Bertold Brecht – Lista de preferências

Dia desses, minha mulher encasquetou que eu precisava arrumar a bagunça do meu escritório. Papéis diversos, contas pagas, declarações de imposto de renda de 10 anos atrás, antigos bilhetes que minha filha me escreveu quando criança – estava tudo junto e misturado, naquela bagunça típica dos procrastinadores. Urgia enfrentar o problema.

E lá fui eu, em pleno sábado, tentar colocar ordem naquele caos. Depois de camelar nas contas pagas e outros documentos que podiam ser descartados – o que resultou em um saco de lixo de 100 litros repleto até a boca – resolvi enfrentar meus antigos materiais literários e ver o que dava para jogar fora. Coisas que vim coligindo desde minha adolescência até antes da era digital e que eu venho guardando há décadas. Nunca tivera coragem de enfrentar essa material com ânimo de transforma-lo em lixo reciclável. O dia enfim chegou.

Lá estavam os primeiros cadernos nos quais um jovem estudante da oitava série do E.E.P.G. “Salim Antonio Curiatti”, de Avaré, anotou, a mão, os primeiros poemas que o impressionaram. As tentativas frustradas de poemas. Os nomes de livros desejados e nunca comprados. O material relativo à primeira paixão poética – a poesia de vanguarda (eu cheguei à poesia pela porta de saída: os poemas concretos, a poesia práxis, o poema-processo, etc.. Depois, com os anos, como uma espécie de Benjamin Button explorador literário, comecei um lento trabalho de retorno aos poemas – primeiro os de versos livres, em especial os de Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade – para finalmente chegar à poesia mais tradicional, metrificada e rimada).

E lá estavam também os cadernos literários e os recortes de jornais. Várias valises deles.

Fui cruel e insensível com o que lá encontrei. Todos os poemas eu já havia publicado nesse blog e todos os jornais e recortes que continham poemas ou matérias que eu já havia armazenado em outras mídias ou adquirido em forma de livro foi para o lixo. Sobraram alguns poucos recortes de jornais – em especial do Folhetim, da Folha de São Paulo – que eu digitalizei para postar aqui oportunamente.

O poema que segue é um desses recortes que sobreviveram na forma digital. Embora eu já o tenha publicado aqui em outra oportunidade, a ocasião da virada do ano e o momento histórico que o país atravessa é propícia para sua republicação.

Trata-se do famoso poema Orges Wunschliste, de Bertold Brecht, na primorosa tradução de Paulo Cesar Souza, publicado na Folha de São Paulo em dezembro de 1985, por ocasião da virada para o ano de 86. A Folha fez um trabalho gráfico simples mas bonito, imitando uma espécie de circular interna (inclusive no uso da fonte de máquina de escrever) com as “previsões e preferências” para o ano de 1986. A ideia explícita do editor era a de dar ao poema uma aparência daquelas resoluções de ano novo que quase todo mundo faz nas viradas dos anos e que, invariavelmente, são convenientemente esquecidas menos de um mês depois.

O poema, muito conhecido e divulgado já há bastante tempo no Brasil, dispensa apresentação. Não vou empreender uma tarefa inútil de interpreta-lo, uma vez que seus versos falam por si. Interessa-me aqui um outro aspecto: a sua atualidade. Como todo bom poema, “Lista de Preferências” (ou “Lista de Preferências de Orge”, na tradução que o mesmo Paulo César Souza publicou anos depois na obra Poemas 1913-1956 / Bertold Brecht; seleção e tradução de Paulo César Souza — São Paulo: Ed. 34, 2000) é atemporal. Aquele tipo de poema que, lido 200 anos depois de ter sido escrito, continua atual.

Como Brecht, sou também partidário das alegrias desmedidas, dos casos inconcebíveis, das vidas vividas com espontaneidade e dos adeuses ligeiros. O logos, tal qual concebido por Heráclito, tem sido meu deus pela vida toda.

E, lógico, uma morte instantânea é preferível mil vezes a uma lenta e dolorosa. Mas não seja logo, como diria Drummond. Estamos em 2022 e temos muito o que fazer neste ano. Precisamos estar vivos para consertar a merda que fizeram com o país, para exorcizar o horror da pandemia e para sermos felizes de novo.

Não ouse morrer antes disso. Eu pelo menos não pretendo.

Feliz 2022!

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