cheio:há muitas mãos exaustas de tanto acenar em despedida.As faces sonhadoras na janela do vagãoostentam olhos que deixaram seu olhar em […]
- [Manuel Halpern - Domingo de manhã](https://singularidadepoetica.art/2024/04/13/manuel-halpern-domingo-de-manha-2/): Quantos homensse apaixonam por tiao sábado à tardeenquanto passeiam os filhosno parquee se distraemdo balançodo baloiçona adivinhaçãodas partes do corpoque trazes tapadas Mal sabem que a tua solidãonão se preenchecom a desventura eróticade um corpoque te cubrasem consoloNão há faltade quem se deitecontigosábado à noiteapenas quem acordeao teu ladodomingo de manhã REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 17/04/2029 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ross Gay – Como aprender a amar o seu pai](https://singularidadepoetica.art/2024/04/12/ross-gay-como-aprender-a-amar-o-seu-pai/): "Como aprender a amar o seu pai", um poema de Ross Gay que transforma o gesto físico de erguer o pai debilitado em metáfora de reconciliação e aprendizado afetivo, explorando silêncio, memória e a gravidade emocional entre pai e filho.
- [Ángel González - Aniversário](https://singularidadepoetica.art/2024/04/11/angel-gonzalez-aniversario-2/): Eu percebo: como estou me tornandomais incerto, confuso,dissolvendo-me no arcotidiano, brutopedaço de mim, desgastadoe em frangalhos. Eu compreendo: vivimais um ano, e isso é muito duro.Pulsar o coração todos os diasquase cem vezes por minuto! Viver um ano requermorrer muito muitas vezes. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 15/04/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Cumpleaños Yo lo noto: cómo me voy volviendomenos cierto, confuso,disolviéndome en airecotidiano, burdojirón de mí, deshilachadoy roto por los puños. Yo comprendo: he vividoun año más, y eso es […]
- [Timothy Liu - Thoreau](https://singularidadepoetica.art/2024/04/10/timothy-liu-thoreau/): Meu pai e eu não temos para onde ir.Sua esposa não nos deixa entrar em casa —medo de contrair AIDS. Ela acredita quedormir com homens é pior do que um pecado,meu pai diz, enquanto nos sentamos no meio-fioem frente à casa dos vizinhos.Sessenta e quatro anos tornaram meu paiimpotente. Raízes grisalhas e tinta pretadesbotada manchando seus cabelos o fazem parecerquase cômico, como se sua humilhaçãofosse minha também. Ontem à noite lemosThoreau em um restaurante ali pertoe choramos: Se um homem não consegue acompanhar o passode seus companheiros, deixe-o viajar ao compasso da canção que ele ouve, por maislenta ou longínqua que esta […]
- [Raymond Carver - A cabine telefônica](https://singularidadepoetica.art/2024/04/09/raymond-carver-a-cabine-telefonica-2/): Ela desaba na cabine, chorandono telefone. Perguntando uma coisaou outra, e chorando um pouco mais.Seu companheiro, um camarada mais velho,usando jeans e camiseta, aguarda em péa sua vez de falar, e chorar.Ela passa o telefone para ele.Por um minuto eles ficam juntosna minúscula cabine, as lágrimas delerolando junto com as dela. Entãoela vai se encostar no para-choquedo sedan. E fica escutandoenquanto ele toma providências. Assisto a tudo isso do meu carro.Eu também não tenho telefone em casa.Fico sentado atrás do volante,fumando, esperando para tomaras minhas próprias providências. Logo depoisele desliga. Sai da cabine e enxuga o rosto.Eles entram no carro e […]
- [Mary Oliver - Às vezes](https://singularidadepoetica.art/2024/04/08/mary-oliver-as-vezes/): 1. Algo emergiuda escuridão.Não era nada que eu já tivesse visto antes.Não era um animalou uma flor,a menos que fosse ambos. Algo emergiu da água,uma cabeça do tamanho da de um gatomas enlameada e sem orelhas.Eu não sei o que é Deus.Eu não sei o que é a morte. Mas creio que eles tenham entre sialgum acordo fervoroso e necessário. 2. Às vezesa melancolia me corta a respiração. 3. Mais tarde, eu estava em um campo cheio de girassóis.Eu sentia o ápice do verão.Eu pensava no doce e elétricotorpor da criação, quando tudo começou a desmoronar. A oeste, nuvens se acumularam.Nuvens […]
- [Joan Margarit - O ano em que ela morreu](https://singularidadepoetica.art/2024/04/07/joan-margarit-o-ano-em-que-ela-morreu-2/): Na fotografia em sépiaés jovem e sorri. Faz-me lembraras mulheres dos filmes de guerrada minha infância:barcos na neblina, trens noturnose grandes cidades sob o alarme aéreo.Na lápide está escrito que ela se foino inverno de 44,aos vinte anos, quando me apaixonavapela sufocante escuridãocruzada por um raio de luz, a heroínados sonhos de amor de minha meninice.A dura pedratem uma cavidade com água de chuvaonde os pássaros vão beber quando,de casaco e cabelos grisalhosdesgrenhados pelo vento,o narrador se afasta.Tem o mesmo sonho nos olhos, em uma cidade,em um cinema onde agora está só. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente […]
- [Tomas Tranströmer - Postais Pretos](https://singularidadepoetica.art/2024/04/06/tomas-transtromer-postais-pretos/): I O calendário está repleto; o futuro é incerto.Os fios entoam uma canção folclórica apátrida.A neve cai sobre o mar cinzento. Sombrascombatem no cais. II No meio da vida, eis que a morte chegae tira nossas medidas. Essa visita logoé esquecida, e seguimos com a vida. Mas a vestesegue sendo silenciosamente cosida. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Svarta vykort I Almanackan fullskriven, framtid okänd.Kabeln nynnar folkvisan utan hemland.Snöfall i det blystilla havet. Skuggorbrottas på kajen. II Mitt i livet händer det att döden kommeroch […]
- [Manuel António Pina - Corpo Presente](https://singularidadepoetica.art/2024/04/05/manuel-antonio-pina-corpo-presente-2/): Toda a casa suspenderaa respiraçãoincapaz de contertamanha desproporção, e eu próprio desapareceraalgures na sala, entre a tua vida e a tua morte.Atenderam o telefonefalando baixo, temendo que regressassecada coisa do teu lugarsem estar prontos aindapara a tua solidão. Faltava muitopara podermos perceber,muitos passos para chegarmosaonde sempre estivéramos: mais perto do tédio do que da esperança,da parte do que do todo,vagueando ainda na tua ausência,longe do céu e da ideia da morte. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 08/04/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Jan Heller Levi – Nada mal, pai, nada mal](https://singularidadepoetica.art/2024/04/04/jan-heller-levi-nada-mal-pai-nada-mal/): Acho que você é mais você mesmo quando está nadando;fatiando a água a cada braçada,a maneira engraçada como respira, a boca arqueadacomo se estivesse bocejando. Você não é incrível nem péssimoindo daqui para lá.Você não ganharia nenhuma medalha, pai,mas não se afogaria. Penso em como tudo poderia ter sido diferente se eutivesse julgado seu amorcomo julgo seu nado lateral, seu borboleta,seu crawl. Mas sempre pensei que estava me afogandonaquele oceano gelado entre nós,sempre achei que você se movia muito devagar para me salvar,quando você estava indo o mais rápido que podia. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. […]
- [Luís García Montero - Resumo dos fatos](https://singularidadepoetica.art/2024/04/03/luis-garcia-montero-resumo-dos-fatos-2/): Resumo dos fatos, um poema de Luís García Montero, reflete sobre a comunicação moderna, a efemeridade das mensagens digitais e a permanência dos grandes temas humanos, afirmando que, no fim, apenas o amor e a morte realmente importam.
- [Paul Guest – 2020](https://singularidadepoetica.art/2024/04/02/paul-guest-2020/): Talvez seja preciso abraçar a decepção.Da maneira como você não consegue dormir à noite,sonhando com a poeira nos móveise o agradável odor de madeira compensadae como é a sensação de descascar a peledo polegar. Talvez você deva começaraquele romance perfeito que irásalvá-lo. Livrar você das rubras garrasde um monstro que está bem alialém de sua visão falha. Não hoje, Satã, ou Ronald Reagan —você aprende que muitas vezes o mal não é uma questão denuance. Estava chovendono dia em que nasci,e anos depois, eu não aprendi muito maissobre as estrelas: fogoe luz fria flutuando na escuridão do cosmos.Na noite passada, li […]
- [Carlos Poças Falcão - A luz coada num pano negro](https://singularidadepoetica.art/2024/04/01/carlos-pocas-falcao-a-luz-coada-num-pano-negro-2/): Lamenta-te, pois já não é alegreo vento sobre os campos.Não há descoberta nem transfiguraçãoquando o calendário vem com as primícias. Lamenta-te, lamenta-te.Já não tens a nudez certanem a fragrância antiga. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 03/04/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Chad Frame – Área de Fumantes](https://singularidadepoetica.art/2024/03/31/chad-frame-area-de-fumantes/): Área de fumantes VA Medical Center em Wilkes Barre, Pennsylvania: lado de fora da enfermaria Páscoa, e o recinto de vidro está embaçadocomo um olho remelento. Os velhos fumam,ofegantes em seus bonés e cadeiras de rodas. Trouxemos o cachorro do meu pai. Eu sei que não éum cachorro de homem, anuncia ele, o chihuahuarepousando na colcha azul cobrindo seu colo. De qualquer forma, é um ótimo cachorro, diz Cecil,com seu baixo ronco rouco e catarrento.Ele parece ter o tamanho certo para uma bola de futebol. Perdemos a última. O que começa como uma risada em ambas as gargantas se transforma em tosse áspera e […]
- [Vicente Gaos - Esquecei](https://singularidadepoetica.art/2024/03/30/vicente-gaos-esquecei-2/): Esquece, homem… Esquece que és cinzase em cinzas te tornarás. Esquece esta quarta-feirae o in pulvis reverteris. Pois embora sejas cinza e pó,há vida, amor, beleza ao redor. É verdade: beleza, amor, vida,fugazes flores de um dia. Mas flores, sim. Enquanto durara magia verdadeira de seu perfume, esquece o pó e a morte.É melhor não lembrar do que, com ou sem memória,baterá algum dia à tua porta. Por ora, fecha-a. Abre a varanda,que te penetre e embriague o sol. Olha-o bem: fecha as pálpebras,e que o sol te salve do caos. No final, verás que tanto fazviver e morrer, seja domingo […]
- [Manuel António Pina - Sexta-feira Santa](https://singularidadepoetica.art/2024/03/29/manuel-antonio-pina-sexta-feira-santa-2/): A conversa era sobre Deus,embora o teólogo estivesse inclinadoa pensar que fosse sobre outra coisa,pois era hora de jantar.Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar.Tinha devorado o pargo com honesto apetitee elogiava as virtudes do cozinheiro.Só Deus, algures, chorava sobreos despojos da sua pequena criatura na travessaa caminho da copa, antes da sobremesa. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Helena Zelic - Bem-vinda](https://singularidadepoetica.art/2024/03/28/helena-zelic-bem-vinda-2/): em uma casa desconhecidaé preciso observar os movimentos das coisas: o gás se vem da rua ou botijãoas árduas relações entre tomadas e eletrodomésticosbotões de liga e desligaa política da limpezase toda sujeira é política.as cores das chaves, as trancas trocadasencaixar, tirar e encaixar de novona busca do que é espontâneo.entrar na casa como se sempre fosse.sair como quem volta ao pôr do sol. conhecer as gavetas, os tacos soltosos insetos que invadem o verãoa hora da caminhonete de frutaso dia do lixo para foraa vizinha, e a outra, e a outra.as vizinhas são sempre muitas. compreender a linguagem do cãoquando […]
- [Adélia Prado - Os lugares comuns](https://singularidadepoetica.art/2024/03/27/adelia-prado-os-lugares-comuns/): Quando o homem que ia casar comigochegou a primeira vez na minha casa,eu estava saindo do banheiro, devastadade angelismo e carência. Mesmo assim,ele me olhou com olhos admiradose segurou minha mão mais queum tempo normal a pessoasacabando de se conhecer.Nunca mencionou o fato.Até hoje me ama com amorde vagarezas, súbitos chegares.Quando eu sei que ele vem,eu fecho a porta para a grata surpresa.Vou abri-la como o fazem as noivase as amantes. Seu nome é:Salvador do meu corpo. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Raymond Carver - Esta manhã](https://singularidadepoetica.art/2024/03/26/raymond-carver-esta-manha-2/): Esta manhã foi especial. Um pouco de nevecobria o chão. O sol flutuava num clarocéu azul. O mar estava azul, e verde-azulado,até onde o olho podia enxergar.Calmo. Quase sem ondas. Eu me vestie saí para caminhar – decidido a não voltaraté receber o que a Natureza tivesse a oferecer.Passei perto de algumas árvores velhas, curvadas.Atravessei um campo com pedras espalhadasonde a neve se acumulara. Segui em frenteaté chegar ao penhasco.De onde fitei o mar, o céu eas gaivotas revoando sobre a areia branca,lá embaixo. Tudo adorável. Tudo banhado numa puraluz fria. Mas, como sempre, meus pensamentoscomeçaram a vagar. Tive de me […]
- [W. S. Merwin – Agradecimentos](https://singularidadepoetica.art/2024/03/25/w-s-merwin-agradecimentos/): "Agradecimentos", um poema de W. S. Merwin
- [Paulo Henriques Britto - Da irresolução](https://singularidadepoetica.art/2024/03/24/paulo-henriques-britto-da-irresolucao-2/): Por não se estar preparadoperde-se a vida inteira.A preparação, porém,pra ser completa e certeira, exigiria no mínimouma existência e meia.Compreende-se, portanto,aquele que titubeia ao se ver face a facecom tamanho compromissoe termina decidindoviver mesmo de improviso. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 24/03/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [James Wright – Deitado em uma rede na fazenda de William Duffy, em Pine Island, Minnesota](https://singularidadepoetica.art/2024/03/23/james-wright-deitado-em-uma-rede-na-fazenda-de-william-duffy-em-pine-island-minnesota/): Sobre a minha cabeça, vejo a borboleta-acobreada,Adormecida no tronco preto,Balançando como uma folha na sombra verde.Descendo a ravina atrás da casa vazia,Os sinos das vacas seguem uns ao outrosNas distâncias da tarde.À minha direita,Em um campo de luz solar entre dois pinheiros,Os dejetos dos cavalos do ano passadoTransformaram-se em rochas douradas.Eu me inclino para trás, enquanto a noite escurece e se aproxima.Um gavião-galinha sobrevoa o local, procurando abrigo.Tenho desperdiçado minha vida. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Lying in a Hammock at William Duffy’s Farm […]
- [Joan Margarit - Helena](https://singularidadepoetica.art/2024/03/22/joan-margarit-helena-2/): O ontem é teu inferno. É cada instanteem que, sem sabê-lo, te perdestee também cada instante em que foste salvo.Quando o jovem que foste está muito distante,o amor é vingança do passado.Vens de uma guerra em que foste vencido,de armas e acampamentos abandonadosna Troia que levas dentro de ti.Buscar-te-ão de noite os aqueose estreitarão o cerco. Voltarás,por uma mulher, a perder a cidade.Helena são todos os sonhos de que a vidafoi-se apropriando. Defende-a bravamentepela última vez, desarmado. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 23/03/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter […]
- [Emily Jungmin Yoon – Questões Conexas](https://singularidadepoetica.art/2024/03/21/emily-jungmin-yoon-questoes-conexas/): Olho para o oceano como se fosse um adeus.Em algum lugar, ele toca uma terra à mercê do fogo.Minha mãe enlutada traz a floresta para dentro de casa, um exagero verde.Quando ela replanta as árvores, não é diferente de trocar fraldas.Mas ela não se preocupa mais com os troncos mirrados das moribundas.Hoje em dia, tudo parece o fim.Dias atrás, um tufão estilhaçou vidros de edifícios.Uma mulher de sessenta e poucos anos sangrou até a morte depois que eles rasgarama janela em seus braços. Aprendi que o nome do vento, Maysak,significa teca em Khmer. A madeira delamantém sua fragrância aromática até uma idade […]
- [Joy Harjo – Canção de outono](https://singularidadepoetica.art/2024/03/20/joy-harjo-cancao-de-outono/): É um dia escuro de outono.A terra está ligeiramente molhada pela chuva.Ouço um gaio.O canto é triste.Encontrei você na história novamente.Existe outra palavra para ‘‘divino’’?Preciso de uma canção que mantenha o céu aberto em minha mente.Se eu pensar para trás, posso quebrar.Se eu pensar para frente, perco o agora.Para sempre será um dia assim,Perfeitamente enlaçado ao colar dos dias.Levemente encobertoFolhas amarelasSeu casaco pendurado no corredorJunto ao meu. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Fall Song It is a dark fall day.The earth is slightly damp […]
- [W. S. Merwin - Um retrato](https://singularidadepoetica.art/2024/03/19/w-s-merwin-um-retrato/): Já é quase o dia do seu aniversário e enquanto me visto sozinho em casaum botão se solta e assim que encontrouma agulha com um buraco suficientemente grandepara eu passar a linhae finalmente costurar o botãoabro uma velha foto sua que sempre fazia essas coisas por mágicauma fotografia encontrada após a sua mortede você aos vinte anosbonita de uma maneiraque eu nunca veriapois isso foi nove anosantes de eu nascermas a imagem desbotou de repentemanchas a macularamtalvez já esteja além de reparoeu possuo apenas o que me lembro Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e […]
- [Nuno Júdice - Como Aves, Cuja Passagem](https://singularidadepoetica.art/2024/03/18/nuno-judice-como-aves-cuja-passagem-2/): Como sombras passaram entre nós, como sombras. Uma vez perante alguns amigos e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei os seus nomes. Mas o que não correspondia a um acto heroico, nada significava hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. Só se eu próprio me tornar uma sombra, e também eu passar a uma outra vida. Durante algum tempo alguém falará de mim dizendo “conheci-o”, ou “há tanto tempo falei com ele”. Mas em breve outros se tornarão sombras, e depois outros, até que o meu gesto se confunda com esses, e todos por fim se dissipem na obscuridade do tempo passado. Nuno […]
- [Manuel António Pina - Café Orfeu](https://singularidadepoetica.art/2024/03/18/manuel-antonio-pina-cafe-orfeu-2/): Nunca tinha caídode tamanha altura em mimantes de ter subidoàs alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorrisocomo de uma súbita ausênciaou como se tivesse lá ficadoe outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorrisoa minha vida pareciaa vida de outra pessoaque fora de mim a vivia. E a que eu regressava lentamentecomo se antes do teu sorrisoalguém (eu provavelmente)nunca tivesse existido. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 22/03/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Ada Limón – A máquina do silêncio](https://singularidadepoetica.art/2024/03/17/ada-limon-a-maquina-do-silencio/): Estou aprendendo muitas maneiras diferentes de ficar em silêncio. Há a forma como eu fico no gramado, essa é uma delas. Há também o jeito como permaneço no campo do outro lado da rua, que é diferente, porque estou mais distante das pessoas e, portanto, mais propensa a estar sozinha. Há a maneira como eu não atendo o telefone e como, às vezes, gosto de deitar no chão da cozinha e fingir que não estou em casa quando alguém bate à porta. Há o silêncio diurno, quando apenas observo, e o silêncio noturno, quando faço coisas. Há o silêncio do chuveiro, […]
- [Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave](https://singularidadepoetica.art/2024/03/16/fernando-pinto-do-amaral-por-causa-de-uma-ave-2/): “Por causa de uma ave”, um poema de Fernando Pinto do Amaral que transforma o esqueleto de um pássaro em revelação brutal da mortalidade, ligando a perda íntima à consciência inquieta da própria finitude.
- [Faith Shearin – O que eu gosto](https://singularidadepoetica.art/2024/03/15/faith-shearin-o-que-eu-gosto/): Não da festa em si — um turbilhão de momentos desconfortáveis e risosque, na verdade, querem dizer outra coisa. Não do momento logo após o fimda festa, quando nos jogamos no sofá, pratos espalhados por toda parte,bitucas de cigarro flutuando no refrigerante, um único pedaço intocado de torta sobre a mesa de centro. O que eu gosto é do dia seguinte à festa: os vestígiosdos convidados quase apagados, os balões amarrados na despensa, mas voandoum pouco mais baixo. A comida restante mumificada na geladeira. Gostode lembrar que a sala estava cheia sem estar em uma sala cheia.O silêncio flui como água […]
- [Vicente Gaos - A vida](https://singularidadepoetica.art/2024/03/14/vicente-gaos-a-vida-2/): Os ardorosos signos da vidapulsam na atmosfera do verão.O mar respira tal como um varão,como uma criatura enfurecida. Oh gozo e amor, sangue furioso,cósmica vibração de um mundo arcano.Mundo que sinto ao tatear teu crâniofrágil quando nele minha mão pouso. Te amo, sim, te amo, sonho forte,Fecho os olhos e te sinto inteira– Oh luz formosa e cega da morte.A agitação final da primavera -.Fecho meus olhos porque quero ver-te.Oh Deus! Que a vida não vire poeira! Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente na página em 18/03/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter […]
- [Thomas Lux – Irreconciliabilidade](https://singularidadepoetica.art/2024/03/13/thomas-lux-irreconciliabilidade/): Não importa o que você faça,não é possível retê-lo por muito tempo,nem trazê-lo de volta. O céu, o céu vazio,quase azul, as casas modestas do sono,cobertas de musgo, irão chamá-lo. Não importa o quanto você ame,este amor vai passar, vai passar,seus amigos imortalizados, partiram, se perderam. Incandescem os verãose os anos, e tudo o que você conhecedesaparece, ferido pela escuridão. Não importam filhos, esposa,ou arte. O rio serpenteiae serpenteia novamente rumo ao mar. O suave estalar de lábios de vermes,os pés de uma aranha sobreuma folha; você vê, você ouve. Não importam bênçãos, raiva,ou repouso: os mortos permanecem mortos.Você caminha, espinha […]
- [Rui Diniz - O desaguar dos crepúsculos no Ebro](https://singularidadepoetica.art/2024/03/12/rui-diniz-o-desaguar-dos-crepusculos-no-ebro-2/): Eu estava presente quando o corpo do hernandezdeu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamenteroxo, evocava os últimos dias da sua vida,quando se demorava o menos possível nos cafés debarcelona, perseguido até por si próprio.De facto a loucura procurava-o lentamente.Durante a noite, em tempo de lua cheia, a suasombra por vezes corria pelo silêncio dorsaldas colinas, rindo. Eu lia então até tarde assuas descrições de uma espanha enlouquecida,sonhadora de sangue, impulsionada peloscemitérios sombrios onde corpos se iam decompondoenquanto esperavam. Os seus dedos crispavam-sequando o vi trazido para terra naquele poenteáspero como poentes da cantábria. Os seus olhoseram duas covas percorridas […]
- [Kwame Dawes – Solidão](https://singularidadepoetica.art/2024/03/11/kwame-dawes-solidao/): Tenho voltado a conversar com árvores em pleno inverno; não com as das bordas,aquelas seguras, contemplando a rodovia; mergulho fundo, onde a neve é em pó, cristalina sob a luz. Dialogamos, os ramos roçam uns nos outroscomo insetos sibilantes o frio acalma até meu coração inquieto;aqui, o silêncio é absoluto. A cada passo, sou surpreendido pelo ecooco do couro sobre a neve frágil. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Loneliness I have taken to talking to treesin midwinter; never those at the edgesthe safe ones […]
- [Carmen Conde - [Declaro que morreu e que seu túmulo]](https://singularidadepoetica.art/2024/03/10/carmen-conde-declaro-que-morreu-e-que-seu-tumulo-2/): Declaro que morreu e que seu túmuloestá dentro de mim; sou seu sudário.A ninguém se enterrou porque seu trânsitono tempo foi de loucas esperanças. Circundam o contorno desta cova– quente é a vinha que escala as paredes –os pâmpanos mais tenros e suculentosque arrancam do silêncio seu tumulto. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 14/03/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Declaro que se ha muerto y que su tumba Declaro que se ha muerto y que su tumbaestá dentro de mí; soy su […]
- [Maureen Seaton – Preparem-se para dias melhores](https://singularidadepoetica.art/2024/03/09/maureen-seaton-preparem-se-para-dias-melhores/): Preparem-se para dias melhores — Virgilio, Eneida Não vou me guardar para dias melhores.Vou me consumir agora – e depois vou me consumir novamente amanhã.É por isso que mantenho os olhos abertos a noite toda e meu coração se precipita em direção às estrelas.Para ver quais decidem permanecer imóveis e criar uma constelação ao meu redor Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Save Yourself for Better Times — Virgil, Aeneid I will not save myself for better times. I will use myself up now-and then I […]
- [Mario Benedetti - Currículo](https://singularidadepoetica.art/2024/03/08/mario-benedetti-curriculo-2/): A história é muito simplesvocê nascecontempla aturdidoo vermelho-azul do céuo pássaro que emigrao desajeitado besouroque seu sapato esmagarádestemido você sofrereclama por comidae por hábitopor obrigaçãochora isento de culpasexaustoaté que o sonho o desqualifique você amase transfigura e amapor uma eternidade tão efêmeraque até o orgulho se torna ternoe o coração proféticose converte em escombros você aprendee usa o que aprendeupara tornar-se lentamente sábiopara compreender que, afinal, o mundo é issoem seu melhor momento, uma nostalgiaem seu pior momento, um desamparoe sempre sempreuma confusão entãovocê morre. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 13/03/2019 Mais do que uma leitura, […]
- [Li-Young Lee – O grande relógio](https://singularidadepoetica.art/2024/03/07/li-young-lee-o-grande-relogio/): Quando o grande relógio da estação parou,as folhas continuaram a cair,os trens continuaram a circular,o cabelo da minha mãe continuou a crescer, ainda mais negro,e o corpo do meu pai continuou a encher-se de tempo. Não consigo enxergar o ano no calendário da estação.Dormimos sob os ponteiros parados do relógioaté a manhã, quando um homem entrou trazendo uma escada.Ele subiu até o mostrador do relógio e o abriu com uma chave.Ninguém, além dele, soube o que ele viu. Abaixo dele, os rostos mortais seguiram passando,rumo a todos os pontos cardeais.As pessoas seguiram cruzando fronteiras,comprando bilhetes em um fuso horário e pisando […]
- [Nicanor Parra - Esquecimento](https://singularidadepoetica.art/2024/03/06/nicanor-parra-esquecimento-2/): Juro que não me lembro nem do seu nome,Mas morrerei chamando-a de Maria,Não por mero capricho de poeta,Pela sua aura de praça de província.Que tempos aqueles!, eu, um esquisitão,Ela, jovem pálida e sombria.Ao voltar certa tarde do LiceuSoube de sua morte imerecida,Notícia que me causou tal desalentoQue derramei uma lágrima ao ouvi-la.Uma lágrima, sim, quem acreditaria!E olha que sou pessoa de vigor.Se devo dar crédito ao que disseramAqueles que trouxeram a notíciaDevo aceitar, sem qualquer hesitação,Que morreu com meu nome nas pupilas.Fato que me surpreende, pois nuncaFora para mim mais do que uma amiga.Nunca tive com ela mais que simplesRelações de […]
- [Emily Montgomery – Algo Bonito](https://singularidadepoetica.art/2024/03/05/emily-montgomery-algo-bonito/): Algo Bonito para Chris Eu quis reservar algo bonito para você.As últimas três joias de romãs reluzentesequilibradas na palma da minha mão antes que eu as comesse.O canto matinal dos pássaros no limoeiro depois de você ter ido trabalhar,a lembrança da chuva da noite passada ainda impressa no gramado.Ou antes, a enigmática esfericidade da luasobre o cânion, pouco antes do amanhecer, quando eu não consegui dormir,em pé junto à janela, olhando para você, seu corpoflutuando na enluarada luz aquosa em nossos lençóis.Eu quero dizer algo verdadeiramente belo, meu amor.A quietude da casa depois que a máquina de lavarcessou de zunir. O […]
- [José Fernando Guedes - Coeso é o tempo](https://singularidadepoetica.art/2024/03/04/jose-fernando-guedes-coeso-e-o-tempo-2/): Coeso é o tempo em cada tênue segundoQue logo se desfaz e se reconstróiComo uma linguagem de gestos que o universoElabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundoHá suficiente espaço para se fazer o bem ou o malPorque é assim mesmo que acontece: o mal ou o bemInfinitesimais, germinam e brotam no exatoSegundo onde nasceram.Portanto o cimento da estrutura orgânica do tempoÉ o mal e o bem que você e eu temos à nossa disposição. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 10/03/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia […]
- [Caitlyn Siehl – Uma carta ao amor](https://singularidadepoetica.art/2024/03/03/caitlyn-siehl-uma-carta-ao-amor/): O primeiro poema que escrevi que não era sobre vocêestava todo em maiúsculascomo se estivesse tentando compensara sua ausência. Era sobre um mundo distante desteonde todas as plantas eram aterrorizantes,mas tinham poderes de cura se tivéssemos a coragemde tocá-las. O primeiro poema que escrevi que não era sobre vocêinflou a garganta como um sapo-boie implorou para ser beijado. É o meu poema favorito porque o odeio demais. Leio-o pelo menos uma vez por dia e penso:“Então é disso que sou capaz sem você. Vai entender.” Há um buraco em tudoe lá te encontro, sorrindo,como se você não tivesse outro lugar para […]
- [Raymond Carver - A carteira do meu pai](https://singularidadepoetica.art/2024/03/02/raymond-carver-a-carteira-do-meu-pai-2/): Muito antes de pensar em sua própria mortemeu pai dizia que gostaria de descansar pertodos seus pais. Sentia muita falta delesdesde que tinham partido.Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse,e eu me lembrasse. Mas quando o ardeixou seus pulmões e todo sinal de vidase extinguiu, ele se encontrava numa cidadea 512 milhas de onde mais queria estar. Mas meu pai, ele era incansávelaté na morte. Até na morteele tinha uma última viagem a fazer.A vida inteira gostara de perambulare agora ele tinha mais um lugar para ir. O agente funerário disse que cuidaria de tudo,que não nos preocupássemos. […]
- [Raymond Antrobus – Duas armas no céu para Daniel Harris](https://singularidadepoetica.art/2024/03/01/raymond-antrobus-duas-armas-no-ceu-para-daniel-harris/): Quando Daniel Harris saiu do carro1,o policial estava à espera. Arma erguida. Uso o pretérito, embora seja irrelevantena língua de Daniel, que é a dos sinais. Sinais não têm futuro nem pretérito; é língua do presente.Nunca se está mais presente do que quando uma arma é apontada para você. Que língua expressa issose não a dos sinais? Mas o policial viu mãos acenando no ar, disparou e Daniel largouas mãos, o peito sangrando no concreto a metros de sua casa. Estou no Breukelen Coffee House,em Nova Iorque, lendo essa notícia no celular, quando uma policial negra entra, duas armasna cintura, meu […]
- [Francisco Brines - A Piedade do Tempo](https://singularidadepoetica.art/2024/02/29/francisco-brines-a-piedade-do-tempo-2/): Em que escuro recanto do tempo que morreuvivem ainda,a arder, aquelas coxas? Dão luz aindaa estes olhos tão velhos e enganados,que voltam agora a ser o milagre que foram:desejo de uma carne, e a alegriado que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagemque já nunca saberemos se existiu,pois só pertence a um lugar extinto. Trad.: José Bento REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 07/03/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Francisco Brines – La piedad del tiempo ¿En qué oscuro rincón del […]
- [Arthur W. Frank – Um senso de encantamento](https://singularidadepoetica.art/2024/02/28/arthur-w-frank-um-senso-de-encantamento/): A única diferença realentre as pessoasnão é saúde ou doença,mas como cada uma mantémum senso de valorna vida. Quando sinto que não tenho tempopara sair e contemplara luz do solno rio, minha recuperação foi longe demais. Um pouco de medo está tudo bem. Está tudo bemsaberque em um mêseu poderia estar deitadoem uma cama de hospital me perguntandocomo passei o dia de hoje. Manter essa pergunta −como foi o seu dia? −me faz lembrar de sentire ver e ouvir. É muito fácilficar distraído.Quando a rotina se tornafrustrante, tenho que lembrar daquelas vezesem que a rotiname foiproibida. Quando estava doente,tudo o que […]
- [Paulo Henriques Britto - Uma nova teoria de tudo](https://singularidadepoetica.art/2024/02/27/paulo-henriques-britto-uma-nova-teoria-de-tudo-2/): Todas as coisas que existem no mundofazem sentido. Senão não teriasentido elas serem. Ou estarem. Tudomais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nuncafaz parte de sempre, assim como zeroé apenas um número entre outros números.Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é só mais redonda que as outras – nadade mais. E todas as proposiçõessão verdadeiras – se tornam verdade no instante exato em que são formuladas.Ficam sem efeito as contradiçõestodas. (Pronto. Creia. Não faça alarde.) REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 06/03/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e […]
- [Charles Simic – Minha contenda com o Infinito](https://singularidadepoetica.art/2024/02/26/charles-simic-minha-contenda-com-o-infinito/): Eu preferia o fugaz,Como a lembrança de um gole de vinhoDe nobre safraNa língua, de olhos fechados… Quando me tocaste no ombro,Ó luz, inexprimível em teu esplendor,Em nada me ajudaste.Apenas prolongaste minha insônia. Estava absorto no espetáculo,Secretamente lamentando o fugidio:Todos os seus beijos e encantosProvisórios, de vida breve. Aqui, com o novo dia surgindo,E um único espantalho no horizonteDirigindo o tráfegoDe corvos e suas sombras. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog My Quarrel with the Infinite I preferred the fleeting,Like a memory of a sip […]
- [Joan Margarit - Esboço para um Epílogo](https://singularidadepoetica.art/2024/02/25/joan-margarit-esboco-para-um-epilogo-2/): Diante de ti sentes um rumor de passosque vem do futuro, essa torredemolida antes de ser construída.Só existe a dúvida moral: ama,não penses na camada de póa que tanto aludes, ostensivamente,quando dizes: “minha vida”.E, do prestígio das negações,desconfia: a vida representanão só a vitória dos anossobre nós. Também nos ensinaquão gloriosa foinossa vitória inicial sobre o tempo. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Esbozo para un epílogo Ante ti sientes un rumor de pasosque viene del futuro, esa torrederribada antes de que la construyeran.Sólo existe […]
- [Mark Strand – O guardião](https://singularidadepoetica.art/2024/02/24/mark-strand-o-guardiao/): O sol se pondo. Os gramados em chamasO dia perdido, a luz que se apagou.Por que amo o que desvanece? Tu que partiste, que estavas partindo,que quartos escuros habitas?Guardião da minha morte, preserva minha ausência. Eu estou vivo. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog The guardian The sun setting. The lawns on fire.The lost day, the lost light.Why do I love what fades? You who left, who were leaving,what dark rooms do you inhabit?Guardian of my death, preserve my absence. I am alive.
