Jane Kenyon – Discutindo a melancolia

Discutindo a melancolia

                    Se muitos remédios são prescritos           
                    para uma doença, pode ter certeza           
                    de que a doença não tem cura.                    

                                    A. P. CHEKHOV
                                    The Cherry Orchard

     1 DO BERÇÁRIO
Quando eu nasci, você esperava
atrás de uma pilha de lençóis no berçário e,
quando ficamos a sós, você se deitou 
sobre mim, espremendo
a bile da desolação em cada poro.

E daquele dia em diante
tudo sob o sol e sob a lua
me fez infeliz — até mesmo as contas
amarelas de madeira que deslizavam e giravam
ao redor de um pino do meu berço.

Você me ensinou a viver desprovido de gratidão.
Você arruinou meus modos para com Deus:
“Estamos aqui simplesmente para esperar pela morte;
os prazeres mundanos são superestimados.”

Eu só parecia pertencer à minha mãe,
viver entre blocos e camisetas de algodão
com botões; entre lancheiras vermelhas de lata
e boletins escolares em feios estojos marrons.
Eu já era sua — a anti-vontade,
a mutiladora de almas.

     2 FRASCOS 
Elavil, Ludiomil, Doxepin,
Norpramin, Prozac, Lithium, Xanax,
Wellbutrin, Parnate, Nardil, Zoloft.
Os revestidos têm um cheiro adocicado ou
não têm cheiro; os em pó cheiram
como o laboratório de química da escola
que me faz prender a respiração.

     3 SUGESTÃO DE UM AMIGO
Você não ficaria tão deprimida
se realmente acreditasse em Deus.

     4 FREQUENTEMENTE
Frequentemente, vou para a cama logo após o jantar
como se fosse adulta
(quer dizer, eu tento esperar anoitecer)
a fim de me afastar
da imensa dor na frágil canoa
de vime do sono.

     5 UMA VEZ HAVIA LUZ
Uma vez, com trinta e poucos anos, notei
que eu era uma partícula de luz no grande
rio de luz que ondula através do tempo.

Eu estava flutuando com toda a 
família humana. Éramos todos cores — os 
que estão vivendo agora, os que morreram,
os ainda não nascidos. Por alguns

momentos flutuei, completamente calma,
e não odiei mais ter que existir.

Como um corvo que sente o cheiro de sangue quente,
você veio voando para me arrancar
da corrente luminosa.
“Eu irei segura-la. Eu nunca permito que meus entes queridos
se afoguem!” Depois disso, chorei por dias.

     6 ENTRANDO E SAINDO
O cachorro procura até me encontrar no
andar de cima, deita-se com estrépito sobre
os cotovelos, põe a cabeça no meu pé.

Às vezes, o som de sua respiração
salva a minha vida — entrando e saindo, entrando
e saindo; uma pausa, um longo suspiro…

     7 PERDÃO
Um pedaço de carne queimada
usa minhas roupas, fala 
com minha voz, despacha obrigações
com hesitação, ou então nada.
Está cansado de tentar
ser corajoso, cansado
além da conta.

Passamos para os inibidores da
monoamina oxidase. Dia e noite
sinto como se tivesse bebido seis xícaras
de café, mas a dor cessa,
abruptamente. Com o espanto
e a amargura de alguém indultado
por um crime que não cometeu
volto ao casamento e aos amigos,
às malvas-rosas franjadas; volto
à minha mesa, livros, e cadeira.

     8 CREDO
Maravilhas farmacêuticas estão em ação,
mas acredito apenas neste momento
de bem estar. Espectro profano,
certamente você voltará.

Rude, você irá colocar os pés
na mesa de centro, inclinar-se para trás,
e me transformar em alguém que não
se dá ao trabalho de falar; alguém
que não consegue dormir, ou que não faz nada
além de dormir; não pode ler, ou marcar
uma consulta para pedir ajuda.

Não há nada que eu possa fazer
contra a sua chegada.
Quando desperto, ainda estou com você.

