Camille T. Dungy – Deixe-me

Deixe-me dizer-lhe, América, esta última coisa.
Eu nunca vou deixar de sonhar o seu sonho.
Eu tive um amante uma vez. Se é que podemos chama-lo assim.
Dirigi-me até o apartamento dele em uma cidade distante,
como aquela ursa perdida que vagueou até o nosso beco
no verão em que a fumaça das montanhas em chamas
alterou nosso ar. Não sei o que foi feito dela.
Eu fui para tantos apartamentos naquele dia.
América, essa é a última coisa que vou dizer.
Ele estocara, para o nosso fim de semana juntos,
a comida que sabia que eu gostava. Comida tailandesa
vegetariana, um pouco de feijão preto com batata doce apimentada,
sorvete de coco, um saco de pipoca caramelizada.
Muito Malbec. Ele queria me agradar,
mas bebeu até eu me transformar em uma idiota
por não estar com medo. Eu havia bebido muito também.
Era muito tarde para eu dirigir até algum lugar seguro.
Eu o observei manusear um tijolo como se fosse joga-lo
na minha cabeça. Isso talvez seja uma metáfora. Isso
talvez tenha acontecido. América, com você às vezes
é difícil perceber a diferença. Tudo o que eu pude fazer
foi me trancar dentro do minúsculo quarto dele. Pressionei
um baú contra a porta e escutei enquanto ele jogava
seu corpo contra a madeira. Escutei enquanto ele rasgava
o travesseiro que eu havia costurado para ele. Ele havia sido bom para mim,
mas aquilo era como esperar que as paredes se incendiassem.
Já ouviu falar disso, América? Em um grande incêndio,
algumas casas queimam de dentro pra fora. Uma fagulha
presa nos beirais se infiltrará pelas frestas, queimará
o isolamento, a estrutura, até que tudo
na casa sucumba às chamas. De manhã
encontrei-o no sofá. Pernas muito longas, braços caídos
sobre o tapete, nós dos dedos feridos no mesmo padrão
de um buraco no drywall. Todas as garrafas de vinho
vazias. Cada recipiente de comida aberto, consumido,
ou destruído. “Eu não queria que você comesse,”
ele sussurrou. Se ele não podia consumir o meu corpo,
a comida que ele me dera teria que servir.
Você já viu uma pessoa caminhando pelas ruínas
de uma casa incendiada? Por favor, acredite em mim, eu não estou
fazendo pouco de tal sofrimento, América.
Talvez o sonho que eu ainda não consigo superar é o de que,
até agora, eu consegui sair viva.

Trad.: Nelson Santander

Let me

Let me tell you, America, this one last thing.
I will never be finished dreaming about you.
I had a lover once. If you could call him that.
I drove to his apartment in a faraway town,
like the lost bear who wandered to our cul-de-sac
that summer smoke from the burning mountain
altered our air. I don’t know what became of her.
I drove to so many apartments in the day.
America, this is really the very last thing.
He’d stocked up, for our weekend together,
on food he knew I would like. Vegetarian
pad Thai, some black-bean-and-sweet-potato chili,
coconut ice cream, a bag of caramel popcorn.
Loads of Malbec. He wanted to make me happy,
but he drank until I would have been a fool
not to be afraid. I’d been drinking plenty, too.
It was too late to drive myself anywhere safe.
I watched him finger a brick as if to throw it
at my head. Maybe that’s a metaphor. Maybe
that’s what happened. America, sometimes it’s hard
to tell the difference with you. All I could do
was lock myself inside his small bedroom. I pushed
a chest against the door and listened as he threw
his body at the wood. Listened as he tore apart
the pillow I had sewn him. He’d been good to me,
but this was like waiting for the walls to ignite.
You’ve heard that, America? In a firestorm
some houses burn from the inside out. An ember
caught in the eaves, wormed through the chinking, will flare up
in the insulation, on the frame, until everything
in the house succumbs to the blaze. In the morning,
I found him on the couch. Legs too long, arms spilling
to the carpet, knuckles bruised in the same pattern
as a hole in the drywall. Every wine bottle
empty. Each container of food opened, eaten,
or destroyed. “I didn’t want you to have this,”
he whispered. If he could not consume my body,
the food he’d given me to eat would have to do.
Have you ever seen a person walk through the ruins
of a burnt-out home? Please believe me, I am not
making light of such suffering, America.
Maybe the dream I still can’t get over is that,
so far, I have made it out alive.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s