- [Israel Zangwill - [Um dia, estando entre nós dois o Atlântico]](https://singularidadepoetica.art/2024/02/23/israel-zangwill-um-dia-estando-entre-nos-dois-o-atlantico-2/): Um dia, estando entre nós dois o Atlântico,senti a tua mão na minha;Agora, tendo a tua mão na minha,sinto entre nós dois o Atlântico. Trad.: Cecília Meireles REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 27/02/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Dan Albergotti – Considere as flores do campo](https://singularidadepoetica.art/2024/02/22/dan-albergotti-considere-as-flores-do-campo/): Os grãosespalhados no chãobuscam um ponto de arrimoque consigam encontrar no terreno,abrem-se, estendendo pés embrionárioscomo luminescentes raios e passos retardatáriospara achar o nutrimento mais próximo e sugá-lo. Ou talse presumiria, observando a passagem do tempo. Mas nada é intencional. É mais como tinta derramada a esmo. Não há design. Nutrientes despropositadoschegam aos grãos, pelo menos os poucos que são enxaguadosdebaixo do chão. Todos os demais são perdidos.Como muitos, os grãos são esparzidos.A maior parte é um crassofracasso. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Consider the […]
- [Manuel António Pina - Numa Estação de Metrô](https://singularidadepoetica.art/2024/02/21/manuel-antonio-pina-numa-estacao-de-metro-2/): A minha juventude passou e eu não estava lá.Pensava em outra coisa, olhava noutra direção.Os melhores anos da minha vida perdidos por distração! Rosalinda, a das róseas coxas, onde está?Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão?Provavelmente professoras de Alemãoem colégios fora do tempo e do espa- ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-iaamado de um amor imprudente e impudente,como num sujo sonho adolescentede que alguém, no outro dia, acordaria. Pois tudo era memória, aconteciahá muitos anos, e quem se lembravaera também memória que passava,um rosto que entre outros rostos se perdia. Agora, vista daqui, da recordação,a minha vida é uma multidãoonde, não sei quem, em […]
- [Dorianne Laux – Da gentileza de estranhos](https://singularidadepoetica.art/2024/02/20/dorianne-laux-da-gentileza-de-estranhos/): Não importa a dor, seu peso,somos obrigados a carregá-la.Erguemo-nos e ganhamos impulso, a força monótonaque nos empurra através da multidão.Mas então um garoto me dá instruçõescom tanto entusiasmo. Uma mulher segura a porta de vidro aberta,pacientemente esperando meu corpo vazio passar por ela.Ao longo do dia, isso continua, cada ato de bondadese estendendo em direção a outro — um estranhocantando para ninguém enquanto passo pelo caminho, árvoresofertando suas flores, uma criançaque ergue seus olhos amendoados e sorri.De alguma forma, eles sempre me encontram, até parecemestar à espera, determinados a me afastarde mim mesma, daquilo que me chama,como deve ter um dia […]
- [Bruna Beber - romance em doze linhas](https://singularidadepoetica.art/2024/02/19/bruna-beber-romance-em-doze-linhas-2/): “Romance em doze linhas”, um poema de Bruna Beber que condensa o ciclo inteiro do amor — da urgência do encontro ao apagamento da memória — na cadência inquieta de uma única pergunta.
- [Aracelis Girmay – Sobre a bondade](https://singularidadepoetica.art/2024/02/18/aracelis-girmay-sobre-a-bondade/): Sobre a Bondade depois de Nazim Hikmet, para & depois de Rassan No Aeroporto Metropolitano de Detroitcom horas lentas, como tartarugas quesobram antes do meu voo, existeessa bondadeda esteira rolante que me emprestaseus lentos e estranhos pés de moluscoenquanto permaneço quieta, exausta, após diassozinha em minha cama, dormindoem hotéis, após passar mesessem ver os rostos da minha família, de alguma formaseu lento & silencioso transporte de bagagemme faz lembrar da bondade dos burros& essa bondade me traz de volta a mim mesma.Ela me faz lembrar da bondade de outras coisas que amocomo a bondade de irmãs que lhe enviam cartas,onde quer […]
- [Felipe Benítez Reyes - O desenho na água](https://singularidadepoetica.art/2024/02/17/felipe-benitez-reyes-o-desenho-na-agua-2/): Bem sabes que estes anos passarão,que tudo terminará em literatura:a imagem das noites, as lendasda triunfante juventude e as cidadesvividas como corpos. Que estes anospassarão tu já sabes, pois são teuscomo se possuísses a neve e a neblina,como é do mar a bruma, ou do ara cor da tarde fugidia:pertences de ninguém e do nadasurgidos, que para o nada vão:nem o próprio mar, nem o ar, nem essa bruma,nem um crepúsculo igual teus olhos verão. A memória é um desenho na água,e em suas ondas se expressa o cadáver do tempo. Tu farás este desenho. E de repenteterás a sombra mortado […]
- [Mark Strand – Meu nome](https://singularidadepoetica.art/2024/02/16/mark-strand-meu-nome/): Certa noite, quando a relva estava verde-douradae as marmóreas árvores à luz do luar se erguiam como novos memoriaisno ar perfumado, e toda a paisagem pulsavacom o zumbido e o murmúrio dos insetos, eu me deitei na gramasentindo a vastidão abrir-se acima de mim, e me pergunteio que eu me tornaria – e onde encontraria a mim mesmo –e, embora eu mal existisse, senti por um instanteque o vasto céu cravejado de estrelas era meu, e ouvimeu nome como se fosse a primeira vez, ouvi-o como seouve o vento ou a chuva, mas débil e distante,como se não me pertencesse, mas […]
- [Sérgio Jockyman - Os votos](https://singularidadepoetica.art/2024/02/15/sergio-jockyman-os-votos-2/): Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado.E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa.Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar.Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e fiéis.E que em pelo menos um deles você possa confiar e que confiando não duvide de sua confiança.E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem poucos, mas na medida exata para que algumas vezes você interpele a respeito de suas próprias certezas.E […]
- [John Updike – A morte da cachorra](https://singularidadepoetica.art/2024/02/14/john-updike-a-morte-da-cachorra/): Ela deve ter sido chutada ou atropelada por um carro sem que víssemos.Muito nova para saber muito, ela começava a aprenderA usar os jornais espalhados pelo chão da cozinhaE a ganhar, quando os molhava, as palavras “Boa garota! Boa garota!” Pensamos que seu reservado mal-estar era uma reação à vacina.A autopsia revelou que seu fígado sofrera um rompimento.Enquanto a provocávamos com brincadeiras, o sangue enchia a peleE seu coração aprendia a repousar por um infindo tempo. Segunda-feira de manhã, enquanto as crianças eram ruidosamente nutridasE enviadas para a escola, ela se arrastou para debaixo da cama do caçulo.Encontramo-la encolhida e sem […]
- [Juan Luis Panero - Palavras e presságios](https://singularidadepoetica.art/2024/02/13/juan-luis-panero-palavras-e-pressagios-2/): Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.Repetir as sílabas, iluminar os símboloscomo cerradas salas, janelas empoeiradasque ocultam um jardim perdido, árvores da morte.Melancolia do regresso e medo do vazio,rangidos de madeira, agitar de sombras,e, de repente, em um quarto, perdidacomo um velho copo ou um espelho manchado,encontrar a chave para a tua vida.Palavras que te avisaram: “Um monótono diasegue-se a outro igualmente monótono”,ou te advertiram: “Nascer, copular, morrer.Isso é tudo, isso é tudo, isso é tudo, isso é tudo”.Palavras com que a velhice e a noite me presenteiam,presságios que não […]
- [Mary Oliver – Quebra](https://singularidadepoetica.art/2024/02/12/mary-oliver-quebra/): Eu desço até a beira-mar.Como tudo cintila na luz matutina!A cúspide da concha,o búzio quebrado do caracol,os mexilhões azuis abertos,lesmas-do-mar rosa-pálidas marcadas por cracas —e nada totalmente inteiro ou fechado, mas esfarrapado, partido,abandonado pelas gaivotas sobre as rochas cinzentas com toda umidade exaurida.É como uma escolade palavras miúdas,milhares de palavras.Primeiro, compreendemos o significado de cada uma por si só,o bivalve, a pervinca, a vieira repleta de luz lunar. Então, aos poucos, começamos a ler toda a história. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Breakage I […]
- [Raymond Carver - Um passeio](https://singularidadepoetica.art/2024/02/11/raymond-carver-um-passeio-2/): Saí para caminhar pelos trilhos do trem.Caminhei algum tempo por elese cheguei ao cemitério do povoado,onde um homem descansa entreduas esposas. Emily van der Zee,Mãe e Esposa Amada,está à direita de John van der Zee.Mary, a segunda senhora Van der Zee,também uma Esposa Amada, à sua esquerda.Primeiro Emily se foi, depois Mary.Anos mais tarde, foi a vez do velho camarada.Onze filhos nasceram dessas uniões.E eles, também, já devem estar todos mortos agora.Este é um lugar tranquilo. Tão bom quanto qualquer outropara interromper meu passeio, sentar e me prepararpara minha própria morte, que se aproxima.Mas eu não entendo, não entendo.Tudo o que […]
- [Sharon Olds — Cemitério de Leningrado, Inverno de 1941](https://singularidadepoetica.art/2024/02/10/sharon-olds-cemiterio-de-leningrado-inverno-de-1941/): Naquele inverno, os mortos não puderam ser enterrados.O solo estava congelado, os coveiros fracos de fome, a madeira dos caixões era usada como combustível. Por isso, eles foram cobertos com algoe levados em um trenó de criança para o cemitério,no ar abaixo de zero. Eles jaziam no solo,alguns envoltos em um pano escuroamarrado com corda como a bola de raízes da árvoreque espera para ser plantada; outros estavam enrolados em lençóis,suas formas pálidas, cobertas de gaze, cônicas,rígidas como casulos que se abrirão ao meioquando a nova vida dentro deles estiver pronta;mas a maioria jazia como cadáveres, suas coberturasse desfazendo, as panturrilhas […]
- [Anna Akhmátova – Cleópatra](https://singularidadepoetica.art/2024/02/09/anna-akhmatova-cleopatra/): Os palácios de AlexandriaCobriram-se de sombras suaves.Púschkin Ela já beijara os lábios de Antônio, sem vida,E chorava, de joelhos, ante Augusto, vencida…E os servos a traíram. Sob a águia de RomaAs trombetas ressoam. E o crepúsculo assoma. E chega o último escravo de sua beleza.Alto e solene, num sussurro, ele pondera:“Vão te levar para ele… em triunfo… como presa…”Mas a curva do colo de cisne não se altera. Amanhã acorrentarão seus filhos. Pouco lhe resta:Brincar com este rapaz até perder a menteE, de piedade, a víbora negra — último gesto —Depor no peito moreno com a mão indiferente. Trad.: Augusto de Campos […]
- [Aleksandr Blok - Cleópatra](https://singularidadepoetica.art/2024/02/08/aleksandr-blok-cleopatra/): Cleópatra O museu triste da rainhaHá um, dois, três anos já se abriu.Bêbada e louca a turba ainda se apinha…Ela espera no túmulo sombrio. Jaz na sinistra caixaDe vidro, nem morta nem viva.Sobre ela a multidão salivaPalavras torpes em voz baixa. Ela se estende preguiçosamenteNo sono eterno a que se recolhera…Lenta e suave, uma serpenteMorde o peito de cera. Eu mesmo, fútil e perverso,Com olheiras de anil,Vim ver o lúgubre perfilNa cera fria imerso. Todos te contemplamos neste instante.Se essa tumba não fosse uma mentiraEu ouviria, outra vez, arrogante,Teu lábio putrefato que suspira: “Dai-me incenso. Esparzi-me flores.Em eras anterioresFui rainha do […]
- [Otto Renê Castillo – Os Amantes](https://singularidadepoetica.art/2018/04/10/otto-rene-castilho-os-amantes/): "Os Amantes", um poema de Otto René Castillo que retrata um encontro breve e uma separação dolorosa, transformando o último beijo dos amantes em metáfora cósmica — um planeta azul cuja luz continua a sustentar suas vidas mesmo na ausência.
- [Charles Bukowski – Para Jane Cooney Baker, morta em 22/01/1962](https://singularidadepoetica.art/2018/04/09/charles-bukowski-para-jane-cooney-baker-morta-em-22-01-1962/): e então você se foime deixando aquinum quarto com uma cortina rasgadae o Idílio de Siegfried tocando no radinho vermelho. e então você se foi tão rápidoquanto quando você veio pra mim,e nós tínhamos dito adeus antes,e quando eu estava limpando seu rosto e lábiosvocê abriu os maiores olhos que eu já tinha vistoe disse […]
- [Manuel António Pina - Talvez de noite (1)](https://singularidadepoetica.art/2018/04/08/manuel-antonio-pina-talvez-de-noite-1/): À minha volta tudo envelheceu como se fosse eu, e no entanto uma casa, ou um espaço em branco entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido. Pois nada surge com a sua própria forma. Digo “casa”, mas refiro-me a luas e umbrais, a lembranças extenuadas, às trevas do corpo, lúcidas, latejando na obscuridade de […]
- [Francisca Aguirre – E se, depois de tudo](https://singularidadepoetica.art/2018/04/07/francisca-aguirre-e-se-depois-de-tudo/): E se, depois de tudo, fosse o resto um ir morrendo para ao fim morrermos por este louco afã de convertermo-nos em contadores de um momento lesto. E se afigura que o correto era este sermão que vem nos repetir que avança o furacão de nos ferir, e é vã e absurda esta carreira. Então […]
- [Hilda Hilst - de "Do Desejo"](https://singularidadepoetica.art/2018/04/06/hilda-hilst-de-do-desejo/)
- [Yehuda Amichai – Na história do nosso amor](https://singularidadepoetica.art/2018/04/05/yehuda-amichai-na-historia-do-nosso-amor/): Na história do nosso amor, um foi sempre Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo. Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado. O tempo passará por nós, como paisagens Passam por trás de atores parados em suas marcas Quando se roda um filme. As palavras Passarão por nossos lábios, até as lágrimas […]
- [Miguel Torga – Comunicado](https://singularidadepoetica.art/2018/04/04/miguel-torga-comunicado/): Na frente ocidental nada de novo. O povo Continua a resistir. Sem ninguém que lhe valha, Geme e trabalha Até cair.
- [Pedro Salinas - De "La voz a ti debida" [39]](https://singularidadepoetica.art/2018/04/03/pedro-salinas-de-la-voz-a-ti-debida-39/): A tua forma de amaré deixar-me que te queiras.O sim com que tu te rendesé o silêncio. Teus beijossão oferecer-me os lábiospara que eu possa beija-los.Jamais palavras, abraços,me dirão que existias,que me quiseste: jamais.Dizem-mo as folhas brancas,mapas, augúrios, chamadas;tu, não.E fico abraçado a tisem perguntar-te, de medoque não seja verdadeiroque tu vives e me ama.E […]
- [Júlio Mendonça - Galáxias](https://singularidadepoetica.art/2018/04/02/julio-mendonca-galaxias/)
- [Sylvia Plath – Limite](https://singularidadepoetica.art/2018/04/01/sylvia-plath-limite/): A mulher está perfeita. Seu corpo Morto enverga o sorriso de completude, A ilusão de necessidade Grega voga pelos veios da sua toga, Seus pés Nus parecem dizer: Já caminhamos tanto, acabou. Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca, Uma para cada pequena Tigela de leite vazia. Ela recolheu-as todas Em seu corpo, como pétalas Da […]
- [Manuel António Pina – Depois](https://singularidadepoetica.art/2018/03/31/manuel-antonio-pina-depois/): Primeiro sabem-se as respostas. As perguntas chegam depois, como aves voltando a casa ao fim da tarde e pousando, uma a uma, no coração quando o coração já se recolheu de perguntas e de respostas. Que coração, no entanto, pode repousar com o restolhar de asas no telhado? A dúvida agita os cortinados e nos […]
- [Mary Oliver – Como é conosco, e como é com eles](https://singularidadepoetica.art/2018/03/30/mary-oliver-como-e-conosco-e-como-e-com-eles/): Nós nos tornamos religiosos, depois nos afastamos disso, depois ficamos carentes e talvez voltemos atrás. Nos dedicamos a ganhar dinheiro, depois nos voltamos para a vida moral, depois pensamos novamente em dinheiro. Conhecemos pessoas maravilhosas, mas as perdemos para os nossos negócios. Estamos, como diz o refrão, por toda parte. A constância, aparentemente, tem mais […]
- [Laia Noguera i Clofent – Sem título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/29/laia-noguera-i-clofent-sem-titulo/): Amo a vida simples, sentar-me à entrada para ver o ir e vir das pessoas, como se move um pardal, como se inclina a tarde nas casas do corpo. Já sei que morrerei muito antes de morrerem as árvores que amo. Mas nada me preocupa, porque no instante em que se me romper o último […]
- [Nicanor Parra – Composições](https://singularidadepoetica.art/2018/03/28/nicanor-parra-composicoes/): I Cuidado, todos mentimos Mas eu proclamo a verdade. A matemática enfada Mas nos dá o de comer. Por outro lado, se escreve Poema para viver Ninguém gosta de assumir Culpa por vidros quebrados. Se escreve contra si mesmo Em virtude dos demais Que indecente é fazer versos! Quando menos se esperar Darei um tiro […]
- [Anne Sexton – A Terra Desmorona](https://singularidadepoetica.art/2018/03/27/anne-sexton-a-terra-desmorona/): Se eu pudesse culpar o clima por tudo, a neve como a mesa de dissecação, as árvores que se tornam agulhas de tricô, o chão, tão rijo como uma arinca congelada, o lago vestindo seu bigode de geada. Se eu pudesse culpar tais circunstâncias, se eu pudesse culpar os corações de estranhos descendo as ruas […]
- [Aldo Oliva – O Elevador de Hera](https://singularidadepoetica.art/2018/03/26/aldo-oliva-o-elevador-de-hera/): Dizem os insetos sensatos e sensíveis que as paredes e os grandes muros são apenas um hausto veemente conjurando o nada, o infinito. Por estes ladrilhos de não-ser ascendem, como habitáculos de fúria, os corpos corrompidos das palavras. Quem me impôs, rasgando minha inocência animal na base da minha profundidade biológica, esta ascensão conjetural? Só […]
- [Carlos Saraiva Pinto – Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2018/03/25/carlos-saraiva-pinto-sem-titulo-poema/): Sem Título, um poema de Carlos Saraiva Pinto
- [José Lino Grünewald - Soneto Burocrático](https://singularidadepoetica.art/2018/03/24/jose-lino-grunewald-soneto-burocratico-poema/): Salvo melhor juízo doravante, Dessarte, data vênia, por suposto, Por outro lado, maximé, isso posto, Todavia deveras, não obstante Pelo presente, atenciosamente, Pede deferimento sobretudo, Nestes termos, quiçá, aliás, contudo Cordialmente alhures entrementes Sub-roga ao alvedrio ou outrossim Amiúde nesse ínterim, senão Mediante qual mormente, oxalá quão Via de regra te-lo-ão enfim Ipso facto outorgado, […]
- [Marcelo Montenegro - Forte Apache](https://singularidadepoetica.art/2018/03/23/marcelo-montenegro-forte-apache/): Noel Rosa dizia que era universal sem sair de seu quarto. Elvis Costello disse que o rock ‘n’ roll não morrerá porque sempre vai ter um garoto trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém nunca viu. Laura Riding, por seu turno, falava da pretensão de “escrever sobre um assunto/ que tocasse todos os assuntos/ […]
- [Charles Bukowski – Agarre o Escuro](https://singularidadepoetica.art/2018/03/22/charles-bukowski-agarre-o-escuro/): estou sentado aqui agora bêbado escutando as mesmas sinfonias que me deram a vontade de seguir em frente quando eu tinha 22 anos. 40 anos depois elas e eu já não somos mais tão mágicos. você deveria ter-me visto tão esbelto sem barriga eu era um pedaço de homem: flamejante, forte, insano. dissesse uma palavra […]
- [Antonia Pozzi – Pausa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/21/antonia-pozzi-morte-de-uma-estacao/): Parecia-me que este dia sem ti devia ser inquieto, escuro. Em vez disso está repleto de uma estranha doçura, que aumenta com o passar das horas – quase como a terra após um aguaceiro, que fica sozinha no silêncio a beber a água caída e pouco a pouco nas veias mais profundas se sente penetrada. […]
- [Marcelo Montenegro - Três Pensatos](https://singularidadepoetica.art/2018/03/20/marcelo-montenegro-tres-pensatos/): 1. penso naquela única gota gelada do chuveiro quente. Nas ilíadas clandestinas que a febre percorre até virar suor. Penso nas caretas que os músicos fazem quando estão solando. No meu pai me dizendo que tudo isso aqui era mato. Penso na imagem exata de uma aurora indecisa. Penso em calços de papelão para pianos […]
- [Ana Martins Marques – História](https://singularidadepoetica.art/2018/03/19/ana-martins-marques-historia/): Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem um história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma […]
- [Charles Bukowski – Um poema de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/03/18/charles-bukowski-um-poema-de-amor/): “Um poema de amor”, um poema de Charles Bukowski que atravessa corpos e quartos para revelar, sob a crueza do desejo, a necessidade humana de afeto que sustenta e inquieta.
