Sharon Olds – Uma semana mais tarde

Uma semana mais tarde, eu disse a um amigo: acho que
nunca poderia escrever sobre isso.
Talvez em um ano eu possa escrever alguma coisa.
Há algo em mim que talvez algum
dia possa ser escrito; por ora está dobrado, e dobrado,
e dobrado, como um bilhete da escola. E em meu sonho
alguém jogava jacks*, e no ar havia um
jack arremessado, enorme, que pendia
em chamas. E quando acordei, dei por mim
contando os dias desde a última vez que vira
meu marido – somente dois anos e algumas semanas
e horas. Tínhamos assinado os papéis e chegamos ao
térreo do Edifício Chrysler,
a beleza intacta de seu saguão ao nosso redor
como a tumba de um rei, no teto o pequeno
aeroplano pintado, no mural, voando. E
entrou em meu contrito coração, esta manhã,
suave e timidamente, de forma cautelosa,
selvagem, uma sensação maior de doçura
e muito de sua vida em curso,
desconhecida e invisível para mim,
inaudita, intocada – mas conhecida, visível,
audível, palpável. E ocorreu-me,
por um momento, momento a momento,
ficar feliz por ele estar com aquela
que ele acredita ter sido feita para ele. E pensei em minha
mãe, a minutos de sua morte, oitenta e cinco
anos desde o nascimento, os ossos
de passarinho de seus ombros sob minha mão, a
casca de ovo da nuca, enquanto ela jazia em paz
nos lençóis limpos, e eu podia dizer-lhe o melhor
do meu pobre e parcial amor, eu podia cantar para ela
ali, e eu percebia a sorte
e o privilégio daquela hora.

Trad.: Nelson Santander

* N. do T.: Jacks é o nome de um jogo de mesa bastante popular nos Estados Unidos, envolvendo uma bola e um conjunto de peças denominadas valetes (“jacks”).

A week later

A week later, I said to a friend: I don’t
think I could ever write about it.
Maybe in a year I could write something.
There is something in me maybe someday
to be written; now it is folded, and folded,
and folded, like a note in school. And in my dream
someone was playing jacks, and in the air there was a
huge, thrown, tilted jack
on fire. And when I woke up, I found myself
counting the days since I had last seen
my husband – only two years, and some weeks,
and hours. We had signed the papers and come down to the
ground floor of the Chrysler Building,
the intact beauty of its lobby around us
like a king’s tomb, on the ceiling the little
painted plane, in the mural, flying. And it
entered my strictured heart, this morning,
slightly, shyly as if warily,
untamed, a greater sense of the sweetness
and plenty of his ongoing life,
unknown to me, unseen by me,
unheard, untouched-but known, seen,
heard, touched. And it came to me,
for moments at a time, moment after moment,
to be glad for him that he is with the one
he feels was meant for him. And I thought of my
mother, minutes from her death, eighty-five
years from her birth, the almost warbler
bones of her shoulder under my hand, the
eggshell skull, as she lay in some peace
in the clean sheets, and I could tell her the best
of my poor, partial love, I could sing her
out with it, I saw the luck
and luxury of that hour.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s