Donald Hall – Afirmação

Envelhecer é perder tudo.
Velhice, todos a conhecemos.
Mesmo quando somos jovens,
às vezes a vislumbramos, e acenamos-lhe com a cabeça
quando perdemos um avô.
Depois remamos durante anos na lagoa
dos verões plenos, ignorantes e satisfeitos. Mas um casamento,
que começou sem causar danos, se dispersa
em destroços na praia
e um amigo da escola cai
duro em uma costa rochosa.
Se um novo amor nos leva para
além da meia idade, nossas esposas
morrerão mais fortes e bonitas.
Novas mulheres vêm e vão. Todas se vão.
A bela amante que se anuncia
temporária
é temporária. A audaciosa mulher
– meia idade frente à nossa velhice –
se afunda em uma ansiedade que não consegue suportar.
Outro amigo de décadas se afasta
com palavras que poluem trinta anos.
Vamos sufocar sob a lama na beira da lagoa
e afirmar que é apropriado
e delicioso perder tudo.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: achei mais do que conveniente publicar a tradução que fiz deste poema no dia de hoje, em que faço aniversário. Também eu já deixei de remar há algum tempo na lagoa dos verões plenos. E também tenho perdido amigos para a morte e para a vida, como acontece com todos que alcançam a provecta idade. Ainda não cheguei lá, mas pressinto que muito em breve também adentrarei a fase em que estarei pronto e sereno para aceitar que envelhecer bem é estar preparado para perder tudo.

Quando esse dia chegar, espero que também seja delicioso, como no poema, e que eu esteja sereno como Landor em seu famoso “Epitáfio”, que um dia traduzi assim:

Não lutei com ninguém; nada valia a lida.
Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;
As mãos, estas aqueci no fogo da vida
Que naufraga; estou pronto para o desate.

Walter Savage Landor – Epitáfio

Affirmation

To grow old is to lose everything.
Aging, everybody knows it.
Even when we are young,
we glimpse it sometimes, and nod our heads
when a grandfather dies.
Then we row for years on the midsummer
pond, ignorant and content. But a marriage,
that began without harm, scatters
into debris on the shore,
and a friend from school drops
cold on a rocky strand.
If a new love carries us
past middle age, our wife will die
at her strongest and most beautiful.
New women come and go. All go.
The pretty lover who announces
that she is temporary
is temporary. The bold woman,
middle-aged against our old age,
sinks under an anxiety she cannot withstand.
Another friend of decades estranges himself
in words that pollute thirty years.
Let us stifle under mud at the pond’s edge
and affirm that it is fitting
and delicious to lose everything.

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