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Os Erros](https://singularidadepoetica.art/2018/03/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-2/): A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a […]
- [Ricardo Domeneck – Doentes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ricardo-domeneck-doentes/): Doentes. Nós, todos doentes. Há tanto doentes todos. Nós. Pungidos, conquanto impunes. Não, não impunes. Não se constrói impune a casa sobre covas. Não se ergue o prédio em grão-cemitério. Não sem velar e lavar carinhosos e doridos os ossos e os dentes. Não impunes. Doentes de cada gota derramada. Por nós ou avós. Os […]
- [Ana Martins Marques – a parte que me cabe](https://singularidadepoetica.art/2018/03/16/ana-martins-marques-a-parte-que-me-cabe/): a parte do teu corpo que procura pelo sol como os gatos pela casa a parte que permanece imóvel quando cantas, aquela que se move quando estás parado a parte que apenas a mim e de relance, por descuido revelaste a parte onde guardas as memórias de infância, a parte que ainda anseia pelo futuro […]
- [Charles Bukowski – Os Gênios da Raça](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/charles-bukowski-os-genios-da-raca/): não há nada a discutir não há nada a lembrar não há nada a esquecer é triste e não é triste parece que a coisa mais sensata que uma pessoa pode fazer é se sentar com uma bebida na mão enquanto as paredes acenam seus sorrisos de adeus alguns passam por tudo isso com uma […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen – Escuto](https://singularidadepoetica.art/2018/03/15/sophia-de-mello-breyner-andresen-escuto/): Escuto mas não sei Se o que ouço é silêncio Ou deus Escuto sem saber se estou ouvindo O ressoar das planícies do vazio Ou a consciência atenta Que nos confins do universo Me decifra e fita Apenas sei que caminho como quem É olhado, amado e conhecido E por isso em cada gesto ponho […]
- [Charles Bukowski – Outra Cama](https://singularidadepoetica.art/2018/03/14/charles-bukowski-outra-cama/): outra cama outra mulher mais cortinas outro banheiro outra cozinha outros olhos outro cabelo outros pés e dedos. todos à procura. a busca eterna. você fica na cama ela se veste para o trabalho e você se pergunta o que aconteceu à última e à outra antes dela… é tudo tão confortável — esse fazer […]
- [Eloy Sánchez Rosillo - Aviso aos Caminhantes](https://singularidadepoetica.art/2018/03/13/eloy-sanchez-rosillo-aviso-aos-caminhantes/): Na soma de dias indeterminados que a vida dá ao homem, talvez exista um em que o destino, trágico e belo, passe ao nosso lado e o acaso acenda uma insólita luz, um incomum fulgor inconfundível. Mas não hesites. Tem coragem, quando chegar o momento, de abandonares as coisas com que os hábitos sempre te […]
- [Marcia Vinci – Mãe Solteira](https://singularidadepoetica.art/2018/03/12/marcia-vinci-mae-solteira/): dadeira parideira nutriz criadeira toda mãe é sozinha toda mãe é solteira
- [Vicente Gaos - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2018/03/11/vicente-gaos-testamento/): Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil anos de idade, de estado civil solitário, instável domiciliado/refugiado em um canto do cosmos, profissão náufrago na sombra, sem documento de identidade, sem títulos, condecorações nem diplomas de qualquer tipo, nenhum sinal particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo, sem nenhuma cicatriz além […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Perdão, falava em voz alta](https://singularidadepoetica.art/2018/03/10/ernesto-perez-vallejo-perdao-falava-em-voz-alta/): Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguém Nunca poderão decepcioná-la. A esperança é aquele relógio que sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezes como diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes. Mas, quando tristes, […]
- [Javier Salvago - Fim de Festa](https://singularidadepoetica.art/2018/03/09/javier-salvago-fim-de-festa/): Enfim sós, vida. A festa acabou e não há mais ninguém que possa nos obrigar a forçar sorrisos, ou a inventar incômodas mentiras piedosas. Todos sumiram. Despe-te sem medo. Conheço as velhas rugas de tua carne triste. Acariciei-as. Sei o que teu rosto oculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncio […]
- [Luis Cernuda – No Meio da Multidão](https://singularidadepoetica.art/2018/03/08/luis-cernuda-no-meio-da-multidao/): Em meio à multidão a vi passar, com seus olhos tão dourados quanto seus cabelos. Caminhava cortando o ar e os corpos; uma mulher se ajoelhou em seu caminho. Senti como o sangue desertava de minhas veias gota a gota. Vazio, andei sem rumo pela cidade. Gente estranha passava a meu lado sem me ver. […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Insônia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/07/luis-alberto-de-cuenca-insonia/): A vida dura muito pouco. Não dá tempo de se fazer nada. Não há meios de reunir dias suficientes para aprender algo. Levantas, abraças tua namorada, tomas teu café da manhã, trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema, e nem sequer tens um momento para ler Sêneca e acreditar que tudo neste mundo tem conserto. A […]
- [Charles Bukowski – Até](https://singularidadepoetica.art/2018/03/06/charles-bukowski-ate/): Nós temos que viver com a perda e talvez jogar com uma mão de cartas ruim e nós sabemos o tempo todo qual é o placar. Nós o suportamos como Hemingway ou o descartamos como Camus mas nós sabemos nós sabemos. É assim que funciona e damos corda no relógio e esperamos pela madrugada ou […]
- [Manuel António Pina - Sétimo Dia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/05/manuel-antonio-pina-setimo-dia/): Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua morte para a nossa vida como quem regressa a casa de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países, e agora é como se te tivéssemos sonhado. A voz que, diante da escuridão, suspendemos quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti erguemo-la de […]
- [A. M. Pires Cabral – Pirilampos III](https://singularidadepoetica.art/2018/03/04/a-m-pires-cabral-pirilampos-iii/): Mas também estes negadores das trevas desertaram: Já não se vêem pirilampos, o seu lume deixou de desmentir a escuridão. Apagaram a lanterna, retiraram para um lugar qualquer onde talvez já não valha a pena alumiar – algures entre o frio e o esquecimento (se é que frio e esquecimento não são nomes alternativos da […]
- [Josep M. Rodríguez - Primeira Visita ao Zoológico](https://singularidadepoetica.art/2018/03/03/josep-m-rodriguez-primeira-visita-ao-zoologico/): Tinha doze anos e a minha mãe me presenteava com um mundo só para mim: – Se a tristeza fosse um animal? – Se a tristeza fosse um animal… seria um besouro. E dizia-lhe então que havia dias em que esse besouro fabricava uma bola muito grande na minha garganta. Os olhos da minha mãe […]
- [Joaquín Benito de Lucas – Elegia](https://singularidadepoetica.art/2018/03/02/joaquin-benito-de-lucas-elegia/): Quando agora retorno à minha cidade, não posso conter a emoção de saber que não me esperam. Não me espera meu pai, que desceu rio abaixo muito lentamente entre os juncos, sob pontes de névoa. Não me espera meu irmão, que me esperava sempre ao lado de um balcão qualquer, em uma rua qualquer brindando […]
- [Rosario Castellanos - Destino](https://singularidadepoetica.art/2018/03/01/rosario-castellanos-destino/): Matamos o que amamos. O resto nunca esteve vivo. Ninguém está tão perto. A nenhum outro fere um esquecimento, uma ausência, às vezes menos. Matamos o que amamos. Que cesse esta asfixia de respirar por um pulmão distante! O ar não é suficiente para os dois. E não basta a terra para os corpos juntos […]
- [Charles Bukowski – O Matador Sorri](https://singularidadepoetica.art/2018/02/28/charles-bukowski-o-matador-sorri/): as antigas namoradas ainda telefonam algumas do ano passado algumas do ano retrasado algumas de anos atrás é bom poder por um fim nas coisas que não funcionam também é bom não odiar ou mesmo esquecer a pessoas com quem você falhou. aprecio quando elas me dizem que estão tendo sorte com um homem sorte […]
- [Carlos Alberto Machado – Chegaste à Idade da Morte](https://singularidadepoetica.art/2018/02/27/carlos-alberto-machado-chegaste-a-idade-da-morte/): Chegaste à idade da morte dos teus amigos também agora começas a distingui-los cai um e depois outro e tu apressas o passo desta vez vais discutir o terreno palmo a palmo não saberias o que fazer se a solidão se despovoasse.
- [Albano Martins – A Dor](https://singularidadepoetica.art/2018/02/26/albano-martins-a-dor/): Não ponhas o dedo na ferida. Deixa a dor respirar em segredo. L delor Nun pongas l dedo na frida. Deixa l delor ceçar an segredo.
- [Germana Zanettini - Leia Antes de Usar](https://singularidadepoetica.art/2018/02/25/germana-zanettini-leia-antes-de-usar/): não, aqui não há lugares reservados [de antemão já lhe adianto: nem adianta olhar para os lados] o ambiente não é climatizado os assentos não são flutuantes e máscaras de oxigênio não cairão sobre suas cabeças para sua segurança e conveniência informamos que a vida não vem equipada com saídas de emergência
- [Margareta Ekström - O Funeral](https://singularidadepoetica.art/2018/02/24/margareta-ekstrom-o-funeral/): Na noite do funeral eles abraçaram-me, beijaram-me, mesmo esses que habitualmente não beijam. Apoiaram-me e perguntaram se precisava de soporíferos, estimulantes, um xerez ou companhia para a noite. Cada noite é um funeral mas ninguém vem para me abraçar. Ninguém pergunta como as coisas vão se preciso de companhia para a noite, um xerez, um […]
- [Juan Luis Panero - Epitáfio diante de um Espelho](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-luis-panero-epitafio-diante-de-um-espelho/): Dura há de ser a vida para ti, que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez, para ti, cuja única certeza é tua memória e, por isso, teu sepulcro mais infausto. Dura há de ser a vida, quando os anos passarem e destruírem por fim a ilusória pátria da tua adolescência, quando vires, como hoje, […]
- [Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados](https://singularidadepoetica.art/2018/02/23/juan-vicente-piqueras-nomes-borrados/): A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiosnem os pronomes nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o […]
- [Diego Moraes - Já se passaram dez anos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/22/diego-moraes-ja-se-passaram-dez-anos/): Já se passaram dez anos Acabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal que seu tio ficou bêbado de vinho dom bosco e disse na frente dos filhos e da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaro em Londres Já se passaram dez anos Os poemas que escrevi quando […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/21/luis-alberto-de-cuenca-abre-todas-as-portas/): Abre todas as portas, a que conduz ao ouro, a que leva ao poder, a que esconde o mistério do amor; a que oculta o segredo insondável da felicidade, a que a vida te oferta para sempre no gozo de uma visão sublime. Abre todas as portas, sem te mostrares curioso, nem dar importância às […]
- [Jorge de Sena - Suma Teológica](https://singularidadepoetica.art/2018/02/20/jorge-de-sena-suma-teologica/): Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram navios no alto mar, quando nasci. Nada mudou. Continuaram as guerras; continuou a subir o preço do pão; continuaram os poetas, uma vez por outra, a perguntar por ti. É certo que, então, imensa gente envelheceu instantânea e misteriosamente. Mas até isso, meu amor, se não sabe […]
- [Ángel González - Todos vocês parecem felizes...](https://singularidadepoetica.art/2018/02/19/angel-gonzalez-todos-voces-parecem-felizes/): … e sorriem, às vezes, quando falam. E até dizem uns aos outros palavras de amor. Mas amam-se de dois em dois para odiar de mil em mil. E guardam toneladas de asco por cada milímetro de felicidade. E parecem – nada mais que parecem – felizes, e falam com o fim de ocultar essa […]
- [Maria Teresa Horta - Poema sobre a Recusa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/18/maria-teresa-horta-poema-sobre-a-recusa/): Como é possível perder-te sem nunca te ter achado nem na polpa dos meus dedos se ter formado o afago Sem termos sido a cidade nem termos rasgado pedras sem descobrirmos a cor nem o interior da erva Como é possível perder-te sem nunca te ter achado minha raiva de ternura meu ódio de conhecer-te […]
- [César Cantoni - O Tempo Irreparável](https://singularidadepoetica.art/2018/02/17/cesar-cantoni-o-tempo-irreparavel/): Quem, então, poderia imaginar? O certo é que meu pai está morto como se nunca houvesse estado vivo. Um dia gelaram suas mãos e os pés, e a casa se encheu de parentes, e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito. Ainda lembro. Meu pai está morto ou já não existe, e não é […]
- [Mário Cesariny - Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/02/16/mario-cesariny-lembra-te/): Lembra-te que todos os momentos que nos coroaram todas as estradas radiosas que abrimos irão achando sem fim seu ansioso lugar seu botão de florir o horizonte e que dessa procura extenuante e precisa não teremos sinal senão o de saber que irá por onde fomos um para o outro vividos
- [Gonçalo M. Tavares - Os Mortos](https://singularidadepoetica.art/2018/02/15/goncalo-m-tavares-os-mortos/): Não há mortos que morram tanto como os nossos. Se um daqueles que nos pertence morre sete ou setenta vezes no coração, de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data, e os que sempre viveram longe morrem-nos metade ou um oitavo. E metade de uma morte é quase nada, são casas decimais […]
- [Charles Bukowski – Foda](https://singularidadepoetica.art/2018/02/14/charles-bukowski-foda/): foda ela tirou o vestido por sobre a cabeça e eu vi a calcinha um tanto enterrada em suas carnes. é simplesmente humano. agora teremos que fazê-lo. eu terei que fazê-lo depois de todo esse logro. é como uma festa – dois idiotas numa cilada. debaixo dos lençóis depois que apaguei as luzes suas calcinhas […]
- [Isabel Bono - O Futuro Acabará Chegando](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/isabel-bono-o-futuro-acabara-chegando/): perdemos tempo ordenando em um álbum as fotos do verão para olhá-las algum dia com nostalgia guardamos bolinhas de gude pedras livros cartas poemas adiamos assim a felicidade, a vida ainda não sei por quê ainda não sei para quando Trad.: Nelson Santander Isabel Bono – El Futuro Acabará por Llegar malgastábamos el tiempo ordenando […]
- [José Lino Grünewald – Sombra (1957)](https://singularidadepoetica.art/2018/02/13/jose-lino-grunewald-sombra-1957/)
- [Mário Dionísio – Elegia ao Companheiro Morto](https://singularidadepoetica.art/2018/02/12/mario-dionisio-elegia-ao-companheiro-morto/): Meu companheiro morreu às cinco da manhã Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã Ah antes fosse noite noite apenas noite sem a promessa da manhã Ah antes fosse noite noite noite apenas noite e não houvesse em tudo a promessa da manhã Deitado para sempre às cinco da […]
- [Alberto Caeiro - Poema XLIII ("Antes o voo da ave")](https://singularidadepoetica.art/2018/02/11/alberto-caeiro-poema-xliii-antes-o-voo-da-ave/): Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto, Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. A ave passa e esquece, e assim deve ser. O animal, onde já não está e por isso de nada serve, Mostra que já esteve, o que não serve para nada. A recordação é […]
- [Bruna Kalil - Paleativa](https://singularidadepoetica.art/2018/02/10/bruna-kalil-paleativa/): Você é rebelde só da cintura para baixo 1984, George Orwell busco prazer sendo profana para que o físico compense o descompasso do meu interior tão triste e tão mole. fujo dos sentimentos justamente por ter a plena consciência de que sou sentimental dem- ais. tenho medo, pavor, fobia de apaixonar-me outra vez, dói […]
- [Rui Pires Cabral - Cartas](https://singularidadepoetica.art/2018/02/09/rui-pires-cabral-cartas/): Escreves-me cartas, sou o destinatário da tua solidão. E sempre compreendo tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge as entrelinhas de um branco desespero que é tanto teu como meu: não tens quem te salve, envelheceste, trataste mal de um jardim que não chegou a vingar. Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade […]
- [Gil T. Sousa - Maré](https://singularidadepoetica.art/2018/02/08/gil-t-sousa-mare/): quando a maré se afasta é possível escrever tudo outra vez
- [Jorge Luis Borges - A Chuva](https://singularidadepoetica.art/2018/02/07/jorge-luis-borges-a-chuva/): A tarde subitamente clareou Porque já cai a chuva minuciosa. Ou caiu. A chuva é coisa curiosa Que acontece no tempo que passou. Quem a ouve cair já recobrou O tempo em que a fortuna venturosa Revelou-lhe uma flor chamada rosa E a encarnada cor com que se corou. Que esta chuva que já cega […]
- [César Cantoni - Álbum de Família](https://singularidadepoetica.art/2018/02/06/cesar-cantoni-album-de-familia/): Morreu meu pai, morreram meus avós, morreram meus tios de sangue e por afinidade. Uma família inteira de ferreiros, marceneiros, curtidores, pedreiros, jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos, o que não sabe fazer nada com as mãos, logrei sobreviver impunemente para chorar diante de uma foto o […]
- [Octavio Paz - Antes do Começo](https://singularidadepoetica.art/2018/02/05/octavio-paz-antes-do-comeco/): Ruídos confusos, claridade incerta. Outro dia começa. Um quarto em penumbra e dois corpos estendidos. Em minha fronte me perco numa planície vazia. E as horas afiam suas navalhas. Mas a meu lado tu respiras; íntima e longínqua fluis e não te moves. Inacessível se te penso, com os olhos te apalpo, te vejo com […]
- [Hagar Peeters - Esta Noite Cruzei-me com meus Pais](https://singularidadepoetica.art/2018/02/04/hagar-peeters-esta-noite-cruzei-me-com-meus-pais/): Esta noite cruzei-me com os meus pais, duas sombras pálidas reciprocamente atraídas, à luz branca de um candeeiro. Tendo em conta a felicidade demonstrada, eu ainda não era nascida. Eram jovens e muito apaixonados. Uma grande tristeza anuviou-me porque eu sabia a continuação da história. Ela soltava gargalhadas por causa de algo que ele lhe […]
- [Fernando Sabino - Certeza](https://singularidadepoetica.art/2018/02/03/fernando-sabino-certeza/): De tudo, ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando. A certeza de que precisamos continuar. A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança. Do medo, uma escada. Do sonho, uma ponte. Da procura, um encontro.
- [António Franco Alexandre - Quero dizer-te: não morras](https://singularidadepoetica.art/2018/02/02/antonio-franco-alexandre-quero-dizer-te-nao-morras/): quero dizer-te: não morras. Nem me digas quem és, quem foste, como sabes a língua que se fala sobre a terra. Ao lume lanço toda a vontade de viver, ser vivo, a cautela do ar, ardendo em torno. Passarei, terás passado em mim, só quero dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.
- [Carlos Edmundo de Ory – Dá-me](https://singularidadepoetica.art/2018/02/01/carlos-edmundo-de-ory-da-me/): dá-me algo mais que silêncio ou doçura algo que tenhas e não saibas não quero dádivas raras dá-me uma pedra não fiques imóvel fitando-me como se quisesses dizer que há muitas coisas mudas ocultas no que se diz dá-me algo lento e fino como uma faca nas costas e se nada tens para dar-me dá-me […]
- [António Reis – Mudamos esta Noite](https://singularidadepoetica.art/2018/01/31/antonio-reis-mudamos-esta-noite/): Mudamos esta noite E como tu eu penso no fogão a lenha e nos colchões onde levar as plantas e como disfarçar os móveis velhos Mudamos esta noite e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam e que os filhos dormem sempre nos quartos onde nascem Vai descendo tu Eu só quero ouvir os […]
- [Luljeta Lleshanaku – O Mistério das Orações](https://singularidadepoetica.art/2018/01/30/luljeta-lleshanaku-o-misterio-das-oracoes/): Na minha família as orações eram rezadas secretamente, em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor; quase murmuradas, com um suspiro no princípio e no fim, fino e limpo como uma gaze. Junto à casa havia apenas uma escada para subir, de madeira, encostada à parede o ano inteiro, de modo a reparar o […]
- [Albano Martins – Lembra-te](https://singularidadepoetica.art/2018/01/29/albano-martins-lembra-te/): Leia "Lembra-te", de Albano Martins, um poema breve e intenso sobre memória, passagem do tempo e os caminhos inevitáveis da existência.
- [Ana Goês - Convida-me só para jantar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/ana-goes-convida-me-so-para-jantar/): E não queiras depois fazer amor. Convida-me só para jantar num restaurante sossegado numa mesa de canto e fala devagar e fala devagar eu quero comer uma sopa quente não quero comer mariscos os mariscos atravancam-me o prato e estou cansada para os afastar fala assim devagar devagar não é preciso dizeres que sou bonita […]
- [Chacal – EXP](https://singularidadepoetica.art/2018/01/28/chacal-exp/)
- [Sylvia Plath - Achava que não Podia ser Magoada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/sylvia-plath-achava-que-nao-podia-ser-magoada/): Achava que não podia ser magoada; achava que com certeza era imune ao sofrimento — imune às dores do espírito ou à agonia. Meu mundo tinha o calor do sol de abril Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro. Minha alma em êxtase, ainda assim conheceu a dor suave e aguda que só o prazer […]
- [Anatol Knotek – Time is running out](https://singularidadepoetica.art/2018/01/27/anatol-knotek-time-is-running-out/)
- [César Cantoni - O mais digno em nós](https://singularidadepoetica.art/2018/01/26/cesar-cantoni-o-mais-digno-de-nos/): Eu sempre pensei que os ossos, com seu brilho mineral de pedra polida pela chuva, são o que há de mais digno em nós: sobrevivem largamente à putrefação indecorosa da carne e não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander César Cantoni – Lo más digno de nosotros Siempre pensé […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Terror de te Amar](https://singularidadepoetica.art/2018/01/25/sophia-de-mello-breyner-andresen-terror-de-te-amar/): Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. […]
- [Mario Benedetti - Angelus](https://singularidadepoetica.art/2018/01/24/mario-benedetti-angelus/): Quem me diria que o destino era isso Vejo a chuva através de letras invertidas Uma parede com manchas que parecem homens Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes E essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu, Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braços E uma cadeira […]
- [Hilda Hilst - Obriga-me](https://singularidadepoetica.art/2018/01/23/hilda-hilst-obriga-me/): E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo, prazer, lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de […]
- [Charles Bukowski - A Retirada](https://singularidadepoetica.art/2018/01/22/charles-bukowski-a-retirada/): desta vez o negócio acabou comigo. me sinto como as tropas alemãs açoitadas pela neve e pelos comunistas caminhando curvadas as botas gastas forradas com papel jornal. minha condição é tão terrível quanto. talvez até pior. a vitória estava tão perto a vitória estava logo ali. enquanto ela estava ali diante de meu espelho mais […]
- [Paola Rodrigues - Vida Lúcida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/21/paola-rodrigues-vida-lucida/): Assim como ninguém explicou o início As ondas continuam a chegar na costa Tudo corre sempre em direção ao fim Os copos caem e as cidades se amontoam em nossas costas Amar o perdido deixa confundido este coração Ainda que os dias continuem a nascer Os ônibus andem, os outros durmam Meus pés tropeçam em […]
- [Mikhail Svetlov - Dois](https://singularidadepoetica.art/2018/01/20/mikhail-svetlov-dois-poema/): Dois, um poema de Mikhail Svetlov
- [Miquel Martí i Pol - No ano que vem](https://singularidadepoetica.art/2018/01/19/miquel-marti-i-pol-no-ano-que-vem/): No ano que vem já ninguém reparará em nós. Agora somos recém-chegados e fitam-nos com desprezo até mesmo os que andam por cá há quarenta anos e já nada os muda. Temos um ar aturdido e tenaz que faz rir as mulheres e quase nem nos atrevemos a mexer a cabeça por temor a perder […]
- [Manuel de Freitas - "Pela manhã o gato..."](https://singularidadepoetica.art/2018/01/18/manuel-de-freitas-pela-manha-o-gato/): Pela manhã o gato estende-se vagaroso nesse impreciso lugar em que luz e sombra se entretecem. Nas pedras rondantes do que sempre chamámos a nossa casa, esse sonho de irmos por detrás das janelas encarcerados nas agrestes paredes do amor. Todas as manhãs, enquanto a escola me espera, o gato é tão certo como os […]
- [César Cantoni - Uma Arte Invisível](https://singularidadepoetica.art/2018/01/17/cesar-cantoni-uma-arte-invisivel/): O poeta caminha nu pelas ruas, mas ninguém o vê. O poeta vai ao cinema, desvia de putas, anda de ônibus, sempre nu, mas as pessoas olham para outro lado. O poeta não tem meios de chamar a atenção porque a poesia é uma arte invisível. A poesia se escreve sem palavras. Trad.: Nelson Santander […]
- [Carlos Marzal – Estranha Forma de Vida](https://singularidadepoetica.art/2018/01/16/carlos-marzal-estranha-forma-de-vida/): A Vicente Gallego Sob a bigorna de fogo que o sol de agosto acende no muro caiado, derretem-se as pétalas de uma sedenta buganvília grená. Que estranha esta beleza moribunda, esta desaforada desnudez grandiosa, esta sílaba breve do milagre. Trad.: Inês Dias Carlos Marzal – Extraña Forma de Vida Bajo el yunque de […]
- [Billy Collins – Pardal de Natal](https://singularidadepoetica.art/2018/01/15/billy-collins-pardal-de-natal/): A primeira coisa que ouvi esta manhã foi um rápido bater de asas, suave, insistente – asas contra vidro, como se percebeu depois, lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro agitando-se na moldura de uma janela alta, tentando lançar-se através do enigma de vidro até a ampla luz. E então um ruído na garganta […]
- [Ana Hatherly - A Verdadeira Mão](https://singularidadepoetica.art/2018/01/14/ana-hatherly-a-verdadeira-mao/): A verdadeira mão que o poeta estende não tem dedos: é um gesto que se perde no próprio ato de dar-se O poeta desaparece na verdade da sua ausência dissolve-se no biombo da escrita O poema é a única a verdadeira mão que o poeta estende E quando o poema é bom não te aperta […]
- [Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ines-lourenco-balada-dos-amores-dificeis/): Não me refiro aos trágicos Romeu e Julieta Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-me aos que se buscam sem saber nada do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavos e convexos se combinam cruzando genes e transitórios tempos […]
- [Ana Martins Marques - Religião](https://singularidadepoetica.art/2018/01/13/ana-martins-marques-religiao/): ‘If I were called in to construct a religion I should make use of water’ – Philip Larkin Inaugurar uma religião: adorar os pontos em que se formam as estações do ano os gestos de desnudar-se o dia depois da chuva a distância: entre uma árvore e outra árvore, entre cidades com o mesmo nome […]
- [Inês Lourenço – As Coisa que Cessam](https://singularidadepoetica.art/2018/01/12/ines-lourenco-as-coisa-que-cessam/): Tanto desprezo pelo que é transitório e finito. Não servirei senhor que possa morrer. Mas passamos a vida a amar todas as fragilidades das coisas que cessam. Há coisa mais breve do que um sorriso? Coisa mais curta que a alegria de um reencontro? Tudo o que amamos é passageiro e frágil ou as duas […]
- [Amalia Bautista – O Anjo Perplexo](https://singularidadepoetica.art/2018/01/11/amalia-bautista-o-anjo-perplexo/): Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, nem ídolo que proteja, nem oração que console; nunca houve milagres ou maravilhas, nem a salvação da alma, nem a vida eterna; nem palavras mágicas, nenhum bálsamo eficaz contra a dor que não desaparece nunca; nem luz do outro lado das sombras, nem saída do túnel, nem esperança. […]
- [Mario Quintana – Envelhecer](https://singularidadepoetica.art/2018/01/10/mario-quintana-envelhecer/): Antes, todos os caminhos iam. Agora todos os caminhos vêm. A casa é acolhedora, os livros poucos. E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
- [Amalia Bautista – Agora](https://singularidadepoetica.art/2018/01/09/amalia-bautista-agora/): Agora que a estrada que devo percorreré um viaduto por sobre uma rodoviado qual dá medo de olhar, porque o abismoimplacável me chama.Agora que morreu a esperançacomo um pássaro jogado de seu ninhopor irmãos mais fortes.Agora que é noite todo dia,inverno todo anoe as semanas só têm segundas-feiras,para onde olhar, para onde voltar os olhos,que […]
- [Marina Tzvietáieva – Você me Amava](https://singularidadepoetica.art/2018/01/08/marina-tsvietaieva-voce-me-amava-poema/): Você me Amava, um poema de Marina Tsvetáieva
- [Judith Viorst – Na minha idade](https://singularidadepoetica.art/2024/08/24/judith-viorst-na-minha-idade/): Na minha idade, pensei que finalmente seria capaz deTerminar Moby Dick,Esperar a refeição ser servida sem comer o pão,E demonstrar uma tranquila compostura quando estou em um coquetel onde não conheço ninguémE ninguém fala comigo,Em vez de querer correr e me esconder no banheiro. Na minha idade, pensei que finalmente seria capaz de Ler uma declaração […]
- [Wayne Miller – Parábola da infância](https://singularidadepoetica.art/2024/08/23/wayne-miller-parabola-da-infancia/): Quando a cadela finalmente morreu, o pai cavou um buraco ao lado da cerca e a enterrou em uma caixa de sapatos. Ela se foi, mas teve uma vida boa, disse a mãe. Não há problema em ficar triste. ________ No dia seguinte, o menino entrou na cozinha carregando a caixa. Ela não se foi. Ela ainda […]
- [José Paulo Paes - Elogio da Memória](https://singularidadepoetica.art/2024/08/22/jose-paulo-paes-elogio-da-memoria-2/): "Elogio da Memória", um poema de José Paulo Paes que explora o paradoxo da passagem do tempo e da persistência dos momentos fugazes.