     9 TORDO-DOS-BOSQUES
Bêbado de Nardil e da luz de junho
acordo às quatro,
esperando avidamente pela primeira
nota do Tordo-dos-Bosques. O ar suave
transpõe a tela
com o canto selvagem e complexo
do pássaro, e sou vencida

pelo contentamento comum.
O que me machucou tão terrivelmente
por toda a minha vida até este momento?
Como eu amo o pequeno, pulsante e célere
coração do pássaro,
cantando nos grandes carvalhos;
seu olhar brilhante, inequívoco.

Trad.: Nelson Santander

Having it Out with Melancholy

          If many remedies are prescribed
          for an illness, you may be certain
          that the illness has no cure.
                              A. P. CHEKHOV
                             The Cherry Orchard

1 FROM THE NURSERY

When I was born, you waited
behind a pile of linen in the nursery,
and when we were alone, you lay down
on top of me, pressing
the bile of desolation into every pore.

And from that day on
everything under the sun and moon
made me sad—even the yellow
wooden beads that slid and spun
along a spindle on my crib.

You taught me to exist without gratitude.
You ruined my manners toward God:
“We’re here simply to wait for death;
the pleasures of earth are overrated.”

I only appeared to belong to my mother,
to live among blocks and cotton undershirts
with snaps; among red tin lunch boxes
and report cards in ugly brown slipcases.
I was already yours—the anti-urge,
the mutilator of souls.

2 BOTTLES

Elavil, Ludiomil, Doxepin,
Norpramin, Prozac, Lithium, Xanax,
Wellbutrin, Parnate, Nardil, Zoloft.
The coated ones smell sweet or have
no smell; the powdery ones smell
like the chemistry lab at school
that made me hold my breath.

3 SUGGESTION FROM A FRIEND

You wouldn’t be so depressed
if you really believed in God.

4 OFTEN

Often I go to bed as soon after dinner
as seems adult
(I mean I try to wait for dark)
in order to push away
from the massive pain in sleep’s
frail wicker coracle.

5 ONCE THERE WAS LIGHT

Once, in my early thirties, I saw
that I was a speck of light in the great
river of light that undulates through time.

I was floating with the whole
human family. We were all colors—those
who are living now, those who have died,
those who are not yet born. For a few

moments I floated, completely calm,
and I no longer hated having to exist.

Like a crow who smells hot blood
you came flying to pull me out
of the glowing stream.
“I’ll hold you up. I never let my dear
ones drown!” After that, I wept for days.

6 IN AND OUT

The dog searches until he finds me
upstairs, lies down with a clatter
of elbows, puts his head on my foot.

Sometimes the sound of his breathing
saves my life—in and out, in
and out; a pause, a long sigh. . . .

7 PARDON

A piece of burned meat
wears my clothes, speaks
in my voice, dispatches obligations
haltingly, or not at all.
It is tired of trying
to be stouthearted, tired
beyond measure.

We move on to the monoamine
oxidase inhibitors. Day and night
I feel as if I had drunk six cups
of coffee, but the pain stops
abruptly. With the wonder
and bitterness of someone pardoned
for a crime she did not commit
I come back to marriage and friends,
to pink fringed hollyhocks; come back
to my desk, books, and chair.

8 CREDO

Pharmaceutical wonders are at work
but I believe only in this moment
of well-being. Unholy ghost,
you are certain to come again.

Coarse, mean, you’ll put your feet
on the coffee table, lean back,
and turn me into someone who can’t
take the trouble to speak; someone
who can’t sleep, or who does nothing
but sleep; can’t read, or call
for an appointment for help.

There is nothing I can do
against your coming.
When I awake, I am still with thee.

9 WOOD THRUSH

High on Nardil and June light
I wake at four,
waiting greedily for the first
note of the wood thrush. Easeful air
presses through the screen
with the wild, complex song
of the bird, and I am overcome

by ordinary contentment.
What hurt me so terribly
all my life until this moment?
How I love the small, swiftly
beating heart of the bird
singing in the great maples;
its bright, unequivocal eye.

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