- [Koleka Putuma – Enterro](https://singularidadepoetica.art/2024/08/21/koleka-putuma-enterro/): Nós nos revezávamos para enterrar uns aos outros, animados por estar sob o peso da areia em nossos trajes de banho, com apenas nossas cabecinhas espiando por cima. Quem fazia o papel da mãe do falecido chorava histericamente. Todos queríamos uma chance de interpretar a mãe do falecido, para que pudéssemos soluçar dramaticamente e lançar […]
- [Ruy Belo – Missa de aniversário](https://singularidadepoetica.art/2024/08/20/ruy-belo-missa-de-aniversario-2/): "Missa de Aniversário", de Ruy Belo, um poema que explora a persistência da ausência e a interação entre memória, natureza e transformação.
- [Philip Levine – Nosso vale](https://singularidadepoetica.art/2024/08/19/philip-levine-nosso-vale/): Não vemos o oceano, nunca, mas em julho e agosto,quando o pior do calor parece emanar da dura argiladeste vale, pode-se estar caminhando por um pomar de figueirasquando de repente o tempo esfria, e, por um momento,é possível sentir o aroma de sal, e nesse momento, quase se podecrer que algo está esperando além da […]
- [Ferreira Gullar - Aqui e agora](https://singularidadepoetica.art/2024/08/18/ferreira-gullar-aqui-e-agora-2/): "Aqui e Agora", um poema de Ferreira Gullar que questiona o impacto do passado sobre o presente, revelando a persistência de memórias que assombram a vivacidade do presente.
- [Rigoberto González – Casa](https://singularidadepoetica.art/2024/08/17/rigoberto-gonzalez-lar/): Não sou sua mãe, não me comovereicom o sofrimento ou a gratidão de homensque lamentam como órfãos à minha porta.Não sou uma igreja. Não respondo àsorações, mas nunca as rejeito. Entre e ajoelhe-se, sente-se ou fique de pé,o peso de seu fardo não diminuirá,não importa o tempo de sua permanência.Diga-me o que quiser, eu tenho […]
- [Javier Salvago - No verso de uma velha fotografia](https://singularidadepoetica.art/2024/08/16/javier-salvago-no-verso-de-uma-velha-fotografia-2/): "No verso de uma velha fotografia", um poema de Javier Salvago que evoca memórias de um tempo intocado pelas grandes transformações e eventos históricos que moldaram o mundo moderno, questionando o significado da liberdade e da passagem do tempo.
- [Pattiann Rogers – Expressão Cósmica](https://singularidadepoetica.art/2024/08/15/pattiann-rogers-expressao-cosmica/): Quase tudo o que conheço se regozijaem nascer — não apenas a orangetip do deserto1,na flor entrelaçada ou na tansy2, sacudindode suas asas a umidade do parto, mas também a toutinegradescoberta fazendo seu ninho, a cabeça inclinada para o céu,e o gambá-do-mel, o gambá pigmeu,polegares cegos e sem pelos de avançar, pressionar e separar. Quase […]
- [Joan Margarit - No álbum](https://singularidadepoetica.art/2024/08/14/joan-margarit-no-album-2/): "No Álbum", um poema de Joan Margarit que captura a essência atemporal dos sorrisos e das memórias, revelando um vínculo profundo entre o passado e o presente.
- [Matt W. Miller – Clube Ícaro](https://singularidadepoetica.art/2024/08/13/matt-w-miller-clube-icaro/): Não estamos no ar por mais do que algunssegundos prateados quando aquele rapazalado e arrogante é sugadopor uma das turbinas, iniciando um incêndioque arranca a asa de estibordoda fuselagem, arremessandopassageiros, fazendo-nos choversobre o norte da Califórnia, dezenasde nós caindo em direção à baíae você pode imaginar os gritos,tenho certeza, as preces lançadaspara todas as direções […]
- [Danusha Laméris - Pequenas Gentilezas](https://singularidadepoetica.art/2024/08/12/danusha-lameris-pequenas-gentilezas-2/): "Pequenas Gentilezas", um poema de Danusha Laméris, aborda a beleza e o significado dos gestos simples de bondade e cortesia entre estranhos, revelando como esses momentos efêmeros podem conter um profundo valor humano e espiritual.
- [Ronald Wallace – Fora do registro](https://singularidadepoetica.art/2024/08/11/ronald-wallace-fora-do-registro/): No sótão, encontro as anotaçõesque ele fez na universidadehá mais de quarenta anos: vivao feriado de Ação de Graças!, ele escreveunas margens da Psych 102.E por um momento posso vê-lo lá, sentir a exuberância fluindonaquela estranha célula do seu corpoonde ainda permaneçoum código secreto incompleto, um fragmentode DNA, alguma matéria estelar ancestral.E então encontro uma […]
- [Leila Guenther - Amuleto](https://singularidadepoetica.art/2024/08/10/leila-guenther-amuleto-2/): "Amuleto", um poema de Leila Guenther
- [Anastasia Taylor-Lind – "Alcoólatras não sonham" não é uma metáfora](https://singularidadepoetica.art/2024/08/09/anastasia-taylor-lind-alcoolatras-nao-sonham-nao-e-uma-metafora/): i. Alcoólatras não sonham não é uma metáfora Convido papai para o jantarjá que ele está morto pode aparecer a qualquer momento ele chega aos 36 quando se tornou meu paie com a idade que eu tinha quando ele morreu coloco pra tocar a mixtape da morte de papai que meu irmão fezpara a nossa […]
- [Joan Brossa - O tempo](https://singularidadepoetica.art/2024/08/08/joan-brossa-o-tempo-2/): "O tempo", um poema de Joan Brossa sobre a natureza transitória da experiência humana, onde o presente se dissolve rapidamente no passado e o futuro permanece além da percepção imediata.
- [Seamus Heaney – Tempestade na ilha](https://singularidadepoetica.art/2024/08/07/seamus-heaney-tempestade-na-ilha/): Estamos preparados: construímos baixas nossas casas,cobrimo-las com boa ardósia e embutimos as paredes na rocha.Esta terra ressequida nunca nos incomodouCom feno, logo, como você pode ver, não há pilhasDe palhas que possam ser perdidas. Nem árvoresQue possam estar presentes quando ela atinge todaSua potência: você sabe o que eu quero dizer – folhas e galhosPodem […]
- [Joseph Stroud - Perdido](https://singularidadepoetica.art/2024/08/06/joseph-stroud-perdido-2/): "Perdido", um poema de Joseph Stroud sobre a jornada solitária de um indivíduo na vastidão indiferente da natureza e dentro de seu próprio mundo interior, onde busca desesperadamente conexão e identidade.
- [Mary Oliver – Rosas no final do verão](https://singularidadepoetica.art/2024/08/05/mary-oliver-rosas-no-final-do-verao/): O que acontececom as folhas depoisque ficam vermelhas e douradase caem? O que ocorre com as aves canorasquando não podem maiscantar? O que acontececom suas asas ágeis? Você acha que existe algumparaíso pessoalpara qualquer um de nós?Você acha que, do outro lado da escuridão,alguém irá nos chamar, a nós?Além das árvores,as raposas continuam ensinando seus […]
- [José Hierro - Réquiem](https://singularidadepoetica.art/2024/08/04/jose-hierro-requiem-2/): "Réquiem", um poema de José Hierro, uma elegia que lamenta a morte anônima e sem glória de um imigrante espanhol nos Estados Unidos. Um poema sobre a solidão silenciosa e o anonimato absoluto de alguém perdido no tecido impiedoso da história.
- [Paul Bailey – Noturno](https://singularidadepoetica.art/2024/08/03/paul-bailey-noturno/): Certa vez, conheci um homem que desejava nunca ter nascido.Ele falava sério quando dizia isso.Ele não era um poseur.Nos poucos e radiantes anos em que o conheci,Ele nunca falava para causar impacto. Ele dizia o que queria dizer, eu me lembro,silenciosa e cuidadosamente,enquanto tomávamos chá com torrada e ovos mexidosem uma daquelas manhãs perfeitasque sempre […]
- [Luis Alberto de Cuenca - O Sagrado](https://singularidadepoetica.art/2024/08/02/luis-alberto-de-cuenca-o-sagrado-2/): "O Sagrado", um poema de Luis Alberto de Cuenca sobre a beleza autêntica e desnuda que revela a essência pura e irresistível da mulher.
- [Mark Strand – A integridade das coisas](https://singularidadepoetica.art/2024/08/01/mark-strand-a-integridade-das-coisas/): Num campo,sou a ausênciado campo.Issoé sempre verdadeiro.Onde quer que eu esteja,sou o que falta. Quando caminho,divido o are invariavelmenteo ar se movimentapara preencher os espaçosonde meu corpo esteve. Todos nós temos razõespara nos mover.Eu me movo parapreservar a integridade das coisas. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua […]
- [Adelaide Ivánova - sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015](https://singularidadepoetica.art/2024/07/31/adelaide-ivanova-sobre-uma-foto-no-huffington-post-em-01-de-novembro-de-2015-2/): “Sobre uma foto no Huffington Post, em 01 de novembro de 2015”, um poema de Adelaide Ivanova que confronta a violência extrema contra mulheres com os limites da linguagem, da arte e da ação política.
- [Werner Aspenström – Um momento na pizzaria](https://singularidadepoetica.art/2024/07/30/werner-aspenstrom-um-momento-na-pizzaria/): As lâmpadas têm o formato de capacetes. Sua luz áspera pressiona contra as mesinhas criando um círculo de semiescuridão ao redor de cada cliente. Os relógios de quartzo marcam segundoa segundo. Levará no mínimo um mêsaté que o rouxinol volte do equador. Às vezes, recebo cartas de um engenheiroque calculou a idade do universo em […]
- [Ian Hamilton - Os quarenta](https://singularidadepoetica.art/2024/07/29/ian-hamilton-os-quarenta-2/): "Os Quarenta", um poema de Ian Hamilton
- [Malena Mörling – Sem localização precisa](https://singularidadepoetica.art/2024/07/28/malena-morling-sem-localizacao-precisa/): À noite, o vento aprisionado agita os galhosdo olmo siberiano. Meu filho, que nasceu recentemente, dorme entre mim e meu marido. Onde ele estava antes? Meu marido repousacom seus pensamentos imersos em um sonho sem localização precisa. Nossos corpos estão deitados aqui nesta cama na escuridão de uma casa na terra — Uma casa […]
- [Nelson Santander - Impermanência](https://singularidadepoetica.art/2024/07/27/nelson-santander-impermanencia-2/): "Só uma coisa permanece: a impermanência." - "Impermanência", um crônica de Nelson Santander
- [Sharon Olds – Diretamente](https://singularidadepoetica.art/2024/07/26/sharon-olds-diretamente/): E então, em um final de tarde,eu compreendi: o mal que meu painos fez está diminuindo. Nunca imagineique isso pudesse acontecer, achava que esse mal fosse mais forte,como o mal divino — inundação, nascimento semolhos, com montes de tecido, sem retina, sempupila, do jeito que meu pai no sofá nãoparecia simplesmente não usar os olhos,mas […]
- [Joan Margarit - Vida Social](https://singularidadepoetica.art/2024/07/25/joan-margarit-vida-social-2/): "Vida Social", um breve poema de Joan Margarit sobre a solidão
- [Paul Guest – Elegia universal](https://singularidadepoetica.art/2024/07/24/paul-guest-elegia-universal/): Pelo sol, que se apagará ou se esgotaráou dramaticamente implodirá em uma erafutura tão terrível quanto esta. Pelocervo com um chifre só que expirou a caminhode um santuário ao norteporque sim. Pela sequoia-túnel,arrancada em uma tempestadeoutro dia. Pela minha fantasia de infânciaem atravessa-la. Pela Califórnia.Por esta tristeza. Esta alegria. Por estebalde no chão. Pela indústriaque […]
- [Walter Savage Landor - Rose Aylmer](https://singularidadepoetica.art/2024/07/23/walter-savage-landor-rose-aylmer-2/): "Rose Aylmer", um poema de Walter Savage Landor
- [Linda Pastan – Instruções](https://singularidadepoetica.art/2024/07/22/linda-pastan-instrucoes/): Você deve embalar sua dor em seus braçosaté que ela adormeça, e depois deixá-la em um quarto escuroe sair na ponta dos pés. Por um momento, você sentiráo vazio da paz. Mas no quarto ao ladosua dor já está se agitando. Em breve, estaráchamando seu nome. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma […]
- [François Villon - Balada dos Enforcados](https://singularidadepoetica.art/2024/07/21/francois-villon-balada-dos-enforcados-2/): Irmãos humanos, imploro vossa piedade aos condenados. Que Deus vos perdoe, que a Virgem Maria nos ampare e que Jesus nos livre do Inferno. Não zombe, mas rogai por todos nós. Leia "Balada dos Enforcados", de François Villon, na tradução de Augusto de Campos
- [Ruth Stone - Mais uma vez](https://singularidadepoetica.art/2024/07/20/ruth-stone-mais-uma-vez/): Ó, meus corvos,quando retornarem em abril,com suas vozes ásperas,seus corpos escuroscortando o ar puro,vocês, machos, que voltaram para casana montanha;esta sombra abaixo de vocêsno pomarsou eu,triunfante,ouvindoas pedras se chocarem rio abaixono degelo. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Once […]
- [Delmore Schwartz – Calmamente caminhamos neste dia de abril](https://singularidadepoetica.art/2024/07/19/delmore-schwartz-calmamente-caminhamos-neste-dia-de-abril/): "Calmamente caminhamos neste dia de abril" - Delmore Schawartz - Neste poema, o autor reflete sobre a passagem do tempo, a memória e a vida urbana. As crianças brincam enquanto o mundo ao redor pulsa e se transforma.
- [Marie Howe – Prece](https://singularidadepoetica.art/2024/07/18/marie-howe-prece/): Todos os dias eu quero falar com você. E todo dia algo mais importantechama minha atenção – a farmácia, produtos de beleza, a mala que devo comprar para a viagem.Mesmo agora, mal consigo ficar aqui entre pilhas de papéis e roupas desabando, os caminhões de lixo lá forajá rangendo e fazendo barulho. Os místicos dizem […]
- [Joan Margarit - El Primer Frío](https://singularidadepoetica.art/2024/07/17/joan-margarit-el-primer-frio-2/): Acompanhei-te até o museu, no parque,em uma manhã de inverno. Detivemo-nosdiante daquela escultura: El primer frío.Era de mármore cinzento: um velho, nu,olha ao longe, entre as folhas mortasque o vento carrega.A arte não é diferente da vida,lembro que disseste. Mas euvia apenas um mármore frio,um tanto retórico, e pensava em garotas.Entre aquele dia e hoje, […]
- [Malena Mörling – Viajando](https://singularidadepoetica.art/2024/07/16/malena-morling-viajando/): Como postes de luzainda acesosapós o amanhecer,os mortosnos encaramde fotografiasemolduradas. Você pode discordar,mas ali estão eles,ainda presentesviajandoincessantementepara trássem um somcada vez maispara o passado. Trad.: Nelson Santander N. do T.: A temática deste poema pareceu-me muito semelhante à abordada por Carlos Drummond de Andrade em seu excepcional “Convívio”, publicado anteontem no site. Ambos refletem sobre […]
- [Manuel António Pina - Extrema-unção](https://singularidadepoetica.art/2024/07/15/manuel-antonio-pina-extrema-uncao-2/): Um poema tocante sobre a inevitabilidade da morte e a preparação para a despedida. O autor expressa a pressa e o cansaço do protagonista, em contraste com as tarefas práticas e cerimônias que antecedem o fim. A obra convida à reflexão sobre a vida e a morte.
- [Carlos Drummond de Andrade - Convívio](https://singularidadepoetica.art/2024/07/14/carlos-drummond-de-andrade-convivio/): Cada dia que passa incorporo mais esta verdade, de que eles não vivem senão em nóse por isso vivem tão pouco: tão intervalo; tão débil.Fora de nós é o que deixaram de viver, para o que se chama tempo.E essa eternidade negativa não nos desola.Pouco e mal que eles vivam, dentro de nós, é vida […]
- [Ferreira Gullar - Notícia da Morte de Alberto da Silva](https://singularidadepoetica.art/2024/07/13/ferreira-gullar-noticia-da-morte-de-alberto-da-silva-2/): "Notícia da Morte de Alberto da Silva", de Ferreira Gullar: uma visão crítica da existência.
- [Nicole Sealey – histórico médico](https://singularidadepoetica.art/2024/07/12/nicole-sealey-historico-medico/): Já estive grávida. Fiz sexo com um homemque fazia sexo com outros homens. Não consigo dormir.Minha mãe tem, e a mãe dela tinha, asma. Meu pai teve um derrame. A mãedo meu pai tem pressão alta.Meus dois avós morreram de diabetes.Eu bebo, mas não fumo. Xanax para flutuar.Propranolol para ansiedade. Meus olhos são ruins.O vento […]
- [Robert Penn Warren – Conta-me uma história](https://singularidadepoetica.art/2024/07/11/robert-penn-warren-conta-me-uma-historia/): No Kentucky, há tempos, um menino ouve os gansos rumando para o norte. Em meio à insanidade do século, ele pede uma história sobre as grandes distâncias e a luz das estrelas... "Conta-me uma história", de Robert Penn Warren
- [Roger McGough – Camas erradas](https://singularidadepoetica.art/2024/07/10/roger-mcgough-camas-erradas/): A vida é uma ala de hospital, e as camas em que nos colocamsão aquelas em que não queremos estar.Melhoraríamos mais rápido se estivéssemos junto à janela.Ou pertos do aquecedor, seria mais suportável lá. À noite, a alma impaciente sonha com lugares distantes.O Egeu: todo mármore e luz. Onde, numa praiatão plana quanto um mapa, […]
- [Ángel González - O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado](https://singularidadepoetica.art/2024/07/09/angel-gonzalez-o-amanha-e-um-mar-profundo-que-precisamos-atravessar-a-nado-2/): Queria ser alga, água, tudo ao teu redor, para unir meu sentimento ao rumor do mar. "O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado", um poema de Ángel González
- [John Burnside – História](https://singularidadepoetica.art/2024/07/08/john-burnside-historia/): HistóriaSt Andrews: West Sands; Setembro de 2001Hoje enquanto empinávamos pipas– a areia se desfazendo em fitas ao longo da praiae o cheiro de gasolina de Leuchars1 flutuando sobreos campos de golfe; a maré alta distantecinza-codorna; pessoascorrendo, ou parando para observarenquanto os aviões de guerra decolavam e circulavamna luz matinal –hoje – com as notícias em […]
- [Mario Quintana - Poema da gare de Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2024/07/07/mario-quintana-poema-da-gare-de-astapovo-2/): Leão Tolstoi, aos oitenta anos, foge de casa e morre solitário em uma estação de trem. Seu último pensamento: a glória é apenas um chocalho colorido nas mãos trêmulas de um idoso. Leia "Poema da gare de Astapovo", de Mario Quintana
- [Pierre de Ronsard – Ossos, nada mais tenho](https://singularidadepoetica.art/2024/07/06/pierre-de-ronsard-ossos-nada-mais-tenho/): Ossos, nada mais tenho, esqueleto pareço,Sem músculos, polpa e nervo, descarnado,Da morte chega a mim o impiedoso chamado,E se ouso olhar meus braços, de medo estremeço. Apolo e o filho seu, mestres de grande apreçoNão podem me curar, por eles fui burlado;Adeus, amável Sol, tenho o olhar turvado.Meu corpo já descamba onde não há regresso. […]
- [Joan Margarit - Astapovo](https://singularidadepoetica.art/2024/07/05/joan-margarit-astapovo-2/): De madrugada, Tolstói foge em um trem russo, temendo o inverno e a morte. A morte muda os trilhos sem aviso. - "Astapovo", de Joan Margarit
- [Colette Bryce – Versão Inicial](https://singularidadepoetica.art/2024/07/04/colette-bryce-versao-inicial/): Nosso embarcação tardou a alcançar Betsaida; os ventos nos oprimiam,rápidos e gelados, e nossas mãos estavam cheias de bolhas dos remos.Tínhamos esgotado nosso estoque de canções e gracejos, com quilômetrosainda por percorrer, quando Jesus falou: disse que estava agachado na praia, sozinho, emuma prece silenciosa, quando, ao olhar para baixo, se surpreendeu –viu sua própria […]
- [Manuel António Pina - Quinquagésimo ano](https://singularidadepoetica.art/2024/07/03/manuel-antonio-pina-quinquagesimo-ano-2/): "Quinquagésimo ano", de Manuel António PIna: são muitos dias que passam, e o tempo avança sem pressa. A vida e a literatura se entrelaçam, tornando-se uma só. Restam memórias e livros, mas a busca por sentido continua.
- [Sue Boyle – Um Centro de Lazer é também um Templo do Saber](https://singularidadepoetica.art/2024/07/02/sue-boyle-um-centro-de-lazer-e-tambem-um-templo-do-saber/): A garota de cor dourada no vestiário femininoestá empenhada em tornar seu corpo mais belo:ela flexionou e tonificou cada músculo com um mergulho matinale removeu os resíduos químicos de piscinausando um esfoliante aromático e suave. Ágil como um leopardo, ela tem estrutura óssea perfeita:sua fenda secreta é tão bem aparada quanto o bigode de um […]
- [Vasco Gato - Repara nos velhos](https://singularidadepoetica.art/2024/07/01/vasco-gato-repara-nos-velhos-2/): Repara nos velhos.Dementes, doridos, restos de casas.Vivem agora a leprade todos nós.Não lhes chegamos.Tresandam.Esquecem.Apoderam-se do nada.E nós, capitosos,brindamos com o vinhoque também elessorveram,desdenhando a morteque, amarga comoa nossa indiferença,haveremosde provar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 16/07/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em […]
- [Theodore Roethke – Elegia para Jane](https://singularidadepoetica.art/2024/06/30/theodore-roethke-elegia-para-jane/): Elegia para Jane(minha aluna, arremessada de um cavalo) Lembro-me dos cachos no pescoço, úmidos e macios como gavinhas;E do olhar ligeiro, peixinho sorrindo de soslaio;E como, ao começar a falar, as sílabas leves fluíam para ela.Ela se equilibrava no deleite de seus pensamentos,Uma ave, feliz, cauda ao vento,Sua canção fazendo tremer os ramos e os […]
- [William Butler Yeats - As quatro idades do homem](https://singularidadepoetica.art/2024/06/29/william-butler-yeats-as-quatro-idades-do-homem/): Com seu corpo principiou uma rinhaO corpo venceu; ereto ele caminha. Ele lutou então com o coração;Sua inocência e sua paz já se vão. Ele combateu depois usando a mente;Ficou pra trás o coração insolente. Agora suas guerras são com Jeová;Ao soar a meia-noite Ele vencerá Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente […]
- [Ed Madden – Sacrifício](https://singularidadepoetica.art/2024/06/28/ed-madden-sacrificio/): “Sacrifício”, um poema de Ed Madden que revisita o mito bíblico para revelar a ferida íntima onde fé e amor se confrontam sem a intervenção do divino.
- [A. A. Milne – Narciso](https://singularidadepoetica.art/2024/06/27/a-a-milne-narciso-2/): Ela vestiu seu chapéu-de-sol,E pôs o seu mais verde vestido;Virou-se para o vento australE prestou-lhe o cortejo devido.Virou-se então para a luz do solE os cabelos louros agitou,E sussurrou para o seu vizinho:“O inverno acabou” Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 14/07/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre […]
- [Audre Lorde – Legado](https://singularidadepoetica.art/2024/06/26/audre-lorde-legado/): I.A cada dia que passa, meu rosto se assemelhamenos e menos com o seu. Quando jovemninguém confundia de quem eu era filha.Meus traços físicos e a cor da minha pele,distintos das de minhas irmãs de ossos delicados e pele clara,me marcavam como a filha de Byron. Nenhum sol se pôs quando você morreu, mas uma […]
- [Ferreira Gullar - Pela rua](https://singularidadepoetica.art/2024/06/25/ferreira-gullar-pela-rua-2/): Sem qualquer esperançadetenho-me diante de uma vitrina de bolsasna Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.Sem qualquer esperançate espero.Na multidão que vai e vementra e sai dos bares e cinemassurge teu rosto e somenum vislumbre e o coração dispara.Te vejo no restaurantena fila do cinema, de azuldiriges um automóvel, a […]
- [Charles Wright – Depois de ler Tu Fu, saio para o Mini Pomar](https://singularidadepoetica.art/2024/06/24/charles-wright-depois-de-ler-tu-fu-saio-para-o-mini-pomar/): A leste e a oeste de mim, pleno verão.Quão mais intenso é o crepúsculo em nosso próprio quintal.Aves voam de um lado para o outro pelo gramado à procura de larEnquanto a noite se aproxima como um pequeno bote.Dia após dia, sou de menos valia para mim mesmo.Como este tordo, voo de uma coisa para […]
- [José Paulo Paes - Borboleta](https://singularidadepoetica.art/2024/06/23/jose-paulo-paes-borboleta-2/): Mal saíra do casulopara mostrar ao solo esplendor de suas asasum pé distraído a pisou. (A visão de belezadura um só instanteinesquecível.) REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 12/07/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
- [Fleur Adcock – O Hospital Soho para Mulheres (IV)](https://singularidadepoetica.art/2024/06/22/fleur-adcock-o-hospital-soho-para-mulheres-iv/): Estou no supermercado, hesitante –nesta tarde, precisamente nela –entre os tomates, o queijo e os pães, coisas que uso como ingredientespara preparar meu jantar, e elascomem na cama suas refeições: Janet com seus grandes sardos seios,sua voz escocesa encoberta,que nunca esteve em um hospital, lá foi fazer alguns exames, veio,mas sua alta agora é incerta;na […]
- [Maria do Rosário Pedreira - Onde quer que o encontres](https://singularidadepoetica.art/2024/06/21/maria-do-rosario-pedreira-onde-quer-que-o-encontres-2/): Onde quer que o encontres –escrito, rasgado ou desenhado:na areia, no papel, na casca deuma árvore, na pele de um muro,no ar que atravessar de repentea tua voz, na terra apodrecidasobre o meu corpo – é teu, para sempre, o meu nome. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 10/07/2019 Mais do que uma leitura, […]
- [Roo Borson – Livrai-nos](https://singularidadepoetica.art/2024/06/20/roo-borson-livrai-nos/): Livrai-nos da noite,das infindáveis e sombriasrodovias, e dos oásisnéon dos postos de gasolina,do ronco dos motoresimortais após a meia-noite,quando o tempo perde o sentido,dos cafés da madrugada,suas tortas macabras,e do babado alaranjado noavental da garçonete,das cadeiras de plástico combinando,do laranja e do marrom e detodos os tons sobrenaturais,banindo-os de volta ao tubo de ensaio,livrai-nos deles,daqueles […]
- [Czeslaw Milosz - A queda](https://singularidadepoetica.art/2024/06/19/czeslaw-milosz-a-queda-2/): A morte de um homem é como a queda de uma poderosa naçãoQue teve valentes exércitos, capitães e profetas,E ricos portos e barcos em todos os mares,Mas agora não socorrerá nenhuma cidade sitiada,Não entrará em nenhuma aliança, Porque suas cidades estão vazias, sua população dispersa,Sua terra que certa vez proveu de colheitas está saturada de […]
- [Adam Zagajewski – Tente louvar o mundo mutilado](https://singularidadepoetica.art/2024/06/18/adam-zagajewski-tente-louvar-o-mundo-mutilado/): Tente louvar o mundo mutilado.Lembre-se dos longos dias de junho,dos morangos silvestres e das gotas de vinho rosé.Das urtigas que metódicas invademas propriedades abandonadas dos exilados.Você deve louvar o mundo mutilado.Você observou os elegantes iates e navios;um deles tinha uma longa jornada pela frente,enquanto o salino esquecimento aguardava os demais.Você viu os refugiados indo a […]
- [Sophia de Mello Breyner Andresen - Quando](https://singularidadepoetica.art/2024/06/17/sophia-de-mello-breyner-andresen-quando-2/): Quando o meu corpo apodrecer e eu for mortaContinuará o jardim, o céu e o mar,E como hoje igualmente hão-de bailarAs quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomarEm que eu tantas vezes passei,Haverá longos poentes sobre o mar,Outros amarão as coisas que eu amei. Será o mesmo brilho a mesma festa,Será […]
- [Ada Limón – Antes](https://singularidadepoetica.art/2024/06/16/ada-limon-antes/): Descalça e usando um capacetevermelho reluzente, eu cavalgavana garupa da Harley do meu paiaos sete anos de idade.Antes do divórcio.Antes do novo apartamento.Antes do novo casamento.Antes da macieira.Antes das cerâmicas na lixeira.Antes da corrente do cachorro.Antes que as carpas fossem todas comidaspela garça. Antes da estradaentre nós, havia a estradaembaixo de nós, e eu era […]
- [Ian Hamilton - Fantasmas](https://singularidadepoetica.art/2024/06/15/ian-hamilton-fantasmas-2/): O caixão lustroso e suntuosamente adornadoDesliza como um novo navio para as profundezas em chamas.Na terra firme,A congregação se ajoelha em murmúrios. Do meu banco no cantoTenho uma visão livre e desimpedidade sua partida.Se você estivesse deitada de ladoTalvez pudesse captar seu olhar insuspeito. No pátio, ao anoitecer,Os tributos florais. Eu poderia jurarTê-la vistoAspirando o […]
- [Konstantinos Kaváfis - Muros](https://singularidadepoetica.art/2024/06/14/konstantinos-kavafis-muros/): Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesarErgueram à minha volta altos muros de pedra. E agora aqui estou, em desespero, sem pensarnoutra coisa: o infortúnio a mente me depreda. E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!Quando os ergueram, mal notei os muros, esses. Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.Isolaram-me […]
- [Joan Margarit - Banheiro](https://singularidadepoetica.art/2024/06/13/joan-margarit-banheiro-2/): Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos […]
- [Rachel McKibbens — Sem título](https://singularidadepoetica.art/2024/06/12/rachel-mckibbens-sem-titulo/): Às minhas filhas, preciso dizer: Fiquem com quem as ama biblicamente.Aquele cujo amor ergue a cabeça para vocêsapesar do pescoço partido. Cujo corpo explodeem dezesseis braços elétricos para carrega-las, gentisdo modo como o luto antigo é gentil. Amem o amor caótico em tudo que tem de excessivo,o corpo que cavalga melhor o seu corpo, cuja […]
- [Joseph Stroud - Lázaro em Varanasi](https://singularidadepoetica.art/2024/06/11/joseph-stroud-lazaro-em-varanasi-2/): De uma pira no flamejante ghat,um cadáver se ergue lentamente entre as chamas. Como se lembrasse de algo importante.Como se quisesse olhar ao redor uma última vez.Como se finalmente tivesse algo a dizer.Como se houvesse uma saída para isso. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 24/06/2019 Mais do que uma leitura, […]
- [Konstantinos Kaváfis - Prece](https://singularidadepoetica.art/2024/06/10/konstantinos-kavafis-prece/): Um marujo o abismo do mar guardou consigo.Sem de nada saber, a mãe coloca um círio aceso diante da Virgem, um longo círio,para que volte logo, a salvo dos perigos. No bramido dos ventos põe o seu ouvido;mas, enquanto ela reza e faz o seu pedido, sabe o ícone a escutá-la, grave, com pesar,que o […]
- [Wilfred Owen - Futilidade](https://singularidadepoetica.art/2024/06/09/wilfred-owen-futilidade-2/): Coloquem-no à luz do sol… Em casaSeu toque gentil o acordava com a lembrançaDe campos ainda por plantar…O sol o acordou sempre, até na França,Até chegarem a manhã de hoje e a neve que aí está.Se alguma coisa pode acorda-lo agora,Só o velho sol saberá. Lembrem que também acorda sementes…E que há muito acordou a […]
- [Patrick Philips – Matinê](https://singularidadepoetica.art/2024/06/08/patrick-philips-matine/): Após a biópsia,após a cintilografia óssea,após a consulta e o choro, por algumas horas ninguém conseguia encontrá-los,nem mesmo minha irmã,porque acontece que eles tinham ido ao cinema.Passava uma tragédia,um épico, mas no fim eles foram de comédia,com suas cocase pipocas, a velha mulher sussurrando tudo duas vezes,o velho maridocobrindo o ouvido com a mão, enquanto […]
- [Vladimir Holan - A Neve](https://singularidadepoetica.art/2024/06/07/vladimir-holan-a-neve-2/): A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvidade que o melhor para o homem é estar sentado na cozinha,ainda que seja a da insônia.Ali faz calor, preparas-te algo, bebes vinhoe contemplas pela vidraça a eternidade familiar.Por que te angustiarias querendo saber se nascimento e morte são apenas dois pontos,sabendo que a vida […]
- [Tung-Hui Hu – Como cuidar?](https://singularidadepoetica.art/2024/06/06/tung-hui-hu-como-cuidar/): Naquele mês, eu me perguntava onde eles se reuniam,antes dos hospitais, antes da ala oncológica, dos cuidados intensivos, das urgências. Naquele tempo, tudo era urgente, amarrarmãos e pés, imobilizar o corpoantes que pudesse se transformar em cadáver. Agoraé mais fácil, olhar fotografias em vez disso, uma dele em sua camisa de trabalho, colarinho desgastado,esticada sobre […]
- [José Luis García Martín - Em algum lugar](https://singularidadepoetica.art/2024/06/05/jose-luis-garcia-martin-em-algum-lugar-2/): Logo, depois, mais tarde, quando nunca,meus passos se afastaram dos meus passose em algum lugar, não sei se dentro ou fora,ouviu-se uma voz que repetia um nome.Uma voz, apenas um eco, quase nada,talvez a voz do vento entre as árvoresonde árvores sequer existiam.Tremiam os alicerces da terraou seria eu quem tremia naquele instantequando um sol […]
- [Louise Dupré – [cada poema é um outono]](https://singularidadepoetica.art/2024/06/04/louise-dupre-cada-poema-e-um-outono/): cada poema é um outono mais não o das belas frases só o outono desgrenhado nas folhagens semelhantes aos cabelos dos feiticeiros que entretem as crianças nas varandas escreves para atrair o sol para a lentidão de um bordo antes que a noite venha devorá-lo tudo se torna imagemna tua corrida contra a treva Mais […]
- [Paulo Henriques Britto - À margem do Douro](https://singularidadepoetica.art/2024/06/03/paulo-henriques-britto-a-margem-do-douro-2/): Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que […]
- [Marie Howe – A menina](https://singularidadepoetica.art/2024/06/02/marie-howe-a-menina/): Tão perto do fim de minha vida fértil eainda sem filhos – se eu pudesse lembrar de um dia sequer em que era puramente uma meninae ainda não uma mulher – mas não creio que tenha havido um dia assim para mim. Quando vejo a menina que fui, pingando em seu maiô,ou andando de bicicleta, […]
- [Juan Vicente Piqueras - Os Deuses Internos](https://singularidadepoetica.art/2024/06/01/juan-vicente-piqueras-os-deuses-internos-2/): Os deuses sabem mais e melhor do que nósdo que precisamos. Pedimos-lhes um filho,e nos enviam um lobo, e não os compreendemos. A vida diariamente os esquece.A morte à noite os inventa. E as doenças, como diz o sábio,são deuses que agonizam dentro de nosso corpo,seu último templo em ruínas,seu refúgio sem fé. Imploram compaixão. […]
- [Tess Gallagher – Paro de escrever o poema](https://singularidadepoetica.art/2024/05/31/tess-gallagher-paro-de-escrever-o-poema/): Paro de escrever o poema*para dobrar as roupas. Não importa quem viveou quem morre, continuo sendo mulher.Sempre terei muito o que fazer.Cinjo as mangas da camisa deleunindo-as. Nada pode deternosso afeto. Voltarei a seruma mulher. Mas por enquantohá uma camisa, uma enorme camisa,em minhas mãos, e, em algum lugar, uma garotinhaao lado de sua mãeobservando […]
- [Joseph Stroud - Lendo Kaváfis sozinho na cama](https://singularidadepoetica.art/2024/05/30/joseph-stroud-lendo-kavafis-sozinho-na-cama-2/): Eu também me lembro do passado, meu quarto à luz de velas,e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto com o delacom boca, língua e lábios,da noite no pomar, do aroma das frutas,seus seios – lembra, corpo?* – aquele quarto,lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes? Trad.: Nelson Santander * N. do […]
- [Sharon Olds — Amor verdadeiro](https://singularidadepoetica.art/2024/05/29/sharon-olds-amor-verdadeiro/): No meio da noite, quando nos levantamosdepois de fazer amor, nos olhamosem completa sintonia, sabemos plenamenteo que o outro tem feito. Ligados um ao outrocomo alpinistas descendo uma montanha,atados pelo vínculo da sala de partos,vagamos pelo corredor até o banheiro, malconseguindo andar, cambaleio pelo ar granuladoe sem sombra, e de olhos fechadossei onde você está, […]
- [Konstantinos Kaváfis - Lembra, corpo...](https://singularidadepoetica.art/2024/05/28/konstantinos-kavafis-lembra-corpo-2/): Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,não só os leitos onde repousaste,mas também os desejos que brilharampor ti em outros olhos, claramente,e que tornaram a voz trêmula – e que algumobstáculo casual fez malograr.Agora que isso tudo perdeu-se no passado,é quase como se a tais desejoste entregaras – e como brilhavam,lembra, nos olhos que […]
- [Dorianne Laux — A travessia](https://singularidadepoetica.art/2024/05/27/dorianne-laux-a-travessia/): Os alces de Orick aguardam para atravessar a pista pacientemente,e meu marido de seis meses, que pensa ser o próprio São Francisco, desce do carro para ajudar.Espírito de São Francisco, camiseta esvoaçante, pisa o asfalto delicadamente e eles começam sua jornada,cabeças erguidas, narinas dilatadas, cada passo um testemunho do momentum interrompido, graciosamentehesitantes, enquanto dois caminhões, […]
- [Wislawa Szymborska - Mapa](https://singularidadepoetica.art/2024/05/26/wislawa-szymborska-mapa-2/): Plano como a mesana qual está colocado.Debaixo dele nada se movenem busca vazão.Sobre ele – meu hálito humanonão cria vórtices de are deixa toda a sua superfícieem silêncio. Suas planícies, vales, são sempre verdes,os planaltos, montanhas, amarelos e marronse os mares, oceanos, de um azul delicadonas margens fendidas. Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.Posso tocar […]
- [Linda Gregg – Perdida](https://singularidadepoetica.art/2024/05/25/linda-gregg-perdida/): Poderíamos ter sido confundidos como casadosno trem de Manhattan para Chicagona última vez que estivemos juntos. Lembro-me deolhar pela janela e elogiar a belezado banal: os entre sítios, o mundode costas para nós, as pequenas e negligenciadasestações de nossa história. Adormeci sobre seupeito e ventre sem pedir licença,pois eram nossas derradeiras horas. Haviaum aroma no […]
- [Jorge Sousa Braga - Litania](https://singularidadepoetica.art/2024/05/24/jorge-sousa-braga-litania-2/): Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatórioe uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparenteCom o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãosainda escorrendo sangueUma pequena construção toda em pedracom divisões de tijolo e cal hidráulicae janelas abrindo para o valeCom o teu úteroCom a […]
- [Nathan McClain — Nighthawks, de Edward Hopper](https://singularidadepoetica.art/2024/05/23/nathan-mcclain-nighthawks-de-edward-hopper/): Nighthawks*, de Edward Hopper Notou como ela se senta perto do homemde terno azul? Viu como as mãos delesquase se tocam? Como ela me lembraminha mãe? — uma mulher de vermelho tomando café. Viu?Hopper obviamente era solitário.Por que mais pintaria ela, minha mãe,sentada ali assim? E isso me faria o quê?O balconista de avental branco?Estou […]
- [Nuno Júdice - Nostalgia de setembro](https://singularidadepoetica.art/2024/05/22/nuno-judice-nostalgia-de-setembro-2/): Quando vinham as nuvens de setembro, jáos pássaros tinham emigrado para além dos mares,o campo ficava em longos silênciosque só a passagem dos rebanhos, a caminhodo matadouro, cortava num tropel que ecoavaainda, depois da paisagem, com os gritosdo pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvensquando começavam as primeiras chuvas, e podiaouvir o […]
- [Leon Stokesbury – Mensagem não enviada a um irmão em sua dor](https://singularidadepoetica.art/2024/05/21/leon-stokesbury-mensagem-nao-enviada-ao-meu-irmao-em-sua-dor/): Por favor, não morra agora. Escute.Ontem, nuvens de tempestade avançaramdo oeste como músculos espessos.Relâmpagos floresceram. Um espetáculode cores. Você devia ter visto.Uma mulher assistiu comigo, e depois fomos dormir.Quando acordei primeiro, vino rosto dela que o descanso é possível.O céu – de repente pareceimportante lhe dizer – o céuestava rosa como uma concha. Ouça-me. Há […]
- [Maria do Rosário Pedreira - À avó](https://singularidadepoetica.art/2024/05/20/maria-do-rosario-pedreira-a-avo-2/): Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a […]
- [Ted Kooser – Pais](https://singularidadepoetica.art/2024/05/19/ted-kooser-pais/): Meus falecidos pais tentam se manter fora do meu caminho.Quando entro em um cômodo, eles já o deixaram,foram procurar o que precisa ser feitoem outra parte da casa, meu pai com o aspirador,minha mãe com pano de pó e o lustra-móveis. Às vezes,ouço seus velhos chinelos tamborilandopelo corredor, ou vejo por um breve instanteo que […]
- [Czesław Miłosz - Uma descrição honesta de mim mesmo com um copo de whisky num aeroporto, digamos, em Minneapolis](https://singularidadepoetica.art/2024/05/18/czeslaw-milosz-uma-descricao-honesta-de-mim-mesmo-com-um-copo-de-whisky-num-aeroporto-digamos-em-minneapolis/): Meus ouvidos captam cada vez menos as conversas, meus olhos vêm se tornando fracos, embora sigam insaciáveis. Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas, em tecidos ondulantes, Observo uma a uma, separadamente, suas bundas e coxas, acalentado por sonhos pornô. Velho depravado, é chegada a hora da cova, não dos jogos e folguedos da […]
- [Homero Aridjis – Pela Porta Verde](https://singularidadepoetica.art/2024/05/17/homero-aridjis-pela-porta-verde/): Pela porta verde Para Eva Sofia Sou um indocumentado da eternidade.Sem papéis, ultrapassei as fronteiras do tempo.Detido pelos agentes de imigração do nascimentoe da morte, lancei-meao tabuleiro de xadrez dos dias.Fiscais astutos, em busca de lembranças valiosas,vasculharam minha bagagem de sombras.Nada a declarar. Nada a lamentar.Passei pela porta verde. Trad.: Nelson Santander Mais do que […]
- [Marina Colasanti - Sexta-feira à noite](https://singularidadepoetica.art/2023/04/08/marina-colasanti-sexta-feira-a-noite-2/): Sexta-feira à noiteOs homens acariciam o clitóris das esposasCom dedos molhados de saliva.O mesmo gesto com que todos os diasContam dinheiro, papéis, documentosE folheiam nas revistasA vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noiteOs homens penetram suas esposasCom tédio e pénis.O mesmo tédio com que todos os diasEnfiam o carro na garagemO dedo no narizE metem a mão no bolsoPara coçar o saco. Sexta-feira à noiteOs homens ressonam de borcoEnquanto as mulheres no escuroEncaram seu destinoE sonham com o príncipe encantado.
- [Alex Dimitrov – Os anos](https://singularidadepoetica.art/2023/04/07/alex-dimitrov-os-anos/): Leia "Os anos", de Alex Dimitrov, um poema melancólico e elegante sobre amizade, memória, juventude e a passagem do tempo.
- [Charles Simic - Na Biblioteca](https://singularidadepoetica.art/2023/04/06/charles-simic-na-biblioteca-2/): Para Octavio Há um livro chamado“Um Dicionário dos Anjos”.Ninguém o abre há cinquenta anos,Eu sei, porque quando o fizAs capas rangeram, as páginasdesmancham-se. Nele descobriQue os anjos eram tão abundantesQuanto moscas. Ao entardecer, o céuCostumava ficar repleto deles.Você precisava agitar os dois braçosApenas para mante-los à distância.Agora o sol brilhaAtravés de altas janelas.A biblioteca é um lugar tranquilo.Anjos e deuses amontoadosem sombrios tomos fechados.O grande segredo estáEm alguma estante pela qualMiss Jones passa em sua ronda diária.Ela é muito alta, então mantémA cabeça inclinada como se estivesse escutando.Os livros estão sussurrando.Eu não ouço nada, mas ela sim. Trad.: Nelson Santander Republicação […]
- [Eugenio Montale – O lago de Annecy](https://singularidadepoetica.art/2023/04/05/eugenio-montale-o-lago-annecy/): Não sei por que minhas memórias te relacionamao lago de Annecyque visitei alguns anos antes de tua morte.Mas na época eu não pensava em ti, era joveme julgava ser o senhor do meu destino.Por que uma memória tão enterrada é capaz deaflorar eu não sei; tu mesmacertamente me enterraste e nem percebeste.Agora ressurges viva, embora já não estejas. Eu poderiater perguntado então sobre teu pensionato,ter assistido as meninas saindo em fila,ter encontrado um pensamento teu de quando ainda estavasviva. Mas não pensei em nada disso. Agora que é inútil,a fotografia do lago me é suficiente. 6 de junho de 1971 Trad.: […]
- [Inês Dias – Lei Sálica](https://singularidadepoetica.art/2023/04/04/ines-dias-lei-salica-2/): As mulheres da família sempretiveram um jeito quase póstumode existir: guardar o lumeem silêncio, comer depois deservir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destinopara lerem os caminhos perdidose coleccionavam a abdicaçãoem caixinhas de folha, entre bilhetescaducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a vida toda por uma vidapróxima, de alma presa a alfinetesno vestido preferido para o enterro,os passos medidos nas suas varandasa dar para o fim do mundo. Retomo-lhes às vezes os gestosneste meu exílio inventado,mas acaba aqui: vou encher de corpoa sombra, mesmo que nem tempome reste já para a pesar. Republicação: poema publicado no […]
- [José Infante – [A morte é definitivamente o fim]](https://singularidadepoetica.art/2023/04/03/jose-infante-a-morte-e-definitivamente-o-fim/): A morte é definitivamente o fim, por maisque nos tentem enganar com cânticos,com hinos, com orações e salmos.A morte é o fim e é justoque seja assim. Que não hajarecompensas nem punições. Somenteque nos deixem perdermo-nos no nada,de onde viemos sem ter sidopreviamente convidados. Trad.: Nelson Santander [La muerte sí es el final] La muerte sí es el final por muchoque intenten engañarnos con canciones,con himnos, con plegarias y salmos.Es la muerte el final y es justoque así sea. Que no existanni premios ni castigos. Solamenteque nos dejen perdernos en la nada,desde donde vinimos sin haber sidopreviamente invitados.
- [Manuel António Pina - Relatório](https://singularidadepoetica.art/2023/04/02/manuel-antonio-pina-relatorio-2/): É um mundo pequeno,habitado por animais pequenos– a dúvida, a possibilidade da morte –e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros,os teus passos subindo as escadas,o gato brincando na salacom o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa,um pouco mais alta que um impérioe um pouco mais indecifrávelque a palavra “casa”; não fulge. Em certas noites, porém,sai de si e de mime fica suspensa lá foraentre a memória e o remorso de outra vida. Então, com as luzes apagadas,ouço vozes chamando,palavras mortas nunca pronunciadase a agonia interminável das coisas acabadas. Republicação: poema publicado […]
- [Danusha Laméris - Nada quer sofrer](https://singularidadepoetica.art/2023/04/01/danusha-lameris-nada-quer-sofrer/): Nada quer sofrer após LInda Hogan Nada quer sofrer. Nem o ventoque arranha contra a encosta. Nem o penhasco sendo devorado, lentamente, pelo mar. A terra não quersofrer o pisoteio bruto de quem a ignora. As árvores não querem sofrer o machado, nem versuas irmãs derrubadas pela podridão, pelo mofo e oxidação de suas raízes. O coiote em seu covil. O puma perseguindo sua presa.Estes também desejam tranquilidade e um tenro animal na boca para aliviar a fome. Uma oferenda, espera-se, preparada rapidamente, e sem muito sofrimento. A cadeira lamenta um ocupante irritado. A lâmpada, uma mariposa queimada.Uma mesa, o peso de […]
- [Vitor Nogueira – Sementes](https://singularidadepoetica.art/2023/03/31/vitor-nogueira-sementes-2/): É claro que me lembro. Havia dois atalhospelo meio do pinhal, direcções espantosamenteprecisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,havia talismãs pendurados nas árvores e mercúriopara tratar certas lesões, uma peça vitaldo equipamento. Havia girassóis à volta da casae as palavras imortais dos espantalhos, uma formade evitar que endoidecêssemos. E havia um muroque era preciso saltar, a manhã gloriosada escalada, a ciência das grandes migrações. Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos. Do futuro nada sei. Apenas que […]
- [Brad Aaron Modlin – O que você perdeu no dia em que não foi à aula](https://singularidadepoetica.art/2023/03/30/brad-aaron-modlin-o-que-voce-perdeu-naquele-dia-em-que-faltou-na-quarta-serie/): A Sra. Nelson explicou como ficar imóvel e ouviro vento, como encontrar sentido em encher o tanque, como descascar batatas pode ser uma forma de oração. Ela respondeua perguntas sobre como não se sentir perdido no escuro. Depois do recreio, ela distribuiu folhas de exercíciosque abordavam maneiras de como lembrar as vozes de nossos avôs. Em seguida, a turma discutiu sobre adormecersem sentir que você esqueceu de fazer mais alguma coisa — algo importante — e como se convencer de quea casa em que você despertou é seu lar. Isso levou a Sra. Nelson a desenhar um diagrama na lousa, explicandocomo […]
- [Ana Martins Marques - de "Três Postais"](https://singularidadepoetica.art/2023/03/29/ana-martins-marques-de-tres-postais-2/): Leia "São Paulo" (de 'Três Postais'), de Ana Martins Marques, um poema delicado sobre memória amorosa, ausência e a forma como os lugares preservam aquilo que perdemos.
- [Wendy Cope – Em um trem](https://singularidadepoetica.art/2023/03/28/wendy-cope-em-um-trem/): O livro que estou lendo repousa em meu joelho. Você dorme. Lá fora é tão bonito —campos, pequenos lagos e árvores de invernosob o sol de fevereiro,cada estacionamento um brilhante mosaico. Longos e radiantes minutos,sua mão na minha mão,ainda quente, ainda quente. Trad.: Nelson Santander On a Train The book I’ve been readingrests on my knee. You sleep. It’s beautiful out there-fields, little lakes and winter treesin February sunlight,every car park a shining mosaic. Long radiant minutes,your hand in my hand,still warm, still warm.
- [José Alcaraz - Volta para Casa](https://singularidadepoetica.art/2023/03/27/jose-alcaraz-volta-para-casa-2/): Atravessa as ruasabsorto nos ecos das pessoas,distante até de seus pensamentos.Não chove, não abre o seu guarda-chuva,no entanto, como sempre, molham-senão só seus sapatoscomo a vida também, porque às vezesesquece que o mundo o reclama.Caminha como quem não sabe para onde,em cada passo crê estar sozinho,mais distante das outras pessoas,por isso demora a encontrar as palavras,e quando as pronuncia já não há ninguémesperando. Depois,novamente, o caminho de volta,as ruas, a tristeza. E nada mais,além de sua casa, e ele,diante de um espelho,olhando-me nos olhos. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 04/05/2018 Vuelta a […]
- [Ferreira Gullar – Poema](https://singularidadepoetica.art/2023/03/26/ferreira-gullar-poema/): Se morro o universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto se apago a lâmpada: os sapatos–da–ásia, as camisas e guerras na cadeira, o paletó– dos–andes, bilhões de quatrilhões de seres e de sóis morrem comigo. Ou não: o sol voltará a marcar este mesmo ponto do assoalho onde esteve meu pé; deste quarto ouvirás o barulho dos ônibus na rua; uma nova cidade surgirá de dentro desta como a árvore da árvore. Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens a mesma história que eu leio, comovido.
- [Manuel António Pina - Interiores](https://singularidadepoetica.art/2023/03/25/manuel-antonio-pina-interiores-2/): Onde estamos agora que não nos vemos,tu sentada diante da TVe eu escrevendo isto, não sei o quê,como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceudo nosso amor como uma inevitabilidade,uma saudade pousada agora na mão de Deusexistindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos uma rota circularatravés da curvatura do espaço e do tempoonde haveremos de nos reencontrar;será que então de alguma forma nos reconheceremos? REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 02/05/2018
- [Finn Butler – Marinho](https://singularidadepoetica.art/2023/03/24/finn-butler-marinho/): Todos os que o amedrontam são sessenta e cinco por cento água.E todos os que você ama são feitos de poeira estelar, e eu sei queàs vezesvocê nem consegue respirar profundamente,o céu noturno não é seu lar evocê já chorou sozinho até dormir tantas vezesque chegou aos seus últimos dois por cento, mas nada é infinito,nem mesmo a perda. Você é feito do mar e das estrelas, e um diavai se encontrar novamente. Trad.: Nelson Santander Saltwater Everyone who terrifies you is sixty-five percent water. And everyone you love is made of stardust, and I knowsometimes you cannot even breathe deeply, […]
- [Jorge Luis Borges – As Causas](https://singularidadepoetica.art/2023/03/23/jorge-luis-borges-as-causas-2/): Todas as gerações e os poentes.Os dias e nenhum foi o primeiro.A frescura da água na gargantaDe Adão. O ordenado Paraíso.O olho decifrando a maior treva.O amor dos lobos ao raiar da alba.A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.A Torre de Babel e a soberba.A lua que os Caldeus observaram.As areias inúmeras do Ganges.Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.Os passos do errante labirinto.O infinito linho de Penélope.O tempo circular, o dos estóicos.A moeda na boca de quem morre.O peso de uma espada na balança.Cada vã gota de água na clepsidra.As águias e […]
- [Maya C. Popa – Vida querida](https://singularidadepoetica.art/2023/03/22/maya-c-popa-vida-querida/): Não posso desfazer tudo o que fiz a mim mesma,o que permiti que um apetite por amor me fizesse. Eu quis o mundo todo, suas maravilhase suas mazelas; alguns diasacho que já houve castigo suficiente. Com frequência, recebi mais do que pedi, que é como isso funciona — você pesca em mar abertopronta para ser ferida pelo que fisgar. Joga-lo de volta era um pesadelo.Joga-lo de volta e ver minha própria face enquanto ela desaparecia na água escura. Fisgar de repente minha língua no metal,cuspindo o anzol na palma da minha mão aberta. Vida querida: hoje sinto esse anzol mais profundamente. […]
- [Hans Magnus Enzensberger - Discurso pós-jantar em um noivado](https://singularidadepoetica.art/2023/03/21/hans-magnus-enzensberger-discurso-pos-jantar-em-um-noivado-2/): Este eu, um invólucro que,contanto que ninguém o abra,parece compacto, regularcomo um Kinder ovo,quase apetitoso. Só por dentroé escuro. Quem sabeo que estará esperando por você lá.Obsessões, sem dúvida,hábitos enferrujados,medos incompreensíveis,truques de segunda mão,desejos infantis.Que você deseje tê-la,esta caixa de presente,beira o milagre. Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução do alemão para o inglês feita por Martin Chalmers e Esther Kinsky, in A History of Clouds. 99 Meditations by Hans Magnus Enzensberger) REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/04/2018 After-Dinner Speech at an Engagement This self, a container, which,as long as no one opens it,appears compact, smoothas a Kinder […]
- [Amalia Bautista - No final](https://singularidadepoetica.art/2023/03/20/amalia-bautista-no-fim/): Leia "No final", de Amalia Bautista, um poema breve e comovente sobre amor, finitude e as poucas coisas que realmente importam na vida.
- [Juan Vicente Piqueras - Véspera de Permanecer](https://singularidadepoetica.art/2023/03/19/juan-vicente-piqueras-vespera-de-permanecer/): Tudo está pronto: a mala,as camisas, os mapas, as vãs esperanças. Estou removendo o pó das minhas pálpebras.Já pus na lapelaa rosa dos ventos. Tudo está em ordem: o mar, o ar, o atlas. Só me falta o quando,o onde, um diário de bordo,cartas de navegação, ventos propícios,coragem e alguém que saibame amar como nem eu mesmo sei. O navio inexistente, o olhar,os perigos, as mãos do espanto,o fio umbilical do horizonteque sublinha esses versos suspensivos… tudo está preparado: a sério, em vão. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 28/04/2018 Juan Vicente Piqueras […]
- [Judith Viorst – A uma amiga de meia-idade considerando adultério com um homem mais jovem](https://singularidadepoetica.art/2023/03/18/judith-viorst-a-uma-amiga-de-meia-idade-considerando-adulterio-com-um-homem-mais-jovem/): É complicado ser temerária Quando há dobras em seu derrière E chega a hora de expor o que sua meia-calça está ocultando. E embora os olhos amorosos de um marido Façam certas concessões para suas coxas, Jovens amantes podem ter um olhar menos benevolente para o que você está expondo. É complicado se render ao pecado Enquanto você tenta manter a barriga contraída Esperando que o blush ainda esteja iluminando sua tez, E torcendo para que ele não perceba, Enquanto corre os dedos pelos seus cabelos pretos, Que você ficou inequivocamente grisalha em toda uma outra seção. É complicado experimentar o […]
- [Haroldo de Campos - Servidão de Passagem](https://singularidadepoetica.art/2023/03/17/haroldo-de-campos-servidao-de-passagem-2/): forma de fome proêmio mosca ouro?mosca fosca. mosca prata?mosca preta. mosca íris?mosca reles. mosca anil?mosca vil. mosca azul?mosca mosca. mosca branca?poesia pouca. o azul é puro?o azul é pus. de barriga vazia. o verde é vivo?o verde é vírus de barriga vazia. o amarelo é belo?o amarelo é bile de barriga vazia. o vermelho é fúcsia?o vermelho é fúria de barriga vazia. a poesia é pura?a poesia é para de barriga vazia. poesia em tempo de fomefome em tempo de poesia poesia em lugar do homempronome em lugar do nome homem em lugar de poesianome em lugar do pronome poesia de […]
- [David Wagoner – Perdido](https://singularidadepoetica.art/2023/03/16/david-wagoner-perdido/): Permanece imóvel. As árvores à frente e os arbustos ao teu ladoNão estão perdidos. Onde quer que estejas é chamado de Aqui,E deves tratá-lo como um poderoso estranho,Pedir permissão para conhece-lo e ser conhecido.A floresta respira. Escuta. Ela responde,Eu fiz este lugar ao teu redor.Se o deixares, poderás voltar novamente, dizendo Aqui.Nenhuma árvore é igual para o Corvo.Nenhum ramo é igual para a Curruíra.Se o que uma árvore ou um arbusto faz está perdido para ti,Certamente estás perdido. Permanece imóvel. A floresta sabeOnde estás. Deixa que ela te encontre. Trad.: Nelson Santander Lost Stand still. The trees ahead and bushes beside […]
- [Manuel António Pina - Instituto de Oncologia](https://singularidadepoetica.art/2023/03/15/manuel-antonio-pina-instituto-de-oncologia-2/): Estes cumprem o rito antigo mantendoa chama da morte acesa na obscura água da vidae engrossam o rio dos mortoscomo pura memória sem nome. Nós rebelamo-nos, levantamos as mãos ao céu,e depois fechamo-las para detero rio da mudança fluindo por entre os dedos,porque éramos os menos fortes e os menos densos. Frágeis mãos dispersaram o que nos pertenciae quando regressámos tinham partido todos.Agora, diante de nós mesmos para sempre,até a nossa miséria nos parece alheia. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 22/04/2018
- [Thom Gunn – Natureza morta](https://singularidadepoetica.art/2023/03/14/thom-gunn-natureza-morta/): Não esquecerei tão cedoA pele amarelo-acinzentada À qual o rosto se havia fixado:Pálpebras apertadas: nada dele,Nenhum tremor interior,Brincava na superfície.Ele ainda respirava, e contudoEsta era uma obscura habilidade.Não esquecerei tão cedoO ângulo de sua cabeça,Mantida imobilizada para trás Na planície estirada do colchão,De volta daquilo que ele não podiaNem aceitar, como uma objeção,Nem, como um respirador de longa data,Abandonar de forma consentida,O tubo em sua boca seladoEm um atônito O. Trad.: Nelson Santander N. do T.: Este poema integra uma sequência de elegias compostas pelo escritor em memória de amigos que morreram durante a epidemia de aids no final da década […]
- [Charles Bukowski – Para Jane Cooney Baker, morta em 22/01/1962](https://singularidadepoetica.art/2023/03/13/charles-bukowski-para-jane-cooney-baker-morta-em-22-01-1962-2/): e então você se foi me deixando aquinum quarto com uma cortina rasgadae o Idílio de Siegfried tocando no radinho vermelho. e então você se foi tão rápidoquanto quando você veio pra mim,e nós tínhamos dito adeus antes,e quando eu estava limpando seu rosto e lábiosvocê abriu os maiores olhos que eu já tinha vistoe disse “Eu devia saberque era você”você conseguiu vermas não por muito tempo e um homem velho com pernas brancas e finasna cama ao ladodizia, “Eu não quero morrer,”e seu sangue veio de novoe eu o aparei com as mãos em conchatudo o que ficoudas noites e […]
- [Frances Leviston – Todo animal faz um som, exceto nós](https://singularidadepoetica.art/2023/03/12/frances-leviston-todo-animal-emite-um-som-exceto-nos/): Agostoe os cordeirosforam levados de suas mães.O dia todo elas emitem seus humanos lamentosatravés da cerca da fazenda até a lagoa da orelha de um fazendeiroe ao longo da lama pela nunca esquecidanecessidade de expressar o que foi perdido –a fala visceral, incontornável,a fala naufragada,a perda. Trad.: Nelson Santander Every Animal has a Noise Except Us Augustand the lambshave been taken from the mothers.All day they cast their human criesacross the field-fence, into the pond of a farmer’s earand down through mud to the never-forgottenneed to tell of what was lost –the gut-fished, unrefusable tongue,the sunken tongue,the loss.
- [Francisca Aguirre – E se, depois de tudo, fosse o resto](https://singularidadepoetica.art/2023/03/11/francisca-aguirre-e-se-depois-de-tudo-fosse-o-resto/): E se, depois de tudo, fosse o restoum ir morrendo para ao fim morrermospor este louco afã de convertermo-nosem contadores de um momento lesto. E se afigura que o correto eraeste sermão que vem nos repetirque avança o furacão de nos ferir,e é vã e absurda esta carreira. Então fique tranquilo, amor meu,e goza desta gruta que ofereço,e esgota a água que eu não consumi. O vento nos arrasta, cego e frio,toma esta manta enquanto eu envelheço,amar-te de outro modo não aprendi. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 07/04/2018 Francisca Aguirre – Y si después de todo, […]
- [Adam Zagajewski - Um breve poema](https://singularidadepoetica.art/2023/03/10/adam-zagajewski-um-rapido-poema/): Eu ouvia cânticos gregorianosnum carro em alta velocidadeem uma rodovia na França.As árvores passavam velozes. As vozes dos mongesentoavam preces a um deus invisível(ao amanhecer de uma capela tremendo de frio).Domine, exaudi orationem meum,vozes graves rogavam calmamentecomo se a salvação estivesse crescendo no jardim.Para onde eu ia? Onde o sol se escondia?Minha vida estava em farraposnos dois lados da estrada, frágil como um mapa de papel.Com os doces mongespercorri o caminho em direção às nuvens, ao azul profundo,pesado, denso,rumo ao futuro, ao abismo,sorvendo duras lágrimas de granizo.Longe da aurora. Longe de casa.Em lugar de paredes — chapa de metal.Em vez de […]
- [Yehuda Amichai – Na história do nosso amor](https://singularidadepoetica.art/2023/03/09/yehuda-amichai-na-historia-do-nosso-amor-2/): "Na história do nosso amor", um poema de Yehuda Amichai que utiliza metáforas históricas e geográficas — tribo, nação, ilha, península — para refletir sobre desencontro, deslocamento e a redefinição da identidade amorosa ao longo do tempo.
- [Czesław Miłosz - Uma vida afortunada](https://singularidadepoetica.art/2023/03/08/czeslaw-milosz-uma-vida-afortunada/): Sua velhice coincidiu com os anos de colheita abundante.Não houve terremotos, secas ou inundações.Dir-se-ia que a mudança das estações ganhava em regularidade,As estrelas se fortaleciam e o sol aumentava seu poder.Mesmo em províncias remotas nenhuma guerra foi travada.Gerações cresceram amistosas para com seus semelhantes.A natureza racional do homem não era motivo de escárnio. Foi amargo dizer adeus a um planeta tão renovado.Ele tinha inveja e se envergonhava de todas as suas dúvidas,Satisfeito que sua dilacerada memória desaparecesse com ele.Dois dias depois de sua morte um furacão arrasou os litorais.Fumaças surgiram de vulcões inativos há cem anos.A lava se espalhou por florestas, […]
- [Pedro Salinas - [A tua forma de amar]](https://singularidadepoetica.art/2023/03/07/pedro-salinas-a-tua-forma-de-amar/): "A tua forma de amar", um poema de Pedro Salinas que explora o amor silencioso e a insegurança afetiva, retratando um eu lírico que teme descobrir que ama sozinho e se agarra à presença da amada para não confrontar a possibilidade da solidão.
- [Linda Pastan – Por que seus poemas são tão sombrios?](https://singularidadepoetica.art/2023/03/06/linda-pastan-por-que-seus-poemas-sao-tao-sombrios/): Por que seus poemas são tão sombrios? Não é a lua também sombria,na maior parte do tempo? E a página em branconão parece inacabada sem a mancha escuradas letras? Quando Deus demandou a luz,Ele não baniu a escuridão. Em vez disso, Ele criouo ébano e os corvos e aquela pequena pintano lado esquerdo do seu rosto. Ou você quis perguntar“Por que você está triste com tanta frequência?” Pergunte à lua.Pergunte o que ela testemunhou. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Why Are Your Poems so […]
- [Manuel António Pina – Depois](https://singularidadepoetica.art/2023/03/05/manuel-antonio-pina-depois-2/): Primeiro sabem-se as respostas.As perguntas chegam depois,como aves voltando a casa ao fim da tardee pousando, uma a uma, no coraçãoquando o coração já se recolheude perguntas e de respostas. Que coração, no entanto, pode repousarcom o restolhar de asas no telhado?A dúvida agitaos cortinadose nos sítios mais íntimos da vidaacorda o passado.Porquê, tão tardo, o passado? Se ficou por saldar algocom Deus ou com o Diaboe se é o coração o saldoporquê agora, Cobrança,quando medo e esperança se recolheram também soblembranças extenuadas?Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,e de poços, e de portas entreabertas,e sonham no escuroas coisas acabadas. […]
- [Jorge Valdés Díaz-Vélez - Xochiquetzal](https://singularidadepoetica.art/2023/03/04/jorge-valdes-diaz-velez-xochiquetzal/): Xochiquetzal1 (Homenagem a Chuang-Tzu2) Ontem sonhei contigo. Vestias uma gabardine de pele, e por baixo nada.Era outono e estavas ensopadapela chuva; caminhavas em alguma gare de Madrid indo para lugarnenhum. Estancavas ocasionalmenteteus passos para sentires transluzentetua pele resplandecer ao luar de um espelho invisível em que haviaum homem que sonhava com uma mulhere uma mulher seminua e bonita, molhada de orvalho. Mas eu, todavia,ainda pareço olhar-te sustero fixo olhar daquela borboleta. Trad.: Nelson Santander N. do T.: 1. Segundo este site, Xochiquetzal “é a representação do arquétipo da mulher jovem em pleno vigor sexual. É a divinização da amante, uma deusa […]
- [Laia Noguera Clofent – [Amo a vida simples]](https://singularidadepoetica.art/2023/03/03/laia-noguera-clofent-amo-a-vida-simples/): Amo a vida simples,sentar-me à entradapara ver o ir e vir das pessoas,como se move um pardal,como se inclina a tardenas casas do corpo. Bem sei que morrereimuito antes de morreremas árvores que amo. Mas isso não me preocupa,porque no instanteem que se me romper o último fioserei apenas aquela mulherque se sentava à entradapara simplesmente olhare ser folha e raiz. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com pequenas modificações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 29/03/2018 [Amo la vida pequeña] Amo la vida pequeña,sentarse en la entradapara ver cómo pasa la gente,cómo se mueve un gorrión,cómo se inclina la tardeen […]
- [Nisha Atalie – Fazer/Não fazer](https://singularidadepoetica.art/2023/03/02/nisha-atalie-fazer-nao-fazer/): Eu cheiro o Lírio Tigre em flor,duas línguas saltandode uma boca. Eu enveneno o rio involuntariamente.Marcho nos caminho demarcados. Eu corto a montanha, seu corpo e sua boca escancarados.Recolho a água da chuva em um carrinho de mão. Eu forro o ventre da baleia com presentes atéque eles dilacerem seu estômago.Eu rego os morangos. Novamente eu encho meu tanque com coisas mortas,gerações girando juntas até brilhar.Alimento os patos com alface fresca. Eu manejo o esquilo mortona estrada, marcando o momentoem que a criatura se torna carne. Aceito que meu amor é umaflor venenosa, rotineiramente fatal. Eu calculo a força doamor em […]
- [Ana Martins Marques – História](https://singularidadepoetica.art/2023/03/01/ana-martins-marques-historia-2/): Leia "História", de Ana Martins Marques, um poema original e filosófico sobre tempo, memória e as múltiplas temporalidades presentes no cotidiano.
- [Vievee Francis – Estive pensando de novo no amor](https://singularidadepoetica.art/2023/02/28/vievee-francis-estive-pensando-novamente-no-amor/): Estive pensando de novo no amor Há os que vivem para recebê-loe os que vivem para dá-lo. Claro que existem aqueles para quem ambas as coisas são verdade,mas nunca na mesma medida. Aqueles que o têm para dar são como cardeais na neve. Tão fáceise lindamente iluminados. Algunssão como coelhos. Difíceis de verexceto para aqueles que deles fariam presa:toda aquela suavidade e tremor e sangue. Aqueles que o queremnão podem ser saciados. Com olhos de águia e tais garras,qualquer criatura peluda serve. É tão fácilarrancar um coração quando ele pulsa tão forte. Eu vagueio pelo inverno.Eu sei o que sou. Trad.: […]
- [Marcia Vinci – Mãe Solteira](https://singularidadepoetica.art/2023/02/27/marcia-vinci-mae-solteira-2/): dadeiraparideiranutrizcriadeiratoda mãeé sozinhatoda mãeé solteira REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/03/2018
- [Raymond Carver – Chuva](https://singularidadepoetica.art/2023/02/26/raymond-carver-chuva/): Despertei esta manhã com a urgênciaterrível de permanecer na cama o dia inteiroe ler. Lutei contra isso por um minuto. Depois olhei a chuva pela janela.e me rendi. Coloquei-me inteiramentenas mãos dessa manhã chuvosa. Viveria minha vida novamente?Cometeria os mesmos erros imperdoáveis?Sim, se tivesse a mínima chance. Sim. Trad.: José Antônio Cavalcanti Rain Woke up this morning with a terrific urge to lie in bed all day and read. Fought against it for a minute. Then looked out the window at the rain. And gave over. Put myself entirely in the keep of this rainy morning. Would I live my life […]
- [Vicente Gaos - Testamento](https://singularidadepoetica.art/2023/02/25/vicente-gaos-testamento-2/): Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil séculos de idade, estado civilsolitário, instáveldomiciliado/refugiado em um canto do cosmos,profissão náufrago na sombra,sem carteira de identidade, sem títulos, condecorações ou diplomas de qualquer tipo,sem nenhuma marca particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo,sem mais cicatriz além de uma necrose miocárdica,uma velha ferida auto-infligida,quero dizer, causada por séculos de sofrimento,de amor escondido, de ternura encoberta por um falso orgulho,o de não sentir inveja de nada e de ninguém,o de ter acreditado que sempre havia tempo de sobra,o de me alegrar verdadeiramente com a felicidade alheia,o de não nunca sentir […]
- [George Bilgere – Tudo bem](https://singularidadepoetica.art/2023/02/24/george-bilgere-tudo-bem/): Eu me sento aqui na calçada da cafeteria,emitindo a amarela fumaça doentia da senescênciaenquanto as pessoas passam fingindonão notar, olhando para longeou para os seus telefones,fazendo o melhor por comoção ou cortesiapara me ignorar sentado aqui envelhecendo,e eu não os culpo, é mesmo difícil de assistir. E agora a garçonete em sua beleza abrasadora,em sua feminilidade incandescente e brilhante,caminha até mim em uma radiante nuvem de juventudee pergunta se quero outro latte macchiato gelado. Mas estou envelhecendo tão rápido, estou correndo tão rapidamenteatravés do tempo que mal posso ouvi-la, e ademaissei que o que realmente ela quer dizer é:seu envelhecimento é […]
- [Ernesto Pérez Vallejo - Perdão, falava em voz alta](https://singularidadepoetica.art/2023/02/23/ernesto-perez-vallejo-perdao-falava-em-voz-alta-2/): Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguémNunca poderão desapontá-la.A esperança é aquele relógioque sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezescomo diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes.Mas, quando tristes, todos sabemos quando estávamos felizes. E o amor, bem, como fazer-te entenderque não é mais do que a desculpa de amara si próprio através de outra pessoasem parecer egocêntrico? É mais fácil mirar-te nos olhos de outrem,o espelho nunca disse uma mentira. E, a propósito, sejamos realistas,Ninguém morreu por ninguém ainda.O […]
- [Elizabeth Jennings - Uma só carne](https://singularidadepoetica.art/2023/02/22/elizabeth-jennings-uma-so-carne/): Cada qual em sua cama, deitados separados agora,Ele com um livro, uma luz acesa até hora incerta,Ela, como uma menina, sonhando com sua aurora,Todos os homens em outros lugares – é como se certaNova ocorrência esperassem: o livro que ele detémMas não lê, os olhos dela pregados nas sombras além. Lançados acima como destroços de antiga paixão,Como são bons em mentir. Quase nunca se tocam, os dois,Ou se o fazem, é como se fosse uma confissãoDe terem poucos sentimentos – ou sentimentos demais.A castidade os confronta, um destino para o qualA vida inteira deles dois foi uma preparação. Estranhamente separados, mas […]
- [Javier Salvago - Fim de Festa](https://singularidadepoetica.art/2023/02/21/javier-salvago-fim-de-festa-2/): Enfim sós, vida. A festa acaboue não resta ninguém para nos obrigara sorrir, ou a inventar desagradáveismentiras inofensivas. Todos se foram. Despe-te sem medo. Conheçoas velhas rugas de tua triste carne.Acariciei-as. Sei o que teu rostooculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncioe tu e eu nus, calados e ausentes,– juntos pela rotina, mais que pelo desejo –como dois amantes cansados de se ver. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 09/03/2018 Javier Salvago – Fin de Fiesta Al fin solos, vida. Terminó la fiestay no queda nadie que pueda […]
- [James Crews – Kintsugi](https://singularidadepoetica.art/2023/02/20/james-crews-kintsugi/): Qualquer um que ama outra pessoajá tem o coração partido.É a lei: se quer que aquela luzinunde seu corpo, você deveexpor as cicatrizes através das quaisela jorra, pois elas são a fontede sua beleza e de sua força.Pense nos japoneses que preenchemas fissuras de uma vasilha de cerâmicacom ouro puro, não apenas exibindoestas chamadas falhas, mas tambémtornando cada uma delas uma veia inestimávelpelo qual a luz agora flui. Trad.: Nelson Santander N. do. T.: Kintsugi é uma técnica artesanal japonesa centenária utilizada para reparar cerâmicas quebradas. Essa técnica consiste em unir os cacos da cerâmica com um verniz misturado com ouro, que […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Insônia](https://singularidadepoetica.art/2023/02/19/luis-alberto-de-cuenca-insonia-2/): A vida é muito curta.Não há tempo para fazer nada. Não há meiosde reunir dias suficientespara aprender alguma coisa. Tu te levantas,abraças tua namorada, tomas teu café da manhã,trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema,e sequer tens um momentopara ler Sêneca e acreditarque tudo neste mundo tem conserto.A vida é um instante. Não entendopor que esta noite nunca termina. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com ligeiras alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 07/03/2018 Luis Alberto de Cuenca – Insomnia La vida dura demasiado poco.No da tiempo a hacer nada. No hay manerade reunir los suficientes díaspara enterarte de algo. Te […]
- [Joyce Sutphen – Vivendo no corpo](https://singularidadepoetica.art/2023/02/18/joyce-sutphen-vivendo-no-corpo/): Corpo é uma coisa de que você precisa para permanecerneste planeta e só dispõe de um.E não importa qual você tenha obtido, ele nãoserá satisfatório. Não será bonitoo suficiente, não será rápido o suficiente, não durará por vários dias seguidos, maso arrastará para um pântano sonolento eexigirá maçãs e cafés e bolos de chocolate. Corpo é uma coisa que você precisa carregarde um dia para o outro. Sempre asmesmas sobrancelhas sobre os mesmos olhos na mesmapele quando você olha no espelho, e o mesmo joelho rangendo quando você se levanta dochão e o mesmo pulso sob a pulseira.As mudanças que você […]
- [Manuel António Pina - Sétimo Dia](https://singularidadepoetica.art/2023/02/17/manuel-antonio-pina-setimo-dia-2/): Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua mortepara a nossa vida como quem regressa a casade uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,e agora é como se te tivéssemos sonhado.A voz que, diante da escuridão, suspendemosquando se desmoronou o mundo para o fundo de tierguemo-la de novo para os afazeres diurnose para as horas comuns.Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horrore já somos reais outra vez.A própria dor adormeceu no nosso colocomo um animal de companhia. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 05/03/2018
- [Malena Mörling – Do trem](https://singularidadepoetica.art/2023/02/16/malena-morling-do-trem/): Pouco antes do sol desapareceratrás de uma fileira de armazénse antes que ele voltasse à tonapara lavar nossas roupasdas sombras, eu notei algo —Era apenas um pedaço de papel,mas estava pendurado em uma das paredes expostasde um dos prédios parcialmente demolidosque passavam flutuando.Notei também o contornode uma velha escadae o desgastado papel de parede verde floridosubindo pelo menos três lancesaté onde o papel pendia logoabaixo da alta curva estriada do céu à luz do sol quase horizontal do crepúsculo.E pensei como quemum dia viveu naquele espaçodeve ter escrito algo nele.Algo importante.E o pregou na parede.E mais tarde à esquerda.E o modo […]
- [Joaquín Benito de Lucas – Elegia](https://singularidadepoetica.art/2023/02/15/joaquin-benito-de-lucas-elegia-2/): Quando agora retornoà minha cidade, não posso contera emoção de saber que não sou esperado.Não me espera meu pai, que desceu rio abaixomuito lentamente entre os juncos, sob pontes enevoadas. Não me espera meu irmão,que me esperava sempre ao lado de um balcãoqualquer, em uma rua qualquerbrindando ao meu últimolivro ou por sua desgraçaou por outro motivo interessante.Tampouco me esperao outro irmão, o que acabou de partir,deixando-me a sinade seus sapatos e suas vestes,que lustro e passo a ferroe visto e volto a vestirsem saber o que me sobra ou o que me falta. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO (com ligeiras alterações […]
- [James Tate – Uma batida na porta](https://singularidadepoetica.art/2023/02/14/james-tate-uma-batida-na-porta/): Eles me perguntam se eu já penseisobre o fim do mundo,e eu respondo, “Entrem, entrem,deixe-me dar-lhes algo para comer, por favor.”Depois de algumas mordidas, eles querem falarsobre a vida após a morte. “Ui!,” eu digo,“vocês já viram aquela Greapleaf skeletonizer?”1Depois eles começam a falar sobre redençãoe dos poucos escolhidos para sentar ao lado Dele.“Fazendo o quê?” eu pergunto. “Só sentados?”Estou cercado por zumbis carbonizados.“Vamos comer uma torta de limãoque comprei ontem na 3 Dog Bakery.”Mas eles querem falar sobre a minha alma.Estou ficando sonolento e vejo borboletaspor toda parte. “Os cavalheirosgostariam de tirar uma soneca, eu sei que eu gostaria.”Eles se […]
- [Juan Luis Panero - Epitáfio diante de um Espelho](https://singularidadepoetica.art/2023/02/13/juan-luis-panero-epitafio-diante-de-um-espelho-2/): Dura há de ser a vida para ti,que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez,para ti, cuja única certeza é tua memóriae, portanto, teu sepulcro mais infausto.Dura há de ser a vida, quando os anos passareme por fim destruírem a ilusória pátria da tua adolescência,quando vires, como hoje, este fantasmaque tempos atrás te consolou com sua beleza.Quando o amor, como um vestido esfarrapado,não pode proteger tua tristezae um motivo de zombaria, piedade ou assombro,para os olhos mais puros, apenas seja.Duro há de ser para o teu corpo ver morrer o desejo,a juventude, tudo o que foste,e buscar sem paixão o teu […]
- [Jack Gilbert – Um sumário para a defesa](https://singularidadepoetica.art/2023/02/12/jack-gilbert-um-sumario-para-a-defesa/): Diante do sofrimento e das perdas do mundo, o poema formula uma defesa da alegria sem ingenuidade. Jack Gilbert procura justificar a atenção ao esplendor cotidiano justamente porque conhece a dor que o cerca.
- [Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados](https://singularidadepoetica.art/2023/02/11/juan-vicente-piqueras-nomes-apagados/): A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiose pronomes, nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o copo passou a ser isso,e aqueles que se aproximavam deixaram de ter nomes. A morte começou seu trabalho minuciosoroubando-lhe os nomes,apagando-os, colocandoem seu lugar um isto ou um aquilo,um me dá, um balbucio, um aceno de mão. O que se perde por último são os verbos,os verbos […]
- [Nikita Gill – 93 por cento de poeira estelar](https://singularidadepoetica.art/2023/02/10/nikita-gill-93-por-cento-de-poeira-estelar/): 93 por cento de poeira estelar(depois de Carl Sagan, que me deu esperança quando criança) Temos cálcio em nossos ossos,ferro em nossas veias,carbono em nossas almas,e nitrogênio em nossos cérebros. 93 por cento de poeira estelar,com almas feitas de chamas,somos todos apenas estrelasque têm nomes de pessoas. Trad.: Nelson Santander 93 Percent Stardust(after Carl Sagan, who gave me hope as a child) We have calcium in our bones,iron in our veins,carbon in our souls,and nitrogen in our brains. 93 percent stardust,with souls made of flames,we are all just starsthat have people names.
- [Diego Moraes - Já se passaram dez anos](https://singularidadepoetica.art/2023/02/09/diego-moraes-ja-se-passaram-dez-anos-2/): Já se passaram dez anosAcabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal queseu tio ficou bêbado de vinho Dom Bosco e disse na frente dos filhose da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaroem LondresJá se passaram dez anosOs poemas que escrevi quando gozava nos teus peitos de atriz danouvelle vague incorporada de pomba-gira amarelaram como sífilisna fruteiraJá se passaram dez anosA dona Gerusa que te vendia maconha morreu de AIDS napenitenciária e o cachorro sem nome que adotamos morreuatropelado por um táxiJá se passaram dez anosHebe morreu. Michael Jackson Morreu. Roberto Piva morreu.James Gandolfini […]
- [Mary Oliver - Garças](https://singularidadepoetica.art/2023/02/08/mary-oliver-garcas/): Onde o caminho se encerrava, por entre folhas matizadas, galhos caídos, através de nodosas salsaparrilhas, eu continuei. Por fim, não pude salvar meus braços dos espinhos; logo os mosquitos sentiram meu cheiro, quente e ferido, e vieram girando e gemendo. E foi assim que cheguei na beira do lago: escuro e vazio exceto por um fuso de juncos esbranquiçados na margem oposta que, quando olhei, se enrugou subitamente em três garças — uma ducha de fogo branco! Mesmo meio adormecidas, elas tinham tanta fé no mundo que as tinha feito — que se inclinavam sobre a água, serenas, sem dúvida, pelas […]
- [Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas](https://singularidadepoetica.art/2023/02/07/luis-alberto-de-cuenca-abre-todas-as-portas-2/): Abre todas as portas, a que conduz ao ouro,a que leva ao poder, a que esconde o mistériodo amor; a que oculta o segredo insondávelda felicidade, a que a vida te ofertapara sempre no gozo de uma visão sublime.Abre todas as portas, sem te mostrares curioso,nem dar importância às manchas de sangueque salpicam as paredes das salasproibidas, nem às jóias que revestem os tetos,nem aos lábios que na sombra buscam os teus,nem à palavra sagrada que intimida dos umbrais.Desesperadamente, civilizadamente,contendo o riso, secando as lágrimas,nas bordas do mundo, no final da jornada,não hesites, meu irmão: abre todas as portas.Embora nada haja […]
- [Matthew Sweeney - As mariposas](https://singularidadepoetica.art/2023/02/06/matthew-sweeney-as-mariposas/): As mariposas Ou o poema que começa com um verso de Diane Di Prima Na neve, as mariposas caminham rigidamente,elas nem ao menos tentam voar.Suas pegadas são cobertas à medida que são feitas,enquanto elas seguem umas às outras para casapelas frias colunas dos postes de iluminaçãopara esperar lá a chegada da luz.A cada crepúsculo há menos delas,e todas mais cansadas do que antes,contudo, elas ainda elevam suas vozespara saudar o filamento incandescente –primeiro laranja, depois amarelocomo os olhos delas. E a nevese acumula em suas asas dobradas,tornando-as pesadas, fazendo com que algumascaiam para serem esmagadas sob botas,ou comidas por um cachorro […]
- [César Cantoni - O Tempo Irreparável](https://singularidadepoetica.art/2023/02/05/cesar-cantoni-o-tempo-irreparavel-2/): Quem teria pensado nisso, então?O certo é que meu pai está mortocomo se nunca tivesse existido.Um dia congelaram suas mãos e os pés,e a casa se encheu de parentes,e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito.Ainda me lembro. Meu pai está morto ou já não existe,e não basta agora saber que ele era feliz.Neste silencioso amanhecer de outono,enquanto a água borbulha na chaleira,e o rádio informa as últimas catástrofes,e eu cumpro o rito habitual de me barbear,só uma coisa é real: sua ausência, que não cessa. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em […]
- [Czesław Miłosz - Café](https://singularidadepoetica.art/2023/02/04/czeslaw-milosz-cafe/): Daqueles que se encontravam à mesa do caféonde, no meio-dia de inverno, um jardim de gelo reluzia nas vidraças,só eu sobrevivi.Eu poderia entrar ali se quisessee, tamborilando meus dedos em um frio vazio,convocar as sombras. Com incredulidade, toco o mármore frio,com incredulidade, toco minha própria mão.Isto – é, e eu – estou em cada novo devir,enquanto eles estão presos para todo o sempreem suas últimas palavras, seus últimos olhares,e tão remotos quanto o Imperador Valentinianoou os chefes dos Masságetas, sobre os quais nada sei,embora mal tenha passado um ano, ou dois. Ou três. Ainda posso derrubar árvores nas florestas do extremo […]
- [Nikki Giovanni – Permissões](https://singularidadepoetica.art/2023/02/03/nikki-giovanni-autorizados/): Eu matei uma aranhaNão uma reclusa marrom assassinaNem mesmo uma viúva negraE, pra falar a verdade,Foi apenas um tipoPequeno de aranha frágilQue deveria ter fugidoQuando peguei o livroMas ela não o fezE ela me assustouE eu a esmaguei Eu não acho queEsteja autorizada a Matar qualquer coisa Só porque estou Com medo Trad.: Nelson Santander Allowables I killed a spiderNot a murderous brown recluseNor even a black widowAnd if the truth were told thisWas only a smallSort of papery spiderWho should have runWhen I picked up the bookBut she didn’tAnd she scared meAnd I smashed her I don’t thinkI’m allowed To […]
- [Rudy Francisco - Compaixão](https://singularidadepoetica.art/2023/02/02/rudy-francisco-compaixao/): "Compaixão", um poema de Rudy Francisco que utiliza o gesto simples de poupar uma aranha para refletir sobre empatia, não violência e o desejo de ser tratado com a mesma misericórdia em situações de vulnerabilidade.
- [Linda Pastan – A filha](https://singularidadepoetica.art/2023/02/01/linda-pastan-a-filha/): Triste por saber que Linda Pastan – uma das minhas poetas norteamericanas favoritas – nos deixou. Ela deixa um legado imensurável à literatura americana, tendo sido uma das mais importantes e influentes poetisas de sua geração. Com sua escrita lírica e intensa, Linda Pastan capturou a essência da vida cotidiana e da alma humana, explorando temas como amor, perda, solidão e significado da vida. Suas obras são elogios à simplicidade e à beleza da vida. Vai fazer uma falta enorme. A filha Gostaria de ter tido outra chancecom o meu pai, desempenhadoum papel diferenteno drama da minha infância. Questões sem respostas […]
- [César Cantoni - Álbum de Família](https://singularidadepoetica.art/2023/01/31/cesar-cantoni-album-de-familia-2/): Morreu meu pai, morreram meus avós,morreram meus tios de sangue e por afinidade.Uma família inteira de ferreiros,marceneiros, curtidores, pedreiros,jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos,o que não sabe fazer nada com as mãos,logrei sobreviver impunementepara chorar diante de uma fotoo melhor do meu sangue. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 06/02/2018 César Cantoni – Album de Familia Murió mi padre, murieron mis abuelos,murieron mis tíos carnales y políticos.Una familia entera de herreros,ebanistas, curtidores, albañiles,yace ahora sin fuerzas bajo tierra. Y yo, el más inútil de todos,el que no sabe hacer […]
- [Pat Schneider – A paciência das coisas comuns](https://singularidadepoetica.art/2023/01/30/pat-schneider-a-paciencia-das-coisas-comuns/): É um tipo de amor, não acha?Como a caneca retém o chá,Como a cadeira se mantém robusta e sólida,Como o chão recebe a sola dos sapatosOu os dedos. Como as solas dos pés sabemOnde devem estar.Eu tenho pensado na paciênciaDas coisas comuns, em como as roupasEsperam respeitosamente nos guarda-roupasE o sabão seca discretamente no prato,E as toalhas sorvem a umidadeda pele das costas.E na adorável repetição dos degraus.E o que é mais generoso do que uma janela? Trad.: Nelson Santander The Patience of Ordinary Things It is a kind of love, is it not?How the cup holds the tea,How the chair […]
- [César Cantoni - O mais digno em nós](https://singularidadepoetica.art/2023/01/29/cesar-cantoni-o-mais-digno-em-nos/): Eu sempre achei que os ossos, com seu brilho mineralde pedra polida pela chuva, são o que de mais digno há em nós:sobrevivem longamente à putrefação indecorosa da carnee não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 26/01/2018 César Cantoni – Lo más digno de nosotros Siempre pensé que los huesos, con su destello mineralde piedra pulida por la lluvia, son lo más digno de nosotros:sobreviven largamente a la putrefacción indecorosa de la carney no tienen la astucia ni la maldad del alma.
- [Ruth Lepson – No dia da audiência do nosso divórcio](https://singularidadepoetica.art/2023/01/28/ruth-lepson-no-dia-da-audiencia-do-nosso-divorcio/): No dia da audiência do nosso divórcio você me convidou para almoçar em uma cantina.Nunca tínhamos sido tão gentis um com o outro.Quando você disse que eu ainda era uma desleixada, nós rimos.Depois do almoço, ficamos no estacionamento.Você disse: você tem a última palavra,mas eu respondi, Não, estou cansada de seraquela que resume tudo.Você tem a última palavra.Mas você não conseguiu pensar em nenhuma.Então você se encaminhou para o nosso carro prateado,e eu para o vermelho.Já se passaram três anos.E mesmo isso é só uma história agora.Ultimamente, não sinto mais como se vivesse com você.Mas eu me lembro de nossa amabilidade […]
- [Mario Benedetti - Angelus](https://singularidadepoetica.art/2023/01/27/mario-benedetti-angelus-2/): Quem imaginaria que este seria o destino? Vejo a chuva através de letras invertidasUma parede com manchas que parecem dignitáriosOs tetos dos ônibus brilhantes como peixesE essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu,Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braçosE uma cadeira que gira quando quero fugir.Outro dia que se vai e a isto ele estava destinado. É raro ter tempo para sentir-se triste:Há sempre uma encomenda, um telefonema, uma campanhia tocandoE claro, é proibido chorar sobre os livrosPorque não pega bem manchar a tinta. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema […]
- [Sem Título](https://singularidadepoetica.art/2023/01/26/sem-titulo/)
- [Kwame Opoku-Duku – Eles irão lhe perguntar onde dói mais](https://singularidadepoetica.art/2023/01/26/kwame-opoku-duku-eles-irao-lhe-perguntar-onde-doi-mais/): Bendita seja a amarguraem sua essência, aquela luz calmaque fica cada vez mais calma,como o murmúrio abafado que escapade seus lábios enquanto você dorme.Eles irão lhe perguntar, criança,o que você sabe sobre o sofrimento.Eles irão lhe perguntar onde dóimais quando a dor se transforma,como o comprimento de onda da luzno céu noturno, quando os gritosde seus ancestrais ressoam para vocêdo oceano, e quando suas palavrasvibram em seu diafragmacomo um apático enxame sem rainha.Você pode, criança, sentir-separa sempre de uma certa maneira, masdeve levantar-se todas as manhãs e vero sol nascer do oceano.Lembre-se de amar a sua amada,lembre-se da bondade e e […]
- [Inês Lourenço – Sala Provisória](https://singularidadepoetica.art/2023/01/25/ines-lourenco-sala-provisoria-2/): Nunca se sabequando estamos num lugarpela última vez. Numa casaque vai ser demolida, numa salaprovisória que vai encerrar, num velhocafé que mudará de ramo, comopágina virada jamais reaberta, comocanção demasiado gasta, comoabraço tornado irrepetível, numaporta a que não voltaremos. REPUBLICAÇÃO: publicado no blog originalmente em 02/12/2018
- [Maria do Rosário Pedreira – retina](https://singularidadepoetica.art/2023/01/24/maria-do-rosario-pedreira-retina/): retina Eu, que nunca pensei deixar de serfilha, faço agora de mãe da minha mãeaos domingos: sou a sua muleta nos longos corredores da casa antiga echego-lhe mantas aos joelhos porqueos velhos tremem em vida com o frioda morte. Para fugir às coisas que a entristecem, pergunto-lhe por gentedo passado, pois sei que o que sucedeuontem já está demasiado longe da sua memória – e, nos dias bons, a respostadura a tarde inteira. Ao princípio, a minha mãe censurava a forma como euia vestida, mas já há muito tempo que nãodiz nada. Pensei que tivesse finalmente acertado com o seu gosto, […]
- [Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis](https://singularidadepoetica.art/2023/01/23/ines-lourenco-balada-dos-amores-dificeis-2/): “Balada dos Amores Difíceis”, um poema de Inês Lourenço que celebra os amores anônimos e persistentes, aqueles que sustentam o mundo sem jamais se tornarem lenda ou verso célebre.
- [Les Murray – Criação contínua](https://singularidadepoetica.art/2023/01/22/les-murray-criacao-continua/): Não trazemos nada para este mundoexceto nossa capacidade gradual de criá-lo, dentre tudo o que desaparecee tudo o que viverá mais que nós. Trad.: Nelson Santander Continuous Creation We bring nothing into this worldexcept our gradual abilityto create it, out of all that vanishesand all that will outlast us.
- [Inês Lourenço – As Coisa que Cessam](https://singularidadepoetica.art/2023/01/21/ines-lourenco-as-coisa-que-cessam-2/): Tanto desprezopelo que é transitório e finito. Não servireisenhor que possa morrer. Mas passamosa vida a amar todas as fragilidadesdas coisas que cessam. Hácoisa mais breve do que um sorriso?Coisa mais curta que a alegriade um reencontro? Tudo o que amamosé passageiro e frágil ouas duas coisas. Mas persegue-nosa nostalgia do infindávelcomo uma tara hereditária. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/01/2018
- [Ursula K. Le Guin - Parentesco](https://singularidadepoetica.art/2023/01/20/ursula-k-le-guin-parentesco/): Ardendo muito lentamente, a grande árvore da florestase ergue da sutil cavidade de nevederretida ao seu redor pelo brando e duradourocalor de seu ser e de sua vontade de serraiz, tronco, ramo, folha, e de conhecer aterra escura, a luz do sol, o toque do vento, o canto do pássaro. Desenraizados, desassossegados e de sangue quente, nósardemos em labaredas que nos cegam para este lento,elevado e fraterno fogo da vida, tão forteagora quanto na brotação, dois séculos atrás. Trad.: Nelson Santander Kinship Very slowly burning, the big forest treestands in the slight hollow of the snowmelted around it by the mild, […]
- [Mario Quintana – Envelhecer](https://singularidadepoetica.art/2023/01/19/mario-quintana-envelhecer-2/): Antes, todos os caminhos iam.Agora todos os caminhos vêm.A casa é acolhedora, os livros poucos.E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 10/01/2018
- [Maria Mazziotti Gillan – Foi uma semana](https://singularidadepoetica.art/2023/01/18/maria-mazziotti-gillan-foi-uma-semana/): “Foi uma semana … de olhar para cima, para dentro, abaixo da superfície e para o passado.”—New York Times, D3, May 5, 2013 Este ano foi assim para mim, você, morto já há três anos e transposto para aquele outro lugar onde eu não possotoca-lo, e que deixei para trás olhando para cima, para aquele lugarque eu imaginava ser o céu e onde espero que você possa sentirminha falta. A NASA anunciou seus planos de trazer uma amostra de Martepara a Terra. Gostaria de imaginar que eu poderia trazer de volta algumarecordação sua, embora meu amigo me diga que tenho quedeixa-lo […]
- [Tomas Tranströmer – Minnena Ser Mig (em duas traduções)](https://singularidadepoetica.art/2023/01/17/tomas-transtromer-minnena-ser-mig-em-duas-traducoes/): Memórias que me Observam Manhã de Junho, cedo demais para acordar,tarde demais para adormecer. Tenho de sair – é densa a folhagem dasmemórias, perseguem-me com o seu olhar. Não se deixam ver, misturam-se todascom o fundo, verdadeiros camaleões. Tão perto estão que as ouço respiraremaqui onde o canto do pássaro ensurdece. Trad.: José Eduardo Reis As recordações olham para mim Uma manhã de Junho quando ainda é cedo para acordarmas demasiado tarde para voltar a pegar no sono. Embrenho-me pelo arvoredo repleto de recordaçõese elas seguem-me com os seus olhares. Autênticos camaleões, elas não se mostram,diluem-se literalmente no cenário. […]
- [Mary Oliver – Flores brancas](https://singularidadepoetica.art/2023/01/16/mary-oliver-flores-brancas/): Ontem à noiteno campoeu me deitei no escuropara pensar na morte,mas em vez disso adormeci,como se estivesse em um quarto vasto e inclinadorepleto daquelas flores brancasque se abrem todo verão,viscosas e desordenadas,nos tépidos campos.Quando desperteia luz da manhã deslizavaperante as estrelas,e eu estava cobertade flores.Não seicomo aconteceu —não seise meu corpo mergulhoupara baixo das adocicadas videirasem algum tipo de afinidade sonoafiadacom as profundezas, ou seaquela energia verdeergueu-se como uma ondae se enroscou em mim, reivindicando-meem seus braços rudes.Eu a afastei, mas não me levantei.Nunca em minha vida me sentira tão suave,ou tão escorregadia,ou tão resplandecentemente vazia.Nunca em minha vidame sentira tão […]
- [Rainer Maria Rilke – Fonte Romana](https://singularidadepoetica.art/2023/01/15/rainer-maria-rilke-fonte-romana-2/): Vila Borghese Duas velhas bacias sobrepondosuas bordas de mármore redondo.Do alto a água fluindo, devagar,sobre a água, mais embaixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,como que só no côncavo da mão,entremostrando um singular objeto:o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia,em círculos e círculos, constante-mente, impassível e sem nostalgia, descendo pelo musgo circundanteao espelho da última baciaque faz sorrir, fechando a travessia. Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 27/12/2017 Römische Fontäne Zwei Becken, eins das andere übersteigendaus einem alten runden Marmorrand,und aus dem oberen Wasser leis sich neigendzum Wasser, […]
- [Andrea Cohen – Barganha](https://singularidadepoetica.art/2023/01/14/andrea-cohen-barganha/): Pagamos-lhe quasenada — menos do que o poucoque ele pedira — para nos levar ao anoitecer das pirâmidesem camelos deserto adentro.Estipêndio tão escasso para nos levar, sem reclamar, para tão longe —até aqui, sem uma estrela. Estávamos no meio do nada, ou em sua borda.Amigos, perguntou ele, de dentro daquela escuridão,quanto vocês me pagarãopara leva-los de volta? Trad.: Nelson Santander Bargain We paid him nextto nothing—less than the littlehe’d asked for—to lead us at dusk from the pyramidson camels into the desert.Such slim wages to take us, withoutcomplaint, all that way—so far, without a star. We were in the middleof nowhere, […]
- [Giuseppe Ungaretti – Vigília](https://singularidadepoetica.art/2023/01/13/giuseppe-ungaretti-vigilia-2/): “Vigília”, um poema de Giuseppe Ungaretti que transforma a noite ao lado do cadáver de um companheiro em revelação extrema: diante da morte brutal, o apego à vida torna-se absoluto.
- [Dan Albergotti - Coisas para fazer no ventre da baleia](https://singularidadepoetica.art/2023/01/12/dan-albergotti-coisas-para-fazer-no-ventre-da-baleia/): Meça as paredes. Conte as costelas. Registre os longos dias.Olhe para o céu azul por entre os esguichos. Faça pequenas fogueirascom os cascos partidos dos barcos de pesca. Pratique sinais de fumaça.Ligue para os velhos amigos e escute os ecos de vozes distantes.Organize sua agenda. Sonhe com a praia. Busque por toda jornadapelo pálido brilho da luz. Trabalhe em seus relatórios. Recapitulecada uma das dez milhões de escolhas de sua vida. Suporte os momentosde autoaversão. Encontre as evidências dos que aqui estiveram antes de você.Destrua-as. Tente ficar muito tranquilo e ouça o som das engrenagens e da água em movimento. Ouça […]
- [Dylan Thomas – E a Morte não terá nenhum Domínio](https://singularidadepoetica.art/2023/01/11/dylan-thomas-e-a-morte-nao-tera-nenhum-dominio-2/): E a morte não terá nenhum domínio. Nus, os mortos irão se confundir Com o homem no vento e a lua no poente; Quando seus alvos ossos descarnados se tornarem pó, Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos; Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos, Ainda que submersos pelo mar, haverão de ressurgir; Ainda que os amantes se percam, o amor persistirá; E a morte não terá nenhum domínio. E a morte não terá nenhum domínio. Aqueles que há muito repousam sob as dobras do mar Não morrerão com a chegada do vento; Contorcendo-se em martírios quando romperem os tendões, […]
- [Judith Hemschemeyer — Naquele verão](https://singularidadepoetica.art/2023/01/10/judith-hemschemeyer-naquele-verao/): Naquele verãodepois que você se enforcousem perguntar a ninguém que o amavase eles podiam suportar dei por mim arrastando mangueirasregando cada centímetro desse imenso gramadodia após diaperfeito obcecadaincapaz de deixar mais alguma coisauma única folha de gramamorrer. Trad.: Nelson Santander That Summer That summer after you hanged yourself without asking anyone who loved you if they could bear it I found myself dragging hoses watering every inch of this huge lawn over and overday after perfect day obsessed unable to let one more thing one single blade of grassdie.
- [Mario Cesariny – Os Pássaros de Londres](https://singularidadepoetica.art/2023/01/09/mario-cesariny-os-passaros-de-londres-2/): Os pássaros de Londrescantam todo o invernocomo se o frio fosseo maior aconchegonos parques arrancadosao trânsito automóvelnas ruas da neve negrasob um céu sempre duroos pássaros de Londresfalam de esplendorcom que se ergue o estioe a lua se derramapor praças tão sem corque parecem de panoem jardins germinandosob mantos de gelocomo se gelo forao linho mais bordadoou em casas como aquelaonde Rimbaud comeue dormiu e estendeua vida desesperadaestreita faixa amarelaespécie de paralelaentre o tudo e o nadaos pássaros de Londres quando termina o diae o sol consegue um poucoabraçar a cidadeà luz razante e forteque dura dois minutosnas árvores que surgemsubitamente […]
- [Matthew Olzmann – Carta à pessoa que gravou suas iniciais no mais antigo pinheiro de folha longa da América do Norte](https://singularidadepoetica.art/2023/01/08/matthew-olzmann-carta-a-pessoa-que-gravou-suas-iniciais-no-mais-antigo-pinheiro-de-folha-longa-da-america-do-norte/): Southern Pines, Carolina do Norte Diga-me como é viver semcuriosidade, sem sentir admiração. Navegarem águas cristalinas, desviando os olhosdos recifes de algas que ondulamabaixo de você, ignorando o cintilardas escamas de sereias no nevoeiro,olhando para o mundo e sentindoapenas tédio. Estarà beira do precipício de algum vale selvagem,as águias circulando, um rebanho de caribustrovejando lá embaixo, e bocejarcom indiferença. Descobriralgo primordial e sagrado.Sentir o cheiro da terraacolhendo-o por toda parte.Absorver tudo isso e, então,empunhar sua faca. Trad.: Nelson Santander Letter to the Person Who Carved His Initials into the Oldest Living Longleaf Pine in North America Southern Pines, NC Tell me […]
- [Ruy Espinheira Filho – Canção de Depois de Tanto](https://singularidadepoetica.art/2023/01/07/ruy-espinheira-filho-cancao-de-depois-de-tanto-2/): a Roniwalter Jatobá Vamos beber qualquer coisa,que a vida está um desertoe o coração só me pulsasombras de Ido e do Incerto. Vamos beber qualquer coisa,que a lua avança no mare há salobros fantasmasque não quero visitar. Vamos beber qualquer coisaamarga, rascante, rude,brindando sobre o já friocadáver da juventude. Vamos beber qualquer coisa.O que for. Vamos beber.Mesmo porque não há maiso que se possa fazer. REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente em 08/12/2017
- [Don Peterson – Compaixão](https://singularidadepoetica.art/2023/01/06/don-peterson-compaixao/): “Compaixão”, um poema de Don Peterson que transforma o adeus a um animal amado em gesto extremo de ternura, onde a morte se confunde com cuidado e fidelidade.
- [Carlos Drummond de Andrade - Escada](https://singularidadepoetica.art/2023/01/05/carlos-drummond-de-andrade-escada/): Escada, um poema de Carlos Drummond de Andrade
- [Deborah Pope - Passando](https://singularidadepoetica.art/2023/01/04/deborah-pope-passando/): Como um carro engatado,uma galinha estúpida demais para perceberque sua cabeça se foi,ou aquele som que não cessamesmo depois do filmeter caído da bobina,um telefonetocando e tocandona casa de onde todosse mudaram,através de salas onde o póse aprofunda em camadas,e o cadeado é desnecessário,assim eu continuo te amando,meu coração claudicando,um músculo entornandoo que não é mais desejado,e minhas palavras movendo-se,como um trem em seus trilhos,em direção a uma estação lacrada,fechada por anos,como o último falantede um belo idioma queninguém mais pode ouvir. Trad.: Nelson Santander Aqui: Poetry, Fevereiro de 1995 Getting Through Like a car stuck in gear,a chicken too stupid […]
- [Petrarca - Soneto CXXXIII ("O Amor me Assinalou com sua Seta")](https://singularidadepoetica.art/2023/01/03/petrarca-soneto-cxxxiii-o-amor-me-assinalou-com-sua-seta/): "Soneto CXXXIII (“O Amor me Assinalou com sua Seta”)", um poema de Francesco Petrarca que retrata o amor como força avassaladora e paradoxal, comparando seus efeitos ao fogo, ao sol e ao vento, e explorando a tensão entre êxtase, dor e aniquilação amorosa.
- [Juan Vicente Piqueras - Como estás](https://singularidadepoetica.art/2023/01/02/juan-vicente-piqueras-como-estas/): Morri na última terça-feira e ninguém notou. O mundo permaneceu o mesmo, mudando e imutável.Não houve furacão, anúncio, tempestadeou nuvens por entre as quais surgisseaquele raio de luz que aparecianas capas dos catecismos. Minha filha continuou a servir-me o chá no mesmo horárioe eu continuo a sorve-lo em pequenos goles com o canudinho que ela coloca entre os meus lábios. Meu marido me disse não me deixese eu já havia partido. As visitas seguram-me em uma das mãos.A outra não está mais aqui. Trazem-me presentes que já não me servem,e perguntas que não sei responder.Como estou, por exemplo,ou como tenho dormido, […]
- [Miguel Torga – Sísifo](https://singularidadepoetica.art/2023/01/01/miguel-torga-sisifo/): Recomeça…Se puderesSem angústiaE sem pressa.E os passos que deres,Nesse caminho duroDo futuroDá-os em liberdade.Enquanto não alcancesNão descanses.De nenhum fruto queiras só metade.E, nunca saciado,Vai colhendoIlusões sucessivas no pomar.Sempre a sonharE vendo,Acordado,O logro da aventura.És Homem, não te esqueças!Só é tua a loucuraOnde, com lucidez, te reconheças.
- [Retrospectiva 2022](https://singularidadepoetica.art/2023/01/01/retrospectiva-2022/): Segue abaixo uma relação dos melhores poemas publicados no blog no ano de 2022, em ordem cronológica pelo mês de postagem. Eu pretendia limitar a retrospectiva a um total de 50 textos, mas isso não foi possível. O ano foi fértil e tive a felicidade de traduzir e publicar muita coisa boa este ano, em número que supera o limite autoimposto. Paciência. Dos internautas, espero, resignado, que apreciem a seleção. De mim mesmo, pretendo continuar com o blog no ano que vem. Minha motivação é que este é um hobby que pratico com enorme prazer e, por ora, não pretendo abandona-lo. […]
- [Nelson Santander - Mudança Singular](https://singularidadepoetica.art/2018/07/14/nelson-santander-mudanca-singular/): Resolvi mudar o blog. De hoje em diante, além de umas perfumarias que fiz na página, o blog passará a se chamar “singularidade”. Por quê? Primeiro, porque o nome anterior era muito feio. A ideia de criar um blog para divulgar poemas (principalmente), textos, vídeos, traduções e outras coisas de que gosto, veio meio de […]
- [Piedad Bonnett - Volta à Poesia](https://singularidadepoetica.art/2018/07/13/piedad-bonnett-volta-a-poesia/): Outra vez volto a ti. Cansada venho, definitivamente solitária. Minha bolsa cheia de tristeza trago, carregada de penas infinitas, de dor. Dos desertos venho com os lábios ardentes e o olhar cego pelo vento forte e a dura areia. Abrasada de sede, venho beber de teus profundos mananciais, render-me em teus braços, fundos braços de […]
- [Inês Dias - Linhas de Torres](https://singularidadepoetica.art/2018/07/12/ines-dias-linhas-de-torres-poema/): Linhas de Torres, um poema de Inês Dias
- [Manuel António Pina - M., A Última Palavra](https://singularidadepoetica.art/2018/07/11/manuel-antonio-pina-m-a-ultima-palavra-poema/): M., A Última Palavra, um poema de Manuel António Pina
- [Joan Margarit - Vozes de Crianças](https://singularidadepoetica.art/2018/07/10/joan-margarit-vozes-de-criancas/): O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste, é uma teia de luz cansada onde recordo quando iam dormir. Ainda lhes leio naquele quarto, debaixo da lâmpada ao lado da cama, os contos com capas duras de cores brilhantes. De súbito, em alguma madrugada, ouço uma criança que me chama e incorporo-me, mas […]
- [Jorge Luis Borges - James Joyce (em três traduções)](https://singularidadepoetica.art/2018/07/09/jorge-luis-borges-james-joyce-em-tres-traducoes/): Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os diasdo tempo, desde o inconcebíveldia inicial do tempo, em que um terrívelDeus prefixou os dias e agonias,até aquele outro em que o ubíquo riodo tempo terrenal torne a sua fonte,que é o […]
- [Emily Dickinson - "Senti um Féretro em meu Cérebro..."](https://singularidadepoetica.art/2018/07/08/emily-dickinson-senti-um-feretro-em-meu-cerebro/): Senti um Féretro em meu Cérebro,E Carpideiras indo e vindoA pisar — a pisar — até eu sonharMeus sentidos fugindo — E quando tudo se sentou,O Tambor de um Ofício —Bateu — bateu — até eu sentirInerte o meu Juízo E eu os ouvi — erguida a Tampa —Rangerem por minha Alma comTodo o Chumbo […]
- [Herberto Helder - A Paixão Grega](https://singularidadepoetica.art/2018/07/07/herberto-helder-a-paixao-grega/): Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,quando alguém morria perguntavam apenas:tinha paixão?quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:se tinha paixão pelas coisas gerais,água,música,pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,paixão pela paixão,tinha?e então indago de mim se […]
- [Manuel de Freitas - Pompe Inutili](https://singularidadepoetica.art/2018/07/06/manuel-de-freitas-pompe-inutili-poema/): Pompe Inutili, um poema de Manuel de Freitas
- [Carlos Alberto Machado – Mapa de Desencontros](https://singularidadepoetica.art/2018/07/05/carlos-alberto-machado-mapa-de-desencontros/): I Abrigo-te mais uma vez há muito tempo disseste aqui hei-de morrer voltas sempre a esta morada ris-te e partes no telhado frágil caem as primeiras águas de Inverno. II Deus encontrou-te eu sei apaixonou-se pelos teus olhos verdes (há fados assim) à sombra das velhas árvores dás-lhe a mão e passeiam deve ser em […]
- [Edna St. Vincent Millay – Objeção de Consciência](https://singularidadepoetica.art/2018/07/04/edna-st-vincent-millay-objecao-de-consciencia/): Eu vou morrer, mas isso é tudo o que farei pela Morte. Eu a ouço tirar seu cavalo da baia; Eu ouço pisadas no chão do celeiro. Ela tem pressa; ela tem negócios em Cuba e nos Bálcãs, muitas ligações a fazer na manhã. Mas eu não vou segurar a rédea enquanto ela ajusta a […]
- [Manuel António Pina - Forma, só Forma](https://singularidadepoetica.art/2018/07/03/manuel-antonio-pina-forma-so-forma-poema/): Forma, só Forma, um poema de Manuel António Pina
- [Alejandra Pizarnik - Capítulos Principais](https://singularidadepoetica.art/2018/07/02/alejandra-pizarnik-capitulos-principais/): Chega a morte com sua manada de ossos sorrio submissa a uma menina idiota que implora em meu nome juntas (a morte, a menina e eu) não encontramos outro ofício para execrar. No final todos se casam: o mar e as ondas, a noite e a escuridão, a taça e o vinho, o anel e […]
- [Georg Trakl – No Outono](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/georg-trakl-no-outono/): Junto à cerca, os girassóis e o seu brilho, Doentes sentados ao sol, sem alento. No campo, as mulheres cantam no trabalho, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Os pássaros contam lendas de encantar, Ouvem-se ao longe os sinos do convento. Há um violino no pátio a gemer. E já o vinho escuro vão […]
- [Joan Margarit - Não jogues fora as cartas de amor](https://singularidadepoetica.art/2018/07/01/joan-margarit-nao-jogues-fora-as-cartas-de-amor/): Elas não te abandonarão. O tempo passará, apagar-se-á o desejo — esta flecha da sombra — e os rostos sensuais, belos e inteligentes, ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho. Passarão os anos. Cansar-te-ão os livros. Decairás ainda mais e perderás até mesmo a poesia. O ruído da cidade nas vidraças acabará por ser […]
- [Tishani Doshi - Poema de Amor](https://singularidadepoetica.art/2018/06/30/tishani-doshi-poema-de-amor/): No fim, perderemos um ao outro para alguma coisa. Espero que para algo grandioso – morte ou desastre. Mas pode não ser dessa maneira. Pode ser que você saia para comprar cigarros uma manhã depois de termos feito amor e nunca mais retorne, ou eu me apaixone por outro homem. Pode ser uma lenta caminhada […]
- [Emily Dickinson - "Morrer por ti era pouco..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/29/emily-dickinson-morrer-por-ti-era-pouco/): Morrer por ti era pouco.Qualquer grego o fizera.Viver é mais difícil —É esta a minha oferta — Morrer é nada, nemMais. Porém viver importaMorte múltipla — semO Alívio de estar morta. Trad.: Augusto de Campos Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Too […]
- [Antonia Pozzi - Novembro](https://singularidadepoetica.art/2018/06/28/antonia-pozzi-novembro/): E depois – quando eu partir restará alguma coisa de mim no meu mundo – restará um fino rasto de silêncio no meio das vozes – um ténue sopro de branco no coração do azul – E numa noite de Novembro uma menina frágil à esquina de uma rua venderá braçadas de crisântemos e lá […]
- [Jorge Luis Borges - Cambridge](https://singularidadepoetica.art/2018/06/27/jorge-luis-borges-cambridge/): Nova Inglaterra e a manhã. Dobro por Craigie. Penso (já pensei) que o nome Craigie é escocês e que a palavra crag é de origem celta. Penso (já pensei) que neste inverno estão os antigos invernos dos quais deixaram escrito que o caminho está prefixado e que já somos do Amor ou do Fogo. A […]
- [Renata Correia Botelho - O Vento a Rondar os Dragoeiros](https://singularidadepoetica.art/2018/06/26/renata-correia-botelho-o-vento-a-rondar-os-dragoeiros-poema/): O Vento a Rondar os Dragoeiros, um poema de Renata Correia Botelho
- [Felipe Benítez Reyes - Uma Forma de Eternidade](https://singularidadepoetica.art/2018/06/25/felipe-benitez-reyes-uma-forma-de-eternidade/): Então o medo era isto? Não os assustadores fantasmas do pensamento e da consciência. Não os longos corredores de hospitais com lâmpadas fluorescentes dia e noite. Nem sequer o tremor de irrealidade que permanece na alma se te recordas. O medo, aparentemente, é calmo: Chega quando fechas a janela e compreendes que tudo quanto vês […]
- [Alfredo Buxán - Lápide](https://singularidadepoetica.art/2018/06/24/alfredo-buxan-lapide/): Uma lágrima cai sobre a cal do solo, arde sob meus pés, consome na solidão minha solidão. Trad.: Nelson Santander Alfredo Buxán – Lápida Una lágrima cae sobre la cal del suelo, arde bajo mis pies, abrasa en soledad mi soledad.
- [Manuel de Freitas - Balladen Om Jenny Lind](https://singularidadepoetica.art/2018/06/23/manuel-de-freitas-balladen-om-jenny-lind-poema/): Balladen Om Jenny Lind, um poema de Manuel de Freitas
- [Inês Dias - Passou demasiado tempo...](https://singularidadepoetica.art/2018/06/22/ines-dias-passou-demasiado-tempo-tempo-poema/): Passou demasiado tempo..., um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Shostakovich. Sinfonia "Leningrado"](https://singularidadepoetica.art/2018/06/21/joan-margarit-shostakovich-sinfonia-leningrado/): Lembras-te? Joana havia morrido. Íamos para o norte, tu e eu, no carro, para o apartamento junto ao mar, e ouvíamos esta sinfonia. Iniciamos a viagem em uma manhã luminosa e, dentro da música, o dia era de muros cobertos pelo gelo, vultos carregando sacos meio vazios e, no lago, trenós com cadáveres. Como uma […]
- [Manuel António Pina - Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/manuel-antonio-pina-neste-preciso-momento-neste-preciso-lugar-poema/): Neste Preciso Momento, Neste Preciso Lugar, um poema de Manuel António Pina
- [Nelson Santander – Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/20/nelson-santander-dois-capitulos-perdidos-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/): Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), por Nelson Santander
- [Alfredo Buxán - A eternidade das Cinzas](https://singularidadepoetica.art/2018/06/19/alfredo-buxan-a-eternidade-das-cinzas/): Leia "A eternidade das cinzas", de Alfredo Buxán, um poema contemplativo sobre mortalidade, silêncio e a fragilidade da existência humana.
- [Jorge Luis Borges - Labirinto](https://singularidadepoetica.art/2018/06/18/jorge-luis-borges-labirinto-2/): Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro. E o alcácer abarca o universo E não tem anverso nem reverso Não tem extremo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro teu destino Como […]
- [Manuel de Freitas - Genealogia](https://singularidadepoetica.art/2018/06/17/manuel-de-freitas-genealogia-poema/): Genealogia, um poema de Manuel de Freitas
- [Jorge Sousa Braga - Fogo sobre fogo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/16/jorge-sousa-braga-fogo-sobre-fogo-poema/): Fogo sobre fogo, um poema de Jorge Sousa Braga
- [Rui Caeiro - "Ainda atacas..."](https://singularidadepoetica.art/2018/06/15/rui-caeiro-ainda-atacas-poema/): "Ainda atacas...", um poema de Rui Caeiro
- [Nuno Júdice - Réquiem por Muitos Maios](https://singularidadepoetica.art/2018/06/14/nuno-judice-requiem-por-muitos-maios-poema/): Réquiem por Muitos Maios, um poema de Nuno Júdice Conheci tipos que viveram muito. Estão mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço. de álcool, da obrigação de viver que os consumia [...]
- [Inês Dias - Lapinha](https://singularidadepoetica.art/2018/06/13/ines-dias-lapinha-poema/): Lapinha, um poema de Inês Dias
- [Joan Margarit - Não estava longe, não era difícil](https://singularidadepoetica.art/2018/06/12/joan-margarit-nao-estava-longe-nao-era-dificil/): Chegou este tempo em que já não machuca a vida que se perde, em que a luxúria é tão só uma lâmpada inútil, e a inveja se olvida. É um tempo de perdas prudentes, necessárias, e não é um tempo de chegar mas de partir. O amor, agora, por fim coincide com a inteligência. Não […]
- [Machado de Assis - Último Capítulo (excerto)](https://singularidadepoetica.art/2018/06/11/machado-de-assis-ultimo-capitulo-excerto/): “Há entre os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato […]
- [Manuel António Pina – Esplanada](https://singularidadepoetica.art/2018/06/10/manuel-antonio-pina-esplanada-poema/): Esplanada, um poema de Manuel António Pina
- [Belchior - Comentários a Respeito de John](https://singularidadepoetica.art/2018/06/09/belchior-comentarios-a-respeito-de-john/): Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho Deixem que eu decido a minha vida Não preciso que me digam de que lado nasce o sol Porque bate lá o meu coração Sonho e escrevo em letras grandes de novo pelos muros do país João, o tempo andou mexendo com a gente, sim John, eu […]
- [Joan Margarit - Discurso do Método](https://singularidadepoetica.art/2018/06/07/joan-margarit-discurso-do-metodo/): Já de criança procurava as janelas para pode fugir com o olhar. Desde então, se entro em um lugar, observo com atenção onde deixo meu casaco e onde está a porta de saída. Liberdade, para mim, quer dizer fuga. Há muitas portas no mundo. Inclusive o sexo, em caso de emergência, pode sê-lo, embora todas […]
- [Idea Vilariño - Ou foram nove](https://singularidadepoetica.art/2018/06/06/idea-vilarino-ou-foram-nove/): Talvez tivemos só sete noites não sei não as contei como poderia ter feito. Talvez não mais que seis ou foram nove. Não sei, mas valeram a pena como o amor mais duradouro. Talvez com quatro ou cinco noites dessas, mas precisamente como essas, talvez seja possível viver como de um longo amor uma vida […]
- [Manuel António Pina – Lugares da infância](https://singularidadepoetica.art/2018/06/05/manuel-antonio-pina-lugares-da-infancia/): Lugares da infância onde sem palavras e sem memória alguém, talvez eu, brincou já lá não estão nem lá estou. Onde? Diante de que mistério em que, como num espelho hesitante, o meu rosto, outro rosto, se reflecte? Venderam a casa, as flores do jardim, se lhes toco, ficam hirtas e geladas, e sob os […]
- [Paulo Henriques Britto - Queima de Arquivo](https://singularidadepoetica.art/2018/06/04/paulo-henriques-britto-queima-de-arquivo/): Houve um tempo em que eu amava em cada corpo o reflexo do que eu queria ter sido. No fundo do sexo eu buscava o meu desejo perdido. Acabei achando o outro que em mim mesmo destruí. Foi fácil reconhecê-lo: de tudo que vi em seu rosto somente o ódio era belo. Esse morto adolescente […]
- [Eduardo Chirinos - O que meu pai realmente quer de mim](https://singularidadepoetica.art/2018/06/03/eduardo-chirinos-o-que-meu-pai-realmente-quer-de-mim/): 1 Esta noite tive um sonho. Seguia com meu pai por uma estrada de terra. Os dois íamos a cavalo e mal trocávamos uma palavra. Ao longe se via a sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoado desconhecido e remoto. De repente, meu pai deteve seu cavalo e perguntou-me se eu sabia para […]
- [Wislawa Szymborska - Gato num apartamento vazio](https://singularidadepoetica.art/2018/06/02/wislawa-szymborska-gato-num-apartamento-vazio/): Morrer — isso não se faz a um gato. Pois o que há de fazer um gato num apartamento vazio. Trepar pelas paredes. Esfregar-se nos móveis. Nada aqui parece mudado e no entanto algo mudou. Nada parece mexido e no entanto está diferente. E à noite a lâmpada já não se acende. Ouvem-se passos na […]
- [Manuel de Freitas - Grand Hotel København, 326](https://singularidadepoetica.art/2018/06/01/manuel-de-freitas-grand-hotel-kobenhavn-326/): Onze horas: a tua mão adormecida marca agora um conto de Karen Blixen – veremos em breve essa casa cinzenta, em Helsingør – enquanto eu ouço uma sonata de Scarlatti tocada por Scott Ross e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca. Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes assim, ignorando a áspera nudez da […]
- [Jaime Gil de Biedma - Happy ending](https://singularidadepoetica.art/2018/05/31/jaime-gil-de-biedma-happy-ending/): Embora, à noite, comigo já não durmas mais, o acaso dirá talvez se é definitivo. Que embora o prazer nunca mais volte a ser o mesmo, na vida o esquecimento não costuma durar. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Happy ending Aunque la noche, conmigo, no la duermas ya, sólo el azar nos dirá […]
- [Javier Salvago - Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos](https://singularidadepoetica.art/2018/05/30/javier-salvago-um-pouco-mais-sabios-um-pouco-mais-cegos/): Quando você não é mais jovem, se convence de que o diabo sabe mais porque é velho e admite que os anos nos ensinam a distinguir a realidade do sonho. Talvez não. Talvez a vida só se nos mostre uma vez – quando temos olhos para aprecia-la – e depois vamos esquecendo seu rosto e […]
- [Inês Dias - Joaquim e Judite](https://singularidadepoetica.art/2018/05/29/ines-dias-joaquim-e-judite/): Fizera toda a viagem com ele ao colo. Queria despedir-se junto ao mar, mas as partidas são tão imperfeitas se o coração é uma caixa de cinzas demasiado enferrujada para abrir ao vento. Mesmo agora, depois de lavada a última partícula que se lhe colara à pele, sabia que o amor passara a ter o […]
- [Manuel António Pina - Ruínas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/28/manuel-antonio-pina-ruinas/): Por onde quer que tenha começado, pelo corpo ou pelo sentido, ficou tudo por fazer, o feito e o não feito, como num sono agitado interrompido. O teu nome tinha alturas inacessíveis e lugares mal iluminados onde se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam, e talvez devesse ter começado por aí. Agora […]
- [Javier Salvago - Convém não esquecer](https://singularidadepoetica.art/2018/05/27/javier-salvago-convem-nao-esquecer/): Por esta via que chamam vida, vamos com cautela devida, tal qual um cego. Mas em cinzas termina todo e qualquer fogo. Trad.: Nelson Santander Javier Salvago – Conviene no Olvidarlo Por esta senda, que llaman vida, todos vamos a tientas, igual que un ciego. En ceniza terminan todos los fuegos.
- [Vítor Nogueira - Gelo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/26/vitor-nogueira-gelo/): Agora é apenas um café com paredes adornadas, imagens retratando destemidos ancestrais. O tempo foi passando, não foi? Um acidente em câmara lenta a uma escala cataclísmica. Grande parte daquilo que fazemos é construir memória, uma promessa frágil ao futuro. E pensar que na vida acumulamos tanta coisa, sobretudo se por hábito não deitamos nada […]
- [Nuno Júdice - Passado](https://singularidadepoetica.art/2018/05/25/nuno-judice-passado/): Passou o vento, passou o dia, passou a noite e a manhã, passou o tempo, passou a gente, passou cada hora de amanhã; passou um canto esquecido nos cantos de cada passo, passou ao dizer que passo sem se lembrar do compasso; passou a vida como se nada fosse, só passou e foi-se embora, passou […]
- [Manuel António Pina - O Regresso](https://singularidadepoetica.art/2018/05/24/manuel-antonio-pina-o-regresso/): Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira […]
- [Inês Dias – Reconquista](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/ines-dias-reconquista/): Do meu bisavô, ferreiro e construtor de pontes, conheci apenas as iniciais, gravadas na pedra com que tomara o último dos elementos. Mas a sul do passado, o meu avô repetia-lhe ainda os gestos, ensinando-me a travar as marés com pequenos diques improvisados – paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel. Nunca mais o futuro […]
- [Nelson Santander - Philip Roth](https://singularidadepoetica.art/2018/05/23/philip-roth/): Morreu Philip Roth, meu último grande herói literário. Sua vasta bibliografia explora uma gama enorme de temas, mas a faceta que mais me impressionou foi a que ele abordou em seus últimos livros: a questão da velhice. A leitura de “Homem Comum” – principal obra de Roth sobre o tema – há cerca de 8 […]
- [Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame](https://singularidadepoetica.art/2018/05/22/lawrence-ferlinghetti-cafe-notre-dame/): Uma espécie de trauma sexual prende um casal abismado Ele está segurando as duas mãos dela nas suas Ela está beijando as mãos dele Estão olhando-se nos olhos de muito perto Ela tem um casaco de peles feito duma centena de coelhos correndo Ele tem um casaco clássico sombrio e calças cinza-de-pardo Agora estão a […]
- [Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções](https://singularidadepoetica.art/2018/05/21/marina-tsvetaieva-um-poema-em-duas-traducoes/): Tentativa de ciúme – Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra? Fácil, não é? — Um golpe de remo! — E de pronto a linha da costa Se foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante (No céu, por certo, não no mar)! Almas! Almas! — antes amar Como […]
- [Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa](https://singularidadepoetica.art/2018/05/20/anne-sexton-para-o-meu-amante-voltando-para-a-esposa/): Ela está bem aqui. Ela foi cuidadosamente esculpida para você saída de sua infância saída dentre seus cem colegas de escola preferidos. Ela sempre esteve aqui, meu bem. Ela é de fato extraordinária. Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro e tão real como uma panela de ferro fundido. Vamos ser sinceros, eu […]
- [Mario Benedetti - Tempo sem Tempo](https://singularidadepoetica.art/2018/05/19/mario-benedetti-tempo-sem-tempo/): Preciso de tempo, necessito desse tempo que os outros deixam de lado porque lhes sobra ou já não sabem o que fazer com ele tempo em branco em rubro em verde mesmo em castanho escuro não me importa a cor cândido tempo que eu não posso abrir e fechar como uma porta tempo para olhar […]
- [Manuel António Pina - Luz](https://singularidadepoetica.art/2018/05/18/manuel-antonio-pina-luz/): Talvez que noutro mundo, noutro livro, tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu), e talvez então tu, eu, […]
- [Marina Colasanti - Rota de Colisão](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/marina-colasanti-rota-de-colisao/): De quem é esta pele que cobre a minha mão como uma luva? Que vento é este que sopra sem soprar encrespando a sensível superfície? Por fora a alheia casca dentro a polpa e a distância entre as duas que me atropela. Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas […]
- [Raul de Carvalho – Amiúde](https://singularidadepoetica.art/2018/05/17/raul-de-carvalho-amiude/): No vale dos afetos ninguém está seguro: Míngua a lembrança, Esquece-se o rosto, Retorna-se ao eu, Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo – E apenas as pequenas ilusões – um café, o cigarro, a limonada – imitam dois corações […]
- [Roger Wolfe - A Última Noite da Terra](https://singularidadepoetica.art/2018/05/16/roger-wolfe-a-ultima-noite-da-terra/): O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa E, no entanto, permaneço aqui. Sua melodia não muda, já o escrevi antes. Mas o meu trabalho é constatar o óbvio e é isso que o melro faz-me recordar. O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem por sua própria mão ou com ajuda. As […]
- [João Miguel Fernandes Jorge - Presépio Animado da Ribeira Grande](https://singularidadepoetica.art/2018/05/15/joao-miguel-fernandes-jorge-presepio-animado-da-ribeira-grande/): Ainda todos se lembram do dezembro de 96. Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na berma, um gato de pelagem branca. Parecia ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa de pelo curto, tinha uma chaga na orelha alastrava pelo crânio e pela face e olho. […]
- [Charles Simic - Na Biblioteca](https://singularidadepoetica.art/2018/05/14/charles-simic-na-biblioteca/): Para Octavio Há um livro chamado “Um Dicionário dos Anjos”. Não foi aberto por ninguém em cinquenta anos, Eu sei, porque quando o fiz As capas rangeram, as páginas desintegraram-se. Nele descobri Que os anjos já foram tão abundantes Quanto moscas. O céu ao entardecer Costumava ficar repleto deles. Você precisava agitar ambos os braços […]
- [Inês Dias – Lei Sálica](https://singularidadepoetica.art/2018/05/13/ines-dias-lei-salica/): As mulheres da família sempre tiveram um jeito quase póstumo de existir: guardar o lume em silêncio, comer depois de servir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destino para lerem os caminhos perdidos e coleccionavam a abdicação em caixinhas de folha, entre bilhetes caducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a […]
- [A. M. Pires Cabral – Motes e Voltas](https://singularidadepoetica.art/2018/05/12/a-m-pires-cabral-motes-e-voltas/): 1 Senhor, vão sendo horas. Sei bem que o teu relógio não tem de regular-se pelo meu nem a tua vontade pela minha. Mas é justo que seja aquele que sofre do tempo os enxovalhos a dizer quando vão sendo horas — e não tu, Senhor, com quem o tempo não colide (decerto porque tu […]
- [Eugénio de Andrade - Ver Claro](https://singularidadepoetica.art/2018/05/11/eugenio-de-andrade-ver-claro/): Toda a poesia é luminosa, até a mais obscura. O leitor é que tem às vezes, em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver claro. Se regressar outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas ficará cego de tanta claridade. Abençoado seja se lá chegar.
- [Adília Lopes - Arte Poética](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/adilia-lopes-arte-poetica-poema/): Arte Poética, um poema de Adília Lopes
- [Inês Dias – Your Funeral, my Trial](https://singularidadepoetica.art/2018/05/10/ines-dias-your-funeral-my-trial/): O morto fica mais só quando quem fala lhe rouba a última memória desse barco desmesurado da infância, construído sem vista para o mar. O morto fica mais só ainda, quando quem ouve se esquece da música para escolher o seu próprio funeral, alinhando convidados e preferindo coroas de plástico a condizer com as lágrimas. […]
- [Manuel António Pina - Relatório](https://singularidadepoetica.art/2018/05/09/manuel-antonio-pina-relatorio/): É um mundo pequeno, habitado por animais pequenos – a dúvida, a possibilidade da morte – e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros, os teus passos subindo as escadas, o gato brincando na sala com o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa, um pouco mais […]
- [Vitor Nogueira – Sementes](https://singularidadepoetica.art/2018/05/08/vitor-nogueira-sementes/): É claro que me lembro. Havia dois atalhos